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Paulo Bregantin - SBPI

Introdução ao conhecimento de:

Jacques-Marie Émile Lacan

Por Paulo Bregantin

Psicanalista Clinico– SBPI (Sociedade Brasileira de Psicanálise Integrativa).

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Como faremos esse material:

A idéia desse material é avaliarmos o que Lacan escreveu e falou sobre


Psicanálise. Nesse material não tenho a intenção de acrescentar nada, pois a
idéia é que com a leitura do que Lacan escreveu e falou seja o suficiente para
iniciarmos o desejo de entendimento da importância de Lacan para a
Psicanálise.

Vamos tentar expressar um pouco sobre o que Lacan influenciou a Psicanálise


nos dias atuais e, para isso, vamos passar pelos assuntos acima citados, claro
que, não aprofundaremos os assuntos, pois aqui é um material onde teremos
uma idéia sobre Lacan e sua obra, bem como sua importância para quem
deseja ser Psicanalista-clinico.

Não seguirei um roteiro muito que lógico, pois tenho em mente passar as
informações de Lacan conforme tenho dado as aulas dele (Lacan) na SBPI
(Sociedade Brasileira de Psicanálise Integrativa), portanto, creio que seja muito
importante que o leitor não seja tão critico os o cronológico do que Lacan
escreveu ou falou, ou seja, as datas podem variar, porém o conteúdo será
preservado para que as idéias propostas por Lacan para a releitura de Freud
seja sempre preservada e mantida.

Claro que como Professor da SBPI, utilizarei nossa forma integrativa para
escrever esse material, sempre levando em conta uma forma simples para o
entendimento e, tentando desmistificar o “medo” do ensino e aprendizado que
Lacan oferece.

Desafio você aluno e leitor a viver esse desafio de conhecer Lacan, um homem
que em seu tempo ensinou e desvendou muitos mistérios sobre o ser humano,
fazendo uma releitura minuciosa sobre a obra de Freud.

Paulo Bregantin – Psicanalista Clinico

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Um pequeno resumo sobre LACAN:

Jacques-Marie Émile Lacan, nasceu em Paris, 13 de abril de 1901 e, faleceu


em Paris, 9 de setembro de 1981 foi um psicanalista francês.

Formado em Medicina, passou da neurologia à psiquiatria, tendo sido aluno


de Gatian de Clérambault.

Teve contato com a psicanálise através do surrealismo e a partir de 1951,


afirmando que os pós-freudianos haviam se desviado, propõe um retorno
a Freud. Para isso, utiliza-se da linguística de Saussure (e posteriormente
de Jakobson e Benveniste) e da antropologia estrutural de Lévi-Strauss,
tornando-se importante figura do Estruturalismo.

Posteriormente encaminha-se para a Lógica e para a Topologia. Seu ensino é


primordialmente oral, dando-se através de seminários e conferências.

Em 1966 foi publicada uma coletânea de 34 artigos e conferências,


os Écrits (Escritos). A partir de 1973 inicia-se a publicação de seus 26
seminários, sob o título Le Séminaire (O Seminário), sob a direção de seu
genro, Jacques-Alain Miller.

Sua primeira intervenção na psicanálise é para situar o Eu como instância de


desconhecimento, de ilusão, de alienação, sede do narcisismo.
É o momento do Estádio do Espelho.
O “Eu” é situado no registro do Imaginário, juntamente com fenômenos
como amor e ódio. É o lugar das identificações e das relações duais.
Distingue-se do Sujeito do Inconsciente, instância simbólica. Lacan reafirma,
então, a divisão do sujeito, pois o Inconsciente seria autônomo com relação ao
Eu. E é no registro do Inconsciente que deveríamos situar a ação da
psicanálise.
Esse registro é o do Simbólico, é o campo da linguagem, do significante. Lévi-
Strauss afirmava que "os símbolos são mais reais que aquilo que simbolizam, o
significante precede e determina o significado”, no que é seguido por Lacan.
Marca-se aqui a autonomia da função simbólica.
Este é o Grande Outro que antecede o sujeito, que só se constitui através
deste - "o inconsciente é o discurso do Outro", "o desejo é o desejo do Outro".
O campo de ação da psicanálise situa-se então na fala, onde o inconsciente se
manifesta, através de atos falhos, esquecimentos, chistes e de relatos
de sonhos, enfim, naqueles fenômenos que Lacan nomeia como "formações do

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inconsciente". A isto se refere o aforismo lacaniano "o inconsciente é


estruturado como uma linguagem".

O Simbólico é o registro em que se marca a ligação do Desejo com a Lei e a


Falta, através do Complexo de Castração, operador do Complexo de Édipo.
Para Lacan, "a lei e o desejo recalcado são uma só e a mesma coisa".

Lacan pensa a lei a partir de Lévi-Strauss, ou seja, da interdição do incesto que


possibilita a circulação do maior dos bens simbólicos, as mulheres. O desejo é
uma falta-a-ser metaforizada na interdição edipiana, a falta possibilitando a
deriva do desejo, desejo enquanto metonímia. Lacan articula neste processo
dois grandes conceitos, o Nome-do-Pai e o Falo. Para operar com este campo,
cria seus Matemas.

É na década de 1970 que Lacan dará cada vez mais prioridade ao registro do
Real. Em sua tópica de três registros, Real, Simbólico e Imaginário, RSI, ao
Real cabe aquilo que resiste a simbolização, "o real é o impossível", "não cessa
de não se inscrever".

Seu pensamento sobre o Real deriva primeiramente de três fontes: a ciência do


real, de Meyerson, da Heterologia, deBataille, e dos conceitos de realidade
psíquica e de pulsão, de Freud.

O Real toca naquilo que no sujeito é o "improdutivo", resto inassimilável, sua


"parte maldita", o gozo, já que é "aquilo que não serve para nada". Na tentativa
de fazer a psicanálise operar com este registro, Lacan envereda
pela Topologia, pelo Nó Borromeano, revalorizando a escrita, constrói uma
Lógica da Sexuação ("não há relação sexual", "A Mulher não existe").

Se grande parte de sua obra foi marcada pelo signo de um retorno a Freud,
Lacan considera o Real, junto com o Objeto a ("objeto ausente"), suas
criações.

No Brasil, um dos principais pioneiros da psicanálise lacaniana é MD Magno,


fundador do Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, em 1975, bem como Célio
Garcia, um dos primeiros a introduzir o pensamento de Lacan na Universidade,
em Minas Gerais. O trabalho de Lacan exerce forte influência nos rumos do
tratamento psíquico, inclusive na definição de políticas de saúde mental,
especialmente no Brasil.

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 CRONOLOGIA DA VIDA DE LACAN

 1901: Nasce em París, no dia 13 de abril, Jacques-Marie Émile Lacan,


primeiro filho de uma próspera família católica.

 1907: Nascimento de seu irmão, Marc-Marie, que mais tarde entrará


para a ordem dos beneditinos como o nome de Marc-François.

 1919: Matricula-se na faculdade de medicina. Paralelamente estuda


literatura e filosofia, aproximando-se dos surrealistas.

 1928: Trabalha como interno da Enfermaria Especial para alienados da


Chefatura de Polícia, dirigida por Gaëtan Gatian Clérambault, que mais
tarde reconhecerá como seu único mestre na psiquiatria.

 1931: Após examinar Marguerite Pantaine, que havia tentado assassinar


a atriz Huguette Duflos, escreve sobre o episódio (conhecido
como "Caso Aimée") uma monografia que está na gênese de sua tese
de doutorado.

 1932: Inicia sua análise com Rudolf Loewenstein. Defende a sua tese de
doutorado, Da psicose paranóica em suas relações com a
personalidade.

 1934: Casa-se com Marie-Louise Blondin, com quem terá três filhos.
Caroline (1937), Thibault (1939) e Sybille (1940).

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 1936: Sua comunicação sobre o estádio do espelho, durante congresso


da Associação Internacional de Psicanálise (IPA) em Marienbad, é
interrompida no meio por Ernest Jones, discípulo e biógrafo de Freud.

 1938: Inicia relações com Sylvia Bataille, ex-mulher do escritor e


filósofo Georges Bataille. Torna-se membro da Sociedade Psicanalítica
de Paris (SPP).

 1941: Separa-se de Marie-Louise. Nasce Judith Sophie, filha de Lacan


com Sylvia.

 1951: Sua técnica de sessões curtas gera controvérsias na SPP. Dá


início aos Seminários, uma série de apresentações orais que
constituirão o núcleo de seu trabalho teórico.

 1953: Em meio à crise na SPP, faz conferências fundamentais como "O


mito individual do neurótico" (em que utiliza pela primeira vez a
expressão Nome do Pai), "O real, o simbólico e o imaginário" (que
coloca suas teorias sob o signo do "retorno a Freud") e "Função e
campo da palavra e da linguagem em psicanálise" (pronunciada
em Roma). Deixa a SPP junto com Daniel Lagache, Françoise Dolto e
outros 40 analistas. Funda a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP).
Realiza o seminário Os escritos técnicos de Freud, primeiro a ser
registrado porestenotipista, possibilitando posterior publicação.

 1963: A IPA admite a filiação da SFP.

 1964: Lacan funda a Escola Freudiana de Paris (EFP) com antigos


alunos como Françoise Dolto, Maud e Octave Mannoni, Serge
Leclaire, Moustapha Safouan e François Perrier.

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 1966: Publicação de Escritos e criação da coleção Campo Freudiano,


dirigida por Lacan.

 1967: Propõe a criação do "passe", dispositivo regulador da formação do


analista.

 1968: Lançamento da revista Scilicet, do Campo Freudiano.

 1973: Publicação da transcrição do Seminário XI, Os quatro conceitos


fundamentais da psicanálise, realizado em 1964. A partir daí, os
seminários passam a ser editados segundo esse procedimento. Caroline
morre num acidente de automóvel.

 1975: Lançamento de Ornicar?, boletim do Campo Freudiano.

 1980: Anuncia a dissolução da EFP e funda em outubro a Escola da


Causa Freudiana.

 1981: Morre em Paris no dia 09 de setembro.

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O QUE LACAN ESCREVEU E PUBLICOU:

 Seminário 1 - “Os escritos técnicos de Freud” (1953-54)


 Seminário 2 - “O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise”
(1954-55)
 Seminário 3 - “As psicoses” (1955-56)
 Seminário 4 - “A relação de objeto” (1956-57)
 Seminário 5 - “As formações do inconsciente” (1957-58)
 Seminário 6 - “Les désir et son interprétation” (1958-59)
 Seminário 7 - “A ética da psicanálise” (1959-60)
 Seminário 8 - “A transferência” (1960-61)
 Seminário 9 - “L’identification” (1961-62)
 Seminário 10 - “A Angústia” (1962-63)
 Seminário 11 - “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise” (1963-
64)
 Seminário 12 - “Problèmes cruciaux pour la psychanalyse” (1964-65)
 Seminário 13 - “L’objet de la psychanalyse” (1965-66)
 Seminário 14 - “La logique du fantasme” (1966-67)
 Seminário 15 - “L’acte psychanalytique” (1967-68)
 Seminário 16 - “De um Outro ao outro” (1968-69)
 Seminário 17 - “O avesso da psicanálise” (1969-70)
 Seminário 18 - “D’un discours qui ne serait pás du semblant” (1970-71)
 Seminário 19 - “...Ou pire” (1971-72)
 Seminário 20 - “Mais, ainda” (1972-73)
 Seminário 21 - “Les non-dupes errent” (1973-74)
 Seminário 22 - “R.S.I.” (1974-75)
 Seminário 23 - “O Sinthoma” (1975-76)
 Seminário 24 - “L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre” (1976-77)
 Seminário 25 - “Le moment de conclure” (1977-78)
 Seminário 26 - “La topologie et le temps” (1978-79)

Tese

 Da psicose paranóica em suas relações com a Personalidade. Rio de


Janeiro, Forense Universitária, 1987

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Seminários publicados

 O Seminário – Livro 1 – Os Escritos Técnicos de Freud. Rio de Janeiro,


Jorge Zahar Editor, 1979
 O Seminário – Livro 2 - O Eu na Teoria de Freud e na Técnica da
Psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1985.
 O Seminário – Livro 3 - As Psicoses, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Edit.
1985.
 O Seminário – Livro 4 - A Relação de Objeto. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 1995.
 O Seminário – Livro 5 - As formações do inconsciente, Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Edit. 1999
 O Seminário – Livro 7 - A ética da psicanálise, Rio de Janeiro, Jorge
Zahar Edit. 1991.
 O Seminário – Livro 8 - A transferência, Rio de Janeiro, Jorge Zahar
Edit. 1992.
 O Seminário - Livro 10 - A Angústia ,Rio de Janeiro, Jorge Zahar Edit.,
2005
 O Seminário – Livro 11 - Os Quatro Conceitos Fundamentais da
Psicanálise, São Paulo, Jorge Zahar Editor, 1979.
 O Seminário - Livro 16 - De um Outro ao outro, Rio de Janeiro, Jorge
Zahar Edit., 2008.
 O Seminário – Livro 17 - O Avesso da Psicanálise, Rio de Janeiro, Jorge
Zahar Editor, 1992.
 O Seminário - Livro 18 - De um discurso que não fosse semblante, Jorge
Zahar Edit., 2009.
 O Seminário – Livro 20 - Mais, Ainda. Rio de Janeiro, Jorge Zahar
Editores, 1982.
 O Seminário - Livro 23 - O sinthoma. Rio de Janeiro, Jorge Zahar
Editores, 2007

Coletâneas, Conferências, Aulas de Seminários, Artigos

 Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. 937 p.

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Conhecendo o que Lacan ensinou em Psicanálise:

 SINTOMA

 UM POUCO DE FREUD

 SIGNO – SIGNIFICADO - SIGNIFICANTE

 GOZO I E GOZO II

 O INCONSCIENTE – EXISTE ONDE?

 ALÍNGUA / SUJEITO DO INCONSCIENTE

 OBJETO / “A” , “a”

 REAL – SIMBÓLICO – IMAGINÁRIO / NÓ BORROMEANO

 ESTÁGIO DO ESPELHO

 A FANTASIA

 QUARTO NÓ / SINTOMA.

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“O Inconsciente é estruturado como uma linguagem” LACAN.

Vamos conhecer um pouco sobre sintoma, pois para Lacan o sintoma tem
três características:

Lacan adota a grafia sinthome, "forma antiga de escrever o que foi


posteriormente escrito symptôme", e fundamenta a distinção que faz
recorrendo a etimologia da palavra symptôme, onde ptôma, do grego,
significa queda.

O sintoma, que se espera que caia durante a analise, não e o mesmo


que sinthome, da antiga grafia francesa, para designar aquilo que não cai,
que se fixa em torno da falta primeira e da necessidade de que esta não
cesse, para que continuem sendo possíveis gozo e desejo.

Escrito isso vamos sempre que pensar em “Sintoma” levar em conta o que
Lacan pensa sobre essa palavra e, em todo esse material é fundamental
que tenhamos em mente que Lacan utilizava de todas as ferramentas
gramaticais e o que for preciso para explicar suas teorias e entendimento
dos escritos de Freud para que por fim a psicanálise fosse como ele mesmo
escreveu: “O inconsciente é estruturado como uma linguagem. ”

Para Lacan o sintoma é muito importante e, por isso, vamos analisar como
Lacan vê a palavra sintoma:

1- O psicanalista faz parte do sintoma. (Sujeito-suposto-saber).

2- Um sintoma é também um signo, mas também um significante.

3- O sintoma é um sofrimento questionador.

Bem, mas o que é um sintoma para Lacan? Vamos tentar explicar como ele
entendia o que era sintoma:

“O sintoma é, propriamente falando, um evento na análise, uma das


imagens através das quais a experiência se apresenta. Nem todas as
experiências analíticas são sintomas, mas todo sintoma que se manifesta
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no correr da análise constitui uma experiência analítica. ”, sim isso é


fundamental percebermos, pois para Lacan o sintoma por ser uma “queda”
ou algo que aprece durante o processo de conversa dentro do campo
analítico, é muito importante que o analista tem uma escuta muito
apropriada e treinada para o entendimento disso.

Experiência para o analista é quando o paciente diz e não sabe o que diz, é
quando o paciente gagueja, é o instante que ele hesita, balbucia e sua fala
subtrai...enfim, é quando o paciente sem perceber “fala” ou até gesticula
fazendo com que o inconsciente fale e, ás vezes, até mesmo grite.

Os Analista lacanianos “adoram” essa linguagem descrita acima...

Pois um tropeço da linguagem dentro do set de atendimento para um


lacaniano é fundamental para uma caminhada na terapia. E, para que isso
aconteça com tranqüilidade é fundamental entender cada principio do
entendimento sobre sintoma “lacaniano”.

O devemos ouvir, ver e perceber quando dentro do set de atendimento para


avaliarmos e quem sabe entendermos o que é um sintoma?

O Lacaniano quando ouve um sonho fica atento a “como” ele é contado e


não o sonho em si.

O Lacaniano aguarda quando o paciente “derrapa” ou “tropeça na


linguagem”

É quando o paciente diz: “...Não sei?” , “ Não me lembro?” , “...talvez...” ,


“provavelmente”...

A ISSO CHAMAMOS EXPERIÊNCIA.

É assim que devemos iniciar o processo de entendimento e aprendizado


sobre sintoma...Vamos avaliar mais algumas questões sobre isso...

Para Lacan um sintoma é uma manifestação do inconsciente, ou seja, o


sofrimento é um ato involuntário, produzido além de qualquer intenção. E,
se apresenta de forma metafórica ou com palavras desconectadas.

Lacan observa o sintoma com algum muito importante para o Analista e o


analisando, vamos avaliar como ele faz isso...

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As três características do sintoma:

1- A “maneira” como o analisando fala sobre o sintoma.

2- A “teoria” como o analisando formula seu mal-estar e descreve-o.

3- “o OUTRO”, quando o analisando descreve a teoria ou o sintoma ele


conclama o psicanalista para participar do sintoma(destinatário).

COMO FICA O SINTOMA NO LACANIANO?


•A maneira de exprimir
Meu sofrimento.

Características •A teoria sobre a causa


Do sintoma: Do meu sofrimento.
signo
*O Analista faz parte do
Meu sintoma.

Significante (S1) Sintoma

Gozo
Saber inconsciente (S2)
Não existe relação
sexual
O inconsciente é estruturado com uma linguagem

No sintoma conforme o quando acima podemos perceber que para Lacan o


sintoma é divido entre o Signo, Significantes( O inconsciente é estruturado
como uma linguagem), Saber inconsciente, Gozo(Não existe relação sexual) e,
características do sintoma: A maneira de exprimir meu sofrimento, A teoria
sobre a causa do meu sentimento, o analista faz parte do meu sintoma.

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“O ANALISTA FAZ PARTE DO SINTOMA”

Lacan chama essa frase acima de:

SUJEITO-SUPOSTO-SABER... O Analisando “lembra” do analista quando


passa por situações de sofrimento, logo, o analista faz parte do sintoma vivido
pelo analisando.

...E, a isso chamamos transferência. (Freud).

Exemplo: O analisando fala que tudo que ele está vivendo desde quando
começou a analise tem relacionamento com o que está sendo tratado no
período da analise.

Ouvir (escuta atenta) do paciente é que faz a diferença entre o diagnóstico


psiquiátrico e a identificação da psicanalítica de uma neurose.

Lacan nos oferece uma oportunidade de iniciarmos em nós mesmos


(Psicanalistas) um desejo de ouvir, se lermos com atenção e ouvirmos com
atenção Lacan, nós poderemos perceber que a psicanálise é feita quando
ouvimos com muita atenção nosso analisando, porém é um ouvir observando
cada detalhe do analisando, cada movimento, cada lapso, procurando entender
cada fala, cada história (metáfora), ou jeito de se falar...

Não podemos ficar ouvindo o analisando se nos identificarmos com o que está
sendo falado e, como veremos para Lacan o falar é muito mais que
simplesmente expressar sentenças pela boca. O falar que Lacan descreve é
como ele mesmo chama “Alíngua” – falaremos sobre isso mais adiante...

Antes de caminhar para o entendimento sobre sintoma é fundamental fazermos


uma revisão “rápida” sobre os princípios de Freud sobre o início da psicanálise
e como ele começou o processo, pois aí sim, iniciaremos o que Lacan escreve
e fala sobre sintoma e outros princípios.

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Lembra a viagem que Lacan nos convida é uma releitura de Freud:

UM POUCO DE PSICANÁLISE

I. DEFINIÇÃO

Psicanálise é o nome de:

1. um procedimento para investigação de processos mentais, praticamente


inacessíveis de outra forma, especialmente vivências internas e profundas
como pensamentos, sentimentos, emoções, fantasias e sonhos;

2. um método (baseado nessa investigação) para o tratamento das neuroses;

3. um acúmulo sistemático de conhecimentos sobre a mente, obtidos através


desse procedimento, que gradualmente está se tornando uma nova ciência.

II. HISTÓRICO

Sugestão x Associação Livre

Histeria, Charcot, Breuer, Anna O.

A histeria é uma neurose de conversão caracterizada por sintomas físicos


(dormência/paralisia de um membro, perda da voz ou cegueira), quando a
pessoa desfruta de plena saúde física.

O neurologista francês, Jean Martin Charcot, interessado no tratamento da


histeria, a qual considerava como uma verdadeira moléstia que atingia a
homens e mulheres, tentou livrar seus pacientes de pensamentos indesejáveis,
através de sugestão hipnótica.

Joseph Breuer, médico vienense, também adotava o procedimento da hipnose,


não apenas para suprimir sintomas, mas também para descobrir as causas
profundas do sofrimento de seus pacientes. Ele percebeu, durante o tratamento
da jovem "Anna O." (1880-82), que os resultados tinham um alcance muito
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maior, ao lhe permitir contar seus pensamentos e sentimentos. Ele chamou de


"auto-hipnose" os estados alterados de consciência de Anna, a qual denominou
de "cura pela fala" o processo que levava ao desaparecimento de seus
sintomas, toda vez que ela conseguia se lembrar dos acontecimentos que os
originara.

Durante seus estudos com Charcot (1885), Freud praticou e observou o


emprego da hipnose. Em seguida, tornou-se colaborador de Joseph Breuer.
Enquanto progressivamente delineava sua teoria sobre a mente, Freud
considerava a hipnose mais satisfatória do que a eletroterapia que havia
experimentado até 1890.

Através da hipnose, os pensamentos e as lembranças ligadas aos sintomas


chegavam eventualmente à consciência. A 'catarse' (purificação, em grego)
ocorria através de uma descarga normal de afeto; apesar desse fato, os
sintomas tendiam a ser recorrentes.

Primórdios da Psicanálise

Breuer e Freud publicaram suas descobertas e teorias em Estudos sobre a


Histeria (1895). Consideravam que os sintomas histéricos ocorriam quando um
processo mental caracterizado por intensa carga de afeto ficava bloqueado,
impossibilitado de expressão, através da via normal da consciência e dos
movimentos. Esse afeto 'estrangulado' percorria vias inadequadas e
derramava-se sobre a inervação somática (conversão).

Os autores afirmavam que esses sintomas, substitutos de processos mentais


normais, tinham sentido e significado, sendo causados por desejos
inconscientes e lembranças soterradas. Dado que essas idéias patogênicas,
descritas como traumas psíquicos, eram oriundas de um passado remoto, as
histéricas sofriam de 'reminiscências' que não tinham sido elaboradas.

A pedra angular dessa teoria era a hipótese da existência de processos


mentais inconscientes, que seguem leis que não se aplicam ao pensamento
consciente. Posteriormente, um entendimento mais aprofundado desses
processos viria a esclarecer produções psicológicas previamente
incompreensíveis, como é o caso dos sonhos.

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A Regra Fundamental

Considerando a hipnose inadequada, Freud aprimorou os métodos de Breuer,


baseado numa crescente compreensão clínica das neuroses. Ele percebeu que
o êxito do tratamento dependia da relação paciente x médico, cabendo a este
tornar consciente o inconsciente.

Desenvolveu-se uma relação inteiramente nova entre paciente e médico, a


partir de uma mudança na técnica, e os surpreendentes resultados, assim
obtidos, estenderam-se a muitas outras formas de neurose. Em 1896, Freud
denominou esse procedimento de Psicanálise - a arte da interpretação.

Freud considerava que pensamentos perturbadores e anseios conflitantes


eram mantidos inconscientes (repressão), mas mesmo assim causavam fortes
sentimentos de culpa e intensa ansiedade, interferindo na atividade mental
consciente, consumindo energia psíquica vital em busca de liberação. Por
serem incompatíveis com os padrões normais do indivíduo, este se sentiria
compelido a defender-se contra essas idéias intrusivas e a liberação desses
impulsos, a fim de manter seu equilíbrio interno (mecanismos de defesa).

Como Freud acreditava em na sobre determinação dos eventos psíquicos,


supondo que todas as lembranças estavam organizadas numa rede
associativa, de forma que uma recordação levaria à outra, e considerando
possível recuperar e compreender lembranças cruciais estando consciente,
Freud insistia para seu paciente lhe dizer tudo que lhe ocorresse à mente
(associação livre), a despeito de quão irrelevante ou potencialmente
embaraçosa a idéia pudesse lhe parecer.

Ao entregar-se à sua própria atividade mental inconsciente (atenção


flutuante), Freud acompanhava o fluxo inconsciente das produções mentais do
paciente, a fim de estabelecer conexões entre o fio associativo das
comunicações alusivas e as lembranças esquecidas.

Ocasionalmente, o paciente poderia omitir o material considerado absurdo,


irrelevante e vivenciado como desagradável e precisamente essa lacuna na
comunicação revelaria que a associação era evitada (resistência) devido ao
seu potencial evocativo para trazer lembranças submersas à superfície da
consciência, tornando emergente o significado oculto, previamente inacessível.

Freud notou que, na maioria dos seus pacientes, o material mais


frequentemente reprimido estava relacionado à idéias perturbadoras referentes
à sexualidade. Em 1897, percebeu que, ao invés de serem lembranças de
acontecimentos reais, esses eventos eram resíduos de impulsos e desejos
infantis (fantasias). E concluiu, portanto, que a ansiedade era consequência
da libido reprimida, a qual encontrava expressão em vários sintomas.

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Em contato com vivências internas, num estado de regressão, o analisando


passava a se relacionar com o analista, como se este fosse uma figura do seu
passado (transferência), frequentemente revivendo com grande intensidade
emocional 'eventos' esquecidos de longa data.

Freud, então, comunicaria a ligação entre as fantasias e sentimentos do


analisando pelo analista e a origem desses pensamentos e emoções nas
experiências da infância do paciente (interpretação).

Essa intensa vivência dos conflitos originais era um processo doloroso para o
paciente, mas a elaboração desse sofrimento emocional (insight) tornava o
tratamento eficaz, devido a um novo equilíbrio e distribuição de energia
psíquica, promovendo uma reorganização das estruturas psicológicas, com
configurações mentais mais saudável.

Histeria

A histeria é uma psiconeurose cujos conflitos emocionais inconscientes surgem


na forma de uma severa dissociação mental ou como sintomas físicos
(conversão), independentemente de qualquer patologia orgânica ou estrutural
conhecida, quando a ansiedade subjacente é 'convertida' num sintoma físico.

O termo origina-se do grego, hystéra, que significa útero. Uma antiga teoria
sugeria que o útero vagava pelo corpo e a histeria era considerada uma
moléstia especificamente feminina, atribuída a uma disfunção uterina. Na
verdade, os sintomas histéricos podem se manifestar em homens e mulheres e
são mais comumente observados na adolescência.

No final do século XIX, Jean Martin Charcot (1825-1893), um eminente


neurologista francês, que empregava a hipnose para estudar a histeria,
demonstrou que idéias mórbidas podiam produzir manifestações físicas. Seu
aluno, o psicólogo francês Pierre Janet (1859-1947), considerou como
prioritárias, para o desencadeamento do quadro histérico, muito mais as
causas psicológicas do que as físicas.

Posteriormente, Sigmund Freud (1856-1939), em colaboração com Breuer,


começou a pesquisar os mecanismos psíquicos da histeria e postulou em sua
teoria que essa neurose era causada por lembranças reprimidas, de grande
intensidade emocional.

Casos clássicos de histeria, como aqueles frequentemente descritos pelos


médicos do século XIX, atualmente são raros e a maioria das psiconeuroses
são formas mistas, nas quais os sintomas histéricos podem estar mesclados
com outros tipos de distúrbios neuróticos.

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Os sintomas sensoriais e motores da histeria são denominados conversão pois


geralmente não seguem as costumeiras inervações do sistema nervoso.

Os distúrbios sensoriais podem:

abranger os sentidos da visão, audição, paladar e olfato;

variar desde sensações peculiares até a hipersensibilidade ou anestesia


total;

causar grande sofrimento com dores agudas, para as quais nenhuma causa
orgânica pode ser determinada.

Os distúrbios motores podem incluir uma gama de manifestações, como


paralisia total, tremores, tiques, contrações ou convulsões. Afonia, tosse,
náusea, vômito, soluços são muitas vezes de origem histérica.

Episódios de amnésia e sonambulismo são considerados reações de


dissociação histérica.

III. Teoria Psicanalítica Clássica

1. Inconsciente, Pré-consciente, Consciente

Freud distinguiu três níveis de consciência, em sua inicial divisão topográfica


da mente:

Consciente - diz respeito à capacidade de ter percepção dos sentimentos,


pensamentos, lembranças e fantasias do momento;

Pré-consciente- relaciona-se aos conteúdos que podem facilmente chegar


à consciência;

Inconsciente- refere-se ao material não disponível à consciência ou ao


escrutínio do indivíduo.

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Paulo Bregantin - SBPI

Freud desenvolveu a teoria psicanalítica, baseado em sua experiência clínica.


O ponto nuclear dessa teoria é o postulado da existência do inconsciente
como:

a) um receptáculo de lembranças traumáticas reprimidas;


b) um reservatório de impulsos que constituem fonte de ansiedade,
por serem socialmente ou eticamente inaceitáveis para o indivíduo.

As motivações inconscientes estão disponíveis para a consciência, apenas de


forma disfarçada. Sonhos e lapsos de linguagem, por exemplo, são exemplos
dissimulados de conteúdos inconscientes não confrontados diretamente.

Muitos experimentos da Psicobiologia vêm corroborando a validade das idéias


psicanalíticas sobre o inconsciente.

ID, EGO, SUPEREGO

De acordo com a teoria estrutural da mente, o id, o ego e o superego


funcionam em diferentes níveis de consciência. Há um constante movimento de
lembranças e impulsos de um nível para o outro.

O id é o reservatório inconsciente das pulsões, as quais estão sempre ativas.


Regido pelo princípio do prazer, o id exige satisfação imediata desses
impulsos, sem levar em conta a possibilidade de conseqüências indesejáveis.

O ego funciona principalmente a nível consciente e pré-consciente, embora


também contenha elementos inconscientes, pois evoluiu do id. Regido pelo
princípio da realidade, o ego cuida dos impulsos do id, tão logo encontre a
circunstância adequada. Desejos inadequados não são satisfeitos, mas
reprimidos.

Apenas parcialmente consciente, o superego serve como um censor das


funções do ego (contendo os ideais do indivíduo derivados dos valores
familiares e sociais), sendo a fonte dos sentimentos de culpa e medo de
punição.

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Paulo Bregantin - SBPI

ANSIEDADE

Medo é a resposta emocional a um perigo real. Ansiedade é uma reação de


temor ou apreensão diante de situações inócuas ou pode ser uma resposta
desproporcional ao grau real de 'stress' externo.

Os sintomas psicossomáticos podem ser: palpitações, boca seca, dilatação das


pupilas, falta de ar, transpiração, sintomas abdominais, tremores e tontura. As
reações emocionais também incluem irritabilidade, dificuldade de
concentração, inquietação e evitação da situação ou objeto temido.

Ansiedade é a expressão sintomática de um conflito emocional interno que


ocorre quando certas experiências, sentimentos e impulsos muito
perturbadores são suprimidos da consciência.

Mesmo fora da consciência, os conteúdos mantidos no inconsciente retêm


grande parte da catexia psíquica original. A liberação de lembranças ou
impulsos proibidos, que buscam gratificação, provoca ansiedade por ser
ameaçadora para o ego. O mesmo ocorre quando experiências traumáticas,
profundamente soterradas, assolam o ego, exigindo uma elaboração mais
aprofundada.

MECANISMOS DE DEFESA

Mecanismos de defesa são processos psíquicos inconscientes que aliviam o


ego do estado de tensão psíquica entre o id intrusivo, o superego ameaçador e
as fortes pressões que emanam da realidade externa.

Devido a esse jogo de forças presente na mente, em que as mesmas se


opõem e lutam entre si, surge a ansiedade cuja função é a de assinalar um
perigo interno. Esses mecanismos entram em ação para possibilitar que o ego
estabeleça soluções de compromisso (para problemas que é incapaz de
resolver), ao permitir que alguns componentes dos conteúdos mentais
indesejáveis cheguem à consciência de forma disfarçada.

No que tange ao fortalecimento do ego, a eficiência desses mecanismos


depende de quão exitosamente o ego alcance maior ou menor integração
dessas forças mentais conflitantes, pois diferentes modalidades de formação
de compromisso poderão (ou não) vir a tornar-se sintomas psiconeuróticos.

Quanto mais o ego estiver bloqueado em seu desenvolvimento, por estar


enredado em antigos conflitos (fixações), apegando-se a modos arcaicos de
funcionamento, maior é a possibilidade de sucumbir a essas forças.

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Paulo Bregantin - SBPI

Anna Freud em "O Ego e os Mecanismos de Defesa" (1946) [1], formula a


hipótese de que o maior temor do ego é o retorno ao estado de fusão inicial
com o id, caso a repressão falhe ou os impulsos sejam intensos demais. Para
manter o grau de organização atingido, o ego procura proteger-se da invasão
das demandas instintivas/pulsionais, provenientes do id, e do retorno dos
conteúdos reprimidos.

Assim, em "O Ego e o Id" (1923), Freud diz que a psicanálise é o instrumento
que permite ao ego uma conquista progressiva do id.

A psicanálise visa uma transformação paulatina de maiores porções do id em


recursos do ego, em seu propósito de tornar consciente o que é inconsciente.
Assim, a mente poderá vir a encontrar soluções, previamente inacessíveis ao
ego imaturo.

Os principais mecanismos de defesa são os seguintes:

1. Repressão - retirada de idéias, afetos ou desejos perturbadores da


consciência, pressionando-os para o inconsciente.

2. Formação reativa - fixação de uma idéia, afeto ou desejo na consciência,


opostos ao impulso inconsciente temido.

3. Projeção - sentimentos próprios indesejáveis são atribuídos a outras


pessoas.

4. Regressão - retorno a formas de gratificação de fases anteriores, devido aos


conflitos que surgem em estágios posteriores do desenvolvimento.

5. Racionalização - substituição do verdadeiro, porém assustador, motivo do


comportamento por uma explicação razoável e segura.

6. Negação - recusa consciente para perceber fatos perturbadores. Retira do


indivíduo não só a percepção necessária para lidar com os desafios externos,
mas também a capacidade de se valer de estratégias de sobrevivência
adequadas.

7. Deslocamento - redirecionamento de um impulso para um alvo substituto.

8. Anulação - através de uma ação, busca-se o cancelamento da experiência


prévia e desagradável.

9. Introjeção - estreitamente relacionada com a identificação, visa resolver


alguma dificuldade emocional do indivíduo, ao tomar para a própria
personalidade certas características de outras pessoas.

10. Sublimação - parte da energia investida nos impulsos sexuais é


direcionada à consecução de realizações socialmente aceitáveis (p.ex.
artísticas ou científicas).
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Desenvolvimento Psicossexual

Fase Oral
Primeiro estágio do desenvolvimento psicossexual

Na fase oral, o prazer sexual, predominantemente relacionado à excitação da


cavidade oral e dos lábios, está associado à alimentação.

Quanto à oralidade, durante os primeiros dezoito meses de vida, a pulsão


caracteriza-se por: fonte=zona oral, alvo=incorporação, objeto=aquele da
ingestão do alimento.

A relação de objeto é organizada em torno da nutrição e colorida por fantasias


que adquirem os significados de comer e ser comido (impulsos canibalescos).
Portanto, a ênfase recai sobre uma zona erógena (oral) e uma modalidade de
relação (incorporação).

Karl Abraham sugeriu a fase sádico-oral como uma subdivisão da fase oral, de
acordo com as seguintes atividades:

sucção -fase oral precoce de sucção pré-ambivalente

mordedura - fase sádico-oral concomitante à dentição, quando a incorporação


adquire o significado de destruição do objeto devido à ambivalência instintual,
ou seja, a coexistência de libido e agressividade, em relação ao mesmo objeto.
Mastigar, morder e cuspir são expressões dessa necessidade agressiva inicial,
a qual mais tarde pode desempenhar papel relevante nas depressões, adições
e perversões.

Os conflitos orais são expressos através de sintomas como inapetência,


vômito, hábito de ranger dentes, inibições da fala.

Uma estrutura de caráter oral caracteriza-se por traços tais como a ganância,
dependência, intolerância, agitação e curiosidade.

A vivência de satisfação, postulada por Freud como a imagem do objeto


externo satisfatório (capaz de dar um fim à tensões internas da fome), é
responsável pela construção do desejo do sujeito e pela contínua busca do
objeto que consiga repetir esta experiência primal.

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Paulo Bregantin - SBPI

Fase Anal
Segundo estágio do desenvolvimento psicossexual

Acompanhando a maturidade fisiológica para controlar os esfíncteres (2-3 anos


de idade), a atenção da criança dirige-se da zona oral para a zona anal.

Essa mudança proporciona outros meios de gratificação libidinal (erotismo


anal) bem como de expressão da agressividade emergente (sadismo anal).

A musculatura é a fonte do sadismo e a membrana da mucosa anal, a fonte da


pulsão erótica de natureza anal.

A pulsão sádica, cujo objetivo contraditório é (1) destruir o objeto e também, ao


dominá-lo, (2) preservá-lo, coincide com a atividade, enquanto que a pulsão
erótico-anal se relaciona com a passividade.

A interação entre esses dois componentes instituais é a seguinte: ao alvo


bipolar do sadismo corresponde o funcionamento bifásico (expulsão/retenção)
do esfíncter anal e seu respectivo controle.

Quanto ao comportamento da criança vis-à-vis o objeto, em "A Predisposição


para a Neurose Obsessiva" (1913i) [SE, XII, 321], Freud diz: "Vemos a
necessidade de intercalar uma outra fase antes da forma final - fase em
que as pulsões parciais estão já reunidas para a escolha de objeto, em
que o objeto é já oposto e estranho à própria pessoa, mas em que o
primado das zonas genitais não se encontra ainda estabelecido."

Karl Abraham sugeriu que a fase sádico-anal fosse sub-dividida em duas fases:

Primeira fase - o erotismo anal está ligado à evacuação enquanto que a pulsão
sádica tem por objetivo a destruição do objeto;

Segunda fase - o erotismo anal está ligado à retenção e a pulsão sádica ao


controle possessivo do objeto.

Desse modo, as polaridades entre erotismo/sadismo, expulsão/retenção são


expressas em conflitos relacionados à ambivalência, atividade/passividade,
dominação, separação e individuação.

Excesso de ordem, parcimônia e obstinação são traços característicos do


caráter anal.

Ambivalência, desmazelo, teimosia e tendências masoquistas representam


conflitos oriundos desse período.

Vários aspectos da neurose obsessivo-compulsiva sugerem fixação anal.

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Paulo Bregantin - SBPI

Nesse estágio, os significados simbólicos de dar e recusar, atribuídos à


atividade de defecação, são condensados por Freud na equação:
fezes=presente=dinheiro.

Fase Fálica
Terceiro estágio do desenvolvimento psicossexual

Pela primeira vez, em "A Organização Genital Infantil" (1923), Freud define a
fase fálica (3-5 anos de idade), subseqüente às fases oral e anal, que são
organizações pré-genitais.

Essa fase corresponde à unificação das pulsões parciais sob a primazia dos
órgãos genitais, sendo uma organização da sexualidade muito próxima àquela
do adulto (fase genital).

Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), Freud compara as


fases fálica e genital: "Essa fase, que merece já o nome de genital, onde se
encontra um objeto sexual e uma certa convergência das tendências
sexuais sobre esse objeto, mas que se diferencia num ponto essencial da
organização definitiva por ocasião da maturidade sexual: com efeito, ela
apenas conhece uma única espécie de órgão genital, o órgão masculino...
Segundo Abraham [1924], seu protótipo biológico é a disposição genital
indiferenciada do embrião, idêntica para ambos os sexos.

Assim, Freud postula que meninos e meninas, na fase fálica, estão


preocupados com as polaridades fálico e castrado e acredita que as crianças
não têm nenhum conhecimento da vagina nesse período.

A descoberta das diferenças anatômicas entre os sexos (presença ou ausência


de pênis) motiva a inveja do pênis nas meninas e a ansiedade de castração
nos meninos, pois o complexo de castração centraliza-se na fantasia de que o
pênis da menina foi cortado.

A principal zona erógena das meninas localiza-se no clitóris que, do ponto-de-


vista de Freud, é homólogo à glande (zona genital masculina).

Klein, Horney e Jones consideram que a menina tem um conhecimento intuitivo


da cavidade vaginal e os conflitos da fase fálica apenas desempenham uma
função defensiva em relação às suas ansiedades relacionadas com a
feminilidade.

Durante a fase fálica, a culminância do Complexo de Édipo (que conota a


posição da criança numa relação triangular), segue diferentes caminhos para
ambos os sexos, no processo de sua dissolução: ameaça de castração
(meninos) e o desejo de um bebê como um equivalente simbólico do pênis
(meninas)

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Paulo Bregantin - SBPI

Período de Latência

O período de latência (6-12 anos de idade) tem sua origem na dissolução do


Complexo de Édipo, a qual ocorreu na fase fálica.

Em "A Dissolução do Complexo de Édipo" (1924d) Freud diz: "Ainda não se


tornou claro, contudo, o que é que ocasiona sua destruição. As análises
parecem demonstrar que é a experiência de desapontamentos penosos...
Mesmo não ocorrendo nenhum acontecimento especial tal como os que
mencionamos como exemplos, a ausência da satisfação esperada, a
negação continuada do bebê desejado, devem, ao final, levar o pequeno
amante a voltar as costas ao seu anseio sem esperança. Assim, o
complexo de Édipo se encaminharia para a destruição por sua falta de
sucesso, pelos efeitos de sua impossibilidade interna. Outra visão é a de
que o complexo de Édipo deve ruir porque chegou a hora para sua
desintegração, tal como os dentes de leite caem quando os permanentes
começam a crescer.

Ainda que este período constitua uma pausa na evolução da sexualidade, este
fato não significa necessariamente que a criança não tenha nenhum interesse
sexual até chegar à puberdade, mas principalmente que não se desenvolverá
nesse período uma nova organização da sexualidade.

O surgimento de sentimentos de pudor e repugnância, a identificação com os


pais, a intensificação das repressões e o desenvolvimento de sublimações são
características do período de latência.

Fase Genital
Quarto estágio do desenvolvimento psicossexual

Precedida pelo período de latência, a organização genital propriamente dita se


instala na puberdade, quando as pulsões parciais estão definitivamente
integradas sob a primazia genital específica de cada sexo. É o estágio final do
desenvolvimento libidinal instintual.

Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, Freud esclarece: "A


diferença desta última reside apenas em que a concentração das pulsões
parciais e sua subordinação ao primado da genitália não são conseguidas
na infância, ou só o são de maneira muito incompleta. Assim, o
estabelecimento desse primado a serviço da reprodução é a última fase
por que passa a organização sexual.

Fixações e regressões podem estancar o desenvolvimento libidinal e interferir


na primazia genital e no funcionamento genital adequado na vida adulta.

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Paulo Bregantin - SBPI

Complexo de Édipo
Inspirado pela lenda grega, Oedipus Rex, de Sófocles, Freud descobriu o
Complexo de Édipo durante sua auto-análise.

O Complexo de Édipo (3-5 anos de idade) é uma peculiar constelação de


desejos amorosos e hostis que a criança vivencia em relação aos seus pais no
pico da fase fálica.

Em sua forma positiva, o rival é o genitor do mesmo sexo e a criança deseja


uma união com o genitor do sexo oposto.

Em sua forma negativa, o rival é o genitor do sexo oposto, enquanto que o


genitor do mesmo sexo é o objeto de amor.

Em sua forma completa, num nível inconsciente, ambas as formas coexistem


devido à ambivalência da criança e sua necessidade de proteção. A relação
dialética entre ambas as formas vai determinar se o desejo humano seguirá
uma orientação homo ou heterossexual.

Nessa estrutura triangular a interação entre os desejos inconscientes dos pais


e as pulsões da criança desempenha papel fundamental na constituição do
cenário edípico.

A proibição contra o incesto é uma lei universal nas mais variadas culturas. O
destino de Hamlet mostra que mesmo um triunfo edipiano disfarçado pode
tornar-se uma sombra ameaçadora, devido à trágica "gratificação" de seu
desejo inconsciente.

Em "A Dissolução do Complexo de Édipo" (1924d) Freud diz: Quando o ego


não conseguiu provocar mais do que um recalcamento do complexo, este
permanece no id no estado inconsciente; mais tarde irá manifestar sua
ação patogênica.

O declínio do complexo de Édipo e a entrada no período de latência estão


relacionados à ameaça de castração (meninos) e ao desejo de ter um bebê
(meninas). A resolução do complexo, após a puberdade, é possível através da
escolha de um substituto adequado para o objeto de amor. O Complexo de
Édipo mantém sua função de um organizador inconsciente durante toda a vida
e forma um elo indissolúvel entre o Desejo e a Lei.

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Paulo Bregantin - SBPI

Referências

Freud, S.

Brenner, C. - Noções Básicas de Psicanálise, Imago Ed.

Laplanche, J. & Pontalis, J.-B. - Vocabulário da Psicanálise, SP, Martins


Fontes Editores Ltda., 1985 -

Moore, B. E. & Fine, B. D. - Termos e Conceitos Psicanalíticos, Artmed,


recomendado pela "The American Psychoanalytic Association"

Roudinesco, E. & Plon, M. - Dicionário de Psicanálise, RJ, Jorge Zahar


Editor, 1998

Sofocles. - Édipo Rei, Moderna Editora, 1998

http://www.geocities.com/~mhrowell/paginadefreud.html

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Paulo Bregantin - SBPI

Isto escrito, sobre os princípios da psicanálise descrito por Freud, vamos


retomar os ensinos de Lacan. Creio que para continuarmos nossa caminhada é
muito importante que tenhamos em mente que Lacan escreveu e ensinou
sobre Psicanálise com base uma releitura da obra de Freud e, como Lacan fez
essa releitura muitas vezes falando “seminários”, a complexidade de alguns
ensinamentos são realmente uma marca registrada, mas isso pode ser
minimizado com uma leitura minuciosa e um estudo aprofundado das falas e
escritos de Lacan.

Todo sintoma é um signo

Para Lacan, todo sintoma é um Signo e ao mesmo tempo um significante.

O Signo para Laca é aquilo que representa algo para alguém. É um dado
sintoma que representa algo para aquele que sofre e, ás vezes, para aquele
que escuta. (Analista e Analisando).

Ex.: A gravidez representa para uma moça o fruto do trabalho da análise, e,


para o analista, um dos efeitos terapêuticos do tratamento.

Esse é um aspecto de SIGNO do sintoma, pois é a constituição do fator que


favorece a instalação e o desenvolvimento da TRANSFERENCIA.

Para entendermos esse princípio Lacaniano sobre signo, significado e


significante vamos entender um pouco sobre a gramática de FERDINAND DE
SAUSSURE.

Lacan indicará aos analistas em formação que lhes sejam ensinados alguns
rudimentos de lingüística, nem que fosse apenas “ a instituição do significado e
significante”.

O lingüista Ferdinand de Saussure afirma que a língua não é uma


nomenclatura, nem uma lista de palavras que corresponde a outra lista de
coisas.

Ele demonstra que o vínculo entre um nome e uma coisa é, ao contrário do que
pode parecer, uma operação complexa.

Lingüística Estrutural – Estuda os signos- significados e significantes;

A língua fenômeno social; ( patrimônio social ).

A fala é individual; ( expressão e compreensão ).

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Paulo Bregantin - SBPI

A letra- é material suporte do significante Discurso- oral e escrito; provém de


uma ideologia;

Classes de palavras- pronomes, artigos e os verbos;

Sinais de pontuação- reticência, exclamação, interrogação e ponto;

Recursos Semânticos- metáfora e a metonímia;

Variação lingüística- geográfica, histórica, social, etc.

Conceito de Ciência- objeto de estudo.

DEFINIÇÃO DE ALGUNS TERMOS LINGUÍSTICOS:

O signo, o significado e o significante:

Quanto ao signo, o significado e o significante, partimos primeiramente da


premissa de seu significado em dicionário:

O signo: s.m. 1. sinal, símbolo. 2. ( linguíst) qualquer unidade significativa


entre o significado e o significante.

O significado: s.m. 1. Significação, sentido, acepção. 2. (linguíst) a parte


significativa de um signo. Opõe-se ao significante.

O significante: adj. 1. Significativo. 2.(linguíst) a parte sonora do signo. Opõe-se


ao significado.

O Signo Lingüístico

O signo não une uma coisa a um nome.

Assim, o signo “árvore”, por exemplo, estabelece uma relação entre dois
termos de ordem psíquica: o conceito árvore e a imagem árvore.

O signo é a combinação do conceito e da imagem acústica.

Conceito

_______________________

Imagem acústica

A presença na mente da imagem acústica “árvore se vincula ao conceito de


árvore.

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Paulo Bregantin - SBPI

Os termos que Suassure utiliza são: significado


e significante.
S significado
S significante
O significado e significante se correspondem
entre si no interior do signo.

Não há uma relação natural entre o significado e significante. O significado


adere a diferentes significantes. EX Pássaros.

Valor Lingüistico:

Suassure trata a língua como um sistema de puros valores. Cada uma das
partes se sustenta pelas outras.

Assim, os signos não podem cumprir sua função de significação sem a


sustentação que supõe a estrutura da linguagem.

A Língua:

Não da para conceber idéias sem que elas estejam configuradas na ordem da
língua.

Sem a língua, os sons, a substância fônica são apenas barulho.

Não há pensamento sem linguagem.

Significado: Suassure conclui que o nível do significado se constitui unicamente


pelas conexões diferentes com outros conceitos da língua. Não é o som em si
mesmo, mas a diferença entre uma palavra e outra.
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Paulo Bregantin - SBPI

Significante: Imagem acústica; valor diferencial.

Para Suassure, a significação é ao unir significado e significante, implica uma


relação de reciprocidade, de conveniência, de adequação entre ambos os
termos.

Rompimento Lacan X Suassure

Lacan entende que entre o significado e significante não há união em si, mas
sim uma separação.

Lacan vai operar mudanças importantes:

O traço de separação entre significado e significante será mais grossa.

Colocará o significante acima da barra para simbolizar a prevalência do


significante, invertendo os termos saussurianos. O significado desce ficando
abaixo da barra.

ALGORITMO LACANIANO

S
S

A barra engrossada indica uma resistência do significante à significação. O


significado vai se reproduzir por efeito de combinação de significantes.

Lacan afirma que o significante entra de fato no significado.

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Paulo Bregantin - SBPI

Dois exemplos para descrever o que Lacan está propondo:

No primeiro quando pensamos em uma árvore ( significante) cada pessoa faz


uma imagem individual, veja: Se eu te perguntar pense em uma árvore muito
provavelmente você pensará em uma árvore específica, porém será muito
diferente da minha e de tantas outras pessoas... Isso é significante.

Arvore

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Paulo Bregantin - SBPI

Nesse outro exemplo pense em duas portas de banheiro, o que faz com essas
portas sejam diferentes? Vejam a figura abaixo:

Cavalheiros Damas

O que modifica é o significante, pois a porta é um signo(porta), o significado é


para abrir, fechar, proteger, etc. Agora o significante é para cada um.

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Paulo Bregantin - SBPI

Todo sintoma é um significante...


Significante é uma categoria formal, e não descritiva.

O significante pode ser um lapso, um sonho, um relato do sonho, um detalhe


desse relato, ou mesmo um gesto, um som, ou até um silêncio ou uma
interpretação do Psicanalista.

3 aspectos do significante:

1- O significante é sempre a expressão involuntária de um ser falante. Um


gesto qualquer só será significante se for um gesto desejado e imprevisto,
executado fora de qualquer intencionalidade e saber consciente.

2- O significante é desprovido de sentido, não significa nada e, portanto, não


entra na alternativa de ser explicável ou inexplicável. O significante é e nada
mais.

3- O significante é, sim, desde que permaneça ligado a um conjunto de outros


significantes. “Um significante só é significante para outros significantes” Lacan.
É sempre um “UM” não vários acontecimentos ou sintomas.

Obs: Para Lacan a repetição tem como conceito S1 – Significante UM, ou seja,
o número 1 vem assinalar que trata de um acontecimento ÚNICO, o sintoma é
sempre da ordem de UM e a letra S é notação da palavra SIGNIFICANTE.

O significante pode ser um chiste...:

O chiste (expressão que provoca riso).

Ou seja, uma piada ou forma de falar que leva o analisando a demonstrar uma
forma de falar espontânea e, que mesmo triste abatido força uma risada dele
mesmo e do analista.

Pois se o analista avaliar um chiste, pode fazer uma pergunta pertinente que dê
acesso ao inconsciente do analisando.

Não é “por que” que o analista quer e necessita saber e sim o “como” ex.;
Como se organiza o desfile dos acontecimentos de sua vida? Qual é a ordem
da repetição?

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Paulo Bregantin - SBPI

Distinção entre signo e significante:

Quando tomo o sofrimento do sintoma pelo ângulo da “causa” é fazer dele um


SIGNO, ao passo que surpreender-me por sofrer essa mesma infelicidade num
instante propício, como se ela fosse imposta por um saber que ignoro, é
reconhecê-lo como SIGNIFICANTE.

Ex.: Quando o analisando ri, fala um chiste, sonho, etc., e, o analista percebe
somente “como” e não “por que” entra no inconsciente e, isso é terapia...

O Inconsciente é um saber, não apenas porque sabe colocar uma dada palavra
num dado instante, mas também porque garante a característica da repetição,
logo, o inconsciente é o saber da repetição.

Podemos afirmar então que o inconsciente é um processo constante ativo, que


não pára de se exteriorizar através de atos, acontecimentos ou palavras que
reúnam as condições definidoras do SIGNIIFCANTE, a saber: ser uma
expressão involuntária, oportuna, desprovida de sentido e identificável como
um acontecimento ligado a outros acontecimentos ausentes e virtuais. S1... Um
único que toma o mesmo lugar toda vez que é necessário.

“O inconsciente é um saber estruturado como uma linguagem. ” Lacan

O GOZO:

Afirmação de Lacan: “ Não existe relação sexual.:

O que é GOZO e suas diferentes imagens, Lacan nos dá três propostas do


modo de GOZAR, vamos analisar as três para entendermos um pouco...

Obs.: GOZA não é ORGASMO (prazer orgástico).

“O superego é o imperativo do Gozo” Lacan – seminário XX. Foram dedicadas


20 páginas sobre Gozo.

“O gozo é, junto com o inconsciente, um dos pilares (o outro pilar é o próprio


inconsciente) sob os quais Lacan construiu toda sua teoria.

São dois conceitos principais e básicos e que fundamentam toda a teoria


lacaniana: o inconsciente é um saber estruturado como uma
linguagem e não existe relação sexual. Estes dois princípios definem toda a
maneira de pensar em análise.

Para Lacan, o inconsciente é uma cadeia de significantes em ato e que falta


um elemento. Justamente o que deveria representar o gozo. No inconsciente, o
gozo não tem representação significante exata, mas tem um lugar, o do furo.
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Paulo Bregantin - SBPI

De um furo no seio do sistema significante, sempre coberto pelo véu das


fantasias e dos sintomas. Da mesma maneira que a teoria analítica reconhece
sua incapacidade de expressar exatamente a natureza do gozo, podemos dizer
que o inconsciente, por sua vez, também não dispõe de um significante que
represente o gozo.

Para além das reações corporais percebidas no momento do orgasmo, do


clímax de uma relação genital, o gozo é o que está por trás da carne que vibra
no ato sexual, no prazer. Antes de vibrar o corpo, o gozo já está constituído na
psique do sujeito, daí a máxima do senso comum que diz que gozamos
principalmente com a mente e não somente com os órgãos genitais. Para
o Nvoyeur, por exemplo, o gozo se faz em olhar, é o olhar que goza, ele torna-
se a olhar e goza.

Seguindo a linha de pensamento de Lacan, o gozo se constitui a partir de uma


falta (gozo do Outro), gozo mítico. Quando falamos buscamos simbolizar esta
falta. Quando a fala falta comparece o gozo.

Para dar conta da teoria do gozo, Lacan parte da tese freudiana de energia
psíquica. O ser humano é perpassado pela aspiração, sempre constante e
jamais realizada, de atingir um objetivo impossível: o da felicidade absoluta,
uma felicidade que se reveste de diferentes imagens, dentre elas a de um
hipotético prazer sexual absoluto, experimentado durante o Nincesto.

Essa aspiração, chamada desejo, esse ímpeto nascido das zonas erógenas do
corpo, gera um estado doloroso de tensão psíquica – uma tensão tão mais
exacerbada quanto mais o ímpeto do desejo é refreado pelo dique
do Nrecalcamento.

Quanto mais intransigente é o recalcamento, mais aumenta a tensão. Diante do


muro do recalcamento, o impulso do desejo vê-se constrangido, então, a tomar
simultaneamente, duas vias opostas: a via da descarga, através da qual a
energia se liberta e dissipa, e a via da retenção, em que a energia é
conservada e se acumula como uma energia residual.

Uma parte, portanto, atravessa o recalcamento e é descarregada no exterior,


sob a forma do dispêndio energético que acompanha cada uma das
manifestações do inconsciente (sonho, lapso ou sintoma).
37
Paulo Bregantin - SBPI

É justamente essa descarga incompleta que proporciona o alívio de que


tínhamos falado a propósito do sintoma. A outra parte, que não consegue
transpor a barreira do recalcamento e permanece confinada no interior do
sistema psíquico, é um excesso de energia que superexcita, por sua vez, as
zonas erógenas, e que supurativa constantemente o nível da tensão interna.
Dizer que esse excesso de energia mantém sempre elevado o nível de tensão
equivale a dizer que a zona erógena, fonte do desejo, está permanentemente
excitada.

Podemos ainda imaginar um terceiro destino da energia psíquica, uma terceira


possibilidade, absolutamente hipotética e ideal, uma vez que nunca é realizada
pelo desejo, a saber, a descarga total da energia. Uma descarga efetuada sem
o entrave do recalcamento, nem de nenhum outro limite. Este último destino é
tão hipotético quanto o prazer sexual absoluto e jamais alcançado de que fala
Freud (Nasio).”

Três modos de gozar segundo Lacan:

O GOZO fálico: Corresponde à energia dissipada durante a descarga parcial,


tendo como efeito um alívio relativo, um alívio incompleto da tensão do
inconsciente. Freud diria que é o recalcamento. São as palavras que chegarão
ao exterior, como os acontecimentos inesperados, fantasias e conjuntos das
produções externas do inconsciente, dentre elas o sintoma.

Mais-GOZAR/Objeto a: Corresponde ao GOZO que em contrapartida,


permanece retido no interior do sistema psíquico, e cuja saída é impedida pelo
falo. O Advérbio “mais” indica que a parcela de energia não descarregada, o
GOZO residual, é um excedente que aumenta constantemente a intensidade
da tensão interna. Estão ancorados nas zonas erógenas e orificiais do corpo:
Boca, ânus, vagina, canal peniano, etc.

O GOZO do outro: Fundamentalmente hipotético que corresponderia à


situação ideal em que a tensão fosse totalmente descarregada, sem o entrave
de nenhum limite. É o estado a felicidade total e absoluta. Por exemplo para o
neurótico obsessivo é a morte. Para o neurótico histérico é como o oceano de
loucura. E, para uma criança em fase edipiana, ele assume a imagem mítica do
incesto.

O gozo para Lacan não é uma energia como diria Freud. Porém, ele diria que é
uma energia do inconsciente quando o inconsciente trabalha, isto é, quando o
inconsciente está ativo e, ele está constantemente ativo, e garante a repetição
38
Paulo Bregantin - SBPI

e se externalizando sem parar em produções psíquicas (S1), como o sintoma


ou qualquer outro acontecimento significante.

Veja a formula de Lacan para isso: “...o inconsciente é que o ser, ao falar,
goza.”. Lacan em um de seus seminários.

Por Lacan falar muito em seus seminários sobre GOZO creio que vale muito
fazer uma diferenciação entre GOZO e PRAZER:

Para Lacan Gozo é diferente do prazer:

O prazer é a imagem consciente ou pré-consciente, mas sempre sentida, da


energia.

O Gozo é sua imagem inconsciente, e nunca imediatamente sentida. O Gozo é


o estado energético que vivemos em circunstâncias-limite, em situações de
ruptura, no momento em que estamos em condições de transpor um limite,
assumir um desafio, enfrentar uma crise excepcional, ás vezes dolorosa. Gozo
é AÇÃO.

Quando o Gozo domina, as palavras desaparecem e prima a ação. A irmã do


gozo é a ação, enquanto a do prazer é a imagem.

O prazer é sempre dependente do vaivém das imagens que se refletem diante


de mim. O prazer é uma sensação percebida e experimentada pelo eu.

O gozo faz-se ouvir por atos cegos, sejam eles ações produtivas, quando um
pintor cria, fora de si, sua tela, ou ações destrutivas.

O prazer é transitório e o gozo é permanente...

O prazer passa e desaparece, enquanto o Gozo é uma tensão colada á própria


vida.

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Paulo Bregantin - SBPI

Como Freud observava em seus estudos e avaliações “O GOZO”?

Para Freud o “desejo impossível” de felicidade do ser humano, ou seja, o


desejo incestuoso (criança/mãe e mãe/criança). É aí que inicia o recalcamento
(Freud).

O gozo (segundo Freud) pega dois caminhos:

1- liberar e dissipar a energia (o impulso do desejo) ICs (inconsciente)

2- Retenção da energia (impulso do desejo) ICs (Inconsciente)

Uma parte que sobra dessa energia passa para o exterior (Pc- Pré-consciente
e C - Consciente) e, se manifesta através do sonho, lapso ou sintoma.

O Gozo e “principio de prazer”

Pode-se dizer que a pulsão de morte e a compulsão à repetição representam


as principais bases teóricas referenciais na obra de Freud que serviram de
matéria-prima para a construção do conceito de gozo por Lacan.

O gozo, portanto, é aquilo que está para além do princípio de prazer, que é da
ordem do excesso, da transgressão, e que, segundo Lacan, é causa de
sofrimento.

Pode-se dizer que o princípio de prazer funcionaria como uma espécie de limite
ao gozo. De acordo com o princípio de prazer, o sujeito deveria “gozar apenas
o possível”, para que não adviesse o desprazer.

Sendo o conflito psíquico a base da teoria freudiana, e considerando- -se a


impossibilidade de compatibilidade harmoniosa entre pulsão e cultura, o sujeito
insistentemente almeja transgredir as proibições impostas ao seu gozo para ir
“além do princípio de prazer”.

Entretanto, o resultado desta transgressão ao princípio de prazer não é mais


prazer, senão dor, pois o que é prazer por um lado, por outro é desprazer.
Além deste limite, o prazer é acompanhado de dor, e este “prazer dolorido” é o
que Lacan nomeou de gozo.

Percebemos, assim, que o princípio de prazer pode ser encarado como uma
espécie de “guardião” de um estado de homeostase* e constância, o qual o
gozo insistentemente ameaça romper.

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Paulo Bregantin - SBPI

Essa insistência é descrita por Freud através do fenômeno que nomeou


de compulsão à repetição e que pode ser designado como uma espécie de
retorno de um excesso (gozo), que insiste em retornar, visando transgredir os
limites impostos pelo princípio de prazer.

Mais detalhes sobre “o Gozo”

Um primeiro modelo, de periodização, o mais conhecido, é o proposto por


Jacques-Alain Miller em 1982, que divide o ensino de Lacan em três
momentos: o imaginário, o simbólico e o real.

Já Jean-Claude Milner, em A obra clara[i], divide o ensino de Lacan em dois


momentos. É uma periodização diferente da feita por Miller porque o critério é
diferente. O critério de Miller é teórico-histórico, o critério de Milner é
epistemológico, pois fala da posição de Lacan frente à teoria da ciência e deste
fato retira dois momentos de Lacan, aos quais ele chama de primeiro e
segundo classicismo.

Porem J.A. Miller propõe uma outra periodização da obra de Lacan diferente
daquela de 1982. No seminário Los signos del goce[ii], de 1987, ele sugere a
idéia de um primeiro e um segundo Lacan. Essa divisão é baseada na idéia de
mudança de axioma. Miller afirma que em Lacan não há evolução, não há
avanço, não há progresso, mas rupturas.

O conhecimento não é produzido, por acumulação de saber, mas por mudança


de paradigmas que redefine a posição anterior. É isso que Lacan chama de
momento fecundo.

Miller identifica uma mudança de paradigma no Seminário XIX, Ou Pire,


quando Lacan introduz o objeto a , frase que reformula o paradigma anterior
que seria- o inconsciente está estruturado como uma linguagem, e que implica
em não há Um.

A linguagem, na visão de Saussure, implica que um significante não se


significa a si mesmo, que um signo é sempre uma relação arbitrária entre
significante e significado. Logo, para haver um signo, são necessários dois
elementos

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Paulo Bregantin - SBPI

Lacan rompe com o modelo de estrutura proposto por Saussure para a


linguagem. O signo passa a ser introduzido pelo Um, passa a significar a si
mesmo. Esta mudança de paradigma é uma inversão do momento anterior do
ensino de Lacan, é o que Miller chama de Segundo Lacan ou Segunda Clínica.

Há ainda um terceiro momento nas reflexões de Miller, que se dá no seminário


A experiência do real na clínica analítica (1999), onde ele propõe uma divisão
do ensino de Lacan em seis momentos. O critério dessa divisão é o gozo,
mostrando a modulação das suas significações ao longo da obra de Lacan.

II O que é o gozo?

Para pensar noção de gozo em Lacan, pode-se dividir sua obra em antes e
depois do Seminário 20[iii], pois há uma mudança radical ocorrida nesse
Seminário. Antes dele, a principal definição de gozo se referia à concepção
jurídica do termo.

Cito o Seminário 14, A lógica da fantasia, Aula 20, 31.05.1967: ?...


Seguramente jouissance não foi abordado pela primeira vez no Robert, podem
estudar a palavra no Littré. Verão aí que seu emprego mais legítimo varia
desde a vertente que a terminologia indica, que a liga a júbilo, à possessão, a
algo do qual se dispõe".

Ou seja a noção de gozo para Lacan é gozar de, que é outra coisa que gozar,
por isso pode-se identificar o momento anterior ao Seminário 20 como gozo do
Outro, ou seja gozar de alguma coisa.

Do que o sujeito goza? Do Outro.

Cito o Seminário 5, As formações do inconsciente, aula 18, 9/04/1958, onde


Lacan introduz o gozo a partir da dialética do amo e do escravo, Para Hegel a
condição humana é determinada pela luta de prestígio, que é uma luta
mortífera entre o sujeito e o Outro, entre a consciência de si e a consciência do
Outro.

O sujeito só tem consciência de si, a partir do Outro. Isto é formalizado por


Lacan como o gozo do Outro. Lacan diz neste seminário: ?Vocês sabem que
nessa dialética de reconhecimento, um tal Hegel a encontrou no conflito de
gozo e na luta de morte donde ele desenvolve toda sua dialética do amo e do
escravo?.

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Paulo Bregantin - SBPI

Cito o Seminário 1, Escritos técnicos de Freud, aula 18, de 9/07/1954: ?Com


efeito, a partir da situação mítica, se organiza uma ação e se estabelece a
relação do gozo e do trabalho. Ao escravo se impõe uma lei: satisfazer ao
desejo e ao gozo do outro. Então, Lacan vai afirmar que quem goza é o
escravo, que goza de satisfazer o Outro". Já está separando gozo de desejo.

Diz Lacan no Seminário 3, As psicoses, aula 3, 30/11/1955: ?O amo tomou do


escravo seu gozo, se apoderou do objeto de desejo enquanto objeto do desejo
do escravo, porém perdeu aí sua humanidade. Não era o objeto de gozo que
estava em causa, mas a rivalidade enquanto tal. Sua humanidade, a quem ele
a deve? Tão somente ao reconhecimento do escravo. Mas como ele não
reconhece o escravo, esse reconhecimento não tem literalmente valor nenhum.
Assim como ocorre habitualmente na evolução concreta das coisas, aquele que
triunfou e conquistou o gozo torna-se completamente idiota, incapaz de fazer
outra coisa além de gozar, enquanto que aquele que foi dele privado guarda
sua humanidade?.

Isso reafirma que o gozo está do lado do escravo. Decorre da condição


humana, o sujeito se submeter ao desejo do Outro, para garantir o seu gozo.
Isso é o que mais insiste em todos os seminários de Lacan: a explicação de
gozo a partir da dialética hegeliana.

Se o gozo do amo é de se submeter ao escravo e Lacan diz que é o escravo


que se submete ao amo, Lacan formaliza isso como gozar do Outro. O sujeito
encontra seu gozo no Outro.

Lacan, Seminário 2, O eu na teoria de Freud, aula 6, 02/01/1955: ?O domínio


está totalmente do lado do escravo, porque ele elabora o seu domínio contra o
Mestre. ... Enquanto que inversamente, os outros se considerarão miseráveis,
não valem nada, e pensarão: que feliz é o amo em seu gozo de amo!,
enquanto este, claro, se sentirá totalmente frustrado. Creio que, em última
instância, Hegel nos leva a isso."

O que é tomar posse do Outro? O que é, no sentido do termo jurídico de gozo,


estar na posse de?

Para elaborar estas questões, Lacan recorre a Marx, e começa a pensar na


questão do valor de uso até chegar na mais valia, onde vai identificar o objeto a
ao mais-de-gozar e à mais valia.

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Paulo Bregantin - SBPI

Cito o Seminário 14, A lógica da fantasia, aula 15, 12/04/1967: Pretensão


singular que nos abre todas as ambigüidades próprias à palavra gozo, por
exemplo no desenvolvimento jurídico implica possessão. Dito de outra maneira,
há alguma coisa que retorna, não é mais que o sexo de nosso toro um valor de
uso que servirá nessa sorte de circulação, que se instaura na ordem sexual, é
a mulher que veio a ser, nessa ocasião, o lugar da transferência deste valor
subtraído ao nível de valor de uso, sob a forma de objeto de gozo".

Lacan começa a pensar, então, o que é estar na posse de alguma coisa, no


sentido marxista do termo, como o que se acrescenta à matéria pela operação
do trabalhador, e introduz a noção de valor de uso que , por deslocamento,
seria valor de gozo. O que importa ao sujeito é aquilo que tenha valor de gozo.

No Seminário 14, A lógica da fantasia, aula 16, 19/04/1967, Lacan ao invés de


falar em gozo, começa a falar em valor de gozo: ?O valor de gozo, eu disse,
estava no princípio da economia do inconsciente, disse ainda, sublinhando o
artigo de, fala de sexo, não pelo sexo, sim de sexo?.

O sexo só tem valor pelo valor de gozo. Seu valor ão é pela descarga que
produz, o que importa a Lacan é o valor de gozo que o objeto sexual produz
para o sujeito.

O que um sujeito pode possuir? Pode-se possuir o Outro? A criança quer


possuir a mãe, quer gozar da mãe, mas o gozo é barrado ao falante enquanto
tal.

No entanto, Lacan introduz o corpo como sendo o Outro. O sujeito goza do


Outro; o Outro pensado como corpo. Logo, da única coisa que o sujeito pode
gozar é do seu corpo.

Por isto Lacan no Seminário 14, A lógica da fantasia, aula 20, 31/05/1967
afirma: "De que goza o amo? A coisa em Hegel está suficientemente
percebida. A relação instaurada pela articulação do trabalho do escravo, faz
que o amo goze, não é no limite, senão forçar um pouco as coisas?.

Lacan fala que Hegel força um pouco as coisas, fazendo o amo gozar. ?E
quanto a nós, digamos que o amo goza do seu ócio, o que quer dizer, da
disposição do seu corpo?. A partir daí Lacan começa a insistir que o Outro é o
corpo.

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Paulo Bregantin - SBPI

Esse percurso privilegia a definição jurídica de gozo como? Estar na posse


de?. Não é o único modo de pensar o gozo, mas é o modo principal, e que nos
leva a pensar em tipos de gozo.

Outro critério para pensar o gozo é defini-lo como satisfação da pulsão. É um


critério quase que universalmente aceito, e é o mais usado.

Como pensar de que maneira? Estar na posse de? Satisfaz a pulsão? Não se
ensina que a pulsão não se satisfaz? Então, o gozo é impossível. O gozo do
Outro é impossível. O gozo não se realiza porque a satisfação da pulsão
também não existe.

Há um terceiro modo de pensar o gozo antes do Seminário 20, que é pensá-lo


pela adjetivação. Há o: gozo clitoridiano, gozo masturbatório, gozo masoquista,
gozo da coisa, gozo perverso, gozo da mulher, gozo de Deus

Lacan refere-se a vários tipos de gozo antes do Seminário 20, porém eles não
se encontram articulados entre si, são expressões do gozo do Outro, são
maneiras do sujeito estar na posse de alguma coisa

Todas as vezes que Lacan faz referencia ao gozo no Seminário I, ele está se
referindo a Hegel. Ele tinha falado em gozo poucas vezes antes, Ele fala em
gozo no texto A Família, e na "Introdução teórica às funções da psicanálise em
criminologia" (Escritos, p. 127), umas duas ou três vezes.

Portanto existe um tipo fundamental de gozo que é o gozo do Outro que não
vai ter o mesmo sentido que no Seminário 20.

O que vai adquirir uma diferença grande em Lacan, a partir do Seminário 6, é o


gozo masoquista, que vai levar Lacan a fazer a inversão de que é o escravo
quem goza do amo.

No Seminário 7, Lacan introduz o paradigma do gozo como satisfação da


pulsão, a partir da noção de gozo perverso ou gozo da transgressão.

No Seminário 8 está enfatizado o gozo do Outro como gozo da coisa, como


gozo proibido.

A partir do Seminário 11, ele retoma Hegel sob outro ponto de vista e a partir
do Seminário 14, aparece a idéia de valor de gozo, que vai culminar no
Seminário 20, definindo p gozo como sendo gozo do Um

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Paulo Bregantin - SBPI

Se o gozo é gozo do Um ele não pode ser gozo do Outro.

Por que gozo do Outro não pode ser gozo do Um? Pode-se dizer que a partir
desse momento um vai ser sinônimo de gozo. É uma outra definição de gozo.
Por isso falamos da definição de gozo antes do Seminário 20 para apontar que
essa definição é um deslocamento da concepção do próprio gozo, onde ele é
anunciado como gozo do Um.

Antes o gozo era gozo do Outro, numa referência à linguagem. Não existe
signo. O signo é arbitrário. O significante e o significado nunca coincidem
então, o saber está sempre no Outro. A verdade está sempre no Outro. Nada
consiste em si mesmo. É um gozo que não se pode alcançar.

Se Lacan fala em gozo do Um significa que o gozo não está no Outro, mas ele
está lá, ele existe. A mudança de perspectiva é radical.

O que é Um?

O Um tem uma concepção em filosofia, importante a partir dos neoplatônicos.

O Um em psicanálise podemos identificá-lo ao corpo, à noção de narcisismo.


Um e narcisismo, em psicanálise, são sinônimos porque o narcisismo é o que
faz o Um do corpo.

Antes do narcisismo o corpo é despedaçado, o que pode ser pensado pela


concepção de estádio do espelho. O narcisismo é o momento psíquico onde se
dá a organização auto-erótica das pulsões parciais em torno de um eixo - o eu
é tomado como objeto de investimento das pulsões. Esse eu é o que faz o Um
do corpo. Então, o eu narcísico, o corpo imaginário, são sinônimos de Um.

O estádio do espelho é a formalização de Lacan da idéia freudiana da


formação do eu. Constata-se clinicamente que o “eu” não se forma ao nascer,
Lacan apoia-se na concepção da prematuração específica do sujeito humano,
na observação clínica de que o bebê não mostra uma coordenação motora e
que isso implica na impossibilidade dele se reconhecer como um.

Não há uma unidade entre a coordenação dos braços, das pernas e da cabeça.
Isso vai se dando céfalo-caudalmente na evolução neuromotora, o que Lacan
articula com a desmielinizarão do córtex cerebral

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Paulo Bregantin - SBPI

No entanto há uma antecipação e o sujeito capta sua unidade corporal desde o


corpo do Outro. Está aí o Estádio do espelho, que é uma observação empírica
feita por Wallon e que mostra que antes que a criança possa,
neurologicamente, articular seus movimentos, ela capta sua imagem desde o
Outro. Essa imagem é a idéia de unidade. Este é um dos Uns da psicanálise.

O Um freudiano é esse Um imaginário, o Eu como Um. Porém há outros Uns,


tanto em Freud como em Lacan. No momento em que Lacan introduz o
simbólico, o que drá a unidade, o que vai explicar o que determina a
identificação do sujeito, não é mais uma identificação imaginária captada como
corpo próprio.

No simbólico, essa identificação vem do significante, ela preexiste, e determina


o imaginário. Nesse momento, para Lacan, o Um é o traço unário.

Traço Unário um termo que Lacan tira de Freud de Psicologia das Massas. A
identificação se dá com um traço, se dá com um significante e não com a
imagem. O que determina a identificação do sujeito é um significante que
registra a ausência da falta, chamada por Freud de traço unário,e que é o outro
Um da psicanálise.

Freud identifica o traço mnêmico a um engrama, a um registro neurológico, da


evitação do desprazer. Ë um registro de estado,que condiciona a vivência de
satisfação, que é a causa do desejo,

O desejo para Freud é um traço mnêmico investido, é uma vivência de


satisfação carregada de libido.

Porém, Lacan se contrapõe à idéia de traço mnêmico. É a resposta de Lacan à


crítica feita por Derrida, em um texto produzido em 67 chamado A cena da
escritura em Freud.

Derrida demonstra que o que condiciona a interpretação em Freud não é o


sentido, não é o saber, não é a compreensão, mas a presença material de um
traço, de um registro que determina a significação dos sonhos e que Derrida
vai chamar de letra.

Lacan já usava este termo desde 57 em "A Instância da letra", onde ele
colocava a letra como causa material do significante.

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Paulo Bregantin - SBPI

Porem Lacan vai falar do Um no real.

O que seria o que sustenta um significante?

Se não há nada antes da linguagem, tem que haver uma sustentação material
que seja em si mesma. A isso aponta a crítica de Derrida. Tudo levaria a supor
que Lacan responde a essa crítica confirmando que a letra seria um traço
mnêmico, um engrama, um registro psíquico definitivo uma forma de conexão
neuronal, como queriam os colegas de orientação kleiniana.

Lacan, em "Lituraterre", condena essa noção Esta concepção de registro


psíquico como marca em gramatica está presente em Freud num texto
chamado "Bloco Mágico", onde ele estabelece uma comparação com o bloco
magico que é um brinquedo para crianças onde um celofane é superposto a
uma superfície onde se escreve e quando se levanta o celofane
automaticamente se apaga o que está escrito.

No entanto, sempre fica uma marca. Freud diz que o inconsciente é assim: o
recalque apaga as inscrições anteriores, mas tem sempre uma marca material
que fica e que condiciona traços do que é escrito posteriormente.

Lacan diz que o inconsciente não opera como no Bloco Mágico. Para Lacan, o
significante não é um traço mnêmico, não é um registro material no sentido
neurobiológico do termo, mas no sentido formal do termo. No sentido do
materialismo formal., material é o que produz efeitos

Por que falamos em materialismo histórico? Porque se o dólar aumenta


sentimos na nossa carteira. O dólar não existe enquanto coisa concreta, não é
uma substância. É um valor de uso dado a um papel que produz efeitos.

Então, a idéia de materialismo econômico, é a idéia de que existe algo que não
precisa ser concreto, molecular, mas que produz efeitos.

O que seria então o Um no Real? O Um no Real foi pensado por Lacan através
do nó borromeano. Por isso, a conseqüência do Seminário 20 é a introdução
dessa figura topológica

Os três registros são articulados segundo as propriedades dessa figura: ela só


existe segundo uma certa amarração pois se um dos elos se solta, os outros
dois também se soltam; a conseqüência é : três é igual a um.

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Paulo Bregantin - SBPI

Esta é a idéia de Um no Real, em Lacan.: o nó enquanto escrita da cadeia


formada só por S1.

III Tipos de gozo

A rigor, os modos de gozo só aparecem depois do Seminário 20. Antes desse


Seminário, o gozo do Outro era multifacetado em gozo do Um, fálico,
masturbatório, clitoridiano, masoquista, do Outro, de Deus...

Lacan articula o gozo de Deus ao gozo masoquista Lacan se refere à


passagem da Bíblia onde Deus pede a Abraão que sacrifique seu filho e no
momento em que ia fazê-lo, Deus o impede. Toda fé é fundada nesse ato que
é para Lacan um modelo de gozo masoquista.

No Seminário 20, Lacan retorna ao gozo de Deus desde uma outra posição: vai
colocar o gozo de Deus como uma face do gozo da mulher.

Os tipos de gozo antes do Seminário 20 são todos articulados e adjetivados a


partir do gozo do Outro, são inspirações e não precisões clínicas. Porém, a
partir desse Seminário, pode-se dizer que há uma teoria dos gozos em Lacan.

O gozo é Um, mas adjetivado, porque ele é sempre a expressão do mesmo


gozo. Passa a ser as maneiras do sujeito conseguir a ilusão de ser Um. Todo
gozo é gozo do Um.

Esses modos de gozo são pensados por Lacan a partir da articulação dos
registros entre si, proposta pela primeira vez em 1974 no texto "A Terceira",

Nela Lacan reapresenta a concepção do sujeito transformado em parlêtre e


seus modos de gozo.

Na interseção entre o imaginário e o simbólico Lacan coloca o sentido,


nomeado como gozo através de uma homofonia: jouissance: jouis, goze, sens,
sentido, traduzido como goza-sentido, quer dizer, a busca da compreensão,
buscar na língua uma completude que produza efeitos de significação.

Na interseção do real com o simbólico, Lacan coloca o gozo fálico; essa é a


novidade do Seminário 20. Está citado antes, mas não com essa característica
que ele adquire nesse momento.

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Paulo Bregantin - SBPI

Neste momento do seminário Lacan está reintroduzindo o corpo na psicanálise.


A crítica anterior é de que a psicanálise lacaniana se dedicava a dar conta dos
modos de produção de sentido, do metabolismo da significação e a função do
analista era produzir um saber baseado na combinatória dos significantes
sendo que em nenhum momento o corpo participava da significação.

A essa crítica Lacan responde introduzindo o objeto a partir do Seminário 10 -


Isto culmina em Encore, cujo título em francês, é homofônico a "no corpo",
assim Lacan restitui a função do corpo na produção da significação.

O espantoso é que Lacan vai citar o gozo fálico como gozo do órgão, quase
como gozo sexual, posição que retorna com toda força em Lacan a partir do
Seminário 18..

No Seminário 7, o gozo pode ser lido em Freud como incesto. O incesto é


gozar, é ser Um com o Outro, é ser sem falta, um gozo narcísico. Seria evitar,
escapar à falta.

Para falar em gozo sexual como gozo do órgão Lacan situa o gozo fálico na
detumescência do pênis depois do orgasmo

Na interseção do Real e o do Imaginário Lacan situa o gozo do Outro Esse


gozo do Outro não é o gozo do Outro pensado como na relação amo - escravo.

Como entender esse gozo do Outro neste momento? Gozo do Outro é o que
está fora do simbólico, fora da palavra

Gozo fálico é o que está fora do imaginário, fora do corpo

Sentido é o que está fora do real.

É uma combinatória possível e muito útil para a clínica pois, por exemplo, é o
que permite pensar o fenômeno psicossomático, que não é um sintoma, mas
um fenômeno, é uma lesão de órgão., que decorre de uma marca que o
significante produziu no corpo. e que existe fora do simbólico, por isso é gozo
do Outro.

Articulando todos esses modos de gozo, no centro, temos o objeto a, pensado


enquanto mais-gozar. Esse é o principal modo de gozo da sociedade
contemporânea.

50
Paulo Bregantin - SBPI

É a leitura que Lacan faz da condição capitalista da sociedade atual, apontando


que o sujeito procura sua completude não no sentido, mas no objeto..

Uma conseqüência dos tipos de gozo é a leitura da sociedade atual, que


poderia ser a teoria da cultura de Lacan, que pensa a cultura não como
satisfação do desejo mas como modos de gozo.

Nesta visão a sociedade capitalista seria condicionada por um modo de gozo


caracterizado pela aquisição de objeto, pelo consumismo ligado a essa forma
de gozo que se apresenta como mais-de-gozar.

-----------------------------------------------------------------------

[i] MILNER, Jean-Claude. A Obra Clara ? Lacan, a ciência, a filosofia. Rio de


Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.

[ii] MILLER, Jacques-Alain. Los signos del goce. Buenos Aires: Paidós, 1998.

[iii] LACAN, Jacques. O Seminário ? livro 20 Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar
Ed., 1975.

MÁRCIO PETER DE SOUZA LEITE. A TEORIA DOS GOZOS EM LACAN


[online]
Disponível na internet via WWW URL:
http://www.educacaoonline.pro.br/a_teoria_dos_gozos.asp

51
Paulo Bregantin - SBPI

O INCONSCIENTE SÓ EXISTE DENTRO DO CAMPO DA PSICANÁLISE.

Afirmações para avaliarmos:

1- o inconsciente revela-se num ato que surpreende e ultrapassa a intenção do


analisando que fala. O sujeito diz mais do que pretende e, ao dizer, revela sua
verdade.

2- Esse ato, mais do que revelar um inconsciente oculto e já presente, produz o


inconsciente e faz que ele exista.

3- Para que esse ato efetivamente dê existência ao inconsciente, é


indispensável que um outro sujeito escute e reconheça a importância do
inconsciente, sendo esse sujeito o psicanalista. “...o inconsciente implica que
ele seja escutado? Em minha opinião, sim” respondeu Lacan.

O Analista só sabe que existe inconsciente se já foi analisando.

O inconsciente não é uma instância oculta, já presente, à espera de uma


interpretação que venha revelá-lo, mas uma instância, produzida quando a
interpretação do analista, considerada como um ato de seu inconsciente,
reconhece o ato do inconsciente do analisando.

Aqui podemos afirmar a Paternidade de Freud para com o inconsciente.


ELE(Freud) deu nome e identidade para o inconsciente.

52
Paulo Bregantin - SBPI

ALÍNGUA

Lacan cria uma palavra “alíngua” para distinguir a língua e a linguagem, para
algo muito mais complexo, ou seja, “alíngua” significa para Lacan o
inconsciente estruturado na linguagem, isto é, relativo a fala da mãe, a língua
da pele e de tudo que é relativo ao corpo.

Alíngua é tudo que se manifesta dos efeitos do inconsciente.Cada pessoa tem


um “alíngua”, mesmo os que falam o mesmo idioma, etc.

Alíngua é uma língua de sentido, cheia de sentido.

Diferença entre língua e linguagem:

A língua é o dialeto que falamos na nossa terra natal.

Existe a língua que a mãe fala ou língua materna. É aqui que o inconsciente se
manifesta.

“ O inconsciente se estrutura como uma linguagem e se manifesta na língua


falada pela mãe. ”

É nesse sentido que Lacan junta o artigo “A” com o substantivo “ Língua”
criando ALÍNGUA, ou seja, o jeito da pessoa não somente falar mas também
se portar, podemos dizer então que é “jeitão” da pessoa, ou a “zona de
conforto” de cada um de nós.

Lacan monta uma estrutura “alingua”

Dois pontos são fundamentais para “alingua” ou seja, a estrutura que significa
para lacan uma cadeia de elementos distintos em sua realidade material, mas
semelhantes em seu pertencimento a um mesmo conjunto.

Os elementos da estrutura são os significantes que obedecem ao dublo


movimento de ligação:

1- Metonímia ou elos

2- Metáfora ou substituição.

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Paulo Bregantin - SBPI

Entendendo o que é metonímia:

Metonímia ou transnominação é uma figura de linguagem que consiste no


emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança ou a
possibilidade de associação entre eles. Por exemplo, "Palácio do Planalto" é
usado como um metonímia (uma instância de metonímia) para representar a
presidência do Brasil, por ser localizado lá o gabinete presidencial.
Outro exemplo é "Hollywood", que é usado como uma metonímia para a
indústria de cinema dos Estados Unidos, por causa da fama e identidade
cultural de Hollywood, um distrito da cidade de Los Angeles, Califórnia, como o
centro histórico de estúdios e estrelas de cinema.1 Um edifício que abriga a
sede do governo ou a capital nacional é muitas vezes usado para representar o
governo de um país, como "Westminster" (Parlamento do Reino Unido) ou
"Washington" (governo dos Estados Unidos).2 Outro exemplo é beber um copo,
onde o copo é usado no lugar do seu conteúdo.
A metonímia é geralmente utilizada para a não repetição de palavras em
textos. Como em entrevistas nas quais o entrevistado (ex.: Jorge Amado) pode
tanto ser chamado pelo primeiro nome, pelo sobrenome ou pelo nome
completo (ex.: Jorge declarou, Amado declarou, ou Jorge Amado declarou).
É a utilização de uma palavra ou parte da significação da palavra, a fim de
passarmos uma ideia.
Na metonímia, um termo substitui outro não porque a nossa sensibilidade
estabeleça uma relação de semelhança entre os elementos que esses termos
designam (caso da metáfora), mas porque esses elementos têm, de fato, uma
relação de dependência. Dizemos que, na metonímia, há uma relação de
contiguidade entre sentido de um termo e o sentido do termo que o substitui.
Contiguidade significa “proximidade”, “vizinhança”.
Uma palavra, em metonímia, pode ser substituída por uma que tem um
significado parecido ou igual. Exemplos:

-Comi um pacote de bala inteiro - embalagem pelo conteúdo: comi todas as


balas que estavam no pacote
-Leio muito Jorge Amado - autor pela obra: leio muito obras literárias de Jorge
Amado

Para Lacan podemos dizer que Metonímia é então, é o que mantém


ligados(elos) entre um significante e outro.

É a metonímia ou elos que garantem delegar um significante para o lugar


periférico do “UM”

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Paulo Bregantin - SBPI

Metáfora:

Metáfora é uma figura de linguagem em que há o emprego de uma palavra


ou uma expressão, em um sentido que não é muito comum, em uma relação
de semelhança entre dois termos. Metáfora é um termo que no latim, "meta"
significa “algo” e “phora” significa "sem sentido". Esta palavra foi trazida do
grego ondemetaphorá significa "mudança" e "transposição".
Metáfora é a comparação de palavras em que um termo substitui outro. É uma
comparação abreviada em que o verbo não está expresso, mas subentendido.
Por exemplo, dizer que um amigo "está forte como um touro". Obviamente que
ele não se parece fisicamente com o animal, mas está tão forte que faz
lembrar um touro, comparando a força entre o animal e o indivíduo.

Esta figura de linguagem corresponde na substituição de um termo por outro


através de uma relação de analogia. É importante referir que para que a
analogia possa ocorrer, devem existir elementos semânticos semelhantes
entre os dois termos em questão.

A metáfora é uma ferramenta linguística muito utilizada no dia-a-dia, sendo


importantíssima na comunicação humana. Seriamente praticamente
impossível falar e pensar sem recorrer à metáfora. Uma pesquisa recente
demonstra que durante uma conversa o ser humano usa em média 4
metáforas por minuto. Muitas vezes as pessoas não querem ou não
conseguem expressar o que realmente sentem. Então falam frases por
metáforas onde seu significado fica subentendido.

Exemplos de metáforas
Eu estou sempre dando murro em ponta de faca.
Eu carrego o mundo nos meus ombros.
Os jogadores já estão preparados e estão no gramado que é um lindo tapete
verde.

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Paulo Bregantin - SBPI

Metáfora do Iceberg
A Metáfora do Iceberg consiste no fato que muitas vezes a parte visível de um
iceberg desde a superfície é muito pequena quando comparada com a parte
do iceberg que está submersa. Esta metáfora tem sido muito usada para
explicar vários fenômenos sociais. A metáfora do iceberg é frequentemente
usada para descrever a mente humana, em que a parte que fica à superfície é
a parte consciente e a maior, a submersa, é a parte relativa ao subconsciente.

Esta metáfora pretende fazer com que as pessoas entendam que muitas
vezes há muito mais verdade além do que os nossos olhos conseguem ver.
Através dela também podemos aprender que há muita coisa além do
superficial e que muitas vezes tem mais valor do que o que está à superfície e
é visível para todos.

Metáfora da Vida Cotidiana


Metáfora da Vida Cotidiana (em inglês: Metaphors We Live By) é um livro da
autoria de George Lakoff e Mark Johnson.
Esta obra causou um grande impacto no mundo acadêmico e segundo
Kanavillil Rajagopalan, já conquistou o lugar de "clássico". George Lakoff e
Mark Johnson abordam a metáfora e o seu impacto no ser humano, e com
este livro desafiam a forma de pensar que vê a metáfora como um simples
enfeite do pensamento. De acordo com os autores, o próprio pensamento e
desenvolvimento cognitivo do ser humano está estruturado graças à metáfora,
pois elas estão ligadas à forma como vemos e apreendemos o mundo externo.

No livro Metáforas da Vida Cotidiana, os autores afirmam: “A essência da


metáfora é a compreensão e a experiência de uma coisa em termos de outra”.

Para Lacan, metáfora designa o mecanismo de substituição graças ao qual


essa delegação se produz, ou seja, o mecanismo graças ao qual o
inconsciente se exterioriza sob a forma de um significante (significante
metafórico).

O inconsciente é então, um saber que movido pela força do gozo, trabalha


como uma cadeia metonímica (elos), com vistas a produzir um fruto – o
significante metafórico – e, um efeito; o sujeito do inconsciente.

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Paulo Bregantin - SBPI

Metáfora e Metonímia na Psicanálise

Lacan foi responsável por introduzir os conceitos de metáfora e metonímia na


psicanálise, sendo que com isso, esses conceitos ultrapassaram uma simples
categorização da retórica.

Jacques Lacan define a metáfora como um nonsense (não-sentido) da cadeia


significante, que resulta da justaposição de significantes. De acordo com
Lacan, os processos metafóricos e metonímicos não são separados.

Metáfora e metonímia estão relacionados com conceitos elaborados por Freud,


sendo eles deslocamento e condensação, ligados à Interpretação dos Sonhos.
Lacan relacionou estes conceitos com metáfora e metonímia, fazendo assim
uma analogia com a lingüística.

Mais tarde, Lacan relaciona condensação com a metáfora e deslocamento com


a metonímia. Através desses dois processos, é possível interpretar os desejos
inconscientes, manifestam as carências do sujeito.

A diferença entre a psicanálise e a ciência é que a psicanálise toma o sujeito


como material de seu trabalho, enquanto a ciência, por princípio, exclui o
sujeito. Isso é a ciência não questiona o “desejo” do cientista e, ignora os
efeitos provocados no pesquisador.

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Paulo Bregantin - SBPI

O que é o sujeito do inconsciente?

Como se gera o sujeito do inconsciente?

Lacan trabalhou essencialmente no Seminário XI, isto é, abordou-se a idéia da


subversão do sujeito cartesiano.

O Seminário XI pode ser considerado como um dos momentos de virada não


apenas na vida como no próprio ensino de Lacan. Ali ele rompe com a
dependência dos artigos ou livros de Freud, que era o centro de cada um de
seus seminários anteriores.

A partir de 1964, Lacan se permite fazer uma leitura mais ampla dos conceitos
da psicanálise. Neste período, ele rompe com a IPA (Associação psicanalítica
Internacional) e funda a Escola Freudiana de Paris (EEP).

O primeiro ensino, dentre outros conceitos, é marcado pela linguagem, não


querendo dizer com isso, que o segundo esteja para além dela, e nem que a
pulsão esteja para além dessa linguagem.

O segundo inclui os três registros: real, simbólico e imaginário. Só é possível


saber algo do real da pulsão porque ela se inscreve no sujeito que fala por
meio do significante.

Com o conceito de sujeito, que não é um conceito inaugurado por Freud, mas
que tem sua origem na filosofia, é que será trabalhada a relação entre Lacan e
Descartes.

Com a descoberta do inconsciente o eu pensante fica desalojado. Enquanto o


cogito cartesiano vai apontar o eu como lugar da verdade, o cogito da
psicanálise vai apontar o eu como o do ocultamento.

O sujeito, apontado por Lacan, não é uma substância, como é o cartesiano.

Ele é o que ocorre ao longo da cadeia significante e o que surge por um lapso,
por um esquecimento, pelo sonho ou por um chiste, é o sujeito do inconsciente.

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Paulo Bregantin - SBPI

O sujeito como tal, funcionando como sujeito, é algo diferente de um organismo


que se adapta. É outra coisa, e para quem sabe ouvi-lo, a sua conduta toda
fala a partir de um outro lugar que não o deste eixo que podemos apreender
quando consideramos como função num indivíduo, ou seja, com um certo
número de interesses concebidos na *areté individual. (LACAN, 1954-
1955/1985, p.16). *Areté é do grego e quer dizer excelência.

Solicito a leitura do Trabalho:


http://www.pucminas.br/documentos/dissertacoes_claudio_bastos.pdf - Pois
esclarece muito sobre o Sujeito do Inconsciente.

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Paulo Bregantin - SBPI

Um pequeno resumo e sobre o que Lacan nos ensina sobre “OBJETO” e


Objeto “a”.

Creio que antes de continuarmos seria muito bom ler um resumo sobre “objeto”
e Objeto “a” e um resumo de o lemos até aqui:

A teoria psicanalítica (lacaniana) dá conta de um sujeito que se constitui a partir


de uma falta. Algo se perde para que o nascimento do sujeito do inconsciente
venha à tona. A partir dessa concepção concluímos que o sujeito, objeto da
psicanálise, é furado, barrado; possui uma perda na sua origem. Uma perda
fundamental. Todavia, a própria psicanálise procura descrever esse “nada” que
ficou no lugar do objeto perdido, esse vazio. A esse vazio, Lacan
denomina Objeto a.O conceito de objeto a trata daquilo que o próprio Lacan
toma por uma construção sua. Lacan considera ter construído e inventado
o objeto a.

Ele é um objeto que se reveste da característica de ser escrito com um


símbolo, a letra “a”. Esse símbolo “a” não representa a primeira letra do
alfabeto, mas a primeira letra da palavra “outro” [autre]. Na teoria lacaniana,
existe o outro com “a” minúsculo e o Outro com “A” maiúsculo. Este, o Outro
maiúsculo, é uma das imagens antropomórficas do poder de sobre
determinação da cadeia significante. Já o outro minúsculo, com que a
letra aqualifica nosso objeto, designa nosso semelhante, o alter ego.

Pois bem, a invenção do objeto pequeno a responde a diversos problemas,


mas, sobretudo, a esta pergunta, exatamente: “Quem é o outro?” “Quem é meu
semelhante?”

Em seu artigo “Luto e melancolia”, ao se referir à pessoa que foi perdida e de


quem se faz o luto, Freud escreve a palavra “objeto”, e não “pessoa”. Freud já
fornece a Lacan uma base para responder à pergunta “quem é o outro?” e
construir seu conceito de objeto a.

Quem é esse outro amado e agora desaparecido, de quem faço luto? Freud o
chama de objeto, e Lacan, de objeto a. “Li luto e melancolia” – confidencia
Lacan, “e bastou eu me deixar guiar por esse texto para encontrar o objeto a”.

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Paulo Bregantin - SBPI

Isso não significa que o outro desaparecido se chame objeto a, mas que
o objeto a responde à pergunta “quem é o outro?”. Por quê? Para melhor nos
fazermos compreender, desdobremos a pergunta sobre o outro e perguntemo-
nos: “Quem é esse diante de mim? Quem é ele? É um corpo? É uma imagem?
É uma representação simbólica?” Coloquemo-nos no lugar do analisando, que,
deitado no divã, pergunta a si mesmo: “Quem é essa presença atrás de mim?
É uma voz? Uma respiração? Um sonho? Um produto do pensamento? Quem
é o outro?” A psicanálise não responderá que “o outro é...”, mas se limitará a
dizer: “para responder a essa pergunta, construamos o objeto a.”

A letra a é uma maneira de nomear a dificuldade; ela surge no lugar de uma


não-resposta.

Lembrem-se do espírito do procedimento lacaniano, que, em vez de resolver


um problema, dá-lhe um nome.

O melhor exemplo desse procedimento é, precisamente, o objeto a.

De fato, o objeto a é, com certeza, um dos mais notáveis exemplos da álgebra


lacaniana; eu diria até que é o paradigma de todos os algoritmos psicanalíticos.

Que é o objeto a? O objeto a é apenas uma letra, nada além da letra a, uma
letra que tem a função central de nomear um problema não resolvido, ou
melhor ainda, de expressar uma ausência.

Que ausência? A ausência de resposta a uma pergunta que insiste sem parar.
Já que não encontramos a solução esperada e necessária, marcamos então,
com uma notação escrita – uma simples letra –, o furo opaco da nossa
ignorância, colocamos uma letra no lugar de uma resposta não fornecida.

O objeto a designa, pois, uma impossibilidade, um ponto de resistência ao


desenvolvimento teórico. Graças a essa notação, podemos – apesar de nossos
tropeços – continuar a pesquisa, sem que a cadeia do saber seja rompida.
Como vocês podem ver, o objeto a é, enfim um artifício do pensamento
analítico para contornar a rocha do impossível: transpomos o real ao
representá-lo por uma letra.

Ora, qual é a pergunta cuja resposta é a, ou seja, uma simples letra, vazia de
sentido? Essa pergunta poderia formular-se de maneiras diferentes, segundo
os contextos teóricos, mas a que se abre imediatamente para oobjeto a é:
“Quem é o outro, meu parceiro, a pessoa amada?”

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Paulo Bregantin - SBPI

Quando Freud escreve que o sujeito faz o luto do objeto perdido, ele não diz
“da pessoa amada e perdida”, e sim “do objeto perdido”. Por quê? Quem era a
pessoa amada que se perdeu? Que significa, para nós, esse outro a quem
amamos, hoje ou no passado, esteja ele presente ou desaparecido? Que lugar
ocupa para nós a “pessoa” amada? Mas, será realmente uma pessoa?...

Alguém poderia afirmar: “é uma imagem. A pessoa amada é sua própria


imagem amada para você.” Está certo, mas não é suficiente. Outra resposta
seria: “A pessoa amada não é uma imagem, a pessoa amada é um corpo que
prolonga seu corpo.” Está certo, mais uma vez, mas ainda continua a ser
insuficiente. Uma terceira resposta, por fim, nos descreveria a pessoa amada
como o representante de uma história, de um conjunto de experiências
passadas.Mais exatamente, essa pessoa portaria a marca comum, veicularia o
traço comum entre todos os seres amados ao longo de uma vida.

A propósito disso, podemos referir-nos ao texto de Freud intitulado Psicologia


das massas e análise do ego, no qual ele distingue três tipos de identificação,
dentre elas a que ele designa como identificação do sujeito com um traço do
objeto, isto é, com um traço de todos os seres que um dia amamos.

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Paulo Bregantin - SBPI

Freud nos fornece, nesse artigo, uma observação importante para


compreendermos como se forma um par: amamos aquele que carrega o traço
do objeto anteriormente amado, e a tal ponto que poderíamos afirmar que, na
vida, todos os seres que amamos se assemelham por um traço.

Efetivamente, quando temos um novo encontro, é frequente ficarmos surpresos


ao constatar que ele traz a marca da pessoa anteriormente amada. A idéia
genial de Freud consistiu em revelar que essa marca que persiste e se repete,
no primeiro, no segundo e em todos os outros parceiros sucessivos de uma
história, que essa marca é um traço, e que esse traço não é outra coisa senão
nós mesmos.

O sujeito é o traço comum dos objetos amados e perdidos no curso da vida. Foi
exatamente isso que Lacan denominou de traço unário.

Assim, se retomarmos as três respostas


possíveis à pergunta “Quem é o outro?”, diremos: o outro amado é a imagem
que amo de mim mesmo. O outro amado é um corpo que prolonga o meu.

O outro amado é um traço repetitivo com o qual me identifico. Mas, em


nenhuma dessas três respostas – a primeira, imaginária (o outro como
imagem), a segunda, fantasística (o outro como corpo), e a terceira, simbólica

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Paulo Bregantin - SBPI

(o outro como traço que condensa uma história) –, em nenhuma dessas três
respostas revela-se a essência do outro amado.

Não sabemos, afinal, quem é o outro eleito. Ora, é justamente aí que aparece
o objeto a, no lugar de uma não-resposta. Todavia, veremos que, das três
abordagens possíveis para definir o outro, imaginária, fantasística e simbólica,
é a segunda que remete mais diretamente ao conceito lacaniano de objeto a: o
outro eleito é a parte fantasística e gozosa de meu corpo que me prolonga
e me escapa.

Bem, após esse resumo da teoria de Lacan, vamos continuar mais um pouco
sobre O outro, objeto, objeto “a” entre outros aprendizados.

Causa de desejo.
Lacan esclarece que o objeto se constitui na falta.

O objeto não existe antes de faltar, e que na própria constituição, o objeto fica
ligado a falta.Objeto causa do desejo;

O objeto não existe antes de faltar, o objeto fica ligado a falta.

O objeto é o desejo.

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Paulo Bregantin - SBPI

Falta do Objeto

A falta do objeto pode se manifestar de três formas:

Frustração: É um dano imaginário, porem o objeto é totalmente real . O pênis


constitui o protótipo do objeto, é sob a forma de frustração que a menina vive
sua falta.A criança vive a ausência de pênis na mãe como ausência.

Privação: é falta do real. Lacan designa esta falta de objeto como um buraco
no real. Contudo, o objeto de privação é um objeto simbólico.

Castração: É simbólico, na medida que ela remete à interdição do incesto, que


é a referência simbólica. A falta significativa pela castração é, antes de mais
nada, como formula Lacan, uma dívida simbólica. Mas, na castração, o objeto
faltante é radicalmente imaginário, e em nenhum momento pode ser o objeto
rel.

Creio que para entendermos bem sobre isso podemos ler o que diz nossa
amiga: Terezinha costa - Corpo Freudiano do Rio de Janeiro

JACQUES LACAN E A FALTA DE OBJETO1[1]

Teresinha Costa

Corpo Freudiano do Rio de Janeiro

O conceito de objeto em psicanálise, parece remontar ao início da instauração


da clínica freudiana, quando o próprio Freud viu-se diante de pacientes
histéricas que insistiam para que não as tocassem, “fique quieto! – Não diga
nada! – não me toque!”2[2], ou seja, o objeto a ser buscado para a compreensão
da causa de seus sofrimentos não pertencia ao “corpo do volume e das
formas”. (Bichat).3[3]
O objeto em causa estava em outro lugar, perdido, irremediavelmente perdido,
porém a localização era outra. O objeto estava numa outra cena, eine andere
schauplatz, como descrevia Fechener ao falar dos sonhos, diferente daquela
da vida de vigília. Essa outra cena, a cena do inconsciente, era a dimensão
topológica onde deveria ser buscada, senão o objeto, ao menos a relação
pulsional de tentativa de satisfação, do sujeito com ele.
Assim, é através da análise que o objeto ganha, não só seu status de objeto a,
como criou Lacan a respeito desse conceito, mas também a roupagem que o

1[1]
Este trabalho é parte de uma pesquisa sobre O conceito de objeto na teoria psicanalítica, onde
trabalhamos o conceito de objeto em Freud, Abraham, Melanie Klein, Winnicott e Lacan.
2[2]
FREUD, Sigmund. Frau Emmy Von N. ESB, v. II, p.92.
3[3]
Citado por M. Foucault. Nascimento da clínica. Forense Universitária, Rio de Janeiro, cap. VI.
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Paulo Bregantin - SBPI

analisando lhe outorga na sua tentativa de captura-lo: consistência, na sua


referência imaginária, furo, em sua dimensão simbólica e ex-sistência em sua
evocação real.
Consideramos que a compreensão do conceito de objeto na teoria psicanalítica
é fundamental para um entendimento da definição de sujeito, tal como foi
sendo construído no decorrer do desenvolvimento da psicanálise. Sabemos
que Freud não explicitou uma concepção de sujeito em sua teoria – é Lacan
quem, a partir de sua releitura de Freud, irá faze-lo – mas, ao rastrearmos as
diferentes acepções que o termos objeto foi adquirindo no decorrer do
desenvolvimento da psicanálise, acreditamos ser possível chegarmos a um
entendimento do que vem a ser o sujeito na teoria freudiana.
Nossa pesquisa justifica-se na medida em que consideramos que cada teoria
proporciona um modelo de trabalho clínico decorrente do entendimento que se
tenha da maneira de um sujeito advir. A partir da conceituação de Freud sobre
a sexualidade infantil e o complexo de Édipo, outros teóricos como Melanie
Klein e Lacan, desenvolveram conceitos que apontam para um outro
entendimento do que vem a ser o sujeito, trazendo com isso mudanças
significativas na direção do tratamento psicanalítico com crianças.
Lacan vai retomar a concepção freudiana do objeto, criticando a prevalência no
movimento psicanalítico pós-freudiano da noção de relação de objeto. Em O
Seminário, livro 4, Lacan retoma a análise freudiana do caso do “pequeno
Hans”, enfatizando a noção do significante e o primado do falo, fazendo uma
crítica ao evolucionismo que até então imperava na teoria psicanalítica oficial.
Diferencia o objeto da necessidade – que diz respeito ao instinto e, portanto, ao
biológico -, e o objeto do desejo, dependente do desejo do Outro. É a partir do
seminário A relação de objeto, que Lacan começa a construir o que, mais
tarde, ele considera a sua maior contribuição à teoria psicanalítica, que é o
objeto a. Lacan, em seu retorno a Freud, parte do conceito de objeto perdido,
assim como também se inspira no conceito de objeto transicional de Winnicott.
Não podemos deixar de lembrar que, embora Lacan tenha criticado os teóricos
pós-freudianos que enfatizavam a relação de objeto, como Melanie Klein, a sua
concepção de objeto integra os progressos teóricos introduzidos pela mesma,
particularmente o Édipo precoce, ou seja, a incidência do falo na relação ao
objeto pré-genital. Uma das fantasias mais precoces descobertas na análise
kleiniana inclui o pênis paterno entre os conteúdos do corpo materno,
juntamente com outros objetos parciais que a criança fantasia em sua primeira
relação com o Outro (seio, fezes, bebê etc.). É a partir daí que Lacan,
rompendo com a concepção evolucionista dos estádios libidinais, promove uma
análise estrutural desses estádios incluindo na fase pré-genital os efeitos da
significação fálica, propondo uma nova versão do complexo de Édipo, mas
levando em conta os desenvolvimentos teóricos do “Édipo precoce” da

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Paulo Bregantin - SBPI

teorização kleiniana. Conforme assinala Coutinho Jorge, “para Lacan, o objeto


é faltoso, enquanto que, para Freud, ele é um objeto perdido”.4[4] No entanto,
podemos aproximar a distinção entre perda e falta do objeto, através do
conceito de recalque orgânico em Freud. Segundo Coutinho Jorge,
“com o conceito de recalque orgânico – recalque que teria sido produzido pelo
advento da postura ereta em algum momento da evolução – o objeto instintual
teria sido perdido e ter-se-ia inaugurado o modo de funcionamento pulsional.
Assim é que podemos entender o objeto perdido em Freud, ou seja, “o objeto
teria sido perdido desde sempre para a espécie e esta perda (que se inscreve
para cada sujeito como falta originária de objeto) tenderá a ser repetida em
cada sujeito através da perda do objeto materno”.5[5]
Para diferenciar o objeto perdido da espécie humana e o objeto perdido da
história de cada sujeito, Lacan nomeia o primeiro como coisa, das Ding, e o
segundo, como objeto causa de desejo, objeto a. O objeto perdido da história
de cada sujeito, poderá ser re-encontrado nos diversos objetos substitutos
constituídos ao longo de sua vida, mas, “por traz dos objetos privilegiados de
seu desejo, o sujeito irá sempre se deparar de forma inarredável com a Coisa
perdida da espécie humana”.6[6]
Assim, em O Seminário, livro 4, Lacan, retomando a noção freudiana de objeto
perdido e enfatizando a importância da significação fálica, define a falta de
objeto como uma operação articulada em três níveis – Real, Simbólico e
Imaginário – nos quais três fatores entram em jogo: o sujeito, o objeto e o
Outro, como agente da operação. Lacan, criticando a noção de relação de
objeto, passa a estudar o objeto enquanto faltoso, afirmando que “jamais, em
nossa experiência concreta da teoria analítica, podemos prescindir de uma
noção da falta de objeto como central. Não é um negativo, mas a própria mola
da relação do sujeito com o mundo”.7[7]
Lacan vai diferenciar três modos de falta do objeto, a partir de três operações:
frustração, privação e castração:

“Na castração, há uma falta fundamental que se situa, como dívida, na cadeia
simbólica. Na frustração, a falta só se compreende no plano imaginário, como
dano imaginário. Na privação, a falta está pura e simplesmente no real, limite
ou hiância real”.8[8]
A castração é um dos conceitos fundamentais da teoria psicanalítica, tendo
sido introduzido por Freud ligada à noção da lei primordial, à interdição do

4[4]
JORGE, Relatório do I Congresso de Convergência, Paris, 2 a 4 de fevereiro de 2001. In: Documentos,
Revista do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro – Escola de Psicanálise, p. 28.
5[5]
ibidem
6[6]
JORGE, Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan – vol. 1: as bases conceituais. p. 142.
7[7]
LACAN, O Seminário, livro 4: A relação de objeto. p. 35.
8[8]
LACAN, O Seminário, livro 4: A relação de objeto. p. 54.
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Paulo Bregantin - SBPI

incesto e à estrutura do Édipo, sendo um elemento de articulação essencial de


toda a evolução da sexualidade.
Lacan define a castração como uma operação simbólica sobre um objeto
imaginário, o falo, efetuado por um agente, o pai real. A falta significada na
castração é uma falta simbólica, na medida em que ela remete à interdição do
incesto, que é a referência simbólica por excelência.
Privação e castração se articulam no ponto em que o falo como objeto
simbólico da estrutura se torna imaginário, ou seja, produz a chamada
significação fálica. A criança, tentando preencher o enigma do desejo materno,
passa pela ação simbólica da castração que é sempre castração materna.
O falo vai funcionar no complexo de castração como dádiva ou como dom que
o pai pode outorgar ou não à criança, para uma investidura futura do sujeito, ou
seja, “que lhe seja permitido ter um pênis para mais tarde. Aí está o que é
efetivamente realizado pela fase de declínio do Édipo - ele realmente carrega o
título de posse no bolso”.9[9]
Lacan articula a presença do pai à lei e a presença da mãe ao lugar do Outro,
ou seja, a mãe na teoria lacaniana ocupa no real o lugar do Outro primordial, o
Outro real da demanda, para onde se dirigirá a demanda a partir das
necessidades. Se a lei do pai intervém, instala-se a dialética da demanda e do
desejo no lugar do Outro.
Na oposição freudiana entre necessidade e desejo, Lacan introduz um terceiro
elemento que é a demanda. A passagem do biológico (Real) para o Simbólico
é realizada pela intervenção do Outro, introduzindo a demanda que é demanda
de amor. A necessidade é satisfeita pelo alimento e o desejo é produzido pela
hiância que se abre entre a necessidade e a demanda.
Em Freud podemos entender o surgimento do desejo a partir da primeira
experiência de satisfação. No entanto, é preciso notar que, em O Seminário,
livro 7, A ética da psicanálise, Lacan irá falar sobre das Ding. Nesse seminário,
ele vai fazer uma reviravolta na interpretação do Projeto, de Freud.
Freud aborda o aparelho psíquico em termos de neurônios, enquanto Lacan
remete os trilhamentos (Bahnungen) da memória à cadeia significante. Neste
sistema, das Ding é o significante que permanece isolado.
É no Projeto para uma psicologia científica, que Freud vai falar da experiência
de satisfação, vinculando a satisfação pulsional à relação do sujeito com o
próximo, ou seja, é através de um outro ser humano, um semelhante, que se
dá à primeira apreensão da realidade para o sujeito e através da qual o sujeito
se constitui.

9[9]
LACAN, O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente. p. 212.
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Paulo Bregantin - SBPI

Não é, portanto, por referência à condição biológica que o sujeito se constitui. A


referência ao Outro, enquanto falante, é fundamental e o sujeito estará sempre
marcado pela relação com o Outro. O desamparo não se refere apenas ao fato
do recém-nascido ser fisicamente frágil ou a sua total incapacidade de
locomoção, que o impede de sair à procura do alimento na ausência do adulto
que cuida dele. O termo desamparo designa, mais do que qualquer coisa, a
total ausência de sinais indicadores para a sua orientação quanto ao mundo
externo que o rodeia e a primeira apreensão da realidade pelo sujeito também
se dá através do próximo, onde ele aprende a se reconhecer. No texto Projeto
para uma psicologia científica, Freud descreve esse processo, afirmando que:
“Os complexos perceptivos emanados desses seus semelhantes serão, então,
em parte novos e incomparáveis – como, por exemplo, seus traços, na esfera
visual; mas outras percepções coincidirão no sujeito com a lembrança de
impressões visuais muito semelhantes, emanadas de seu próprio corpo,
lembranças que estão associadas a lembranças de movimentos
experimentados por ele mesmo. Outras percepções do objeto também – se,
por exemplo, ele der um grito – evocarão a lembrança do próprio grito e, com
isso, de suas próprias experiências de dor. Desse modo, o complexo do
próximo se divide em duas partes, das quais uma dá a impressão de ser uma
estrutura que persiste coerente como uma coisa enquanto que a outra pode ser
compreendida por meio da atividade da memória – isto é, pode ser reduzida a
uma informação sobre o próprio corpo do sujeito. Essa dissecação de um
complexo perceptivo se chama (re)conhecê-lo; implica num juízo e chega a seu
término uma vez atingindo esse último fim”.10[10]
Na divisão do complexo do próximo (Nebenmensch) temos, portanto, de um
lado, os significantes que se associam em cadeia e, de outro lado, os
significantes que não se associam à coisa alguma. É por isto que os
chamamos de coisa, porque não se associam a outros significantes.
Lacan destaca que é em torno desse objeto, a Coisa, que ocupa para o sujeito
o lugar do primeiro exterior, que se orienta todo seu encaminhamento
desejante. É esse objeto, das Ding, enquanto o Outro absoluto do sujeito, que
se trata de reencontrar, mas das Ding é, por sua própria natureza, perdido e
jamais será reencontrado.
Esta relação instaura a criança no domínio da falta. A psicanálise nos ensina
que não há Bem supremo, ou seja, que a completude é da ordem do imaginário
e que o sujeito é marcado pela falta ôntica, quer dizer seu complemento está
originalmente perdido no Outro uma vez que não há significante que represente
a completude do Outro. Tal complemento perdido, na verdade nunca esteve
presente e esta é a condição necessária ao desejo. Isso significa que o objeto
que poderia completar o sujeito trazendo-lhe a satisfação total do desejo é um

10[10]
FREUD, Projeto para uma psicologia científica. ESB, v. I, p. 438.
69
Paulo Bregantin - SBPI

objeto perdido. Quando o sujeito se lança na busca deste objeto somente se


depara com um furo, designando a coisa freudiana, das Ding.
Das Ding é o núcleo do Real e como núcleo do Real, está na origem da
constituição do psiquismo. O nó entre Real e Simbólico é análogo ao nó que
existe entre Lei e desejo, ou seja,

“a Coisa está na origem da instituição de Lei, enquanto Lei da palavra. Essa Lei
não se resume à proibição, sendo uma lei positiva que ordena o desejo como
verdade parcial, a partir da castração, já que não há objeto absoluto do
desejo”.11[11]
Os fundamentos da lei moral para Freud se afirmam na lei primordial, aquela
que instaura o corte entre cultura e natureza, a lei da proibição de incesto. O
desejo pela mãe não pode ser satisfeito, pois implica a morte da demanda, que
articula o inconsciente do homem.
Ao confundir o objeto materno com das Ding, os psicanalistas pós-freudianos
acabaram desembocando numa concepção desenvolvimentista e
normativizante da subjetividade. Acreditam que o objeto da pulsão é parcial em
conseqüência da imaturidade do sujeito e que, com o passar do tempo, o
sujeito adquirirá uma maturidade. Tal concepção implica um desvio significativo
da ética da psicanálise, onde o tratamento fica submetido a normas sociais e a
moral coletiva, onde o analista acredita saber como conduzir o sujeito para que
ele se torne um adulto maduro, equilibrado e, portanto, bem adaptado a
realidade, capaz de alcançar o sucesso e felicidade sociais.
A virada que Freud dá no que tange à lei moral está ligada a esse objeto – das
Ding. O Bem Supremo não existe.
Em O Seminário, livro 7, A Ética da psicanálise, Lacan coloca das Ding como
um conceito central. Para ele, a coisa apresenta-se sempre velada e, para que
possamos concebe-la, é necessário contorna-la. A busca da coisa só se dá
pela via do significante. Isso é exemplificado por Lacan através do vaso, objeto
representativo da função do significante como obra de criação. Assim como o
oleiro que, ao criar o vaso com suas mãos, faz isto em torno de um vazio, Deus
também criou o mundo, ex-nihilo, “a partir do furo”.12[12] Portanto, é em torno
desse vazio no centro do real da coisa, das Ding, que se articula a trama
significante.

11[11]
RINALDI, A Ética da Diferença – Um debate entre psicanálise e antropologia. p. 78.
12[12]
Idem, p. 153.
70
Paulo Bregantin - SBPI

Assim, o que Lacan vem nos mostrar, é que o sujeito é determinado por uma
trama discursiva cuja origem ele desconhece, mas onde deve advir para
resgatar sua verdade e encontrar o seu lugar.
BIBLIOGRAFIA.
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Roudinesco, Elizabeth e Plon, Michael. Dicionário de psicanálise. Rio de
Janeiro, Jorge Zahar, 1998.

72
Paulo Bregantin - SBPI

O Nome do Pai

Conceito relacionado à Psicanálise e à pesquisa psicanalítica. O conceito


de nome-do-pai, elaborado por Jacques Lacan, (1901-1981) retoma a
articulação do logos, como testemunho pela palavra e como processo e efeito
de dedução lógica. Lacan1 cria esse conceito a partir de Freud (1909)2 , que
em Notas a um caso de Neurose Obsessiva observara que, além do
testemunho dos sentidos, a paternidade exige o processo de dedução lógica.

Uma sobreposição da cultura sobre a natureza

Através do uso deste termo, Lacan3 destacava que a filiação é um fato da


linguagem. O ser humano insere-se na cultura pela filiação, esta é transmitida
pelo testemunho, pela palavra, logos.
É no "nome-do-pai" que devemos reconhecer o suporte da função simbólica
que, desde a aurora dos tempos históricos, identifica sua pessoa à figura da
lei.4 Ou seja, trata-se de uma função cujos efeitos são inconscientes.
As relações que o sujeito mantém com a imagem e ações da pessoa que a
encarna são indicadores para a escuta clínica. Supõe-se que, na origem da
humanidade, a dedução lógica teria sido exigida pela pergunta pela
paternidade, pela função do pai na procriação.
Essa era uma questão que exigia ir além do que poderia ser dado através do
acasalamento. O que ordena a filiação é um nome que tem origem na relação
de parentesco e não no acasalamento.
O complexo de Édipo, introduzido pela psicanálise, marca a discordância entre
a função simbólica da ordenação e a encarnação dessa função.
O mito de Édipo ilustra essa discordância entre reconhecimento simbólico
(universalidade) dessa função e as falhas no exercício dessa função
(contingências).
Essa discordância caracteriza o inconsciente como um saber que não se sabe.
O método de acesso a esse saber supõe o trabalho de escuta da equivocidade
de linguagem como uma leitura da equivocidade constitutiva do desejo.
Freud relacionara a equivocidade da linguagem e o inconsciente em "Os
chistes e sua relação com o inconsciente" 5 Uma aproximação entre os
processos inconscientes e os processos de criação de figuras de linguagem,
como as metáforas foi também introduzida por Freud em "A Interpretação dos
sonhos" 6

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Paulo Bregantin - SBPI

A função da Metáfora

A expressão Nome-do-Pai conota a relação simbólica com as palavras.7


A primazia da relação com os significantes, chamados por Freud de
representantes das representações (Sachvorstellungen).8
Entre as formas equívocas de linguagem, encontramos as metáforas. Para
destacar a equivocidade do desejo, Lacan recorreu ao uso de expressões
também equívocas. Uma delas é metáfora do nome-do-pai” (Nom-du-Père),
que equivale simultaneamente a “nome-do-pai” e “não-do-pai”.
Metáfora é o processo e o efeito do que é substituído e, em ausência,
representado. De modo que, substituindo um par significante por outro par
significante, temos metáfora. E a relação que falta (ausente), se faz representar
(se faz presente porque está ausente) na relação que a substituiu.
O sujeito se ausenta (se eclipsa) ao se fazer representar, no simbólico, pelo par
significante. Esse sujeito intervalar, eclipsado, é aquele que se fez representar
no Outro, se deixando levar pelo efeito de sua fala. O aforismo que melhor
apresenta essa concepção diz: “O inconsciente é o discurso do Outro”.9

O significante pai introduz um corte, que é a diferença entre as gerações, a


série de gerações. Pois se no princípio o pai está morto, somente resta o
nome-do-pai, e tudo gira em torno disso.10
No Seminário R.S.I., (inédito), Lacan (1974-1975) aborda os "nomes-do-pai",
assim no plural, a partir do suporte topológico da cadeia borromeana. Esta
estrutura ele toma emprestado datopologia. Inicialmente, Lacan trabalha com
uma cadeia de três enlaces, Real, Simbólico e Imaginário.
O plural implica ainda um número indefinido de enlaces encadeados pelo furo,
o um equivalente ao conjunto vazio. Sem furo não haveria nomeação
(nomination). Os nomes-do-pai seriam nomes primeiros que iniciam uma série,
uma nomeação.

Uso clínico do conceito:

O conceito de "foraclusão do nome-do-pai" foi elaborado por Lacan (1957-


1958)11 no contexto da releitura do "Complexo de Édipo".
O conceito de foraclusão serve para delimitar a estrutura clínica da psicose em
comparação com o uso do termo recalque para a estrutura clínica
da neurose.12
Freud abordava o Édipo a partir da estrutura clínica da neurose.

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Paulo Bregantin - SBPI

Nessa perspectiva, o complexo de Édipo equivaleria à neurose infantil.


Assim, a questão da não dissolução do Édipo remeteria a uma estrutura clínica
neurótica. Lacan vai pensar o Édipo no contexto da constituição do sujeito, que
supõe 1) autoerotismo (correspondendo às pulsões parciais e ao corpo
fragmentado); 2) narcisismo (onde o eu é um objeto com o qual se estabelece
a dialética do estadio do espelho: eu vejo um outro me olhando; 3) Escolha de
objeto e identificação: Édipo e dissolução do édipo. A escolha do objeto se faz
sob a perspectiva de um terceiro, deseja-se o desejo do Outro. Hamlet não
deseja Ofélia senão quando Laerte manifesta que a ama.
Referências

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Lacan, J. (2008). O Seminário: Livro 16. De um Outro ao outro. Rio de
Janeiro: J. Zahar.
2. Ir para cima↑ Freud, S. (1909/1987). Obra Psicológica completa de S.
Freud. O Homem dos ratos (v. IX). Rio de Janeiro: Imago.
3. Ir para cima↑ Lacan, J. (1998b). O Seminário: Livro 5: As formações do
inconsciente. RJ: J. Zahar.
4. Ir para cima↑ Lacan, J. (1998c). Função e campo da fala e da linguagem
em psicanálise. In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 279.
5. Ir para cima↑ Freud, S. (1905c). Os Chistes e sua relação com o
inconsciente. Obra Psicológica completa de S. F. 2.ed. Rio de Janeiro:
Imago, 1987.
6. Ir para cima↑ Freud, S. (1900/2013). A interpretação dos Sonhos. Porto
Alegre: L&PM.
7. Ir para cima↑ Lacan, J. (1998b). O Seminário: livro 5. As formações do
inconsciente. Rio de Janeiro: J. Zahar.
8. Ir para cima↑ Freud, S. (1915). O inconsciente. Rio de Janeiro: Imago,
2004.
9. Ir para cima↑ Lacan, J. (1998a). O Seminário sobre a carta roubada.
In Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, p. 18.
10. Ir para cima↑ Porge, E. (1998). Os nomes do pai. Rio de Janeiro: Cia.
de Freud.
11. Ir para cima↑ Lacan, J. (1998b). O Seminário: livro 5. As formações do
inconsciente. Rio de Janeiro: J. Zahar.
12. Ir para cima↑ Lacan, J. (1998). Escritos. RJ: J. Zahar

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Paulo Bregantin - SBPI

Acho que vale falarmos mais um pouco sobre:

O que é o objeto “a” para Lacan?

É Uma teoria do próprio Lacan, onde o “objeto “a”” significa NÃO a letra a do
alfabeto mas sim um símbolo “a”(autre – outro).

Na teoria lacaniana existe o “outro” com “a” minúsculo e o Outro com “A”
maiúsculo.

O Outro “A” maiúsculo antropomórficas(forma semelhante ao homem) do poder


de sobre determinação da cadeia significante.

O outro “a” designa nosso “objeto” ,ou seja, nosso semelhante.

Quem é o outro? Quem é meu semelhante?

Freud em “luto e melancolia” fala sobre a “pessoa” perdida como “Objeto”, ou


seja, o outro.

Lacan utiliza-se disso para descrever sobre o a pessoa (o outro) como objeto
“a”

Freud diz: Quem é essa pessoa amada e agora desaparecida, de quem faço
luto?

Freud chama de “objeto” e Lacan chama de objeto “a”

“Li ‘Luto e Melancolia’”, confidencia Lacan, “e bastou eu me deixar guiar por


esse texto para encontrar o objeto “a”. Isso significa que o outro desaparecido
se chame objeto “a”.

Quem é ele? É um corpo? É uma imagem? É uma representação simbólica?

Coloquemo-nos no lugar do analisando, que deita no divã, pergunta a si


mesmo: Quem é essa presença atrás de mim? É uma voz? Uma respiração?
Um sonho? Um produto do meu pensamento? Quem é o outro?

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Paulo Bregantin - SBPI

A Psicanálise não responderá que o “outro é...” mas limitará a dizer: “para
responder a essa pergunta, construamos o “objeto a”. A letra “a” é uma
maneira de nomear a dificuldade; ela surge no lugar de uma não-resposta.

Lembre do “espírito” do procedimento lacaniano, que, em vez de resolver um


problema, dá-lhe um nome.

O objeto “a” para Lacan, é apenas uma letra, nada além de uma letra “a”, uma
letra que tem a função central de nomear um problema não resolvido, ou,
melhor ainda, de expressar uma ausência. Que ausência? A Ausência de
resposta a uma pergunta que insiste sem parar...

Logo o objeto “a” é forma de contornarmos a rocha do impossível.

O outro então é no contexto geral: uma imagem, uma parte do meu próprio
corpo, um traço da humanidade, um traço da minha história e da própria
história em geral. ( Texto de Freud intitulado “psicologia das massas e análise
do ego”.

Lacan define: O sujeito é o traço comum dos objetos amados e perdidos no


curso da vida. A isso Lacan chamou de traço UNÁRIO.

Logo. Quem é o outro?

1- O outro amado é a imagem que amo de mim mesmo. (imaginária)

2- O outro amado é um corpo que prolonga o meu.((fantástica)*

3- O outro é um traço repetitivo com o qual me identifico. (simbólica)

* Lacan utiliza esse como o outro.

O objeto “a” para Lacan: “ ...o seio, o címbalo (formas fecais), o olhar, a voz;
essas partes destacáveis, mas intrinsecamente ligadas ao corpo, é disso que
se trata no objeto “a”.

Logo, o objeto a é por onde percorre todo o fluxo de “Gozo” pela “borda” dos
orifícios do corpo e, nessa condição, como causa local que move o
inconsciente e o faz trabalhar.

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Paulo Bregantin - SBPI

O Nó Borromeano na História

O Nó borromeano não é uma invenção original de Jacques Lacan. O próprio


Lacan menciona em seu Seminário 20 que o havia notado no brasão da
dinastia da família Borromeo.

O uso que se faz da tríade para representar uma Unidade, também data de
tempos muito antigos.

Lacan usou-o para ilustrar a unidade do Sujeito, o Cristianismo como símbolo


da Santíssima Trindade, etc.

Na matemática da Teoria dos Nós, um entrelaçamento Brunniano é uma


trama de ligação entre três ou mais elementos geométricos que se separam
caso um desses elementos seja removido.

O adjetivo deriva do artigo Über Verkettung (Sobre entrelaçamento), escrito em


1892 pelo matemático alemão Hermann Brunn.

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O nó borromeano é um caso particular, onde o entrelaçamento é de três


elementos circulares (extrema direita da figura abaixo).

Exemplos de entrelaçamento brunniano

O nó recebe o nome de Borromeu e ao uso que foi feito no brasão de uma


família italiana, os Borromeo.

No entanto encontra-se o nó borromeano bem antes disso, como por exemplo


na arte budista afegão do século II.

Percebe-se também algumas apresentações na mitologia grega. O nó


borromeano foram utilizados em diferentes contextos, para simbolizar a força e
unidade, especialmente a religião e as artes. Na psicanálise, o nó borromeano
foi escolhido por Jacques Lacan para discutir a estrutura do sujeito, o que é a
principal razão de sua maior popularidade.

Em uma forma triangular são conhecidas como valknut, símbolo dos mortos de
alguns povos nórdicos. O valknut é encontrado em pedras rúnicas, datadas do
século VII, na Escandinávia.

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Michelangelo Buonarroti (1475-1564) marcava seus blocos de mármore com o


símblo adjacente à letra M. De acordo com o pintor e arquiteto florentino
Giorgio Vasari, os círculos representavam as três artes: escultura, pintura e
arquitetura, que deveriam permanecer juntas e inseparáveis,

Após a morte de Michelangelo, os artistas florentinos o homenagearam


transformando os anéis em coroas de folhas de louro. Elas podem ser vistas
em sua tumba, projetada pelo pintor e arquiteto Giorgio Vasari, ao fundo da
nave lateral da igreja de Santa Croce em Florença.

E, também, em relevo dos anéis concatenados em uma medalha de Cosimo de


Medici (1389-1464). Reparem que não é um entrelaçamento brunniano.

Atenas e o Centauro, pintado por Sandro Botticelli em 1482. O nó borromeano


com seus anéis ilustra o estampado da veste da deusa. Os arabescos dos
anéis são semelhantes ao da medalha de Cosimo de Médici, contemporâneo
do pintor.

Símbolo da Santíssima Trindade cristã. Desenhado a partir de uma ilustração


do século XIII encontrada em um manuscrito francês na cathedral de Chartres,
e como foi reproduzida no livro de Didron “Iconografia Cristã” (1843).

A inscrição da figura ao lado deve ser lida iniciando-se com a palavras unitas,
no centro, e seguindo as sílabas a partir da esquerda em sentido
horário:Unitas Tri-ni-tas, ou seja Um em Três, ilustrando a Trindade dos
nomes do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Para Rabinovich, a estrutura borromeana implica uma equiparação das três


ordens, real, simbólico e imaginário, sendo que cada uma delas tem a mesma
importância que as demais.

Cada um dos anéis se organiza de modo diferenciado do outro. Ao mesmo


tempo, esse processo permite que, depois que essa organização se dê, ela se
auto-anule, pois, uma vez que são intercambiáveis, cada anel pode sempre ser
o outro.

http://www.psicanaliselacaniana.com/estudos/magicoreal.html

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Paulo Bregantin - SBPI

A partir do seminário XIX Lacan introduz a teoria dos nós , nesta fase, uma
psicanálise para o futuro não atribui ao simbólico a sua primazia, como
anteriormente, ao contrário sustentasse existe uma equiparação hierárquica
entre os registros e que essas estruturas se enlaçam: RSI, SIR,IRS, etc. Lacan
introduz um quarto elemento na estrutura o Nome –do Pai: a estrutura do Nó
Borromeano.

RSI (Real – Simbólico – Imaginário)

"O Real é o impossível de abordar, o inefável, o indizível“

Lacan viu pela primeira vez a imagem do nó borromeano durante um jantar,


nas armas de uma dinastia milanesa: a família Borromeu.

Três círculos em foram de trevo se simbolizam uma tríplice aliança, tendo como
sua especificidade o fato de que, se cada um dos anéis for retirado, os outros
três ficarão livres, sem que se forme um par.

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Paulo Bregantin - SBPI

Cada um dos três círculos do nó borromeano representa umas das instâncias


que compõe o aparelho psíquico:

O simbólico, a combinatória sem substância que organiza os significantes;

O imaginário, a dimensão do que se vê ou que se pensa que se vê dos


objetos;

O real, aquilo que, por escapar à possibilidade de recobrimento total pelos


significantes, permanece na zona do inominável.

O nó borromeano, conforme articulado por Lacan no seminário 20 , é formado


por três rodinhas de barbantes que se enlaçam de forma que formam, juntas
um nó.

Cada rodinha representa um dos registros pensados por Lacan e é uma parte
autônoma, intercambiável.

O nó, porém, só ocorre pela amarração da terceira rodinha, que enlaça todas
num único laço.

Lacan propõe o enigma: como fazer para que as rodinhas fiquem juntas de tal
modo que, se uma delas for cortada, as outras fiquem livres?

A resposta do enigma proposto pelo psicanalista é que a segunda rodinha deve


ser dobrada por dentro da primeira e a terceira deve amarrá-la para que se fixe
essa dobra.

O que faz laço entre todas e o que impede que elas façam par é exatamente a
dobra. Impossível entender como se dá essa nodulação sem, ao menos
visualizar a figura. O melhor seria que cada leitor tomasse um tempo para
“experimentar” o nó.

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Paulo Bregantin - SBPI

Matema – o que é?

O termo matema designa um conceito introduzido em 1971 por Jacques


Lacan para descrever o tipo de formalização com alguns conceitos
psicanalíticos centrais poderia ser descrito por uma linguagem formal .

Estas fórmulas que representam simbolicamente os termos de uma estrutura e


relações de seus componentes em conjunto.

A formalização (geralmente com uma provisão diagramas ou captação


de esquemas ) com símbolos discretos (por exemplo, letras,
números, operadores de algoritmos, etc.) que caracterizam um matema não
significa necessariamente que você está apresentando uma fórmula
matemática ou ciências exatas mas muitas vezes é um pouco de abordar a
estrutura da linguagem.

Lacan o termo derivado da palavra "mito" (de Claude Lévi-Strauss ) e da


palavra grega "matemático", que significa conhecimento. 2 A partir dos ditames
seminários Lacan em 1960 e 1970, o que representa uma mudança teórica
para lógica e formalização de fluxo psicanalítica literatura por ele liderada
matemas torna-se prolífico, os fabricantes emprestado terminologia e
formalização de topologia , teoria dos grafos , teoria dos nós , teoria dos
conjuntos e combinatória .

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Paulo Bregantin - SBPI

Imagens de Matemas:

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A Invenção do Real

Lacan diz no seminário o Sinthoma:

(...) eu veiculei muitas coisas chamadas freudianas... mas o que eu chamo real
ou o real, eu inventei, porque isso se impõe a mim. Pode ser que haja alguém
aqui que se lembre como em que momento surgiu esse famoso no que e tudo
aquilo que ha de mais figurativo. E o Maximo que se pode figurar em relação
ao imaginário e ao simbólico, coisas que são tão estranhas uma a outra sendo
o real o elemento que as une”(Op. Cit., p. 132).

O REAL

Freud abordou o real pelos mitos. Pode-se dizer que Lacan pega pelos
“matema”, que são fórmulas sui generis que forçam uma escritura para aquilo
que ainda não teria nome.

O corpo real é o lugar do gozo. Gozo, em psicanálise, significa dor, desgaste,


gasto, exigência. Corpo real é sinônimo de gozo. A lesão psicossomática traz
sempre um traço do real.

O Simbólico

Este registro, considerado prevalente durante todo um período das elaborações


lacanianas, é identificado por Lacan à linguagem.

A ordem simbólica, como conceito de Lacan, está tramada com a noção do


Outro, e também com a formulação do inconsciente “estruturado como uma
linguagem”.

Freud recuperou da Grécia antiga a função essencial do falo e a trouxe para


psicanálise: a função de representação, ou simulacro.

Mais tarde Lacan a retoma, e distingue entre as funções do falo a função


simbólica e a função imaginária. Ele encontra finalmente a significação do falo.

O corpo simbólico é o conjunto ou corpo de significantes que insere o indivíduo


numa ordem simbólica, preestabelecida e veiculada pela linguagem.

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Paulo Bregantin - SBPI

As leis da cultura e da linguagem onde o indivíduo se insere são designadas


pela ordem simbólica. Nesse sentido, o simbólico é a cultura, que é anterior ao
indivíduo.

A articulação cultura/indivíduo é fundada e constituída pela dimensão


simbólica.

Para Lévi-Strauss, "toda cultura pode ser considerada como um conjunto de


sistemas simbólicos, no topo dos quais se situam a linguagem, as regras
matrimoniais, as relações econômicas, a arte, a ciência e a religião”.

O Imaginário

Desde cedo, em sua obra Lacan vai trabalhar a função das imagens na
subjetividade, e o espelho como o lugar e a figura por onde se organiza o que
circula entre o humano e seu mundo de representação (imaginárias).

Com Freud, o pênis é promovido a único órgão que suporta o atributo fálico.
Ele domina no imaginário pela presença, e, até a declinação do Édipo, a vagina
é excluída como inexistente. O pênis prevalece em relação ao clitóris, e
também pela possibilidade do prazer decorrente de ser órgão visível.

É a partir desta valorização que o homem pode “dar” à mulher o falo, enquanto
esta recebe, “dando” os filhos em troca. O que está em jogo é uma equação:
Falo=criança.

O corpo imaginário é a imagem externa que desperta o sentido em um


indivíduo. A imagem que eu tenho do meu corpo me foi dada a perceber a
partir de fora, vista pelo outro.

Portanto, eu me vejo como fui vista. Minha imagem foi projetada e me foi
devolvida. Preciso, então, do outro para me constituir enquanto imagem e para
ter acesso à linguagem e aos significantes.

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Paulo Bregantin - SBPI

Vale muito ler esse trabalho na integra:


http://www.psicanaliseefilosofia.com.br/adverbum/vol5_2/05_02_08estudonobor
romeano.pdf - “UM ESTUDO SOBRE O SINTHOMA BORROMEANO”

UM ESTUDO SOBRE O SINTHOMA BORROMEANO

(A Study on the Borromean Sympthom)

Maria Cristina de Távora Sparano1

Resumo: “O último ensino de Lacan (1975/76) é o ensino dos nós. O suporte


teórico é a topologia situando as dimensões do Real, do Simbólico e do
Imaginário sendo que, a esses três elementos, Lacan acrescenta um quarto, o
Sinthoma. O ensino de Lacan a partir do Sinthoma conduz o percurso analítico
a abordar o real pelo escrito, daquilo que “não cessa de não se escrever” – a
contingencia inicial do gozo que traça nosso destino. Lacan indica através do
real esse saber do “não sentido” que acomete o $ com a possibilidade de situá-
lo além de um discurso que seja apenas de um semblante. “

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Paulo Bregantin - SBPI

O ESTÁDIO DO ESPELHO.

A função fundamental do Édipo aparece como coextensiva à função


paterna.Presença Paterna.

Inconsistência paterna –ausência, carências e outras.

“O “estádio do espelho” ordena-se essencialmente a partir de uma experiência


de identificação fundamental, durante a qual a criança faz a conquista da
imagem de seu próprio corpo.” (DOR, PÀG78).

A identificação da criança com este imagem irá promover a estruturação do


“EU”, terminando com essa vivência psíquica singular que Lacan designa como
fantasma esfacelado.

 Três momentos:

Imaginário

1- A criança percebe a imagem do corpo como um ser real de quem ela


procura se aproximar ou aprender;

EX. Vê a outra criança cair e chora

Bate e diz ter sido batida

 Identificatório

2- A criança descobre que o outro no espelho não é real e sim uma imagem.

Aprende a distinguir a imagem do outro do real

 Dialogo das duas etapas

3- A criança adquire a convicção de que o que esta no espelho nada mais é do


que uma imagem.

Reconhecendo através desta imagem a criança recupera a dispersão do corpo


esfacelado em uma totalidade unificada, que é a representação do próprio
corpo.

A imagem do corpo é, portanto estruturante para a identidade do sujeito.

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Paulo Bregantin - SBPI

Aconselho a leitura para entendimento apropriado da Posição do Estágio do


Espelho:

“Posição do estágio do espelho na teoria lacaniana do imaginário”

Léa Silveira Sales★

E, também:

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0006-
59432008000200002&script=sci_arttext

“A metáfora na teoria lacaniana: o estádio do espelho”

Helena Amstalden Imanishi*Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo

RESUMO

“O presente artigo busca discutir o papel e o aparecimento da metáfora na


construção da obra de Lacan, através da análise de uma metáfora específica de sua
teoria e fundamental na sua construção e sustentação: a “metáfora do espelho”. É
em torno desta analogia que Lacan articula suas hipóteses sobre a constituição do
Eu (Je) e aponta para o fundamental papel do Outro neste processo. A análise
sugere que a metáfora na obra de Lacan não possui apenas funções estéticas e
retóricas, como também cognitivas.”

Palavras-Chave: Metáfora, Lacan, Estádio do espelho.

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Paulo Bregantin - SBPI

Fantasia – o que é para Lacan?

Para entender o objeto a é fundamental entender o que é a fantasia dentro do


atendimento. Fantasia é a forma de descobrir o objeto a(furo, o mais-gozar)
através do silêncio significativo e qualitativo. É a escuta ativa que Freud ensina.

Na realidade o objeto a é o diferencial do Psicanalista referente a ação


transferencial.

O Psicanalista NÃO é um Padre, Líder, etc.

Dois traços específicos diferenciam o Psicanalista(análise) dos vínculos


sociais:

1- O Papel particular do Psicanalista(que decorre do gozo )

2- A fala particular do analisando(A fala do inconsciente)

Esses são os dois Pilares da Psicanálise: O Inconsciente e o Gozo

Qual diferença entre uma Análise e um “fiel” se confessando a um padre?

Freud define a diferença entre: O fiel no confessionário confessa ao padre tudo


que sabe.

Para o Psicanalista tudo aquilo que sabe , bem como tudo o que NÃO sabe.

Por isso, a “escuta” é fundamental na análise. De uma escuta à espera do


acontecimento e a da fala do analisando que supõe a essa escuta.

Entre o Analista e Analisando a relação NÃO é entre duas pessoas, mas sim
“Um Único Lugar Psíquico” é a vida psíquica do “entre-dois” Analista e
analisando.

Esse é o lugar onde o Psicanalista é a própria “Pulsão” segundo Freud, ou o


lugar onde o inconsciente se manifesta e, é reconhecimento e transposto ao
analisando e vice-versa.

Como reconhecer uma fantasia inconsciente na análise e, ao reconhecê-la,


reconstruí-la?

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Paulo Bregantin - SBPI

1- A fantasia comporta: Uma cena, personagens – em geral, pouco numerosos


– uma ação, um afeto predominante e a presença, na cena, de uma parte
definida do corpo.

2- A fantasia se exprime, não somente através do relato do analisando, mas,


por vezes, em suas ações, seus sonhos e seus devaneios.

3- A fantasia exprime-se através de um relato ou de um ato que se repete e


que, em geral, permanece inesquecível. Ele se repete no contexto de uma
sessão, de várias sessões de análise, ou até ao longo da vida do sujeito.

4- O analisando relata minuciosamente, mas considera enigmático. Ele


descreve todos os seus aspectos, sabe estar intimamente implicado e até
reconhece a emoção, que essa fantasia desperta nele.

5- Sua fantasia vez por outra , é o estímulo necessário, o desencadeador que


permite obter o prazer de um orgasmo. Repete independente a sua vontade.

6- trata de um relato que retrata uma cena, imaginada com seus locais, suas
cores, sua época, sua luz e seus sons.

7- Convém discernir os personagens da cena em: Criança-adulto, criança-


animais, terapeuta-criança. Perguntar se o analisando está presente na
fantasia e, qual é seu papel: protagonista ou coadjuvante.

8- o verbo que acontece a fantasia é muito importante, pois é o significante do


acontecido, por exemplo: “ a criança foi mordida”

Resumo: os indícios que permitem discernir uma fantasia inconsciente num


dado momento da análise são; a repetição do relato; caráter enigmático e
surpreendente do roteiro que impõe ao sujeito; os personagens da cena; a
ação exibida; o afeto dominante; a parte do corpo implicada e, por fim, o roteiro
perverso.

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Paulo Bregantin - SBPI

A lógica da fantasia

Quais são a estrutura, o mecanismo e a função de uma fantasia inconsciente


no decorrer do processo analítico?

Basicamente são quatro elementos da fantasia:

1- Um sujeito

2- Um objeto

3-Um significante

4-Imagens

Obs.: Na fantasia somos aquilo que perdemos.

A dinâmica da transferência é a dinâmica da fantasia.

Lacan diz: que o “sujeito desaparece dentro atrás do objeto”

S a ( o objeto a é a causa motora da fantasia, e o significante (representado


pelo ) é sua causa eficiente.

Quando um analisando deixa transparecer, através de seu relato ou de seus


atos, a estrutura de uma fantasia, não hesitamos em concluir que o sujeito
dessa fantasia não é ele, o paciente, e sim o objeto do desejo e o
significante(verbo) que marca o lugar desse objeto.

Vale ler um pouco mais sobre Fantasia nesse ótimo trabalho:

“A ficcionalidade do trauma em Freud e Lacan.

A fantasia é um conceito importante no arcabouço teórico da psicanálise, pois


já em seu advento Freud se deparou, no tratamento da histeria, com uma
realidade que não pode ser considerada factual, mas sim psíquica.

O mesmo podemos falar sobre a questão do trauma, pois seu aparecimento na


teoria psicanalítica se confunde com o nascimento da mesma, e desde então
passou a gozar de um lugar privilegiado tanto em Freud como em Lacan.

Já em 1897, no rascunho N da carta 64 a Fliess, Freud identifica um enredo


novo em sua tentativa de desvendar os mecanismos das neuroses, sob uma
penumbra de ódio e desejo, inveja e agressividade, começa a ser descoberto o
papel fundamental das fantasias no seio da neurose e da estruturação do

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Paulo Bregantin - SBPI

aparelho psíquico, e com isto nasce uma relação profícua e indissolúvel entre
psicanálise, ficção e arte.

Rivera (2005) nos lembra das referências constantes das obras literárias na
obra de Freud, onde as mesmas, fundamentalmente se constituem como fonte
privilegiada de conhecimento sobre o inconsciente, tal como acontecia com
seus pacientes.

Para a psicanalise a arte a e a ficção literária em especial, acabam assumindo


importância vital, pois ao serem exploradas propiciam a legitimação do alcance
universal das hipóteses clínicas, faceta que promove a ultrapassagem dos
interesses psicopatológico e terapêutico dos achados freudianos para a
materialização de uma verdadeira teoria do homem.

A psicanalise estaria talvez mais próxima do campo da criação literária do que


da pesquisa científica, fato que não desqualifica o saber psicanalítico, muito
pelo contrário, pois, por mais cientificista que Freud tente ser, a própria matéria
de que se trata no campo da psicanalise talvez o obrigue a se fazer poeta.

Ele surpreende-se, assim, com o fato de seus estudos de caso poderem ser
lidos como romances, e reconhece que a ficção é o modo pelo qual se constitui
o homem. Uma teoria do homem deve, portanto, retomar esse movimento de
criação ficcional, fazendo-se um pouco literatura. (RIVERA,2005, p. 8)

Vemos entrar em cena a fantasia como elemento fundamental para a


compreensão dos processos psíquicos normais e patológicos. Neste sentido, já
no nascimento da psicanalise observamos que, na medida em que Freud se
aproxima gradativamente da questão da realidade psíquica e do papel das
fantasias no surgimento do trauma, se distancia da necessidade de explicação
da materialidade do trauma, pois, como nos diz Roudinesco (1998) Freud
passa a se dar conta do quanto a fantasia diz respeito à vida imaginária do
sujeito, e a forma pela qual este representa para si a sua história ou a história
de sua origem.

Assim, com o afastamento da teoria da sedução e a consequente entrada em


cena das fantasias inconscientes como estruturantes da neurose e da vida dita
“normal”, Freud selou definitivamente o parentesco da psicanálise com ficção.
Segundo Freud no inconsciente não encontramos indicação da realidade,
assim a relação entre verdade e ficção precisa levar em conta este dado.

Rouanet (1996) aponta como a fantasia possui uma estrutura semelhante a


uma narrativa de ficção, e a literatura, que por sua vez, tem sua origem na
fantasia e no princípio de prazer, assume uma posição central para Freud. A
fantasia é antes de tudo uma “história que o indivíduo conta para si mesmo, na
qual ele vence todos os obstáculos e satisfaz todos os seus desejos.

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Paulo Bregantin - SBPI

Ora, é justamente essa a forma elementar da narrativa literária, cujo


personagem principal, em última análise, é ‘Sua Majestade o Ego’” (ROUANET,
1996, p. 16). Se até então o sofrimento psíquico era causado pelo trauma de
uma sedução de um adulto, a partir da entrada em cena da ficcionalidade a
materialidade do trauma passa a ser contestada. O trauma não mais se
sustenta enquanto acontecimento factual, pois a experiência traumática está
irremediavelmente ligada ao ficcional. A fantasia carregada de afeto passa a
ser traumática, ou seja, o trauma fica, mas no registro da fantasia.

A verdade material precisou ser questionada em nome da realidade psíquica, a


favor de uma verdade que segue as leis do desejo inconsciente e não do
discurso racional cartesiano de um homem plenamente consciente de si. Longe
disto, a verdade de um Trauma realmente concretizado e datado, contado
pelas histéricas de Freud, servia para mascarar a fissura que caracteriza o
aparelho psíquico, o que Freud veio a descobrir é que o homem não consegue
se reconhecer em seu próprio discurso, abalando assim suas verdades e
certezas, redimensionando suas relações com a realidade material,
promovendo assim um verdadeiro corte epistemológico no pensamento
ocidental.

Deitados no divã, narramos nosso drama, nomeamos personagens e lhe


devolvemos seus devidos afetos. O espaço analítico consiste no lugar por
excelência de atualização de nossas fantasias, onde narramos nossas histórias
para alguém que ocupa uma posição de receptáculo de nossas fantasias e
devaneios com toda carga de afetos.

Ou seja, a narrativa de uma análise objetiva o desvendamento, passo a passo,


de nossa tragédia pessoal, tal como nos foi dito por Freud ([1900] 1996) sobre
a peça de Édipo Rei de Sófocles,assim:

A ação da peça não consiste em nada além do processo de revelação, com


engenhosos adiamentos e sensação sempre presente – um processo que pode
ser comparado ao trabalho de uma psicanálise – de que o próprio Édipo é o
assassino de Laio, mas também de que é o filho do homem assassinado e de
Jocasta.

Estarrecido ante o ato abominável que inadvertidamente perpetrara, Édipo


cega a si próprio e abandona o lar. A predição do oráculo fora cumprida (p.
288).

Observamos quedurante o percurso de desvendamento do enigma do


inconsciente, Freud se depara com a necessidade de afastamento gradativo do
saber instituído da ciência de seu tempo, ao passo que sua relação com o

95
Paulo Bregantin - SBPI

campo ficcional era cada vez mais estreito, configurando assim uma
aproximação irreversível com a fantasia, sendo agora o artista, e não mais o
cientista seu maior interlocutor.

Freud colocou arte e ficção em lugares especiais no seu pensamento, ambas


constituem um espaço de excelência do processo primário no centro da
realidade cotidiana. No entanto, Freud concentrou a maioria das suas
discussões sobre a ficção no contexto de sua primeira teoria pulsional, e,
portanto, sob a égide do princípio do prazer.

Todavia, após 1919 com “O Estranho” e logo em seguida (1920) em “Além do


princípio do prazer”, arte e ficção passam a estar relacionadas com o
inominável agora localizado onde a linguagem não tem alcance, pois está para
além do psiquismo, onde o nada anterior ao psiquismo retorna enquanto tal.
Assim, neste momento de virada da obra freudiana em direção ao psiquismo
regido por um além do princípio do prazer em que a pulsão de morte mostra
sua face mortífera, onde a linguagem apresenta-se impossibilitada de contornar
aquilo que escapa ao representacional, a ficção e trauma estão enlaçados
agora por um aparelho psíquico que se furta ao representacional.

Sobre a questão do trauma e sua relação com a ficcionalidade, Lacan, ensina


que no momento em que a angústia do desamparo é da ordem do
irrepresentável, a ficção se apresenta com recurso de extrema importância
para oferecer suplência na tentativa de apreensão da experiência traumática do
real, daquilo que é impossível de dizer e do que foge a representação.

Lacan nos mostra como o trauma e a angústia apresentam íntima relação com
a fantasia, onde a mesma é convocada para apaziguar o sujeito frente ao
desamparo, sempre desamparo do Outro. Aqui entendemos o traumático a
partir do contato inesperado e momentâneo com o real excedente que escapa
ao simbólico.

Neste sentido, o excesso de gozo representaria verdadeiro trauma pela


impossibilidade de ser coberto pela significação, e aqui a fantasia entraria com
papel estratégico de resposta do neurótico ao gozo do trauma.

A fantasia oferece, então, suplência frente ao traumático, que por sua entrada
no real remete o sujeito no vácuo da falta de significação, no desamparo frente
à impossibilidade de representação, o impossível de dizer.

Assim, pretendemos, partindo da noção de trauma em Freud e Lacan, pensar a


questão da ficcionalidade do trauma, de como a ficção pode operar o estatuto
da verdade do sujeito, e de como este conhecimento se sustenta entro dos
espaços universitários, com seus rigores cientificistas. Pois, diferente das
conotações de falseamento e de não verdade dadas ao ficcional, a psicanálise

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Paulo Bregantin - SBPI

a usa como importante recurso para o entendimento do funcionamento


psíquico e da forma de o individuo lida com seu desejo na contemporaneidade,
assim como um importante elemento para entender a questão do trauma,
sendo o mesmo assunto cada vez mais recorrente em nossa
contemporaneidade marcada pela violência, catástrofes, acidentes, etc.

Acreditamos que ao legitimar a verdade do trauma na sua relação com a


fantasia, a psicanálise acaba sendo alvo de críticas que chegam de todos os
lados, principalmente em tempos de uso cada vez mais abusivo de
psicofármacos e de resgate de práticas que negam a existência do sujeito do
desejo. Assim Roudinesco (2000) nos mostra como os cientistas sempre
consideraram a psicanalise como uma hermenêutica por não depender de
experimentação, por não apresentar provas materiais e resultados tangíveis,
seria apenas um sistema de interpretação literária dos afetos e dos desejos.
Vozes que ainda ressoam nos espaços acadêmicos.

Sobre esta discussão Zizec (2010) nos fala de uma aparente ideia de que a
psicanálise se encontra obsoleta nos dias atuais a partir de três níveis que
atuam interligados, a saber:

1-o do conhecimento científico, que ao encarnar o modelo cognitivista-


neurobiológico da mente humana parece suplantar o modelo freudiano;

2- se junta a isto o fortalecimento da clínica psiquiátrica, em que o tratamento


psicanalítico está perdendo terreno rapidamente para pílulas e terapia
comportamental; e finalmente

3- o do contexto social, em que a imagem freudiana de uma sociedade de


normas sociais que reprimem as pulsões sexuais do indivíduo não soa mais
como uma explicação válida para a permissividade hedonística que hoje
predomina.

No entanto Zizec nos fala que a psicanálise não está ultrapassada e vai além
ao dizer que só hoje o tempo dela está chegando:

Vistos através dos olhos de Lacan, através do que Lacan chama de seu
“retorno a Freud”, os insigths fundamentais de Freud emergem finalmente em
sua verdadeira dimensão. Lacan compreendeu esse retorno como um retorno
não ao que Freud disse, mas ao âmago da revolução freudiana, da qual o
próprio Freud não tinha plena consciência.” (ZIZEC, 2010, p. 9)

Assim, entendemos como de extrema importância levantarmos reflexões sobre


o trauma, conceito de extrema importância para a psicanalise, pois como nos
diz Rudge (2009) na contemporaneidade os debates sobre o trauma
“caminham hoje para uma crítica da sociedade contemporânea, ou seja, dos

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Paulo Bregantin - SBPI

fatores históricos e sociológicos que podem afetar de modo nocivo a maneira


de ser do sujeito” (p. 7).

A atualidade do tema em sua relação com a fantasia se mostra, desta forma,


de grande relevância, principalmente quando a psicanalise se propõe a
interlocução com o saber universitário, momento propício para a teoria
psicanalítica ratificar sua aproximação com o ficcional e propõe outras formas
de pensar a verdade do sujeito e o saber sobre as formas de subjetivação da
contemporaneidade.

Bibliografia

FREUD, Sigmund, Edição Standard Brasileira das Obras Completas – (ESB).


Rio de Janeiro: Imago, 1996.

____________. (1897). Carta 64 de Freud a Fliess. In: ESB. V. III

____________. (1900). A interpretação de sonhos. In: ESB. V. IV

____________. (1919). O Estranho. In: ESB. V. XVII.

LACAN, J. O seminário. Livro 7. A éticada psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge


Zahar, 1988.

RIVERA, T. Guimarães Rosa e a psicanálise; ensaios sobre imagem e escrita.


– Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. ROUANET, S. P. Filósofos e
escritores alemães. In PERESTRELLO, M. A formação cultural de Freud. – Rio
de Janeiro: Imago Ed., 1996. ROUDINESCO. E. Por que a psicanálise? – Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.

RUDGE, Ana Maria. Trauma. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2009.

SCHERMANN, E. Z. Sobre a angústia, o trauma e a fantasia. Revista Pulsional.


Ano XIX, Nº 186, junho/2006.

ZIZEC, S. Como ler Lacan. – Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

Alex Wagner Leal Magalhães, psicólogo, mestre em psicologia clínica pela


Universidade Federal do Pará, professor de disciplinas de psicanálise e
supervisor de estágio profissional em psicologia clínica (psicanálise) do curso
de psicologia da Faculdade SEAMA (Amapá)”

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Paulo Bregantin - SBPI

Trabalho de finalização do módulo Lacan:

http://www.filmesonlinegratis.net/assistir-tao-forte-e-tao-perto-dublado-
online.html

Aos 11 anos de idade, Oskar Schell é uma criança excepcional: inventor


amador, admirador da cultura francesa, pacifista. Depois de encontrar uma
misteriosa chave que pertencia a seu pai, que morreu no World Trade Center
no 11/09, ele embarca em uma incrível jornada – uma urgente e secreta busca
por um segredo pelas cinco regiões de Nova York. Enquanto Oskar vaga pela
cidade, ele encontra pessoas de topos os tipos, todos sobreviventes em seus
próprios caminhos. Por fim, a jornada de Oskar termina onde começou, mas
com o consolo da experiência mais humana de todas: o amor.

Assistir o Filme “Tão forte e Tão perto” e analisar:

Quais são os “sintomas” de Oskar Schell.

Qual o “Objeto a”, para Oskar Schell.

Quais os “signos, significados e significantes” Oskar Schell mais evidentes.

Perceba uma ou mais Metáforas/Metonímia durante as cenas e falas de Oskar


Schell

Quem é o “outro/Outro” para Oskar Schell.

Quem é “sujeito do Inconsciente” para Oskar Schell

O que é o “Real, Simbólico e Imaginário” para Oskar Schell.

Qual o papel do Pai, da mãe, dos avós e de cada pessoa que Oskar Schell
visita?

Perceba no filme os “Matemas” de Oskar Schell.

Perceba e descreve uma ou mais “fantasia” de Oskar Schell.

Descreve com suas palavras(significantes) o que sentiu assistindo o filme.

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Paulo Bregantin - SBPI

Um pouco sobre o filme:

TÃO FORTE E TÃO PERTO:

Muitas pessoas, mesmo que involuntariamente, lembram-se o que estavam


fazendo quando viram, pela TV, o ataque ao World Trade Center no icônico 11
de setembro de 2001. Eu, que estava no Exército, tive uma sensação de medo
indescritível quando recebi a sensacionalista notícia: “Freitas, atacaram os
EUA! Vamos para a guerra!”.

Exageros à parte do meu colega recruta, o mundo mudou de diversas formas


depois daquela manhã. Isso é incontestável. Os norte-americanos não
permitiam que se tocasse no assunto Torres Gêmeas durante um bom tempo
mas, como a arte imita a vida, passada uma boa parte do trauma, o fato se
tornou tema de livros e filmes que tocaram na ferida.

Nas telas, longas como Voo United 93 e Torres Gêmeas tocaram na ferida,
porém uma outra obra chamou a atenção por tratar o tema pelo olhar de uma
criança afetada diretamente pela tragédia que matou centenas de
pessoas. Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, livro lançado em 2005 pelo
escritor norte-americano Jonathan Safran Foer, conta a saga de um garoto de
9 anos em se ater à memória do pai morto que trabalhava em um dos prédios
do WTC.
Autor de Tudo se Ilumina (que se tornou um longa metragem extremamente
competente com o título Uma Vida Iluminada), Foer teve sua segunda obra
transposta para as telas com o título Tão Forte e Tão Perto no Brasil. Com
roteiro adaptado por Eric Roth (Forrest Gump – O Contador de Histórias) e
direção de Stephen Daldry (da trinca de ouro Billy Elliot, As Horas e O Leitor).
Indicado ao Oscar 2012 de Melhor Filme e Melhor Ator Coadjuvante (Max Von
Sydow),Tão Forte e Tão Perto, na verdade, desperdiçou uma ótima história em
um filme que tropeça justamente na sua peça principal: o ator escolhido para
protagonista. Assim, somos forçados a aguentar o insuportável Thomas Horn,
que dá vida a Oskar Shell que, após a morte do pai (Tom Hanks), encontra
uma chave escondida em um envelope com a palavra Black escrita. Sempre
incentivado pelo lúdico pai a se aventurar – seja na imaginação ou na vida real
– ele começa uma jornada audaciosa: procurar por toda a cidade as pessoas

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Paulo Bregantin - SBPI

com o sobrenome Black para, assim, entender o que aquela chave será capaz
de desvendar. Para isso, conta com a ajuda d’O Inquilino (Von Sydow), um
idoso mudo que esconde um grande segredo envolvendo a família do garoto.
Assim, vamos conhecendo a vida de dores e alegrias de cada Black ao longo
do caminho de Oskar e O Inquilino, de um filme de menor qualidade, porém
ainda bem dirigido pelo talentoso Daldry. E neste vai e vem de personagens,
que inclui Viola Davis (indicada ao Oscar de Melhor Atriz por Histórias
Cruzadas), John Goodman (presente também no vencedor O Artista) e Sandra
Bullock (que interpreta a mãe do menino), o foco é mesmo o trauma da morte
do pai no garoto. Porém, quando temos um protagonista que não cria empatia,
tudo tende a ir por água abaixo.

Neste caso, tentei abstrair a questão Thomas Horn e imaginei como o filme é
um exemplo contundente e preocupante da questão dos efeitos de um evento
traumático na vida de uma criança. O problema já preocupa a comunidade
médica, que tem visto crianças lotando cada vez mais os consultórios de
psicanálise. Em Oskar observamos, por meio de flashbacks, como um dia
comum pode mudar nossa vida para sempre. Para ele, o 11/09, sempre
chamado de “o pior dia”, um filme inquietante em sua aparente calmaria.

A escritora Clarice Lispector dizia: “saudade é um pouco como fome; só passa


quando se come a presença”. E é isto o que se passa com o garoto diante da
ausência doída do pai. Neste paradoxo da maturidade imatura de Oskar,
muitos de nós tentamos nos colocar em seu lugar, lembrando como é difícil
seguir em frente após a perda de alguém querido; especialmente, se a
separação se dá de forma inesperada, repentina. Quando Sigmund Freud
escreveu, em 1915, o artigo “Reflexões para os tempos de guerra e morte”, o
mundo estava no auge da Primeira Guerra Mundial, onde o planeta inaugurava
o primeiro grande conflito em massa da História, destacando que nos sentimos
imortais, ou seja, não estamos convencidos de nosso próprio fim. E o pior:

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Paulo Bregantin - SBPI

inconscientemente, não nos damos conta que o fim do outro também é questão
de tempo.

Para muitas pessoas, falar da única certeza que se tem na vida é considerado
morbidez. Falar de morte, a meu ver, faz parte da vida e deve ser encarada,
como uma questão inevitável e natural. Dois anos depois Freud escreveu “Luto
e melancolia”, abordando a morte e as consequências dela para quem fica.
Nada mais propício, vindo de um homem que perdeu dois filhos e um neto e
explicitou que a morte é ruim, mesmo, para os vivos. Diante de Oskar, lembrar
da voz do pai, do cheiro, do toque, tudo isso o dilacera de forma preocupante e
velada, deixando a mãe praticamente impossibilitada de interferir.

Observando Oskar, o problema é que o luto se transforma em uma sensação


de morrer junto, uma incapacidade de se separar do objeto perdido – uma
tentativa desesperada de resgatar algo do pai, prolongando a dor ao invés de
aceitá-la. Para isso, é necessário vivenciar e lidar com as emoções e
problemas da perda. Os sintomas desta melancolia vão desde o desinteresse
pelo mundo externo à perda da capacidade de amar, com o foco apenas na
decisão de encontrar a função da tal chave e hostilizar a mãe. Além disso, a
autorrecriminação do menino, que se culpa pela morte do pai, o leva à
automutilação, em uma punição delirante. E assim, conforme analisou o
psiquiatra norte-americano Karl Menninger, ferir-se se soma a uma atitude
desesperada de ser ouvido quando não consegue falar e, ainda por cima, sentir
algo – nem que seja dor – diante da sensação de vazio que lhe consome.
Resumindo, é a fuga da real dor que o ser humano reluta em enfrentar.

No comportamento de Oskar, com sintomas de crises de angústia, alucinações


e neuroses tornam-se comuns diante de situações como conglomerados de
pessoas ou barulhos da cidade grande e cujo conforto só é encontrado – ora
distante, ora acalentador – n’O Inquilino, que assume temporariamente a figura
paterna que tanto lhe falta. Para Freud, esta “invasão brutal da pulsão” que não
encontra no ser o sustento forte o suficiente para ampará-la, o limita em suas
próprias pulsões, revivendo continuamente o trauma e fazendo com que o que
deveriam ser memórias se tornem revivências constantes do trauma. Para o
psicanalista austríaco, pela sua teoria de compulsão e repetição tal círculo
vicioso acaba por estagnar a vida do indivíduo.

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Paulo Bregantin - SBPI

E para seguir em frente, deve-se honrar aqueles que partiram, vivendo para si
e por eles o tempo que ainda resta. A despedida, inevitável e dolorosa, pode
demorar, mas sempre virá. De qualquer forma, a saudade perpetuará diante da
perda de um ente querido, mas se prender a ela só prolonga o sentimento.
Lembrando de uma das cenas mais marcantes de Reencontrando a Felicidade,
em que Becca (personagem de Nicole Kidman), que sofre com o luto recente
da morte do filho de 4 anos, pergunta à mãe, que também sofreu com a morte
de um filho, se um dia a dor vai embora, vê-se como suportar tal ausência. Ela,
em onze anos de luto, responde: “o peso da dor muda, eu acho. Em algum
ponto, torna-se suportável. Ela se transforma em algo como um tijolo no bolso.
E você pode até esquecer por um tempo que ele está lá. Mas, então, por
alguma razão, essa dor pesa e você percebe que ela ainda está lá”. Ou seja,
fugir da dor é inevitável, mas aprender a conviver com ela é inacreditavelmente
possível.

Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud and Incredibly Close)


EUA, 2011, 129 min.
Direção: Stephen Daldry
Roteiro: Eric Roth, baseado em romance de Jonathan Safran Foer
Com: Tom Hanks, Thomas Horn, Sandra Bullock, Zoe Caldwell, Dennis Hearn

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Paulo Bregantin - SBPI

O quarto nó

Lacan adota a grafia sinthome, "forma antiga de escrever o que foi


posteriormente escrito symptôme",(Op. cit., p. 11) e fundamenta a distinção que
faz recorrendo a etimologia da palavra symptôme, onde ptôma, do grego,
significa queda.

O sintoma, que se espera que caia durante a analise, não e o mesmo que
sinthome, da antiga grafia francesa, para designar aquilo que não cai, que se
fixa em torno da falta primeira e da necessidade de que esta não cesse, para
que continuem sendo possíveis gozo e desejo.

Lacan prossegue: (...) parece que o mínimo que se pode esperar da cadeia
borromeana e esta relação de um com três outros (...) e sempre em três
suportes que chamaremos, no momento de subjetivos, quer dizer, pessoais,
que um quarto se apoiara (...) o quarto será o que anuncio este ano como
sinthoma.(Ibidem, p. 52)

Embora o nó implique os três outros como indispensáveis, para provar que o


nó e borromeano, ao se retirar um deles, há necessidade de um quarto termo,
sem o qual nada e posto em evidencia, isto e, que o grupo se desata.

A necessidade do quarto elo se impõe, uma vez que, no nó com três anéis,
mudando-se a vontade a ordem dos mesmos, não se sabe qual e o real, ou
seja, aquele que faz o nó. Com quatro elos, uma distinção se impõe, definindo
três tipos de enlaçamento.

O quarto elo e aquele cuja consistência Lacan atribui, de inicio, ao Nome do


Pai em sua função radical de dar um nome as coisas e, em seguida, aos
Nomes do Pai, no plural, como já havia anunciado antes.

Os Nomes do Pai, sob três formas, nomeiam o Imaginário, o Simbólico e o


Real, que por sua vez suportam o nó, ou seja, o nó se suporta de três
indicações diferentes de sentido, figuradas nas nominações do Imaginário, do
Simbólico e do Real.

E na distinção dessas três nominações que Lacan encerra o seminário XXIII:

“Constatei que se estes três nós se conservaram livres entre si como um nó


triplo, relacionando-se em sua textura, mas ex-sistindo por um quarto. A ele
chamamos sinthoma.” LACAN 1975.

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Paulo Bregantin - SBPI

O quarto nó: sinthoma (Σ) (...) O quarto nó e o que, neste anel duplo, suporta o
simbólico daquilo por que ele e efetivamente feito, a saber, o Nome do Pai”.

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Paulo Bregantin - SBPI

Minha expectativa com esse material é que você tem uma visão panorâmica
sobre os ensinos de Lacan.

Claro que isso é apenas uma introdução para a grandiosa obra lacaniana, mas
com a leitura atenciosa creio que teremos um pouco de conhecimento.

Grato e forte abraço a você.

Paulo Bregantin

Apêndice:

PALESTRA: Conversando sobre: O SINTHOMA – Seminário 23 – Lacan.

Ministrante: Paulo Bregantin – Psicanalista Clinica

Local: Núcleo de Estudos da Mente.

Vídeo 1

https://www.youtube.com/watch?v=nKOiaYjnmqU

Vídeo 2

https://www.youtube.com/watch?v=JMt--sebzds

Vídeo 3

https://www.youtube.com/watch?v=QlE7P61H4i8

Vídeo 4

https://www.youtube.com/watch?v=yL817Ep-3PU

Vídeo 5

https://www.youtube.com/watch?v=enc6TLHzd5Y

Vídeo 6
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Paulo Bregantin - SBPI

https://www.youtube.com/watch?v=hHF3UTVU7Lc

Paulo Bregantin – Arquivos dos Temas Lacaniano.

Apêndice 1 :

Vídeos sobre os temas Lacaniano:

Vídeo 1 – Sobre Signo, Significa e Significante

Ministrante: Paulo Bregantin

https://www.youtube.com/watch?v=n6JnwM0FXvQ

Vídeo 2 – O outro sou eu mesmo – Uma avalia do autoconhecimento

Ministrante: Paulo Bregantin

https://www.youtube.com/watch?v=vX5CNrVIPrQ

Vídeo 3 – Sonhos e Ato Falho

Ministrante: Paulo Bregantin

https://www.youtube.com/watch?v=UHcqJkC6Fx8

Vídeo 4 – Autoconhecimento e auto entendimento

Ministrante: Paulo Bregantin

https://www.youtube.com/watch?v=BXLHyRkYBt0

Vídeo 5 – Simbólico, Imaginário e Real

Ministrante: Paulo Bregantin

https://www.youtube.com/watch?v=OI8tQQkXVI8

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Paulo Bregantin - SBPI

Vídeo 6 – Introjeção, Identificação e Projeção

Ministrante: Paulo Bregantin

https://www.youtube.com/watch?v=ZjxrxPZgKnI

Vídeo 7 – Dois estágios que antecedem a Depressão

Ministrante: Paulo Bregantin

https://www.youtube.com/watch?v=8xD3vK-3MNY

Paulo Bregantin

Apêndice 2:

Breve descritivo sobre Jacques Lacan e a relevância de sua obra para a Psicanálise.

• Nasce em 1901 e morre em 1981. Vive a vida toda na França.


• É Psiquiatra por formação e Psicanalista por opção.
• Faz a maior e mais significante releitura dos escritos de Freud.
• Insere a linguagem na Psicanálise.

• Com os seminários, Escritos, Outros Escritos, vários artigos publicados e uma


infinidade de empréstimos da matemática, gramática, física quântica, arte,
intelectualismo, etc – Deixa uma legado infinito para pesquisas.

AS DUAS CLINICAS DE LACAN

Primeira clínica de Lacan, ou seja, para o homem antes da globalização. 1953 até 1970
(simbólico para dar sentido do que está acontecendo.)

 Aspectos dessa primeira clínica de Lacan:


 Linguística, palavra, sacralizou o nome “escuto”.
 Retorno a Freud – Organizar as palavras – Sentir as palavras do analisando.
 Antigamente o analista “sentia” o analisando. Era necessário que o analista
digerisse e devolvesse para o analisando o que ele falou. Falar de forma que o
analisando entendesse. Uso da contratransferência ao tratamento.

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 Seminário 1 e 2 – Lacan desconstrói isso. “Conheça o analisando e conhecerás o


analista. ”
 Lacan disse: Se perdeu a regra fundamental da psicanálise. É fundamental ouvir o
que a pessoa diz. – Regra fundamental da psicanálise: diga o que vem a sua
cabeça, não pense, diga apenas diga, (Freud). (Associação livre).

Primeira Clinica:

 O saber não está com o analista, nem com o médico e nem com analisando, pois a
cura está em outro local, ou seja, EGO e o EGO – ou o ambiente de atendimento
(inconsciente), daí ele cria o “outro” que na realidade não é nem o médico e nem o
analisando, mas o próprio ambiente, e isso acontece na Associação livre.
 Em Lacan o analista organiza as palavras e diminui/exclui os sentimentos.

Segunda Clinica de Lacan: para o homem depois da Globalização - Segunda clínica de


Lacan (1970 até 1981) busca o real ou a consequência do que está acontecendo.

 1973 Lacan outros escritos pág.553 em Alemão: Existe um feliz acaso, aliás, só
existe isso, felicidade do acaso, os seres falantes são felizes por natureza e, desta
mesma tudo que nos resta. Será que através do discurso analítico isso não poderia
tornar-se mais feliz?
 1975 – Numa conferência Lacan recebe uma pergunta: Quando termina uma
análise? Felicidade não é bem que se mereça. A proposta é uma vida qualificada e
não qualidade de vida. A felicidade não pode ser nomeada – Lacan. ( livro
Profanações)
 Lacan trabalha o reverso do bom senso. Mais confunde que explica. Porém, na
confusão é onde existe o pensamento e a visão de si mesmo e ajuda a termos
todas as visões do mundo.
 A psicanálise não é uma verdade (prefacio em inglês em outros escritos). A
satisfação não está como era antes.
 A psicanálise para Lacan é algo que está além ou fora da palavra. Ou seja, a
verdadeira Associação livre.

Exemplo de como Lacan fala em análise: segunda Clínica

 Exemplo: Um paciente chega na segunda de manhã andei refletindo muito esse


final de semana sou um mal pai, péssimo marido e um péssimo amante. O analista
pergunta o que aconteceu para o sr. Pensar isso. “Abra o discurso” – fale-me mais
sobre isso. (Psicanalista).
 Lacan diria: Meu caro, o fato do Sr me dizer que mal marido, é mal pai e mal
amante não altera em nada você ser mal pai, mal marido e mal amante. Lacan, tira
a irresponsabilidade do analisando, ou seja, além do que foi dito NÃO EXISTE
MAIS NADA. Não existe nada do que o que foi dito.
 Desabonamento do inconsciente, o inconsciente não te salva mais, exemplo: Foi
meu inconsciente que fez...

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 Na segunda clínica de Lacan a resposta é dizer: NÃO TENHO A MENOR IDEIA


DO QUE VC ESTÁ SENTINDO OU VIVENDO. Ou seja, o seu problema é seu.
Porém, vc pode falar: Fale-me da sua dor eu quero saber. O analista não dá
sentido, porém discute as consequências.

Entendendo Lacan:

 Sintoma indecifrável a pessoa é o próprio sintoma. Somos um sintoma indecifrável.


 Eu não sei o que, mas terei que lidar com isso. Como lidar com isso?
1- Vou inventar sobre isso.

2- Vou me responsabilizar sobre o que inventei. Na análise de Lacan


chegamos então a isso. Que cada pessoa se depare com o sintoma ou seja
ela mesma, e deverá nomear e se responsabilizar pelo que ela inventou.

 Os Laços sentimental mudou na nossa sociedade. Pois descobrimos que podemos


estar juntos e não precisamos nos compreender. Os pais não compreendem os
filhos e vice-versa.
 A psicanálise é individual. Se o filho disser: Tá ligado? Vc responde: To. Simples
assim. As pessoas mudaram e criaram um novo laço social. Eles são diferentes e
o que fomos não funciona mais como era.
 As crianças criaram os monólogos e não necessita de ninguém... isso muda tudo.
 O Laço social não é mais o mesmo

Não confunda Imaginário com imaginação. Simbólico com símbolo. Real com
realidade.

• Nós produzimos imagens/Imaginário (pessoas, coisas, lugares, etc), na


imaginação colocamos em ação situações que não existem.
• Os símbolos são nossos ensinamentos, muito diferente do simbólico que é
construído do que nos foi introjetado através da palavra dita por nossa mãe e ou
pessoas muito próximas em nossa tenra idade.

• A realidade é tudo que observamos com parâmetros do que vemos, ouvimos e


sentimos. O Real é na verdade o ato falho, aquilo que não vemos, não ouvimos e
nem sentimos é o que sobra em nós que somente o outro pode ver. É o nosso "eu"
verdadeiro. Sinthoma

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Paulo Bregantin – Psicanalista Clinico

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