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Gestão do conflito escolar:

da classificação dos conflitos


aos modelos de mediação
Álvaro Chrispino

Resumo The enclosed article starts by presenting


O presente trabalho se inicia apresentan- a recent study carried out by a research
do um recente estudo realizado por um institu- institute and it demonstrates the
to de pesquisa onde fica patente a importân- importance that the student gives to
cia que o jovem atribui à educação, à escola education, to school, to the teacher and
e ao professor, ao mesmo tempo em que apre- at the same time it shows his concern
senta sua preocupação com a violência. Com with violence. With such motivation, it
este motivador, discute os conceitos de conflito discusses the concepts of conflicts and
e de conflito escolar, apresenta inúmeras ma- school conflicts in order to contribute to
neiras de classificar os conflitos e os conflitos the clarification of the problem, it
escolares a fim de contri- indicates the mediation
buir com o entendimento Álvaro Chrispino of the conflict as a
do problema, indica a Doutor em Educação, UFRJ powerful and potent
mediação de conflito Professor do Programa de Mestrado alternative to reduce
como alternativa potente do CEFET/RJ school violence.
e viável para a diminui- chrispino@infolink.com.br Finally, it lists questions
ção da violência escolar that should be taken
e, ao final, enumera into account when the
questões que devem ser consideradas quando school has in mind the implementation of
a escola se propõe a implantar um programa its program of mediation conflict.
de mediação escolar do conflito. Keywords: Educational policies. School
Palavras-chave: Políticas educacionais. violence. School conflict. Mediation of
Violência escolar. Conflito escolar. Media- school conflict.
ção do conflito escolar.
Resumen
Abstract Gestión del conflicto
School-Based Conflict escolar: de la clasificación
Management: from the de los conflictos a los
classification of conflicts medelos de mediación
to models of mediation El artículo presenta un reciente estudio

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realizado por un instituto de pesquisa nha, Argentina e Chile, dentre outros, onde
que muestra la importancia que el joven já se percebe um conjunto de políticas pú-
atribuye a la educación, a la escuela y blicas mais ou menos eficientes dirigidas aos
al profesor y, también, su preocupación diversos atores que compõem este comple-
con la violencia. El texto aborda los xo sistema que é o fenômeno violência es-
conceptos de conflicto y de conflicto colar. Estes países possuem já alguma tradi-
escolar, presenta innumeras maneras de ção em programa de redução da violência
clasificar los conflictos y los conflictos escolar como apontam Debarbieux e Blaya
escolares a fin de contribuir para el (2002) e, no Brasil, é possível enumerar al-
entendimiento del problema e indica la guns estudos pontuais até aproximadamen-
mediación del conflicto como alternativa te 2000, quando passamos a contar com
potente y viable para la disminución de um número maior de estudos e pesquisas
la violencia escolar. Al final enumera sobre os diversos ângulos da violência es-
cuestiones que deben ser consideradas colar como, por exemplo, Abramovay e Rua
cuando la escuela se propone a (2002), Ortega e Del Rey (2002), Chrispino
implantar un programa de mediación e Chrispino (2002), dentre outros.
escolar del conflicto.
Palavras clave: Políticas educacionales. Os diversos estudos publicados em lín-
Violencia escolar. Conflicto escolar. gua portuguesa disseminaram idéias, acla-
Mediación del conflicto escolar. raram os problemas e listaram alternativas
já testadas em sociedades distintas, permi-
Introdução tindo que a comunidade educacional bra-
A seqüência de episódios violentos en- sileira reunisse informações para enfrentar
volvendo o espaço escolar não deixa dúvi- um problema importante, no esforço de ti-
da quanto à necessidade de se trazer este rar a “diferença” causada por alguns anos
tema à grande arena de debates da educa- de atraso na percepção do problema e na
ção brasileira. Os acontecimentos que se re- busca de soluções próprias. No rastro des-
petem nos diversos pontos do país, e que sas iniciativas, a produção acadêmica bra-
nos privaremos de citar por ser absoluta- sileira já começa a demonstrar bons resul-
mente desnecessário para a análise, expõem tados no tema, apesar de serem encontra-
uma dificuldade brasileira pela qual já pas- dos apenas 7 grupos de pesquisa no Dire-
saram outros países, o que seria, por si só, tório LATTES, quando consultado utilizando
um convite para a reflexão de educadores e as palavras chave “violência escolar” e “vi-
de gestores políticos, visto que o movimento olência na escola”, o que indica que a pro-
mundial em educação indica semelhança dução deve estar vinculada a grupos com
de acontecimentos mesmo que em momen- linhas de pesquisa e temas de pesquisa ou-
tos diferentes da linha de tempo. tros que absorvem os assuntos correlacio-
nados com o universo da violência escolar.
Já dissemos alhures (CHRISPINO;
CHRISPINO, 2002) que os problemas no- Experiências importantes vêm sendo re-
vos da violência escolar no Brasil são um alizadas como a do programa de Mestra-
problema antigo em outros países como Es- do da Universidade Católica de Brasília/
tados Unidos, França, Reino Unido, Espa- Observatório da Violência que já produz

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uma série de pesquisas focada na violên- No que pese tudo isto, recentemen-
cia escolar, mas correlacionando-a com a te o Sindicato dos Estabelecimentos de
visão docente (OLIVEIRA, M. G. P., 2003; Ensino do Rio de Janeiro – Sinepe Rio
OLIVEIRA, R. B. L., 2004), com a comuni- –, solicitou ao IBOPE uma pesquisa in-
dade (SILVA, 2004), com o rendimento es- titulada “O jovem, a sociedade e a éti-
colar (VALE, 2004), com a gestão esco- ca” (RIO DE JANEIRO, 2006), que re-
lar (CARREIRA, 2005), com a visão dis- colheu opiniões de jovens entre 14 e 18
cente (RIBEIRO, 2004; FERNANDES, anos. O resultado mostra o quanto a
2006), dentre outras. escola e a educação povoam o imagi-
nário dos jovens, o quanto estes ainda
Tudo leva a crer que o tema tenha ocu- vêem na escola e na educação instru-
pado um lugar de destaque na sociedade mentos importantes para suas vidas e o
e academia brasileiras, o que pode resultar quanto a violência na escola os afasta
na transferência da escola da editoria poli- de seus sonhos ou os amedronta. Veja-
cial para a editoria de direitos sociais nos mos alguns resultados:
grandes veículos de mídia nacional.
Pergunta: Dentre estes, quais são os dois
Educação, juventude e mais graves problemas do Brasil?

violência
A formação de opinião sobre a esco-
la e a juventude exclusivamente pelas
manchetes de jornais e televisão, resulta
numa visão por ângulos restritos da rea-
lidade educacional.

A educação – apesar da existência de


programas importantes como o Fundo de
Manutenção e Desenvolvimento do Ensi-
no Fundamental e de Valorização do Ma- Pergunta: Quem você considera mais
gistério – FUNDEF–, vem sofrendo com responsável pela garantia de um bom futu-
a falta de políticas públicas de longo pra- ro para pessoas como você?
zo e efetivas que atendam às necessida-
des da comunidade, vem sendo esvazia-
da pelo afastamento de bons docentes
por conta do desprestígio e da perda sig-
nificativa de salários, vem sendo “suca-
teada” pela ineficácia dos sistemas de
gestão e por recursos cada vez mais re-
duzidos, vem se tornando cada vez mais
“profanada” quando a história nos ensi-
nou sobre uma escola cercada de respei-
to, pertencimento e “sacralidade”.

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Pergunta: Gostaria que você dissesse, para cada uma das pessoas e instituições que
vou falar, se você confia ou não confia
INSTITUIÇÕES CONFIA NÃO CONFIA NÃO TEM OPINIÃO
Professores 84% 13% 3%
Escola Particular 77% 18% 5%
Escola Pública 76% 19% 5%
Médicos 75% 21% 4%
Religião 71% 23% 6%
Igreja Católica 66% 26% 8%
Igreja Evangélica 61% 30% 8%
Televisão 60% 36% 4%
Rádios 62% 35% 4%
Jornais 59% 37% 4%

Pergunta: Para cada frase citada, gostaria de saber se você concorda ou discorda
PONTOS CONCORDA DISCORDA
A educação dos jovens deve ter limites bem definidos 82% 14%
No Brasil, é possível melhorar a 73% 21%
condição social através do voto
No Estado, um cidadão não tem só direitos, 70% 24%
tem deveres para com a sociedade
O voto pode mudar a situação do país 64% 30%
O importante para os jovens é viver o momento, 57% 40%
sem se preocupar com o futuro
Os jovens são desmotivados e nada lhes interessa 50% 46%
A experiência profissional é mais 49% 46%
importante que a educação
Os direitos humanos no Brasil só protegem os que 49% 44%
não respeitam os direitos dos outros

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Pergunta: Dentre estes, para qual pon- na escola como instrumento de mobilidade
to você julga que uma boa escola deveria social e de diferenciação para o futuro.
estar voltada? (1º e 2º lugares)
Motivado por isso, podemos buscar
entender melhor o que pode estar causan-
do a violência na escola, sempre lembran-
do que a nossa é uma leitura, uma pro-
posta, uma alternativa. Certamente haverá
outras, desenvolvidas e amparadas a par-
tir de outras percepções e experiências.

O conflito e o
Podemos depreender da pesquisa (1) que
o jovem identifica na violência o maior pro- conflito na escola
blema da sociedade atual, superando, in- Conflito é toda opinião divergente ou ma-
clusive, o desemprego; (2) que a escola ocu- neira diferente de ver ou interpretar algum acon-
pa o segundo lugar entre as instituições im- tecimento. A partir disso, todos os que vivemos
portantes para o desenho de seu futuro, per- em sociedade temos a experiência do conflito.
dendo apenas para a família; (3) professo- Desde os conflitos próprios da infância, passa-
res e escolas são as duas “instituições” que mos pelos conflitos pessoais da adolescência e,
encabeçam a lista de confiança com altos hoje, visitados pela maturidade, continuamos
índices percentuais; (4) os jovens, diferente- a conviver com o conflito intrapessoal (ir/não ir,
mente do que diz o senso comum, solicitam fazer/não fazer, falar/não falar, comprar/não
os limites próprios à juventude e (5) confir- comprar, vender/não vender, casar/não casar
mando o item 4, o jovem julga que a disci- etc.) ou interpessoal, sobre o qual nos detere-
plina rígida, juntamente com criatividade e mos. São exemplos de conflito interpessoal
diálogo, fazem parte da boa escola, para a briga de vizinhos, a separação familiar, a
desespero de gestores e docentes que de- guerra e o desentendimento entre alunos.
fendem o “vai-levando” ou o laissez-faire, (CHRISPINO; CHRISPINO, 2002).
certamente pela lei de menor esforço, já que
o salário é o mesmo no final do mês. Poderemos buscar, numa adaptação de
Redorta (2004, p. 33), grandes exemplos
Apesar de todas as dificuldades, o jovem de conflito nos conhecidos movimentos de
ainda crê na educação como alternativa e rompimento de paradigmas:

AUTOR TIPO DE CONFLITO PROCESSO RESULTANTE SÍNTESE


Freud Conflito entre o desejo e a proibição Repressão e defesa Luta pelo dever
Darwin Conflito entre o sujeito e o meio Diferenciação e adaptação Luta por existir
Marx Conflito entre classes sociais Estratificação social
hierarquia Luta pela igualdade
Piaget Conflito nas decisões e experiências Aprendizagem
Resolução de problemas Luta por ser

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O conflito, pois, é parte integrante dificuldade de comunicação, de asser-


da vida e da atividade social, quer con- tividade das pessoas, de condições para
temporânea, quer antiga. Ainda no es- estabelecer o diálogo.
forço de entendimento do conceito, po-
demos dizer que o conflito se origina da Temos defendido que a massificação
diferença de interesses, de desejos e de da educação se, por um lado, garantiu o
aspirações. Percebe-se que não existe acesso dos alunos à escola, por outro,
aqui a noção estrita de erro e de acerto, expôs a escola a um contingente de alu-
mas de posições que são defendidas fren- nos cujo perfil ela – a escola – não esta-
te a outras, diferentes. va preparada para absorver.

Um exemplo claro da dificuldade que Antes, em passado remoto, a escola


temos para lidar com o conflito é a nossa era procurada por um tipo padrão de
incapacidade de identificar as circunstân- aluno, com expectativas padrões, com
cias que derivam do conflito ou redun- passados semelhantes, com sonhos e li-
dam nele. Em geral, nas escolas e na vida, mites aproximados. Os grupos eram for-
só percebemos o conflito quando este pro- mados por estudantes de perfis muito
duz suas manifestações violentas. Daí po- próximos. Com a massificação, trouxe-
demos tirar, pelo menos, duas conclu- mos para o mesmo espaço alunos com
sões: a primeira é que se ele se manifes- diferentes vivências, com diferentes ex-
tou de forma violenta é porque já existia pectativas, com diferentes sonhos, com
antes na forma de divergência ou anta- diferentes valores, com diferentes cultu-
gonismo, e nós não soubemos ou não ras e com diferentes hábitos [...], mas a
fomos preparados para identificá-lo; a escola permaneceu a mesma! Parece
segunda é que toda a vez que o conflito óbvio que este conjunto de diferenças é
se manifesta, nós agimos para resolvê- causador de conflitos que, quando não
lo, coibindo a manifestação violenta. E trabalhados, provocam uma manifesta-
neste caso, esquecemos que problemas ção violenta. Eis, na nossa avaliação, a
mal resolvidos se repetem! (CHRISPINO; causa primordial da violência escolar.
CHRISPINO, 2002)
A fim de exemplificar a tese que defen-
Ao definirmos conflito como o resul- demos, podemos lançar mão da pesquisa
tado da diferença de opinião ou inte- de Fernandes (2006, p. 103) realizada com
resse de pelos menos duas pessoas ou alunos e professores de diferentes escolas
conjunto de pessoas, devemos esperar do Distrito Federal. Ao solicitar que pro-
que, no universo da escola, a divergên- fessores e alunos identifiquem níveis de gra-
cia de opinião entre alunos e professo- vidade de violência a partir de ocorrências
res, entre alunos e entre os professores cotidianas, percebe-se a divergência de
seja uma causa objetiva de conflitos. opinião: isto dá origem a conflitos. Veja-
Uma segunda causa de conflitos é a mos alguns exemplos:

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ATITUDES ESCOLA 1–PÚBLICA ESCOLA 2–PRIVADA


OPINIÃO DISCENTE DOCENTE DISCENTE DOCENTE
Aluno bate em colega menor 47,4 (média) 64,6 (alta) 51,6 (alta) 61,2 (alta)
Briga entre alunos 38,1 (média) 60,5 (alta) 52,9 (alta) 55,8 (alta)
Toque de mão no colega com sentido sexual 32,0 (média) 60,5 (alta) 27,2 (baixa) 54,9 (alta)
Insulto de aluno a aluno 32,0 (média) 56,5 (alta) 31,8 (média) 54,9 (alta)
Consideram-se altas as taxas entre 68 a 48, médias as taxas entre 47 a 31 e baixas as taxas menores que 30.

Podemos esperar que, pela diferença entre • ajuda a definir as identidades das
as opiniões, haja conflito no espaço escolar. partes que defendem suas posições;
Um conflito criado pela diferença de conceito • permite perceber que o outro possui
ou pelo valor diferente que se dá ao mesmo uma percepção diferente;
ato. Professores e alunos dão valores diferentes • racionaliza as estratégias de compe-
à mesma ação e reagem diferentemente ao mes- tência e de cooperação;
mo ato: isso é conflito. Como a escola está acos- • ensina que a controvérsia é uma opor-
tumada historicamente a lidar com um tipo tunidade de crescimento e de ama-
padrão de aluno, ela apresenta a regra e re- durecimento social.
quer dos alunos enquadramento automático.
Quanto mais diversificado for o perfil dos alu- Outro mito importante construído em torno
nos (e dos professores), maior será a possibili- do conflito, e que está também sendo supera-
dade de conflito ou de diferença de opinião. E do, é aquele que diz que o mesmo atenta con-
isso numa comunidade que está treinada para tra a ordem. Na verdade, o conflito é a mani-
inibir o conflito, pois este é visto como algo ruim, festação da ordem em que ele próprio se pro-
uma anomalia do controle social. duz e da qual se derivam suas conseqüências
principais. O conflito é a manifestação da or-
Porém, o mito de que o conflito é ruim está dem democrática, que o garante e o sustenta.
ruindo. O conflito começa a ser visto como
uma manifestação mais natural e, por conse- A ordem e o conflito são resultado da inte-
guinte, necessária às relações entre pessoas, ração entre os seres humanos. A ordem, em
grupos sociais, organismos políticos e Esta- toda sociedade humana, não é outra coisa
dos. O conflito é inevitável e não se devem senão uma normatização do conflito. Tome-
suprimir seus motivos, até porque ele possui mos como exemplo o conflito político: apesar
inúmeras vantagens dificilmente percebidas por de parecer ruptura da ordem anterior, há con-
aqueles que vêem nele algo a ser evitado: tinuidade e regularidade em alguns aspectos
• Ajuda a regular as relações sociais; tidos como indispensável pela sociedade, que
• ensina a ver o mundo pela perspecti- exige a ordem e de onde emanam os conflitos.
va do outro;
• permite o reconhecimento das dife- Somente estudo e compreensão das rela-
renças, que não são ameaça, mas re- ções que existem dentro da ordem podem per-
sultado natural de uma situação em mitir o entendimento completo dos conflitos que
que há recursos escassos; nela se originam e que, por fim, são a razão

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de sua existência. Por exemplo, os sócios que brigam pela posse da casa onde moravam, mes-
brigam. É necessário ver as condições em que mo possuindo outras imóveis de igual valor. Na
se fez a sociedade e as expectativas dos sóci- verdade, a posição de posse da casa esconde
os. Possivelmente, cada um deles terá entendi- um interesse implícito: quem ficar com a casa do
mento pessoal das regras que iniciaram a so- casal tem a sensação de vitória sobre o outro.
ciedade e possuíam, por derivação, expectati-
vas diferentes. Instala-se o conflito! Classificações dos conflitos
A fim de melhor entender suas possibi-
O conflito está regulado de tal modo que nem
lidades, buscaremos alguns exemplos de
sempre nos damos conta sequer de sua existên-
classificação de conflito, pois, segundo Re-
cia. Como exemplo disso, temos o futebol ou o
dorta (2004, p. 95),
desfile das escolas de samba: eles excluem a vio-
classificar é uma forma de dar sentido.
lência como a entendemos comumente e prevê-
A classificação costuma ser hierárquica
em um modelo de comportamento cooperativo,
e permite estabelecer relações de per-
mas os interesses são frontalmente conflitantes!
tencimento. Ao classificar definimos, e
Acontece, muitas vezes, que o conflito é de- ao defini-lo, tomamos uma decisão a
flagrado e não sabemos exatamente o que o respeito da essência de algo.
provoca, pois a posição conflitante é diferente do
Vamos buscar algumas classificações
interesse real das partes. O interesse é a motiva-
gerais de conflito segundo Moore (1998),
ção objetiva/subjetiva de uma conduta, a partir
Deutsch (apud MARTINEZ ZAMPA, 2004)
da qual esta se estrutura e se distingue da posi-
e Redorta (2004) e classificações de confli-
ção, que é a forma exterior do conflito, que pode
tos escolares a partir de Martinez Zampa
esconder o real interesse envolvido. Os comerci-
(2004) e Nebot (2000).
antes têm interesses conflitantes: o vendedor quer
vender mais caro, enquanto o comprador quer Para Moore (1998, p. 62), os conflitos
pagar menos [...], mas os interesses são claros e podem ser classificados em estruturais, de
definidos. Diferentemente com o que ocorre no valor, de relacionamento de interesse e
conflito causado pela separação de casais que quanto aos dados:
TIPOS DE CONFLITO CAUSAS DOS CONFLITOS
Estruturais Padrões destrutivos de comportamento ou interação; controle,
posse ou distribuição desigual de recursos; poder e autoridade
desiguais; fatores geográficos, físicos ou ambientais que impeçam
a cooperação; pressões de tempo.
De valor Critérios diferentes para avaliar idéias ou comportamentos;
objetivos exclusivos intrinsecamente valiosos; modos de vida,
ideologia ou religião diferente.
De relacionamento Emoções fortes; percepções equivocadas ou estereótipos; comunicação
inadequada ou deficiente; comportamento negativo – repetitivo.
De interesse Competição percebida ou real sobre interesses fundamentais
(conteúdo); interesses quanto a procedimentos; interesses psicológicos.
Quanto aos dados Falta de informação; informação errada; pontos de vista diferentes
sobre o que é importante; interpretações diferentes dos dados;
procedimentos de avaliação diferentes.

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Para Deutsch (apud MARTINEZ ZAMPA, contatos entre si), latentes (conflitos cuja
2004, p. 27), os conflitos podem ser clas- origem não se exteriorizam) e falsos (se
sificados em 6 tipos: Verídicos (conflitos baseiam em má interpretação ou percep-
que existem objetivamente), contingen- ção equivocada).
tes (situações que dependem de circuns-
tâncias que mudam facilmente), descen- Para Redorta (2004), a tipologia de con-
tralizados (conflitos que ocorrem fora do flito é de tal importância que ele dedica toda
conflito central), mal atribuídos (se apre- uma obra a essa tarefa. Podemos sintetizar
sentam entre partes que não mantêm a sua tipologia, no quadro a seguir:

TIPOS DE CONFLITOS... O CONFLITO OCORRE QUANDO


De recursos escassos Disputamos por algo que não existe suficientemente para todos.
De poder Disputamos porque algum de nós quer mandar, dirigir ou controlar o outro.
De auto-estima Disputamos porque meu orgulho pessoal se sente ferido.
De valores Disputamos porque meus valores ou crenças fundamentais estão em jogo.
De estrutura Disputamos por um problema cuja solução requer longo prazo,
esforços importantes de muitos, e meios estão além de
minha possibilidade pessoal.
De identidade Disputamos porque o problema afeta minha maneira intima de ser o que sou.
De norma Disputamos porque meus valores ou crenças fundamentais estão em jogo.
De expectativas Disputamos porque não se cumpriu ou se fraudou o que um esperava do outro.
De inadaptação Disputamos porque modificar as coisas produz uma tensão que não desejo.
De informação Disputamos por algo que se disse ou não se disse
ou que se entendeu de forma errada.
De interesses Disputamos porque meus interesses ou desejos são contrários aos do outro.
De atribuição Disputamos porque o outro não assume a sua culpa
ou responsabilidade em determinada situação.
De relações pessoais Disputamos porque habitualmente não nos entendemos como pessoas.
De inibição Disputamos porque claramente a solução do problema depende do outro.
De legitimação Disputamos porque o outro não está de alguma maneira autorizado
a atuar como o faz, ou tem feito ou pretende fazer.

É possível, ainda, identificar conflitos sores, técnicos e comunidade) e com ro-


escolares ou mesmo educacionais a par- tinas estabelecidas (temática, horários,
tir de Martinez Zampa (2005) e de Nebot espaços físicos etc). A maneira de lidar
(2000). Certamente, a característica da com o conflito escolar ou educacional é
escola ou do sistema educacional favo- que irá variar de uma escola que veja o
recem este tipo de categorização, por se conflito como instrumento de crescimen-
restringirem a um universo conhecido, to ou que o interpreta como um grave
com atores permanentes (alunos, profes- problema que deva ser abafado.

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Na comunidade escolar existem pon- Como conflitos educacionais ou entre


tos que contribuem para o surgimento dos membros da comunidade educacional,
conflitos e que, no mais das vezes, não Martinez Zampa (2005, p. 30-31) enume-
são explícitos ou mesmo percebidos. A pri- ra 4 tipos diferentes:
oridade que se dá para os diferentes con- • Conflito em torno da pluralidade de
flitos escolares é um primeiro ponto. Mar- pertencimento: surge quando o docen-
tinez Zampa (2005, p. 29) diz que os pro- te faz parte de diferentes estabelecimen-
fessores consideram que os conflitos mais tos de ensino ou mesmo de níveis dife-
freqüentes e importantes se dão entre seus rentes de ensino.
colegas e diretores, colocando em segun- • Conflitos para definir o projeto insti-
do lugar de importância os conflitos en- tucional: surge porque a construção do
tre alunos. Essa posição não é ratificada projeto educacional favorece a mani-
por Oliveira e Gomes (2004, p. 52-53), festação de diferentes posições quanto
que descrevem como os docentes vêem a objetivos, procedimentos e exigênci-
os valores e violência escolares. Ao se as no estabelecimento escolar.
referirem às escolas que foram pesquisa- • Conflito para operacionalizar o pro-
das, escrevem: jeto educativo: surge porque, no mo-
O clima entre direção, professores e mento de executar o projeto institucio-
alunos parecia bastante amistoso. No nal, surgem divergências nos âmbitos
entanto, a Associação de Pais e Mestres de planejamento, execução e avaliação,
e o Conselho Escolar funcionavam pre- levando a direção a lançar mão de pro-
cariamente devido à falta de participa- cessos de coalizão, adesões, etc.
ção e envolvimento da comunidade es- • Conflito entre as autoridades formal
colar. e funcional: surge quando não há coin-
O relacionamento entre os professo- cidência entre a figura da autoridade
res parecia muito bom, manifestado, formal (diretor) e da autoridade funcio-
inclusive, pelos intervalos muito anima- nal (líder situacional)
dos. Segundo informações colhidas, a
amizade entre os docentes continuava Os conflitos educacionais, para efeito
fora dos muros da escola, nas festas de de estudo, são aqueles provenientes de
confraternizações, aniversários, chur- ações próprias dos sistemas escolares ou
rascos e outras. oriundos das relações que envolvem os ato-
res da comunidade educacional mais am-
A leitura externa da comunidade (ci- pla. Certamente poderíamos ainda apon-
dadãos e pais) pode achar que profes- tar os que derivam dos exercícios de poder,
sores e diretores – profissionais e adul- dos que se originam das diferenças pesso-
tos que são –, devam lidar profissio- ais, dos que resultam de intolerâncias de
nalmente com as possíveis dificulda- toda ordem, os que possuem fundo políti-
des que surjam no exercício da ativi- co ou ideológico, o que fugiria do foco prin-
dade docente e que os conflitos entre cipal deste trabalho, voltado pela a escola
alunos, e destes com seus professores, e seu entorno. Saindo do universo geral dos
é que efetivamente merecem ser vistos conflitos educacionais – enumerados res-
como prioridade. tritamente – podemos relacionar os que

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chamaremos de conflitos escolares, por • eleições (de variadas espécies);


acontecerem no espaço próprio da escola • viagens e festas.
/ou com seus atores diretos. • Entre pais, docentes e gestores, por:
• agressões ocorridas entre alunos
Dentre as classificações possíveis, es- e entre os professores;
colhemos adaptar a de Martinez Zampa • perda de material de trabalho;
(2005, p. 31-32) para ilustrar o texto. Os • associação de pais e amigos;
conflitos que ocorrem com maior freqüên- • cantina escolar ou similar;
cia se dão: • falta ao serviço pelos professores;
• Entre docentes, por: • falta de assistência pedagógica
• falta de comunicação; pelos professores;
• interesses pessoais; • critérios de avaliação,
• questões de poder; aprovação e reprovação;
• conflitos anteriores; • uso de uniforme escolar;
• valores diferentes; • não-atendimento a requisitos
• busca de “pontuação” “burocráticos” e administrativos da
(posição de destaque); gestão.
• conceito anual entre docentes;
• não-indicação para cargos de Segundo Nebot (2000, p. 81-82), os
ascensão hierárquica; conflitos escolares podem ser categoriza-
• divergência em posições dos em organizacionais, culturais, peda-
políticas ou ideológicas. gógicos e de atores. A seguir, detalhamos
• Entre alunos e docentes, por: cada um dos tipos:
• não entender o que explicam; • Organizacionais
• notas arbitrárias; 1. setoriais: são aqueles se produ-
• divergência sobre critério de avaliação; zem a partir da divisão de trabalho
• avaliação inadequada e do desenho hierárquico da insti-
(na visão do aluno); tuição, que gera a rotina de tare-
• descriminação; fas e de funções (direção, técnico-
• falta de material didático; administrativos, professores, alu-
• não serem ouvidos nos, etc);
(tanto alunos quanto docentes); 2. o salário e as formas como o di-
• desinteresse pela matéria de estudo. nheiro se distribui no coletivo, afe-
• Entre alunos, por: tando a qualidade de vida dos fun-
• mal entendidos; cionários e docentes, etc
• brigas; 3. se são públicas ou privadas.
• rivalidade entre grupos;
• descriminação; • Culturais
• bullying; 1. comunitários: são aqueles que
• uso de espaços e bens; emanam de redes sociais de dife-
• namoro; rentes atores onde está situada a
• assédio sexual; escola. Rompem-se as concepções
• perda ou dano de bens escolares; rígidas dos muros da escola, am-

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pliando-se as fronteiras (por exem- 3. individuais, que são aqueles onde


plo, os bairros e suas característi- a “patologia” toma um membro da
cas, as organizações sociais do organização escolar. Neste caso,
bairro, as condições econômicas há sempre o risco da estigmatiza-
de seus habitantes, etc) ção do membro da comunidade
2. raciais e identidades: são aqueles que é o causador do conflito.
grupos sociais que possuem um
pertencimento e afiliação que faz a No momento em que realçamos o con-
sua condição de existência no mun- flito na escola, gostaríamos de chamar à
do. Estes, com suas características atenção a capacidade da escola em per-
culturais, folclóricas, ritualísticas, ceber a existência do conflito e a sua capa-
patrocinam uma série de práticas e cidade de reagir positivamente a ele, trans-
habitus que retroalimentam o esta- formando-o em ferramenta do que chama-
belecimento de ensino (por exem- mos de tecnologia social, uma vez que o
plo, a presença de fortes compo- aprendizado de convivência e gestão do
nentes migratórios na região, etc) conflito são para sempre.

• Pedagógicos Por que a mediação do


São aqueles que derivam do dese-
nho estratégico da formação e dos conflito na escola
dispositivos de controle de qualida- Façamos um retrospecto do que foi
de e das formas de ensinar, seus ajus- apresentado até aqui a fim de melhor en-
tes ao currículo acadêmico e suas caminhar os pontos seguintes.
formas de produção (por exemplo,
não é a mesma coisa ensinar mate- Até aqui apresentamos as expectativas
mática que literatura, e ambas pos- dos estudantes com a ascensão social por
suem procedimentos similares, mas meio da educação, sua confiança nos pro-
diferentes; a organização dos horá- fessores e na escola, suas dificuldades por
rios de das turmas e dos professo- conta da violência que lança seus tentácu-
res; as avaliações, etc) los nas escolas e discutimos o conflito em
geral e na escola, em particular. Apresen-
• Atores tamos a tese onde o conflito surge da dife-
São aqueles que denominamos “pes- rença de opiniões e divergência de inter-
soas” e que devem ser distinguidos: pretações. Logo, se a escola é o universo
1. em grupos e subgrupos, que ocor- que reúne alunos diferentes, ela é o palco
rem em qualquer âmbito (turma, onde certamente o conflito se instalará. E,
corpo docente, direção etc) se o conflito é inevitável, devemos apren-
2. familiares, donde derivam as ações der o ofício da mediação de conflito para
que caracterizam a dinâmica famili- que esta técnica se aprimore facultando a
ar que afeta diretamente a pessoa, cultura da mediação de conflito.
podendo produzir o fenômeno de
afastamento familiar que acarreta o Chamaremos de mediação de conflito
“depósito” do aluno na escola. o procedimento no qual os participantes,

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com a assistência de uma pessoa imparci- as, das ideologias, do poder, da posse, das
al – o mediador –, colocam as questões diferenças de toda ordem; onde as regras e
em disputa com o objetivo de desenvolver aquilo que é exigido do aluno nunca estão
opções, considerar alternativas e chegar a no campo do subjetivo ou do entendimen-
um acordo que seja mutuamente aceitável. to tácito: estão explícitos, falados e discuti-
dos. Em síntese, devemos ser explícitos na-
A mediação pode induzir a uma reori- quilo que esperamos dos estudantes e na-
entação das relações sociais, a novas for- quilo que nos propomos a fazer.
mas de cooperação, de confiança e de so-
lidariedade; formas mais maduras, espon- Sobre a gestão destes itens, escreve
tâneas e livres de resolver as diferenças Heredia, citando Ray Scanhaltz (apud
pessoais ou grupais. HEREDIA, 1998), diretor de programas
educacionais de San Francisco:
A mediação induz atitudes de tolerân- Pedir aos estudantes disciplina, sem pro-
cia, responsabilidade e iniciativa individu- vê-los das habilidades requeridas, é
al que podem contribuir para uma nova como pedir a um transeunte que encon-
ordem social. tre Topeka, Kansas, sem fazer uso de
uma bússola [...]. Não podemos espe-
O primeiro ponto para a introdução da rar que os estudantes se comportem de
mediação de conflito no universo escolar é um modo disciplinado se não possuem
assumir que existem conflitos e que estes as habilidades para fazê-lo.
devem ser superados a fim de que a escola
cumpra melhor as suas reais finalidades. É possível, também pensar na introdu-
Há, portanto, dois tipos de escola: aquela ção do tema mediação de conflito no cur-
que assume a existência de conflito e o rículo escolar, o que seria uma oportuni-
transforma em oportunidade e aquela que dade para verbalizar a questão e tornar cla-
nega a existência do conflito e, com toda a ro o que se espera dele – o jovem – no
certeza, terá que lidar com a manifestação conjunto de comportamentos sociais. De
violenta do conflito, que é a tão conhecida outra forma, é dizer ao jovem e à criança
violência escolar. que suas diferenças podem transformar-se
em antagonismos e que, se estes não fo-
As escolas que valorizam o conflito e rem entendidos, evoluem para o conflito,
aprendem a trabalhar com essa realidade, que deságua na violência. Cabe ressaltar
são aquelas onde o diálogo é permanente, que esse aprendizado e essa percepção
objetivando ouvir as diferenças para me- social, quando ocorrem com o estudante,
lhor decidirem; são aquelas onde o exercí- são para sempre.
cio da explicitação do pensamento é in-
centivado, objetivando o aprendizado da Eis algumas vantagens identificadas
exposição madura das idéias por meio da para a mediação do conflito escolar
assertividade e da comunicação eficaz; onde (CHRISPINO, 2004):
o currículo considera as oportunidades para • O conflito faz parte de nossa vida pes-
discutir soluções alternativas para os diver- soal e está presente nas instituições.
sos exemplos de conflito no campo das idéi- ‘É melhor enfrentá-lo com habilidade

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pessoal do que evitá-lo’ (HEREDIA, • Desenvolve o autoconhecimento e o pensa-


1998 apud CHRISPINO, 2004). mento crítico, uma vez que o aluno é cha-
• Apresenta uma visão positiva do conflito, mado a fazer parte da solução do conflito.
rompendo com a imagem histórica de • Consolida a boa convivência entre dife-
que ele é sempre negativo. rentes e divergentes, permitindo o surgi-
• Constrói um sentimento mais forte de mento e o exercício da tolerância.
cooperação e fraternidade na escola. • Permite que a vivência da tolerância seja um
• Cria sistemas mais organizados para en- patrimônio individual que se manifestará
frentar o problema divergência ➔ anta- em outros momentos da vida social.
gonismo ➔ conflito ➔ violência.
• O uso de técnicas de mediação de confli- Cremos que as vantagens dos programas
tos pode melhorar a qualidade das rela- de mediação escolar são bastante numero-
ções entre os atores escolares e melho- sas. Apesar disso, poucas são as avaliações
rar o “clima escolar”. quantitativas sobre o impacto dos programas
• O uso da mediação de conflitos terá con- de mediação de conflito. Kmitta (1999, p. 293)
seqüências nos índices de violência con- ensaia um estudo de resultados quantitativos
tra pessoas, vandalismo, violência con- a partir de dez programas de mediação esco-
tra o patrimônio, incivilidades, etc. lar nos Estados Unidos, que podem indicar
• Melhora as relações entre alunos, facul- alguns resultados promissores nesse tipo de
tando melhores condições para o bom técnica e nesse esforço de implantação da
desenvolvimento da aula. cultura de mediação de conflito. Aponta ele:

Resumo de estudos que documentam mediações e porcentagens de êxito


NOME ANO DO ESTADO Nº DE ÊXITO
ESTUDO MEDIAÇÕES (%)
The Ohio Commission on 1990/93 Ohio 256 100 %
Dispute Resolution
Model School 1993/94 Georgia 126 96,8 %
Jones e Carlin 1992/94 Pennsylvania 367 90,0%
Judge 1989/90 Ohio 125 100%
Hamlin 1993/94 Illinois 47 94,0%
Hart 1993/94 Indiana 350 97,0%
Carpenter e Parco 1992/94 Nevada 347 86,5%
Carruthers 1993/94 Carolina do Norte 841 92,7%
Crary 1989 California 96 97,0%
Kmitta e Berlowitz 1993/95 Ohio 248 82,2%
Totais 2.803 88,5%

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Gestão do conflito escolar: da classificação dos conflitos aos modelos de mediação 25

Algumas questões cação e reflexão, em grande parte adapta-


dos daqueles apresentados por Schvarstein
norteadoras para o (1998) e Chrispino e Chrispino (2002):
modelo de programa 1. Caráter da Mediação de Conflito:
obrigatório ou voluntário?
de mediação escolar 2. Alcance da Mediação de Conflito:
Todo programa que se proponha a en- Todos os conflitos ou apenas alguns
volver grande número de variáveis, como é conflitos?
o caso das escolas, deve ter o cuidado de 3. Ênfase da Mediação de Conflito: No
trabalhar a partir de generalizações. O Pro- produto ou no processo?
grama deve comportar-se tal qual um gran- 4. Atores da Mediação de Conflito: todos
de e delicado tecido jogado sobre um con- os membros do universo escolar ou
junto de peças com contornos distintos. O alguns membros do universo escolar?
tecido é o mesmo, mas ao alcançar a peça, 5. Limites da Mediação de Conflito na
toma a forma desta! Ele se amolda a cada Escola: sem limites de série, idade,
realidade. Com um programa de mediação turno, etc, ou com limites?
de conflito escolar não será diferente. 6. Relação da Mediação de Conflito com
as Regras Disciplinares: sem relação
Nossa pretensão, ao apresentar um ou com relação?
conjunto de distintas classificações de con- 7. Relação da Mediação de Conflito com
flito foi permitir alternativas para identifica- a Avaliação: sem relação ou com re-
ção particularizada de cada contexto esco- lação?
lar. Não há receita na mediação de confli- 8. Identificação dos Mediadores de
to que possa ser aplicada indistintamente a Conflito: mediação por pares ou ou-
escolas diferentes. Cada escola é uma rede tros mediadores?
complexa de relações e de valores e, por 9. Escolha dos Mediadores de Conflito: ação
tal, merecerá um diagnóstico específico de institucional ou escolha das partes?
conflitos e um modelo próprio. 10. Critérios para a Seleção dos Medi-
adores de Conflito: desempenho
Temos algumas questões que represen- acadêmico ou “respeitabilidade” en-
tam eixos padrões de decisão que devem tre os pares?
ser atendidos, ou não, no momento em que
a escola debate a instalação de um pro- À guisa de conclusão
grama de mediação. Enquanto refletimos sobre a validade ou
não de um programa de mediação de con-
Identificado o tipo de conflito que existe flito, somos visitados por alguns pensamen-
em cada escola, a partir das inúmeras clas- tos que estão no imaginário educacional,
sificações apresentadas anteriormente, a tais como: não foi para isso que estudei e
equipe disposta a implantar o programa de me formei! Não foi para cuidar de proble-
mediação de conflito escolar deverá respon- mas de aluno que fiz concurso público! Não
der a uma série de itens que definirão o tipo sou pago para este tipo de trabalho! Isso é
de programa que irão implantar. Escolhe- trabalho de orientador educacional! Estou
mos dez itens para este exercício de provo- perto de me aposentar!

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Não é nossa a proposta de contrapor- que contemplam o “outro lado” e deixar


mo-nos a partir de cada uma dessas ex- que cada um reflita e decida. Afinal, pode-
pressões. No exercício de controvérsia que mos pensar diferentemente e isso faz parte
pregamos ao longo deste trabalho, vamos, das relações humanas. Vejamos o que nos
mais uma vez, apresentar grandes idéias diz Porro (2004):

7 GRANDES MOTIVOS PARA REALIZAR O PROGRAMA DE MEDIAÇÃO:


1. a capacitação em resolver conflitos valoriza o tempo;
2. a capacitação em resolver conflitos ensina várias estratégias úteis;
3. a capacitação em resolver conflitos ensina aos alunos consideração e respeito para com os demais;
4. a capacitação em resolver conflitos reduz o estresse;
5. possibilidade de aplicar as novas técnicas em casa, com familiares e amigos;
6. a capacitação em resolver conflitos que podem contribuir para a prevenção do uso do álcool e de drogas;
7. possibilidade de sentir a satisfação de estar contribuindo com a paz do mundo.

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Recebido em: 31/10/2006


Aceito para publicação em: 5/02/2007

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