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98 Teologia Sistem ática

CAPÍTULO e cessa de ter autoridade obrigatória depois de cumprida”.93


3 Embora Cristo seja o cumprimento, as cerimônias são uma
A Palavra apresentação autorizada de um aspecto da obra divina da
Inspirada de e a condição destes diante deentre
redenção. O relacionamento Deus e os seres humanos,
Deus, têm implicações para
Deus todos os aspectos da vida. Por isso, a Palavra tem aplicação
autorizada a todas as esferas de nossa vida.
O escopo da autoridade das Escrituras é tão extensivo
como a própria autoridade de Deus em relação a todas as
áreas da existência humana. Deus está acima de todas as
áreas de nossa vida, e fala a todas elas mediante a sua
Palavra. A autoridade da Palavra escrita é a autoridade do
próprio Deus. A Bíblia não é meramente um registro da
autoridade de Deus no passado, mas continua sendo a auto­
ridade de Deus, hoje. Mediante a Palavra escrita, o Espírito
Santo continua a confrontar os homens e mulheres, em
nossos dias, com as reivindicações de Deus. Trata-se ainda
de: “Assim diz o Senhor!”
A I nspiração das E scrituras
Deus se revelou à sua criação. A inspiração diz respeito
ao registro, ou à escrita, dessa revelação divina. Posto que a
Bíblia foi escrita por autores humanos, devemos perguntar:
“Em que sentido seus escritos poderão (ou não) ser chama­
dos a Palavra de Deus?” Uma questão correlata diz respeito
ao grau (ou extensão) em que seus escritos podem ser consi­
derados revelação de Deus.
A B ase B íblica para a I nspiração
Considerando que toda testemunha tem o direito de se
expressar por si mesma, será examinada, em primeiro lugar, a
reivindicação que os próprios escritores bíblicos fazem à
inspiração divina. Muitos dos que compuseram as Escrituras
eram participantes, ou testemunhas oculares, dos eventos a
respeito dos quais escreveram.
O que era desde o princípio, o que vimos com os nossos olhos, o que
temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida
(porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos
A Palavra Inspirada de D eus 99

anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada), CAPÍTULO
o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos (1 Jo 1.1-3). 3
A Palavra
Cada um deles, seja Moisés, Davi, Jeremias, Mateus, Inspirada de
João, Pedro, ou Paulo, escreveu com base em suas próprias peus
experiências à medida que Deus se revelava a eles (Ex 4-1-
17; SI 32; Jr 12; At 1.1-3; 1 Co 15.6-8; 2 Co 1.3-11; 2 Pe
1.14-18). Mas seus escritos eram mais que relatos de pessoas
envolvidas. Declaravam que escreviam não somente a res­
peito de Deus, mas também em prol de Deus. A sua palavra
era a Palavra de Deus; a sua mensagem era a mensagem de
Deus.
Em todo o Antigo Testamento, deparamo-nos com ex­
pressões tais como: “Falou o SENHOR a Moisés, dizendo”
(Êx 14.1); “A palavra que veio a Jeremias, da parte do
SENHOR, dizendo” (Jr 11.1); “Tu, pois, ó filho do homem,
profetiza... e dize: Assim diz o SENHOR Deus” (Ez 39.1);
“Assim diz o SENHOR” (Am 2.1). Tais declarações são
usadas mais de 3.800 vezes, e demonstram com clareza que
os escritores tinham consciência de estar entregando uma
mensagem autorizada da parte de Deus.94
Os escritores do Novo Testamento não tinham, também,
a menor dúvida de estarem falando em nome de Deus. Jesus
não somente ordenou que os discípulos pregassem, mas tam­
bém lhes disse o que deviam pregar (At 10.41-43). Suas
palavras não eram “palavras de sabedoria humana, mas com
as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espiri­
tuais com as espirituais” (1 Co 2.13). Esperavam que as
pessoas reconhecessem que, por escrito, estavam elas rece­
bendo “mandamentos do Senhor” (cf. 1 Co 14.37). Paulo
podia garantir aos gálatas que, “acerca do que vos escrevo,
eis que diante de Deus testifico que não minto” (G1 1.20),
porque o tinha recebido da parte de Deus (G1 1.6-20). Os
tessalonicenses foram elogiados por terem recebido a mensa­
gem “não como palavra de homens, mas (segundo é, na
verdade) como palavra de Deus” (1 Ts 2.13). Preceitos e
mandamentos eram escritos à comunidade em nome de Je­
sus, e deixar de observá-los podia ocasionar motivo para a
exclusão do desobediente (2 Ts 3.6-14). Assim como Deus
tinha falado através dos santos profetas, agora o Senhor dava
10 0 Teologia Sistem ática

CAPITULO mandamentos através dos seus apóstolos (2 Pe 3 .2 ). Receber


— ^ u a vida eterna está vinculado com o ato de crer no testemu-
APalavra n^° Deus (registrado pelos discípulos) a respeito do seu
b p fc * Hlho ( l j o 5.10-12).
J)eus Nestes trechos, e em outros semelhantes, fica evidente
que os escritores do Novo Testamento estavam convictos de
estarem declarando “todo o conselho de Deus” em obediên-
cia ao mandamento de Cristo e sob a orientação do Espírito
Santo (At 20.27). Os escritores do Novo Testamento tam­
bém reconheciam a autoridade total das Escrituras do Anti­
go Testamento, porque Deus “falou pelo Espírito Santo”
através dos autores humanos (At 4.24,25; Hb 3.7; 10.15,16).
Paulo escreveu a Timóteo, asseverando que as Escrituras
podiam fazê-lo “sábio para a salvação, pela fé que há em
Cristo Jesus” (2 Tm 3.15). O valor das Escrituras deriva-se
de sua origem. Paulo indica que o mérito das Escrituras não
está no escritor humano, mas no próprio Deus. Ele afirma:
“Toda Escritura é inspirada por Deus” (2 Tm 3.16). O termo
“inspiração” é derivado desse versículo, e aplicado à escrita
da Bíblia. A palavra grega empregada aqui é theopncustos
que, literalmente, significa “soprada por Deus”. As versões
mais recentes dizem com razão: “Toda Escritura é inspirada
Isoprada] por Deus” (NVI). Paulo não está dizendo que
Deus soprou alguma característica divina nos escritos huma­
nos das Escrituras, ou que toda a Escritura respira um ambi­
ente de Deus, que fala dEle. O adjetivo grego (theopneustos)
é claramente predicativo, e é usado para identificar a fonte
originária de todas as Escrituras.95Deus é o Autor, em última
análise. Logo, toda a Escritura é a voz de Deus, a Palavra de
Deus (At 4.25; Hb 1.5-13).
O contexto de 2 Timóteo 3.16 tem em vista as Escrituras
do Antigo Testamento. A declaração de Paulo é que a
totalidade do Antigo Testamento é a revelação inspirada da
parte de Deus. O fato de que o Novo Testamento ainda
estava sendo escrito, exclui a mesma reivindicação interna e
explícita para ele. Mesmo assim, algumas declarações especí­
ficas feitas pelos escritores do Novo Testamento subenten­
dem que a inspiração das Escrituras estende-se à Bíblia intei­
ra. Por exemplo, em 1 Timóteo 5.18 Paulo escreve: “Porque
diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E:
A Palavra Inspirada de Deus 101

Digno é o obreiro do seu salário”. Paulo está citando Deute- CAPÍTULO


ronômio 25.4 e Lucasl0.7, considerando “Escritura” as cita­ 3
ções tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Além A Palavra
disso, Pedro refere-se a todas as epístolas de Paulo que, Inspirada de
embora tratassem a respeito da salvação divina, contêm Deus
“pontos difíceis de entender”. Por isso, algumas pessoas as
“torcem e igualmente as outras Escrituras, para sua própria
perdição” (2 Pe 3.16, grifos nossos). Note que Pedro coloca
todas as Epístolas de Paulo na categoria de Escritura. Torcê-
las é torcer a Palavra de Deus, resultando na destruição do
transgressor. Os escritores do Novo Testamento comunicam
“com as palavras que o Espírito Santo ensina, comparando
as coisas espirituais com as espirituais” (1 Co 2.13), assim
como Jesus prometera (J° 14.26; 16.13-15).
Na sua segunda epístola, Pedro fala de sua morte iminen­
te e do seu desejo de que seus leitores se mantenham na
verdade que ele já lhes havia compartilhado. Mostra-lhes
que a fé em Cristo não é nenhuma invenção, e lembra-lhes
de que ele mesmo era testemunha ocular daqueles eventos.
Pedro estava com Cristo, vendo-o e ouvindo-o pessoalmente
(2 Pe 1.12-18). O apóstolo passa, então, a escrever de algo
mais firme que seu testemunho pessoal (2Pe 1.19). Falando
das Escrituras, afirma que os autores humanos eram “levados
adiante” (pheromenoi) pelo Espírito Santo ao comunicarem
as coisas de Deus. O resultado disso era uma mensagem não
iniciada pelos desígnios humanos nem produzida pelo mero
raciocínio e pesquisa humanos (sem serem excluídas tais
coisas). Pedro afiança: “Sabendo primeiramente isto: que
nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação;
porque a profecia nunca foi produzida por vontade de ho­
mem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspira­
dos pelo Espírito Santo” (2 Pe 1.20,21).
O emprego que Pedro faz da expressão “profecia da Es­
critura” é um caso de pars pro tota. Ou seja: uma parte da
Escritura representa a totalidade desta. “O ímpeto que levou
à escrita provinha do Espírito Santo. Por essa razão, os leitores
de Pedro devem prestar atenção... pois não é simplesmente a
palavra dos homens, mas a Palavra de Deus”.96
Em virtude de sua inspiração pelo Espírito Santo, toda a
Escritura é fonte de autoridade. Jesus garante que até o
102 Teologia Sistem ática

CAPÍTULO menor dos mandamentos bíblicos é importante e obrigató


3 rio:
A Palavra “Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem,
Inspirada de nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido.
Deus Q ualquer, pois, que violar um destes menores mandam entos e assim
ensinar aos homens será cham ado o m enor no Reino dos céus; aquele,
porém, que os cumprir e ensinar será cham ado grande no Reino dos
céus” (Mt 5.18,19).

A recompensa, ou o castigo, depende de nosso relaciona­


mento com todos os mandamentos, incluindo-se o menor
deles. Acusado de blasfêmia por haver reivindicado a própria
divindade, Jesus apelou à expressão “sois ‘deuses”, que se
acha no Salmo 82.6. Contra essa acusação, edificou a sua
defesa na verdade, já bem aceita, de que até mesmo uma
frase relativamente obscura das Escrituras não pode ser anu­
lada (J° 10.34,35). A razão por que não podia ser anulada
era que, mesmo como fragmento da Escritura, não deixava
de ser a Palavra de Deus.
M odos de I nspiração
Uma vez aceito o testemunho que as Escrituras dão
acerca de si mesmas, fica mais que clara a sua divina inspira­
ção. A medida em que os autores humanos da Bíblia a
compunham, o próprio Deus dava mostras inequívocas de
achar-se envolvido neste processo de comunicação. E posto
que na maioria dos casos a Bíblia não revela a forma de sua
inspiração, várias teorias têm surgido a respeito. Cinco opi­
niões básicas são consideradas resumidamente nesta seção.
Intuição natural. A inspiração é meramente uma perspi­
cácia natural nos assuntos espirituais, exercida por pessoas
bem dotadas. Assim como alguns têm aptidão para a mate­
mática ou para a ciência, os escritores bíblicos teriam apti­
dão para as idéias religiosas. Não se vê nisso qualquer envol­
vimento especial de Deus. A pessoa poderia ter a mesma
inspiração natural para escrever uma poesia ou para compor
um hino.
Iluminação especial. A inspiração seria uma intensifica­
ção, ou exaltação, divina das percepções religiosas que todos
A Palavra Inspirada de Deus 103

os cristãos têm em comum. Os dons naturais dos escritores CAPÍTULO


bíblicos teriam sido aguçados de alguma maneira pelo Espíri­ 3
to Santo, mas sem nenhuma orientação especial, ou comu­ A Palavra
nicação da verdade divina.
Orientação dinâmica. A inspiração é a orientação espe­ Inspirada
Deus
de
cial pelo Espírito Santo, dada aos escritores bíblicos, para
garantir toda mensagem divina que trata de matérias
concernentes à fé religiosa e ao viver piedoso. A ênfase recai
nos pensamentos ou conceitos que Deus, querendo fossem
comunicados, fornecia aos escritores humanos, aos quais
dava plena liberdade quanto à expressão natural. Os ele­
mentos da fé e da prática religiosas eram assim orientados,
mas as chamadas matérias não-essenciais dependiam total­
mente (segundo essa opinião) dos conhecimentos, experiên­
cias, e escolhas dos próprios autores humanos.
Plenária verbal. A inspiração é a combinação entre a
expressão natural dos escritores e a iniciação e orientação
especiais dos seus escritos concedidas pelo Espírito Santo.
Mas o Espírito Santo não somente dirigia os pensamentos,
ou conceitos dos escritores, como também supervisionava a
seleção das palavras para a totalidade do texto (e não so­
mente para as questões de fé e prática). O Espírito Santo
garantia a exatidão e a suficiência de tudo quanto era escrito
como a revelação da parte de Deus.
Ditado divino. A inspiração é a superintendência infalí­
vel da reprodução mecânica das palavras divinas à medida
que o Espírito Santo as ditava aos autores bíblicos. Estes,
como obedientes estenógrafos, tudo registravam segundo as
ordens especiais do Espírito Santo quanto ao conteúdo, vo­
cabulário e estilo.
F ormulando um C onceito da I nspiração
O conceito de inspiração deve levar em conta tudo quanto
é necessário para a revelação divina ser comunicada com
exatidão. O modo correto de inspiração deve incluir todos os
elementos que a Bíblia postula tanto no ato de inspirar
quanto nos efeitos desse ato. Deve também reservar um
lugar apropriado à atividade de Deus e à atividade humana.
Ao examinarmos os dados fornecidos nas Escrituras, vá­
rios elementos envolvidos no ato de inspirar são apresenta-
104 Teologia Sistem ática

CAPÍTULO dos com clareza. (1) Toda a Escritura é respirada por Deus;
3 procede da boca de Deus (2 Tm 3.16). (2) Os autores
A Palavra 1.21). (3) Osfalaram
daEscritura inspirados pelo Espírito Santo (2 Pe
Inspirada de própria vontade,escritores sagrados não falavam segundo a
Deus Todavia, eles tomavam parte ativacome dinâmica
mas de acordo a vontade divina. (4)
na produção
das Escrituras. Não eram meros robôs (Lc 20.42; Jo 12.39;
At 3.22).
Semelhantemente, a Escritura fornece soluções quanto
ao ato de inspirar. (1) Toda a Escritura é respirada por Deus
e, portanto, toda a Escritura é a Palavra de Deus (1 Co
14.37; 2 Tm 3.16). (2) Toda a Escritura é proveitosa; é uma
regra completa e suficiente para a fé e prática (2 Tm 3.16,17).
(3) Nenhuma linha da Escritura pode ser deixada de lado,
anulada ou destruída; a totalidade da Escritura tem dè ser
aceita em sua integridade e plenitude (Jo 10.35). (4) A
Escritura é mais fidedigna que qualquer observação mera-
mente humana, seja empírica, seja científica, seja filosófica
(2 Pe 1.12-19). (5) Nenhuma parte da Escritura é condicio­
nada, quanto à sua veracidade, por nenhuma limitação de
seu autor humano (2 Pe 1.20). O condicionamento histórico
normal, bem como a pecaminosidade e finitude humanas,
são contrabalançados pela supervisão do Espírito Santo.
A luz dessas observações, extraídas da própria Escritura,
pode-se fazer uma avaliação dos cinco modos de inspiração
sugeridos. Tais conceitos, por considerarem a inspiração
meramente um dom natural de iluminação, não prestam a
devida atenção ao fato de Deus haver “soprado” a Escritura.
O conceito da orientação dinâmica, que entende serem as
questões de fé e práticas devidamente inspiradas, em con­
traste com os assuntos mais corriqueiros, não fornece ne­
nhum método seguro para determinar o que é inspirado e o
que não o é. Nem sequer leva em conta a declaração bíblica
de que toda a Escritura é inspirada, inclusive os versículos
tidos como obscuros.
O conceito do ditado divino na inspiração não reconhe­
ce devidamente o elemento humano - os estilos, expressões e
ênfases específicos dos escritores de per si.
O conceito da inspiração verbal e plenária evita os exa­
geros de se enfatizar a atividade de Deus a ponto de negli-
A Palavra Inspirada de Deus 10 5

genciar a participação humana, ou de enfatizar a contribui­ CAPÍTULO


ção humana a ponto de desprezar o envolvimento divino na
produção da Escritura. A totalidade da Escritura Sagrada é
inspirada, pois seus autores a escreviam sob a supervisão e
orientação do Espírito Santo. Isto permite variedades de
estilo literário, gramática, vocabulário e outras peculiarida­
des humanas. Afinal, alguns escritores bíblicos tinham, sob o
apanágio da providência de Deus, passado por longos anos
de experiência e preparo incomparáveis. Eis por que foram
usados por Deus para comunicar a sua mensagem (Moisés,
Paulo).
Os conceitos da orientação dinâmica e os da inspiração
verbal e plenária são sustentados por muito eruditos; tais
conceitos reconhecem a obra do Espírito Santo, bem como
as diferenças óbvias nos vocabulários e estilos dos escritores.
Uma diferença importante entre as duas opiniões envolve a
extensão da inspiração. Reconhecendo ter havido orienta­
ção do Espírito Santo, até onde esta se estende? No tocante
aos escritos bíblicos, os defensores das várias opiniões dinâ­
micas sugeriram que a orientação do Espírito estendeu-se
aos mistérios além do alcance da razão humana, ou somente
até à mensagem da salvação, ou ainda até as palavras de
Cristo, ou talvez até certos assuntos (tais como as seções
didáticas ou proféticas, ou talvez a todas as matérias que se
relacionam com a fé e prática cristãs). A inspiração plenária
e verbal sustenta, porém, que a orientação do Espírito Santo
estendia-se a todas as palavra dos documentos originais (os
autógrafos).
No tocante à orientação do escritor pelo Espírito, tem-se
sugerido que a influência do Espírito estendeu-se somente ao
impulso original para se escrever, ou somente à seleção dos
tópicos, ou apenas aos pensamentos ou idéias do autor,
conforme este achasse melhor. Na inspiração plenária e ver­
bal, todavia, a orientação do Espírito estendia-se até às pró­
prias palavras que o escritor selecionava para expressar os
seus pensamentos. O Espírito Santo não ditava as palavras,
mas guiava o escritor para que este, livremente, escolhesse as
palavras que realmente expressavam a mensagem de Deus.
(Por exemplo, o escritor poderia ter escolhido “casa” ou
“construção”, segundo a sua preferência, mas não poderia
106 Teologia Sistem ática

CAPÍTULO ter escolhido “campo”, pois isso teria mudado o conteúdo da


3 mensagem.)9'
A Palavra Qualquer combinação das sugestões no conceito da ori­
Inspirada de quanto dinâmica
entação
à
coloca-nos numa posição de relatividade
extensão da inspiração das Escrituras. Esse
Deus posicionamento relativo requer seja aplicado algum princí­
pio para diferenciar as partes inspiradas das não-inspiradas
(ou mais inspiradas e menos inspiradas) da Bíblia. Vários
princípios têm sido sugeridos: tudo quanto é razoável; tudo
quanto é necessário para a salvação; tudo quanto é valioso
para a fé e a prática; tudo quanto traz o Verbo; tudo quanto
é querigma genuíno, ou tudo aquilo sobre o qual o Espírito
dá testemunho especial. Todos os princípios desse tipo são
subjetivos e centralizam-se no homem. Além disso, há o
problema de quem aplicará o princípio de modo decisivo. A
hierarquia eclesiástica, os estudiosos bíblicos e os teólogos,
os cristãos individuais, todos desejariam o poder de escolha.
Em última análise, o conceito da orientação dinâmica acaba
derivando do homem a autoridade da Bíblia, em vez de
derivá-la de Deus. Somente o conceito da inspiração plená­
ria e verbal evita o problema da relatividade teológica, sem
deixar de levar em conta a variedade humana ao reconhecer
que a inspiração estende-se à totalidade das Escrituras.
A inspiração plenária e verbal contém uma definição
essencial no próprio nome. E a crença de que a Bíblia é
inspirada nas próprias palavras (verbal) escolhidas pelos es­
critores. E inspiração plenária (plena, total, inteira) porque
todas as palavras, em todos os escritos originais (autógrafos),
são inspiradas. Uma definição mais técnica da inspiração
segundo a perspectiva plenária e verbal poderia ser esta: A
inspiração é o ato especial do Espírito Santo mediante o qual
motivou os escritores bíblicos a escrever, orientando-os até
mesmo no emprego das palavras, preservando-os de igual
modo de todos os erros ou omissões.
Apesar de cada palavra da Bíblia ser inspirada por Deus,
a sua veracidade depende do contexto. Isto é: ela pode
registrar autoritativamente o conteúdo inspirado e verídico
de uma mentira. Quando, por exemplo, a serpente disse a
Eva que esta não morreria se comesse do fruto proibido,
estava, sem dúvida alguma, mentindo - pois Eva morreria!
(Gn 3.4,5). No entanto, posto que a totalidade da Bíblia seja
A Palavra Inspirada de Deus 107

inspirada, as palavras do tentador, embora falsas, foram CAPITULO


registradas com exatidão.
A inspiração verbal e plenária era a opinião da Igreja APalavra
Primitiva. Durante os oito primeiros séculos da Igreja, ne- Inspirada de
nhum líder eclesiástico, de vulto, ousou sustentar outra opi- peus
nião. Procedimento similar foi adotado pelas igrejas cristãs
ortodoxas até ao século XVIII.98 A inspiração plenária e
verbal continua sendo o conceito sustentado pelo
evangelicalismo.
A inspiração verbal e plenária eleva o conceito da inspi­
ração até à plena infalibilidade, posto que todas as palavras
são, em última análise, palavras de Deus. A Escritura é
infalível porque é a Palavra de Deus, e Deus é infalível. Nas
últimas décadas do século XX, alguns procuraram apoiar o
conceito da inspiração plenária e verbal sem o corolário da
infalibilidade. Como resposta, livros foram escritos, confe­
rências, realizadas, e organizações formadas na tentativa de
firmar o modo histórico de se entender a inspiração das
Escrituras Sagradas. Uma fileira de fortes adjetivos tem sido
acrescentada à expressão “plenária e verbal” até ao ponto de
alguns insistirem que esta opinião teológica seja chamada
“inspiração verbal plenária, infalível, inerrante, ilimitada”.
Quando investigamos o significado de tantos qualificativos,
constatamos que é exatamente isto o que significa a “inspira­
ção plenária e verbal”!
A I nerrância B íblica
Uma mudança notável da terminologia que resultou dos
debates na área da inspiração das Escrituras foi a preferência
pelo termo “inerrância” ao invés de “infalibilidade”. Isso tem
a ver com a insistência de alguns no sentido de que podemos
ter uma mensagem infalível com um texto bíblico errante.
“Infalibilidade” e “inerrância” são termos empregados
para se aludir à veracidade das Escrituras. A Bíblia não falha;
não erra; é a verdade em tudo quanto afirma (Mt 5.17,18; Jo
10.35). Embora tais termos nem sempre hajam sido empre­
gados, os teólogos católicos, os reformadores protestantes, os
evangélicos da atualidade (e, portanto, os pentecostais “clás­
sicos”), têm afirmado ser a Bíblia inteiramente a verdade;
nenhuma falsidade ou mentira lhe pode ser atribuída.99