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TELA CHEIA SUMÁRIO

Copyright 2019 Futebol Interativo / Natal – RN ©

Coordenador
Marcos Antonio Mattos dos Reis

Designer Editorial e Interação


José Antonio Bezerra Junior

Capa
Marcus Arboés

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TELA CHEIA SUMÁRIO

BREVE INTRODUÇÃO
Este e-Book tem como finalidade debater assuntos sobre o processo de
formação, identificação e seleção de jogadores de futebol, desde as fases
iniciais da vida humana até as últimas categorias competitivas do futebol de
base. Neste sentido, este material possui uma visão holística acerca do futebol de
base, apresentando diversos conteúdos que permitem os alunos mergulharem
em diferentes e ricas áreas da formação de jogadores de futebol.

Quando se fala em futebol de base, pode-se dividir em três estágios: iniciação


esportiva (6-10 anos de idade), especialização esportiva (11-15 anos de idade) e
categorias de base (16-20 anos de idade). A iniciação esportiva consiste no pri-
meiro contato do sujeito com qualquer prática esportiva. Já a especialização
esportiva coloca o indivíduo em um contexto mais restrito do futebol, visando
focar em habilidades motoras específicas da modalidade. Obviamente, a utiliza-
ção do futebol de salão (futsal) nesse processo ainda pode ser bastante utilizada,
inclusive como transição da iniciação à especialização esportiva, tendo em vista
que é um esporte que faz parte da família dos jogos jogados com os pés. Por fim,
a categoria de base, que é a fase que coloca os jogadores em contato com o
alto rendimento, a partir de diversos cuidados, como o aumento da quantidade
diária de prática, por exemplo.

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Essa divisão não é um produto fechado, mas ajuda a entender o quão com-
plexo é a formação de um jogador de futebol a partir das finalidades específicas
de cada etapa do processo. Existem diversas formas que permitem enxergar o
futebol de base e a partir de agora iremos abordá-las de acordo com cada con-
teúdo específico. Neste sentido, esse e-book traz conhecimentos diversos sobre
o processo de ensino e aprendizagem do futebol, fatores biopsicossocioculturais
que afetam a formação dos jogadores, ferramentas que permitem identificar e
selecionar o talento esportivo, além de apresentar duas funções emergentes do
futebol contemporâneo: coordenação técnica e coordenação metodológica no
futebol de base. Tenham todos uma excelente leitura a partir de agora.

INICIAÇÃO ESPORTIVA X ESPECIALIZAÇÃO PRECOCE NO FUT6EBOL


O esporte é um patrimônio cultural da humanidade, pois foi construído e
transmitido a partir de um conjunto de valores, podendo ser analisado em dife-
rentes perspectivas, sendo uma delas a organização hierárquica. Por exemplo, o
esporte, enquanto todo, pode ser dividido em partes: esportes coletivos; e espor-
tes individuais. Posteriormente, cada uma dessas partes se torna todo e geram
novas partes, criando ramificações hierárquicas a partir das existentes (figura
1). Neste sentido, o todo atua como mecanismo restritivo das partes, mas não as
controlam, pois elas apresentam características particulares de acordo com a
lógica interna de cada modalidade esportiva (TANI e CORRÊA, 2006).
A partir disso, ao observar os esportes coletivos de invasão (nível de análise
3 da figura 1), nota-se que existem denominadores em comum que fazem com
que essas modalidades esportivas se assemelhem entre si, como por exemplo:
móbil (objeto a ser disputado pelas equipes, vide a bola, por exemplo), terreno de
confronto, relações de cooperação e oposição entre os jogadores, regras, alvo a
ser atingido, entre outros (GARGANTA, 1995). Dentro desta perspectiva, quando se
fala de iniciação esportiva, será que é melhor as crianças praticarem somente

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uma modalidade esportiva ou será que a prática de vários esportes não seria
melhor para a sua formação? Por exemplo, no caso do futebol, não seria interes-
sante o sujeito praticar diferentes esportes?

Figura 1. Organização hierárquica do esporte.

A partir desses questionamentos, o debate sobre como deve ocorrer a ini-


ciação esportiva no processo de formação de jogadores de futebol é de funda-
mental importância. A iniciação esportiva pode ser entendida como o primeiro
contato que o indivíduo tem com qualquer modalidade em uma perspectiva
formal, caracterizada por uma sistematização de treinamento e pela disputa
de competições (escolar, interclubes, etc.). A iniciação no esporte pode ser feita
sob uma perspectiva generalista ou uma abordagem específica, denominada
de especialização precoce (MEMMERT e ROTH, 2007; GRECO, 1998).
Na iniciação esportiva generalista, o sujeito pratica diferentes modalidades
esportivas sem perder o foco principal (no caso desse material, será o futebol)
(MEMMERT e ROTH, 2007). Essa permissividade a diversidade de práticas esportivas
ao indivíduo pode ser intra ou inter-sessões. Na intra-sessão, ou seja, dentro de
um treino, o professor cria um ou dois exercícios (pode ser no aquecimento, en-
tre os exercícios do futebol ou no final do treino) que são de outras modalidades
esportivas (handebol, basquetebol e hóquei, por exemplo). Nas inter-sessões,
ou seja, entre treinos, o professor dedica um dia de treino para que as crianças
realizem exercícios de outros esportes coletivos de invasão.
Já na iniciação esportiva específica, as crianças praticam somente exercícios
do futebol de campo, priorizando as habilidades motoras específicas (com e sem
bola) da modalidade. Portanto, percebe-se que são abordagens de iniciação
esportiva diferentes e que podem gerar mecanismos de adaptação diferentes
nas crianças. As duas abordagens geram benefícios ao desempenho perceptivo,
decisório e motor dos praticantes, contudo com características diferentes.

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Por exemplo, crianças que só praticavam futebol melhoraram seu desempe-


nho criativo em 35% nos primeiros seis meses de intervenção, enquanto crianças
que praticavam diversas modalidades aumentaram apenas 10%. Contudo, nos
últimos nove meses de intervenção, os sujeitos que praticavam somente futebol
melhoraram 21%, enquanto os que praticavam diversos esportes melhoraram 32%
(MEMMERT e ROTH, 2007). O futebol alemão passou a adotar a “Escola da Bola”, uma
abordagem metodológica de ensino do esporte com foco na iniciação esportiva
como principal ferramenta de formação de jogadores, estimulando as crianças
praticarem diversas modalidades a fim de estimular o pensamento criativo na
sua formação atlética.

Além disso, jogadores de futsal com média de 13 anos de idade, realizam mais
passes por minuto, possuem menor área individual de jogo ao redor do portador
da bola e menor tempo para receber a bola do que os jogadores de futebol de
campo (OPPICI et al., 2017). Jogadores de futsal também tiveram mais passes
bem-sucedidos no futebol de campo do que no futsal, enquanto os jogadores
de futebol de campo mantiveram os seus desempenhos estáveis nos dois jo-
gos. Além disso, os jogadores de futsal tiveram mais passes bem-sucedidos do
que os jogadores de futebol de campo no jogo de futebol de campo. Antes do
primeiro toque na bola, os jogadores de futsal direcionavam sua atenção para
outros jogadores mais vezes do que os jogadores de futebol de campo no jogo
de futebol. Além disso, o jogo de futsal promoveu maior atenção orientada para
outros jogadores do que o jogo de futebol (OPPICI et al., 2018). O que é uma ca-
racterística de jogadores experientes no futebol de campo, que olham mais para
os jogadores e o espaço vazio no campo, enquanto os jogadores inexperientes
olham mais para a bola (ROCA et al., 2011).

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Müller et al. (2016) também verificaram que o futsal promove maior eficácia de-
fensiva do que o futebol. Com isso, os contributos do futsal para o futebol vão além
dos aspectos ofensivos do jogo. Neste sentido, percebe-se os motivos, testados cien-
tificamente, pelo qual o futsal é considerado um esporte doador para o futebol de
campo, em especial no Brasil. Por isso ele é caracterizado como uma das principais
ferramentas na formação de jogadores de futebol (TRAVASSOS, ARAÚJO e DAVIDS, 2018).
Desta forma, observa-se através da literatura científica que as duas abordagens
(iniciação esportiva generalizada e específica) são eficazes na melhora do desem-
penho dos jogadores na iniciação esportiva, com a perspectiva generalizada permi-
tindo a transferência de habilidades. A transferência da aprendizagem de habilidades
pode ser definida como o processo de adaptação de determinado comportamento
a um novo contexto de prática, avaliada na obtenção de desempenho e não em um
movimento estereotipado (NEWELL, 1986). A prática de outros esportes pode ajudar
na formação de jogadores de futebol, tanto em aspectos ofensivos, quanto defensi-
vos, e que o professor pode manipular a utilização de outras modalidades esportivas
durante as sessões de treinos ou deixando um dia de prática alternativa no seu pla-
nejamento. Contudo, é importante também entender como funciona o processo de
ensino-aprendizagem do futebol e os seus respectivos fatores determinantes. A partir
de agora vamos focar nesses dois processos ao longo do texto.

O PROCESSO DE APRENDIZAGEM DO JOGADOR DE FUTEBOL


A aprendizagem é um processo singular e relativamente permanente de alte-
ração comportamental. Ela pode ser apresentada a partir de diferentes aspectos
(individual, específico e geral) e o desempenho é utilizado como principal medi-
da de aprendizagem de alguma habilidade (PACHECO e NEWELL, 2018; TANI, 2016;
BARREIROS e PASSOS, 2013). Habilidade é definida como uma ação propositiva,
intencional e consciente, apresentada através do processo de parametrização
da função (otimização do controle), que visa solucionar problemas dentro de um
contexto (SCHMIDT e LEE, 2016; TANI, 2016; NEWELL, 1985).
No futebol, os problemas do ambiente de prática estão relacionados à opera-
cionalização do jogo em que uma equipe visa manter a posse de bola, avançar
no campo de jogo, criar situações de finalização e finalizar na baliza adversária,
enquanto o adversário busca proteger sua baliza, anular situações de finalização,
impedir o avanço do adversário no campo e recuperar a bola (COSTA et al., 2009).
Neste sentido, ocorre uma constante troca de informações entre as equipes com
o objetivo de aumentar a incerteza sobre o adversário e, consequentemente,
diminuir a ambiguidade do adversário sobre a equipe (CORRÊA et al., 2012).
Desta forma, os jogadores devem aprender habilidades com e sem bola (para
exemplos dessas habilidades consultar o quadro 1) que permitam a eficácia e
eficiência ao longo do jogo, ou seja, a resolução dos problemas gerais e especí-
ficos de uma partida de futebol com o menor gasto de energia possível (CORRÊA,
PINHO e SILVA FILHO, 2016; CORRÊA et al., 2012; GRECO, 1998). A partir disto, surge uma
indagação, como os jogadores de futebol aprendem estas habilidades?

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Na tentativa de responder essa pergunta, pode-se observar os estudos cientí-


ficos da aprendizagem motora, definida como uma subárea do comportamento
motor que tem como objetivo entender e esclarecer os processos e mecanismos
inerentes à conquista, estabilização e adaptação das habilidades motoras hu-
manas a partir da prática e dos fatores que o afetam (TANI, 2016; TANI et al., 2014;
TANI et al., 2011). Destacam-se, três teorias da aprendizagem motora que buscam
explicar como o ser humano aprende diferentes habilidades: teoria do processa-
mento de informações (SCHMIDT, 1975; FITTS e POSNER, 1967), teoria da ação (TUR-
VEY, SOLOMON e BURTON, 1989) e o modelo de processo adaptativo (TANI, 2000).
A teoria do processamento de informações parte de uma abordagem
cognitivista que preconiza que o sistema nervoso central (SNC) é o elemento cen-
tral e regulamentador de todo o movimento humano. A conservação ou transmis-
são da informação, a redução da informação e a criação ou elaboração da infor-
mação são formas específicas de processamento de informações (FITTS e POSNER,
1967). Desta forma, a partir deste modelo, os jogadores percebem um estímulo,
processam a informação captada no SNC, elaboram uma resposta mental para
o problema percebido e executam uma ação motora para resolver o problema,
sendo que esse processo é retroalimentado por feedback (SCHMIDT e LEE, 2016).

Quadro 1. Exemplo de habilidades motoras específicas do futebol.

Habilidades motoras específicas ofensivas


Com bola Sem bola
Recepção Cobertura ofensiva
Condução Espaço sem bola
Penetração Mobilidade
Espaço com bola Unidade ofensiva
Drible
Chute
Cabeceio ofensivo
Habilidades motoras específicas defensivas
Sem bola (sem contato com a
Com bola (recuperação da bola)
bola)
Desarme Contenção
Interceptação Cobertura defensiva
Bloqueio de chute Equilíbrio
Cabeceio defensivo Concentração
Unidade defensiva

A teoria da ação se baseia na psicologia ecológica e na abordagem dos sis-


temas dinâmicos como sustentação teórica (TURVEY, SOLOMON e BURTON, 1989;

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GIBSON, 1979; GIBSON e GIBSON, 1955). A partir disto, o processo decisório e a exe-
cução de movimentos não são comandados por um único elemento, mas são
regidos pelo acoplamento percepção-ação, ou seja, interação entre o indivíduo e
o ambiente de prática (PACHECO e NEWELL, 2018). No caso do futebol, os jogadores
e as equipes são considerados sistemas sociais complexos não-determinísticos
(não são completamente previsíveis) e a aprendizagem emerge continuamen-
te das interações dos componentes do sistema (padrões coordenativos inter e
intra-indivíduos) (DAVIDS et al., 2013).
Já o modelo de processo adaptativo aborda que a aprendizagem motora é
um processo além da estabilização da habilidade e que consiste em um cresci-
mento complexo da dinâmica cíclica de estabilidade-instabilidade-estabilidade.
Desta forma, a aprendizagem motora vai além da estabilização funcional (pa-
dronização espacial e temporal do movimento a partir de uma nova estrutura
formada), pois o sujeito mostra que aprendeu a habilidade ao enfrentar pertur-
bações e se adapta à elas, o que denota uma alteração qualitativa do sistema
(TANI et al, 2014; CHOSHI, 2000; TANI, 2000).
Após breve discussão sobre teorias da aprendizagem motora, a partir de ago-
ra será abordado alguns fatores que afetam a aprendizagem motora no futebol,
como: instrução, demonstração, foco de atenção, prática e feedback (SCHMIDT
e LEE, 2016; WALTER, BASTOS e TANI, 2016; MELO e BARREIROS, 2013; WULF, 2013).
A instrução é a verbalização de informações ofertada aos jogadores de acor-
do com aquilo que quer ser aprendido (WALTER, BASTOS e TANI, 2016; MELO e BAR-
REIROS, 2013). Contudo, o excesso de instrução ou a instrução ofertada em mo-
mentos inoportunos (como durante os exercícios) pode gerar uma dependência
do aprendiz pelas informações do professor/treinador (MEMMERT, 2007).

A demonstração consiste na utilização de imagens representativas da tarefa


a ser praticada. Ela deve ser predominantemente visual, ofertando informações
diferentes da instrução, por exemplo. Desta forma, a demonstração visa a obser-
vação de um modelo a fim de favorecer a compreensão do que vai ser praticado

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e, consequentemente, a assimilação do conteúdo (WALTER, BASTOS e TANI, 2016;


MELO e BARREIROS, 2013).
O foco de atenção corresponde ao direcionamento dos mecanismos aten-
cionais durante a tarefa e pode ser orientada para elementos internos do sujeito
ou para componentes do ambiente de prática (WULF, 2013). Por exemplo, em um
exercício do futebol, o aprendiz pode ser orientado a focar no seu padrão de mo-
vimento do passe (foco de atenção interno) ou pode ser conduzido para focar
nas movimentações dos outros jogadores (foco de atenção externa).
A prática é o fator mais importante no processo de aprendizagem motora, pois
consiste na busca constante de experimentar diversas possibilidades de solução
de problemas motores a partir de tentativas conscientes de arranjo, execução,
avaliação e alteração das habilidades motoras. A prática pode ser abordada a
partir do seu fracionamento e da sua variabilidade (WALTER, BASTOS e TANI, 2016).
O fracionamento da prática consiste na divisão da habilidade em partes para
diminuir a complexidade da tarefa (prática por partes) ou na execução da habili-
dade na sua totalidade (prática pelo todo) (WALTER, BASTOS e TANI, 2016). Práxedes
et al. (2016) verificaram que a prática pelo todo foi mais eficaz do que a prática
pelas partes na tomada de decisão e execução de habilidades do futebol.

A variabilidade da prática é a quantidade de variação na execução de uma


habilidade motora em determinada tarefa. A prática pode ser constante (sem
variação) e variada (com variação) (WALTER, BASTOS e TANI, 2016). Quando se
pratica o futebol por partes, a prática constante consiste na execução do passe
na mesma direção e distância, por exemplo. Já na prática variada, o passe será
executado em diferentes direções e distâncias.
Contudo, ao observar a aprendizagem do futebol pelo todo (jogos reduzidos, por
exemplo) (DAVIDS et al., 2013), as habilidades motoras variarão por si só. Com isso, a
variabilidade da prática pode ser feita através das relações numéricas entre equi-
pes (superioridade, igualdade e inferioridade numérica). Na prática sem variação,
as equipes jogariam somente em uma situação (4x4, por exemplo), enquanto na
prática com variação elas jogariam nas três situações (4x3, 4x4 e 3x4, por exemplo).

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Por fim, o feedback consiste em informações sobre o movimento praticado pelo


aprendiz e os resultados obtidos por ele (SCHMIDT e LEE, 2016; MELO e BARREIROS, 2013).
Existem dois tipos de feedback: intrínseco ou inerente e extrínseco ou aumentado
(SCHMIDT e LEE, 2016; CHOSHI, 2000). O feedback intrínseco é consequência natural
da ação realizada, ou seja, o praticante utiliza mecanismos internos para detectar
e corrigir os erros para estabilizar o desempenho da habilidade (SCHMIDT e LEE, 2016;
CHOSHI, 2000). Já o feedback extrínseco é a retroalimentação da informação por um
agente externo, como o professor/treinador ou um vídeo do jogo, por exemplo (VAN
MAARSEVEEN, OUDEJANS e SAVELSBERGH, 2018; SCHMIDT e LEE, 2016).

COMO ENSINAR O FUTEBOL


O processo de ensino do futebol consiste em duas vertentes fundamentais:
a) gestão de recursos humanos a partir da liderança do professor/treinador e
b) escolha da abordagem metodológica a fim de estimular a aprendizagem de
habilidades com e sem bola do futebol (CARRAVETTA, 2012).
A liderança consiste na otimização do desempenho dos jogadores a fim de
maximizar a eficácia coletiva em prol de uma tarefa. O perfil de liderança do trei-
nador deve procurar a integração entre os componentes do grupo a fim de que
atenda às necessidades de cada um a fim de alcançar a meta estabelecida (REIS
et al., 2018). Neste sentido, o perfil de liderança de treinadores de futebol apresenta
dois estilos: decisão e interação. O estilo de decisão está relacionado às escolhas
do treinador que afetam diretamente os jogadores e possui duas dimensões. Já o
estilo de interação envolve as relações interpessoais entre o treinador e os joga-
dores, possuindo quatro dimensões (ZHANG, JENSEN e MANN, 1997) (quadro 1).

Quadro 2. Estilos de liderança e suas respectivas dimensões de acordo com a Escala de


Liderança Revisada para o Esporte (ZHANG, JENSEN e MANN, 1997)

Estilo Dimensão Definição


O professor/treinador centraliza todas as deci-
Autocrática
sões não considerando a opinião dos jogadores
Decisão Permite que os jogadores deem suas opiniões e
Democrática respeita a opinião da maioria dos jogadores em
determinados assuntos
O professor/treinador elogia os jogadores quan-
Reforço positivo do eles conseguem alcançar as metas estabele-
cidas
Busca individualizar as conversas para atender
Situacional
as necessidades particulares de cada jogador
Interação
Procura informações sobre a vida pessoal dos jo-
Suporte social
gadores (com a família e na escola, por exemplo)
Foca em aspectos metodológicos do treino a fim
Treino-instrução de ofertar os melhores estímulos para os jogado-
res

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Já em relação a abordagem metodológica, ela pode ser definida como um


conjunto de procedimentos que visam transmitir conteúdos a fim de que os pra-
ticantes possam assimilá-los da melhor forma possível e, consequentemente,
melhorar o desempenho dos jogadores (DAVIDS et al., 2013). No futebol, ao longo
do desenvolvimento do esporte na história, diversos procedimentos metodoló-
gicos foram sendo criados a fim de ofertar o melhor ensino do futebol possível.
Dentre esses métodos de ensino do futebol, destacam-se: global, analítico, inte-
grado e sistêmico (CARRAVETTA, 2012; LOPES e SILVA, 2009; SILVA, 1998).
O método analítico tem como foco o ensino das habilidades com bola, com
ênfase na biomecânica do movimento, partindo do pressuposto que a soma
das partes será maior do que o todo (CARRAVETTA, 2012). Desta forma, ao utilizar
esse método, o professor/treinador prioriza o padrão de movimento, em uma
perspectiva descontextualizada do jogo de futebol, a fim de que o jogador pos-
sa ter consistência na habilidade que a ser treinada através da diminuição de
incertezas (DAVIDS et al., 2013). Contudo, a ruptura disfuncional na relação am-
biente de prática e aprendiz, a ausência de variabilidade contextual, os poucos
e engessados mecanismos decisórios e a diminuição dos recursos atencionais
dos jogadores são as principais limitações desse método (DAVIDS et al., 2013;
GARGANTA e GRÉHAIGNE, 1999; SILVA, 1998).
Práxedes et al. (2016) investigaram a eficácia do método analítico em com-
paração com jogos reduzidos no ensino da tomada de decisão e da execução
do passe em crianças com idade aproximada de 10 anos. O programa baseado
nos jogos reduzidos foi mais eficaz do que o método analítico, provavelmente
por conta dos fatores apresentados no parágrafo anterior.
O método global consiste na utilização de jogos, geralmente próximo dos 11x11,
em que o professor/treinador não possui uma finalidade em relação ao que se
quer ensinar, ou seja, não existe uma sistematização de conteúdo (CARRAVE-
TA, 2012). Esse tipo de abordagem metodológica pode prejudicar o processo de
formação no futebol, pois os estímulos ofertados ficam destinados ao acaso.
Além disso, esse método pode fazer com que os jogadores não corrijam os seus
principais defeitos, tendo em vista a grande quantidade de interações e, conse-
quentemente, de complexidade na tarefa. Por exemplo, jogadores que apresen-
tam dificuldades na execução de habilidades com bola dificilmente realizarão
ações com bola que permitam a melhora do seu desempenho no passe, chute,
drible, etc.
O método integrado visa a junção dos métodos analítico e global em uma
mesma sessão de treino. Geralmente, o professor/treinador utiliza o método ana-
lítico no início do treino e depois realiza jogos (método global) na segunda parte
do treino com a expectativa de que ocorra uma transferência de aprendizagem
(CARRAVETTA, 2012; LOPES e SILVA, 2009). Porém, será essa tal esperada transfe-
rência de habilidades fica prejudicada por conta que na primeira parte do treino
ocorre uma descontextualização do jogo de futebol a partir de exercícios simples

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e previsíveis, enquanto na segunda parte ocorre exercícios com alto grau de


complexidade (DAVIDS et al., 2013).
Já a abordagem sistêmica aplicada ao ensino do futebol reconhece a nature-
za coletiva do jogo, em que duas equipes se encontram em cooperação e oposi-
ção a fim de alcançar objetivos comuns e específicos (atingir a baliza adversária
e proteger a própria baliza do adversário, por exemplo) (GARGANTA e GRÉHAIG-
NE, 1999). Essas duas equipes são entendidas como dois sistemas abertos, pois
trocam energia e informação para obter suas metas (VON BERTALANFFY, 2016).
Essa troca de energia e informação ocorre a partir de um processo adaptativo
e entrópico em que uma equipe busca perturbar a outra a fim de aumentar as
incertezas sobre ela (entropia positiva) e, consequentemente, diminuir as dúvi-
das geradas pela equipe adversária (entropia negativa) se adaptando às suas
perturbações (CORRÊA et al., 2012).
Neste sentido, a abordagem sistêmica possui diversas ramificações no futebol,
ou seja, diversos métodos que surgiram a partir da década de 80 influenciados
pela teoria geral dos sistemas (VON BERTALANFFY, 2016), como por exemplo: ensino
dos jogos para compreensão (MEMMERT et al., 2015), periodização tática (SILVA,
2008) e escola da bola (MEMMERT e ROTH, 2007). Todos esses métodos possuem
especificidades, mas apresentam dois denominadores comuns: reconhecem a
complexidade do jogo de futebol e sua não-linearidade e utilizam jogos reduzidos
como principal estratégia metodológica (DAVIDS et al., 2013).
Os jogos reduzidos representam variáveis específicas do jogo de futebol que
permitem a regulação da tomada de decisão e da execução de habilidades
(com e sem bola) a partir de fontes de informações que devem representar o
todo. Neste sentido, a utilização dos jogos reduzidos deve permitir o aprendizado
de comportamentos funcionais estabelecendo o acoplamento percepção-ação
fundamental para ambientes imprevisíveis e dinâmicos como o jogo de futebol.
Além disso, os jogos reduzidos fornecem aos jogadores a variabilidade contextual
inerente às partidas de futebol (DAVIDS et al., 2013).
Portanto, os jogos reduzidos podem ser entendidos como padrões microscópi-
cos (1x1, 2x1, 2x2, etc.) que influenciam o surgimento de padrões macroscópicos (11x11)
(SANTOS et al., 2018). Neste sentido, os jogos reduzidos permitem a aprendizagem e
a melhor do desempenho de diferentes habilidades em um mesmo exercício. Por
exemplo, os jogadores melhoram os padrões coordenativos intra e interpessoal,
sendo que a coordenação intrapessoal consiste na execução das habilidades com
bola (ações técnicas) e a coordenação interpessoal são movimentações dos jo-
gadores no campo de jogo (ações táticas) (SANTOS et al., 2018; DAVIDS et al., 2013).
Além da escala individual de desempenho, os jogos reduzidos permitem a
melhora do desempenho setorial, intersetorial e coletivo das equipes de futebol
(REIS e ALMEIDA, 2019), que também estão diretamente ligados à coordenação
interpessoal (DAVIDS et al., 2013). Neste sentido, o professor/treinador pode utilizar

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diferentes jogos reduzidos a fim de ensinar e desenvolver princípios específicos


de jogo relacionados às fases do jogo de futebol (REIS e ALMEIDA, 2019).
Na figura 2, podemos observar um exemplo de jogo reduzido que engloba di-
ferentes escalas de desempenho e as coordenações intra e interpessoal. O jogo
é realizado dentro da grande área, em uma situação 2X2, mais quatro curingas
externos e um goleiro. A dupla que estiver com a posse de bola poderá utilizar os
curingas externos, que por sua vez, poderão dar no máximo dois toques na bola
antes de passar a bola para a mesma equipe que recebeu o passe (os curingas
não poderão finalizar). A atividade será realizada em forma de torneio “turno e
returno” entre as quatro duplas (seis jogos para cada dupla) com duração de
dois minutos cada jogo totalizando 24 minutos de exercício. Os objetivos deste
exercício são: a) aperfeiçoar o passe para a finalização, o drible orientado para
a baliza adversária, a recepção orientada para a finalização e o chute ao gol dos
jogadores; b) estimular a tomada de decisão e a criatividade dos jogadores; c)
desenvolver habilidades ofensivas realizadas sem a bola (cobertura ofensiva,
principalmente); d) estimular os princípios específicos ofensivos de jogo da pro-
fundidade e amplitude.

Figura 2. Exemplo de jogo reduzido que permite a melhora do desempenho individual


(coordenação intrapessoal) e coletivo (coordenação interpessoal).

Além disto, a manipulação das restrições das tarefas nos jogos reduzidos
pode ser feita em diversas perspectivas a depender do objetivo do treino: rela-
ções numéricas, como jogos em superioridade e inferioridade numérica (PRÁXE-
DES et al., 2018), tamanho do campo de jogo (OLTHOF, FRENCKEN e LEMMINK, 2018,
quantidade de toques na bola (MENUCHI et al., 2018), quantidade de balizas ou de
alvos (CASTELLANO et al., 2016), densidade da prática, ou seja, relação entre tempo
de recuperação entre tentativas (MCLEAN et al., 2016), entre outras possibilidades.

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Desta forma, o professor/treinador, ao utilizar os jogos reduzidos como estra-


tégias metodológicas de ensino do futebol deve conhecer as características e
necessidades dos seus jogadores e de sua equipe para poder prescrever os exer-
cícios adequados para as diferentes escalas de desempenho de uma equipe de
futebol (DAVIDS et al., 2013). Além disso, as restrições das tarefas devem estar de
acordo com os conteúdos do treino a fim de que os objetivos sejam alcançados
(PASSOS et al., 2010).
O processo de ensino-aprendizagem também é influenciado por fatores que
muitas das vezes são “invisíveis” ao treinador ou não podem ser estimulados/trei-
nados por eles, mas que acabam afetando de maneira determinante na forma-
ção de jogadores de futebol. Vamos falar um pouco sobre eles a partir de agora.

FATORES DETERMINANTES NA FORMAÇÃO DE JOGADORES DE FUTEBOL


A formação de jogadores de futebol é influenciada por diferentes restrições
que interagem entre si: tarefa, ambiente e sujeito (figura 3) (NEWELL, 1986). As res-
trições do ambiente e do sujeito são constrangimentos que não podem ser ma-
nipulados pelo professor/treinador, mas que afetam diretamente no processo de
formação de jogadores (ARAÚJO et al., 2010). Elas podem ser consideradas como
fatores biopsicossocioculturais que determinam as possibilidades do sujeito se
tornar jogador de futebol e que quando caminham juntas, se tornam mais pre-
ponderantes do que as restrições das tarefas (REIS, 2016).

Figura 3. Modelo de restrições adaptado de Newell (1986).

Dentro desta perspectiva, os professores/treinadores devem conhecer esses


fatores biopsicossocioculturais a fim de ajustar as restrições das tarefas que per-
mitam potencializar as habilidades dos jogadores a partir dos diferentes perfis.
Os seguintes fatores biopsicossocioculturais serão abordados a partir de agora:

15 INICIAÇÃO E FUTEBOL DE BASE


TELA CHEIA SUMÁRIO

maturação biológica; efeito da idade relativa; cegueira inatencional; e local de


nascimento e criação (REIS, 2016).
As categorias de base no futebol são organizadas com base na idade crono-
lógica dos jogadores (MALINA et al., 2015). Porém, não é incomum encontrar jovens
jogadores cuja idade cronológica não acompanhe a idade biológica (podendo
estar abaixo ou acima dela), o que pode representar características funcionais
distintas dentro de um mesmo grupo de indivíduos (MALINA et al., 2015; MALINA,
2014; MIRWALD et al., 2002). Isso ocorre por conta da maturação biológica, que
consiste no processo natural em que os tecidos, órgãos e sistemas de todo ser
humano passam para chegar na fase adulta (MALINA et al., 2015; MALINA, 2014). Ela
pode ser identificada através de diferentes sistemas biológicos do ser humano:
sexual, ósseo e somático (MALINA, 2014).
A maturação óssea reflete na proliferação de células da cartilagem do es-
queleto humano ossificando-o por completo nas placas de crescimento (MALINA,
2014). A maturação sexual consiste no desenvolvimento dos eixos hipotalâmico-
-hipofisário-gonadal e adrenal do sistema neuroendócrino e é identificada a
partir do incremento dos órgãos genitais e dos pelos pubianos (MALINA et al.,
2015; MALINA, 2014). Já maturação somática, método mais utilizado e acessível
por conta do baixo custo e por não ser invasivo (BACIL et al., 2015; MIRWALD et al.,
2002), é identificada a partir da distância em anos que o indivíduo se encontra
do pico de velocidade de crescimento (PVC) (MIRWALD et al., 2002).
Muitas das vezes no processo de seleção de jogadores de futebol, os aspectos
físicos acabam se tornando o cerne das atenções (DODD e NEWANS, 2018). Isso
faz com que a maturação biológica seja um fator simultaneamente discrimina-
dor e de confusão na formação, identificação e seleção de jogadores, favore-
cendo aqueles já amadurecidos biologicamente, que passam a produzir mais
testosterona, o que altera as características antropométricas influenciando na
capacidade neuromuscular, gerando uma vantagem no desempenho atlético
(MOREIRA et al., 2017). Nessa perspectiva, jogadores de futebol amadurecidos pre-
cocemente possuem vantagens no desempenho físico, visto que costumam ser
mais fortes (MURTAGH et al., 2018; BIDAURRAZAGA-LETONA et al., 2017a; BORGES et
al., 2017), mais velozes (ROMMERS et al., 2019; BROWNSTEIN et al., 2018), mais ágeis
(KURANTH et al., 2017) e mais resistentes aeróbica (BIDAURRAZAGA-LETONA et al.,
2017a; BORGES et al., 2017) e anaerobicamente (VALENTE-DOS-SANTOS et al., 2012b)
do que os jogadores amadurecidos tardiamente.
Bidaurrazaga-Letona et al. (2017b) observaram mais jogadores maturados
biologicamente entre os novos integrantes do que entre os que já faziam parte
da equipe sub-15. Em outro clube de futebol, na categoria sub-17, os jogadores re-
crutados no início da temporada eram mais altos, possuíam mais massa magra
e atingiram o PVC antes do que os jogadores que foram dispensados do clube
(AQUINO et al., 2017). Importante frisar que em ambos estudos o desempenho
físico e/ou atlético não foi explicitamente considerado como critério de seleção.

16 INICIAÇÃO E FUTEBOL DE BASE


TELA CHEIA SUMÁRIO

Essas evidências dão suporte à premissa de que treinadores de futebol tendem a


associar implicitamente o talento esportivo ao tamanho do jogador (PEÑA-GON-
ZÁLEZ et al., 2018; FURLEY e MEMMERT, 2016; MASTERS, POOLTON e VAN DER KAMP, 2010).
Em função disso, é possível que o processo de formação, identificação e sele-
ção de jogadores esteja sujeito a um viés ao privilegiar jogadores amadurecidos
biologicamente, sem respeitar o tempo necessário para o desenvolvimento dos
jogadores que ainda não atingiram esse estado. Nesse sentido, Aquino et al. (2017)
e Malina et al. (2005) identificaram melhor desempenho em habilidades técnicas,
tais como, controle de bola, drible, passe e chute em jogadores de futebol com
maturação biológica precoce em relação à tardia. Porém, quando a maturação
biológica foi controlada, o desenvolvimento das habilidades com bola evoluiu
com o avanço da idade cronológica, independentemente do estado matura-
cional (VALENTE-DOS-SANTOS et al., 2012a). Cabe destacar que nesses estudos,
os procedimentos de avaliação não simularam situações de jogo, ou seja, sem
interações de cooperação e oposição, o que pode gerar interpretações equivo-
cadas do desempenho, favorecendo ainda mais o viés físico.
Em jogos reduzidos, a literatura científica traz que não foi encontrada correla-
ção entre maturação biológica e habilidades com bola (SILVA et al., 2011), jogado-
res de diferentes níveis maturacionais obtiveram desempenho tático parecidos,
apesar da correlação moderada entre eficácia ofensiva e potência aeróbia (BOR-
GES et al., 2018), e jogadores que já tinham atingindo o PVC realizaram mais ações
táticas com bola para frente, ações táticas sem bola de criação de linha de passe
próximo do colega portador da bola e linha de passe para trás distante dele do
que os jogadores que ainda não tinham atingido o PVC (BORGES et al., 2017).
Reis (2016) avaliou o comportamento tático de 78 jogadores divididos em três
grupos de acordo com o nível de maturação somática deles: pré-estirão (que
ainda não tinham alcançado o PVC), estirão (que estavam passando pelo PVC) e
pós-estirão (que já tinham alcançado o PVC). Foi encontrado que os jogadores do
pós-estirão e do estirão tiveram melhor desempenho na penetração (progressão
com bola na direção da baliza ou linha de fundo adversária), enquanto os joga-
dores do pré-estirão apresentaram maior variabilidade tática dos que os seus
pares que já tinham alcançado ou estavam alcançando a maturação biológica.
Esses resultados mostram que os jogadores amadurecidos biologicamente
podem se favorecer da vantagem física por conta de aspectos biológicos para
realizar ações com bola, que geralmente são as mais observadas na seleção de
jogadores. Por outro lado, os jogadores que ainda não amadureceram biologica-
mente criam mais repertório de jogo para que possam se manter competitivos
diante da desvantagem biológica que apresentam.
Desta forma, o professor/treinador deve criar estratégias metodológicas que
permitam aos jogadores que ainda não atingiram a maturação biológica re-
alizem mais habilidades com bola, enquanto os seus pares que já atingiram a
maturidade biológica possam realizar mais habilidades sem bola relacionadas
à coordenação interpessoal voltada para ocupação e criação de espaços vazios

17 INICIAÇÃO E FUTEBOL DE BASE


TELA CHEIA SUMÁRIO

(REIS, 2016). Além disso, mais uma alternativa para diminuir o impacto da matu-
ração biológica e deixar o processo de formação mais holístico é a organização
de categorias competitivas e competições esportivas a partir da idade biológica
(CUMMING et al., 2018).
Outro fator que pode ser influenciado pela maturação biológica e que influen-
cia o processo de formação de jogadores de futebol é o efeito da idade relativa
(FURLEY e MEMMERT, 2016). O efeito da idade relativa consiste na categorização
assimétrica de indivíduos de uma mesma faixa etária e categoria competitiva,
a partir de um ponto de corte (geralmente 1º de janeiro), sendo que eles podem
apresentar quase 12 meses de diferença entre as suas idades cronológicas. Isso
pode implicar vantagens e desvantagens físicas e cognitivas afetando o desem-
penho esportivo ao longo de todo o processo de formação (HELSEN et al., 2012).
Por exemplo, Williams (2010) verificou que que cerca de 40% de jogadores de
futebol que disputaram Copas do Mundo Sub-17 nasceram no primeiro trimestre
do ano (janeiro, fevereiro, março) e apenas 16% deles nasceram no último tri-
mestre do ano (outubro, novembro, dezembro). Ishigami (2016) verificou que os
jogadores de futebol nascidos próximo do ponto de corte (ou seja, nos primeiros
meses do ano), possuem mais chances de se tornarem jogadores de futebol do
que os indivíduos que nasceram no final do ano. Furley, Memmert e Weigelt (2016)
verificaram que dos 100 jogadores de futebol mais valiosos (economicamente
falando) cerca de 60% nasceram no primeiro semestre do ano.
Por outro lado, Côté et al. (2006) chamam a atenção para quando o “onde” é
mais importante do que o “quando” em relação ao nascimento dos praticantes
de esportes coletivos. Esse “quando” está relacionado ao local de nascimento do
jogador. Os pesquisadores encontraram que indivíduos que nascem em cidades
americanas entre 50 e 99 mil habitantes apresentam mais chances de se tor-
narem jogadores de basquetebol, hóquei, beisebol e golfe em relação as outras
cidades com menor e maior porte. Isso ocorre porque essas cidades são grandes
o suficiente para oferecer infraestrutura e suporte técnico para a prática espor-
tiva de qualidade, porém não são tão grandes para oferecer outras atividades
que diminuiriam o tempo de prática dos jogadores.
Em relação ao futebol, Costa, Cardoso e Garganta (2013) verificaram que 82,3%
dos jogadores que disputaram o Campeonato Brasileiro da Série A de 2010 foram
oriundos de cidades com índice de desenvolvimento humano (IDH) médio (entre
0,501 e 0,800). Além disso, somente 2,0% dos jogadores nasceram em cidades com
IDH abaixo de 0,500. Tais resultados reforçam os achados de Côté et al. (2006)
para outros esportes.
Por fim, após serem apresentados fatores biológicos, sociais e culturais, será
apresentado um fator psicológico que pode afetar na formação dos jogadores
de futebol que é a cegueira inatencional (SCHMIDT e LEE, 2016). A cegueira inaten-
cional consiste na ação de negligenciar características, gestos e movimentos em
um ambiente por conta do foco de atenção específico em determinada tarefa.

18 INICIAÇÃO E FUTEBOL DE BASE


TELA CHEIA SUMÁRIO

Por exemplo, quando um treinador solicita ao seu jogador que ele faça marcação
individual em determinado adversário, esse jogador irá focar somente naquele
jogador, negligenciando todo e qualquer tipo de movimentação ao seu redor. Isso
pode gerar uma falha na detecção de um objeto ou sujeito inesperado (outro
adversário ocupando um espaço vazio próximo da baliza, por exemplo) mesmo
que esteja na frente do jogador (SCHMIDT e LEE, 2016; MEMMERT, 2011).
Memmert (2011) destaca que existe uma relação entre criatividade, experiên-
cia esportiva e cegueira inatencional, pois os jogadores experientes conseguem
perceber os colegas de equipe livres e podem tomar decisões originais para
realizar passes, por exemplo. Enquanto os jogadores inexperientes ficam “cegos”
e não conseguem perceber as oportunidades de passe que o ambiente oferece,
caracterizando o famoso “olhei, mas não consegui ver”. Furley, Memmert e Heller
(2010) verificaram que jogadores de basquetebol experientes possuem menos
chances de não enxergar em um vídeo um gorila passando no meio de uma
troca de passes do basquetebol.
Desta forma, o professor/treinador de futebol deve entender esse mecanismo
psicológico e criar exercícios adequados para diminuir a cegueira inatencional
e permitir que os jogadores possam perceber as oportunidades que o ambien-
te de jogo oferece tomando decisões e executando habilidades que permitam
solucionar os problemas do jogo (CORRÊA et al., 2014). Por outro lado, também
deve-se tomar cuidado com os estímulos que são ofertados aos jogadores para
que eles não ampliem a cegueira inatencional.
Mas como fazer para controlar esses fatores? Como avaliar o desempenho
dos jogadores? Como saber se o desempenho dos jogadores está sendo influen-
ciado por um desses fatores na identificação e seleção? Como aproveitar tais
fatores para formar e desenvolver o talento esportivo? Neste sentido, partir de
agora, serão mostrados aspectos relacionados à avaliação do talento esportivo
no futebol nos processos de identificação e seleção que compõem a formação
esportiva.

IDENTIFICAÇÃO DE TALENTOS E AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO NAS


CATEGORIAS DE BASE DO FUTEBOL
O talento esportivo é definido como um indivíduo acima da média que se
destaque pela alta proficiência esportiva em determinado instante e contexto.
Sob a ótica do talento epigenético, existem dimensões interativas que permitem
e afetam na formação do jogador talentoso: características genéticas, aspec-
tos sociais, quantidade e qualidade de treino (ARAÚJO et al., 2010). Além disso, o
desempenho do talento esportivo é multidimensional, ou seja, reúne habilidades
táticas, técnicas, físicas e psicológicas em elevado nível e de maneira equilibrada
(HUIJGEN et al., 2014).
Por exemplo, jogadores mais experientes olham mais para o espaço vazio
do que os jogadores com menos prática (ROCA et al., 2011) e os jogadores mais

19 INICIAÇÃO E FUTEBOL DE BASE


TELA CHEIA SUMÁRIO

criativos também apresentam esse comportamento na busca visual em relação


aos que apresentam menor desempenho criativo (ROCA, FORD e MEMMERT, 2018).
Além disso, Neymar (um dos jogadores mais talentosos da contemporaneidade)
gasta muito pouca energia cerebral para realizar uma ação motora com o pé em
relação a outros jogadores de futebol (profissionais e amadores). Dessa forma,
o jogador talentoso utiliza a energia cerebral para tomar decisões eficazes, pois
as ações motoras já estão automatizadas (NAITO e HIROSE, 2014).
Sob esta perspectiva, existem alguns conceitos que são importantes serem
esclarecidos nesse processo de construção do talento esportivo, são eles: forma-
ção, identificação e seleção de jogadores (ARAÚJO et al., 2010). A formação está
atrelada diretamente à quantidade e qualidade dos treinos, ou seja, à prática
(ARAÚJO et al., 2010). A identificação consiste na busca de novos jogadores para
o clube (REILLY et al., 2000; WILLIAMS e REILLY, 2000). Já a seleção é a transição de
jogadores de uma categoria competitiva para a outra (do sub-13 para o sub-15,
por exemplo), em que os jogadores podem ser dispensados caso não atinjam
as expectativas da comissão técnica e/ou do clube (BIDAURRAZAGA-LETONA et
al., 2017b).
Dentro desta perspectiva, como ocorre esse processo de identificação e se-
leção de jogadores de futebol na base? Williams e Reilly (2000) destacam os se-
guintes preditores para identificação e seleção de talentos no esporte: fisiológico,
cognitivo e inteligência de jogo. Reilly et al. (2000) mostraram que jogadores de
elite apresentam desempenho físico e técnico superiores aos jogadores ama-
dores.
Contudo, como já visto no capítulo sobre fatores determinantes na formação
de jogadores de futebol, esse desempenho físico pode estar atrelado à matu-
ração biológica (REIS, 2016), o que não foi controlado no estudo de Reilly et al.
(2000). Desta forma, o foco será na inteligência de jogo, como principal predi-
tor do talento esportivo no futebol (GARGANTA e GRÉHAIGNE, 1999). Neste sentido,
questiona-se: quais os critérios utilizados para mensurar a inteligência de jogo
dos jogadores? Eles são prioritariamente de ordem quantitativa, qualitativa ou
uma junção dos dois?
Em primeiro lugar, é importante conceituar inteligência de jogo como a capa-
cidade que os jogadores possuem de solucionar os problemas do ambiente de
prática do futebol a partir de diferentes desempenhos e a integração entre eles
(tático, técnico, físico e psicológico) (HUIJGEN et al., 2014). A partir disso, a comis-
são técnica pode utilizar critérios qualitativos através da criação de protocolos
específicos e particulares de cada contexto a fim de delinear o melhor método
que atenda às necessidades de identificação e seleção do talento esportivo no
clube. É importante frisar que um protocolo qualitativo de avaliação de talento
no futebol não é simplesmente através da observação a “olho nu”, mas sim a
criação de relatórios e ferramentas que tenham uma fundamentação e uma
lógica comparativa de análise de desempenho intra e inter-sujeitos.

20 INICIAÇÃO E FUTEBOL DE BASE


TELA CHEIA SUMÁRIO

Por outro lado, a utilização de critérios quantitativos permite mais concretude


ao processo de identificação e seleção do talento esportivo no futebol. Partin-
do deste ponto, os clubes podem criar os próprios protocolos, como também
podem utilizar instrumentos que estão na literatura científica ou adaptá-los a
sua realidade (GONZÁLEZ-VÍLLORA et al., 2015). O quadro 3 apresenta exemplos de
protocolos que podem ser utilizadas para avaliação do desempenho da tomada
de decisão e da execução de habilidades com e sem bola no futebol, que podem
permitir aos treinadores categorizarem os jogadores.

Quadro 3. Exemplos de avaliação da tomada de decisão e da execução de habilidades


com e sem bola do futebol.

Protocolo Objetivo Referência


Avaliar a tomada de decisão e
Game performance evaluation García-Lopez et al.
a execução de habilidades com
tool (2013)
bola
Avaliar a criatividade tática em Memmert e Roth
Game test tituation
habilidades com e sem bola (2007)
Avaliar o desempenho de jogo Gréhaigne, Go-
Performance assessment in
a partir da execução de habili- dbout e Bouthier
team sports
dades com bola (1997)
Avaliar o comportamento e o
desempenho tático de joga-
Sistema de avaliação tática no
dores de futebol a partir de dez Costa et al. (2009)
Futebol
ações táticas (cinco ofensivas e
cinco defensivas)

A utilização de recursos tecnológicos também pode ser um importante aliado


para a identificação e seleção de jogadores. Aparelhos que permitem a men-
suração de habilidades perceptivas e cognitivas dos jogadores podem auxiliar
os clubes nesse processo de identificação e seleção de talentos. Por exemplo, o
Mobile Eye Tracking que é um óculos específicos para verificar a qualidade na
busca visual dos jogadores e o gasto de energia cerebral através da dilatação
pupilar (CARDOSO et al., 2019; OPPICI et al., 2018; ROCA et al., 2011) e o Vienna Test
System que é um conjunto de testes perceptivos-cognitivos realizados em um
computador (BALÁKOVÁ, BOSCHEK e SKALÍKOVÁ, 2015). Contudo, uma limitação da
utilização desses instrumentos é o alto investimento financeiro.
Todo conteúdo que foi abordado até agora converge para duas fun-
ções que tem como objetivo operacionalizar e gerenciar esse processo de
formação de jogadores de futebol. Tais funções são emergentes no futebol
contemporâneo e têm chamado a atenção no mercado nacional. São elas:
coordenação técnica e coordenação metodológica. Os conteúdos inerentes à
essas funções serão discutidos na parte 2 deste e-Book. Até breve!

21 INICIAÇÃO E FUTEBOL DE BASE


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30 INICIAÇÃO E FUTEBOL DE BASE


d uc a ç ã o
E
pa ra u m
fut eb o l
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mel h o r !

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