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Comentando o ECA

ARTIGO 105/LIVRO 2 - TEMA: ATO INFRACIONAL

Comentário de Roberto José dos Santos


Rio de Janeiro

Trata-se - o art. 105 do Estatuto - de uma nova visão que o Estatuto traz em
seu bojo no que se refere ao cometimento de ato infracional praticado por
criança, isto é, o que estiver na faixa etária prevista no art. 2° das "Disposições
preliminares". Inaugura-se um dispositivo legal em que a criança é considerada
como um ser, ainda, incapaz de refletir em profundidade o ato cometido, e,
portanto, alvo de medidas que visem à sua proteção.

A fundamentação deste dispositivo está em consonância com as regras de


Beijin no que se refere à violação dos direitos da criança, reconhecidas
internacionalmente, em que a culpabilidade da situação que provocou o ato
infracional não recai sobre a criança. Por isso, o art. 101 baseia-se nas
hipóteses previstas no art. 98 para fundamentar as medidas específicas de
proteção.

São medidas que visam à garantia e à proteção dos direitos mais fundamentais
e que, com a urgência necessária, que certamente requer a situação,
recolocarão em normalidade social e psicológica a vida da criança. Há um
leque de medidas possíveis para solução de casos que se ajustem ao art. 105,
mas que não se esgotam em si, porque o art. 101 dá à autoridade competente
o poder de aplicar outras que julgar convenientes dentro do espírito do cap. II
do livro 11, "Das medidas específicas de proteção".

Este texto faz parte do livro Estatuto da Criança e do Adolescente


Comentado, coordenado por Munir Cury
ARTIGO 105/LIVRO 2 - TEMA: ATO INFRACIONAL

Comentário de Napoleão X. do Amarante


Desembargador/Santa Catarina

Há o consenso nos dias atuais entre os que se devotam ao estudo da criança e


do adolescente em tomo do entendimento segundo o qual a conduta infracional
da criança ou do adolescente não pode ser encarada como fonte das penas
que se irrogam aos imputáveis pela prática de crime ou de contravenção. Não
é a repressão o remédio adequado a ser ministrado ao menor infrator. A sua
inimputabilidade absoluta na esfera do Direito Penal não significa, entretanto,
que, para ele, não haja a previsão de medidas adequadas, previamente
estabeleci das em lei, com o único escopo de tornar possíveis sua reeducação
e seu encaminhamento, como pessoa bem formada, para a cidadania do
amanhã.

Entretanto, no plano do ato infracional, as medidas a serem ministradas à


criança são, em regra, diversas daquelas destinadas ao adolescente. Para este
existem as denominadas medidas sócio-educativas arroladas no art. 112. Já,
para a primeira, por expressa determinação do artigo em comentário, quando
configura sua conduta ato infracional, incumbe ao Conselho Tutelar (art. 136, I),
antes de tudo, mediante termo de responsabilidade, colocá-la sob a guarda de
seus pais. Estes devem ser os primeiros responsáveis pela sua formação moral
e social. Se não tiverem condições para tanto, diante do desajuste familiar, do
comportamento comprometedor do casal ou do procedimento reprovável de um
dos cônjuges, com quem o outro conviva, há de se encontrar um terceiro
responsável dentro ou fora da linha de consangüinidade. Além desta
providência, aquele colegiado pode e deve acompanhá-la temporariamente,
com orientação e apoio, determinando também sua matrícula e freqüência
obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino. De outra parte, a situação
econômica da família ou responsável, notadamente quando lhes forem parcos
os recursos, permite ao Conselho Tutelar buscar o apoio de programa
comunitário ou oficial de auxílio à família, à criança e ao adolescente. E, sendo
o caso, poderá o mesmo, ainda, requisitar tratamento médico, psicológico,
psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial, ou incluir em programa
oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e
toxicômanos. Aliás, não poderia o legislador deixar de estabelecer essas
medidas, mormente quando se sabe que a conduta infringente da lei penal por
parte do menor é decorrência, no seu mais alto percentual, da extrema miséria
do lar, que o leva a viver na rua, onde facilmente se depaupera física e
moralmente.
Outra providência que cabe na hipótese de ato infracional praticado pela
criança é a utilização do abrigo em entidade, a não implicar privação de
liberdade. É sempre uma cautela excepcional e provisória (art. 101, parágrafo
único), até a sua colocação em família substituta, que é, também, outra medida
possível de ser tomada quando for aquele protagonista do ato infracional,
adstrita, entretanto, à competência da Justiça da Infância e da Juventude.

Anote-se que, inexistindo Conselho Tutelar no Município ou após o


exaurimento do mandato dos respectivos membros, sem nova eleição, ou,
ainda, por qualquer outro motivo impedi ente do exercício da respectiva função,
a afetar a vida orgânica desse órgão, as medidas previstas no art. 101, I a VI,
passam a ser editadas pela autoridade judiciária competente.

Arremate-se com o registro de que o Conselho deve ter presente o dever de


atentar sempre para a necessidade de aplicação cumulativa, quando
compatíveis, das medidas acima enunciadas, tendo em vista a criança como
um todo, que, além do aconchego de um lar, precisa de orientação, escola,
saúde, alimento, vestuário e tratamento na esfera da medicina e odontologia.

Este texto faz parte do livro Estatuto da Criança e do Adolescente


Comentado, coordenado por Munir Cury