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CÉLINE LAFONTAINE

0 IM
CIBERNÉTICO
DAS MÁQUINAS DE PENSAR
AO PENSAMENTO MÁQUINA

INSTITUTO
PIAGET
Título original: Uempire cybem étique
Autor: Céííne Lafontaine
© Edittoris du Seuü, 2004
Colecção: E pistem ologia e Sociedade, sob a direcção de Antônio Oliveira Cruz
Tradução: Pedro Filipe H enriques
Capa: Dorindo Carvalho

Direitos reservados para a língua portuguesa, excepto Brasil:


INSTITUTO PIAGET - Av. João Paulo II, lote 544, 2.» - 1900-726 LISBOA
Tel. 21 831 65 00
E-mall: info@iplagetedltora.com

Paginação: Isabel B alsa


Montagem, Impressão e acabamento: Offset+
ISBN: 978-972-771-907-5
Depósito legal: 264 708/2007

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por


qualquer processo electrónico, mecânico ou fotográfico, incluindo fotocópia,
x erocópia ou gravação, sem au torização prévia e escrita do ed itor.

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ÍNDICE

Agradecimentos ................................................................................ 9

Prefácio, por Philippe Breton............................................................... 11

Introdução.............................................................................................. 15

CAPÍTULO 1 - O CONTINENTE CIBERNÉTICO........................... 21


Um segundo Renascimento.......................................................... 23
O berço am ericano..................................................................... 27
A matriz militar .......................................................................... 32
Sob o signo da interdisciplinaridade ...................................... 36
Entropia, informação, retroacção ............................................ 38
A Guerra Fria e o triunfo da máquina .................................... 45
O humano e a máquina: da analogia à ontologia ................. 49

CAPÍTULO 2 - A CONQUISTA: BATESON


E OS EXPLORADORES........................................ 55
As conferências Macy e as ciências humanas ....................... 57
Da antropologia à cibernética.................................................. 60
A emergência do sujeito informacional ..................................... 63
Do espírito ao ecossistema............................................................ 70
Contexto, aprendizagem e subjectividade................................. 71
Manipulação, percepção e transformação: a terapia vista
por Paio A lto ............................................................................... 74

213
CAPÍTULO3 - A COLONIZAÇÃO 1. O SUJEITO ESTRUTURAL 79
Um dentismo de pendor pessimista........................................ 81
Jakobson e Lévi-Strauss: um encontro decisivo..................... 86
A estrutura inconsdente ........................................................... 90
Psicanálise e dbemética: o sujeito descentrado..................... 94
Foucault: o poder como sistema de relações ......................... 99
O cibem antropo.......................................................................... 102
Do estruturalismo ao redurionismo........................................ 105

CAPÍTULO 4 - A COLONIZAÇÃO 2. O SUJEITO SISTÊMICO 109


Da teoria dos sistemas ao sistemismo .................................... 111
A segunda cibernética: a autonomia revisitada..................... 114
A sodedade como sistem a......................................................... 121
A economia como sistema auto-organizador......................... 125

CAPÍTULO 5 - 0 NOVO MUNDO PÓS-MODERNO................. 131


A desconstrução: um avanço do programa dbemético? . . . . 133
Do rizoma ao dberespaço......................................................... 137
O pós-modemo: uma redefinição do laço s o d a l................... 141
Do inumano ao pós-humano..................................................... 146

CAPÍTULO 6 - 0 CIBERESPAÇO, TERRA PROMETIDA . . . . . . 157


Teilhard de Chardin: a consdênda como processo evolutivo 160
Da aldeia global à planetarização dos espíritos..................... 164
Tribalismo, techno, Rael e C.*a .................................................. 167
Rumo a um budismo informadonal?...................................... 173

. CAPÍTULO 7 - O SER PÓS-HUMANO, ÚLTIMO ELO


DA EVOLUÇÃO?................................................... 177
Da física à biologia m olecular.................................................. 179
A entropia, o código e a v id a..................................................... 180
Descodificar o «Livro da V ida»................................................ 182
Da bactéria ao computador................ 184
A ciberdênda à prova do corpo .............................................. 186
O artista, o militante e o ser pós-humano .............................. 189
A androgenia informadonal ..................................................... 192
A matriz biotecnológica...................................................... 194
A evolução da evolução............................................................. 197
Condusão .......................................................................................... 199
Bibliografia ........................................................................................ 203

214
CAPITULO 1

O CONTINENTE CIBERNÉTICO

«Abre-se-nos um domínio imenso, ainda inexplorado.


E depois dos nomes de Galileu e de Darwin, éode Norbert
Wiener que vos aconselho a registar.»
G eorges Boulanger
Actes du 3e Congrès intemational de cybemétique

«Tal como sucedeu com os marinheiros do Renascimento,


esta avidez de verdade levará os cibernéticos até às costas
de um novo continente.»
A urel D avid
Actes du 2e Congrès intemational de cybemétique

«É a todos os homens resolutamente virados para o Futuro


e que acreditam na nossa Investigação de precisão cientí­
fica no infinito humano, no Homem de amanhã, sobreevo-
luído relativamente ao de ontem e perfilando-se já no de
hoje, que dirijo os meus mais enternecidos testemunhos de
afecto colaborador, na qualidade de associados no penoso
esforço de parto desta nova Ciência: a CIBERNÉTICA.»
Louis C hallier
Actes du 2e Congrès intemational de cybemétique

Sem outras fronteiras que não a extensibilidade dos seus con­


ceitos, a cibernética abrange, através das suas múltiplas ramifica­
ções teóricas e técnicas, um verdadeiro continente intelectual.
Porém, para sermos mais exactos, será melhor levar a metáfora
até ao fim e falar, a seu propósito, de uma nova Atlântida. Sem
que tenham sido totalmente tragados, pouco mais resta, de
facto, do que vestígios do entusiasmo e das esperanças suscita­

21
dos pela cibernética no seu alvor. Dos inúmeros livros e artigos
publicados nos anos 1950 e 1960, sob o impulso das suas pri­
meiras descobertas, retemos apenas, e mais a título histórico, os
directamente ligados às suas origens. Assim, prateleiras inteiras
de bibliotecas caíram na mais completa obsolescência. Devemos,
por isso, concluir que se tratava de uma simples moda passa­
geira? Ou que as ambições desmedidas de alguns cibernéticos
contribuíram para lançar um descrédito definitivo sobre esta
«ciência do controlo e da comunicação», relegando-a para a con­
dição de mera curiosidade intelectual, ideal para figurar num
manual de história das idéias? A julgar pelo choque despoletado
pela sua simples evocação, a cibernética parece, efectivamente,
não ter passado de um excêntrico projecto de unificação dos
conhecimentos em tom o de alguns conceitos-chave: entropia,
informação e retroacção. Contudo, olhando-a mais de perto, che­
gamos à conclusão que o desconhecimento que dela se tenri só é
igualado pela influência determinante que ela exerce no nosso
mundo desde os anos 1950.
Esta amnésia histórica da cibernética e dos seus momentos
de glória constitui, paradoxalmente, o indício de uma assimila­
ção cultural tão perfeita que qualquer regresso ao seu movi­
mento inicial se afigura agora supérfluo. Não é a ela que nos
referimos inconscientemente quando falamos de ciberespaço,
termo que utilizamos para designar o universo mediático ins­
taurado pela Internet e pelas novas tecnologias da informação?
Ou ainda quando falamos de ciborgues, esses seres meio-huma-
nos, meio-máquinas, a que tentamos dar forma através da en­
genharia genética e das biotecnologias? Assistiremos a um
regresso dos aspectos recalcados de um modelo científico elabo­
rado após a Segunda Guerra Mundial e cujo alcance total ape­
nas agora começamos a perceber? As relações de filiação que
ligam a cibernética a domínios tão vastos como a informática, a
automatização, as ciências cognitivas, a protética, a inteligência
artificial, ou mesmo a biologia m olecular e a engenharia gené­
tica, são, no entanto, notórias. Não obstante, há ainda um
imenso trabalho de clarificação histórica por fazer. Porém, o
papel de primeiro plano que a cibernética teve na constituição
de uma nova visão do mundo, de um novo paradigma, continua
a ser m uito m enos conhecido e m uito mais difícil de delimitar.

22
É aí que reside, no entanto, um das principais chaves para a
compreensão da natureza das mutações tecnológicas e culturais
em curso.

U M SEG UN D O REN A SCIM EN TO

A amplitude do sismo filosófico e epistemológico provocado


pela cibernética no seio da cultura ocidental permite que a asso­
ciemos metaforicamente a um segundo Renascimento. Tanto
mais que as promessas e potencialidades de que era portadora
correspondiam na perfeição ao novo mundo que se instaurava
na América do pós-guerra. Contrariamente ao que defende
Jean-Pierre Dupuy em Aux origines des Sciences cognitives, os fun­
dadores da cibernética tinham a plena consciência de estarem a
construir uma scienza nuova1. Convencido de ter lançado as bases
conceptuais de um novo edifício científico, Norbert Wiener
falava explicitamente na sua obra da «descoberta de uma nova
ciência»2. No prefácio que redigiu por ocasião da reedição de Cy-
bemetics, em 1961, reivindica para a cibernética o estatuto de
ciência de pleno direito3. A fazer fé no entusiasmo e na eferves­
cência intelectual reinantes na altura das famosas conferências
Macy, não subsiste qualquer dúvida quanto à certeza alim en­
tada pelos cibernéticos de estarem a contribuir para a edificação
de uma ciência nova, capaz de englobar todos os planos do
conhecimento4.
De entre a espessa literatura produzida na sequência das pri­
meiras investigações no domínio da cibernética, nada testemu­
nha melhor o espírito que animava os investigadores da época

1 Jean-Pierre Dupuy, A u x origines des Sciences cognitives, Paris, La Découverte,


coll. «Poche», 1999, p. 39.
2 Norbert Wiener, Cybernétique et société. U usage humain des êtres humains, Paris,
UGE, coll. «10/18», 1954, p. 12.
3 Norbert Wiener, Cybernetics or Control and Communication in the Anim al and
the M achine, Cambridge, Massachusetts, MIT Press, 1961, p. VII.
4 Steve Joshua Heims, The Cybernetics Group, 1946-1953. Ccmstructing a Social Science
fo r Postwar America, Cambridge, Massachusetts, MIT Press, 1991.

2,3
do que as actas dos Congressos Internacionais de Namur5. Igno­
rados pelos historiadores, estes documentos oferecem, ainda
assim, um panorama global que permite perceber a extensão
das virtudes atribuídas à cibernética nos anos que se seguiram
ao seu nascimento. Com início datado de 1956, ou seja, oito anos
após a criação oficial da cibernética por Wiener, têm o mérito de
demonstrar o impacto que a constituição de uma «ciência do
controlo e da comunicação» produziu na comunidade científica
internacional. Ao folhearmos as várias dezenas de milhar de pá­
ginas que compõem essas actas de congressos, salta desde logo
à vista a prodigiosa diversidade de temas e assuntos neles trata­
dos. Da psicologia à automatização, passando pela medicina, o
direito ou a história da arte, das questões técnicas às reflexões
filosóficas, todas as disciplinas parecem, de uma forma ou de
outra, para eles ter convergido6.
Apenas o sentimento de tomar parte numa revolução cientí­
fica, de participar num segundo Renascimento, permite com­
preender uma amálgama tão heteróclita, como testemunha este
extracto da conferência proferida por Georges Boulanger, então
presidente da Associação Internacional de Cibernética, aquando
da inauguração do 3.° Congresso, em 1961: «A cibernética - e é
essa a sua razão de existir - pretende investigar livremente no do­
mínio do espírito. Quer definir a inteligência e medi-la. Tentará
explicar o funcionamento do cérebro e construir máquinas pensa-
doras. Ajudará o biólogo e o médico, e também o engenheiro. A pe­
dagogia, a sociologia, as ciências econômicas, o direito e a filosofia
passarão a ser suas tributárias. E pode-se dizer que não há nenhum
sector da actividade humana que possa ficar à sua margem7.»

5 Os congressos internacionais de Namur tiveram início em 1956, tendo pros­


seguido até hoje.
6 Para dar uma ideia da extensão dos assuntos tratados e das esperanças mais
loucas alimentadas pela cibernética, será de mencionar, a título de diversão,
um artigo achado em Actes du 3e Congrès International, escrito por um con­
sultor de gestão turco, sobre a eventual possibilidade de medir e amplificar
a felicidade individual através de modelos cibernéticos. Ver Ali Irtem,
«Happiness Amplified Cybemetically», Actes du 3 e Congrès international de
cybemétique, 11-15 septembre 1961, pp. 910-918.
7 Georges Boulanger, «Allocution», Actes du 3e Congrès international de cybem é­
tique, 11-15 septembre 1961, Namur, 1965, p. XVIII.

24
O programa era bastante ambicioso, senão mesmo um pouco
utópico. Porém, .quando se observa a crescente influência que o
paradigma cibernético exerce sobre o nosso mundo, constata-se
que ele se realizou em grande parte. Ao evocar, em 1961, o nome
de Norbert Wiener depois dos de Galileu e de Darwin, Georges
Boulanger tinha talvez mais razão do que se poderia pensar8.
Aliás, não era o único a pressentir o enorme alcance da nova
ciência. Segundo as numerosas alusões que lhe fazem directa-
mente referência, as centenas de participantes dos Congressos
de Namur parecem ter ficado convencidos de estarem no limiar
de um novo Renascimento. Aos seus olhos, a cibernética possi­
bilitava finalmente a unificação de todos os saberes com vista a
uma melhoria global da condição humana. Isto porque, para
eles, tratava-se claramente de transformar radicalmente a figura
do sujeito humano, transformando a sua relação com a m á­
quina. Assim, o projecto cibernético foi primeiramente político,
na medida em que a universalidade dos seus conceitos pres­
supunha uma redefinição do ser humano. À ideia de um segundo
Renascimento correspondia, pois, o modelo de um novo hum a­
nismo.
Conferencista no Congresso de 1958, o italiano Giuseppe
Foddis exprime bastante bem o espírito que então animava os
cibernéticos, quando afirma: «Da aplicação consciente da ciber­
nética pode nascer um novo humanismo, muito menos indivi­
dualista, mas largamente mais rentável.»9 Resta saber o que
significa concretamente este novo humanismo. Para um inves­
tigador como Louis Challier, é o do «homem interplanetário fu­
turo», saído da Grande Síntese cibernética. Isto é, de um «mundo
superior de novas relações derivadas da genética, do comporta­
mento neurológico, da biologia celular, da psicofisiologia normal
e patológica, da psicopatologia do deportado, da homeostase
artificial, da teoria da evolução, das tentativas de uma teoria da
inteligência, da memória, da triagem, da aprendizagem, da elec­
trónica nas suas intricações internas pelo átomo constitutivo das

8 Ibid., p. XIX.
9 Giuseppe Foddis, «Civilisatíon des machines cybemétiques», Actes du 2e Con-
grès intemational de cybemétique, 3-10 septembre 1958, Namur, 1960, p. 702.

25
proteínas e da carne humana, seja nas células, nos neurônios ou
na descoberta de formações reticuladas [...]»10. Poder-se-ia pen­
sar que estamos num romance de ficção científica, mas trata-se
mesmo de uma conferência que não podia ser mais séria. Perante
um tal entusiasmo, era compreensível que existisse uma ligeira
confusão quanto à definição precisa da cibernética.
Apresentada pelo seu fundador Norbert Wiener como uma
ciência dedicada à investigação das leis gerais da comunicação
e às suas aplicações técnicas, a cibernética deu lugar a um
número incalculável de definições, tanto centradas nos seus con­
ceitos teóricos como viradas para o seu pragmatismo tecnológico.
A ausência de consenso à saída dos Congressos Internacionais
de Namur explica-se, em parte, pela abundância de abordagens
epistemológicas e de tendências ideológicas que neles se con­
frontaram. A força de atracção conceptual exercida pela nova
ciência era então tal que conseguiu franquear os antagonismos
políticos mais rígidos. No auge da Guerra Fria, cientistas dos
dois lados da Cortina de Ferro partilharam o entusiasmo susci­
tado pelas descobertas da mesma. De resto, Norbert Wiener des­
locou-se pessoalmente à URSS para dar conferências. Situação
no mínimo paradoxal, se nos lembrarmos do contexto militar no
seio do qual nasceu a cibernética. Há razões para crer que o pro­
jecto de fabricar máquinas inteligentes e organizar a sociedade
em função dos princípios básicos da automatização transcendia
as clivagens ideológicas...
Apesar do seu carácter altamente englobante, a cibernética
deriva, como já sublinhámos, de uma imprecisão definicional.
A própria utilização do vocábulo «ciência» para a designar foi
objecto de contestação. Desde o l.° Congresso de Namur, em
1956, que Louis Couffignal, um dos seus principais promotores
em França, advoga que a utilização do termo «ciência» deve
ficar reservada ao estudo dos fenômenos naturais, o que não é o
caso da cibernética, cujas investigações têm sempre finalidades
práticas. Situada a meio caminho entre a ciência e a técnica, a
cibernética deveria antes ser definida, segundo Couffignal, como

10 Louis Challier, «Enfin la vraie sociologie!», em Actes du 6e Cotigrès interna-


tional de cybernétique, 7-11 septembre 1970, Namur, 1971, p. 874.

26
«a arte de garantir a eficácia da acção»11. Matriz da tecnociência,
a cibernética corresponde, de facto, a um projecto de conheci­
mento mais centrado no controlo operacional do que na investi­
gação fundamental, que se destina a melhor compreender um
determinado fenômeno.
O ecletismo que presidiu à difusão dos conceitos cibernéti­
cos deve ser interpretado como o sinal de um vasto movimento
de reflexão que extravasa para além dos quadros estabelecidos
pelos seus fundadores. Será inútil estar a recensear todas as defi­
nições possíveis para nos convencermos disso. Consciente do
imenso alcance teórico da cibernética, Léon Delphech saudava,
numa conferência proferida em 1964, os numerosos investigado­
res que, sem a efa estarem directamente ligados, se inspiravam
claramente nela. Refira-se que Claude Lévi-Strauss e Jacques
Lacan figuravam entre os citados por Delphech a título de exem­
plo12. Entrevê-se já a extensão do novo continente intelectual.
Contudo, é essencial retom ar às suas origens políticas e concep-
tuais para compreender todos os seus desafios, a começar pelo
de um novo humanismo «mais rentável».

O BERÇO A M ERIC A N O

Após a Segunda Guerra Mundial, perante uma Europa de­


vastada e aniquilada tanto na carne como nos seus ideais, a
América encarna, de forma ainda mais veemente, a esperança
de um mundo novo. Fortalecidos pelo seu triunfo militar e econô­
mico, os Estados U nidos libertam -se definitivam ente da pe­
sada herança europeia. Para além da cultura de Hollyw ood e
do American way of life, dá-se então uma passagem de poder
científico, intelectual e artístico da Europa para a América. Bene­
ficiando da efervescência cultural e científica gerada pela imi­

11 Louis Couffignal, «Essai d'une définition générale de la cybemétique»,


Actes du I a "Congrès intemational de cybemétique, 26-29 juin 1956, Namur, 1958,
p. 48.
12 Léon Delphech, «Allocution d'ouverture», Actes du 4e Congrès intemational
de cybemétique, 19-23 octobre 1964, Namur, 1967, p. XXIX.

27
gração maciça de artistas e sábios fugidos da Europa em guerra,
os Estados Unidos vão adquirir, durante este período, uma legi­
timidade simbólica de que até aí careciam. No plano cultural, o
expressionismo abstracto vai tom ar-se um dos principais sím­
bolos promocionais de uma liberdade criadora tipicamente
americana13. Apropriando-se da ideia de arte moderna, a América
impõe-se então como chefe de fila da vanguarda artística. De
igual modo, a força expressiva das telas de Pollock, de Newman
e de Rothko acentua, contrastivamente, o carácter totalitário do
realismo socialista, pormenor não negligenciável no contexto da
Guerra Fria14. No plano militar-industrial, a supremacia ame­
ricana vai afirmar-se com o projecto de criar uma máquina inte­
ligente. Adquirida em boa parte graças à bomba atômica, a
autoridade científica dos Estados Unidos culmina assim na cria­
ção de uma ciência autenticamente americana, a cibernética. Aliás,
Norbert Wiener insistirá, na sua célebre obra de divulgação
Cybernétique et société, no facto de o seu «livro se destinar princi­
palmente a Americanos que vivam no meio americano»15.
Longe de se limitar ao seu berço geográfico, a ancoragem
americana da cibernética tem as suas raízes, ao nível epistemo-
lógico, no seu laço de filiação com o behaviorismo. Do choque
do embate com as culturas ameríndias à alteridade ameaçadora
da comunidade negra liberta da escravatura, passando pelas
grandes vagas de imigração asiáticas e europeias do século xx, a
sociedade americana viu-se, desde sempre, confrontada com os
problemas da integração e da aculturação. A particularidade
desta estrutura demográfica explica, em parte, por que é que as
ciências sociais americanas se inclinaram muito cedo para pro­
blemas relativos à adaptação de indivíduos aculturados16. Im­
porta dizer que a questão do «melting-pot» tinha implicações

13 Serge Guilbaut, Comment New York vola lidée d'art modeme, Nimes, Éd. Jacque-
line Chambon, 1989.
14 Ibid.
15 Norbert Wiener, Cybernétique et société. Uusage humain des êtres humains, op. cit.,
p. 140.
16 Sobre este tema, ler o prefácio redigido por Jean-Claude Filloux para o livro
de Ralph Linton, Le Fondement culturel de la personnalité, Paris, Dunod, 1968.

28
directamente políticas. Ao elaborar um método de análise dos
comportamentos baseado no esquema estímulo-resposta, o fun­
dador do behaviorismo, John Watson, propõe, desde o dealbar
do século, respostas claras e pragmáticas para os problemas da
aculturação. Despojado de qualquer referência à hereditariedade
e à interioridade, o behaviorism o define a cultura em term os
de comportamentos adaptativos e de reflexos condicionados,
deixando assim um grande espaço para o recondicionamento
cultural. Totalmente socializado, o sujeito behaviorista adapta-
-se sem grande dificuldade às exigências da sua sociedade de
acolhimento, desde que estas sejam devidamente transmitidas e
assimiladas. Esta correspondência entre a psicologia comporta-
mental e o contexto em que emerge não é sem dúvida estranha
ao facto de ela se ter tom ado, na primeira metade do século xx,
um dos principais quadros de referência das ciências sociais ame­
ricanas.
Profundamente influenciado pela teoria darwinista, o beha­
viorismo repousa num monismo epistemológico que lhe permite
apreender, mediante um mesmo modelo analítico, a psicologia
humana e o comportamento animal. Segundo o famoso esquema
estímulo-resposta, o conjunto dos comportamentos humanos,
incluindo o pensamento, está assim associado a reacções adapta-
tivas. Trata-se, efectivamente, de uma psicologia da caixa negra,
que considera unicamente o processo de «input-output». Forte­
mente determinado, o indivíduo é um ser vazio, cuja única con­
sistência reside na sua relação constitutiva com o ambiente
exterior. Deste modo, John Watson não rejeitou a questão da
interioridade por querer apenas desacreditar, de um ponto de
vista científico, a psicologia das profundezas, mas, mais funda­
mentalmente ainda, por ela contradizer a sua concepção rever­
sível e maleável do indivíduo. A seu ver, não existe nenhuma
diferença entre o interior e o exterior do corpo, havendo antes
uma mesma continuidade adaptativa na relação de exteriori-
dade que o indivíduo mantém com o seu m eio17. Impregnado
do pragmatismo próprio do pensamento americano, a psicolo­
gia comportamental tem como missão fomentar um melhor con­

17 John Watson, Behaviorism, Nova Iorque, W. W. Norton & Company, 1925, p. 12.

29
trolo dos comportamentos individuais através de uma previsão
científica18. O historiador do behaviorismo André Tilquin espe­
cifica: «A ciência do comportamento, estudo original que não se
confunde nem com a psicologia nem com a físico-química, é
uma ciência prática que visa prever19.» Seria errado ver nesta
obsessão do controlo e da previsão um qualquer intuito autori­
tário. Bem pelo contrário, aos olhos de John Watson, a noção de
reflexo condicionado deixa um grande espaço para a liberdade
humana, na medida em que favorece uma m aior harmonia entre
o indivíduo e o seu meio de adopção20. Às forças pulsionais do
inconsciente freudiano, a psicologia comportamental opõe uma
completa transparência do sujeito capaz de se transformar livre­
mente. Este ideal de transparência e a ideia de controlo que
pressupõe serão retomados e reformulados por Norbert Wiener.
Efectivamente, a noção de controlo estará no centro do paradigma
cibernético.
Monismo, positivismo e pragmatismo: eis outros tantos ele­
mentos característicos do behaviorismo americano que serão
integrados e radicalizados pela cibernética. Embora Wiener e os
seus colegas Bigelow e Rosenblueth nunca tenham reivindicado
o seu laço de filiação directa com o behaviorismo, este último
transparece claramente num artigo intitulado «Comportamento,
intenção e teleologia»21, publicado pela primeira vez em 1943.
Percursor directo da cibernética, este texto empresta ao behavio­
rismo a noção de comportamento, alargando, porém, o seu alcance
teórico. Segundo a análise de Philippe Breton, este artigo estabe­
lece as bases de uma inversão epistemológica do eixo interiori-

18 Sobre o tema do pragmatismo americano e das suas origens, ler a obra de


Michel Freitag, Le Naufrage de 1'université et autres essais d'épistémologie poli-
tique, Montreal/Paris, Nuit Blanche Éditeur/La Découverte, 1995.
19 André Tilquin, Le Béhaviorisme. O rigine et développement de la psychologie de
réaction en Am érique, Paris, Vrin, 1950.
20 Ibid.
21 Publicado em 1943 sob o título «Behavior, Purpose, and Teleology» em Philo-
sophy o f Science, este artigo foi traduzido e publicado em francês em Les Étu-
des philosophiques, número de Abril-Junho de 1961. Este texto é reproduzido
e subtilmente analisado por Philippe Breton em La Formation des valeurs
scientifiques et le champ de la sécurité informatique, Estrasburgo, ASECI, Feve­
reiro de 1993.

30
dade-exterioridade22. Na esteira de Watson, Wiener e os seus
colegas propõem de facto um novo m odelo científico orientado
exclusivamente para o estudo das relações que os objectos m an­
têm com o seu ambiente. Classificada, sem mais distinções, de
funcional, a abordagem científica centrada na análise das com­
ponentes estruturais do objecto é preterida a favor do método
com portam ental, fundado num a epistem ologia relacionai.
Definida de uma m aneira bastante evasiva, a noção de compor­
tamento engloba então «qualquer modificação de uma realidade
em relação ao seu ambiente»23. Enquanto o método comporta­
mental de Watson negava qualquer distinção de natureza entre
o ser humano e o animal, o advogado por Wiener e os seus cole­
gas irá ao ponto de rejeitar a fronteira que separa o vivo do não
vivo. Efectivamente, o alargar da noção de comportamento per­
mite incluir as máquinas na categoria universal de «ser compor­
tamental».
Em «Comportamento, intenção e teleologia», Wiener estabe­
lece uma aproximação entre o humano e a máquina segundo
uma hierarquia comportamental, no topo da qual pontificam os
comportamentos teleológicos, isto é, os que estão orientados
para um fim e são regulados pela retroacção. A par das noções
de entropia e informação, a retroacção vai assim tom ar-se um
dos princípios-chave da cibernética. Ligada à aprendizagem e
mais precisamente à capacidade de orientar a acção a partir das
informações recebidas, a noção de retroacção não se afasta gran­
demente da de reflexo condicionado, na medida em que ambas
pressupõem uma relação totalmente exteriorizada do indivíduo
com o seu ambiente. Contudo, ao substituir a noção de compor­
tamento pela de informação, Wiener irá muito mais longe do
que Watson, porquanto deixará de ter em conta qualquer fron­
teira, seja ela biológica ou subjectiva. Dito de outro m odo, a
ideia de «ser informacional» terá um alcance muito mais uni­
versal do que a de «ser comportamental»24. A filiação intelectual

22 Ibid.
23 Ibid, p. 9.
24 Phillipe Breton, VU topie de la communication, Paris, La Découverte, 1995.
Publicado pelo Instituto Piaget com o título A Utopia da Comunicação, na
colecção «Epistemologia e Sociedade», Lisboa, 1994.

31
que liga a cibernética ao behaviorismo não deve ocultar o facto
de que Wiener e os seus colegas pretendiam claramente romper
com a ciência moderna elaborando um modelo estritamente re­
lacionai.

A M ATRIZ M ILITAR

Independentemente da sua genealogia epistemológica, a


cibernética é, primeiro que tudo, um produto da Segunda Guerra
Mundial. Com efeito, foi nas entranhas tecnocientíficas desta
guerra que o seu projecto germinou. Não insistiremos dema­
siado neste ponto. Sem o enorme esforço dispendido pelos cien­
tistas americanos, os Estados Unidos nunca teriam certamente
atingido o poderio m ilitar-industrial que lhes perm itiu alicer­
çar o seu poder econômico. Aliás, a participação activa dos fun­
dadores da cibernética nesta máquina militar não é estranha ao
seu gigantesco impacto científico no imediato pós-guerra. Como
se podería, neste caso, compreender as suas repercussões epis-
temológicas, científicas, técnicas e ideológicas sem referir as suas
origens militares? É aí que está a raiz do seu novo humanismo que,
apesar das convicções do seu fundador, revela ser a fonte de um
profundo anti-humanismo25.
Sem o seu importante contributo no campo da investigação
militar durante a Segunda Guerra Mundial, Norbert Wiener
teria certamente ficado na história das ciências apenas como
prodígio e matemático genial26. Porém, o destino decidiu que
assim não fosse e, a partir de 1940, Wiener passa a colaborar com
Vannevar Bush no desenvolvimento de um calculador analógico.
Personagem central do esforço de guerra americano, Bush não
só convenceu o presidente Roosevelt do papel primordial dos
cientistas na luta dos armamentos como teve também assento no

25 O anti-humanismo que caracteriza a cibernética parece ter escapado ao seu


fundador, já que Wiener se definia como um humanista.
26 Sobre este tema, leia a biografia comparativa de Steve Joshua Heims, John
von N eum ann and Norbert Wiener: From Mathematics to the Technologies o f Life
and Death, Cambridge, Massachusetts, MIT Press, 1981.

32
National Defence Research Committee, do qual era um dos fun­
dadores27. Assim, desde o início da guerra que Wiener contacta
directamente com um dos principais dirigentes da administra­
ção militar. Mobilizados, a partir de 1941, em tom o do projecto
AA Predictor, Wiener e os seus colegas vão desenvolver um dis­
positivo servomecânico de tiro antiaéreo capaz de prever, numa
base probabilística, os movimentos do inimigo. Além das suas
consequências teóricas, nomeadamente no que se refere à noção
de retroacção, este dispositivo antiaéreo terá uma influência
determinante ao nível da representação cibernética do humano.
Retomando a expressão do historiador das ciências Peter Galison,
o que se perfila por trás do projecto AA Predictor é uma verda­
deira ontologia do inimigo28. Visto através do prisma metálico da
aviação militar, o inimigo adquire os traços de um dispositivo
servomecânico.
Por muito abstracta que possa parecer, esta desumanização
do inimigo corresponde à fusão operacional que liga o piloto ao
seu engenho. Do ponto de vista do AA Predictor, não subsiste
nenhuma fronteira entre o piloto e a máquina, são os dois cons­
titutivos de um único e mesmo sistema29. Esta visão meio-homem,
meio-máquina do inimigo estará no centro do pensamento
cibernético. Em «Comportamento, intenção e teleologia», publi­
cado durante a guerra, Wiener e os seus colegas associavam já o
comportamento humano à retroacção, isto é, a um dispositivo
servomecânico. Depois da guerra, esta nova figura do inimigo
transformará o rosto do ser humano.
Apesar da sua novidade aparente, o conceito de ciborgue é
um puro produto do imaginário militar. Antes do próprio nasci­
mento oficial da cibernética, a experiência da guerra molda uma
nova relação ser humano-máquina. Transparecendo esta clara­
m ente no projecto AA Predictor, seria difícil de acreditar que a
visão de W iener se m antivesse m arginal e isolad a. Seja ele

27 Paul N. Edwards, The Closed World: Computers and the Politic ofD iscourse in
Cold War America, Cambridge, Massachusetts, MIT Press, 1996, p. 46.
28 Peter Galison, «The Ontology of the Ennemy: Norbert Wiener and the Cyber-
netics Vision», Criticai Inquiry, n.° 21,1994, pp. 228-266.
29 Ibid., p. 233.

33
piloto, marinheiro ou combatente de infantaria, o soldado toma-se,
no decurso da Segunda Guerra Mundial, o primeiro modelo do
ciborgue. Encerrado numa pesada artilharia técnica, o seu corpo
não é nem mais, nem menos do que parte do armamento. Assim,
em Psychology for the Fighting Man, um panfleto publicado em
1943 pelo National Research Council, lê-se que o olho humano
«is the most important military instrument that the armed forces pos-
sess»30. Esta representação do corpo como arma, como disposi­
tivo de combate, está no centro das pesquisas militares em
matéria de psicologia e de comunicação. Sujeito às condições
mais extremas, o sistema perceptivo do soldado constitui então
um objecto de estudo privilegiado para determinar as capaci­
dades e os limites da máquina humana. Durante este período,
assiste-se à criação de uma aparelhagem electrónica complexa
que integra, num mesmo sistema, o ser humano e a máquina.
Visando a previsão e a descodificação das tácticas inimigas, as
novas tecnologias de comunicação vêm alimentar toda uma
série de pesquisas girando à volta dos efeitos do ruído no sistema
cognitivo. Ligada sobretudo ao Psycho-Acoustic Laboratory de
Harvard, uma equipa de neurologistas, engenheiros e psicólogos
desenvolve, durante este período, uma abordagem dos proble­
mas de comunicação e cognição, tendo por modelo um disposi­
tivo servomecânico31.
Os trabalhos de Wiener, longe de serem os únicos a estabele­
cer as balizas teóricas da cibernética, inscrevem-se num largo
campo de investigação militar em que a comunicação se torna a
problemática central e o soldado o arquétipo do ciborgue. Aliás,
é neste mesmo contexto que o engenheiro Claude Shannon dá
início às suas pesquisas de técnicas de transmissão da informação
que o levarão a formular, em 1948, a Teoria Matemática da Comu­
nicação. Tal como recorda a historiadora Lily Kay, o carácter
puramente formal e matemático desta teoria reflecte de alguma
forma os imperativos tecnológicos da guerra, dado que o enge­

30 Psychology fo r the Fighting M an, Infantry Journal Press, 1943, p. 24. Citado por
Paul Edwards em The Closed World, op. cit., p. 199.
31 Para uma análise aprofundada desta questão, ler a obra já citada de Paul
Edwards, The Closed World.

34
nheiro de Bell desenvolveu o seu m odelo em paralelo com os
seus trabalhos de criptografia militar32. Reconhecido como um
dos pais da informática, o matemático inglês Alan Turing dedi­
cou também os seus anos de guerra à descodificação dos códi­
gos secretos inimigos, em colaboração com os serviços secretos
americanos33. Também aqui se verifica o impacto determinante
da Segunda Guerra Mundial na elaboração de uma ciência do
controlo e da comunicação.
Ponto de viragem na história da Segunda Guerra Mundial, o
Projecto Manhattan simboliza, por si só, o importante contributo
dos cientistas neste funesto conflito. Destinado a produzir o
mais rapidamente possível a arma atômica, este projecto mobi­
lizou, perto do final da guerra, mais de 100 000 investigadores e
técnicos34. Todavia, a amplitude dos meios financeiros e técnicos
reunidos com vista à criação da bomba atômica foi largamente
compensada pela supremacia militar que ela deu aos Estados
Unidos. Deste modo, a utilização da arma atômica contra o
Japão permitiu aos Americanos serem os grandes vencedores da
guerra, constituindo ao mesmo tempo um sólido marco simbó­
lico do avanço das tecnociências. Nesse sentido, Philippe Breton
sublinha, em VUtopie de la communication, que o projecto ciber­
nético de fabricar uma máquina inteligente representou, para
muitos cientistas do pós-guerra, uma tentativa de redenção do pe­
cado nuclear35. O facto de alguns dos maiores sábios do século xx
terem urdido em segredo, nos laboratórios de Los Alamos, a
arma mais destruidora da história da humanidade era algo que
revoltava sobremaneira Norbert Wiener. Contudo, isso não o
impediu de, no pós-guerra, colaborar estreitamente com o mate­
m ático John von Neumann, um dos participantes no Projecto
Manhattan mais convencidos do fundamento de tal empresa.
Nomeadamente, o futuro inventor do computador contribuiu

32 Lily Kay, Who Wrote the Book o f Life? A History o f the Genetic Code, Stanford
University Press, 2000.
33 Jean Lassègue, Turing, Paris, Les Belles Lettres, 1998.
34 Philippe Breton, VU topie de la communication, Paris, La Découverte, op. cit.,
p. 41.
35 Ibid.

35
para este projecto calculando a altitude a que a bomba devia
explodir para causar o máximo de destruição36. Sem o financia­
mento por parte do exército americano das pesquisas na área da
balística, que exigiram a construção dos grandes computadores
de Los Alamos, o computador não teria decerto visto a luz do
dia tão rapidamente no pós-guerra37. Apesar do manifesto paci­
fismo do seu fundador, a cibernética ficará marcada de forma
indelével pelas suas origens militares. De resto, o seu nascimento
coincide com o desencadear da Guerra Fria.

SOB O SIGNO D A IN TERD ISCIPLIN A RID A D E

A mobilização maciça dos cientistas durante a guerra favo­


rece a reunião de investigadores provenientes de várias discipli­
nas em torno de objectivos comuns. São assim lançadas pontes
entre abordagens e universos conceptuais aparentemente muito
distanciados entre si. Deste cadinho intelectual nasce um grupo
de investigadores reunindo engenheiros, matemáticos, físicos,
biólogos, neurologistas, psicólogos e antropólogos interessados
nas questões relativas ao funcionamento do cérebro e às aplica­
ções possíveis das noções de retroacção e de causalidade cir­
cular. Embora vários encontros importantes entre aqueles que
virão a ser os primeiros cibernéticos tenham tido lugar durante
a guerra, será somente no fim desta que eles se reunirão oficial­
mente para discutir as possibilidades da nova ciência recém-criada
por Norbert Wiener. Conhecidas pelo nome de conferências Macy,
estes encontros principiaram em Março de 1946, sob o título
relevador de Feedback Mechanisms and Circular Causai in Biological
and Social Systems. Só por si, a escolha do título indica que a ideia
de reunir num mesmo modelo explicativo os organismos vivos,
as máquinas e a sociedade estava já fortemente estabelecida. De
facto, esta série de dez conferências constitui o verdadeiro assento
de nascimento da cibernética.

36 Ibid., p. 106.
37 Philippe Breton, U ne histoire de Vinformatique, Paris, Seuil, 1990.

36
Obra filantrópica tipicamente americana, a Fundação Josiah
Macy visava, originalmente, apoiar a investigação na área médica.
Respondendo a uma sugestão do neuropsiquiatra Warren McCul-
loch de organizar uma série de conferências em redor dos temas
recém-formulados da retroacção e da causalidade circular, a
fundação tom a-se, no imediato pós-guerra, o principal promo­
tor da cibernética. Deve-se ao historiador das ciências Steve
Joshua Heims um dos estudos mais completos até à data sobre
o conteúdo e o contexto sociopolítico das conferências Macy.
Em The Cybernetics Group, 1946-1953, significativamente subinti-
tulado Constructing a Social Science for Postwar America, Heims
propõe-se demonstrar os laços existentes entre a elaboração do
paradigma cibernético e a orientação das ciências humanas
americanas depois da Segunda Guerra Mundial38. Focalizando-se
na participação dos especialistas em ciências humanas nestas
famosas conferências, Heims sublinha até que ponto o projecto
de unificação dos conhecimentos pautou os debates e as discus­
sões dos primeiros cibernéticos. A possibilidade então entrevista
de poder, através da partilha da comunicação como problemá­
tica comum, «vencer o golfo que separa as ciências naturais e as
ciências sociais» está inscrita com todas as letras no texto de
introdução da 9.a conferência39. Os autores, Heinz von Foerster,
Margaret Mead e Hans Teuber, consideraram, de facto, essencial
insistir no carácter interdisciplinar destes encontros científicos,
atestando desse modo que a integração dos saberes era um dos
seus primeiros objectivos.
Bastante mais restritas que os Congressos Internacionais de
Namur, realizados dez anos depois, as conferências Macy reuni­
ram, numa larga proporção, investigadores já reconhecidos e
respeitados no respectivo campo disciplinar. De resto, basta con­
sultar a lista de participantes, na qual figuram Norbert Wiener,

38 Steve Joshua Heims, The Cybernetics Group, 1946-1953. Constructing a Social


Science fo r Postwar America, op. cit.
39 Heinz von Foerster, Margaret Mead e Hans Lukas Teuber, «A Note by the
Editors», em Cybernetics, Circular Causai and Feedback Mechanisms in Biological
and Social Systems, the Ninth Conference, March 20-21,1952, Josiah Macy Jr.
Foundation, Nova Iorque, p. XI.

37
John von Neumann, Warren M cCulloch, Arturo Rosenblueth,
Claude Shannon, Paul Lazarsfeld, Alex Bavelas, Ross Ashby,
Roman Jakobson, Gregory Bateson e Margaret Mead, para com­
preender a importância histórica destes encontros40. No entanto,
o imenso sucesso científico dessas conferências não se deve uni­
camente ao prestígio daqueles que nelas participaram. A von­
tade expressa de construir pontes entre os saberes e o leque
considerável de temas abordados contribuíram largamente para
as suas repercussões históricas. Embora possa ter dado lugar a
confusões conceptuais, a interdisciplinaridade das conferências
M acy apresenta desde logo a cibernética sob o signo de um novo
Renascimento que possibilita, finalmente, a unificação dos sabe­
res41. O impacto do novo paradigma será de tal monta que não
só todas as disciplinas vão, num dado momento, nele convergir,
como campos inteiros das ciências contemporâneas vão nele ser
moldados, antes de dele se destacarem.

EN TR O PIA , IN FO R M A Ç Ã O , RETR O A C Ç Ã O

Forjado a partir da palavra grega kubernetes, que designa na


origem o «piloto» de um navio, o termo cibernética foi oficial­
mente adoptado em 1949 pelos organizadores das conferências
Macy. É difícil não ver nesta raiz etimológica uma alusão incons­
ciente à experiência militar do projecto AA Predictor. Com a
escolha deste vocábulo, Norbert Wiener coloca muito explicita­
m ente o acento tônico sobre o controlo comunicacional, tendo o
cuidado de precisar que a palavra governador provém da mesma
t raiz42. Não é um dos principais objectivos dos fundadores da
cibernética suprir as fraquezas humanas criando uma máquina

40 Steve Joshua Heims publicou, em anexo a The Cybernetics Group, a lista com­
pleta dos participantes. Esta lista surge igualmente na obra A u x origines des
Sciences cognitives, de Jean-Pierre Dupuy, também ela dedicada às conferên­
cias Macy.
41 Sobre este tema, ler a obra de Jean-Pierre Dupuy, A u x origines des Sciences
cognitives, op. cit., p. 89.
42 Norbert Wiener, Cybernétique et société. U usage humain des êtres humains,
Paris, UGE, coll. «10/18», 1954, p. 16.

38
capaz de controlar, prever e governar? Nesse sentido, em Cyber­
nétique et société, Wiener sustenta que a desorganização e o caos
que ameaçam a sociedade se parecem com o Mal agostiniano da
im p erfeição, que «não é em si m esm o um a força, m as antes
a própria medida da nossa fraqueza»43. Assim, é sob os traços da
imperfeição e da irracionalidade que agora se perfila o inimigo.
O com bate contra a fraqueza humana travado pelos cibernéticos
só será igualado pela omnipotência da entropia com a qual ela
se relaciona.
«O mundo inteiro obedece à segunda lei da termodinâmica:
se a ordem nele diminuir, a desordem aumenta44.» Resumindo
por si só a concepção cibernética do mundo, esta frase ilustra
bem a posição central que a entropia ocupa no modelo científico
elaborado por Wiener. Elevada à categoria de verdade metafí­
sica, a entropia encontra-se, efectivamente, no centro do seu edi­
fício teórico. Ao enunciar que «qualquer sistema isolado tende
para um estado de desordem máxima, ou para a m aior homo­
geneidade possível, devido ao abrandamento, seguido da in­
terrupção, das permutas no seu seio»45, o segundo princípio da
termodinâmica apresenta-se como a lei que rege a totalidade do
Universo. A am eaça inelutável que, aos seus olhos, representa
a entropia alimenta o pessimismo político de Wiener após a
Segunda Guerra Mundial. Nada exprime melhor esse pessi­
mismo do que esta frase mil vezes citada: «Somos náufragos num
planeta condenado à morte46.» Mais do que os seus colegas,
Wiener parece ter sentido fortemente o horror do Holocausto e
da guerra, ele que se considerava o descendente directo do
mítico rabi Loew47. O bombardeamento atômico de Hiroxima e
Nagasáqui, em Agosto de 1945, foi, para o cientista que era, um
duro choque, um verdadeiro traumatismo. Com o fim da guerra,

43 Ibid., p. 42.
44 Norbert Wiener, Cybernétique et société, op. cit., p. 43.
45 Philippe Breton, UUtopie de la communication, op. cit., p. 32.
46 Norbert Wiener, Cybernétique et société, op. cit., p. 49.
47 O rabi Loew é historicamente conhecido como o criador do Golem de Praga,
ao qual Wiener se referiu bastas vezes. Sobre este tema, ler o livro de Phi­
lippe Breton, À Vimage de YHomme. D u Golem aux créatures virtuelles, Paris,
Seuil, 1995.

39
posiciona-se contra a submissão dos cientistas aos imperativos
militares, como testemunha o artigo «A Scientist Rebels», que
publica em Atlantic Monthly, em 194748. o terror suscitado pela
utilização da bomba A leva Wiener a promover uma maior res­
ponsabilização social da ciência. Mau grado o seu pessimismo,
vai, ainda assim, defender o envolvimento social dos cientistas,
colocando o acento tônico sobre o controlo e a comunicação. Posto
isto, dar à sociedade um meio de se proteger contra as derivas
sanguinárias dos seus dirigentes, de lutar contra a entropia, é
um dos objectivos confessos da cibernética4849.
Embora Wiener não tenha dúvidas de que o desaparecimento
da humanidade sob a pressão da indiferenciação entrópica é da
ordem da fatalidade e do destino, não deixa de reconhecer ao
ser humano um certo controlo sobre o seu destino. É ele próprio
que escreve: «Seremos engolidos, mas convém que isso aconteça
de uma forma que possamos desde já considerar digna da nossa
grandeza.»50 Wiener baseia esta esperança, que concede à huma­
nidade a possibilidade de melhorar a sua sorte antes do desas­
tre final, no facto de o segundo princípio da termodinâmica só
se aplicar aos sistemas fechados. Nesse sentido, se o Universo
entendido na sua globalidade constitui um sistema fechado, já a
Terra será antes um sistema aberto possuidor de forças neguen-
trópicas. A humanidade é então associada a «ilhéus de entropia
decrescente» que permitem «afirmar a realidade do progresso»51.
Importa precisar aqui que, para Wiener, o acaso constitui um
princípio estrutural do Universo. Baseando-se nos trabalhos dos
físicos Boltzmann e Gibbs, desenvolve uma visão puramente
probabilista da entropia, na qual a informação se tom a um prin­
cípio de ordem fundamental52. Taí como é entendido por Wiener,
o progresso consiste essencialmente na melhoria do controlo e

48 Norbert Wiener, «A Scientist Rebels», in Atlantic Monthly, n.° 170,1947, p. 46.


Citado por Lily Kay, Who Wrote the Book ofL ife?, op. cit., p. 73.
49 Philippe Breton, VU topie de la communication, op. cit.
50 Norbert Wiener, Cybemétique et société, op. cit., p. 49.
51 Ibid., p. 43.
52 Jacques Grinevald, «Progrès et entropie, cinquante ans après», em Domi-
nique Bourg e Jean-Michel Besnier (dir.), Peut-on encore croire au progrès?,
Paris, PUF, 2000, pp. 197-227.

40
do processamento da informação. De resto, esta importância
teórica dada à comunicação não é estranha ao traumatismo da
guerra. Não bastaram a desinformação generalizada e o segredo
militar para m anter as populações civis na mais completa das
ignorâncias? Assim, tal como sublinhou Philippe Breton, é por
N■/ querer lutar contra o caos e a desinformação gerados pela guerra
que Wiener faz da comunicação um cavalo de batalha. Contrária i
ao segredo, à desinformação e ao caos, a comunicação constitui |j
o meio último de combater a entropia e a desordem. M
Compreendida em termos de trocas informacionais, a comu­
nicação é a fonte de qualquer organização. De facto, a noção de
entropia pressupõe uma representação do Universo fundada
essencialmente nas diferenças organizacionais. Este modelo
puramente diferencial conduz à anulação ontológica de qual­
quer distância entre o vivo e o não vivo. Efectivamente, a ciber­
nética subordina a vida ao princípio informacional. Segundo
esta lógica, o ser humano possui tão-só um valor diferencial ligado
à sua capacidade de processar a informação complexa. Embora
lhe negue qualquer estatuto ontológico em particular, o pai da
cibernética confere-lhe, porém, um valor predominante na hie­
rarquia da vida. Fortemente inspirado pelo evolucionismo dar-
winista, o ser humano, e a vida no seu conjunto, surgem aos olhos
de Wiener como «acidentes temporários» que, apesar do «seu
carácter fugidio», são «valores positivos importantes»53. Definindo
o ser humano unicamente em função da complexidade da sua
inteligência, Wiener deixa perceber que a reprodução artificial de
um organismo teria um valor «existencial» idêntico ao de um ser
vivo. O modelo informacional aplica-se indiferentemente aos orga- \
nismos e às máquinas. Na medida em que permitem combater
mais eficazmente a entropia, as «máquinas inteligentes» são convi­
dadas a tomar-se membros de corpo inteiro da organização social.
Quanto a isso, Wiener é bastante explícito: «Não há nenhuma
razão que impeça as máquinas de serem semelhantes aos seres
vivos, na medida em que representam bolsas de entropia decres­
centes no seio de um sistema em que a entropia tende a crescer54.»

53 Norbert Wiener, Cybernétique et société, op. cit., p. 40.


54 Ibid., p. 38.

41
Apesar do seu carácter determinante no desenvolvimento
do paradigma cibernético, a noção de informação continua a ser
algo difícil de definir. Na verdade, a amplitude da sua aplicação
teórica e técnica só é igualada pela fluidez conceptual. Foi ao
/ procurar melhorar a fiabilidade das suas transmissões telegráfi-
casyque Shannon apurou o seu modelo teórico. Se nos lembrar­
mos do contexto técnico em que o célebre engenheiro formulou
a sua teoria, não poderemos senão constatar o desfasamento
considerável entre a sua origem e as suas aplicações nas ciências
humanas, na linguística ou na biologia. No entanto, Shannon será
muito claro quanto a este ponto. Interessam-lhe apenas os aspec­
tos formais do processo da comunicação, devendo-se afastar de
imediato qualquer problemática de ordem semântica.
A informação é um princípio físico quantificável, cuja eficá­
cia pode ser medida num determinado sistema. Partindo de
uma base probabilista, a linguagem binária permite reduzir a
incerteza ligada à transmissão de uma mensagem. A natureza
desta última pode ser física, biológica ou cultural, isso não tem
qualquer importância. Do ponto de vista da teoria da informação,
uma série de letras juntas ao acaso e um soneto de Shakespeare
têm o mesmo valor55. Ligada ao segundo princípio da termodi­
nâmica, a informação é um factor de ordem que permite o con­
trolo através da quantificação. Encontramos aqui os postulados
básicos da informática.
Shannon desenvolveu o seu modelo em simultâneo com o de
Wiener. The Mathematical Theory of Communication e Cybernetics
foram publicados na mesma época.56 A semelhança entre as duas
abordagens é tão gritante que, nos meios científicos, se falará da
teoria Shannon-Wiener. Contudo, este último reivindicará a ante-
rioridade do seu modelo face ao de Shannon57. O alcance teórico
do conceito de informação no universo científico contemporâ­
neo é comparável à noção de energia para a ciência moderna58.

55 Lily Kay, Who Wrote the Book ofh ife?, op. cit., p. 99.
56 Claude Shannon e Warren Weaver, The Mathematical Theory o f Com m uni­
cation, Urbana, University of Illinois Press, 1949.
57 Lily Kay, Who Wrote the Book ofL ife?, op. cit., pp. 91-102.
58 Emmanuel Dion, Invitation à la théorie de Tinformation, Paris, Seuil, 1997.

42
Isto explica, em boa parte, a enorm e repercussão que as obras de
Wiener e Shannon tiveram aquando do seu aparecimento. Só
para dar uma ideia, Emmanuel Dion recorda que uma biblio­
grafia de 1953 reunindo os artigos científicos publicados em
tom o das duas obras incluía nada mais nada menos do que 60
páginas e 979 títulos. As dimensões que hoje teria um tal recen-
seamento cabem apenas no plano da imaginação59. Mau grado a
sua enorme semelhança, a cibernética distancia-se da teoria da
informação devido à importância que confere à noção de causa­
lidade circular. Enquanto o modelo shannoniano pressupõe uma
concepção linear da comunicação, na qual o esquema código-
-emissor-canal-receptor continua a ser o exemplo clássico, a
representação cibernética da comunicação é circular e sem fim.
De simples meio, a informação passa, com a cibernética, à con­
dição de verdadeiro fim em si mesma60.
O conceito de retroacção (feedback) constitui, a par da entro­
pia e da informação, o núcleo duro do pensamento cibernético.
Estreitamente ligado à noção de informação, designa o processo
pelo qual esta é assimilada e utilizada a fim de orientar e con­
trolar a acção. Embora o princípio da retroacção não seja uma
descoberta em si mesmo - os Gregos já o conheciam - , Wiener
vai dar-lhe um valor muito especial. Como já sabemos, foi ao
procurar melhorar o funcionamento dos dispositivos servo-
mecânicos de tiro antiaéreo que Wiener se debruçou sobre as
potencialidades teóricas deste princípio. Já em 1943, em «Com­
portamento, intenção e teleologia», Wiener colocava no topo da
sua hierarquia os comportamentos teleológicos, isto é, os que
são regulados pela retroacção. A faculdade de orientar e regular
as suas acções segundo os objectivos visados e as informações
recebidas correspondem, efectivamente, à definição cibernética da
inteligência. É ela que permite a aproximação entre o ser hu­
mano e a máquina. Possuindo potencialmente as mesmas capa­
cidades de aprendizagem, as máquinas inteligentes contribuem
para a manutenção da ordem social, garantindo a auto-regulação
retroactiva desta.

59 M d ., p. 11.
60 Philippe Breton, U ne histoire de 1'informatique, op. cit., p. 155.

43
Concebida essencialmente como um modo de adaptação ao
ambiente, a retroacção distingue-se do simples reflexo condicio­
nado por reconhecer ao indivíduo a possibilidade de modificar
a relação estímulo-resposta em função dos dados apreendidos
e dos fins almejados61. Apesar desta descompartimentação apa­
rente, a aprendizagem retroactiva subentende a adaptação do
organismo a uma lógica comunicacional globalizante. Para Wiener,
esta forma de aprendizagem situa-se no próprio fundamento da
sociedade. Nesse sentido, estabelece um paralelo bastante revela­
dor entre o instinto na formiga e a aprendizagem no ser humano62.
Esta importante função adaptativa atribuída à aprendizagem só
pode ser plenamente compreendida se a recolocarmos no seu
contexto histórico global.
Transpostos para o nível societal, os conceitos cibernéticos
induzem, como veremos com Bateson, uma representação pura­
mente comunicacional da sociedade. Transformada num imenso
sistema de comunicação, esta última existe apenas através das
permutas informacionais mantidas entre os seus membros.
Constantemente interligado com o seu ambiente social, o sujeito
encontra-se, nesta lógica, totalmente virado para o exterior. Já
não é tido como um ser autônomo, passando antes a ser, para
parafrasear Philippe Breton, um simples «reactor» que é suposto
adaptar-se ao seu ambiente63. Perante esta representação do laço
social, compreende-se mais facilmente o papel central que a
aprendizagem ocupa na cibernética. Tanto mais que o monismo
informacional de Wiener pega ontologicamente no testemunho
da vida, o que permite ao pai da cibernética proclamar: «Estar
vivo é participar numa corrente contínua de influências vindas
do mundo exterior, corrente essa em que não somos mais do que
um estado intermédio64.» Discriminante maior, o princípio da
retroacção autoriza Wiener a posicionar as máquinas inteligentes
a par do ser humano, no topo da hierarquia cibernética. Este
valor atribuído às «máquinas inteligentes» adquire todo o seu

61 Jean-Pierre Dupuy, A u x origines des Sciences cognitives, op. cit., p. 37.


62 Norbert Wiener, Cybemétique et société, op. cit., p. 73.
63 Phillipe Breton, UUtopie de la communication, op. cit., p. 48.
64 Norbert Wiener, Cybemétique et société, op. cit., p. 48.

44
sentido quando ressituado no quadro do triunfalismo tecno-
científico do pós-guerra.

A G U ERRA FR IA E O TR IU N FO D A M Á Q U IN A

Evocando a época do pós-guerra nos Estados Unidos, Steve


Joshua Heims insiste no petulante optimismo tecnocientífico então
dominante65. Considerados os grandes vencedores da Segunda
Guerra Mundial, os cientistas americanos adquiriram, durante
este período, um prestígio social que lhes concedia o estatuto
de quase-heróis. Apesar do terror que inspira, a arma atômica
tom a-se o símbolo da omnipotência da tecnociência. A lógica
subjacente a esta glorificação resume-se à ideia de que se a ciên­
cia conseguiu criar um tal poder de destruição, a sua aplicação
ao serviço da humanidade permite todas as esperanças. Neste
sentido, o projecto cibernético de criar uma máquina inteligente e
o desenvolvimento da biologia m olecular representam duas
tentativas convergentes para expurgar a ciência do pecado nu­
clear66. Todavia, este positivismo triunfante e o espírito de reden­
ção que o acompanha não devem obliterar o facto de a época do
pós-guerra continuar a ser, para diversos intelectuais e cientistas
americanos, uma das mais sombrias da sua história. Com efeito,
ela marca o início da Guerra Fria e o triunfo de um asfixiante con­
servadorismo político.
Receosos da força que representava o bloco soviético no fim
dos anos 1940, os Estados Unidos tentaram, por todos os meios,
combater a sua expansão mundial. Longe de ser unicamente
dirigida para o exterior, a obsessão do comunismo dita então a
política interna do país. Favorecido por este clima de suspeição,
o senador republicano Joseph McCarthy profere, a 9 de Feve­
reiro de 1950, um discurso que condena a infiltração dos comu­
nistas no seio do aparelho de Estado, desencadeando com isso

65 Steve Joshua Heims, The Cybernetics Group, op. cit.


66 Michael Morange, Histoire de la biologie moléculaire, Paris, La Découverte,
1994, p. 93.

45
uma verdadeira paranóia colectiva67. Dominados pelo maccar-
thismo, os anos de 1950 a 1954 vêem instalar-se uma atmosfera
de medo e de delação nos meios intelectuais e artísticos. Numa
época em que «ter exigido reformas sociais e políticas ou defen­
dido abertamente o princípio da igualdade racial é o mesmo que
ser suspeito e, logo, ficar a meio caminho da condenação»68, não
surpreende que um grande número de cientistas se tenha en­
trincheirado num estrito conservadorismo. A este propósito,
Steve Joshua Heims recorda que as conferências Macy se desen­
rolaram no preciso momento em que ocorrem purgas nas uni­
versidades americanas visando a expulsão dos investigadores
de obediência marxista ou simplesmente progressistas69. Vários
cientistas de renome viram a sua carreira arruinada por esta
caça às bruxas dos tempos modernos. O terror intelectual que se
abate sobre a América do pós-guerra explica, em parte, a exclu­
são das questões de ordem política do programa das conferên­
cias Macy. Assim, é sob uma capa de neutralidade política e de
objectividade estritamente científica que os participantes logram
apresentar os seus trabalhos. Tingidas pelo conservadorismo,
estas conferências deixam perceber, ainda assim, a vontade de
fazer da cibernética um modelo de gestão da sociedade.
Embora o pai da cibernética se tenha, por diversas vezes,
insurgido ferozmente contra a submissão da ciência aos fins
militares, o seu projecto de criar uma máquina inteligente ins­
creve-se na lógica de controlo tecnocrático típica da Guerra Fria.
Depois de o ser humano se ter mostrado capaz das piores atroci­
dades, a criação de uma máquina plenamente racional alimenta
a esperança de uma gestão mais justa e eficaz da sociedade.
Intitulado «Vers une machine à gouverner», o artigo do Padre
Dominique Dubarle, publicado no Le Monde de 28 de Dezembro
de 1984, ilustra de forma eloquente as concepções da época70.

67 Ler André Kaspi, «Le maccarthysme», em Les Américaitis, tomo 2: Les États-
-Unis, de 1945 à nos jours, Paris, Seuil, coll. «Points Histoire» 1986, pp. 420-427.
68 Ibid., p. 424.
69 Steve Joshua Heims, The Cybernetics Group, op. cit., p. 5.
70 O artigo de Dominique Dubarle é reproduzido e comentado por Philippe
Breton em La Formation des valeurs scientifiques et le champ de la sécurité infor-
matique, op. cit., pp. 57-58.

46
Sob a forma de comentário de Cybemetics, publicado no mesmo
ano, este artigo apresenta as máquinas de processamento da
informação como «os primeiros grandes substitutos do cérebro
humano» que permitem, por fim, preencher as lacunas da inte­
ligência sensível71. Segundo este autor, se confiássemos a estas
máquinas o cálculo e o processamento informacional dos bancos
de dados, poderiamos governar com mais eficácia. Embora
Wiener faça, também ele, alusão à máquina de govem ação, o
seu optimismo nada tem, contudo, de triunfalismo beato, visto
que a sua principal intenção era pôr fim ao mundo da guerra72.
Ao mesmo tempo que anuncia as tendências já previsíveis da
aplicação social da informática, o artigo do Padre Dubarle é por­
tador da ideia de uma desclassificação do cérebro pela máquina.
I Desqualificado pela sua própria criação, o humano, imperfeito e
1 biologicamente limitado, perde o seu prestígio.
^ No plano militar-industrial, a Guerra Fria é o prolongamento
directo da Segunda Guerra Mundial. É durante este período que
a figura do ciborgue se vai aperfeiçoar e tomar realmente forma,
através do desenvolvimento de dispositivos informacionais
complexos que integram o humano e a máquina73. Na sequência
da explosão experimental de uma bomba atômica soviética em
1949, o exército americano financia avultadamente as pesquisas
no campo da informática, de modo a aperfeiçoar dispositivos de
vigilância e de resposta a eventuais ataques nucleares. Iniciado
em 1950, o projecto SAGE (Semi-Automatic Ground Environment)
contribui muito concretamente para a desqualificação ciberné­
tica do ser humano74.

71 lbid., p. 58..
72 «Those o fu s who have contributed to the new Science o f cybemetics thus stand in
a moral position which is, to say the least, not very confortable. We have contribu­
ted to the initiation ofa new Science which, as I have said, embraces technical deve-
lopments with great possibilities fo r good and evil. We can only hand it over into
the world ofBelsen and Hiroshima», Cybemetics or Control and Communication
in the A nimal and the M achine, op. cit., p. 28.
73 Paul Edwards, The Closed World: Computers and the Politics o f Discourse in
Cold War America, op. cit.
74 Ler o capítulo dedicado por Paul Edwards ao projecto SAGE (ibid.).

47
Sistema de radares ligados a computadores que rastreiam e
analisam o espaço aéreo para comandarem e dirigirem a res­
posta automática, o SAGE constitui o primeiro dispositivo não
humano utilizado para analisar a informação e orientar as deci­
sões em tempo real. Pela primeira vez, «a máquina não só substi­
tuía o homem como agia num universo temporal tão rápido que
o homem só lhe tinha acesso posteriormente»75. Estamos ainda
longe do ciberespaço, mas a lógica da cibernética instaura já um
novo modo de gestão da sociedade.
É difícil ignorar o contributo da teoria dos jogos para a asso­
ciação da razão ao cálculo e às estratégias comunicacionais. Re-
ferindo-se-lhe directamente, o Padre Dubarle advoga que «os
processos humanos que são objecto do governo são compará­
veis a jogos, no sentido preconizado por Von Neumann»76. Em
Theory of Games and Economic Behavior, publicado durante a guerra,
em 1944, John von Neumann afirmava a possibilidade de ana­
lisar e prever matematicamente as acções humanas, tendo em
conta determinados factores psicológicos77. Apesar dos numero­
sos pontos de divergência que separam o pensamento de Wiener
do de Von Neumann, nomeadamente sobre a questão do deter­
minismo e do papel social dos investigadores, a teoria dos jogos
pertence ao'universo intelectual da cibernética78. Herdeira do
liberalismo econômico anglo-saxónico, a teoria dos jogos pro­
m ove uma representação puramente operacional da racionali­
dade humana. Com base no postulado simplista que defende
que o sujeito racional procura sempre o máximo de satisfação,
Von Neumann e M orgenstem desenvolveram um m odelo mate­
mático que implica o emprego de estratégias comunicacionais
por parte dos jogadores, que são supostos preverem as suas
acções segundo as regras fornecidas e as informações recebidas.

75 Philippe Breton, U ne histoire de Tinformatique, op. cit., p. 129.


76 Philippe Breton, op. cit., p. 67.
77 John von Neumann e Oskar Morgenstem, Theory o f Games and Economic
Behavior, Nova Iorque, John Wiley & Sons, 1964.
78 Sobre este tema, ler a dupla biografia escrita por Steve Joshua Heims, John
von N eum ann and Norbert Wiener: From Mathematics to Technologies o f Life and
Death, Cambridge, Massachusetts, MIT Press, 1981.

48
A imagem, tão cara aos economistas liberais, do homo oeconomicus
toma aqui a forma do «sujeito-jogador que escolhe»79. Inserido
num universo probabilista, o sujeito da teoria dos jogos esforça-
-se por prever estrategicamente o comportamento dos restantes
jogadores. De acordo com esta lógica, a racionalidade humana é
reduzida a um conjunto de regras estratégicas de cálculo e de
processamento da informação. Submetido a imperativos de efi­
cácia operacional, o sujeito evolui através de um jogo de papéis
previsível e mensurável. É difícil não perceber, por trás deste
modelo, a lógica militar que o viu nascer. Mais uma vez, a má­
quina é chamada a superar o ser hum ano no cálculo estratégico
das operações.

O SER H U M A N O E A M Á Q U IN A :
D A A N A LO G IA À ON TO LOGIA

Reiterando, em 1961, as ambições iniciais da cibernética,


Georges Boulanger insistiu na intenção, própria desta disciplina,
de «investigar livremente no domínio do espírito», «definir e
medir a inteligência» e, finalmente, «construir máquinas pen-
sadoras»80. É um facto que o projecto de fabricar uma máquina
inteligente foi, desde o seu nascimento, o mais potente motor
promocional da cibernética. Reinterpretando o velho sonho oci­
dental de criar artificialmente um ser semelhante ao homem, os
fundadores da nova ciência não esconderam o seu desejo de verem
um dia as máquinas a adquirirem o estatuto de alter ego racio­
nal81. Desde os seus primeiros esboços, o computador surge como
uma reprodução técnica do cérebro humano. Independentemente
da forma e do modelo pelo qual se representa o funcionamento
do cérebro, uma coisa parece agora ser certa: ele é o suporte bio-

79 Michel Plon, La Théorie des jeux: une politique de 1'imagimire, Paris, Librairie
François Maspero, 1976, p. 113.
80 Georges Boulanger, «Allocution», Actes du 3 e Congrès intemational de cyber-
nétique, op. cit.
81 Sobre este tema, ler a análise desenvolvida por Philippe Breton em A Vimage
de VHomme. D u Golem aux créatures virtuelles, op. cit.

49
lógico de um processo informacional complexo. Assim, antes
mesmo da sua criação efectiva, o computador é modelado em
função de uma representação operacional da razão /
Sob todas as formas e segundo todas as convicções, a analo­
gia estabelecida entre o cérebro e o computador mantém-se como
uma das metáforas mais poderosas jam ais geradas pela ciberné­
tica. Das considerações de Turing sobre a estrutura em «pele de
cebola» do espírito ao modelo maquínico da rede neuronal de
McCulloch e Pit, passando pela analogia estabelecida por Von
Neumann entre neurônios e tubos vazios, é por meio desta
metáfora que se transmite, em boa parte, uma concepção estri­
tamente informacional do ser humano82.
P Geralmente entendida como uma analogia funcional, a apro­
ximação entre cérebro e computador repousa, efectivamente, x
/ numa inversão completa da relação interioridade-exterioridade.
Faculdade intrinsecamente ligada ao sujeito, a razão\ c o n stitu i'
de facto o lugar onde a individualidade moderna se instituiu.
Fundamento da liberdade política e da autonomia subjectiva, a
razão situou-se tradicionalmente no âmago do sujeito, no poço
> sombrio e impenetrável da sua interioridade. Contrastivamente,
a transposição da razãç^para o interior de uma máquina ilustra
a amplitude da inversão operada pela cibernética. Deste modo,
a desvalorização do ser humano subsequente à Segunda Guerra
* Mundial conduz, por via de um curioso desvio, a uma sobreva-
lorização da razão, dissociando-a da subjectividade humana.
Convertida em puro processo informacional, a razãó pode então
encam ar-se numa máquina sem nenhum limite biológico ou
afectivo passível de a entravar. Esta transferência de um suporte
biológico para um suporte técnico é possibilitada pela presença
/ de uma estrutura reprodutível de processamento da informação:
\ a memória.
Apesar das profundas divergências teóricas e metodológicas
acerca do seu funcionamento efectivo, a memória constitui uma
constante estrutural a partir da qual se estabelece a analogia /.
V entre o cérebro e o computador. Oriunda das profundezas abis­
sais da interioridade subjectiva, a memória toma-se, com a ciber-

82 Alan Turing, «Les ordinateurs et Tintelligence», em Alan Ross Anderson (dir.),


Pensée et machine, Seyssel, Champ Vallon, 1983, pp. 39-69.

50
nética, um dispositivo de armazenamento que permite as per-
mutas informacionais. É um facto que sem esta capacidade de
armazenamento, virtualmente ilimitada, o computador nunca
podería pretender superar um dia a inteligência humana. Porém,
muito antes de ser associada a um dispositivo de armazena­
mento, a memória foi durante muito tempo concebida como o
v\ símbolo da interioridade subjectiva. Sobre ela, dizia já Santo
Ágostinho: «Ó meu Deus, que grande, prodigiosamente grande,
é este poder da memória? É um santuário de uma amplitude
infinita. Quem já lhe chegou ao fundo? No entanto, ela mais não
é do que um poder do meu espírito, que resulta da minha natu­
reza, mas não consigo compreender inteiramente quem sou83.»
De Santo Agostinho a Freud, a memória encarna, na tradição
humanista, a opacidade de toda a vida interior. Sem querer
especular demasiado, pode-se dizer que esta representação da
memória como fonte da interioridade subjectiva atravessa a
maior parte das grandes correntes filosóficas da modernidade.
Para termos uma ideia da sua importância, basta pensar no
^ papel central que a memória ocupa na psicanálise e o carácter
de irreversibilidade de que Freud a revestiu com o seu conceito de
inconsciente. Ao tomarmos consciência do laço tradicionalmente
estabelecido no Ocidente entre a memória e a subjectividade,
damo-nos conta da amplitude da inversão filosófica induzida
pela cibernética. Somos, nem mais nem menos, confrontados
com uma saída de mansinho do humanismo e da paisagem polí­
tica moderna. Inteiramente envolvido num processo comunica-
cional, o sujeito cibernético, destituído de qualquer interioridade,
evolui, de facto, num mundo em que a própria ideia de autono­
mia política perde o seu sentido. Conta apenas a luta contra a
entropia.
Simplesmente intitulada «O Homem e a Máquina», a confe­
rência proferida, em 1964, por Norbert Wiener, no Colóquio de
Royaumont, vem trazer mais alguma luz sobre esta represen­
tação cibernética do sujeito84. Desde o início, Wiener manifesta o

83 Santo Agostinho, Les Confessions, Paris, Gamier-Flammarion, 1964.


84 Norbert Wiener, «L'homme et la machine», Le Concept ã'information dans la
Science contemporaine, Colóquio de Royaumont, Paris, Éditions de Minuit, 1965.

51
seu interesse pelas relações ser humano-máquina, mais especifi­
camente por aquelas relativas «às máquinas que aprendem».
Tomando como exemplo máquinas programadas para jogar às
damas (estamos ainda longe do xadrez!), defende que as suas
capacidades analíticas e mnésicas lhes conferem uma personali­
dade, isto é, um estilo de jogo que lhes é próprio. Chega mesmo
ao ponto de comparar o potencial de avaliação e de aprendiza­
gem dessas máquinas com jogos de personalidade destinados a
enganar os seus adversários. Im porta dizer que, para Wiener,
a personalidade se confina à soma dos comportamentos adqui­
ridos. Assim, as «máquinas que aprendem tornam-se diferentes con­
soante a sua experiência»85. Wiener não só se recusa a ter em conta
a noção de interioridade subjectiva, visto que nós «não temos
nenhuma experiência interna da personalidade dos outros»,
como essa recusa o leva, paradoxalmente, a reconhecer uma
/, / individualidade própria da máquina86. Segundo ele, indepen­
dentemente do seu programa inicial, a máquina modifica a sua
personalidade ao sabor das suas experiências de jogo. Por via de
uma estranha inversão de sentido, esta concepção da personali­
dade conduz a uma «ontologização» da máquina. Isso é ates­
tado pela resposta ambígua de Wiener a uma interpelação sobre
o facto de uma máquina não ter consciência de si mesma por
não experimentar a dor, à qual retorque simplesmente: «Isso pode
não ser bem assim87...» Dando livre curso a todas as especula­
ções possíveis, esta frase sugere pelo menos, de forma muito
clara, que a individualidade subjectiva não é uma característica
própria do gênero humano, mas sim o resultado de um processo
comunicacional transferível para as máquinas.
Considerando a cibernética «um pensamento ao mesmo
tempo extremamente materialista e extremamente idealista», o
filósofo Maurice Merleau-Ponty percebeu bem a lógica de «onto­
logização» da máquina que lhe estava subjacente88. Nas suas

85 Ibid., p. 120.
86 Ibid., p. 121.
87 Ibid., p. 129.
88 Maurice Merleau-Ponty, La Nature. Notes de cours du Collège de France, Paris,
Seuil, 1995, p. 221.

52
notas de curso sobre A Natureza, o filósofo francês analisa a
forma como as máquinas cibernéticas, ao negarem a especifi­
cidade do ser vivo, se tom am o seu equivalente. Concebida e
fabricada pelo ser humano, a máquina destaca-se assim deste
para se impor como um novo estado natural: «O artifício é
negado e apresentado como uma natureza. É um retom o da
natureza, assim como há um retom o do recalcado em Freud89.»
A analogia cibernética entre o computador e o cérebro ilustra
bem este processo de «ontologização» da máquina. O desapa­
recimento das fronteiras entre o vivo e o não vivo, entre o ser
humano e a máquina, próprio do modelo informacional, trans­
parece claramente no discurso do cibernético M cCulloch, para
quem «os cérebros são máquinas de calcular, mas as máquinas
de calcular não são ainda cérebros»90.
Um dos melhores exemplos do desvio ontológico operado
pela cibernética continua a ser o famoso Homeostato do enge­
nheiro Ross Ashby, supostamente capaz de reproduzir artificial­
mente os mecanismos biológicos de adaptação activados por
um organism o vivo. A presentado e discutido por ocasião da
9.a conferência Macy, o Homeostato é concebido como a replicação
técnica de um organismo. Independentemente das flutuações
externas, o Homeostato assegura a sua auto-regulação graças à
modificação dos seus comportamentos internos. Operando a dois
níveis, esta máquina pressupõe, num primeiro nível, um modelo
determinista de co-evolução do organismo e do meio, e desen­
cadeia, num segundo nível, o acaso das flutuações internas uti­
lizadas pelo organismo para responder a uma transformação
excessiva do meio91. Assim, colocando o acento tônico sobre a
auto-regulação no processo de adaptação, Ashby abre caminho
à segunda cibernética e às teorias da auto-organização. Esta con­
sideração dos processos internos de auto-regulação contribui
para a «ontologização» da máquina, não retirando nada à lógica
de interdependência constitutiva do organismo no seu ambiente.

89 Ibid., p. 215.
90 McCulloch, Lettvins, Pitts, Dell, «Une comparaison entre les machines à
calculer et le cerveau», em Les Machines à calculer et la pensée humaine, Paris,
CNRS, 1953.
91 Ross Ashby, «UHoméostat», Les Machines à calculer et la pensée humaine, op. cit.

53
Nesse sentido, em How We Became Posthuman, a americana Kathe-
rine Hayles recorda que a importância dada por Ashby à questão
do equilíbrio interno do organismo não é estranha à experiência
da guerra, onde os soldados têm de enfrentar uma explosão sem
paralelo do seu ambiente92.
Rompendo com a tradicional dicotomia ser humano-má-
quina, Wiener propõe, nos anos 1950 e 1960, uma abordagem
«humano-mecânica» da sociedade. Muito antes dos discursos
sobre o ser pós-humano, milita a favor de uma modificação téc­
nica do corpo: «Modificámos tão radicalmente o nosso meio que
nos devemos modificar a nós próprios para viver à escala deste
novo ambiente93.» Quer se trate de substituir um membro am­
putado ou de calcular e processar informação, as máquinas inteli­
gentes são, para Wiener, próteses, prolongamentos de membros,
enxertos de instrumentos. Insistindo nos perigos potenciais desta
situação, Wiener considera a humanidade totalmente dependente
das suas próteses. Esta nova imbricação funcional entre o ser
humano e a máquina despoleta uma interdependência sistêmica,
na qual cada um exerce as suas determinações sobre o outro. Ver­
dadeiro mutante, o sujeito cibernético deve ajustar-se constante­
mente em função do sistema humano-mecânico no seio do qual
evolui. Atravessado de lado a lado por estas realidades circun­
dantes, adquire progressivamente as características do «homem
sem interior».
Da aproximação analógica entre o cérebro e o computador à
ideia de uma nova parceria social, a relação ser humano-máquina
constitui o ponto de ancoragem a partir do qual se vai desen­
volver o Renascimento informacional.

92 Katherine Hayles, How We Became Posthuman: Virtual Bodies in Cybemetics,


Literature and Informatics, Chicago/Londres, The University of Chicago Press,
1999, pp. 66-67.
93 Norbert Wiener, Cybemétique et société, op. cit., p. 56.

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