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Nestor Pinheiro

Conta outro!

Primeira edição

São Paulo
2020
À Dona Graça e a seu Nestor que sempre me ensinaram
como ouvir e como lidar com as histórias que a vida ensina...
“não sei, só sei que foi assim”
Chicó
– O auto da Compadecida -
SUMÁRIO

Apresentação 09
Ler 11
Adilson: o bancário 17
E se... 26
Ou pior 32
A lotação de seu Mané 38
A Mar... 45
O maior Leitor do mundo 54
Trágico ou Cômico? 67
Conversa de menino 71
Um pedaço? 74
Zé brincalhão 82
Receita de família 87
Ninguém é de ferro 93
Amém! 98
Estranho 108
Apresentação

O ato de ler recebe tratamento muito diversificado


por parte dos jovens. Alguns, declaradamente, amam a
leitura e passam horas e horas envolvidos nessa atividade. Já
outros, apesar de investir boa parte de seu tempo
decodificando as mensagens das redes sociais ou de
aplicativos de mensagens instantâneas, afirmam
categoricamente que não gostam de ler. Seja em qual
“grupo” você se encaixe, este livro foi pensado para você!
Os textos foram organizados para proporcionar uma
experiência agradável de leitura. A nossa intenção foi a de
criar histórias que envolvessem o público leitor, trazendo
uma linguagem clara e assuntos diversos. Estruturados em
pequenos contos, a ideia que possibilitou a criação deste
livro é a de que os leitores sintam-se à vontade para ler uma
história por dia (ou mais, como queiram!). O tipo de letra e o
espaçamento também foram pensados para possibilitar um
maior “conforto” para aqueles que ainda não estão
habituados à leitura, ficando este livro, ainda mais acessível
Conta outro

àqueles que já conseguem obter prazer no contato com


textos.
Destacamos ainda o fato de que os contos (que
permeiam toda a nossa vida) são sempre objeto de
interação entre as pessoas. Contamos histórias para
informar, para entreter e, não raro, para divertir. Esperamos
que a leitura deste livro possa ser tão agradável quanto uma
comida predileta, uma conversa entre amigos, uma música
preferida... O que essas três coisas têm em comum com esse
livro? O nosso desejo de que você possa tirar um tempo pra
si e aproveitá-lo ao máximo. Que você possa sentir prazer
em cada história e que amplie seu contato com esta parte
importante da construção de nossa identidade cultural que é
representada pelo ato de ler.
Boa leitura!

O autor.

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Conta outro

Ler

Nunca gostei muito de ler. Na verdade, ninguém


nunca havia me ensinado os benefícios da leitura. Certa vez,
já na faculdade e precisando dominar essa técnica, tão
essencial aos estudos, questionei um professor. Ele explicou
que leitura é hábito. Tem-se que ler todos os dias. Tem-se
que ler de tudo!
Tracei, então, um plano para organizar meu mundo
de leitor. Eu sempre achei muito elegante as pessoas que
pegavam um livro “tipo Bíblia” e conseguiam lê-lo todo.
Certa vez, eu fui ao parquinho de patinação no gelo num
shopping e a moça que me vendeu os ingressos estava muito
concentrada, lendo um livro desses... enormes. Não
consegui patinar direito. Na verdade, eu ficava olhando para
ela porque eu desconfiava que ela não estava lendo, aquilo
deveria ser só pose para impressionar alguém. Sem que ela
notasse, passei os meus quarenta minutos a observá-la. E
não é que a danada da atendente não tirou os olhos do

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papel uma única vez! Ela lia e lia, passava a página e não
estava nem aí para o movimento que acontecia ao seu
redor. Por vezes eu até acho que vi um leve riso em seus
lábios, deveria ser algum momento especial da história...
Fui a casa naquele dia, determinado a iniciar minha
jornada como leitor proficiente. Eu já lera algumas coisas,
claro, mas nada com a paixão ou determinação que havia
visto naquela atendente. Apesar de já estar na faculdade eu
ainda escolhia os livros pelo número de páginas que eles
possuíam...
Comecei a pôr em prática o meu plano disciplinar de
auto instruir-me a mim mesmo! Todos os dias eu lia um
capítulo de um livro. Às vezes chegava tarde, entrava em
casa cansado e pensava em nem pegar nos livros, mas aí
vinha a imagem da atendente e do sorriso que ela esboçava,
eu também queria passar por aquela experiência! Segui meu
plano com determinação. Por vezes, passava pela minha
cabeça a vontade de não ler mais nada. Naqueles dias, eu
até duplicava a quantidade de páginas que tinha para ler, só
para que tais pensamentos me abandonassem.

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Finalmente, depois de algum tempo, passei a me


habituar com a leitura e também passei a realizar esta
prática em diversos lugares: na fila do médico, no ônibus,
durante alguma refeição, na praia, durante as férias etc. Eu
nem percebi que estava criada em mim uma prática de
leitura. Na minha cabeça estava ainda a informação que eu
precisava ler até me tornar um mestre universal,
transcendental, interestelar na arte de ler. A ficha só caiu
quando escutei de alguém, pela primeira vez, a frase: “Você
só faz ler?!”. O que soaria como uma possível crítica chegou
aos meus ouvidos como um elogio. Outras frases foram
aparecendo, tais como “Ainda, lendo?” ou “Deixa esse livro
aí e vai fazer alguma coisa!”. Eu ia ficando mais feliz ao
escutar cada uma delas.
Com o tempo (que foi breve) passei a ler grandes
livros, explico: quando eu digo grande estou me referindo
aos volumes volumosos com 500 páginas ou mais. Eu estava
satisfeito com o leitor que estava me tornando e a atividade
de leitura deixou de ser um esforço. Depois de um tempo eu
já lia de tudo: revistas, jornais, livros, pesquisas etc. Passei a

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perceber que ler era um hábito que já estava incorporado às


minhas atitudes diárias.
Com o benefício da satisfação pessoal também recebi
outras habilidades de brinde. Passei a ficar mais atento às
conversas, não acreditava mais em qualquer coisa que me
falavam, passei até a desconfiar de algumas notícias que via
na televisão. Tudo isso foi transformando-me em uma
pessoa mais centrada, mais, por que não dizer, inteligente!
Certo dia minha família resolveu passar uma
temporada no sítio. Inicialmente não os acompanhei, mas,
depois de passados alguns dias, resolvi juntar-me a eles.
Devido a um problema de comunicação não levei nada para
ler porque haviam me dito que lá no sítio existiam vários
livros antigos. Cheguei e logo descobri que os livros tinham
sido doados já há algum tempo: “Eu disse que tinha, não que
tem!”, foi a resposta que recebi, em tom irônico, quando
perguntei sobre os referidos volumes.
Passei o dia realizando algumas atividades. Colhi
fruta do pé. Brinquei com os animais, passeei pela mata,
mas estava com uma sensação de vazio, faltava-me algo.

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Claro que faltava, havia muito que eu não passava um dia


inteirinho sem ler nada!
À noite eu estava nervoso, queria ler alguma coisa,
por menor que fosse. Procurei por jornais ou revistas velhas,
nada. Não havia, na casa do sítio, nenhum panfleto, folder
ou até mesmo aquelas revistas de propaganda... nada, nada,
nada. Desconsolado, fui dormir. E quem disse que eu
consegui? Ficava pensando, a cabeça a mil. Não havia se
passado um dia sequer, desde que iniciei meu contato mais
íntimo com a leitura, que eu tivesse ficado sem ler. Remexi-
me na cama, virava de um lado para o outro, não achava
posição confortável para dormir... eu simplesmente não
dormia, o sono não chegava!
Fui até a cozinha para ver se eu encontrava em uma
embalagem de arroz ou de cuscuz, para poder ler, ao menos,
o modo de preparo ou as dicas de receita. Não tive sorte.
Haviam jogado todas as embalagens fora e os produtos
jaziam dentro de potes de vidros transparentes.
Voltei à cama. Desconsolado, sentindo falta de um
pedaço de mim que nunca existira... cheguei mesmo a suar.

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Já tinha perdido a esperança de conseguir pregar o


olho naquela noite infeliz, foi quando uma ideia veio à
cabeça e, muito rapidamente, como um viciado procura um
entorpecente, eu puxei a etiqueta do travesseiro onde pude
ler, extasiado: “100% poliéster”!
Dormi a noite inteira, tranquilo como um bebê!

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Adilson: o bancário

Adilson era um rapaz alegre, irreverente e muito


trabalhador. Desde cedo foi acostumado a trabalhar em
todo tipo de atividade. Já tinha trabalhado na feira livre, em
buffets, na cozinha de várias empresas etc. Agora ele
acabara de ser contratado por uma cantina que funcionava
dentro da agência do Banco do Brasil.
A cantina atendia os funcionários do banco além de
clientes que lá chegavam. Ficava localizada no quinto andar
do prédio, por isso, nem todos sabiam da existência de tal
empresa funcionando dentro da agência bancária.
Adilson atendia os bancários pela manhã, geralmente
fornecendo-lhes o desjejum, lanches no período da tarde e,
no final do expediente (lá pelas cinco horas) vinha do quinto
andar empurrando um carrinho com guloseimas, salgados,
sucos e refrigerantes para reforçar a alimentação dos
funcionários que ainda não haviam concluído seu
expediente. Ele ia de andar em andar, percorrendo-os

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sempre de maneira alternada. E, dessa forma, Adilson tinha


direito ao seu merecido salário.
Certa vez Adilson enamorou-se de uma moça.
Entendia que deveria ser sua a responsabilidade de falar
com a família da namorada para que o relacionamento fosse
autorizado. Combinou com sua amada e no dia e hora
marcada estava à porta pontualmente, para falar com o pai
dela:
— Boa noite! — Falou Adilson ao entrar.
— Boa. — Respondeu uma voz grave e sem nenhuma
simpatia que mais se assemelhava a um trovão. Era o pai da
menina.
Depois de realizadas as devidas apresentações,
Adilson explicou o motivo de estar ali e pediu o
consentimento do pai para frequentar aquela casa e,
evidentemente, estabelecer uma relação de namoro com a
única filha daquele casal. Depois de ouvir atentamente a fala
de Adilson, o pai passou alguns minutos ponderando... tinha
gostado do rapaz, mas não podia demonstrar isso, afinal de
contas, nos tempos de hoje, é difícil aparecer algum

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namorado que respeite as tradições e se importe com o que


a família pensa.
— Você trabalha?
— Trabalho sim, senhor!
— E trabalha onde?
— Trabalho no Banco do Brasil. — Exclamou Adilson,
enchendo a boca para falar na tentativa de ganhar a
confiança do futuro sogro, afinal, trabalhar em um banco dá
certa posição de status, ao menos era o que via no rosto de
todos quando dizia aquela frase. Adilson achou por bem,
para não complicar a situação e para ganhar ainda mais a
confiança do pai da moça, omitir que seu empregador era o
dono da cantina e não o presidente do banco.
— No Banco do Brasil?! – Perguntou já sem tanta
imposição na voz, o pai da moça.
— Sim, senhor!
— E como eu nunca vi você por lá? — Essa frase
pegou Adilson de Surpresa. — Eu tenho uma conta corrente
lá, não raro, vou resolver questões financeiras, mas não me
lembro de ter visto você por lá. Um rapaz novo assim,

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certamente se destacaria dentre os funcionários já velhos do


banco, certamente eu me lembraria de você.
Adilson, tentando pensar rápido para sair da
enrascada em que se metera e tentando não minar a
possível confiança do pai da menina, respondeu:
— É que eu trabalho lá dentro, nos computadores. —
E para confirmar seu álibi, Adilson foi dizendo o nome de
alguns funcionários, o andar em que trabalhavam e a função
que desempenhavam, informações que sabia de cor.
Ao final da conversa o pai da moça era outra pessoa.
Não havia dúvidas que Adilson trabalhava no banco. Ele
tinha conseguido seguir o protocolo de maneira impecável e
como prêmio, obteve a bênção para namorar.
Adilson passou a frequentar aquela casa e, por vezes,
fazia até algum serviço bancário para o sogro, como fazer
um depósito ou pagar alguma conta, atividades que Adilson
realizava ao falar com os funcionários a quem vendia lanches
explicando que era para o sogro e obtendo sempre a ajuda
de um ou outro bancário. Tais serviços eram de benefício
mútuo, porque o pai da moça evitava filas, atrasos e

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inconvenientes normais advindos de quem faz esse tipo de


serviço, ao mesmo tempo em que Adilson garantia que seu
segredo não fosse descoberto, pois o pai da moça poderia
perguntar a algum funcionário sobre ele e aí estaria tudo
perdido. Posteriormente Adilson acharia uma maneira de
resolver o mal-entendido e tudo se acertaria.
Depois de algum tempo aconteceu uma greve no
banco. A agência permanecia fechada para atendimento ao
público em geral, apesar de os funcionários estarem indo
cumprir expediente e atenderem a alguns clientes em casos
extremos. Mesmo assim Adilson conseguia realizar os
favores para o sogro. Ninguém tinha dúvidas de que o rapaz
trabalhasse mesmo no banco, quem mais conseguiria
realizar pagamentos em tempos de greve bancária? A família
da moça tinha orgulho de ter um bancário, praticamente na
família e o sogro de Adilson sentia-se orgulhoso porque sua
filha arranjara um bom namorado, respeitador, humilde... e
bancário!
Com o fim da greve na reabertura das agências as
filas ficaram gigantescas, como normalmente acontece

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depois desses períodos. O sogro de Adilson precisava pegar


um cartão de crédito e nem pensou em pedir esse favor ao
genro porque sabia que a agência só liberaria o cartão
mediante a comprovação da assinatura do titular da conta e
com o cadastro da nova senha. Resolveu ir à agência
naquele mesmo dia. Traçou então o plano de chegar
faltando apenas dez minutos para o fechamento da agência
porque poderia solucionar seu problema e, quem sabe, daria
a sorte de sair de lá com o genro bancário. Ele queria mesmo
um tempo a sós com Adilson e pensou que essa fosse uma
boa oportunidade. Estava pensando em adiantar que, caso
Adilson quisesse dar o próximo passo na relação com sua
filha, ele assim o consentiria.
Ao entrar na agência o pai da moça não ficou
procurando Adilson, nem tentou falar com ninguém sobre
ele, pois sabia que trabalhar nos computadores do Banco do
Brasil deveria ser uma tarefa que não poderia ser
interrompida, ainda que fosse para falar com o sogro. A fila
estava enorme e o pai da moça percebeu que demoraria um
bom tempo ali. Na verdade, era a primeira vez que não se

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importava com a demora da fila, vai que Adilson passasse


por trás dos caixas ou em algum daqueles setores. Se isso
acontecesse, ele certamente acenaria para o genro e
sinalizaria que queria falar-lhe. Adilson poderia passar com
os relatórios dos clientes, com as últimas atualizações sobre
a bolsa de valores ou ainda, com as metas trimestrais,
periódicas para cada setor.
A fila realmente não andava. O calor estava
começando a incomodar. Passaram-se duas horas, quase
três. Nada de Adilson. Trabalhar nos computadores deve ser
muito estressante, o coitado não tem tempo nem de ir aos
setores. Talvez ele delegue funções. Talvez ele peça, peça
não, mande! Talvez ele mande um daqueles office-boys,
entregar os relatórios por ele ou mesmo um funcionário
novato no banco. Claro, certamente é isso. Quem trabalha
nos computadores do Banco do Brasil certamente não pode
se ausentar da sala, não pode deixar de acompanhar a
oscilação das taxas e das suas previsões. Ainda mais em
tempos como aqueles, em que a agência estava
extremamente movimentada.

[ 23 ]

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Passaram-se quase quatro horas quando,


repentinamente, o sogro avistou Adilson. Ele estava de
avental, chapeuzinho branco na cabeça. Carregava dois
baldes de água e tinha uma espécie de flanela pendurada ao
ombro. O sogro quase não acreditou no que viu. Saiu da fila
peremptoriamente e foi ao encontro de Adilson que não o
tinha visto. Bateu no ombro do genro e pediu por uma
explicação para aquela cena:
— Adilson, você não disse que trabalhava nos
computadores do Banco do Brasil?
— Disse, sim... — Respondeu Adilson espantado,
morto de vergonha e de surpresa. Não teve tempo de
pensar, apenas confirmou, com essas duas palavras e com
um impulso involuntário, a história que contara antes.
— E para que é que são esses dois baldes de água?
Adilson, que àquela altura não conseguia lembrar
nem o próprio nome, tomado por uma paralisia geral, queria
apenas sumir dali, nem sequer pensou no que dizer e
quando percebeu, sua boca descarregou sem qualquer sinal
de lógica:

[ 24 ]

Nestor Pinheiro
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— É que devido a todo esse movimento os


computadores sobrecarregaram e estão pegando fogo, eu
vim buscar água para apagar... — Disse Adilson que disparou
na carreira para apagar o incêndio que ele mesmo criara.

[ 25 ]

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E se...

Ele era uma pessoa obediente desde pequeno. Bom


filho, bom amigo, bom aluno. Estudava para dar orgulho a
seus familiares, embora não fosse o melhor aluno das séries
que cursou. Estava, digamos, na média. Gostava de coisas
que todos os garotos gostavam: de brincar na rua, de tomar
banho de chuva, de um bom jogo de videogame. Era
elogiado por seu comportamento calmo, voz moderada e
tratamento respeitoso. Várias vezes, ao ir com sua família
fazer visita a amigos, comportava-se como um gentleman.
Enquanto crescia adquirira hábitos da sua família:
frequentar a igreja, fazer caridade, pensar num bom
emprego para o futuro etc. Depois da adolescência entrou
em seu primeiro relacionamento sério: namoro. Foi até à
casa da namorada e pediu, formalmente para namorá-la.
Diante de tanta polidez, a resposta foi positiva. Até porque
sua fama o precedia. Era o genro ideal. Rapaz respeitador,
de boa família, com práticas religiosas e trabalho estável.

[ 26 ]

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Conta outro

Arranjara, como primeiro emprego, um estágio remunerado


no tribunal eleitoral de sua cidade.
Ao passar pela juventude e entrar na idade adulta
percebera que nem tudo era tão simples como lhes
pregavam nos sermões dominicais. As pessoas eram
estranhas. Não havia tanta bondade nelas! Não havia o
desejo de ser melhor (que ele nutria dentro de si desde
quando se entendera por gente!), não havia mais
compaixão. Percebeu que a vida era muito mais uma selva
do “salve-se quem puder”. Até em sua família as coisas
estavam mudadas. Percebeu a distância dos parentes, o fato
de que pouquíssimos deles ligavam para suas opiniões e
conselhos e era, por vezes, excluído de fatos ocorridos no
seio familiar. Resolveu não ligar, afinal, ninguém é santo!
Surpreendeu-se vendo pessoas com quem tinha bons
relacionamentos há muito tempo desapontá-lo. Ele
realmente ligava para aquilo. Sabia que provocava raiva em
alguns, geralmente por bobagens, e pedia perdão por aquilo
– mesmo que os relacionamentos nunca mais fossem os
mesmos!

[ 27 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Trabalhou em várias empresas, obteve várias


experiências profissionais, amorosas, ajudou a tantos
quantos pôde. Também teve sua cota de falhas, afinal, não
era perfeito. Começou a analisar que, ao seu redor, o
dinheiro falava mais alto que qualquer outro valor ou
conceito. Decepcionou-se com a política (incontáveis vezes)
e com os políticos (todas as vezes).
Aprendeu a dizer não com frequência. Começou a
olhar só para si. Duvidava agora, de tudo que tinha
aprendido até então. E se não houvesse céu? E se o paraíso
fosse mais uma história da carochinha para manter os
submissos submissos? E se tudo o que aprendera foi para
sua doutrinação, fora do pensamento lógico e da razão?
Via todos os dias notícias de desastres, violências,
corrupções, injustiças. Rezava, e muito (pois foi isso que lhe
ensinaram), por uma luz, uma salvação para os coitados, os
pobres e as crianças, para os flagelados das guerras e para
que os que detêm o poder obtivessem coragem de fazer
mudanças benéficas para a população.

[ 28 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Ficou rouco de tanto rezar, triste de ver que as


mudanças (quando ocorriam) eram para pior. Passou a
beber (não enchia a cara, nem perdia a razão, mas o álcool já
não lhe amargava tanto o paladar, não mais que os próprios
sentimentos).
Por vezes pensou em ser político, orador,
revolucionário. Mas quem o ouviria? Quem depositaria
confiança nele? Já não acreditava mais em si.
Passou a perceber que o mundo era dos mais
espertos. Começou a mentir. Teve várias namoradas ao
mesmo tempo. Pegava o que queria, não importasse o
custo. Divertiu-se infinitamente mais. Estava convencido de
que suas reflexões do tempo pueril estavam caducas. Agora
ele havia encontrado o verdadeiro mundo e conseguiu, por
fim, firmar-se nele.
Não teve pudores ao passar por cima de colegas no
trabalho, desde que isso o engrandecesse. Passou a falar
mais e fazer menos. Começou a entender a política da vida
cotidiana e o jogo em vigor necessário para firmar-se nela.
Estava jogando conforme o que foi imposto pela sociedade.

[ 29 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Várias vezes surpreendia-se refletindo sobre o pós-


morte. E se houvesse céu? E se houvesse punição? E se
houvesse recompensa para bons atos? Mas imediatamente
lembrava-se de tanta morte, tanta destruição
aparentemente para benefício de uns poucos que, como
sempre, detinham o poder. Estava resolvido! Não seria ele
mais um alienado. Viveria no mundo real! E assim seguiu!
Mentiu, desrespeitou, ignorou... tudo o que lhe era
conveniente fazer... fazia! Sem pensar em consequências.
Fazia tudo por si e para si. Percebeu que a vida não ficara
mais colorida, mas era valorizada a cada embate que
ganhava. Quando perdia apelava para a ignorância, era
arrogante e grosseiro. Vivia como se não houvesse amanhã.
As únicas coisas que importavam era o próprio ego e a sua
tentativa louca de significar a própria existência.
Certo dia, lá pelos tantos anos, morreu. Permaneceu
imóvel. Percebeu que a vida se esvaia dele e sentiu o
coração acelerar como numa corrida. Repentinamente foi se
acalmando, tranquilizando... A única ação que desejava era a
de fechar os olhos. Sentia-se desacelerar. Estava cansado.

[ 30 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Estava triste. Estava na hora! Seu coração desacelerou,


desacelerou, de-sa-ce-le-rou... Sentia-se cada vez mais fraco,
impotente. Toda a determinação com que vivera seus anos
de ímpeto parecia dissolver-se. Estava quieto. Silencioso.
Tudo parava. Pronto! Terminou!
Repentinamente ele abriu os olhos. Viu tudo como
realmente era. Estava diferente. Percebeu que vivera
enganado quando uma voz sussurrou-lhe ao ouvido: “Filho,
você chegou! Vamos conversar?!”.

[ 31 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Ou pior

— Sai desse vídeo game, menino!!! Você só sabe


fazer isso o dia todo! Vai arrumar algo pra fazer, vai!
— Tá bem, mãe posso ir brincar?
— Claro, vá pegar seus brinquedos!
— Brinquedos? Eu quero é ir brincar na casa do
Eduardo.
— Que é isso menino, você está doido? Com essa
violência toda aí fora você quer sair?
— Mas ele é meu amigo e mora só a duas ruas daqui!
— E o que isso importa? E se vier um carro
desgovernado, um ladrão? Ou pior... um sequestrador!
— Mas mãe, você disse pra eu ir fazer outra coisa!
— Mas não pode sair, faz outra coisa aqui em casa!
— Tá bem, mãe...

...

— Filho, você está fazendo o que aí na garagem?

[ 32 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Estou brincando de construção!!!


— Com as ferramentas do seu pai?
— É... e com o que mais vou brincar de construção?
— Menino danado, sai já daí... eita menino atrevido,
meu Deus!!! Você quer me matar do coração. E se um
martelo cair no seu dedo, lembra-se da última vez? E se você
estiver com uma chave de fenda e furar o olho? Sem falar
que não quero nem pensar em você mexendo em fita
isolante ou pior... na chave de testes de energia...
— E o que eu vou fazer, então?
— Vá pro seu quarto!!! Agora!!!
— Tá bem, mãe!
— E vê se vai brincar de alguma coisa boa,
interessante! Mas só me faltava essa, esse menino não me
deixa fazer as coisas, tenho que ficar de olho nele o tempo
todo... minha nossa, o feijão...

...

— Mas o que é isso, rapaz? Saia já daí!

[ 33 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Mas... mãe, estou brincando de ninja. Psiiiuuu....


Fala baixo que eu estou aqui para pegar os monstros de
surpresa!
— Surpresa? Surpresa você vai ter quando eu
esquentar teu couro! Onde já se viu? Brincar embaixo da
cama? Saia já daí! Você pode pegar uma alergia com a
poeira, ou um resfriado com esse chão gelado, ou ainda
pior... pode morrer asfixiado embaixo dessa cama.
— Asfi... o quê?
— Ah, menino maluvido... eu não vou falar
novamente... saia agora!
— Tá bem, mãe! Mas a pessoa não pode brincar de
nada que a senhora estraga... ôr!
— Estraga? Estrago é o que eu vou fazer se você
demorar mais um minuto aí embaixo dessa cama, eu já falei
e não pretendo repetir... passe... desapareça daí.... agora!
Deixa eu terminar de fazer esse almoço em paz. Você parece
que quer me matar do coração!

...

[ 34 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Mas que demora é essa nesse banheiro, filho?


— Estou brincando de mergulhador!!!
— De quê???!!!
— Mergulhador, mãe! Aqui, ó.... o chuveiro é o
oceano! Eu sou o mergulhador-explorador-navegador!
— Eita menino virado! Você acha que eu trabalho na
compesa, é? Fecha logo esse chuveiro. E isso é lá
brincadeira? E se a caixa secar? E se você pegar um
resfriado? Ou pior... e se você escorregar, bater a cabeça e
abrir um buraco do tamanho de uma melancia? O que eu
vou fazer?
— Mas mãe...
— Mas, nada! Saia logo daí. E vá se enxugar bem
rapidinho... olha pra isso, esses dedos todos enrugados...
bem que eu desconfiei, você estava quieto demais.... vá
colocar uma roupa... agora!
— Tá, mãe! Estou indo!

...

[ 35 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Mas que bagunça é essa? O que você está


aprontando com essas roupas todas espalhadas?
— Estou brincando de agente secreto. Eu sou espião
e estou me disfarçando... é uma missão impossível.
— Ah, menino, impossível é você! Você já viu a
bagunça que está fazendo aqui?! E se você rasgar uma
dessas roupas? E se ficar suando e deixar tudo fedendo? Ou
pior... e se pegar aquelas roupas lá do fundo com cheiro de
guardado e ficar espirrando o tempo todo? Eita, meu Deus,
dai-me paciência.
— Mãe...
— Mãe nada, passe já pra sala! Agora!!!

...

— Você está fazendo o que aí na sala, filho?


— Nada, mãe!

...

[ 36 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Você está fazendo o que aí na sala, filho?


— Nada, mãe!
— Como assim nada?
— Nada, estou quieto como a senhora mandou.
— Muito bem!

...

— Filho, vem cá!!!


— Senhora?
— Porque você está tão triste?
— ?!
— Tá bem, vá jogar vídeo game, mas só até a janta,
depois você vai arrumar outra coisa pra fazer!

[ 37 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

A lotação de seu Mané

O senhor Manoel era um homem do interior. Ele foi


tentar a vida na cidade grande e depois de estabelecido e
com alguma economia guardada, retornou ao vilarejo onde
morava. Comprou uma casa e um carro. Na realidade o carro
fora adquirido com a intenção de realizar transportes de
passageiros.
Naquele vilarejo o único meio de transporte
existente era um micro-ônibus que dava apenas duas
viagens por dia. Uma pela manhã, para levar as pessoas à
cidade mais próxima. Outra no fim da tarde, para trazer de
volta os mesmos trabalhadores ao vilarejo. A maioria do
público era composta por trabalhadores do comércio e
aposentados a fim de receber suas aposentadorias. Este fato
gerava tanta inconveniência para o resto da população que,
geralmente, os demais moradores saiam do vilarejo apenas
uma vez por mês, geralmente para pagar as contas ou

[ 38 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

realizar procedimentos médicos e as crianças só iam “pra


cidade” uma ou duas vezes no ano, quando havia festa.
Quando alguém ia tratar da saúde, geralmente não
sentia muitas dificuldades quanto ao tempo de espera para
poder retornar, uma vez que o sistema público de saúde é
famoso por sua lentidão. Um fato que chegava inclusive a
ser estranho, à população em geral, era o de que as pessoas
que moravam naquele vilarejo eram as únicas a esboçarem
um sorriso quando, nos hospitais e consultórios médicos, era
anunciado que o médico iria atrasar. “Ainda bem — só assim
não terei que esperar muito pra voltar pra casa ao sair da
consulta” — dizia sempre alguém daquela vila.
Os aposentados daquele lugar não se dirigiam às filas
de atendimento preferencial, todos preferiam, inclusive,
entrar nas filas mais longas, puxar conversa com alguém etc.
Geralmente quem se propunha a realizar a “viagem” levava
consigo também listas de compras ou encomendas de outras
pessoas do vilarejo. Todos faziam isso com muito prazer,
uma vez que não era conveniente terminar rapidamente os
afazeres na cidade. Com tudo isso, não era raro alguém

[ 39 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

terminar seus afazeres e, não tendo mais nada para resolver,


retornar ao ponto de ônibus duas ou três horas antes do
horário de retorno previsto.
A chegada de outra possibilidade de transporte
naquele vilarejo animou a todos – era a lotação de seu
Mané. No início seu Mané dava uma viagem por dia, com
horários predefinidos e intermediários aos horários do
micro-ônibus. Mas logo ampliou sua jornada de trabalho.
Seu Mané percebeu que muitas pessoas seriam beneficiadas
com um horário de saída mais cedo que o costumeiro. Dessa
maneira instituiu seu horário: três viagens nos dias de feira,
duas, nos dias de festa e uma viagem por dia nos dias de
semana. De pouco em pouco, seu Mané passou também a
fazer compras em nome dos moradores, a enviar recados e
trazer encomendas, cobrando, para isso o preço normal de
uma passagem.
Em seu trajeto seu Mané parava o carro a qualquer
um que desse sinal. Descia, ajudava as pessoas idosas a
subirem no veículo, ajudava os menos fortes a depositarem
seus sacos e trecos na carroceria do carro e partia.

[ 40 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Transportava de tudo: sacos de ração, farelo, compras de


mercado, medicamentos, tecidos, móveis, eletrodomésticos,
brinquedos, galinhas, porcos, tijolos etc.
Certo dia, uma manhã nublada, seu Mané recebeu
uma triste incumbência: trazer da cidade um caixão para o
enterro de alguém em um sítio próximo ao vilarejo onde
morava. Como os procedimentos para a compra do caixão
eram complicados, em especial por questões de pouco
dinheiro e do estado de nervos em que se encontravam os
membros da família, foram com ele, três amigos da família
do morto dispostos a resolver a burocracia necessária.
Depois de tudo resolvido, no caminho de volta para
casa, foi só o seu Mané entrar na estrada de terra que já
apareceu um passageiro dando sinal de parada com a mão.
Seu Mané parou o carro, desceu e explicou ao possível
passageiro que a cabine estava cheia (com mais duas
senhoras para a volta) e que se ele não se incomodasse,
teria que ir na carroceria. O passageiro, imediatamente, deu
um pulo para cima do carro e fez sinal para que a viagem
reiniciasse.

[ 41 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Passados uns cinco minutos, iniciou-se uma chuva


pesada, silenciante, similar às lágrimas derramadas pelos
familiares do morto. O passageiro em cima da carroceria não
teve alternativa senão entrar dentro do caixão para se
abrigar do dilúvio. Acontece que, devido ao barulho intenso
da chuva, com o sacolejar do carro e com o cansaço da
caminhada que já havia feito a pé, o passageiro caiu num
sono profundo. Com algum tempo a chuva diminuiu...
depois cessou.
Mais à frente havia um grupo de garotos que iam
disputar um campeonato de futebol, foi só eles ouvirem o
barulho do motor do carro de seu Mané e já sinalizaram
parada. Seu Mané não achou necessário descer do carro e
explicar tudo novamente, uma vez que já havia na carroceria
um passageiro que poderia transmitir aos demais as
informações relativas à carga. Os meninos, que rapidamente
subiram na carroceria, acharam estranho o caixão ali
depositado. Fizeram um sinal da cruz como forma de
respeito e bateram na carroceria avisando para a viagem
prosseguir.

[ 42 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Na curva seguinte, e já mais próximo do vilarejo, um


grupo de pessoas que se dirigiam à vila e tentava se
antecipar a outra chuvarada pediram parada. Seu Mané,
como de costume, parou o carro e todos subiram.
Espantaram-se com o caixão e se apertaram dos lados da
carroceria, também fizeram o sinal da cruz de maneira
respeitosa e mais uma vez alguém bateu na lateral do carro
indicando que a viagem poderia prosseguir.
Na carroceria iam todos bastante quietos, todos
calados, como forma de reverência ao ser que deixara essa
vida... Uma espécie de velório em movimento, sonorizado
apenas pelos estalos da carroceria e pelo barulho produzido
pelo contato dos pneus com a lama por onde o carro
passava.
Acontece que num determinado momento o carro
passou por um buraco na estrada e o solavanco fez com que
o primeiro passageiro despertasse do sono. Assim que abriu
os olhos lembrou que estava dentro do caixão para abrigar-
se da chuva. Escutou quando alguém tossiu e percebeu que
não estava só. Depois disso o relato que será feito ocorreu

[ 43 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

quase ao mesmo tempo: ao abrir a tampa do caixão, o


passageiro, para ser simpático, foi perguntando “A chuva já
passou?!”, ao que nesse momento, enquanto removia a
tampa do caixão, falava e erguia-se para ficar sentado
percebeu várias pessoas a sua volta. Havia, naquela hora,
gente tremendo, gritando, desmaiando, pulando do carro
em movimento, jogando-se para tudo que é direção. Gritos
de “Vala-me Deus!”, “Acuda, nosso Senhor!”, “Virgem
Maria!”, “Credo em cruz!”, foram ouvidos e seu Mané pôde
contemplar, enquanto parava o carro, uma verdadeira
cachoeira de gente esborrando pelas laterais do veículo.
Sem entender o que houve, Seu Mané ao se dirigir à
carroceria, viu algumas pessoas em desabalada carreira, uns
já subiam a serra, outros iam de terreno a dentro depois de
misteriosamente terem pulado uma cerca que era
relativamente alta e cheia de arames farpados, apenas o
primeiro passageiro estava na carroceria do carro, sentado,
a tampa do caixão aberta, os olhos estreitados pela
claridade e um sorriso amarelo na face.

[ 44 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

A Mar...

João havia acabado de chegar da escola. Como


sempre, largara a bolsa em qualquer lugar e corria para o
computador para navegar. Durante sua navegação, resolveu
cadastrar-se no site furunfunfar.com, um site de
relacionamentos virtuais. A proposta do site era de que as
pessoas usassem pseudônimos e trocassem mensagens
entre si, por, no mínimo dois meses. Dependendo da
frequência das conversas, havia uma barra de progresso
que, ao fim dos dois meses indicaria que o casal estava
pronto para se encontrar pessoalmente.
Adolescente, com 18 anos, João estava na última
série do Ensino Médio. Ainda não sabia que carreira
escolheria. Morava com o pai e, por ser “adulto” tinha
liberdade para fazer o que quisesse. “Só não me apareça
aqui com uma moça grávida nem com drogas” – dizia-lhe o
pai. Nenhum dos dois se via muito, devido à profissão do
pai: era caminhoneiro. Na verdade, depois de longas

[ 45 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

viagens, o pai adorava dormir em sua cama e, às vezes, saia


com João para comer uma pizza. No dia a dia, quando
estavam juntos, nenhum interferia nos afazeres do outro.
João havia recebido várias propostas de contato pelo
site. Ele nunca entendera bem os pseudônimos escolhidos
pelas mulheres: Maria biscoito, Susu 3456, Helena jujubinha,
Garota 467, Claudia ferradura, Karla Paula, Joana de
groselha, entre outros. Ele se intitulou viajante solitário e,
apesar de fazer algum tempo que estava cadastrado no site,
nunca havia conversado com ninguém. Ele olhava os nomes
e as fotos (que não eram das pessoas, mas sim de coisas das
quais elas gostavam – política do site) e via xícaras de cafés,
computadores, praias, pores do sol, montanhas, dinheiro,
videogames etc. Talvez por isso até recusara alguns convites
que havia recebido. A imagem que escolhera para seu perfil
era a de uma estrada - que ele também não achava grande
coisa – mas se tinha que escolher alguma, então escolhera
aquela.
Repentinamente soou um bip no computador e a
mensagem “clique aqui e veja as novas usuárias” apareceu.

[ 46 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Ao clicar, depois de navegar por vários perfis dando


risada dos nomes e das fotos que encontrava, percebeu um
perfil diferente. O pseudônimo da pessoa era Mar, assim
mesmo, sem complemento ou apelidozinho no diminutivo. A
foto no perfil de Mar era um mosaico com as fases da lua.
João então resolveu digitar algumas letras, um simples “olá”.
No mesmo instante, Mar respondeu de volta: “Puxa, que
rápido, acabei de me cadastrar e já tenho você querendo
conversar comigo, legal!”. Os dois conversaram bastante
sobre um monte de coisas, apesar de nenhum ter revelado
nenhuma informação pessoal relevante.
E assim ele mudou sua rotina em casa. Estava mesmo
gostando da conversa com essa pessoa misteriosa. Sabia
pouco sobre ela, mas já supunha muito, sabia que ela
gostava de lidar com pessoas, que era ativa, possuía boa
instrução (isso ele notou pelo uso do vocabulário), morava
só e já tinha emprego. Ele também deixou escapar algumas
informações, nada muito sério: disse que morava com o pai
caminhoneiro, que adorava resolver enigmas, gostava de
rock e de filmes com Tom Hanks (recebeu elogios por isso!).

[ 47 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Voltando à sua rotina, no dia seguinte, ao chegar à


escola, João deparou-se com a sala em silêncio. Havia uma
nova professora e, no lugar de ter as duas primeiras aulas
vagas, como de costume desde que iniciara o ano letivo,
agora ele teria mais afazeres. Já entrou na sala meio sem
vontade enquanto ouvia a professora dizer-lhe:
— Boa tarde, senhor....
— Senhor??? Não, o diretor não é tão bonito assim!
A turma caiu na gargalhada e a professora, que não
se abalou com a gracinha do rapaz, continuou:
— Temos um piadista na turma, que bom! Mas você
precisa melhorar o nível dessas piadas, isso funcionava... o
quê.... no quarto ano? — Rebateu a professora.
— Êêêêê.... — Completou a turma em tom alegre.
Antes que João pudesse dizer mais algo, a professora
voltou-se para o quadro e continuou a explicação com a
famosa frase: “atenção que isso vai cair na prova”...
Ela era diferente das demais professoras, era jovem,
deveria ter, no máximo, 25 anos. Letícia tinha o nariz
arrebitado e era muito ativa. Questionava os alunos,

[ 48 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

escrevia bastantes esquemas no quadro, não tolerava


conversas paralelas e sabia dar respostas cortantes como
uma navalha afiada. Apesar dessas características, João não
simpatizou nem um pouco com a nova professora que era
elogiada pela maioria dos alunos. A situação entre eles
piorou quando João foi questionado pela professora acerca
de uma explicação que ela tinha acabado de elucidar. Ele,
que só pensava em suas conversas no site de namoro, não
soube responder e ficou mais chateado ainda com o puxão
de orelhas que levou:
— Hoje ele nem veio piadista, nem intelectual...
— Êêêêê.... — Completou a turma novamente.
Os dias se passavam e até os amigos de João davam-
lhe conselhos para deixar de implicância com a professora.
Mas como? Como dar atenção à professora “empolgadinha”
se o que ele queria era prolongar suas conversas com Mar.
Não valia à pena. Todo tempo que João tinha, queria gastar
pensando em decifrar esse enigma. Quem seria Mar? Será
que ela era uma de suas colegas de sala, ou uma garota de
outra sala? Melhor que não!

[ 49 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Ele nutria por Mar um sentimento nunca antes


experimentado. Ela era genial, engraçada, atenciosa,
preocupada com seu bem-estar. Sua professora, “aquela
nova ditadora” não sabia o que era isso, não sabia o que era
amar, por isso ele a desprezava não respondendo nada.
E assim João foi passando seus dias, nutrindo cada
vez mais um sentimento duplo: ternura para com Mar e
desprezo para com Letícia. Ele só não desistiu dos estudos
naquele ano porque seu pai há havia pagado os valores da
formatura e ele não queria decepcionar o coroa.
João estava diferente, ele só queria a Mar. Com esse
fim começou a forçar um encontro ou alguma revelação que
lhe conduzisse à sua amada. Ele quase não falava mais por
enigmas, estava aberto, entregue, disse tudo o que Mar
perguntava. As únicas coisas não reveladas eram o seu nome
(porque também não sabia o dela) e o fato de ele ainda
estar concluindo os estudos, sentia vergonha disso, mas
seria por pouco tempo...
Chegaram a enviar presentes um para o outro,
através de motoboys, e o cara que veio entregar o presente

[ 50 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

de Mar, por várias vezes, nunca revelou nada sobre ela, nem
com a possibilidade de ganhar um extra. Da mesma forma
ele fazia. Protegia-se pedindo a um tio do primo do
conhecido do cunhado do seu vizinho que fizesse as
entregas, pois não sabia se teria a mesma sorte de encontrar
um motoboy tão incorruptível como o de Mar. Ele ainda não
revelara tudo sobre si porque precisava de poder de
barganha para, ao menos, tentar descobrir o nome daquela
pessoa tão atenciosa, tão gentil, tão cheia de alegria e de
atenção para com ele.
Na escola ele não ia bem. Foi levado por Letícia,
diversas vezes, à diretoria e nutria por ela um sentimento
ruim, algo parecido com ódio, se ódio ele já tivesse sentido.
Não tinha boas notas e só não estava mais desesperado
porque fizera alguns trabalhos em grupo. João confidenciava
aos colegas que não tinha mais a mínima paciência para
aquelas aulas e muito menos para aquela professora.
Estava tão absorto na realidade quase ficcional que
existia com Mar que, em vários momentos, dava por si
pensado ter ouvido, durante seus “sonhos acordados” nas

[ 51 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

aulas, alguma frase ou expressão familiar de suas deliciosas


conversas na net, mas ao olhar para aquela megera, voltava
à realidade e sua vontade de sair dali logo o acordava.
Certo dia, em uma de suas conversas, os dois
resolveram que já era hora se encontrarem. Marcaram em
uma praça e combinaram um código: os dois se
reconheceriam porque deveriam comprar três balões; fato
inédito para ele, porque durante todo tempo que João
passara na referida praça apenas as crianças seguravam
balões. Não quiseram marcar um encontro tradicional
porque nada daquilo era tradicional e eles sentiriam ainda a
emoção de passear pela praça procurando um pelo outro...
Antes de sair de casa João tomou banho, penteou-se,
perfumou-se, pegou a camisa, passou a ferro, limpou os
sapatos, passou mais perfume, pegou dinheiro, escolheu
meias combinando com a camisa, penteou-se novamente e
às três horas da tarde estava sentado no sofá, pronto para
seu encontro que aconteceria às 20h.
Ao chegar à praça, foi primeiro dar uma olhada para
ver se havia alguém irradiando amor com três balões na

[ 52 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

mão. Não viu ninguém que se encaixasse. Teve um arrepio


de medo ao passar por sua professora que falava com umas
crianças que se penduravam em um brinquedo, “até aqui
essa peste me persegue!” — pensou. João correu para o
outro lado do parque e comprou seus balões. Rapidamente
ele passou a andar à procura de sua amada. Será que havia
chegado cedo demais? Depois de um tempo estava já
desistindo, e, ao consultar o relógio, percebeu que tudo isso
se passara em apenas três minutos. Estabeleceu para si que
só ficaria por mais dez, caso não a encontrasse, certamente
Mar deveria ter tido algum imprevisto seriíssimo como
talvez um furacão ou o fim do mundo...
Quando voltou a vista para a multidão, bem próximo
a ele estava Letícia, olhando para ele com cara de
incredulidade. Ele estava tão afetado por tudo o que
acontecera, ansioso, com uma grande expectativa de estar
ali e atormentado pelo seu histórico com a “malvada”
professora que demorou um tempo para perceber que ela
segurava também balões. Não um, nem dois, mas
exatamente três!

[ 53 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

O maior leitor do mundo

Em um dia de segunda-feira, dois alunos do primeiro


ano do ensino médio:
— A professora já chegou? — Perguntei ao meu
colega Edeilson.
— Ainda não. Mas ela já está vindo, estava
conversando com o diretor.
— E o que você fez no fim de semana? Andamos de
bike até o centro, foi muito massa! Mas você agora só quer
viver enfurnado em casa. Está de castigo ou doente?
— Nem uma coisa, nem outra. É que estou...
— Boa noite, gente! Desculpem o atraso. Vamos
sentar? Peguem os livros de português.
— Fala, Dé... você tá o quê?
— Psiu... está bom de conversa por hoje, senhores.
Vamos realizar a correção dos exercícios de análise que
passei na aula anterior.

[ 54 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Depois de terminadas as aulas nós não podíamos


demorar, pois as aulas terminavam às 22h e todos corríamos
para casa, pra não ficar dando vacilo pra bandido.
No outro dia:
— Negocinho chato essa análise morfológica. Você
conseguiu fazer tudo, Dé?
— Fiz apenas as doze primeiras frases, depois desisti.
É muita repetição. Fui fazer coisa melhor com o meu tempo.
— Andasse de bike? Nem chamasse a gente...
— Não... fui ler.
— Foi o quê?
— Ler!
— Estás doente é?! Fosse ler depois de ter estudado
português?! Ah, já sei... tua mãe te colocou de castigo!
— Nada! Estou lendo um livro que é ótimo. Muito
interessante! Não consigo fazer outra coisa! Estou ansioso
para terminá-lo.
— Pra sair do castigo?! Confesse! Você aprontou
alguma!

[ 55 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Não, você não está me ouvindo, Cicero, o livro é


bom mesmo. Fascinante. Super interessante. Não consigo
parar de pensar nele.
— Que livro é?
— Um livro chamado: O Maior Milagre do Mundo.
— Ah! Ah! Ah! Deve ser mesmo um milagre! Você
está trocando a gente por esse livro. Está até deixando de
sair de casa.
E novamente outro professor entrou e interrompeu
nossa conversa...
No outro dia:
— E aí, Dé? Tudo beleza? Será que hoje a gente sai
cedo?
— Sei não, tomara que sim. Estou na metade do livro.
Acho que esta semana termino.
— Lá vem você novamente com essa história...
— Mas o que eu vou fazer? Estou lendo um livro e ele
realmente é muito bom!
— É? E um livro pode ser bom?

[ 56 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Claro. Eu mesmo já estou pensando que quero ler


outro livro desse autor.
— Que autor é esse?
— Ele é americano, não sei como se pronuncia, mas o
nome dele se escreve OG Mandino.
— Que nome! Acho que você deve botar esse nome
no seu filho, quando você casar... Mandino, Mandininho,
meu filho, venha aqui ajudar o papai! Ah, ah, ah!
— Fica quieto, olha a matéria... copia!
E mais uma vez ao terminar a aula partimos para
casa.
Nossa escola só tinha turmas de ensino médio à
noite, e nós, calouros, tanto no ensino médio quanto no
turno noturno, morríamos de medo dessa nova dupla tarefa.
As aulas iniciavam-se às 18h40, mas os professores sempre
entravam na sala uns dez ou quinze minutos depois do
toque (para dar tempo de todos os alunos jantarem antes de
iniciar as aulas).
Uma coisa legal de estudar à noite é que podíamos
trabalhar. A maioria da turma já trabalhava. Edeilson fazia

[ 57 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

um curso de torneiro mecânico no SENAI e eu consegui um


emprego de estagiário no Banco do Brasil. Lá, na verdade,
meu cargo era o de menor aprendiz, mas sempre achei
melhor dizer às pessoas que eu era estagiário... menor, e
ainda por cima aprendiz, não é uma nomenclatura legal pra
quem estuda no ensino médio, e, à noite.
No outro dia... ou melhor, na outra noite...
— Simon está revelando um pensamento
extraordinário... – disse Edeilson.
— Você comprou um cachorro? E que nome é esse?
Era melhor colocar Pixito. Nome de cachorro de pobre tem
que ser assim, com estilo.
— Que cachorro que nada! Simon é o nome do
personagem do livro...
— Lá vem ele outra vez...
— Que foi? Eu estava pensando alto.
— Você está com uma agonia com esse livro, até
parece que vai casar com ele...
— Você é que está implicando. Deixe-me com meus
botões...

[ 58 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Tá bem, você venceu! De que fala a história?


— Mas você vai querer ler o livro?
— Não.
— Então pra quê eu te contar? Você não se interessa
por leitura.
(Fiquei com uma vontade enorme de dar uns
pontapés no meu torturador...)
— Tá bom... tá bom... Eu vou querer ler o livro. Mas
vou logo avisando: vou ler sem pressa, quando eu tiver
tempo. Ok?
— Ok.
— Me diz... a história é sobre o quê?
— Mas você vai ler o livro? Mesmo?
— É impressionante as pessoas que acreditamos
serem nossas amigas! – Resmunguei... – Claro que vou
querer ler, e o que mais eu iria fazer com um livro? Vou
lanchá-lo na refeição de amanhã... dãã...
— Pois bem!
— Pois bem as tuas negas! Pois bem o quê?!!!
— Não posso contar a história.

[ 59 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Mas eu já disse que irei ler. Qual é o problema


agora?!
— Justamente isso! Eu não posso te falar porque
senão vai perder a graça. É melhor que você leia e descubra
por si mesmo.
(Foi nesse momento que chutei com toda vontade a
banca da frente!)
No fim daquele dia Edeilson se dirigiu a mim:
— Estou fazendo de propósito. Sei que você está
interessado, não se preocupe. Assim que eu terminar de ler
o livro eu te emprestarei.
— Tá bem! E quando vai ser isso?
— Acho que semana que vem eu já terei terminado.
— Beleza, então. Vamos nessa?
Durante o resto da semana Edeilson ficava soltando
pistas de como o livro estava interessante. Ele disse que,
como eu iria ler em seguida ele começou a grifar umas
partes para quando eu estivesse lendo a gente poder
discutir umas ideias. Isso se deu por toda a semana e eu fui
para o final de semana já mais curioso sobre o tal livro.

[ 60 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Semana seguinte, na segunda-feira, eu fui mais cedo


para a escola a fim de encontrar com meu amigo e, quem
sabe, já dar uma olhadinha no tão famoso livro. Fiz papel de
bobo. Ele chegou atrasado e não conversamos nada até o
fim das duas primeiras aulas: era um teste de Português.
— E o livro? Você trouxe? – Perguntei depois do
teste.
— Eita, rapaz, é que eu não consegui terminar de ler.
— Não?!!! Mas você já estava perto de terminar. O
que houve?
— Tive que estudar para o teste.
— Tá... e quando é que você termina?
— Acho que essa semana.
— Acho? Você é um leitor muito mequetrefe,
mesmo.
— E você? Quantos livros já leu?
— Incluindo esse que você vai me emprestar?
— Sim!
— Um!
— Ah, vai te catar...

[ 61 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

E mais uma vez fomos para casa. O resto da semana


foi como toda semana de testes de qualquer escola. Muita
revisão. A gente na cola dos professores para eles
diminuírem os assuntos, fazer atividades valendo pontuação
extra, essas coisas. A sexta chegou rapidinho. Mais uma vez
fui para o fim de semana com a expectativa de que na
segunda eu iria ler o “bendito” livro.
Segunda-feira, mais uma vez, cheguei mais cedo.
Neste dia, minha técnica quase funcionou, não fosse um
detalhe:
— E aí? Trouxe o livro?
— Olha, eu vim mais cedo pra falar mesmo com você.
— Já sei... não terminou ainda. Você está lendo de
trás pra frente, é?
— Não é isso! Eu já terminei sim.
— E então, cadê?
— É que minha tia é professora, foi lá por casa essa
semana e minha mãe, toda orgulhosa, disse a ela que eu
tinha terminado de ler aquele livro. Ela se interessou tanto
que pediu pra levá-lo emprestado...

[ 62 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— E tua mãe emprestou???


— Foi!
— Desisto!
— Não. Tenha calma. Como eu disse: minha tia é
professora. Ela lê rapidinho. Você espera só mais um pouco
que semana que vem eu trago ele pra você.
— Tá bem! Fazer o quê, né?!
Tivemos as aulas quase normais (porque os
professores estavam entregando o resultado dos testes). Fui
para casa com mais curiosidade ainda sobre o livro. Parecia
que quanto mais eu sentia vontade de lê-lo mais distante eu
ficava dele.
Na quarta-feira, recebi o pagamento do meu salário.
Ao sair do trabalho, percebi que eu podia resolver sozinho
meu “problema”: comprar o livro que eu tanto queria.
Decidido, fui procurar o livro em todas as livrarias da minha
cidade. Em todas mesmo, olhei cada prateleira de cada
livraria, mas nenhuma das duas tinha o livro que eu queria.
Mais uma vez, frustrado, fui para o ponto de ônibus
para ir pra casa. Enquanto esperava o ônibus, reparei em

[ 63 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

uma banca de revistas. Eu já sabia da banca, mas me


questionei se lá também não haveria livros para vender. Fui
até lá e... nada! Ou melhor, quase nada. Também não tinha
o livro pra vender, entretanto havia outro livro do mesmo
autor. Pensei: comprarei este livro, vou lê-lo e ver se gosto
desta história, se eu gostar irei ler também o outro; se eu
não gostar é porque o autor é ruim e saio logo dessa agonia,
não lerei mais nada! Comprei o livro!
Ao chegar em casa, morto de fome, corri pra cozinha
e como todo adolescente esfomeado, comi meus dois quilos
de almoço habitual, depois um docinho e pra ajudar a descer
tomei uma jarrinha de suco.
Terminada a minha agonia, olhei pro livro. Tudo novo
é bom! O livro estava lacrado por um plástico transparente.
Era relativamente fino. Uma capa simples. Já havia lido o
título, mas só agora prestava atenção nele: O Maior
Vendedor do Mundo. Será que é um livro sobre técnicas de
vendas? Eu não deveria ter comprado isso. Soltei o livro na
estante e liguei a TV.

[ 64 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Não demorei cinco minutos com a TV ligada, olhei


novamente para o livro. Ele estava lá. Imponente. Parecia
não se render a minha indiferença. Ele é que estava
indiferente a mim. Desliguei a TV. Rasguei o plástico do livro
e aquele cheirinho de papel, de livro novo, chegou até mim.
Folheei, abri na primeira pagina, comecei a ler...
Minha mãe tocou meu ombro:
— Filho, você não vai pra aula? Está na hora!
É como se eu estivesse dentro do livro e ela tivesse
me puxado de volta à realidade.
— Que horas são, mãe?
— Seis e quarenta da noite.
Olhei pra ela, olhei pro livro, olhei pra ela novamente
e respondi:
— Vou hoje não, posso ficar pra terminar de ler?
Ela olhou pra mim, olhou pro livro, olhou pra mim
novamente e respondeu:
— Tem teste hoje? Se não tiver pode ficar...
Terminei de ler! Estava fascinado. Era outra história,
outra situação, eram outros personagens, mas eu estava

[ 65 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

encantado pelo livro. Minha vontade era a de contar a todos


sobre o que eu tinha lido. Eu estava duplamente feliz. Estava
contagiado pela história do livro e também feliz porque
havia lido o meu primeiro livro. Não sabia o quanto é bom
poder me desligar da realidade para viver outra história,
outra vida. Eu estava (e ainda estou) encantado com esse
outro universo.
No outro dia, na escola, meu amigo olhou pra mim:
— Faltou ontem... que foi? Dormiu demais?
— Não... estava com Hafid...
— Hafid? O que foi? Comprasse um cachorro?
— Não... é sobre um livro que li...
(E nunca mais parei de ler...)

[ 66 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Trágico ou Cômico?

Imagine só: domingo à tarde, você em casa sem fazer


nada, resolve sair para tomar um sorvete. Vai caminhando
devagar e aprecia o movimento quando, repentinamente,
uma figura suspeita vem na direção contrária. Você olha
para um lado... olha para o outro... não percebe mais
ninguém ali. Você sente o coração acelerar, as pernas ficam
na dúvida entre correr ou tremer. Você percebe que a outra
pessoa está aproximando-se cada vez mais, você sente o
suor escorrer, o silêncio se instaurar, a respiração ficar
ofegante. Você até traça uma rota de fuga e tenta atravessar
a rua, mas... já é tarde. A outra pessoa chega perto de você e
enuncia: “Ei, que horas são?” Ufa! Que alívio. Você
responde, ainda com voz trêmula e já pensando em voltar
para casa, agora sem a vontade de tomar sorvete.
Seria trágico, não cômico se a pessoa parecesse
mesmo um mau-elemento. Mas seria cômico, não trágico, se

[ 67 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

a referida pessoa fosse uma senhora na casa dos sessenta


anos.
Você pode estar pensando: “Meu Deus, que
absurdo!”. Se isto é absurdo o que dizer das pessoas que
saem de suas casas separando o dinheiro que levam
consigo? “Este é o da passagem, este é o do lanche, este é o
do ladrão...” Fatos como este têm mostrado o quanto
estamos aceitando a banalização da violência. O quanto
estamos nos entregando. Falta-nos força, coragem e, acima
de tudo, confiança nos poderes do Estado que tragicamente
têm falhado em garantir a segurança das pessoas.
A violência atualmente é tamanha que desconfiamos
literalmente da própria sombra, o que chega a ser cômico. Já
se foi o tempo em que os detratores da lei usavam máscaras
e camisas listradas. Hoje, infelizmente, o crime tem se
modernizado e, para nosso azar, tem feito plásticas também.
É comum o relato de assaltos, agressões cometidas por
jovens e, pasmem-nos, por pessoas idosas. Se a lei brasileira
fixa uma idade para aposentadoria, o crime tem ampliado
suas fronteiras neste aspecto.

[ 68 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Aos poucos vamos fechando-nos em desconfianças,


nas nossas casas, nos nossos medos. Esquecemos o mundo
lá fora em detrimento do medo que sentimos.
Precisamos mudar esse clima de medo e hostilidade
em que vivemos e uma boa oportunidade nos é dada pela
comunicação. É preciso conversar mais. É! Conversar com
quem não conhecemos. Com quem está esperando o ônibus
junto conosco, com quem está na fila do banco, ou do show
— seja para trocar informações, seja para passar o tempo.
Conversar para espantar alguns fantasmas, para ampliar a
rede de relacionamentos, para criar um ambiente mais
sociável e seguro para todos. Ela, a comunicação, pode
proporcionar um ambiente mais fraterno, mais acolhedor e,
porque não dizer, de maior união.
Não podemos sucumbir num medo comum de fazer
coisas comuns. Acenar para alguém, conversar, olhar no
olho, saber quem o outro é, ou quem não é... já constitui um
passo (mesmo que pequeno) numa busca que pode começar
de forma individual, mas certamente culminará num
resultado coletivo; e assim, quem sabe, num domingo

[ 69 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

próximo, o que pode acontecer de mais trágico é o fato de


nós derrubarmos sorvete nas próprias camisas, mas isto já
seria cômico!

[ 70 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Conversa de menino

Eles estavam conversando na sala. Geralmente


faziam muito barulho. Certa vez, próximo a eles, parei minha
atividade de leitura para prestar atenção à conversa, mas
não baixei o livro de maneira que eles não percebessem que
eu os observava.
Gabriel, Yves e Eduardo comentavam sobre um
episódio de um de seus animes preferidos:
— Aí o monstro chegou, entrou na cidade e tá, tá, tá,
tá, tá, tá....
— E aquela cena... muito, muito, muito massa,
txxxxxxxiii, têbêi...
— Melhor foi quando ele caiu que renovou o próprio
poder tchuuu, tchuuuu...
— Que nada, melhor foi o soco pááá, pááá, pááá,
pááá!
— Vocês estão esquecendo da explosão,
badabummmmm...

[ 71 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— E naquela hora que ele salvou a mulher? Ahhhh,


txitxiffffuuuuu...
— Ele deu um pulo massa, fraquinho!!!! Chega
tubuummmm!
— E quando foi pra perto do monstro... ffffffffbááá
fffffffffbááá....
— O chão chega tremeu txibummmm, txibummmm...
— A sorte foi ele ter desviado daquele raio tzzzzzzzz,
tzzzzzzzz...
— E quando rachou tudo? Kkkkkrrrrrrááááá!
— É, mas não esqueça que ele ôôôrrrrrrrr, trrrrráááá!
— Isso não foi nada. Pra mim a melhor parte foi
vvvbou, vvvbou!
— E o mmbar, mmbar???
— Ah, mas aí foi xxxtá, xxxtá...
— Sssstubu, stubu!
— Skar, skar...
— Iiiiiiiii arrrrrgh...
Nesse momento, baixei o livro, olhei para eles e de
zombaria disse:

[ 72 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Vru, tbu, xxxxpááááá!


Ao que eles olharam para mim e disseram:
— Pai, que massa, o senhor também assistiu, foi?!

[ 73 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Um pedaço?

— Vamos sair daqui a pouco, mas antes venha cá que


eu quero falar com você.
— Sim, mamãe!
— Quando a gente chegar lá se comporte. Não corra,
não fale alto, não se intrometa no meio das conversas, não
faça nenhum tipo de bagunça... e o mais importante, não
peça nada pra comer. É muito feio chegar na casa dos outros
e ficar pedindo comida, parece até que a gente não tem
comida aqui em casa... você ouviu?
— Ouvi sim!
— Olha... eu estou avisando, se você comer qualquer
coisa lá, você vai se entender comigo quando a gente chegar
em casa...
— Mas mãe...
— Mas, nada! Não quero que você coma nada.
Pronto! Você está com fome?
— Não!

[ 74 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Já almoçou?
— Já!
— Quer que eu leve um biscoito ou algo assim pra
você comer no caminho?
— Não!
— Então, pronto. Nada de ficar pedindo comida. Isso
é muito feio, é falta de educação e, além do mais, você não é
nenhuma criancinha, ou é?
— Não, mamãe!
— Pois bem, vou amarrar seus sapatos e a gente já
vai...
Ao chegarem, todos se cumprimentaram e foram
trocadas as devidas saudações.
— Boa tarde, como vocês estão? Este? Este é o meu
filhão... já está um rapaz, estão vendo?
— Blá, blá, blá...
— Blá, blá, blá...
...
— Blá, blá, blá...
— Blá, blá, blá...

[ 75 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

...
Lá pelas tantas, depois de muita conversa, os
anfitriões depositam na mesa de centro bandejas e mais
bandejas com cada petisco inimaginável. Cada coisa gostosa
que parece ter sido cozinhada em outro planeta. E os
cheiros... e as formas... e...
— Vocês sirvam-se à vontade! — Anunciaram os
anfitriões.
— Na verdade eu estou cheia. — Agradece a mãe.
— E ele? Pode pegar à vontade, viu?! Vocês não
façam cerimônia!
— Na verdade ele também está cheio. Comeu demais
hoje. Eu até perguntei se ele queria um biscoitinho pra
comer na vinda, ele recusou.
— Mas já faz tempo que vocês estão aqui. Olhe,
menino, fique à vontade, faça de conta que você está em
casa. Pegue o que quiser e se não gostar nem precisa
terminar de comer. Experimenta, vai!
O menino, morrendo de vontade de comer tudo de
uma só vez, olhava para a mãe na esperança de um sinal, de

[ 76 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

uma pista autorizando-o provar daqueles manjares, mas a


mãe nada fazia... nem para ele olhava. E ele ainda pensava
que poderia justificar-se depois, dizer que pegou porque
estava com fome, ou porque haviam insistido... melhor não!
O castigo seria certeiro, afinal nem a mãe ousou pegar nada.
— Quero não, obrigado!
— Você quer que eu prepare outra coisa? Um
sanduíche misto, um hambúrguer, um suco, uma vitamina?
— Não obrigado — falou o menino contrariando cada
imagem que lhe vinha à mente, uma mais saborosa que a
outra! — Por que a comida na casa dos outros é sempre
mais gostosa que a comida que a gente tem em casa? —
Perguntava para si, baixinho...
— Oi?! Você falou alguma coisa? Quer alguma coisa?
Diga, é só dizer! Se você não gosta de nada que tenho diga-
me que vou aqui do lado e compro umas coxinhas que o
pessoal frita na hora, é de massa de batata, uma delícia...
você quer?
— Não, obrigado!

[ 77 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Aquilo estava transformando-se em um campo de


tortura.
— O bichinho, vai ficar esse tempo todo sem comer
nada? Não pode. Criança tem que comer várias vezes por
dia. Ele pode tomar sorvete? — Perguntou dirigindo-se à
mãe. – Posso colocar calda de chocolate em cima...
— Se ele quiser, pode dar sim! — E olhou para o filho
com um olhar que dizia tudo.
— Quero não, obrigado! E eu não sou mais criança,
sou um rapaz!
Todos riram e por um tempo as tentativas inimigas
de minar a determinação daquele jovem soldado em sua
importante batalha pareceram cessar, até que se ouviu a
pergunta:
— Você gosta de batata frita? Acho que vou ali
comprar umas, aí a gente faz uns Milk-shakes e come com
batata frita, que tal?
A batalha havia reiniciado. O menino até sentira o
desejo por comida passar depois de ter afirmado que era um
rapaz, sentiu-se forte, mas batata frita com Milk-shake era

[ 78 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

um jogo duríssimo de vencer. Ele parou, contorceu os lábios,


pensou, pensou...
— Não. — Tentando pensar em uma desculpa para
dizer, que fosse boa o suficiente para que o deixassem em
paz. — Estou muito cheio!
— Cheio? Só se for de vento! Você não comeu nada
do que eu ofereci até agora, não tomou sequer água depois
que chegou aqui.
— É que ele é assim mesmo, ele não é de comer
muito não. — Disse a mãe em socorro do filho.
— Mãe, já podemos ir?
— Calma, filho, daqui a pouco a gente vai.
O tempo parece que passava para trás e a conversa
continuava. O garoto já tinha resolvido: não sairia mais de
casa, ao menos lá ele não precisaria usar desse negócio a
que chamaram etiqueta... poderia comer o que quisesse, na
hora em que quisesse... mesmo que em sua casa não tivesse
todas aquelas guloseimas supermegahiper gostosas. Mas
quando pensou que havia sido uma total perda de tempo
estar ali viu algo em que não acreditou... coçou os olhos para

[ 79 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

ver se era verdade e não pôde acreditar no que sua visão lhe
informava. Sua mãe esticara o braço e pegara uma das
guloseimas que esperavam ser devoradas. Ela deu uma
mordida tão pequena que até mesmo a menor formiga faria
um estrago maior. Ainda sem acreditar, foi chamado de
volta à realidade quando sua mãe perguntou:
— Quer? Pode pegar!
Ele não sabia se isso era algum tipo de armadilha,
porque ela havia dito para ele não comer nada. Pode ser que
fosse um teste, ou algo parecido. Ao que a mãe insistiu:
— Pode pegar, filho. Escolha qual você quer!
E ele, ainda desconfiado, quando ouviu outra voz
juntar-se a de sua mãe...
— É isso mesmo, pegue, deixe de coisa...
— Pegue, filho, pode pegar...
Ele olhava para a mãe tentando desvendar se podia
ou não ultrapassar aquela barreira, a única coisa de que
tinha certeza era da conversa que tiveram antes de ele sair
de casa, mas agora a própria mãe estava oferecendo-lhe as
guloseimas.

[ 80 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Vá filho, escolha o que você quer e pode pegar.


Mas coma tudo! Não estrague nada.
E antes que alguém desistisse de insistir ele pegou!
Depois pegou novamente e novamente e em pouco tempo
já não ouvia as conversas, nem tinha mais pressa de ir
embora. Foram os minutos mais saborosos de toda a sua
vida. Logo foram embora. Quando haviam saído ele olhou
para a mãe e disse:
— Esse negócio de ser rapaz às vezes é muito difícil!!!

[ 81 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Zé brincalhão

Ele era o brincalhão da vila, tanto que ganhara o


título de Zé brincalhão. Mexia com todos e as pessoas já
estavam habituadas às suas brincadeiras. Desde pequeno
pregava peças nas pessoas por pura diversão. Gostava de
pintar as galinhas e de dar nó nos rabos dos animais para
dizer que era assombração. E todos acreditavam, até que
um dia foi descoberto. Jogava pedra nos telhados, tocava as
campainhas nas vizinhanças e corria, escondia o material dos
colegas na escola e colocava-os nos lugares mais inusitados.
Cresceu... Com o tempo suas brincadeiras ficaram
mais sofisticadas. Ele criava histórias, passava dias fora e
voltava dizendo que fora a outros países. Inventava fatos
sobre as pessoas e quando vinham tomar satisfação ele caia
na gargalhada. Certa vez, ao passar por um morador recém-
chegado na vila, olhou para ele e disse, quase gritando:
— Pode ir lá, ela está te esperando.

[ 82 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Todos pararam e olharam para o rapaz que ficou


sem reação, sem fazer a menor ideia do que se passava, ao
que Zé falou novamente:
— Ele está me traindo com minha mulher, ela acabou
de me contar tudo e por isso eu saí de casa. Vá lá, Don Juan,
ela está à sua espera...
Todos olhavam para o pobre rapaz, que não
conseguiu acreditar no que ouvira. Na tentativa de dar uma
explicação de que nunca faria uma coisa daquela, tentou:
— Eu... eu... — gaguejava o rapaz, enquanto todos
caíam na gargalhada.
Zé era assim mesmo, mexia com todo mundo,
mesmo com os que ele não conhecia. Certo dia, ao entrar
numa loja recém-inaugurada, anunciou:
— Fiscal do IBAMA.
Todos na loja olhavam surpresos sem entender o que
acontecia, quando ele continuou:
— Recebemos uma denúncia de que esta loja está
vendendo casacos de pele feitos com peles de animais
silvestres. Quero ver o gerente, por favor.

[ 83 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Os funcionários correram a chamar o gerente que se


desmanchou em explicações para ele que terminou a
conversa imitando os vários guinchos e pulos dos macacos.
E assim Zé vivia construindo ou mantendo sua fama...
Certo dia Zé brincalhão estava sentado em um bar.
Sozinho, olhava para um copo de cachaça. Não havia falado
com ninguém desde que chegara ali. Três dos moradores
entraram no bar pouco depois, ao verem Zé brincalhão
sentado começaram:
— E aí, Zé, qual vai ser a de hoje? — Perguntou um —
Vais aprontar com quem agora?
— Acho que hoje ele não pegou nenhum trouxa. —
Afirmou outro.
— Nós não caímos mais nessas bobagens que você
inventa... vê se cresce! — Exclamou o terceiro.
Zé não esboçou nenhuma reação. Nem ao menos deu
importância ao que diziam dele.
— Estranho, ele não vai soltar nenhuma gracinha?
— Acho que nunca o vi assim. Será que ele está bem?
— Ei, Zé, o que você tem?

[ 84 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Ele chegou ali e sentou-se. Não disse nenhuma


palavra, não conversou com ninguém e não soltou nenhuma
gracinha com coisa alguma. – Disse o atendente do bar.
— O que houve, Zé, o que você tem?
Zé demorou um pouco para responder. Olhou para
cima e falou com voz cortante:
— Acabei de perder minha mãe e não tenho um
tostão para fazer o enterro.
Aquilo cortou o coração dos três que ali estavam, até
porque acabaram de zombar do jeito de ser do Zé, ao que
um deles prontamente respondeu:
— Não se preocupe, vamos te ajudar.
Zé ficou imóvel. Não disse uma única palavra e,
sequer, mexeu-se da cadeira.
Os três saíram apressados do bar e foram em busca
de ajuda com amigos e vizinhos espalhando a notícia de que
a mãe do Zé brincalhão havia falecido. Angariaram dinheiro
suficiente para fazer o enterro e voltaram ao bar onde
encontraram o Zé na mesma posição. Tranquilizavam-no
com palavras de conforto, enquanto entregaram o dinheiro

[ 85 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

arrecadado. Disseram a Zé que haviam conseguido até um


carro para fazer o transporte do corpo. Saíram todos os
quatro e entraram no carro. Os três amigos meio sem jeito,
afinal o que dizer numa hora daquelas? Passaram o tempo
da viagem calados, constrangidos. Depois de 20 minutos de
viagem em uma estradinha de terra, finalmente chegaram
ao sítio no qual a mãe de Zé morava. Ele simplesmente
apontou a casa e disse:
— A casa da minha mãe é aquela!
Os amigos desceram, deram os pêsames aos vizinhos
que estavam por ali, mas quando entraram viram a mãe do
Zé sentada, assistindo TV e tomando café.
Quando saíram um deles disse:
— Mas Zé, isso é coisa que se faça com a gente?
Ao que ele devolveu:
— Eu estava quieto lá no bar... vocês é que
começaram!

[ 86 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Receita de família

Há famílias que costumam se reunir durante algumas


celebrações no ano. No caso da minha, há uma celebração
que todos são verdadeiramente intimados a participar: a
ceia da sexta-feira santa, no feriado de páscoa. Nela, não só
não pode faltar ninguém da família, como deve-se obedecer
a certas tradições, dentre elas, a mais costumeira é o
cardápio apenas com peixe. É peixe no coco, peixe frito,
bolinho de peixe, moqueca de peixe, farofa de peixe etc.
Cheguei em um desses feriados bastante atrasado e
morto de fome. Estavam todos esperando apenas a minha
presença. Assim que entrei fomos nos sentar à mesa e na
hora em que coloquei o primeiro pedaço de peixe na boca,
engasguei-me com uma espinha. Sempre detestei espinhas
porque elas parecem ter uma preferência especial por
estacionar na minha garganta. E fazem isso sempre que
podem! Eu, naquele momento, comecei a tossir e a me
sentir incomodado, ao que a tia Cris notou e perguntou:

[ 87 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— O que é isso, você está bem?


— Não, engasguei com uma espinha! — Balbuciei
entre as tossidas que dava.
Vó Graça e vó Jozina correram para a cozinha para
pegar suco, enquanto eu, morto de fome, tentava forçar a
espinha para fora.
Depois de tomar quase cinco litros de suco, tia
Mônica exclamou:
— Com suco não vai descer. Eu sabia! Ele tem que
comer bolacha.
Rapidamente apareceram uns cinco pacotes
diferentes de bolacha na minha frente. Comi umas três, sem
sucesso e sentia, cada vez mais, o incômodo provocado pela
espinha.
— Que bolacha que nada, ele tem que comer é um
pão de ontem, tenho certeza de que é tiro e queda! —
Exclamou o tio Júnior.
Mais uma vez, rapidamente, providenciaram dois
pedaços de pão... um sei que era de ontem e o outro não

[ 88 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

vou nem arriscar dizer de quando... comi os dois e nada... a


tosse não parava e ficava ainda mais insistente.
— Pão, bolacha, água, vocês nunca vão conseguir
ajudá-lo assim – anunciou o tio Petrúcio – ele tem que
comer é um punhado de farinha.
E logo havia na minha frente um pote de farinha, do
qual foram retiradas colheradas e mais colheradas para
serem empurradas em mim, de goela a baixo. A minha tosse
ficava cada vez mais insistente e as alternativas de “receitas”
para me ajudar rapidamente começaram a se multiplicar...
— Ele tem que tomar água embaixo da mesa. Se ele
fizer isso a espinha sai na hora. — Profetizou o tio Jackson.
E lá fui eu me colocar em baixo da mesa para tomar
água... mas nada acontecia.
— Acho melhor levá-lo ao hospital... — declarou o tio
Mário — lá eles fazem uma pequena cirurgia e retiram a
espinha.
Todos pararam por um instante, ponderando a
possibilidade, até que eu falei: Já estou bem, acho que
desceu! Mas em seguida fui acometido de uma tosse

[ 89 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

incontrolável. Tia Fernanda me segurou pelas costas e


abraçando-me começou a dar apertos em meu estômago
com frequência regulares, porém, sem efeito.
— Ouvi falar que comer feijão com açúcar ajuda a
espinha a descer. — Explicou a tia Rose.
Logo, lá estava um prato de feijão que parecia um
melaço, de tanto açúcar que colocaram. Comi quase tudo e
ainda sentia o aperto na garganta.
— Água com gás, ele tem que tomar água com gás
porque vai arrotar e aí a garganta se dilata e a espinha desce
— falou a tia Keila.
Alguém correu ao mercado e logo eu estava tomando
água com gás... ainda sem sucesso, mesmo depois de beber
três garrafas daquele troço.
— Báááááhhhhh! — Gritou o vô Biu.
— Que é isso Biu? — Perguntou a vó Jozina, com ar
de brava.
— Quem sabe se ele levar um susto, a espinha
desce?

[ 90 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Susto é para passar soluço — disse a tia Sara. —


Não funciona com espinha.
— Monica, vá chamar o vizinho — deu a ordem o vô
Nestor.
— O vizinho, por que, pai?
— O apelido dele não é bacalhau? Talvez ele saiba
alguma coisa que possamos fazer pra retirar essa espinha!
— Ele tem que tomar um copo de óleo, aí sim
escorrega tudo — sugeriu o compadre Jair.
Sinceramente eu não sei como a coisa foi ganhando
aquela proporção, mas quem está no desespero faz
qualquer coisa. Eu, bastante vermelho por causa da tosse e
sem conseguir dizer uma só palavra, estava aceitando
qualquer coisa para sair daquela tortura, por isso virei o
copo de uma vez só... e nada.
— Vamos ao hospital, já falei...
— Ele tem que comer mais farinha...
— Acho que com mais um pouco de água a espinha
desce...

[ 91 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— E se ele comer manteiga? Não precisa ser muita,


não, acho que umas duas colheres devem resolver — disse a
madrinha Michele.
Enquanto minha família discutia as possíveis receitas
“infalíveis” para o meu problema, correu até mim as caçulas
da família, Isabela e Yara, que tentaram agradar-me com uns
carinhos. Como eu já lacrimejava, devido ao esforço das
tossidas, as pequenas aconselhavam-me a não chorar. Ao
sentir o cheiro do perfume extremamente adocicado,
bastante forte nelas, porque as duas haviam acabado de
“dar banho” de perfume em suas bonecas, meu nariz irritou-
se e instantaneamente comecei a espirrar. Dei uns cinco ou
seis espirros seguidos. Quando consegui me acalmar, senti
que a espinha não me incomodava mais. Anunciei a boa
notícia para a minha família, que finalmente se tranquilizou.
Depois de uma breve comemoração, todos voltaram
à mesa a fim de terminar o almoço, menos eu, que sem a
menor fome, tive que me contentar em apenas observar a
todos, imaginando como eram incríveis as receitas da minha
família!

[ 92 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Ninguém é de ferro

Ele entrou muito cansado, finalmente estava em


casa, feliz porque era seu último dia de compromissos. A
partir de amanhã estaria de férias!!! Ao chegar, fez, como de
costume, sua tradicional rotina: limpou os sapatos,
desocupou a bolsa, banhou-se, trocou de roupa e foi fazer
sua refeição. Depois de um tempo foi dormir.
Ah... dormir! Ele adorava dormir! Seu maior sonho
era o de trabalhar como consultor numa fábrica de colchões.
Nem precisaria ganhar muito dinheiro, bastava que lhe
deixassem dormir, em cada teste, em um tipo de colchão
diferente: colchão de espuma, colchão de molas, de molas
ensacadas, colchão d’água, colchão magnético... deveria ser
um sonho melhor que outro!
Gostava de dormir não apenas por preguiça de fazer
as coisas, se bem que um pouquinho de preguiça, de vez em
quando, não faz mal a ninguém! Ele era até muito ativo para
quem gostava tanto de dormir, entretanto, dormindo é que

[ 93 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

ele conseguia curar-se de dores de cabeça, de preocupações


que surgiam, de dores de cotovelo e é claro, do cansaço.
Dormindo ele tinha várias ideias e sonhos divertidíssimos.
Tudo isso sem falar nos dias de inverno, nos finais de
semana e nas sonecas rotineiras. Dormir, para ele, era o
mais próximo que se poderia chegar do céu.
Depois de deitar e de relembrar o quanto gostava de
dormir, sentiu, por fim, uma alegre tranquilidade por
imaginar que durante as férias poderia dormir até tarde!
No dia seguinte, todos na casa levantaram e
puseram-se a realizar as suas tarefas diárias. O pai foi para o
trabalho, a mãe, para a cozinha. As irmãs arrumaram-se para
passear na praça... e ele? Ele dormia, satisfeito, quase com
um sorriso no rosto.
Deram oito, nove, dez, onze horas e nem sinal dele. A
casa, apesar do movimento era silenciosa e propícia ao seu
descanso. Meio dia e meia ele levantou, cambaleando pela
casa. Estava em paz! Olhou para a mãe e perguntou pelo
almoço. Almoçou e voltou para o quarto. Inicialmente não
queria dormir, apenas aproveitar o dia sem nada para

[ 94 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

fazer... mas cinco minutos depois estava, mais uma vez,


entregue ao mundo dos sonhos.
Dormiu até umas três horas da tarde e, por fim,
resolveu levantar. Passou pela cozinha e pegou umas
bolachas para mastigar no lanche. Sentou-se no sofá, ligou a
televisão e daí a pouco estava deitado. Depois de cinco
minutos ouvia-se seu ronco devido à cabeça mal posicionada
no sofá. A mãe até pensou em acordá-lo, mas achou melhor
apenas arrumar a almofada para que o ronco parasse.
Às dezoito horas, ele novamente levantou. Apesar de
ninguém comentar, todos estavam admirados pelo fato de
como uma pessoa poderia dormir tanto num único dia, era
realmente impressionante! Ele sentou-se, ainda sonolento, à
mesa, pois sabia que estava na hora do jantar. Todos
jantaram em silêncio. Foram trocadas apenas umas poucas
palavras entre o pai e a mãe. Suas irmãs interessaram-se em
ir assistir ao filme que haviam alugado. Sua mãe foi para a
cozinha e o pai havia saído. Ele sentou-se numa cadeira de
balanço que ficava no corredor, próximo à sala, dando a
entender que iria também ver o filme, mas em pouco

[ 95 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

tempo, sua cabeça pendia de um lado para o outro: havia


dormido novamente!
Depois que o filme terminou todas as irmãs foram
para o quarto. A TV foi desligada e apenas havia o som forte
de sua respiração. A mãe, ao passar por ali, fez algum
barulho, acordando-o. Ele levantou, deu nela um abraço e
um beijo. Dirigiu-se à cozinha. Intrigada sua mãe o seguiu...
— Oi filho, quer alguma coisa?
— Tem suco?
— Tem sim.
A mãe encheu um copo de suco e, enquanto ele se
hidratava, a mãe pensava, admirada, como era quieto
aquele filho. Não gostava de sair, não gostava de festas, não
dava trabalho quando estava em casa e não gostava de
algazarras. Não, realmente não gostava...
Quando ele terminou o suco, olhou para a mãe e
explicou:
— Mãe, dormi a manhã inteira, à tarde, depois do
lanche e durante o filme. Na verdade, quero confessar uma
coisa:

[ 96 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Sim, filho...
— Fiz isso o dia todo e como ninguém é de ferro,
então, agora... a senhora sabe, né? Vou dormir um
pouquinho pra descansar!

[ 97 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

Amém!

Ele estava desempregado havia dias. Apesar de


possuir experiência como vendedor já tentara de tudo sem
sucesso. Batalhara vagas de auxiliar de escritório, promotor
de vendas, caixa de supermercado, costureiro, porteiro,
vigia, ajudante de pedreiro, faxineiro, assistente do auxiliar
do suplente do substituto, mas... nada! Naqueles dias não
estava fácil conseguir trabalho em lugar algum.
Passava o dia inteiro de um lado para o outro
distribuindo currículos. Entrava e saia de lojas com, no
máximo, promessas para um futuro que cada vez mais via
incerto, não importava o quanto batalhasse, estava
perdendo as esperanças.
Depois de cinco meses nessa busca resolveu que
naquele dia não iria procurar emprego. Estava desesperado.
As contas, atrasadas. Haviam cortado o fornecimento de
energia elétrica, o que não fizera muita falta porque não

[ 98 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

ficava muito em casa, não via TV e a geladeira também


estava vazia.
Depois de perder quase todas as esperanças ele
decidira rezar. Suas economias estavam no fim e, por isso,
não foi à igreja que costumava frequentar. Saiu caminhando
sem rumo, desolado, procurando qualquer igreja aberta
para que pudesse fazer sua prece: pedir para que alguma
empresa o contratasse.
Como tudo o que tem a ver com a religiosidade é
envolto em mistério, ele, misteriosamente deparou-se com
uma igreja cujo nome nunca tinha ouvido falar. Sabia que
era uma igreja devido ao letreiro grande na entrada e uma
faixa indicando os horários dos cultos. Ao se aproximar,
percebeu outra placa, menor, na qual estava escrito:
“PRECISA-SE DE FUNCIONÁRIOS”. Precisa-se de
funcionários?!!! Exclamou exultante. Ele jamais poderia
imaginar que suas preces pudessem ser atendidas antes
mesmo de serem feitas.
Quando entrou, procurou saber quem era o
responsável e como estava habituado, candidatou-se à vaga:

[ 99 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

— Bom dia, estou aqui por causa do anúncio do


emprego, muito prazer, Miquéias.
— Ah, Miquéias, nome bíblico. Ponto para você.
Muito prazer, meu nome é Felipe.
— Muito prazer.
— Então, você tem interesse na vaga que
oferecemos?
— Sim, claro. Tenho muita experiência com
atendimento ao público, gosto de lidar com pessoas, se você
me der uma chance garanto que não vai se arrepender.
— Você tem flexibilidade de horário?
— Claro!
— Tem algum problema em trabalhar nos finais de
semana também? Pagamos o triplo por esses dias.
— De forma alguma...
— Só para você ficar sabendo, se você aceitar
trabalhar aqui, informo que pagamos adiantado e você
recebe por dia trabalhado, mais o acréscimo de 20%, lanche
e dinheiro para a condução no horário de voltar para casa...

[ 100 ]

Nestor Pinheiro
Conta outro

porque às vezes as sessões se estendem um pouco. Algum


problema?
— Não, nenhum!
— Você tem disponibilidade para começar hoje?
— Hoje?! Claro, a que horas eu devo voltar?
— Volte às 19h. Mas tem uns detalhes que preciso
que você entenda. O trabalho aqui não exige muito, apenas
duas coisas: pontualidade e compromisso de permanecer
até o final das sessões. Caso você concorde, pode trazer
também sua documentação para darmos entrada nos
processos legais e assinarmos sua carteira de trabalho.
— Vou confessar que minhas preces foram
atendidas. Muito obrigado! Mas, o que devo fazer?
— Bom, na verdade nada!
— Nada?!
— Nada, você apenas vai vestir uma roupa temática e
entrar na sessão no momento exato em que nós indicarmos.
— Só isso?
— Só isso.
— E o emprego é meu?

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Nestor Pinheiro
Conta outro

— O emprego é seu!
— Então até à noite!
Miquéias saiu aos pulos e muito rapidamente estava
de volta a sua casa. Tomou banho cantarolando, dava
pulinhos de alegria e fazia trejeitos com a boca e com o
rosto, sempre como sinal de felicidade por, finalmente, estar
empregado. A sensação era tão boa que ele até se beliscou
algumas vezes para ver se estava sonhando.
Às 18h30 ele estava de volta à igreja. Impecável.
Penteado, arrumado e usando um perfume bastante
discreto.
— Chegou antes da hora! Muito bem! — Exclamou
Felipe.
Depois ele foi direcionado a um quarto com ar
condicionado. Lá havia uma bandeja com lanche, suco e
água. Havia também uma TV e um computador.
— Sua sala! — Explicou Felipe. — Todos os dias você
virá para cá, pode comer, descansar um pouco, se julgar
necessário e depois se trocar.

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Nestor Pinheiro
Conta outro

Ao dizer isso, Felipe fez correr uma porta embutida


na parede que dava acesso a um closet. Dentro, havia uma
fantasia muito bonita, com partes em couro, metal prateado
reluzente e tecido vermelho. Felipe explicou como vestir,
como fazer os ajustes para que a roupa se encaixasse com
perfeição e saiu para que o novo contratado pudesse se
trocar.
Quando estava pronto, Miquéias olhou-se no
espelho. Sentiu orgulho de si. Parecia até um ator de cinema
e, apesar de não entender muito bem o que faria, faria. Ele
era bom em decorar as coisas, aprendia rápido, e qualquer
texto que lhe dessem ele tiraria de letra, precisaria apenas
de dez minutos para realizar a memorização.
Logo depois Felipe voltou trazendo um escudo de
metal prateado na cor similar à que adornava a roupa. Assim
que Felipe teve permissão de entrar, elogiou Miquéias e
entregou-lhe o escudo. Explicou que não era preciso fazer
muito. Não havia fala para decorar ou sinais especiais para
fazer. A única coisa que ele tinha que fazer era entrar no

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Nestor Pinheiro
Conta outro

palco quando solicitado e aguardar até que sua saída fosse


solicitada.
Miquéias sentia como se tivesse ganhado na loteria.
Estava muito feliz, empolgadíssimo e percebeu que nenhum
outro emprego que pudesse ter parecia tão promissor,
rentável e tranquilo como aquele.
Admirava-se no espelho. Fazia caras e bocas.
Brincava com sua nova fantasia e aguardava a hora de entrar
em cena. Certamente todos os presentes admirariam sua
beleza e a forma como a fantasia caía-lhe bem. Desfrutou
das comidas que ali havia, sentou, comeu novamente,
estava satisfeito.
Finalmente alguém entrou e disse que estava na
hora. Assim que passou pelo corredor, ele viu Felipe de
terno e gravata, pregando ferozmente algo sobre as
injustiças do mundo. Ao se apresentar ante a plateia, ouviu
quando Felipe apontou para ele e exclamou:
— Olha lá, minha gente, o soldado romano que
matou o nosso Senhor.

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Nestor Pinheiro
Conta outro

Miquéias não entendeu o contexto, mas pôde ver


que havia ajudantes do pregador passeando nos corredores
da igreja com carrinhos. Neles havia pedras de diferentes
formatos e tamanhos. Os fiéis cercaram todos os carrinhos e
puseram-se a comprar as pedras. Tudo aconteceu muito
rápido, mas pelo que Miquéias percebeu as pedras menores
eram as mais baratas e o preço a ser pago por cada fiel ia
aumentando conforme o tamanho das pedras.
Na sequência, todos os fiéis iniciaram um
apedrejamento coletivo. Miquéias, instintivamente subiu o
escudo e protegeu os membros superiores e a cabeça, mas
ao fazer isso deixava toda a parte da sua cintura para baixo
sem proteção alguma. As pedras voavam cada vez com mais
força enquanto Felipe esbravejava ao microfone:
— Vamos fazer justiça!!!!! Vamos defender nosso
Senhor!!!
A multidão parecia estar enlouquecida. Pedras e mais
pedras vinham de todas as direções acertando-lhe as coxas,
as pernas, a canela. Miquéias até ouvira uma senhora que

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Nestor Pinheiro
Conta outro

aparentava uns 70 anos gritar de prazer ao acertar em suas


partes íntimas.
— Toma, seu seboso! — Exclamou a mulher.
Instintivamente, Miquéias baixou o escudo, mas era
tarde porque a dor já o consumia e, naquele momento,
percebeu a bobagem que havia feito. Pedras e mais pedras,
numa verdadeira chuva de meteoros alcançaram-lhe as
partes superiores.
Ele voltou a erguer o escudo, quando,
repentinamente, as luzes começaram a tremer e o som do
que parecia ser um trovão ecoou em todo ambiente. Todos
pararam. Felipe, com voz extremamente suave indagava a
plateia:
— Vocês acham que isso está certo? Vocês servem a
que Senhor? Olhem, isso não é coisa que se faça! Amém?
— Amém! — Respondia a plateia em uníssono.
— Amém, irmãos?
— Amém, pastor!
— Então vamos consertar as coisas... porque esse
indivíduo que matou nosso Senhor... QUE MATOU O NOSSO

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Nestor Pinheiro
Conta outro

SENHOR ainda está de pé? Qual o tamanho da fé de vocês?


Vocês têm fé?
— Sim! — Berrava a multidão.
— Vocês têm mesmo fé?
— Siiimmmm! — Vociferavam todos.
Então Felipe fez um sinal de mãos e mais ajudantes
entraram com novos carrinhos nos quais a menor pedra
parecia ser do tamanho de um paralelepípedo.
— Irmãos, vamos punir esse herege, esse enviado do
encarnado. Comprem suas pedras e façam justiça pelo nosso
bom Senhor. Amém?
— Amém!!! — Gritavam todos enquanto novamente
corriam até os carrinhos.
E mais uma vez a chuva de meteoros iniciou-se.
Miquéias sentiu pouca coisa depois disso. Tudo que se
lembrava era de acordar em um hospital com um jarro de
flores a seu lado e um bilhete que dizia: “Amanhã à noite
iniciaremos dez minutos mais cedo. Até lá!”.

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Nestor Pinheiro
Conta outro

Estranho

Dermaniellison Jerry apaixonou-se. Casou com


Creuzermodete. Seus pais, Renofrenildo e Termalinalva, no
início, não se deram muito bem com os pais da noiva... mas,
com o tempo, Jerobosvaldo e Vicatrécia souberam ganhar a
amizade de todos e então eles tornaram-se uma grande
família feliz.
Ribocrenildson e Jurumpitástica, que eram amigos da
família, foram convidados para apadrinhar a criança que
estava para chegar. Todos davam sugestões de nomes, cada
um mais lindo que o outro!
Finalmente, quando Dermaniellison e Creuzermodete
souberam o sexo da criança decidiram o nome do bebê e
resolveram informar a todos os familiares:
— O menino se chamará Pedro!
E todos comentavam:
— Que nome estranho!

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Nestor Pinheiro
Conta outro

Sobre o autor

É mestre em Letras, pós-graduado


em Língua Portuguesa e Literatura
Brasileira e graduado em letras. Trabalha
como educador no ensino fundamental,
EJA e ensino médio nas redes municipal e
estadual de ensino em Pernambuco. O
autor também possui artigos publicados
em revistas especializadas em educação,
ensino e linguagem, capítulos de livros na
área da linguística além de vários ouros
textos literários.

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Conta outro

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Nestor Pinheiro