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DEDALUS - Acervo - FFLCH-FIL

OS Nordestinos em Sao Paulo:


CIP-Brasil. Catalogação-na-Publicação 325.981
Câmara Brasileira do Livro, SP Vários N832
e.3

,Os nordestinos em São Paulo : depoimentos / [organiza-


\ \\\\\\ \\\\\ \\\\\ \\\\\ 1\\\\ \\\\\ \\\\\ \\\\\ \\\\\ \\11\ \\\\\\11\\1\\
N753 dores Antônia Alves de Oliveira ... et al.], - São Paulo
21000018137
Ed. Paulinas, 1982.
(O povo quer viver ; 3)
1. Migração interna - Brasil I. Oliveira, Antônia Alves de.

17. CDD-920.93013298155
18. -920.9301326098155
,,-
82-1491
17.
18.
-301.32981
-301.3260981- OS"'NORDESTINOS
Indices para catálogo sistemático: EM SÃO PAULO
1. Brasil : Migrações internas : Sociologia
301.32981 (17.) 301.3260981 (18.)
2. São Paulo : Estado : Migrantes nordestinos : Depoimentos Depoimentos
i Biografia 920.93013298155 (17.) 920.9301326098155 (18.)

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Coleçâo O povo QUER VIVER ti 6 O9 O


1. Promoção humana - princípios e práticas numa perspectiva cristã
Frances O'Gorman e Equipe Nuclar
2. Somos um povo que quer viver
Organização de Auxílio Fraterno (OAF)
3. Os nordestinos em São Paulo- depoimentos
Vários Autores
4. Construindo o poder popular
Plínio Arruda Sampaio Edições Paulinas

_I~
Organlzadores: Antônia Alves de Oliveira, Júlio Gomes Almeida, Miguel Mali·
foud e Silvana Cavichioli APRESENTAÇÃO
Autores: Waldir Tenório da Silva, Walter Gomes da Silva (Nen), Dionízio Soares
da Costa (Lourinho), Zelino Mendes dos Santos (Zé Bino), Alfredo Silva da
Costa, Francisco Pereira da Costa, Maria de Lourdes Aurélio' Costa,
Maria Margarida Lobo dos Santos, Elizabete Santos Costa, Berenice de
Jesus Costa e Antônio Silva (Todos nordestinos, migrantes de lplrá,
atualmente residentes em São Paulo ou que novamente já partiram
em busca da vida)

Assessoria da edição: Maristela Mafei

Capa e ilustrações: Adriana Magalhães Rocha

Revisão: Carlos Felício da Silveira


De uma forma assustadora, o problema das migra-
ções continua' a descaracterizar a vida tanto dos homens
que vivem no campo, como a dos que habitam na cidade.
Dados do último censo demográfico apontam que somente
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para o estado de São Paulo, na última década, vieram 3,5
milhões de pessoas; e que dos 13 milhões de habitantes
f'-J '3 ~ JJ da cidade de São Paulo, 6,5 são migrantes. n '. . ,)
Onde estão as causas deste êxodo, deste interminável>-
y 3 vaivém de pessoas que trazem consigo marcas profundas>', I.

de desespero, de desenraizamento e de violência? Ainda ba- '-)'\6


c
'.

seando-nos nos dados do censo demográjico de 1980, vemos


que no Brasil, na última década, 400 mil pequenas pro-
priedades desapareceram. Seis milhões de ex-pequenos pro-
prietários, ex-posseiros ou arrendatários, e mesmo colo-
nos, foram levados a deixarem suas terras e partir para a
cidade em busca de arrimo.
é"

., O mais prejudicado dentro deste quadro, sem sombra


'i de dúvida, é o migrante. E o homem humilde, o homem
, expulso de sua terra e que na cidade vai ser vítima do
) desemprego, da falta de moradia, do desrespeito aos di-
reitos humanos, da fome ... E este homem sofrido, espo-
liado, que o livro, que ora apresentamos, retrata.
Como muitos poderiam pensar em uma primeira re-
flexão, não se trata aqui de uma obra que parte de pres-
© Edições Paulinas, São Paulo, ,1982' supostos teóricos em busca de explicações para uma rea-

5
lidade que tanto nos preocupa. Desta vez é o próprio mi- tados para o amparo à população migrante. E com satis-
grante que pára, senta para conversar com outros, e deixa fação, por fim, que vemos alunos de nossas universidades
expressa a denúncia sobre o ritmo, as condições e a remu- - que vinham demonstrando grande distanciamento dos
neração de trabalho extremamente desumanizantes a que problemas do povo - dedicarem-se à tarefa de comunhão
foi submetido. Através da frase não concluída, da revolta com os que vivem na periferia, trazendo à tona a realidade
contida, da possível apatia ou de um engajamento cons- injusta vivida por seus habitantes.
ciente, o migrante mostra em que resultou a desagregação
do seu universo cultural - povoado de tradições populares
e de convicções baseadas na solidariedade -, processo a Paulo Evaristo, CARDEAL ARNS
que foi submetido na cidade. .
São Paulo, 3 de abril de 1982
Para enfrentar as hostilidades, este homem, que veio
para a cidade em busca de sobrevivência, apega-se a pou-
cas, mas sólidas amizades. E com os amigos que desabafa
o seu cansaço, expõe suas angústias e encontra forças para
crer em perspectivas melhores. Através deste contato, e
ainda do que mantém, enviando notícias daqui e receben-
do notícias de sua terra, o migrante estabelece nr® inter-
minável ...da esperança, mostrando que ela subsiste e se
torna força de resistência mesmo nas situações mais adversas.
O livro em si, por sinal, representa um ato de espe-
rança - esperança porque denuncia a espoliação a partir
dos espoliados, fazendo com que eles reflitam e conver-
sem sobre o problema, e esperança porque será remetido
aos migrantes em potencial, àqueles que estão encontran-
do, em escala cada vez mais crescente, dificuldades em
permanecer em seu local de origem.
Em nossa apresentação, existe ainda outro ponto im-
portante a ser lembrado. A Igreja, no ano de 1980, alertou
para o problema das migrações através da sua Campanha
da Fraternidade. O próprio lema - "Para Onde Vais" -
lançou a semente. Mas como toda semente, esta também
precisa ser levada adiante, precisa ser carinhosamente cul-
tivadapela Igreja em todo o país. No entanto, o que se
tem feito de encaminhamento concreto do migrante para
a vida na cidade ainda é muito pouco. Esperamos, assim,
que este livro incentive a criação de novos trabalhos vol-

6 7
Ir:

.õ. IllSTORICO

Este livro são J.t:ªl1scrições e comentários de diálogos,


,~
.1, fruto de encontros entre" atgrrrrs-moraclõfeSao mumcípío
de Cajamar, SP (km 29 da via Anhangüera), bairro Pol-
~ vilho; são nordestinos vindos da cidade de Ipirá, sertão
~ da Bahia, operários metalúrgicos ou trabalhadores em
frigoríficos.
Ao iniciarmos os encontros, não éramos de todo des-
conhecidos no bairro porque Júlio (um de nós) já tinha
amigos ali desde 1976, quando veio de Ipirá e trabalhou
~ no frigorífico da região. Foi ele quem n0S convidou a
conhecer o pessoal dali e ver as possibilidades de iniciar-
mos um trabalho junto àqueles migrantes.
A nossa intenção era conhecer melhor a realidade do
bairro e das pessoas com quem estávamos entrando em
~ contato, procurando criar laços de amizade que nos tor-
nasse possível refletir juntos sobre a vida como migrantes
e operários, sendo assim duplamente injustiçados: através
da exploração de sua força de trabalho e através da desa-
propriação de sua cultura.
Polvilho é um bairro que cresceu muito nos últimos
anos, tanto em população quanto em número de fábricas.
As ruas são largas, desorganizadas e todas de terra -
lugar de muita curva e ladeira. As casas são pobres e pe-
quenas, e em muitas delas, nos fundos, são construídos pe-
quenos quartos que são alugados para os operários que

I,
I trabalham por perto.
Como membros das Comunidades Universitárias
Base - pastoral universitária - achamos importante que
os encontros se dessem na Igreja local (capela N. Sra. de
de

Alegria), para que não fossem paralelos à vida da comu-


nidade daquele bairro.
As pessoas que compareciam aos encontros tinham
características bem diversas. De um lado, os casados, com
família residindo no bairro, tendo uma postura de com-
promisso, se posicionando de forma mais decidida frente

11
t

••••••
à realidade. De outro lado, os solteiros ou casados, cujas
famílias residem na Bahia e, em vista da perspectiva de
voltar o quanto antes à sua terra, encaram suas condições
de sobrevivência em São Paulo como provisórias.
No primeiro encontro, conversando sobre a vida em
São Paulo, um dos participantes do grupo (Nen) sugeriu
que se organizasse um livro que pudesse transmitir à sua
gente em Ipirá, a situação em que cada um vive em
São Paulo. -
I.a Parte:

.1. Para que serve este livro?


I:
/ I1 Reunir-se para conversar sobre a vida e elaborar este
livro foi uma oportunidade para fortalecer a amizade,
POR QUE RESOLVEU VIR
criar o costume de se encontrar e refletir sobre a própria
história, permitindo assim, estar atentos ao próprio modo PARA SÃO PAULO?
de vida. O livro tem por objetivo estender estas conversas
a tantos outros: migrantes em São Paulo, nordestinos em
sua terra, e tantos quantos estejam preocupados com o
problema da migração em nosso país. Pretende, então, in-
centivar experiências de encontros semelhantes nos vários
ambientes: na roça, nos bairros, nas escolas, fábricas,
comunidades eclesiais de base ...
B muito importante que estes depoimentos sejam lidos
com atenção às palavras e expressões que aparecem, pois
elas refletem uma maneira de se relacionar com as coisas,
com
,--
as --pessoas
--
e com__o~ mundo. gor isso as transcrições
~~12e.Íj~I!1totalmente a fala das pessoas, tanto no que se re-
fere à estrutura gramatical quente às expressões utilizadas. ,.
. No final, aparece um apêndice escrito pelo Pe. Luís
Basségio, do Centro de Estudos Migratórios de São Paulo,
abordando, com base nas experiências destes moradores
de Cajamar, a questão da migração de um ângulo analí-
tico e geral, oferecendo subsídios para os que desejarem
compreender o fenômeno em seus pontos fundamentais.

Os Organizadores

12
~

~"
INTRODUÇÃO

\'i~;W'

No decorrer das conversas sobre como 'resolveram vir


.~ '.~
-i-••...~::.\J,' .'!tf.&~" para São Paulo, podemos notar vários problemas que di-
~~j~~ .•
reta ou indiretamente promoveram o abandono de sua
terra e sua gente, tais como o sistema educacional defi-
.~:,.~p""
ciente, o problema da cercagem das terras, diminuindo
as possibilidades de trabalho na lavoura, e ainda a influên-
cia da propaganda de São Paulo como o lugar maravilhoso.
Na verdade, o processo de migração não se dá direta-
.~
mente da roça para São Paulo, mas da roça para a pe-
quena cidade do interior do estado, e daí para as grandes

I-~r-->"
cidades. Em cada fase deste processo, estes problemas
vão sendo vividos de formas diferentes.
Do grupo, poucos puderam estudar até o final da
quarta série, antigo primário. Os que conseguiram entrar
na escola tiveram de parar de estudar por diversos moti-
vos: ajudar os pais na roça, porque não havia escolas que
lhes dessem condições de concluir o curso etc. Quem mi-
grou para a cidade, mesmo que pequena, já sentiu, pelo
modo diferente de vida e possibilidades de trabalho, a limi-
tação da pouca escolaridade.
A cercagem da terra já não permite a criação solta,
que era importante para a subsistência dos trabalhadores
da roça. Precisando manter os animais em seu pequeno
'\ pedaço de, terra cercado, fica limitada a região do plantio,
ou é preciso se desfazer da criação, Não tendo condições
~
~
de subsistência nesta nova situação, emprega o pouco que
traz da roça tentando o ramo do comércio na pequena

15
cidade. Devido à limitada necessidade de casas comerciais L
no interior e à pouca oferta de trabalho, aí também o mi-
grante não consegue se manter.
POR QUE RESOLVEU VIR PARA SÃO PAULO?
O próximo passo é tentar a vida na cidade grande,
onde sempre ouvira falar de muitas chances de emprego.
A propaganda de São Paulo como grande centro industrial,
feita pelos meios de comunicação de massa e pelas pró-
prias pessoas que se apresentam como "vencedoras" por
estarem em São 'Paulo, exerce grande influência, princi-
palmente nos jovens do nordeste.

"Construí um bar para sobreviver na cidade"

, MIGUEL: Seria interessante se vocês contassem como era


a vida na Bahia, e por que resolveram vir.
LOURINHO: B o seguinte: minha viagem, acho que fiz
uma feliz viagem. Acho que foi um dia feliz
o dia que eu parti pra cá, porque através de conhecer outras
coisas que ainda não conhecia. conheci novos amigos e
isso para mim foi grande felicidade.
Em primeiro lugar eu comecei na roça; depois parti
para a cidade, morava só e enfrentava todo esse trabalho
sozinho. Depois é que minha irmã veio morar comigo.
Ela achou que estava muito pesado pra mim e veio me
.' ajudar. Ela depois foi crescendo, e a pessoa, tanto da
parte feminina como da masculina, depois dos treze anos
começa a complicar; começa a complicar a vida dela e a
do outro que assume a responsabilidade dela. Aí eu falei
pra meu pai: "B o seguinte: não dá pra mim ficar com
ela. Vocês vem tomar conta dela".
Na cidade, trabalhei de pedreiro, pintor, eletricista,
não sou um eletricista profissional, mas faço algum ser-
viço. Não tendo profissional qualificado, eu mesmo subs-

16 17
2. Os nordestInos ...
tituo. Então não tinha "trampo ". Trabalhei, também, em
casas comerciais, supermercados, farmácias, mas o "troco"
era pouco, terminei por construir um bar para sobreviver
melhor. No começo me dei bem, mas depois foi compli-
cando tudo. Então pedi que meu pai viesse para cá também.

"Na cidade também tem crianças maltratadas"

LOURINHO: Eu convidei meus pais para ficar comigo.


Achava melhor para eles e para mim. Aque-
le lugar é poluído, que a roça lá também é poluída, é
igualmente São Paulo. Eu achei que eles deveria vir.
JÚLIO: Gostaria que você explicasse melhor o que é o
poluído da roça: você falou e disse que é igual
São Paulo... .
LOURINHO: E que São Paulo a poluição de que se fala
é sobre fumaça, sobre agitação, sobre tanta
fábrica, tanto esgoto, tanto problema. Cresce esses males
através da afetação de fábricas, óleo, fumaça e esgoto, e
até insetos que são criados nestes locais. "Gosto de viver em lugar diferente da roça"
Na roça é poluído também, mas tem um pouquinho
de diferença: é que a poluição da roça é que as pessoas MIGUEL: Você disse que não estava se dando bem na
não são todas bem tratadas, igualmente o pessoal da cida- roça ...
de. As crianças não são bem tratadas como as que mora' LOURINHO: Não, eu não me dava bem. Uma por causa
na cidade. A água que se bebe não é bem cuidada como do trabalho, não me dava bem com o tra-
a água da cidade. Quer dizer, na cidade também têm balho, e outra porque não estudei, não aproveitei minha
crianças mal tratadas, mas aí é caso dos pais que não quer chance, não tinha oportunidade. Sou de baixo grau sobre
tratar. E isso que acho que é a poluição da roça. O tra- estudo; mas até o que aprendi, na roça não tinha condi-
balho é na agricultura e a pessoa se corta, se fura e, se- ções de aprender. Em segundo lugar eu gosto de viver em
gundo meu conhecimento, a poluição da roça é isso aí. um lugar bem diferente da roça, que tenha mais confor-
Eu pensei que deveria partir para outro lugar, para ficar to. Eu me esforçava em cada desejo, me esforçava para
mais insufocado, mais à vontade. encontrar. Por exemplo, se abrisse matrícula num colégio,
eu já me esforçava, se tivesse um grupo de pessoas falando
de alguma coisa que visse que servia pra gente, eu che-
gava para escutar, se visse algum trabalho de arte, eu
18; 19
chegava para aprender. Realmente não aprendi tudo, mas todo lugar mesmo. Tem que sair da cola do velho. Ficar
na cidade tem tudo isso, na roça não tem. Só tinha meu só debaixo da cola do velho não dá.
esforço, não tinha uma ajuda suficiente para aproveitar Vim pela primeira vez em setenta e cinco. Fui em
tudo que encontrava. setenta e oito e levei dois anos sem vir aqui. Quando foi,
agora voltei.
MIGUEL: Você trabalhava era na cidade?
"Coisas boas a gente fala, coisas ruins a gente esquece"
TENÓRIO: Eu só trabalho quando venho pra cá, na mi-
TENÓRIO: Na roça eu não trabalhava. Meu avõ tirava nha cidade eu não trabalho. Vou pra casa da
. leite da fazenda para a cidade e quem carre- minha tia. Chego lá fico só dormindo, levanto dez horas,
gava era eu. Quando eu chegava da cidade, onze horas, onze horas.
meio-dia, eu ia botar água em casa, botar lenha ... Depois
minha mãe dizia: "Você não vai trabalhar não, que você
é magrinho, você é doente; então eu aproveitava aquilo ({Eu fazia as vezes de mulher
e ia passando o tempo. Mas depois foi pintando um ne- e não acho feio o homem fazer isso"
gócio meio diferente lá ná roça e fui obrigado ir para a
cidade. Eu tinha vontade de aprender dirigir e na cidade MIGUEL: Você fazia o que durante o dia?
foi mais ...fácil. Tô com seis viagem aqui e para mim é a
TENORIO: Bem isso aí é o seguinte: eu fazia às vezes de
mesma coisa da Bahia, para mim é tudo igual. A diferença
mulher. Isso aí não é feio a gente contar.
que tem é só o movimento, que aqui tem e lá não tem.
Minha tia saía, deixava a louça suja e quando chegava
LOURINHO: Essas coisas que aconteceram que fez você achava tudo limpinha, tudo lavada. Porque feio é ela sair,
vir para a cidade, fala um pouquinho ... deixar sujo, e chegar e achar sujo.
como você sabe, tem coisas boas e coisas ruins.
LOURINHO: E as vezes que você estava em casa, ficava
TENORIO: Coisas boas a gente fala, coisas ruins a gente ajudando sua irmã?
esquece.
TENÓRIÓ: É a mesma coisa. Minha irmã estuda à noite.
JÚLIO: Quero fazer uma pergunta para ver se o que você Eu .fico em casa cuidando dos meninos.
falou fica mais claro: você disse que tem seis Quando ela chega, acha todo mundo dormindo. Todo
viagens aqui. Por que você vem, por que você volta? mundo arrumadinho no seu lugar, direitinho. Casa bar-
rida, prato lavado. Eu não acho feio o homem fazer isso.
TENÓRIO: Pelo seguinte, chego aqui, começo a pensar
Feio é se o cara chegar, matar, roubar e sair por aí cor-
. na minha irmã, minha mãe, meus dois sobri-
rido. Aí é feio pra caramba. Mas fazer essas obrigações
nhos, como é que eles estão passando. Sabe que a gente
de casa, não.
foi criado tudo juntinho. Eu tenho eles como meus filhos.
Então, é por causa disso. Mas agora não, agora já estou LOURINHO: Qualquer trabalho, que sirva a gente como
pensando diferente. A gente tem que sair um pouquinho. um trabalho bom, é importante. Então tra-
Andar pra ver como é o mundo. A gente trabalha em balhar numa arte, trabalhar na agricultura ou você subs-

20 21
. \

\\
tituir uma dona de casa, tudo isso é um trabalho "Aí eu não fui mais na escola"
importante.
TENÓRIO: Exato. CHICO: Estudei até o quarto ano. Mas com muito insis-
timento, eu saí da escola e fui para a fazenda
que os amigos comprou; mas não é assim que o rapaz que
"A caatinga tinha muita terra solta, que criava", comprou a fazenda, comprou pra depois pagar. E ele foi
NICA: E você, Chico, veio pra São Paulo por quê? facilitando a pagar, não tinha condições para pagar logo,
e o dono foi se arrependendo e com isso chegou à conclu-
CHICO: Quer dizer que eu mesmo vim praqui porque são que o dono se arrependeu e desfez o negócio. A gente
sempre tinha visto muita gente: um vaivém, e já tinha criação lá e tudo. Quer dizer, a gente tinha direito
falavam: "São Paulo, São Paulo" e eu achava que São de tomar gado pra criar e ficava com a terça parte das
Paulo era uma coisa muito maravilhosa. Eu sempre tive na crias. Depois foi obrigado a entregar tudo. Aí eu não fui
idéia, - derna de garoto, conhecer São Paulo. mais na escola. Fiquei trabalhando na roça com meus
MIGUEL: O que falavam de São Paulo? pais. Fui lutando, lutando ... Depois chegou meu padrinho
e me chamou para trabalhar com ele. Ele morava em Feira,
CHICO: O povo falava, era falado, como é falado em Feira de Santana. Depois arranjou um local que só tinha
todo, tudo que vem fala que gosta e eu pen- fazenda, e essas fazendas tocava muitos trabalhadores. Meu
sava: "Todo mundo vai em São Paulo, eu quero conhe- padrinho sempre tocou comércio e até hoje ainda toca
cer lá". Em novo, eu morava com meus pais, trabalhava e montou uma venda neste local. Então todos compravam
na roça, trabalhei muito tempo. Comecei a estudar na ali, ninguém ia na cidade, que ficava ausente umas cinco
roça mesmo, mas através de lutar com bicho, negócio pra léguas ou mais. Aí fui praticando. Ele saía e eu tomava
o lado de gado, menino sempre fica influído naquilo, por- conta. Era um movimento intenso mesmo. Era um vendão
que eu mesmo gosto. Até hoje eu gosto. Lutar com coisas grande. Com o tempo, as coisas vão aumentando, tudo
de criação eu gosto ainda. Foi quando nessa emergência vão ficando ruim. Já aumentou mais o grupo de casa de
apareceu lá gente amiga da gente. Então comprou uma fa- comércio, que tinha poucas na região.
zenda num setor assim de caatinga, os filhos dele, tudo
colega. Até hoje são meus amigos. A gente criado tudo 1-\
junto ali. Influíram comigo e disse: "Chama Chico pra lá". " \',
"Vou vender a bicicleta e os bagulhos que tenho \

Nessa época a caatinga tinha muita terra solta que criava, e vou a S. Paulo"
\

C)--
ainda era pé alto. Pé alto quer dizer cerca de três fios de /(\
arame. Antes era tudo campo. Tinha pouco cercado. A CHICO: Trabalhei pra meu padrinho um bando de tem- V'
terra era toda solta aí, no campo e tinha cercada só para po. Depois não deu certo e eu saí. Nessa época \"
fazer aquela rocinha que nós tudo gostava de fazer. Com ~ eu disse: "Agora eu vou a 'São Paulo". Tinha comprado ~ ',.
isso me convidaram pra lá e planejei ir. Meus pais tiraram uma bicicleta. Ainda tava novinha, eu tinha equipado toda. a) 1
suor: "Não sai, não sai de tua escola". Com isso eu sinto Aí eu disse: "Vou vender a bicicleta e os bagulhos que c\" i')
até hoje. Que eu devia ter aprendido. Quando eu tava na eu tenho e agora vou pra São Paulo" . Vendi e fiquei por qtl lt..

escola, eu tinha boa cabeça para estudar. lá planejando para poder vim. Quando é uma vez, eu tava I~':'
'\) ~'
.~
22 23
na cidade e encontrei um amigo meu. Aí ele disse: "Eu "Olha, São Paulo é isso, São Paulo é aquilo"
tava te procurando. É que lá na fazenda a gente tem um
local que dá para botar uma venda. A gente vai montar JÚLIO: Eu vejo dois motivos de que o pessoal vem pra-
a venda e tu toma conta de sociedade". Eu disse: "Ah, não qui. Um deles é a condição de vida: o cara não
quero! Tô planejando ir pra São Paulo". Mas ele insistiu tem condição de viver lá. Ou não tem terra, ou o pedaço
muito, acabei indo. Cheguei lá e peguei a tocar essa venda. que tem é muito pequeno - com esse negócio de tudo cer-
Aí a gente foi tocando, tocando e chegou uma conclusão cado - você fica sem poder criar mais nada e é obrigado
no tempo, uns três mês depois que eu disse: "Sabe, não a vender o pouco que tem pra quem tem mais e vim
tô gostando não, vou desistir". Os velhos donos da fazenda, pra cá. Outro motivo é a propaganda. Quem já veio, chega
dona Maroca e seu Antônio, tomou muita amizade a mim, lá dizendo: "Olha, São Paulo é isso, São Paulo é aquilo"
e é assim até hoje. Eu tenho muito amigo nessa região e e o pessoal fica com vontade de vir.
foi através dessa família. A velha caminhou logo e foi
na minha casa quando soube que eu estava pensando em
viajar, e disse: "Olha, tu não pensa nessa confusão de tu "Eu lá participava da igreja,
sair. Tu é gente boa, tudo gosta de tu, fica por aí mesmo. mas aqui a situação é outra"
No que a gente puder a gente te ajuda, sossega, te calma,
fica por aí mesmo". JÚLIO: Tem gente que não precisa mas vem. Pra mim
, foram dois motivos: foi a vontade de vir e a con-
dição tam5~m~õera tanto não ter condição de vivTr
"Depois de casado, dei na idéia de sempre: lá~-mas eu queria estudar. Na minha cidade não era pos-
vim pra São Paulo" sível. Em Salvador, eu teria que trabalhar e, como lá
trabalho é mais difícil, resolvi vir pra cá.
CHICO: Resolvi ficar. Ele me vendeu a parte dele, fui Lá, eu era uma pessoa que participava da igreja, que
lutando; na época Deus me protegeu e logo é comunidade. ~a_si1ua~o era outra: eu tinha que
paguei. Fiz até um bom movimento. Através das coisas, trabalhar doze horas por dia.) e realmente era difícil. A
ficou uma venda muito falada. vida aqui não estimula a participação, antes dificulta. Só
Eu era solteiro. Depois enfrentei casamento com Eli- depois de três anos aqui, comecei a participar novamente
sabete!' casei e depois disso peguei desgostar, não querer da vida da igreja, a colocar minha vida nisso. Eu sinto
ficar com a venda. Já tinha até chamado um colega lá, que o mais grave para quem vem praqui ~ a perd~~os
que chamava Narciso e vendido tudo. Os velhos nem sa- costumes, a perda dos costumesxque lá tinha. Aqui já não
biam. Quando souberam fizeram desmanchar o negócio. tem aquelas festas, aquele samba, que o povo gosta lá;
Tornei insistir, fiquei por lá lutando. Depois de casado, já não há aquelas missas que vão até o fim do dia, onde
dei na idéia de sempre: vim pra S. Paulo. a gente passa o dia inteiro e é o lugar onde você encontra
Esse povo não são meu parente. É um meio de gente todo mundo da redondeza. Aqui é tudo apertado, tudo
assim. Todo esse povo me tem a maior atenção, como que corrido. Quando você vai num lugar não participa, é só
seja um irmão. E nisso fico muito alegre. Por fim, vendi para assistir o que os outros preparam. O que me preocupa
tudo e vim praqui. é isso: como é que a gente pode participar das coisas? Lá

24 25
por pouco que a gente fizesse, era participado, entendia
porque estava fazendo aquilo. Se fosse ajudar um ami-
go numa casa de farinha, sabia porque estava indo, se ia
numa festa sabia quem estava organizando e participava I 11
com gosto. Aqui não se sabe de nada, trabalha mas não
sabe para quem se trabalha, vai em algum lugar se diver-
I I ~ I !liQ
tir mas não entende muita coisa. Então fica difícil parti- li O
cipar. Queria resumir tudo isso em dois pontos. O primeiro -~-=wti=t= ~
é a propaganda de que São Paulo é isso, é aquilo; e o
segundo é o fato do indivíduo não ter condição de sobre-
I
viver por lá.

"A gente imagina mil coisas quando vem pra cá"


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MIGUEL: E Margarida, como é que pintou de VIr pra I


São Paulo?
MARGAR1DA: Eu sempre tive vontade de vim. Tava
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louca pra conhecer São Paulo. Todo pes- ' h __ ~

soal falou: "Oh, São Paulo é ilusão; cê vai dar cabeçada.


Lugar que é só serviço, muito poluído, muito cheio de "Carnaval já era - que eu adoro carnaval"
problema". Mas eu botei na cabeça que vinha, que vinha.
Na hora de pegar a condução pensei: "Vou ou fico, MARGARIDA: Vim lá do vinte e nove n
até aqui com
vou ou não vou? Vou me dar bem ou vou me dar mal?" a bolsa, andando, veio eu e o pessoal que
Mas eu falei: "Sempre tive essa idéia de ir, eu vou. Todo veio comigo. Eu cheguei no doze, uma chuva imensa. Tava
mundo vai e consegue, porque tem vontade consegue lutar horrível: cheio de lama. Fiquei uma semana sentindo falta
e vencer, por que é que eu não vou?" Aí vim. Veio eu, de todo mundo lá, vontade de voltar. Aí tinha uma moça
Lourdes de Mero, Nice de Jovino e mais uns dois rapaz, que trabalhava na firma onde trabalhei que disse: "Olha,
inclusive 'Zé de Tiotonho. Chegou aqui eu pensei: eu tem uma vaga que reservei para sua irmã, mas como
sei que não vou morar na cidade, sabia que meu irmão ela já está trabalhando, você vai ocupar o lugar dela".
morava no interior. São Paulo é bem diferente do que eu Aí fui e fiz a ficha. Gostei do serviço. Logo arrumei esse
pensei. A gente imagina mil coisas quando vem pra cá. que é meu esposo e a gente saía um pouco. Ia na casa de
Quando cheguei achei estranho. um, na casa de outro e fui me acostumando um pouco.
Mas que foi fogo, foi. Se eu não tivesse muita força de

(.) Refere-se ao quilômetro vinte e nove da Via Anhangüera, onde fica loca-

26
.
'
lizada Cajamar .

27
*'
vontade, acho que tinha voltado logo, logo. Lembrava das
minha mãe. Quando é um dia, meu sogro inventou de vim
amigas que deixei lá. Os fins de semana que a gente ia
e me disse: "Vou viajar dia dez". Digo: "Não sei se vou,
numa boate, numa festinha, aqui nada; ia no cinema, aqui
não sei se não vou".
nada. Eu ficava louca. Carnaval já era - que eu adoro
Tinha um documento do meu marido lá. Aí eu escrevi
carnaval. Tive que ficar aqui assim mesmo. No serviço
pra ele, se ele ia pegar o documento lá eu esperava, se
eu realizava meus sonhos, que era de me casar, ter minha
ele não ia eu vinha com meu sogro. A carta não chegou
filha - como tenho - e ter minha casa pra cuidar dela,
a tempo. Ele já tinha ido me buscar. Eu saí de lá na quinta-
da minha filha, do meu esposo. E eu consegui realizar o
-feira e ele saiu daqui no sábado. Eu cheguei aqui no do-
meu sonho. Hoje sou uma mulher realizada e muito feliz,
mingo, ele chegou lá na terça. Eu fiquei aqui, tentei tra-
I graças a Deus. Se eu tivesse ficado lá, sei que não tinha
balho, mas não deu certo porque tinha a menina. Agora
conseguido isso, porque lá é tudo mais difícil.
arrumei um servicinho aí e tô trabalhando um dia sim,
um dia não. Posso levar ela no serviço e tô por aí que-
brando um galho. O dia que eu quiser ir embora, tomo
«Às vezes a gente é obrigada a vim
por causa de um serviço" caminho.

MARGARIDA: Às vezes a gente vem praqui não é tanto


~ porque gosta, porque muitas vezes a gen-
te é até obrigada por causa de um serviço. Lá a gente tra-
balha, trabalha feito uma louca e não consegue nada. Aqui
a gente trabalha mais um pouco, mas ganha um pouco
também e dá pra você conseguir alguma coisa.
LOURDES: Graças a Deus entrou aqui de aluguel, hoje
não mora em casa de aluguel.
MARGARIDA: Hoje moro em minha casa própria, graças
a Deus. Sou uma mulher feliz.
MIGUEL: E pra você, Lourdes, como é que apareceu a
idéia de vir pra cá?
LOURDES: Meu marido inventou de vim pra cá. Era um
passeio para visitar a mãe dele. Chegou aqui,
resolveu ficar. Começou trabalhar no frigorífico e depois
foi trabalhar no serviço da Margarida.
Aí escreveu pra mim, pra mim vim e eu só dando o
fora pra não vim. Eu me casei e fiquei morando dois anos
com minha mãe. Ele veio embora e fiquei morando com

28 29
o'rnva OVS
- W~vaIA v
ounas v ~S~ OWOo
~
INTRODUÇÃO

o migrante, saindo de sua terra, afasta-se de sua gente


buscando melhores condições de vida. Na verdade não
encontra outro lugar que se torne o seu lugar, nem outra
gente que se torne sua gente. Sai de sua terra de origem
e não se estabelece no lugar de destino. Vive em uma
situação, mas tem o coração em outra. Isto é o que cha-
:düi~ff~~.,&frA' ..r/h-' mamos .de desenraizamento.
-~ := -- ~
As condições econômicas que o forçaram a procurar
novas situações de trabalho, acabam não sendo superadas,
~/./,.,.;t"//~'/////.i/'., ",;I;; " ./"/~
e a este fato soma-se outra agravante: o migrante perma-
/,
r,; ,4( ,/////;' ,.,// /'<"<Af!
nece distante da forma de vida, trabalho e amizade ante-
riores. O ambiente é diferente: as relações de trabalho -r
:;/ft/ (agora são empregados), a falta de amigos e da família, a
" comida (não é natural e nem fruto de seu trabalho), o
frio... Nesta fase das colocações predominam as compa-
rações entre as situações que vivem atualmente e as que
viviam no lugar de origem. A expectativa de São Paulo
como lugar de arranjar a vida, vai se desmanchando.
A submissão a um novo ritmo de trabalho, que impe-
de o homem de se relacionar com a máquina, com os
companheiros e com toda a realidade como sujeito do tra-
balho, é uma das experiências que mais desenraíza e fere
a dignidade do trabalhador. É por isso que Chico sente a
dificuldade de ser empregado, de submeter-se ao ritmo da
máquina, ao horário da firma, e de ter seu tempo de lazer
subordinado às exigências do trabalho.

33
3. Os nordestinos ...

..
Nestas condições em que os migrantes vivem em São n.
Paulo, os laços de amizade e de família são pontos de
referência fundamentais para orientar suas vidas na situa- COMO ESTA SENDO A VIDA EM SÃO PAULO
ção atual. Assim, Berenice decide junto com a família,
que está na Bahia, se fica em São Paulo para trabalhar
ou não; Lourinho diz que consegue ficar por causa da
amizade e da união que tem com alguns companheiros;
Lourdes fala da dificuldade em cultivar a amizade.
Mesmo num contexto de insatisfação, a relativa faci-
lidade de emprego oferecida pelos centros industriais acaba
determinando a permanência em São Paulo. Frente a esta
situação, o sonho inverte-se: agora o grande objetivo a
f ser alcançado é voltar para a terra de origem, para o con-
vívio com a natureza e para o trabalho baseado na « Quando viaja um, fica um pouco de sentimento
solidariedade. e se faz uma união"
!'.. Mas se o retorno passa a ser o grande sonho; resta
um problema: muitos acham vergonhoso "voltar sem ter LOURINHO: Tem um rapaz programando uma viagem
vencido na vida". Assim, permanecem na cidade grande, pra Bahia e tá todo mundo ajudando ele
esforçando-se para alcançar uma situação financeira que arrumar as coisas. Quando tem um grupo em algum lugar,
lhes possibilite retomar em melhores condições das que ti- quando viaja um, fica um pouco de sentimento e todo
nham quando saíram. Há ainda os que sentem saudades mundo ajuda aquele que vai viajar, fazendo arrumação,
de lá quando estão aqui, e daqui quando estão lá. Passam mandando recado pra família, mandando cartas, outros
a compreender o mundo e a si mesmos a partir da expe- enviando prêmios, outros grana. Então aproveitam essa
riência de migrantes, e a situação já não pode ser resol- hora pra se reunir, até se tiver algum com algum discon-
vida apenas com o retorno ao local de origem. Para solu- cordo, se não gosta do rapaz, nesta hora ele faz uma união:
cionar o dilema, o jeito, como diz Lourinho, "é viver nos aproveita a hora do bate-papo e vê alguma coisa que tem
dois lugares num só momento - um na presença e outro para enviar. Até que acho isso importante. Eu gosto de
no pensamento". viajar só por causa da saída, da saída de casa e daqui do
local onde vivo, pra partir pra minha terra.

"T ô aqui com saudade de lá


e lá com saudade daqui"

TENORIO: É o seguinte: saudade, quando a gente tá lá,


também sente dos amigos aqui. A gente chega
aqui não pode ficar parado, aqui em S. Paulo é muito

34 35 ~
"Em São Paulo tem pessoas especiais,
diferente da Bahia, aqui em São Paulo ninguém pode ficar
mas tem pessoas ruinzinhas"
parado. Se parar, morre de fome. Então a gente vem tra-
balhar aqui para sobreviver, não vem pra ficar muito JÚLIO: Esse tratamento melhor aqui, de que você fala,
tempo, aqui passa um mês, dois mês e vai embora. Eu vem de quem? Do povo de São Paulo de forma
estou com seis viagens e não tô pretendendo ir agora, não. geral ou de algumas pessoas específícas?
Vou esquecendo a Bahia pouco a pouco. Não demais; mas
vai saindo a metade da saudade. LOURINHO: É de algumas pessoas específicas que eu
encontro, porque o povo de São Paulo em
>- LOURINHO: Vim porque me defini para levar um tempo geral é muita gente. Se a gente for falar que todo pessoal
aqui. Da primeira vez só consegui levar de São Paulo é capaz de dar aquela consideração, aquele
quatro mês e dez dias. Então, quando eu cheguei em casa, amor, aquela união, é capaz de se estragar. Entre as pes-
eu senti vontade de voltar. Então eu disse: "O que é que eu soas que estão aqui, têm pessoas que eu posso falar com
faço para poder me acostumar lá? O que eu posso fazer elas e podem até me ajudar, mas tem aquele que pode até
é isso: usar os dois num só momento. Eu estou em São me assaltar. Então, amizade eu encontrei só em poucas
Paulo pensando na Bahia, então eu vejo os dois num só pessoas, quer dizer, através de mim também, porque se
momento. São Paulo, eu estou lá presente; e a Bahia eu eu fosse um mal elemento, essas pessoas não se aproxi-
uso no pensamento". Aí eu consegui encontrar um meio mavam de mim.
de demorar um pouco mais aqui.

"Duro é ficar prisioneiro,


"A cada dia que a gente vive, sem direito a sair"
encontra algo além do que viveu"
CHICO: Eu acho que a vida aqui pra mim é uma vida
LOURINHO: O tempo muda, e através do tempo se mu- mais corrida, agitada. Pra pessoa que vem pra
dar, a cada dia que a gente anda, e a cada aqui, que não tem estudo, eu acho difícil. Quem não tem
dia que a gente vive, a gente encontra coisas além do que estudo, não tem boa profissão, pra enfrentar a vida aqui é
a gente já viu. Então aqui eu achei um lugar mais impor- meio difícil. Então como eu trabalho nessa firma aí de sete
tante para mim levar um tempo. Até pelo amor, a união, a sete, eu acho uma dureza. Ainda mais pra mim que
até como as pessoas tratam a gente. Quando você leva um nunca fui empregado. Pelo que a gente é, a gente tem
tempo aqui, - por uma hipótese, seus pais não gostam que enfrentar tudo, mas meu destino é sempre dar um tem-
de você lá, - quando você chega, eles acham que você pozinho aqui e depois puxar o carro, se Deus quiser.
é uma ótima pessoa. Quando eu cheguei aqui, o pessoal O serviço, inclusive nesse lugar que trabalho, não é
nem mim conhecia, mesmo assim, estão me tratando bem, duro, mas eu acho que a gente fica prisioneiro, não tem
até melhor do que lá. E até tenho -tempo para conversar direito a sair, eu acho duro. É dia de trabalho, tem que
com pessoas mais legal. Então eu encontrei tudo isso que ficar ali dentro daquela firma. Eu lutava por minha
considero importante. conta; a hora que queria ir a qualquer local eu ia. Isso
aqui é difícil. A gente aqui tem de trabalhar mesmo. Já

37
36

••• 'rn L "'!'lIIl


não fui embora porque .não deu pra arrumar nada. Eu "Tõ pedindo a Deus pra mim voltar pra minha terra"
acho muito feio a gente vim praqui e chegar lá pior do
que saiu. Quer dizer, fazendo isso, tê até dando o que BETE: Eu vim porque ele veio, veio e depois mandou
falar de mim: "Olha, ele saiu daqui dizendo que era ruim, me buscar, eu vim. Toda vida eu tive vontade
voltou a mesma coisa ou pior". Então vou fazer um capri- de vim aqui em São Paulo, desde menina. Lá eu traba-
cho pra ver se arrumo alguma coisa. Pra, quando chegar lhava na roça, com meu pai, direto na roça. Não estudei,
lá, dizer: "Bem, ele foi, mas também não chegou aqui só estudei a cartilha, somente; não aprendi nada.
muito feio". Eu acho aqui muito diferente de lá. Eu andava doida
Mas aqui eu já tenho um monte de amigo, todos que pra vim aqui, e depois que eu cheguei tê pedindo a
trabalham na fábrica gosta de mim, tudo me tem atenção Deus pra mim voltar de novo.
e isso eu acho bom, de todos eu gosto também. Gostei do
modo de São Paulo. A diferença que eu acho é só que a NICA: O que você esperava aqui de São Paulo?
pessoa pra viver aqui sem estudo, a vida fica mais pesada. BETE: Eu pensava que era mais bonito. Quando cheguei
A pessoa que tem estudo já trabalha mais facilitado, tem aqui... lugar feio! Tê pedindo a Deus pra mim
mais uma chance de querer ter diversão, trabalha menos voltar pra minha terra de novo.
horas por dia. Às vezes quer ir na casa de um amigo,
fazer qualquer programa interessante; as pessoas que não BERENICE: E minha história é muito simples. Vim co-
tem estudo vivem aqui mas é difícil. nhecer, ver se S. Paulo era bonito como o
Eu também acho que sobre trabalho aqui é melhor. pessoal dizia, ver se em São Paulo se vive mesmo melhor
Pra lá também a gente tem, mas não é igualmente aqui. que na Bahia. Inclusive o salário é melhor mesmo. O de-
Então, emprego, para quem vive de emprego, eu acho me- semprego na Bahia é maior e o campo de trabalho tam-
lhor. Fico aqui, insistindo pra ver se quando puxar o bém lá é menor. Eu vim passear mas gostei e estou com
carro daqui, fico acomodado por lá mesmo. vontade de trabalhar. Estou indecisa por causa de meu
pai, tenho que saber resposta dele se trabalho ou não, es-
perando aí o que ele manda dizer. Escrevi pra ele e estou
"Vou esforçar aqui um pouco e voltar" esperando resposta. Não quero desobedecer a ele. Fui criada
CHICO: Já conheci o modo de São Paulo. Ainda que eu sempre naquele amor com meu pai: "Não trabalha; meu
tivesse condições de ficar aqui, eu não pensava filho não vai trabalhar; só quando crescer, tiver indepen-
eu ficar porque eu fico um pouco amedrontado. Tanto dente ... " Aí eu estou nessa espera. Penso em trabalhar e
problema que eu vejo falar e acontece. Penso até enfren- ele não gostar. Vou esperar a resposta dele.
tar um negócio por aqui, mas tenho medo, é tanto assalto.
Chego à conclusão que muitos perdem a vida. Não dá
pra enfrentar nada aqui. Na região da gente, como todos "Eu sempre venho na missa"
aqui conhece, a gente fica mais despreocupado, não tem
pavor a nada. Não digo de não vim aqui em São Paulo, MARGARIDA: Aqui tem bastante gente de Ipirá. Eu
porém só a passeio. Pra trabalhar aqui, ficar por aqui, tenho muita vontade de encontrar um
com fé em Deus, não. colega meu que sei que está aqui e não tenho oportuni-

38 39
dade. Tenório eu encontrei aqui; o irmão dele, que tam- É tão gostoso a gente voltar assim na terra da gente
bém mora aqui; os outros, eu nunca encontrei. depois de três anos, que vem de lá. Sempre tem alguma
Eu sempre venho na missa. Sempre tem bastante gente. coisa nova pra a gente ver. Tenho dois irmãos aqui. Um
Tem dia que ta lotado. Agora tem dia que tem menos tem doze anos e outro tem nove. Só foram lá uma vez du-
gente. O pessoal às vezes vai pra outro lugar. Mas é bas- rante o tempo que tá aqui. Não querem saber de lá de
tante freqüentada a igreja. Todo mundo que é cató- jeito nenhum. Lá não foi muito bom pra eles; e então, um
lico sempre gosta de ouvir a missa, de rezar um pouco, lugar que não foi bom pra gente, a gente não quer vol-
então sempre venho. tar mais. Mas eu não, eu adorei, adoro.
LOURDES: Agora as coisas lá tá melhor, mas no tempo
deles por lá também era mais difícil. Então
"Moro em São Paulo por causa do meu esposo" é isso aí. Chegaram aqui, acharam que era melhor, tam-
bém não voltaram mais.
NICA: Vocês gostam de São Paulo, é?
MARGARIDA: Eu vim passear. Cheguei aqui, eu falei:
LOURDES: Negócio de gostar sabe o que que é, Anto- "Se eu gostar e me entrosar, começar
nia, é que lá não tem firma que nem aqui. trabalhar, eu fico". Cheguei numa semana e na outra come-
O ganho lá é sempre mais curto. Então é por causa disso cei a trabalhar - aí começou a melhorar. Não é que eu
que o pessoal mais procura São Paulo - é pela grana goste totalmente daqui, mas por enquanto sou obrigada
mais; não é por gostar. Eu mesmo moro aqui não pra ficar, queira ou não. Ultimamente posso dizer que tô gos-
dizer que gosto, que quero ficar toda vida. Tenho fé em tando, mas se fosse pra escolher queria voltar a morar
Deus que um dia vou embora de uma vez. na minha cidade.
MARGARIDA: Eu moro aqui por causa de meu esposo. LOURDES: Eu dou opinião pra Zelito, meu marido, que
Já encontrei ele aqui. Casei e fui obri- ele tem razão de querer ficar amarrado aqui,
gada a ficar. Eu tô louca pra ir na minha cidade, mas ele porque tem a família dele quase toda aqui, mas eu tenho
não está concordando. Acha que não devo ir e que não razão de querer ir pra lá porque meu pessoal tudo está lá.
tenho mais o que fazer lá. Eu ia pra Ipirá agora na eleição. Então ele quer ficar aqui junto com os parentes dele, eu
Aproveitava para votar e via quem eu queria, meus ami- quero ir pra lá para junto dos meus. Então tem que con-
gos, as pessoas que gosto, meu pai e meus irmãos que trolar: um tem que ter um canto, outro tem que ter outro.
ainda estão lá. Mas ele já falou que se eu tiver de ir, só
vou nas férias - em maio ou junho. Vou esperar pra ver MARGARIDA: Ou então tem que fazer como eu: ficar
se maio ou junho ele concorda que eu vá. num só lugar. Meu esposo é mineiro. En-
tão ultimamente nem ele tem ido lá e nem eu tenho ido
NICA: Você trabalha? à minha cidade. Ele tá louco pra ir lá. Fica só imaginando
MARGARIDA: Eu trabalhava mas parei e ele não quer que quer ir comigo e a filha, todo mundo, mas não está
concordar que eu vá. E eu desde o ano podendo ir esses dias por causa do serviço. Se for, já viu:
passado, quando Lourdes foi, que eu tô louca pra ir e ele perde o emprego. Então só nas férias. Ou a gente vai pra
só amarrando, amarrando e não deixa eu ir. Minas ou vai para a Bahia.

40
41

iIIIli 11I
LOURDES: Para mim é muito mais fácil. Porque eu ja "Aqui qualquer época faz frio - é horrível"
tô aqui, o dia que pintar de ir, vai os dois.
Só uma viagem. Ela tem que fazer duas: pra Minas e MARGARIDA: Minha idéia sempre foi essa assim: lutar.
pra Bahia. As vezes tinha que levantar quatro e
I'I MARGARIDA: Tem que escolher uma. Quem sai per-
meia da manhã pra pegar o transporte para trabalhar. Pra
tudo a gente tem que ter força de vontade. Aqui eu acho
dendo, sou eu. Deixo de ir pra Bahia mais frio. Lá o clima é bastante quente.
porque ele quer ir pra Minas.
LOURDES: Lá qual é o tempo que a gente vai usar dois
cobertor pra dormir? Nunca, só se for daqui
pra frente, mas até agora não.
"Aqui tem que trabalhar em qualquer serviço"
MARGARIDA: Aqui dois, três, tem que usar.
MIGUEL: Você tinha falado que o trabalho lá é muito LOURDES: Qual é o tempo que tivemos que botar uma
diferente do trabalho aqui, como é que é? meia lá pra dormir?
MARGARIDA: Eu não morava com meus pais. Fui cria- MARGARIDA: A gente não pode nem vestir um sapato
da com uma família desde bem peque- fechado lá que já. sente calor, tem que
nininha. Eu fazia umas costurinhas para ganhar meu di- andar de sandália, à vontade.
nheirinho. Fora, eu não consegui arrumar trabalho, lá só
tem serviço de loja, farmácia, essas coisas. Ou então ser-
viço de roça ou qualquer outro servicinho assim. Aqui já "Aqui tudo tem que ser comprado"
é diferente. Você trabalha numa firma, numa casa de fa-
mília, ganha melhor. \ Lá não tem o que tem aqui. Não MIGUEL: E a Lourdes, você trabalhava lá também?
tem possibilidade nenhuma de ninguém vencer lá. Quem tem LOURDES: Eu morava no interior. Fui criada na roça.
um negocinho pra tocar, tudo bem. Quem não tem, Não é um terreno grande, mas tem de tudo
tem que trabalhar assim, nesse tipo de coisa. Só dá pra e tinha que cuidar daquele negócio: banana, batata, café,
os que chegam na frente. Quem não chega, fica sobrando. laranja, tudo isso. Então eu lembro as vezes que eu saía
Tem que vim praqui mesmo. Quem vem a fim de vencer, com minhas irmãs, todo dia, cedinho e ia todo mundo
trabalhar e enfrentar qualquer tipo de serviço, conse- pra roça. A gente ia pra casa de farinha, é preciso muito
gue vencer. tempo pra fazer farinha. Então eu lembro assim, quando
No começo é tudo difícil. Trabalhando, juntando um eu olho aqui, e nem pra gente comprar tem.
dinheirinho, tem que ser um tipo de coisa assim. Agora se só
veio a fim de luxar, ir pra cidade curtir discoteque, essas MARGARIDA: A gente tem vontade de comer das coisas
e não acha. .
coisas, não consegue nada, fica nessa vidinha mesmo.
LOURDES: Quando eu vou lá sempre eu trago, mas não
tem condição de trazer tudo, - estraga.
Tem tipo de beiju mesmo, o torradinho, dá até pra trazer.

42 43
Mas beiju mole não dá, - estraga. Tem que comer
quentinho. ((Lá na Bahia é tudo mais sadio"
Eu lembro que a gente reunia quatro, cinco famílias
numa casa sozinha. A casa de farinha é uma casa bem MARGARIDA: Você vê, pra criar um filho lá na Bahia
enorme de grande. Então reunia aquela turma. A gente se é muito mais sadio, é muito melhor de
ajudava e quem ia acabando, ia ajudando as outras. Quan- criar, porque ele tem mais liberdade. O clima é mais quen-
do terminava, cada qual ia pra suas casas, outras ia para te, tem tudo fresquinho - como ela falou. Então tudo é
a cidade vender aquele bucado de coisa. Minha mãe ven- mais sadio que essas coisas gelada, que fica tanto tempo
dia e a gente ia ajudar ela vender. O que a gente tinha, _ na geladeira e perde o sabor, perde a vitamina. Um leite,
tinha não, até hoje tem, graças a Deus -, por eu não por exemplo esse de saquinho, que vitamina a gente pode
tá lá mas os outros têm. A gente lá tem tudo pra pegar . encontrar num leite desse? A criança vai ter que continuar
em suas mãos, comendo fresquinho da hora. Aqui tudo raquítica, magrela e sem saúde. O leite da Bahia é dife-
que a gente quer tem que ser comprado. E a gente tendo rente, - é tudo na hora.
o dinheiro ainda não acha aquilo que a gente tem vontade.
LOURDES: O leite é tirado do peito da vaca na hora.
Lá a gente chega assim na roça, pega aque-
"São Paulo é muito diferente: les cacho de banana tudo maduro, os passarinhos comen-
a gente procura amizade, - nem liga" do ... acho mais saboroso. Tudo assim: pegar fresquinho,
na hora.
LOURDES: Júlio trabalhava no motor. Era operador de
motor, jogando água na cidade, o motor puxa
água do poço artesiano. A casa de farinha era perto e a "Cidade grande só é bom pra trabalhar,
gente ficava na casa de farinha a noite inteira, - eu e mi- mas tá difícil de encontrar serviço"
nhas irmãs, meus amigos. Júlio juntava os colega dele e
ficava a noite todinha fazendo beiju. Ele ensinava pra MARGARIDA: Cidade grande só é bom mesmo pra tra-
nós, contava história até quando a noite passava. Então balhar, porque oferece serviço pra gente.
era muito feliz aquilo. Então a gente chega aqui, encontra- São Paulo é uma cidade onde você consegue um pouco de
mos vocês de amigos, vão na casa da gente e prosa um serviço. Ê por isso que todo mundo vem. Mas até São
pouco, distrai a gente. Porque às vezes a gente encontra Paulo ultimamente está ficando horrível: todo mundo de-
gente, procura amizade, - nem liga. A gente acha com- sempregado e cada vez mais difícil encontrar emprego, -
pletamente diferente. até pessoas roubando. Teve um dia aí que um senhor foi
Eu tô com saudade de lá, das coisas que a gente fa- roubar um banco pra pagar uma dívida, ele foi despedido
zia. Ainda peço a Deus que um dia vou morar lá de novo. do serviço. Tanta gente foi presa. Depois ficaram com pena
Eu tô aqui com dois anos e já fui passear lá duas vezes. dele. Reuniram a turma e conseguiram pagar a dívida dele,
Então eu. posso ir morar lá e vim aqui passear também. porque viram que ele fez aquilo por necessidade.
Meu pensamento é esse. Quem tiver seu serviço, consiga, faça tudo bonzinho,
em paz, pra eles não mandar embora, porque pra arrumar
outro tá difícil. Eu tenho o meu esposo - ele é muito
44
45
nervoso - de vez em quando ele tem uns quebra na
firma. Ele fala: "Eu devo me conformar porque não dá;
se perco esse, onde é que vou arrumar outro igual, pra
ganhar bem como ganho?" Não encontra. Porque ~ no
serviço tão mandando embora, imagine quem vai arru-
mar ainda.

III~ Parte:

1I

1/ DIA COMUM
DIA DE TRABALHO

I
I
1111

46
INTRODUÇÃO
.~
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1
1101

I~:I
1\

, ,_ .. A partir da resposta de discussão de como se dá um


dia comum em São Paulo, foram feitos depoimentos deta-
lhados sobre o dia de trabalho, com seus anseios, proble-

10 001
00
1
1
mas e desafios. Para facilitar a compreensão da situação
relatada, as conversas foram organizadas da seguinte
maneira:
1. O dia comum de trabalho da mulher
.0 2. Motivos de trabalhar
o O 3. O que o trabalhador faz quando não está no serviço
4. Como é o serviço
O 5. Ritmo de trabalho
6. O salário
7. Os direitos do trabalhador (registrados e não
registrados)
8. O relacionamento dentro da firma
I I 9. A organização entre os funcionários

O dia de trabalho, além de ser visto como o cumpri-


mento de uma série de atividades, é também encarado
como um conjunto de relações que faz com que cada um
viva um dia de humilhação ou de construção da sua pessoa.
Quanto a este aspecto, é nítida a diferença entre o
trabalho das mulheres e o dos homens. As mulheres, que
se dedicam mais ao trabalho de casa, fora da estrutura da

49 a

4. Os nordesti nos...

II1 :

~
/ firma, fazem uma experiência de trabalho mais humano. -a-dia. O trabalho pode, então, ser fator de desagregação -
Isto fica claro, por exemplo, quando Lourdes demonstra se a experiência é de promoção do individualismo, de agres- /
/
o prazer que sente quando põe o que possui à disposição- sividade e de humilhação, e pode ser fator de solidez e cres-
dos vizinhos, ou quando descreve o carinho com que cuida cimento se as pessoas se reconhecem como sujeito =..
J da filha. Já os homens, submetidos à estrutura da firma,
falam de seu trabalho com o ressentimento de' quem está
seu trabalho.
Para a situação do migrante em São Paulo, é de fun-
sendo explorado, usado e humilhado. Em suas colocações, damental importância o relacionamento com os compa-
falam da esperança de algum dia «deixar de picar cartão nheiros da firma, com a família, com os amigos, para que
para os outros", e trabalhar por conta própria. se possa se posicionar de maneira firme e criativa na
Vindo de uma realidade onde o trabalho, mais do transformação das relações de trabalho, desde os detalhes
que realizar tarefas, é também viver de maneira comuni- até sua estrutura.
tária, ao fazer parte da estrutura da firma, o_J!lig!ante
--r- sente-se oprimido e humilhado pelo sistema de produção
.. que reprime qualquer gesto que não seja para este fim,
- até mesmo conversar com os companheiros.)
Mas o relacionamento com os outros é vital. Mesmo
com as dificuldades impostas, procuram uma maneira de
estabelecê-Io. Por isso é importante, no momento em que
ele sai da máquina para buscar peça, aproveitar para con-
versar com os colegas. E no frigorífico, a turma dá o seu
jeito de burlar a chefia para se encontrar. São desses rela-
cionamentos que nasce a solidariedade entre a «turma
miúda". É daí que pode surgir a possibilidade de cada um
se posicionar defendendo seus direitos e sua dignidade.
Seria muito limitado encarar estes relacionamentos apenas
como uma forma de abafar a dureza e o sofrimento da
situação de trabalho.
Se, por um lado. a relação entre as pessoas na firma
define o posicionamento frente à situação de trabalho, por
outro, define a própria pessoa no seu dia-a-dia. E é por
isto que a. solidão de Bete é uma situação injusta; é por
isto que é tão grave que Alfredo seja explorado na relação
com o chefe; e é por isto que Zé Bino fica "agitado e sem
alegria" para a luta. Sendo o trabalho o principal motivo
de as pessoas terem vindo para São Paulo, é justamente o
que elas vivem no trabalho que é fundamental no seu dia-

50 51
II!.

DIA COMUM: DIA DE TRABALHO

1. Dia comum de trabalho da mulher

U Desde quando me convida, eu acho que gosta de mim"

LOURDES: Para mim mesmo, o dia de ontem foi impor-


tante. Ontem só não, desde quinta-feira que
estou nesta luta; a vizinha foi casar ontem, me chamou,
fui ajudar no bolo, fazer o salgadinho, fazer bastante coisa.
Então ontem amanheci o dia, levantei cedo, varri o quin-
tal, fui em Perus. acertei uns negócios lá que eu tinha,
cheguei onze horas, fui no casamento, cheguei em casa,
fui deitar às doze horas. Hoje já levantei cedo, já arrumei
a casa, já vim na feira, já tô aqui de novo com vocês, já
tô a fim de passear de novo. Deve ser importante, né?
Acho que para mim é uma alegria. Desde quando que me
convida, eu acho que gosta de mim, tem prazer, né?
Da Nilda eu cuido com todo carinho. Vê que ela vai
fazer quatro anos e ainda tá no colo, ó! Toda vez que
vocês me encontram é com ela no colo, não é? As coisas
que ela pede para mim, eu podendo eu dou e tenho prazer
de dar. Então para mim tem sido maravilhoso esses dia,
apesar da gente ficar cansado, enfadado um pouco, mas

53 -
a gente tem prazer que passou alegre, né? Não teve nada e eles pega água o dia inteiro. Gente vai lavar lá, lava
para enraivar a gente, a gente fica satisfeito. por lá, depois leva a roupa para secar em casa. E
desse jeito.
MIGUEL: Normalmente como é no dia-a-dia?
BETE: Minha casa não vai ninguém, é muito longe. Passo
LOURDES: Ah, logo cedo levanto, o dia que eu vou tra- o dia sozinha e Deus. Depois que mudei pra cá,
balhar eu levanto mais cedo. Aí agora le- trabalhei só um mês, não foi, Chico? Ando louca para
vanto, arrumo a casa, a Nilda fica dormindo, quando ela trabalhar. E que não arrumo serviço. No dia que achar
acorda, eu já dou água para ela, escovo' os dentes, lavo o um serviço caio dentro. Qualquer um serviço. Eu traba-
rosto, vou dar café para ela; aí vou lavar roupa ou limpar lhava mesmo era de casa de família, arrumava a casa.
a casa, fazer a faxina; quando dá meio-dia, se der eu des-
canso um pouco, se não der eu continuo trabalhando. O
dia que eu vou trabalhar eu levanto mais cedo, lavo louça,
varro casa, aí vou trabalhar, quando é onze horas eu "Apesar de ganhar pouco, entro e saio a hora que eu quero"
chego em casa, faço almoço, uma hora vou para o serviço
de novo, quando é quatro horas eu tô em casa. Aí vou LOURDES: Eu, falou para trabalhar, não enjeito serviço.
fazer janta, tomar banho, termina de jantar vou assistir O que vier morre.· Só não sei ficar parada.
novela até o fim e vou dormir. Vocês creditam que se eu ficar parada me adoece? Pode
crer, eu fico doente. Pego pensar muita coisa e vai cumu-
lando tudo, fico doente. Eu tando trabalhando, não, es-
queço de tudo que já se passou e vou lembrar daqui para
"Passo o dia sozinha e Deus"
a frente, né?
Eu trabalho de limpeza - em casa de família e no
BETE: Eu levanto oito horas, mais de oito. Fico sozinha. escritório aí. Tràbalho terça, quarta e sexta. Os outros
111'
Aí quando eu levanto, arrumo a casa e, como
não tenho mais nada para fazer, eu fico lá só sentada até dias tô em casa.
Eu trabalho a trezentos o dia n. Agora, eu que con- }
a hora que for dormir. Quando ele chega eu faço a janta,
trolo. Deixo tudo pra receber no final do mês, sabe? Por-
dou para ele e aí não tem mais nada para fazer. No dia
que se a gente pega hoje - já pegou, já gastou, né? Dei-
que tem roupa para lavar, levanto cedo, termino a roupa.
xando lá pra receber tudo numa só época, recebe uma bo- .--J
O dia que não vai lavar, levanto meio-dia e fico o resto
do dia sem fazer nada, não tenho nada para fazer. lada melhor.
O meu serviço, apesar de ganhar pouco, vale a pena.
LOURDES: Não tem nem com quem conversar, não é, Entro e saio a hora que eu quero. Não tem ninguém para
Bete? Agora lá em casa não pára gente... é me aperriar, então não posso falar mal, né?
toda hora. A água já secou aqui na vila quase ... então
quase todo mundo vai em casa de manhã até de noite.
Pode ir lá sete horas da noite que tem gente tirando água.
O dia inteiro não falha gente, se eu tiver em casa é desse
jeito, se eu não tiver é a mesma coisa. O portão fica aberto (0) Referente ao mês de outubro de 81.

55
54
"A gente que é do interior, que já viu. A gente casou, tem filho, tem que parar mes-
não consegue ficar só dentro de casa" mo, né? Eu parei e não voltei mais a trabalhar. Agora só
em casa mesmo. As vez eu tenho vontade de voltar a
LOURDES: A gente que é nascido e criado no interior, trabalhar no mesmo lugar que eu trabalhava.
acostumado a trabalhar, acho que não con- A gente até acostuma no serviço, né? Eu acostumei.
segue chegar a tomar conta de casa, ficar só cuidando do Quando eu saí, eu senti uma falta enorme. Mas eu tenho
serviço de casa. Porque eu mesmo nunca quis ficar den- vontade de voltar a trabalhar de novo. Às vezes tô sem
tro de casa só pra trabalhar dentro de casa. À~ vezes as fazer nada em casa, fico sozinha ... Ele trabalha de dia,
minhas irmã reclamava, né? Falava assim: "Hoje eu vou eu fico sozinha até à noite ... E é chato Às vezes trabalha
trabalhar, você fica em casa". Digo: "Eu prefiro trabalhar à noite e eu tenho que dormir sozinha Isso é chato como
o dia inteiro do que ficar em casa". Porque o trabalho o quê. Quando a gente tá trabalhando passa mais o tem-
em casa é sempre mais difícil. Eu não parava em casa po, né? A gente já consome mais o tempo, diverte um
não. Não sabia fazer nada dentro de casa; minha mãe pouco no serviço ... Ficar só em casa, enjoa. Cansa a gente
cuidava, mas eu ia direto no outro: plantava feijão, plan- ficar SÓ naquele serviço dentro de casa. Quer dizer, eu
tava milho, plantava mandioca... Eu ia direto pra luta. tenho vontade de voltar a trabalhar por isso. Mas eu
Quando era tempo de limpar, ia limpar; quando era tempo penso: quando eu chegar em casa à noite, tenho que fazer
de colher, era pra colher ... Era direto assim. Agora ficar tudo de noite, cansada; e é muito pior. Então eu fico em
só dentro de-casa não dá não: tem de arrumar um quebra- casa. Já trabalhei demais. Agora vou descansar.
-galho daqui, um quebra-galho dali.. .
.\"'

"Quando chegar em casa,


IIIII1 tenho que fazer tudo de noite, cansada"
2. Os motivos de se trabalhar
MARGARIDA: Eu adorava ficar dentro de casa. A pri-
meira vez que eu trabalhei fora, foi aqui. "Fazendo plano de achar outro futuro melhor"
Também, a primeira e a última, porque ele já falou que
eu não vou trabalhar fora mais. Mas eu adorava ficar em ANTONIO: E o negócio é o seguinte, rapaz, que a gente
casa. Vige! Arrumar a casa é a coisa que eu mais gosto da trabalha aí mas fazendo o plano de achar
minha vida: é limpar a casa, arrumar ... Depois quando outro futuro melhor, mas parece que não vai... Trabalho
desarruma vira uma fera! mode a precisão, né? Há anos atrás aqui em .São Paulo
Quando eu cheguei aqui eu fui trabalhar numa fá- já deu, né? Agora todo ano eu vou embora, sabe? Todo
brica. Uma fábrica de eletro ... É uma firma Bracel. Tra- ano eu venho, todo ano eu vou embora. Mas pensando
balhei ali um ano e pouco. Eu fazia serviço de embala- de a vida assim melhorar, mas tô vendo a mesma coisa
gem. Embalava fio, testava, essas coisa toda. Depois fui de lá, sabe? A mesma coisa por causa que nós saímos de
trabalhar no laboratório - ajudante de laboratório: testar lá à procura do outro movimento melhor, mas realment~ /
fio na água, na luz, essas coisa. Depois pedi a conta, por- nós não achemos ainda, né? A gente procura, procura a/

56 57
subir num pau mais alto mas sempre cai. Aí só trabalho um chefe de família tem um compromisso com a família,
adoidado ... Se a gente acertasse 13 pontos um dia, né? nós que não tem família, nós temos um compromisso com
Aí ia ser muito melhor, né? a gente. Por hipótese, aquelas pessoas que têm um débito,
têm que trabalhar pra pagar. Eu não tenho débito mas ~>--
tenho que manter minha vida pessoal. Tô me esforçando
"O importante é a pessoa trabalhar" pra assumir aquele comproinissO_Que-4. rimeiro pra sobre-
viver, depois vestir, e terí a liberdadeque a gente só tem i
NEN: Eu tenho o meu dia-a-dia muito corrido, muita com o trabalho} Me sinto prisioneÍro lá dentro nessa hora /
correria, trabalho, amo esse trabalho que faço. Acho de trabalho, mas me sinto feliz porque realmente tô sendo/
que todas as pessoas que trabalham, seja qual for prisioneiro pra ter liberdade amanhã.
o seu trabalho, acho que deve amar o seu trabalho. O im- A liberdade é pra gente colher, - a gente vai colher
portante é a pessoa trabalhar. Então com toda a correria um fruto do que trabalhou, sabe? Por hipótese, você tra-
que eu tenho, me sinto feliz mesmo assim. Eu não tenho balha pra comprar um objeto, vamos supor, um carro.
. hora para chegar em casa, sabe? Para sair de casa eu Quer dizer que o carro vai representar pra você belezas, !J
tenho hora, agora pra chegar não. Mas mesmo assim me né? Então, depois que você tem aquele carro, - você
Isinto feliz."Í'enho saúde e a gente tendo saúde, podendo trabalhou e comprou aquele carro - aí você se sente
trabalhar ... ~Acho que o trabalho é o melhor amigo do liberto, você tem aquela liberdade, porque realmente o
homem, então, não é? Eu penso assim, não sei se todos que você queria você encontrou, através do trabalh~
-J pensam igual a mim .
.»:

"Pra um dia deixar de picar cartão pros outro"


;[- "Me esforçando pra assumir o compromisso de sobreviver,
vestir e ter liberdade" ALFREDO: A gente vai passando a vida assim, só enro-
lando, até que chega o dia que eu possa
LOURINHO: A gente dorme à noite, no outro dia tem ter uma melhora, né? e deixar de picar cartão pros outro,
um compromisso a assumir, que é o tra-· porque de trabalhar ... eu acho que não deixo de trabalhar
balho. Então todos nós temos um dever, esse dever de muito não. Mas se eu achar um negócio, um dia, eu posso
cumprir, de assumir esse compromisso todos os dias. Um deixar de picar cartão pros outros ... Com esse plano eu
desses que eu assumo. E quando durmo, bem que eu penso tô trabalhando, mas não sei se eu consigo. Tô trabalhando.
como esse outro dia eu tenho que assumir esse compro- É assim.
misso, qlJti~"o trahalhQ. Aí eu acordo pro trabalho; e de-
pois lá eu não me sinto preocupado porque tô trabalhando,
tô me esforçando porque realmente eu sei que nós todos
temos que trabalhar. Eu me sinto feliz com isso porque
é o seguinte: ali eu tô trabalhando pra manter a minha
vida, assumindo o compromisso que eu tenho comigo mes-
mo. Então eu me sinto bem com o trabalho. Assim como

58 59
3. O que o trabalhador faz quando não está no serviço os quatro juntos, então quando vou me deitar é onze e
meia, doze. Mas não perco horário, mesmo que deito doze,
até doze e meia, uma hora, é treis horas eu tô no ponto
"[á durmo sonhando com o serviço" novamente. Antes de seis torno picar o cartão, e entro
na firma e torno a trabalhar novamente. E até hoje ainda
ANTONIO: - O dia inclusive é isso: já eu durmo sonhan- não esperei ninguém me chamar nenhuma vez. O sono
do com o serviço, sabe? Na hora eu levanto não me atrapalha de maneira alguma.
aqui, já vou direto pra o serviço. A gente chega lá no fri- ANTONIO: Inclusivamente eu tenho chamado os outros
gorífico, trabalha o dia todo. Quando eu saio do trabalho, aí de manhã cedo, sabe? Acordar pra ir pro
a gente sai, pica o cartão e vai tomar um banho, sabe? A
serviço, né? Porque o outro chega assim: «Amanhã você
gente sai, pego a minha bolsinha e venho embora. Chego me chama". Digo: "Tá". Aí eu levanto de manhã cedo
aqui, fico aí estudando a noite, saio aqui fora, olho o
tempo, sabe? Depois digo: "É, tá na hora de ir deitar". e vou chamar.
Faço um lanchinho e ponho ele na barriga, aí vou deitar.
Vou deitar dormindo ... Quando é lá prás cinco e meia,
seis horas, já tô acordado.Eu acordo aquela certa hora. -------------- -- ----- ------- - II - -,
Tem dias que eu até deixo o rádio ligado até a noite toda
quando eu deito tarde, sabe? pra mode na hora o rádio
me acordar. É, acontece isso; que já mesmo me acordou
um dia desses aí que eu deitei era uma hora da manhã, e
-fi(>" I j IT T-~1) 1
tinha deixado o rádio ligado. Deixei e quando foi cinco L__--, . j 11 ~
e meia pra seis horas, aí eu tava sonhando que tava vendo N

aquelas pessoas conversando; sei que quando acordei era


o rádio. O rádio me acordou pra eu poder ir pro ser-
. '?
VIÇO, ne.

« Descansar a cabeça pra no outro dia estar no ponto" -,


',-
_"
ZÉ BINO: Bom, eu realmente tudo que encerrou o ser- "-"
<,
viço, é só chegar, picar o cartão, tomar ba-
nho lá na firma e vim pro quarto. Aí no barraco é só
aprontar a janta, tomo um cafezinho, descansar a cabeça
pra das quatro e meia a cinco eu estar realmente no ponto.
Dias que eu chego do serviço até oito horas, ainda
fico por aí arrumando uma coisa e outra e tal, e arruman-
do marmita até pros próprios amigos que moramos todos

60 61
T

"A gente conversa como era a nossa vida em Ipirá" TENÚRIO: Mais a gente vai quando tem jogo.
I"'I~ ANTONIO: Ou então os Trapalhões como no dia de
I,( ALFREDO: Nascido tudo junto, aí conversa assim até hoje. Eu mesmo já venho de uma tele-
I treis, quatro hora. Conversa sobre a nossa visão aí.
família lá, começa falar no nome, a gente que também
trabalhava lá, como era nossa vida lá, vamos dizer assim .
ia pra rua ... assim na festa ... vivia aquela vida tranqüila . "Quando a gente sai, se sente liberto
A gente conversa assim da namoradinha também ... daquele dia de trabalho"
Depois que nós sai do serviço, nós sai de tarde, bate
cartão, chega lá, toma banho, pega a mochilazinha, joga LOURINHO: Quando a gente sai do serviço, a gente
nas costas, vem embora, chega aí no barraco. Às vezes desce e depois a gente brinca com os ami-
a gente tem um som, vai escutar um som ali deitado; de- gos, toma banho e vai embora. Se sente bem porque tá
I, pois faz uma boiazinha, ranga, vai dormir pra o outro dia liberto daquele dia de trabalho que a gente teve. Quer dizer
~i
de novo não ficar muito cansado, porque você vai passar que quando a gente entra, a gente vai trabalhar: a gente
no outro dia ... entra meio pensativo, meio cansado porque vai trabalhar
" aquele longo dia sem ter horário de sair. Então quando a
gente sai, seja a hora que for, a gente sai satisfeito, brin-
I" cando com os amigo, toma banho e vai pra casa cuidar, se
"Faço minha marmita, no outro dia tá pronto" apreparar pra o outro dia. Os outro almoça na firma, eu não.
I"
Eu não gosto da comida da firma, então apronto a comida,
TENÚRIO: O meu dia é bem diferente: a primeira coisa fazer café pra o outro dia. A comida da firma é só uma
que faço quando levanto é escovar os dentes. simples comida mal feita. Tem simples comida que dá pra
Segundo: um cafezinho; depois a gente pega a mochila, gente comer, e aquela não. É uma simples comida mal
põe nas costas, pega o ônibus e vai pro trabalho, né? feita. É o seguinte: é o arroz mal feito, a carne mal feita
Eu saio do trabalho direto pra casa. Chego aí, tenho
feijão e arroz no fogo, fazer carne, daí a pouco chega e o feijão mal feito.
o Zé Bino e o Nen que quer jantar, então se chegar e
achar tudo pronto não reclama nada; eu vou e janto, faço
minha marmita, no outro dia tá pronto.
NICA: Faz a janta e vai direto pra cama? 4. Como é o serviço
TENÚRIO: Direto pra cama.
SILVANA: Vocês então não vêem televisão? "A máquina é quem faz"

ALFREDO: Televisão às vez a gente vai escutar na casa CHICO: Meu serviço lá é fazer cabo de telefone, é tor-
de meu irmão ali, na casa dos colegas... Às cer um fio com o outro, e faz o tipo de cabo
vez assim quando tem jogo, quanto a gente quer, né? que quiser. A máquina é quem faz. A gente só usa só para

62 63

~-
trocar bobina, colocar a bobina ... quer dizer que não é assim: se eu chego e entrego um cargo pra você é porque
trabalho duro, o difícil do trabalho da gente é ficar ali mais ou menos eu sei que você merece e tem responsabi-
prisioneiro direto. Eu fico, mas porque é o jeito, né? A_ lidade de assumir aquele cargo. Se você fosse uma pessoa
gente tem que enfrentar tudo mesmo. Mas que eu acho que não tivesse responsabilidade de assumir aquele cargo que
horrível. acho. eu tô te dando, então eu não daria pra você; procu-
rava outra pessoa e daria aquele cargo. Então já que eles
acharam que eu tinha responsabilidade de assumir aquele
cargo, então procuro fazer da melhor maneira possível,
para, vamos dizer assim, dar conta do recado direitinho,
fazer tudo dentro do regulamento .

. "No frigorífico faço todo tipo de serviço"

zs BINO: Eu faço bastante coisa porque começo a tra-


balhar sobre problema de sacaria, salgador,
jogador de manta ... Todo serviço que tem dentro da fir-
ma eu topo.
TENÚRIO: Eu sou lombador, né? Lombador é: chega
I o caminhão carregado e a gente coloca o boi
r, I nas costas e pindura lá. O peso depende do que tá mar-
I cado lá: setenta, oitenta, trinta, quarenta ... O que vier mar-
I
I _____.,-.-.-r--
~~c-~

-
cado a gente tem que entrar debaixo e levar pra lá, né?
MIGUEL: O dia inteiro você trabalha nisso?

i-
---------- _J TENÚRIO: Não, dia que chega caminhão. Dia que não
chega a gente fica salgando, arrastando carga
pra lá, pra cá, nisso aí a gente enrola o dia. Não é muito
..Meu trabalho lá não é pesado, difícil não. E só a pessoa ter prática e... não é barra não.
mas tenho muita responsabilidade"

NEN: Eu trabalho de porteiro numa firma, não vou dizer "Machucado, cansado... e o homem falando:
para você que meu trabalho é pesado, que nada (Vamos lá, rapaz!' "
eu não faço, mas é um trabalho que mesmo você não
fazendo nada, tem muita responsabilidade. Então por isso ALFREDO: Eu vim praqui em 80, a primeira vez que
eu tenho que cumprir com meu dever direitinho, para evi- eu vim aqui. Cheguei aqui, trabalhei só treis
tar que os meus superiores me reclame, né? Vamos dizer mês, trabalhei bem, quando passou treis mês aí eles falou:

64 65
5. Os nordestinos ...
"Tá dispensado. Aqui não tem mais serviço, vai embora.
Quando tiver serviço, você vem". Então em janeiro eu vim
' '1 e tô aqui até agora. Aí eu vim e não fui trabalhar direto
no frigorífico. Fui trabalhar em outra firma, lá em Santo
Amaro ('). Trabalhei dois mês, achei que tava mais ruim . .~-.' ~-:.-~:;;~:- ~~-.
do que aí, então eu entrei aí de novo. Lá eu trabalhava
em construção: trabalhava cavando barro, às vez ajudan-
do de pedreiro, carregando ... Lá era pior só por causa de
salário. Aqui eu ganhava o salário o dobro de lá. Aí eu
puxei praqui (pro frigorífico).
O serviço lá era muito melhor do que aí, pra mim
mesmo que em canto nenhum nunca achei moleza, no pouco
tempo que eu tenho de serviço. Aí eu cheguei aí e comecei
a trabalhar. Trabalhei uns treis mês, chegava e trabalhava
das sete hora da manhã até uma hora da manhã, tava com
a boca abrindo, caindo dentro de um tanque, socando
carne e o homem falando: "Vamos lá, rapaz! Vamos lá
que nós precisa sair. Cambada de f. da p., vamo aí!" Pi-
cava o pau, continuava sempre, mas o corpo entregue
mesmo. E era direto assim. Quiném teve uma vez, caiu
essas unha minha, de tanto pegar boi. Aí eu tava em cima
da pilha da carne gelada, bem alto, debaixo de uma bica:
"O rapaz, vamos ver se você gancha esse trem de mão aí
mais depressa". Eu tava meio enraivado - quatro hora "A gente vai socando aquela carne... "
da tarde, eu tava com fome, falei com ele assim: "Minhas
unha ... nem adianta mandar ganchar essa carne de unha". LOURINHO: A firma que eu trabalho é produtora de
Quando o homem falou assim com a turma miúda, o charque, e lá a gente vai fazer carne verde,
cara subiu lá em cima n.
Eu disse: "Também deixa comi- que vem com sangue, se traduzir em charque. Vem a carne,
vem encarretada nos caminhões, aí os desossadores cortam
go". Aí eu trabalhei um bando de tempo depois mudou
o encarregado. a carne, tira dos ossos, e depois ela cai em uma parte que
é igual uns tanquezinhos. Ela cai ali e a gente ali vai
aprontar aquela carne. A gente fica com uns pauzinhos
socando ela até que o sangue da carne se assepare da
carne. Ali a gente fica dando aquela surra nela, na sal-
moura (contém a salmoura, cloro e ácido). A salmoura
tem na base de quase duzentos e quarenta grau. E ali de-
(*) Um bairro da cidade de São Paulo.
(*) No departamento de pessoal.
pois os outros. amigos já tão salgando, fazendo uma pilha
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66

'l
'\
com uma camada de carne, outra camada de sal, uma 5. O ritmo de trabalho
camada de carne, outra de sal... Depois de uns treis dias
eles vai lavar aquela carne. Eles lava toda, com cloro e
ácido moriato pra não criar problema na carne, pra não ((A vida de empregado é ruim;
dar vermelhão e não criar problema pra saúde da pessoa. desejo mesmo é trabalhar por conta própria"
Coloca no sol treis dias, já tem outra turma, que inclu-
sive o Evaldo, - ele já é a última pessoa que pega na CHI CO: Eu porém não tenho quase assunto a falar. Meus
carne depois de todo trabalho; quando ele pega na carne, assuntos, sempre que eu falo... que eu acho
a carne já está pronta. muito bom sobre trabalho. Eu gosto muito de trabalhar.
Olha, eu passei sessenta dias sem comer carne, nem Agora, sobre a vida de empregado assim aqui, eu acho
feijão, nem arroz. Trabalhando em serviço pesado, toman- ruim mesmo, difícil. Eu gosto de trabalhar, eu gosto de
do só refrigerante e comendo frutas, legumes, sabe? Depois levantar cedo, mas desejo é trabalhar só por conta pró-
eu enfraqueci. Até que até hoje eu tô tomando remédio pria, minha mesmo, porque eu posso levantar até que seja
pra me recuperar. É, então eu não comia carne. Até que três horas da madrugada, quatro horas, eu sinto bem, eu
eu fui um rapaz que eu fui começar a comer carne com sinto mais alegre trabalhando, com grande disposição e
quinze anos de idade. Antes dos quinze anos eu não comia alegria e também coragem. Agora sobre ritmo de trabalho,
carne, porque eu não gostava, o cheiro da carne eu até assim como eu mesmo trabalho doze horas... Quer dizer
votimava, dava vômito, quando eu mexia com a carne. Me que levanto cinco e meia, seis; quando é seis e meia já tô
sentia mal, tinha nojo da carne, sabe? Achava que aquilo puxando para o serviço, chega lá a gente encara sete horas.
não era algo que devia se comer. Comia só ovos, folhas e A gente fica doze horas dentro de uma firma, prisioneiro:
frutas, massas, esses produtos; mas carne não comia. não tem direito a sair, tomar um ar, a não ser na hora do
Quando eu cheguei aqui que vi aquela carne tão almoço, e tem quinze minutos também para a hora do café,
estranha, aí eu me lembrei - e eu já tava comendo carne que é às três e quinze. O almoço é meia hora, para almo-
quando cheguei aqui - aí eu me lembrei daquele tempo çar. É esgotado, corrido pra caramba; então muita coisa
que eu tinha nojo de carne e não consegui comer. difícil... é isso que eu acho.
MIGUEL: E como era trabalhar no frigorífico, tendo
nojo de carne? ((Dependendo do dia, trabalho até dezesseis horas"
LOURINHO: É, pra lutar com a carne não tinha nojo,
sabe? Mas na hora que voltava pra comer, LOURINHO: Às vezes eu trabalho oito horas, dia que eu
que eu me lembrava que a gente tava lutando com aquela trabalho doze horas, e dependendo do dia
carne de toda maneira ... tinha pessoa que até cuspia den- que eu trabalho até dezesseis horas. Tenho dez minutos
tro da carne. Porque realmente a gente não faz isso no pro café da manhã, uma hora pra o almoço e trinta mi-
público, pra ninguém ver, mas tem pessoas que eu acho nutos pra janta. Eu mesmo que preparo a comida. Inclu-
que é capaz que faça isso; então, ainda mais criava nojo, sive o frigorífico, produtor de charque, fica assim: a pa-
eu não comia. rede é só meia, sabe? A parede dele faz parte da do quar-
to que eu moro. É encostadinho. Eu venho almoçar em

68 69

~
casa. Deixo apreparado à noite, quando for pela manhã mem cargos que não têm capacidade de assumir aquele
eu vou tomar café em casa - que é uma maneira de eco- cargo, são pessoas ... é vamos parar por aqui... Esta firma
nomizar também - quando é meio-dia eu venho, almoço não tem regulamento. Eu chegava lá seis da matina, batia
em casa e volto à tarde. Seis hora eu venho e janto, volto meu ponto, começava carregar saco de sal de sessenta
pro serviço e anda meia-noite, dez horas, nove horas da quilos até às vinte e duas horas, vinte e três horas, sendo
noite, dependendo do dia, o trabalho que tem que fazer, gritado, humilhado; as pessoas pensam que se a gente sair
a gente volta. dali, encerra o mundo, né?

6. O salário

"Quem trabalha há três anos, ganha a mesma coisa


que um que vai entrar hoje"

CHI CO: O salário lá não tem base normal. É um negócio


variado, assim, uns ganham tanto, outros tanto ...
eu não sei. Não é tabelado. Eu conheço cara lá que vai
fazer três anos, tá ganhando mincharia que uma pessoa,
l(~) que vai entrar hoje, entra ganhando a mesma coisa. É onde
eu digo que não tem base de salário. Não sei porque é
que é isso, não sei.
ZÉ BINO: O salário é mincharia. Sabe como é. Então
é por isso que prefiro ir embora antes de
"As pessoas pensam que se a gente sair dali, completar três ou quatro meses. Eu vou pra minha terra
encerra o mundo" porque acho que viver agitado antes em casa, sabe?
NEN: Na firma onde eu tava, trabalha dezoito horas : TENORIO: O salário dá pra gente tomar de cachaça.
por dia. Se eu falar pra você o que é que eu fazia ... Ninguém paga bem hoje em dia ... enrola, né?
Inclusive eu tenho um colega, que trabalha nela, que O negócio não tá bom não. Se tivesse um serviço seguro,
sofre, trabalha dezoito horas por dia. Extra, né? Não são mesmo ganhando pouco ... Mas dá pra ir quebrando o galho
o ano inteiro, mas tem época do ano que trabalha dezoito até melhorar. Mas acho que agora em novembro já tem
horas por dia, as pessoas gritando, tem pessoas que assu- aumento, e já é mais alguma coisa, né?
71
70
"O salário é pouco - aumenta por causa das horas extra eles tem uma pilha de carne pra eles salgar, então eles
e das tarefas" fala assim: "Olha, vocês faz isso aí - mil cruzeiros de
cada um". Então a gente mete o pau e faz. Dentro de
duas horas de relógio então a gente ganha mil cruzeiros
LOURINHO: A gente começa trabalhar a sete horas do cada um. Então eles chamam de tarefa. Se você sair, tiver
dia. De sete às quatro é dia normal: custa necessidade - no caso se você tiver estudando, qualquer
só trezentos cruzeiros o.
A parte principal, que nós deve- coisa, ou tiver qualquer compromisso a assumir depois das
mos trabalhar mais nesse período, é parte do dia. Quer quatro horas, você não pega tarefa.
dizer que é a parte que a gente ganha menos. Das quatro
a seis, a gente ganha 80 cruzeiros - pega duas horas extra.
Então vai pra 380 cruzeiros, né? Então se a gente for
até oito hora da noite, vai pra 880 cruzeiros, né? Se a
gente for pra nove horas, a gente vai pra 1.280 cruzeiros.
Se a gente for pra dez horas, a gente já vai pra mil qui-
nhentos e pouco por dia. Então se a gente pegar uma se-
7. Os direitos do trabalhador
mana para trabalhar das sete às dez, a gente pega na (registrados e não registrados)
faixa de quase nove mil cruzeiros.
JÚLIO: Quando eu trabalhei no frigorífico, eu fui man-
dado embora uma vez porque eu não queria a - Não registrados
fazer as duas horas extra antes de começar aquele período
que ganha mais, que era das seis às dez, né? Você pegava "Não interessa sujar a carteira"
uma tarefa e aí você ganhava o dobro do que você ganhava
no dia inteiro. Aí eu tava querendo que a gente acabasse ZÉ BINO: O trabalho de chapa que a gente fala é isso
aí: o registrado é registrado, e a gente é uma
de trabalhar às quatro horas e entrasse logo na tarefa. Aí
zuei por isso lá, porque tinha que fazer as duas horas extra coisa aí a voluntário, não tem seguro, não tem nada, não é?
pra depois fazer a tarefa, O seguro quem faz é a gente, a gente trabalha no ponto de
não se machucar. Agora, também se machucou, eles tam-
MIGUEL: O que é tarefa? bém pegam logo e registram. Agora, eu realmente não
interesso sujar minha carteira. A gente continua traba-
LOURINHO: ~ uma tarefa porque eles chama tarefa -
lhando de chapa. O fichado é uma coisa, e contrato é
não dá para entender como eles pensa fa-
outra. A gente que trabalha de chapa, é só picar o cartão
lar tarefa. ~ porque eles não ficha carteira, sabe? Eu mes-
de manhã, sair de tarde, então vence a semana todinha
mo não sou registrado. Então eles pagam um pouquinho
e qualquer hora dessa se a gente quiser ir embora a gente
mais dependendo do tanto de trabalho que a pessoa fazer,
vai, se eles quiser pagar a gente, paga. Se não quer, a
e as horas que a pessoa levar a partir das seis horas e
gente também não quer nem fazer encrenca. É melhor a
quatro horas da tarde em diante. Então aquele dia que
gente sair sem dar motivo porque é melhor, se é da gente
(.) Referente ao mês de outubro de 81. sujar a carteira da gente com três ou quatro mês de firma,
73
72
então eu acho melhor a gente procurar ir embora, para
onde a gente nasceu e se criou, que realmente eu acho que - e aí?" Aí então eu resolvi falar com o chefe geral.
seja muito melhor. Conversei com ele como podia ficar. Dei uma de sabido,
contei a história com ele que tava doente, tava poucos
MIGUEL: Mas você acaba voltando para São Paulo dias, não tinha grana - menti para ele, sabe? Aí até que
novamente, não é? ele não gostou. Ele falou: "O, você tá com medo do ser-
ZÉ BINO: Realmente é o interesse que a boca aí tando viço, vem com uma bomba dessa - daqui um ano você
quente, realmente eu volte pra conseguir leva a firma. Vá lá no chefe de escritório, o Edgar". Aí eu
trabalhar. cheguei lá e conversei com ele - ele caiu: ele assinou o
cheque pra mim de Cr$ 28.000,00. Eu vim aí no hospi-
LOURINHO: No frigorífico que eu trabalho tem poucas tal, paguei o médico, paguei a farmácia, ainda sobrou foi
pessoas registrada. Eu mesmo não concor- Cr$ 4.000,00. Os Cr$ 4.000,00 foi de mais remédio -
do. Não gostaria de ser registrado. Sei lá. Eu acho que é paguei tudo. Aí depois eles falaram que ia descontar Cr$
uma maneira de todo mundo não ser registrado lá, e fiquei 2.000,00 por semana. No dia eu concordei. Depois levou
nessa também, mas eu acho que qualquer hora eu vou re- uns 4 meses e ele não tocava nesse assunto.
gistrar. Eu não queria ser registrado lá. Eles paga bem por
causa da tarefa. Agora, o salário mesmo, o salário é muito
baixo: se você coloca esse salário na sua carteira, aí fica um "Olha cara, quando eu trabalho é
pouco chato." Então dessa maneira eu me recuso' de ser porque necessito do trabalho"
registrado.
LOURINHO: Quando a gente foi pegar o pagamento fal-
tava hora-extra e a gente pegamos a recla-
"Fiquei doente - dei uma de sabido, mar. E nesse dia mesmo que a gente fizemos reclamações
senão me mandavam embora" - foi nós, os amigos de trabalho e dois encarregado -
chegamo lá no escritório, fizemos tipo de uma zuada.
LOURINHO: Quando eu cheguei, então tive um proble- Queria a grana naquela hora, sabe? que precisava. Então
ma que eu adoeci, sabe? Eu adoeci, e era eu mesmo falei: "Olha cara, quando eu trabalho é porque
uma época que eu não tinha o INPS - eu tinha grana nessa necessito do trabalho, e outra: quando eu trabalho uma
época, porque aí a gente chegando com um mês ou dois já semana eu já tenho planos a fazer com esse dinheiro. Eu
tem um pouquinho de grana, assim que queira, pra qualquer preciso da grana agora". Então o gerente chegou e achou
coisa. Então nesse período eu adoeci. Adoeci, fui no médico: que a gente tava certo e aborreceu com eles lá, mandou
só injeção foi Cr$ 14.000,00 - fora exames, que foi numa dois embora, entrou um novo gerente, que é até o sobri-
clínica particular; tinha que pagar tudo. Então eu fui lá nho dele. Aí veio aqui o lance da grana que eles tinha
na firma, ele não quis pagar. Digo: "Eu pago com a mi- jogado em minha mão pra poder pagar, fazer os pagamen-
nha grana, o frigorífico é meio falsificado, não pode fazer tos do tratamento que eu fiz - não dava pé nesse dia:
muita fiança, depois acontece qualquer um problema aí, tava lá acumulado, sem bolir, sem fazer desconto sobre o
eles me manda embora, eu gasto a minha grana, e depois ... meu pagamento. Aí quando foi nesse dia resolveram. En-
contraram esse débito meu lá. Aí chamaram: chapa 435.
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Eu fui lá no escritório. Fui lá, era pra fazer o desconto, lá pegar o pagamento, o que era dinheiro de atestado
sabe? Aí falaram que era pra descontar mil cruzeiros por não tinha nenhuma hora. Não veio nem uma hora pra
semana. Eu não concordei. Achei que era muito. Voltaram mim. Enrolaram, não sei o que fizeram. Aí conversei lá ...
pra descontar 500. Eu não concordei. Depois eu falei: Agora segunda-feira a gente volta a trabalhar de novo.
"Olha, só pago Cr$ 150,00 por semana". Cr$ 28.000,00 É assim. --
dava dois anos e três meses me parece. Então, um tipo Eu cheguei lá bravo, o guarda não tava mais, falei
de sabedoria minha. Aí, no que eles queriam me mandar pro outro, bravo. Ele falou: "Não sei. Eu não sei nada.
embora, eles não pode mandar porque realmente eu devo Cheguei aqui hoje, não tô sabendo nada de atestado".
pra firma. Muitos aí que foi bobo, não usou a cabeça, teve Eu posso ir no médico, ele pode dar outro atestado, mas
necessidade de ir ao médico, depois gastou 10, 15 mil cru- isso eu acho chato. Só posso contar mentira minha a favor
zeiros, voltou, foi pago em três semanas, descontando no da firma; posso contar o quê? Que perdi o atestado, pra
pagamento, o encarregado mandou embora e ele saiu, se ele fazer outro.
danou-se tudo. Então não tem direito a nada.

"A férias que a pessoa tira é ir embora por conta própria"


"Eles enrolaram - volto a trabalhar de novo,
mesmo doente"
LOURINHO: Nós não temos direito a férias. A única
ALFREDO: Essa semana mesmo eu falei pro encarregado: coisa que tem direito é décimo n. Férias
"Ô Tutu, quero ir no J ordanésia tomar uma nunca tirei. Estou trabalhando há sete meses só, mas a
injeção" - tava até doente; tava não, tô doente ainda. pessoa pode ter 50 anos de. trabalho dentro da firma, não
Aí ele falou: "Não é comigo mais. Você tem que falar com tem férias. A férias que a pessoa tira é ir embora por conta
própria. Apaga aquele cartão da chapeira, e depois pega
seu Berdã". Eu digo: "Eu falo mesmo". Sou cara de pau
mesmo - falei. Ele falou: "Fica aí, você não precisa de outro cartão, quando chegar, com outro número de chapa
para pegar outro tempo. A pessoa sai como se fosse demi-
ir lá tomar injeção não". Eu falei: "Não. Não, que eu pas-
tido, sem direito. Você pediu a conta e não recebe férias,
sei aí ontem, ele falou que era pra eu ir a Iordanésia que
não recebe nada. Recebe, só se você trabalhou dois dias
eu tinha". Ele falou: "Então vá, mas volte pro serviço
na semana, você recebe; se você não trabalhou, você não
de novo" - doente. Aí eu fui lá, tomei injeção, voltei.
recebe nada. Só recebe o que trabalha.
Foi quarta-feira. Quando foi quinta, eu não podia mais tra-
balhar. Aí cheguei, fui lá de novo no médico, o médico
passou cinco dia em atestado em mim. Só posso trabalhar
terça-feira. Cheguei na portaria na quinta-feira, falei pro
guarda: "Seu guarda, vem cá. Pra eu levar esse atestado
lá em cima, precisa levar o cartão junto ou não?" Ele
falou: "Não precisa você dar essa caminhada não. Pode
deixar que eu levo". Eu falei: "Tudo bem, então é um
favor que você faz pra mim". Quando foi ontem, eu fui (*) Décimo terceiro salário.

76 77
b - Registrados "Achando bolo, eles enrola mesmo JJ

"Olha, essas contas não está entrando na minha idéia" LOURDES: Agora, nesta firma aí, eles achando bolo,
eles enrola mesmo, porque esta menina aqui
CHICO: O mês passado eu trabalhei e senti que meu salá- (a filha) ficou sete mês sem receber o salário. Depois eu
rio não tava conferindo as contas com as que eu cheguei, chamei o meu cunhado e falei: "Ô Valmir, como
fazia. Cheguei lá, primeiro chamei o escriturário que ia é esse negócio de salário, onde que marca aqui no folhe-
passando junto à minha seção, aí eu chamei ele, aí ele to?" Aí ele chegou e me mostrou onde é que era. Eu digo:
disse: "Vai lá pra gente conversar; lá a gente te explica "A Nilda não tá recebendo nada tá com sete mês". Ele
bem". Eu fui bater lá, pegou fazer umas contas tudo dife- falou: "Deixa ver as folhas". Peguei, mostrei pra ele e
rente, eu digo: "Olha, essas contas não está entrando na ele disse: "Olha aqui, salário família vem aqui, o da me-
minha idéia, desse jeito eu fiquei burro mesmo. Eu não nina não tá recebendo". Digo: "Então eu vou entrar no
entendo essas contas". "Ah não, mas é porque está com a meio, porque aí serve de cano para mim. Então o pai tem
cabeça quente". Eu digo: "Eu falo sobre a hora que veio". obrigação de entrar lá, levar as folhas de pagamento tudo
Ora, eu falei com meu chefe, como eu expliquei a meu e reclamar. Eles vão ter que pagar tantinho por tantinho".
chefe ele disse: "Olha, está dando sete horas a mais, que Aí meu marido: "Ah, mas já passou do tempo, eu não
está faltando pra tu". E conferiu comigo. Depois, no modo vou". Digo: "Não vai o quê? É dela, meu filho. Deixar o
deles fazer é! conta ... Até meu chefe disse: "Não entendo dela para os outros não tem condição". Aí eu peguei as
como eles coisa isso. Como é esse modo deles fazer a folhas e digo: "Você vai levar hoje". Ele pegou as folhas
conta". Ele disse: "Não é assim". Digo: "Não entendo não, . tudo, levou, quando chegou lá foi fazer a conta: sete
viu?" Ele disse: "Outra hora você vem cá, pra a gente mês sem receber. Aí pagaram tudinho. Se achasse um
conversar direito". Eu digo: "Eu não sei". E que o salário bobo, não ficava?
que a gente ganha é tão pouco, que a gente recebe tão
micho que a gente fica assombrado com isso, e vai con-
ferir logo. Quando tem um erro a gente fica logo doido. "Você paga INPS e a gente vai fazer consulta fora?"
NICA: Tava errado mesmo, Chico?
LOURDES: Essa firma deles tem convênio na Lapa, em
CHICO: Olha, ficou dele, o rapaz, fazer umas contas lá Pinheiros e J undiaí. Se você tem quatro ou
pra mim, que eu não entendi como era. Eu vou cinco filho e trabalha lá, eles põem dois, três - os outros
conversar com eles bem esclarecido pra ver como é que não põem na carteirinha. Ponharam Zelito (marido) como
fica; onde é que está isso que eu não consigo ver esse solteiro, não tinha ninguém. Eu falei: "Como é que é isso?
erro? Quer dizer que eu vejo o erro, ele acha que não tá. Se a menina adoece, ou eu adoeço então não pode servir
Eu vou pedir a base, como é que a gente tem por dia que o seu INPS, como é que vai ser? Você paga INPS e nós
faz. Vou saber diretamente deles lá pra ver como é que vai fazer consulta fora? Não pode ser. Vai levar lá e re-
se faz essa conta pra eu ficar por dentro também, não é? clamar". Zelito foi lá uma pá de vez: "Não, mas aqui tem
Se a gente é honesto. então tem que encontrar gente ho- que ir não sei aonde ... " Eu digo: "Olha, eu não vou cami-
nesto também. nhar em canto nenhum. Tem que conseguir é lá. Se você

78 79
trabalha lá, se precisa ir no médico, precisa pagar par- do!" E eu vou enrolando. Ontem mesmo eu cheguei lá
ticular? Então não paga INPS!" Aí Zelito levou a carteira onze hora, na hora de almoçar e cheguei e falei com o
lá e reclamou, eles ficou mais de um mês com essa car- chefe, né?: "Vou pra casa que eu não tê me sentindo bem".
teira lá, quando veio ainda veio o nome errado - com Disse: "E, rapaz! Logo voce que não tem jeito ..." Eu digo:
registro, com tudo na mão. É porque quer enrolar mesmo. "Não, eu vou". Ele disse: "Ah! vá! Segunda-feira você
Acho que é porque não tem corregimento bem lá, porque vem, a gente conversa". Amanhã cedo eu tenho que tá lá.
se fosse uma firma corrigi da não tinha esses erros tudo. E assim eu vou enrolando, né? até o fim da vida. Com os
Se entra um funcionário lá e tem quatro ou cinco colega a gente brinca demais também.
filho e vai fazer carteirinha, tem que ponhar aquelas pes-
soas o total, não é? Põe dois, três e os outros se precisar
como é que vai fazer? Então tem que ter todos eles. "Viver num lugar conforme a gente deve esculhambar uns
JÚLIO: Zelito tem convênio que é o cara que trabalha. com os outros ... Não é que isso seje uma lógica"
E esse convênio é assim: a firma só aceita o ates-
tado médico do convênio. E não é interessante para eles ZÉ BINO: Essa firma que a gente trabalha aí, frigorí-
colocar o nome de todo mundo no convênio porque se toda fico ... Então é uma vida muito agitada e, por
família vai lá, então vai ter muito gasto para a empresa. sinal, não temos vezes porque nós somos empregado e tal.
As pessoas da família vão no INPS, que fica lá o dia inteiro É uma vida muito pecaminosa, um negócio que a gente
e tal e tal, e o cara que trabalha vai no convênio porque não tem nem alegria de lutar, sabe? Porque o chefe da
o convênio dá o atestado de uma hora e manda voltar gente não trata a gente de acordo, então a gente fica agi-
para trabalhar. tado. É por isso que eu acho que não é uma firma capaz
da gente viver com bastante alegria no serviço. Sobre ami-
zade dentro da firma nós temos muita, eu principalmente
não acho nada a falar, só acho a falar só da ignorança
deles aí que não trata a gente de acordo.
Quando a gente às vezes começa a brincar com os
I 8. O relacionamento dentro da firma amigos, e os amigos com a gente, então tem os encarre-
:I gado, chefe, seja lá quem for que levou de vista que a
"Eu brinco com todos eles, e assim vou enrolando" gente tá brincando, então eles não cumpre bem com a gen-
te. Só é dele reclamar com a gente com decência ... A
NICA: Como é lá com seus colegas, seu patrão ... ? primeira coisa que eles falam com a gente é isso aí. Deixa
de falar: "Ô, vem aqui", ou chamar a gente na seção pes-
TENORIO: Ah! isso aí é até demais. Até que eu brinco soal e dar um conselho de acordo, ou mandar embora;
111 com todos eles, eles brinca comigo - isso aí então eles tratam da gente logo - com a licença da pala-
I1 ultrapassa o dia todo. Uns fala que não tem jeito comigo vra - então eles falam: "Ah! f. da p.! Coisa e tal! Chi-
mesmo, que não pode fechar a cara que eu não levo nada frudo! Seu corno! Vai cuidar da sua seção!" Digamos que
a sério. Eles fala comigo, eu dou pra cantar e saio... Eles não é de acordo a gente trabalhar em um lugar onde a
falam: "Esse baiano não tem jeito não; esse baiano 'é doi- gente não pode nem viver onde tem família, porque real-
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6. Os nordestinos ...

~
mente qualquer um moço daquele que tá ali, chamando a "Nós conversa do pagamento que é mau,
gente com os nome de corno, boi, chifrudo, essas coisa, das festas em I pirá, mas contramão"
então a gente também vai tratar deles desse mesmo nome.
Então acontece: a esposa daquele mesmo homem vai pas- ANTONIO: Ontem mesmo a gente recebemo besteira,
sabe? Recebemo mincharia, né? A gente
sar aí, sendo que a gente vai tratar ele daquele nome, então
nós já esculhambou com ela, nós tratou mal foi da famí- conversava com os amigos assim, digo: "0, tanto de meu
lia. Então é onde eu acho que realmente isso é uma tris- pagamento. Nunca recebi um pagamento desse, sabe?" E
teza pra família daquela pessoa. Eu acho que isso é muito é assim. A gente conversa pro outro assim, né? Eu falei:
feio - a gente viver num lugar que não tem respeito a "Qualquer hora tô saindo é daqui, vou-me embora". Aqui
ninguém, viver num lugar conforme a gente deve escu- não dá, a gente trabalha mais do que o que vem pra
lhambar uns com os outros, chefe com a gente, a gente gente; aí não dá, né? Colega muito eu tenho, né? Inc1usiva-
com o chefe, tal, tal... Não é que isso seja uma lógica. mente esses aí é tudo meus amigo, né? e a gente conversa
Acho que seja melhor a gente viver na paz, comprar a bastante, conversa bem. Quando a gente vai receber o
união e viver humanamente com os amigo e com todo pagamento que vem mau, a gente fala mau, né? E vai enro-
mundo que tem na cidade. É isso que eu acho que seje lando aí, rapaz, e tudo bem ...
maravilhosamente. A gente tá trabalhando aí, a gente diz: "É, tal dia em
Ipirá tinha festa, né?" A gente diz assim: "Falta nós lá,
né?" É, conversamo enrolada de amigo, aí né, brincamo ...
((O encarregado fica de olho em mim" Nós brinca aí mesmo muito aí, mas contramão, sabe?
senão eles briga.
ALFREDO: Você vê: se eu chego lá e começo a trabalhar ALFREDO: Na firma a gente participa o que acontece
de manhã, o encarregado já fica de olho em um pro outro. A gente conversa o caso pra
mim. Se tem um boi pra jogar, ele fala: "Alfredo, vai lá outro e o outro fala: "Mas fizeram isso com você mesmo?"
e joga aquele boi lá". E assim é direto. Qualquer serviço Digo: "Fizeram" - e pronto. E aí ele encerra. Também
que precisa: pra carregar caminhão é eu, se é pra descar- o colega não tem nada a fazer também. Se eles pega, eles
regar o caminhão é eu, se é pra jogar um boi é eu, se é faz disso também a mesma coisa.
pra descarregar um caminhão de sal é eu - qualquer ser-
viço pesado só manda eu. Não sei, não sei, - de certo NEN: É, um vai desabafando no outro e o outro vai fi-
eu sou mais bonito do que os outros! Eu não ganho mais cando abafado, né? Até que acha um pra desaba-
do que ninguém pra fazer disso! far. Aí vai continuando assim: um desabafa, o outro vai
Agora, bom é que ninguém lá tem raiva de mim, eu ficando abafado, lá vai, lá vai... até quando ninguém sabe.
gosto de todo mundo lá dentro, os amigos lá são tudo
legal. Pra mim mesmo não acho nada ruim mesmo.

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/

"Nós somos semelhante um rebanho de anum" "Pelas maneira de agressividade comigo e com os amigos,
eu me transformo em agressivo também"
ANTONIO: Aí a gente trabalha lá, um pau danado, né?
o olho onde tá o velho. Se o velho achar a LOURINHO: O ambiente de trabalho não é um local
gente em pé: "Ô, rapaz, não pode!" Se ele achar a gente que seje suficiente para uma pessoa que se
em pé, sem trabalhar, assim, às vez ele costuma pegar a considera bem trabalhar - porque é o seguinte: é um
gente, né? Às vez nós tá fazendo uma horinha por ali, né? lugar que não é bem respeitado, os amigos não sabe res-
"Ô, rapaz, não pode ficar parado". Aí a gente ... assim, peitar um ao outro. Então é o seguinte: eu me acostumei
trabalhando direto, né? Trabalha muito e... tem que ficar com isso, porque eu tô vivendo há tempo, tinha que me
de olho. Eu vim cair numa desgraça aí dentro aí, mas a acostumar. Quer dizer, não são todos. Tem alguns também
gente chega assim brincando num lugar assim, olhando pra que têm maneira de tratar - as pessoas melhores, de me-
um lugar e pra outro. Agora, só não tem canto que ele lhores condições, respondem mais melhor ... Então a gente
chegue pra ouvir. oferece para cada um que merece, aquilo, sabe? que eles
ALFREDO: Nós somos semelhante um rebanho de anum. merece. Por hipótese: tem o Antônio - se o Antônio é um
Nós conversa, conversa, e deixa um na tocaia rapaz respondão, a gente tem que retribuir o que eles dão
olhando. Quando ele vem é só fazer "psss ", aí todo mundo pra gente, sabe? Aqueles que são brabo, a gente tem que
já sabe. Um jcbenho de anum fica tudo no chão, mas ser brabo, porque é o seguinte: se ficar bonzinho, eles
fica um na cabeça da estaca; e aponta uma pessoa lá com querem fazer de bobo. Então é o seguinte: pela essas ma-
espingarda pra atirar nele, aí ele grita - aí os outro voa neira, eu não concordo pelas maneiras deles, dos amigo do
tudo. E bem assim é a gente. trabalho - não acho que seja um lugar legal. Até que
eu tô aí por esses tempo, pagam bem, a firma, mas não
TENÚRIO: Lá é diferente. Lá a gente tá trabalhando, concordo, não gostei só com essas maneira. A única ruin-
daí a pouco quando a gente pára de traba- dade, dificuldade que a gente tem para o trabalho é só
lhar, que fica olhando, aí o homem vem, a gente: "O, esse: são as maneira das pessoas. Então é o seguinte: eu
boi na linha!" Todo mundo já sabe o que é... Quando não sou um rapaz agressivo, mas pelas maneira de agres-
foi a semana passada eu tava pintando l.á o frigorífico que sividade comigo e com os amigo, eu me transformo em
ele me mandou pintar, os outro lá: "Boi na linha!" Ele agressivo também.
diz: "O que, o quê?" Digo: "Não senhor, foi uma coisa
que passou lá em cima". E a gente vai enrolando ...
ALFREDO: Você vê: um dia que eu tava trabalhando aí, "A gente conversa,
tinha doze homem trabalhando. Aí ele veio mesmo que eles não dê autoridade para isso"
mesmo em cima da gente. Tinha doze homem parado, man-
daram todos os doze embora. Aí o encarregado chegou em CHICO: Pra mim é todo bom. Todos lá me considera
nós e falou lá: "O homem vem, pega vocês tudo parado muito bem, mostra boa presença comigo. Até
aí, vem falar é comigo". Aí fiquei morto, fiquei mor- gosto, né? Agora, a chance de conversar ... isso não tem.
to, rapaz! Eles não estabiliza isso pra ninguém. Se eles vê o floco de
mais de três, os chefes já vão reclamar. Então às vez a
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8S
/

gente conversa assim. Porque às vez a gente vai à procura


de outro material, o material terminou, a gente aproveita quem mais conversa mesmo. E tem que conversar, bata-
e conversa com um amigo, mas não que eles dê autori- lhar até que chegue o ponto dele se defender, né? Eu
dade a ninguém de não trabalhar, ficar batendo papo, não mesmo converso, não é? Eu converso é com o chefe logo.
é'? Eles acna que não pode ficar batendo papo, achando Não tem negócio. Ele chegou em mim e disse: "Você chora
eles que tá perdendo tempo. Então a pessoa tem que ficar mais que todo mundo, tem muitos aí que ganha muito
cuidando da máquina onde está operando e não sair dali, mais pouco de que você, tem Um bando de filho e não
a não ser em caso de busca de material qualquer, coisa anda chorando". Digo: "Não sou acostumado ficar pas-
que precisa para a máquina, aí a pessoa sai. A não ser, sando privações sobre o que eu ganho". "Mas tem gente
não tem esse direito. que ganha menos que você aí e não reclama". "Não sei,
né? depende". Depende de ponto deles. Eu não vou ficar
NICA: Como é que é teu chefe? sofrendo, esprimido e ficar calado, com o peso que eu
CHICO: Para mim ele é muito bom. Sempre é amigo não tô agüentando ficar sem gritar. Tem que gritar mesmo.
da gente. Tá ali no meio da gente, conversa com
a gente, bate papo com a gente, muito legal. Simplesmente
assim considero igualmente a mim, né? Quer dizer, a gen- "Medo de chefe, por quê?
te troca idéia com o outro e é a mesma coisa. Porque às Você não é homem como os outros não?"
vez tem tipo ..de chefe que a gente tem aquele modo assim,
sobre intimidade de conversa; com outros é mais oculto, CHICO: Tem camarada lá que eu acho até incrível, não
não é? Então quer dizer, sobre o modo de respeito é dife- sei por quê. Tem medo de chefe. Digo: "Será
rente que às vez tem outras pessoas ... e ele não: é um cara que tu tinha medo de teu pai? Olha, meu negócio é dife-
do mesmo meu tipo. Então a mesma consideração que ele rente, eu trato decente, trato honesto. Negócio de ter medo
tem comigo eu tenho com ele. de falar, pode ser quem for. Pode ser o dono da firma,
pode ser quem for, não tô aí com ter medo não!" Ainda
teve um dia lá que eu ia chegando no serviço para traba-
lhar e ia entrando, então tinha um da turma que trabalha
"Tem que conversar, batalhar até que à noite. Aí ele estava na porta, olhando, olhava assim e
chegue o ponto dele se defender" depois ficava aguardando. Eu cheguei para ele assim: eu
digo: "O que é que tu está olhando?" Ele disse: "Não,
JÚLIO: Sobre o que é que o pessoal conversa na fábrica? é que eu quero falar com fulano de tal aí, e o chefe está
CHICO: Falam de tudo, muitos falam sobre assunto de na mesa, e se ele ver eu aqui... Já deu minha hora de ir
salário, muitos que ganha pouco. Eu mesmo embora. Ele vai aborrecer comigo". Digo: "Aborrecer
ganho pouco. Mas várias pessoas falam sobre esse assunto. com você o quê, rapaz; se você sente problema de falar com
Os que se vêem maltratados sobre o problema de salário seu colega e é a hora que você tem vaga pra você falar,
fala um com o outro: que não vem o aumento pra ele, você fica com medo de falar com um qualquer amigo aí?
suficiente, né? que tá ganhando pouco. Quem tá bom Ele pode tá onde tiver, pode ser na beira do chefe, pode
sempre fica mais quieto. Quem tá sentindo o problema é , ser onde for. Agora, ficar ..., ter medo? Medo de quê, rapaz?
Você não é homem como os outros não? Não é possível!
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Não me fale uma coisa dessa. Se você tem precisão de "Uma fábrica dessa chega uma conclusão de pagar
falar com seu amigo, vai agora ficar dizendo: 'não vou o funcionário mal é através dele mesmo"
por causa do chefe que vai reclamar eu?' Eu digo: "Vem
chefe me reclamar eu tendo precisão de falar com qualquer CHICO: Tem camarada lá que eu acho até incrível. Não
pessoa aí!" Ele pode até me mandar embora, mas falar sei porque tem medo do chefe. É muito assim.
eu falo. Ficar aguardando por causa de chefe se você Conheço bastante que se tiver conversando com outro
precisa falar com seu amigo? Aí foi que ele saiu, foi lá assim, na hora que ver o chefe diz: "É vem, é vem, é vem,
e falou. fulano!" Eu acho incrível. Se eu tiver conversando com
o outro, não discoro, não dimudo, fico na mesma coisa;
eu tando na minha seção, não tem disso não. Eu tô can-
sado de ver a turma dizer: "Na hora que ver o chefe nem
conversa". Quer dizer que tudo se rebaixa, né? É onde
eu digo: que uma fábrica dessa chega uma conclusão de
9. A organização entre os funcionários pagar o funcionário mal é através dele mesmo.

"Se fosse tudo uma voz só, chegava a um ponto bom" "Por causa de uns, todos soirem"
.•.
CHICO: Eu trabalho em uma firma que eu acho que tem LOURDES: Essas pessoas que têm medo de reclamar do
condições de pagar a todos funcionários bem. salário, às vezes eu penso que é por medo
Mas é assim: uns ganham mais, outros menos; quer dizer, de perder o emprego e não conseguir arrumar outro. É só
não tem salário bem organizado para os funcionários. O o que dá pra pensar, não é? Porque se todos apóiam: "Va-
povo lá, eles são até descontrolado um com o outro. É mos reclamar pra ele aumentar o salário da gente ..." Tá
como diz: a união é que faz a força. Onde tem mais é que nós tudo aqui, tudo trabalhando num problema só, junta nós
comanda mais a força ... Se juntasse todos que se sentem tudo pra concordar fazer aquilo, então ele tem que
mal... Todo mundo fala, mas na hora que chega um e chegar para o eixo, não é? Agora, se um combina, dois
fala: "Vamos gritar todos por esta voz, assim que nós combina, mas os outros não combina, então quem ganhou
pode chegar num ponto bom", aí todo mundo cai pra trás. foi aquele que ficou mais, né? Eu acho que esse povo que
Se todos funcionários chegasse corretamente e fosse direto, tem medo de reclamar é por causa disso. Porque pensa
tudo voz alta, tudo uma voz só, como todos que sente pro- que se perder aquele não consegue outro. Por causa disso
blema de salário, eu acho que chegava a um ponto bom. é o mal de muitos, né? Por causa de uns, todos sofrem.
Mas quatro, cinco não vai enfrentar; no meio de cem,
duzentos, cai pra trás, como é que vai? Todo mundo re-
clama, quer dizer, um com o outro. Na hora de chegar
para o chefe, ninguém tem coragem.

89
88
7. Os nordestinos ...
/

Apêndice

AS MIGRAÇÕES NO BRASIL

Parece-me que uma das características deste trabalho é a


de permitir ao migrante ou a um grupo de migrantes de falar
sobre a sua vida no interior, as causas de sua saída, como
foi a chegada em São Paulo e como é a sua vida de operário
agora na cidade grande. É uma clara tentativa de permitir que
o migrante se encontre falando do que ele era no interior, e
como se sente no momento. E o que é mais interessante é que
ele diz isso a partir de seu nível de consciência, a partir da
sua compreensão de mundo.
Este livro deixa o migrante falar. E o que falou esse
grupo de Ipirá - BA, atualmente em São Paulo, seria dito
também pelo migrante que hoje está em Rio Branco, Rondônia,
Brasília, Recife, e até mesmo aquele que está no Paraguai.
No fundo está sempre a percepção de uma situação de vida
I

insuportável e a busca de uma vida melhor em outro local.


Migra-se na esperança de uma vida melhor.\Por iss? a migração,
além de ser uma expulsão, é também esperança.)
- Ouais as reais proporções do fenômeno migratório? Para
onde vão os migrantes? Quais suas causas? Ouais as conse-
qüências? Quais os números? O que fazer diante deste pro-
blema? É o que tentaremos responder nestas breves páginas.

1 - Principais correntes migratórias


~ ....••... "

Na década de 1970/80'''acentuou-se mais ainda a ten:=-.


dência de abandono do campo.\De fato, mais de 6 milhões de
pessoas deixaram o campo para tentar a vida na cidade. Isso
não significa que a migração não tenha ocorrido também do
campo para o campo ou da cidade para o campo.

91
1.1. nordeste - sudeste 2 - Dados

Continua sendo a corrente que representa o maior número Na década passada, mais de 6 milhões' de pessoas deixa-
de migrantes. Partindo dos estados do nordeste e de Minas, ram o campo. Do nordeste saíram 2,2 milhões de migrantes.
esta corrente dirige-se principalmente a São Paulo e ao Rio de Citamos os principais estados fornecedores de migrantes: Per-
Janeiro. Isso pode ser constatado no assustador crescimento nambuco: 620.000 migrantes; Bahia: 580.000; Paraíba: 350.000.
das favelas após 1972. Do estado do Paraná, saíram na década 1,1 milhão de
migrantes; sendo que 590 mil foram para o estado de São
1.2. sul - centro /oeste e norte Paulo; 107.000 para o Mato Grosso do Sul e 112 mil para o
Mato Groso do Norte 2.

Partindo do sul, estes migrantes dirigem-se às coloniza- Sem sombra de dúvidas, é o estado de São Paulo que mais
ções do Mato Grosso, Rondônia, Acre, Roraima e até mesmo recebe migrantes. Segundo o censo de 80, na década, São
ao exterior, como é o caso do Paraguai desde 1960 e recen- Paulo recebeu 3,5 milhões e o Rio, 700.000 migrantes 3

temente da Bolívia. Para aquele país já se dirigiram mais de


Dos gaúchos que deixaram o Rio Grande do Sul, 380
300 mil emigrantes brasileiros. Para entendermos a impor-
mil foram para o Mato Grosso, fronteira com o Paraná; 290.943
tância desta corrente, basta dizer que Rondônia tinha em
para Santa Catarina e 27.603 para o Mato Grosso do Norte;
1970 uma população de 113.000 habitantes; este número pas-
segundo o IBGE, na última década, do Rio Grande do Sul
sou para 492.a.10 habitantes em 1980. Destes, 36% vieram do
partiram 334.207 migrantes '.
Paraná em busca de terras '.

2.1. Urbanização
1.3. nordeste - norte
Segundo o documento da CNBB, "Uso do solo urbano e
Saindo dos estados do nordeste, dirige-se para o Pará,
ação pastoral", 31 % da população brasileira era urbana em
Mato Grosso e Rondônia em busca de terra e de trabalho.
1940; hoje esta cifra subiu para 67%, o que significa cerca de
80 milhões vivendo nas cidades. Em 1940, 8% da popula-
1.4. Paraná - São Paulo' ção vivia em centros urbanos com' mais de 1 milhão de habi-
tantes; hoje, 32% da população vive' em 13 concentrações
É bastante significativa esta corrente migratória. Os mi-
urbanas. E nesta última década, o município de São Paulo
grantes saem do interior do Paraná em busca de trabalho na cresceu demograficamente mais do que toda a área da Ama-
região de Campinas, Sorocaba, e Grande São Paulo. zônia '. Entre os dois últimos censos, a população urbana
cresceu mais de 28 milhões.
Enquanto na década de 60 vieram para São Paulo 1,5
milhões de migrantes, na última década vieram 3,5 milhões.

2 Folha de São Paulo, 24 de março de 1982.


3 O Globo, 21 de setembro de 1981, Rio de Janeiro.
4 A Encruzilhada Natalino, Dinarte Belato, mimeo.
1 Folha de Londrina, 23 de setembro de 1981. 5 Uso do Solo Urbano e Ação Pastoral, CNBB, Edições Paulinas, 1982.

92 93
Contudo, foi a região de Campinas que mais cresceu, 4,4% Segundo o IBGE, em 1972, os minifúndios totalizavam
ao ano. Em 1970 a cidade tinha 189.285 habitantes e em 79% do número de imóveis com apenas 24,3% da área e os
1980 passou para 644.211 habitantes". latifúndios somavam 14,4% dos imóveis mas detinham 46,5%
Para citar outro exemplo desta migração ou deste êxodo das terras 10.

rural, tomemos a cidade paranaense de Londrina. Em 1970, É fácil entender porque no Brasil existem cerca de 9 mi-
50% da população vivia na cidade e 50% no campo. Hoje, lhões de bóias-frias que se alimentam da seguinte forma: "Se-
segundo o IBGE, 90% da população está na cidade. No Pa- gundo pesquisa feita pela FETAEP, com 1.059 bóias-frias, a
raná, devido ao grande número de migrantes que saíram do alimentação deles é assim: 58% tomam apenas café ou chá
estado, a população cresceu apenas de 0,95 % na década. pela manhã; 29% alimentam-se com pão e café; 38,43% ali-
mentam-se apenas com arroz e feijão; 26% acrescentam ver-
duras; e 23,69% acrescentam farinha de mandioca" ".
3 - Conseqüências

Toda essa desordenada e forçada migração traz uma série 3.3. Favelas
de graves problemas, tanto no campo como na cidade. Talvez esta seja a conseqüência mais dramática das mi-
grações internas. São Paulo tinha, em 1972, 42.000 favelados;
3.1. Conflitos pela posse da terra
estima-se que esse número gira em torno de 1.500.000. Pes-
Com a resistência que os pequenos lavradores começaram quisas revelam que 99 % dos favelados são migrantes 12.

a oferecer, cresceu o número de conflitos no Brasil. Em 1981 "A favela cresce através do migrante e através do homem
eram 916 e atualmente são mais de 1050. Das 900.000 pessoas do campo, porque na roça não dá mais para viver. Porque
envolvidas em conflitos de terra na Amazônia, 75% são mi- o fazendeiro dá mais para um boi ou plantar um capim do
grantes nordestinos'. que deixar um trabalhador plantar um milho ou feijão ..." 13

Cidades como Campinas, Caxias do Sul e Londrina, enfren-


3.2. Cresce o latifúndio tam o mesmo problema.
É cerca de 400 mil o número de pequenas propriedades
que desapareceram na década de 1970/80. Com isso aumenta
o latifúndio. Assim, enquanto no Rio Grande do Sul há 3.4. - Doenças
mais de 100.000 famílias sem terra, apenas 11 mil famílias Boa parte dos migrantes que procuram as cidades, fazem-
controlam 10 milhões de hectares de terra, ou seja, 44 % das -no para se tratar de doenças. São velhos, crianças e pessoas
terras do estado'. Ainda no Rio Grande do Sul, existem de todas as idades. "De acordo com dados fornecidos pelo
9.871.000 hectares possíveis de desapropriação segundo a lei'. ambulatório de Saúde Mental de São Bernardo do Campo,
as doenças mentais têm sido mais freqüentes entre a popu-
"Mais de 6 milhões dos que residem em S. Paulo vieram de fora. Minei-
ros: 1.674.021; baianos: 1.060.359; paranaenses: 715.741; pernambucanos:
713.343; estrangeiros: 643.160 (censo/80). (O Estado de São Paulo, 20/03/82). 10 Encruzilhada Natalino, Dinarte Belato, mimeo.
'O Estado de São Paulo, 10 de janeiro de 1982. 11 Migração: O caminho da miséria, Cadernos, n. 2, CPJP, 1981, Paraná.
• Carta aberta aos colonos acampados em Ronda Alta - RS - mimeo. 12 Jornal, O São Paulo, 19 a 25 de. junho de 1981, São Paulo .
• Apoio aos colonos acampados - E. Natalino, Ronda Alta - RS, mimeo. 13 VAI-VÊM, Boletim das Migrações, ano 1, n. 2, São Paulo, 1981.

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'----

lação vinda de outros estados e especialmente do norte e nor- "... Vai chegar o tempo em que o pessoal não tem mais
deste, bem como do Paraná e Minas Gerais" u.
aquieto. Já hoje tá-se vendo, é uns para baixo e outros pra
cima. O Brasil é tão grande ... Nós devia ao menos ter sossego,
mas as terras tão tudo com os tubarão. Aprendi muito do meu
3.5. Impacto da cidade grande pai: é melhor passar mal, mas trabalhar pra si: alugado não
tem raiz" (Carta Pastoral - SE, 1979) 16.

Além desse problema, há o impacto que a cidade grande


causa nos migrantes que chegam. No interior todos conheciam
o "seu Zé", de tal família e aqui passa a ser o "Zé Ninguém", 4 - Causas
desconhecido, desprezado e mais explorado ainda. Aqui não
existem mais as festas tão gostosas e este anonimato e ritmo São várias as causas que levam a esta migração contínua,
de vida levam o migrante a sentir apatia e desânimo. Enfim, mas todas são fruto da mesma política econômica voltada para
sente-se podado em suas raízes, costumes e tradições por todos a empresa agrícola exportadora. Do depoimento do secretário
estes fatores e pela falta de amizades. do Planejamento do Paraná, Vilson Deconto, pode-se deduzir
Outro problema muito sério são os menores abandonados. que tal política é intencional. "A saída de migrantes coincidiu
Segundo pesquisa feita pelo Centro de Estudos Migratórios, com a fase de consolidação da modernização da tecnologia
70% deles estavam em São Paulo há menos de um ano. agrícola do estado" 11.

4.1. Mecanização e concentração da terra

Esta tabela do IBGE nos dá uma idéia bem clara do


18
3.6. Depoimentos
que vem acontecendo ao longo dos anos:
Citamos dois depoimentos de migrantes que nos ajudam
a entender o que se passa, o que faz os migrantes partirem
e como se sentem diante de tanto sofrimento. estao. rurais N° das N'? tratores
Ano N':'

"... A gente trabalha a vida inteira na terra, depois o fa- . 296.146 1.284.698 5.181
zendeiro não quer mais a gente lá. Só quer gado e cana. Daí 1960 ,
a gente é expulsa para a beira da estrada. Depois vem o DNER e 1.981.471 18.619
1970 554.488
bota a gente pra fora, aí a gente vai pros cantos da cidade
e constrói um barraquinho. A cidade cresce. Aí vêm os fiscais 52.498
1975 478.453 2.079.174
da prefeitura e querem expulsar a gente. Neste mundo não
tem lugar pra gente não ... " (Depoimento de uma dona de 1.812.425 79.377
1980 458.842
casa de Sapé - PB; Jornal: O Momento - caderno B, João
Pessoa, dezembro de 1978)"
16 VAI-VtM, Boletim das Migrações, ano 1,n, 3, 1981, São Paulo.
•• Folha de São Bernardo, 6 de fevereiro de 1982. U Folha de São Paulo, 24 de março de 1982.
,. CEM, Migrantes: Exodo Forçado, Edições Paulinas, 1980, São Paulo. 18 Ibidem,

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96
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Isto significa que, à medida que aumenta o número de 5 - O que jazer?


tratores, diminuem o número de pequenas propriedades e o
número de pessoas ocupadas na lavoura. De fato, na década :B necessário permitir que o migrante expresse a sua com-
passada, foi de 400 mil o número de pequenas propriedades preensão a partir dele mesmo, a partir de seu nível de cons-
que desapareceram no Brasil e 39.000 somente no estado do ciência e de seu modo de entender as coisas. Só depois de se
Rio Grande do Sul. expressar, é que há a possibilidade de mudar o modo de ver
a realidade, que às vezes é um modo ingênuo.
Como se isto não bastasse, estão hoje nas mãos dos estran- Este livro ajudou a um grupo de migrantes a falar e é
geiros 30.433.896 hectares de terra. Tal área é superior a 7 esta" preciso que isto aconteça em maior escala. Já foi dado o pri-
dos do país: Sergipe, Amapá, Alagoas, Rondônia, Rio de Ja- meiro passo, os outros podem vir em decorrência deste pri-
neiro, Espírito Santo, Rio Grande do Norte e Paraíba 1D.
meiro. O migrante precisa entender qual é a causa da migra-
Pode-se deduzir que o aumento da migração interna está ção e se expressar em torno dela de maneira crítica mas com
diretamente relacionado com o crescimento do latifúndio e o suas próprias palavras. Se o migrante diz: "Saí porque as
conseqüente desaparecimento das pequenas propriedades. condições de vida eram ruins, ou a situação era fraca", deve-se
partir destas suas afirmações para chegar à causa fundamental
que é a mesma em Ipirá - BA, Londrina no Paraná, Gura-
bira na Paraíba e Ronda Alta no Rio Grande do Sul.
Porém, paralela a esta compreensão teórica, é preciso que
4.2. Grandes óbras ocorra uma prática transformadora para que aconteça a orga-
nização dos oprimidos, dos migrantes. Esta organização passa
Outra das causas da migração tem sido os empreendimentos pela resistência a não migrar (1.050 conflitos pela posse da
faraônicos que o governo tem feito e continuará fazendo. Sem terra), e chega aos sindicatos, às organizações populares, asso-
falar de Itaipu ou de Sobradinho, citamos o que se passa no ciações, e comunidades de base.
sul: "O projeto que a Eletrosul está desenvolvendo para a Só assim é que poderá acontecer uma reforma agrária em
construção de 2~ barragens nos rios Pelotas e Uruguai, para favor do pequeno lavrador. Reforma que significa: garantia nos
a geração de energia elétrica, deverá alagar uma área aproxi- preços, seguros, transportes, insumos e condições de vida, saúde,
mada de 75.300 km' e atingir 20 mil famílias, num total de além da terra.
100.000 pessoas, todas dependentes da exploração do mini- Neste sentido, cabe citar a heróica resistência de 463 dias
fúndio nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul" 20. das 220 famílias de colonos sem-terra acampadas em Encruzi-
lhada Natalino, Ronda Alta, RS, e que hoje estão fazendo a
Este dado nos ajuda a compreender que a pequena pro-
reforma agrária a partir da base.
priedade, se continuar a atual política, tenderá a desaparecer
É necessário abrir canais para que o migrante fale, em
como tem sido a tendência dos últimos anos. E a migração só
sua linguagem, para que junto com os outros se organize,
poderá aumentar.
lute, vença e se fixe na terra. Esta é a proposta deste trabalho.

Pe. Luiz Bassegio


"Folha de São Paulo, 11 de janeiro de 1982. Centro de Estudos Migratórios - SP
20 Folha de São Paulo, 22 de novembro de 1981.

99
98
Para os que desejarem aprofundar a compreen-
são sobre o problema das migrações, sugerimos
a leitura de Migrantes: Exodo Forçado, de auto-
ria da equipe do Centro de Estudos Migratórios
_ CEM, editado por Edições Paulinas, 1980.

Os Organízadores

Para os interessados em enviar sugestões, possí-


veis críticas, resultados de reflexões em grupos
..--- ou pessoal; e mesmo para os que simplesmente
desejam bater um papo sobre o problema dos
nordestinos em São Paulo, o endereço de cor-
respondência dos organizadores é:

Casa Cultura e Fé
R. Cardoso de Almeida, 313
05013 Perdizes - São Paulo (Capital)
tel. (011) 67-02-01

101
ÍNDICE

pág.
5 Apresentação
11 Histórico

13 Primeira parte:
/ POR QUE RESOLVEU VIR PARA SÃO PAULO?

31 Segunda parte:
COMO ESTA SENDO A VIDA EM SÃO PAULO

47 Terceira parte:
DIA COMUM - DIA DE TRABALHO
Dia comum de trabalho da mulher
Os motivos de se trabalhar
O que o trabalhador faz quando não está no serviço
Como é o serviço
O ritmo de trabalho
O salário
Os direitos do trabalhador (registrados e não registrados)
O relacionamento dentro da firma
A organização entre os funcionários

91 AP:E.NDICE