Você está na página 1de 43

!

conheça tan-';J~rn a óoleção pr;rneiros


( Sai~;~do que estão falando
ULT,,~OS LANÇAMENTOS
:~i:}A Ins~rreição -;=

,"" ..
, .,de
' '.
e. HII, Pernambucana de 1817
'1
92. QUESTÃO DA MORADIA - L. C. de Oueiroz Ribeiro/R.
M. Pechman Gla~yraL. Leite / !" I
93. JAZ,Z - Roberto Muggiati li '~~,=.-ã
I ('-1 ·RIEiJ.JOTECA- Luiz Milanesi
:;~ : ~RTICIPAÇÃO - Juan E. D. Bordenave
B7
" 96. CAPOEIRA - Almir das Areias
J 97. UMBANDA -- Fatrícia Birman
I:
98. LITERATURA POPULAR - .Josepn M. Luyten
99. PAPEL - Otávio Roth -
ao. CONTRACUL TURA - Cartos A. M. P2!e;ra
01. COMUNICAÇÃO RURAL '" Juan E.D, Bordenave
02. FOME- Ricardo Abramovay
03. SEMIO(T'ICA -=- Lúcia Santaella
:)4. PARTICIPAÇAO POLlTICA - Dalmo de Abreu Dallari
05. .JUSTI'CA - Júlio C. Tadeu Barbosa
; .~,ASTRÔLQGIA -- Juan Altredo C: Müller/Léa M. P,' Mül'w
-1U/. I?OLinCA 'CULTUR'AL- Martim Cezar Feijó ,
108. COMUi\lIDlô.D.ES ALTERNATIVAS -CarlosA. P. Tavares
':.9. ROMANCE POLICIAL ~ Sandra Lúcia Reimão
. 1';0. CULTURA - José Luiz dos Sentos "
lH. SERVICO SOCIAL -.,Ana Maria Ramos Estevão
l11z, TAYLORISMO - L M. RagoiE, F. P. Moreíra
11:~, BUHISMO- AntonióCarlos Roeha '
nLTEATRO NÔ - Darei Yasuco Kusàne '\

11~, REALIDADE - João-Francisco DuarteJúnior


113. ECOLOGIA -- Antônio Lago/José Augusto Pájlua-;:-::::;=::;;;_
1'17. NEOLOGISMO - Nelly Carvalho
!1.8, MEDICINA PR,EVENTIVA - Kurt Kloetzel
( (119, NORDESTE Bf~ASILEIRO-
r'

j
Carlos ,GaJeia
(~ -

,120. NAC:!ONALlPAI?E -j Guillermo Ra9! Ruben


l 1'21. TORTURA - Glauco Mattoso "
~ r I _ 1 i
.br'ls,il"iense -
{
==lIITURA~S =
illffiR]~ SBD/FFLCH/USP

• Arqueologia da Violência - Ensaios de Antropologia Política


- Pierre Clastres
• Crime, Violência e Poder' - Paulo Sérgio Pinheiro (orq.l
• Escritos Indignados - Paulo Sérgio Pinheiro
• Igreja e Política no Brasil - Márcio Moreirá Alves
• Sociedade e Política no Brasil pós-64 - Maria Hermínia T. de
A INSURREIÇÃO
Almeida (org.) PERNAMBUCANA
. DE 1817
• Violência Brasileira - Diversos Autores
• Violência, Povo e Polícia - Maria Victoria BenevideslCEDEC

Coleção Primeiros Passos


• O que são Direitos da Pessoa - Dalmo de Abreu Da/larí
• O que são Ditaduras - Amaldo Spindel
S8DIFF' TOMEO_
- :36853

'-Mi
• O que é. Violência - Nilo Odália
• O que é Violência Urbana - Régis de Morais

Coleção Tudo é História


• O Governo Goulart e o Golpe de 64 - Caio N. Toledo
.•.;-~~~ HO"Ií;:Co'-. \'lI:, fI.. ' ~w.
Coleção Cantadas Literárias /'~I~') C C If' , C\~tr·\I'~ :1(
/ ",\ '/;
• Feliz Ano Velho - Marcelo R. Paiva I> \
• A Fuga - Reina/do Guarany '.;' SWUliHf:â Df ')
• Marcou, Dançou! - Manual de Sobrevivência na Cela - José
Augusto Torres Fontes I::~ í;lt:!~.~~::,?~i~
};IS

111
1984
Copyright@GlacyraLazzariLeite

Subeditora da Coleção:
Lilia Moritz Schwarcz
qos (s~24ar/
Capa e ilustrações: TC(I;Õ
Miguel Paiva
,'8'1
Revisão: .~
José W. S. Moraes
Elvira da Rocha

~~~-H~~-r~c~~ ÍNDICE
~~()JU1~'

~ '.
Introdução 7
Pernambuco em 1817: uma economia basica-
mente mercantil ~. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
A emergência dos conflitos 15
DEDALUS - Acervo· FFLCH·HI As facções em luta e a tomada do poder . . . . . . .. 32
. Conclusões 75
11"1\11\"\ \\1\1 \11\\111\\ ,,\\\ 11\1\ 11\1\"111 IIIII IIIII IIII 1111
Indicações para leitura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 80

21200050122

j(P
editora brasiliense s.a.
01223 - r. general jardim, 160
são paulo - brasll
lJ
\

INTRODUÇÃO

No final do século XVIII e inicio do XIX uma


crise generalizaaa abalou o antigo slstema Cõlõi1ial e,
conseqüeritementé~mpério portUguês, parte inte-
grante desse sistema. Sintomas dessa crise manifes-
taram-se no Brasil e, particularmente, em - P~
b~~. Uma dessas manifestações foi a ins~mtçãõ
que irrompeu nessa província, em 1817, quando aflo-
raram as tendências contrárias à manutenção dos
laços coloniais. Essa rebelião propôs e chegou a con-
~r, ainda que Q.QIpouco mais de 70 d~, o fim_
.da_domipaçãjLQortuguesa-na região nordestina e a
adoção do sistema republicano de governo. Entre:-
tanto, pode-se perguntar: tendo a criseumcaráter
geral, illlr que apenas na região de Pernambuco
••••••••••••••• 0 •• -~C!'" __ ~". • __ --

uma parte da vasta área da colonia portuguesa na


América, adotou-se uma postura rebelde?
Os setores Íigados à pfôdução e, ~cialmente,
Para aqueles ligados à comercialização estavam compro-
Liliana, loão Paulo e Suzana.
\
(,

8 G1Qcyro Lazza,;Lei
j

metidos com o poder vigente. Como então explicar a


participação de elementos desses setores num movi-
mentocontra esse mesmo poder? Os testemunhos do
movimento rebelde dão conta também da presença
da massa popular nos principais episódios da luta de
1817. Como entender-se a presença dessa massa po-
pular juntamente com a presença de setores domi-
nantesTQual foi osignificado da insurreiÇão pafâ'as
naçõesêmpenhadas em manter relações comerciais
c"omo Bra~Ü?D~do $Ld~~~c~da i~ição, po~- PERNAMBUCO EM 1817:
se afirmar que, em Pernambuco, a tendencia para se
êiHn~ir õs Iaços coloniais foi dOlJlinaQ~lb -ãO~~-
UMA ECONOMIA
nos, controlada? BASICAMENTE MERCANTlé
Para respooder a tais questões faz-se necessário
verificar qual era a situação da regi~ô nJ!ti!estma nas
primeiras décadas do século XIX. No entanto, não se
deve restringir a análise a particularidades locais; A 6 de março de 1817_ty.Y.e início, na provincia
antes, inserir os acontecimentos no quadro geral da ~ --.-; ~- .".
.. -
de Pernambuco, um Q!ovim~ntOC'õ'íitraa ordem esta-
crise que conduzia ao rompimento dos laços que su- belecida, ou seja, contra l!.9oniinaçao portuguesa. O
bordinavam as colônias às metrópoles européias. fato de e~e movimento ter-se ii1icíãdó nessa provín-
cia tem um significado especia\. levando-se em conta
a rePreSeiitâtívídade polítiço:ecoiíômica de- Pernãni:
buco no conjunto do Império portu~~
--Dadas as implicações históricas que envolveram
a colonização do Brasil, foi privilegiado o cultivo dos
produtos tropicais solicitados no mercado "interna-
cional. No inicio do século XIX, os principais artigos
de exportação do Brasil eram o açúcar e o algodão.
O aumento das exportações desses produtos a
partir do final do século XVIII propiciou à metrópole
um considerável excedente no seu comércio com os
I li I
10 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 11

demais países europeus. A contribuição da capitania tinuou sendo o mais importante, seguido pelo algo-
de Pernambuco para a obtenção desse excedente está dão. O açúcar, além de destinar-se ao consumo do
registradanaposição que ocupava no conjunto das R~1no, era também encaminhado para outras regiões
regiões exportadoras do Brasil, ou 'seja, õfêi'êeitõ- européias, num momento de alta de seus preços. O
lugar, tendo sido-suplantada apenas pela Bahia e Rio quadro de reexportação de Portugal para outras na-
de Janeiro. ções apresentou um aumento substancial no volume
Em 1808 ocorreram grandes modificações con- de arrobas, a partir de 1814, e outro aumento ainda
junturais, tanto em relação a Portugal, como em mais substancial, no valor em mil-réis, a partir dessa
relação ao Brasil. Com a invasão de Portugal pelas mesma data e até 1820.
tropas napoleônicas e a abertura d_os-põrtos .aQJJ"iãSil A grande penetração do açúcar brasileiro nos
.àõ comérCio internacional , a economia portuguesa mercãd~ eiirõpeus, via Pórtugal, tornou-sé' objeto de
sofreüUiIiSério révés. Na colônia essaquêStão deve p.!eocupasão parã-a própria Grã-Bretanha, pois -a -.
ser vista de maneira diferente. O Brasil não sofreu os produção do açúcar do Brasil começava a ameaçar a
problemas que atingiram Portggal enem -o impacto - supremacia que suas colôlliás ~haviam consegüidô,"
negativo que a abertura dos portos -provõCõü nanie- - Quanto ao algodão, as regiões que _detinham a
trôpole" Pelo contrário, - o fntercâmbio coÍi1ercial primazia __d-ª-.pr.odQçãj>,na segunda década dõ século
prosseguiu, e bastante intenso, embora, a partir de XIX, eram Pernambuco e Maranhão. As exportações
então, orientando-se em novas bases. Terminou o ex- continuavam, na süamaI~rparte, tómando o destino
clusivo metropolitano e realizou-se otratado de CO-' de Portugal e, de lá, esse produto era redistribuído
iliérciocom a Inglaterra. A paz europeia e ã anglo-- na Europa. Os próprios ingleses buscavam o algodão
norte-amenêãiià collcõrreram para um crescimento brasileiro em Portugal, pois isto significava uma
da demanda do açúcar e a correspondente alta dos grande economia de transporte. Deve-se acrescentar,
preços. por outro lado, que o algodão brasileiro substituiu o
Â-Qartir de 1814-1815, no entanto, a economia americano no mercado francês, dadas as divergên-
de Portugalcomeçol.iã apresentar sintom'as derecu-- cias' entre a-França e os Estados Unidos, soluciona-
peração. Houve uma retomada do cõinérciõ corrCãs das somente em 1822.
mesmãS nações com as quais mantinha intercâmbio Assim, por volta de 1814~1815,
~..;:;..--C.-==--- ... ,.•..~. _,_ a recuperação
. - do
_.-
no período anterior a 1808 (Vitorino Magalhães Go- comércio entre o Brasil.e PQrtllg-ª-1e deste com outras
dinho. Prix et Monnais au Portugal, p. 295). nações fazia parte de um processo de retomada das
Dos produtos exportados Relo Brasil a Portugal. vantagens perdid-as pelos meréadores portugueses
,nas príiiieifas déêadaSdo sê'Cüi'o-XIX,"o açúcar con- _ com a abertura dõi poctos em 1~: Uma~ sup~:-
A Insurreição Pernambucana de 1817 13
12 Glacyra Lazzari Leite

dobramentos pelas várias regiões desse continente,


rada em Portugal a crise da ocupação napoleônica, provocaram o aumento da acumulação de capital. .
teve início uma luta, por pa~.Qs c~rcian!es 12.01::' Essa acumulação, no entanto, dadas as novas nor-
tu~~, no sentido 4~readquiriregi as posições per- mas comerciais, não se concentrava apenas na me-
didas anteriormente. A longa experiência aessés co"::- trópole, mas começava a se localizar, também, em·
merciantes em relação às praças brasileiras e euro- outros pontos. Embora ainda de forma desigual, evi-
péias era uma garantia para a continuidade daquelas denciava-se certa concentração de capitais nos cen-
relações. A praça de Lisboa continuou pois a contro- tros exportadores da colônia, o suficiente para provo-
lar, grande parte 'do com~rcio de Pernambuco, Os car freqüentes conflitos. Nesse particular colocava-se
agentes' portugueses-em Recife eram os intermediá- o problema de que toda essa inovação era anulada
riõ'SdãS trãnsaçõês entre as grandes casascomerciais pelo fato de serem os detentores dessa acumulação os
de'Cõndres e aSde Portugal. Em relação -às expor- mercadores reinóis e seus representantes estabeleci-
taçÕes de mercadorias inglesas para Perliainbuco, dos em Pernambuco. Um dos conflitos que se proje-
Portugal támbém continuou-á manter, 'erngrande tava, desde então, era a c'ontestação, por parte dos
parte, a posição de iÍltern;diárlo.-Ãté mesmo o co- produtores brasileiros, dos privilégios Ci..aldos
pelos
mércio de escravos dependia da interferência de por- comerciantes portugueses. - -
tu@eses. ---=- ._-' ._-- Desta forma, a eclosão da Insurreição de 1817 -
_._~ I>e;sa maneira, os mercadores portugueses asse- em Pernambuco deve ser analisada {lentro- do mo-:
guravam a sua participação no intenso movimento do mento de retomada, por parte de-PortUgal, <IQS p...ri-
comércio internacional. No entanto, para o capita- vilegios perdiôosem 18U8e de c-iescente concen--
lismo industrial era necessário investir contra as res- tração de capital em dinhéiro nas màó..sdos cimier--
trições monopolistas, que Portugal procurava asse- ciãntêsreinóis. Déve ser ãiialisadã', aind~omo inte::-
gurar. Várias medidas foram tomadas pela Coroa grada-ao períôdo de expansão da economia mundial,
portuguesa' nesse sentido. As tentativas das Cortes da brasileira em geral e da pernambucana em parti-
Portuguesas de recolonizar o Brasil, em 1820, foram cular.
o ponto alto da reação dos antigos monopolistas. Os produtores do Brasil vislumbravam as van-
A nova situação, criada em face das transfor- tagens que o comérciolivre oferecia; viam, aõ m~snlo
mações ocorridas na passagem do século XVIII para tempo, cerceadas" as j)õSsioiliõaoes de ampliação e
o século XIX, permitiu que fossem efetuadas mu- até de manutenção da participação nessas vantagens.
danças não apenas quantitativas, de aumento do Daí, a razão do desfraldamento da bandeira anti-
movimento mercantil. A intensificação das ativida- monopolista durante a insurreição de 6 de março de
des comerciais, no sentido Brasil- Europa e seus des-
14 Glacyra Lazzari Leite

1817. A retomada do comércio via Portugal, somada


o
aos de~ais problemas que~ass~bérbava~ setor pro-
dutivo,constitüíram o pano de fundo ga explosão
. das ~o!Ífradições êconômíêãs, políticas e sociais que
permeavam a sociedade pernambucaiia.- -

A EMERGÊNCIA DOS CONFLITOS

A apropriação e a exploração da terra

Os possuidores da riqueza
\

A f~Lm,.!.básica encontrada por Portugal. ~ri!.


exp.!?rar a sua colô~ da "'América)oi o ~t~e-
cimento da lavoura comerciaLno Nordeste brasileiro.
Assim, ãs ãt1VféIádeS airâri~s ~rientaram as formãs
de apropriação e exploração da terr~bem como as
reIl!Çõesque se estabeleceram entre- seu.shabitãntes.
A apropriação da terra foi feita por doação-por parte
da Coroa; transmissão por herança; compra; paga-
mento de dívidas por hipoteca e por apropriação de
terras de índios.
Nas primeiras décadas do século. XIX continua-
vam ainda as doaçõesde terra emsesmaria, mas esta
já não era a maneira, mais-. freqüente com que se
)
16 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 17

formavam as grandes propriedades. Desde então, em mento que lhes assegurava a garantia desses emprés-
1-
face da solicitação de produtos agricolas no mercado timos. Daí a importância de reter a propriedade da
internacional, passou a haver uma ação no sentido de terra, considerando-a como meio de produção mas,
se adquirir propriedades, A aquisição era feita por também, como garantia de novos investimentos. Isso
compra ou por mecanismos de pressão para o açam- levou muitos proprietários, que até então não haviam
barcamento de terras e a conseqüente ampliação de se preocupado em observar as normas estabelecidas
patrimônios. pela Coroa portuguesa para a demarcação de terras,
As pessoas dotadas de numerário suficiente para a tomarem medidas para cumprir essa formalidade
a compra de terras e de escravos passaram a concen- legal. Esse interesse pela demarcação foi também
trar em suas mãos os meios de produção, As pro- utilizado, muitas vezes, como pretexto para a incor-
priedades consideradas -de primeira classe começa- poração de patrimônios que se conservavam inexplo-
ram a se concentrar em mãos desse grupo. Consti- rados ou terras ocupadas por posseiros sem títulos,
tuíram-se, assim, novos grandes domínios. As pro- ou, ainda, de terras ocupadas por índios.
priedades adquiridas eram, geralmente, aquelas que Essas questões estavam diretamente relaciona-
se situavam nas proximidades do litoral e, portanto, das com o processo de valorização das terras, em
mais rentáveis. Entretanto, no final do século XVIII curso nas últimas décadas do período colonial. Essa
e início do século XIX a produção algodoeira passou valorização, por sua vez, relacionava-se à maior pro-
a ter grande importância para a exportação. Desta cura dos produtos tropicais no mercado internacio-
forma, mesmo as terras de segunda categoria come-: nal e à conseqüente necessidade de manter a posse da
çaram a ser disputadas. O algodão não é tão exigente terra como meio de produção e garantia de crédito
quanto a cana-de-açúcar, em matéria de solo. Mui- para os novos investimentos. Quando os proprietá-
tos antigos proprietários que não dispunham de re- rios passaram a empenhar-se na legitimação de suas
cursos para repor seus escravos e instrumentos de terras, ocorreram numerosos litígios, que se configu-
trabalho foram obrigados a dispor de suas terras ou ravam em mais uma área geradora de atritos e de
parte delas e mesmo de escravos. . conturbação da ordem social vigente.
Dispor de terras tinha um significado muito A crise que atingira o Império português no
grave em relação à situação econômica do proprietá- ~ início do século XIX criou necessidades cada vez
rio. Em decorrência do tipo de economia vigente, os maiores para a Coroa. A manutenção de um apa-
novos investimentos estavam na dependência dos relho burocrático dispendioso fazia com que a polí-
empréstimos obtidos pelos produtores. Nesse parti- tica fiscal adquirisse um caráter cada vez mais opres-
cular, a terra, como meio de produção, era o ele- sivo, concorrendo para dificultar a reinversão de ca-
18 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pemambucana de 1.817 19

pital no setor produtivo. A maioria dos senhores de do Brasil, em geral. Esse aumento populacional foi
engenho dependia de financiamentos para a: reno- coerente com o desenvolvimento da economia expor-
vação da produção e, .desde há algum tempo, vinha tadora instalada na região. O crescimento da po-
obtendo adiantamentos a longo prazo. Durante gran- pulação bem como o incentivo à entrada de mão-de-
de parte do século XVIII (1759-1780) uma compa- obra escrava relacionavam-se positivamente com a
nhia de comércio, a Companhia Geral de Pernam- maior necessidade de força de trabalho. Isto fica evi-
buco e Paraíba, deteve entre seus privilégios o de denciado quando se constata, nas primeiras décadas
fornecer escravos aos proprietários pernambucanos. do século XIX, a presença mais concentrada de
A mesma companhia concedia financiamentos que população escrava no Nordeste, em especial em Per-
eram utilizados pelos senhores de engenho para nambuco, do que em outras regiões do Brasil.
compra de instrumentos de trabalho. Originou-se, o trabalho escravo foi de grande importância na
daí, uma dívida que os proprietários não encontra- organização da empresa colonial; de tal maneira que
vam condições de saldar. Embora a Companhia de a manutenção dessa forma de organização do traba-
Pernambuco e Paraíba tenha sido extinta em 1780, lho era um dado inquestionável para os setores domi-
as cobranças prosseguiram no século XIX. Portanto, nantes. No momento histórico em estudo, determ:i-
o setor representado pelos proprietários territoriais nados segmentos dos setores dominantes passaram a
de Pernambuco, no início do século XIX, tinnaim-::-- questionar o sistema colonial, especialmente no que
por!aIl~s reivindicações a~!:z ta~t2. nõ_qu~díz diz respeito aos privilégios comerciais detidos pela
respeito à dívida com a ~panhia,_quantQ._J l2QI!: Coroa portuguesa e pelos grupos a ela ligados. No
tica fiscaLopressiva êxercida por Portugal nesse mo- entanto, essa crítica não atingia o estatuto da escravi-
mento histórico. . - - ' dão, considerado como imprescindível ao êxito dos
empreendimentos daqueles setores. A presença dessa
força de trabalho era de importância tal que, apesar
Os despossuídos: a população trabalhadora dos atos de rebeldia e de insubordinação, ela deveria
e a população marginal ser mantida. Nem sempre a imagem do escravo na
propriedade açucareira foi aquela do indivíduo pas-
No período compreendido entre o final do século sivo e submisso. Ao contrário, as fugas, as revoltas,
XVIII e início do século XIX, o crescimento da popu- os assassinatos dentro dos engenhos eram aconteci-
lação nordestina, entendendo por tàl a população mentos freqüentes.
localizada na área entre Ceará e Alagoas, foi mais Os senhores de grandes domínios, redutos de
intenso do que a média de crescimento da população muitos escravos, mantinham-se em permanente vigi-
20 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1~17 21

lância. As fugas, com a conseqüente formação de


quilombos, eram freqüentes. O risco temido por
esses senhores era sentido no interior de suas proprie-
dades. Os casos de assassinato de proprietários fa-
ziam parte da vida cotidiana. A ameaça pairava so-
bre os senhores; o medo estava sempre presente. Os
fazendeiros solicitavam freqüentemente licença para
portar armas durante' suas viagens e, conforme ale-
gavam, defender-se de ataques de negros fugidos que
infestavam as regiões despovoadas. Segundo Koster
(Henry Koster, Viagens ao Nordeste do Brasil, p.
256), esses negros fugitivos construíam cabanas cha-
. madas mocambos, em lugares ermos, e viviam da
caça e dos frutos que podiam encontrar. Agrupa-
vam-se, às vezes, em número de dez ou doze. Era
muito "difícilsurpreender esses indivíduos, porque o
conhecimento que tinham das matas lhes dava uma
forte vantagem contra os grupos, porventura envia-
dos contra eles. Freqüentemente saqueavam as pro-
priedades na busca de alimentos.
As preocupações com levante de escravos toma-
ram um maior vulto nas primeiras décadas do século
XIX. As agitações atingiam uma vasta região nordes-
tina e mesmo outras áreas, onde a concentração de
escravos era menor. Depoimentos de alguns escra-
vos, presos em 1815 em Alagoas e enviados para
Recife, referem-se a "insulados aquilombados nas
matas". Esses negros eram acusados de "fomenta-
dores de sedição".
-----"~
Para as autoridades constituídas não se tratava As preocupações com levante de escravos tomaram maior
apenas de riscos pessoais ou de prejuízos do patri- " vulto nas primeiras décadas do século.XiX.
22 Glacyra Lazzari Leite \~ Insurreição Pernambucana de 1817 23

mônio. Havia ainda uma outra preocupação, agra- disponível conforme as necessidades desses proprie-
vada na medida em que os quilombos se expandiam, tários.
representada pela ameaça de uma organização maior Essa população não escrava era composta geral-
que pudesse comprometer o poder público. Essas mente de mestiços, que haviam se instalado em terras
autoridades estavam informadas de que havia entre ainda não ocupadas efetivamente, passando a prover
os negros uma hierarquia, com titulos de nobreza e sua subsistência pela exploração de pequenas áreas.
postos militares. Estava ainda bem presente para Como não eram portadores de títulos legais, seus
aquelas autoridades o exemplo do Haiti. Antes que nomes nunca constaram dos documentos oficiais.
ocorresse algo semelhante no Brasil seria preciso re- Nas primeiras décadas do século XIX, na medida em
primir qualquer tentativa de insubordinação. Assim, que se efetuava a legitimação da posse da terra,
as autoridades locais de Pernambuco recorriam ao representada pela formação ou reestruturação de
governo central para deter qualquer movimentação grandes domínios, essa população ia sendo expro-
nesse sentido. Insistiam na necessidade de extinguir priada sem que pudesse contar com qualquer defesa.
os focos de disseminação de revoltas - os quilom- Deve-se entender por expropriação, no caso, a sepa-
bos. ração daqueles trabalhadores das terras que lhes ser-
A utilização da mão-de-obra escrava, embora viam de meios para retirar sua subsistência. Esses
fosse básica, não era a única forma de exploração do indivíduos, quando não eram expulsos, eram incor-
trabalho. Essa exploração estendia-se à população porados juntamente com suas pequenas posses à
não escrava, sob diversas formas e intensidade variá- grande propriedade, passando a realizar nelas algu-
vel, dependendo das expectativas que o mercado in- mas atividades, quando solicitados, constituindo-se
ternacional oferecesse aos produtos de exportação. assim em mão-de-obra de reserva. Um exemplo de
A força de trabalho não escrava era solicitada
para o desempenho de tarefas que não convinham ser . -
favorecimento por parte dos proprietários era a per-
. . ~
rmssao para que ocupassem pequenas areas para ro-
atribuídas a escravos, como, por exemplo, a derru- çadas e também a concessão de eventual proteção con-
bada de matas, ou para a prestação de serviços ou, tra as autoridades constituídas (caso dos elementos
mesmo, para compor milícias particulares. A remu- sujeitos a serviço militar ou de foragidos da justiça).
neração a essas tarefas consistia, geralmente, em Essa população despossuída, não escrava, po-
concessões feitas pelos proprietários, como troca de deria ser requisitada para participar do processo de
favores. Tais favores não representavam nenhum produção ou, mesmo, poderia ser expulsa das terras
ônus para os senhores; ao contrário, constituíam a que ocupava, conforme a maior ou menor suficiência
garantia de manutenção de uma força de trabalho de mão-de-obra escrava e as necessidades de produ-
7 ,(
24 Glacyra Lazzari Leit~! \A Insurreição Pernambucana de 1817 25
\
ção e os interesses dos' proprietários. Estes agiam em " pre deslocada para regiões mais distantes, mais su-
função das possibilidades de exportação e obtenção . jeitas a secas e de solos mais pobres. Assim, no
de bons preços para os seus produtos. As plantações Nordeste"e, em especial, nas regiões de maior densi-
de algodão, por exemplo, eram um setor que reque- dade demográfica, a carestia era um fato constante.
ria um aumento da mão-de-obra nos períodos de Ainda que a maior parte da população despos-
colheita. Uma certa quantidade de escravos podia suída, não escrava, permanecesse radicada na zona

'lit:
ri
dar conta da plantação e mantê-Ia, mas não era sufi-
ciente para colher o produto. A essa insegurança
quanto à possibilidade de se prover a subsistência,
quer pela exploração de pequenas posses, quer pela
oferta eventual de um trabalho nas grandes proprie-
nitidamente rural, não se pode ignorar a importância
relativa que vinham adquirindo, também, os habi-
tantes pobres dos centros urbanos. Esses centros vi-
nham recebendo, entre outros casos, contingentes
r
J
populacionais expulsos, ocasionalmente, pela expan-
dades, deve-se acrescentar o risco que representava,
para as condições de subsistência, a ocorrência de
são dos canaviais. Essa população atraída pela possi-
bilidade de conseguir uma ocupação qualquer nas I
I
problemas de ordem natural, como as secas. Nesse regiões portuárias ativas - como Recife - para lá se I
particular, cabe uma referência à seca de 1816. dirigia, ficando disponível para a realização de pe-

I
O processo de produção gerou a necessidade do quenas tarefas. Concentrados em determinados pon-
I desenvolvimento de uma lavoura de subsistência, que tos da vila, tais elementos constituíram uma popu-
acompanhou a lavoura comercial. Os produtos para lação marginal, sensível a manifestações de rebeldia
subsistência, nos grandes domínios, podiam ser con- de qualquer ordem.'
seguidos pelo estabelecimento de roças, dentro da Assim, a vila de Recife apresentava-se como um
. propriedade, cultivadas por escravos ou por traba- núcleo comercial em expansão, como ponto de con-
lhadores não escravos, que obtinham a permissão vergência de unia área relativamente ampla, fundada I
para aí se estabelecer. Havia também a possibilidade na produção para exportação. Por isso mesmo, a {
do cultivo da mandioca e de' alguns produtos em cidade de Recife constituía-se num ponto vulnerável,
áreas arrendadas ou, mesmo, mais raramente, em ~ pois contava com condições específicas para que aí se
pequenas propriedades. manifestassem os sintomas da crise que se projetava
Considerando-se que a lavoura de subsistência nas relações entre a colônia e a metrópole.
sempre foi relegada a um plano secundário, em re-
lação à. da exportação, sua permanência nas dife-.
rentes/áreas dependia sempre do ritmo de expansão !l,
des6 última. A agricultura de subsistência era sem-

-
(I

A Insurreição Pernambucana de 1817 27


26 Glacyra Lazzari Lei(J

o poder constituído: a administração, beneficiados eram sempre estes últimos. Tal parciali-
dade em favor dos nascidos em Portugal não se devia
o clero e a força armada apenas ao desejo de íavorecê-Ios mas, também, ao te-
A organização de um aparelho administrativo mor de atribuir poder administrativo a elementos mais
na colônia visava o estabelecimento de um sistema predispostos a contestar a ordem estabelecida. Eram
capaz de proporcionar amplos rendimentos à Real sempre portugueses os designados para altos postos,
Fazenda com um mínimo de dispêndio de recursos. tanto civiscomo militares. Portanto, do ponto de vista
Na medida em que a colônia prosperava, o senti- da administração esboçava-se o conflito não só entre
mento de exploração ia se tornando cada vez mais brasileiros e portugueses mas, também, entre o po-
presente, gerando a disposição de colonos contra as der local e o poder sediado no Rio de Janeiro.
medidas opressivas da metrópole. Esse sentimento Para uma visualização mais completa das ques-
assumiu a forma de conflitos entre colonos e admi- tões aqui levantadas é indispensável a referência a
nistração portuguesa. Tais conflitos agravaram-se a um setor da sociedade colonial, o clero, cuja pre-
partir da instalação da corte portuguesa no Rio de sença foi marcante nos conflitos desse momento his-
Janeiro, quando então os encargos tornaram-se ainda tórico. Alguns de seus componentes poderiam estar,
mais opressivos. como indivíduos, integrados no grupo dos proprie-
A legislação fiscal visando aumentar a arreca- tários territoriais. No entanto, a própria condição de
dação foi reformulada. Alvarás, decretos e leis foram religiosos conferia aos membros do clero determi-
expedidos nesse sentido. O Rio de Janeiro assumiu o 'nadas particularidades que justificam uma referência
papel de metrópole e as demais capitanias passaram à parte. Essas particularidades foram responsáveis
a funcionar na sua estrita dependência. A Coroa não pela sua presença nos conflitos por questões relativas
vacilava em lançar novos impostos destinados ao seu ao poder político ou ao poder econômico.
custeio e à manutenção da máquina administrativa. Além do clero secular, que freqüenternente en-
Pernambuco era uma das capitanias mais visadas trava em choque com a administração portuguesa
por ser das mais rendosas. Os tributos, que pesavam por questões de ordem particular, ou mesmo ideoló-
principalmente sobre a agricultura, eram objeto de gica, também as ordens eclesiásticas estiveram envol-
reclamações das autoridades locais. vidas nas questões entre colonos e metrópole. Eram
À má administração e à corrupção juntou-se, elas possuidoras de grandes propriedades e, nesse
ainda, a prodigalidade para com os recém-chegados sentido, sofriam as mesmas vicissitudes que afeta-
com a Corte. Essaprodigalidade criava ressentimen- vam os grandes proprietários rurais, ou seja, as limi-
tos entre os nascidos no Brasil e europeus, porque os tações impostas pelo monopólio metropolitano.
'i - ,
28 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 29 I'l

o comportamento do clero ligado a instituições tivos. As formas de arregimcntação de recrutas fo-


religiosas preocupava em tal grau as autoridades de ram extraordinariamente violentas e significavam
Pernambuco, que estas, por várias vezes, sugeriram uma devastação semelhante à de uma guerra civil.
ao governo central a necessidade de restringir a ação Sempre que se desencadeava uma operação de recru-
de tais instituições. Entretanto, as restrições que tamento os mesmos fatos se repetiam. De um lado, a
atingiram as ordens religiosas eram sempre acompa- administração portuguesa utilizando todos os meios
nhadas de recomendações de cautela na forma de para conseguir reforçar o contingente das tropas. De
tratar os assuntos dessas mesmas ordens, dado o outro, a população valendo-se também dos mais va-
poderio econômico e social que detinham. riados expedientes para livrar-se da operação como.
O estabelecimento da empresa colonial impôs, pulsôria. Estabelecia-se então um clima de luta aber-
11'
!I
como uma necessidade, a organização de um apa- ~ ta entre o aparelho repressivo e os outros setores da
relho de força capaz de sustentá-Ia. Paralelamente às sociedade.
tropas regulares, organizaram-se, também, corpos Fugindo, os recrutas estavam assegurando a sua
militares não remunerados - ordenanças e milícias. subsistência ainda que na condição de clandestinos.
Dada a sua própria organização, as forças armadas Terminada a onda de apreensão, regressavam a seus
congregavam elementos ligados a setores diversifica- locais de trabalho, geralmente submetendo-se a ser-
dos da sociedade colonial. Como forças repressivas viços em troca de proteção dos mais poderosos. Os
eram responsáveis pela manutenção do estatuto colo- proprietários, quando necessitavam desses indiví-
nial, e grand,é parte delas identificava-se com esse • duos como força de trabalho, ofereciam a sua prote-
objetivo. Contudo, aqueles elementos, que contes- ção, fazendo surgir assim uma relação de dependên-
tavam a manutenção daquele estatuto, tiveram mui-
tas vezes uma atuação decisiva nas contestações ao
sistema colonial.
! cia. Os desertares, vivendo sob a ameaça de prisão,
engrossavam os contingentes de subordinados desses
. senhores. Como as ordens de recrutamento proce-
A. administração portuguesa procurou por vá- diam da autoridade portuguesa, a reação a essas
rias formas superar tais confrontos. No entanto, determinações era um sintoma da existência de
mesmo com a adoção de diversas medidas preven- t uma crise nas relações entre a metrópole e a colônia.
tivas, as contestações foram se agravando até cul- Ficava demonstrada, assim, de um lado, a deterio-
ração dessas relações e, de outro, a tentativa da
minar com os grandes conflitos que antecederam a
Independência.
Uma.das maiores dificuldades para a organi-
,,I Coroa portuguesa de reforçar sua autoridade na co-
lônia e procurar mantê-Ia a qualquer preço.
zação da força armada na colônia foi a falta de efe- Nas últimas décadas do período colonial acen-

j .J
~

f A Insurreição Pernambucana de 1817


Glacyra Lazzari Leite 31
'i 30
I~
II tuaram-se, consideravelmente, as incompatibilidades tropas de linha geralmente identificavam-se com os
tanto no interior das tropas como entre as diferentes portugueses; opunham-se, assim, às tropas auxilia-
categorias que constituíam as forças repressivas em res, mais identificadas com os nascidos no Brasil.
Pernambuco, ou seja, tropas regulares e tropas auxi- As inúmeras questões surgidas no seio das tropas em
liares. Não eram apenas divergências de interesses Pernambuco levavam a uma situação generalizada
mas, também, uma disputa generalizada pelos pos- de indisciplina, chegando mesmo alguns regimentos
tos mais elevados. A par dos atritos na hierarquia a ser descritos, por seus oficiais, como revoltosos.
I militar, acentuavam-sé, nas forças armadas, os con- Entre as diversas questões que contribuíram
I1 flitos entre os nascidos no Brasil e os reinóis. A dis- para a situação de indisciplina faz-se necessário res-
I tribuição dos postos militarés conferia à autoridade
amplo poder. Tais conflitos ultrapassavam, freqüen-
temente, o âmbito da guarnição militar, envolvendo
saltar os desentendimentos entre homens brancos e
homens de cor. Fazia parte das tropas auxiliares
regimento de negros livres e homens pardos. A
não apenas questões de caráter social, como também atribuição do comando desse regimento a oficiais
questões de poder, abrangendo os vários níveis - brancos era sempre um fator de atrito no seio das
local, provincial e central. • tropas.
A maneira pela qual as forças armadas se orga- Havia, assim, um complexo de situações que se
nizaram na colônia permitiu que houvesse uma desi- interpenetravam. As dificuldades administrativas, a
gualdade marcante entre as várias categorias milita- falta de uma definição das atribuições eram resul-
res. Essas desigualdades acentuaram-se ainda mais tado do precário funcionamento de instituições já em
1;1, . I

em virtude de modificações efetuadas na legislação I flagrante desacordo com as situações vividas nos iní-
militar elaborada após o estabelecimento da Corte no cios do século XIX. Esses conflitos portanto não
Brasil, em 1808. Essa legislação favorecia as tropas podem ser vistos isoladamente mas, sim, como parte
de linha em detrimento das milícias no que diz res- do processo de desagregação do antigo sistema colo-
peito à obtenção de patentes para novos postos. nial. É no interior dessa crise que a Insurreição Per-
A desigualdade entre tropas auxiliares e tropas nambucana de 1817 deve ser analisada, entendendo-
de linha era marcada ainda no que se refere às despe- se como resultante de uma situação crítica da própria
sas pagas para a obtenção das patentes. Eram privi- conjuntura do momento histórico, reservando-se, no
legiados os pertencentes às tropas de linha. No caso "entanto, certas particularidades muito próprias da
de divergências entre tropas regulares e tropas auxi- formação histórica dessa região.
liares, a par do sentimento de superioridade dos

tt
primeiros, proveniente de seu caráter profissional, as
i.I
~ -
'rr f A Insurreição Pemambucana de 1817 33

vezes, agressiva na maneira de ver de alguns grupos.


Os incidentes do dia-a-dia e a ação sistemática das'
sociedades secretas, de uma certa maneira, davam
credibilidade a uma série de boatos mal definidos, a
respeito de levantamento de tropas, movimentação
popular e ação revolucionária, o que gerava um clima
de insegurança. ..
Na verdade havia, de uma parte da oficialidade
brasileira e de um grupo de civis ligados aos setores
111(
AS FACÇÕES EM LUTA dominantes, o empenho de realizar um movimento
E A TOMADA DO PODER I .['1 armado com a finalidade de substituir as autoridades
,~ portuguesas por autoridades brasileiras.
, A exasperação dos ânimos, que culminou com a
I
ec1osão da insurreição iniciada no dia 6 de março de
... "Se o medo lhes mascara os sentimentos, 1817 em Pernambuco, teve como móvel imediato
o medo tem limites, e dos males alguns acontecimentos que se precipitaram desde o
quando se enche a medida; furiosa início desse mês. No dia 1? de março, o governador e
arrebenta a vingança e tudo envolve."
capitão-general Caetano Pinto de Miranda Monte-
Lucio José de Matos (1819)
negro foi procurado pelo desembargador José da
Cruz Ferreira, ouvidor da Comarca do "Sertão",
A situação de crise que atingia Pernambuco pre- para ser colocado a par de notícias, segundo as quais
dispunha os vários setores de sua sociedade a um o "partido dos brasileiros" tramava o extermínio dos
confronto. Uma atmosfera de mal-estar era perce- europeus. Como o governador solicitasse maiores de-
bida na vida cotidiana da cidade de Recife, quando I-- talhes, no dia seguinte foi levado à sua presença o
alguns atritos de rua tornaram-se freqüentes. Ques- comerciante Manuel de Carvalho Medeiros com in-
tões menores, como ofensas recíprocas entre brasi- I. formações a respeito da realização de reuniões, con-
leiros e portugueses, passaram a adquirir forma vio- sideradas suspeitas, e de compras de armas. As reu-
lenta. A ação das sociedades secretas, que causava niões seriam organizadas por Domingos José Martins
inquietação aos setores mais cónservadores, tornava- - líder do planejado movimento - e delas teriam
se cada vez mais ostensiva quando, em suas reuniões" participado militares do regimento de artilharia,
e banquetes, usava-se uma linguagem liberal e, por além de muitos civis.
l'Jo;

411
It
~.~~
34 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 35

Diante de tal situação o governador expediu, no


dia 4 de março, uma ordem do dia aos regimentos,
em que eram condenados os "partidos fomenta-
dores" de rivalidades entre nascidos em Portugal e
nascidos no Brasil, ao mesmo tempo, a tropa era
advertida para que não se deixasse "contaminar" por
essas idéias e se mantivesse subordinada às leis mili-
tares. No dia seguinte, 5 de março, dirigiu à popu-
lação uma proclamação em que enfatizava a grande
dádiva que havia sido a elevação do Brasil à categoria
de reino e dizia serem todos cidadãos vassalos do
mesmo soberano, a quem deviam lealdade.
Além dessas medidas o governador convocou,
para o~clia_-6..de março, um Conselho de Guerra.
Nesse Conselho decidiu-se efetuar a imediata prisão
dos indivíduos denunciados como autores da conspi-
ração. O marechal José Roberto da Silva foi encarre-
gado da prisão dos civis, ficando a prisão dos"mili-
I tares a cargo dos comandantes dos respectivos regi-
mentos. No momento da execução da prisão dos civis
tudo correu como o planejado. Já em relação à prisão
dos militares houve reações por parte do capitão José
de Barros Lima, do regimento de artilharia. Esse
oficial atingiu mortalmente, com sua espada, o brio
gadeiro Manuel Joaquim Barbosa de Castro. Ao to-
mar conhecimento desse fato, o tenente-coronel Ale-
xandre Tomaz de Aquino Siqueira, ajudante-de-
ordens do governador, dirigiu-se ao mesmo quartel, e
lá "também foi morto por soldados que já haviam sido o tenente de artilharia Antonio Henriques dirigiu·se para
preparados para a ação pelo capitão Pedro da Silva o largo da "cadea" onde estava a prisão e libertou Do-
Pedroso. mingos José Martins.
36 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 37

A notícia desses acontecimentos correu rapida- fensores do poder português deixaram no local seus
mente. Os sinos das igrejas começaram a repicar, armamentos e procuraram. refugiar-se no convento
atraindo populares vindos de diferentes regiões, como Madre de Deus ou em navios ancorados no porto.
se estivessem esperando, há algum tempo, o início do Durante sua permanência na Fortaleza do
movimento. Os soldados dirigiam-se aos quartéis Brum, Caetano Pinto de Miranda Montenegro or-
onde eram estimulados a combater em favor da in- denou que fossem reunidos e armados os marinheiros
surreição. Os portugueses, amedrontados, procura- dos navios ancorados no porto, que a guarda da ci-
vam asilo a bordo dás embarcações ancoradas no dade de Olinda fosse substituída por milicianos, bem
porto. O tenente de artilharia Antonio Henriques, como ordenou a vinda do regimento dessa cidade
chefiando um grupo de soldados armados e prece- para Recife trazendo as peças de artilharia e muni-
didos de duas peças de campanha, dirigiu-se para o ções. Nenhuma dessas medidas resultou favorável
largo' da "cadea", onde estava a prisão, e libertou aos realistas. O regimento e as peças de artilharia
Domingos José Martinse os demais presidiários. chegaram à Fortaleza do Brum; as munições, no
Ao mesmo tempo que ocorriam esses aconteci- entanto, ficaram depositadas na casa do deão e vigá-
mentos, o tenente-coronel José Xavier de Mendonça rio-geral Bernardo Luiz Ferreira Portugal, o que faci-
- fiel aos realistas - dirigiu-se ao quartel-general litou apossarem-se delas os rebeldes. O domínio do
levando as notícias ao governador. Caetano Pinto de Erário Régio era vital para as partes em litígio.
Miranda Montenegro, acompanhado de seus Iami- Assim, o governador ordenou ao marechal Jose
liares, de sua guarda pessoal e da guarda das portas Roberto que o defendesse com todas as forças, pois já
do quartel, decidiu refugiar-se na Fortaleza do Brum, previa que uma dependência de tanta importância
que dominava parte de Recife e protegia seu porto. não tardaria a ser atacada pelos amotinados, o que
Lá chegando, ordenou que as tropas realistas des- de fato sucedeu. Uma força insurgente, sob o co-
truíssem imediatamente a ponte que ligava dois bair- mando de Domingos Theotônio Jorge e Pedro da
ros de muita importância estratégica, o de Santo Silva Pedroso, contando com a colaboração de Do-
Antônio e o de Recife. Essa ponte garantia a união mingos José Martins, dirigiu-se à Praça do Erário.
da cidade, sua circulação interna e o funciona- Não houve combate. Uma das divisões realistas pas-
mento do comércio local. O plano do governador, sou para o lado dos insurgentes e o marechal e seus
entretanto, não foi bem-sucedido. Os rebeldes, co- homens renderam-se.
mandados pelo tenente Antonio Henriques, recha- Entretanto, colocava-se ainda um grande obstá-
çaram o ataque com tiros de "metralha" e gol- culo aos rebeldes: o governador dominava a principal
pes de baioneta. O encontro foi violento, os de- fortaleza, com uma guarnição numerosa e farta pro-
38 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 39

visão de guerra. A população da vila de Recife estava excessivo júbilo ajuntava a geral confusão; não se
manifestamente apoiando a insurreição; não se ti- sabia em quem residia a autoridade, tudo estava em
nha, contudo, a mesma segurança em relação à po- suspensão". (Muniz Tavares, História da Revolução
pulação de outras localidades. Assim, impunha-se de Pernambuco de 1817.)
aos rebeldes assenhorearem-se da Fortaleza do Brum, Removidos, pois, os principais obstáculos -
obrigando o governador a se render. Decidiu-se, en- afastamento da autoridade mais representativa da
tão, mandar um destacamento para Olinda, a fim de Coroa portuguesa em Pernambuco, e de seu suporte
impedir que dali fossem enviados mais reforços ao militar - estava aberta a possibilidade de os insur-
governador. Ao mesmo tempo, deslocou-se para o gentes ocuparem o poder. O primeiro passo foi or-
Brum toda a tropa disponível, sob o comando de ganizar um governo: o Governo Provisório da Repú-
Domingos Theotônio Jorge. A luta a enfrentar confi- blica de Pernambuco. Esse governo encarregou-se de
gurava-se difícil. Optou-se, primeiramente, pela ne- completar a Insurreição e de realizar os objetivos
gociação. José Luiz de Mendonça partiu para a For- propostos pelos seus idealizadores. Assim, logo sen-
taleza, levantando uma bandeira branca, e propôs ao tiu a necessidade de uma ação rápida, não apenas
governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro a para configurar a instauração de um poder local
sua capitulação e a das forças que ainda o apoiavam. mas, igualmente, para evitar a radicalização do mo-
Desta forma, a 7 de março iniciaram-se as negocia- vimento.
ções para a rendição, ficando estabelecidas, pelos pr-esença @_~!-popular nas ruas consti- •
insurgentes,algumas condições: a saída das tropas ruía objeto de inquietação para os rebeldesl Essa
fiéis ao governo português que se encontravam na presença e essa inquietação é destacada tanto em
Fortaleza e a entrada das tropas rebeldes; o embar- depoimentos de rebeldes como de realistas. Ambos
que do governador para o Rio de Janeiro, logo que os lados relatam que havia uma "algazarra" pelas
uma embarcação estivesse pronta. Tais condições ruas, onde se ouviam gritos de "Viva a Pátria e
foram aceitas por um Conselho presidido por Cae- morra marinheiro". Relatos de europeus ressaltam o
tano Pinto. medo que os atingiu e afirmam que não havia bran-
Configurou-se assim, nesse momento,a vitória cos nas ruas e que "os cabras, mulatos, e crioulos,
dos insurgentes. Segundo Muniz Tavares, partici- andavam tão atrevidos que diziam éramos todos
pante da Insurreição de 1817, "indivíduos de todas iguais, e não haviam de casar, senão com brancas,
as classes acorreram para saudar os vitoriosos, ati- das melhores". Desta forma, tanto as [iderancas.re-
ravam para o ar os seus chapéus e consumiam os beldes como os realistas manifestavam temor de um
pulmões com altos gritos de aparente júbilo, mas ao ..•...
, -
engajamento muito amplo~ e ativo
-- daquela
--- - parte da..
-,

rr
1;1
40 Glacyra Lazzari Leite
I
/
A Insu~içãO Pernambucana de 1817
\ .
41

",1
população, a quem chamavam de "populaçal'. O I expedidJ,para dar conhecimento à população dos I
que afligia as elites em geral, além de um receio componentes do novo governo. Eram eles: o padre
muito grande da escravaria, era a necessidade de João Ribeirolessoa de Melo Montenegro, da parte
Imanter º-~-ºntrQle da~situaçãoJ Ainda segundo Muniz II do clero; Domingos José Martins, representante do
Tavares - "em relação ao vulgo, é necessário ceder- comércio; JoséLuiz de Mendonça, da magistratura;
u
lhe oportunamente uma parte para não perder-se Manuel Corrêa de Araújo, da agricultura, e Domin-
li'
o todo" (Muniz Tavares, História da Revolução Per- gos Theotônio Jorge, do setor militar. Como CQl}Se-
'.: .lheiros, foram escolhidos pelo Governo Provisório o
nambucana de 1817). Com esse objetivo o Governo
Provisório expediu, logo após sua posse,uma circu- desembargador
- Antonio
.
Carlos Ribeiro de Andrada,
lar aos capitães-mores, ordenando que permaneces- o doutor José Pereira Caldas, o deão Bernardo Luiz
sem no controle de suas vilas e conservassem o "sos- t .Ferréira Portugal e Gervásio Pires Ferreira, grande
sego público", principalmente entre pretos e mesti- ~'
negociante em Pernambuco. .
ços, devendo prender todos os que perturbassem a - Qs rebeldes de 1817 ess:olher-ª1!Ulj.unía_de .go-
ordem, além de tomar os bacamartes e pistolas que xerno COJ1ln..a_iol!Pamais adequada para CQillRQCO
" estivessem em mãos de particulares. Governo Provisório da República dePernambucç .
.Na constituição dessa junta percebe-se ..aJotl!tausên':..
era dos setores _d9lJll!!ªQ.qs. Os setores dominantes,
que haviam assumido a liderança do movimento, não
o Governo Provisório da República puderam deixar de marcar também a composição do
de Pernambuco: atuação política Governo Provisório. O poder seria, pois, manipulado
por elementos das camadas dominantes, que repre-
sentavam as várias nuanças que matizavam a lide-
A divulgação da notícia da vitória dos rebeldes rança do movimento pernambucano. Alguns, como
havia atraído um grande número de pessoas que, na Domingos José Martins e o padre João Ribeiro Pes-
expectativa de participar da escolha do novo go- )) soa, mais radicais, outros menos, como os grandes
verno, começou a concentrar-se na Praça do Erário. . proprietários cujos posicionamentos estavam baliza-
Domingos José Martins, que se arvorara em líder, dos pelo interesse em preservar as relações de produ-
indicou lS nomes, todos eles ligados aos setores do- ção.
minantes da sociedade pernambucana, para que pro- A junta de governo, organizada provisoriamente
cedessem à escolha daqueles que iriam compor o a fim de dar prosseguimento ao movimento e confe-
governo provisório. Após a eleição, um "bando" foi .,.' rir-lhe uma unidade de comando, apresentava, na

~
42 Glacyra La:;iari Leite A Insurreição Pemambucana de 1817 43

s~ró}llia-composição, um sintoma de frjgilidade. verno. Desde as primeiras manifestações do Governo


Havia solidariedade apenas na medida eIJI'que todos Provisório percebe-se a manipulação daqueles seto-
~seus com~õnen~er.te.nciam aos sptoles domi- res que deveriam voltar à situação anterior, não mais
naIltes",.g, portanto, estavam de acordo ao propor de colaboração mas, sim, de submissão. Certas pro-
r+:
uma so 1uçao - po liítica
. para os pro bléemas comuns. posições desse mesmo governo mostram sua peculia-
Somente a tomada do poder por elementos cujos ridade ao tratar da questão da "soberania popular" ,
interesses econômicos estavam localizados na colô- por exemplo, a considera, antes, como a soberania
nia, mais especificamente em Pernambuco, poderia de uma classe e nunca da vontade da maioria. E,
significar a realização de uma política de "brasi- acima de tudo, passa, num determinado momento,
leiros", diferente, portanto, da política dos "portu- atendendo aos interesses dos proprietários, a defen-
gueses". ~lidar:iedade_tinhª,_por-ém~l.i.m.ita- der a manutenção da escravidão, o que destoava do
.ções, Na medida eEl-_9JKJLrespeltQ de crn.e_~tõeLque ideário liberal.
a..Wtª--v;unos se~us--in!.eresses específic-os nem sempre A organização da força armada foi uma preocu-
havia identidade entre os componentes, da junta go- pação imediata, lógica e coerente, do governo re-
yematiYél, tornou-se difícil apresentar uma orienta- belde. Havia a necessidade de assegurar a vitória
Ç..ãocomum na maneira de proceder-se à ação geral. contra o inimigo claramente definido, os realistas .
.Os responsáveis pelo poder instituído," gerado Entretanto, a insurreição havia mostrado aos setores
pela nova república pernambucana, depararam logo dominantes a presença de uma ameaça, mais pró-
de início com uma questão de profundidade no trato xima, os setores populares. Esse setor da população
do exercício desse mesmo poder. A Insurreição Per- se revelou poderoso na sua ação de massa compres-
nambucana havia contado,· para seu desencadea- siva, e era pois preciso conter e disciplinar. Essa con-
mento inicial e para sua vitória final, com a colabo- tenção deveria ser realizada rapidamente, através do
I! ração de setores diversificados da sociedade. O mes-
mo, entretanto, não poderia acontecer na realização
exercício de uma administração' que garantisse o po-
der dos setores dominantes, agora constituído por
de sua prática política. A presença de setores popu- brasileiros.
lares havia sido, num determinado momento, útil e Contudo, as proposições fundamentais dessa
necessária à realização do objetivo proposto, qual nova administração procuravam. demonstrar uma
seja, a derrubada da autoridade portuguesa. A partir preocupação com a explicitação de idéias liberais. No
daorganização do Governo Provisório, no entanto, o decreto em que o Governo Provisório estabeleceu o
apoio popular passou a ser incômodo e, por isso conjunto de disposições constitucionais, estava ex-
mesmo, desconsiderado na composição daquele go- presso que era republicano o governo que havia se
A Insurreição Pernambucana de 1817 4S
44 Glacyra Lazzari Leite

procurava justificar o movimento, inicialmente pelo


instalado e que a soberania lhe fora delegada pelo
abuso do sistema administrativo, pela transferência
povo. A idéia de liberdade na colônia tinha por prin-
de recursos para sustentar a Corte e pela opressão
cípio básico a luta contra o sistema colonial. E, na
aos cidadãos. O Governo Provisório garantia a segu-
medida em que os rebeldes' de 1817 identificavam
rança interna e externa, a liberdade de comércio,
esse sistema com a Coroa portuguesa, também o
a permanência dos funcionários nas suas funções, a
regime monárquico deveria ser substituído. A lide-
abolição dos impostos "por demais onerosos" e o
rança da Insurreição empenhava-se em esclarecer à
população que não mais reconhecia o rei de Portugal aumento do soldo das tropas. Portanto, na justifica-
como soberano, e que fora adotada a forma republi- tiva expressava-se a condenação ao sistema colonial
cana de governo. Um dos argumentos usados em de- e, nas propostas, procurava-se garantir o apoio ma-
fesa dessa escolha dizia que outras nações da Amé- ciço da população, através de referências a proble-
rica, em especial os Estados Unidos, já haviam se- mas que afetavam os mais diversos setores sociais.
guido esse caminho e ficara demonstrado o acerto da Um dos argumentos muito usados pelo Governo
opção. Provisório para levar a população a apoiar a insur-
As propostas do Governo Provisório da Repú- reição era o de que as rendas da Província não mais
blica de Pernambuco foram divulgadas imediata- seriam enviadas para a Corte. A aplicação de medi-
mente após a tomada do poder, por meio de uma das "populares" como essa era condição necessária
para a sustentação do Governo Provisório. Entre-
série de proclamações que visavam a popularizar o
tanto, no que diz respeito a essa mesma sustentação,
movimento insurrecional. Um ponto comum a todas
tais medidas tinham um alcance limitado. Desde o
essas proclamações era a afirmação de que se aca-
primeiro momento ficava claro que havia favoreci-
bara o período do "cativeiro", do pagamento de
mento a determinados setores da sociedade e restri-
enormes tributos, e que se entrava, agora, num mo-
mento de posse de "legítimos direitos sociais". As- ção a outros.
Para o sucesso da insurreição era vital assegurar
sim, a 10 de março de 1817, o Governo Provisório
o apoio dos grandes proprietários. Tal fato consti-
divulgou um manifesto intitulado "Preciso", no qual
tuiu-se em séria preocupação para os membros do
defendia a supressão da dominação portuguesa - o
que equivale a uma autonomia de poder em"termos Governo Provisório, que se comprometeram a ga-
regionais -, a instituição da República e a defesa da rantir a propriedade em geral e, especialmente, a
propriedade! Esta última proposição envolvia uma propriedade sobre os escravos. Dessa maneira, a
outra questão de grande profundidade: a garantia da manutenção da escravidão encontrou sua justifica-
manutenção da escravidão. O manifesto "Preciso" tiva na garantia do direito de propriedade. A sepa-
~
46 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 47

ração da metrópole interessava aos grandes proprie- os insurgentes, uma meta a ser atingida. Segundo o
tários na medida em que os liberava das opressões do artigo 28 das disposições constitucionais decretadas,
setor administrativo e dos privilégios que vigiam so- caso no prazo de três anos não se achasse concluída a
bre o setor de comercialização, mas qualquer ameaça Constituição, cessariam as prerrogativas do Governo
ao sistema de produção configurava-se em um perigo Provisório e o "povo" entraria no exercício da sobe-
aos seus interesses. . rania "para delegar a quem cumpra os fins de sua
Esta posição dos governantes estava de acordo delegação". A defesa de idéias liberais foi manifes-
com as características' específicas do liberalismo, que tada, também, quando se invocou o princípio dos
vigorou no Brasil em fins do período colonial. A "direitos dos homens", a liberdade de religião e a
grande baliza estava na defesa da permanência da liberdade de imprensa.
escravidão, isto é, na manutenção da estrutura de Outras medidas tomadas pelo Governo Provisó-
. ~.rodução. Os objetivos sempre ressaltados perante a rio visavam a favorecer os' produtores. Assim, pelo
população e, em especial, perante os grandes pro- decreto de 11 de março, foram perdoados os juros
prietários, eram a libertação do jugo metropolitano e vencidos aos proprietários devedores da extinta Com-
o perigo que representava um possível retorno à or- panhia Geral de Pernambuco e Paraíba, desde que
dem real. Enfim, a posição do Governo Provisório pagassem a dívida original no prazo de dois anos.
visava a contrariar a política portuguesa e a propor Como a dívida maior era de restos de juros, sendo
uma política nova. pequena a parcela de dívida originária, ficava evi-
Objetivando a realização dessa política nova, o dente a intenção do Governo Provisório de beneficiar
Governo Provisório expediu um decreto regulamen- os proprietários endividados.
tando a Constituição da República. Segundo essas Os interesses dos proprietários foram ainda de-
disposições institucionais, enquanto não fosse convo- fendidos quando se tentou coibir os roubos pratica-
cada uma Assembléia para elaborar uma Constitui- dos por escravos, especialmente os roubos de algo-
ção, os poderes executivo 'e legislativo permanece- dão. Um decreto determinou que nenhum escravo
riam unidos, concentrados nas mãos de um Governo poderia vender algodão, ou qualquer outro gênero da
composto por cinco membros e por um Conselho. A lavoura, sem autorização, por escrito, de seu senhor.
Assembléia deveria ser convocada assim que se incor- Previam-se penalidades também para os recepta-
porassem à causa da Independência todas as comar- dores.
cas que formavam a antiga capitania de Pernam- Ao se analisar o processo da tomada do poder
buco. pelos insurgentes de 1817, tem-se o sentido desse
A "soberania popular" representava pois, para. movimento. Desde seus preparativos, de sua eclosão
I
I
48 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 49
I
I I

I
e da posterior tentativa de organização de um Estado - ~.I I I nià nacional não os atingia nem lhes dizia respeito.
republicano, revela-se a ação de uma liderança for- Conservaram, portanto, sua condição de marginali-
I mada no interior dos setores dominantes, constituída
I
dade social.
I
I I
I
'I
por elementos nascidos no Brasil, em oposição a
europeus. Num primeiro momento, esse movimento
! Ii
, inclinou-se para uma política liberal. Na realização
Ii
II de seus objetivos, sua prática nem sempre foi coerente
~ ,I
Organização de uma força militar
I'
com esse ideârio. Na luta pela tomada do poder
prevaleceu a primeira tendência, isto é, o grupo que I Estabelecido o Governo Provisório, impôs-se de
1I
se insurgiu contra o poder estabelecido, arrastou em imediato, para o bom êxito do movimento, a neces-
I sua ação elementos integrantes de outros setores so- ~ sidade de organização das forças militares. Essa or-
: •
ciais, fazendo nascer a crença na possibilidade de I ganização e a manutenção das tropas absorviam
uma participação política desses setores. Num se- grandes somas, e os meios de que os governantes
gundo momento, no entanto, a participação "popu- podiam dispor eram limitados; mais limitados iam se
lar" foi limitada, com a formulação explícita de que tornando, porém, com a desorganização do comércio
•1
1
apenas os elementos ligados aos setores dominantes e da agricultura. Diante da escassez' de recursos,
I integrariam o poder, ficando excluídas as outras ca- recorreram os governantes aos particulares para que
,I
I
tegorias sociais, que passaram, mesmo, a ser temi-
das. A organização do Governo Provisório não se- . organizassem corpos de cavalaria. Para a obtenção
de armamentos, apelaram para os comerciantes, soli-
I guiu, assim, a prática proposta de uma política libe- citando que vendessem todo o estoque disponível.
I ral. Sua organização não se fez, portanto, por dele- Contudo, nenhum dos apelos teve resultado satisfa-
gação popular, conforme dizia o projeto de Consti- tório. Ninguém propôs a organização de corpos de
tuição. Não houve, assim, correspondência entre a cavalaria e os comerciantes esconderam as armas de
"soberania" atribuída ao povo no texto das dispo- que dispunham ou exigiram preços exorbitantes para
sições constitucionais decretadas pelo Governo Provi- { I vendê-Ias. Diante de tal situação, o Governo Provi-
sório e aquilo que, de fato, lhe foi concedido. Na sório tomou medidas mais drásticas. Ordenou aos
I maneira de ver dos responsáveis pelo Governo Provi-
I
capitães-mores que apreendessem as armas encon-
sório, os setores da população,· marginalizados pela tradas em mãos de particulares e que fizessem seus
, sociedade pernambucana, apesar de terem desempe- comandantes agirem da mesma forma. Foram toma-
I nhado um papel no desenvolvimento da insurreição, das, também, providências no sentido de conseguir-
não deveriam se fazer representar no poder. A sobera- se armamentos no estrangeiro. Foi elaborada, no dia
I!r I J
0

f' ,~
" ,} I
t,
li, \ }
••• •
50 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 51

29 de março, uma lista de armamentos a serem com- I


prados nos Estados Unidos. Para lá partiram, com
essa incumbência, no dia 5 de abril, Antonio Gon-
çalves e Domingos Malaquias de Aguiar Pires. Ger-
vásio Pires Ferreira, grande negociante em Pernam-
buco, foi encarregado de mandar vir, por conta do
Governo Provisório, outra série de armamentos desse
mesmo país.
A força marítima praticamente inexistia. O Go-
verno Provisório recorreu aos barcos de comércio,
adquirindo e armando um deles, o Carvalho 5? Os
insurgentes não contavam, porém, com pessoal expe-
rimentado em navegação, sendo obrigados a confiar
o comando da marinha ao coronel de Milícias Luiz
Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque.
A organização do exército ficou a cargo de Do-
mingos Theotônio Jorge e Manuel Corrêa de Araújo.
Foram nomeados os comandantes das fortalezas e o \,
governador da cidade de Olinda.
\I'
O recrutamento foi uma preocupação inicial do
Governo Provisório. Em 15 de março expediu-se uma
proclamação em que sealertava a população sobre a
falta de um exército, condição indispensável para
consumar-se a independência e para que os brasilei-
ros se livrassem definitivamente do "cativeiro". Os
apelos foram feitos, inicialmente, com base. na evo-
cação dos feitos dos pernambucanos na guerra contra
os' holandeses e, também, em promessas de que o
serviço militar teria curta duração. o recrutamento forçado, estratégia usada constantemente
Com o desenrolar dos acontecimentos e o agra- pelas autoridades reais, sempre gerou grande descontenta-
vamento da situação para os insurgentes, passou o mento entre apopulação.
52 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 53

Governo Provisório a ordenar o recrutamento for- tica de conjunto do que a arregimentação de forças
çado. Num primeiro momento ordenou-se aos capi- para fazer frente à repressão. Era importante, ainda,
tães-mores que organizassem listas dos habitantes neutralizar a ação de possíveis reações de legalistas
em condições de serem convocados. Já em 9 de abril vizinhos. Para dar cumprimento a esses objetivos,
- trinta e quatro dias depois da ec1osão da Insur- foram enviados mensageiros a outras províncias.
reição - os termos das ordens expedidas para recru- Para a Bahia e Alagoas foi enviado o padre José
tamento tinham um caráter ameaçador. O recruta- [nácio de Abreu, com a incumbência de entrar em
mento forçado, estratégia usada constantemente pe- contato com pessoas já anteriormente abordadas por
las autoridades reais, sempre gerou grande descon- Domingos José Martins, pelo padre João Ribeiro Pes-
tentamento entre a população. Na medida em que os soa e por Domingos Theotônio Jorge. Em Alagoas, o
insurgentes também recorreram a esse expediente, padre José Inácio conseguiu a adesão do tenente-co-
passaram igualmente a ser vistos como opressores. .JQ.nel Antonio José Vitoriano Borges da Fonseça,
Esse fato concorreu para uma retração do apoio de comandante militar da comarca, e julgou, assim, ter
ampla faixa da população à Insurreição. garantido aí uma excelente retaguarda. Na Bahia,
seu otimismo sofreu um rude golpe, pois foi preso
logo ao desembarcar de uma jangada procedente de
~agoas.!_Para o Ceará foram enviados dois agentes,
A expansão, a repercussão e a busca ~guel Joaquim César e o padre José Martiniano
de apoio à Insurreição Pernambucana pereira de Alencar, incurãbidos de estabelecer con-
tatos com alguns elementos que se supunha serem
A ação nas províncias vizinhas favoráveis à Insurreição. A mensagem que levavam
para a população fazia referência às opressões que
i\reª,ção do GQverno do Rio...Çle_Janeiro
_esperada vinham sofrendo, desde muito tempo, por parte da
,-pelomovi~t9 de contestação à ordem real levou os Coroa portuguesa, e aos bens que adviriam·de não
insurgentes a procurarem o apoio das províncias vi- serem mais governados por "ladrões que vinham
zinhas. Sem essa solidariedade não seria possível a chupar a nossa substância". ,A-mis-são dos agentes
sobrevivência da Insurreição. Apenas as medidas to- enviados para o Ceará foi dificultada pelo governa-
madas visando à organização de uma força armada e dor dessa Provinciaç.Manuel Jnâcio Sampaio, que
o apoio conseguido da população não se mostravam tomou medidas enérgicaspara impedir' que ocorres-
suficientes. A tentativa de ampliar a área de contes- sem aí acontecimentos semelhantes aos de Pernam-
tação tinha como objetivo, menos uma solução poli- buco. Este governador, diante das dificuldades que
\A Insurreição Pernambucana de 1817 55
54 Glacyra Lazzari Leite \ '

\
\ Tavares, na sua marcha o capitão encontrou por
de imediato teria de enfrentar, uma vez que já tinha
todos os lugares o povo armado, com os principais
notícias da adesão de outras Províncias à Insurrei-
proprietários em frente, que de boa vontade o se-
ção, e sabendo que não podia contar com a fideli- guiam. (Muniz Tavares, Histéria da Revolução Per-
dade das forças milicianas, procurou garantir o apoio nambucana de 1817.) Na cidade da Paraíba junta-
da tropa de linha, por meio de promoções e aumento ram-se àquelas forças as tropas de linha comandadas
dos soldos. Procurou amedrontar as pessoas suspei- pelo tenente-coronel Estevão José Carneiro da Cu-
tas, obrigando-as a jurar, em cerimônia pública, fi- nha. Imediatamente os paraibanos cuidaram de ele-
delidade ao rei. Conseguiu, assim, controlar a situa- ger umgoverno de cinco membros, nos moldes do de
ção em Fortaleza, mas não no interior da Província. Pernambuco. Esse governo entrou logo em ação e
Na vila de Crato houve, no dia 3 de maio, um início expediu uma proclamação, em que esclarecia a po-
de levante, dominado, porém, já no dia 11 do mesmo pulação sobre os objetivos do movimento insurrecio-
mês. • nal. Entre esses objetivos incluíam-se o fim do sis-
f-aLa .o Rio.Grande do Norte, o Governo Provi- tema de, colônia e a defesa da propriedade. As me-
sôrío enviou duas cartas, uma ao governador da P.ro- didas tomadas pelo governo instituído na Paraíba
víncia e outra a, um grande proprietário da região,
atingiram os mais diversos setores da vida da Provín-
o coronel de milícias André de Albuquerque Mara-
cia. As taxas alfandegárias foram regulamentadas,
nhão, dono do engenho Cunhau, solicitando o apoio
a moeda de cobre foi uniformizada, foram anulados
para a causa revolucionária. p governador não ade-
os contratos de arrematação de dízimos, o sistemãde
..riu.e.foi preso pelo coronel André de Albuquerque
criação de gado regulamentado, patentes de milita-
Maranhão, que assumiu o comando do movimento
res foram confirmadas, foi extinto o cargo de ouvidor
insurrecional nessa Província. Com o apoio do capi-
da Comarca, foram proscritas as insígnias e armas
tão Antonio Germano Cavalcante ede uma ajuda reais e adotado o tratamento de "vós". As medidas
militar enviada da Paraíba, foi instituída pelos in- tomadas pelo governo da Paraíba ampliavam aquelas
surgentes, nes-sa Província, uma Junta Governativa. adotadas em Pernambuco e deixavam claro o propó-
,~
Comunicou-se imediatamente este fato à Província sito de romper definitivamente com a Coroa portu-
de Pernambuco e às diferentes regiões da Paraíba.
..A-adesãO-.da..E:ara~imento iniciado em guesa.
Os acontecimentos de Pernambuco em 1817 re-
, .-E.emameuee--foLmais-ou- menoumedfátal. Itabaiana percutiram até em províncias bem distantes, como a
tomou a iniciativa. Lá se organizou uma força, co- Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Quan-
mandada pelo capitão de ordenanças João Batista do as notícias da Insurreição chegaram a essa Pro-
Rego, que se dirigiu para a capital. Segundo Muniz
" f 56 GlacyraLazzari Leit! ~ \ - Insurreiçã: Pernambucana de 1817 57 - '~~-
!
víncia, a ordem real já havia sido restabelecida no;
Nordeste. Contudo, durante o intervalo entre as duas
rI
.de um secretário e intérprete. Sua missão era conse-
guir o reconhecimento formal da república instalada
comunicações, houve tempo suficiente para que se ~ em Pernambuco, comprar armamentos e aliciar ofi-
desenvolvesse nessa região uma intensa atividade por ciais franceses, que haviam emigrado para os Esta-
parte das autoridades para evitar a ocorrência de!!, dos Unidos, para enviâ-los a Recife. Essa embaixada
acontecimentos semelhantes aos de Pernambuco. , partiu de Pernambuco no dia 24 de março. Os arma-
mentos chegaram a ser comprados e remetidos mas,
.. antes que chegassem, a Insurreição havia sido domi-
A procura de apoio no exterior nada pela Coroa portuguesa.
Quanto às negociações diplomáticas, Cabugá
A preocupação do Governo Provisório em esta- conseguiu ser recebido pelo ministro dos Negócios
belecer relações com o exterior deve ser entendida Estrangeiros, mas somente em caráter particular.
não apenas como parte da estratégia para o momento Conseguiu, também, a nomeação de Joseph Ray para
d.sJ.uta,...;nas corno uma maneira __
d~gara1!tir as futu- as funções de cônsul geral dos Estados Unidos em
ras relações diplomáticas e comerciais. O movimento Recife. Além do emissário diplomático enviado para
insurrecional não visavã-ããUerafà natureza da pro- os Estados Unidos, já em 13 de março de 1817 havia
dução. A comercialização externa, fator importante seguido para esse país o negociante Charles Bowen,
para manter tal situação, só poderia prosseguir se nascido na Inglaterra, mas radicado em Pernambuco
fossem assegurados os entendimentos diplomáticos e desde 1809. Partira ele de Recife a bordo do navio
comerciais. Assim, prccumu.se-entrac.em.ceatato Rowena, com autorização especial do Governo Provi-
com-es-eovemosdos.Estados Unidos, da Inglaterra e sório, e levando uma carta ao governo de Wash-
.de Buenos MIes. ington. Nessa carta era solicitado o envio urgente de
Um ofício, datado de 12 de março, foi enviado farinha, armas e munições. Anunciava, também, a
ao presidente dos Estados Unidos da América, fa- próxima chegada do embaixador (Cabugá). Chegou
zendo ponderações sobre as razões do movimento "'~ - Bowen a Norfolk, a 23 de abril, foi recebido discre-
insurrecional, invocando a semelhança desse movi- tamente pelo secretário de Estado Richard Rush, e
mento com o realizado por aquela nação e assegu-
- "
,• logo tomou providências para enviar pólvora aos in-
rando a liberdade absoluta de comércio, em igual- , surgentes. Aliciou também um "gazeteiro" para
dade de condições com qualquer outra nação. De- l apregoar a favor da insurreição de Pernambuco. Essa
cidiu-se, ainda, enviar àquele país Gonçalves Cruz
(o Cabugâ) como agente diplomático, acompanhado
l.. ~'
atitude de um súdito inglês foi muito censurada pelo
encarregado dos negócios ingleses no Rio de Janeiro.
L I

~ I
r "I

58 Glacyra Lazzari Ler A Insurreição Pernambucana de 1817 59

Além de Charles Bowen, chegaram também a/ imediato, pela Inglaterra. Foi proibida a exportação
Norfolk, vindos de Pernambuco, em 23 de abril, do}s de armamentos para a América, exceto para as colô-
norte-americanos, um chamado Seebohn, residente nias inglesas e Estados Unidos. O encarregado dos
em Recife e amigo de Domingos José Martins, e negócios britânicos em Pernambuco foi advertido
outro não identificado, natural de Nova Iorque e para que se abstivesse de qualquer participação nos
também estabelecido em Pernambuco. Esses dois negócios públicos naquele momento (1817). A ati-
americanos escreveram a diversas pessoas de suas re- tude dos comerciantes ingleses foi semelhante à de
lações, afirmando quê os novos governantes de Per- seu governo. Não cooperaram com o Governo Provi-
nambuco eram favoráveis aos americanos,de quem sório mesmo quando este ofereceu benefícios de 30%
esperavam munições e abasteeimento. a quem assegurasse o abastecimento de Recife. Mui-
Ainda que os insurgentes considerassem a Ingla- tos dos negociantes ingleses fecharam suas casas de
terra menos simpática aos seus interesses, o Governo comércio, quando eclodiu a Insurreição, e retiraram-
Provisório de Pernambuco, em 12 de março de 1817, se para a Bahia. .
enviou um ofício a Hipôlito José da Costa, jornalista O Governo Provisório procurou por várias for-
nascido no Brasil, residente em Londres e responsá- mas atrair o interesse de estrangeiros para o comér-
vel pela publicação do jornal O Correio Braziliense, cio de Pernambuco. Algumas dessas medidas foram
designando-o cônsul junto ao governo britânico. mal vistas pelos ingleses. Entre elas estava a padro-
I Nessa qualidade, Hipôlito José da Costa deveria pro- nização da taxa alfandegária em 150/0 para todas as
curar o apoio da Inglaterra para a causa rebelde. Ao II nações. Esse nivelamento da taxa alfandegária confi-
mesmo tempo,' foi enviada uma carta ao governo gurava-se prejudicial para a Inglaterra, que detinha
inglês, explicando as razões da instalação de um a exclusividade desse privilégio pelo Tratado cele-
governo republicano em Pernambuco.
Os contatos mantidos com o governo inglês vi-
brado, em 1810, com Portugal. Foi ordenada tam-
bém a isenção de taxas para alguns artigos, então I-'~
savam a conseguir o apoio desse governo aos rebel- mais necessários, como: armamentos, legumes, ce-
des, mas os apelos feitos não estavam impregnados ~ reais, farinhas e caracteres de imprensa. Dessas me-
da mesma segurança que caracterizava as mensagens didas chegaram a beneficiar-se muitos comerciantes
enviadas aos Estados Unidos. O máximo que se pre- pernambucanos, entre eles o abonado Bento José da
tendia da Inglaterra era que não tomasse aberta- Costa, sogro de Domingos José Martins. O comércio
mente o partido de Portugal. Essa desconfiança dos do pau-brasil foi liberado, o que veio beneficiar co-
insurgentes não era infundada, pois várias medidas merciantes do Brasil e do exterior. \
contrárias aos seus interesses foram tomadas, de A posição dos governos americano e inglês fo-

~~
.....-..._-~~ -

Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 61


60

ram, portanto, diferentes em relação à Insurreição movimento com medidas de caráter bastante amplo,
de 1817 em Pernambuco. Para a Inglaterra, que não conseguiram estabelecer uma diretriz rígida e
usufruía da regalia já citada, de introduzir merca- coerente, que envolvesse todos os setores sociais. Na
dorias em todo o Brasil pagando apenas 15% de taxa medida em que houve um entendimento das alas
alfandegária, não interessava a extensão de tal van- mais radicais com elementos que colocavam acima
tagem a outras nações, além do que, o caráter regio- de qualquer reivindicação, o problema da manuten-
nal que assumiu o movimento insurrecional pernam- ção das relações de produção, o processo revolucio-
bucano, ao invés de ampliar, limitava seus privilégios. nário perdeu força. Sem recursos próprios suficien-
I Esses fatos tiveram um papel importante na forma
como o governo inglês se conduziu em 1817. >
tes' não tendo como certa a solidariedade das pro-
víncias vizinhas, nem mesmo o concurso ágil e pre-
A separação política do Brasil e Portugal era ciso de um apoio estrangeiro, a Insurreição Pernam-
questionada pela Inglaterra. Dizia-se que o estabele- bucana constituiu presa fácil da repressão portu-
cimento de um governo independente, no Brasil, po- guesa, que articulou suas forças para deter um movi-
deria ser ruinoso para as colônias inglesas produtoras mento que punha em risco a integridade do império
de açúcar e para os interesses que delas dependiam, colonial português.
a não ser que fosse extinto o tráfico de escravos.
Além dos contatos com a Inglaterra e Estados
Unidos, o Governo Provisório tento" ligações com A repressão realista
Buenos Aires, para onde seguiu o emissário Félix
Tavares Lima. Para Moçambique foi enviada uma
A repressão ao movimento insurrecional per-
carta ao capitão-general José Francisco de Paula Ca-
nambucano partiu de diferentes pontos. O primeiro
valcante de Albuquerque no dia 10 de março de
deles foi a Bahia. O conde dos Arcos, governador e
1817.
No seu conjunto, as medidas tomadas pelo Go- capitão-general dessa província, logo que foi infor-
verno Provisório instalado em Pernambuco visavam a mado dos acontecimentos de Pernambuco, sem espe-
conseguir uma sustentação para a Insurreição, tanto rar órdens da Corte, tomou medidas no sentido de
em nível interno como externo. - sufocar a Insurreição. Organizou uma frota para blo-
Entretanto, paralelamente às providências to- quear os portos de Pernambuco e uma força terrestre
madas pelo Governo Provisório, as forças realistas que, reforçada com uma companhia da .cavalaria
também se organizaram para enfrentar a Insurrei- miliciana de Sergipe, seguiu para Alagoas e depois
ção. Os insurgentes, apesar de procurarem calçar o marchou para Recife. Juntamente com essas provi-
62 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pemambucana de 1817 63

dências, passou a fazer um trabalho com o objetivo Montenegro fora obrigado a deixar Pernambuco em
de desacreditar a Insurreição. virtude de uma sublevação que ali se instalara no dia
Expediu três proclamações aos pernambucanos. 6 de março. Dizia, ainda, que um governo "revolu-
Uma, a 21 de março e duas a 29 do mesmo mês. Na cionário" tinha assumido o poder no meio da "desor-
primeira proclamação procurava mostrar que não dem popular que não foi possível conter" .
havia possibilidade de ajuda aos insurgentes, por Diante de tal ocorrência, o Governo do Rio de·
parte da Bahia. Alegava que era geral a fidelidade da Janeiro ordenava que se lançasse mão, sem perda de
população dessa Província à Coroa portuguesa. Na tempo, de todas as medidas repressivas, com o rigor
segunda, preocupava-se em dissuadir os sublevados e a severidade que o caso exigia. Essas medidas
de contarem com o auxílio dos Estados Unidos e de constavam de: uma declaração do estado de bloqueio
outras nações. Todo o empenho do conde dos Arcos de todos os portos de Pernambuco, sustentado por
consistia em minimizar, perante a população per- uma esquadra enviada do Rio de Janeiro e por navios
nambucana, a importância da Insurreição e dos en- procedentes da Bahia; ordem de cessamento de toda
volvidos nela. Estes eram apontados como uma mi- a correspondência das demais províncias com a de
noria desclassificada socialmente. As proclamações Pernambuco; seqüestro de todas as embarcações
ordenavam, também, o fuzilamento sumário de dessa Província que estivessem, ou viessem a aportar,
quem não pegasse em armas contra os revoltosos. em qualquer ponto da costa. Ordenava-se ainda que
Cópias dessas proclamações começaram a circular fossem considerados réus de "lesa Majestade" todas
em Recife desde o dia 12 de abril. as pessoas que procurassem manter contato com os
As medidas tomadas pelo governador da Bahia habitantes de Pernambuco. Todas essas providências
foram amplamente aprovadas pela Corte que, além visavam a circunscrever a Insurreição e a isolar a
disso, determinou a concessão de grandes vantagens região sublevada. Para reforçar as forças realistas
às tropas. No dia lS de abril chegaram a Recife os que deveriam seguir do Rio de Janeiro, foram ofere-
navios vindos da Bahia, tendo início o bloqueio dos cidos, pelo brigadeiro inspetor geral das Milícias de
portos pernambucanos. Esse bloqueio foi comple- São Paulo, os 11 regimentos milicianos dessa pro-
tado, no dia 2S do mesmo mês, com o reforço vindo víncia.
do Rio de Janeiro. A notícia da Insurreição em Pernambuco não
Logo que o governador de Pernambuco chegou-à causou impacto somente no Brasil. Também em Por-
Corte com a notícia da Insurreição em Pernambuco, tugal a repercussão foi muito grande. O comunicado
o conde da Barca expediu ofícios para todas as pro- oficial foi enviado pelo conde da Barca ao "Patriarca
víncias, esclarecendo que Caetano Pinto de Miranda Eleito de Lisboa" , em 30 de março de 1817. Iniciou o
"ir ~. ',~
64 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 65

conde o seu ofício dizendo que se sentia no dever de Europa. Navios procedentes do Brasil divulgaram o
comunicar àquele governo um fato que iria sur- acontecimento antes da notícia oficial.
preendê-lo, Em seguida, descreveu os acontecimen- ~' Confirmada em Lisboa a notícia da Insurreição
tos ocorridos em Pernambuco, dizendo que alguns em Pernambuco, foram expedidas ordens do quartel-
"malévolos da Capitania de Pernambuco" vinham general para que fosse feito um levantamento dos
semeando a discórdia entre os habitantes, incenti- J' navios de mais de 200 toneladas, surtos na barra da
vando mal-entendidos e rivalidades entre brasileiros cidade do Porto, e que pudessem partir sem demora
I: e europeus e propagando a insubordinação na força para Pernambuco. A esta ordem o tenente-general
militar. Procurou resguardar a figura do governador, do Quartel do Porto respondeu que, naquele mo-
I, afirmando que Caetano Pinto de Miranda Montene- mento, havia apenas quatro navios em tais condições
gro havia envidado esforços para impedir a eclosão e oito de menor tonelagem. Colocava-se, no entanto,
da "Revolução" , juntamente com os comandantes às autoridades portuguesas o sério problema de con-
dos regimentos da tropa de linha, mas que os regi- vencer os proprietários dos navios a cederem-nos ao
mentos tinham sido atingidos pela "desordem". O governo.
conde da Barca atribuía a responsabilidade do início Foram, ainda, tomadas medidas a respeito da
do "movimento revolucionário" ao regimento de arti- r arregimentação das forças militares que· deveriam

~;i
lharia que, segundo afirmava, teria, ao sair do quar- partir para o Brasil. Foi nomeado para comandar a
tel, arrastado "à sedição o outro corpo militar e a futura expedição o tenente-general José Antonio da
plebe". Essa "plebe" - como os próprios militares Rosa, que deveria ser acompanhado pelo coronel do
haviam feito no quartel - teria passado também a Regimento de Artilharia n? 3, José Maria de Moura.
praticar assassinatos. Por várias vezes, o conde da !\ O corpo expedicionário deveria constar de dois bata-
Barca reiterou, no seu ofício-comunicado, que a h lhões de infantaria, de um de caçadores, de uma
maioria da população permanecia fiel ao rei, sendo, brigada de artilharia de campanha e de um destaca-
contudo, dominada por uma força militar indiscipli- mento do serviço de artilharia. A organização dessa
nada. Portanto, a imagem que as autoridades do força fez-se em meio a resistências e deserções, mas,
Brasil procuravam passar para Portugal era a de que uma vez organizada, partiram os navios da barra da
acontecera uma sedição militar resultante da indis- cidade do Porto para Lisboa. Porém, antes de apor-
ciplina nas tropas. Essa sedição é que levara "a tarem em Lisboa, chegou a essa .cidaoe a notícia de
plebe" à "Revolução". til que a' "revolução de Pernambuco" havia sido domi-
As notícias enviadas oficialmente pelo conde da nada, pelas forças reais sediadas no Brasil.
Barca não foram, entretanto, as primeiras a chegar à Em razão do acontecido em Pernambuco, D.
I·."

l
A Insurreição Pernambucana de 1817 67
66 Glacyra Lazzari Leite

João VI solicitou a vinda de mais tropas portuguesas


para o Brasil, a fim de se evitar outras ocorrências
semelhantes às daquela província. Esse fato veio
agravar os conflitos tanto no setor militar como no
civil e, em especial, em Pernambuco.

A atuação dos rebeldes


diante da repressão

Com o estabelecimento do bloqueio aos portos


da região nordestina sublevada, a pequena força na-
val dos rebeldes que, até então, tinha-se ocupado em
fazer os navios estrangeiros que navegavam na costa
...
••••••••• --_.•..
penetrarem no porto de. Recife e aí desembarcarem
seus carregamentos de víveres, ficou completamente
neutralizada. As atenções do Governo Provisório
concentraram-se, então, nas manobras do exército.
Uma expedição dos rebeldes, chefiada por José
Mariano de Albuquerque, que deveria partir por mar
para Alagoas, foi enviada por via terrestre. Juntou-se
. a ela Luiz Francisco de Paula Cavalcante de Albu-
querque, cujos serviços na marinha já não eram ne-
cessários. Esta expedição não foi bem-sucedida, pois
o conde dos Arcos, com suas forças e proclamações,
conseguiu que, uma por uma, as vilas de Alagoas
fossem aclamando a autoridade real.
No Rio Grande do Norte, depois que o reforço
-
Com o estabelecimento do bloqueio aos portos da região
nordestina sublevada, a pequena força naval dos rebeldes
ficou completamente neutralizada.
militar vindo da Paraíba se retirou, a situação tornou-
68 G/acyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 69

se bastante crítica para os rebeldes. André de Albu- a descrição de um participante da prisão de Domin-
querque Maranhão, chefe do movimento no Rio gos José Martins, o exército rebelde, denominado
Grande do Norte, foi aprisionado e morto. Pouco a do Sul, foi desbaratado em combate no Porto das
pouco, portanto, a ordem real retomava também Galinhas, e os fugitivos perseguidos e aprisionados
nessa província. A Paraíba seguiu o mesmo caminho. por uma força de trezentos realistas.
No dia 7 de maio de 1817 as forças reais dominavam O regimento de Francisco de Paula foi igual-
a insurreição. mente derrotado, voltando o comandante, com pou-
Nessas condições, á Insurreição, iniciada a 6 de cos homens, para Recife, onde o Governo Provisório
março em Pernambuco, caminhava, em maio de estava reduzido a dois elementos: Domingos Theo-
1817, para o seu fim. Em situação de desespero, tônio Jorge e o padre João Ribeiro Pessoa. Domingos
os rebeldes passaram a tomar medidas extremas, José Martins estava preso; Luiz de Mendonça e Ma-
como formar corpos de guerrilha e prometer alforria nuel Corrêa de Araújo, assim como outros conse-
aos escravos que viessem voluntariamente alistar-se. lheiros, retiraram-se para suas casas, pretextando
Com esta última medida, mais uma vez vinha à tona moléstia.
a grande contradição: de um lado, a necessidade de Diante dos reveses sofridos pelas forças milita-
ampliar o contingente da tropa e, de outro, a ameaça res rebeldes no interior, iniciaram-se as negociações
aos interesses dos grandes proprietários. Embora fos- para a rendição ao comandante Rodrigo Lobo e ao
sem prometidas e concretizadas algumas indeniza- capitão-de-fragata José Maria Monteiro, que diri-
ções, a medida provocou violenta reação. A retração giam as operações do bloqueio. José Carlos Mairink e
do apoio desses proprietários concorreu para acelerar Henry Koster (inglês radicado em Pernambuco) fo-
a derrocada final da Insurreição .. ram encarregados de dirigir-se à esquadra para ten-
Os regimentos comandados por Francisco de tar um acordo. A resposta de Rodrigo Lobo chegou
Paula Cavalcante conseguiram uma vitória parcial na tarde do dia 18 de maio e não admitia condições.
no Engenho de Utinga, mas logo foram obrigados a Respondia pelo Governo Provisório, nesse mo-
recuar para o Engenho Velho do Cabo. Domingos ') mento, Domingos Theotônio Jorge, que detinha o
José Martins tentou dirigir uma expedição para so- cargo de governador civil e militar. Sua reação, à
correr Francisco de Paula, que estava ameaçado pe- resposta de Rodrigo Lobo, foi enviar um ultimato
los realistas. Os dois chefes chegaram a encontrar-se, ameaçando exterminar todos os presos realistas, en-
mas cada um seguiu rumo diverso. A tropa coman- tre os quais o mais graduado era o marechal José
dada por Martins foi derrotada e preso seu coman- Roberto Pereira da Silva. Foi portador do ultimato
dante pelas forças vindas do Rio de Janeiro. Segundo José da Cruz Ferreira. Rodrigo Lobo propôs, então,
70 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 71

um armistício, até que José da Cruz fosse ao Rio de


Janeiro rogar perdão para os rebeldes. Dizia, ainda, o restabelecimento da ordem real
que não poderia se responsabilizar pelas forças de
terra, pois estavam sob outro comando. Propunha, A 19 de maio, após a retirada das tropas rebel-
também, deixar Domingos Theotônio Jorge retirar-se des para o interior levando a artilharia e os cofres
com sua família para a Corte. Antes, entretanto, de públicos, começaram as manifestações em favor da
essa resposta chegar, Domingos Theotônio Jorge es- causa real. Nas primeiras horas do dia 20, o coman-
tabeleceu um acordo com os Cavalcante. Segundo dante da Fortaleza das Cinco Pontas libertou os pri-
esse acordo, Francisco de Paula Cavalcante ficava sioneiros e hasteou a bandeira portuguesa trazida
com o comando da "Praça", Luiz Francisco de Paula por manifestantes realistas. Os comandantes das ou-
Cavalcante com o comando da Fortaleza das Cinco tras fortalezas seguiram seu exemplo. ~miu, en-
Pontas, e Francisco de Paula Filho com o comando §Q, opoder o mais graduado dos ex-prisioneiros rea-
da Fortaleza do Brum. Domingos Theotônio Jorge .listas.io.rnarechal José Roberto Pereira da Silva. O
saiu então de Recife com as forças rebeldes que ainda governador do Rio Grande do Norte, José lnácio
restavam. Borges, foi participar os fatos oficialmente ao co-
Segundo aquele acordo, após a retirada de Do- mandante do bloqueio e convidá-Io a desembarcar.
mingos Theotônio Jorge juntamente com o exército Rodrigo Lobo, porém, preferiu enviar o segundo co-
rebelde, os membros da família Cavalcante deveriam mandante, Luís da Cunha Moreira, com ordem para
atear fogo à "Praça" e assassinar os presos realistas. confirmar, por sinais, as notícias recebidas. Só mais
Depois, acompanhariam as tropas em direção ao tarde dispôs-se a vir para Recife e tomar posse do
interior. A aceitação desse pacto, por parte dos Ca- governo. A tropa realista recebeu ordens de dirigir-se
valcante, teria sido apenas uma maneira de fazer imediatamente para Recife, o que provocou a fuga
com que os rebeldes partissem para, então, arvora- desordenada dos rebeldes que estavam ainda próxi-
rem a bandeira real. O comportamento dos irmãos mos dessa vila, no engenho Paulista. jlodrign..,.Fer-
Cavalcante hasteando, de fato, a bandeira real, logo reira ~ assumiu int~rjnam~Jlk o governo da pro-
após a partida de Domingos Theotônio Jorge, está víncia, como_governa.dor e canitão-general,_e deu
em conformidade com o de quase todos os proprie- ruído a uma série de medidas, entre elas o restabe-
tários seriamente implicados nos acontecimentos de .lecimento dã cobrança de impostos
- abolidoo pelogo':
1817 em Pernambuco, isto é, ao pressentirem que a vemo rebelde.
causa estava perdida, procuraram salvar ou, ao me- Com o restabelecimento da ordem real, tiveram
nos, atenuar as suas responsabilidades. início as prisões e o envio de prisioneiros para a Ba-
72 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 73

hia, pois Rodrigo Lobo não havia sido autorizado a cia". Por outro lado, a Comissão Militar, presidida
erigir um tribunal para julgar os réus. por Luís do Rego, já havia sido acusada, em julho de
A 29 de junho de 1817, desembarcou em Recife 1817, pelo desembargador Albano Fragoso-de, entre
Luís do Rego Barreto, novo governador e capitão- outras irregularidades, haver precipitado a execução
general de Pernambuco. A tropa que o acompanhava . de alguns réus, como Domingos José Martins e José
compunha-se de quatro batalhões de infantaria, com Luiz de Mendonça. Esta precipitação teria levado ao
mais ou menos 800 homens cada um, dois esqua- não esclarecimento da responsabilidade de outros
drões de cavalaria e um destacamento de artilharia. indivíduos, possivelmente culpados, como o grande
Essas tropas foram transportadas a bordo do navio negociante Bento José da Costa.
Vasco da Gama e de 10 navios comandados pelo As medidas tomadas por Luís do Rego visavam
chefe-de-divisão Braz Antônio Cardoso. A frota par- a fortálecê-lo no poder. Dessa forma, ele concentrou
tiu do Rio de Janeiro, a 2 de maio, chegando a 30 de as punições sobre alguns elementos considerados lí-
maio na Bahia, onde deveria estabelecer-se um en- deres da revolta e, também, sobre aqueles perten-
tendimento com o conde dos Arcos sobre as medidas centes a setores menos favorecidos na ordem social
,[ a serem tomadas. Nesta data, porém, já havia sido vigente. Chegou mesmo a afirmar temer procedimen-
debelada a Insurreição e Luís do Rego pôde ver, a tos que podiam "envolver uma grande parte dos fiéis
.bordo do 'navio Carrasco, os presos remetidos de e inocentes vassalos". Outra providência tomada
Pernambuco. pelo novo governador, imediatamente após a sua
Logo após tomar posse do cargo de governador e posse, foi reorganizar as forças armadas. Os solda-
capitão-general, no dia primeiro de julho, em Per- dos da tropa de linha, envolvidos em atividades mili-
nambuco, Luís do Rego instalou uma Comissão Mi- tares durante o período de dominação dos insurgen-
litar. Foram condenados por esta comissão vários tes, foram enviados para Montevidéu, sendo embar-
cados de surpresa para evitar qualquer reação. Para
I presos de Pernambuco e Paraíba, que não tinham
sido enviados para a Bahia. Em agosto de 1817, foi preencher as vagas deixadas por esses soldados, o
governador recorreu ao recrutamento forçado e ao
criado um Tribunal de Alçada para julgar os indicia-
dos na devassa. Estabeleceu-se então um clima de adestramento intensivo de novos recrutas. Contudo,
rivalidade entre Luís do Rego e o presidente do TrJ ainda que reconhecendo a necessidade dessas provi-
bunal. O governador escreveu para 'c Rio aé Janeiro. dências, Luís do Rego não deixava de externar a sua
I denunciando o "espírito de parciaírdade' e fazendo preocupação a respeito dos prejuízos que poderiam
considerações sobre os inconvenientes' que estava advir para a agricultura, com o desvio de braços
li causando o "clima de pavor instaurado na provín- desse setor para o militar. Ressaltava, ainda, o pe-

I
74 Glacyra Lazzari Leite

rigo de essas tropas convenientementê adestradas vi-


rem a ser utilizadas, mais uma vez, para contestar a
ordem real.

I CONCLUSÕES

A Insurreição Pernambucana de 1817 constituiu


um sintoma da crise que abalava o antigo sistema
colonial no início do século XIX e atingia, de modo
específico, a região nordestina.
A liberalização do comércio em 1808 possibi-
litou um melhor atendimento às solicitações do mer-
cado internacional, no que se refere a produtos tro-
picais. Contudo, o estabelecimento desse novo tipo
de relação comercial não implicou uma eliminação
simples da metrópole portuguesa como intermediária
dos negócios no Brasil. A Coroa e os comerciantes
portugueses logo tentaram, por todos os meios, reto-
mar as posições de dominação vigentes no antigo
sistema.
A importância da contribuição de Pernambuco
no conjunto das exportações brasileiras fazia com
l' que essa capitania fosse um dos centros em que a
disputa de interesses se tornava mais aeuda. Confi-
tr
76 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 77

gurou-se, assim, uma situação de crise quando a A relativa fragilidade das autoridades portu-
Coroa portuguesa procurou reforçar a. política de guesas em Pernambuco, apesar de servir de incentivo
interferência nas relações comerciais. Essa política para" o desencadeamento da luta, não era, no en-
visava a atender às solicitações de particulares, isto é, tanto, insignificante, ao ponto de permitir a adoção
. comerciantes portugueses que vinham dominando há de uma prática política diferente daquela imposta
séculos as relações comerciais da colônia. Entre- pela Coroa. Por isso mesmo, constituía uma presença
tanto, o atendimento a.essas solicitações vinha cho- incômoda que precisava ser afastada. Somente no
car-se com as expectativas dos produtores e comer- poder é que se poderia realizar aquilo que preten-
ciantes, cujos interesses estavam fundamentados diam os rebeldes. Daí o fato de elementos ligados ao
também na exportação, mas na exportação livre para comércio exterior, apesar de comprometidos com a
todas as nações. A competição, que se instalou entre ordem vigente, terem iniciado um movimento contra
os componentes dos setores dominantes, foi acompa- a autoridade estabelecida.
nhada de forte tensão social. A presença da "massa popular" nas agitações
Visando a economia brasileira, em geral, e a de que marcaram os principais episódios da luta de
Pernambuco, em particular, basicamente o comércio 1817, em Pernambuco, estava de acordo com a pró-
exterior, as regiões portuárias constituíam pontos pria situação vivida por esse setor da população,
extraordinariamente sensíveis. Toda a vida econô- naquele momentó histórico. A tensão social que o
mica e política de Pernambuco e das províncias vizi- . atingia justificava sua presença, mesmo espontanea-
nhas regia-se pelas condições existentes no porto de mente. Acrescente-se a isso que sua presença se fez
Recife. A intensificação das imposições que recaía necessária, e foi solicitada, não na defesa de inte-
sobre esse porto.vcomo no caso dos-encaraosüscaís, resses próprios, mas de interesses das lideranças. A
da manutenção do monopólio e outras sobrecargas resposta positiva a esse apelo não decorreu de uma
de caráter econômico, seria suficiente para abalar identidade de objetivos porque, na realidade, eles
toda a região por ele servida. Dessa maneira, havia eram conflitantes. Havia, no entanto, de certa ma-
em Pernambuco uma disposição suficiente para pro- ~ neira, pontos comuns. Ambos os grupos sentiam a
testar contra aquelas determinações. Isso nem sem- necessidade de mudar uma situação; para que isso se
pre acontecia nas outras regiões brasileiras, ou por- concretizasse, era preciso organizar um contingente
que fossem menos atingidas por imposições, ou por- armado, em condições de enfrentar o poder estabe-
que contassem com uma presença muito marcante lecido. Nesse sentido, .a "massa popular" foi arregi-
da autoridade portuguesa, motivo suficiente para l, mentada, chegando as lideranças a acenar-lhe com
I, desencorajar qualquer ato de rebeldia. perspectivas de melhores oportunidades. Entretanto,
"Iil
78 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pemambucana de 1817 79

à medida que ela 'era requisitada pelos próprios seto- verno não se manifestasse claramente, pode-se dizer
res dominantes, ia tornando-se uma força que amea- que seus dirigentes ficaram na expectativa dos resul-
çava a ordem social estabelecida. Os condutores do tados da insurreição. Chegaram, mesmo, a demons-
movimento tiveram, então, o cuidado de tomar me- trarum certo interesse em relação ao movimento
didas capazes de manter o controle; Daí não ter sido rebelde, com vistas a uma aproximação comercial.
permitido aos setores populares participarem da or- Ao assumir a posição de rebeldes, os insurgentes
ganização do poder. Sua atuação foi solicitada pelas de 1817 em Pernambuco romperam totalmente com
lideranças, apenas como força física, no decorrer da a situação colonial e com o trono. Deixou-se de aca-
Insurreição: A "massa popular" foi seguidamente tar a autoridade real, o que significava, politica-
responsabilizada por toda a violênciadesencadeada a mente, um rompimento Portugal/Brasil (Nordeste),
6demarço. Casa de Bragança/Governo Provisório.
O ideário rebelde, coerente com os princípios li- Para Portugal, a perspectiva desse rompimento
berais, defendeu o princípio do respeito à proprie- configurava um imenso prejuízo. Pernambuco repre-
dade particular. Entende-se a grande ênfase dada a sentava investimentos de muitos séculos e uma im-
esse princípio em 1817, tendo em vista outro pro- portante fonte de rendas para o comércio. Justifi-
blema, o da escravidão. A permanência da escra- cava-se, assim, enfrentar todas as dificuldades para
vidão foi defendida em nome da defesa da proprie- evitar essa perda. Daí o empenho com que se dispôs a
dade particular. Foram abafadas, portanto, quais- promover a repressão ao movimento.
quer proposições que, porventura, tivessem surgido O rompimento de setenta e quatro dias com a
no sentido de modificar o sistema de produção. Coroa portuguesa deu margem a que aflorassem, às
O caráter regional assumido pela insurreição vezes com extrema violência, as contradições que'
não permitiu que obtivesse o apoio e a simpatia plena atingiam todos os níveis da sociedade pernambu-
de determinadas nações, cuja ajuda foi solicitada cana. Essas contradições manifestaram-se tão agu-
pelos rebeldes. Ã Inglaterra, nação que já contava damente, que nem mesmo o rigor da repressão con-
com privilégios no comércio com todo o Brasil, não ~ seguiu anulá-Ias. Portanto, o restabelecimento da
interessavam as vantagens que lhe foram oferecidas "ordem" foi extremamente precário, continuando a
por apenas uma parte do território do BrasiÍ.Essa viver.a Província de Pernambuco em estado de rebe-
nação ocupava uma posição privilegiada em relação lião quase constante.
a qualquer outra. Seu predomínio comercial estava
garantido pelos tratados com Portugal.
r
Quanto aos Estados Unidos, ainda que o go-

-
A Insurreição Pernambucana de 1817 81

xima quando procura valorizar o papel da elite proprie-


tária nos acontecimentos de 1817.
Em trabalhos relativamente recentes, a Insurreição,
de 1817 em Pernambuco voltou a ser objeto de estudo sob
diferentes ângulos:
@f; Quintas, Amaro, "A agitação republicana no Nordeste".
In: Holanda, Sérgio Buarque (org.), História Geral
da Civilização Brasileira. 2!'- ed. São Paulo, Difel,
INDICAÇÕES PARA LEITURA 1965, t. 2, pp. 207-237.
Publicado pela primeira vez em 1960, o trabalho de
Amaro Quintas situa o processo revolucionário de 1817
num contexto amplo, analisando a situação econômica da
Tavares, Muniz, História da Revolução de Pernambuco de capitania de Pernambuco e sua importância na região
1817. 4!'-ed. Recife, Casa Civil de Pernambuco, 1969. nordestina.
O caminho para um melhor conhecimento dos even-
tos iniciados no dia 6 de março de 1817 em Pernambuco ~Costa, Emília Viotti da, "Introdução ao estudo da eman-
, cipação política do Brasil". In: Mota, Carlos Gui-
foi aberto por Muniz Tavares, participante ativo da Insur-
lherme (org.), Brasil em Perspectiva. São Paulo, Di-
reição. Sua obra foi editada pela primeira vez em 1840.
fel, 1968, pp. 73-139. "
Outras edições seguiram-se em 1884 (com introdução de
No seu artigo, Emília Viotti estuda a Insurreição
Maximiano Lopes Machado), em 1917 (com anotações de
Pernambucana de 1817 como parte integrante do processo
M. de Oliveira Lima) e em 1969 (com introdução de Costa
de independência do Brasil.
Porto).
Andrade, Manuel Correia de, Movimentos Nativistas em
Varnhagen, Francisco Adolfo de, História Geral do Bra-
Pernambuco: Setembrizada e novembrada. Recife,
sil. 7~ ed. São Paulo, Melhoramentos, 1962, pp. 149- ~J Universidade Federal de Pernambuco, 1971.
184. '
O autor preocupa-se mais especificamente com os
A obra de Varnhagen foi editada pela primeira vez no
acontecimentos que se seguiram a 1817. ,
II~ século XIX. A análise histórica do autor, na mesma me-
dida em que se diferencia do depoimento de Muniz Tava- Contier, Arnaldo Daraya; Oliveira, T.; Ferreira, L. C.,
I'i res no tipo de abordagem e toma partido oposto quanto à "Introdução ao estudo do vocabulário político através
validade da "Revolução" de Pernambuco, dela se apro- dos autos da devassa da Insurreição Pernambucana
~ 1;
~
82 Glacyra Lazzari Leite A Insurreição Pernambucana de 1817 83

de 1817". Anais de História, (2):101-156, FFCL Obras Raras e Publicações, 10 v., 1953-1955, v. CI-CX,
Assis, 1971. I foi elaborado o presente trabalho.
Os autores aplicaram nesse trabalho os resultados de Para o conhecimento da situação geral de Pernam-
estudos lingüísticos e semânticos a textos históricos. li buco no início do século XIX são imprescindíveis as obras:
I~Mota, Carlos Guilherme, Nordeste 1817: estruturas e ar- Koster, Henry, Viagens ao Nordeste do Brasil. Trad. Luiz
gumentos. São Paulo, Perspectiva, 1972. da Câmara Cascudo. São Paulo, Nacional, 1942.
Nesta análise indispensável para um estudo da Insur- Tollenare, Louis François, Notes dominicales prises pen-
reição Pernambucana de 1817, Carlos Guilherme Mota dant un voyage en Portugal et au Brésil en 1816,
enfatiza especialmente a relação mútua entre estrutura 1817 et 1818. Anotações de Leon Bourdon. Paris,
social e estrutura mental. O autor agrega em três grandes Presses Universitaires de France, 3 volumes, si d.
correntes as principais tendências ideológicas da época: "as
formas de pensamento revolucionárias, as formas de pen- Para um estudo da crise' do Antigo Sistema 'Colonial
samento ajustadas e as formas de pensamento reformis- em Portugal e no Brasil são fundamentais as obras de
I
tas" e defende o ponto de vista de que a Insurreição de Fernando Novais, especialmente o trabalho:
1817 em Pernambuco, contendo determinações liberais, Novais, Fernando, Portugal e Brasil na crise do Antigo
nacionais e descolonizadoras, provocou modificações pro- Sistema Colonial. São Paulo, HUCITEC, 1980.
fundas nas antigas maneiras de pensar. No que diz respeito ao comércio entre Portugal e Bra- I

lk Leite, Glacyra Lazzari, Estrutura e comportamentos so-


ciais: Pernambuco em 1817. São Paulo, 1976 (Tese
sil ver particularmente:
Godinho, Vitorino Magalhães, Prix et monais au Portu-
de Doutorado - Departamento de História da (I!" gal. Paris, Armand Colin, 1955.
FFLCH, USP, exemplar mimeografado). Arruda, José Jobson de Andrade, O Brasil no comércio
O objetivo desse estudo foi analisar as contradições colonial. São Paulo, Ática, 1980.
que atingiam os diversos grupos da sociedade pernam- Novais, Fernando, "Notas para o estudo do comércio in-
bucana num momento de crise do antigo sistema colonial. 4-"
ternacional no fim do século XVIII e início do sé-
Procurou-se dimensionar certos comportamentos sociais culo XIX (1796-1808)". In: L'Histoire Quantitative
através do processo revolucionário de 1817. Para ã reali- (1800-1930). Paris, Centre National de Recherche I II
II
zação deste trabalho foram desenvolvidas pesquisas em
arquivos nacionais e europeus. Com base, principalmente,
Scientifique, 1973, pp. 59-75.
-.Ribeiro, Maria de Lourdes Roque Aguiar, As relações eco-
I II
I
I
I

na documentação levantada e também nos Documentos nômicas entre Portugal e Brasil segundo as balanças
Históricos, Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional; Divisão de [I
de comércio (1801-1821). Lisboa, Faculdade de Le-

II
t .~
84 Glacyra Lazzari Leite

tras, 1972.
Ribeiro Jr., José, Colonização e monopólio no Nordeste
Brasileiro: a Companhia Geral de Comércio de Per-
nambuco e Paraiba (1759-1780). São Paulo, HUCI-
TEC,1976.
Sobre dados demográficos no período estudado ver:
Marcílio, Maria Luíza, "Evolução da população brasileira
através dos censos até 1872". Anais de História,
(6):115-137. FFCLAssis. 1974.
A respeito da população livre despossuída ver:
Franco, Maria Sylvia de Carvalho, Homens livres na or-
Sobre a Autora
dem escravocrata. São Paulo, IEB, 1969.
Sou paranaense, de Rebouças, casada, tenho dois filhos e três
netos. Estudei no Colégio Nossa Senhora de Lourdes (Cajuru) e na Escola
de Professores de CuriÜba. Em 1968 licenciei-me em História pela Facul-
dade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis onde também cursei espe-
cialização em História do Brasil. Fiz pós-graduação na Universidade de
São Paulo e desenvolvi pesquisas em arquivos nacionais e europeus,
especialmente, em Lisboa onde trabalhei beneficiada por bolsa de estu-
dos concedida pelo Ministério de Educação e Cultura' de Portugal. Dessa
pesquisa resultou a tese de doutoramento defendida na Universidade de
São Paulo, em 1976, intitulada "Estrutura e comportamentos sociais:
Pernambuco em 1817".
Atualmente desenvolvo um trabalho sobre a Insurreição Pernam-
bucàna de 1824. Para a fundamentação desse trabalho conto com uma
Caro leitor: bolsa de estudos concedida pela CAPES, em 1982.
As opiniões expressas neste livro são as do autor, Tenho vários artigos publicados. Sou professora de História do
podem nãoserassuas. Casovocêachequevalea Brasil, no Instituto de Letras, História e Psicologia de Assis da UNESP,
pena escrever um outro livro sobre o mesmo tema, onde participo como professora e como orientadora de teses de mestrado
nõs estamos dispostos a estudar sua publicação no programa de pós-graduação em História.
com o mesmo título como "segunda visão" .

• ~