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NÍVEL BÁSICO

Prof.: Nedilmar B. Giró

A função social da igreja como desdobramento de sua


missão integral

Foto de John M. Bauan em Unsplash

RESUMO

Missão integral deve ser compreendida como a atribuição deixada por Jesus Cristo à Igreja
de todos os tempos, e em todo o mundo, quanto ao alcance de vidas para o seu Reino,
preparando-as para a vida eterna. Logo, essa missão deve ser completa, abrangendo o ser
humano em todos os seus aspectos e oportunizando tratamento adequado a todas as suas
carências. Nesse sentido, pode-se afirmar que a responsabilidade social da Igreja, assim

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considerada a interação com a sociedade e as estruturas de governo, consiste num


desdobramento de sua Missão Integral.

A Igreja foi comissionada a levar sementes de esperança, alento e orientação para as


pessoas, especialmente aquelas aflitas e/ou desprovidas das condições mínimas
necessárias à garantia de vida digna. Trata-se de iniciativa orientada à busca pela saúde
integral do ser humano, primando pelo tratamento / cuidado espiritual, físico, mental e social
dos indivíduos – a missão integral deve abranger a totalidade das necessidades humanas.

Visando à prática da missão integral tem-se a necessidade de compreensão da


responsabilidade social da Igreja, que deve ser empreendida com base em estudos
preliminares de atuação em conformidade com as necessidades dos povos a serem
alcançados. A ação eclesial será relevante na medida em que são identificadas as
necessidades das pessoas. Assim, muito relevante é a ministração do evangelho aliada a
ações de educação e/ou alimentação em comunidades carentes; e pouco relevante a
simples distribuição de panfletos evangelísticos quando a necessidade maior de
determinado grupo seja, por exemplo, a proteção contra o frio.

Inevitavelmente, em alguns casos, o assistencialismo (paliativo) será a forma adequada de


atendimento imediato às necessidades daqueles que não têm mínimas condições de
subsistência. Em suma, a Igreja deve demonstrar interesse na promoção da justiça social
e na transformação da sociedade, cuja atuação alcançaria melhores resultados se
houvesse o engajamento do maior número possível de igrejas locais, de diversas
denominações, para o desenvolvimento de projetos evangelísticos e de ação social nas
cidades onde estão inseridas.

Naturalmente, a prática missionária significa continuidade do ministério de Jesus Cristo, a


serviço a Deus, para a transformação das sociedades na perspectiva do amor, da
reconciliação, do perdão, da misericórdia e todos os sentimentos intrínsecos à comunhão
com o Senhor. Quando os agentes de Deus, comumente chamados de missionários,
passam a engajar-se na responsabilidade social a ação eclesial no mundo torna-se mais
forte e mais relevante.

PALAVRAS-CHAVE: missão integral, responsabilidade social, relevância eclesial.

INTRODUÇÃO

A reflexão sobre a Igreja e sua ação no mundo deve ser um compromisso de todos cristãos.
Por isso é necessário traçar diretrizes que realizem como missão o propósito divino. A

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Igreja, ciente de suas atribuições, pode esperar bons resultados se suas metas forem
traçadas a partir da missão de Jesus.

O modelo missionário tradicional de salvação de almas tende a limitar a atuação da Igreja,


haja vista que está voltado ao exclusivo tratamento espiritual dos seres, preterindo, por
vezes, carências físicas, mentais e sociais. Essa teologia acaba por reduzir a obra salvífica
de Cristo, ignorando o cuidado com o corpo criado por Deus, o que se contrapõe ao modelo
de amor vivido por Jesus em prol das vidas que estavam ao seu redor.

Tendo em vista o cuidado integral de Deus pelo ser humano, em suas mínimas
necessidades, em nenhuma hipótese se pode admitir que a missão da Igreja esteja limitada
à vida espiritual dos seres. A prática da missão integral vai muito além de simplesmente dar
orientação espiritual ao indivíduo, pois ela se estende à orientação para a vida toda.

A Igreja deve, como instrumento de Deus, contribuir para a transformação das sociedades
a partir da realização de suas atividades quanto a sua responsabilidade social. Muito
oportuna a contribuição do apóstolo Tiago quando escreveu sobre a necessidade de que a
fé seja acompanhada pelas obras, as quais podem significar um dos resultados da salvação
intermediada por Cristo.

Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé e não tiver as obras? Porventura,
a fé pode salvá-lo? E, se o irmão ou a irmã estiverem nus e tiverem falta de mantimento
cotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos; e lhes não
derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? Assim também a fé, se
não tiver as obras, é morta em si mesma. Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as
obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas
obras (Tiago 2:14-18).

A missão que Jesus deixou para sua Igreja é a de anunciar a salvação a todos os povos,
tendo em vista o contexto onde vivem, tomando conhecimento dos problemas sociais e
agindo no sentido de contribuir para o bem-estar social. Se a missão pretendida e/ou
realizada não abranger toda a esfera do trabalho deixado por Cristo à Igreja, então tal
missão estará incompleta ou não alinhada aos princípios bíblicos – será discrepante do
modelo / estilo de vida adotado por Jesus.

A promoção do Reino de Deus deve partir da esperança de um futuro melhor em Cristo,


cuja atribuição compete à Igreja e seus membros, ainda que o presente não forneça
indicativos de um futuro favorável, conforme aponta Marcos Orison Nunes de Almeida.

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O ponto de partida para a missão deve ser a esperança que temos no futuro de Cristo. Essa
esperança que se mantém acesa em nossos corações por mediação do Espírito Santo é a
mesma que levou a igreja primitiva a transformar o mundo de então em meio ao caos e
perseguição do império romano. Guardadas as devidas proporções, não creio que a
situação de centros urbanos como Corinto e Éfeso fossem muito diferentes das nossas
cidades, e nem por isso o apóstolo Paulo se intimidou ou deixou-se abater na condução do
ministério missionário que cabia a ele e suas congregações (ALMEIDA, 2006, pág. 209.)

A igreja local está inserida numa sociedade fragmentada em vários aspectos, tais como o
religioso, o econômico e o ideológico. Há muitos perigos e desafios que fazem frente ao
compromisso missionário de ser agente de Deus na terra, isto é, apresentar Cristo como
antídoto contra as terríveis consequências do pecado, bem como denunciar as injustiças
sociais e anunciar a chegada do Reino dos céus.

Na oração sacerdotal (Jo 17), pode-se perceber o pedido especial do Senhor para que os
seus discípulos estivessem protegidos, haja vista que ele conhecia o mundo hostil onde a
missão seria realizada. A observação de C. René Padilla é bastante pertinente quanto à
obra deixada por Jesus aos seus discípulos.

Em primeiro lugar, para o próprio Jesus, a missão que o Pai lhe dera não se limitava à
pregação do evangelho. Mateus, por exemplo, sintetiza o ministério terrenal do Senhor
assim: “Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho
do Reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo.” (Mt 4.23; cf. 9.35).
Ainda que se definisse a evangelização em termos da comunicação verbal – definição esta
que deixaria muito a desejar à luz da psicologia da comunicação – ainda haveria que
acrescentar, com base no texto, que a evangelização foi somente um dos elementos da
missão de Jesus. Junto com o kerygma estava a diakonia e a didaqué. E isto pressupõe
um conceito de salvação que abarca a totalidade do homem e não pode ser reduzido ao
perdão de pecados e à segurança de uma vida interminável com Deus no céu. A uma visão
integral da salvação corresponde uma missão integral. Salvação é saúde. Salvação é
humanização total. Salvação é vida eterna, vida do Reino de Deus, vida que começa aqui
e agora (e este é o sentido do presente do verbo em “tem vida eterna” no evangelho e nas
cartas de João) e atinge todos os aspectos do ser do homem. (PADILLA, 2005, p. 35).

A diretriz principal para o desenvolvimento do presente artigo é a reflexão sobre a


compreensão do desdobramento da missão integral da Igreja, tomando por base o
reconhecimento de sua responsabilidade social, concernente ao contexto onde está
inserida. Em síntese, se fazem necessárias a compreensão da missão integral e da
responsabilidade social da Igreja, bem como a correlação desses conceitos à atuação

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eclesial. Nossa religião não consiste em palavras, mas em ações (JUSTINO, apud
SPENER, 1996, p. 104).

1 MISSÃO E RESPONSABILIDADE DA IGREJA

Missão consiste num conceito bastante complexo, haja vista que abrange o legado deixado
por Jesus à Igreja. Quanto à integralidade da missão faz-se necessário destacar que a
abordagem da Igreja deve contemplar integralmente o ser humano, considerando seus
aspectos espirituais, físicos, mentais e sociais.

Visando compreender a delimitação desse encargo, pertinentes algumas reflexões bíblicas.


Vejamos: Jesus ordenou a pregação (Mc 15:16) e o ensino (Mt 28:20a), e demonstrou seu
interesse quanto às necessidades relacionadas ao cuidado integral do ser humano
[alimento (Mc 6:34-44 – multiplicação de pães e peixes), perdão (Jo 8:4-11 – perdão da
mulher adúltera), inclusão (Jo 4:9 – samaritanos), o cuidado dos necessitados (Lc 10:25-37
– parábola do bom samaritano), etc.].

Jorge H. Barro (2006) também enumera algumas implicações sobre o papel da igreja no
mundo, de modo que cumpra a sua missão de forma integral. Deus quer que sua Igreja
seja:

a) Centro de hospitalidade – um lugar de boas vindas, onde as pessoas possam se sentir


em casa;
b) Centro de refúgio – onde os de fora, os estrangeiros, os pobres, os fracos, os
perseguidos e os não amados possam encontrar um santuário;
c) Centro de misericórdia – uma casa de misericórdia e esperança, onde a vida seja
valorizada ao máximo;
d) Um sinalizador do Reino – assim como o farol está para o mar, a igreja está para a
cidade.

Num mundo em constantes transformações é necessário que haja um povo ativo quanto
às boas ações em prol do bem comum. Aliás, a Igreja deveria ter mais voz e atitude quanto
à administração pública, legislação e outras implicações concernentes ao bem-estar social.
Tendo em vista que Deus é pró-vida é necessário que a Igreja do Senhor esteja engajada
na missão para a qual foi designada.

A Igreja está em missão porque Deus está em missão. Antes da missão histórica dos
apóstolos e da Igreja havia a missão eterna do Deus Triúno, que deu início ao processo de
envio no mistério da encarnação por amor a uma criação perdida e alienada (SCHERER,
1991, p. 39).

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Uma das premissas para buscar uma melhor compreensão acerca da missão da Igreja deve
ser a ideia de continuidade do ministério de Jesus. Assim, a Igreja deve anunciar o Reino
de Deus – um Reino de justiça e de paz – observando as recomendações e o exemplo de
Cristo, conforme bem observa C. R. Padilla.

A missão da igreja é uma extensão da missão de Jesus. É a manifestação, ainda que não
completa, do Reino de Deus tanto por meio da proclamação como por meio da ação e do
serviço social. O testemunho apostólico continua sendo o testemunho do Espírito acerca
de Jesus Cristo, por meio da igreja. (PADILLA, 2005, p. 207).

Evidentemente, há dificuldades relacionadas à tarefa de delimitar a missão da Igreja, pois


entre as questões a serem respondidas está a hipótese de polarização entre a
evangelização e a responsabilidade social da Igreja, cujo dualismo parece persistir tal como
sagrado/profano, bem/mal, etc. Entretanto, a atuação da igreja deve ser ampla quanto à
essência de sua missão evangelical e, ainda, um meio de promoção de bem-estar social
em parceria com o Estado.

Evangelização e responsabilidade social devem andar juntas como causa e efeito de uma
mesma verdade evangélica. Com isso não queremos dizer que evangelização e ação social
devam ser entendidas como sendo a mesma coisa. Por outro lado, também não estamos
afirmando que sejam duas coisas diametralmente separadas. Um ministério integral
verdadeiro define a evangelização e a ação social como funcionalmente separadas, mas
relacionalmente inseparáveis e necessárias para um ministério integral da igreja
(YAMAMORI, 1998, p. 14).

Um grande problema da discussão sobre a missão, lamentavelmente, não está voltado à


prática das obras iniciadas por Cristo, mas sim acerca dos limites da missão. O assunto
não é nada novo, aliás, está bastante “batido”, mas a discussão gira em torno da teoria
sobre até que ponto a Igreja é responsável pela condição das sociedades, especialmente
pelos riscos de que determinado conjunto de ações sociais convirja para o assistencialismo,
o que também não é adequado.

A título de exemplo, os direitos e garantias fundamentais devem ser assegurados pelo


Estado (disposição normativa brasileira), mas a Igreja pode assumir parcialmente, entre
suas atribuições, a educação social, sendo esta uma forma de promover cidadania e justiça
social.

A missão da Igreja está atrelada às necessidades da humanidade, ou seja, todas e


quaisquer carências humanas podem ou devem ser complementadas pela atuação da
Igreja no mundo. Entretanto, isto não significa que tudo deve ser realizado pela Igreja. A

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Igreja pode funcionar como instrumento promotor de oportunidades de transformação social


– o ideal é que cada cidadão carente aprenda a arte da pescaria e não apenas espere por
doações.

O problema dessa abordagem é que quando tudo é missão, nada é missão. O termo missão
é cooptado para designar o que são ministérios essencialmente contínuos ou atividades de
manutenção da Igreja. Perde-se facilmente de vista o critério essencial da missão como
sair de si para dentro do mundo, como cruzar fronteiras para prestar testemunho, ou como
proclamar o evangelho aos que nunca o ouviram – sobretudo, “nomear o nome” de Jesus
Cristo onde, ele não é conhecido. (SCHERER, 1991, p. 30).

Por missão integral deve ser entendida a atuação da igreja no mundo com o objetivo de
anunciar as boas novas do Reino de Deus a todos os povos a partir de quatro dimensões
estreitamente relacionadas, quais sejam: Kerigma, Didaquê, Koinonia e Diakonia.

Nessas dimensões, pressupõe-se que a missão da igreja seja holisticamente


desempenhada e com o objetivo de transformar todos os campos que compõem a vida do
ser humano, de modo que o evangelho todo seja apresentado ao ser humano todo
(BARRO; KOHL, 2006, p. 8). Em síntese, trata-se de:

a) Kerigma: significa “anunciar ou proclamar” o evangelho da salvação (Mc 16: 15) a toda
a humanidade, indistintamente, afirmando que Jesus Cristo é o Senhor. Todos os seres
humanos, independentemente de classe social, cor de pele e/ou situação socioeconômica,
são os destinatários da mensagem do evangelho;

b) Didaquê: significa “ensinar” os preceitos do Senhor (Mt 28:20a). O ensino é a base para
a transformação da sociedade, especialmente se essa educação for pautada sobre os
sólidos princípios cristãos;

c) Koinonia: significa “comunhão”, especialmente cristã vivenciada entre todos aqueles que
guardam a fé em Jesus (At 2:42). A comunidade é lugar de reconciliação, onde a koinonia
aparece como a solidariedade obstinada, movida por caridade que se empenha em guardar
a comunhão quando tudo impeliria à separação e à ruptura (RODRÍGUEZ & CASAS, 1994,
p. 198);

d) Diakonia: significa “serviço” prestado aos necessitados, e em especial aos órfãos e


viúvas, sendo este o cuidado pelas vidas e não estritamente o cuidado pelas almas (At 6:
1-4). Este serviço cristão implica na realização de atividades cuja finalidade é contribuir no
atendimento das necessidades humanas.

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2 FUNDAMENTOS BÍBLICO-TEOLÓGICOS DA RESPONSABILIDADE SOCIAL DA


IGREJA

A teoria e a prática da missão da Igreja estão ou devem estar fundamentadas sobre os


princípios deixados por Jesus Cristo, tomando especialmente por modelo o seu ministério.
Seus passos asseveram diretrizes para a realização da missão integral, ou seja, deve-se
observar suas atitudes frente às pessoas que lhe cercavam e, ainda, perceber suas reações
diante de seus opressores.

A missão da Igreja não pode ser reduzida à simples pregação. Entendem-se como
missionárias, nessa perspectiva, aquelas ações voltadas ao alcance de vidas e à expansão
da Igreja para fora dos muros da igreja local, em direção ao mundo (BARRO, 2006, p. 136).

A missão deve abranger todos os aspectos da vida dos seres, haja vista que a obra de
Jesus além de trazer as boas novas de salvação trouxe ainda uma dimensão social e
política (PADILLA, 2005, p. 36). Jesus trouxe esperança à humanidade assim como,
ilustrativamente, o samaritano trouxe alento e esperança ao moribundo caído à margem do
caminho.

A missão integral da Igreja, que contempla o viés da responsabilidade social, pode ser
chamada missio Dei (missão de Deus), a qual possui antigas e profundas raízes. Desde os
escritos veterotestamentários há registro de intervenções / manifestações divinas inerentes
ao cuidado com o ser humano, especialmente em situações de risco à sua saúde.

A exemplo desse cuidado, atualmente sabe-se que a não higienização da glande pode
causar sérias doenças, inclusive câncer do órgão sexual masculino e também do colo
uterino. Contudo, ainda nos tempos antigos, Deus ordenou que todo macho entre o seu
povo fosse circuncidado, conforme o seu “concerto” com Abraão, de modo a evitar e/ou
minimizar o acúmulo de secreções na região do prepúcio (Gn 17:10).

Ainda, o Senhor ordenou que entre as “armas” do seu povo deveria haver uma pá, a fim de
que, ao evacuar, fosse possível cavar o solo e posteriormente cobrir as fezes (Dt 23:13).
Evidentemente, naquele tempo não havia saneamento básico, mas o Senhor providenciou
uma medida paliativa para prevenir o seu povo de doenças decorrentes da falta ou
insuficiência de sistemas de esgotos.

As narrativas bíblicas mostram o cuidado integral de Deus para com o ser humano. Isso
demonstra que a ação missionária deve se atentar tanto às necessidades físicas como às
espirituais, que estão inseparavelmente relacionadas, ainda que sejam separadas em
termos funcionais (YAMAMORI, 1998, p. 15).

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São inúmeros os textos bíblicos que apresentam formas de cuidado divino com o ser
integral. As legislações contidas no cânon são expressões de cuidado, prevenção e
orientação para o bem viver humano. O texto do capítulo 28 de Deuteronômio é um
condensado dessa essência bíblica – bênção enquanto próximos e obedientes ao Senhor,
porém maldição em consequência do afastamento / desobediência ao Senhor.

Por vezes é possível perceber a atuação objetiva de Deus em favor dos injustiçados,
marginalizados e/ou inferiorizados, vez que de maneira geral eles não possuíam garantias,
segurança ou mesmo alguém que os protegesse. Essas “injustiças” eram decorrentes do
pecado de seus governantes, mas o Senhor sempre oferecia seu amparo em atendimento
às necessidades do seu povo.

Analisando a legislação do Antigo Testamento percebe-se que o objetivo das diversas leis
era o de que não houvesse miseráveis, injustiçados e imorais entre o povo de Deus. Os
escritos do Novo Testamento apresentam mais claramente o cuidado divino, pois em Cristo
o cuidado com a humanidade foi personificado, o que está em consonância com a
declaração de Jesus quando lia o texto do profeta Isaías (61:1):

O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-
me a curar os quebrantados do coração, a pregar liberdade aos cativos, e restauração da
vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor (Lc
4:18,19).

Jesus demonstrou responsabilidade com as pessoas.

Na esfera do pensamento, o acomodamento da igreja ao mundo se realiza principalmente


por meio da redução do evangelho a uma mensagem puramente espiritual, uma mensagem
de reconciliação com Deus e salvação da alma. Coerentemente com isto, define-se a
missão da igreja exclusivamente em termos de evangelização, entendida como a
proclamação de que, em virtude da morte de Cristo na cruz, a única coisa que se necessita
para ser salvo é “aceitar a Jesus como seu suficiente salvador”. Isto separa a fé do
arrependimento, os elementos “essenciais” do evangelho dos “não essenciais”, o querigma
da didaqué, a salvação da santificação. (PADILLA, 2005, p. 68).

Missão responsável deve ser realizada para além dos costumeiros limites de evangelização
e ação social para atender aos pobres por meio de assistencialismos. A princípio a missão
“integral” deve tratar a raiz dos problemas sociais – o pecado. As injustiças sociais, os
escândalos religiosos e políticos, os crimes hediondos, a miséria, a fome e tantas outras
situações de sofrimento humano são apenas consequências da condição de pecado sob a
qual vive a humanidade.

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Cristo veio trazer boas novas de salvação e libertação de todo e qualquer sistema opressor,
logo cabe à Igreja missionária dar prosseguimento a essa obra de redenção. Portanto,
todos aqueles que fazem parte da comunidade chamada Igreja devem assumir o
compromisso de levar a mensagem da cruz e da ressurreição de Cristo e as suas
consequências, inerentes à transformação das sociedades por meio da luz do evangelho.

A continuidade do ministério de Jesus deve visar o estabelecimento da meta de alcançar e


conduzir vidas ao encontro com Deus, através da obra salvífica de Cristo, sendo esta a
missão da igreja, conforme a afirmação de Michael Raiter.

A primeira coisa a se afirmar é que, de acordo com o NT, missão é a proclamação verbal
do evangelho. Nada que não tenha como característica fundamental a proclamação do
evangelho e como seu objetivo final a condução de homens e mulheres ao Reino de Deus,
para que possam estar santos e irrepreensíveis diante dele no último dia, pode ser
considerado como missão. (RAITER, 2006, p. 83).

O propósito de Deus ao qual se refere a instituição da Igreja é que esta dê continuidade ao


serviço de arrebanhar vidas para o seu Reino num processo cíclico de geração de
discípulos – edificação do corpo de Cristo. Assim, um grupo de pessoas toma conhecimento
do poder de Deus e da salvação eterna e, em seu caminho, testemunha dessa experiência
a outras pessoas e por fim lhes ensina alguns princípios acerca da fé cristã para que estes
últimos entrem neste ciclo de geração de discípulos.

Em outras palavras, a obra de redenção da humanidade está sendo expressa na pessoa


de Cristo, que num gesto de amor se entregou como um cordeiro diante de seus
tosquiadores para ser sacrificado. Muito pertinente o ensino de Jesus na parábola do bom
samaritano – Ele quer afirmar que a prática da misericórdia é requisito para a vida eterna,
logo não há vida eterna sem o amor a Deus e ao próximo. Não há condições de amar a
Deus e crer em salvação / vida eterna sem amar ao próximo (1 Jo 4:20).

Tal como foi a atuação de Deus por meio dos seus profetas no Antigo Testamento, assim
também quer o Senhor que a sua Igreja esteja engajada em sua responsabilidade social.
O trabalho ao qual se refere a missão integral também está voltado para as denúncias dos
sistemas de governos corruptos e injustiças sociais, bem como dos problemas vivenciados
por milhares de pessoas em todo o mundo: fome, miséria, desemprego, falta de moradia,
deficiências e/ou insuficiências educacionais e tantos outros problemas consequentes do
egoísmo humano em contraste ao amor de Deus.

No desdobramento da missão integral da Igreja, considerando a sua responsabilidade


social, não há como deixar de vislumbrar, compreender e/ou abranger o ser humano de

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maneira integral, isto é, a prática da missão integral deve ter como foco a totalidade dos
seres e tratar de todas as suas carências sejam elas quais forem. Muito embora alguns
cristãos já estejam trabalhando a partir dessa visão holística seria muitíssimo importante
que toda a Igreja do Senhor estivesse voltada para esta obra.

A Igreja deveria ser o primeiro reduto de reintegração das pessoas. A integridade humana
é encontrada na inserção do indivíduo em uma comunidade de interdependência e
solidariedade (ALMEIDA, 2006, p. 218). A missão integral propõe uma teologia de missão
evangelizadora contextual e de transformação social, cujos agentes são os discípulos de
Cristo. Relevante ainda é fazer menção de que a missão integral é obra de resgate da
humanidade no mundo.

O universo não é um universo fechado, no qual tudo pode ser explicado na base de coisas
naturais. É, antes, a arena onde Deus – um Deus que atua na história – está travando uma
batalha contra poderes espirituais que escravizam os homens e obstacularizam sua
percepção da verdade revelada em Jesus Cristo. (PADILLA, 2005, p. 20).

Certamente, Deus está junto aos que sofrem algum tipo de carência para lhes estender a
mão. Ele não está à margem dos necessitados como mero espectador, mas está agindo
em prol de justiça, paz, liberdade e segurança para todos os seres. Portanto, os agentes
do Reino de Deus são os bons despenseiros que trabalham para que o nome de Cristo seja
conhecido entre os povos e que sua obra de redenção seja estabelecida no mundo.

Partindo-se do princípio de que o grande problema da humanidade é o pecado, em suas


diversas modalidades, cabe à Igreja a tarefa de indicar os remédios para todos os males
oriundos da condição de separação e/ou rebelião contra o Senhor. Para transformação das
sociedades faz-se necessária a rendição à Cristo, de modo que todas as coisas sejam
colocadas debaixo da soberania do Senhor.

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As atividades da igreja local devem ser realizadas em conformidade com as necessidades


contextuais das pessoas. A evangelização contextual refere-se ao testemunho da Igreja no
mundo por meio da presença e ação divinas. O ministério das igrejas locais nas diversas
cidades não pode se abstrair do fato de estarem inseridas no meio urbano. Suas ações,
para serem relevantes, devem prever a atuação para além do mero assistencialismo e
atingir as estruturas fundamentais da cidade (ALMEIDA, 2006, p. 223).

Para a realização da missão integral é necessário analisar a realidade das pessoas a partir
dos diversos contextos em que vivem, pois, caso contrário, não será possível atender às
suas necessidades. A triste realidade das pessoas marginalizadas pela sociedade urbana
é bem conhecida. Elas vivem muito próximas ou ainda abaixo da linha de pobreza;
convivem com a dificuldade de subsistência, logo há também a grande dificuldade de
acesso a serviços básicos de saúde, higiene e educação.

Essa realidade pode ser encontrada em favelas e assentamentos: pode também ser
encontrada em hospitais (públicos ou particulares) onde pessoas, ricas ou pobres,

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necessitam não só de uma palavra de esperança para a salvação de suas almas, mas
também de um conforto para as suas emoções e de um resgate de sua autoestima.
(LOPES, 2006, p. 153).

Portanto há de se concluir que a missão integral será muito relevante quando toda a Igreja
de Cristo estiver comprometida com o evangelho e com o Reino de Deus. A reflexão
teológica acerca da missão da Igreja deve partir do corpo eclesial visando a salvação da
humanidade, isto é, todos os cristãos têm a responsabilidade de trabalhar como servos do
Reino, conforme bem observa Jürgen Moltmann.

A teologia é uma tarefa conjunta de todo o povo de Deus, não só das faculdades teológicas
e não só dos seminários eclesiais. A fé de toda cristandade na Terra busca por
conhecimento e compreensão, senão não é fé cristã. Por isso, o fundamento de toda
especialização teológica é o ministério teológico geral de todos os crentes, como
correspondente à tese reformatória de “sacerdócio geral de todos os crentes”. Todos os
cristãos, quer jovens ou velhos, quer mulheres ou homens, que crêem e fazem alguma
reflexão sobre isso, são teólogos. (MOLTMANN, 2004, p. 23).

A Igreja contemporânea é constantemente desafiada a readequar seus modelos


missionários sob a perspectiva da responsabilidade social. Apenas nos templos, ricos e os
pobres se assentam lado a lado, porém, ao saírem daquele ambiente, a realidade é
totalmente diferente daquilo que se ouve nas reuniões cúlticas. É necessário criar modelos
de missão plenamente adaptados à triste realidade marcada pelo abismo social existente
entre ricos e pobres.

Talvez seja necessário rever as formas de evangelismo, analisar a relevância das igrejas
locais e centrá-las todas na missão integral, abrangendo holisticamente o ser humano de
modo a atendê-lo em todas as suas necessidades. O apontamento de Marcos Orison
Nunes de Almeida é muitíssimo pertinente quando se trata de ação eclesial.

As igrejas locais tendem a se especializar em ministérios de atendimento aos efeitos


sintomáticos de uma doença social estrutural maior. Sabemos que a raiz primeira, e por
assim dizer, também estrutural, de todos os males é o pecado, mas se partimos de uma
perspectiva integral do evangelho, não podemos tentar solucionar os problemas do ser
humano apenas por sua conversão espiritual ao evangelho. Há de haver uma conversão
social e ela se dá à medida que enfocamos a sua raiz. Consequentemente, a transformação
da estrutura urbana se dá quando a ação da igreja visa influir nas estâncias econômicas,
político-institucionais e ideológicas. (ALMEIDA, 2006, p. 211).

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Certamente, parte da Igreja está ciente de sua missão no mundo, mas há de ser lembrada
constantemente para que haja um processo contínuo de análise da realidade social e
desenvolvimento de ações propriamente missionárias e que convirjam para a
transformação de vidas.

A contextualização da missão é essencial para que a ação da igreja no mundo surta os


efeitos esperados. Para que a ação eclesial seja eficaz no mundo faz-se necessária a
reflexão teológica acerca do compromisso e da responsabilidade da igreja a partir do
contexto social, haja vista que as linhas teológicas adotadas pela Igreja podem servir como
parâmetro para determinação do nível de envolvimento desta com a sociedade onde está
inserida, conforme o ponto de vista de Jorge H. Barro (2006).

Deus chama a sua igreja a resgatar os primórdios do cristianismo, ainda que seja uma
árdua tarefa falar em diaconia em tempos de mercadejamento da palavra de Deus ou falar
de responsabilidade social enquanto o tema mais desejado é a prosperidade. Ser
testemunha de Cristo é um grande desafio frente a uma sociedade pluralista, cuja ideologia
afirma não haver o absoluto (AMORESE, 1998, p. 51), logo, nem mesmo Cristo pode ser
reconhecido como Senhor Absoluto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trabalho a ser desenvolvido pela Igreja deve ser estabelecido sobre duas diretrizes
básicas, necessárias e inseparáveis para o cumprimento de sua missão integral – a
evangelização e a responsabilidade social. As boas novas do Reino devem ser difundidas
pelo mundo com o uso da Palavra e a ação social, isto é, as boas obras, pois nisto consistia
a missão de Jesus e que posteriormente foi assumida pelos discípulos.

A proclamação do Reino é acompanhada pelos sinais do amor de Deus, os quais são


manifestos através da demonstração do cuidado com a vida humana por parte da Igreja,
que é a grande agente missionária de Deus. As atividades relacionadas à anunciação do
Reino são classificadas como urgentes e somente a Igreja comprometida com Deus e com
sua obra pode reconhecer e vivenciar o domínio de Deus sobre a vida em sua totalidade.

Vale lembrar que as necessidades humanas, sejam elas quais forem, poderão se tornar
emergenciais, entretanto não se pode dizer que o atendimento espiritual ou o material seja
o mais importante para a realização da missão, haja vista que as circunstâncias em que
vivem as pessoas é que irão determinar quais são as prioridades e por isso a missão deve
ser integral. Portanto, as próprias necessidades determinam as prioridades. (PADILLA,
2005, p. 212).

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A essência da missão integral é a evangelização e a ação social, as quais devem andar


estreitamente relacionadas para que haja transformação na vida das pessoas e do meio
onde vivem. Não há evangelho genuíno se não for anunciada a salvação integral em Cristo,
o que corresponde a restauração de vidas e atendimento às necessidades humanas como
foi o ministério de Jesus. Ele pregava a verdade acerca da salvação e, quando necessário,
alimentava às multidões que o cercavam.

A presença do Reino de Deus, a partir do Cristo ressurreto, deve ser uma realidade de
salvação integral, e para isto há a grande necessidade de que o evangelho seja
contextualizado de modo a promover efetiva transformação na vida das pessoas. Portanto,
seria de bom alvitre que a Igreja manifestasse com maior ênfase seu posicionamento
acerca do planejamento de diretrizes político-econômicas, sugerindo revisão de estruturas
governamentais e servir como braço de alcance às classes marginalizadas pela sociedade.

A missão integral da Igreja pode ser entendida como uma associação entre a evangelização
e o serviço comunitário, interagindo como causa e efeito, cujo objetivo é o bem-estar social
e a preparação de vidas para a eternidade. Para isto a igreja deve promover justiça social
a partir de sua presença e ações sociais, deve apresentar projetos de novas políticas
governamentais, deve incentivar as comunidades a interagir no sentido de buscar melhorias
para o contexto das suas cidades.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Marcos O. N. de. A missão integral no contexto urbano. In: BARRO, A. C.; KOHL, M.
W. (Orgs.). Missão integral transformadora. Londrina: Descoberta, 2006. p. 201-224.

AMORESE, R. M. Icabode: Da mente de Cristo à Consciência Moderna. Viçosa: Ultimato, 1998.

BARRO, A. C.; KOHL, M. W. (Orgs.). Missão integral transformadora. Londrina: Descoberta,


2006.

BARRO, Jorge Henrique. A integridade da Missio Dei na cidade: perspectivas bíblico-teológicas.


In: BARRO, A. C.; KOHL, M. W. (Orgs.). Missão integral transformadora. Londrina: Descoberta,
2006. p. 173-200.

LOPES, César Marques. Mobilizando a igreja local para uma missão integral transformadora. In:
BARRO, A. C.; KOHL, M. W. (Orgs.). Missão integral transformadora. Londrina: Descoberta,
2006. p. 131-171.

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NÍVEL BÁSICO
Prof.: Nedilmar B. Giró

MOLTMANN, J. Experiências da reflexão teológica: caminhos e formas da teologia cristã. São


Leopoldo: Unisinos, 2004.

PADILLA, C. René. Missão integral – 2ª ed. Londrina: Descoberta, 2005.

RAITER, M. Enviados para esse propósito: missão, missiologia e a busca por um significado. In:
BARRO, A. C.; KOHL, M. W. (Orgs.). Missão integral transformadora. Londrina: Descoberta,
2006. p. 69-92.

RODRÍGUEZ, A. A. & CASAS, J. C. Dicionário teológico da vida consagrada. São Paulo: Paulus,
1994.

SPENER, P. J. Pia Desideria. Curitiba: Encontrão / IEPGCR, 1996.

YAMAMORI, Tetsunao. Servindo com os pobres na América Latina: modelos de ministério


integral. Curitiba/Londrina: Descoberta, 1998.

Sítios da Internet:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Glande. Acesso em 10/09/2015.

http://drauziovarella.com.br/sexualidade/higiene-intima-masculina/. Acesso em 10/09/2015.

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