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Copyright © 1997 by Mia Couto, Editorial Caminho S.A., Lisboa.

MIA COUTO nasceu na Bei-


ra, Moçambique, em 1955. Foi
Edição apoiada pela Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas/
Secretário de Estado da Cultura
director da Agência de Informa-
ção de Moçambique, da revista
“Tempo” e do jornal “Notícias
A editora manteve a grafia vigente em Moçambique, observando as de Maputo”.
regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Em 1983 publica o seu pri-
meiro livro: “Raiz de orvalho”
AUTOR:
Mia Couto (poemas); depois, editado inici-
DESIGN GRÁFICO:
José Serrão almente pela Associação de Es-
ILUSTRAÇÃO DA CAPA:
REVISÃO:
Ivone Ralha critores Moçambicanos, um livro de contos, “Vozes anoi-
Secção de Revisão da Editorial Caminho
© Editorial Caminho S.A., Lisboa, 1997.
tecidas”, publicado pela Caminho em 1987.
TIRAGEM:
10.000 exemplares Em 1990 a Caminho publica o seu livro de estórias
COMPOSIÇÃO:
Secção de Composição da Editorial Caminho “Cada homem é uma raça” e em 1991 “Cronicando”, tam-
IMPRESSÃO E ACABAMENTO:
Tipografia Lousanense, Ltda. bém inicialmente publicado em Moçambique.
DATA DE IMPRESSÃO:
Maio de 1997 Em 1992 sai o seu primeiro romance: “Terra sonâmbu-
Depósito legal n.o 110 854/97
ISBN 972-21-1129-9 la”. Em 1994 sai “Estórias abensonhadas”, em 1996 o
romance “A varanda do Frangipani” e em 1997 “Contos
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) do nascer da Terra”.
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil) Várias obras de Mia Couto estão traduzidas ou em
Couto, Mia Nascido na Beira, em Moçambi-
curso de tradução em diversas línguas:
que, em espanhol,
1955, Mia Coutofrancês,
é um
Contos do nascer da Terra/ Mia Couto. 1ª ed.. São Paulo: Com-
panhia das Letras, 2014. italiano, alemão, sueco, norueguêsdose principais
holandês. escritores africanos
de atualidade. Em 1999 recebeu o
prêmio Vergílio Ferreira pelo
ISBN 978-85-359-2434-3 conjunto de sua obra, e em 2007 o
prêmio Unido Latina de Literaturas
1. Ficção moçambicana (Português) I. Título. Românicas. Dele, a Companhia
das Letras publicou, entre outros,
14-03264 CDD -m869.3 Antes de nascera mundo, O último
voo do flamingo e Terra sonâmbu-
Índice para catálogo sistemático:
la, considerado um dos dez melho-
1. Ficção: Literatura moçambicana em português 869.3 res livros africanos do século XX.

i
Mia Couto

ÍNDICE O homem da rua ....................................... 167


O general infanciado ................................. 175
Rungo Alberto ao dispor da fantasia ......... 183
O despertar de Jaimão .............................. 189
O não desaparecimento Raízes (*) ................................................... 197
de Maria Sombrinha ............................. 11 O fintabolista ............................................ 203
A viagem da cozinheira lagrimosa (*) ........ 17 A viúva nacional ....................................... 211
A última chuva do prisioneiro ................... 25 A sentença do fogo (*) ................................ 219
A gorda indiana ........................................ 33 Miudádivas, pensatempos ......................... 229
A menina, as aves e o sangue ................... 41 O chão, o colchão e a colchoa ................... 235
A filha da solidão ...................................... 47 A palmeira de Nguézi(*) ............................. 243
Lágrimas para irmãos siameses (*) ........... 55 Cataratas do céu ....................................... 251
O último voo do tucano ............................ 63 Ossos ........................................................ 257
A luavezinha (primeira estória para a Rita) 71 O coração do menino
Velho com jardim nas traseiras do tempo . 77 e o menino do coração .......................... 263
O viúvo ..................................................... 83
A menina sem palavra Glossário .................................................. 269
(segunda estória para a Rita) ................ 91
O derradeiro eclipse ................................. 97
Nota: A maior parte dos contos deste livro fo-
A carteira de crocodilo .............................. 105
ram publicados em jornais e revistas desde iní-
Falas do velho tuga .................................. 111 cios do ano de 1996 e o corrente ano. Contudo,
Governados pelos mortos o autor alterou a quase totalidade desses tex-
(fala com um descamponês) ................. 121 tos.
O indiano dos ovos de ouro ...................... 127 E acrescentou uma dezena de histórias iné-
O baralho erótico ...................................... 135 ditas (assinaladas com asterisco), alicerçadas
no quotidiano desse país que, para além de
A casa marinha ........................................ 143
uma língua comum, exibe uma identidade bem
Os negros olhos de Vivalma ...................... 151 própria no domínio da cultura e da criatividade
Gaiola de moscas (*) ................................. 157 literária.

[6]

ii
“Não é da luz do sol que carece-
mos. Milenarmente a grande estrela
iluminou a terra e, afinal, nós pouco
aprendemos a ver. O mundo necessi-
ta ser visto sob outra luz: a luz do lu-
ar, essa claridade que cai com respei-
to e delicadeza. Só o luar revela o la-
do feminino dos seres. Só a lua revela
intimidade da nossa morada terres-
tre.
“Necessitamos não do nascer do
Sol. Carecemos do nascer da Terra”.

[7] [8]

aumentar cada vez mais. Adiante, diria o cama-


leonino réptil.
O não desaparecimento A família de Maria Sombrinha vivia em tais
de Maria Sombrinha misérias, que nem queria saber de dinheiro. A
moeda é o grão de areia esfluindo entre os de-
dos? Pois, ali, nem dedos. Tudo começou com o
pai de Sombrinha. Ele se sentou, uma noite, à
cabeceira da mesa. Fez as rezas e olhou o tam-
po vazio.
[11] [12] ― Eh pá, esta mesa está diminuir!
Os outros, em silêncio, balancearam a ca-
beça, em hipótese.
Afinal, quantos lados tem o mundo no ― Vocês não estão a ver? Qualquer dia não
parecer dos olhos do camaleão? temos onde comer.
Ao se preparar para dormir, apontou o leito
Já muita coisa foi vista neste mundo. Mas e chamou a mulher:
nunca se encontrou nada mais triste que cai- ― Esta cama cada dia está mais pequena.
xão pequenino. Pense-se, antemanualmente, Um dia desses não tenho onde deitar.
que esta estória arrisca conter morte de crian- Debateram o assunto, timidamente, com o
ça. Veremos a verdade dessa tristeza. Como diz pai. Sugeriram que a razão pudesse ser inversa:
o camaleão ― em frente para apanhar o que o mundo é que estava a aumentar, encurralando
ficou para trás. a aldeiazinha. Fosse o caso dessa suposição, a
Deu-se o caso numa família pobre, tão po- aldeia estaria metida em vara de sete camisas.
bre que nem tinha doenças. Dessas em que se Mas o velho não arredou ideia. Casmurrou con-
morre mesmo saudável. Não sendo pois espan- tra argumento alheio, ancorado na teima dele.
tável que esta narração acabe em luto. Em todo Por fim, sua visão minguante aconteceu
o mundo, os pobres têm essa estranha mania com Sombrinha. Ele via o tamanho dela se a-
de morrerem muito. Um dos mistérios dos lares canhar, mais e mais pequenita. E se queixava,
famintos é falecerem tantos parentes e a família pressentimental:
3
Mia Couto

― Esta menina está-se a enxugar no poen- Maria Sombrinha ascendia a mãe e avó quase
te... em mesma ocasião. Sombrinha passou a tratar
Todos se riam. O pai cada vez piorava. Face de igual seus rebentinhos ― a filha e a filha da
ao riso, o homem se remeteu à ausência. Se filha. Uma pendendo em cada pequenino seio.
transferiu para as traseiras, se anichou entre A família deu conta, então, do que o pai an-
desperdício e desembrulhos. A filha ainda soli- tes anunciara: Sombrinha, afinal das contas,
citou comparência do mais velho. sempre se confirmava regredindo. De dia para
― Deixe o seu pai. Lá onde está, ele não está dia ela ia ficando sempre menorzita. Não havia
em lugar nenhum. que iludir ― as roupas iam sobrando, o leito ia
Valia a pena sombrear a miúda, minhocar- crescendo. Até que ficou do mesmo tamanho da
lhe o juízo? Mas Sombrinha não deixou de rimar filha. Mas não se quedou por ali. Continuou
com a alegria. Afinal, era ainda menos que ado- definhando a pontos de competir com a neta.
lescente, dada somente a brincriações. Sendo Os parentes acreditaram que ela já chegara
ainda tão menina, contudo, um certo dia ela se ao mínimo mas, afinal, ainda continuava a re-
barrigou, carregada de outrem. Noutros termos: duzir-se. Até que ficou do tamanho de uma u-
ela se apresentou grávida. Nove meses depois se nha negra. A mãe, as primas, as tias a procu-
estreava a mãe. Sem ter idade para ser filha co- ravam, agulha em capinzal. Encontravam-na
mo podia desempenhar maternidades? em meio de um anónimo buraco e lhe deixavam
A criancinha nasceu, de simples escorre- cair uma gotícula de leite.
gão, tão minusculinha que era. A menina pesa- ― Não deite de mais que ainda ela se afoga!
va tão nada que a mãe se esquecia dela em to- Até que, um dia, a menina se extingiu, em
do o lado. Ficava em qualquer canto sem quei- idimensão. Sombrinha era incontemplável a
xa nem choro. vistas nuas. Choraram os familiares, sem con-
― Essa menina só pára quieta!, queixava-se formidade. Como iriam ficar as duas orfãzi-
Sombrinha. nhas, ainda na gengivação de leite? A mãe or-
Deram o nome à menininha: Maria Brisa. denou que se fosse ao quintal e se trouxesse o
Que ela nem vento lembrava, simples aragem. esquecido pai. O velho entrou sem entender o
Dona mãe ralhava, mas sem nunca fechar riso, motivo do chamamento. Mas, assim que passou
tudo em disposições. Até que certa vez repara- a porta, ele olhou o nada e chamou, em encan-
ram em Maria Brisa. Porque a barriguinha dela tado riso:
crescia, parecia uma lua em estação cheia. ― Sombrinha, que faz você nessa poeirinha?
Sombrinha ainda devaneou. Deveria ser um E depois pegou numa imperceptível luzinha
vazio mal digerido. Gases crescentes, arrotos e suspendeu-a no vazio dos braços. “Venha que
tontos. Mas depois, os seios lhe incharam. E eu vou cuidar de si”, murmurou enquanto re-
concluíram, em tremente arrepiação: a recém- gressava para o quintal da casa, nas traseiras
nascida estava grávida! E, de facto, nem tarda- da vida.
ram os nove meses. Maria Brisa dava à luz e [13] [16]

4
CONTOS DO NASCER DA TERRA

bairro militar. Nos vapores da cozinha a negra


Felizminha arregaçava os olhos. Enxugava a lá-
A viagem da cozinheira lagrimosa grima, sempre tarde. Já a gota tombara na pane-
la. Era certo e havido: a lágrima se adicionando
nas comidas. Tanto que a cozinheira nem usava
tempero nem sal. O sargento provava a comida e
se perguntava porquê tão delicados sabores.
― É comida temperada a tristeza.
Era a invariável resposta de Felizminha. A
[17] [18] empregada suspirava: “ai, se pudesse ser outra,
uma alguém”. Poupava alegrias, poucas que
eram.
Antunes Correia e Correia, sargento colonial ― Quero guardar contentamento para gastar
em tempo de guerra. Se o nome era redundante, depois, quando for mais velhinha. [20]
o homem estava reduzido a metades. Pisara um Metida a sombra, fumo, vapores. Nem sua
chão traiçoeiro e subira pelas alturas para esses alma ela enxergava nada, embaciada que esta-
lugares onde se deixa a alma e se trazem eterni- va por dentro. A mão tiritacteava no balcão. O
dades. Correia não deixou nem trouxe, incompe- recinto era escuro, ali se encerravam voláteis
tente até para morrer. A mina que explodira era penumbras. A cozinha é onde se fabrica a intei-
pessoal. Mas ele, tão gordo, tão abastado de vo- ra casa.
lume, necessitava de duas explosões. Certa noite, o patrão entrou na cozinha, ar-
― Estou morto por metade. Fui visitado ape- rastando seu peso. Esbarrou com a penumbra.
nas por meia-morte. ― Você não quer mais iluminação na porca-
Perdera a vida só num olho, um lado da cara ria desta cozinha?
todo desfacelado. O olho dele era faz-conta um ― Não, eu gosto assim.
peixe morto no aquário do seu rosto. Mas o sar- O sargento olha para ela. A gorda Felizmi-
gento era tão apático, tão sem meximento, que nha remexe a sopa, relambe a colher, acerta o
não se sabia se de vidro era todo ele ou apenas o sal na lágrima. O destino não lhe encomendou
olho. Falava com impulso de apenas meia-boca. mais: apenas esse encontro de duas meias vi-
Evitava conversas, tão doloroso que era ouvir-se. das. Correia e Correia sabe quanto deve à mu-
Não apertava a mão a ninguém para não sentir lher que o serve. Logo após o acidente, ninguém
nesse aperto o vazio [19] de si mesmo. Deixou de entendia as suas pastosas falas. Carecia-se era
sair, cismado em visitar no obscuro da casa a de serviço de mãe para amparar aquele branco
antecâmara do túmulo. O Correia perdera inte- mal-amanhado, aquele resto de gente. O sar-
resses na vida: ser ou não ser tanto lhe desfazia. gento garatunfava uns sons e ela entendia o
As mulheres passavam e ele nada. E ladainhava: que queria. Aos poucos o português aperfeiçoou
“estou morto por metade”. a fala, mais apessoado. Agora ele olha para ela
Agora, reformado, sozinho, mutilado de como se estivesse ainda em convalescença. O
guerra e incapacitado de paz, Antunes Correia e roçar da capulana dela amansa velhos fantas-
Correia tomava conta de suas lembranças. E se mas, a voz dela sossega os medonhos infernos
admirava do fôlego da memória. Mesmo sem o saídos da boca do fogo. Milagre é haver gente
outro hemisfério não havia momento que lhe em tempo de cólera e guerra.
escapasse nessa caçada ao passado. Das duas ― Você está magra, anda a apertar as car-
uma: ou minha vida foi muito enorme ou ela fugiu- nes?
me toda para o lado direito da cabeça. Para as ― Magra?
recordações virem à tona ele inclinava o pescoço. Pudesse ser! A tartaruga: alguém a viu ma-
― Assim escorregavam directamente do co- grinha? Só os olhos lhe engordavam, barrigan-
ração, dizia ele. do de bondades. [21] A gorda Felizminha gemia
Felizminha era a empregada do sargento. tanto ao se baixar que parecia que a terra esta-
Trabalhava para ele desde a sua chegada ao va mais longe que o pé.

5
Mia Couto

― Me esclareça uma coisa, Felizminha: por- rou a lágrima destinada a condimentar o repas-
quê essa choradice, todos os dias? to.
― Eu só choro para dar mais sabor aos Aconteceu, porém, que não veio ninguém. O
meus cozinhados. lugar na mesa permaneceu vazio. Essa e todas
― Ainda eu tenho razões para tristezas, mas as outras vezes. Única mudança no cenário: o
você... assento que competia à invindável visita passa-
― Eu de onde vim tenho lembrança é de co- va da direita para a esquerda, esse lado em que
queiros, aquele marejar das folhas faz conta a não havia mundo para o sargento Correia.
gente está sempre rente ao mar. É só isso, patrão. Felizminha duvidava: essas que o patrão
A negra gorda falou enquanto rodava a convidava existiam, verídicas e autênticas?
tampa do rapé, ferrugentia. O patrão meteu a Até que, uma noite, o sargento chamou a
mão no bolso e retirou uma caixa nova. Mas ela cozinheira. Pediu-lhe que tomasse o lugar das
recusou aceitar. falhadas visitadoras. Felizminha hesitou. De-
― Gosto de coisa velha, dessa que apodrece. pois, vagarosa, deu um jeito para caber na ca-
― Mas você, minha velha, sempre triste. deira. [23]
Quer aumento no dinheiro? ― Decidi me ir embora.
― Dinheiro, meu patrão, é como lâmina... cor- Felizminha não disse nada. Esperou o que
ta dos dois lados. Quando contamos as notas se restava para ser dito.
rasga a nossa alma. A gente paga o quê com o ― E quero que você venha comigo.
dinheiro? A vida nos está cobrando não o papel ― Eu, patrão? Eu não saio da minha som-
mas a nós, próprios. A nota quando sai já a nos- bra.
sa vida foi. O senhor se encosta nas lembran- ― Vens e vês o mundo.
ças. Eu me amparo na tristeza para descansar. ― Mas ir lá fazer o quê, nessa terra...
A gorda cozinheira surpreendeu o patrão. ― Ninguém te vai fazer mal, eu prometo.
Lhe atirou, a queimar-lhe a roupa: Daí em diante, ela se preparou para a via-
― Tenho ideia para o senhor salvar o resto gem. Animada com a ideia de ver outros luga-
do seu tempo. res? Aterrada com a ideia de habitar terra estra-
― Já só tenho metade de vida, Felizminha. nha, lugar de brancos? Nem rosto nem palavra
― A vida não tem metades. É sempre intei- da cozinheira revelavam a substancia de sua
ra... alma. O sargento provava a refeição e não en-
Ela desenvolveu-se: o português que convi- contrava mudança. Sempre o mesmo sal, sem-
dasse uma senhora, [22] dessas para lhe acom- pre a mesma delicadeza de sabor. No dia acerta-
panhar. O sargento ainda tinha idade combi- do, o militar acotovelou a penumbra da cozinha:
nando bem com corpo. Até há essas da vida, ― Venha, faça as malas.
baratinhas, mulheres muito descartáveis. Saíram de casa e Felizminha cabisbaixou-
― Mas essas são pretas e eu com pretas... se ante o olhar da vizinhança. Então o sargen-
― Arranje uma branca, também há ai des- to, perante o público, deu-lhe a mão. Nem se
sas de comprar. Estou-lhe a insistir, patrão. O entrecabiam bem de tão gordinhas, os dedos
senhor entrou na vida por caminho de mulher. escondendo-se como sapinhos envergonhados.
Chame outra mulher para entrar de novo. ― Vamos, disse ele.
Correia e Correia semi-sorriu, pensageiro. Ela olhou os céus, receosa por, daí a um
Um dia o militar saiu e andou a tarde toda pouco, subir em avião celestial, atravessar
fora. Chegou a casa, eufórico, se encaminhou mundos e oceanos. Entrou na velha carrinha,
para a cozinha. E declarou com pomposidade: mas para seu espanto Correia não tomou a di-
― Felizminha: esta noite ponha mais um prato. recção do aeroporto. Seguiu por vielas, curvas e
A alma de Felizminha se enfeitou. Esmerou areias. Depois, parou num beco e perguntou:
na arrumação da sala, colocou uma cadeira do ― Para que lado fica essa terra dos coquei-
lado direito do sargento para que ele pudesse ros? [24]
apreciar por inteiro a visitante. Na cozinha apu- [19] [24]

6
― Estou a ser preso, mamã, mas é só por
respeito dos mezungos.
A última chuva do prisioneiro ― Respeito dos brancos?
(Pensando no escritor nigeriano Ken-Saro-Wiwa.) ― Sim, mãe: é que eles, coitados, tiveram
tanto trabalho... é feio a gente deixar estas ca-
deias assim, sem ninguém.
Minha mãe acenava, com reserva. Ela en-
chia o nariz de rapé, aspirava aquilo como se a
narina fosse a boca da sua alma. Depois, espir-
rava, soltando distraídos demónios. E me avi-
[25] [26]
sava:
― Só eu tenho medo é do tempo...
― Que tem o tempo?
Lhe entrego dinheiro, prometo, tenho di- ― É que o tempo namora com ele próprio. Só
nheiro fora. Não duvide: são cifras, maquias e finge que gosta de nós...
quantidades. Tenho e tenho. E dou-lhe tudo, ― Não entendo, mamã.
totalmente. Mas me traga chuva, uma porção ― É que, na cadeia, o tempo gosta de passe-
de chuva boa, grossa e gorda. Estou doido? Por ar com modos de prostituta. Você que pensa que
causa de querer que chova aqui, dentro da pri- ainda não lhe deu nada mas já pagou a sua to-
são? Pode ser, pode ser loucura. Mas a loucura da vida.
é a única que gosta de mim. O senhor que é um ― Não se preocupa, mamã. Eu venho, volto e
inventador de realidades, me faça esse favor. regresso.
Me invente, rápido, uma urgente chuvinha. Ela deixava uma alegria espreitar na lágri-
Antigamente, valia a pena ser preso. O can- ma. Com as tais palavras eu lhe estava imitan-
tinho da prisão nem era mau, comparado com do quando ela, em minha pequeninice, me dava
o mundo que nos cabia, lá fora. Falo sério. instrução de regresso. Mais acontecia era
Maioria do que aprendi foi na prisão. Ler, es- quando chovia. Minha mãe me acorria, me sa-
crever: foi na prisão que me letrinhei. Minha cudia, me suspendia.
vida era uma roda-ronda entre roubo e grades. ― Começou a chuva, filho, corre lá para fora!
Me prendiam: era um consolo cheio de sossego. Era o contrário das restantes mães que
Lá fora ficava o mundo, mais suas doenças, chamavam seus meninos a recolher assim que
suas nauseabundâncias. tombavam as primeiras gotas. Fosse a que ho-
Agora, o calabouço é um lugar definhado, ra, mal chuviscava, ela me despertava, me des-
de não valer as penas. Esse mundo torto já pia e me empurrava para fora de casa. Minha
entrou na prisão. A cadeia se infernou, dá von- mãe acreditava que a chuva é água de lavar
tade só de escapar. Porque aqui dentro nos alma. Nunca ela deve ser desperdiçada. Disso
roubam mais que fora. Aqui somos roubados me lembro, a chuva tintilando, eu tiritando. E,
por polícia, roubados por ladrões. Já nem po- em minhas mãos, as folhas do kwangula ti o,
demos estar livres na cadeia. Neste lugar nem essa plantinha que nos protege dos trovões,
os mortos estão seguros. Já perdi escolha, dou- impedindo que o peito nos rebente. Me lembro
tor: a prisão me mata, a cidade não me deixa de suas encomendações:
viver. A feiura deste mundo já não tem dentro ― Vens, voltas e regressas. Ouviste?
nem fora. Nem sei quantas vezes entrei, voltei e re-
Lhe explico, nos tintins. Na minha língua gressei para o calabouço. Minha vida foi um
materna nem há palavra para dizer cadeia. Não ciclo de porta e tranca, céu e grade. Minha mãe
tínhamos nem ideia de cadeia. Foram os portu- morreu, durante esse entra-e-sai. Recebi notí-
gueses que trouxeram. Coitados, trouxeram cia na prisão, no meio de um domingo. Escutá-
cadeias de tão longe, até dava pena elas ficarem vamos o relato de um futebol. Os outros se
vazias. Eu explicava assim para minha mãe, mantiveram, cativos do rádio. Só eu despeguei
primeiras vezes que foi preso. cabeça, levantei os olhos para o carcereiro. Pedi

7
Mia Couto

para sair. Não me autorizaram. Eu que fosse à ti. A única coisa que quero é chuva. Chover-me
capela da prisão, orasse ali por minha mãe. em cima de mim, molhar-me, charcoar-me.
Mas o chefe da cadeia, sendo branco, não me Eu nasci na arrecadação da paisagem, num
podia entender. Eles se despedem dos mortos lugar bem desmapeado do mundo. Tudo em
de modo diferente. Foi única vez que fugi da volta eram securas, poeiras e romoinhos. Chu-
cadeia, foi essa. Eu queria comparecer na ceri- va era sinal dos deuses, sua escassa e rara o-
mónia de minha velha. Lá no cemitério da famí- ferta. E quando me dispunha assim, todo eu
lia ainda me pingou uma tristeza. Falei assim: nu, todo inteiramente descalço, parecia que os
― Viu, mãe? Eu disse que voltava... divinos destinavam toda aquela água só para
E pelo pé de minha vontade retornei para a mim. Eu tenho essa única saudade. Que caia
prisão. Dentro e fora, já eu era conhecido de um muitão de chuva, até chover dentro de
todos, presos e guardas. Sou irmão legítimo dos mim, pingar-me os tectos da cabeça, me aguar
que não têm família. Eles sempre me dedicaram o coração e eu sentir que Deus me está lavando
amizades, autenticadas com provas. Me traziam das poeiras que a vida me sujou. E assim dilu-
revistas com fotografias de mulher branca. Eu viado, eu escute, entre o ruído das gotas nos
antes me divertia com uma dessas fotografias, o telhados, a voz de minha mãe me farolando:
corpo dessa mulher me era muito manual. Mas ― Você vem, volta...
me cansei de imaginadelas. Ultimamente o que E agora que estou falando, imagine, doutor,
fazia? Punha a fotografia dessa mulher em cima estou já sentindo em meus braços o doce roçar
do armário e lhe rezava. Faz conta era Nossa das folhinhas da planta que me protege do re-
Senhora dos Qualqueres. Eu ficava assim, joe- bentar do peito, logo hoje que é véspera de eu
lhado, com vontade de pedir, o pedido me vinha ser sentenciado no suspenso da corda. Como se
à boca mas eu engolia como se fosse só saliva. essa corda me conduzisse para onde minha
E fiz tanto isso que me esqueceu todos os pedi- mãe me espera, sentada na berma de um chu-
dos que eu queria comendar. visco. Como se esse nó de forca fosse o meu
Vendi a revista aos pedaços, 500 cada foto, cordão desumbilical.
1000 cada mama. Agora, deixei de pedir. Desis- Me invente uma última chuvinha, doutor...
[27] [32]

8
CONTOS DO NASCER DA TERRA

mãos dele. E adormecia, controlo remoto na


mão.
A gorda indiana Para não definhar, longe das vividas vistas,
lhe abriram uma janela no quarto. Partiram a
parede, levantaram tempestades de poeira. Im-
possível de ser deslocada, cobriram a gorda
com um plástico. Modari espirrava em soprano,
mais aflita com o aparelho televisivo que com
seus pulmões.
[33] [34] Certo um dia ali chegou um viajeiro. O mi-
grante lhe trouxe panos, cores e perfumes da Ín-
dia. Era um homem sóbrio, sozinhoso. Ele a o-
― Quero ser como a flor que morre antes de lhou e, de pronto, se apaixonou de tanto volume.
velhecer. ― Você tem tanta mulher dentro de si que
Assim dizia Modari, a gorda indiana. Não eu, para ser polígamo, nem precisava de mais
morreu, não envelheceu. Simplesmente, engor- nenhuma outra.
dou ainda mais. Finda a adolescência, ela se O homem amava Modari mas tinha dificul-
tinha imensado, planetária. Atirada a um leito, dade em chegar a vias do facto. Com paixão ele
tonelável, imobilizada, enchendo de mofo o fofo suspirava: se um dia eu conseguir praticar-me
estofo. De tanto viver em sombra ela chegava de com você!... Mas ele devia atravessar mais car-
criar musgos nas entrecarnes. ne que magaíça mineirando nas profundezas.
A vida dela se distraía. Lhe ligavam a televi- ― De hoje em diante não quero nenhum
são e faziam desnovelar novelas. Modari chora- empregado mexendo em você.
va, pasmava e ria com sua voz aguçada, de afi- Ele mesmo passou a lavá-la. Modari se tor-
nar passarinho. Nos botões do controlo remoto nou muito lavadiça e o homem lhe enxugava,
ela se apoderava do mundo, tudo tão fácil, bas- aplicava pós medicinais, esfregava com loções.
tava um toque para mudar de sonho. Rebobi- Foi num desses lavamentos que o acto se con-
nar a vida, meter o tempo em pausa. Afinal, o sumou. O visitante lhe empurrou as pernas
destino está ao alcance de um dedo. Modari, de como se destroncasse imbondeiros. Fizeram
dia, nocturna. De noite, diurna. No ecrã lumi- amor, nem se sabe como ele conseguiu descer
noso a moça descascava o tempo. tão fundo nas grutas polposas dela. Modari, a
Tanta substância, porém, lhe desabonava a seguir, se sentiu leve. Controlo remoto na mão,
força. A gorda não se sustinha de tanto susten- ela então tomou consciência que, em nenhum
to. Não tinha levante nem assento. Desempre- momento do namoro, havia largado a caixinha
gada estava sua carne, flácido o corpo em imi- de comando da televisão. Assim como estava,
tação de melancia recheada. Uma simples ideia besuntada de transpiros, fez graça:
lhe fazia descair a cabeça. Já a família sabia: se ― Meu amor, você prefere quê: entalado ou
era ideia bondosa descaía para o lado esquerdo. enlatado?
Ideia má lhe pesava no ombro direito. Ela se encontrava tão ligeira que experi-
Em abono da estória se diga: ela se sujava mentou levantar o braço. E conseguiu. Delicia-
ali mesmo, em plenas carnes. À hora certa, um da, ficou marionetando os dedos no alto. Na
empregado lhe vinha lavar. Despia a moça e lhe noite seguinte, voltaram a fazer amor. E nas
pedia licenças para passar toalhas perfumadas restantes noites também. Então, Modari se deu
pelas concavidades, folhos e pregas. Lhe pega- conta que, de cada vez que amava, ela emagre-
va, virava e desfraldava com o esforço do pes- cia aos molhos vistos. Passados dias, já Modari
cador de baleia. Depois, lhe deixava assim, nu- se levantava da cama e ensaiava uns passos na
a, como uma montanha capturando frescos. ampla sala. O amante, reiquintado, parecia
Por fim, lhe ajudava a vestir uma combinação mais insatisfeito que abelha. Amava que se de-
leve, transparente. O empregado nem era deli- sunhava. Seu coração sofria de acesso de ex-
cado. Mas ela se amolecia com o roçar das cessos.

9
Mia Couto

Um mês depois, Modari até dançava. Esbel- Modari sorriu: o seu amante receava que
ta, desenhada a osso e linha. Centenas de qui- ela morresse? Lhe apeteceu responder que, por
logramas se haviam evaporado, vertidos em causa do amor, ela estava vivendo, ao mesmo
calor e nada. Modari se ocupava em reduzir tempo, infinitas vidas. Para morrer, agora, seri-
saris, apertar vestidos, acrescentar furos no am precisas infinitas mortes. Em vez disso,
cinto. A família, no início, se contentou. Mas, perguntou:
com o tempo, deixaram de celebrar aquela mu- ― Não lembra que, antes, eu desejava ser
dança. Modari se escaveirava, magricelenta. flor? Pois, me responda: não lhe sou perfumosa?
Das duas nenhuma: ou ela estava doente ou Ele lhe pegou as mãos como que se colec-
amava em demasia. tasse coragem. E anunciou que, em sendo ou-
― Demasia? tro o sol, ele deveria seguir comprida viagem.
Modari rejeitou conselho. Que o amor é ― Amanhã, meu namorzinho.
como o mar: sendo infinito espera ainda em Modari se afastou, crepuscalada. Ficou as-
outra água se completar. Não abrando, gritou sim, ocultada, despresente. O homem pensou
ela. E foi falar com seu homem que complacen- que ela estivesse lagrimando. Súbito, porém,
tou: amar-se-iam sempre, mas ela que deixasse ela se voltou, operando risos. Agitando o con-
na cabeceira o controlo remoto. Pelo menos du- trolo remoto na mão, desafiou:
rante o enquanto. Entre risos e lábios, se entre- ― Venha apanhar este seu rival. Venha seu
laçaram. Pela primeira vez, nessa noite Modari ciumento!
sentiu o morder da ternura. O sabor do beijo Ele a tomou nos braços e a acarinhou, cedi-
resvala entre lábio e dente, entre vida e morte. do, sedento. Os que beijam são sempre prínci-
Lamina e veludo, qual dos dois no beijo a gente pes. No beijo todas são belas e adormecidas.
toca? Asfixiação boca a boca: isso é o beijo. Como que dormida, a indiana se rendeu. No fim,
No dia seguinte, Modari, minusculada, dis- o homem olhou surpreso os seus próprios bra-
pensava peso. Nunca se viu mulher em estado ços. Não havia nada, ninguém. Modari se extin-
de tal penúria de carne. A ponto de o seu a- guira. Seu corpo saíra da vida dela, o tempo se
mante ter medo: exilara de sua existência. A indiana se antiga-
― Não, Modari, não lhe devo tocar, seu corpo mentara. O homem ainda escutou, algures na
já não dá acesso ao amor. sala, tombar a caixinha do controlo remoto.
[35] [40]

10
CONTOS DO NASCER DA TERRA

Mas o assunto do coração suspenso foi


sendo divulgado e chegaram ao subúrbio curio-
A menina, as aves e o sangue sos da cidade. Vieram estudiosos a solicitar o
caso daquele acaso. Até médicos questionavam
a mãe:
― Angina de peito ela teve?
― Sim, doutor: sempre ela foi anjinha de pei-
to.
Precisar de ajuda? Que não, doutor, essa
[41] [42] menina é feita assim mesmo, levinha como ar em
pulmão de ave. Mas o médico insiste, promete
mundos sem fundos. Que a fenomenosa miúda
Aconteceu, certa vez, uma menina a quem o podia ficar em memória da ciência. Mas a senho-
coração batia só de quando em enquantos. A ra mãe deveria participar. Era preciso tudo con-
mãe sabia que o sangue estava parado pelo roxo trolar: batimentos, calores, suspiros. Tarefa para
dos lábios, palidez nas unhas. Se o coração es- mãe a tempo inteiro, se pediam obséquios.
tancava por demasia de tempo a menina come- ― Se eu sei contar, doutor? Só os padre- nos-
çava a esfriar e se cansava muito. A mãe, então, sos e aves que nos mandam rezar na confissão.
se afligia: rola o dedo e deixava a unha intacta. Por uns dias ela ainda segurou o pulso frio
Até que o peito da filha voltava a dar sinal: da menina. Quase desejava que o peito não
― Mãe, venha ouvir: está a bater! desse resposta. Afinal, quando o coração lhe
A mãe acorria, debruçando a orelha sobre o pulsava a menina esquentava-se, a ponto de
peito estreito que soletrava pulsação. E pareci- rubra febre. A filha resistia, com doçura: queria
am, as duas, presenciando pingo de água em era sair, brincar.
pleno deserto. Depois, o sangue dela voltava a ― Desde dois dias, mãe. Desde isso que não
calar, resina empurrando a arrastosa vida. bate.
Até que, certa noite, a mulher ganhou para A senhora desistiu das medições. Que a
o susto. Foi quando ela escutou os pássaros. deixassem só, ela com ela. E, de noite, os pás-
Sentou na cama: não eram só piares, chilreina- saros enchendo o escuro. A mãe expulsou os
ções. Eram rumores de asas, brancos drapejos exteriores mirones. Fossem todos, levassem
de plumas. A mãe se ergueu, pé descalço pelo seus títulos, promessas, indaguações.
corredor. Foi ao quarto da menina e joelhou-se Com o tempo, porém, cada vez menos o co-
junto ao leito. Sentiu a transpiração, reconhe- ração se fazia frequente. Quase deixou de dar
ceu o seu próprio cheiro. Quando lhe ia tocar sinais à vida. Até que essa imobilidade se pro-
na fronte a menina despertou: longou por consecutivas demoras. A menina
― Mãe, que bom, me acordou! Eu estava so- falecera? Não se vislumbravam sinais dessa
nhar pássaros. derradeiragem. Pois ela seguia praticando vi-
A mãe sortiu-se de medo, aconchegou o vências, brincando, sempre cansadinha, resfri-
lençol como se protegesse a filha de uma mal- orenta. Uma só diferença se contava. Já à noite
dição. Ao tocar no lençol uma pena se despren- a mãe não escutava os piares.
deu e subiu, levinha, volteando pelo ar. A me- ― Agora não sonha, filha?
nina suspirou e a pluma, algodão em asa, de ― Ai mãe, está tão escuro no meu sonho!
novo se ergueu, rodopiando por alturas do tec- Só então a mãe arrepiou decisão e foi à ci-
to. A mãe tentou apanhar a errante plumagem. dade:
Em vão, a pena saiu voando pela janela. A se- ― Doutor, lhe respeito a permissão: queria
nhora ficou espreitando a noite, na ilusão de saber a saúde de minha única. É seu peito...
escutar a voz de um pássaro. Depois, retirou- nunca mais deu sinal.
se, adentrando-se na solidão do seu quarto. O médico corrigiu os óculos como se enten-
Dos pássaros selou-se segredo, só entre as du- desse rectificar a própria visão. Clareou a voz,
as. para melhor se autorizar. E disse:

11
Mia Couto

― Senhora, vou dizer, a sua menina já morreu. ― Então, minha querida não escutou nada?
― Morta, a minha menina? Mas, assim...? Ela negou. A mãe percorreu o quarto, vas-
― Esta é sua maneira de estar morta. culhou recantos. Buscava uma pena, o sinal de
A senhora escutou, mãos juntas, na educa- um pássaro. Mas nada não encontrou. E assim,
ção do colo. Anuindo com o queixo, ia esbugo- ficou sendo, então e adiante.
lhando o médico. Todo seu corpo dizia sim, mas Cada vez mais fria, a moça brinca, se aque-
ela, dentro do seu centro, duvidava. Pode-se ce na torreira do sol. Quando acorda, manhã
morrer assim com tanta leveza, que nem se no- alta, encontra flores que a mãe depositou ao pé
ta a retirada da vida? E o médico, lhe ampa- da cama. Ao fim da tarde, as duas, mãe e filha,
rando, já na porta: passeiam pela praça e os velhos descobrem a
― Não se entristonhe, a morte é o fim sem fi- cabeça em sinal de respeito.
nalidade. E o caso se vai seguindo, estória sem histó-
A mãe regressou a casa e encontrou a filha ria. Uma única, silenciosa, sombra se instalou:
entoando danças, cantarolando canções que de noite, a mãe deixou de dormir. Horas a fio
nem existem. Se chegou a ela, tocou-lhe como se sua cabeça anda em serviço de escutar, a ver se
a miúda inexistisse. A sua pele não desprendia regressam as vozearias das aves.
calor. [45] [46]

12
CONTOS DO NASCER DA TERRA

Mas esse apagar de lume lhe trazia um novo e


mais aguçado tormento. Quando, depois de
A filha da solidão suspirada e transpirada, ela se abandonava no
leito, uma funda tristeza lhe pousava. Era como
nascesse em si uma alma já morta. Tristeza
igual só essas mães que dão à luz um menino
inanimado. É justo poder-se assim visitar os
paraísos e nos expulsarem? Lhe custaram tanto
essas despedidas de si que passou a evitar seu
[47] [48] próprio corpo. Vale a pena é trocar carinhos,
receber as salivas do ventre de um outro. Mas
outros ali não havia para a donzela Meninita.
Na vida tudo chega de súbito. O resto, o que ― Acha que essa nossa filha se vai meter
desperta tranquilo, é aquilo que, sem darmos com um preto?
conta, já tinha acontecido. Uns deixam a aconte- O pai se ria, cuspindo gargalhada. O riso
cência emergir, sem medo. Esses são os vivos. Os dele tinha razão: a casa dos Pachecos se en-
outros se vão adiando. Sorte a destes últimos se conchara de preconceito. Ali se dizia no singu-
vão a tempo de ressuscitar antes de morrerem. lar: o preto. Os outros, de outra cor, se reduzi-
Filha dos cantineiros portugueses, Meninita am a uma palavra, soprada entre a maxila do
sempre foi moça comedida. Na penumbra da medo e a mandíbula do desprezo. Meninita
loja, ela atendia os negros como se fossem cumpria os ensinamentos da raça. Recebia os
sombras de outros, reais viventes. A miúda se clientes, sem sequer erguer a cabeça:
ia fazendo ao corpo ― o fruto se adoçava em ― Qué quer?
polpa açucrosa. A sede se inventa é para a mi- Massoco, único empregado, achava graça aos
ragem de águas. Pois nas redondezas não vivi- modos desdenhosos da pequena patroa. Ele era
am outros brancos, únicos a quem ela entrega- jovem como ela, carregava sacos e caixotes, con-
ria seus açúcares. duzia a carroça dali para depois do horizonte.
A família Pacheco se pioneirara na aridez de As melancolias da Meninita cresciam. A re-
Shiperapera, onde mesmo os negros originários vista já esfarelava, de tanto desfolhada. No dia
escasseavam. Por que escolhera tão longínquas em que fez dezoito, Meninita lançou fogo sobre
paragens? si mesma. Se imolou. Mas não desses fogos
― Aqui, por trás destas altas montanhas, comuns de combustão visível. Ardeu em invisí-
nem Deus me pode estreitar... veis chamas, só ela sofria tais ardências. Ficou
Fala do português para enganar perguntas. ardendo em demorada consecução. A febre lhe
Ninguém entende por que o Pacheco se interna- autorizava o delírio.
ra tanto nas dunas desérticas de Sofala, con- Veio a mãe, lhe abanou uma frescura. Veio
denando a família a não conviver mais com o pai, lhe aplicou conselho logo seguido de a-
gente de igual raça. Dona Esmeralda, a esposa, meaças. Tudo irresultou. Esse fogo se apagava
se angustiava vendo o crescer da filha. A que era em corpo de macho, em água de duplos su-
homem se destinaria ela, naquele afastamento ores e carícias. A mãe lhe corrigia a ilusão da
da sua semelhante humanidade? Deram-lhe o expectativa:
nome de Meninita para a ancorar no tempo. ― Minha filha, não deixe o corpo lhe nascer
Mas a filha se inevitalizava. Na sombra imutá- antes do coração.
vel do balcão, ela desfolhava uma mil vezes re- Adoentada, a moça deixou de atender ao
petida fotonovela. Sonhava aos quadradinhos... balcão. Substituiu-a o moço Massoco, cresce-
― Não espere consolo, filha: aqui só há pre- ram simpatias na loja. Meninita se internou em
talhada. seu quarto, emigrada da vida, exilada dos ou-
A menina se consolava fechada no quarto, a tros. Massoco, ao fim do dia, se apresentava,
revista da fotonovela entre os lençóis. Suas em solene tristeza. Chegou a pedir:
mãos se desprivatizavam em carícias de outro. ― Peço licença ir lá ver a patroinha...

13
Mia Couto

Um dia chegou a Shiperapera uma veteri- pôr a esposa a par do estranho plano. Dona
nária do Ministério. Vinha inspeccionar o gado Esmeralda riscou no lábio superior a curva da
dos indígenas. Quando o casal soube da notícia dúvida. Mas que se fizesse, a bem da pequena.
decidiu ocultar a novidade da filha. Ela já an- E se benzeu.
dava tão alterada! O Pacheco foi à estrada, es- Nas noites seguintes, a veterinária aparecia
perar a compatriota. Levou cerimónias e pastéis com seu disfarce. Subia ao quarto de Meninita
de peixe-seco. Acompanhou a doutora a uma e lá se demorava. Dona Esmeralda, na sala,
casa de hóspedes que a administração em tem- chorava em surdina. Pacheco bebia, devagaro-
pos construíra. Já deitados, os Pachecos troca- so. Passadas horas a veterinária descia, ajei-
ram as esperadas más-línguas: tando no rosto uma inexistente madeixa.
― Porra, a gaja parece um homem! Fosse pela qual razão, a verdade é que Me-
E riram-se. Dona Esmeralda se satisfazia ninita arrebitava. A veterinária, dias depois, se
pela visitante ser tão pouco mulher. Não fosse o retirou, nuvem naquela estrada onde mesmo a
marido se devanear. Numa dessas noites, Me- poeira rareava. Meninita, na manhã seguinte,
ninita sofreu de um acesso grave. O casal, em desceu à loja, a velha revista na mão. Sentou-
desespero, decidiu chamar a médica veteriná- se no balcão e inquiriu a sombra do outro lado:
ria. O pai acorreu à casa de hóspedes e urgiu ― Qué quer?
comparência à veterinária. No caminho, lhe Massoco riu-se, abanando a cabeça. E a vi-
explicou a condição da filha. da se retomou, em novelo que procura o fio. Até
Chegados à cantina, dirigem-se em silêncio que um dia, Dona Esmeralda despertou o ma-
profissional para os aposentos da perturbada rido, sacudindo-o:
jovem. Em delírio, a menina confunde a veteri- ― Nossa filha está grávida, Manuel!
nária com um homem. Atira-se-lhe aos braços, Choveram insultos, improperiou-se. Os vi-
beijando-lhe os lábios com sofreguidão. Os pais dros das janelas se estilhaçaram, tais as raivas
se embaraçam e acorrem a separar. A veteriná- do Pacheco: eu mato o cabrão da doutora! A
ria recompõe-se, ajeitando imaginários cabelos mulher implorou: agora, sim, era assunto de ir
sobre a face. Meninita com sorriso sonhador à vila. O marido que quebrasse seu juramento e
parece agora ter adormecido. superasse as montanhas de volta ao mundo.
Pacheco volta a acompanhar a visitante. De noite, o casal se fez à viagem, recomendan-
Vão calados, todo o tempo da viagem. Na des- do à filha mil cuidados e outras tantas trancas.
pedida, a veterinária, rompendo o silêncio, ex- E sumiram-se no escuro.
põe o seu plano: Na janela, Meninita ainda espreitou a poei-
― Eu vou fazer de homem. Me disfarço. ra da estrada iluminada pela lua. Subiu ao
Pacheco não sabia o que dizer. A veterinária quarto, abriu a revista das velhas fotos. Venci-
se explica: o cantineiro lhe emprestaria roupas da pelo sono se ajeitou no colchão em rodilha
velhas e ela se apresentaria, disfarçada de na- de lençóis. Antes de adormecer, apertou a mão
morado caído dos céus. O português acenou negra que despontava no branco das roupas.
maquinalmente e voltou a casa apressado em [49] [54]

14
CONTOS DO NASCER DA TERRA

― Mas, pai, nós, assim alicateados, saímos


baratos a Deus: precisamos só de um anjo da
Lágrimas para irmãos siameses guarda.
E o outro ainda reforçava:
― Como podemos separar? Se cada um da
gente só tem uma mão?
― É. Só os dois é que somos um.
Todos riram, arrumado o assunto. Antes de
se retirar, o pai ainda sacudiu uma resignação:
[55] [56] ― Vão ver, o amor junta, o amor separa.
E mais nada. Até que numa noite tempes-
tosa Marineusa dormiu no mesmo leito dos ir-
Eram duas vezes dois irmãos siameses, mãos. Irrisório se insentou, virado para a opos-
nascidos um com o braço no braço do outro ta parede. Fora, trovejava, chovia a rios. A arri-
fundido. Se pareciam como uma folha e a se- bombação escondia os gemidos dos amantes.
guinte. De nomes como assim: Osório e Irrisó- Osório se estava combustando na escalada dos
rio. Cresceram os dois, um em consequência do prazeres quando, repente, acreditou ver um
outro. Recíprocos, simultâneos e simétricos. braço alheio apalpilhando as traseiras da moça.
Ainda menininhos, o doutor advisou a mãe: Foi como relâmpago, dentro e fora dele. Visão
― Podemos separá-los agora, este é o mo- incerteira mas que lhe rasgou o pensamento.
mento conveniente. Irrisório se aproveitava? A miúda, magoada,
Separá-los. Porquê? Se Deus os queria car- pranteou. Osório queria tudo a pratos lavados:
ne com osso? Se davam bem, amiguíssimos, ― Explique-me, Marineusa!
vizinhos, repartindo o tudo e o nada. Os pais, Ela levantou o braço pedindo pausa. E re-
remediados, compraram um único relógio que colheu uma lágrima na ponta do dedo. Fez si-
ambos partilhavam no comum antebraço. Ao nal para que ele espreitasse a gotinha de triste-
apertar a corrente do relógio, a mãe senten- za. E Osório, maravilhado, viu surgir seu rosto
ciou: na lágrima de sua amada.
― Assim, o tempo nunca lhes vai dividir. ― Sou eu?
O tempo, esse mesmo, foi descaiando espe- ― Veja, essa é prova, a verdade saída do
lhos e os siameses começaram a engrossar a meu coração.
vista em saia e peito. Osório, sobretudo, era Na seguinte madrugada, a moça já tinha
mais espevitado. Irrisório era mais metido em saído, Osório ainda foi assaltado por uma tar-
si, olhos caseiros. Osório, às duas por muitas, dia suspeita. Aquele braço, em meio de relâm-
se apaixonou por Marineusa. Se adonzelou com pago? E falou para o irmão:
ela, esfregando-se nela até gastar o umbigo. ― Cuidado, mano! Você desce da cama e en-
Havia, óbvio, o problema do mano que estava tra na cova!
ali, mesmo ao braço de semear. Osório lhe pe- ― Está com ciúme, Osório?
dia que fechasse olho, tapasse ouvido, alheasse ― Ciúme, eu?
sentido. Irrisório tranquilizava: ― Ou está com dores no meu cotovelo?
― Sou homem correcto, descanse mano ó. ― Eu só digo: veja essa sua mão, seu mão
Irrisório, por voz de promessa, sossegava o jerico.
irmão. O pai, sabedor da vida, sugeriu um en- Acabaram brincando, amolecidos. E ficou-
contro familiar. E disse assim: se sem dito nem feito. O ciúme, porém, cismava
― Vão chegar mulheres e amores. Melhor é em garimpeirar o peito do irmão apaixonado.
vocês separarem-se! Um dia, aproveitando o sono de Irrisório,
Mas eles negaram. Eram fiéis, como a can- Osório perguntou a Marineusa:
ção: juntos para sempre. O pai manteve o ― Você, afinal: de quem gosta mais de mim?
mandamento. Porém, foi enfraquecendo peran- Inesperadamente, a miúda desabou em
te a insistência dos gémeos: choro. Falava em lágrimas. Osório se debruçava

15
Mia Couto

sobre o rosto dela a ver se entendia palavra. E discutiram. Que parte, que músculo, que
Mas nada. A namorada se inexplicava. osso era de cada um? Os ânimos esquentaram
― Quê? Você se entrega com ele? a pontos de pancadarias. Passados minutos, os
Ela adensou o choro. Irrisório pareceu que- dois acabaram cheios de hematombos, todos
rer despertar. traupartidos. Amarrados um no outro, os ir-
― Dorme, pá! mãos não se podiam desviar, nem furtar aos
Osório punha e contrapunha. Como Mari- socos e pontapés. E adormeceram, de cansaço,
neusa não desse acordo com as falas ele exigiu: uma mão segurando a outra, por precaução.
― Mostre-me uma lágrima! Manhã cedo, recomeçaram a briga. Um pu-
Ela hesitou. O homem gritou e Marineusa xava o outro para o hospital. O outro gritava
ainda recusou. Mas ele ameaçou e ela acedeu, que não, que nunca, que nem que ele passasse
gota tremeluzindo no estremecente dedo. Osó- por cima do cadáver dos dois. E mais socos,
rio espreitou mas virou o rosto, fulminado pela chutapés. A mãe gritava pelos vizinhos, ai que
visão do irmão bailando na película da lágrima. meus filhos se matam, um mais o outro! O pai
Com voz rouca, fechou o momento: avançou, peito arrojado:
― Você, nunca mais me compareça! ― Deixem que eu separo-os!
Mas ela, passadas três semanas, voltou a Rápido, corrigiu o verbo. Quer dizer, sepa-
aparecer. Abriu a porta e ficou ali parada, olhos ro-os parcialmente, isto é, separo aquela par-
térreos. O coração de Osório trepidou, ansioso. A te de lá. Enquanto acertava a frase, o pai se
moça correu em direcção a ele. Osório levantou deixou ficar em debate com os múltiplos vizi-
seu único autónomo braço, pronto a sanar e nhos.
perdoar. O amoroso volta sempre ao local do No meio da balbúrdia, eis que aparece Ma-
amor? Mas eis que Marineusa se enviesa e se rineusa. Fez-se um silêncio, abriu-se passagem
atira no braço de Irrisório. E os dois se beijaram, entre a multidão. Avançou até aos gémeos e
as bocas emigraram deles e molharam o mundo levantou a mão solicitando um tempo. Sem que
em volta. E se trocaram em ternuras e suspiros. se percebesse razão, ela desatou a chorar. Re-
Osório descabia em si. Virou o rosto e ferveu colheu as lágrimas na concha da mão e cha-
sem água, vinagrada a vista, salgado o sangue. mou os irmãos para que espreitassem. Então,
Nessa mesma noite, os dois irmãos, sozi- eles viram um cordão de gotas líquidas, entreli-
nhos, descascavam o silêncio. Osório quebrou o gadas como um colar. Eram lágrimas siamesas.
frio: E em cada gota, alternadamente, surgia o rosto
― Amanhã, vou-me separar de você. de Osório e de Irrisório. Ela tomou aquele longo
― Vai cortar o braço? rosário de gotas e o enlaçou em redor dos dois
― Sim, vamos directinhos no Hospital. manos. Beijou-os na face, levantou-se e saiu
― Esse braço é mais meu, não se corta. entre alas de muito espanto.
[57] [62]

16
CONTOS DO NASCER DA TERRA

Tapadas foram as portas, fechadas as janelas.


Deixou só uma pequena abertura e voltou a
O último voo do tucano juntar-se à esposa.
A mulher se sentou no banquinho de mafur-
reira e deixou que o homem lhe cortasse os ca-
belos e rapasse todos pêlos do corpo. Imitavam a
tucana que se depena para construir o ninho.
Depois ela se despiu, libertou-se das vestes
e atirou as roupas no obscuro da casa. E se
[63] [64] despediram, fosse tudo aquilo nem vivido, sim-
ples fantasia. A mulher entrou na escura casa e
ficou de costas. O marido maticou a abertura,
Ela estava grávida, em meio de gestação. enconchando a casa. Mas não tapou tudo: ficou
Faltavam dois meses para ela se proceder a um buraco onde mal metia o braço.
fonte. O que fazia, nessa demora? Deitava-se de Fechada a obra, ele recuou uns breves pas-
ventre para baixo e ficava ali, imóvel, quase se sos para contemplar a casa. Aquilo, agora, mais
arriscando a coisa. Que fazia ela assim, barriga se parecia um imbondeiro. A grávida estava
na barriga do mundo? aprisionada, na inteira dependência dele. Mor-
― Ensino o futuro menino a ser da terra, es- resse o homem e ela definharia, desnutrida,
tou-lhe a dar pés de longe. desbebida. Os seus destinos se igualavam ao
Ela queria a viagem para seu filho. O pai dos tucanos em momento de ninhação.
sorria, por desculpa aos deuses. E ficava a coar Nos tempos que seguiram, o homem cum-
o tempo, fazendo promessas logo-logo arrepen- priu seu mandato: matutinava para trazer co-
didas: Amanhã ou quem sabe depois? Desen- meres e beberes. Duas vezes ao dia ele chegava
tretanto, nada acontecia. e assobiava em jeito de pássaro. Ela acenava,
Aconteceu sim, foi numa noite farinhada de apenas a mão dela se arriscava à luz.
estrelas. O pai estava sentado sob a palmeira, a ― Não tem medo que eu fique por lás, nunca
ver o mundo perder peso. Saboreava a carícia mais voltado?
da preguiça dominical. Domingo não é um dia. ― Você, marido, sempre há-de voltar. Você
É uma ausência de dia. tem doença da água: mesmo da nuvem sempre
A mulher se chegou, em gesto fingido de regressa.
segurar barriga. Sempre ela tivera os rins ru- E assim se sucederam meses. Até que, uma
ins. Assim, de encontro ao poente, a mulher vez, ela lhe disse: não venha mais! Ele sabia
parecia dobra de cobra, flor à espera de vaso. que ela estava anunciar o parto.
― Mando, você conhece a maneira dos tuca- ― Você quer que eu fique perto?
nos ninharem? ― Não, espere longe.
― Conheço, com certeza. Ele longe não foi. Ficou atento, próximo,
― Porque não fazemos igual como eles? caso a necessidade. Esperou um dia, dois, mui-
O homem quase caiu das costas. Mas não tos. Nada, nem um choro a confirmar o nasci-
reagiu, concordado com o silêncio. Não é só a mento. Até que se determinou fazer valer sua
barriga: cabeça dela também inchou, pensou. dúvida. Chamou por ela, quase a medo. Tives-
Mas segurou a palavra e com ela se acordou. sem morrido mãe e filho, ao desumbigarem-se.
― Começamos quando? Já ele se decidia a arrombar o esconderijo
Nessa noite, ele contou as estrelas. A an- quando de dentro do escuro se vislumbrou o
gústia lhe enxotava o sono. Fazer como os tu- aceno de um pano. A mulher estava viva. Logo,
canos? Somos aves, agora? Como recusar, po- acorreu ele ansioso:
rém, sem chamar desgraças? Assim, no dia se- ― A criança?
guinte, ele deu início à loucura. Começou a fe- ― A criança, o quê?
char a casa com paus, matopes, água e areias. Ele não soube juntar mais pergunta. Quem
A casa foi ficando com mais paredes que lados. mais se engasga é quem não come. A mulher,

17
Mia Couto

simples, disse que o menino estava que até Deus E recolheu a dádiva, se deleitando com esse
se haveria de espantar. Que ela precisava ficar consolo. Ficou experimentando a ausência de
ainda uns tempos assim, no choco, na quentea- peso daquele volume. Tão leve era o objecto que
ção do ninho para dar despacho ao crescer da não havia força que o suportasse. O embrulho
vida. lhe tombou das mãos e se espalmilhou na arei-
Nessa primeira semana, ele ficou no quin- a. Foi quando, de dentro dos panos, se soltou
tal, em estado de nervos. É que não escutava um pássaro, muito verdadeiro. Levantou voo,
nem chorinho, assobio de fome do menino. E se desajeitoso, aos encontrões com nada.
passavam semanas, lentas e oleosas. O homem ficou a ver as asas se longeando,
― Lhe peço, mulher. Me deixe ao menos ver o voadeiras. Depois, ergueu-se e se arremessou
menino nosso. contra a parede da casa. Tombaram paus, de-
Ela então fez sair as mãos em concha pelo sabaram matopes, despertaram poeiras. Aga-
pequeno buraco. Só se via o enxovalhado enxo- chada num canto estava a mulher, de ventre
val. liso. Junto dela a capulana ainda guardava
― Segure aqui, Mando. Cuidado. sangues. Areias revolvidas mostravam que ela
Ele, embevecido, aceitou o embrulho das já escavara o chão, encerrando a cerimónia. Ele
roupas. se ajoelhou e acariciou a terra.
― Posso espreitar, ao menos? [69] [70]

― Não, ainda não se pode ver.

18
CONTOS DO NASCER DA TERRA

Certa noite, de lua inteira, ele se lançou nos


céus, cheio de sonho. E voou, voou, voou. Per-
A luavezinha deu conta do tempo. Em certo momento ele não
(Primeira estória para a Rita) sabia se subia, se tombava. Seus sentidos se
enrolaram uns nos outros. Desmaiou? Ou so-
nhou que sonhava? Certo é que seu corpo foi
sacudido pelo embute de um outro corpo.
E pousou naquela terra da lua, imensa sa-
vana pétrea. A ave contemplou aquela extensão
[71] [72] de luz e ficou esperando a noite para adorme-
cer. Mas noite nenhuma chegou. Na lua não faz
dia nem noite. É sempre luz. E o pássaro can-
Minha filha tem um adormecer custoso. sado de sua vigília quis voltar à terra. Bateu as
Ninguém sabe os medos que o sono acorda ne- asas mas não viu seu corpo se suspender. As
la. Cada noite sou chamado a pai e invento-lhe asas se tinham convertido em luar. Com o bico
um embalo. Desse encargo me saio sempre desalisou as penas. Mas penas já nem eram:
mal. Já vou pontuando fim na história quando agora, simples reflexos, rebrilhos de um sol co-
ela me pede mais: ado. O pássaro lançou seu grito, esses que de-
― E depois? flagrava antes de se erguer nos céus. Mas sua
O que Rita quer é que o mundo inteiro seja voz ficou na intenção. A ave estava emudecida.
adormecido. E ela sempre argumenta um sonho Porque na lua o céu é quase pouco. E sem céu
de encontro ao sono: quer ser lua. A menina não existe canto.
quer luarejar e, os dois, faz contarmo-nos as- Triste, ela chorou. Mas as lágrimas não es-
sim, eu terra, ela lua. As tradições moçambica- correram. Ficaram pedrinhas na berma da pál-
nas ainda lhe aumentam o namoro lunar. A pebra, cristais de prata. A avezita estava cativa
menina ouve, em plena verdade da rua: olha os da lua, aprisionada em seu próprio sonho. Foi
cornos da lua estão para baixo: vai cair a chuva então que ela escutou uma voz feita de ecos.
que a lua guarda na barriga. Era a própria carne da lua falando:
Me deu, um destes dias, a ideia de lhe con- ― Eu sonhei que tu vinhas cantar-me.
tar uma estorinha para fazer pousar o sonho ― E porquê me sonhaste?
dela. E desencorajar seus infindáveis e depois. ― Porque aqui não há voz vivente.
Lhe inventei a estória que agora vos conto. ― Eu também sonhei que haveria de pousar
Era uma avezita que sonhava em seu polei- em ti.
rinho. Olhava o luar e fazia subir fantasias pelo ― Eu sei. Agora vais cantar em luar. Eu so-
céu. Seu sonho se imensidava: nhei assim e nenhum sonho é mais forte que o
― Hei-de pousar lá, na lua. meu.
Os outros lhe chamavam à térrea realidade. É assim que ainda hoje se vê, lá na prata
Mas o passarinho devaneava, insistonto: vou da lua, a pupila estrelinhada do passarinho
subir lá, mais acima que os firmamentos. Seus sonhador. E nenhuma criatura, a não ser a noi-
colegas de galho se riram: aquilo não passava te, escuta o canto da avezinha enluarada. Sobre
de menineira. Todos sabiam: não havia voo que as primeiras folhas da madrugada, tombam
bastasse para vencer aquela distância. Mas o gotas de cacimbo. São lagriminhas do pássaro
passarinho sonhador não se compadecia. Ele que sonhou pousar na lua.
queria luarar-se. Pelo que o tudo ficava nada. ― E depois, pai?
[73] [76]

19
nas menininhas gritar. Alguém lhes bate. O
velho, impotente, se afunda entre os braços,
Velho com jardim interdito aos pedidos de socorro enquanto pede
nas traseiras do tempo contas a Deus.
― Deus está bom de mais, já não castiga
ninguém.
Vlademiro foi ganhando familiaridades com o
todo-potente. Me admira esse tu-cá-tu-lá com o
divino. Vlademiro já foi um beato, todo e total-
[77] [78] mente. Mas o velho tem explicação: à medida
que envelhecemos vamos entrando em intimida-
des com o sagrado. É que vamos abatendo no
No Jardim Dona Berta há um banco. O ú- medo. Quanto mais sabemos menos cremos? Ele
nico que resta. Os outros foram arrancados, não sabe, nem crê. Às vezes até se pergunta:
vertidos em tábua avulsa para finalidades de ― Deus ficou ateu?
lenha. Nesse restante banco mora um velho. Será que o velho vive isento de medos? As-
Cada noite, os dois se encostam mutuamente, sim, sozinho, sem morada própria. Ele me con-
assento e homem, madeira e carne. Dizem que testa, neste ponto:
o velho já tem a pele às listas, formatadas no ― Morada própria? Alguém tem morada mais
molde das tábuas, seu externo esqueleto. O própria?
idoso recebeu um nome: Vlademiro. Ganhou o Às vezes, doente, sente a morte rondar o
nome da avenida que ali passa, rasando-lhe a jardim. Mas Vlademiro sabe de truques, troca
solidão: a Vladimir Lenine. as voltas àquela que o vem levar. Mesmo ba-
Soube hoje que vão retirar o banco para ali tendo o dente, febrilhante, ele canta, voz trému-
instalar um edifício bancário. A notícia me de- la, faz conta que é mulher. As mulheres, diz,
sabou: o jardinzinho era o último mundo do demoram mais para morrer.
meu amigo, seu derradeiro refúgio. Decidi visi- ― A morte gosta muito de ouvir cantar. Se
tar Vlademiro, em missão de coração. distrai de mim e dança.
― Triste? Quem disse? E assim em jogo de desagarra-esconde. Até
Espanto meu: o homem estava eufórico que, um dia, a morte se adiante e cante primei-
com a notícia. Que um banco, desses das fi- ro. Mas ela terá que insistir para o de aninhar.
nanças, todo estabelecimentado, era um valor Vlademiro está bem acolchoado no banco. E
maior. Já lhe haviam dito da sua dimensão, clama que ainda não tem idade. Velhos são a-
dava bem para ele dormir mais seu bicho de queles que não visitam as suas próprias varia-
estimação. E mesmo quem sabe ele encontras- das idades.
se emprego lá? Nem que fosse nos canteiros em No enquanto, Vlademiro vai dormindo leve
volta. Afinal, ele transitava de seu banco de e pouco. Despertador dele é um sapo. Dorme
jardim para um jardim de banco. com o batráquio amarrado pela perna. E adian-
― Ando de banco para Banco. ta, sério: o bicho é amarrado apenas para im-
Risada triste, descolorida. Não tardaria a pedimento de voagem.
escurecer. Quando baixasse a noite, Vlademiro ― Sapo não voa porque deixou entrar água
se atafundaria em bebida, restos deixados em no coração.
garrafas. Já bêbado ele atravessaria a noite, a Agora, tudo vai terminar. Vão demolir o
modos de caranguejo. Do outro lado da avenida jardinzinho, a cidade vai ficar mais urbana,
estão as putas. As prostiputas, como ele cha- menos humana. Esse é o motivo da minha visi-
ma. Conhece-as a todas pelos nomes. Quando ta ao velho. Regresso ao que ali me levou:
não têm clientes, elas se adentram pelo jardim ― Diga-me, sobre isto do banco: você está
e sentam junto dele. Vlademiro lhes conta suas mesmo contente?
aldrabices e elas tomam a baboseira dele por Vlademiro demora. Está procurando a me-
cantos de embalar. Às vezes, escuta as noctur- lhor das verdades. O riso esvanece no rosto.

21
Mia Couto

― Tem razão. Esta minha alegria é mentira. De noite, quando ela dormia é que ele chorava,
― Porquê, então, você faz de conta? desamparado, doido-doído.
― Nunca eu lhe falei de minha falecida? ― É como agora: só choro quando o jardim já
Acenei que não. O velho me conta a história dormiu...
de sua mulher que morreu, em lentidão de so- Meu braço fala sobre o seu ombro. É adeus.
frimento. Doença pastosa, carcomedora. Ele Regresso de mim para um abandono maior.
todo o dia se empalhaçava frente a ela, fazia Atrás, fica Vlademiro, a avenida e um jardim
graças para espantar desgraças. A mulher ria, onde resta um banco. O último banco de jar-
quem sabe com pena da bondade do homem. dim.
[79] [82]

22
CONTOS DO NASCER DA TERRA

― Pela unha morre o lagarto!


Em tudo o resto era singelo e pardo como
O viúvo selo fiscal. Misantrôpego, fleumaníaco, com
vergonha até de pedir licenças, Jesuzinho as-
sistiu, de coração encolhido, à turbulenta che-
gada da História. A Independência despontou, a
bandeira da nação se cravou na alegria de mui-
tos e nos temores do caneco. Aterrado, ele se
sentou nas proletárias reuniões onde anuncia-
[83] [84] ram a operação para escangalhar o Estado. A si
mesmo se perguntava a justiça se faz por mão
de injustos? Impávido e longínquo, Jesuzinho
O arrepio nos mostra como a febre se pare- atendeu à sua despromoção, à mudança de
ce com o frio. E é com arrepio que lembro o go- gabinete. Todavia, o Oriente se limitava à apa-
ês Jesuzinho da Graça, nascido e decrescido rência. Por dentro, se assustava com os súbi-
em Goa, ainda em tempos de Portugal. Veio tos, os súbditos e os ditos da Revolução.
com a família para Moçambique nos meados da No silêncio da repartição ele ouvia as lou-
meninice. Como aos outros goeses lhe perjura- ças do mundo se estilhaçando. Entrava em ca-
vam de caneco. Ele a si mesmo se chamava de sa e o mesmo malvoroço o perseguia. Ainda
Indo-Português. Lusitano praticante, se desem- lograva pestanejar um sorriso quando os dis-
penhou até a Independência como chefe dos cursos anunciavam: a Vitória é Certa!. Tocava o
serviços funerários da Câmara Municipal. Seu ombro da mulher e dizia:
obscuro gabinete: a vida se poupava a ali en- ― Vê como você é certificada, Vitorinha?
trar. O goês era antecamarário da Morte? Só Se Jesuzinho era sombra, a esposa Vitória
uma graça ele se permitia. À saída do escritó- era crepúsculo dessa sombra. No terceiro ani-
rio, o funcionário se virava para os restantes e versário da Independência, no preciso momento
fatalmente repetia: em que clamavam os jargões revolucionários,
― Ram-ram! Vitória ficou certa para sempre. A goesa fechou
Há-de morrer nesse ramerrão, comentavam nos olhos o olhar. Sob a parede do crucifixo, o
os colegas. E reprovavam com a cabeça: o ca- funcionário a cobriu de lençol e rezas. Findava
neco não mata nem diz acta. Jesuzinho Graça ali a única família, o único mundo de Jesuzi-
se ria, no desentendimento. Ram-ram era a nho da Graça.
despedida em concanim, língua de seus ante- Nos seguintes meses, o viúvo manteve o
passados indianos. comportamento. Jesuzinho era como a formiga
Vivia nesse constante apagar-se de si, dis- que nunca descarreira ― única diferença: agora
creto como abraço da trepadeira. Para ele o se demorava entre o ali e o acolá. E com o de-
simples existir já era abusiva indiscrição. O morar da solidão ele foi entrando na bebida. O
caneco molhava o dedo no tempo e ia virando jovem empregado doméstico lhe perguntava a
as páginas, com método e sem ruído. A unha medo:
do mindinho se compridara tanto, que o dedo ― O senhor não tem parenteamento com
se tornara simples acessório. ninguém?
― A unha? É para virar a papelada, respon- Jesuzinho apontava a garrafa de aguarden-
dia ele. te. Aquele era o seu parente por via do pai. De-
Aquela unha era o mouse dos nossos actu- pois, se lembrava e apontava o crucifixo na pa-
ais computadores. O dito apêndice era motivo rede.
de zanga conjugal. A esposa o advertia: ― Essoutro, ali na parede, é via da mãe.
― Com essa garra você nem pense em me De improvável a vida é uma goteira pingan-
festejar! do ao avesso. Aos poucos, o goês deu sinais de
Jesuzinho da Graça resistia a todos os pro- maior desarranjo: as horas se perdiam dele.
testos: Funcionário do zelo, eterno cumpridor de regu-

23
Mia Couto

lamento, deixou de espremer o mata-borrão xe o homem, fuja disso. E foi desenrolando sa-
sobre os escritos de sua lavra. Saudades de um bedorias: quantos lados tem a terra para o ca-
tempo em que o mundo era dócil, autenticável maleão? Os mortos sabe-se lá para quem estão
em 25 linhas? olhando? O outro mundo é muitíssimo infinito:
Mas mesmo em suas inatitudes ele manti- não há falecido que não seja da nossa família.
nha aprumo. Terças-feiras era dia de bebedeira, E o miúdo regressou decidido a nunca mais
sua única combinação com o tempo. Ia para o se prestar a aparições. Terça-feira chegou e o
bar, transitava lentamente para dentro do copo, patrão, nessa noite, não saiu a rondar os bares.
espumava as agonias. Chegava tarde a casa, Parecia abatido, doente. Ficou deitado no sofá
desalinhado mas sempre cuidando do fato bran- da sala, olhando para muito nada. Chamou o
co. Se postava no canapé, acendia o cigarro ― empregadito e lhe pediu que se transvestisse de
que diria a falecida? ― e puxava o cinzeiro de pé Vitória. O miúdo nem respondeu. Surpreso,
alto, passando as mãos pelo ébano torneado. Jesuzinho ficou a papagaiar baixinho. E se
Trançava ainda o cabelo de Vitória? Depois, fa- passaram momentos. Até que o jovem serviçal
zia estalar a unha nas unhas e chamava: percebeu que o patrão chorava. Se debruçou
― Piquinino: ande dissepertar gravata. sobre ele e viu que ladainhava o mesmo de
O empregado acorria a lhe aliviar a gargan- sempre:
ta. Lhe despescoçava a camisa e entornava uns ― Vitorinha!
pós-de-talco sobre a camisola interior. Desfeito O empregado ficou estático. O patrão que
o nó e já ele estava disposto ao sono. Serviço do implorasse que ele não avançaria um pé. O ca-
moço era ficar vigiando o descanso do patrão. neco, afinal, estava bêbado. O hálito não deixa-
Aqueles sonos eram sobressalteados. Pas- va dúvidas. Mas como, se não lhe vira a beber?
sava uma frestinha de tempo e o caneco gritava Tivesse ou não emborcado, o certo é que ele
pela falecida. Sua mão trémula apanhava o te- transbordava babas e suspiros. Estava nesse
lefone, ligava para os céus. Era então que es- devaneio quando murmurou as mais estranhas
treava a mais nobre função de Piquinino: fingir- palavras: queria encontrar a esposa já devida-
se dela, imitar voz e suspiros da extinta. mente desunhado. Entregando o braço no colo
― Vucê qui está pagar chamada, Vitorinha. do empregado, implorou:
Aí, no céu, tudo sai mais barato. ― Me corte a unha, Piquinino!
O empregadito se esforçava em aflautinar a No dia seguinte, encontraram o empregado,
voz, copiando os esganiços de Vitorinha. Aca- imóvel junto à poltrona do patrão. O que o mo-
badas as conversas, o empregado copiava os ço falou foi para ninguém deitar crédito. O se-
modos da antiga senhora e brilhantinava os guinte: mal começou a cortar o rente da unha,
cabelos do patrão, acertando a risca em diago- o patrão se desvaneceu, como fumo de incenso.
nal no cabelo. E a unha está onde, pá? O miúdo debruçou-se
Todavia e à medida do tempo, o moço se foi sobre o soalho e levantou o que, por instante,
tomando de terrores. Ele se interrogava: imitar pareceu ser uma desflorida pétala. Sorriu, lem-
mortos? Brincar assim com espíritos só podia brando o patrão. E exibiu a derradeira extremi-
trazer castigo. Foi consultar o pai, pedir vanta- dade da sua humanidade.
gem de um conselho. O velhote concordou: dei- [85] [90]

24
CONTOS DO NASCER DA TERRA

afinal, pequeno? Ali ficou simulando pedra, sem


som nem tom. O pai pedia que ela voltasse, era
A menina sem palavra preciso regressarem, o mar subia em ameaça.
(Segunda estória para a Rita) ― Venha, minha filha!
Mas a miúda estava tão imóvel que nem se
dizia parada. Parecia a águia que nem sobe
nem desce: simplesmente, se perde do chão.
Toda a terra entra no olho da águia. E a retina
da ave se converte no mais vasto céu. O pai se
[91] [92] admirava, feito tonto: por que razão minha filha
me faz recordar a águia?
― Vamos filha! Caso senão as ondas nos
A menina não palavreava. Nenhuma vogal vão engolir.
lhe saía, seus lábios se ocupavam só em sons O pai rodopiava em seu redor, se culpando
que não somavam dois nem quatro. Era uma do estado da menina. Dançou, cantou, pulou.
língua só dela, um dialecto pessoal e intransmi- Tudo para a distrair. Depois, decidiu as vias do
xível? Por muito que se aplicassem, os pais não facto: meteu mãos nas axilas dela e puxou-a.
conseguiam percepção da menina. Quando lem- Mas peso tão toneloso jamais se viu. A miúda
brava as palavras ela esquecia o pensamento. ganhara raiz, afloração de rocha?
Quando construía o raciocínio perdia o idioma. Desistido e cansado, se sentou ao lado dela.
Não é que fosse muda. Falava em língua que Quem sabe cala, quem não sabe fica calado? O
nem há nesta actual humanidade. Havia quem mar enchia a noite de silêncios, as ondas pare-
pensasse que ela cantasse. Que se diga, sua voz ciam já se enrolar no peito assustado do ho-
era bela de encantar. Mesmo sem entender nada mem. Foi quando lhe ocorreu: sua filha só po-
as pessoas ficavam presas na entonação. E era dia ser salva por uma história! E logo ali lhe
tão tocante que havia sempre quem chorasse. inventou uma, assim:
Seu pai muito lhe dedicava afeição e aflição. Era uma vez uma menina que pediu ao pai
Uma noite lhe apertou as mãozinhas e implo- que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-
rou, certo que falava sozinho: se num barco e remou para longe. Quando che-
― Fala comigo, filha! gou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de
Os olhos dele deslizaram. A menina beijou a sonhos para alcançar as alturas. Segurou o as-
lágrima. Gostoseou aquela água salgada e disse: tro com as duas mãos, com mil cuidados. O
― Mar... planeta era leve como um balão.
O pai espantou-se de boca e orelha. Ela fa- Quando ele puxou para arrancar aquele
lara? Deu um pulo e sacudiu os ombros da fi- fruto do céu se escutou um rebentamundo. A
lha. Vês, tu falas, ela fala, ela fala! Gritava para lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar
que se ouvisse. Disse mar, ela disse mar, repe- se encrispou, o barco se afundou, engolido num
tia o pai pelos aposentos. Acorreram os familia- abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de
res e se debruçaram sobre ela. Mas mais ne- luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar
nhum som entendível se anunciou. ao contrário de todas as direcções, para lá e
O pai não se conformou. Pensou e repensou para além, recolhendo os pedaços lunares. O-
e elabolou um plano. Levou a filha para onde lhou o horizonte e chamou:
havia mar e mar depois do mar. Se havia sido a ― Pai!
única palavra que ela articulara em toda a sua Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de
vida seria, então, no mar que se descortinaria a nascença da própria terra. Dos lábios dessa cica-
razão da inabilidade. triz se derramava sangue. A água sangrava? O
A menina chegou àquela azulação e seu pei- sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.
to se definhou. Sentou-se na areia, joelhos inter- Chegado a este ponto, o pai perdeu voz e se
ferindo na paisagem. E lágrimas interferindo nos calou. A história tinha perdido fio e meada den-
joelhos. O mundo que ela pretendera infinito era, tro da sua cabeça. Ou seria o frio da água já

25
Mia Couto

cobrindo os pés dele, as pernas de sua filha? E ― Filha, venha para trás. Se atrase, filha,
ele, em desespero: por favor...
― Agora, é que nunca. Ao invés de recuar a menina se adentrou
A menina, nesse repente, se ergueu e avan- mais no mar. Depois, parou e passou a mão
çou por dentro das ondas. O pai a seguiu, te- pela água. A ferida líquida se fechou, instantâ-
medroso. Viu a filha apontar o mar. Então ele nea. E o mar se refez, um. A menina voltou a-
vislumbrou, em toda extensão do oceano, uma trás, pegou na mão do pai e o conduziu de ru-
fenda profunda. O pai se espantou com aquela mo a casa. No cimo, a lua se recompunha.
inesperada fractura, espelho fantástico da his- ― Viu, pai? Eu acabei a sua história!
tória que ele acabara de inventar. Um medo E os dois, iluaminados, se extinguiram no
fundo lhe estranhou as entranhas. Seria na- quarto de onde nunca haviam saído.
quele abismo que eles ambos se escoariam? [95] [96]

26
CONTOS DO NASCER DA TERRA

― Duas quê?
― Duas pernas, ora essa.
O derradeiro eclipse E prosseguiu divaguando, água em líquidos
carreiros. Justinho esperava que o sacerdote o
tranquilizasse. Lhe dissesse, por exemplo: vai
em paz, você está bem casado, mais anelado
que Saturno. Mas não, o padre ondulava a tes-
ta de suposições.
― Não sei, não. Quem mais espreita não é o
[97] [98] próprio sol?
― Explique-se melhor, senhor padre.
― Quer que seja mais claro? Me responda,
Justinho Salomão era ratazanado pela dú- então: onde o chão está mais limpo não é em
vida sem método. O homem sofria de ser mari- casa de mortos?
do, lhe pesavam as frias sombras da desconfi- Justinho não respondeu. Voltou costas e
ança. A mulher, Dona Acera, é linda de fazer saiu da igreja. Ainda se afastava e a voz irada
crescer bocas, águas e noites. Devorado pelo do padre se faz ouvir:
ciúme, Justinho emagrecia a pontos de tutano. ― Já sei para onde vais, criaturazita. Vais
Lastimagro, cancromido, ele para se enxergar ter com o feiticeiro! Mas verás o que os meus
precisava procurar-se por todo o espelho. Jus- poderes, aliás os poderes divinos, irão fazer com
tinho fazia comichão às pulgas. Um dia, o pa- esse bruxo tropical!
dre o avisou à saída da missa: Um arrepio ainda atravessou Justinho. Mas
― Seja prestável na atenção, Justinho: sua ele não toldou passo no caminho para o feiticei-
alma é como um fumo que não tem lugar onde ro e pediu que lhe assegurasse. Heresia bater
caiba. nos ambos lados da porta? Se um mortal tem
Raios picassem o padre que nunca falava mais que um deus-pai não pode ter mais que
direito. O que o sacerdote sabia era do domínio uma crença?
incomum: Acera era demasiado mulher para ― Isso não posso. Vontade de mulher está
esposa. Justinho suspeitava mais dos argu- acima dos meus poderes. Posso, sim, destinar
mentos que dos factos. Seria a esposa mais castigo nos abusadores.
desleal que um segredo? A resposta era sombra ― E como?
sem luz nem objecto. Em véspera de viagem, a ― Hei-de tratar sua casa.
suspeição do marido se agravava. Desta vez, E foi executado o tratamento: uma pequena
um longo serviço de visitações o vai obrigar a cabaça à entrada da residência de madeira e
geográfica ausência. Acera recebe, tristonha, a zinco. Desrespeitoso que entrasse haveria de
notícia: sofrer muitas consequências. O marido ainda
― Quanto tempo você me vai sozinhar? tem acanhamento na consciência:
Um mês. A mulher contorce o bóton, abana ― Eles... eles irão morrer?
as mechas. Até uma lágrima lhe crocodileja a O feiticeiro ri-se. O que iria suceder eram
pálpebra. O marido ainda mais se aflige perante inchaços e gases, tudo inflando as entranhas
tanto inconsolo. Será verdade ou conveniência do culposo intrometedor. No final dos serviços e
de fingimento? Quem, tão novo, guelra tão en- depois de saldadas as contas, o feiticeiro hesita
sanguentada, pode se aguentar em guardos de no momento da despedida:
fidelidade? Na véspera de partir, o marido se ― Você, antes de mim, consultou o senhor
decidiu certificar em garantia de lealdade. Pri- padre? E ele o que disse de mim?
meiro se dirigiu à Igreja e solicitou socorro do Justinho subiu as omoplatas, fosse um as-
padre português. O religioso torce as mãos, re- sunto superior a suas competências. O feiticei-
ticente e, como era hábito, barateou filosofia: ro virou costas e se afasta, enquanto comenta:
― Bem, não sei. Para cruzar as pernas é ― Esse padre ainda vai chorar como a gali-
preciso que haja duas... nha. Conhece a história da galinha que comeu o

27
Mia Couto

colar das miçangas só para a outra galinha não o seguir, doente que estava o viajante. Dava até
usar? azar ter um desvairado daqueles no lugar.
Passaram-se dias e Justinho lá partiu. A Mesmo o enfermeiro reformado lhe trouxe uns
viagem demora mais que ele pretende. Quando comprimidos de arrefecer o sangue. Justinho
regressa, a mulher está à espera dele, à entra- aceitou ficar estendido, a apurar descansos.
da. Vestido do gosto dele, penteada a presente, Dava forma à cabeça, ajustava o pensamento à
corpo todo na conveniência do marido. Até o existência.
botão cimeiro está desempregado, distraído so- E todos e tanto insistiram que ele deixou de
bre o decote. Acera, toda ela, está às ordens da ver gente suspensa no tecto. Aos poucos se li-
saudade dele. Se engalfinham, enredando per- bertou das visões, manufacturas de suas ciu-
nas nos suspiros, confundindo lábios e suores, meiras. Noites há em que, de sobressalto, se
vidas e corpos. levanta. Escuta risos. O padre e o feiticeiro se
Cumpridos os compridos amores Justinho divertem à sua custa? Escuta melhor: não é
se estira na cama, consolado. Fecha os olhos, gargalhada, é um pranto, um pedido de socor-
menino após o seio. Depois, olha para cima e é ro. Incapazes de descer, os homens aprisiona-
fulminado por uma visão: dois homens flutuam dos no tecto lhe pedem uma aguinha, migalha
de encontro ao tecto. Estão redondos, insufla- de entreter fome e sede. Os pobres já são só ar
dos como balões. e osso.
― Mulher quem é aquilo? A voz de Acera o traz à realidade: venha
― Que aquilo? marido, se deite. Se acalme. Não quer dormir
Levanta-se em gesto de lâmina e se espanta comigo? Durma em mim, então. Não me quer
ainda mais ao reconhecer os desditosos ditos. E atravessar? Me use de travesseiro. Isso, des-
quem eram? O padre e o feiticeiro. Esses mes- canse, meu amor. E o tempo passava, compon-
mos a que Justinho confiara a guarda de sua do semana e mais semana. Justinho não me-
esposa. Esses mesmos estavam ali persprega- lhora. Mais e mais escuta as lamentações dos
dos no tecto. dois que agonizam dentro das suas paredes.
― Vocês, logo vocês? Até que, uma noite, ele acordou estremu-
― Marido, está falar com quem? nhado. Não eram já os gemidos dos moribun-
Gaguejadiço o marido aponta o tecto. A mu- dos mas uma estrangeira acalmia. Olhou por
lher acredita que ele está em ataque de religio- entre o escuro e viu Acera vagueando, o pé pe-
sidade, aspirando proximidades com o céu. dindo licença ao silêncio. O marido nem se me-
Justinho insanou-se, epiléctrico? xeu, desejoso de decifrar a misteriosa deambu-
Acera ainda correu atrás do tresloucado lação da mulher. Então ele viu que Acera subia
marido. Mas o homem, de venta peluda, se e- para um banco e, com um cordel, amarrava o
clipsou pelo escuro. Nem demorou: voltou com padre e o feiticeiro pela cintura. E assim, ata-
testemunhas. Fez introduzir uns tantos no dos como balões, ela os transportou para fora
quarto e apontou os autores do flagrante. Os de casa. No quintal, Acera limpou no rosto do
outros ficaram, parvos da cara, sem nada vis- padre uma lágrima e beijou a face do feiticeiro.
lumbrarem. Só Justinho via os voáveis amantes Depois, largou os cordéis e os dois insufláveis
de sua mulher. E lhe explicam o padre e o feiti- começaram a subir pelos ares, atravessando
ceiro não são possíveis ali. Eles se ausentaram nuvens e extinguindo-se no céu e nas pupilas
em breve excursão à cidade. Todos os viram espantadas de Justinho Salomão.
partir, todos lhes acenaram à saída do ma- Nessa noite, os habitantes da vila assisti-
chimbombo. ram à lua se obscurecer naquilo que viria a ser
Os vizinhos lhe asseguram os bons compor- um derradeiro e permanente eclipse.
tamentos de Acera. Despedem-se, cuidando de [103] [104]

28
CONTOS DO NASCER DA TERRA

assegurá-la: tarde e de mais. Foi só tempo de


avistar a dentição triangulosa, língua amarela
A carteira de crocodilo no breu da boca. No resto, os testemunhadores
nem presenciaram. O sáurio se eminenciou a
olhos imprevistos.
E o governador, sob o peso da desgraça? O
homem ia de rota abatida. Lágrimas cataratea-
vam pelo rosto. O dirigente recebeu o desfile
das condolências. Vieram íntimos e ilustres. A
[105] [106] todos ele cumprimentou, reservado, invisivel-
mente emocionado. Os visitantes se juntaram
no nobre salão, aguardando palavras do diri-
A Senhora Dona Francisca Júlia Sacramen- gente. O governador avançou para o centro e
to, esposa do governador-geral, excelenciava-se anunciou não o luto mas, espantem-se cris-
pelos salões, em beneficentes chás e filantrópi- tãos, a inadiável condecoração do crocodilo. Em
cas canastras. Exibia a carteirinha que o mari- nome da protecção das espécies, explicou. A
do lhe trouxera das outras Áfricas, toda em bem da ecologia faunística, acrescentou.
substância de pele de crocodilo. As amigas se No princípio, houve relutâncias, demoras
raspavam de inveja, incapazes de disfarce. Até no entendimento. Mas logo os aplausos abafa-
a bílis lhes escorria pelos olhos. Motivadas pela ram as restantes palavras. O que sucedeu, en-
desfaçatez, elas comentavam: o bichonho, as- tão, foi o inacreditável. O governador Sacra-
sim tão desfolhado, não teria sofrido imensa- mento suspendeu a palavra e espreitou o chão
mente? Tal dermificina não seria contra os ca- que o sustinha. Pedindo urgentes desculpas ele
tólicos mandamentos? se sentou no estrado e se apressou a tirar os
― E com o problema das insolações, o bicho, sapatos. Entre a audiência ainda alguém vati-
assim esburacado, apanhando em cheio os ul- cinou:
travioletas... ― Vai ver que os sapatos se convertem em
― Cale-se, Clementina. cobra...
Mas o governador Sacramento também se ― Clementina!
havia contemplado a ele mesmo. Adquirira um Sucedeu exactamente o inverso. O ilustre
par de sapatos feitos com pele de cobra. O casal nem teve tempo de desapertar os atacadores.
calçava do reino animal, feitos pássaros que Perante um espanto ainda mais geral que o tí-
têm os pés cobertos de escamas. Certo dia, tulo do governador, se viu o honroso indignitá-
uma das nobres damas trouxe a catastrágica rio a converter-se em serpente. Começou pela
novidade. O governador-geral contraíra grave e língua, afilada e bífida, em rápidas excursões
irremediável viuvez. A esposa, coitada, fora co- da boca. Depois, se lhe extinguiram os quase
mida inteira, incluído corpo, sapatos, colares e totais membros, o homem, todo ele, um tronco
outros anexos. em flor. Caiu desamparado no mármore do pa-
― Foi comida mas... pelo mando, supõe-se? lácio e ainda se ouviu seu grito:
― Cale-se, Clementina. ― Ajudem-me!
Mas qual marido? Tinha sido o crocodilo, o Ninguém, porém, avivou músculo que fos-
monstruoso carnibal. Que horror, com aqueles se. Porque, logo e ali, o mutante mutilado, em
dentes capazes de arrepiar tubarões. total mutismo, se começou a enredar pelo su-
― Um crocodilo no Palácio? porte do microfone. Enquanto serpenteava pelo
― Clemente-se, Clementina. ferro ele se desnudava, libertadas as vestes co-
O monstro de onde surgira? Imagine-se, ti- mo se foram uma desempregada pele. O gover-
nha emergido da carteira, transfigurado, reen- nador finalizava elegâncias de cobra. O ofídio se
carnado, assombrado. Acontecera em instantâ- manteve hasteado no microfone, depois largou-
neo momento: a malograda ia tirar algo da mala se. Quando se aguardava que se desmoronasse,
e sentiu que ela se movia, esquiviva. Tentou afinal, o governador encobrado desatou a cami-

29
Mia Couto

nhar. Porque de humano lhe restavam apenas ― Não aplauda, Clementina, por amor de
os pés, esses mesmos que ele cobrira de orna- Deus!
mento serpentífero. [109] [110]

30
CONTOS DO NASCER DA TERRA

nunca, esse pressentimento de que alguém me


viria buscar. Fiquei a noite às claras, meus ou-
Falas do velho tuga vidos esgravatando no vão escuro. E nada, ou-
tra vez nada. Quando penso nisso um mal-
estar me atravessa. Sinto frio mas sei que es-
tamos no pico do Verão. Tremuras e arrepios
me sacodem. Me recordo da doença que me
pegou mal cheguei a este continente.
África: comecei a vê-la através da febre. Foi
[109] [110] há muitos anos, num hospital da pequena vila,
mal eu tinha chegado. Eu era já um funcionário
de carreira, homem feito e preenchido. Estava
Quer que eu lhe fale de mim, quer saber de preparado para os ossos do ofício mas não es-
um velho asilado que nem sequer é capaz de se tava habilitado às intempéries do clima. Os a-
mexer da cama? Sobre mim sou o menos indi- cessos da malária me sacudiam na cama do
cado para falar. E sabe porquê? Porque estra- hospital apenas uma semana após ter desem-
nhas névoas me afastaram de mim. E agora, barcado. As tremuras me faziam estranho efei-
que estou no final de mim, não recordo ter to: eu me separava de mim como duas placas
nunca vivido. que se descolam à força de serem abanadas.
Estou deitado neste mesmo leito há cinco Em minha cabeça, se formavam duas me-
anos. As paredes em volta parecem já forrar a mórias. Uma, mais antiga, se passeava em obs-
minha inteira alma. Já nem distingo corpo do cura zona, olhando os mortos, suas faces frias.
colchão. Ambos têm o mesmo cheiro, a mesma A outra parte era nascente, reluzcente, em es-
cor: o cheiro e cor da morte. Morrer, para mim, treia de mim. Graças à mais antiga das doen-
sempre foi o grande acontecimento, a surpresa ças, em dia que não sei precisar, tremendo de
súbita. Afinal, não me coube tal destino. Vou suores, eu dava à luz um outro ser, nascido de
falecendo nesta grande mentira que é a imobili- mim.
dade. Fiquei ali, na enfermaria penumbrosa, in-
Também eu amei uma mulher. Foi há tem- termináveis dias. Uma estranha tosse me sufo-
po distante. Nessa altura, eu receava o amor. cava. Da janela me chegavam os brilhos da vi-
Não sei se temia a palavra ou o sentimento. Se da, os cantos dos infinitos pássaros. Estar do-
o sentimento me parecia insuficiente, a palavra ente num lugar tão cheio de vida me doía mais
soava a demasiado. Eu a desejava, sim, ela in- que a própria doença.
teira, sexo e anjo, menina e mulher. Mas tudo Foi então que eu vi a moça. Branca era a
isso foi noutro tempo, ela era ainda de tenrinha bata em contraste com a pele escura: aquela
idade. visão me despertava apetites no olhar. Ela se
Este lugar é a pior das condenações. Já chamava Custódia. Era esta mesma Custódia
nem as minhas lembranças me acompanham. que hoje está connosco. Na altura, ela não era
Quando eu chamo por elas me ocorrem peda- mais que uma menina, recém-saída da escola.
ços rasgados, cacos desencontrados. Eu quero Eu não podia adivinhar que essa mulher tão
a paz de pertencer a um só lugar, a tranquili- jovem e tão bela me fosse acompanhar até ao
dade de não dividir memórias. Ser todo de uma final dos meus dias. Foi a minha enfermeira
vida. E assim ter a certeza que morro de uma naqueles penosos dias. A primeira mulher ne-
só única vez. Mas não: mesmo para morrer so- gra que me tocava era uma criatura meiga,
fro de incompetências. Eu deveria ser generoso seus braços estendiam uma ponte que vencia
a ponto de me suicidar. Sem chamar morte os mais escuros abismos.
nem violentar o tempo. Simplesmente deixar- Todas as tardes ela vinha pelo corredor, os
mos a alma escapar por uma fresta. botões do uniforme desapertados, não era a
Ainda há dias um desses rasgões me ocor- roupa que se desabotoava, era a mulher que se
reu por dentro. É que me surgiu, mais forte que entreabria. Ou será que por não ver mulher há

31
Mia Couto

tanto tempo eu perdera critério e até uma negra como se subisse por uma fresta de luminosida-
me porventurava? Me admirava a secura da- de. Aquela luz fugidia me pareceu, primeiro, o
quela pele, o gesto cheio de sossegos, educado pleno dia.
para maternidades. Enquanto rodava pelo meu Mas depois senti o fumo dessa ilusão. O ca-
leito eu tocava em seu corpo. Nunca acariciara lor me confirmou: estava frente a uma fogueira.
tais carnes: polposas mas duras, sem réstia de O calor da cozinha da minha infância me che-
nenhum excesso. gou. Escutei o roçar de longas saias, mulheres
Os dias passavam, as maleitas se sucedi- mexendo em panelas. Saí da lembrança, dei
am. Até que, numa tarde, me assaltou um vazio conta de mim: estava nu, completamente des-
como se não houvesse mundo. Ali estava eu, na pido, deitado em plena areia.
despedida de ninguém. Olhei a janela: um pás- ― Custódia!, chamei.
saro, pousado no parapeito, recortava o poente. Mas ela não estava. Somente dois homens
Foi nesse pôr do Sol que Custódia, a enfermei- negros baixavam os olhos em mim. Me deu ver-
ra, se aproximou. Senti seus passos, eram pas- gonha ver-me assim, descascado, alma e corpo
sadas delicadas, de quem sabe do chão por an- despejados no chão. Malditos pretos, se prepa-
dar sempre descalço. ravam para me degolar? Um deles tinha uma
― Eu tenho um remédio, disse Custódia. É lamina. Vi como se agachava, o brilho da lami-
um medicamento que usamos na nossa raça. O na me sacudiu. Gritei: aquela era a minha voz?
Senhor Fernandes quer ser tratado dessa ma- Me queriam matar, eu estava ali entregue às
neira? puras selvajarias, candidato a ser esquartejado,
― Quero. sem dó na piedade. Me desisti, desvalente, des-
― Então, hoje de noite lhe venho buscar. valido. De nada lucrava recusar os intentos do
E saiu, se apagando na penumbra do cor- negro. O homem cortou-me, sim. Mas não pas-
redor. Como em caixilho de sombra a sua figu- sou de uma pequena incisão no peito. Sangrei,
ra se afastava, imóvel como um retrato. Na ja- fiquei a ver o sangue escorrer, lento como um
nela, o pássaro deixou de se poder ver. Ador- rio receoso.
meci, doído das costas, a doença já tinha apri- Um dos homens falou em língua que eu
sionado todo meu corpo. Acordei com um so- desconhecia, seus modos eram de ensonar a
bressalto. Custódia me vestia uma bata branca, noite, a voz parecia a mão de Custódia quando
bastante hospitalar. ela me empurrava para o sonho. Voltei a deitar-
― Onde vamos? me. Só então reparei que havia uma lata con-
― Vamos. tendo um líquido amarelado. Com esse líquido
E fui, sem mais pergunta, tropeçando pelo me pintavam, em besuntação danada. Depois,
corredor. Dali parei a tomar fôlego e, encostado me ajeitaram o pescoço para me fazerem beber
na umbreira da porta, olhei o leito onde lutara um amargo licor. Choravam, pareceu-me de iní-
contra a morte. De repente, estranhas visões cio. Mas não: cantavam em surdina. Dores de
me sobressaltaram: deitado, embrulhado nos morrer me puxavam as vísceras. Vomitei, vomi-
lençóis, estava eu, desorbitado. Meus olhos es- tei tanto que parecia estar-me a atirar fora de
tavam sendo comidos pelo mesmo pássaro que mim, me desfazendo em babas e azedos. Cansa-
atravessara o poente. Gritei Custódia, quem do, sem fôlego nem para arfar, me apaguei.
está na minha cama? Ela espreitou e riu-se: No outro dia, acordei, sem estremunhações.
― É das febres, ninguém está lá. Estava de novo no hospital, vestido de meu re-
Fui saindo, torteando o passo. Afastámo- gulamentar pijama. Qualquer coisa acontecera?
nos do hospital, entramos pelos trilhos campes- Eu tinha saído em deambulação de magias, ri-
tres. Naquele tempo, as palhotas dos negros tuais africanos? Nada parecia. Verdade era que
ficavam longe das povoações. Caminhava em eu me sentia bem, pela primeira vez me chega-
pleno despenhadeiro, o pequeno trilho resvala- vam as forças. Me levantei como uma toupeira
va as infernais e desluzidas profundezas. Me saída da pesada tampa do escuro. Primeira coi-
perdi das vistas, mais tombado que amparado sa: fui à janela. A luz me cegou. Podia haver tan-
nesse doce corpo de Custódia. Voltei a acordar tas cores, assim tão vivas e quentes?

32
CONTOS DO NASCER DA TERRA

Foi então que eu vi as árvores, enormes procurar a minha família. É que sabe: eu só
sentinelas da terra. Nesse momento aprendi a posso sair daqui pela mão deles. Senão, que
espreitar as árvores. São os únicos monumen- lugar terei lá no mundo? Traga-me um qual-
tos em África, os testemunhos da antiguidade. quer parente. Quem sabe, depois disso, fica-
Me diga uma coisa: lá fora ainda existem? Per- mos mesmo amigos. Você sabe como eu con-
gunto sobre as árvores. firmo que estou ficando velho? É da maneira
Quer saber mais? Agora estou cansado. que não faço mais amigos. Aqueles de que me
Tenho que respirar muito. Há tanto tempo que lembro são os que eu fiz quando era novo. A
eu não falava assim, às horas de tempo. Não idade nos vai minguando, já não fazemos no-
vá ainda, espere. Vamos fazer uma combina- vas amizades. Da próxima vez venha com um
ção: você divulga estas minhas palavras lá no parente. Ou faça mesmo o senhor de conta que
jornal de Portugal ― como é que se chama é meu familiar.
mesmo o tal jornal? ― e depois me ajuda a [119] [120]

33
Mia Couto

― Esses se inflamam no crepúsculo: são os


inflamingos.
Governados pelos mortos ― E outras aves da região. Pode falar delas?
(Fala com um descamponês) ― Antes de haver deserto, a avestruz pousa-
va em árvore, voava de galho em flor. Se chama-
va de arvorestruz. Agora, há nomes que eu acho
que estão desencostados...
― Por exemplo?
― Caso do beija-flor. É um nome que deveria
[121] [122] ser consertado. A flor é que levaria o título de bei-
ja-pássaros.
― Mas outros animais não há?
― Estamos aqui sentados debaixo da árvore ― A bichagem vai acabando. O mabeco, dito o
sagrada da sua família. Pode-me dizer qual o cão-selvagem, vai sofrendo as humanas selvaja-
nome dessa árvore? rias. Antes de acabar a lição, ele já terá aprendi-
― Porquê? do a não existir.
― Porque gosto de conhecer os nomes das ár- ― Parece desiludido com os homens.
vores. ― O vaticínio da toupeira é que tem razão: um
― O senhor devia saber era o nome que a ár- dia, os restantes bichos lhe farão companhia em
vore lhe dá a si. suas subterraneidades. Eu acredito é na sabedoria
― Depois de tanta guerra: como vos sobrevi- do que não existe. Afinal, nem tudo que luz é be-
veu a esperança? souro. É o caso do pirilampo. Pirilampo morre? Ou
― Mastigámo-la. Foi da fome. Veja os pássa- funde? Suas réstias mortais aumentam o escuro.
ros: foram comidos pela paisagem. ― Tanta certeza na bicharada...
― E o que aconteceu com as casas? ― Você não olhou bem esse mundo de cá. Já
― As casas foram fumadas pela terra. Falta viu pássaro canhoto? Camaleão vesgo? Papagaio
de tabaco, falta de suruma. Agora só me entris- gago?
tonho de lembrança prematura. A memória do ― Acredita em ensinamento de bichos?
cajueiro me faz crescer cheiros nos olhos. ― Todo o caranguejo é um engenheiro de bu-
― Como interpreta tanta sofrência? racos. Ele sabe tudo de nada. Há outros, demais.
― Maldição. Muita e muito má maldição. Fal- O mais idoso é o escaravelhinho. Mas, de todos,
tava só a cobra ser canhota. quem anda sempre de janela é o cágado.
― E porquê? ― Você não sofre de um certo isolamento?
― Não aceitamos a mandança dos mortos. ― Sou homem abastecido de solidões. Uns
Mas são eles que nos governam. me chamam de bicho-do-mato. Em vez de me di-
― E eles se zangaram? minuir eu me incho com tal distinção. Como ante-
― Os mortos perderam acesso a Deus. Porque disse: a gente aprende do bicho a não desperdi-
eles mesmos se tornaram deuses. E têm medo de çar. Como a vespa que do cuspe faz a casa.
admitir isso. Querem voltar a ser vivos. Só para ― Mas a sua mulher não lhe faz companhia?
poderem pedir a alguém. ― Ela é minha patrã. De vez em quando a
― E estes campos, tradicionalmente vossos, gente dedilha uma conversa. É uma acompanhia,
foram-vos retirados? faz conta uma estação das chuvas. Mas a tradi-
― Foram. Nós só ficámos com o descampado. ção nos manda: com mulher a gente não pode
― E agora? intimizar. Caso senão acabamos enfeitiçados.
― Agora somos descamponeses. ― Uma última mensagem.
― E bichos, ainda há aqui bichos? ― Não sei. Feliz é a vaca que não pressente
― Agora, aqui só há inorganismos. Só mais que, um dia, vai ser sapato. Mais feliz é ainda o
lá, no mato, é que ainda abundam. sapato que trabalha deitado na terra. Tão rastei-
― Nós ainda ontem vimos flamingos... ro que nem dá conta quando morre.
[123] [126]

34
mulheres nos encanta a concha, noutras o
mar. Sarifa se tinha desmulherado, ela retirara
O indiano dos ovos de ouro o gosto do gesto. Agora, nem concha, nem mar.
Lhe peço, enfim, que fale de Abdalah. Ago-
ra, até seus olhos se vazam, negras espirais se
enrolando em búzios. Mas a lembrança lá veio,
chegada em vozícula quase insonora. Afinal, o
namoro correra às maravilhas. O amor é como
a vida: começa antes de ter iniciado. Mas o que
[127] [128] é bom tem pressa de terminar. Sombra eterna
só dentro do caracol. A moça era conflituosa,
uma escaramoça? Nem por isso, ela tinha
― Lá vem Abdalah, o monhé da Muchatazi- grandes habilidades de silêncio. O nó gordo
na. estava nele, o Abdalah.
Sabia-se que era ele, o próprio, pelo tilintar ― Mas porquê, Sarifa? Qual o motivo dele se
que saía do cuecão dele. Diziam que o gajo ti- desmotivar?
nha ouro dentro dos tomates. Me desculpem a Ela corrigiu uma lágrima no convexo da
descortesia da palavra. Dizem, quem pode ju- mão. O indiano batia-lhe? Lombava-a? Não,
rar? Os boatos viajam à velocidade do escuro. pelo menos não aparentava violências. Homem
Façamos o gosto à voz: aceitemos que o monho que morde não ladra? O senhor é capaz de en-
tinha a tomatada recheada. Suponhamos que costar sofrimento em mulher?
os ditos dele pesavam uns quilates. Se acredito, ― Vou perguntar de novos modos: o senhor
eu? Sei lá. Minha crença é um pássaro. Sou já amou uma mulher, com paixão de verdade e
crente só em chuva que cai e esvai sem deixar jura?
prova. Não me saiu nenhuma voz. Eu vinha ali
Aceitei assim perseguir essa estória do Ab- despachar pergunta. Posto perante o espelho de
dalah. Sou metido em alheiação, gosto do dito e uma interrogação me sentia como o lagarto que
do não dito. Me deram o caso para que lhe des- acha que os outros bichos é que são animais.
vendasse os acasos. Cada crime mortífero es- Já à saída ainda escutei:
conde quantas vidas? ― Foi tudo por causa do dinheiro.
Sempre que há sangue as versões correm, Desfiz um passo atrás. Mas ela não voltou a
em inventanias. O povo fabricou as mais múlti- falar. Lavava as chávenas com espantável lenti-
plas explicações. O monhé, sabendo da revolu- dão. Suas mãos acariciavam o vidro por onde
ção, tinha transferido sua riqueza para os ór- eu havia bebido. Senti como se ela me tocasse
gãos. Melhor banco que aquele? Outra versão: os lábios e me retirei nesse embalo de ilusão.
tinha sido feitiço. Suspeitas maiores inclinavam Me dirigi para casa, sem vontade de cami-
em Sarifa Daúdo. Ela, com certeza. Mulher es- nho. Demorei em coisas nenhumas.
tranha, fechada em duas paredes, ela era ori- Nisto, uma estrelícia, simples flor, me de-
gem da desformidade do indiano. flagra os olhos. O vendedor me cativa a aten-
Me aconselharam começar por Sarifa, com ção, agitando a crista laranja da flor. Comprar?
quem o fulano tinha estreado amores. Sarifa Para quê, para quem? Mas, sem saber, inexpli-
era sua primeira prima, a quem ele deitou olho cável, eu desbolso dinheiros. As mãos se ridicu-
de mel. Dizem que primeiro namorisco vem larizam com a intransitiva flor. Chego a casa e
sempre de primo e prima. Também eu rimei a flor se extravaganta ainda mais. Nunca eu
com elas, também as primas me deram prima- tinha encenado flor em jarra.
zias. Sentado, frente a uma cerveja deixo entrar
Me endereço a casa da moça. Continua sol- em mim a voz: preciso é de mulher. Necessito
teira, é uma dor ver tal beleza sem prova nem de um acontecimento de nascência, uma luci-
proveito. Acompanho seus magros gestos, ser- nação. Careço de um lugar para esperar, sem
vindo o chá com que me anfitriou. Em certas tempo, sem mim. Devia haver um feminino pa-

35
Mia Couto

ra ombro. Porque ombra era o nome único que bre os dinheiros. O indiano bateu, rebateu. Sa-
merecia o encosto daquela mulher. rifa ficou estendida. Vaziando sangue. Quem a
Manhã seguinte, regressei a casa de Sarifa apanhou no chão foi o tio Banzé, homem dado
movido não sei se por gosto de a rever se por a espiritações. Refez a sobrinha, passou-lhe
obrigação de profissão. A mulher nem levantou uma demão nas mazelas e correu a engasganar
cabeça: assim, olhos no chão me revelou sobre o indiano. Você foi longe e de mais, meu velho.
Abdalah. O homem só fazia amor, depois de Você mistura amor e cifrão? Lhe espetou o in-
espalhar por debaixo dos lençóis uma matilha dicador na costela e ameaçou:
de notas. Às vezes, eram meticais, outras ran- ― Pois eu lhe vou seguir os sonhos a ver o
des. Só lhe vinham as quenturas quando, pre- que vai sair deles!
viamente, cumpria este ritual. Se deitava de O desafio era o seguinte: tio Banzé iria visi-
costas, as mãos a acariciar o lençol, os olhos tar os próximos sonhos do indiano, nas dez se-
cifrando-se no infinito. Sarifa ficava com sen- guintes noites. Caso dinheiro somasse mais
timento de que ela não existia. Com a desvalo- que mulher então uma maldição recairia sobre
rização da moeda o ardor dele variava. Às ve- Abdalah.
zes, demorava a ser homem, másculo e maiús- ― De Abdalah te transformo em abadalado!
culo. Não chegou a haver dez noites. Na sétima já
Uma noite, porém, não conseguiu. Come- o indiano sofria de um peso extra no baixo do
çou-se a enervar. Levantou os lençóis, inspec- ventre. O homem nunca mais visitou Sarifa,
cionou as notas. Lhe nasceu, então, a lancinan- nunca mais amou nenhuma mulher. E agora,
te suspeita: as notas eram falsas. Alguém havia que ele perdeu acesso a namoros, seus sonhos
retirado as verdadeiras para, em seu lugar, es- se destinam unicamente em mulheres. O ouro
palhar imitações. lhe entrou nos ditos, a mulher lhe saiu dos de-
― Sarifa, foi você? vaneios. A punição do sonho é aquela que mais
A prima, ao princípio, nem entendeu. Um dói. Pergunte-se a Abdalah, o indiano dos ovos
murro carregado de raiva lhe enegreceu as vis- de ouro.
tas e aclarou o pensamento: havia suspeita so- [129] [134]

36
CONTOS DO NASCER DA TERRA

tosa, Nadinha espreitou o baralho: as cartas


exibiam fotografias de mulheres nuas. A mu-
O baralho erótico lher acenou em reprovação:
― Que vergonha, parece nem tem esposa,
você!
― Que vergonha o quê! Tomara se você ul-
trapassar os calcanhares de qualquer destas.
― Sabe o quê? Sinto pena mas não de mim.
― Acabou-se, mulher. Esta noite não quero
[135] [136] barulheiras!
Mas ela, entre panelas e panos, se estriden-
tou, numa quinquilhação de rasgar orelha. Fu-
Em sua maior parte, o matrimónio é um la Fulano nem avisou: assentou logo uns tantos
maltrimónio. Os dois pensando somar, afinal, e quantos sopapos na mulher. Como que ela
se traem e subtraem. Era o caso de Fula Fula- caiu, ficou. Toda em silêncio, lhe escapavam
no mais sua respectiva Dona Nadinha. O ho- lágrimas e sangues. Os líquidos eram rios que
mem era um vidabundo, formado nas malan- caminhavam junto. Logo o marido percebeu:
dragens. A mulher era muda durante o dia. ela só deixaria de sangrar se parasse de chorar.
Mesmo que pretendesse não lhe saía palavra. Em acesso de pena, ele lhe pediu:
Só de noite ela falava. No resto, se arredava, ― Se deixar de chorar eu prometo... prometo
imóvel de fazer inveja às plantas. Se sentava a que nem nunca mais vou sair para jogar!
desfolhar fotos e postais. Ela lhe olhou, sem crédito. Seu olhar era ir-
Nadinha vivia por fotografia, sonhava por real, faz conta seus olhos figurassem no morti-
interposição de imagens recortadas em revistas. ço papel de revista.
Coleccionava retratos, cromos, postais. Ficava ― Eu juro, Nadinha. Pare de chorar que vou
horas contemplando as figurinhas. Assim, ela ficar aqui todas as noites, a lhe fazer um bocadi-
se desconhecia, desaparecendo de si mesma, to de acompanhia.
invisibilizando a vida. De noite é que ela pegava Na seguinte noite, ele ficou. Mandou recado
o trabalho, desfiava horas de canseira. Em cada aos companheiros das jogatanas a dizer que não
intervalo, mínimo que fosse, ela sacava da co- ia, estava indisposto. Mesmo sendo noite, Nadi-
lecção das fotografias e se sentava. Se enamo- nha rodopiou sem falar. Posto perante o silêncio
rava das mulheres das capas, que lindas, nem dela, o homem ficou num canto a desfolhar as
transpiram, nem enrugam com os tempos. revistas que ela tanto estimava. De quando em
― Não existe uma foto em que saia o mundo? enquanto, soltava risadas, se esmilhofrava da
“Existe, existe”, anuía o marido em sono. mulher. Era aquilo que tanto derretia o coração
“Coitada, a mulher. Devia ser que apanhou de dela? Ainda fosse mulheronas dessas de arre-
mais, tenho que abrandar a socar. Eu lhe bato bentar botões. Falou só, até que se fartou.
não é desamor, é só porque você é uma criança, ― Não quer falar-me, mulher?
entende Nadinha? Está ouvir, Nadinha?” Ela Ela respondeu, em vago tom, estranhas pa-
não entendia, parvinha que era, olho pregado lavras. Que sim, mas ela queria era conversar
nas fotos. Ou será que esperava a noite para com a mulher que estava dentro dele. Assim
emitir resposta? Mas ele, de noite, não estava. que falou, apanhou logo uma chapada.
Saía, remeloso, pelas barracas, se atestando de ― E nem pense em chorar! Pois que, da últi-
tontonto até se apoisar em mesa de jogo e bater ma vez, com essa porcaria de sangue e ranhos
cartas. você quase me estragava o baralho das gajas
Certa madrugada regressou afadigado das descascadas!
jogatanas, acumulado de azares e dívida. Raio E foi um relampejamento. Rápido, o homem
das cartas, raio da vida! Ficou remexendo as deitou a promessa para as traseiras. O prome-
cartas, como se repreendesse os dedos de não tido não é de vidro? E, logo-logo, se fez à rua
terem sabido extrair vitórias e ganhos. Desgos- para recuperar o quanto da noite já perdera.

37
Mia Couto

Ainda por cima, ele tanto reclamara vingança ― Eu quero ver essa carta.
sobre o que perdera. Essa noite, os cabrões ha- O outro, com voz de funeral, diz:
viam de ver. Azar no amor, sorte aonde? ― É melhor não, você.
Chega à barraca, se senta em firme silêncio. Saltando sobre o tampo, Fulano arranca a
Os jogadeiros estranham seus modos bruscos. carta. Seu juízo deu o salto mortal, todo despe-
Fula Fulano baralha as cartas disposto, como ele nhado naquela visão. Quem era a gaja? Nadi-
proclama, a enrabar valetes e descuecar damas. nha! Sim, Nadinha, sua esposa, toda cascadi-
Com os nervos, lhe tomba uma carta. Um que nha, como o mundo lhe recebeu. Fula Fulano
apanha a carta e se espanta. Nem querendo a- desejou o buraco final.
creditar, passa a carta aos restantes. Cochicham. Saiu, de espuma e raiva. Foi direito a casa,
Os amigos passam a fotografia de mão para mão, mãos nos bolsos com tais fúrias que estrilhaça-
gozando e rindo. Até que um deles guarda a carta va o baralho. Chegou a casa, demorou-se um
e todos se arrumam sérios e graves. Fula Fulano, momento na porta. Sacou da carta onde a Na-
estranhando os modos, pergunta. dinha se descamava em carnes. Lhe subiu uma
― Não é nada, Fula. É só uma dessas gajas fervura, sangue adentro, irrompeu pela casa e
que aparece nas costas das cartas. se dirigiu, certeiro, para o leito onde a mulher
― Mostra! dormia. E desatou a beijá-la com paixão que
― Deixa lá esta merda. Continua a baralhar, nunca tanto dele emergira.
Fula. [141] [142]

38
CONTOS DO NASCER DA TERRA

O cansaço é um modo do corpo ensinar a


cabeça. Assim dizia Tiane. Que havia sentidos
A casa marinha que só o cansaço despertava. Sono e fadiga:
mãos que nos abrem janelas para o mundo.
Fosse por esse cansaço que ele encontrava na
praia aquilo que ninguém mais ousava. Certa
vez, quebrei o peito e lhe atirei a pergunta:
― Mas procuramos o quê, vovô Tiane?
― Isto.
[143] [144] E atirou-me um pedaço de madeira. Era
um pau a modos que nunca vira: acertados os
cantos com as arestas, corrigidos os redondos
“O que o homem tem do pássaro é inveja. da madeira e as asperezas da casca. Me admi-
Saudade é o que o peixe sente da nuvem”. rei: em que terra cresciam árvores desse forma-
Eram falas de Tiane Kumadzi, o velho que to, tão gostosas de alisar o dedo?
vivia fora do juízo, apartado da gente, longe da ― Mas o que é isto avô?
aldeia. Eu seguia-o enquanto ele desperdiçava ― Procuras-me mais istos e te deixo espreitar
pegadas na areia da praia. Meus pais muito me na minha casa.
proibiam aquelas divagabundagens. Não fiz segunda coisa nos dias seguintes.
― Esse tipo não regulamenta bem. Você está Enquanto restasse fiapo de claridade eu afadi-
proibido. gava os olhos a farejar mais estranhos objectos.
Que ele era o indevido indivíduo. E soma- Fazia o que ele me recomendava: me cansava
vam-me: esse tipo anda a apanhar as lenhas de pelas dunas, à procura da sapiência da fadiga.
uma grande desgraça. Pois o futuro o que é? Se Ao fim do dia, meus pés escamavam de tan-
nem temos palavra na nossa materna língua to aguarem. Meus braços se contentavam ao
para nomear o porvir. O futuro, meu filho, é um peso de tantas madeirinhas. O velho Kumadzi
país que não se pode visitar. juntava-as no seu quintal, no mesmo lugar on-
Mas eu não resistia a seguir os passos mo- de, nas casas dos outros, se empilhava a lenha.
lhados de Kumadzi quando ele, manhãs cedi- Pela noite, o velho se dedicava a dar sentido
nho, procurava sinais do além-mundo. Aconte- àquele desordenado monte. Estudava cada um
cia na subluminosidade quando o sol nos dei- dos paus. Ajustando os encaixes, entrância na
tava em sombras sobre as ondas. reentrância, foi construindo um barco cheio de
O desremediado velho se dezembrava assim, dimensões.
para cá e para diante, todo concurvado enquan- Os pescadores se espantaram ― um barco?
to pronunciava indecifráveis rezas. Me divertia Aquilo mais parecia era uma casa. E se chega-
aquele renhenhar dele, cabeça abaixo dos om- ram, espetando no sossego do velho o gume da
bros, remexendo algas, conchas e troncos trazi- curiosidade:
dos pelo mar de longínquas tempestades. ― Quem lhe ensinou a fazer uma coisa que
Eu o seguia calado, morto por saber os en- não existe?
fins daquela busca. Me apetecia aquela compa- Kumadzi encolheu os ombros. Ele não sa-
nhia como se Tiane fosse mais menino que eu, bia mas o adivinho já pressentia. Aquilo era
parceiro de minha meninagem. casa que anda na água, obra de homens- peixe,
― Quantos anos tenho? Sou igual como vo- gente de aspecto nunca visto. E o adivinho jun-
cê... tava terríveis premonições: vinham aí tempos
E dizia: uma criança é um homem que se de cinza e fogo.
dá licença de voar. Às vezes me mandava cor- ― É melhor que esses nunca venham, é me-
rer, passar o sem-fim da praia. Que eu devia lhor que nunca cheguem.
voltar sem nenhum fôlego. E somou sentença: era urgente matar a vi-
― Ganhe vantagem do cansaço, filho. Há agem dos forasteiros. E logo ali se executou
uma sabedoria do cansaço. mandança: nessa noite se deitaria fogo na fo-

39
Mia Couto

rasteira construção. Todos saíram. Fiquei ape- Na manhã seguinte, o braço do velho Tiane
nas eu dando encosto à solidão do velho. Pas- me acordou. Primeira coisa que vi foi o barco.
saram-se densos silêncios até que Tiane Ku- Esse mesmo que ardera horas prévias. Mas ali
madzi me pediu que o ajudasse a empurrar o estava ele, intacto, com todo o formato. Algu-
barco até à água. Nem beliscámos centímetro. mas chamuscadelas, mais nada. O velho ante-
O navio estava mais encalhado que árvore. cedeu minha pergunta:
Kumadzi desofegou: ― Não chegou de arder, a madeira estava
― Tu, miúdo, meta-se no barco! molhada.
Apontei para mim, em espanto. Eu? O ve- Nas mãos tinha um naco de madeira meio
lho confirmou: eu devia era navegar, sair por ardida. Esfarelou a cinza, misturou a areia. E
esses mares para ir ter com os esses que che- acrescentou:
gavam. E completou: ― Esse barco estava cheio de mar!
― Assim não haverá quem tenha vaidade de Percorreu as escassas cinzas como que a
encontrar quem... confirmar a presença de qualquer coisa já vista.
Me escusei. Dei volta ao momento e desan- Perguntava-se, nervoso:
dei pelo escuro. Reconheci razão dos conselhos ― Onde está, onde está?
da aldeia: o velho sofria o castigo de visitar de- Finalmente, se debruçou a apanhar uma
mais o futuro. Regressei a casa e deparei com taça feita de madeira. Levantou-a nos braços.
estranha agitação. Meu pai comandava furiosa Me aproximei. Aquilo não era simples objecto
multidão. Vendo-me chegar, ele me ordenou: de usar. Desenhos de enfeitar se inscreviam em
― Vai donde que vieste! belezas. Tiane acenou a taça e proclamou:
E levaram-me em diante da raiva e gritaria. ― Viu? O mar quer juntar as pessoas.
Se dirigiam ao lugar de Tiane Kumadzi. O meu Estendeu a taça e pediu-me que bebesse.
velho me empurrava para cá e para nenhum “Beber o quê?”, perguntei. Espreitei o redondo
lado. Nem tive tempo de acertar vistas com i- da taça e havia gotas. De cacimbo adiantou
deias. Já o barco ardia, engolido por mil tochas, Tiane para aplacar meu receio. Levei a taça aos
chamas chamando chamas. lábios mas não consegui beber. Improvisei des-
Num instante, tresvoaram espessas fuligens. culpa:
Eu via os fumos subirem e comporem estranhas ― Vou guardar isto, para beber com eles...
figuras, monstros de engolir mundos. Eu fecha- Escondi a taça por baixo do velho canhoei-
va os olhos mas as visões não se afastavam. A- ro. De novo, fomos à rebentação ao encalço dos
inda escutei uma voz dizer para meu pai: sinais dos homens-peixe. O velho se deixou fi-
― Cuidado, mano, esses fumos estão cheios car dentro de água. Era já noite e ele se recu-
de veneno! sou a sair. Disse que nunca mais voltaria para
Fosse ou não veneno: as gentes se descom- terra. Ficava ali a encharcar-se de mar. Queria
punham, embriagadas. Primeiro, deram gritos, semelhar-se com o barco, a madeira ensopada?
saltos e danças. Aos poucos, se instalou a festa Quando houvesse viagem já ele se converteria
e a alegria enrijeceu a restante noite. Até os em madeira salgada. Já ele se convertera em
corpos lençolarem a terra. casa marinha à espera dos que haveriam de vir.
[149] [150]

40
CONTOS DO NASCER DA TERRA

Ela sorria, parecia isenta de pensamento. A


gordura era sua única resposta. Ela sabia: mais
Os negros olhos de Vivalma se engorda, menos se sofre. Com o volume a
dor vai ficando mais e mais distante, perdida lá
nas curvas das entranhas. As vendedeiras lhe
puxavam o brio:
― Mas você Vivalma, nem viva nem alma?
Quem fala consente? E a mulher gorda
suspirava:
[151] [152] ― Deus me reze, minhas amigas.
Ela é que sabia. Xidakwa, seu marido, en-
ganava era nas aparências. Ele era um mosca-
Há mulheres que procuram um homem que viva, esgazelado, tratando-lhe a berro e fogo.
lhes abra o mundo. Outras buscam um que as Outros já lhe tinham chamado as atenções.
tire do mundo. A maior parte, porém, acaba se Mas o latoeiro varria os reparos, explicando:
unindo a alguém que lhes tira o mundo. ― A vida é dura demais para aceitar carícia:
Este foi o destino de Vivalma, mulher entre cabedal se cose é com dedal.
as mulheres, cheia de desgraça, nem o Senhor As colegas do bazar insistiam:
punha oração nela. Mulher gorda, exibia os sei- ― Ora, Vivalminha, lhe deixe de vez, esse
os em cacho, carnes de muito volume e herança. homem não vale uma vida. Você é como o nariz:
Tanta redondeza, aliás, suprimia a curva. Vi- toda a vida no meio, sem nunca fazer escolha.
valma era esposa do latoeiro Xidakwa, homem Em silêncio, Vivalma amealhava suas ra-
zangadiço e com nervo florindo na pele. zões. Não que houvesse segredo: para ela, a-
A volumosa senhora saía de manhã para o quela era a ordem do mundo, estavam-se cum-
serviço de sentar no bazar, em banca rente ao prindo destinos. Nem ela nem ele teriam tempo
chão. Eram tão poucas e abreviadas as coisas para uma outra ocasião. O mundo dele era de
que vendia que ela nunca fazia as contas. A outra razão, um confim. Ele lhe queria à razão
vida é um por enquanto no que há-de vir. Vi- de pontapés? Que fosse. Ela não tinha querer
valma se deixava no assento, mais vagarosa nem ser. E quem não tem vontade, não tem
que orvalho. Até a mão dela poupava esforços, lamento.
num mesmo gesto de ida e volta: para lá, enxo- E era sem lamento que ela regressava a ca-
tava mosca; para cá, chamava cliente. Seus sa, tardes a fio, sempre última das vendedoras.
braços eram tão curtos que nem era capaz de Demorava os vinte e quatro ponteiros no cami-
arregaçar as mangas. nho. Perto de casa colhia uma flor mas, ao en-
Pois Vivalma se dava a conhecer pelo modo trar no portão, a deitava no chão. No pátio se
como zarolhava, olho deitado abaixo. Razão de acumulavam pétalas brancas, secreto e perfu-
que o marido lhe batia, por dádiva daquela pa- mado lençol da noiva que nunca houve.
lha. Nem carecia de motivo: o murro era a lín- Até que, um dia, o olho negro de Vivalma se
gua dele, vingança de lhe fugirem desejos de apresentou piorado, em feio e ampliado derra-
sua vista. Todos se admiravam: Xidakwa até me. As vendeiras transbordaram-se. Não, aqui-
que parecia tranquilinho, sonholento, incapaz lo era de mais! E se conluiaram para desafiar o
de violência. Mas os hematombos no rosto da marido violento. Sem que Vivalma suspeitasse,
mulher, o sangue pisado lhe enchendo a quoti- umas delas lá foram a casa de Xidakwa. En-
diana pálpebra dela, eram provas indesmentí- quanto pisavam aquele mar de flores desfeitas
veis. Todos punham a devida pena na vendedo- souberam o espantável: que o dito marido, Xi-
ra. Tão batidinha, coitada. E ainda por cima, dakwa, há tempo que se fora, amanteado com
sempre no mesmo olho. As colegas lhe sugeri- outra. As vizinhas diziam e comprovavam. Os
am: tais derrames que Vivalma exibia no rosto eram
― Você podia pedir a ele para variar-se: ca- por ela mesma fabricados, sem infringência de
da vez num lado, cada vez no outro. mais ninguém.

41
Mia Couto

As vendedores regressaram ao bazar, cala- ver o pátio varrido, limpo das habituais flori-
das, sob uma bategazinha de Verão. A chuva nhas. Os vizinhos se surpreenderam, depois, a
caía tristonha como um luto, cada gota uma ouvir os gritos dele, batendo em sua original
mulher em Outono, chuviuvinha. Ingrata é a esposa.
morte que não agradece a ninguém. Vivalma Manhãzinha seguinte, viram Vivalma sair
teatrava, para que ninguém suspeitasse de seu de casa, canteirando pelo jardim, a encher as
abandono? Pois as amigas se compustararam mãos de petalazitas brancas. Haveria quê nes-
em igual disfarce. Na Natureza ninguém se per- sas flores: alegria de quem se ilude vencer? Ou
de, tudo inventa outra forma. eram pequenitas raivas, desapercebidas como
Sucedeu, por astúcia do acaso, o seguinte lágrimas em seu rosto molhado? Só ela, a ma-
percalço: a nova mulher de Xidakwa ouviu dizer tinal vendedeira, sabe do valor dessas minus-
que Vivalma continuava a revalidar suas equi- culinhas naturezas em seus dedos decepadas.
moças, olho da cor do chão. Se assim era, Dizem, finalmente, que sob o véu de seus ene-
quem mais poderia ser o batedor senão o dito grecidos olhos havia, nessa manhã, uns fiapos
latoeiro? E a moça, mais nascida que a gorda de satisfeição. Poderá ela, alguma vez, ser sabi-
vendedeira, contraverteu caminho e foi agasa- da? Se, como diz nenhuma canção, a água cor-
lhar outra felicidade. re com saudade do que nunca teve: o total, i-
O homem, desconcertado, voltou a casa pa- menso mar.
ra afinar contas com Vivalma. Se admirou de [153] [156]

42
CONTOS DO NASCER DA TERRA

ser beijada. Sonhava e resonhava. Lhe apetecia


um beijo, água fazendo crescer outra água na
Gaiola de moscas boca. Lhe apetecia como um cacto sonha a nu-
vem. Como a ostra ela morria em segredo, como
a pérola seu sonho se fabricava nos recônditos.
Avisaram o marido. Armantinha estava so-
nhando longe de mais. O homem respondeu em
variações. “Beijo é coisa de branco, quem se im-
porta. E depois, minha boca cheira a coisa fale-
[157] [158] cida. Quem se aflige com matéria morta? Só os
da cidade. Nós, daqui, sabemos bem: é do podre
que a terra se alimenta”.
Zuzé Bisgate. Logo na entrada do mercado, Acontece que Zuzé Bisgate se foi metendo
bem por baixo da grande pahama se erguia sua nos copos, garrafas, garrafões. Tudo servia de
banca. Quando a manhã já estava em cima, Zu- líquido, Zuzé destilava até pedra. “De toda a
zé Bisgate assentava os negócios. O que ele fazi- substância se pode espremer um alcoolzinho”,
a? Alugava bisga, vendia o cuspo dele. A saliva dizia. Mais e mais ele desleixava a caixa de cus-
de Zuzé tinha propriedades de lustrar sapatos. pos e lustros. Até que os clientes reclamaram: a
― É melhor que graxa, enquanto graxa nem saliva de Zuzé está ganhando ácidos, aquilo é
há. bom é para desentupir as pias. E temendo pelos
Além disso, o preço dele era mais favorável. sapatos os demais se evitavam de frequentar a
Cada cuspidela saía a trezentos, incluindo o lus- tenda banhada pela grande pahama.
tro. Maneira como ele procedia era seguinte: o Até Chico Médio, homem sempre calado,
cliente tirava o sapato e colocava o pé empeuga- reclamou que a saliva dele lhe fez murchar os
do do cliente sobre uma fogueirita. O pé ficava ali atacadores, pareciam agora cobras sem esque-
apanhando uns fumos para purificar dos insec- leto vertebral. Pouco a pouco Zuzé perdeu toda
tos infecciosos. Zuzé Bisgate pegava no sapato e a clientela e o negócio das salivas fechou.
cuspia umas tantas vezes sobre ele. Cada cuspi- Se decidiu então a mudar de ramo. Recor-
dela contava na conta. Passava o lustro com um dou, de seu pai, a máxima: a alma é o segredo
pano amarrado no próprio cotovelo. Razão do de um negócio. Alma, era isso que se necessita-
pano, motivo de esfregar com o cotovelo: va. E assim ele imaginou um outro negócio. E
― Dessa maneira a minha saliva me volta no agora quem o vê, nos actuais dias, constata a
corpo. É que este não é um cuspe qualquer, um banca com sua nova aparência. E Zuzé mais
produto industrioso desses. Não, isto é uma saliva seu novo posto. Seu labor é um quase nada,
bastantíssima especial, foi-me emprestada por coisa para inglês não ver.
Deus, digamos foi um pequeno projecto de apoio ao Ali, na fachada, arregaça as calças, com cui-
sector informal. É que Deus conhece-me bem, pá. dado para não as desvincar. Sempre com desvelo
Eu sou um gajo com bons contactos lá em cima. de burocrata, desembrulha um volume retirado
Os clientes não se faziam enrugados. Às ve- das entranhas de sua banca: uma gaiola forrada
zes até abichavam frente à banca dele. Fosse da a rede fina. Dentro voam moscas. Pois é o que ele
saliva, fosse da conversa que ele lustrava. Ver- vende: moscardos. Matéria viva e mais que viva
dade era que o negócio de Zuzé corria em bom — vital para o mortal cidadão. Pois, diz o Bisga-
caudal. te, cada um deve tratar as moscas que, depois de
Quem não se dava bem com os cuspes era mortos, nos visitarão o túmulo.
sua mulher Armantinha. “Não se pode beijar ― São os nossos últimos acompanhantes...
aquela boca engraxadora dele”, se lamentava. A pessoa passa por ali, se debruça sobre o
“Prefiro beijar uma bota velha”, concluía. “Ou vendedor e escolhem as voadoras bastas, as
lamber uma caixa de graxa”. mais coloridas que engalanarão o funeral:
Armantinha sonhava para saltar frustra- ― Esta há-de ficar mesmo bem na sua ceri-
ção. Um dia, qualquer dia, haveria de beijar e mónia.

43
Mia Couto

Ele convida o hesitante cliente a ir à banca ― Está certo, eu vou pintar.


ao lado, a banca da Dona Cantarinha. Para la- Julbernardo pegou no batom com habilida-
var as moscas, explica. de de artista. Aquilo era obra para ser vista.
― Lavar as moscas? Metade do povoado vinha assistir às pinturas.
― Sim, é lavagem a seco. A gente seguia caladinha, aquilo era cena à
Armantinha cada vez mais se distancia da- prova de fala. Julbernardo metia um avental,
quela loucura. O marido se apronta é para gran- ordenava à cliente que sentasse no tronco cor-
des descansaços. tado do canhoeiro.
― Ai nosso Senhor Jesus Cristão! Você, ho- Armantinha obedecia ao ritual. Sentada,
mem, você vende alguma coisa? ergueu o rosto. Fechou os olhos, compenentra-
― Faça as contas, mulher. da em si. O pintador limpou as mãos no aven-
― Que contas? Que contas se pode fazer tal. Se debruçou sobre a tela viva e fez rodar o
sem números? batom no ar antes de riscar a carne da cliente.
― Ainda hoje vendi uma manada de moscas Sentada no improvisado banco Armantinha deu
a esse tipo novo que chegou à aldeia. largas ao sonho. O batom acariciava o lábio e
― Qual que chegou? tornava seu corpo misteriosamente leve, como
― Esse gajo que montou banca lá nas trasei- se naquele toque se anulasse todo o peso dela.
ras do bazar. Uma banca que até mete as gra- Sonhava Armantinha e o sonho dela se apo-
ças, chama-se “Pinta-Boca”. derava. Nesse devaneio o batom se convertia em
― O homem se chama Pinta-Boca? corpo e já Julbernardo se inclinava todo sobre
― Qual o homem! A banca se chama. ela e os lábios dele pousavam sobre a boca dela,
Armantinha se inflama logo de sonho. Já a trocando húmidas ternuras. Mundo e sonho se
boca dela se liquidesfaz. Sua boca pedia pintu- misturavam, os gritos da multidão ecoavam na
ra como a cabeça lhe requeria sonho. E, logo gruta que era sua boca e, de repente, a voz rai-
nessa manhã, ela ronda a nova tenda, se apre- vosa de Zuzé também lhe esvoaça na cabeça.
senta ao novo vendedor. Ele se declina: E eis que Armantinha abre os olhos e ali,
― Sou Julbernardo, venho de lá, da cidade. bem à sua frente, o seu marido se engalfinhava
Banca Pinta-Boca. O nome faz jus. Na pra- com Julbernardo. E murro e grito, com a genta-
teleira ele tem uma meia dúzia de batons com lha rodopiando em volta. De repente, já um de-
outras tantas cores. As mulheres se chegam e les se apresenta de desbotar vermelhos. Os dois
estendem os lábios. Julbernardo pede que esco- se misturam e uma faca rebrilha na mão de
lham a coloração. Moda as brancas, vermelhu- Zuzé. Depois, num sacão, se separam os dois
das das beiças. Uma pintadela 250 meticais. corpos. Estão ambos ensanguentados. Julber-
Armantinha, já devidamente apresentada, nardo com o avental ensopado de vermelho dá
ganha coragem e encomenda uma coloradela. dois passos e cai redondo. Num instante, uma
― Aqui, se paga em adiantado. multidão de moscas se avizinha. Zuzé, vitorio-
Ela retirou as notas encarquilhadas do sou- so, aponta a mulher:
tien. Vasculhou as largas mamas à procura dos ― Vê? Vê as moscas que vendi a esse ca-
papéis. Tinha seios tão grandes que nem con- brão?
seguia cruzar os braços. Mas as moscas, em lugar de escolherem o
― Está aqui seu dinheiro. tombado Julbernardo, circundam a cabeça de
― Não chega nem basta. Essa tabuleta do Zuzé. Alarmado, ele enxota-as. Em vão: já a
preço era na semana passada. Agora é 250 um moscardaria lhe pousa, vira e revira. Então,
lábio. Zuzé Bisgate desce dos seus próprios joelhos e
― Um lábio? se derrama em pleno chão. O sangue se vê bro-
― Se for o de cima, o de baixo custa mais ca- tar de seu peito. Julbernardo desperta e se er-
ro. Por causa que é maior. gue, ante o espanto geral. Com mão corrige a
― Estou fracassada com você, Julbernardo. mancha vermelha com que o batom esmagado
Vá, pinte o de cima, amanhã venho pintar o de enchera o seu branco avental.
baixo. [165] [166]

44
Amparei o desandrajoso. Se sustentou em
meu ombro e me foi levando pelo passeio som-
O homem da rua brio, através dessa desvastidão onde o negro
escurece a preto.
― Agora o senhor me entorne aqui...
― Aqui?
Esfregando-se no pescoço como se as mãos
fossem de outrem, acrescentou:
― Aqui, sim. Quero acordar com dormência
[167] [168] de lua.
Dali ele passou a esbanjar conversa. Quem
sabe o homem desjejuava palavra? E dizia sem
Ainda o dia andava a procura do céu, vinha aparência nenhuma:
eu em vagaroso carro que mais a mim me con- ― Bem hajam as folhas, minha cama!
duzia. De repente, um homem atravessou a E explicava-se enquanto alisava as folha-
calçada, desavultado vulto avulso. Uma garrafa gens mortas: quando se deitava lhe doía a cur-
o empunhava. E ele, todo súbito e poentio, se va da terra, a costela quebrada do próprio uni-
embateu frentalmente na viatura. Saltou pelos verso. Assim deitadinho, todo simetrado com o
ares, se aplacando lá mais adiante, onde se ini- planeta, um subterrâneo rio falava com suas
ciava o passeio. Saí do susto para inspeccionar veias.
sua sobrevivência. ― Até foi bom me aleijar um bocado. Ri-se?
Me debrucei sobre o restante dele, seu rola- Nem sabe como é bom haver um chão para a
do enrodilhado. Não havia sangue nem quebra- gente ter onde cair.
dura de osso. O maltrapalhado estava a salvo, E nos trocamos nessa conversa com vonta-
salvo erro. Todavia, me meteu pena: suas vestes de de ser corpo, encosto, adormecimento. Fi-
eram a sujidade. Havia quase nenhuma roupa cámos a ver as luzinhas da cidade, lá em baixo,
em seu sarro. Mesmo o corpo era o que menos a lembrar que o homem sofre de incurável me-
lhe pesava. Os olhos estavam parados, na grade do de ser noite. O país daquele homem seria a
do rosto. Me pareciam pedir, o quê nem sei. noite. Meu território era o dia, com sua lumi-
De inesperado, o vagabundo se ergueu e nesciência tanta que serve mais é para deixar-
apressou umas passadas para encalçar o longe. mos de ver.
Se entrecruzou com sua sombra, assustado de E pensei: o primeiro alimento é a luz. Nos
haver escuro e luz. Em muito zig e pouco zag invade logo quando nascemos. Depois, a lumi-
ele acabou por se devolver ao chão. Voltei a a- nosidade, com suas infinitas cascatas, nos fica
cudir, cheio dessa culpa que não cabe na razão. a engordar a alma. Em mim, pelo menos, a
Apanhei o vulto, desarranjado, sem estrutura. primeira saudade é da luz. Direi, então: me fal-
Pareceu tontolinho, sempre agarrado ao arrega- ta a minha luz natal? Quem sabe a alma deste
lado gargalo. Me deitou olhos muito espantados homem, sempre ninhado no escuro, emagrece-
e pediu desculpa por incómodos. Apalpou o ra assim a olhos não-vistos? O homem é bicho
lugar onde se deitava, e disse: diurno. O dia é bicho humano?
― Um de nós está morrendo. Me foi descendo, espesso, o sono. Avancei
Entreolhei-me a mim e ao restante mundo. despedida não sem retirar do bolso algumas
Ele se precisou: notas que estendi em direcção ao desastrado:
― Estou falando da terra, parece ela está ― Deixo o senhor com algum dinheiro. Quem
moribundando. sabe lhe virão, mais tarde, as dores do acidente?
Lhe disse que o levaria dali para um sítio Para meu espanto ele recusou. Sem vee-
que fosse dele. Ajudei-lhe a entrar no meu car- mência, sem nenhuma ênfase. Era recusa ver-
ro. Ele recusou com terminância: dadeira.
― Não entro em coisa que serve para levar ― Posso pedir uma qualquer coisa?
morto. ― Peça.

45
Mia Couto

― Me dê um pouco mais da sua acompanhia. Fiquei quieto sem me achar conveniência.


Só isso: acompanhia. Nem gesto nem palavra me defendiam. O atro-
Ainda hesitei, inesperando aquele pedido. O pelado centrou esforço em se erguer, mão sobre
homem nem me fitava, estivesse envergonhado. o joelho. Já de pé me segurou o cotovelo:
E assim, de cabeça baixa, insistiu: ― Pode ir, à vontade. Nem imagina como se-
― É que, sabe, eu não tenho ninguém. Antes nhor me faz bem, me bater e, depois, me falar.
ainda tinha quem me dispensasse migalha de Agora já nem sinto dor nem dentro nem fora.
conversa. Mas, agora, já nem. E me dá um medo Anda fiz menção de ficar, perdido entre gar-
de me sozinhar por esses aís. ganta e coração. Mas o andrajoso levantou o
Quase que falava para dentro, eu devia bai- braço, em serena sentença:
xar orelha para o entender. Assim, cabismudo, ― Vá, meu amigo, vá na sua vida.
prosseguiu: Regressei ao carro. Arranquei-me dali, de-
― Sabe o que faço? Vou dizer... mas o se- vagar. Olhei no espelho para retrover o vaga-
nhor me prometa que não zanga... bundo. Me lembrei então que nem o nome dele
― Prometo. eu anotara. Lhe chamo agora: o homem da rua.
― O que eu faço, agora, é me deixar atrope- Seu nome ficará assim, inominável, simples-
lar. É. Ser embatido num resvalo de quase nada. mente: homem da rua. Lembrando este tempo
Indemnização que peço é só esta: companhia de em que deixou de haver a rua do homem.
uma noite. [173] [174]

46
CONTOS DO NASCER DA TERRA

― Quero que lhe ponha nome de santo.


Orolando protestou: havia mandos da tra-
O general infanciado dição, regulamento de família. Depois, o que se
impunha era nome guerreiro, não fosse a crian-
ça amolecer logo de apelido. E sentenciou he-
roicas nomeações: Gungunhana, Muzila, So-
changane.
― Quero nome de santo. Me deixe carinhar
esse menino, me favoreça um nome de santo
[175] [176] para lhe darmos garantias.
Cristóvão ficou. Notificado de ternura: Cris-
tovinho. O menino cresceu e foi enchendo a
O General Orolando Resoluto era um ho- casa de contentações. O general se incomodava
mem congélido, capaz de frigorificar o mais pe- e urgia a mulher de pôr cobro às excendentá-
queno sentimento. Desses que lambem a carta rias alegrias. Cristovinho em tudo inventava
para colar o selo. Seu único amor: a pátria. Sua brinquedo. O pai se libertava da farda e ele,
exclusiva paixão: a guerra. A família ele a vivia instantâneo, pegava as solenes medalhas e as
com espírito de dever, encargo biológico, con- pendurava em desrespeitosos lugares.
trato social. Por obrigação lhe nasceu o filho, ― Deixe, Orolando. Ele só está dar riso ao
sua primeira e única descendência. O menino metal.
veio à luz e o general Resoluto, impassível, es- Volta e não-volta, o menino laçava os bra-
preitou o berço, mais inspector que parente: cinhos no paterno pescoço. Nordicamente, o
― Hum! general rompia o abraço. Mas quanto mais a-
E mais nada, senão essa interjeição seca. fastava o filho mais ele se chegava. Até que o
Rectilíneo, o general não despenteou nervo. A miúdo cresceu a ponto de aniversários. Come-
mulher Rosanita sorriu: estaria o marido apenas çava o serviço da infância, voz e riso solares.
invisivelmente comovido? A esposa havia sido Aquela alegria não tinha companhia do pai. A
formada em credo e cruz, um terço da vida no mãe sempre rezando para que o marido se deti-
terço. Mal saída da catequese ela catecasou-se. vesse um simples instante de ternura. Ao me-
Rosanita sabia que os homens se comportam, nos o santificado nome do miúdo operasse em
neste mundo, como estrangeiros. A machice é Orolando um desatendido milagre. Em vão.
arrogância dos que têm medo, mais excluídos Certa tarde, o menino desapareceu. Perdido
que emigrantes. Só as mulheres são indígenas no jardinzal da frente, fugido da mão da tia. A
da vida. Paciente, a esposa ainda negociou com mãe chamou o marido em aflição, avisando-o
ele um riso: da tragédia. O general fez subir nos ombros as
― Então, senhor pai? divisas. Resgatar o miúdo era missão de honra.
Rosanita arredondava os cantos às palavras Na falta de guerra há que inventar outros beli-
mas Orolando Resoluto não desenrijeceu. Sim- cismos. E saiu, no encalço da procura.
plesmente, ajeitou a colcha no berço como se cor- Depois de muito voltear, Orolando encontra
rigisse a linha de um desenho. Nem um carinho, o menino junto dos falecidos balouços. Cristo-
nem um despenhar de alma. Nada, só aquele vinho persegue um balão vagabundo. O pai,
gélido olhar de quem passa revista às tropas. vigoroso, intende encher o balão de imediatos
Já em casa, ele recusou dar colo ao estrea- furos. Com raiva, o balão lhe escapa e sobe,
do filho. A farda era imaculável, inodoável. Haja matreiro. Rodopiou no ar, o militar salta, as
disciplinas. A mulher muito se sofria com aque- medalhas se soltam e tombam com tilintes e
le alheamento. requintes. O menino despercebe: acredita que o
O tempo ia tricotando semanas e o milita- soturno pai, finalmente, se decidiu a brincadei-
rão continuava impávido, sem sequer se chegar ras. E junta-se aos saltos do pai, deflagrando
ao menino. No dia do registro Rosanita impôs risos. O general em fúria dá voz de comando ao
obrigamentos de credo: balão. E quando já crê ter o brinquedo domado,

47
Mia Couto

misteriosa brisa o faz soltar e ressubir em livres desatenções. Não é só ela a alheada. O general
cambalhotações. Até que o general em fúria vai amolecendo a ponto de esquecer as inviolá-
saca da pistola e dispara. O primeiro tiro des- veis obrigações. A carreira de militar está agora
consegue. No segundo tiro, o balão subita-se, descarreirando. Um dia, distraído, entrou no
deflagrado. Com o susto, o menino cai e fere o quartel ainda envergando a máscara com que
rosto numa pedra. O sangue ingénuo e inocen- brincava.
te enche os lenços do pai. O militar, num mo- As botas, outrora intocáveis, agora são di-
mento, se aflige e recolhe o menino nos braços. vertimento. As medalhas servem de imaginários
Cristovinho se aconchega no colo dele e assim veículos, carregados de pedrinhas e poeiras.
se deixa até chegar a casa, já adormecido. Certa manhã, Resoluto estende um bilhete à
No portão, a mãe espera, atarantonta. O pai mulher e lhe pede que faça entrega dessa men-
abre alas e conduz a criança, dormida, ao leito. sagem no quartel.
A mãe segue atrás, as mãos se recolhendo uma ― Está escrito que eu não vou, estou doente.
na outra como pássaros cegos. Vê o general ― Verdade, mando?
sentar no leito do menino e debruçar cuidados, ― Não. Eu quero só ficar com Cristovinho.
quase paternos. Rosanita sonha que esse mo- Essa manhã faltou ao serviço. Outras ma-
mento é a terna eternidade, fracção de paraíso. nhãs, idem. Ao pouco e pouco ele se inseparava
E dá graças aos céus pela visão. do menino, se distanciando das militares obri-
Nessa noite, o general é que levanta para gações. Até que, definitivamente, se demitiu,
espreitar o sossego do menino. Dia seguinte, ele prescindindo de carreira, acumuladas honras,
chega mais cedo do serviço e acorre ao quarto engomadas memórias.
para olhar o filho. E assim toda a semana: Oro- Agora, Orolando Resoluto só fica em casa.
lando Resoluto escapa do quartel e entra em Se transferiu de vez para o quarto do menino.
casa, urgente, sem cumprimentar esposa nem Dormem juntos, pai e filho, abraçados em bone-
parar no televisor. Vem ver o filho, escutar suas cos. O ex-general adormece fetal, meninado. Tal
brincriações. Fim da tarde, ele pega a mão do pai, fatal filho. A mulher entra no quarto, noite
menino e vai passear com ele, compra-lhe doces, alta, e aconchega o sono de seus dois meninos.
mimos. [177] [182]

A mulher contenta-se, crendo em milagre.


Mesmo que Orolando, agora, apenas lhe preste

48
CONTOS DO NASCER DA TERRA

os martelos, fazendo calar a piadeira da passa-


rada. Manhã à noite, Rungo Alberto instrumen-
Rungo Alberto tava nos enormes troncos. Convertera-se em
ao dispor da fantasia mercenário marceneiro? Na oficina do improvi-
sado construtor de navios, se viam interminá-
veis troncos transitando de madeira para tábua.
Eu queria espreitar, ele recusava. A cons-
trução não podia ser olhável. Assim se protegia
de invejas e feitiços. Ele engenhava o barco co-
[183] [184] mo o mar fabrica os corais, petrificando o ren-
dilhado de suas espumas. Os ilhéus passavam
por ali, gozavam com a proclamação de Rungo.
Conto uma verdade de Rungo Alberto, meu Podia um semi-urbano se aventurar a embar-
completo amigo, perdido em escura noite na cadeiro?
ilha da Inhaca. Ele nasceu junto do mar, em Uma madrugada, Rungo me alvoroçou a ja-
lugar onde terra e água se fronteiriçam. Dizia: nela. Coração aos tropeços, ele me conduziu
“minha água-natal”. Rungo já não se abastecia pelos atalhos secretos que desaguavam em sua
de ilusão: tudo é areia sem castelo. O que ele oficina:
queria era ver chegar a Paz. Nisso se duvidava. ― Você se arregale, mano.
Afinal, a única maneira de a guerra terminar é Apontava uma enorme embarcação. Me es-
ela nunca ter começado. Lá tinha suas razões. pantei. Aquilo era um barco, autêntico, da proa
Porque ele era um fugido da guerra. Magro: à ré. Superava a dezena de metros, lindo de
descurava um esterno muito externo. Cabelo pintado: azul, branco, castanho. O mastro, vai-
branco mas por indevida idade. doso, ascendia a copa da floresta. Rungo Alber-
Me chamava assim: Mio Conto, Mira Cuito, to, porventuroso e circunsperto, me afrontava.
Miraconcho. Me desapelidava? Não, aquilo era Não encolhi uma dúvida:
simples inclinação do peito. Uma amizade fun- ― Agora, caro Rungo, eu lhe pergunto: como
da lhe fazia inventar aqueles todos nomes. Um vai levar o barco até ao mar?
só não serviria. Eu ria: há tanto que precisava Tudo ele tinha antepensado. “Os estudan-
aquela falha de identidade. Há tanto eu carecia tes”, me respondeu sorrindo.
de certidão de inabilitações. Mas eu naquele ― Os estudantes?
amigo punha também as muitas visões. Run- ― Sim, os seus alunos podem tchovar o bar-
gos, tantos ele era. Qual deles o verdadeiro? co. Peço: fale com eles.
Pois, meu suposto Rungo Alberto, uma certa Não houve estudante que se furtasse. Todos
manhã anunciou: juntaram braços e alegrias. Quatro horas depois
― Vou construir um barco! o barco entrava nas ondas do Índico. Rungo a-
Duvidei. Rungo Alberto era uma pessoa briu vinho português, despejou as primeiras
muito instantânea mas aquele caroço me pare- gotas sobre o barco, outras sobre o mar. Só de-
cia maior que a garganta. Não sendo engenhei- pois a garrafa circulou por todos. Abençoado, o
ro marinho, nem tendo artes de carpintaria, barco parecia se afeiçoar melhor ao bate-onda.
onde iria ele buscar qualificação? Rungo virou No baptismo a criança é que abençoa o mundo?
costas entoando sua única canção. Uma vez Os estudantes voltaram às camaratas, al-
mais me inquiririu: gazarrentos. Na praia fiquei eu e ele contem-
― Não conhece esta canção? É um hino qua- plando o barco no embalo de seu destino.
se nacional. ― E agora que vai fazer com ele?
Na manhã seguinte, o homem deitou mãos à ― Com o barco?
manobra. Sua oficina foi instalada numa clarei- Não sabia, nem queria ideia. Fizera o barco,
ra da floresta, perto da Estação de Biologia. Para provara. A viagem era outro assunto. Insonhá-
ali ele passou a se deslocar muito diariamente, vel. “Minha viagem foi esta, eu termino aqui”.
em competição com a madrugada. Se escutavam Mas, então qual o benefício da obra?

49
Mia Couto

― Não é no deserto que ganhamos miragem? soltou do mundo, desnavegou pela escuridão.
Durante dias ele sentou na praia contem- Rungo, dizem, foi no encalço da sua criação.
plando o barco. Parecia ancorado à sua própria Dias depois, o país via chegar a Paz. Ainda
vitória. Rungo perdera a noção, divaguava? A hoje, de regresso à ilha, eu me sento junto ao
mulher zangava-se: em casa, Rungo não dava mar. Quem sabe da estória de Rungo, seu bar-
atendimento. E ela me pediu em choro: eu que co vogando na outra margem? Com suas águas
acudisse à réstia do senso dele... sempre moventes, o mar não nos deixa ver o
― Eu, mulher, não tenho voto na madeira. tempo. Quem me encara, espreitando o poente,
Esse homem é casburro”. acredita que eu me consagro a saudades. A
E ela se calou. Rungo era tão bom que nin- tristeza é uma janela que se abre nas traseiras
guém aguentava ser inimigo dele. Aquilo era do mundo. Através dela eu vislumbro Rungo
maldição, serviço encomendado dos aléns. Ela Alberto, meu velho amigo. Depois, um deserto
sabia, ali se vivia muito oralmente. E, nessa tar- me engole a alma. Estrangeiro é o lugar onde
de, ela foi ao feiticeiro. O depois não se esperou. não se espera ninguém.
Nessa mesma noite rebentou uma tempes- [185] [188]

tade de escangalhar o oceano. O barquinho se

50
CONTOS DO NASCER DA TERRA

O despertado tossiu, saltaram-lhe sangues


de dentro. Tentou esconder o vermelho nos len-
O despertar de Jaimão çóis. “Deixa que eu limpo”, sossegou a mulher.
Ele desviou-se da intenção dela. Mas ela insistiu:
― Homem não deve mexer em sangue. Só a
mulher.
― E porquê?
― Em vocês, homens, o sangue anda junto
com a morte.
[183] [184] ― Você fala coisa que nem sabe.
― A mulher é que pega no sangue e faz nas-
cer uma outra vida.
Ouviu a voz da mulher gotejando. Como se ― Conversa redonda, Elvira. Mas me diga
estivesse submerso num tanque de água e as uma coisa, mulher: todo esse tempo você não
palavras dela fossem caindo, lágrimas da lua. chamou ajuda de ninguém?
― Graças a Deus, você acordou. ― Ninguém.
Jaimão não percebeu o motivo da fala de ― Mas então o satanhoco do Raimundo não
Elvira. Olhou-se no corpo, horizontal. Os pés, veio me ver, nesse meu estado?
de pé, todos despidos. Se recordava, em cacos Sim, ela chamara Raimundo, o vizinho. Isto
de memória. Deitou-se foi num dia, longe. é, não é bem que chamara. Apenas mostrou pon-
― Não deitei calçado, mulher? ta de chamamento. “Que eu, marido, não gosto de
― Deitou, sim. falar fora assuntos de dentro. No início ele recusou
Então porquê a ausência dos sapatos? Elvi- vir. Raimundo até que falou, rindo, assim”:
ra explicou: tiraram enquanto ele dormia. Foi ― Doente? Isso é manha dele. Eu desauten-
ideia do vizinho Raimundo: ele sabia que os tico esse seu marido, Dona Elvira. O gajo é mes-
mortos falam com os dedos dos pés. Essa é ma- tre da preguiça, lhe conheço desde-desde. O sa-
neira de conversarem com os vivos. “Sim, o vizi- cana só está fingir do sono, mais nada.
nho disse assim, Jaimão. Tirámos seus sapatos ― O sacana? Raimundo me apelidou mesmo
quando já pensávamos que não acordava mais. assim?
Você, Jaimão, é o pai mais novo dos meus filhos, Jaimão não cabia em si. “Conta mais, mu-
você dormiu quinze dias, de fio em novelo. Juro, lher, quero saber bem desse Raimiudinho”.
mando, quinze dias de tempo. Até já pensávamos ― Mas, marido, nem imagina o seu amigo
você tinha chegado ao fim, parado de doença fa- quem é. Não foi que ele me aproveitou?
lecível”. ― Lhe aproveitou, como?
― Qual dia é hoje? ― Sim, ele me fez adiantamentos. Que eu
― O dia não interessa”, respondeu Elvira, era bonita de mais valer, devia era aproveitar o
“o que importa é que você acordou”. Jaimão se seu adormecimento.
ergueu no leito, sentou-se com custosos gemi- ― Ai, sim? Raimundo disse isso? Vai ver,
dos. “Mineiro que fui, tantos anos, me habituei traidor. Lhe despromovo, filho de uma quinhen-
a descer lá nas funduras, mais fundo que os ta, lhe desconto no retroactivo.
subterrâneos. Desta vez, Elvira, escavei-me ― Foi nesse momento que você, marido, co-
fundo de mais. Demorei foi a chegar à tona do meçou a mexer os dedos dos pés. O Raimundo
mundo”. se debruçou todo para assistir ao seu dedilhar.
― Deixa ver seus olhos, Elvira. É que quase Você movimentava e ele lia seus dedos.
não lembro deles. ― Não quero ouvir mais essa história, mu-
Elvira se postou perante o recém- regressa- lher. Chama-me esse sacana. Agora mesmo.
do. Jaimão passeou saudades pelo rosto da Elvira sai para ir chamar Raimundo. O vi-
mulher. Mas logo ele pousou o olhar no chão. zinho não demora a chegar. Na soleira da porta
― Sonhei que você tinha saído com outro. trocam palavras, ele e a dona da casa. Segre-
― Com outro? dam-se:

51
Mia Couto

― Você já lhe disse, Elvira? de encontro à parede, milimétrico. “A vida, caro


― Lhe disse o quê? vizinho, a vida é que é muito mortífera.
― Que ele vai morrer. ― Não me mate, Jaimão!
― Eu não sei como falar essas coisas... O outro prosseguia com esmero a afiação
Do seu leito, o despertado grita: “Que fazem da lamina. Levantava o punhal, examinava-o à
vocês aí, aos segredinhos? Não me diga você contraluz. Vistoriava o instrumento da punição.
está escadear na minha mulher?” Elvira se che- Demorava-se só para aumentar o sofrimento do
ga ao leito do moribundo, festeja-lhe a fronte, outro? Ou, de contrária maneira: muito tacto,
deitando-lhe ternuras. O vizinho também se pouco acto? Raimundo, de joelhos, implorava.
aproxima, mãos cruzadas no ventre, sinal do Mas Jaimão prosseguia ameaça:
respeito. O recém-dormido fala: ― Eu vou-lhe deseliminar. Ou você pensa
― Então Raimiúdo, eu te mandei estudar, tu que sou um papagago?
és quase da família. E agora me fazes assim de De repente, o vizinho atrevido se reatreveu
mim, teu pai hierárquico? e, aos gritos, desatou a arguir:
― Fiz o quê, vizinho? ― Você, Jaimão, você é que vai morrer de
― Me redemoinhas na mulher. Diga, since- castigo dos xicuembos.
ramente, estamos de homem para homem. ― Eu?
― Pensava que você já não acordava mais. ― Sim, morrer e de vez. Então, não se lem-
Mas foi por causa do que você falou. bra? Você estava morto, falou-me, deu-me as
― Falei o quê, seu aldrabão? devidas ordens. Agora queria que eu não cum-
― Disse para eu tomar conta das suas he- prisse? Sim, não conhece a tradição? Pedido de
ranças... incluindo ela. morto é ordem.
― Mentira, satanhoco! Jaimão ainda tentou um golpe. A faca lhe
― Falou, juro, falou com os dedos dos pés... saltou da mão, subiu pelos ares mas não tom-
O grande Jaimão espumava as raivas. bou. Estranhamente ficou volteando, em infin-
“Trabalhei anos, deixei meus pulmões nas mi- dável remoinho.
nas do John. Onde estão meus randes, onde De repente, o Jaimão sentiu um sono pesa-
mexeram minhas poupanças?” Súbito, em sua do, maior que morte. “Escute, Raimundo, vou
mão se acendeu um brilho de faca. “Respeito, dormir, agora. Depois, acordo e lhe mato”. E
Raimundo, ainda lhe vou naifar essas fuças to- tombou, pesadelento. “Que chão é este, que po-
das. Não estudou o respeito, lá na escola que lhe eira, que cheiro? Onde estou, afinal? Este escuro
mandei? Mas com gente igual a você, não se em que penetro não é a mina, essa fundura onde
gasta palavra. Com você a gente se explica com me infernei tantos anos? Se estou nas galerias
lamina. Daí o motivo da bala, a razão da cata- como é que Elvira está atravessando o quarto e
na”. se atira nos braços de Raimundo? Se me estou
― Estou pedir grande desculpa, Jaimão. obscurecendo por que motivo Raimundo me está
― Sabe qual é o castigo? Sabe, não é?” cobrindo meus pés com essa capulana? E por-
Enquanto perguntava ia raspando a barriga quê esse pano me aparece como se fosse terra,
da faca na pedra do chão. O outro se placava me pesando mais que o inteiro planeta?”
[191] [196]

52
CONTOS DO NASCER DA TERRA

nês. Começaram a escavar o chão, em volta.


Mas as raízes que saíam da cabeça desciam
Raízes mais fundo que se podia imaginar. Covaram o
tamanho de um homem e elas continuavam
para o fundo. Escavaram mais que as funda-
ções de uma montanha e não se vislumbrava o
fim das radiculações.
― Me tirem daqui, gemia o homem, já noite.
Revesaram-se os homens, cada um com
[197] [198] sua pá mais uma enxada. Retiraram toneladas
de chão, vazaram a fundura de um buraco que
nunca ninguém vira. E laborou-se semanas e
Uma vez um homem deitou-se, todo, em meses. Mas as raízes não só não se extinguiam
cima da terra. A areia lhe servia de almofada. como se ramificavam em mais redes e novas
Dormiu toda a manhã e quando se tentou le- radículas. Até que já um alguém, sabedor de
vantar não conseguiu. Queria mexer a cabeça: planetas, disse:
não foi capaz. Chamou pela mulher e pediu-lhe ― As raízes dessa cabeça dão a volta ao
ajuda. mundo.
― Veja o que me está a prender a cabeça. E desistiram. Um por um se retiraram. A
A mulher espreitou por baixo da nuca do mulher, dia seguinte, chamou os sábios. Que
marido, puxou-lhe levemente pela testa. Em iria ela fazer para desprender o homem da in-
vão. O homem não desgrudava do chão. teira terra? Pode-se tirar toda a terra, sacudir
― Então, mulher? Estou amarrado? as remanascentes areias, disse um. Mas um
― Não, mando, você criou raízes. outro argumentou: assim teríamos que trans-
― Raízes? mudar o planeta todo inteiro, acumular um
Já se juntavam as vizinhanças. E cada um monte de terra do tamanho da terra. E o enrai-
puxava sentença. O homem, aborrecido, orde- zado, o que que se faria dele e de todas suas
nou à esposa: raízes? Até que falou o mais velho e disse:
― Corta! ― A cabeça dele tem que ser transferida.
― Corta, o quê? E para onde, santos deuses? Se entreolha-
― Corta essa merda das raízes ou lá o que ram todos, aguardando pelo parecer do mais
é... velho.
A esposa puxou da faca e lançou o primeiro ― Vamos plantar a cabeça dele lá!
golpe. Mas logo parou. E apontou para cima, para as celestiais al-
― Dói-lhe? turas. Os outros devolveram a estranheza. Que
― Quase nem. Porquê me pergunta? queria o velho dizer?
― É porque está sair sangue. ― Lá, na lua.
Já ela, desistida, arrumara o facão. Ele, es- E foi assim que, por estreia, um homem
gotado, pediu que alguém o destroncasse dali. passou a andar com a cabeça na lua. Nesse dia
“Me ajudem”, suplicou. Juntaram uns tantos, nasceu o primeiro poeta.
gentes da terra. Aquilo era assunto de campo- [199] [202]

53
Mia Couto

bol. Mas na bola ao cesto nós não estávamos


tão bem aquilatados. Aquilo era modalidade de
O fintabolista gente rica. Tanto estávamos desfasados que,
em meio de decisiva batalha, o nosso pivô inter-
rompeu a partida para perguntar ao árbitro se
não podia encestar com a cabeça.
Faltavam-nos jogadores altos. O nosso mais
alto era o Tony Candeeiro que era cardíaco —
[203] [204] tinha pouca válvula para muito coração. A mais
centimétrica corrida e já ele exibia um tom ar-
(“Ninguém pode imaginar a pequenez roxeado semelhando a flor do nenúfar. Pedía-
da minha cidadezinha. Lá, porém, há mos uma pausa para o Tony reganhar a visão e
gente que me dá os bons-dias.”) ele, passados segundos, interrompia a ofegação
para gemer um “continuemos!”.
Sempre onde chego é um lugar. Mas abrigo E lá seguíamos, perdendo sempre. A única
maior não encontrei senão nas paragens da vez que ganhámos nem demos por isso. O esfor-
memória. É lá que reside minha cidadezinha ço tinha sido tal que nem deitámos tento no re-
natal, que se acende devagarinhosa, como bar- sultado. Estavámos deitando fresco sobre o Tony
co saindo de um lodoso escuro. quando os adversários nos vieram congratular.
Esse lugar se senta em minha meninice Nós retorquimos, surpresos: “Ganhámos?!!”
como se o único território fosse o tempo. Esse Desistidos da elitista modalidade, regressa-
outro tempo escorria em obediência a secretos mos ao futebol, actividade mais a jeito da nossa
mandos de preguiça. Os acontecimentos do condição. E foi então que me vi convertido num
mundo ali aportavam sempre tarde, bem depois glorioso avançado de centro. Minha fama emergiu
de atravessarem distâncias tais que se desbota- numa jogada confusa — todas as jogadas para
va a realidade que lhes tinha ditado origem. mim eram confusas — quando um poderoso re-
As notícias da Europa nos chegavam como mate disparou a bola na minha direcção. Minha
tábuas de navios naufragados para além de única reacção foi proteger os óculos, fechando os
extensas neblinas. Essas novidades desembar- olhos e desviando a cabeça da trajectória.
cavam húmidas em nossas mãos, moldáveis à Por instantes, deixei de ver o estádio. Senti
nossa ideia. O tamanho e gravidade das acon- a bola raspar-me o penteado. Sonhe depois que
tecências éramos nós que ditávamos. Assim esse impensado reflexo tinha feito “anichar ca-
destrocado, o mundo parecia um brinquedo. prichosamente o esférico no fundo das redes
Engigantecidos ficámos foi quando o nosso adversárias”. Com estas palavras o meu feito se
patrício Eusébio fintou o universo até penetrar maiusculizou na história do meu bairro. No
nos relvados no Campeonato Mundial. Wem- final do jogo fui conduzido em ombros, me apli-
bley e Maracanã passaram a estadiozitos no caram a vitalícia braçadeira de capitão. Com
bairro da nossa infância. O nosso pé sonhava duvidoso mérito, ganhara o estatuto de coman-
em chuteiras e cada chuto disputava cabeça- dar a minha equipa e a honra do meu bairro.
lhos de jornais. De noite nos desenhávamos em Acontecia, no entanto, que a minha equipa
figura dos livrinhos de cromos. sofria de carência grave de rematadores. Passá-
Nesse tempo, a mais mundial das guerras vamos o jogo fintando de um ao outro lado do
era a que opunha o meu bairro aos restantes campo sem nunca nos decidirmos a rematar.
bairros da Beira. No centro desse conflito esta- Ainda adoptámos a táctica de chutar alto para
va o campeonato de futebol em que assanhá- aproveitar a altura do nosso Tony Candeeiro
vamos soco e batota. Ali estava a nossa honra, mas ele, com sua falta de válvula, assim que
partíamos de casa como fazem os guerreiros ao saltava, perdia a visão.
despedirem-se das famílias. “Falta-nos a concretização”, dizia o Senhor
Não que a futebolada fosse a única disputa. Herberto, nosso ilustre treinador, um goês cin-
Passámos por anterior batalha — o basquete- quentão que suspeitávamos nunca ter sequer

54
CONTOS DO NASCER DA TERRA

assistido a uma partida de futebol. Queixava-se Herberto respondeu que já tinha colocado
assim: “vocês só fintam, não rematam”. E suspi- no lugar combinado. “E a táctica?”, perguntou o
rava: “somos uma equipa de fintabolistas”. contratado, sempre aos pulinhos. A táctica her-
Entre esforçados empates e involuntárias vi- bertiana era a mais simples: “passar o esférico
tórias lá conseguimos chegar à finalíssima do imediatamente ao Chimbo de Marromou”. E lá
campeonato interbairros. O Senhor Herberto que começou o jogo.
estava sempre calado trouxe então a solução — Na primeira jogada, a bola vem a meus pés
que tinha ouvido falar que, na vila de Marromeu, e eu, ofuscado pelo sol, levanto a perna ao aca-
havia um jovem dotado de poderosíssimo rema- so. A bola toca no meu joelho, ganha efeito,
te. De tal modo, que era conhecido pelo “Chimbo passa por cima de dois adversários, e vai na
de Marromeu”. Com seu vertiginoso pontapé o direcção de Tony. Este salta e, obviamente, sem
moço já tinha derrubado postes e árvores e só de visão, cabeceia o esférico com a nuca. Atónitos
mencionar o seu nome os guarda-redes eram com a arquitectura destas trocas estavam o
acometidos de terrores imobilizantes. adversário, o público e, mais que todos, nós
A proposta era contratar o “Chimbo, pagan- próprios. A bola volta a ficar comigo e a nossa
do-lhe para que ele actuasse como avançado da claque urra, frenética:
nossa equipa”. A ideia foi como pedra em char- ― Passa ao Chimbo, passa ao Chimbo!”
co. Enviou-se logo mensagem para o mercenário Eu fiz a bola rolar para os pés do nosso sal-
rematador. A resposta veio célere: “Chego no vador. Ele não rematou logo. Deixou a bola pa-
próprio dia da grande final. Eis o meu preço — rar e, com estilo de exímio executante, deu uns
150 escudos. Pagos, claro, antes do encontro.” passinhos para trás para ganhar balanço. Um
Exultámos. O dinheiro era uma fortuna, silêncio se instalou em todo o campo como se o
mas nós cobriríamos a parada roubando afin- universo inteiro se atentasse no virtuosismo do
candamente as carteiras dos nossos velhos. O futebolista. O Chimbo, qual búfalo, deflagrou
optimismo era tal que deixámos de treinar. O um tropel em direcção à bola. O barulho dos
treinador disse que a imobilidade era boa con- seus passos e a poeira que se levantou à sua
selheira e os treinos só serviam para esfolar passagem foram tais que eu fechei os olhos. Es-
canela e gastar sapatilha. perava escutar o vigoroso bater da bola. Mas o
Na tarde da finalíssima o estádio estava re- tudo que ouvi foi um tímido “trrrrr”, igual a um
pleto. Até as miúdas lá estavam, com seus risos rasgão de roupa, uma costura se desfazendo.
e segredinhos. Já nos preparávamos para en- Quando reabri os olhos ainda vi a perna gorda
trar em campo e nem sombra do famoso do Chimbo chutando o ar e uma suspeitosa
“Chimbo”. Marromeu era longe, teria ele des- mancha castanha lhe surgindo nos calções. O
conseguido apanhar a carreira? mercenário rematara em falso, com impulso tal,
Mas eis que, no derradeiro instante, surge que se borrara em vergonhoso descuido.
garboso e portentoso o nosso avançado vindo O que se passou em seguida foi o maior
directamente das savanas de Marromeu. Vê-lo embaraço — o glorioso rematador saindo em
entrar em campo foi como um bálsamo para a soluços, rodeado por nós que parecíamos nem
nossa angústia. Ali estava ele, fardado diferente dar pelos odores castanhos que lhe escorriam
da nossa equipa, camisete azul-clara com estre- pelas pernas. Enquanto ele se retirava ainda
las prateadas que faiscavam ao fulgor do sol. um de nós balbuciou:
Penteado até à risca, o nosso precioso reforço ― Eh pá... e o nosso dinheiro?”
entrou em campo com aqueles saltinhos que só Contudo, já o mercenário escapava pelos
os grandes profissionais usam para aquecer o caniços que rodeavam o estádio. Me recordo
próprio corpo e o animo da multidão. O mais ainda de ver rebrilhar, entre as densas folha-
espantoso eram as pernas, cilindróides, tão gens, as estrelas prateadas do seu espantoso
grossas em baixo como em cima. O moço nem fardamento. Com o poente daquelas estrelas se
deu as confianças. Sem sequer nos olhar, con- extinguia a minha ilusão de ser campeão mun-
tinuando a saltitar, cochichou-nos: dial de futebol.
― O dinheiro, já têm?” [205] [210]

55
chiar os pesados portões. Nas trevas vai pisan-
do trevos.
A viúva nacional Pois naquela tarde, o chefe Azaria chamou
a velha e lhe deitou proibição: ela podia nunca
mais ali voltar.
― Mas eu, agora, já lembrei a campa. Não
viu eu rezar ali? Aquela é mesmo a do meu fale-
cido...
― Acabou conversa. Já dei ordem nos milícias.
[207] [208] A velha então desfiou um choro magrinho,
soluço de gota caindo em poço seco. Nem Aza-
ria notou, no começo, que ela chorava.
Ou foi Jesus que traiu Judas? Ninguém ― Me deixe vir aqui. É que eu não tenho mor-
pode saber. Se mesmo Deus passa o tempo a to para chorar. Todos tem seus mortos, só eu
provar que não existe! Pensamentos que fartam que não tenho. Me favoreça, Doutor.
a cabeça de Azaria Azar, director do Cemitério
Central. Ideias que endemoniam o juízo do fun- 2 - Ontem, oficialmente
cionário, outrora zeloso, agora acabranhado.
Verdade é como ninho de cobra: se confirma Ontem à tarde, o Vice-Adjunto, Dr. Maurício
apanhando não o ovo, mas a fatal picada. Salbuquerque, chegou ao cemitério em sua so-
― Culpa minha, quem me mandou?” — in- lene viatura. Vinha na véspera de uma função:
siste em aceno de cabeça. homenagear Herói da Revolução. Procurara
Afinal, quem quer fumo tem que juntar pa- candidato, até pagara. Mas não encontrara nin-
lha. Sentado na sombra de um cipreste, olha a guém, nem próprio nem parente. Nos tempos de
velha Donalena, onde tudo começou. E vai de- hoje quem quer se apresentar com os louros
sabrindo os recentes passados. vermelhos do leninismo?
Com o director do cemitério se acordou en-
1 - Ante e ontem contrar rápido um candidato a órfão, viúvo,
parente de herói. Azaria lembrou, então, a des-
Azaria Azar se resolveu nessa tarde. Iria in- lembrada Donalena. Ela havia de servir que
terditar Helena Cemitela, a velha visitadora dos nem peúga. Não fosse a incoincidência: ainda
defuntos. Não havia dia que a senhora não visi- ontem Azaria a expulsara. Contudo, o Vice-
tasse o cemitério, umas muitas florinhas lhe Adjunto insistiu: ele a fosse a procurar, quem
avulsando no regaço. Donalena, como era cha- sabe a velha desobedecera?
mada, desomenageava a morte. Como? Ela não ― Desobedecer a mim, Excelência? Com o
sabia qual campa devia honrar. Cada vez se devido respeito, eu só tenho recebido obediência
joelhava numa diferente. Dias havia em que até das instâncias inferiores.
rezava em mais que dez lápides. E todas as O Doutor teimou e Azaria lá foi, rarefeito,
campas eram, para ela, as do “falecido”. Até os procurar a improvável doida. Querem saber?
coveiros já suspeitavam se alguma vez chegara Donalena Cemitela lá estava, soletrando lápi-
de haver algum respectivo dela. Donalena se des, sempre em busca. Azaria chamou, ela mal-
perdoava: entendeu e desatou-se. Fugia a sete chãos. A-
― É que já esqueci bem-bem onde que é. zaria Azar agarrou-lhe e a conduziu à direcção.
A gente nasce grão, morre terra. Donalena, O Doutor Maurício olhou a mulher, antecipan-
pré-defunta, já cheira a tábua deitada. Criatura do triunfos.
roída pelo tempo, tão escaravelhota que só pode ― Você é esposa do malogrado?
ter saída de tumba. A velha desafia o Outono: ― Esposa por casamento, sim senhor.
cai a árvore e fica a folha? Entre as campas, ela ― Já lhe conheço de nome, isto é, nomeada-
se descampa até o céu dessorar, maligno. Só no mente: Donalena. Ora, até está como convém:
poente Donalena abandona o cemitério, fazendo Lena rima com quê? Com leninismo!

56
CONTOS DO NASCER DA TERRA

E o plano foi instaurado, instantâneo como ― A verdadeira?!


toda a mentira. Se encontrou uma campa devi- Estava ali, bem defronte. E apontou a ver-
damente incógnita. Se aldrabou lápide, às pres- dadeira e autêntica. A marcha se deteve, se de-
sas. E se convenceu a velha Donalena que seu positaram as flores em coroas, se entoaram hi-
marido morreu em plenos sacrifícios pela Revo- nos e orações. Os máximos prontuaram discur-
lução. E que ele pacificava ali, naquela precisa so — que ali jazia, o próprio, o mencionado, o
tumba. Donalena Cemitela estava sendo pro- supracitado. Azaria e Salbuquerque suspira-
movida a última dama, viúva nacional. vam alívios. No final, já as oficiais tristezas se
Quando chegou a comitiva oficial, se apre- recolhiam de regresso, a viúva puxou de volta a
sentou Azaria, portões oleados, muro pintado manga do dirigente máximo. Apontou uma ou-
de palavras de ordem do proletariado mundial. tra campa e disse:
Foi chamada a viúva. Houve banda, discurso, ― Oh, me enganei. Afinal, era aquela!
tiros de pólvora sonora. Donalena, com vestes E depois outra, outra e outra. Até ao grito
de empréstimo, recebeu as póstumas meda- final do Excelência. Até à ordem de despedi-
lhas. Então, lhe pediram que ela encabeçasse o mento de Azaria e companhia.
desfile fúnebre para a campa do falecido herói.
A marcha se alongou pelos carreiros, respeitosa 3 - Hoje, de novo
e lenta. Deu-se uma, duas, três voltas ao cemi-
tério. Andava-se em vertigem, já alguns mur- Sentado na entrada do seu ex-domínio, A-
muravam. O Excelência Máximo inquiriu sole- zaria Azar encara a viúva Donalena desfiando
nemente a viúva: entre as passadeiras. As medalhas lhe tilintam
― Afinal, onde está enterrado o seu falecido? no vestido negro. Passa-lhe, por momento, a
A viúva desenhou um gesto vago, circungi- raiva de matar a causadora de sua desgraceira.
rando o dedo por todo o cemitério. Seu marido Vai congeminando planos: desgargantear a ve-
estava enterrado em todas campas e em cada lha? Suspendurá-la em galho? É quando vê um
uma também. Azaria e Salbuquerque perdiam corvo pousar no ombro de Donalena. Azaria
as falas, afligidos. A Máxima Excelência desen- Azar sorri, se levanta e se encaminha para a
tendeu mas depois abriu um sorriso. “Pois, idosa mulher. Cavalheiro, lhe oferece o braço e
compreendo-lhe; é uma metáfora: o povo inteiro é sussurra:
que é herói. Mas agora, camarada viuva, agora ― Eu lhe guio Donalena, eu lhe mostro a sua
necessitamos de uma única sepultura, apenas a campa...
verdadeiramente única”. [213] [218]

57
Mia Couto

Ludmilo somente fingia atenção. Hoje em


dia, basta alguém saber escutar para fazer ve-
A sentença do fogo zes de padre. Afinal e porém, o salteador vinha
ali pedir o indevido perdão, nem que fosse à
custa de ameaça.
― Padre: não é ingresso no Céu, não. Quero
é ser transferido no inferno.
Que ali, naquele inferno terrestre, ele já não
podia permanecer, familiar dos bichos, num
[207] [208] berro sem saída. Pois, nem já se sabia: ele era
um fora-da-lei ou um da lei-de-fora?
― Mesmo eu já fui prometido a aminhistia, ou
― Padre: me dê a dissolvição. minitia ou tia de não sei quem. Prometeram, Pa-
O padre Ludmilo nem corrigiu. Se fosse a dre. Bastava eu me entregar com minha arma.
corrigir, disse ele mais tarde, teria que corrigir O sacerdote permanecia boquifechado, e-
não a frase mas o homem. Pois, o visitante em- xemplo de religioso não praticante, servidor de
briaguava a completa mistura da língua, aos Deus a tempo parcial.
tropeços nas rezas: “patrão nosso que estais no ― Está-me ouvir, senhor Padre?
Céu, o pão vosso de cada dia, Deus seja lavado”. Acenou que sim, simplesmente meditava,
Era um delituoso, se via pelo aspecto. Se infeliz contemplado em troca de segredos com
dispunha na sagrada casa de Deus cheio de Deus. Disse que a ligação com o Paraíso estava
sem-maneiras, desacatador. Enquanto amole- difícil, causa das interferências dos disparos da
cia conversa, o padre espreitava o confessionis- guerra. O moço que procedesse à devida confis-
ta. E reparou a catana presa na botifarra do são, sem saltar nenhum tintim.
jovem bandido. O bandido avançou então a lista de com-
Mas o pecador não estava só. À entrada, em pridos crimes, em sanguechuva. Nem o Padre
contraluz, se via o contorno de um outro foragi- imaginava como a maldade pode ser criativa.
do. A pele desse outro parecia ser clara, seus Por exemplo, como com um só pilão se pode
cabelos aparentavam carapinha mas de mulato. matar toda a família: o velho batido com o pau,
O padre Ludmilo não lhe podia enxergar o rosto. a mãe obrigada pilar o próprio filho e, no enfim,
Em contrapartida, distintas eram as faça- a mãe violentada até ao derradeiro desfalecer.
nhudas feições deste que se joelhava à sua No fim da confissão, o Padre estava de cabeça
frente. Distintos não eram, porém, seus ditos: baixa, parecia dormitoso, indiferente.
“Deus é bonito de não lhe vermos, Padre. Mesmo ― Padre?
eu estou negar de ir para o Céu para não sofrer Ludmilo levantou lentamente a cabeça: em
desilusão”. Dizia e redizia os díspares dispara- seu rosto rebrilhava a lágrima. A voz, quando
tes. E juntava mais ímpias dicções: lhe veio, já tinha subido paredes húmidas:
― Problema de Deus, com devido respeito, é ― Não te posso perdoar, meu grande cabrão.
dormir encostado no rabo do Diabo. O mautrapilho, primeiro, se admirou. Chove-
O que queria afinal o mautrapilho, botifar- ram mais insultos, o sacerdote perdera as estri-
rista? O Padre nem parecia se interessar. Boce- beiras. O bandido, passada a surpresa, se ofen-
jou, fatigado. Aquele homem se resumia num deu. Levantou-se, espreitou pelo postigo como
amante da desordem, autor de matanças e mas- que a confirmar o Padre. Depois, empurrou a
sacres. Seu coração nunca fora mobilado, nem janela do confessionário até fazer saltar as do-
seu nome conhecera chamamento carinhoso. bradiças.
― A Igreja, antes, me faria medo, Padre. Pa- ― Me chamaste o quê? Repete!
recia sítio que dá doença imediata. E as mãos se prendiam à sotaina, levan-
― Doença? tando o Padre pelos goelos. No ar brilhou a re-
― Sim, as pessoas entram e logo-logo fraque- pentina cintilação de uma catana.
jam das pernas. Até caem de joelhos. ― Vais me perdoar ou eu te separo em postas.

58
CONTOS DO NASCER DA TERRA

O Padre balbuciou algum latim. O bandido dias se romoeu: precisava falar com Ludmilo,
lhe encostou o hálito ao nariz e perguntou: lhe pedir a fraqueza da franqueza.
― Disseste o quê? Mas o Padre evitava encontrar-se com ele.
― Falei latim, língua dos anjos. Uma tarde, o sacristão procedia a suas orações
― Fala outra língua, os anjos são todos quando o mesmo bandido deu entrada na sa-
brancos, não quero dividir língua com eles. cristia. Vinha só, malcheirento. O miúdo estre-
― Põe o Padre no chão ou te ferro um tiro! meceu em impotente ódio. O Padre se encami-
Era a voz vinda da porta, o outro bandido nhou para o visitante, cumprimentaram-se. O
falava de arma apontada. O negro abrandou as bandido entregou um saco:
ameaças, soltando o religioso. Ficaram-se o- ― Estão aqui as coisas. Está ver? Não esqueci!
lhando, sem nenhum entendimento. O visitante O Padre agradeceu e mastigou alguma con-
rodou sobre si, foi saindo com modos lentos, versa. O sacristão nada pôde escutar. Certa-
acertando o corpo com o eco de seus próprios mente, o Padre extravagava, nessa inacreditável
passos. De repente, o Padre chamou: cumplicidade com as forças do Mal. O assassi-
― Chega aqui, meu filho. Quero-te falar uma no, então, se decidiu retirar. Queria aproveitar
coisa. o caminho estar deserto, nem vivalma com ele
O bandido voltou atrás, mão no cinturão. se cruzara. O Padre lhe aconselhou que, antes,
Seu olhar reganhara a arrogância, ele era, de prestasse homenagem defronte ao altar. O ou-
novo, dono de medos alheios. tro acedeu, a catana roçando o chão em metáli-
― É o quê, senhor Padre? cas estridências. Ludmilo se encaminhou para
― É que temos falta de comida para distribu- as pesadas portadas e abriu-as de rompante.
ir aqui na missão. Fazia falta uns sacos de mi- Foi um estremecer do mundo. Vozes e ala-
lho, não arranjas por aí nada? ridos deflagraram, em fracção de nada. Lá fora
O bandoleiro estranhou. Depois, largou uma uma multidão se apinhava reclamando justiça
ampla risada: arranja-se, sim senhor. Aproxi- contra o maufeitor. O sacristão se benzeu, des-
mou-se para que ninguém mais o escutasse: falecido em medo. O bandido se rebuliu, em
― Deixa só passar o primeiro camião. Des- terrores. Correu para o Padre, lhe implorou
ses que trazem donativos. protecção. Nas mãos do povo sua vida se extin-
E saiu, junto com o outro. O Padre, em tre- guiria em sopro de vela. O Padre pousou as
jeito risonho, virou os olhos para cima e disse: mãos sobre os ombros do desordeiro:
― Desculpa, meu Pai. ― Vem comigo, não receies. Eu não deixo que
O sacristão que escutara estes últimos diálo- te façam mal!
gos se chegou ao Padre. Seus olhos lhe interroga- E assomando à porta, trazendo o maufeitor
vam. Como era possível ele se ligar a tal gente, pelo braço, o sacerdote levantou um gesto para
encomendar crimes a um larápio? Ludmilo igno- calar as fúrias. Vazou-se um silêncio. As pala-
rou explicação e se encaminhou para a sacristia. vras de Ludmilo se anunciavam a esmorecer os
O sacristão, chorando, lhe segurou pelas vestes: arrebatamentos:
― Padre, responda! Como pode encomendar ― Irmãos, lembrai-vos dos ensinamentos de
coisas roubadas ao pobre povo? Cristo, nosso redentor!
Ludmilo parou, rodou para encarar o moço. E sempre avançando para o interior da
Parecia querer responder, mas se fechou em concha humana, continuou relembrando a li-
silêncio. O Padre prosseguiu o caminho inter- ção de Jesus, seu exemplo de nobre justiça. De
rompido, passando pelo altar sem deitar ao súbito, com um empurrão lançou o criminoso
chão os devotos joelhos. para o meio da multidão enquanto clamava, em
O sacristão se recolheu atónito, sangrando sumária sentença:
os mais tristes pensamentos. Como podia o Pa- ― Queimai-o!
dre ter solicitado o favor de produtos furtados, A enfurecida gente arremessou contra o
frutos do mais hediondo crime? Com certeza, condenado, batendo, pontapinhando, espirran-
parte daquilo de que ele já se servira na Igreja do e cuspindo. O Padre entrou na igreja fe-
provinha de iguais indecências. Nos seguintes chando a porta atrás de si. [221] [228]

59
Formigas transportam infinitamente a terra.
Miudádivas, pensatempos Estarão mudando eternamente de planeta?
(“Para Manoel de Barros, meu ensinador Estarão engolindo o mundo?
de ignorâncias”)
Insectos sonham ser olhados pelo sol.
Mas só a chama da vela os vela.
Já o ovo é iluminado por dentro,
tocado pela luz do infinito.
[229] [230] O ovo repete o total início,
redundante gravidez do mundo.

Estou sem texto, enriquecido de nada. A- Por isso, este surpreendido ovo
qui, na margem de uma floresta em Niassa, me não tem competência para meu jantar.
desbicho sem vontades para humanidades. En- Pena o estômago não entender poesias.
tendo só de raízes, vésperas de flor. Me comun-
go de térmites, socorrido pela construção do Nada se parece tanto: poente e amanhecer.
chão. No último suspiro do poente é que podem Defeitos na tela do firmamento?
existir todos sóis. Essa é minha hora: me ilimi- Instantâneas aves,
to a morcego. Já não me pesam cidades, o te- pedras que se despoentam.
lhado deixa de estar suspenso ao inverso em A noite acende o escuro.
minhas asas. Me lanço nessa enseada de luz, Tudo semelha tudo.
vermelhos desocupados pelo dia. Só a coruja atrapalha a eternidade.
Nesse entardecer de tudo vou empobrecen-
do de palavras. Não tenho afilhamento com o Está chovendo horas,
papel, estou pronto para ascender a humidade, a água está a ganhar-me semelhanças.
simples desenho de ausência. Na tenda onde Escuto ventos,
me resguardo me chegam, soltas e díspares, de derrames de céu.
visões, pensatempos, proesias. Assim, em miu-
dádivas ao poeta: Parecem-me luas e são lábios.
Lembranças de minha amada.
A primavera cabe dentro do grilo. A tua boca me ilude, sou culpado de teu corpo.
Cigarras se alfabetizam de silêncios. Saudade: sou mais tu que tu.
No liso da parede,
a osga se prepara para transparências, Escuto, depois, a enchente.
adquire a forma do nada. Longe, a água desobedece a paisagens.
Enquanto o ramo vai transitando para camaleão. O rio toma banho de troncos,
raízes da água se soltam.
Na mafurreira, Sigo de catarata, luz encharcada.
sobem ninhos de arribação, ovos do arco-íris. E peço desculpa à margem:
A aranha confunde madrugada com sótão, desconhecia as unhas de minha transbordância.
artefactando materiais de orvalho. Meu sonho está cego para razões.
Ela se mantimenta de esperas. Sei só escrever palavras que não há.
Minha tenda se engrandece a teia.
Depois, o sono me encaracola:
Uma mosca se inadverte na armadilha. estou a ser pensado por pedras,
Igual o amor me habilito a chão, o desfuturo.
que me rouba mecanismos de viver. [231] [234]

60
CONTOS DO NASCER DA TERRA

penas a jovem, sonhatriz, em suspiros mais


leves que osso de morcego.
O chão, o colchão e a colchoa Nem ela notou a chegada da noite. Xavier
saía e entrava a sacudir o cachimbo no pátio.
Numa dessas saídas deu pela presença dela.
Primeiro não decifrou sombras, desfolhou cau-
telas. Depois, ele aproximou intimidade, abe-
lhoso. Duas cadeiras se arrastaram para assen-
tar o tempo. O mineiro alargou as falas, endo-
[235] [236] mingando conversa.
― Você nem sabe imaginar as terras onde
trabalhei! Lá não há pobre diabo. Sim, lá até o
Xavier Zandamela foi lá, nas minas, se au- diabo é rico!
sentou. Onde ficou, subterráqueo, vencimen- Conversa puxa silêncio e a menina se fan-
tou-se bem. Voltou diferente, sem respeitoso. tasiava, natalícia. Nunca ninguém lhe lustrara
Cuspindo na sombra dos outros, armando. Ele tantos tentos e atentos. Amendoinha, despos-
foi chamado na atenção: dando nas vistas de suída, parecia a Eva sem maçã.
um cego? Se ficara rico deveria dividir. Manda a Xavier adiantou convicto convite: ela que
tradição: quem engorda sozinho morre de vas- entrasse a experimentar o colchão. Passos é-
tas magrezas. Ao que respondeu Xavier: brios, ela foi entrando. E sucedeu-se: o colchão
― Eu não sou um qualquer, tradicional. Mes- cumpriu seu destino. Estreou-se o objecto e a
mo já vou dormir em colchão. menina. Ficou um sanguezinho, vermelho mi-
E explicou: ainda ele se esteirava na húmi- núsculo a manchar a esponja do colchão.
da humildade do chão. Mas era por um en- No dia seguinte, começou vozearia na aldei-
quanto. Pois o seu colchão estava no caminho a: a nuvem é maior que o sol? A Xavier Zanda-
de vir, quase chegando. mela lhe pesava o céu de tanto ser mencionado.
― Contra factos só há argumentos. Eram as falas:
E, de facto. Aconteceu nessa semana quan- ― O sapo incha por não dividir. Agora ele
do o comboio transfumou-se na estação, des- quer dormir sozinho em tanto colchão?
pulmonado. Saíram os magaíças, saiu a merca- ― Esse é que o calcanhar: o gajo não deitou
doria. E entre as descarregações desceu o men- sozinho!
cionado colchão. O povo estava ali para teste- ― Acolchoou-se com alguém?
munhar. Xavier, inchado, dava ordens de cui- Era urgente fechar o pio, para abrir o cor-
dados. Que atentassem também no armário. rupio: Xavier tratou-se de casar com Amendoi-
― Me tratem bem esse arrumário. nha. E os dois conjugaram-se, em dia-a-noite.
Ele não punha mão no carrego. Suores ma- Porém, aquela felicidade se contou pelos dias.
nuais não eram da sua estatura. Acontece que O mineiro revelou seus fundos violentos. Volta
entre a multidão figurava Maria Amendoinha e volta ele batia na recente esposa. Xavier quis
que logo, em imediato coração, desembarcou lavar a boca e sujou o sabão. Porque aconteceu
nos olhos do Xavier. A moça escutava, embeven- então o imediato seguinte: altas horas a mulher
cida, o ex-mineiro a papagaiar pela estação dos acordava, escutando barulhos vivos dentro do
caminhos-de-ferro. Que eu e eu, que isto multi- colchão. Depois já não eram apenas sons, mas
plicado por aquilo, noves fora eu. coisa apalpável. Amendoinha começou a colo-
A mercadoria subiu num tchova e o povo car hipótese de maldição.
seguiu o carrego em procissão. Maria Amendoi- ― Marido: há bicho andante aqui dentro!
nha seguia na cauda, absorta, coração em pen- ― Isso nem se menciona, advertia Xavier.
samento. O cortejo chegou a casa de Zandame- “Somos alguns irracionáveis, igual a essa pova-
la, a carga foi nivelada no rés-da-terra e trans- ria do subúrbio?”
postada para os interiores. Do lado de lá, os Amendoinha não se resignava. Se não era
curiosos se fatigaram e dispersaram. Ficou a- igual ao povo seria idêntica a quem? O marido

61
Mia Couto

aumentava-se, mas aquilo era corpo de imbon- o adventício ser. Apenas sente que as formas do
deiro. Ela já vira o engano: molhado, o leopardo colchão se lhe amoldam: há duas concavidades,
não é mais que um gato-bravo. Bem diz o pro- uma ao lado da outra. Seria que o colchão sen-
vérbio: a lua morre e é grande enquanto as es- tiria saudade da ausente esposa?
trelas, ainda que pequenitas, ficam a brilhar. Até que uma noite, sonhava ele através de
― Pois, a partir de agora, você troca colchão amores muito sexuais, quando na carícia do
por esteira. lençol reconhece o volume de seios, polpudas
― Mas esses barulhos, Xavier... proeminências debaixo do seu corpo. Quem
― Mas quais barulhos, santo e deus! Se eu estava ali, afinal? Nem ousou acender as luzes,
não escuto nada? fosse a aparecência se extinguir. Aceitava aque-
― Se não vêm do colchão é porque, pior, es- la conversão de bom agrado.
tão a vir da minha cabeça. A partir de então, o colchão se convertia em
Isso, sim. Xavier admitia, rindo. Mas aque- mulher, na mulher em que sonhava. Cada noite
las gargalhadas eram alegria sem carne: se via Xavier procedia a mais avanços, com tacto e
através delas o nervo do medo. Os barulhos beijo. A mulher — será que lhe poderia chamar
prosseguiam, quotinocturnos. Mesmo deitada assim? —, a mulher vinha da sobrenatureza e
na esteira, Amendoinha passava noites em cla- lhe dava um pedacito mais de acesso. Mas sem
ridade. chegar a vias do facto. Ao despertar, Xavier se
Ao longo de tanta insónia, ficou zonza- son- satisfazia. E sorriam recíprocos, ele e a manhã.
sa, coxeando da razão. E já não prestava res- Afinal, por que real motivo se necessita mulher
peitos ao seu legítimo. Xavier, despeitado, lhe no lado de cá da verdade?
incrementou nos arraiais. Batia com mais e Até que uma noite ele se preparou, perfu-
mais violência. “Nem é por maldade: arreio-lhe mes e pijama lavado. Aquela noite, sim. Aquela
para ela ficar cansadinha e dormir melhor”, di- noite, ele visitaria o íntimo daquela promessa.
zia o mineiro. Fechava o punho e, enquanto E assim aconteceu. Beijo e escuro, suspiro e
amassava o corpo da mulher, comentava: silêncio. No êxtase, Xavier se viu dizendo ines-
― Amendoinha, é você; eu sou o pilão. peradas palavras:
A família de Maria Amendoinha veio-lhe ― Amendoinha!
buscar-lhe ela já não acertava o pé no passo. O De repente, o colchão se revolteou, envol-
pai de Amendoinha passou o olhar fatalício pelo vendo o mineiro. Carnes e esponjas, braços e
quarto dos separados de fresco, ditando: panos se entrerodilharam. O corpo do homem
― Aqui cheira a coisa parindo. foi perdendo formato, em dissolvição. Quando
E tinha razão. Pois, no ventre do colchão, dele não restavam senão avulsos botões de pi-
daquela manchazita de sangue, estava nascen- jama se escutaram passos entrando pelo quar-
do aparente criatura, o desabrochar de maldi- to. E Xavier Zandamela ainda sentiu apressa-
ção. das mãos enrolando o colchão e o carregando
Xavier Zandamela quando se deita, sozinho pela noite afora.
e triste como gato que perdeu a rua, nem nota [237] [242]

62
CONTOS DO NASCER DA TERRA

― Engano seu: o mato não está seco. Apenas


vazou o verde, apenas engordou o amarelo.
A palmeira de Nguézi ― Conversa afiada.
Os filhos desistiram. A Canhoto lhe custava
simplesmente existir. Morrer é fácil, difícil é
existir-se morto, simplesmente havido, quieto e
inestudável. E mais, aliás, menos nada. Tonico
ficara assim desde que sua mulher Razia desa-
parecera, ida sabe-se com quem, desconhece-se
[243] [244] para onde. Fora há uns anos, mas a ferida era
ainda maior que a cicatriz. Quando sucedeu,
nesse tempo em que tudo era tudo, Canhoto
No lugar de Nguézi há uma palmeira sagra- anunciou aos numerosos filhos:
da, dizem que nascida antes do mundo. Do ― Vossa mãe, meus filhos. Vossa mãe, ela
colmo pende um único fruto, de aparência es- faleceu.
tranha e que nunca pode ser olhado. Porque, Todos sabiam que era mentira. Ela tinha
segundo a lenda, os olhos que ali apontem se desistido de constar, tentada em mulherar-se
enchem de estrelas mais que as que poeiram a em outros lugares. Deixado o marido em órfã
própria noite. viuvez, desconsolado.
A razão dessa palmeira, vertida sobre as á- Tinha-se passado tempo, os miúdos cresce-
guas do rio, se transcreve aqui. Nem tudo se ram, se graúdaram e se graduaram em pais e
explica, para que se compreenda melhor. Para mães. O que sobrava agora eram netos. Naque-
ver a gente necessita transparência, mas se tudo la tarde, fazia anos que a avó saíra. Falecera,
fosse transparente todos seríamos cegos. Ficará como dizia o avô Canhoto. A família se juntava,
a saber-se: em tempos de apocalipse o histórico como era costume.
se converte em religioso. E vice-versa. A crença A netaria espalhava algazarras e a alegria
da palmeira sagrada nasceu de um facto trope- barulhava pela varanda. Mas, o velho Tonico
çando num acontecimento. Canhoto se debruçava triste sobre a paliçada.
Estava o mundo numa tarde, dessas de Em seu magro corpo já não cabia mais angús-
lamber o tempo. Na varanda se dispunha Toni- tia. Os filhos tentaram distrair a tentação dessa
co Canhoto. Quem o visse parecia ele estava na tristeza. Em vão. O homem já havia se decidido
simples disposição de estar, sereno e demorado que a sua vida era sem depois. Nada enfeitava a
em existir. Para o Canhoto era sempre o mes- sua esperança. Todos calaram quando ele a-
mo: o tempo, nestes dias, está muito depressa. nunciou:
Convém a gente se resguardar. ― Vou daqui ao rio.
Mas, por dentro, o nosso varandeante se aba- Todos lhe adivinharam o intento: ele se iria
tia a abismos. Talvez era a monotonia do campo, deixar tombar, encher-se de líquido até se en-
esse morre-morre de esperar e ficar à espera. Tal- sopar como se o dele corpo fosse roupa, ido na
vez era esse o motivo de seu esmorecimento. corrente, nem corpo nem alma.
― Pai, há-de haver acontecimento, o senhor Ainda o tentaram desvanecer. Mas o velho
vai ver. tinha dado de testa naquela decisão.
― Vocês não entendem, filhos. Eu não careço E assim se ergueu, perante a numerosa
de acontecimentos, não. Eu pretendo é uma re- família, todos assistindo o ancião se afastar'
velação. converso em bruma. Chegado à margem, levan-
Uma revelação? A outra filha se aproximou e tou os braços e assim, imóvel como pau de vela,
tentou um consolo. E lhe perguntou: já ele olha- as roupas lhe começaram a cair, desabadas por
ra quanta árvore, quanta extensão pelos aís fo- forças nenhumas, só por via de seu magro pe-
ras? so. A sua gente o viu nu, completamente. Cons-
― Se não vejo? Vejo o mato todo, em volta. taram, no momento, que seu corpo se manti-
Está tudo morto, tudo seco. nha de músculo e lustro, a idade se concentra-

63
Mia Couto

ra apenas em sua cabeça. Ficou um tempo lhe sobrava. O velho Canhoto que sempre fora
nessa espécie de despedida, Cristo sem crucifi- acusado de não ter essa parte de si vivia agora
xo. Ou simples esquecido talvez do passo pró- exclusivamente de sua cabeça. O resto, já nem
ximo? lhe restava. Todo ele aprendera a ciência de ser
Nesse entretempo, o lugar se apoclipsou. A raiz, o orgânico sem organismo. De noite, um
terra, em desfecho de estrondos, se estremeceu. cacimbito. De dia, as grainhas de uma ventani-
Em basaltos e baixos, esguichos de água fer- a. Assim ele se mantinha, feito único receptá-
vente e fogos de martifício, estrelas rebentavam culo onda a vida ainda se entesourava.
como borbulhas na superfície do rio. A casa, Foi quando, no fundo do sem-fim, uma an-
junto com seu tecto, insubstanciou-se e ruiu, dorinha riscou o céu. Feita de conta um dese-
chão no chão. Os familiares todos se sepulta- nho torto, um rabisco tonto de um menino, no
ram, sem espirro nem respiro, apagados, apa- brevíssimo instante do arrependimento e da
guados. borracha. A avezinha, transmeteórica, como
Sobrou quem? O velho Canhoto, próprio. uma foice negra ceifou os ares. Voava mais rá-
Ele vira a terra se rachar por baixo dos pés, as pido que vivia? Estranhamente, a andorinha
duas metadas se abrirem como lábios. Nessa pousou na cabeça do velho. Fincou as patas,
greta ele se afundou, pronto a ser engolido, tre- unhando-lhe a testa, sujando-lhe o cabelo.
voso e súbito. Mas no momento em que seu O passarito piou, rodopiou e, por fim, me-
corpo perdia o pé, a terra se volveu a fechar, teu o bico nos lábios secos do velho. Lhe dava,
ajustada ao corpo. Ficou-lhe só a cabeça de se imagine, uma naco de água, qualquerzita
fora. Tudo o resto estava encravado em pedra, migalha. O bico beijou o lábio, o lábio bicou o
rocha, raiz, sobra do mundo. Mexer um dedo, pássaro: dúzias de vezes, repetidas. O velho
dedículo que fosse, lhe era impossível. O velho perguntou, lábios rasos de silêncio:
rodou a cabeça para avistar em volta. Nada, ― É você, Razia?
nem rio nem árvore, nem gente. Só chão, poei- A ave toda a noite debicou o pescoço de
ra, remoinhos de folhas mortas. Canhoto. Dizem que, desse mesmo pescoço,
― Deus me proíbe? ascendeu a matéria do colmo, dos cabelos bro-
Chorou. Sem tristeza, só para arrefecer o tou a folhagem, dos olhos nasceu a florescên-
rosto, deixar a carícia da água lhe premiar a cia. Tudo em jeito de árvore, palmeira e sagra-
boca. O sol nasceu, esmoreceu, se ocasionou. E da.
dia. E noite. E fome. E sede. Já nem lágrima [245] [250]

64
CONTOS DO NASCER DA TERRA

sempre de olhos no chão!” Esse mufana foi é


mal-olhado. Até me arrepia, parece o olho dele
Cataratas do céu tem medo da pálpebra.
Uma noite, o tio estremunhou-se. Acordou
a mulher e lhe revelou suas sonâmbulas refle-
xões: “eu sei o que sucede com ele, esse nosso
sobrinhito não é um deslocado de guerra. A
guerra é que deslocou-se para dentro dele. E
agora, como tirar a guerra de lá dos interiores,
[251] [252] como desalojar a malvada lá das províncias da
sua alma? Não há comissão governamental, nem
missão das Nações Unidas. Não há departamen-
(“Quando não se pode tomar decisões to para esse caso”. A mulher cortou:
só se tomam decisões erradas.”) ― Por que não me deixa titiar esse menino
Autor ilegível sozinha?
O homem nem respondeu. Levantou-se e foi
ao quarto do sobrinho. E lhe falou assim:
Levaram o menino a ver o aeroporto. Vesti- ― Amanhãzinha vais ver aviões adiante do
ram-no de domingo, engomaram sua alma, lus- céu, barulharem até te encheres de ouvidos.
traram seu pé. De mão dada, ele entrou no Meio oculto no lençol, o miúdo antecipava
chapa. O tio desconferiu uma riqueza de notas. temores. O tio nem dava as confianças: “veja
Tudo em sorrisos, como se tudo aquilo fosse sobrinho, até já entrei num desses bichos”.
cumprir de promessa. ― Entrou?
O menino era desses que a guerra deslocou ― E como entrei! Tua tia até chorou. Se tive
não só de endereço mas de vida. Vinha de lá, medo? Nem medo, nem receio. Eles é que tive-
onde a terra desfaz fronteira com outras terras. ram medo de mim. Por isso me amarraram logo
Nesse seu lugarinho tudo era sossegoso, até o na cadeira.
tempo ali ganhava vastas preguiças. Retornado ao seu quarto, o tio inchou uma
Agora, em casa dos tios, o menino só en- esperteza vaidosa no peito: “o que ele precisa é
contrava espantos no rumor da cidade. Certa o céu se abrir para ele. Compreende, mulher? A
vez, o rapaz entrou em casa, afogueado: um terra está cheia de ferida, não traz consolo nem
avião atravessara as nuvens, em cima. O tio lhe ombro para ninguém. O céu é que, agora, tem
perguntou: “mas nunca viu, nem cheirou baru- que se abrir para ele”. A esposa sacudiu a cabe-
lho no ar?” Nada. O céu de lá era muito desqua- ça, receosa.
lificado, nele nunca riscara nenhum avião. Agora, desembarcando em pleno aeroporto,
Com o tempo, a família começou a se preo- o menino lantejolhava em redor. Tudo era so-
cupar com a cabisbaixeza da criança, sempre nho. Seus olhos se abasteciam de súbitas e in-
de olhos minhocando o chão. No início, ele nem finitas visões. Não falou, não sorriu. O tio, à
queria sair de casa. O tio se maçava, o coração distância, comentava: “o miúdo está em estado,
lhe subia à cabeça. coitadito”.
― Um dia esse miúdo vai-se chocar com a Chegada a hora do deitar, ele permaneceu
vida! sentado, mais rígido que a tábua da cama. A tia
“Deixa-lhe, marido”: era conselho da velha lhe reservou um carinho:
tia. Ela entendia de feridas e sofrências. Quan- ― Que tu tens, meu filho?
do o pão é magro quem escasseia é o homem. E ele, então, falou. Disse muito oficialmen-
Sabe-se o que aquele menino passara, lá de te:
onde vinha? O marido que se dispensasse. A- ― Quero ser um avião!
quilo era assunto de ternura e mãe. Manhã seguinte, todos se riam. A tia lem-
O tio reagia: “como deixo? Será que esse brava a solenidade da declaração. Não queria
menino não tem jeito nem para viver? Sempre e ser piloto, técnico espacial, mecânico especial,

65
Mia Couto

ou mesmo simples passageiro. Nada. Avião, era Chegado ao aeroporto o menino olhou extasiado
o que ele queria ser. O tio acrescentou piada: seus companheiros de espécie, as aeronaves. E
― Quer ser Boeing ou DC 10? desatou correndo, roncando seus fantasiosos
O miúdo não entendeu a graça. No fundo, motores. Olhando a criança correndo de encon-
ele já se tinha todo ele decidido. E nunca mais tro ao sol, o tio até se lagrimava, comovido:
da sua boca se escutou sílaba que fosse. Se ― Veja, veja como ele brinca!
insulou no quarto, sentado, imovente. Os bra- E assim ganhando mais e mais velocidade,
ços cumpriam ordem de serem asas, o corpo braços cruzando o sonho, o menino se confun-
duro, quase metálico. Deixou de comer, deixou dia, a contraluz, com o fogo inteiro do poente.
de beber. A custo a tia lhe insistia, apontando Seria, no instante, que o céu se abria para a-
um copo: quela criaturita?
― Vá, meu filho, isso aqui é combustível! Pupila esgrimando o sol, o tio deixou de ver
Mil vezes o tio lhe falou, em várias tenta- o miúdo. Apenas uma mancha, sombra súbita
ções e tentativas: cruzando os ares. Ainda acreditou ser um pás-
― Não prefere ser um pássaro, vivinho de a- saro que lançava seu voo da varanda para o
legrias? distante chão. Nesse momento ele aprendia que
Tudo irresultava. Resolveram conduzi-lo de o céu está padecendo de cataratas, repentinas
novo ao aeroporto. Todo o caminho, o miúdo névoas que impedem Deus de nos espreitar.
seguiu de braços abertos, fixo que nem aço. [253] [256]

66
CONTOS DO NASCER DA TERRA

timental? Quem sabe a raiva disso que lhe


chamavam ainda estava por vir? Marlisa enco-
Ossos lhia os ombros, sacudindo o peso das pergun-
tas. Se ajoelhou junto ao caveiroso e pediu:
― Posso acompanhá-lo de viver?
Ele não respondeu mais que um riso triste.
Lhe escapou uma lágrima. Desceu cansada pe-
lo rosto, gota em pedra, orvalho em muro bran-
co. A mulher lhe acariciou sua pele mineral. E
[257] [258] ele se arrepiou por dentro. Ela sorriu, confir-
mado que estava seu poder de estremecer o
dentro de carapaça. E ela insistiu, bailarinhan-
Começou por se sentir magro. Os ossos lhe do os dedos sobre a cascadura dele. Se aplicava
roçavam a pele. Sem que ele desse sentido o em lhe renascer doçuras.
esqueleto lhe crescia por dentro. Crescia sem o ― Não vale a pena, Marlisa.
que o restante corpo acompanhasse. Os ossos ― Ternura mole em corpo duro tanto dá até
inchavam, como casca sobre casca. No princí- que...
pio, as ósseas increscências lhe faziam cócegas. O resto do provérbio ela trocou de esquecer.
E ele ria, ria, ria. Para espanto dos outros que Com a ponta de um canivete ela inscrevia o seu
não encontravam a aparência de um motivo. nome na carapaça do namorado enquanto ia
Depois, a coisa lhe trouxe incomodação. Seria o soletrando:
quê, ele se perguntava. Róimatismo? A ossadu- ― M-a-r-l-i...
ra provocava comichão, o crescimento das apó- Até que, certa vez, ela o levou a passear
fises lhe raspava a carne. O raspar cedo se tor- num parque. Sentaram num banco e ficaram a
nou em rasgar. olhar, ela para o céu, ele para o chão. Passado
As pessoas lhe viam o despontar dos ossos, muito silêncio ele suspirou:
cotovelos se acotovelando por todo corpo. E lhe ― Agora estou muito propenso a morrer.
estranhavam tanta magreza. Ele que sempre Marlisa não entendia nem tentava. Ele, en-
fora estrelante seguia, agora, de rota abatida. tão, ordenou:
Espaventado, escaleno e anguloso. ― Me deixe aqui.
― Você não estará com a doença? ― Aqui, como?
Mas o mistério era o seguinte: quanto mais ― Vá para casa e me deixe aqui.
magro mais ele pesava. A balança ponteirava ― Aqui, sozinho? Ainda alguém lhe vai pisar!
sem piedade: o peso flechava cada vez mais. ― Agora estou todo eu dentro de mim: como
― Já me pesa a caveira. me podem magoar?
Lhe cresceu tanto o esqueleto que os ossos Ela regressou sozinha, saltitando e entoan-
lhe começaram a recobrir a carne. Ele perdia as do ladainhas. No dia seguinte, de manhã cedo,
cores, placas brancas e duras lhe revestiam por ela voltou ao parque e atirou uma migalhas
inteiro. Em pouco tempo, se entartarugou. Seu pelos canteiros. Sentou-se no banco e ficou o-
aspecto era tanto que as pessoas fugiam. Pas- lhando o céu até sentir que por debaixo dos pés
sou a andar devagar e arrastoso. Mãos e pés no a terra parecia se mover. Deitou-se no chão, se
chão. Ele que sempre fora bom generoso como embrulhando no curto vestido. Falava, dizem
fonte, perdia agora companhias. Os amigos lhe que sozinha. Recolheram a moça, já ela ador-
fugiam como diabo em diante da cruz. mecida em plena terra.
Até que Marlisa, uma dada a tonta, a ele se Todas as manhãs, ainda hoje se vê Marlisa
chegou e disse: tonteando pelo parque enquanto empasta a
― Sou muito chamada de atrasadinha. língua numa musiquinha. Depois, se senta o-
Sem custo, ela se aceitava lentinha da idei- lhando o chão. E com demais carinhos e dema-
a, arrastada na fala. Mas não se zangava com siadas ternuras vai afagando a pedra que sub-
isso. Quem sabe ela também era atrasada sen- jaz nos seus joelhos. As pontas dos dedos, len-

67
Mia Couto

tas, vão percorrendo reentrâncias no dorso des- ― M-a-r...”


sa pedra. E soletra: [259] [262]

68
CONTOS DO NASCER DA TERRA

mãe lhe tirou o papel dos dedos e o lançou no


latão. A mania desse mirabolhante! Deveria ser
O coração do menino outra dessas tantíssimas cartas que o tontinho
e o menino do coração fingia escrever para sua apaixonada priminha.
― Você ainda se carteia com Marlisa?
O menino negou com veemência. A mãe sa-
cudiu a cabeça. Enfim, quanto ela se esforçara
em vão. Valera a pena insistir ensinamentos em
quem nunca aprendera? Também Marlisa, a
[263] [264] visada sobrinha, jamais cedera a abrir tais car-
tas. Nem valia a pena espreitar a caligrafia do
atarantonto. Uns andam na lua. No caso, a lua
O miúdo nasceu com as acertadas aparên- é que andava nele.
cias. Só em altura de ensaiar primeiras mar- Certa vez, o rabiscador daqueles engatafu-
chas lhe notaram o defeito, o enviesamento nos nhos desabou no fundo do tempo. O menino
pezinhos, cada um não sendo como cada qual. faleceu, em azulidão de pele, todo frio como se
Sobre as pegadas estrábicas a avó vaticinou: nenhuma luz dele tivesse vontade. Os médicos
― Este menino vai caminhar para dentro de- acorreram para levar o corpo e lhe administra-
le mesmo. rem a extrema-autópsia. Lhe arrancaram o co-
Depois outra malconveniência se somou: o ração, o universátil músculo, enormíssimo co-
rapaz engrumava as falas, tatebitudo. Os ou- mo um planeta carnudo. O órgão ficou em vi-
tros não entendiam mais que cuspes e assobi- trina, exposto às ciências e aos noticiários. Os
os, até os parentes o escutavam com riso parvo cardiologistas disputavam, em sucessivos coló-
de quem finge concordância. Não há medo mai- quios, um apropriado nome para baptizar a
or que não se entender humana a voz de outra anormalidade.
humana pessoa. Passaram-se os dias, anónimos. Era um fim
A mãe conduziu a criança ao hospital. O de tarde, a prima Marlisa, ao arrumar as poeiras
doutor lhe mergulhou o ouvido no peito e se de casa, deparou com o monte das inúteis car-
ensurdeceu de tanto coração. O menino tinha o tas. Sopesou-as antes de as lançar em fogo. He-
pulsar à flor da pele. O médico parecia entusi- sitou por um segundinho: o moço sabia abece-
asmado com o inédito do caso. dar uma simples linha? Pelo sim pelo talvez, ela
― Necessitamos que ele fique, para mais e- se aventurou a espreitar o primeiro envelope. E
xames... ali se sentou em espanto, roga na fronte, mãos
― Nem pensar. Esse menino entrou comigo, enrolando um demorado cabelo. Ficou horas, no
há-de sair comigo. assentado degrau. Aquilo não eram cartas mas
― Mas a senhora nem faz ideia... temos que versos de lindeza que nem cabiam no presente
encontrar um nome para a doença dele. mundo. Marlisa inundou a tristeza, tingiram-se
― Como um nome? as letras. Quanto mais a prima primava em se-
― Essa doença: eu tenho que lhe encontrar guir leitura mais rimava com nenhuma outra
um nome! mulher, toda ela fora do contexto de existir. A
― Mas esse nome, será que esse nome vai moça se apaixonava postumamente?
curar a doença dele? Mas ali, arremessada na escada, nem Marli-
O médico sorriu. Ai, essa gentinha simples, sa imaginava o que, no simultâneo tempo, se
tão exímia em ser pensada pelos outros. E as- passava com o coração do primo que Deus e a
sim, sorriso descaindo no lábio, ficou olhando ciência guardavam. Pois que, na vitrina gelada
mãe e filho se afastarem no corredor. O menino do Hospital, mal se rasgou o primeiro envelope,
levava em sua mão, descaída como pétala, uma o coração do primo deflagrou em sobressalto.
carta que ele mesmo redigira. Queria ter dado Um “oh” se estilhaçou nos visitantes. E à medi-
ao doutor esse papelinho que sua inabilidade da que Marlisa, mais longe que mil paredes, ia
enchera de letrinha. Com desatenta ternura, a desfolhando versos, o coração mais se desem-

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Mia Couto

brulhava, tremelusco-fuscando. Até que, daque- genitor de peito. Fazia medo como um quimica-
le novelo vermelho, se viu desprender um braço, va o outro a papel chapado. Em tudo se seme-
mais adiante um pé e a redondez de um joelho e lhavam menos no desenho do pé. Os pés do
mais argumentos que faziam valer o facto: aque- nascido eram divergentes, como quem viesse
le coração estava em flagrante serviço de parto! para procurar, fora de si, gente de outras estó-
E se confirmava, vinda das entranhas do útero rias.
cardíaco, uma total recém-criança. [265] [268]

E quando, finalmente, o parto se desfechou


se viu que o menino nascera igual ao seu pro-

Maticar: cobrir uma parede de argila.


Matope: lama, lodo.
Glossário Mecha: trança feita de cabelo artificial.
Monho: monhé; designação com que popular-
mente os indianos são conhecidos.
Mufana: moço.
Pahama: árvore da família das figueiras-bravas.
[263] [264] Sari: pano usado pelas mulheres indianas.
Satanhoco: malandro.
Suruma: marijuana.
Tchova: carrinha de tracção humana.
Tchovar: empurrar.
Chapa: transporte semicolectivo. Tontonto: bebida alcoólica de fabrico caseiro.
Machimbombo: autocarro. Tuga: português.
Mafurreira: árvore da mafurra. Xicuembo: espírito, feitiço.
Magaíça: mineiro. [269] [270]

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