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Regras do Templo Zen do Cuidado

Amoroso Eterno

Orientação básica
Somos o Templo Zen do Cuidado Amoroso Eterno. A essência do zen é o cuidado.
Cuidado significa presença consciente, atenção plena e respeito universal. Nossa prática
se destina a formar cuidadores de si mesmos e dos outros, da casa onde praticamos e do
planeta onde vivemos.

Exercemos o cuidado também através de cursos, grupos de estudo e retiros, que


manifestam nossa missão: oferecer um espaço para o desenvolvimento dos seres
humanos de acordo com os valores budistas, promovendo a prática da justiça social, dos
direitos humanos, da igualdade de gênero e da tolerância religiosa, assim como uma
profunda reflexão sobre o papel de cada indivíduo na comunidade.

Em uma instituição dedicada ao zen, temos duas atividades principais: a primeira é o


zazen (meditação sentada), a segunda é o samu (trabalho realizado em estado
meditativo).

Zazen é incômodo e nossa mente apegada vai tentar criar todo tipo de desculpa para nos
fazer evitá-lo. Idealmente, devemos sentar mesmo quando estamos doentes ou insones,
sofrendo de indisposição ou de estresse. Faltar ao zazen por causa dessas questões vai
contra o princípio da própria prática: elas podem e devem ser trabalhadas através do
zazen. O objetivo da prática do caminho é virar nossa vida de cabeça para baixo. Se
estamos praticando e nossa vida continua igual, pode ser um indício de que não estamos
praticando corretamente.

Samu é uma manifestação do zazen enquanto cuidado amoroso consigo mesmo, com a
comunidade imediata (família, sanga – a família de praticantes) e com todos os seres.
Samu significa compromisso, responsabilidade, saída gradual do individualismo
arrogante para um mundo onde percebemos que todos estamos interligados. Samu é a
corporificação do darma, simplesmente fazendo o que deve ser feito, abrindo mão do
“eu quero”, “eu prefiro”, “eu acho que”, sem expectativas do resultado.

Residentes, postulantes, membros da sanga e visitantes devem atentar para o fato de que
não são professores nem preceptores. Devem cumprir suas tarefas em silêncio. Não dão
explicações sobre o Darma (ensinamentos de Buda) nem celebram rituais ou recitam
sutras (textos budistas), exceto quando orientados para tal. Mantêm o silêncio no zendô
(sala de meditação), exceto para orientações breves aos visitantes. No caso dos
residentes e dos ordenados, apenas temos que seguir mais regras e manter mais silêncio,
sendo o exemplo para os demais.
Professores são alunos de outros professores e autorizados por estes. Não existem
professores autodidatas no zen, nem o Buda Shakyamuni foi assim. Não existem
grandes nem pequenos teóricos no zen. Existe a prática e quem pratica, existe a
transmissão do que é feito.

Alunos são os que solicitam formalmente essa condição a um professor e se comportam


como tal. Não basta frequentar um zendô para ser aluno. Devem frequentar o zendô pelo
menos tantas vezes quanto o professor. Existe a possibilidade de ser aluno à distância
para os que moram fora do Rio de Janeiro, praticando com alguma sanga local, ouvindo
nossas gravações e frequentando eventualmente o templo, nossos zazenkais (retiros de
um dia) e sesshins (retiros mais longos).

No sentido mais amplo, todos somos alunos, todos somos professores, mas no templo
existem categorias formais a que devemos prestar atenção.

No zen não cultivamos idéias sobre como tornar a prática mais agradável e menos
trabalhosa. Isso tem a ver com propaganda enganosa, mas não com a prática. Não
cultivamos qualquer tipo de expectativa. A prática tem a ver com o coração da tristeza,
com a tristeza dos ossos da condição humana, e envolve muito trabalho no templo, na
rua ou no zendô da montanha. Ao longo do tempo, surge o contentamento, algo
diferente da felicidade mundana, que não tem nada de errado em si, apenas não é nosso
objetivo no templo.

Não buscamos doações de dinheiro conseguido por meios incorretos. Devemos ser
transparentes. Melhor poucos alunos e praticantes sinceros do que muitos falso-self e
perseguidores de fama e status. As cinco lembranças são um excelente antídoto para
esses venenos:

 É da minha natureza envelhecer, não posso evitar a velhice;


 É da minha natureza adoecer, não posso evitar a doença;
 É da minha natureza morrer, não posso evitar a morte;
 Todas as coisas e pessoas que amo compartilham da natureza da mudança, não
posso evitar a separação;
 Meus atos são minhas únicas posses verdadeiras, não posso evitar as
consequências dos meus atos. Meus atos são o chão onde fico de pé.
Tudo é impermanente, inclusive os locais de prática. Nossos atos são nosso único chão.
Eininji não é um lugar, é uma prática.

Regras da prática
1 – Mantemos o silêncio de manhã ao chegar no templo, no zendô e à mesa durante o
período de refeição formal até a fala ser liberada, assim como nos sanitários e banheiros.
As práticas de zazen são sempre silenciosas. Quando houver um professor/a da sanga
presente, poderá haver alguma instrução, a critério dele/a.
2 – Respeitamos o silêncio ao nosso redor, evitamos falar ou rir em voz alta,
caminhamos com calma e em silêncio, especialmente próximo ao zendô e ao carregar
pratos e outros utensílios ou móveis. Procuramos fazer isso em silêncio e
cuidadosamente. Nossos gestos são zazen. Nossa fala é para o benefício de todos os
seres. Levamos a elegância e a dignidade do zazen para nossas vidas, todo o tempo,
evitando deixar rastros de nossa passagem pelos espaços.
3 – Evitamos falar sobre assuntos que despertem polêmicas (certo / errado, bom /
ruim, etc). Também não fazemos propaganda de nossas atividades profissionais
nem aliciamos clientes ou correligionários. Evitamos discutir política e religiões,
supostos defeitos de outras pessoas ou desejos ou aversões por coisas do mundo ou
tópicos similares; nossa fala deve ser primariamente funcional, isto é, voltada para
decisões, orientações e instruções de prática e trabalho. Evitamos fazer propaganda de
nossos dramas ou sucessos pessoais, evitamos o mau hábito de fofocas ou “críticas
construtivas” aos nossos companheiros de caminho. Só professores estão autorizados a
corrigir desvios da prática ou de comportamento. Nos encontros formais com os
professores – dokusan – falamos de nossa prática, evitando tocar em assuntos
mundanos, fazer fofocas, observações sobre terceiros, ou quaisquer outros temas fora da
prática.
4 – Aparelhos eletrônicos afetam a prática de todos. Deixamos os nossos sempre
desligados, do lado de fora do zendô.
5 – Cultivamos a cortesia com todos, mesmo com aqueles de quem não gostamos ou
com quem não conseguimos exercitar a compaixão. Todos têm algo a nos ensinar. É
uma agressão a Buda, Darma e Sanga sermos mal educados no templo. Na sua casa,
você pode ser como quiser, embora seja adequado corporificar sempre Buda, Darma e
Sanga. Na nossa casa, siga nossas regras.
6 – Nós não nos vestimos de modo a distrair outros. Usamos roupas de prática –
koromos – ou pelo menos escuras, que cubram adequadamente o corpo. Não usamos
transparências, decotes, shortinhos, bustiês, malhas de ginástica colantes, jóias,
perfumes ou cores brilhantes. Chegamos para a prática em bom estado de asseio e
higiene, evitando roupas sujas, molhadas ou com areia. Não é permitido vir direto da
praia ou piscina para o zendô, sem banho e troca de roupa adequada, respeitando nossos
companheiros de prática e o ambiente.
7 – Tanto o samu quanto o sôji (limpeza do zendô matinal) são orientados apenas pela
pessoa encarregada da administração da casa ou alguém autorizado por ela. Todo
material utilizado deve ser devolvido para seu lugar original ao término da tarefa.
Após a limpeza qualquer objeto em Eininji deve permanecer no local de origem.
Qualquer sugestão quanto a eventuais mudanças deverá ser encaminhada à pessoa
responsável pela administração, sendo vedada a movimentação de objetos ou materiais
por conta própria de cada residente ou praticante em samu. Lembremo-nos de que
estamos praticando para nos livrarmos das nossas opiniões e preferências: treinar aqui é
aprender a descartar essas manifestações da personalidade, praticadas à exaustão por
todos nós em nossas vidas cotidianas.
8 – Evitamos intoxicações; nos locais de prática, nós não usamos drogas ilícitas,
cigarros ou álcool, nem permitimos que visitantes usem.
9 – Nós nos abstemos de atividade sexual nas dependências do templo, e de
condutas sedutoras ou que manipulem afetos, sexualidades ou relacionamentos.
10 – No zendô, nossa postura é respeitável: sentamos em zazen (com as pernas
cruzadas), em seiza (ajoelhados), ou em cadeiras ou pufes (para os que têm limitações
físicas) e não sentamos com as pernas estiradas para o centro do zendô nem encostados
nas paredes. Realizamos os rituais de entrada e de saída do zendô, e de início e de
término do zazen, nos movimentando em conjunto, cuidadosa e silenciosamente. Não
entramos e saímos individualmente, sem as reverências adequadas. Somos um corpo do
darma quando praticamos juntos. Só comemos e bebemos no zendô em refeições
formais em períodos de retiro.
11 – Nas refeições, nós tomamos a quantidade de alimento que precisamos e
comemos tudo. Não deixamos restos nem jogamos comida no lixo. Todas as refeições
em mosteiros, templos e sesshins são ovo-lacto-vegetarianas. Após cada refeição
arrumamos nossa cadeira, ajudamos a recolher a mesa e lavamos nossa própria louça ou
tigelas a não ser se orientados em contrário, usando o mínimo de água necessário.
12 – Na hora de dormir, nos sesshins e na residência, mantemos o silêncio a partir
de 22 horas, fazemos a higiene e dormimos. Não ficamos acordados para trabalhar,
conversar ou nos divertir.
13 – Começamos a prática de zazen pontualmente. Não entramos no zendô depois do
começo do zazen. Não saímos do zendô antes do término do zazen. Somos um corpo do
darma quando praticamos juntos. Caso o praticante esteja sofrendo de algum mal-estar
que cause transtorno aos demais, como acessos de tosse, escarro ou espirro, pede-se que
faça seu zazen na sala de Canon, ao lado do zendô.
14 – Procuramos contribuir, dentro de nossas possibilidades, com trabalho
voluntário e/ou colaboração financeira, para que a sanga possa se manter como lugar
da prática, não abusando assim da generosidade dos que
contribuem. Oferecemos dana (doações) para o templo, para nossos professores
(especialmente quando participamos de dokusan, sesshins ou zazenkais),
professores convidados e residentes, possibilitando sua prática pura. Se desejar
oferecer dana especificamente para um professor ou residente, coloque em envelope
com o nome da pessoa e entregue ao responsável pela casa. As doações para o templo
podem ser colocadas na caixa própria na entrada do zendô ou através do nosso site.
15 – A participação em sesshins requer frequência regular às atividades da sanga,
exceto em sesshins introdutórios. Praticantes de outras sangas terão sua participação
considerada individualmente.
16 – Respeitamos as pessoas com mais tempo de prática, buscando observar seus
bons exemplos e utilizando suas dificuldades como estímulo para nossa própria
prática. Ajudamos as pessoas com menos tempo de prática, respeitando seu
momento e nos abstendo de criticá-las, ensinando através do exemplo. A compaixão
em relação a nós mesmos e aos demais é nossa prática diária. Corrigir erros é função
dos professores. Dúvidas devem ser tiradas com eles. Nada pior que um visitante,
praticante ou postulante metido a professor sem ser autorizado como tal, dá um péssimo
exemplo para todos.
17 – Nossa prática pode ser chamada de religião por alguns, escola por outros, mas
damos o nome de prática do caminho ensinado pelo Buda Shakyamuni, dentro do
ensinamento transmitido por Dogen Zenji no Capítulo 50 do Shoboguenzo. Assim, não
buscamos convertidos nem requeremos devoção. Nosso compromisso é com a prática e
estes preceitos. O Buda Shakyamuni não pediu crença nem devoção, mas prática – ehi
passiko, em páli, “vem e pratica”.
18 – Nossa prática conjunta no zendô tem recessos semanais e anuais, mas o zazen é
um modo de viver e não se tira férias da própria vida.
Eininji é administrado por um irmão responsável, auxiliado pela coordenação da casa e
pela associação Eininji no que tange às questões da prática, regras e ensinamentos, e às
questões de administração e manutenção predial e patrimonial. Além de serem normas,
são propostas para reflexão e prática. Entretanto, como normas, pressupõem sanções
caso sejam quebradas, que abrangem advertências orais, escritas, suspensões de
frequência e, por último, expulsões para os membros da Ordem ou interdição de
frequência para os demais. As sanções são decididas pelo irmão responsável por Eininji,
após proposta da coordenação da casa ou da associação.
Regras para residentes
1 – Residentes treinam para se tornarem cuidadores amorosos e atenciosos,
corporificando o Darma de Eininji e sendo observados pelos praticantes e visitantes
como modelos e exemplos. Por isso devem conhecer de cor as regras de prática, mais
estas regras residenciais, sendo a não leitura ou descumprimento das mesmas motivo
para o encerramento do período de residência.

2 – Residentes são admitidos por recomendação da coordenação de residentes, após


avaliação (por entrevista, currículo e cartas de referência) e decisão do responsável da
casa. São pessoas que buscam experimentar um ambiente de prática e treinamento zen.

3 – São admitidos por um período inicial de dois meses de experiência, que pode ser
interrompido a qualquer momento a pedido dos próprios ou por decisão da coordenação
dos residentes. Caso aprovados, a residência pode durar de quatro a seis meses,
renováveis. Caso não sejam efetivados como residentes no período de experiência, terão
quinze dias para efetuarem sua mudança de saída de Eininji. Durante esses quinze dias
deverão participar da prática matinal e cumprirem duas horas de samu.

4 – Residentes devem trazer apenas o essencial consigo quando mudarem para Eininji.
Não praticamos acumulação nem apego a supérfluos. Seus pertences ficam restritos
somente aos quartos.

5 – O tempo de estadia para o praticante hospedado é limitado, podendo ser avaliado


pelo mesmo em conjunto com a administração. Terá também que praticar pelo menos
um zazen diário no horário coletivo e fazer uma hora de samu.
6 – Residentes praticam zazen obrigatoriamente duas vezes por dia nos horários
coletivos. Nos dias de folga é recomendado um zazen diário e limpeza geral. Nos
recessos, se o residente permanecer em Eininji, ele deve sentar uma vez por dia e
manter o samu habitual.

7 – Residentes cumprem funções relativas à prática e a tarefas de trabalho e de limpeza,


designadas pelo coordenador de residentes. Dedicam um período contínuo de três
horas diárias ao samu, cumprindo o roteiro semanal integralmente. Períodos de samu
são períodos de silêncio, sendo permitida somente a fala funcional.
8 – Durante os períodos de silêncio, que correspondem aos horários de samu e zazen,
não é permitido estimular conversa com o colega ou praticante, ouvir ou tocar música
fora do quarto nem usar instrumentos musicais (exceto em rituais ou aulas) ou fazer
barulho de qualquer espécie. Uso de celulares ou internet é restrito aos
quartos, evitando usar durante o horário de silêncio.
9 – Visitas somente fora dos horários de trabalho, prática na casa e de descanso. Não
são permitidas comemorações, festas, celebrações, exceto quando expressamente
autorizadas pelo irmão responsável.

10 – Residentes providenciam seu próprio material de higiene pessoal e podem usar os


utensílios da cozinha (somente para uso interno), a máquina de lavar e o material de
limpeza geral da sanga evitando o desperdício de água, luz e material de limpeza em
geral.
11 – A comida doada pelos praticantes da sanga é para consumo comunitário.
12 – Os custos da alimentação básica ovo-lacto-vegetariana dos residentes correm por
conta de Eininji, sempre evitando o desperdício de comida. Recomenda-se ter
recipientes marcados para que os demais frequentadores da sanga reconheçam os
alimentos próprios de cada residente.
13 – Em uma instituição dedicada ao zen, o residente deve se dedicar integralmente a
corporificar o darma. Nossas atividades principais são o zazen e o samu. Residentes
somente podem faltar em caso de emergência, a ser discutidos com a coordenação.
Devemos sentar mesmo quando estamos doentes ou insones, sofrendo de indisposição
ou de estresse. Faltar ao zazen por causa dessas questões vai contra o princípio da
própria prática: elas podem e devem ser trabalhadas através do zazen. Compromisso,
responsabilidade e cuidado amoroso nos ajudam a nos libertarmos de nós mesmos.
14 – Residentes podem trabalhar fora do templo em seu tempo livre, tendo folga aos
sábados (a partir das 14h), domingos e segundas (até às 14h), exceto quando forem
marcadas práticas (zazenkais, sesshins, retiros, seminários e semelhantes) para a sanga.

15 – Residentes podem utilizar as dependências do templo para suas atividades


profissionais, desde que vinculadas ao tema da casa, Cuidado Amoroso, realizadas fora
dos horários de prática e autorizadas previamente. Sugerimos que esses serviços
profissionais sejam oferecidos gratuitamente, como parte de nosso Cuidado
Amoroso com a comunidade. Se a atividade profissional for remunerada, deverá ser
feita uma contribuição financeira ao templo, a ser acertada com a coordenação.

16 – Podem solicitar dokusan com o irmão responsável, podendo se tornar postulantes


se assim o desejarem.

17 – Participam de sesshins e cursos da sanga, gratuitamente. Podem receber dana


durante retiros ou se assim especificado por doadores.

18 – Têm direito a férias de trinta dias anuais contínuos ou intervalados, desde que
avisando com antecedência ao coordenador de residentes. Poderão ser concedidas
licenças mais longas tendo em vista projetos relacionados com a casa e/ou com a
própria prática.

Reflexões do Irmão responsável


Estamos todos em treinamento para que possamos verdadeiramente manifestar nossa
natureza búdica de bodisatvas, exceção feita aos visitantes eventuais ou habituais sem
compromisso com a Sanga. Assim sendo, devemos lembrar que o Buda Shakyamuni
aprendeu desde cedo a disciplina de um guerreiro, e manteve essa prática marcial em
suas prédicas, como registradas desde o Damapada. Estamos treinando para sermos a
luz do darma, os que acolhem e cuidam. Por isso mesmo, um zendô não é um centro de
acolhimento nem comunidade terapêutica. É um campo de provas e treinamento para
aqueles que um dia podem ser chamados a cuidar sozinhos de uma comunidade. Na
versão cristã, temos um resumo disto na Oração de São Francisco, algo semelhante
ao  Guia do Caminho do Bodisatva, de Shantideva.
Nas artes marciais e nas belas-artes orientais, aprendemos a imitar nossos professores à
perfeição antes de sermos “criativos” e “originais”. Se você não puder tolerar isso, se
tiver sempre que compartilhar seus “por quês” e opiniões sobre como deveria ser a
prática tendo acabado de chegar nela, seu lugar não é aqui. Leia o “Bendowa” (capítulo
1 do Shobogenzo) e o Fukanzazengi com atenção, entenda o que é praticar seis, dez,
vinte anos sem dar opinião. Seja honesto com o que você quer. Não se engane.

Enfim, é um caminho duro. Investiguem a si mesmos e vejam se desejam isso ou se isso


é só uma fantasia do ego, uma coisa de modismo. Se o objetivo for satisfação e
felicidade mundanas, provavelmente haverá decepção. Se o objetivo for receber
gratidão e reconhecimento, o resultado provável será frustração e infelicidade. Leiam e
pratiquem o Damapada e o Guia do Caminho do Bodisatva. Se não sentirem qualquer
incômodo, é porque não entenderam. Se houver incômodo, vejam se querem realmente
enfrentar esse caminho, porque o incômodo vai piorar. Saibam que quanto mais eruditos
e inteligentes forem, mais difícil será abrir mão da sua “compreensão”. Mas verifiquem:
sua compreensão os está libertando ou aprisionando? O que é liberdade, ao invés de
escravidão pelo impulso? O que é alegria genuína, mais além da mania? Existem muitas
vias no budismo e na espiritualidade, a nossa é só mais uma.

A prática do zen não é isenta de riscos e perturbações. Ao contrário, é uma busca de


olhar de frente para nossas sombras, nossas angústias, nossas dificuldades. São João da
Cruz escreveu magistralmente sobre isso na sua obra Noite Escura da Alma. Sugiro essa
leitura para os que pensam no zen como um tipo de budismo “legal”.

Sugiro que imprimam tudo isto e tenham à mão. E sempre leiam. Coloquei por escrito
para que fique registrado. No momento sou responsável por uma sanga que confia em
mim como professor. Portanto, é importante que saibam qual minha visão desta sanga,
de seu papel e de nossa prática, e a quem devemos satisfações como forma de nos
lembrar de nossos votos de tomar o Buda como nosso modelo, o Darma como nossa
forma de estar/ser no mundo, a Sanga como nosso tempo/lugar de prática na relação
com todos os seres. Fazemos votos para corporificar Buda / Darma / Sanga.

Mais importante que brincar de ser zen é verdadeiramente decidir o que é fundamental
na sua vida, o que é essencial e o que é supérfluo. Nosso caminho não é o melhor para
todos nem a única via na espiritualidade, portanto você não precisa se obrigar a ser zen
budista. Siga seu coração, siga seu caminho, seja feliz e se não se identificar com o
nosso modo de praticar, pode nos visitar quando quiser, será bem-vindo, mas lembre
que você será sempre um visitante. Aliás, ser um visitante será provavelmente mais
adequado e agradável para você que ser praticante ou postulante, já que os visitantes são
acolhidos sem exigências, não são corrigidos, observados nem supervisionados pelo
professor, nem se comprometem com o trabalho ou o sustento do templo. Ser visitante
não é demérito nem defeito, é só uma escolha, tão legítima quanto qualquer outra.

Não é preciso que nos amem ou idolatrem. Uma cultura de perversão e mania, onde
todos são muito “afetivos”, mas pouco sérios e comprometidos, onde tudo tem jeitinhos,
não combina com a prática, onde é mais importante compromisso, dignidade, disciplina
e inteireza no coração do que sorrisos, abraços de “melhores amigos desde a infância” e
brincadeiras vazias.
Se for para tudo continuar a ser do mesmo modo que tem sido em vidas cheias de
projeções e compulsões que não percebemos, não é necessário todo esse esforço.
Apenas continuem do jeito que sempre foram, e desistam de uma prática que não lhes
fala ao coração.

Lembrem que o Buda Shakyamuni praticou durante seis anos com determinação antes
de despertar. Um ser humano como nós, que acreditou em sua aspiração e disciplina.

No Darma,

Gasshô,

Alcio Braz Eido Soho

Irmão responsável por Eininji