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A INFÂNCIA DE JESUS

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Segundo o Evangelho

e as revelações de

ANA CATARINA EMMERICH

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Tradução:
PAULUS Editora
Pré-impressão:
PAULUS Editora

Impressão e acabamento:
Publidisa

Depósito legal: 254852/07

ISBN: 978-972-30-1253-8

1.ª edição: Junho de 2004


2.ª edição: Março de 2007
3.ª edição: Fevereiro de 2011

© PAULUS Editora, 2010


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Prefácio
«Uma amiga especial de Deus» assim chamou o antigo vigário-geral da cidade de
Münster, numa carta ao conde von Stolberg, a Ana Catarina Emmerich. E Hans Urs
von Balthasar, um dos maiores teólogos do século xx, disse dela: «Ela lançou a sua
amizade com Deus no prato da balança em favor da solidariedade com os homens.»
Ana Catarina viveu entre 8 de Setembro de 1774 e 9 de Fevereiro de 1824. Nasceu
numa família de camponeses, uma entre nove irmãos, em Flamschen, próximo da
cidade alemã de Coesfeld, na diocese de Münster. Desde a mais tenra infância teve
visões, conversando familiarmente com o menino Jesus e com São João Baptista,
também menino. De tal forma estas visões lhe eram familiares que pensava que todas
as outras
crianças as tinham também. Inicialmente falava dos seus coló-
quios com Jesus menino ou com o anjo da guarda com naturalidade, mas depois,
apercebendo-se de que as outras crianças não se referiam como ela àquilo que
pensava ser uma experiência comum a todas, considerou que o não faziam por
humildade, e passou a silenciar as suas experiências espirituais. Esta capacidade
visionária não cessou de crescer ao longo da sua vida, e o próprio Jesus Cristo lhe
terá dito que o seu dom de ver o passado, o presente e o futuro em visões místicas foi
o maior da História.
A sua vida foi obscura e eivada de dificuldades e doenças. Desde os seus dezasseis
anos desejou ser religiosa, mas a pobreza da família vedava-lhe a entrada nos
mosteiros, pois não tinha com que pagar o dote então requerido para o ingresso na
vida religiosa. Trabalhou enquanto criança como pastorinha. Depois dedicou-se à lida
da casa e ao trabalho dos campos e, mais tarde, aprendeu a coser. Mas tudo o que
possuía, inclusive uma pequena quantia que conseguiu amealhar para poder entrar
num convento, dava-o aos pobres.
Finalmente, em 1802, aos vinte e oito anos, conseguiu entrar no convento das
Agostinhas de Agnetenberg, Dulmen, graças à intervenção de uma amiga que se
preparava para ingressar no mesmo convento e que pôs como condição a entrada
simultânea de Ana Catarina. Mas a sua origem modesta, a sua pouca instrução, as
suas graças extraordinárias – totalmente incompreendidas pelas outras irmãs –, as
suas contínuas doenças foram mal recebidas na comunidade, e a vida religiosa foi
muito dura para Ana Catarina, que, no entanto, tudo suportava com humildade e
alegria. Considerava as humilhações e acusações de que era vítima como
instrumentos nas mãos de Deus para a sua santificação e aceitava-as como
participação nos sofrimentos da Paixão de Cristo. Este sofrimento era intensificado
pelo seu dom de conhecer o que se dizia nas suas costas e de identificar as irmãs que
a julgavam mal. Não poucas vezes caía de joelhos aos pés de uma dessas irmãs e
pedia-lhe perdão com muitas lágrimas. Mas esta capacidade tornava-lhe a vida ainda
mais difícil, pois as religiosas persuadiam-se de que Ana Catarina escutava às portas
e as espiava. Por outro lado, a sua inflexibilidade no cumprimento da regra levava-a a
chamar a atenção para os artigos da regra que as irmãs iam infringindo num ou noutro

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pormenor, e isto atraía a animosidade dessas religiosas menos zelosas. Nem se
apercebiam de que Ana Catarina lhes recitava artigos da regra que não lera em
pormenor, e que só por conhecimento espiritual dominava. Apesar destas provações,
a sua vida interior era cheia de paz e de alegria. As suas conversações com Jesus,
ternas e familiares, continuavam e cresciam, embora também isso fosse
incompreendido, pois se julgava que Ana Catarina faltava ao respeito devido ao
Senhor. Quando trabalhava no jardim, os pássaros vinham em bandos pousar-lhe nos
braços e Ana Catarina cantava com eles os louvores de Deus.
Os êxtases sucediam-se e passava noites inteiras de joelhos, em oração diante da
porta da capela, esperando a hora em que o capelão entrava para lhe dar a comunhão.
Ana Catarina Emmerich foi uma alma reparadora. A sua vida foi uma oferta pela
salvação e pela cura de muitas almas. As doenças de que padeceu não poucas vezes
correspondiam a doenças e sofrimentos de outras pessoas, as quais se oferecia para
mitigar. Assim, essas doenças espiritualmente provocadas eram agravadas pela
intervenção dos médicos e pela aplicação de métodos terapêuticos que para nada
serviam senão para a fazer sofrer ainda mais. A tudo se submetia de boa vontade,
embora a doença só passasse quando a graça implorada pela paciente era obtida: a
saída do Purgatório de uma alma, a conversão de algum doente em estado grave, de
algum pecador empedernido, e, no fim da sua vida, inclusive, o fervor de toda a sua
diocese ou a superação dos males de toda a Igreja. Estes sofrimentos reparadores
eram incompreensíveis para a comunidade, para os médicos e a própria Ana Catarina
disse que muitas vezes foi julgada “simplesmente louca”.
Nove anos depois de ter entrado no convento, sob o governo de Jérome Bonaparte,
rei da Vestefália, e, portanto, durante as guerras napoleónicas, o convento foi
suprimido e a igreja fechada. As irmãs dispersaram-se, mas Ana Catarina ficou ainda,
pobre e doente, cuidada por uma empregada também pobre e um sacerdote idoso e
emigrado. Depois passou para a casa desse sacerdote, até 1813. Foi este o período em
que recebeu os estigmas visivelmente, embora já anteriormente padecesse de dores
agudas nas mãos e nos pés. Em 1813 passou para outra casa cuja janela dava para um
jardim, e aí ficou até à morte, pregada ao leito.
As graças com que Ana Catarina Emmerich foi favorecida são incontáveis. Além
das visões, que neste volume se começam a publicar, Ana Catarina tinha a capacidade
de discernir as coisas sagradas e benzidas bem como as coisas de alguma forma
ligadas ao mal. Isto tanto no campo das coisas materiais como no das espirituais.
Também relativamente a doenças de pessoas que conhecia indicava remédios que não
falhavam e conhecia as plantas com propriedades curativas. Ao mesmo tempo, ainda
jovem, em casa de seus pais, arrancava as plantas venenosas ou as usadas em práticas
supersticiosas e mágicas. Se passava por algum lugar onde no passado tivesse sido
cometido algum crime, fugia rapidamente e começava a rezar e a fazer penitência,
pedindo perdão para esse pecado. Também reconhecia os lugares que um dia haviam
sido consagrados. E se um sacerdote passava, mesmo a grande distância, com o
Santíssimo Sacramento para levar o viático a algum moribundo, corria para o lugar
por onde iria passar e ajoelhava-se
em oração e adoração, muito antes de o cortejo estar visível. Perante relíquias, sabia a
que santo pertenciam, como havia sido a sua vida e qual a história das próprias

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relíquias.
Durante toda a vida rezou e sacrificou-se pelas almas do purgatório e afirmava que
havia maior mérito em rezar por elas do que por aqueles que ainda estavam vivos.
Estava em relação com essas almas, que a acordavam, inclusive, durante a noite,
pedindo-lhe a sua intercessão. Por elas fazia a via-
-sacra, quando ainda estava na casa paterna, pisando com os pés nus a neve que
cobria o caminho.
A sua vida foi de contínua mortificação. Dormia e comia o menos possível e
guardava os melhores bocados para os pobres. Por fim, deixou completamente de
comer, passando apenas a beber água. O seu alimento durante os últimos anos da sua
vida foi exclusivamente o Santíssimo Sacramento. Quatro anos antes da sua admissão
no convento, teve a visão de Jesus dando-lhe a escolher entre uma coroa de flores e
uma coroa de espinhos. Escolheu a coroa de espinhos. Quando a visão desapareceu,
sentiu uma dor violenta na cabeça e em breve o sangue começou a correr das
pequenas feridas causadas pelos espinhos. Anos depois, adoeceu com uma dor
violenta no coração. Mesmo depois de curada, a dor continuou e em 1812, um ano
depois do encerramento do convento, surgiu no lugar da dor uma cruz marcada a
vermelho sobre a pele. Na festa de Santo Agostinho, patrono da sua ordem, teve a
visão de um jovem rodeado de luz. Assim lhe aparecia Jesus, que com a Sua mão
direita lhe traçou uma cruz no peito. Mais tarde, essa cruz sobre o peito exsudava um
líquido transparente em tal quantidade que empapava vários lençóis. Algumas
semanas depois, estando em oração, teve de novo a visão de Jesus que lhe oferecia
uma pequena
cruz. Ana Catarina apertou-a fervorosamente ao peito. Esta cruz veio também a
ficar-lhe marcada na pele. Dela corria um fio de sangue. Em 1814, a cruz deixou de
sangrar tão frequentemente, mas ficava muito vermelha todas as sextas-feiras, e
voltava a sangrar cada Sexta-Feira Santa. Nos últimos dias do ano de 1812 recebeu os
estigmas. Estando em êxtase, viu o Senhor crucificado, cujas chagas brilhavam
intensamente. Dessas chagas saíram raios de luz em direcção às mãos, aos pés e ao
lado de Ana Catarina, e abriram chagas que começaram a sangrar e lhe causavam
grande dor.
Como não podia deixar de ser, estes fenómenos chamaram a atenção sobre ela.
Valeram-lhe o respeito e o apoio de algumas pessoas piedosas e de alguns altos
responsáveis da Igreja, mas também a curiosidade de muita gente, que passou a
visitá-la e a importuná-la, fazendo-a sofrer constantemente. Mas a mística aceitava
esta prova por obediência, e por todos rezava e a todos exortava. Ana Catarina rezou
durante anos para que os estigmas deixassem de ser visíveis, oração que acabou por
ser atendida, embora o lugar das chagas deixasse cicatrizes brancas até à Sexta-Feira
Santa seguinte, em que todas as feridas voltavam a sangrar abundantemente. Durante
longos períodos, Ana Catarina sentia de tal forma a coroa de espinhos que não podia
descansar a cabeça em sangue, devendo dormir recostada em almofadas. Foi sujeita a
vários exames, por iniciativa de médicos, da Igreja e das autoridades civis. De modo
geral, todas elas concordavam em não encontrar explicação científica para os
fenómenos que com ela se davam. Até à sua morte, sofreu de novo a Paixão todas as
Sextas-Feiras Santas, embora em 1821 lhe fosse dito que iria sofrer a Paixão no seu

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aniversário real e não no dia marcado pelo ano eclesiástico, e de facto os mesmos
fenómenos deram-se vinte dias antes da Sexta-Feira Santa desse ano.
O seu biógrafo diz que «a verdadeira tarefa da sua vida foi sofrer pela Igreja e por
alguns dos seus membros». E assim
foi na realidade. Nunca deu especial importância às suas visões, e quando lhe pediam
mais pormenores sobre algum aspecto delas, dizia: «Leia isso na Bíblia.» E ficava
muito espantada quando lhe diziam que isso não estava na Bíblia, pois achava que a
Sagrada Escritura devia conter tudo o que dizia respeito a Jesus Cristo ou à Igreja
nascente.
A sua vida espiritual era uma vida eminentemente litúrgica, alimentada pelos
tempos litúrgicos e pelas memórias dos santos, que consistiam para ela num
verdadeiro itinerário espiritual. Para ela, a festa ou memória de algum santo era o
melhor dia para o invocar. Nas suas viagens espirituais à Terra Santa, sentia que
muitas vezes dava a volta ao mundo, ajudando Igrejas e pessoas pelas quais passava
no seu périplo. E não deixava na próxima “viagem” de voltar a passar por elas, para
verificar o seu progresso espiritual. Toda a sua existência foi marcada pela
intercessão em favor dos outros e pela oração reparadora.
Às vezes, pedia às pessoas que com ela contactavam que unissem as suas orações às
dela por alguma intenção particular. As almas do Purgatório, os moribundos
necessitando de reconciliação com a Igreja, os doentes, os pobres foram a sua
primeira preocupação e por eles ofereceu sempre a sua oração. Por vezes enviou
esmolas a pessoas doentes e pobres que nunca vira e de quem nunca ninguém lhe
falara. Sabia da existência de necessitados apenas por conhecimento espiritual.
Depois do seu falecimento e enterro, correram boatos de que o corpo havia sido
roubado. A sepultura foi reaberta tempos depois e o corpo foi encontrado flexível e
sem qualquer sinal de corrupção.
A sua existência sacrificada toda consagrada ao cuidado dos outros valeu-lhe o
reconhecimento das “virtudes heróicas” necessárias para a beatificação, ocorrida no
dia 3 de
Outubro de 2004. O caminho para a beatificação foi aberto por um decreto da
Congregação para as Causas dos Santos de
2 de Julho de 2003 reconhecendo a existência de um milagre.
Na verdade, o processo de canonização, iniciado em 1892, que lhe valeu ser
“venerável”, foi interrompido em 1928, quando se descobriu que o relator das suas
visões, o célebre poeta alemão Clemens Brentano, um convertido, tinha em seu poder
mapas da Terra Santa e outros materiais de informação que diziam respeito às visões
de Ana Catarina Emmerich. Isto levantou dúvidas quanto à estrita autenticidade de
tudo o que está escrito nas visões elaboradas por Brentano, embora seja natural que o
poeta se tenha querido informar sobre os variadíssimos lugares e costumes referidos
por Ana Catarina. Mas ficou-se, todavia, sem saber o que atribuir a esta ou àquele.
Contudo, o processo de beatificação foi retomado em 1973, por iniciativa do Papa
Paulo VI, com a condição de que os escritos de Ana Catarina e Brentano não fossem
tomados em linha de conta. De forma que a beatificação em nada ficou a dever-se à
notoriedade recente de Ana Catarina em virtude de o realizador de cinema Mel
Gibson ter apontado as suas visões como uma das fontes de inspiração do filme A

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Paixão de Cristo. Assim, segundo o jesuíta Peter Gumpel, em Roma, interrogado por
uma agência noticiosa católica, Ana Catarina foi julgada «não na base do que
escreveu mas, como sempre, na base das suas virtudes».
Mas este reconhecimento por parte da Igreja foi antecedido pela notoriedade que
sem dúvida lhe foi dada pela publicação das visões, nomeadamente da Dolorosa
Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo por Clemens Brentano, nove anos após a morte
de Ana Catarina. Contudo, elas não correspondem ao que habitualmente se designa
por visões na vida mística, pois mais parecem narrativas oculares de acontecimentos
e personagens do Antigo e do Novo Testamento, sobretudo da vida de Jesus e de
Maria. Dir-se-ia que são narrações de alguém que tivesse sido transportado ao
passado, fornecendo pormenores que faltam nos relatos bíblicos.
À Dolorosa Paixão sucedeu-se, já depois da morte de Brentano, A Vida da
Santíssima Virgem. E entre 1858 e 1860, o redentorista alemão Carl E. Schmöger,
primeiro biógrafo de Ana Catarina, publicou, usando os diários de Clemens Brentano,
uma Vida de Cristo, em quatro volumes, incluindo tudo o que antes havia sido
publicado e muito outro material novo. Estes quatro volumes foram um notável êxito
internacional. Serviram a viajantes na Terra Santa, atónitos com a precisão de des-
crições impossíveis de explicar a nível humano, da parte de alguém que nunca
estudou e nunca saiu de uma pequena região alemã, do seu convento e depois do seu
leito de doente. Mel Gibson foi só o último em data de uma longa lista de
personalidades impressionadas com as descrições de Ana Catarina Emmerich. Elas
arrancaram lágrimas de comoção ao poeta e jesuíta Gerard Manley Hopkins, quando
as ouviu ler em voz alta num refeitório da Companhia de Jesus. E ajudou, por exem-
plo, Paul Claudel e Raïssa Maritain a aproximarem-se da Igreja Católica.
Todavia, se os escritos de Ana Catarina Emmerich (e Clemens Brentano) são
capazes de excitar o fervor dos fiéis, hoje como ontem, estes podem interrogar-se
sobre a sua fiabilidade em absoluto. Ora estes escritos, como outros, de tantos
místicos e videntes, são o que a Igreja chama “revelações privadas” e exigem da parte
dos crentes uma certa relativização. Em primeiro lugar, porque um antigo aforismo
diz que “a graça recebe-se à maneira do recipiente”. Isto é: a graça de Deus incide
sobre uma pessoa concreta, com a sua maneira de pensar e sentir própria, com a sua
cultura, numa época da história determinada, e essa graça é, assim, “filtrada” através
dessa pessoa situada no tempo e no espaço. A experiência de um místico ou um
vidente não pode, pois, ser expressa senão através da sua maneira de ser e tem a
marca da colaboração humana. Mesmo a Sagrada Escritura a tem, na pessoa dos
escritores sagrados, embora com a garantia, reconhecida pela Igreja, de ser
divinamente inspirada, pois se trata da Revelação pública sobre a qual a Igreja
assenta. Quanto mais a terão as “revelações privadas”!
Tudo no Cristianismo, fundado em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro
homem, se funda numa colaboração divino-humana. Deus busca o Homem, o
Homem responde, acolhe, diz «sim». Na experiência de todos os grandes místicos tal
como na dos pequenos videntes, normalmente gente muito simples, ignorante e
frequentemente ainda na infância, a experiência vivida ou a mensagem transmitida é
compreendida à maneira da pessoa que a recebe. Isso contribui para explicar as
divergências entre as diversas “revelações privadas”. Por exemplo: o lugar dos pregos

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que cravaram Cristo na cruz foi nas mãos, como a iconografia cristã habitual-
mente a representa, ou foi nos pulsos, lugar mais adequado para sustentar o peso do
corpo? Os diversos estigmatizados da história ora apresentam as chagas nas mãos ora
as apresentam no pulso ou mesmo no braço. A coroa de espinhos foi uma coroa como
habitualmente é representada (foi assim que Ana Catarina Emmerich recebeu as
marcas da coroa de espinhos) ou foi como uma verdadeira gorra de espinhos, que
cobriu toda a cabeça? Outros místicos sentiram e viveram dessa forma a coroa de
espinhos. Como estava vestida Nossa Senhora aos pés da cruz? As descrições de Ana
Catarina Emmerich não coincidem com descrições de outros videntes. Tudo isto se
explica pelo alto grau de colaboração humana na experiência mística. Porque,
precisamente, “a graça se recebe à maneira do recipiente” e o recipiente é a pessoa
humana, sempre diferente, sempre única e sempre activa no seu modo de recepção.
Isto deveria pôr de sobreaviso as pessoas que lêem estas e outras “revelações
privadas” e fazê-las sempre distinguir nitidamente entre o que é a Revelação pública e
o que são as “revelações privadas”.
A Revelação pública encontra-se na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja
(derivada da Igreja apostólica), de que o magistério é a salvaguarda. O Concílio
Vaticano II exprime-se assim: «A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura de ambos
os Testamentos são como que um espelho, no qual a Igreja, peregrinando na terra,
contempla a Deus» (DV 7), brotam «da mesma fonte divina» (DV 9) e «constituem
um só depósito sagrado da palavra de Deus, confiado à Igreja» (DV 10).
A Revelação pública é que é o verdadeiro “depósito da fé”, ao qual todos os crentes
têm de aderir para fazer jus ao seu nome de cristãos. O auge da Revelação de Deus
dá-se em Jesus Cristo, que é a Palavra definitiva do Pai. «Quem me vê, vê o Pai»,
disse o próprio Jesus.» (Jo 14,9). «Com a Sua presença e manifestação pessoal, com
as Suas palavras e obras, sinais e milagres e, sobretudo, com a Sua morte e gloriosa
ressurreição, enfim, com o envio do Espírito de Verdade, [Jesus Cristo] aperfeiçoa e
completa totalmente a revelação, e confirma-a com o testemunho divino, isto é, que
Deus está verdadeiramente connosco para nos libertar das trevas do pecado e da
morte e nos ressuscitar para a vida eterna.»
(DV 4, sublinhados meus) Por isso a mesmo Constituição Dei Verbum sublinha, no
mesmo número, que «não se há-de esperar outra revelação pública antes da gloriosa
manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo» (sublinhados meus). Jesus Cristo, e a
revelação que nos fez do Pai, é a nossa “pedra angular”, e «não há outro nome dado
ao homem para a sua salvação» (Act 4,11, Ef 2,20, 1Pd 2,5; Act 4,12).
Citando Hb 1,14, São João da Cruz, o doutor da Igreja por excelência nas coisas
espirituais, afirma que, após Jesus Cristo, Deus «não tem mais que falar, porque o que
antes disse em parte aos Profetas, falou-o no todo, dando-
-nos o Todo, que é o Seu Filho». Por isso põe o Pai a recomendar: «Põe os olhos só
n’Ele, porque n’Ele tudo disse e revelei, e acharás ainda mais do que pedes e
desejas.»1
E quem diz Cristo, diz a Sagrada Escritura e a Igreja. O Catecismo da Igreja Católica,
citando também São João da Cruz, insiste no mesmo ponto (CIC 65).
E São João da Cruz desaconselha formalmente que se peçam a Deus novas
revelações e sinais. Contudo, por vezes as dá Deus, segundo o mesmo santo, devido à

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fraqueza da alma.2 A posição de São João da Cruz marca um auge na
“desvalorização” das revelações privadas. Não será só por isso que Deus dá estas
revelações. O Catecismo da Igreja Católica explica-as assim: «No entanto, apesar de
a Revelação ter acabado, não quer dizer que esteja completamente explicitada.
E está reservado à fé cristã apreender gradualmente todo o seu alcance, no decorrer
dos séculos. No decurso dos séculos tem havido revelações ditas “privadas”, algumas
das quais foram reconhecidas pela autoridade da Igreja. Todavia, não pertencem ao
depósito da fé. O seu papel não é “aperfeiçoar”
ou “completar” a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais
plenamente, numa determinada época da História. Guiado pelo magistério da Igreja, o
sensus fidelium [sentido da fé dos crentes] sabe discernir e guardar o que nestas
revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos Seus santos à Igreja. A fé
cristã não pode aceitar “revelações” que pretendam ultrapassar ou corrigir a
Revelação de que Cristo é o acabamento» (CIC 66, sublinhados meus).
As revelações privadas podem, pois, ser uma explicitação, dirigida a uma época e a
um meio, da Revelação pública e definitiva em Jesus Cristo e na Igreja apostólica.
Jesus prometeu a vinda do Espírito Santo que nos guiaria para a verdade total,
recebendo do que é de Cristo e anunciando o que é de Cristo (cf. Jo 16,13). Após a
Ascensão, o Espírito Santo dado à Igreja “ensina tudo e recorda tudo” o que diz
respeito a Jesus Cristo, levando os discípulos a darem testemunho de Jesus e
conduzindo-os «à verdade completa» (cf. Jo 14,26; 15,27; 16,13). As revelações
privadas, quando autênticas, e não produto de uma natureza patológica ou
mistificadora, são fruto da interacção da graça divina e da pessoa sobre a qual esta
incide. Relevam de um caminho de santidade, ou mesmo, no caso de certas
mensagens dirigidas à Igreja, manifestações proféticas. E é sempre o Espírito Santo o
santificador e aquele que fala pelos profetas.
Entre Revelação pública e revelações privadas, sublinha o cardeal Ratzinger no seu
comentário teológico sobre o terceiro segredo de Fátima, «há uma diferença não
apenas de grau, mas de natureza»3. A Revelação pública exige a nossa fé, visto que
temos a certeza de que encontramos a própria verdade, e sobre ela edificamos a nossa
vida e nos confiamos à hora da morte4; mas «a revelação privada é uma ajuda para a
fé, e manifesta-se como credível precisamente porque remete para a única revelação
pública»5. O cardeal Lambertini, que depois foi o Papa Bento XIV, escreveu um
tratado que se tornou normativo para as beatificações e canonizações, também ele,
como São João da Cruz, marcado por uma grande reserva em relação às revelações
privadas, em parte por influência do racionalismo da sua época. Nesse tratado diz que
não é possível dar um assentimento de fé às revelações privadas, mesmo as
aprovadas. Quando aprovadas, elas requerem um mero assentimento de fé humana,
de acordo com as regras da prudência, quando nos são apresentadas como «prováveis
e credíveis num espírito de piedade»6. Estas revelações privadas merecem esse
assentimento de fé humana quando se verificam três princípios: quando nada contêm
que se oponha à fé e aos bons costumes; quando é lícito torná-las públicas e quando
os fiéis são autorizados a dar-lhes, prudentemente, a sua adesão. Em última análise,
como diz o mesmo cardeal Ratzinger, «o critério para a verdade e para o valor de uma
revelação privada é a sua orientação para o próprio Cristo»7. «Isto não exclui, diz

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ainda Ratzinger, que uma revelação privada ponha novas acentuações, que faça
aparecer novas formas de piedade, que aprofunde ou prolongue algumas dessas
antigas formas.»8
Estas revelações privadas nada podem corrigir ou acrescentar essencialmente à
Revelação pública, mas podem, pois, contribuir para uma compreensão mais funda da
fé, podem apontar para novas linhas da investigação teológica (por exemplo as
revelações do Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria) ou chamar a
humanidade profeticamente a uma mais funda vivência do Evangelho, como foi o
caso com Fátima. Elas podem ainda despertar a fé dos indivíduos, afervorar os pie-
dosos, encorajar a oração e a penitência em favor dos outros, apontar para os
caminhos de salvação que, esses, são sempre os recomendados pela Igreja, detentora
da Revelação pública.
São Tomás de Aquino, debruçando-se sobre a questão da profecia – e as revelações
privadas autênticas (únicas que aqui nos interessam) são fruto de uma intensa
experiência espiritual e experiências carismáticas assimiladas ao dom da profecia –,
explicita que a profecia “está ordenada ao conhecimento da verdade divina” e que “a
contemplação desta verdade tem um duplo objectivo: iluminar a nossa fé e dirigir a
nossa actividade”. No que diz respeito à fé, esta orienta-se para “o verdadeiro
conhecimento de Deus” e para “o mistério da Encarnação de Cristo”. Quanto ao
verdadeiro conhecimento de Deus, a revelação plena dá-se com o mesmo Cristo,
“tempo da graça” em que o mistério da Trindade é revelado pelo próprio Senhor. E
quanto à Encarnação, diz São Tomás, «quanto mais os cristãos estiveram próximo de
Cristo, seja antes, seja depois [da Encarnação], tanto “mais receberam luz sobre esta
verdade. Contudo, mais depois do que antes”, como o nota São Paulo (Ef 3,5).»
E continua: «Quanto ao segundo objectivo da revelação profética – dirigir a
actividade humana – não se nota variação no decurso dos tempos, mas segundo as
necessidades das circunstâncias. Pois, como está escrito no Livro dos Provérbios
(Pr 29,18), «quando não houver mais visão, o povo ficará sem direcção». É a razão
pela qual, em cada tempo, os homens foram instruídos por Deus sobre o que deviam
fazer segundo o que era útil para a salvação dos eleitos.»9
Aqui temos a profecia – e, no seu seio, as revelações privadas –, orientada para a
acção, a direcção da actividade humana, tida como sempre necessária na História da
Igreja.
Esta posição bastante liberal de São Tomás foi nos séculos subsequentes substituída
por uma posição muito mais reservada, como já foi referido. As revelações privadas
entram no campo dos dons carismáticos (logo, da profecia) oferecidos à Igreja pelo
Espírito Santo, e uma sua reavaliação profunda impõe-se na nossa época, quanto mais
não seja dado o fenómeno frequente nos últimos séculos das aparições marianas,
algumas das quais, como Lourdes e Fátima, amplamente reconhecidas pela Igreja. É
o que já reconhece o grande teólogo Karl Rahner quando afirma: «A questão de um
critério para a determinação dos profetas e das suas vozes e rostos torna-se [...] cada
vez mais urgente na Igreja.»10
Entretanto, as ciências humanas fizeram também a sua irrupção e impelem a um
reequacionamento rigoroso destas revelações. Pois, como a Igreja há séculos sabe, e
já aqui foi aludido, “a graça recebe-se à maneira do recipiente”. Isto faz com que nas

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visões imaginativas (que se distinguem das visões sensíveis e das visões intelectuais,
características estas últimas dos mais altos estádios da vida mística) haja como que
«um processo de tradução», como lhe chama o cardeal Ratzinger, «de forma que o
sujeito é de forma essencial participante na formação, sob o modo de imagens, do que
aparece» (op. cit. 680). Esta participação do humano do vidente ou extático na
formação das imagens que lhe surgem existe sempre e não deixa de levantar sempre
de novo a suspeita de alguma patologia. Assim, os videntes são por via de regra
sujeitos a exames médicos extensivos, a fim de verificar a sua normalidade psíquica.
Mas, para além da verificação científica, a regra determinante está estabelecida
desde os alvores do Cristianismo pelo próprio São Paulo: «Não extingais o Espírito.
Não desprezeis as profecias. Examinai tudo, guardai o que é bom.» (1Ts 5,
19-21) O cardeal Ratzinger também admite o valor profético das revelações
particulares que o discernimento da Igreja reconhece como indiciando uma
intervenção do sobrenatural: «Em todas as épocas é dado à Igreja o carisma da
profecia, que deve ser examinado, mas que não pode ser depreciado.» A profecia, no
seu sentido bíblico e no sentido em que nos temos referido a ela, não quer dizer
predição do futuro, mas sim visão do presente à luz de Deus. «O que é essencial», diz
ainda Ratzinger, «é a actualização da única revelação, que me diz profundamente
respeito: a palavra profética é um aviso, ou uma consolação ou mesmo as duas coisas
ao mesmo tempo.» Neste sentido, a profecia entra na categoria dos “sinais dos
tempos” posta a nova luz pelo Concílio Vaticano II: «Interpretar os sinais dos tempos
à luz da fé significa reconhecer a presença de Cristo em todos os tempos.»11
O cardeal Ratzinger atém-se à doutrina tradicional da Igreja. Mas a urgência de
uma reavaliação das revelações privadas e outros fenómenos sobrenaturais, como os
milagres, que se multiplicam no nosso tempo, têm levado os mariólogos e outros
teólogos a debruçarem-se sobre as revelações privadas, sobretudo aquelas em que
Nossa Senhora se manifesta. Após Yves Congar, no seu artigo sobre a credibilidade
das revelações privadas12, Karl Rahner, o grande teólogo do século xx, reflectiu
sobre esta questão. E, seguindo a doutrina estabelecida pelo escolástico Suarez,
considera que as revelações privadas, uma vez verificada a sua autenticidade, são
dignas de verdadeira fé: «Se Deus falou e a coisa está estabelecida... então isto
representa para mim sem dúvida a obrigação da escuta, da obediência e da fé, na
medida em que de uma forma ou de outra, o conteúdo do escutado me diz também a
mim respeito.»13
Rahner, que aliás é muito céptico em relação às aparições de Fátima, sobre as quais
possuía insuficiente documentação, chama também a atenção para o “coeficiente
tempo” das revelações privadas: «A verdade que Deus, ao falar, revela, tem – porque
a Revelação é ela própria História – um coeficiente tempo que lhe é essencial.»14
Uma profecia, uma revelação privada desempenha, pois, uma função específica na
sua época e, inclusive, depende da sua época. No nosso tempo, depois da vinda ao
mundo de Cristo, da Sua morte e ressurreição, inaugura-se um tempo definitivo, que é
o tempo em que vivemos. Neste fim dos tempos, não se pode realmente esperar nada
que altere essencialmente a nossa situação quanto à salvação: «Contudo, há neste fim
dos tempos também revelações de Deus, e não apenas ao indivíduo enquanto tal, mas
também à Igreja, pelo menos no sentido em que o carisma do indivíduo deve

14
favorecer a bênção de todo o corpo da Igreja.» Assim, «levanta-se a questão de saber
se há alguma coisa de “não-importante” no que Deus revela, e com que base se pode
saber que o revelado não significa, acrescentado ao depositum fidei divinae [depósito
da fé divina], alterações substanciais na situação salvífica existente até ao momento».
Rahner conclui que «as revelações privadas são por natureza um imperativo, sobre
como, numa dada situação histórica do Cristianismo, se deve agir; elas não são
essencialmente uma nova asserção, mas uma nova ordem». Quanto às asserções, elas
de facto só dizem o que já se sabe a partir da fé e da teologia. Mas as revelações
privadas exprimem «o que numa situação determinada se deve fazer como vontade de
Deus», o que não pode ser inferido logicamente e de forma clara a partir dos
princípios gerais do dogma e da moral. Neste sentido, são “um impulso divino” para
nortear a acção da Igreja (esta afirmação está, pois, na linha de São Tomás de
Aquino, quando este dizia que a profecia se destinava a «dirigir a actividade
humana»). E Rahner define assim as revelações privadas: «O im-
perativo inspirado por Deus a um membro da Igreja para a
acção da Igreja numa situação histórica determinada parece-nos ser a natureza de uma
“revelação privada” depois de Cristo.» Estas revelações privadas são, pois, parte da
vida carismática da Igreja e «não se deveria considerar demasiado depressa o carisma
dos profetas mais ou menos como um privilégio passageiro da Igreja primitiva». «O
profetismo na Igreja tem [...] apesar
de a Revelação estar completa, um significado insubstituível na Igreja»15.
Esta posição favorável de Rahner em relação às revelações privadas reconhecidas
como sobrenaturalmente inspiradas é levada mais longe por René Laurentin, que
chega a propor, tendo em vista a importância das aparições marianas, que se
abandone a terminologia tradicional de “Revelação pública” e “revelações privadas”,
substituindo-a pela distinção entre “revelação fundadora” e “revelações
particulares”.16
De Fiores, mariólogo como Laurentin, lembra que o vidente goza de «um
profetismo de tipo místico». E também que «o Concílio Vaticano II, com a doutrina
dos carismas, acolhidos “com gratidão e consolação” (LG 12), convida a superar a
atitude “severa e repressiva a respeito dos videntes” que prevaleceu na Igreja “no
período post-tridentino, quando se devia proteger a instituição de possíveis abusos do
carisma”. Na realidade, “o método repressivo, além de não ser evangélico nem
ajustado à liberdade religiosa
(DH 1-2), [...] descura o conteúdo positivo e os valores de que são portadores os
videntes, privando a comunidade de estí-
mulos úteis para obviar às falhas e anormalidades da praxis eclesial numa dada época
histórica”.»
Z
Estes breves apontamentos sobre as questões levantadas pelas revelações privadas
ajudarão talvez o leitor a situar-se perante as visões de Ana Catarina Emmerich.
Nelas não há aquela qualidade profética que reconhecemos nas aparições marianas,
importantes para a vida da Igreja, ou ainda nas aparições de Jesus a Santa Margarida
Maria Alacoque, que tanto promoveram a devoção ao Sagrado Coração de Jesus,
tiveram consequências litúrgicas como a instituição da solenidade do Sagrado

15
Coração de Jesus, e estiveram na base da consagração do mundo ao mesmo Sagrado
Coração. Sem dúvida que têm um certo carácter profético, segundo a classificação da
profecia por São Tomás de Aquino. Mas como convite à acção ou “imperativo” para
a acção, como diria Karl Rahner, mais não fazem do que convidar o leitor a meditar
na vida
e na paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. O que, aliás, não é pouco, pois a nossa
relação com Cristo Jesus é o essencial da nossa vida espiritual: «Se confessares com a
tua boca “Jesus é o Senhor” e acreditares no teu coração que Deus o ressuscitou dos
mortos, serás salvo.» (Rm 10,9)
Bom será, contudo, ter em mente que estas visões não saíram directamente da boca
da vidente, mas foram trabalhadas e retrabalhadas por diversas personalidades, das
quais a mais importante foi sem dúvida o poeta Clemens Brentano. Assim, não se
sabe exactamente se tudo provém da vidente, para além, como se disse, de todos os
videntes darem uma contribuição substancial própria ao conteúdo das suas visões.
Também é bom não esquecer, como já se disse, que as visões não contribuíram para
a beatificação de Ana Catarina Emmerich e que, portanto, não estão reconhecidas
pela Igreja. Contudo, a despeito de algumas notas muito características do seu tempo,
que têm sido apontadas como racistas e talvez efectivamente o sejam – por
representarem uma visão comum ao tempo da mística –, elas constituem de modo
geral uma meditação muitas vezes comovente sobre a vida de Jesus.
Contêm partes de indubitável valor poético, como a da viagem dos três Magos,
apesar de a exegese dos nossos dias considerar esse e outros relatos da infância de
Jesus mais como composições literárias do que como relatos de factos realmente
ocorridos. Ana Catarina vai ao significado teológico dessas passagens, que é de
primeira importância, e põe-nos a viver a viagem dos Magos, maravilhosamente
descrita.
Tudo se passa como se Ana Catarina fosse uma testemunha ocular dos relatos mais
importantes da História da salvação: e isso torna-nos efectivamente mais próximos
dessa história.
Oxalá, pela mão de Ana Catarina Emmerich, muitos e muitas se voltem para a
leitura da Bíblia e aprendam a retirar dela diariamente o alimento substancial da
Palavra de Deus. Para que também nós, progredindo na caminhada espiritual, nos
sintamos cada vez mais próximos do Verbo da vida encarnado por nosso amor, morto
e ressuscitado por nosso amor.
A fim de que, em última análise, a meditação da vida e da paixão de Jesus, nos leve,
sobretudo, a participar da Sua ressurreição gloriosa.
Maria Armanda Saint-Maurice

16
Capítulo I

17
Os Antepassados da Virgem Maria
Nas proximidades do monte Horeb, vivia uma classe de israelitas entregues à
penitência e à oração, conhecidos entre os judeus pelo nome de essénios. Foi de uma
comunidade dessas, com sede na povoação chamada Mará, que provieram os avós de
Santa Ana.
Aos essénios chamavam também Escareanos, da palavra Escara ou Askarah, parte
do sacrifício não sangrento, queimada pelo sacerdote em testemunho de submissão a
Deus.
Ao tempo em que eram vivos os avós de Santa Ana, tinham os essénios como chefe
espiritual, no monte Horeb, um profeta já avançado em anos, a quem chamavam
Archos, assemelhando-se em muito a organização dessa espécie de ascetas à das
ordens religiosas dos primeiros séculos da Igreja. À semelhança do que acontece
nestas, os aspirantes à vida de essénio passavam por longo tempo de preparação, um
quase noviciado de um a dois anos. Viviam em comunidade e não contraíam matri-
mónio, guardando castidade perfeita.
Além dos ascetas que observavam as regras próprias dos essénios, havia uma
segunda classe de pessoas que recebiam do chefe maior ou Archos orientação
espiritual, mas viviam em família, à semelhança das ordens terceiras dos nossos
tempos. Para os grandes actos da vida, como o casamento, era consultado o profeta
do Horeb, cujas decisões e regras acatavam.
Os antepassados de Santa Ana faziam parte desta classe de essénios que,
constituindo família, procuravam regrar a sua vida, lutando contra os desvarios da
sensualidade. As leis a que obedeciam impunham-lhes frequentemente a separação
das próprias mulheres, guardando continência durante um tempo pré-estabelecido.
Era assim que, pelas restrições no matrimónio, procuravam gerar uma descendência
santa que preparasse a vinda do Messias prometido.
Ao número dos essénios rígidos, com sede nos desertos perto do monte Horeb e do
Carmelo, pertenciam muitos dos profetas das vizinhanças do Horeb. Tendo surgido
uma guerra, tiveram estes de abandonar os seus ermos. Mais tarde viu-os em terras do
Egipto.
Não exerciam género algum de comércio; limitavam-se à permuta dos artigos por
eles manufacturados, trocando-os por outros de que precisavam.
Podiam aceitar crianças a partir dos catorze anos, que preparavam para a vida
austera da mortificação. Jeremias e os irmãos Macabeus viveram e formaram-se nas
escolas dos essé-
nios. Quando subiam a Jerusalém para o cumprimento das leis mosaicas, o que
faziam três vezes ao ano, habitavam num bairro à parte e ocupavam igualmente no
Templo um lugar separado do povo judeu.
Entre os essénios propriamente ditos, houve de tempos imemoriais tradições
proféticas e na gruta do monte Horeb, chamada também de Elias, Deus comunicou,
por vezes, revelações celestes sobre a vinda do Messias. O seu chefe, ou Archos,
sabia qual era a família de onde havia de nascer a mãe do Messias; e quando
respondia às consultas feitas pelos antepassados de Santa Ana sobre assuntos

18
relativos aos seus casamentos, via que a hora da vinda do Salvador se avizinhava.
Mas não sabia por quanto tempo o seu nascimento seria retardado ou impedido por
causa dos pecados dos homens. Por esse motivo, exortava continuamente à penitên-
cia, à mortificação, ao sacrifício interior e à oração, actos agradáveis a Deus de que os
essénios davam exemplo perfeito.
O velho Archos ou Arcas, profeta já envelhecido, governou a comunidade do monte
Horeb durante oitenta anos e vi que a avó de Santa Ana o consultou a propósito do
seu casamento. O que me pareceu digno de nota é que estes profetas prediziam
somente o nascimento de crianças do sexo feminino e que os antepassados desta santa
tiveram, em geral, somente filhas e não filhos.
Pareceu-me que as orações destes antigos penitentes tinham em vista pedir o
nascimento de boas e santas mães, donde devia nascer a Santíssima Virgem, mãe do
Redentor, bem como de santas mulheres, que dariam à luz não só o Precursor, como
os Apóstolos e mais discípulos do Salvador. Como já foi dito, a avó de Santa Ana era
natural de Mará e chamava-se Moruni ou Emorum, palavra hebraica que significa
mãe boa ou mãe augusta. Chegando à idade de casar, como se lhe apresentassem
vários pretendentes, foi-lhe respondido pelo Archos de Horeb que preferisse a mão do
sexto, um essénio de nome Stolanus, pois que desse consórcio nasceria um precioso
instrumento da salvação que se estava a aproximar.
Stolanus e Emorum tiveram três filhas, a saber: Ismeria, Emerência e Enué.
Casadas as duas primeiras, que também consultaram o profeta do Horeb, os dois
esposos, Stolanus e Emorum, deixaram Mará para se fixarem em Éfron.
Do casamento de Emerência com o levita Afra ou Ofras, nasceu Isabel, mãe de São
João Baptista. Ismeria, que foi dada em casamento a Eliud, da ordem dos essénios
casados, fixou habitação, pouco depois, nas proximidades de Nazaré. A primogénita
deste casamento foi chamada Sobé; mas como não trazia o sinal da Promessa,
voltaram a consultar no Horeb o profeta Archos, que lhes recomendou perseverança
na oração e no sacrifício. Ao fim de dezoito anos de esterilidade, Ismeria viu durante
a noite um anjo escrever na parede uma letra que me pareceu ser um M. Ao acordar,
seu marido viu igualmente a letra traçada no muro do quarto.
Três meses depois, Ismeria concebia, dando à luz uma menina que trazia marcado
no corpo o sinal da Promessa. Foi-lhe dado o nome de Ana.
Não compreendi o motivo por que ouvi dizer algumas vezes que Emerência fora
mãe de Santa Ana, porquanto sempre vi que foi Ismeria.
Aos cinco anos de idade, foi Ana levada para o Templo onde ficou até aos
dezassete, e quando nesta idade regressou a casa dos pais, encontrou lá uma nova
irmã de nome Maraha e um sobrinho chamado Eliud, filho de Sobá, sua irmã mais
velha. Passado um ano, adoeceu Ismeria, vindo a morrer pouco tempo depois. Já no
leito de morte, designou Ana para a substituir no serviço da casa paterna e revelou-
lhe a missão na terra, como vaso eleito do Senhor. Disse também que devia aceitar
um esposo, mas que, antes de dar esse passo, consultaria o profeta do monte Horeb.
Os ascendentes masculinos de Ana pertenciam quase todos ao número dos que se
consagravam a Deus. Eliud, seu pai, era da tribo de Levi; o bisavô pertencia à classe
dos profetas e Ismeria, sua mãe, à tribo de Benjamim; nascendo Ana em Belém,
passou pouco depois, levada pelos pais, a residir em Séforis, a quatro léguas de

19
Nazaré e como Eliud possuísse alguns haveres no vale de Zabulão, para lá se
transferiu com a família depois da morte de Ismeria. Foi aí que conheceram São
Joaquim, que veio a ser o marido de Santa Ana. O pai de Joaquim chamava-se
Mathat, o qual, pelo lado da mãe, era o irmão mais novo de Jacob, que foi pai de São
José.
São José e São Joaquim eram parentes da seguinte forma: o avô de José, de nome
Mathan, descendia de David por Salomão e teve dois filhos, Jacob e Joses. Como
Mathan morresse, a viúva contraiu segundas núpcias com Levi, descendente
igualmente de David, mas pelo lado de Mathan. Deste Levi é que nasceu Mathat, pai
de Joaquim, que se chamava também Heli.
Vi os antepassados de Ana cheios de piedade e fervor, no meio daqueles que
levavam a Arca da Aliança e vi, também, que recebiam da relíquia preciosa, guardada
na Arca, uns raios sobrenaturais, que se estendiam até Santa Ana e a Santíssima
Virgem.
Antes de se casar, Ana consultou o profeta do Horeb e, realizado o casamento,
passou a viver numa povoação dependente de Séforis e na casa que era da herança de
Eliud. Eram ambos de um porte cheio de nobreza, reflectindo bem, em todos os seus
actos, a distinção da raça judaica. Ana, sendo em formosura superior ao comum das
mulheres do seu tempo, não era, todavia, de uma beleza de realce, ficando muito
aquém dos encantos da Virgem Maria.
Em todos os actos da sua vida, distinguiam-se os dois esposos por um certo ar de
gravidade, que os impunha ao respeito e consideração de toda a gente. Ainda novos,
eram já dotados de um carácter reflectido e cheio de dignidade, como se fossem já
entrados em anos. Nunca os vi rir e quando acontecia deparar com esposos recém-
casados, apresentando-se correctamente como eles, dizia para comigo: como se
parecem com Ana e Joaquim!
Eram pertença de São Joaquim e de seu sogro Eliud muitos dos rebanhos que
pastavam no vale de Zabulão, guardados por servos fiéis e bons, todos eles
extremamente dedicados à família do santo patriarca. Os ganhos da pastorícia e
outros rendimentos da casa eram repartidos, de comum acordo, pelas necessidades do
Templo, pelos pobres e parentes necessitados, sendo reservada a terceira parte para os
gastos gerais da família. Acontecia, porém, que Deus abençoava de tal maneira o
quinhão que lhes era destinado, que dele ainda sobrava para distribuir, facto que
muito edificava os que disso tinham conhecimento.
O primeiro fruto do consórcio entre Joaquim e Ana foi o nascimento de uma
menina, que recebeu o nome de Maria Sobé, nascida antes do tempo, por motivo de
um grande desgosto dado a Ana por uma das servas da casa. Sobé não trazia o sinal
da Promessa e com o nascimento dela, a mãe deixou de gerar tornando-se estéril.
Atribuindo uma tal desdita a faltas porventura cometidas, duplicaram o tempo da
oração e fizeram maiores penitências, resolvendo também, de comum acordo, guardar
continência, separando-se por tempos.

20
Capítulo II

21
A Imaculada Conceição de Maria
Ao fim de sete anos passados em Zabulão, resolveram os dois esposos, de perfeita
concordância com Eliud, transferir os seus haveres para as proximidades de Nazaré.
A nova morada seria para eles como um retiro de oração e de vida santificadora.
Divididos os rebanhos, tomaram o caminho do novo lar com tudo o que lhes
pertencia em gado ovino, bois e jumentos. Os utensílios agrícolas e objectos de uso
doméstico seguiram sobre alimárias, guiadas pelos servos que faziam parte da família
de Joaquim. A distância a percorrer seria de cinco a seis léguas, ficando a nova casa,
que era pertença dos pais de
São Joaquim, a uma boa légua a poente de Nazaré. Eram ali abundantes as pastagens,
facilitadas pelas condições do terreno levemente acidentado. Dali, por um vale
estreito, seguia o caminho para a cidade.
Em frente da habitação onde parou toda a caravana, alar-
gava-se um pátio, ou quinteiro empedrado de rocha natural, tendo em volta as casas
destinadas ao gado e outros arrumos domésticos. As terras de cultivo, quase todas
arborizadas, estendiam-se em volta deste agrupamento que constituía o novo casal de
São Joaquim.
De entre as árvores, há uma cujos ramos, baixando do tronco, ganham novas raízes
em contacto com a terra, formando assim um denso arvoredo. O pai de Santa Ana,
deixando a nova família ali instalada com tudo o que lhe pertencia, retirou-se,
levando com ele a netinha, Maria Sobé, que foi sempre o encanto dos avós.
Os dois esposos, retomando a vida em comum, dedicaram-se a um novo género de
ocupações, entregando-se com mais assiduidade às obras de santificação e de
caridade. Como dantes, continuaram dividindo os frutos do rebanho pelo Templo e
pelos pobres, reservando para eles a parte menos cobiçada, isto é, os frutos menos
perfeitos. E assim passaram dezanove anos depois do nascimento de Sobé. Muitas
vezes, São Joaquim, nas visitas que fazia aos rebanhos, foi visto entregue à penitência
e à oração assídua.
Para Santa Ana, a vida era mais cheia de espinhos. Muitos lhe exprobravam o
pecado de esterilidade. Contudo, confiada em Deus e na promessa do profeta do
Horeb, aguardava pacientemente a hora da misericórdia de Deus, pois sabia que o
Salvador havia de nascer da sua família, segundo a geração humana.
Z
Como um dia São Joaquim deliberasse oferecer no Templo um sacrifício ao
Senhor, encaminhou-se para o redil e escolheu dentre os cordeiros os dois mais
gordos e formosos, a que juntou um casal de pombos, oferta piedosa de Santa Ana.
Os dias precedentes tinham-nos passado os dois esposos na oração e na penitência,
para que Deus lhes fosse propício.
Acompanhado de alguns servos, vi que, durante a noite, um deles seguia na frente,
alumiando o caminho com uma lanterna em forma de cabaça côncava, presa no alto
do cajado e quando a pequena caravana, passando ao lado de Betânia, se aproximou
de Jerusalém, vi-a deter-se num terreno onde o Senhor, muitas vezes, havia de
descansar com os discípulos que O seguiam.

22
Entrando na cidade e recolhidos os dois jumentos nos alpendres do Templo, tomou
São Joaquim o caminho dos sacrifícios, passando previamente pelo lugar das
purificações, onde as vítimas foram lavadas numa grande bacia. De lá, seguiu com o
servo por uma galeria que ladeava pela esquerda o altar dos perfumes, a mesa dos
pães da proposição e do candelabro de cinco braços, para chegarem finalmente a
outro recinto, onde mais pessoas se agrupavam para fazerem oferta dos sacrifícios.
Ao fazer entrega das suas oferendas, viu com indizível mágoa que o levita
recipiendário, de nome Ruben, as tomou com desprezo, deixando-as a um canto, ao
passo que todas as outras eram colocadas no lugar devido e bem à vista dos que as
ofereciam. Não ficou por aí a acção do levita, pois, dirigindo-se a
São Joaquim injuriou-o em público e, exprobrando-lhe o crime de esterilidade da sua
mulher, afastou-o do lugar dos sacrifícios. São Joaquim retirou-se dali com o coração
enevoado e, tomando por Betânia o caminho da outra banda do Jordão, dirigiu-se ao
ermo dos essénios de Maqueronte, onde vivera o profeta Manahen, aquele que tinha
profetizado o governo de Herodes e os crimes que havia de cometer.
Seguindo os conselhos do chefe, dirigiu-se pelos desertos de Gaddi até ao monte
Hermon, limite das terras de pastoreio dos seus rebanhos e, refugiando-se no meio
deles, foi remoendo em silêncio a injúria sofrida, sem do facto dar conhecimento à es-
posa que, durante cinco meses, ignorou o seu paradeiro.
Por outras pessoas que presenciaram os factos é que San-
ta Ana soube do que se passara com o levita Ruben.
Aproximava-se a solenidade dos Tabernáculos e, por sua vez, a esposa de São
Joaquim foi igualmente injuriada, mas por uma das suas servas, que lhe exprobrara a
desonra da esterilidade com que Deus a ferira.
Como fossem vésperas da festa, retirou-se ao cair da tarde para o refúgio do grande
sicómoro e, ali, de lâmpada acesa, orou por muito tempo ao Senhor, pedindo que lhe
restituísse o marido, embora continuasse privada de descendência. Estava ainda
orando com o livro desenrolado, quando um anjo, vindo do alto, lhe apareceu,
dizendo que a oração dela e de seu marido tinha sido escutada pelo Altíssimo.
Mais lhe ordenou que juntasse um casal de pombos para o novo sacrifício, pois o
seu marido, a quem igual mensagem fora enviada, iria igualmente a Jerusalém e lá se
encontrariam na Porta Dourada, acrescentando que em breve saberia o nome do fruto
que havia de dar ao mundo. Cheia de reconhecimento e alegria, aquela filha de Deus
recolheu a casa para cuidar dos preparativos da viagem e, deitando-se, adormeceu.
Porém, acordou a seguir ao primeiro sono e viu uma claridade a inundar-lhe o quarto
e, no meio dela, um anjo escrevendo na parede em letras de luz a palavra «Maria».
Era esse o nome da menina que ela havia de conceber e dar ao mundo.
De manhã, a santa esposa de Joaquim parecia transformada de alegria e os próprios
servos da casa manifestavam um contentamento que não sabiam explicar. A partir
dessa hora, desapareceram todas as tristezas naquele casal abençoado.
Santa Ana devia ter quarenta e três anos e ao receber a mensagem do anjo vi que do
coração lhe irradiava um fulgor celeste, que mostrava como a bem-aventurada se
tornou, desde aquela hora, uma fonte de salvação para a humanidade.
Ao romper da madrugada do dia imediato e logo que terminou a oração à claridade
de uma lâmpada, tomou a santa o caminho de Jerusalém, na companhia de algumas

23
das suas melhores servas.
Depois do agravo no Templo, São Joaquim ficou a viver, como foi dito, no meio
dos seus rebanhos, afastado da família e entregue por inteiro à oração e à penitência.
Aproximando-se a festa dos Tabernáculos, preparava-se para a celebração dela,
erigindo tendas de ramagens junto dos montes Hermon, quando um anjo lhe anunciou
que devia subir a Jerusalém e, por ordem do Senhor, oferecer o sacrifício da lei,
porquanto as preces que dirigira ao Altíssimo tinham sido ouvidas. Ana, sua mulher,
conceberia e havia de dar à luz uma menina.
Com o espírito confortado pelas palavras do anjo, São Joaquim dividiu em três lotes
os cordeiros e os novilhos daquele ano. O primeiro destinou-o aos essénios, o
segundo, o das melhores cabeças do rebanho, levou-o para consumo do Templo e o
último reservou-o para si e para a sua família.
Partindo das montanhas onde vivia, deu entrada em Jerusalém quatro dias depois.
Sua mulher, que ali chegara pela mesma data, foi hospedar-se em casa dos parentes
de São Zacarias, nas proximidades do mercado do peixe. Só no final da solenidade é
que os dois esposos se encontrariam.
Ao dar entrada no Templo, vieram alguns levitas ao encontro de São Joaquim, a
quem receberam festivamente. Foi-lhe então revelado que a humilhação sofrida há
cinco anos, naquele mesmo lugar, acontecera por determinação especial
de Deus.
No Templo, as ornamentações eram todas de verdura e flores, encontrando-se todas
as portas abertas de par em par para que o povo, que era muito, pudesse entrar
livremente. Destacada do edifício principal, via-se uma grandiosa cabana de ramagem
verde, símbolo das tendas do deserto, tendo como sustento oito colunas de pedra.
Entretanto, vi que as oferendas do esposo de Santa Ana, dois cordeiros e três cabritos,
eram oferecidas no altar dos sacrifícios. Mas havia algumas vísceras que, separadas,
eram destruídas pelo fogo em lugar à parte, isto é, num altar à direita do vestíbulo,
onde fica a grande cátedra do Templo.
Por ocasião dos sacrifícios, todas as lâmpadas do Templo eram cuidadosamente
acesas, assim como o candelabro de sete braços. Quando no altar do santuário, em
frente do Santo dos Santos, queimavam o incenso, vi que um raio de luz, desprendido
do alto, foi iluminar o sacerdote celebrante e São Joaquim, o oferente, que assistia à
distância. Queimada uma nova essência odorífera diante do esposo de Santa Ana, foi
este como que transportado em êxtase, ao mesmo tempo que um anjo, escrevendo em
letras de luz os nomes de Helia, Hauna e Minam, lhe revelava que a esterilidade de
Ana não era para sua confusão, mas para glória de Deus. Vi também que um rasto de
claridade, passando da Arca da Aliança, foi repousar em São Joaquim. Era aquele
mesmo dom ou graça da Promessa comunicado aos Patriarcas e mais predecessores
do Salvador do mundo.
Pela infusão deste dom sobrenatural, conheci que São Joaquim ficou purificado de
toda a concupiscência e impureza, fruto do primeiro pecado.
Devido a uma disposição do alto, São Joaquim tinha sido conduzido por um levita
do meio do povo, onde se encontrava, até ao lugar do santuário onde se deram todos
estes acontecimentos. Dali descia-se por uma galeria subterrânea, em forma de
corredor, que ia findar debaixo da Porta Dourada ou Especiosa.

24
Por uma inspiração superior, foi de novo São Joaquim acompanhado por dois
sacerdotes até uma certa altura dessa passagem, que é tida como sagrada quanto às
suas origens e destino.
Creio que a tais lugares se liga uma cerimónia religiosa, destinada à reconciliação e
bênção das pessoas atingidas pela esterilidade.
Tendo Santa Ana concluído o sacrifício que lhe dizia respeito, anunciou ao
sacerdote a ordem que em Nazaré lhe fora dada por um anjo.
Quando, ao fim de cinco anos de separação, os dois esposos se encontraram, vi que
uma luz do céu os inundou de claridade e glória. Do alto baixou uma multidão de
anjos que eram portadores de um castelo luminoso, semelhante à torre de marfim,
desaparecendo, porém, quando chegaram junto de Joaquim e Santa Ana. Foi-me dado
conhecer que, por efeito de uma graça privilegiada de Deus, a Conceição de Maria
fora tão pura como devia ser a concepção de todo o ser humano, sem o pecado
original. Abrindo-se os céus, vi a alegria da Santíssima Trindade e a participação que
os anjos tiveram na bênção misteriosa concedida aos pais da Santíssima Virgem.
Santa Ana e São Joaquim continuaram o resto do caminho, louvando a Deus até à
saída pela Porta Dourada. No trajecto, passaram ao lado de um quase oratório,
iluminado pela claridade de algumas lâmpadas acesas e, subindo a rampa final da
galeria, foram, no alto, recebidos por dois sacerdotes que ali os esperavam. A parte do
Templo, onde se encontra a sala do grande Conselho, foi edificada por cima deste
subterrâneo, ficando, à saída, as casas dos empregados menores. Era deste bairro
pobre da cidade que se descia para o vale de Josafat.
Foi também explicado que os dois esposos geraram a Santíssima Virgem numa
pureza perfeita, por efeito da obediência e que, sem a ordem de Deus, teriam
guardado castidade perfeita. Vi igualmente como a continência entre os esposos e a
luta contra o vício e a impureza concorrem para a santificação dos filhos e como todo
o excesso conduz à desordem e ao pecado.
Z
Num quadro maravilhoso, vi Deus que mostrava aos anjos os trabalhos que era
preciso realizar para o fim da regeneração do Homem decaído. Todos eles
cooperavam, jubilosos, ao lado da humanidade nessa grande missão salvadora.
Noutro quadro vi, diante do trono de Deus, uma grande montanha toda de rica
pedraria, que em breve tomou a forma de uma torre ou castelo, onde foram guardados
todos os tesouros das graças celestiais.
Os anjos faziam-lhe círculo e, num fundo de nuvens de ouro, algumas gabelas de
trigo iam cruzar-se com pampos
de vide, vendo eu, então, que do céu baixou a figura de uma virgem que tomou posse
da torre simbólica. Não era a Virgem Maria no tempo, mas sim a Virgem, na
eternidade ou no seio de Deus, partindo da Santíssima Trindade, da mesma maneira
que o hálito da boca se condensa em vapor.
Vi formar-se, no meio dos coros dos anjos, um edifício em forma de tabernáculo,
no qual todos pareciam trabalhar, vendo ao mesmo tempo que alguma coisa, partindo
do seio de Deus em forma de nuvem luminosa, dava entrada no tabernáculo. Era,
conforme eu pude compreender, uma bênção substancial de Deus, destinada à
formação de uma linha pura de gerações. Finalmente, vi que esta bênção, sob a forma

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material de fruto luminoso, dava entrada na torre e com ela se confundia.
Foi graças a essa bênção que Eva foi tirada de uma costela de Adão. Vi depois que
a mesma bênção, por uma obra da misericórdia de Deus, foi separada de Adão, no
momento em que ele deliberou cometer o pecado e passou para Abraão e sua
descendência quando, instituída a circuncisão, recebeu a promessa do nascimento de
Isaac.
Retirada a Jacob, na luta com o anjo, passou para José do Egipto e, morto este, foi
colocada na Arca da Aliança, como tesouro sagrado do povo de Deus.

26
Capítulo III

27
O Nascimento da Virgem Maria
Vi Elias tomar o caminho do monte Carmelo, quando a terra em volta estava
ressequida pela estiagem e os homens desfaleciam de fome e de sede. Em Jerusalém,
ia uma grande efervescência. Todos pediam misericórdia a Deus e com ela a chuva do
céu. Alguns tomavam deliberações e outros escreviam cartas que eram enviadas por
meio de emissários a vários pontos da Palestina, ao mesmo tempo que Elias era
procurado por toda a parte. Foi então que vi o profeta subindo com dois servos a
encosta da montanha até à gruta aberta na penedia e nela entrar em oração. Levan-
tando-se, por sete vezes perguntou a um deles o que é que via para os lados do mar da
Galileia.
Vejo o lago seco, respondeu o servo, e nele grandes aberturas de lodo com animais
apodrecendo ao sol.
À sétima vez, vi que uma nuvem se erguia no horizonte e, no meio dela, a figura de
uma Virgem, tendo os braços em cruz e o rosto espalhando raios de claridade. Foi-me
revelado que as sete vezes que o profeta mandou olhar para o mar representam as sete
idades ou sete gerações que precederam a grande bênção espalhada em Israel, e
anunciada pela nuvem misteriosa – a Virgem Maria. O orvalho celeste, descendo do
céu, foi humedecer a terra e de um modo especial os lugares santos como aquele onde
o Senhor havia de receber o baptismo de João.
Soube também que, durante a visão da nuvem, foram revelados a Elias muitos dos
mistérios relativos à Santíssima Virgem e, entre eles, a família de que ela havia de
nascer.
Noutra ocasião, vi o profeta Elias trabalhando no alargamento da gruta, onde
passaram a viver os discípulos, conhecidos entre o povo pelo nome de filhos dos
profetas. Foi nessa gruta que começou a ser invocada aquela Virgem da aparição
misteriosa, cujo culto se perpetuou através dos eremitas que sucederam aos essénios
na montanha do Carmelo.
Z
Vi também a genealogia do Messias dividir-se em dois ramos, logo a seguir a
David. O braço da direita partia de Salomão e terminava em Jacob, pai de São José.
Vi que as figuras dos antepassados do santo Patriarca, mencionados no Evangelho,
traziam nas mãos um ramo semelhante à folha da palmeira; porém, no remate da
linha florescia uma haste em forma de lírio, com cinco estames. Essas figuras eram de
maior relevo e menos materiais que as da linha colateral esquerda. As flores dos
vários ramos eram diferentes em qualidade e virtude, destacando-se no meio de todas,
pela beleza e frescura, aquela com que se apresentava São José.
Na linha do tronco de Salomão havia três pessoas cujos lugares, como elas tivessem
sido rejeitadas, estavam preenchidos por manchas escuras, vendo-se também alguns
saltos de gerações muito afastadas do tronco principal. Por vezes, os troncos da
direita e da esquerda encontravam-se, cruzando-se finalmente poucos graus antes do
termo da geração.
A linha genealógica da esquerda de David vinha por Nathan até Heli, que é o
verdadeiro nome de Joaquim. O acréscimo (Heli-Hakim) foi-lhe acrescentado mais

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tarde, da mesma maneira que Abrão derivou para Abraão.
Nas minhas contemplações, ouvi muitas vezes nomear Jesus pelo nome de filho de
Heli, segundo a carne.
GENEALOGIA DE JESUS
SEGUNDO OS EVANGELHOS
E AS VISÕES DE ANA CATARINA EMMERICH
Z
Fui levada até junto do Templo de Jerusalém e de lá até às vizinhanças de Nazaré,
onde visitei a casa de Santa Ana e de São Joaquim.
Reconheci perfeitamente toda a região da Galileia e vi erguer-se dela uma formosa
coluna de luz que, elevando-se da terra à maneira de caule de flor, sustentava no alto
uma igreja de forma octogonal e toda luminosa. Nos ramos do caule encontravam-se
os pais e outros antepassados da Santíssima Virgem.
No peito de Santa Ana, vi um relicário precioso em forma de cálice e neste uma
figura infantil que, tomando vulto, ia crescendo em beleza e claridade, enquanto do
rosto e mãos em cruz partiam raios luminosos que se pareciam concentrar num ponto
único. Noutros ramos da coluna, viam-se figuras de santos da Igreja, formando
círculo e entoando louvores, em atitude de quem dirige súplicas àquela santa Mãe.
Em todo esse concerto de santos reinava a mais doce união, paz e harmonia, como
se fora uma grande seara de flores oferecendo, agitadas pela brisa, os mais suaves
aromas ao Sol eterno que, criando-as, as bafejara de suavíssimos perfumes.
Ao ver a maneira como a Virgem se formava e subia do coração de Santa Ana,
reconheci, por uma forma inexplicável, como ela foi isenta da mancha original.
Soube também que, naquele lugar donde subia a coluna misteriosa, fora em tempos
construída uma igreja, entregue mais tarde à destruição devido ao mistério que nela se
comemorava se tornar ocasião de lutas.
Todavia, a Igreja triunfante continua a celebrar neste mesmo lugar a festa da
Imaculada Conceição.
Z
A Virgem Maria, seguindo Jesus nas Suas pregações, en-contrava-se, muitas vezes,
na companhia das santas mulheres da sua intimidade, como eram Joana Cusa e
Susana de Jerusalém. Foi assim que a ouvi a falar com elas sobre factos referentes à
vida de Cristo e dela própria.
De entre esses mistérios, uns foram manifestados à mãe do Senhor por meio de
revelação interior e outros por comunicação de Santa Ana.
Assim, falando às santas mulheres, contou-lhes como, trazendo Jesus no seu
puríssimo ventre, nunca sentiu sofrimento algum, mas somente uma contínua e santa
alegria e como, ao ser concebida sob a Porta Dourada, Santa Ana e São Joaquim,
tendo recebido da plenitude da graça dons particulares, a geraram por um acto de
amor de Deus e mais lhes disse que, sem a queda original, todos os homens seriam
concebidos em igual estado de pureza.
Parece-me que é nos lugares que ficavam por baixo da Porta Dourada que se
realizavam algumas das provações, bem como as cerimónias da absolvição das
mulheres acusadas de adultério (cf. Nm 5,14-17).
Z

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Fui transportada em espírito a visitar pela mão do anjo alguns dos lugares mais
santos da Terra. Estive em Roma, junto do Santo Padre, visitei na Sardenha uma boa
religiosa minha conhecida e, a seguir a uma visita à cidade de Palermo, fui
levada à Palestina e à Índia.
Na Abissínia, estive numa cidade que é habitada por judeus e se encontra edificada
no alto de uma montanha. Dirigi-me à rainha de nome Judite, a quem instruí sobre a
vinda do Messias, e também lhe falei da festa da Imaculada Conceição de sua santa
Mãe, bem como do tempo e da festa de Natal que se aproximava.
Ao procurar o Senhor no dia 8 de Dezembro do terceiro ano da Sua pregação, não o
vi em parte nenhuma da Palestina, mas, sendo levada pelo meu guia à Arábia,
encontrei-o com três discípulos numa cidade onde ficaram a morar os três Reis
Magos, a seguir à adoração em Belém. Dois deles eram ainda vivos e comemoravam
com a sua tribo um acontecimento notável, como a seguir se verá.
Z
Quinze anos antes do nascimento do Senhor, os Magos tinham visto, pela primeira
vez e nessa mesma data, aquela estrela anunciada por Balaão, estrela que os seus avós
esperavam há muito tempo, observando os astros do céu.
Nascerá uma estrela de Jacob e levantar-se-á uma vara de Israel e ferirá os capitães
de Moab e destruirá os filhos de Seth (Nm 24,27).
Nela viram a imagem de uma Virgem com um ceptro numa das mãos e uma
balança na outra. Num dos pratos destacava-se uma formosa espiga de trigo e no
outro um cacho de uvas. Foi a seguir ao regresso de Belém que, todos os anos,
começaram a celebrar, durante três dias, a partir de 8 de Dezembro, a solenidade
daquela aparição em que o Senhor quis tomar parte.
Ao primeiro aparecimento da estrela, quinze anos antes do nascimento de Cristo,
correspondeu a abolição de uma prática horrível, em uso entre os adoradores dos
astros, como era a dos sacrifícios humanos, e particularmente de crianças. Era um uso
abominável, resultante de revelações deturpadas por influências malignas.
Nesses sacrifícios costumavam escolher de preferência aquelas crianças cujas mães
fossem mais recatadas e puras, sendo de notar que as referidas se sentiam felizes pela
lutuosa honra de entregar um filhinho para tão sinistro martírio.
A criança sofria a tortura da degolação e o sangue que fluía do golpe, depois de
empapado em farinha, era distribuído pelos participantes na cerimónia e constituía
um alimento sagrado, de que todos comiam. Terminado o repasto da farinha com o
sangue, passava-se ao corpo da vítima que, retalhado em pedaços, era igualmente
distribuído pelos assistentes que dele comiam até ao seu completo desaparecimento.
Foi-me dito que estas cerimónias repugnantes, realizadas na pátria do rei Mensor,
terras da Caldeia, eram fruto de uma interpretação das tradições proféticas relativas à
ceia de Quinta-Feira Santa. Na noite em que eu contemplava a presença do Senhor na
terra dos Magos, como visse à minha direita uma daquelas cenas do sacrifício de uma
criança, voltei-me para a esquerda, cheia de horror, mas desse lado apareceu-me de
novo o mesmo horrível espectáculo.
Ao acordar, ouvi estas palavras do meu esposo celeste:
– Avalia por aí a natureza dos sofrimentos a que Eu sou obrigado no mundo inteiro,
devido aos crimes de muitos.

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Olhando em redor de mim, vi pecados mais horríveis ainda do que os sacrifícios
das crianças imoladas diante dos meus olhos. Vi muitas vezes Jesus Cristo
martirizado cruelmente sobre o altar pela celebração criminosa e indigna dos sagrados
mistérios. Vi a santa hóstia colocada no altar, tomando a forma de Jesus Infante e
sofrer ali o martírio do retalhamento realizado pela mão do sacerdote sacrílego.
A mesma crueldade me foi mostrada nas torturas infligidas a todos os que
confessam o santo nome de Deus. Os maus-
-tratos de que são vítimas recaem sobre a pessoa de Jesus Cristo. Tudo isto tive diante
dos olhos naquelas visões, ao tempo em que fui levada por vários países da Terra. No
fim delas voltei de novo às contemplações relativas à festa da Imaculada Conceição.
Não sei explicar a forma maravilhosa como, na noite passada, fiz em espírito uma
tão longa viagem. Sei que percorri muitos países e vi o que se passou em épocas
diferentes, e assim é que tomei parte na celebração de algumas festas em honra da
Conceição de Maria.
Estive em Éfeso e vi a casa da Santíssima Virgem transformada em igreja e nela
celebrarem a festa da sua Conceição. Estas solenidades deviam realizar-se numa
época muito afastada, porque reconheci ainda o caminho da Cruz, disposto por Maria,
que estava perfeitamente conservado. A segunda Via-
-Sacra é a que foi erigida em Jerusalém e a terceira em Roma.
Os gregos, muito antes da separação de Roma, celebravam já a festa da Conceição
de Maria e recordo-me ainda do facto que contribuiu para a instituição desta
solenidade. Vi um santo, de nome Sabas, no momento de ser esclarecido por uma
aparição relativa à Imaculada Conceição. A imagem de Maria apresentava-se sobre
um globo e com o pé esmagava a cabeça de uma serpente.
Por esta visão foi revelado ao santo que só ela de entre todas as criaturas fora
concebida sem a mordedura da serpente, isto é, sem mancha de pecado.
Fui também a Inglaterra, onde vi como esta solenidade foi ali instituída. Dois dias
antes da festa, isto é, no dia de São Nicolau, vi o superior de uma ordem religiosa a
braços, no mar, com uma furiosa tempestade. O navio corria perigo iminente de
naufrágio e, como todos os passageiros unissem os seus clamores aos do religioso, vi
São Nicolau de Myra aparecer sobre as ondas e dizer ao santo abade que vinha ali,
em nome de Maria, para lhe anunciar que o navio chegaria salvo ao porto de destino.
Era necessário, porém, que lá principiasse a celebrar, a 8 de Dezembro, a festa da sua
Conceição, o que se fez. Com a instituição da festa na Inglaterra adicionou-se à missa
o nome de Santo Anselmo.
Vi também como a mesma solenidade teve início em França e a oposição que lhe
fez São Bernardo, com o fundamento de não provir directamente de Roma.
Z
Alguns dias antes de Maria nascer, mandou Santa Ana recado a São Joaquim,
dizendo que se aproximava o tempo de dar à luz. Pouco depois, outras pessoas
seguiram também, umas para Séforis e vale de Zabulão, residências de suas irmãs
Maraha e Enué, e outras para Betsaida, onde vivia Maria Salomé, com a missão de
pedirem a todas a sua comparência em Nazaré.
Logo que teve conhecimento da boa nova, São Joaquim mandou para o sacrifício de
acção de graças no Templo alguns dos melhores cordeiros do seu rebanho, enquanto

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ele tomava o caminho de casa, cujos serviços estavam já a cargo de Maria Heli, a
irmã mais velha de Santa Ana. Heli era casada com o chefe dos pastores de quem
tinha uma menina, de nome Maria Cléofas, então com quatro anos de idade.
Ao entrarem na casa de sua irmã e tia, aquelas três santas mulheres foram
encontrá-la enlevada de santa alegria e, como se aproximasse a hora do parto,
anunciou-lhes ela, num cântico de louvor, as promessas relativas a Maria, dizendo:
– Louvado seja o Senhor que olhou para o Seu povo e deu cumprimento às
promessas feitas no Paraíso, quando disse que a geração da mulher esmagaria a
cabeça da serpente.
– Bendito seja o Senhor que, abençoando a Sua serva, permitiu que nela nascesse o
germe prometido a Abraão e florescesse a haste de Aarão.
Z
Terminado o cântico de acção de graças, vi a gloriosa mãe da Virgem toda
inundada de luz e as santas mulheres cheias de admiração, ao escutarem as palavras
inspiradas que San-
ta Ana entoara com emoção. No final das boas vindas, serviram às santas mulheres
pão, fruta e água misturada com um licor aromático, próprio da terra. Finda a
refeição, que foi tomada de pé, retiraram-se as três, e, como fossem descansar da
longa caminhada, adormeceram.
Mas Santa Ana continuou recolhida em oração. Por volta da meia-noite, mandou
acordar as irmãs que, levantando-se, lhe foram fazer companhia. Ajoelhada de novo
ao pé do oratório, estava enlevada em oração, quando uma luz sobrenatural, descendo
do alto, a envolveu por completo. As santas mulheres, ofuscadas pela claridade
celeste, caíram por terra, fora de si. Enquanto tudo isto se passava, vi Santa Ana
tomando nos braços uma menina toda resplandecente que, depois de apertar amorosa-
mente ao coração, colocou num berço em forma de escabelo, continuando, porém,
absorvida, orando ao Senhor.
Momentos depois, começando Maria a chorar, tomou-a de novo e envolveu-a em
faixas até à altura do peito. Foi neste momento que, desaparecendo a claridade que
envolvia mãe e filha, as santas mulheres, erguendo-se do lugar onde estavam,
receberam com lágrimas de alegria a menina, que Santa Ana lhes colocou nos braços,
entoando juntas um novo cântico de acção de graças. E quando, momentos depois, a
menina era elevada ao alto e oferecida ao Senhor pelas mãos da mãe, um coro de
anjos, descendo do céu, anunciou-lhes, no meio de aleluias, que o nome que deviam
dar à recém-nascida era o de Maria.
Z
Chamado São Joaquim para ver a menina, ao chegar junto do leito, ajoelhou-se e,
tomando a filha nos braços, entoou com os olhos rasos de lágrimas um salmo de
louvores ao Senhor.
Vi que Maria Heli, a filha mais velha de Santa Ana, só compareceu depois do
nascimento e, embora já fosse mãe há alguns anos, não assistiu ao nascimento de
Maria, talvez porque, segundo as leis judaicas, uma filha não devia, nestes momentos,
encontrar-se junto de sua mãe.
Como o nascimento de uma criança, depois de muito tempo de esterilidade, fosse
tido na conta de uma grande bênção, logo que foram sabedoras do facto, vieram

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muitas pessoas, algumas de longe, para verem a menina, que a todas foi mostrada, a
partir do dia seguinte, comparecendo primeiro as da vizinhança, que, durante a noite,
tinham visto uma nuvem de luz pairando sobre a casa onde Santa Ana morava.
Z
Quando Maria, ao nascer, foi recebida nos braços de sua mãe, vi que nessa hora a
mesma era também apresentada à Trindade Santíssima e saudada no céu por todos os
coros angélicos. Nessa hora, Maria teve conhecimento, por uma forma sobrenatural,
do seu altíssimo destino e das alegrias e dores que para ela estavam preparadas. Nós
não podemos compreender a ciência que lhe foi comunicada, pois que o nosso
entendimento é filho da árvore do mal, plantada no meio do Paraíso.
A seguir, vi que o nascimento de Maria foi anunciado aos Patriarcas que estavam
nos limbos, à mesma hora em que ela veio ao mundo, e senti como todos eles se
encheram de uma alegria inexprimível, particularmente Adão e Eva, que naquele dia
viram cumprida a promessa que lhes fora feita no Paraíso. Na natureza foi também
grande o movimento de alegria e os próprios demónios, aterrorizados pela presença
de muitos anjos bons na terra, atormentavam com mais violência os pobres possessos,
exclamando:
– É preciso fugir; temos de partir daqui. Uma Virgem acaba de nascer e outros
anjos mais poderosos nos perseguem.
Vi também no Templo a profetisa Ana e com ela Noemi, tia de Lázaro, serem
acordadas e receberem a revelação do nascimento de uma menina da eleição do
Senhor.
Z
Hoje, dia 13 de Setembro, assisti a uma festa de família na casa de Santa Ana. Em
volta da sala principal encontrava-se disposta uma mesa com todos os preparativos
para um grande banquete e, ao centro, outra em forma de altar, sobre o qual foi posto
um berço, tendo ao lado uma estante com rolos e pergaminhos.
À hora devida, cinco sacerdotes da sinagoga de Nazaré começavam a cerimónia
daquele dia. Ao fundo da sala, estavam várias pessoas, entre elas a irmã de Santa
Ana, Maraha de Séforis e Heli. Enué, irmã de Santa Isabel, trazendo a menina do
leito da mãe, foi colocá-la nos braços de São Joaquim, que a apresentou aos
sacerdotes, os quais sobre ela recitaram, junto do altar, as orações prescritas na Lei.
Terminada a leitura, foi a Virgem entregue ao primeiro de entre os levitas que,
depois de a elevar nas mãos em sinal de oferecimento a Deus, a reclinou no berço
colocado sobre o altar, e lhe cortou à tesoura três fios de cabelo, que foram
queimados em brasas, ali acesas. Terminada esta primeira cerimónia, tomou um
pouco de azeite e ungiu com ele os cinco sentidos da menina, sendo a última unção
no vazio do estômago. Sobre o peito, foi-lhe colocada uma legenda com a palavra
Maria e, terminadas as cerimónias, entoaram juntos os salmos próprios da
solenidade..
Z
Chegando o tempo da purificação, São Joaquim e Santa Ana tomaram com a
menina o caminho de Jerusalém, onde ofereceram o sacrifício prescrito na Lei. A
apresentação de Maria foi acompanhada dos mesmos sentimentos de piedade com
que, mais tarde, a mesma Virgem havia de oferecer Jesus no Templo e resgatá-l’O,

33
segundo as prescrições de Moisés. Entregando, no dia seguinte, as suas oferendas e
tomado o compromisso de, chegado o tempo devido, voltarem com ela para o serviço
do Senhor, regressaram de novo à sua casa de Nazaré.

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Capítulo IV

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Apresentação de Maria no Templo
Na casa de São Joaquim, encontravam-se presentes três sacerdotes, que vieram
fazer um interrogatório a Maria e tomar conhecimento dos seus progressos nas coisas
da Lei. Um deles era de Nazaré, o segundo de Séforis e o outro de um lugar cujo
nome, principiando por Ma..... fica a umas quatro léguas dali. Entre as pessoas
presentes, vi Maria Heli, acompanhada da filha, de nome Maria Cléofas, mais robusta
e desenvolvida do que a Virgem. A Mãe do Salvador, de constituição delicada, tinha
o cabelo louro, levemente ondeado nas extremidades e o vestido, talhado já segundo
os moldes usados no Templo, fora trabalhado por mulheres da terra, mas visionado
por um dos sacerdotes.
O dia do exame de Maria foi de festa para toda a família de Nazaré e, como a todas
as perguntas que lhe eram feitas respondesse com sentido e exactidão superiores aos
conhecimentos da sua idade, os sacerdotes, que a princípio a interrogavam com um
sorriso complacente, admirados pelo que ouviam, tomaram, pensativos, um ar de
gravidade, surpreendidos por tudo quanto viam e escutavam da boca daquela menina.
Os pais, que a tudo assistiam, derramavam lágrimas de alegria, bem como as demais
pessoas da família que vieram tomar parte na festa. A seguir ao jantar, vestiram à
menina os trajes em uso nas solenidades do Templo e, assim preparada, receberam os
sacerdotes os compromissos que ela tomou de se abster de vinho, carne, peixe e de
outros manjares muito em uso entre os judeus e muito especialmente de vinagre,
produto este que as judias do seu tempo usavam imoderadamente.
Finda a cerimónia, como o mais velho dos sacerdotes a abençoasse, vi em espírito o
coração da Virgem e nela brilhar, como dentro de uma glória celeste, aquele objecto
ou relíquia sagrada que nas minhas contemplações encontrei sempre na arca da
Aliança. Ao receber a bênção, foi revelado a um dos sacerdotes presentes que Maria
era o vaso sagrado, que encerrava o mistério da salvação.
Dentro de uma esfera luminosa semelhante ao cálice de Melquisedec, vi os
símbolos figurativos da bênção recebida, representados pelo trigo e vinho, por carne e
sangue, que tendiam à produção de uma mesma substância. No alto destes símbolos
vi o coração de Maria abrir-se e nele receber, como em verdadeira arca, o símbolo
misterioso, aureolado de pedras preciosas, tendo cada uma delas uma significação
mística. Era como se a arca da Aliança tomasse conta do lugar que lhe pertence no
Santo dos Santos. Findo o quadro, nada mais vi senão a Virgem, que me pareceu
transfigurada pelo esplendor da luz que nela brilhava.
Terminada a cerimónia, os sacerdotes entregaram a menina aos pais que a
receberam nos braços, cheios de santa comoção.
Z
Cheguei muito de madrugada a casa de Santa Ana. Havia nela gente que dormia.
Outros, porém, já acordados, movimentavam-se, tratando dos preparativos para a
viagem. Eram os da família de Santa Ana, que tudo dispunham, alumiados pela
claridade de uma lâmpada de braços. Fora, apertados no dorso de uma alentada
jumenta, viam-se já vários embrulhos, contendo artigos de vestuário e de
alimentação, como uvas secas, passas de figos e outros géneros de conserva.

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Notei, porém, que entre as pessoas ali presentes se encontravam dois mancebos de
aspecto agradável, trazendo cada um o seu livro, talvez, assim me pareceu, com o fim
de se instruírem. Usavam cabelo ondeado, cor de ouro, a cair-lhes sobre os ombros e,
como a ninguém falaram, tive a impressão de que a sua presença passara
despercebida às pessoas ali presentes.
Maria, embora soubesse ler, não levava nenhum livro para seu uso. Mas os livros
dos dois mancebos não eram como os livros de hoje. Estavam escritos em tiras de
meia vara de largo e enrolavam-se num pedaço de pau em forma de cilindro, com as
extremidades torneadas e mais salientes.
O mais velho dos mancebos tinha o livro aberto, isto é, desenrolado e,
aproximando-se de mim, leu-me uma passagem dele, que me explicou. A escritura
era toda em letras de ouro, como eu nunca tinha visto, e lia-se da direita para a
esquerda. Embora aquela língua me fosse desconhecida, eu entendi tudo o que lá se
dizia. Era uma passagem dos livros de Moisés. Entretanto, o mais novo dos
mancebos, alegre e despreocupado, saltitava em várias direcções, correndo e
divertindo-se com o sabugo ou cilindro onde o livro se enrolava.
Na véspera da partida para o Templo, vi São Joaquim escolher no meio do rebanho
sete novilhos dos mais gordos e formosos e outros tantos cordeiros, que foram
enviados na frente para sacrifício propiciatório.
Z
Os dois jovens eram figuras simbólicas de profetas. O que parecia maior e de
aspecto mais grave foi o que me apresentou a passagem do segundo livro de Moisés,
relativa à sarça ardente, figura do Espírito Santo ardendo na alma pura da Virgem
Maria. A união da chama com o arbusto que, ardendo, não era queimado, significava
a união que em breve se ia dar entre a divindade e os homens.
O segundo mancebo, mais novo, recriando-se com o livro desenrolado ao vento,
queria dizer que Maria entrava agora, jubilosa e contente, nos verdadeiros caminhos
de mãe do Redentor e assim como aquele jovem brincava com ingenuidade e
singeleza, assim a Virgem, sendo a depositária da grande Promessa, brincava em
inocência e candura, sem deixar os caminhos a que era chamada, para cumprimento
dos seus altos destinos.
Os dois mancebos explicaram-me o sentido das sete passagens contidas nos livros
de que eram portadores, mas no estado de sofrimento em que me encontro, tudo me
fugiu da memória. Neste momento, apenas me recordo do que acabei de contar.
Z
Mal clareava o dia, quando os viajantes – São Joaquim, a Virgem e alguns servos –
se puseram a caminho de Jerusalém. Além da jumenta com as provisões da viagem e
vestuários da menina, vi outra em que Maria tomava lugar. Fazendo companhia ao
grupo, seguiram outras pessoas de família até uma bifurcação do caminho, onde
fizeram as despedidas.
Aos dois mancebos, que, na viagem, ladearam a comitiva, ouvi-os entoar por vezes
os salmos Judica me Deus e Eructavit cor meum. Por eles soube que ao som desses
cânticos é que a Virgem Maria havia de ser recebida no Templo.
Julga-me, ó Deus, e separa a minha causa da gente não santa [...]
Expandi o meu coração numa palavra boa e ao meu rei consagro todas as minhas

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obras. Escuta, ó filha, vê e inclina o teu ouvido e esquece-te do teu povo e da casa de
teu pai e o rei cobiçará a tua beleza (Sl 44).
O Senhor falou [...] de Sião é que vem o resplendor da sua formosura [...] Deus virá
à vista de todos (Sl 49).
A primeira parte da viagem venceram-na em poucas horas, fácil como era o
caminho, em declive suave. Percorrido este lanço, deram princípio à ascensão de um
monte. Foi no alto, junto de umas árvores e ao abrigo delas, que tomaram a primeira
refeição. Soube que essas árvores tinham o nome de bálsamo. Das incisões feitas nos
ramos, corria um líquido aromático, que recolheram cuidadosamente em âmbulas
para o resto da viagem e vi que, misturando-o com água de uma fonte vizinha, dele já
ali beberam naquele primeiro repasto, para depois retomarem o caminho, que dali em
diante se tornou difícil, subindo e descendo encostas pedregosas. Foi neste percurso
da viagem que depararam com uma família das suas relações, onde tomaram a
segunda refeição. Pela maneira como foram recebidos, pareciam dizer que eram da
mesma consanguinidade.
Na continuação da viagem, viram na sua frente uma cidade edificada num alto. O
nome dela não o posso agora recordar. Antes de lá chegar, pois tiveram de lhe passar
ao lado, atravessaram uma corrente de água. Voltei a encontrar a cidade quando o
Salvador, ao partir de Nazaré para receber o baptismo de João, por ali seguiu
também, mas a caminho de Betânia. Um dos bairros é ocupado por uma colónia de
escravos pagãos, a que os judeus impõem os serviços mais pesados da cidade.
Ao tempo da fuga para o Egipto, a Sagrada Família igualmente por ali passou, mas
nessa viagem, o primeiro repouso tomaram-no em Názara, povoação situada entre
Massaloth e outra cidade igualmente construída num alto, porém, mais próxima desta
última povoação.
Este foi o primeiro dia da viagem de São Joaquim e da Virgem, a caminho do
Templo.
Z
Hoje, a menina chegou com os seus pais a uma cidade situa-
da a cerca de seis léguas a nordeste de Jerusalém. Chama-se Betoron e fica no sopé de
uma montanha. Antes, porém, atravessaram uma torrente que entra no mar a pouca
distância de Jope. Junto dela travaram-se, noutros tempos, grandes pelejas.
De lá até um lugar da estrada, de onde já se vê a cidade de Jerusalém, vão ainda
duas léguas.
Os viajantes deram entrada na casa de uma família das suas relações e amizade cujo
dono desempenhava a missão de chefe de uma escola de levitas, sendo Betoron de
facto uma cidade levítica. Sabendo que a filha de São Joaquim e de Santa Ana ia ser
consagrada ao serviço do Templo, organizou com toda a sua família uma linda festa
em honra dos visitantes. Nela tomaram parte todos os meninos da escola, que deram
particular relevo àquele encontro de famílias. Finda a solenidade, todos levaram na
alma uma santa recordação, edificados com as palavras cheias de sabedoria e acerto
com que a Virgem a tudo respondia.
Por esta ocasião, falou-se também de outra menina de nome Susana que, vindo
mais tarde a fazer parte do número das santas mulheres que serviram ao Senhor nas
Suas pregações, por ali havia passado poucos dias antes. Era o lugar dela que Maria

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ia ocupar no Templo.
Z
Hoje de madrugada [dia 6 de Setembro], vi que os viajantes retomaram o caminho
de Jerusalém, onde me parece que se ia celebrar uma solenidade. Soube então que
Maria tinha exactamente três anos e três meses sendo, porém, mais desenvolvida que
outras meninas da mesma idade. Ao fazer as despedidas, todos quiseram oferecer aos
viajantes, e especialmente à Virgem, artigos de vestuário e mimos de alimentação.
Na sua viagem para Jerusalém, passaram também por Ussenquera e Gofna, onde
moravam outras famílias conhecidas. Mas não pararam nessas cidades, seguindo
directamente para Jerusalém.
Z
Pelo meio dia de hoje, 6 de Novembro, assisti à entrada do cortejo que acompanhou
a menina ao Templo. Jerusalém é uma cidade de vida e costumes muito diferentes das
cidades dos nossos dias, não se podendo fazer uma ideia dela pelo movimento que se
vê, por exemplo, em Paris.
Jerusalém é rodeada, por um lado, de vales fundos sobre os quais não se abrem
janelas nem portas das habitações. Nos pontos altos foram-se construindo, com o
tempo, novos agrupamentos de casas e, como todas as alturas, à medida que se
povoavam, eram rodeadas de muralhas, resultou haver na cidade três linhas de
fortificações, uma para cada quarteirão.
Alguns dos novos bairros eram ligados entre si por pontes sólidas, algumas de
grande altura.
Nas casas, os quartos e salas dão sempre para um pátio interior e quem passa na rua
vê apenas as paredes e os terraços.
Os homens, terminados os negócios ou arrumados os serviços do Templo,
recolhiam ao sossego das suas casas, onde passavam o resto do tempo e, a não ser nas
vizinhanças dos mercados e palácios onde é mais intensa a vida e maior o ruído dos
viajantes e soldados, a cidade conserva-se habitualmente como que adormecida e em
silêncio. Quando é maior o concurso do povo no Templo, chegam a ficar desertos os
principais bairros da cidade e foi assim que muitas vezes o Salvador percorreu com os
discípulos as ruas de Jerusalém, sem que alguém o viesse importunar.
A falta de água para consumo público e do Templo era nessa época muito sensível,
vendo-se, além dos aquedutos de abastecimento, alguns torreões destinados à
elevação da mesma até aos pontos mais altos da cidade. No Templo, onde, devido às
purificações dos vasos sagrados e lavagens do altar dos sacrifícios, é maior o
consumo, são obrigados a fazer muita poupança.
Os produtos do comércio e particularmente os géneros de alimentação afluem às
praças públicas, onde os mercadores vivem agrupados em tendas pintalgadas de
resina e pês, como se vê nas proximidades da Porta das Ovelhas. É junto desta que se
encontram à venda os mais variados artigos de joalharia, pratas e pedras de brilho
para enfeites e adornos vários.
A montanha sobre a qual foi edificado o Templo encontra-se rodeada de casas,
principalmente por aquele lado onde o declive é mais suave. É nelas que moram
alguns dos sacerdotes e trabalhadores, encarregados da limpeza das canalizações e
fossas, por onde correm as águas e resíduos dos sacrifícios. As ruas seguem nestes

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bairros paralelamente à grande muralha, das casas que estão mais acima podem-se ver
os terraços das outras construídas na encosta, dando o seu conjunto a impressão de
degraus a subir. Os terrenos ao norte da cidade encontram-se quase todos ocupados
por hortas e jardins, pertença dos sacerdotes e por eles cultivados. Toda essa região é
também muito acidentada.
As obras do Templo continuavam ainda quando Cristo pregava e pode dizer-se que
nunca cessaram até à destruição da cidade.
Como na montanha aparecesse mineral, foi ele extraído e empregado nas várias
ornamentações do edifício, havendo nos subterrâneos lugares para a fundição de
metais.
Dentro do Templo nunca se me deparou um sítio onde pudesse orar à vontade.
Tudo nele é pesado, maciço, cheio de colunas e de enormes muralhas de pedra. Nas
maiores solenidades e à hora dos sacrifícios havia sempre grande concorrência de
povo. Eu, porém, nunca senti atractivos para estas imolações contínuas, nem nunca
pude ver com agrado tanto sangue a correr das vítimas, embora tudo se faça com uma
ordem e asseio admiráveis.
Há muito tempo que não via as construções do Templo, incluindo as suas passagens
e dependências, com tanta nitidez como no dia de hoje, embora haja outros lugares,
que agora não posso descrever com exactidão.
Z
Os viajantes, algumas horas depois da partida de Betoron e tendo já diante dos
olhos as muralhas de Jerusalém, contornaram pelo exterior como quem vai a caminho
do vale de Josafat. Dali, deixando à esquerda o monte das Oliveiras e o caminho de
Betânia, subiram à cidade, dando entrada pela porta chamada das Ovelhas, lugar de
trânsito para o mercado do gado. A pouca distância da referida porta, há uma piscina
destinada às primeiras lavagens das rezes que se destinam aos sacrifícios. Não é esta,
porém, a piscina de Bethesda.
A seguir aos primeiros passos dentro dos muros, deram entrada noutro quarteirão
da cidade e dali foram seguindo por um vale interior, vendo-se a um dos lados as
muralhas de um bairro construído numa zona mais elevada, até chegarem às
proximidades do mercado do peixe, onde se encontra a casa paterna de São Zacarias,
cuja família, sabedora da aproximação dos visitantes, tinha ido ao encontro de Maria,
acompanhando-a já desde o caminho do vale. Era ali que São Zacarias se hospedava
quando de Hebron vinha para as funções sacerdotais no Templo.
Entre as pessoas que foram ao encontro da Virgem, viam-se muitas criancinhas
com flores e várias pessoas de Belém e de Hebron.
Em casa de São Zacarias foi-lhes servida uma refeição e, depois de breve descanso,
retomaram pelas ruas da cidade o caminho em direcção ao Templo. Rodeada de
quatro meninas vestidas de branco, seguia na frente a Virgem e imediatamente os pais
dela com São Zacarias e as restantes pessoas da amizade da família, que fechavam o
cortejo.
Neste percurso, foram passar ao lado do palácio de Herodes e da casa mais tarde
habitada por Pilatos, chegando finalmente ao ângulo nordeste do Templo, por onde,
deixando atrás a fortaleza Antónia, subiram uma escadaria aberta na muralha.
Maria, radiante de contentamento, ia na frente, sem que ninguém a ajudasse na

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subida dos degraus e assim chegaram à hospedaria do Templo, onde tudo estava
preparado para receber a família de Nazaré. Como esta, havia em redor do Templo
várias outras hospedarias destinadas a receber as pessoas que vinham de longe.
Aquela onde foram recebidos constava de quatro galerias que davam todas para um
pátio interior.
O primeiro serviço prestado aos peregrinos consistiu na lavagem dos pés, havendo
homens e mulheres, cada um para as pessoas do respectivo sexo. De lá
encaminharam-se
para uma grande sala com uma bacia de bronze ao centro e nela é que todos lavaram
as mãos e o rosto.
Cumpridos estes primeiros deveres de hospitalidade,
Santa Ana e São Joaquim, tomando a menina, foram apresentá-la a dois sacerdotes,
daqueles que já a haviam examinado em Nazaré. Trocadas algumas palavras sobre a
viagem, chamaram eles à sua presença uma das directoras encarregadas da educação
das meninas no Templo, a quem apresentaram, por sua vez, a nova aspirante e lhe
deram instruções sobre tudo o que a Maria dizia respeito.
As meninas viviam em habitações apropriadas, sob a vigilância de mestras
escolhidas segundo normas especiais. Aquela que ia tomar a seu cuidado a educação
da Virgem Maria apresentou-se com o vestuário próprio do seu cargo e coberta com
um véu, que lhe deixava a descoberto apenas uma parte do rosto. Tomando conta da
menina, falou-lhe com manifestações de afecto, mas sem abdicar de uma certa linha
de dignidade, que transparecia em cada uma das suas palavras.
Como a Virgem lhe ficasse entregue desde aquele dia, a nova preceptora desceu
com ela à hospedaria, de onde tinha saído já a maior parte das pessoas, que haviam
tomado parte no cortejo; ficou apenas a família de Maria. No dia seguinte, festejava-
se a entrada solene da nova pupila, que se apresentaria com os vestidos e mais
adereços impostos pelos regulamentos da casa.
Z
Passei a tarde de hoje contemplando os preparativos para o sacrifício e recepção de
Maria no Templo. Pela madrugada, São Joaquim, ajudado por outros homens, levou
para o sacrifício as vítimas que à entrada do recinto foram cuidadosamente exami-
nadas por um sacerdote. Quando alguma era rejeitada, seguia dali para o mercado da
cidade.
A tudo assisti, mas não é agora possível recordar-me de todos os pormenores do
sacrifício. Lembro-me de ter visto
São Joaquim colocar a mão sobre a cabeça de cada uma das vítimas e receber num
vaso o sangue e algumas das vísceras.
O local destinado às imolações era rodeado de colunas e guarnecido de mesas,
vasos e mais utensílios destinados à matança, divisão e distribuição dos membros das
vítimas.
As gorduras, bem como o fígado e o baço, eram postos à parte e cobertos de sal;
mas os intestinos, limpos e com um recheio de ervas, voltavam para o seu lugar,
dando à vista a impressão de que a vítima continuava intacta, sendo os pés atados em
cruz. Terminados os actos segundo o ritual mosaico, era uma parte importante da
vítima levada para a secção das virgens do Templo, que a preparavam para

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alimentação dos sacerdotes, de serviço ao altar.
Todo o cerimonial dos sacrifícios era observado com uma ordem admirável,
caminhando os levitas dois a dois e com tal precisão que, nos seus movimentos,
pareciam obedecer todos a uma máquina oculta. A carne destinada ao sacrifício
ficava naquele dia coberta de sal e no dia imediato é que era consumida no altar.
Enquanto estes factos se passavam no Templo, tudo na hospedaria vizinha se estava
dispondo para a hora do jantar. Presentes havia cerca de cem pessoas, sendo umas
oitenta as crianças de diferentes idades que tomaram parte na festa. Entre elas estava
Seráfia, a quem, depois da crucificação do Senhor, passaram a chamar Verónica.
Contaria então dez a doze anos de idade, tendo, porém, a aparência de menina mais
velha.
Nas mãos de todos viam-se ramos de flores e grinaldas, destinadas a Maria e às
restantes meninas presentes na festa.
Na sala havia também sete círios ou tochas em forma de candelabros, mas ignoro se
o combustível era azeite, cera ou outra substância.
Como alguns sacerdotes, que estavam presentes, mostrassem admiração pelo
número das vítimas oferecidas no altar, respondeu-lhes São Joaquim, dizendo que o
fizera em satisfação da afronta que aí recebera e em acção de graças pela misericórdia
de que o Senhor usara para com ele.
Z
Pela madrugada do dia 8 de Novembro, São Joaquim e Zacarias tomaram juntos o
caminho do santuário. Com o mesmo destino, mas por outras vias, saía pouco depois,
da hospedaria já referida, um cortejo, levando à frente Santa Ana com Maria Heli e
Maria Cléofas. Segue-se a Virgem Maria, vestida de azul celeste e, ao lado, outras
meninas, trazendo como ela flores nos braços e na mão um círio também enfeitado.
Outras donzelas vestidas de festa completavam o cortejo, que era fechado por
mulheres da amizade da família de Nazaré. Os habitantes assistiam com aprazimento
à passagem da comitiva, impressionando-os principalmente a maneira como Maria se
apresentava, parecendo reflectir no exterior a candura e santidade que lhe animavam a
alma.
À chegada do cortejo, vi alguns empregados do Templo junto de uma porta luzidia
como ouro e ornada de figuras, representando cabeças de animais, cachos de uvas e
espigas de trigo. Por ela é que o cortejo devia dar entrada. Reconheci, porém, que só à
custa de grande esforço é que esses homens a conseguiram abrir. Era a Porta Dourada
e para chegar até lá subiram cinquenta degraus espaçados por alguns patamares.
Apenas transpuseram a porta, Maria foi acompanhada pelos sacerdotes até um
pórtico ou grande sala, onde o cortejo se dividiu, seguindo as mulheres e crianças
para o lugar que lhes estava destinado.
São Joaquim dirigiu-se ao recinto do sacrifício, enquanto Santa Ana ficou
substituindo o vestido da menina por outro azul violeta, ao mesmo tempo que lhe
ajustou na cabeça uma coroa de grinaldas.
São Joaquim levou para o altar o fogo da reserva, con-
servando-se durante a cerimónia no meio de dois sacerdotes. A vítima era cortada em
pedaços, sendo os vários fragmentos destinados ao sacrifício consumidos em pontos
diferentes do altar e não juntos, ao centro dele. Em cada ângulo do altar viam-se

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quatro colunas metálicas, que serviam de chaminé, ocas no interior e terminadas em
forma de funil.
As pessoas da comitiva assistiram de pé com Santa Ana e a menina, no lugar que
lhes pertencia. Um muro com gradeamento de ferro separava o átrio das mulheres e,
como o pavimento fosse inclinado, todos podiam ver o cerimonial do altar. No
decorrer do acto, um grupo de educandas ao serviço do Templo, vestidas de branco,
tocavam harpa e vários outros instrumentos musicais.
Terminado o sacrifício, como alguns sacerdotes se aproximassem da Virgem,
cortaram-lhe alguns cabelos, que foram queimados em brasas, enquanto os pais,
pondo-lhe as mãos na cabeça, tomavam o compromisso da entrega dela, sendo a de-
claração transcrita em livros. Entretanto, o coro entoava os salmos: Deus deorum e
Eructavit cor meum. Finda esta segunda cerimónia, foi a menina conduzida até ao
altar do incenso, cujos fumos a encobriam por completo.
Vi então que uma glória luminosa envolveu a Virgem Maria, reconhecendo eu
verdadeiramente que nela residia a bênção ou Promessa santa de Deus. Vi pairar no
alto a arca de Noé, que cedeu o lugar à arca da Aliança. A essas figuras sucedeu o
cálice da ceia santa, como a nascer do coração de Maria, e sobre o cálice um pão com
os relevos de uma cruz.
Continuando o quadro a desenvolver-se, vi a cruz tomando vulto e tornar-se maior
do que o próprio Templo. Em volta dos raios luminosos da glória viam-se, figurados
em símbolos de madeira, os instrumentos da paixão de Cristo. Todo este quadro
glorioso era animado pelo Espírito Santo sob forma alada e, como os céus se
abrissem, manifestou-se a cidade de Deus, a verdadeira Jerusalém celeste, com os
seus anjos, palácios, jardins e moradas de todos os santos.
Mas quem poderia referir em linguagem humana tais manifestações da glória de
Maria? Tudo quanto a ela se referia encontrava-se ali representado sob formas
simbólicas, relativas tanto à nova como à antiga Aliança. Aparição simbólica como
esta, vi-a somente uma vez, não há muito ainda, num quadro sobre as magnificências
do santo Rosário. Por ele vi como há pessoas que, julgando-se ilustradas,
compreendem menos as riquezas desta devoção do que muitas almas simples que,
cheias de humildade e confiança em Deus, usam rezá-lo piedosamente. Enquanto
durou esta visão, o público, estranho a ela, continuou a assistir com piedoso
recolhimento às cerimónias do culto.
O Templo é que se me apresentou envelhecido e os muros dele gastos e enegrecidos
pela acção do tempo.
Quando, finalmente, desapareceu o quadro, ficaram ainda os reflexos da bênção da
Promessa, que foram os últimos a desvanecer-se. No lugar do incenso, apareceu de
novo a santa menina, tendo ao lado os dois sacerdotes que a acompanharam.
Descidos os degraus, Maria deu entrada numa sala, onde com algumas virgens do
Templo estavam três mestras, sendo uma delas Noemi, irmã da mãe de Lázaro e a
segunda a profetisa Ana.
O pai, ali presente com Santa Ana, tomou-a nos braços e com afectos de ternura
apertou-a ao coração dizendo:
— Lembra-te da minha alma, diante do Senhor.
Feitas as despedidas, separaram-se uns e outros, tomando cada qual o seu destino.

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Maria subiu com as novas mestras e companheiras para as edificações, que se
estendiam na ala
setentrional do santuário.
De entre as pessoas que no Templo estavam a orar, vi que algumas tiveram o
pressentimento dos destinos de Maria e que Santa Ana, num momento de maior
alegria, dissera assim para algumas companheiras:
– Ali está a Arca da Aliança e o vaso das Promessas do Senhor. Vi também que a
Virgem Maria, antes de se juntar às outras companheiras, a todas perguntou se
queriam suportar-lhe os defeitos. Era este o primeiro dever a cumprir no próprio dia
da entrada.
A seguir a uma breve refeição na mesma sala por onde tinham dado entrada, os dois
esposos retomaram o caminho de Betoron e de lá seguiram para sua casa, nas
proximidades
de Nazaré. Possuíam eles haveres importantes e, embora distribuíssem com
abundância do que tinham, viviam com espírito de verdadeira mortificação e pobreza.
É assim que Santa Ana, durante tempos seguidos, não tomava senão alimentos frios.
Finda a ceia na comunidade das meninas, Noemi conduziu a sua nova pupila ao
quarto que lhe fora destinado, ao lado do dela. Além do lugar para a cama, havia nele
uma mesa, uma pequena cavidade para os vestidos e um banquinho. No Templo, as
mulheres em serviço do culto traziam vestuário branco de mangas muito abertas, que
dobravam quando estavam a trabalhar.
Nunca vi que Herodes tivesse restaurado o Templo por completo. Vi que vários
trabalhos se fizeram durante o seu reinado e quando Maria ali entrou, onze anos antes
do nascimento de Cristo, não havia obras no Templo propriamente dito. Trabalhava-
se nas obras exteriores, mas essas nunca se chegaram a concluir.
Z
Subindo a uns degraus, podia deles ver-se para o interior do santuário. No muro
havia um nicho com uma lâmpada, a cuja luz a vi lendo as orações escritas num rolo
de pergaminho. Era um quadro comovedor. Vi-a também, quando trabalhava em
linho destinado aos usos do culto. Numa das refeições, vi Noemi apresentar-lhe fruta
seca do tamanho de favas e um copo com água. Maria usava um vestido de listas
azuis e brancas com flores amarelas e, em todos os seus actos, vi que se apresentava
com a gravidade de pessoa de mais idade do que aquela que na realidade tinha.
Como todas as meninas educadas no Templo, Maria ocupava-se, sob a direcção de
Noemi, nos variados servi-
ços do asseio e reparação das alfaias do culto. O tempo encontrava-se para todas
regularmente distribuído. Havia horas destinadas ao trabalho, fiando e tecendo, e
horas para a oração e o estudo. Muitas vezes vi-a, durante o silêncio da noite,
entregue à meditação. Levantando-se da esteira, onde dormia, orava no meio de
lágrimas, pedindo ao céu a vinda do Salvador prometido e, na sua humildade,
oferecia-se para última das servas da mãe do Messias prometido.
Quando orava, cobria o rosto com um véu, como era costume naquele tempo,
sempre que uma mulher se apresentava diante de uma pessoa de situação mais
elevada. É assim que, ao dirigirem-se aos sacerdotes, recebendo ou entregando o
trabalho nas dependências do Templo, iam e voltavam com o rosto velado.

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No centro das edificações do Templo, havia o santuário com o Santo dos Santos e
em volta dele é que estavam as dependências, onde moravam os que serviam nos
actos do culto. Ocupando essas secções os três lados do edifício, era nas faces
voltadas a poente e norte que viviam as meninas consagradas a Deus e as mestras que
as dirigiam.
Crescendo em anos, foram distribuídos a Maria outros trabalhos como os de
purificar os vasos dos sacrifícios e cozinhar as refeições para os sacerdotes e demais
servidores do altar.
A vida interior desta filha do Altíssimo era, porém, uma elevação contínua para Deus
e os destinos para que era chamada neste mundo não puderam ficar por muito tempo
ocultos. Zacarias, quando subia a Jerusalém para oficiar, visitava-a e Simeão sabia
também que a mão do Senhor operava em Maria grandes prodígios.
A santidade e os mais dotes do Espírito Santo, que nela se manifestavam, não
puderam por muito tempo ficar no esquecimento e é assim que vi alguns dos
sacerdotes escrever em rolos alguns dos factos relativos à vida da Virgem, no
Templo, sendo mais tarde lidos à mistura com outros, pelos homens letrados desse
tempo.
Z
José, cujo pai se chamava Jacob, foi o terceiro de entre seis irmãos e morava com
os seus progenitores na casa que fora de Isaí ou Jessé, pai de David. Das primitivas
construções do solar deste rei, apenas restavam de pé alguns lanços de paredes
restauradas posteriormente. José tinha então oito anos de idade e era em qualidades
morais muito diferente de todos os outros irmãos.
Sendo por índole pacífico, simples e sem ambições, fora ao mesmo tempo
enriquecido com o dom da inteligência, compreendendo sem dificuldade tudo o que
lhe ensinavam. Mas os irmãos, de génio mais turbulento e de sentimentos religiosos
muito diferentes, procuravam em tudo contrariá-lo, moendo-lhe a paciência desde
manhã até à noite. É assim que, possuindo cada irmão uma horta, vi muitas vezes os
mais velhos invadirem a terra que José trabalhava, estragando-lhe as sementeiras
mais lindas e viçosas.
Costumava José refugiar-se num dos lugares mais recatados da casa e lá, de braços
abertos, fazia a oração diária ao Senhor. Como os irmãos o descobrissem, aí mesmo o
importunavam, batendo-lhe de surpresa nas costas. Numa das vezes, vi que José
estava em êxtase e como tivesse caído sobre o lajedo, levantou-se já senhor de si e,
sem um queixume, foi procurar outro sítio mais sossegado, onde melhor pudesse orar.
Os pais não viam também com agrado que José se empregasse em trabalhos
humildes, em vez de acompanhar os irmãos na conquista de uma posição elevada,
desperdiçando, como eles diziam, a melhor parte do tempo em exercícios de piedade
e na oração. Para se libertar dos maus-tratos dos irmãos, vi-o procurar uma
comunidade de piedosas mulheres essénias e com elas orar à luz de uma lâmpada
suspensa na rocha de umas grutas de Belém. Tinha então uns doze anos de idade. Vi-
o também ocupado em trabalhos de madeira e orar noutras grutas das vizinhanças e
entre elas naquela que mais tarde havia de abrigar o Presépio de Jesus.
Ia crescendo em anos e, como os pais cuidassem pouco da educação dos filhos, José
tratou de aprender o ofício de carpinteiro. Era seu mestre um velho com oficina

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montada junto dos essénios de Belém. Tinha dezoito anos, quando resolveu deixar os
irmãos e tomou o caminho de Lebonah. Havia nesta cidade um mestre e foi sob as
ordens dele que José ficou a trabalhar, já livre das censuras e maus-tratos dos irmãos.
Os pais continuavam em Belém e, como desconhecessem o seu paradeiro, supuseram
que tivesse sido levado por uns bandidos. Depois foi descoberto pelos irmãos que, ali
mesmo, o acusaram de se ocupar numa profissão desonrosa para a família. José,
porém, continuou a trabalhar no seu ofício e, como fosse de boa índole, amigo do
trabalho e piedoso, todos os que com ele conviviam lhe dedicavam sempre particular
estima.
Mais tarde mudou para a povoação de Tabanach, próximo de Magiddo, nas
margens de um rio (Cison), que dali segue caminho para o mar. A cidade de Afec,
que foi pátria de São Tomé, ficava-lhe a pouca distância. Foi nesta oficina que José,
já sob a direcção de um novo mestre, sabedor e rico, começou a trabalhar em obras
mais perfeitas de carpintaria. Vi-o tempos depois em Tiberíades, sob as ordens de
outro patrão. Teria, nessa altura, uns trinta e três anos e morava numa casa com frente
para o mar.
Desde que partira de Belém, muitas transformações se vieram a dar na família e na
casa de José. Como os pais tivessem morrido, os irmãos, decaídos da antiga grandeza,
venderam o solar paterno, que passou para mãos estranhas e dispersaram-se também.
Apenas dois ficaram a viver na cidade de David. José continuou, porém, a trabalhar
pacificamente no ofício da sua arte e entregue ao exercício da oração, pedindo dia e
noite ao Senhor a vinda do Messias prometido. Estando um dia a dispor um oratório
para mais recatadamente nele orar, apareceu-lhe um anjo que lhe disse:
– José, pára. Basta o que já fizeste.
E acrescentou:
– Assim como Deus confiou ao patriarca José a administração dos celeiros do
Egipto, assim a ti vai ser confiado um novo celeiro com o trigo da salvação dos
homens.
José escutou as palavras do anjo e obedeceu, sem, contudo, na sua profunda
humildade, atingir o sentido misterioso do que lhe fora anunciado. Suspendeu o
trabalho, mas continuou entregue, com mais fervor ainda, à oração, até ao dia em que
recebeu ordem de subir a Jerusalém.

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Capítulo V

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São Gabriel aparece a Zacarias
Evangelho
No tempo de Herodes, rei da Judeia, havia um sacerdote chamado Zacarias. Era do
grupo de Abias. Sua esposa chamava-se Isabel e era descendente de Aarão. Os dois
eram justos diante de Deus: obedeciam fielmente a todos os mandamentos e ordens
do Senhor. Não tinham filhos, porque Isabel era estéril, e os dois já eram de idade
avançada. Certa ocasião, Zacarias fazia o serviço religioso no Templo, pois era a vez
de o seu grupo realizar as cerimónias. Conforme o costume do serviço sacerdotal, no
sorteio coube-lhe entrar no Santuário e fazer a oferta do incenso. Na hora do incenso,
toda a assembleia do povo estava a rezar no lado de fora. Então apareceu a Zacarias
um anjo do Senhor. Estava de pé, à direita do altar do incenso. Ao vê-lo, Zacarias
ficou perturbado e cheio de medo. Mas o anjo disse: «Não tenhas medo, Zacarias!
Deus ouviu o teu pedido; a tua esposa Isabel vai ter um filho e dar-lhe-ás o nome de
João. Ficarás alegre e feliz, e muita gente se alegrará com o nascimento do menino,
porque vai ser grande diante do Senhor. Não beberá vinho nem bebida fermentada e,
desde o ventre materno, ficará cheio do Espírito Santo. Ele reconduzirá muitos do
povo de Israel ao Senhor seu Deus. Caminhará à frente deles, com o espírito e o
poder de Elias, a fim de converter os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à
sabedoria dos justos, preparando para o Senhor um povo bem disposto.» Zacarias
perguntou ao anjo: «Como vou saber se isto é verdade? Sou velho e a minha mulher é
de idade avançada.» O anjo respondeu: «Eu sou Gabriel. Estou sempre na presença
de Deus e Ele mandou-me dar-te esta boa notícia. Vais ficar mudo e não poderás
falar, até ao dia em que estas coisas acontecerem, porque não acreditaste nas minhas
palavras que se cumprirão na altura própria.» O povo aguardava Zacarias e estava
admirado com a sua demora no Santuário. Quando saiu, não podia falar e
compreenderam que ele tinha tido uma visão no Santuário. Zacarias falava com sinais
e continuava mudo. Depois de terminar os seus dias de serviço no Santuário, Zacarias
voltou para casa. Algum tempo depois, sua esposa Isabel ficou grávida e escondeu-se
durante cinco meses. Ela dizia: «Eis o que o Senhor fez por mim, nos dias em que Ele
se dignou tirar-me da humilhação pública!»(Lc 1,5-25)
Zacarias habitava não em Hebron, mas sim em Jutá, uma légua ao sul daquela
cidade. Hebron fora, em tempos, quase tão populosa como Jerusalém, vendo-se ainda
restos de antigas edificações e velhos muros de vedações nos terrenos intermediários
das duas cidades. Os sacerdotes de Jutá eram, porém, de categoria superior aos de
Hebron, que dependiam de Zacarias, sendo a família deste sacerdote muito
considerada, não somente pelas virtudes, que distinguiam os dois esposos, como pela
pureza da sua linhagem, descendentes como eram da família de Aarão. Duas vezes
por ano, Zacarias subia a Jerusalém para o serviço do Templo e quando, desta vez, se
aproximava o dia de deixar a casa de Jutá, deu a saber a Isabel, sua mulher, quanto
lhe era custoso ir ao Templo por causa da esterilidade do seu casamento. Antes de
tomarem o caminho da cidade santa, reuniu Zacarias os sacerdotes da sua turma e
como, numa propriedade das vizinhanças de Jutá, os preparasse para os exercícios do

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culto, falou-lhes sobre as apreensões e tristezas que o dominavam, dizendo-lhes que
alguma coisa lhe ia acontecer.
Dando entrada em Jerusalém e aproximando-se a hora do serviço no santuário, vi-o
aproximar-se do altar dos perfumes e nele queimar o incenso. O tecto desta parte do
santuário era aberto por cima do altar, por onde se podia ver uma parte do céu.
Zacarias estava encoberto à vista do povo e, no momento em que o incenso se
desfazia em nuvens de fumo, vi descer do alto uma grande claridade, que o envolveu,
caindo ele por terra. Mas um anjo ergueu-o, parecendo-me que, ao mesmo tempo
tirava dele qualquer coisa de corporal, que era substituída por outra de forma lumi-
nosa. Foi alguma coisa parecida com o que se deu com São Joaquim, antes da
concepção da Virgem Maria.

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Capítulo VI

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O casamento da Virgem Maria
Na data em que o anjo apareceu a Zacarias, encontrava-se a Virgem Maria no
Templo, servindo ao Senhor, juntamente com algumas das suas companheiras. A elas
pertencia a reparação das vestes sacerdotais e limpeza das alfaias e vasos em uso nos
sacrifícios do altar.
Chegara, porém, o tempo em que lhe pertencia deixar aquele santuário e constituir
família, casando-se, bem como mais sete meninas, que, como ela, tinham completado
os catorze anos de idade. Era este o preceito estabelecido para as donzelas educadas
no Templo. Como os pais de Maria haviam feito a Deus o sacrifício inteiro da sua
filha, o desejo desta era, por sua vez, continuar a viver naquele santo recolhimento.
Quando, pois, o sacerdote lhe anunciou a obrigação em que ela se encontrava de
tomar novo estado, Maria encheu-se de tristeza e deu-lhe conhecimento da resolução
que tomara de viver só consagrada ao serviço do Templo.
A lei fora estabelecida para todas e não admitia excepções. Por isso, para a Virgem
foi de lágrimas a hora em que lhe confirmaram a situação de ter de aceitar um esposo.
São Joaquim havia já falecido e, junto de Maria, encon-
trava-se sua mãe, Santa Ana, que a devia acompanhar na saída daquele santuário.
Entre os judeus havia o pressentimento íntimo de que o Messias prometido havia de
nascer de uma das donzelas consagradas a Deus, no Templo. Este facto explica a
razão por que os sacerdotes não condescenderam com o desejo de Maria, embora
houvesse exemplos de mulheres que, como entre os essénios, viviam em estado de
virgindade.
Na antiga Aliança, não era tido como meritório o estado de virgindade, porquanto
era considerada a maior das bênçãos receber no matrimónio numerosa prole, sendo a
maior glória para uma mãe a esperança de um dia vir a ser apontada entre as
predecessoras do Messias prometido.
Conhecido o futuro que lhe estava preparado, Maria voltou ao seu oratório e,
ajoelhando-se, orou fervorosamente ao Senhor. Lembro-me que, pouco depois, vi a
Virgem tomar uma bilha e seguir com ela a caminho da fonte ou cisterna próxima. Ao
chegar ali, ouviu Maria uma voz do Alto, que a encheu de confiança e lhe esclareceu
o espírito. Essa voz não era uma aparição, mas uma palavra celeste, que lhe mostrou
como era da vontade do Senhor que ela aceitasse o estado que o sacerdote lhe
anunciou.
De entre os sacerdotes do Templo, havia um tão adiantado em anos que precisava
de ser transportado pelos mais novos. Era o Sumo Pontífice. A seguir a estes factos,
sendo levado ao Santo dos Santos e como ali, junto do altar do incenso, tivesse uma
revelação do céu, pousou o dedo polegar nesta passagem de Isaías e leu:
O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, e uma luz brilhou para os que
habitavam um país tenebroso.
Porque nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado: sobre o seu ombro
está o manto real, e chama-se “Conselheiro Maravilhoso”, “Deus Forte”, “Pai para
sempre”, “Príncipe da Paz”. Grande será o seu domínio e a paz não terá fim sobre o
trono de David

51
e seu reino, firmado e reforçado com o direito e a justiça, desde agora e para
sempre. (Is 9,1.5-6)
Em obediência à revelação do Senhor, mandou o sumo sacerdote convocar, por
emissários do Templo, todos os homens da família de David que, no dia marcado, ali
compareceram, vestidos como nos dias das grandes solenidades.
Foi-lhes apresentada a Virgem Maria, que seria desposada por aquele cujo ramo
desse uma flor. Fora a cada um entregue uma vara ainda verde e nela escrito o nome
do possuidor. Maria, retirando-se, voltou para a sua pequenina cela, onde
fervorosamente orou ao Senhor, mal podendo resignar-se ao pensamento de que um
dia deixaria de guardar a sua virgindade.
Entretanto, no altar dos sacrifícios era oferecida uma vítima ao Senhor, enquanto
sobre outro, o do Santo dos Santos, se depositavam as varas dos pretendentes à mão
de Maria. Assim, orando todos, se completou o acto sacrificatório.
No desenrolar destes factos, vi que um dos mancebos das vizinhanças de Belém,
alimentando a esperança de vir a ser o escolhido para esposo da Virgem, orava com
particular fervor, pedindo a Deus, com suspiros, que enviasse ao Seu povo o Messias
prometido.
Retirados os ramos do altar, reconheceu-se que nenhum deles florescera e isso foi
participado a cada um dos mancebos ali presentes. Assim, nenhum de entre eles foi
escolhido para esposo de Maria de Nazaré. Os mancebos retiraram-se e aquele que
orara tão fervorosamente, Agabus, tomou o caminho do monte Carmelo, ingressando
no número dos anacoretas, que ali viviam desde o tempo de Elias, e lá continuou
pedindo ao céu a vinda do Messias prometido. Os sacerdotes, como pelas genealogias
tivessem conhecimento de que entre os descendentes de David havia um de nome
José, que há muito vivia longe da terra natal, mandaram-no procurar, indo encontrá-lo
ocupado nos seus trabalhos de carpinteiro. Recebendo ordem de se apresentar no
Templo, tomou José o caminho de Jerusalém e como, durante o sacrifício,
apresentasse a vara verde no altar do Santo dos Santos, foi por todos observado que
do ramo nasceu uma flor, semelhante a um lírio.
Vi então o humilde carpinteiro rodeado de uma auréola de luz, como se o Espírito
Santo tivesse descido sobre ele. Todos conheceram que José era o homem escolhido
para esposo de Maria e, por isso, estando presente Santa Ana, lhe foi logo
apresentada Maria que, resignada à vontade de Deus, o aceitou como seu futuro
esposo. Por conhecimento sobrenatural, sabia muito bem a Santíssima Virgem que
tudo é possível ao Senhor, que recebera já o seu voto de a ninguém pertencer senão a
Ele.
Z
O casamento de Maria e de José foi solenizado em Jerusalém, sendo as festas
realizadas nas proximidades do monte Sião.
A elas assistiram, além dos parentes próximos de José, muitas das companheiras de
Maria no Templo. Entre a assistência, notei uma família de Gofna, que, além dos
pais, era representada por duas filhas, todos do parentesco dos desposados.
Durante as festas, que duraram de sete a oito dias, foram levados para os sacrifícios
do Templo alguns dos melhores cordeiros dos rebanhos de Santa Ana.
Foi por esta ocasião que melhor pude ver a Virgem Maria com os seus adornos de

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noiva. O vestido, de que fez uso no dia de núpcias, era de talha larga e vi que as man-
gas se iam alargando também no sentido da frente. Sobre o azul retinto do tecido,
destacavam-se, como era de uso nos ornamentos sacerdotais, as cores vivas de flores
encarnadas e brancas, entremeadas com outras, em menor número, de cor amarela.
O manto, caindo-lhe dos ombros, descia até ao chão, tendo ela, durante todo o
cortejo, levado na mão um círio ou facho, com feitio de ceptro, donde subiam ténues
reflexos de luz.
Era Maria de estatura média e o cabelo de um azul dourado. Os olhos, de grandes
órbitas e habitualmente voltados para o chão, recebiam notável realce pelo contraste
com as sobrancelhas, que eram de cor preta. Nos traços do nariz, levemente afilado e
de linhas bem proporcionadas, reflectia-se o tipo completo da raça de Judá. A boca
nobre, o rosto gracioso e o queixo levemente alongado completavam os traços
fisionómicos desta filha de David.
Durante as solenidades, vi Maria caminhando com gravidade, decência e uma graça
encantadora. Terminadas as festas, deixou o primeiro vestido, oferta de sua mãe, e
vestiu outro menos aparatoso, que mais tarde lhe tornei a ver nas bodas de Caná. Em
meu poder conservo dele uma pequena relíquia.
Nas festas de núpcias, era frequente entre os judeus verem-se noivas ricas mudar
três e quatro vezes de vestido. Com a sua roupagem solene, a Virgem recordava um
pouco certas figuras femininas de uma época posterior, como foram as rainhas Santa
Helena e Santa Cunegundes, embora delas diferenciada pelo manto, sendo muito pa-
recido o de Maria com o usado pelas damas da aristocracia romana.
São José, por sua vez, apresentou-se vestido com uma túnica de cor igualmente
azulada. As mangas que a guarneciam, muito largas também, vinham prender-se por
meio de cordões aos dois lados dos ombros. O pescoço, como era
de uso entre os hebreus, trazia-o envolvido por uma gola ou faixa escura, descendo-
lhe sobre o peito uma larga estola de fazenda branca.
Z
O anel não era de ouro, nem de prata, mas de um metal sombrio com reflexos de
luz. A largura era de quase um dedo e viam-se em volta sinais incrustados, que
representavam
letras.
Terminadas as festas de núpcias, Santa Ana voltou com Maria para Nazaré,
juntamente com outras meninas, companheiras da Virgem no Templo, de quem se
despediram na escola levítica de Betoron. Por seu lado, José tomou o caminho de
Belém, onde tinha de pôr em ordem negócios de família e só algum tempo depois é
que seguiu para Nazaré.
Z
Vi também uma festa em casa de Santa Ana, em que, além de José e de Maria, se
encontravam mais seis convidados e umas seis crianças das vizinhanças.
Numa segunda visão, o meu anjo levou-me de novo à casa de Santa Ana, onde já
não encontrei a Virgem Maria nem José. Vi Santa Ana tomar nas mãos um embrulho
e seguir com ele a caminho de Nazaré. Acompanhei-a no percurso da viagem.
Atravessada a planície, onde pastavam os rebanhos, vi-a aproximar-se de uma colina
arborizada e, passando ao lado, chegar finalmente à povoação onde moravam José e

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Maria.
A casa dos novos esposos ficava a pouca distância das portas da cidade e, à entrada
dela, abria-se um átrio descoberto, de pequenas dimensões. Feitas as saudações do
costume, Santa Ana entregou a Maria os artigos de que era portadora e, quando
depois se retirou, vi que a Virgem lhe fez companhia até certa distância, chorando
copiosamente quando as duas se despediram.

54
Capítulo VII

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Anunciação à Virgem Maria
Vi a Santíssima Virgem morando já na sua nova casa de Nazaré, aonde me levou o
meu anjo, pouco depois das solenidades do casamento. São José tinha saído nessa
altura, levando com ele duas alimárias, em que havia de trazer os utensílios do seu
ofício ou os artigos que lhe couberam na herança paterna.
Na casa de Nazaré, além de duas companheiras, talvez as mesmas que com ela
vieram do Templo, vi Santa Ana com uma parenta viúva, aquela que mais tarde a
acompanhou a Belém por ocasião do nascimento de Jesus.
Vi que Santa Ana, como boa mãe de família, empregou o tempo em dispor tudo o
que pertencia à nova habitação de Maria, sendo nesse trabalho ajudada pelas restantes
companheiras. Como fosse caindo a tarde e depois de passarem algum tempo juntas
no átrio ou solário da casa, vi-as entrar e, agrupadas, fazerem oração em volta de uma
mesa de forma arredondada.
Servida a ceia, que constou de legumes, vi que todas se retiraram para dormir.
Santa Ana ficou ainda a trabalhar nos arranjos domésticos.
Por sua vez, a Virgem também se retirou. O quarto de Maria ficava junto do lar e ao
fundo da habitação, subindo-se a ele por meio de três degraus. As paredes, abertas no
calcário da rocha, encontravam-se revestidas de madeira, bem como os tectos, que
apresentavam figuras geométricas em forma de estrelas. Era aí que se encontrava o
leito da Virgem, enrolado no chão, como era costume naquele tempo.
O anjo celeste que me acompanha sempre levou-me até esse quarto e nele vi tudo
quanto vou contar da melhor maneira que o pode fazer uma miserável criatura como
eu.
Logo que a santa Virgem entrou no cubículo, vestiu uma túnica branca e envolveu a
cabeça com um véu quase da mesma cor. Entretanto, a serva, trazendo uma luz, foi
acendendo uma lâmpada de braços, suspensa do tecto, e retirou-se. Maria tomou uma
mesa que estava encostada ao muro e colocou-a no meio do quarto. Sobre ela via-se
um rolo de pergaminho com letras da Escritura. Ajoelhando ao lado, cobriu o rosto
com o véu e, juntando as mãos, orou durante longo espaço de tempo, sempre de olhos
fixos no céu.
Na sua fervorosa prece, pedia ao Senhor que abreviasse a hora da Redenção,
enviando o Salvador prometido a Israel e que lhe fosse dado tomar parte, como serva,
na missão que Ele vinha cumprir na Terra.
Por muito tempo, ainda, continuou enlevada na oração e entrando em êxtase, vi a
cabeça inclinar-se-lhe sobre o peito. Neste momento, um feixe de luz, descendo do
alto, em linha um pouco oblíqua, inundou de claridade todo o quarto da Virgem. A
lâmpada parecia apagada e a luz dela sem brilho.
Estavam cumpridos os tempos, tendo chegado para a humanidade a hora da
misericórdia.

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A MENSAGEM DO ANJO
Evangelho
No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada
Nazaré. Foi a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José, que
era descendente de David.
E o nome da virgem era Maria. O anjo entrou onde Ela estava e disse: «Alegra-Te,
cheia de graça! O Senhor está contigo!» Ouvindo isto, Maria ficou preocupada e
perguntava a Si mesma o que a saudação queria dizer. O anjo disse: «Não tenhas
medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que vais ficar grávida,
terás um Filho e dar-Lhe-ás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho
do Altíssimo. E o Senhor dar-Lhe-á o trono de seu pai David, e Ele reinará para
sempre sobre os descendentes de Jacob. E o seu reino não terá fim.» Maria perguntou
ao anjo: «Como vai acontecer isso, se não vivo com nenhum homem?» O anjo
respondeu: «O Espírito Santo virá sobre Ti e o poder do Altíssimo Te cobrirá com a
sua sombra. Por isso, o Santo que vai nascer de Ti será chamado Filho de Deus.
Também a tua parenta Isabel, apesar da sua velhice, concebeu um filho. Aquela que
era considerada estéril já há seis meses que está grávida. Para Deus nada é
impossível.» Maria disse: «Eis a escrava do Senhor. Faça-se em Mim segundo a tua
palavra.»
E o anjo deixou-A.(Lc 1,26-37)
Ao tempo em que o anjo pronunciava as palavras da Anunciação, Maria voltou
levemente o rosto velado para o lugar de onde vinha a saudação, mas sem que
ousasse fitar
o enviado do Senhor. Terminada a missão e como que obedecendo a uma ordem, é
que Maria descobriu o rosto e, olhando para o anjo, pronunciou as palavras: «Eis aqui
a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.»
A Santíssima Virgem estava ainda enlevada em êxtase profundo; e como o quarto
continuasse cheio de claridade, vi uma estrada luminosa, subindo dali até junto da
Santíssima Trindade, figurada por um triângulo luminoso, cujos raios
se penetravam reciprocamente. Nessa visão celestial, reco-
nheci a grandeza d’Aquele a quem devemos sempre adorar
sem, todavia, nunca podermos suficientemente compreender: Deus todo-Poderoso,
Pai, Filho e Espírito Santo, e um só Deus Omnipotente.
No momento em que Maria pronunciou as palavras «Que se faça em mim segundo
a tua palavra», vi uma aparição do Espírito Santo sob a forma de asas, mas um pouco
diferente da figura de pomba por que geralmente é representado.
A claridade da luz espalhava-se à direita e à esquerda como asas abertas, mas a figura
parecia-se mais com a de um ser humano do que daquela espécie alada – a pomba.
Do seio desta figura luminosa vi descer torrentes de luz até ao lado direito da Virgem
Maria, que se tornou resplandecente, desaparecendo dela toda a espécie material e
opaca, da mesma maneira que a noite se afasta diante do dia. Quando se retirou o
anjo, vi desvanecer-se igualmente aquela estrada de luz como se fora absorvida do
lado do céu.
Ao tempo desta visão, senti um movimento profundo de indignação quando vi junto

57
de mim uma figura de monstro com forma de serpente, fazendo esforços para subir
até ao lugar onde se encontrava a Santa Virgem. Teria o comprimento de uma
criança, com patas membranosas semelhantes a asas de morcego. Ainda conseguiu
arrastar-se até ao terceiro degrau da entrada, mas, ao chegar ali, como o anjo lhe
pusesse um dos pés sobre a cabeça, deixou escapar um silvo tão horrendo e
penetrante que todo o meu ser tremeu de pavor. Vi que, em seguida, três espíritos o
expulsaram de lá para fora.
Como o anjo se retirasse, continuou Maria num grande recolhimento de espírito,
como absorvida num transporte sobrenatural. Vi que nessa hora, sendo iluminada por
um conhecimento perfeito da Encarnação, adorava o Salvador do mundo, que perfeito
e com todos os seus membros nela ficou morando.
Como são verdadeiras estas palavras do salmo: «Santificou o Altíssimo o seu
tabernáculo [...] e tornou forte a cidade que elegeu para sua morada.»
Em Nazaré dá-se o contrário do que se passa em Jerusalém. No Templo, as
mulheres, não passando do vestíbulo, não podiam também dar entrada no santuário.
Só os sacerdotes é que ali têm acesso. Em Nazaré, é uma Virgem que se transforma
em Templo, passando a morar nela o Sacerdote do Altíssimo, assistindo-lhe essa
donzela, que se transformou em verdadeiro Santo dos Santos. Como este pensamento
tão singelo se torna claro e acessível ao nosso fraco entendimento!
Foi por volta da meia-noite que vi a realização de todo este grande mistério.
Passado pouco tempo, Santa Ana, assim como as outras mulheres, despertadas por
uma agitação que se operou nos seres de toda a criação, entraram no quarto de Maria
e como a vissem de joelhos, orando em êxtase, retiraram-se cheias de respeito, cada
qual para o seu aposento.
Quando a Virgem terminou a sua contemplação, levantou-se e, espevitando a
lâmpada, orou ainda de pé, por algum tempo. Era já de madrugada, quando recolheu
ao leito para dormir.
Na hora em que, guiada pelo meu anjo condutor, me retirei dali, soube que Santa
Ana tivera conhecimento de tudo o que se cumprira naquela humilde casa de Nazaré.
Foi-me explicado o motivo por que o Redentor devia ficar nove meses no seio da sua
Mãe e nascer menino, e também a razão por que não quis aparecer na Terra já homem
perfeito, como Adão, ao sair das mãos de Deus. A razão é que o Salvador quis
santificar de novo, não só a concepção, como o nascimento dos homens, decaídos
pelo pecado original. E se mais cedo não apareceu no mundo, e o motivo por que
escolheu Maria para Sua mãe, é porque só ela foi o que até então nenhuma criatura
tinha sido, nem tornou a haver depois: o vaso puríssimo de graça, que Deus tinha
prometido. Nele é que devia fazer-se homem para satisfazer as dívidas de toda a
humanidade.
A Santíssima Virgem era a flor puríssima da família humana, desabrochada na
plenitude dos tempos. Todos os filhos de Deus entre os homens, bem como aqueles,
que desde o começo trabalharam na obra da santificação, contribuíram para apressar a
hora da vinda do Salvador prometido. Maria era o ouro puríssimo da Terra e, na
humanidade inteira, a única parcela sem mancha, nem da carne nem do sangue,
preparada, recolhida e purificada, sob a lei de Moisés, e protegida na linha dos seus
ascendentes.

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Sendo predestinada na eternidade e aparecendo no tempo para cumprir a missão de
mãe do Eterno, foi gerada na hora em que atingiu a plenitude da graça.
Fui estabelecida desde a eternidade, desde o princípio, antes que a Terra começasse
a existir. Fui gerada quando o oceano ainda não existia e antes que existissem as
fontes de água. Fui gerada antes que as montanhas e colinas fossem implantadas,
quando o Senhor ainda não tinha feito a terra e a 0erva, nem os primeiros elementos
do mundo. Portanto, meus filhos, escutai-me. Felizes os que seguem os meus
caminhos. Quem me encontra, encontra a vida e goza do favor do Senhor. (Pr
8,23-24.32.35)

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GENEALOGIA DE JESUS CRISTO
FILHO DE DAVID, FILHO DE ABRAÃO
Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacob; Jacob gerou Judas e seus irmãos. Judas gerou
Farés e Zara de Tamar; Fares gerou Esron; Esron gerou Argo. Argo gerou Aminadab;
Aminadab gerou Naasson; Naasson gerou Salmon. Salmon gerou Booz de Raab;
Booz gerou Obed de Rute; Obed gerou Jessé; Jessé gerou David. David gerou
Salomão, daquela que foi mulher de Urias. Salomão gerou Roboão; Roboão gerou
Abias; Abias gerou Asa. Asa gerou Josafat; Josafat gerou Jorão; Jorão gerou Ozias.
Ozias gerou Joatão; Joatão gerou Achaz; Achaz gerou Ezequias. Ezequias gerou
Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias. Josias gerou Jeconias e a seus
irmãos no tempo do exílio da Babilónia.
E depois do exílio da Babilónia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel.
Zorobabel gerou Abiud; Abiud gerou Eliacim; Eliacim gerou Azor. Azor gerou
Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud. Eliud gerou Eliazar; Eliazar gerou
Matan; Matan gerou Jacob. Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus,
que se chama Cristo.
E assim, todas as gerações desde Abraão até David são catorze gerações e desde
David até ao exílio da Babilónia, catorze gerações; e desde o exílio da Babilónia até
Cristo, catorze gerações.(Mt 1,1-17)
Maria tinha pouco mais de catorze anos quando se operou nela o mistério da
encarnação do Verbo e Jesus Cristo morreu na cruz tendo trinta e três anos, e três
vezes seis semanas. E digo três vezes seis porque, agora mesmo, vi este algarismo
três vezes repetido.

60
Capítulo VIII

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Maria visita sua prima Isabel
São José regressou pouco depois da Anunciação e um dos seus primeiros cuidados
foi transformar a nova casa de Nazaré, adaptando-a de forma a poder trabalhar nela
no ofício da sua profissão. O esposo de Maria ignorava tudo o que se havia passado
relativamente à encarnação do Verbo. A Santíssima Virgem, sendo a mãe de Deus,
era também a escrava do Altíssimo e, na sua grande humildade, conservou para si o
mistério nela operado, nada revelando do que era só do conhecimento de Deus.
Porém, quando sentiu que era mãe do Senhor, fez os preparativos para visitar em
Jutá, próximo de Hebron, a sua prima Santa Isabel, pois o anjo lhe havia declarado
que seis meses antes ela concebera também um menino.
Evangelho
Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se à pressa a uma
cidade da Judeia.(Lc 1,39)
Aproximando-se a festa da Páscoa, São José, feitos os preparativos, tomou,
juntamente com Maria, o caminho de Jerusalém, seguindo dali para Hebron. Durante
a viagem, vi-os atravessar a planície de Esdrelon e entrar na cidade de Dothan para
visitar um amigo do pai de São José, seu parente afastado. Vi-os também passar uma
noite ao abrigo de uma cabana de ramagens. Há muitas destas construções típicas em
toda a Palestina, sendo algumas bem sólidas. O seu fim é dar abrigo aos que viajam.
Nelas podem não só ficar de noite como também cozinhar as refeições do dia.
Partindo de Jerusalém para Judá, como quisessem passar despercebidos, fizeram
um desvio pelo oriente da cidade, seguindo pelos caminhos que o Senhor muitas
vezes havia de percorrer nas suas pregações pela Judeia. Tiveram de atravessar duas
montanhas e vi-os em mais de uma refeição deitar na água algumas gotas da seiva da
árvore do bálsamo, recolhido durante a viagem. Como o trajecto que seguiam era por
terrenos montanhosos, vi-os passar ao lado de rochas mais largas no alto e mais
estreitas na base, encontrando-se em toda essa região muitas cavernas com pedras de
formas bizarras.
Os vales são geralmente férteis, com árvores e terrenos de semeadura, tendo os dois
viajantes atravessado também alguns terrenos arenosos. Já quase no termo da viagem,
reparei numa planta de folhagem verde, guarnecida de cachos e flores cor-de-rosa,
tendo cada cacho nove campânulas fechadas.
Z
A casa de Zacarias erguia-se numa colina, vendo-se em volta as restantes
edificações que constituíam a povoação de Jutá. Quando a Virgem se ia aproximando,
vi Santa Isabel, animada de um pressentimento interior, sair de casa e percorrer uma
parte do caminho, como se fosse ao encontro de alguém que a procurava. Zacarias,
tendo acabado de chegar das solenidades do Templo, vendo-a no estado em que se
encontrava, tão longe da casa, ficou inquieto: informado por ela dos motivos por que
se afastara, procurou convencê-la, por meio de sinais, da sem razão dos seus
pressentimentos, dizendo que uma recém-casada se não aventurava a uma viagem
com tão maus e longos caminhos. E assim, juntos, foram regressando a casa.

62
Durante a noite, foi revelado em sonhos a Santa Isabel que uma mulher do seu
parentesco se tornou mãe do Messias. Sendo já dia, vendo em espírito que Maria se
aproximava e como se não pudesse afastar da casa, resolveu sentar-se à entrada dela,
esperando que a Virgem ali viesse ter.
Santa Isabel era de estatura elevada e, num rosto de feições pequenas, divisavam-se
ainda traços de uma rara formosura, posta em destaque pela sombra do véu escuro,
que lhe descia da cabeça para os ombros. Ao reconhecer ao longe o vulto de Maria,
levantou-se e, cheia de santa alegria, correu ao encontro dela. A Santíssima Virgem
em breve atravessou as casas da vizinhança, cujos habitantes, encantados com a sua
grande beleza e cheios de respeito pela dignidade sobrenatural que se reflectia no seu
todo, se afastaram delicadamente.

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O CÂNTICO DO MAGNIFICAT
Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de
Maria, a criança agitou-se no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com
um grande grito, exclamou:
Evangelho
«Bendita és Tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso
merecer que a Mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação
chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada
Aquela que acreditou, porque vai acontecer o que o Senhor Lhe prometeu.» Então
Maria disse: «A minha alma proclama a grandeza do Senhor, e o meu espírito se
alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humilhação da sua serva.
Doravante todas as gerações Me felicitarão, porque o Todo-poderoso realizou grandes
obras em meu favor: o seu Nome é santo, a sua misericórdia chega aos que O temem,
de geração em geração. Ele realiza proezas com o seu braço: dispersa os soberbos de
coração, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; aos famintos enche-os de
bens, e despede os ricos de mãos vazias. Socorre Israel, seu servo, lembrando-Se da
sua misericórdia – conforme prometera aos nossos pais – em favor de Abraão e da
sua descendência, para sempre.»(Lc 1,40-55)
No momento em que Maria saudava a sua prima, vi um reflexo de luz partindo da
Virgem e terminando no seio de Santa Isabel. As duas mães não pararam na presença
dos homens. Maria, apoiada no braço de sua prima, seguiu do vestíbulo para o
interior da casa.
Enquanto estes factos se passavam, São José, dando entrada no átrio do edifício,
entregou a jumenta a um dos servos e dirigiu-se a Zacarias, que o recebeu com todo o
carinho e com ele falou ora por gestos, ora escrevendo numa tabuinha de cera, pois
continuava mudo desde o encontro com o anjo no Templo. Em seguida, vi que, numa
mesa colocada no jardim da casa, foi servida uma refeição aos dois recém-chegados,
constituindo assunto da conversa a viagem de Nazaré a Jutá. As duas santas
mulheres, embora ambas sabedoras do mistério da Anunciação, todavia nada re-
feriram sobre ele e tanto José como Zacarias continuaram no desconhecimento da
missão do anjo São Gabriel a Nazaré.
Maria ficou com Isabel cerca de três meses e depois voltou para sua casa. (Lc 1,56)
Z
Durante a estada em Jutá, vi a Santíssima Virgem e San-
ta Isabel nos preparativos do enxoval para o nascimento próximo de São João. Foi
confeccionada uma cobertura com bolso ao meio, muito em uso entre as parturientes
judias. Este artigo doméstico permitia recolher o recém-nascido na bolsa e, ao mesmo
tempo, envolvia a mãe. Por meio de duas
almofadas, podia esta, sempre embrulhada, conservar a posi-
ção sentada ou encostar-se quando o quisesse, ficando o menino sempre resguardado.
Vi também os santos hóspedes de Jutá em oração e tomarem seguidamente, com
Zacarias e Santa Isabel, um lugar à mesa para as refeições do dia; como o calor ao
tempo da visita apertasse já naquela terra, que era a da Promissão, vi também as duas
famílias procurarem refúgio ao abrigo das árvores do jardim de Zacarias,

64
conversando este, por meio de sinais, com São José, enquanto Santa Isabel se
ocupava com a Virgem nos lavores domésticos.
Foi-me, então dito que São José, passada a festa de sábado, voltaria a Nazaré, como
de facto aconteceu, acompanhando-o Zacarias numa parte do caminho. O céu estava
puríssimo e havia luar.

65
NASCIMENTO DE SÃO JOÃO BAPTISTA
Terminou para Isabel o tempo de gravidez e ela deu à luz um filho. Os vizinhos e
parentes ouviram dizer como o Senhor tinha sido bom para Isabel e alegraram-se com
ela. No oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome de seu pai,
Zacarias. A mãe, porém, disse: «Não! Ele vai chamar-se João.» Os outros disseram:
«Não tens nenhum parente com esse nome!» Então fizeram sinais ao pai,
perguntando como queria que o menino se chamasse.
Zacarias pediu uma tabuinha e escreveu: «O nome dele é João.» E todos ficaram
admirados. No mesmo instante, a boca de Zacarias abriu-se, a sua língua soltou-se e
começou a louvar a Deus. Todos os vizinhos ficaram com medo e a notícia
espalhou-se por toda a região montanhosa da Judeia.
E todos os que ouviram a notícia ficavam a pensar: «O que irá ser este menino?» De
facto, a mão do Senhor estava com ele.
Evangelho
O pai Zacarias, cheio do Espírito Santo, profetizou, dizendo: «Bendito seja o Senhor,
Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo. Fez aparecer uma força de
salvação na casa de David, seu servo; conforme tinha sido anunciado desde outrora
pela boca dos seus santos profetas. É a salvação que nos livra dos nossos inimigos e
da mão de todos os que nos odeiam. Ele realizou a misericórdia que teve com os
nossos pais, recordando a sua sagrada aliança e o juramento que fez ao nosso pai
Abraão. Para nos conceder que, livres do medo e arrancados das mãos dos inimigos,
nós O sirvamos com santidade e justiça, na sua presença, todos os nossos dias. E tu,
menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás à frente do Senhor para Lhe
preparar os caminhos, anunciando ao Seu povo a salvação, o perdão dos pecados.
Graças ao misericordioso coração do nosso Deus, o sol que nasce do alto nos visitará,
para iluminar os que vivem nas trevas e na sombra da morte; para guiar os nossos
passos no caminho da paz.»
O menino ia crescendo e ficando forte de espírito. João viveu no deserto até ao dia
em que se manifestou a Israel.(Lc 1,57-80)
A Santíssima Virgem, no regresso de Jutá, passou alguns dias na casa que os pais
de Parmenas possuíam em Nazaré. Parmenas, que seria um dos sete diáconos, ainda
não tinha nascido. Creio que vi isto no próprio dia em que as coisas se passaram, isto
é, em que a visita se realizou, pois tive a compreensão de que assim era.
O nascimento de São João Baptista, a coincidirem as datas, devia ter-se realizado
no fim de Maio ou começo de Junho. Maria ficou com Santa Isabel durante três
meses, encontrando-se presente no dia do nascimento do menino, mas já não assistiu
à solenidade da circuncisão.
Regressando Maria à sua casa de Nazaré, São José, informado da viagem, foi ao
encontro dela.
Maria descansou dois dias em casa dos pais de Parmenas, que nesta cidade tinham
alguns haveres e uma moradia.
Foi no regresso de Jutá que o esposo de Maria reconheceu que esta se encontrava
no estado de gravidez. José, perturbado e cheio de inquietação, a ninguém falou nas
terríveis dúvidas que lhe agitavam a alma. A Santíssima Virgem, sua esposa, que tudo

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adivinhara, cheia de humildade e receosa, continuou guardando o segredo de Deus,
ficando também pensativa e inquieta. São José, desconhecendo a mensagem do Anjo,
sabia apenas que a seguir às solenidades do casamento, Maria, com os parentes e
algumas companheiras, tinha vindo para Nazaré, enquanto ele tomava o caminho de
Belém, a fim de trazer de lá alguns utensílios, que lhe pertenciam.
Acabara de chegar dessa viagem, quando de novo retomou o caminho para
acompanhar a Virgem a Jutá de Hebron. A inquietação e a dúvida começaram, por
isso, a agitar a alma do esposo de Maria ao reconhecer que ela era mãe. A casa de
Nazaré teve de passar por transformações, talvez realizadas durante a ausência de
Maria, ficando pronta para viverem em comum à data em que Maria regressava da
visita a Santa Isabel.
Foi na ocasião em que os dois esposos iam viver juntos, na sua nova casa refeita e
transformada, que surgiram as perturbações de São José que, não compreendendo o
estado de Maria e não a querendo também difamar, se a levasse perante os juízes,
resolveu deixá-la em casa de Parmenas e retirar-se de Nazaré, em segredo, isto é, sem
aquela notoriedade.
Evangelho
A origem de Jesus, o Messias, foi assim: Maria, sua Mãe, estava prometida em
casamento a José, e, antes de viverem juntos, Ela ficou grávida pela acção do Espírito
Santo. José, seu marido, era justo. Não queria denunciar Maria e pensava em deixá-
l’A, sem ninguém saber. Enquanto José pensava nisso, o Anjo do Senhor apareceu-
lhe em sonhos e disse: «José, filho de David, não tenhas medo de receber Maria como
esposa, porque Ela concebeu pela acção do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho,
ao qual darás o nome de Jesus, pois Ele vai salvar o Seu povo dos seus pecados.»
Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: «Vede: a
Virgem conceberá e dará à luz um Filho. Ele será chamado Emanuel, que quer dizer:
Deus está connosco.» Quando acordou, José fez conforme o Anjo do Senhor havia
mandado: levou Maria para casa e, sem ter relações com Ela, Maria deu à luz um
Filho. E José deu-Lhe o nome de Jesus.(Mt 1,18-25)
Os dois esposos passaram a viver na sua nova casa de Naza-
ré e como Santa Ana, viúva já pelo falecimento de São Joaquim, residisse no vale de
Zabulão, a cada passo José e Maria transpunham a distância que os separava da mãe
desta, pouco mais de uma légua, para juntos passarem por vezes dias seguidos.

67
Capítulo IX

68
O nascimento de Jesus
Ao fim de alguns meses, José subiu à cidade de Jerusalém, levando algumas
cabeças do rebanho para os sacrifícios do Templo. Por esta ocasião, vi a Santíssima
Virgem com outras mulheres, ocupadas na confecção de faixas, panos e agasalhos
para o menino, que dentro de pouco havia de nascer.
Santa Ana, na persuasão de que a Virgem escolheria a sua casa para o nascimento do
filho da Promessa, dispunha tudo para a receber, a ela e aos parentes que a viessem
visitar.
São José, encontrando-se em Jerusalém, aproveitou a ocasião para ir a Belém e lá
colher informações sobre uma lei de recenseamento e de novos impostos. No
regresso, atravessava já a planície de Khimki, a seis léguas de Nazaré, quando um
anjo lhe apareceu, dizendo que devia seguir com Maria para Belém, onde ela havia de
dar à luz um menino. Encontrando-se Santa Ana e sua filha em Nazaré, o esposo de
Maria comunicou-lhes, ao chegar, a ordem recebida do anjo. A Santíssima Virgem
sabia já, pelos livros do Templo, qual era a cidade onde o Salvador havia de nascer
pois, quando vivia em Jerusalém, todas, mestras e educandas, suplicavam já a Deus
que abreviasse a hora da salvação de Israel, pedindo ela, no seu fervor e humildade,
que lhe fosse concedido o último lugar no cumprimento das promessas do Altíssimo.
Santa Ana ficou com a alma enevoada de tristeza ao saber que sua filha tinha de partir
naquele estado para terras tão longínquas.
13 de Novembro
Na tarde desse dia, vi José e Maria saírem da casa do vale de Zabulão,
acompanhados de Santa Ana, Maria Cléofas e alguns servos. A Santíssima Virgem ia
sentada numa jumenta, que levava também alguns utensílios para a viagem. Uma
segunda alimária era destinada à mãe de Maria, que juntamente com outras pessoas
da família a iam acompanhar numa parte do caminho. E assim, percorrendo juntas as
primeiras seis léguas a partir de Nazaré, chegaram àquela planície de Ghinim, onde,
na ante-véspera, um anjo aparecera a São José. Nela possuía Santa Ana terras de
pastoreio e alguns rebanhos.
Ali chegados, os dois esposos, separando-se das pessoas que os acompanhavam,
tomaram o caminho que vai pelas montanhas de Gelboé. Obedecendo às ordens do
anjo, São José levava com ele somente os artigos indispensáveis; a jumenta era
acompanhada de uma jumentinha, que durante a viagem ia saltitando ora à frente ora
ao lado dos dois viajantes.
Vi que São José, no caminho para Belém, se desviava das cidades e era guiado,
segundo instruções do anjo, pelos passos da jumentinha. Assim, chegaram a uma
propriedade que Lázaro possuía não longe da cidade de Ghinim, já em território da
Samaria. O chefe dos pastores recebeu-os carinhosamente. As relações entre a família
de Lázaro e de Santa Ana eram já antigas. Jesus Cristo por ali passou mais tarde com
os discípulos e ensinou nas vizinhanças. O lugar é alto e cultivado de pomares,
vendo-se ao largo um extenso horizonte. Tanto o feitor de Lázaro como sua mulher
mostraram-se admirados por verem Maria empreender naquele estado tão grande

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viagem e, entre si, diziam que melhor teria feito deixando-se ficar em casa.

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NOITE DE 15 PARA 16 DE NOVEMBRO
Vi a Sagrada Família a algumas léguas do lugar onde haviam pernoitado, seguindo
por um vale entre montanhas, onde parecia haver neve. Foi nesta altura que a Virgem,
dirigindo-se a José, lhe falou assim:
– O frio é muito e temos de parar. Eu já não posso ir mais longe. Acabava Maria de
pronunciar estas palavras, quando a jumentinha parou ao lado de um terebinto muito
velho, que ali estendia para o alto os ramos acolhedores. São José ajudou a Virgem a
descer da montada e, aproveitando a disposição do tronco da árvore, preparou um
assento, onde a mãe de Jesus se acomodou o melhor que pôde, enquanto ele
pendurava o lampião num dos ramos do terebinto. Vi, nesta ocasião, que os viajantes,
que de noite andavam por terras da Palestina, traziam uma lanterna, que suspendiam
das árvores, sempre que paravam. A Santíssima Virgem invocou o Senhor e pediu-lhe
que o frio não lhe fizesse mal. Como a súplica fosse atendida, e sentindo que o tempo
se lhe mudou em calor, estendeu as mãos para São José a fim de que viesse aquecer
nas suas as mãos dele.
São José tirou pão e frutas das provisões de viagem, tomaram ali algum alimento e
beberam de uma fonte que ao lado nascia, vendo eu que na água deitaram algumas
gotas de bálsamo aromático. São José animou a Santíssima Virgem e falou-
-lhe do abrigo que esperava arranjar-lhe em Belém.
Ele era tão bondoso! E como tudo sabia suportar sem parecer que sofria!
Até esta altura da viagem tinham atravessado duas correntes de água, mas só uma
delas tinha ponte. A árvore, sob cujos ramos se abrigaram, era um terebinto sagrado e
muitíssimo velho, que fazia parte do bosque de Moreb e pertencia à cidade de
Siquém. Abraão, quando veio à Terra da Promissão, recebeu junto dele a visita do Se-
nhor, que lhe prometeu a posse de toda aquela terra. Foi ainda à sombra dele que
levantou um altar e que Jacob, antes de oferecer um sacrifício em Betel, enterrou os
ídolos de Labão. Foi também ao abrigo desta árvore que Josué colocou a Arca da
Aliança, obrigando o povo de Israel, agrupado em volta dela, a renunciar ao culto da
idolatria. Foi igualmente neste lugar sagrado que os siquimitas proclamaram rei
Abimelech, filho de Gedeão.
Sexta-feira, 16 de Novembro
Hoje vi a Sagrada Família chegar a umas terras de grangeio e, estando a dona da
casa fora, o marido respondeu-lhes secamente, dizendo que fossem bater a outra porta
e recusou-lhes hospedagem. Partindo dali, viram a jumentinha parar ao lado de uma
cabana de pastores, para onde foram convidados a entrar. Os donos ofereceram tudo o
que era preciso para os dois viajantes se aquecerem e depois que José e Maria
partiram, como encontrassem a dona da casa anterior, falaram-lhe a respeito das boas
qualidades de José e de quanto a Virgem era formosa e de como tinha ares de santa.
Comovida, a mulher censurou o marido pelo que fizera e, partindo ambos, foram sem
perda de tempo no encalço dos peregrinos e, encontrando-os, pediram perdão a São
José e ofereceram-lhe alimentos para a viagem.
Sábado, 17 de Novembro

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Os caminhos por onde agora seguiam, ficavam no declive norte de uma montanha,
situada entre Samaria e Tebez.
A nascente, corre o rio Jordão e na margem de lá ficam Socot e Ainon, sendo esta
mais ao sul; Salém encontra-se na margem ocidental e a umas doze léguas de Nazaré.
Aproximando-se o dia de sábado, indicaram-lhes uma casa de hospedagem, mais no
cimo da montanha, para onde dirigiram os passos. Ali chegados, foi-lhes respondido
pelo dono que não os podia receber por a hospedaria estar cheia. Aparecendo, porém,
a dona da casa, dirigiu-se-lhe a Virgem com tanta humildade, que a mulher,
comovida, bem como o marido, tratou de lhes procurar uma cabana na vizinhança,
onde ficaram.
A jumenta foi guardada numa corte, enquanto a jumentinha corria à vontade nas
proximidades, aparecendo somente quando era preciso ir na dianteira pelos caminhos
que levavam a Belém.
Entretanto, São José dispôs a lâmpada e à luz dela orou juntamente com a
Santíssima Virgem, dando assim princípio à solenidade de sábado, para, uma vez
terminada e finda a refeição da noite, descansarem das fadigas da viagem, dormindo
sobre esteiras estendidas no chão.
A Sagrada Família passou o dia de sábado na mesma cabana, rezando juntos os
salmos da Lei. A dona da hospedaria veio com três filhos fazer-lhes uma visita,
comparecendo também aquela mulher cujo marido lhes recusara hospedagem. As
duas sentaram-se familiarmente ao lado de Maria, sentindo-se atraídas pela
simplicidade e sabedoria com que lhes falou do que podia interessá-las. As crianças,
ouvindo-as explicar as palavras de uns rolos da Escritura, ficaram enlevadas a olhar
para o rosto de Maria, durante todo o tempo que lhes contou as coisas do Senhor. São
José, findo o dia de sábado, percorreu com o dono da hospedaria os arredores e
plantações que a este pertenciam, falando também de coisas de Deus. É assim que eu
vejo as conversas das pessoas piedosas, em dia de sábado.
Domingo, 18 de Novembro
Os donos da hospedaria, presos de afeição para com a Santíssima Virgem,
insistiram para que ali aguardassem a hora de Maria dar à luz, declarando que de todo
o coração lhe prestariam todos os serviços. Mas os dois esposos, no dia seguinte,
retomaram a sua viagem, descendo pelo declive sudeste da montanha a caminho do
vale. Na descida, podiam ver o monte Garizim, com o Templo no alto, coroado de
figuras de leões e outros animais, que brilhavam com os reflexos do sol nascente.
Percorridas umas seis léguas, chegaram pela tarde a um casal da planície a sudeste de
Siquém, onde foram muito bem recebidos pelos pastores que o habitavam.
Nesta região, os campos são mais férteis do que as terras até ali percorridas, devido
à boa exposição ao sol. Este facto influi notavelmente nas culturas desta quadra do
ano. Daqui até Belém encontram-se muitos casais como este, espalhados pelos vales e
encostas das montanhas.
Foi com filhas de pastores desta região que, tempos depois, vieram a casar alguns
dos servos dos três Reis Magos, que se fixaram na Palestina. De uma dessas uniões
proveio um mancebo que o Senhor, a pedido da Virgem, curou na mesma casa, que
então lhe dera agasalho. Deu-se aquele facto a 31 de Junho (7 do mês de Ab, ou seja,

72
o penúltimo mês do ano judaico) do segundo ano da sua pregação, a seguir ao
colóquio com a Samaritana. Eram também destes sítios os três mancebos que o
acompanharam na viagem à Arábia, a seguir à morte de Lázaro. Um deles foi o
mesmo que o Senhor tinha curado e que veio a pertencer ao número dos discípulos.
Segunda-feira, 19 de Novembro
Os dois viajantes seguiram hoje por caminhos mais regulares e vi que, de vez em
quando, colhiam bagas e frutos silvestres, que pendiam dos arbustos voltados ao sol.
A sela em que a Virgem ia montada permitia-lhe sentar-se tanto à direita como à
esquerda e vi que os pés se apoiavam nuns estribos de madeira, e não iam pendentes
como é costume entre a gente do povo. Vi também que por vezes se apeava e seguia a
pé durante algum tempo.
Já anoitecia quando chegaram junto de uma casa, onde pediram hospedagem,
respondendo-lhes o dono desabridamente, sem mesmo lhes abrir a porta. Partindo
dali, encontraram a jumentinha ao lado de um alpendre, onde passaram aquela noite.
A distância da última hospedaria seria de umas seis léguas e vinte e seis desde
Nazaré, restando dez para chegarem a Jerusalém. Nos caminhos seguidos até aqui,
afastaram-se da grande estrada percorrida pelos que subiam à cidade santa, tendo, por
isso, de atravessar muitos dos cami-
nhos que do Jordão iam ter à Samaria e ligavam com as grandes vias da Síria e do
Egipto. Muitas vezes encontravam atalhos estreitíssimos por onde só a pé e com
muito cuidado é que podiam ir caminhando, para evitar que a montada tropeçasse ou
a Virgem sofresse perigo nas pedras do caminho. Porém, o trilho que agora seguiam
era já em terreno mais uniforme e plano.
Terça-feira, 20 de Novembro
Muito de madrugada, José e Maria deixaram o abrigo e, continuando na viagem,
enveredaram pela encosta de terreno montanhoso, até chegarem à altura da estrada,
que de Gabara levava a Jerusalém. Ficam nesta altura os limites entre a Samaria e a
Judeia. Encontrando-se a Virgem já muito fatigada, tiveram de fazer várias paragens
nesta última parte da viagem. Numa das casas onde pediram hospedagem, foi-lhes
esta proporcionada pela dona da casa, depois de o marido haver tratado asperamente
São José, censurando-o por levar uma donzela naquele estado, obrigando-a a viajar
por caminhos tão ásperos.
Mais tarde, a seguir ao baptismo no Jordão, entrou Jesus, a 20 de Outubro (10 do
mês de Tisri), numa destas casas, onde lhe mostraram o quarto onde Maria tinha
ficado, mas transformado em oratório, a seguir aos factos que assinalaram o
nascimento do Redentor.
Seguindo dali, tomaram pelo caminho que a jumentinha lhes ia mostrando e assim
deram uma volta de dia e meio a nascente de Jerusalém.
Como o pai de São José possuíra nessa região uns terrenos de pastagens, conhecia
este todos os caminhos que da casa paterna lá iam ter. Se houvessem tomado pelo
deserto de Betânia, podiam chegar a Belém numas seis horas, mas esses atalhos pe-
dregosos e de montanhas tornam-se muito incómodos nesta parte do ano. Seguiram,
por isso, a jumentinha no caminho dos vales que vão dar ao Jordão.

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Quinta-feira, 21 de Novembro
Hoje vi os santos viajantes abrigarem-se numa casa de pastores a três léguas do
lugar onde São João baptizava e a sete léguas de Belém.
É a mesma onde, trinta anos depois, Jesus pernoitou (11 de
Outubro) quando a seguir ao baptismo passou pela primeira vez diante de São João.
A casa era pertença de um homem rico que, recebendo-os amigavelmente, lhes deu
quarto próprio. A São José mandou que por um servo fossem lavados os pés, fazendo
uma das servas o mesmo à Santíssima Virgem e, enquanto as túnicas de viagem eram
escovadas e limpas, vestiam-lhes outras fornecidas pelo hospedeiro.
A dona da casa, nova ainda e cheia de vaidade, não quis aparecer aos viajantes, pois
tendo observado a Virgem ao aproximar-se da casa, sofreu muito de inveja por causa
da beleza excelsa da esposa de José e dispôs tudo para que os dois viajantes se
retirassem no dia seguinte. Foi esta mulher que, trinta anos depois (a 11 de Outubro),
Jesus foi encontrar cega e curvada ao meio. A seguir a alguns conselhos sobre os
deveres para com os peregrinos e o culto da vaidade, restituiu-lhe a saúde, curando-a.
Quinta-feira, 22 de Novembro
Pelo meio-dia, os dois viajantes deixaram a casa que os recebera e, percorridas duas
léguas, passaram numa povoação de bom aspecto, com edifícios e jardins. Ali
moravam alguns parentes de São José. Seguiram a estrada larga, que atravessa a
cidade e, meia légua depois, tomaram a estrada de Jerusalém, onde encontraram uma
hospedaria, a cuja porta foram bater. No átrio ou entrada dela, via-se um tanque de
água, com várias pessoas agrupadas em volta, esperando a hora de uns funerais.
Ao centro da casa encontrava-se o lar com um tubo de descarga para o fumo; mas
como tivessem retirado todas as divisões de madeira, ficou a casa transformada em
sala única.
Ao fundo e atrás do lar, viam-se panos caindo do alto das paredes e, em frente, um
ataúde coberto de preto. Um grupo de homens, de túnica também preta e manto
branco, recitava orações e vi que usavam um manípulo com franjas. Noutra sala, à
parte, estavam mulheres chorando, sentadas em tamboretes e envolvidas, da cabeça
aos pés, em compridos mantos.
Os criados da casa acompanharam a Sagrada Família até ao lugar onde devia ficar,
comparecendo mais tarde os donos da casa, que conversaram por muito tempo com
os dois viajantes. José e Maria, terminada a refeição e a oração da tarde, recolheram-
se para dormir e ali ficaram.
Sexta-feira, 23 de Novembro
Pelo meio-dia, José e a Virgem tomaram o caminho de Belém, que distava umas
três léguas dali. Antes de partirem, a dona do albergue, ao ver o estado de Maria,
ofereceu-lhe a casa para nela aguardar a hora do parto, prontificando-se para lhe pres-
tar todos os serviços. Porém, São José, conversando com o dono, falou-lhe na
confiança que tinha de, em Belém, encontrar casa para quando se aproximasse a hora
de Maria. Naquela hora, sentia o coração cheio de tristeza, ao ver como a confiança
de São José se ia transformar em amargo desengano. Durante o resto do caminho
ainda o Santo Patriarca falou a Maria no descanso que iam encontrar na terra de seus

74
pais. Daqui se vê que também os santos se podem enganar algumas vezes.
Deixada a hospedaria, puseram-se de novo a caminho e quando estavam já perto de
Belém, tornaram pelo norte, vindo a aproximar-se da cidade pelo lado poente. Ali,
pararam junto de uma árvore e fora da estrada. A Virgem desceu da jumenta e acertou
os vestidos, enquanto São José se dirigia a um vasto edifício, rodeado de alpendres e
arvoredo, a cuja sombra tinham acampado outras pessoas vindas de fora. Era aquela a
antiga casa da família de David. Junto dela moravam uns parentes de São José e
como este lhes batesse à porta, não somente o não quiseram receber, como o trataram
desabridamente, como se fora um estranho importuno.
Era no antigo palácio de David que agora se recebiam os impostos e se fazia o
arrolamento decretado pelo governo de Roma. Acompanhado da Virgem, São José
deu entrada nos pátios da guarda, pois, segundo ordens recebidas, ninguém entrava na
cidade sem ali receber uma senha de trânsito.
A jumentinha não está com eles. Vejo-a correr à vontade no vale, a sul da cidade.
Entretanto, São José subia os degraus do palácio, enquanto Maria com a jumenta
ficava numa casa de entrada, onde algumas mulheres a trataram bem. Eram elas as
que cozinhavam para os soldados romanos, que vi fazerem uso de correias pendentes
em volta dos rins. O tempo é aqui mais suave, vendo-se nascer o sol na montanha,
entre Jerusalém e Betânia. Os horizontes são também de aspecto agradável à vista.
Logo que São José deu entrada numa grande sala, perguntaram-lhe pelos ascendentes,
cujos nomes foram verificados em rolos de papiro pendentes nas paredes.
Examinaram também a genealogia da Virgem, pois São José parecia desconhecer que
era igualmente da descendência de David por São Joaquim. O tributo que os romanos
iam aplicar a todos fora imposto a seguir a uma sublevação dos judeus, havia uns sete
anos. Como, porém, muitos se esquivavam, o senado tornou-o regular e obrigatório.
Era já ao entardecer quando São José chegou, mas trata-
ram-no delicadamente. Quando lhe perguntaram quais os meios de fortuna, respondeu
que de raiz não possuía nenhuns, pois vivia do seu trabalho e do que lhe era dado pela
mãe de Maria.
A casa de David servia hoje de residência aos escrivães e empregados superiores,
morando no alto os delegados de Roma com os soldados da guarnição. Entre os
funcionários encontravam-se vários saduceus, sacerdotes, anciãos, escribas e fariseus.
Em Jerusalém não havia delegação romana de impostos. Funcionavam, uma em
Magdala para os povos da Galileia e Sidon, e mais algumas, noutros lugares da
Palestina.
À totalidade das contribuições recebidas deviam ser dados os seguintes destinos:
uma parte era enviada ao imperador Augusto, a segunda destinava-se às obras do
Templo e a última devia ser distribuída pelas viúvas e pobres, que eram, afinal, os
que menos recebiam.
Cumpridas as formalidades do recenseamento, São José e a Virgem, antes de
entrarem na cidade, passaram por umas ruí-
nas que pareciam de uma antiga porta destruída. Transposta esta, Maria esperou ao
lado da jumenta, enquanto São José batia em vão à porta de todas as casas pedindo
hospedagem. Eram muitos os forasteiros na cidade e como ninguém os quisesse
receber, voltou para dizer à Santíssima Virgem que era preciso ir ao outro quarteirão,

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porque naquele, onde estavam, não havia lugares vazios. E assim bateram a todas as
portas, recebendo São José a mesma resposta:
– Não.
Caindo a noite, dirigiram os passos para leste da cidade, onde José tinha alguns
conhecimentos. Todos o reconheceram, mas nenhum se prontificou a dar-lhes
agasalho, sendo a negativa mais áspera quando falavam no estado de Maria, em vés-
peras de dar à luz. Restavam-lhes as casas de um arrabalde próximo. Deixada a
cidade, para lá se encaminharam. Era a última esperança. Durante algum tempo,
Maria esteve de pé, com a jumenta presa a uma árvore. Algumas pessoas, que iam
passando, olhavam para ela, longe de supor que estivessem tão perto do Salvador do
mundo.
Como a Virgem se mostrou cheia de paciência, resignada e humilde! Sentindo-se
fatigada, fez de alguns embrulhos um assento e nele descansou, reclinando a cabeça e
juntando as mãos ao peito. Quando São José voltou, adivinhava-se no rosto a tristeza
que lhe ia na alma. Os olhos estavam vermelhos de chorar. Muitos nem o quiseram
escutar e, como a Santíssima Virgem o procurasse animar, respondeu-lhe que para lá
das casas havia um lugar onde os pastores costumavam recolher-se quando vinham
com os rebanhos a Belém, acrescentando que ali teriam ao menos um abrigo. Era uma
gruta, onde muitas vezes se refugiou para orar quando, ainda novo, os irmãos o
maltratavam.
Seguindo dali, tomaram por um atalho que, torneando à esquerda, os levou em
poucos minutos ao lugar que procuravam, vendo-se em frente dele algumas árvores
de folhagem verde: terebintos, cedros e outras no género da murta.

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A GRUTA DE BELÉM
Na vertente meridional da colina onde está edificada Belém, passava o caminho que
da cidade ia ter ao vale dos pastores. Era à margem desse carreiro, à esquerda de
quem desce, que entre outros abrigos cavados na rocha se encontrava uma gruta, que
São José conhecia desde muito novo. A porta de entrada encontrava-se voltada a
poente, vedada por uma singela porta de varas entrelaçadas e por ela é que, seguindo
por uma galeria em forma de corredor, se ia ter ao único abrigo que
São José encontrou na cidade de Belém. Era no final dessa passagem ou corredor que
se alargava a cavidade ou centro da gruta, no sentido do nascente, como é óbvio.
A configuração geral era de uma cabeça apoiada no topo de um pescoço esguio. Na
face sul da referida cavidade tinham antes aberto na rocha algumas frestas de
arejamento.
O corredor ou galeria de comunicação era um pouco em declive, subindo; mas
junto ao âmbito principal da gruta, descia-se um degrau ou rampa, visto esse espaço
central ficar em nível mais baixo. O aspecto interno era agradável à vista, por serem
as paredes de uma rocha homogénea e quase polidas, além de oferecerem junto do
solo algumas saliências com feitio de bancos utilizados para descanso.
No final do corredor, do lado do norte, havia uma cavidade mais pequena, onde São
José acendeu o lume, fazendo dela cozinha e, na direcção do nordeste, outra cavidade
mais alta e espaçosa. Foi no recanto desta que prendeu a jumenta, dando-lhe erva
seca, que ali encontrou. Além das frestas referidas, a gruta dispunha, no alto e através
da rocha, de uma abertura em forma de clarabóia, por onde entrava luz e ar.
O local, onde os Reis Magos encontraram o Menino e o adoraram, ficava à direita
para quem entrava pela passagem primitiva.
O eixo do corredor referido ia terminar numa concavidade da rocha em forma de
hemiciclo. Foi esse o lugar destinado para a Virgem e nele é que veio ao mundo o
Verbo feito Homem.
No lado oriental e a meio quarto de légua da gruta, abre-se outra caverna, que
serviu de túmulo para a ama de Abraão, de nome Marahá. Este lugar tem ainda hoje o
nome de Gruta do Leite. A Santíssima Virgem algumas vezes procurou nela abrigo.
No alto, crescera uma árvore de ramos frondosos, que servia de abrigo para os
caminhantes, e junto dela, melhor do que da gruta do Nascimento, podia-se ver a
cidade de Belém.
Na pátria de onde Abraão era originário, foi anunciado ao rei, por sonho ou
predição, que nos seus domínios ia nascer um menino, que lhe havia de ser funesto.
Chegando a hora de dar à luz, a mãe do santo Patriarca, tendo conseguido encobrir
até ali a sua gravidez, mas vendo que o menino que ia nascer se encontrava em perigo
de morte, retirou-se para uma gruta, onde Abraão veio ao mundo. Por este tempo, de
facto, alguns recém-nascidos chegaram a ser mortos.
Marahá, que tomou conta de Abraão na qualidade de ama, criou-o secretamente
num ermo, como sendo seu filho. Crescido o menino, e como a estatura aparentasse
mais idade, voltou para casa dos pais, que o fizeram passar como nascido antes das
predições feitas ao rei. Voltando, porém, a perigar a vida dele, por motivo dos sinais
que muito o distinguiam, de novo Marahá o levou para um lugar deserto. Foi mais

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tarde que Abraão recebeu de Deus ordem para deixar a sua pátria. Partindo de lá com
escravos e rebanhos, e sendo a mãe já morta, tomou em seu lugar a Marahá, que o
acompanhou por toda a parte, montada num camelo.
Durante muito tempo viveram em Sucoot. Transferidos os rebanhos para o campo
dos Pastores e vendo Marahá que a sua hora se aproximava, pois já passava dos cem
anos, pediu que, à sua morte, a sepultassem numa gruta próxima do sítio onde Abraão
levantara as tendas. E assim se fez.
Era aquela cavidade ou caverna muito estreita e em forma de corredor; por isso, o
santo patriarca a mandou alargar para melhor nela serem guardados os restos de sua
mãe adoptiva. Desde então ficou a catacumba com o nome de “gruta da que
amamenta” ou “Gruta do Leite”.
Tais são as origens da gruta e a razão do nome com que ficou conhecida. As
tradições falam de Marahá como tendo sido uma das mulheres que cooperaram para a
vinda do Messias prometido. No terreno superior à gruta crescera um terebinto, a cuja
sombra se abrigavam os pastores. Abraão com Melquisedec ali se encontraram
também e, considerando-a árvore sagrada, vinham das vizinhanças os povos, para
igualmente ao abrigo dela fazer oração.

78
O NASCIMENTO DE JESUS
Era já noite quando José e Maria chegaram à porta da gruta. A jumentinha, que
deles se tinha afastado quando São José entrou na casa dos funcionários de Roma,
voltou a aparecer, saltitando de alegria.
– Olhai, – exclamou a Virgem, dirigindo-se a São José; – é certamente da vontade
do Senhor que fiquemos aqui.
Como a abrigar a entrada houvesse uma espécie de telheiro feito de junco, São José
prendeu a jumenta debaixo dele e, à luz da lâmpada, transpôs o espaço que levava ao
interior da gruta. Ali chegado, presa na rocha a lâmpada, arrumou melhor todo o
interior. No hemiciclo referido, lançando mão de alguns embrulhos e de uma
cobertura, preparou cuidadosamente um encosto em forma de leito. Foi nele que
convidou a Virgem a descansar, ao mesmo tempo que lhe pedia desculpa por não lhe
ter conseguido hospedagem melhor. Interiormente, porém, a Santa Mãe de Deus
sentia-se contente pela tranquilidade do abrigo.
Principiando o dia de sábado, São José voltou à cidade para comprar mantimentos.
Trazendo brasas e, num odre, água da fonte, o seu primeiro cuidado foi acender o
lume a um canto da gruta.
Terminada a ceia, iniciaram a oração do sábado, recitando à luz da lâmpada os
salmos da Lei. No final, recolheu também a jumenta e dispôs tudo para repousar.
Sábado, 24 de Novembro
O dia de sábado passou-o a Santíssima Virgem na gruta, em fervorosa oração e
meditando. São José saía algumas vezes, certamente para ir à sinagoga de Belém.
Vi-os depois tomarem juntos as refeições do dia, servindo-se dos alimentos
cozinhados na véspera. À hora em que os judeus, pela tarde, costumam dar um pas-
seio, vi São José acompanhar a Virgem até à gruta de Marahá onde, sentada, Maria
descansou por algum tempo, mas sempre recolhida em meditação e orando. Estive-
ram também à sombra do terebinto, de onde a vista se estende para além do vale dos
pastores.
Findo o dia de sábado, retiraram finalmente para a gruta, sendo nessa altura que
Maria comunicou a São José que o Menino devia nascer naquele dia, à meia-noite,
pois era a essa hora que se completavam os nove meses depois da Anunciação do
Anjo. A Virgem, ao notificar a São José a hora do nascimento do Menino, pediu-lhe
que orasse ao Senhor e rezasse também pelos homens de coração duro, que lhes
recusaram hospedagem.
Ao pôr-do-sol, que é o fim do dia de sábado, São José voltou à cidade, de onde
trouxe alguns alimentos, uma escudela e outros utensílios domésticos e juntos
tomaram a última refeição daquele dia. Ao cair da noite, São José acendeu a lâmpada
e, à luz dela, entrou em oração no lugar que reservara para dormir, junto da entrada e
separado do resto por um leve tapume de esteira. Ao fim de algum tempo, sentindo
ruído, foi encontrar fora a jumentinha que, regressando das vizinhanças, saltitava de
contentamento à porta da gruta.
Como lhe distribuísse feno e a deixasse presa sob o alpendre da entrada, ao voltar,
São José encontrou a gruta toda iluminada de uma luz sobrenatural, estando a

79
Santíssima Virgem de joelhos e voltada para o lado do oriente. Como Moisés ao ver a
sarça ardente, sentindo-se tomado de grande respeito, prostrou-se com a face por
terra, adorando ali o Senhor.

80
A PLENITUDE DOS TEMPOS
Evangelho
Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o
recenseamento em todo o império. Este primeiro recenseamento foi feito quando
Quirino era governador da Síria. Todos iam registar-se, cada um na sua cidade natal.
José era da família e descendência de David. Subiu da cidade de Nazaré, na Galileia,
até à cidade de David, chamada Belém, na Judeia, para se registar com Maria, sua
esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias
para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogénito. Ela enfaixou-O e colocou-O
numa manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria.(Lc 2,1-7)
Quando se aproximava a meia-noite, encontrei a Santíssima Virgem rodeada de
grande claridade e, na hora precisa de o Menino nascer, vi uma estrada de luz
vivíssima baixar do céu e dentro dela um movimento de glórias celestes, à
semelhança de coros angélicos, que desciam até ao lugar onde Jesus acabava de vir
ao mundo. Maria, enlevada em êxtase e orando, voltou os olhos para o Menino
recém-nascido que, sendo Deus, era também seu filho. Vi que, a seguir, tomando um
pano de linho, cobriu com ele o Menino, mas sem lhe tocar. Foi só ao fim de algum
tempo que vi Jesus fazer os primeiros movimentos e chorar. Nessa altura é que Sua
Mãe o tomou nos braços e o embrulhou no mesmo pano com que acabava de o cobrir.
Sentada já, envolveu-se a ela própria e ao Menino num manto que tinha ao lado.
Decorrera uma boa hora sobre estes acontecimentos quando Maria chamou por São
José, que, no seu cubículo, continuava em oração, prostrado por terra. Com a alma
repleta de humildade e alegria, São José tomou nos braços o dom do Altíssimo, que
Maria lhe apresentou. Em volta, vários anjos, com forma humana, prostrando-se,
adoravam Jesus.
Maria tinha somente quatro panos e com eles enfaixou o Menino que, pouco
depois, colocou na manjedoura, onde, sobre o feno, São José acabava de estender
uma cobertura. Ali, junto do Menino, sobre as palhas, Maria e São José, chorando de
alegria, cantavam hinos ao Senhor.
Este lugar ficava à direita do corredor da entrada e num alargamento da gruta,
destinado a estábulo de animais. Foi ao pé da manjedoura que São José preparou de
novo o leito para Maria. Ali a vi, nos primeiros dias, sentada, de pé ou de joelhos e
também deitada de lado, dormindo, mas nunca parecendo doente ou aparentando
fadiga.
Naquela noite em que o Senhor nasceu, vi grandes manifestações de alegria em
muitos lugares da Terra. É assim que os homens de bem sentiram na alma um
inexplicável contentamento, enquanto os maus tremiam, cheios de pavor.
Os animais, as árvores e as flores, movimentando-se uns, e outros espalhando aromas
ao largo, manifestavam todos grande júbilo, de harmonia com os dons que de Deus
receberam. Vi rebentarem novas fontes de água, sendo uma ao norte da colina onde
Jesus nascera; enquanto àquela mesma hora o céu de Belém se tornou de cor sombria,
rubro escura, sobre a gruta e para os lados do vale dos Pastores pairava uma nuvem
límpida, cheia de claridade e brilho.

81
Capítulo X

82
A adoração dos Pastores
Ao nascente da cidade e a légua e meia da gruta erguia-se uma colina com
plantações de vinhas, na direcção de Gaza. Era nela que viviam os três pastores
maiorais, chefes de outros pegureiros, que guardavam os rebanhos mais ao largo.
A pouca distância dali, erguia-se uma torre de madeira, assente em blocos de pedra.
Era a chamada torre dos Pastores e do alto dela é que observavam a posição dos
rebanhos e davam o sinal de alarme, por meio de tubas córneas, quando apareciam à
vista salteadores ou gente de guerra. Pelo feitio de pirâmide e escadaria ao lado,
assemelhava-se muito à dos Reis Magos. Do alto dela, a vista estendia-se até
Jerusalém, monte da Tentação e deserto de Jericó.
Como os pastores, com as suas famílias e rebanhos, se dispersavam num raio de
mais de duas léguas, era junto da torre que se reuniam todos. À hora em que Jesus
nasceu, vi os três pastores olhando em redor, surpreendidos pela beleza daquela noite
e, mais ainda, pelo clarão de luz, que partia da gruta de Belém. Foi nessa altura que
um anjo, no meio de uma estrada de luz, lhes anunciou a vinda do Redentor.
Evangelho
Naquela região havia pastores, que passavam a noite nos campos, tomando conta do
rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor envolveu-os
em luz e eles ficaram com muito medo. Mas o anjo disse aos pastores: «Não tenhais
medo!
Eu anuncio-vos a Boa Notícia, que será uma alegria para todo o povo: hoje na cidade
de David nasceu-vos um Salvador, que é o Messias, o Senhor. Isto vos servirá de
sinal: encontrareis um recém-nascido, envolto em faixas e deitado numa
manjedoura.» De repente, juntou-se ao anjo uma grande multidão de anjos. Cantavam
louvores a Deus, dizendo: «Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos
homens por Ele amados.» Quando os anjos se afastaram, voltando para o Céu, os
pastores combinaram entre si: «Vamos a Belém ver este acontecimento que o Senhor
nos revelou.» Foram, então, à pressa e encontraram Maria e José e o Recém-
-nascido deitado na manjedoura. Tendo-O visto, contaram o que o anjo lhes anunciara
sobre o Menino. E todos os que ouviam os pastores ficavam maravilhados com aquilo
que contavam. Maria, porém, conservava todos estes factos e meditava sobre eles no
seu coração.
Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e
ouvido, conforme o anjo lhes tinha anunciado.
(Lc 2,8-20)
Não vi que os pastores tomassem logo o caminho da gruta, de onde alguns estavam
afastados duas e três léguas. Mas vi-os conversando sobre a natureza da aparição e a
respeito dos presentes que deviam ofertar ao recém-nascido.
No Templo de Jerusalém, tanto a profetisa Ana como Noemi e Simeão tiveram
conhecimento, por uma revelação, do nascimento de Jesus. O mesmo aconteceu com
Santa Isabel em Jutá, onde São João Baptista, com seis meses de idade, deu sinais de
grande regozijo, e com Santa Ana, que era a única sabedora do lugar onde o Menino

83
havia de nascer.
Em Roma também se passaram vários factos. Num bairro além do Tibre, habitado
por judeus, nasceu uma fonte oleo-
sa, que motivou grande admiração entre o povo. No lugar do aparecimento, eleva-se
hoje uma igreja dedicada à Mãe de Deus. Num templo da cidade, juntamente com a
abóbada, que desabou, desfez-se em pedaços uma estátua de Júpiter, ali adorado.
Como os pagãos consultassem um oráculo a respeito do sucedido, o demónio foi
obrigado a dizer: «Tudo isto aconteceu porque uma Virgem deu à luz um filho, sem
deixar de ser virgem.»
Tendo as autoridades romanas procedido a um inquérito sobre os acontecimentos,
vi entre os magistrados de então um de nome Lêntulus, pai de outro Lêntulus, amigo
de São Pedro
e predecessor do presbítero Moisés, mártir no tempo de
São Cipriano. No alto de uma colina, vi também um vasto edifício com uma grande
escadaria e porta dourada. Era nele que o imperador Augusto resolvia, com outras
personagens do tempo, os negócios da governação. Ao lado, ficava o templo
desmoronado. Quando o imperador descia, viu num arco-íris uma Virgem com um
menino nos braços e como, por um oráculo, lhe fosse dito que todos os soberanos
cederiam o passo diante do novo infante, mandou Augusto erigir um altar no local da
aparição e dedicou-o ao primogénito de Deus.
No Egipto, muito além de Matarea, Heliópolis e Mênfis, havia também um oráculo
célebre, que se tornou mudo quando o Senhor nasceu. Interrogado, respondeu que um
poder mais alto viera ao mundo, porque uma Virgem tinha dado à luz um Menino e
que outro templo ali seria edificado, como veio a acontecer, sendo nele a Virgem e o
Menino honrados à maneira pagã.
Vi também a aparição que tiveram os Reis Magos, no momento em que Jesus
nasceu. Eram eles adoradores dos astros e tinham por costume observar
alternadamente a marcha sideral. Vi que lhes servia de observatório, como aos
pastores, uma torre em forma de pirâmide, construída no alto de uma montanha.
Nessa noite, como dois deles se encontrassem juntos, viram ambos, não um astro mas
um aglomerado de estrelas em movimento. Num primeiro quadro, pois que a aparição
se desenvolveu em figuras, viram representada a Virgem e o Menino. No segundo,
todo simbólico, destacava-se um cálice enlaçado em parreiras e espigas de trigo, com
os seus frutos saborosos. Viram finalmente outras figuras igualmente simbólicas,
representando a Santíssima Trindade, dentro de uma igreja octogonal, que significa a
Jerusalém celeste. Com estas visões, foi-lhes revelado que a Judeia era a terra onde o
Menino acabava de nascer.
O terceiro dos reis Magos tivera aquela revelação, mas na sua pátria, uma terra de
montanhas, próxima de dois mares, um dos quais transborda em períodos regulares.
Foi só ao fim de alguns dias que os três reis se encontraram e seguiram juntos o
caminho para terras da Judeia.
Como é grande a misericórdia de Deus! E quereis saber como é que se formou a
profecia dos três Reis Magos?
Vou contar-vos alguma coisa a respeito dela, pois tudo, neste momento, me está
presente ao espírito. Quinhentos anos antes do nascimento do Senhor (Elias viveu

84
cerca de oitocentos anos antes de Cristo) os antepassados daqueles reis eram
poderosos e ricos: habitavam em tendas, menos o que era originário das margens do
mar Cáspio, cuja cidade eu estou vendo, porque esse possuía tabernáculos assentes
em bases de pedra.
Como as três filhas desses príncipes, conservando-se virgens, recebessem o dom da
profecia, foi-lhes comunicado, por meio de uma visão, que uma estrela sairia de
Jacob e que uma Virgem havia de dar à luz o Salvador.
Animadas de um impulso superior, percorreram toda aquela região, pregando a
reforma dos costumes e anunciando as manifestações que deviam aparecer numa
constelação.
Por virtude dessas pregações, foram suprimidos os sacrifícios dos estropiados e das
crianças, entre eles em uso.
Tais são, em resumo, as origens das profecias relativas ao nascimento do Redentor,
no meio dos povos de que os Reis Magos eram chefes.
O nascimento do Salvador ocorreu antes de terminar o ano 3997 do fim da Criação.
Posteriormente passaram por cima dos quatro anos, menos pouco, que é o tempo que
vai até ao ano 4000 e, ao começar a era nova, deram-lhe princípio quatro anos mais
tarde que o devido.

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OS PASTORES E AS SUAS OFERENDAS
Domingo, 25 de Novembro
Mal clareava o dia e já os três pastores subiam a encosta que leva a Belém.
Cordeiros do rebanho e aves da criação eram as oferendas que destinavam ao
Menino. Encontrando à entrada da gruta São José, falaram-lhe no aparecimento do
anjo e nas palavras com que lhes anunciou Aquele que acabara de nascer: –
Encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura. E para
ele é que traziam aquelas dádivas.
Entrando na gruta da natividade, a convite do Santo Patriarca, foram encontrar a
Santíssima Virgem sentada com Jesus nos braços; porém, cheios de uma inexplicável
alegria, ficaram muito tempo prostrados por terra e em silêncio, até que, recordando-
se das palavras do anjo, repetiram o hino ouvido à meia-noite e cantaram como ele o
Glória a Deus nas alturas. Ao retirarem-se, a Santíssima Virgem confiou-lhes o
Menino, que tomaram amorosamente nos braços, chorando de contentamento, e foi
ainda a chorar que deixaram a gruta onde Jesus nascera.
Ao cair da noite, adormecendo, senti-me de novo levada pelo caminho da terra da
Promissão e como em Belém, aos factos que se seguiram ao nascimento, via ao
mesmo tempo a tentação e o jejum do Salvador, que trinta anos depois se passavam
em igual mês e dia, no monte da Quarentena.
Oh! como é bom para a alma acompanhar os passos de Jesus! De um lado vejo o
Salvador, aos trinta anos, tentado pelo demónio e jejuando numa caverna do deserto
e, do outro, vejo o mesmo Senhor, adorado pelos pastores, numa gruta de Belém.
Na tarde de ontem, vieram mais pastores visitar o Menino. Eram todos eles das
vizinhanças da torre e vinham acompanhados das mulheres e filhos. Vi que traziam
produtos da terra, como aves domésticas, mel, ovos, estrigas de linho e frutos ainda
presos nos ramos, entregando tudo a São José e como, igualmente, dessem entrada na
gruta, entoaram cânticos pastoris e repetiram as palavras que ouviram da boca do
anjo.
Segunda-feira, 26 de Novembro
Vi hoje alguns dos pastores ajudando São José em vários trabalhos domésticos.
Como as mulheres essénias tivessem conhecimento do nascimento do Menino,
algumas vieram também a fim de ajudar a Santíssima Virgem nos serviços da gruta.
José conhecia-as desde a infância, pois era junto delas que procurava refúgio para
orar, quando os irmãos o maltratavam. Estas santas eremitas viviam em comunidade
numas grutas ao nascente da colina e dedicavam-se à instrução de crianças das
famílias essénias.
Terça-feira, 27 de Novembro
Assisti hoje a uma cena comovedora na gruta de Belém. José e Maria
contemplavam o Menino, que estava deitado nas palhinhas da manjedoura, quando
viram que a jumenta, dobrando os joelhos dianteiros, se inclinou até chegar com a
cabeça ao chão. Comovidos e cheios de admiração, ambos choraram de alegria.
Foi ao cair da tarde que chegou à porta da gruta um homem vindo de Nazaré,

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trazendo da parte de Santa Ana vários artigos para a Virgem. Era um servo antigo e
fiel. Ao ver o Menino, chorou de enternecimento. Foi rápida a visita, pois logo teve
de se retirar, sendo portador de notícias para Santa Ana; com Maria ficou, porém,
uma antiga serva, que o acompanhara desde Nazaré.
Quarta-feira, 28 de Novembro
Como os factos maravilhosos de que os pastores foram testemunhas na noite de
Natal se espalharam pelos arredores, uns emissários de Herodes vieram ter à gruta
para colherem informações do que se passava. Prevenida interiormente, Maria tomou
o Menino e foi com Ele esconder-se numa gruta situada antes de se chegar à da
Natividade. Encontrando São José vestido pobremente, riram-se da sua pouquidade e
retiraram-se, escarnecendo dos acontecimentos milagrosos, que se teriam dado, como
se dizia, por ocasião do nascimento de um menino, numa gruta de Belém.
Desaparecidos eles, voltou a Santíssima Virgem para a sua habitação, depois de
quatro horas passadas no referido esconderijo.
Um homem, seguindo no dia de hoje de Jerusalém para Jericó, onde se encontrava
Herodes, fora assassinado à traição por uns emissários daquele príncipe. Esse homem
desempenhava uma alta função no Templo e o seu desaparecimento, que ficou no
mistério, mais fortaleceu o poder de que o rei já dispunha no lugar Santo.
Herodes havia já investido personagens suas em lugares de destaque no Templo e,
por meio delas, é que era informado de tudo o que lá se passava.
Quinta-feira, 29 de Novembro
O dono da hospedaria onde José e Maria tinham passado a última noite da sua
viagem para Belém, sabedor do nascimento do Menino, enviou também à gruta um
dos servos, com presentes para a Santa Família.
O aparecimento do anjo, conhecido de todos os pastores das vizinhanças, deu
ocasião a que fossem chegando outros homens, vindos do vale, com ofertas para o
Senhor. Mas só os pastores é que vieram para adorar o divino Infante.
Na cidade de Belém, onde era grande o movimento e maior o ruído dos forasteiros,
quase não deram pelos factos ocorridos na gruta ali perto e por isso ninguém apareceu
para adorar o Menino.
Sexta-feira, 30 de Novembro
Hoje, vieram à gruta mais pastores e outras pessoas que, cheios de comoção, se
prostraram diante do Menino. Como fosse o princípio de sábado, traziam já o
vestuário dos dias de festa, pois seguiriam dali para a sinagoga da cidade. Entre eles
vinha aquela boa mulher cujo marido recebera desabridamente Maria e José quando
subiam para Belém. Embora ficasse mais perto da sinagoga de Jerusalém, quis vir ali
para, da melhor maneira, reparar a ofensa do marido. Pela tarde, vi também chegar à
gruta um parente de São José, em cuja casa a Santa Família passara no dia 22. Era o
pai de Jonadab, aquele homem que, na descida da Cruz, ofereceu um lençol para
embrulhar o corpo do Salvador. São José aceitou deste seu parente uma verba em
dinheiro, oferecendo como penhor a jumentinha, que para esse fim trouxera. Essa
importância era-lhe agora necessária para os encargos da circuncisão do Menino.

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Como, ao pôr-do-sol, principiasse a solenidade do sábado, acenderam a lâmpada
suspensa do tecto; foi à luz dela que a Santa Família cumpriu o que está disposto para
a celebração daquele dia.

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A CIRCUNCISÃO DO MENINO JESUS
Sábado, 1 de Dezembro
Findas as solenidades do sábado, vi que as mulheres da comunidade essénia,
juntamente com a serva de Santa Ana, dispunham tudo para uma refeição, que iam
servir numa cabana de folhagem, armada ao lado da gruta. São José trouxera de
Belém três sacerdotes, acompanhados de uma mulher, que vinha servir de ajudante
nas cerimónias da circuncisão fixada para o dia seguinte. No cubículo, à entrada da
gruta, que
São José reservara para si, colocaram um assento e ao lado, sobre um escabelo, foi
ajustada uma pedra octogonal, com uma cavidade ao meio. Num estojo, via-se um
instrumento cortante e âmbulas com água vulnerária.
Dali seguiram os celebrantes para o interior da gruta, onde os aguardava a
Santíssima Virgem com o Menino, que tomaram nos braços. O olhar de Jesus parecia
tocá-los. Felicitando a Virgem pelo nascimento do primogénito, que deixaram de
novo entregue à Mãe, voltaram à entrada da gruta, onde lhes foi servida uma breve
refeição.
Como era costume, muitos pobres, que vieram da cidade e vizinhanças, juntaram-se
em volta e São José distribuiu-lhes também das ofertas que recebera.
Domingo, 2 de Dezembro
Evangelho
Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do Menino, deram-Lhe o
nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido.(Lc 2,21)
Durante a noite, vi a gruta iluminada pela luz da lâmpada e, em volta dela, em
atitude de oração, todos os que nela moravam. A Santíssima Virgem estava
apreensiva e triste.
De antemão, havia preparado, numa dobra do vestido, os panos destinados a enxugar
o sangue e ligar os lábios do golpe. A cerimónia realizou-se ao nascer do dia. A pedra
octogonal foi coberta de dois panos: um encarnado e outro de linho alvo. Logo que o
primeiro dos sacerdotes tomou assento, passaram o Menino dos braços da Mãe para
os da serva e desta para os de São José e da ajudante, que o colocaram na pedra
octogonal, recitando, nessa altura, as preces da Lei.
Durante a incisão, estando o Menino sobre o joelho do sacerdote, era amparado nas
costas por São José e seguro nos pés pelos dois outros levitas. A lâmina era recurvada
na frente e, a seguir ao golpe, o operador comprimiu o lugar ferido, de onde correu
um fio de sangue. Aplicado o unguento e o líquido vulnerário, foi o Menino
enfaixado pela ajudante e de novo colocado nos braços da Virgem, que o amamentou
para lhe acalmar os choros da dor. Pelas faces de Maria, ao ver os panos tintos de
sangue, correram duas bagoadas de lágrimas. Passado algum tempo, a Santíssima
Virgem veio por sua vez com o Menino, sobre cuja cabeça os sacerdotes colocaram
as mãos e, com esta bênção, Maria retirou-se e os sacerdotes também. A seguir, foi
servida uma leve refeição à entrada da gruta.
Pelo dia fora, distribuíram-se várias esmolas aos pobres que por ali apareceram.

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Durante a noite, vi o Menino chorando com as dores da cicatrização; as pessoas,
comparticipantes na cerimónia, eram todas de bom coração; os sacerdotes abraçaram
mais tarde a doutrina de Jesus.
Segunda-feira, 3 de Dezembro
Como Santa Isabel soubesse do nascimento do Menino, tomou o caminho de Jutá
para Belém, montada numa jumenta, servindo-lhe de guia um antigo servo da casa.
Ao entrar na gruta, na tarde de hoje, apertou a Virgem ao peito e chorou com ela
lágrimas de alegria, tal era o contentamento que ambas sentiam. Caindo a noite, a
mãe de São João dormiu na gruta e, no dia seguinte, conversaram ainda sobre tudo
quanto se havia passado. É como se eu estivesse junto delas. Ouvi, cheia de
contentamento, tudo quanto entre si diziam.
Quando a Virgem referiu as voltas que deram até encontrarem aquela gruta, vi de
novo correrem lágrimas pelas faces de Santa Isabel. A respeito do nascimento de
Jesus, lembro-me de ter ouvido dizer a Maria que, da mesma maneira como, no dia da
Anunciação, fora enlevada em êxtase, sentindo o coração dividido em dois, assim
também, quando chegou a hora do Nascimento, sentiu-se como transportada pelos
anjos ao alto, parecendo-lhe que metade do coração se apartava dela. No dia da
Anunciação teve o sentimento de um bem inexplicável, que tomava lugar nela, ao
passo que, na hora do nascimento, sentiu como que um desejo imenso de um bem
infinito, que já não possuía. Foi nesse momento que viu, no meio de uma claridade e
diante dela o Menino que, sendo pequeno, lhe parecia tornar-se grande. Não ousou
a princípio tocar-lhe, pois estava rodeado de luz e tinha receio
de que ela estivesse a sonhar.
Foi só na altura em que Jesus chorou e fez os primeiros movimentos, que o tomou
nos braços e aconchegou a si.
Ao ouvir as palavras da Santíssima Virgem, Santa Isabel acrescentou:
– A graça de Deus estava contigo. Com as outras mães não se dá o mesmo.
Durante o dia, várias pessoas da cidade de Belém, sabendo o que se passara, vieram
por curiosidade à gruta; por isso, a Santíssima Virgem com Santa Isabel e o Menino
conservaram-se por algum tempo na gruta vizinha. São José encarregou-se de receber
e falar a esses visitantes.

90
Capítulo XI

91
A chegada dos Reis Magos
25 de Novembro
Já contei como é que o nascimento de Jesus Cristo foi anunciado aos três Reis
Magos, no próprio dia de Natal. Vi Mensor e Sair; o segundo estava na terra do
primeiro e juntos observavam os astros do céu. Haviam terminado os preparativos
para a viagem e, do alto da torre, em forma de pirâmide, fixavam mais uma vez a
estrela de Jacob, quando esta pareceu tomar maior volume, vendo-se ao meio dela
uma Virgem com um menino resplandecente de luz. Vi também surgir ao lado da
Virgem um ramo com uma torre na extremidade, em forma
de flor, que dentro em pouco se transformou numa cidade formosa. A seguir a estas
manifestações, ambos se puseram a caminho.
Teokeno, o terceiro dos reis, viu iguais manifestações. Porém, como vivia em terras
afastadas, a dois dias de viagem mais ao Oriente, pôs-se também a caminho, mas
estugando o passo, a fim de se reunir aos companheiros.
26 de Novembro
Neste dia, adormecendo eu com o ardente desejo de ver Jesus na gruta, e apertá-lo
amorosamente ao coração, senti-me de facto transportada a Belém. Era noite escura e
fui encontrar São José dormindo, no seu cubículo da entrada, tendo a cabeça
encostada ao braço direito, que lhe servia de travesseiro. Maria, porém, velava, junto
da manjedoura, ao lado do Menino, parecendo-me que o amamentava. De joelhos,
adorei Jesus, com um vivo desejo de o tomar nos braços. A Virgem conhecia bem o
meu pensamento, pois tudo sabe e tudo acolhe com afectos de mãe, sempre que lhe
pedimos com fé e amor. Mas daquela vez continuou recolhida em profunda
meditação e adorava Aquele de quem ela era Mãe e não me entregou o Menino, como
era meu desejo.
No lugar dela, eu teria feito o mesmo.
Crescendo sempre a minha aspiração de ver Jesus, foi o meu desejo juntar-se ao de
todas as almas que suspiram pelo reino do Senhor e vi que de todas as aspirações,
nenhuma foi tão pura e tão sincera como a dos reis Magos, que nas pessoas dos seus
antepassados esperaram, durante séculos, pela vinda do Salvador, crendo, esperando e
amando sempre. Foi assim que o meu pensamento se voltou para eles e, deixando a
gruta, fui levada por um extenso caminho até junto dos três reis.
No trajecto que segui, pude ver terras muito variadas, com os seus habitantes,
costumes e usos. A primeira região era quase estéril e arenosa. Todavia, vi que no
sopé de uns montes havia grupos de famílias que viviam em cabanas de ramagem. Na
encosta da montanha, viam-se cavidades em forma de grutas e nelas é que dormiam.
A cabana servia de abrigo para a entrada.
No meio da vegetação, que era rara, encontrei umas plantações de arbustos com
fruto, de que saía uma espécie de lã branca. Os habitantes alimentavam-se de carne
crua, especialmente de aves, e pareceram-me ainda muito selvagens. Entregavam-se
frequentemente ao banditismo e vi que adoravam uns ídolos colocados no pino das
árvores.

92
Eram os homens pequenos de estatura, encorpados, de cor bronzeada e cabelo
quase ruivo. Não vi, entre eles, animais domésticos nem rebanhos. Sendo de pequena
estatura e encorpados, pareceram-me lestos e activos. Das árvores já referidas,
colhiam uma espécie de lã branca por eles fiada, com que teciam mantas. Terminado
o fabrico de certa quantidade, carregavam com elas à cabeça até à cidade mais
próxima, onde as vendiam.
Observei também que alguns ídolos tinham o feitio de touros, guarnecidos de
pontas e boca larga. Era pelo fogo, aceso no bojo, que destruíam as oferendas
distribuídas pelas cavidades dorsais do animal.
Além desse ídolo principal, quase escondido por um conjunto de árvores, vi outros
figurando aves, dragões e serpentes enroladas, além de um com forma de cão de três
cabeças.
Ao principiar esta viagem, tive a sensação de que à direita deixava uma grande
extensão de água, que se ia afastando de mim. Finda a região dos homens baixos e de
cor bronzeada, o caminho tornou-se mais íngreme, chegando finalmente a um
planalto de areia, de mistura com pedregulho negro, semelhante a fragmentos de
potes calcinados.
Finda a montanha de areia, apareceu à vista um terreno de cultivo com árvores em
linha. As folhas eram grandes e a casca tinha o aspecto de pele de peixe. Outras,
porém, com folhagem verde e amarela, apresentavam o aspecto de pirâmide e
ofereciam à vista grandes e lindas flores. Vi outras, ainda, com folhagem macia e
feitio de coração.
Os terrenos a seguir eram todos de pastagens e estendiam-se recortados de colinas,
muito além da linha do horizon-
te. Abundavam os rebanhos e vi que, nas encostas, se cultivavam vinhas dispostas
também em linhas regulares. A terra, sendo protegida por muros de suporte, dava a
impressão de degraus a subir.
Os habitantes viviam em tendas fabricadas pelos homens daquela região que há
pouco descrevi. Ao centro do povoado principal encontrava-se o tabernáculo maior e,
em volta dele, as tendas mais pequenas. A porta de entrada resumia-se, para todas,
numa caniçada de varas entrelaçadas.
Os rebanhos pastavam à vontade, agrupados segundo cada espécie. Vi, entre outros,
grandes e formosos carneiros, cobertos de tufos de lã, a descer até ao sul, ferindo-me
particularmente a atenção a cauda lanuda e de grandes dimensões. Não faltavam
variedades de antílopes, dotados de grande agilidade, com chifres semelhantes aos do
bode, mas mais elevados em estatura. Lá pastavam também camelos de uma e duas
corcovas e outros animais semelhantes a cavalos que também viviam em liberdade. À
parte, mas num recinto fechado, vi também elefantes brancos e mestiços. Eram
tratados separadamente, pois usavam-nos para trabalhos domésticos.
As visões em que me foram presentes os quadros da viagem que referi, sofreram
algumas interrupções, devido a ter-me sido chamada a atenção para outros factos.
Tanto os rebanhos, como as pastagens desta região, pareceu-me que eram pertença de
um dos Reis Magos, então em viagem. Era ele de nome Mensor e confiava a
vigilância dos rebanhos a um subalterno. A ele estavam subordinados os pastores,
que, de tempos a tempos, ali compareciam para se fazer a contagem das cabeças de

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gado. Vi os pastores trazendo samarra até ao joelho. O maioral apresentava-se vestido
de manto comprido. A fiscalização efectuava-se à porta da tenda maior, passando-lhe
pela frente e em linha todos os rebanhos confiados à guarda dos subalternos. A
verificação fazia-se não só quanto ao número, mas também quanto ao estado de cada
uma das cabeças.
Vi também que os encarregados da fiscalização escreviam as notas e observações
em placas cobertas de uma substância mole.
Assim os nossos bispos examinassem com igual cuidado os rebanhos confiados aos
pastores, seus subalternos!
Quando, a seguir à primeira interrupção, voltei a este lugar de pastagens, era já
noite e o silêncio completo. Nem o balido de um cordeiro nem o menor sinal de voz
humana.
Os pastores dormiam sono profundo ao abrigo das tendas, que à noite armavam ao
lado dos rebanhos. Só alguns deles, escalonados pela noite fora, velavam,
caminhando a passo lento em volta das paliçadas, que protegiam cada espécie de
cabeças de gado.
Quando, ao olhar para esta multidão de rebanhos, me lembrei que eram pertença de
uns homens, que, fitando a imensa extensão dos céus e obedecendo ao seu Criador,
partiram dali, no seguimento de uma estrela, ao meu espírito surgiu, vivo, este
pensamento: – Como deve ser agradável ao Senhor a obediência desses homens, mais
fiéis e prontos em seguir a voz do Alto do que os próprios rebanhos, na obediência
aos pastores da terra! E vendo que os homens encarregados da vigilância, durante a
noite, olhavam mais para as estrelas do céu do que para a multidão dos rebanhos,
fazia comigo esta reflexão:
– Certamente que devem ter razão, quando fitam o brilho das estrelas. Durante
séculos, os seus avós igualmente as fitaram sem desânimo, esperando a toda a hora a
vinda do Salvador.
À semelhança do bom pastor, que dia e noite anda à procura da ovelha desgarrada e
não repousa enquanto a não trouxer ao aprisco, da mesma maneira o Pai celeste, o
verdadeiro pastor desses rebanhos de estrelas, que não têm conta, encaminha as
almas, dirigindo-as pelas vias da eterna salvação.
O homem, a quem Deus concedeu poder sobre todos os seres criados, pecou;
amaldiçoada a terra, em castigo do pecado, de novo o Criador se abaixou para o
levantar da queda, com o mesmo carinho com que o pastor levanta a ovelha caída. Do
alto dos céus, enviou à Terra o Seu próprio Filho, que, feito homem, tomou sobre si
os estragos do pecado.
À semelhança de um cordeiro sacrificado como vítima no altar, assim o Filho de
Deus tomou os nossos pecados, satisfazendo em nosso lugar à justiça divina. A
grande promessa da vinda do Redentor ao mundo acabava de se cumprir nas terras da
Judeia e para O adorar é que, na noite finda, para lá tinham seguido os reis desta
imensa região. E como fossem guiados por uma estrela, os pastores da noite
continuavam fitando os céus com mais atenção do que os rebanhos adormecidos a
seus pés.
Estava ainda com o espírito absorvido nestas considerações quando senti
aproximar-se dos rebanhos o tropel de uma caravana vinda de longe. Cortado o

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silêncio da noite por aquela cavalgada imprevista, dentro de poucos momentos
estavam de pé os pastores adormecidos. Acordados pelo ruído, começavam a ouvir-se
os balidos dos cordeirinhos assustados, ao mesmo tempo que os dromedários
alongavam os pescoços esguios na direcção do cortejo que se avizinhava.
Conhecedores do terreno, pararam junto da tenda principal e, apontando com a
mão para os astros, falavam de uma nova estrela, que agora se lhes escondera da
vista. Eu mesma deixei, neste momento, de a ver.
Era o cortejo de Teokeno, o mais afastado dos três Reis, que, guiado pela estrela,
perguntava por Mensor e Sair e, informado da partida e do avanço, que sobre ele os
dois levavam, de novo retomou o caminho na esperança de os alcançar na viagem. O
lugar onde a caravana estacara era o mesmo onde os três costumavam reunir-se e,
juntos, fazer as suas observações no cimo da torre maior, que se erguia no cimo de
uma colina das vizinhanças.
Teokeno, sendo o que viera de mais longe, ocupava uma região para lá daquela
onde viveu Abraão. Nos intervalos da visão relativa à planície das pastagens, outros
quadros tive presentes de factos passados longe dali. Num deles, vi a montanha para
onde Abraão subiu a fim de sacrificar o seu filho Isaac. Noutro, vi Agar e Ismael no
deserto. Abraão morava num lugar situado numa elevação de terreno. Aí é que foi a
sua primeira residência; porém, as terras, que eram pertença dos três reis, estendiam-
se em volta, mas na planície. O que vi, relativamente a Agar e Ismael, foi o seguinte:
a um dos lados da montanha de Abraão, vi a mãe de Ismael, errante no meio de
arbustos do deserto. Ismael, que vestia uma túnica comprida, era criança ainda e Agar
ia coberta de um manto, que lhe envolvia a cabeça e parecia dominada pelo
desvairamento, quase louca.
Encostando o menino à sombra de uma árvore, marcou-o no alto do braço direito e
esquerdo com sinais de uma cor que me pareceu rubra. Igualmente o marcou na testa,
mas esse sinal não lho cheguei a ver. Os sinais assemelhavam-se a uma cruz, mas não
à cruz normal. Aproximavam-se, antes, da cruz de Malta, tendo ao meio um círculo,
donde partiam os quatro triângulos que a constituíam.
Afastando-se Agar no sentido do deserto, ouviu do alto uma voz, que lhe mostrou
uma nascente de água. Enchendo nela um odre, voltou para matar a sede do filho, que
ficara ao abrigo das árvores.
Z
Na noite de 27 para 28 de Novembro, vi a caravana de Teokeno fazer junção com
as de Mensor e Sair. Quando os dois cortejos se encontraram, começava a clarear o
dia.
Ao lado, viam-se os restos de uma antiga cidade, que foi populosa e de que restavam
velhos panos de muralhas em ruínas, e portadas em tempo defendidas por torreões de
forma rectangular, mas quase desmoronadas. De pé ficaram ainda na cidade duas
grandes linhas de colunas de proporções agigantadas e várias estátuas formosas e
elegantes, não com aquela dureza vertical das do Egipto, mas de formas maleáveis,
dando a quem as vê a impressão de vida.
A região em volta é arenosa e por vezes coberta de rochedos. Nas ruínas da cidade
abandonada, viviam uns homens armados de lanças e com feitio de bandidos. Eram
baixos de estatura, bronzeados na cor e espadaúdos, mas ágeis nos movimentos. Estes

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homens parece-me tê-los encontrado já nas viagens que, em espírito, fiz ou à
montanha dos Profetas ou às margens do rio Ganges. Entretanto, os três cortejos,
deixando as ruínas, retomaram o caminho do ocidente, não sem que os acompa-
nhassem alguns dos mais pobres do sítio, confiados nas liberalidades dos três reis. A
marcha durou cerca de meio dia, até que acamparam de novo.
A seguir à morte do Senhor, o Apóstolo São João enviou dois discípulos: Saturnino
e Jonadab (este era meio irmão de São Pedro), para anunciarem o Evangelho a esta
cidade, hoje arruinada. Foi naquela paragem que vi os três Reis Magos juntos. O
último a chegar, Teokeno, que era o de cor branca, reconheci-o trinta e dois anos mais
tarde e estava doente, quando o Senhor os visitou, naquela terra mais vizinha da
Palestina. Cada um dos reis, na sua viagem para Belém, tinha ao lado quatro parentes,
ao mesmo tempo amigos dedicados, de maneira que, ao todo, havia em cada cortejo
quinze pessoas de categoria, além de uma multidão de condutores de camelos e vários
outros serventes.
No meio dos mais novos, muito ligeiramente vestidos, reconheci Eleazar, que mais
tarde veio a morrer mártir e dele possuo uma relíquia.
Os nomes dos três Reis Magos são Mensor, o de cor morena, baptizado por São
Tomé, a seguir à morte de Jesus Cristo, recebeu no baptismo o nome de Leandro;
Teokeno, de cor branca, o que estava doente quando Jesus o visitou, esse recebeu no
baptismo o nome de Leão. O mais escuro chamava-se Sair e já tinha falecido ao
tempo do Senhor, por isso, recebeu o baptismo de desejo.
Também lhes chamam Gaspar, Melchior e Baltasar por causa das suas qualidades.
Gaspar significa aquele que vai com amor; Melchior, o que anda com suavidade, e
guia usando de mansidão e acariciando; Baltasar, o que obedece de imediato e sem
discutir, isto é, sujeita a vontade própria aos desejos de Deus.
28 de Novembro
A terra onde os Magos bivacaram a seguir às ruínas da cidade com estátuas era
fértil e povoada de rebanhos. Pararam ao lado de uns alpendres destinados ao abrigo
das caravanas. Eram três os mais espaçosos e outros de menores proporções, em
volta. A pouca distância, via-se um poço com água, destinado ao abastecimento de
homens e rebanhos.
Abundando na região a pedra branca e preta, vi que as moradas dos pastores, feitas
deste material, apresentavam também essas duas variedades de cor.
O cortejo, caminhando no seguimento da estrela, mantinha na marcha a composição
do princípio, isto é, todos subordinados aos seus chefes de origem. Cada rei, como
bom chefe de família, regulava, por meio dos seus familiares, todos os serviços do
pessoal que lhe pertencia, e vi que em cada uma das caravanas do cortejo dominavam
os homens da cor da do respectivo chefe. Os da tribo de Mensor, morenos e os de
Teokeno e Sair, respectivamente, de cor branca e escura. Apenas alguns escravos é
que pertenciam à raça preta.
Os chefes montavam sobre tapeçarias presas ao dorso dos camelos e traziam na
mão a vara do mando. Sobre animais, que me pareceram cavalos, vinham a seguir os
familiares e, no meio das alimárias de carga, os escravos e servos.
Assim que se abeiraram dos alpendres, o seu primeiro cuidado foi aliviar o peso aos

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animais e distribuir-lhes água do poço vizinho, vendo eu, nessa altura, que se
encontrava protegido por um muro circular, com três portas de entrada. Foi um
homem da cidade em ruínas que, acompanhando-os, lhes franqueou
o uso da água, que dali foi levada para os animais, em odres de couro. Cada odre
comportava quatro secções e nele podiam beber, simultaneamente, outras tantas
cabeças de gado. E vi que os homens eram tão cuidadosos no aproveitamento da
água, que nem uma só gota deixavam perder. Nos alpendres, para onde os animais
foram seguidamente conduzidos, viam-se, cavadas na pedra, umas escudelas em
forma de pias, destinadas ao grão que lhes foi distribuído.
De entre as bagagens, vi no dorso dos animais muitas grades com aves, algumas
parecendo ou sendo, talvez, pombos e frangos aos quais distribuíam cereais mesmo
durante a marcha. Vi também que, dentro das caixas de couro, traziam pães em forma
de bolos, todos iguais e muito apertados uns aos outros. Não faltavam também vasos
preciosos de cor de ouro, com figuras e pedras de fina qualidade, alguns de forma
muito parecida com os que se usam nos nossos altares, como cálices, patenas, etc.
Utilizavam-nos para beber e distribuir os alimentos.
O modo de vestir não era igual para os três reis, nem para a gente que os
acompanhava. Teokeno, com os da sua família, bem como o rei Mensor, usavam um
barrete alongado, tendo a envolvê-lo, na altura da fronte, um tufo ou faixa de fazenda
enrolada, de cor branca. As túnicas, com leves ornamentos na altura do peito,
desciam-lhes até à barriga da perna. Por cima desse primeiro vestuário, lançavam o
manto que, sendo leve, embora amplo, tinha maior desenvolvimento na orla posterior,
de forma a arrastar no chão.
O rei Sair, de cor bronzeada, trazia na cabeça, como todos os da sua família, uma
espécie de barretina, em forma de touca arredondada, com desenhos em volta, de
cores variadas.
Os mantos, sendo mais curtos, deixavam à vista as túnicas, de mais aparato que as da
gente de Mensor. No cumprimento
não iam além do joelho, mas, em compensação, superabundavam os lacetes e botões
luzidios, que lhes davam um aspecto aparatoso. A um dos lados do peito, sobressaíam
os reflexos de uma placa brilhante, com o feitio de estrela. O calçado resumia-se
numas palmilhas de couro, seguras ao pé, por meio de um cordão enlaçado até à
altura do tornozelo. Os que, dentre eles, tinham poder de mando, eram portadores de
sabres curtos, alguns
em forma de cutelo, presos a uma larga cinta de couro. Pendentes do mesmo couro,
viam-se bolsas ou caixas de pequenas dimensões.
De entre os homens da comitiva, havia alguns com cinquenta e outros com idades
variáveis, de quarenta a vinte anos, uns já de barba longa e os restantes, mais curta.
Os ser-
viçais e guardas dos camelos vestiam com mais singeleza, cobrindo-se alguns de
túnica grosseira.
Saciados os animais e recolhidos aos alpendres, cuidaram então do pessoal,
acendendo lume numa das tendas, para cujo fim uns homens das vizinhanças
carregaram alguns feixes de lenha seca, como era costume fazer-se para todos os
viajantes que lhes pagavam. Vi que, para fazer lume, introduziram numa cavidade de

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madeira um pau circular a que imprimiram um movimento veloz de rotação; e como
entrasse em incandescência, com ela é que acenderam o fogo para a cozinha impro-
visada, mas habilmente disposta. Foi nela que assaram várias aves transportadas em
caixas de grades.
Vi que os três reis, ajudados pelos principais da comitiva, atendiam a cada um dos
da sua tribo, da mesma maneira e com o mesmo carinho com que um pai de família
olha por cada um dos seus filhos. Eram eles que faziam as rações e as distribuíam por
todos. Das aves ali assadas, a todos foi dada uma parte, utilizando os referidos pratos,
em forma de patenas. Todos beberam pelos cálices que com eles traziam.
Os últimos serventes, entre os quais havia alguns da raça preta, esperaram a sua vez,
assentados numa cobertura e a eles foi igualmente distribuída da ração comum.
Como são comovedoras essas manifestações de bondade e singeleza destes reis do
Oriente! De tudo distribuem, como se fossem irmãos, a ponto de aos servos darem de
beber pelos vasos de ouro, de que são portadores.
Na meditação de hoje, soube muitas outras coisas, relativas aos Reis Magos e terras
de onde procederam, com os nomes e localização delas. Infelizmente, muitos factos
passaram-me da mente. Todavia, contarei aquilo de que ainda me recordo. Mensor, o
rei branco mas de tez morena, era da Caldeia e a cidade onde nasceu tinha um nome
parecido com Acaiaia ou Acaiacul. Fora edificada numa ilha e era rodeada por um
rio. Porém, Mensor residia habitualmente na terra de pastagens, no meio dos
rebanhos.
Sair, o rei de cor bronzeada, na noite em que nasceu o Menino encontrava-se junto
de Mensor e com todos os preparativos já feitos para seguir viagem. Recordo-me que
era de um país de nome parecido com Paternia (talvez Parténia terra dos homens
chamados Partos). Um pouco acima há um lago. Só este rei tem a cor bronzeada e os
lábios vermelhos, assim como os restantes homens da sua tribo.
Teokeno, de cor branca, era originário das terras da Média, país situado mais ao
norte e próximo de dois mares. Esse morava numa cidade que lhe pertencia; esqueci,
porém, o nome dela; lembro-me somente que era formada por tendas, com base de
pedra e ficava a uns cinco dias de viagem de Mensor. Parece-me que Teokeno era o
mais rico de todos e o que, portanto, renunciou a uma maior soma de haveres. Para ir
a Belém, podia ter seguido um caminho mais a direito. Mas para se juntar aos dois
restantes, deu uma volta maior, devendo ter passado a pouca distância da cidade de
Babilónia.
As terras de Sair ficavam a três dias de viagem de Mensor, calculando doze léguas
por dia. Na hora do nascimento, estes dois reis encontravam-se reunidos em casa de
Mensor, quando viram a estrela anunciadora e, no dia imediato, tomaram o caminho
por ela indicado. No mesmo dia, viu igualmente Teokeno a estrela e partiu,
acelerando a marcha, indo encontrar os outros dois junto da cidade em ruínas, como
foi dito.
A estrela tinha o feitio de um globo, dando-me a impressão de a luz provir de uma
boca. Durante o dia, vi que, na frente, seguia esse corpo brilhante, de uma claridade
mais viva que a luz solar.
Quando penso na extensão da viagem, fico assombrada com a rapidez com que
venceram tão longa distância. Os animais em que iam montados caminhavam com

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passo tão leve e uniforme que tudo parecia obedecer a uma voz única de comando e,
na sua marcha, davam a impressão de voo de um bando de aves, cortando rápidas o
espaço do firmamento. Vi também que as terras originárias dos três reis se
encontravam distanciadas, formando os vértices de um triângulo.
O cortejo descansou no bivaque onde pararam, até ao fim da tarde, e vi que os
homens do sítio, ao carregar de novo as alimárias, se prestaram a ajudá-los, levando
no final, para suas casas, vários artigos que os reis lhes deixaram. Escurecia já
quando se puseram a caminho guiados pela estrela, cuja luz se parecia com a da lua,
nas noites de ventania. Durante algum tempo, seguiram a pé, ao lado das montadas,
de cabeça descoberta e em oração. Como nesta primeira parte do trajecto o caminho
fosse escabroso, tiveram de seguir a passo moderado. Só mais tarde é que, em terreno
plano, retomaram a marcha acelerada do costume. Vi que, por vezes, moderando o
passo, entoavam no silêncio da noite cânticos singularmente expressivos, em uso nos
povos do Oriente.
De 29 de Novembro a 2 de Dezembro
Durante a noite de 29 para 30 de Novembro, voltei a fazer companhia ao cortejo
dos três reis que, no seguimento da estrela, continuavam no caminho do deserto, e vi
que, a horas distanciadas, desciam das suas montadas e conferenciavam entre si.
A estrela para que olhavam sempre com uma alegria cheia de confiança, parecia-me
que, no trajecto desta noite, se tornou mais baixa a ponto de a cauda luminosa, que
dela nascia, tocar a terra, iluminando-a. A atmosfera silenciosa da noite era cortada
por cânticos de uma melopeia toda oriental, que recordavam lembranças da terra onde
nasceram, ou se referiam ao rei que se propunham adorar. As notas, ora vibrantes ora
de uma cadência suave e quase a morrer na imensidade do deserto, deixavam no
espírito impressões profundas da majestade do Senhor, a quem dão glória todos os
seres da criação: a luz do dia e as trevas
da noite.
O cortejo avança, obedecendo a uma ordem admirável.
À frente de cada grupo, abre a marcha um dos reis. O camelo em que vai montado
leva, presos das ilhargas, uns cofres envoltos de coberturas ricas e é sobre elas que o
chefe cavalga, sempre de bastão na mão. A primeira montada é seguida por uma linha
de outras alimárias, cavalos e jumentos, todos eles de talhe elevado, transportando,
além da carga, o restante pessoal de serviço.
A mesma composição é observada em cada um dos três grupos que formam o
cortejo. As alimárias, parecendo caminhar com lentidão, vencem grandes distâncias,
pois andam a passo largo e vi que, acostumadas já, pousam os pés na areia ou
pedregulho, sempre com uma especial precaução. O aspecto à vista é de uma massa
inerte, avançando sempre, salientando-se apenas o dobrar rítmico das patas. Os
próprios cavaleiros parecem absortos numa ideia fixa e indiferentes a tudo o que os
rodeia.
Ao contemplar a calma e ordem do cortejo, não posso furtar-me a estas reflexões:
são homens que, desconhecendo o Senhor, estão caminhando para Ele com alegria e
paz, em contraste com muitas cerimónias do culto, nas nossas igrejas, que se realizam
na maior desordem e cheias de irreverência para com o mesmo Senhor.

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Na sexta-feira, 30 de Novembro, vi o cortejo parar junto de um poço, cuja entrada
lhes foi franqueada por um homem de uma cabana próxima. Saciados os animais,
sempre de carga no dorso e a seguir a breve repouso, todos retomaram o caminho.
No sábado, 1 de Dezembro, vi de novo o cortejo, que, na véspera, subira a encosta
de um planalto. À direita, erguia-se uma linha de montanhas e, na descida, pareceu-
me que se aproximavam de um país habitado, com água e vegetação. Talvez o
daqueles homens que, vivendo entregues ao cultivo e tecelagem do algodão,
prestavam culto a um ídolo em forma de touro. Na passagem da comitiva,
mostraram-se muito generosos para com os viandantes, vendo eu, porém, com
surpresa, que não voltaram a servir-se dos pratos em que os outros haviam comido.
No domingo, 2 de Dezembro, vi os santos reis nas vizinhanças de uma cidade de
nome semelhante a Causur, constituída por tendas assentes em alicerces de pedra. E
foi nas tendas do rei que descansaram da longa caminhada. Desde a cidade em ruínas,
onde fizeram junção, até este local, levavam já cinquenta ou sessenta horas de
marcha.
Como ao rei de Causur narrassem tudo quanto se havia passado e de como a estrela
os guiava, olhando o rei para o astro, ficou cheio de admiração, quando nele viu um
menino e uma cruz. Pediu-lhe para, no regresso, lhe contarem tudo quanto soubessem
desse menino, pois queria levantar-lhe um altar e oferecer-lhe sacrifícios.
Foi assim que ouvi como os três reis lhe narraram o motivo da observação dos
astros e tudo o mais que sucedeu até àquele dia, conforme passo a contar:
Os antepassados dos Reis Magos eram originários da família de Job. Este santo
patriarca, habitando na região do Cáucaso, possuía também outros haveres em terras
afastadas. Mil e quinhentos anos antes de Cristo, os seus descendentes constituíam
uma só tribo e a ela pertencia o profeta Balaão, bem como outros dos seus discípulos.

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BÊNÇÃO DE BALAÃO
Balaão viu que era agradável ao Senhor abençoar Israel e não foi, como das outras
vezes, à procura de presságios, mas virou-se para o deserto.
Balaão levantou os olhos e viu Israel acampado por tribos. Desceu sobre ele o
Espírito de Deus e ele proferiu o seu oráculo, dizendo: Oráculo de Balaão, filho de
Beor, oráculo do homem de olhar penetrante; oráculo de quem escuta as palavras de
Deus, que tem a visão do Omnipotente, que se prostra, mas de olhos abertos.
Como são belas as tuas tendas, ó Jacob, as tuas moradas,
ó Israel! Estendem-se como os vales, como jardins junto de um rio!
O Senhor plantou-as como árvores de aloés, como cedros junto das águas! A água
escorre de seus reservatórios e suas sementeiras têm água abundante.
O seu rei é mais forte que Agag e exalta o seu reino! Deus libertou-o do Egipto,
sendo para ele como a força de um búfalo. Devora os povos seus inimigos, esmaga-
lhes os ossos e quebra as suas flechas.
Deita-se a descansar como um leão e como o leopardo.
Quem o fará erguer-se?
Bendito aquele que te abençoar e maldito quem te amaldiçoar!
Oráculo daquele que escuta as palavras de Deus e conhece a sabedoria do Altís-
simo, que tem a visão do Omnipotente, que se prostra, mas de olhos abertos.
Eu vejo, mas não para já; contemplo-o, mas ainda não próximo: uma estrela surge
de Jacob e um ceptro se ergue de Israel. Derrubará as frontes de Moab e o crânio de
todos os filhos de Set.
Edom será conquista sua e Seir será sua presa, seu inimigo.
Então, Israel triunfará! De Jacob ele vai descer, para devastar os sobreviventes da
cidade. Balaão viu também Amalec e pronunciou o seu oráculo: «Amalec é o
primeiro dos povos, mas, no futuro, será destruído.» Viu ainda o quenita, e
pronunciou o seu oráculo: «Fortifica a tua morada e põe no rochedo o teu ninho! Mas
até esse ninho será queimado quando Assur te levar cativo.»
Pronunciou o seu oráculo e disse: «Ai de quem viver, quando Deus o realizar!
Navios dos lados de Kitim submeterão Assur, submeterão Eber, mas também eles
sucumbirão.»
Como um deles tivesse conhecimento da profecia messiânica, que diz – Uma
estrela nascerá de Jacob, etc. –, tornou-se apóstolo dela, pregando-a ao povo que a
recebeu como um depósito sagrado. Foi a partir dessa data que, levantando torres
com forma piramidal, se entregaram à observação dos astros, na esperança de
descobrir a estrela anunciada.
Uns quinhentos anos antes de Cristo, a tribo dividiu-se em três ramos, tomando
posse, cada um, das terras que constituíam a sua herança. Dispersos e com o decorrer
do tempo, foram esquecendo as observações dos astros. Todavia, conservando cada
tribo o seu chefe, suscitou-lhes Deus filhas que, recebendo o dom da profecia,
percorreram todos aqueles territórios, fazendo reviver as predições sobre a estrela e o
Menino que, anunciado por ela, devia nascer de Jacob. Com a pregação dessas três
virgens, os homens acabaram com práticas abomináveis e muito especialmente com
os sacrifícios humanos de crianças e estropiados, voltando à fé dos seus antepassados.

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Vi que retomaram as observações dos astros, de onde procederia a estrela
anunciadora.
Os Reis Magos descendiam pois desses três chefes, por meio de quinze gerações,
que durante quinhentos anos se sucederam em linha recta. Como, porém, realizassem
alianças com pessoas de outras raças, resultou terem dois de entre eles a cor do rosto
mais carregada do que Teokeno, cujos avós moraram sempre na região caucásica.
Foi a seguir à pregação das três virgens que os antepassados dos Reis Magos
começaram a reunir-se, fiéis à crença na estrela de Jacob, num ponto único, sempre
que os sinais nos astros anunciavam a proximidade do Messias. Essas manifestações
tomaram novo aspecto com o nascimento de Maria e delas depreenderam que o
aparecimento do grande Rei estava próximo. Com a visão da escada de Jacob, que
lhes foi revelada numa dessas manifestações, viram também que o último degrau
findava na estrela, onde se tornou patente a figura de uma virgem com um menino.
Por esse tempo, viram a cidade de Belém sob a forma de um palácio formoso e
simultaneamente a Jerusalém celeste, mas separada da primeira por uma estrada de
espinhos e sinais indicativos de lutas e sangue derramado.
Interpretando à letra aquela visão, julgaram tratar-se de um rei nascido no meio de
grandezas e rodeado de corte faustosa e é assim que todos os seus preparativos e
oferendas tinham em vista honrar um soberano poderoso, a quem os restantes
soberanos do mundo deviam homenagear igualmente. Segundo eles, Jerusalém era a
cidade real; os espinhos e o sangue dos caminhos representavam as dificuldades da
viagem ou alguma guerra que os ameaçava. Ignoravam que fossem os símbolos da
sua Paixão dolorosa.
Todos esses quadros lhes foram presentes na estrela durante os últimos três dias e,
como vissem uns reis apresentando ao recém-nascido as suas ofertas, puseram-se
igualmente a caminho, para não serem dos últimos a chegar.
A estrela que os guiava não era um cometa, mas sim um meteoro, que um anjo
conduzia. Como interpretassem à letra a grandeza espiritual do Menino, foi grande
também a admiração quando, ao entrar em Jerusalém, se viram recebidos com frieza e
desconfiança pelo rei Herodes, que nada sabia a respeito do novo Rei. Partindo para
Belém, a estrela levou-os a uma gruta em vez do palácio que visionavam; mas, ao en-
trar nela, reconheceram que aquele Menino era verdadeiramente o mesmo da estrela
de Jacob.
Os dias das observações dos astros eram sempre acompanhados de cerimónias
religiosas, jejuns, orações e outros actos purificatórios.
De 3 a 5 de Dezembro
Ao deixarem a cidade de Causur, outras pessoas de distinção, que seguiam pelo
caminho, associaram-se também ao cortejo dos reis.
De 3 a 4 de Dezembro, vi-os atravessando uma extensão enorme de planície
deserta. No dia 5, fizeram nova paragem junto de um poço com a demora suficiente
para a preparação de alimentos. Na continuação da viagem, assisti a outros bivaques e
à distribuição de água e alimentos pelo pessoal de serviço e alimárias de carga.
Durante a marcha, vi muitas vezes os mais velhos entoando cânticos, que os outros
repetiam em coro. Por vezes os cânticos eram substituídos por um estribilho, que os

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restantes ampliavam segundo a inspiração do momento.
Alguns desses hinos, em língua estranha, encerravam pen-
samentos como este:
Vamos todos transpor as montanhas
e ajoelhar diante do rei nascido.
Quinta-feira, 5 de Dezembro
Ao tempo em que os Reis Magos estavam a falar com o rei de Causur, foi revelado
à Santíssima Virgem que a viagem deles levava destino à cidade de Belém. Como
São José fosse advertido do facto, tratou de dispor a gruta para receber nela esses
homens vindos do Oriente.
Além daqueles visitantes, que desceram da cidade para ver a gruta, outros ainda
hoje por ali apareceram. Foi por motivo dessas visitas que Maria se retirou para a
gruta vizinha. Alguns eram pedintes e outros vagabundos insolentes que, nas
vésperas, murmuraram do que lhes fora dado e, blasfemando, exigiam mais. Os que
eram mendigos de profissão dirigiram-se a Jerusalém para, nas festas da Dedicação,
exercerem o seu ofício às portas do Templo. A caminho de Jutá seguiu também neste
dia Santa Isabel juntamente com o velho servo, que a acompanhara a Belém.
De 6 a 8 de Dezembro
Nestes últimos dias, houve mais sossego na gruta, pois ninguém veio importunar a
Sagrada Família. Fazendo-lhe companhia e ajudando-a nos trabalhos, ficou
juntamente com a Virgem uma serva de uns trinta anos, viúva, que era ainda do
parentesco de Santa Ana. São José celebrou o dia de sábado juntamente com a
Santíssima Virgem e a serva. Como no dia seguinte houvesse festa no Templo, as
pessoas que por ali passavam iam todas a caminho de Jerusalém.
Era costume, entre as mulheres judias, dar já desde os primeiros tempos da
amamentação algum alimento às crianças. Foi assim que hoje, pela primeira vez, o
Menino se alimentou de uma papa doce, feita com a medula de uma planta
semelhante à cana do açúcar. É uma substância leve e muito nutriente.
De 9 a 10 de Dezembro
Durante as solenidades da Dedicação, São José acendeu, de manhã e à tarde, as
lâmpadas da gruta e foi à luz delas que celebraram a festa.
Segunda-feira, 10 de Dezembro
Vindo de Nazaré, chegou hoje um servo de Santa Ana, que além de alguns
utensílios domésticos trouxe pano para as faixas do Menino e um cabaz de fruta,
coberto de rosas de cor esvaída e aspecto muito diferente das nossas. A Santíssima
Virgem pareceu dar muito apreço a esta lembrança de flores, que colocou junto dela.
Enquanto estes factos se iam sucedendo em Belém, longe dali os Reis Magos
continuavam a vencer, por caminhos áridos, a distância que os separava da gruta.
Depois que os reis transpuseram aquelas montanhas, onde os vi nos últimos dias,
entraram em terreno pedregoso, semelhante a pedaços de cerâmica partida, mas
polida e de aspecto agradável à vista. Atravessaram ainda outra região acidentada,

103
coberta de areia branca e seixos quase transparentes, muito parecidos com ovos das
aves do céu, chegando finalmente àquela região onde mais tarde vieram a fixar
residência.
Terça-feira, 11 de Dezembro
Hoje vieram à gruta algumas pessoas abastadas de Belém, que se mostraram
dispostas a receber a Sagrada Família em suas casas. Porém, Maria voltou a refugiar-
se na outra gruta e São José, agradecendo, declinou o oferecimento.
14 a 16 de Dezembro
Como a festa da Dedicação findasse no sábado, São José deixou de acender as
lâmpadas e principiou a dispor melhor as grutas vizinhas, bem como a de Marahá,
antes da chegada dos Reis Magos. Vi também que Santa Ana fazia os preparativos
para visitar, na gruta, o Menino e a Virgem, tendo o cuidado de enviar com
antecedência alguns géneros, que à semelhança de outras ofertas recebidas eram em
grande parte distribuídos pelos pobres.
17 a 18 de Dezembro
Vi os santos reis chegarem a uma povoação rodeada de sebes, que me pareceu ser a
primeira terra da Judeia. Como a estrela tomasse um brilho mais vivo, voltaram a
entoar com mais entusiasmo os seus cânticos de viagem. Os moradores das terras por
onde passavam ou não viram os reflexos da estrela ou não lhes deram importância,
embora fosse gente boa e hospitaleira. No tempo de Abraão, os homens eram todos
assim uns para os outros. A 18 de Dezembro, passaram ao lado de uma cidade que me
pareceu cheia de sombras, para logo a seguir atravessarem uma corrente de água que
segue em direcção ao mar Morto.
Nestes sítios, a estrela apresentava-se com menos brilho.
A partir daquele rio, o caminho tornou-se mais regular e suave.
A 19, quarta-feira, vi o cortejo atravessar uma cidade onde Jesus passou a 31 de
Julho, no segundo ano da Sua pregação. O nome dela assemelha-se a Manate ou
Matanea. As pessoas eram de má índole. Os viajantes, passando à frente, foram
acampar junto de uns muros em ruínas e aí armaram as tendas e trataram de preparar
as refeições, descansando nos dias 20 e 21 (quinta e sexta-feira).
Foi aqui, já em terras da Judeia, que a tristeza, pela primeira vez, lhes invadiu a
alma, ao ver que os habitantes nada sabiam a respeito do nascimento do novo Rei. E
como lhes falassem do caminho já percorrido, vi que o cálculo das distâncias era feito
pelos dias de viagem a pé, vencendo à razão de doze léguas
por dia.
Foi no começo da tarde de sexta-feira, 21 de Dezembro, princípio do sábado
judaico, que os três reis retomaram o caminho, tendo antes distribuído entre o povo
algumas peças de ouro, pequenas e de forma triangular e outras com forma de grãos,
mas de cor menos brilhante. Contornando os muros e deixando atrás a cidade, com os
seus ídolos pagãos, atravessaram a torrente e logo a seguir o bairro dos judeus, que se
dirigiam à sinagoga para começar as solenidades do sábado. A distância que os
separava de Jerusalém era de vinte e quatro léguas.

104
19 a 21 de Dezembro
Vindos de Nazaré e tendo chegado à gruta de Belém, a mãe da Santíssima Virgem,
juntamente com a filha mais velha, Maria Heli, dormiram na gruta da Natividade,
passando a mãe de Jesus com o Menino para a gruta vizinha. O servo que as
acompanhava, bem como as duas jumentas, em que as santas mulheres vieram
montadas, foram recolhidos noutro local. Sendo dia de jejum, cobriram o lume de
cinza e taparam as saídas para o fumo, comendo o que ficara cozinhado de véspera.
Santa Ana foi portadora de vários artigos de alimentação e vestuário, tanto para a
Virgem como para Jesus. Tudo lhes fazia jeito, pois não obstante os muitos presentes
entregues na gruta, Maria e José tudo foram distribuindo pelos necessitados que lhes
passavam à porta. Para si, guardavam apenas o que lhes era rigorosamente necessário.
Durante os dias em que Santa Ana esteve na gruta, Maria contou-lhe tudo quanto se
passara, relativamente ao nascimento do Menino, desde a entrada em Belém até à
visita dos pastores. Santa Ana, escutando-a, chorou de comoção e acariciava Jesus,
para quem olhava amorosamente, apertando-o nos braços ou descansando-o sobre os
joelhos.
Ao fim de três dias, Santa Ana deixou a gruta para visitar uma irmã casada que
residia na tribo de Benjamim e ficava a algumas léguas de Belém.
Os Reis Magos, partindo de Mataneia ao cair da tarde, foram passar nas
proximidades de uma cidade, onde o Senhor, no fim de Julho do terceiro ano da Sua
pregação, abençoou uns meninos e deu a saúde a outros apresentados pelas mães, que
os traziam ao colo. Mais adiante ficava Betábara, a cujas portas chegaram na
madrugada do dia seguinte. Como o rio Jordão passava em frente, vi que os viajantes
se dispunham para o transpor. As águas, que me pareceram pouco volumosas,
deixavam à vista alguns bancos de areia.
A passagem para a outra banda era feita por meio de enormes pranchas lançadas de
uma à outra margem. Como, porém, fosse grande a caravana dos Magos, alguns dos
quais montavam em alimárias pesadas, tiveram as pranchas de ser reforçadas com
outras de maior resistência, para que todos pudessem transitar sem perigo.
Sendo dia de sábado e como os homens da passagem guardassem o descanso,
tornou-se o serviço moroso, levado porém a bom termo pelos viajantes e alguns
pagãos do sítio. Transposto o Jordão, deixaram à direita a cidade de Jericó e seguiram
o caminho, como quem vai para Belém, tomando porém, pouco adiante, a direcção de
Jerusalém.
Agora vejo ao longe uma povoação que me não é desconhecida. Está ao lado de
uma torrente, que, a partir de Jerusalém, toma o caminho de oeste. É por ela que
devem passar os viajantes do Oriente.
Vejo que os Reis Magos não seguiram por esse povoado, mas voltaram à direita, na
direcção da grande cidade.
Sábado, 22 de Dezembro
Findara a solenidade de sábado quando, ao cair da tarde, o cortejo se encontrou em
frente de Jerusalém. Vi a cidade e as torres com os seus muros, elevando-se para o
céu, mas a estrela, essa quase não dava luz. Os reis, por sua vez, à medida que
entravam pelas terras da Judeia, iam perdendo o ânimo, pois em lugar do júbilo e

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festas em honra do rei prometido, encontravam indiferença completa da parte de
todos. Mais ainda. Ninguém tinha notícia do nascimento do Menino e como a estrela,
por vezes, lhes desaparecesse da vista, chegaram a supor que se teriam enganado,
vindo de tão longe até ali.
Aproximaram-se pois de Jerusalém cheios de perturbação e dominados por um
sentimento de grande tristeza. O cortejo, a que já em Causur se tinham juntado alguns
homens de distinção, constava de umas duzentas pessoas e desenrolava-se numa
extensão de quase um quarto de légua.
Os reis, além dos três dromedários em que vinham montados, traziam outros,
transportando bagagem. Cada rei tinha às suas ordens quatro homens da mesma tribo,
montando as restantes pessoas da comitiva em cavalgaduras, todas de boa estampa e
andar leve.
Alguns homens, destacando-se do cortejo, deram entrada na cidade para logo
voltarem acompanhados de guardas e soldados. A aproximação de tão extenso cortejo
representava um acontecimento importante no seio da população pacífica de
Jerusalém.
Como os guardas os interrogassem, foi-lhes respondido que vinham guiados por
uma estrela, à procura do Salvador que já nascera. Mas ninguém lhes soube dar
qualquer esclarecimento sobre o recém-nascido, facto que muito surpreendeu os
viajantes que, começando a ser invadidos pelo desânimo, resolveram recorrer à
oração. Recebendo nela grande conforto, disseram entre si:
– O Senhor, que nos trouxe aqui, também saberá levar-nos de novo às nossas terras.
Ao fim de conferências várias e declarando que pretendiam falar ao rei Herodes,
foram encaminhados pelo exterior dos muros até à porta que dá para o Calvário.
Entrando por ela, indicaram-lhes para acampar num grande pátio munido de
cavalariças e alojamentos para homens, mas guardados sempre por sentinelas à vista.
A praça, chamada dos Peixes, ficava ao lado, não faltando água para o pessoal e
animais.
Dentro em pouco, alguns funcionários, de lâmpada na mão, vieram examinar a
natureza das bagagens. Parecia gente dos direitos fiscais. Entretanto, os homens do
cortejo, depois de abrigadas as alimárias, procuravam dormir e repousar das fadigas
da viagem.
O palácio de Herodes encontrava-se na parte mais alta da cidade, não longe da
praça onde acamparam. Vi que, nas vizinhanças dele, os caminhos estavam
iluminados por meio de lanternas e fachos acesos no alto de varas. Informado de
tudo, Herodes deu ordem para lhe trazerem, em segredo, o rei Teokeno. Seriam dez
horas da noite, quando este foi recebido por um cortesão, numa sala inferior do
palácio. Interrogado sobre os motivos da viagem, Teokeno narrou com toda a
simplicidade os factos passados, manifestando-lhe o pensamento que ali os trazia, que
era adorarem o rei Menino que acabara de nascer.
O palácio estava em festa naquela noite, pois vi as salas iluminadas e nelas, pessoas
de várias categorias e mulheres imodestamente vestidas.
Herodes, ouvindo falar de um novo rei que acabara de nascer, embora interiormente
perturbado, conseguiu dissimular a agitação que o dominava e ordenou que Teokeno
fosse reconduzido ao diversório, dizendo-lhe que, no dia seguinte, lhe responderia.

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Entretanto, mandou convocar os príncipes dos sacerdotes e escribas. Antes da meia-
noite, vi-os chegar, sobraçando rolos da Escritura. Eram em número de vinte e
apresentaram-se vestidos com as insígnias sacerdotais, ostentando placas ao peito e
letras bordadas em relevo, ao longo da cintura.
Como Herodes perguntasse aos escribas e doutores onde é que devia nascer o
Messias prometido, responderam abrindo o livro das profecias e lendo esta passagem,
que apontaram com o dedo:
– E tu, Belém, não és a mais pequena entre as cidades principais de Judá, porque de
ti sairá aquele que há-de reger o povo de Israel.
– Em Belém, disseram-lhe eles, é que nascerá o Messias, porque assim o anuncia o
profeta Miqueias.
Como Teokeno tivesse falado de uma estrela, vi Herodes com alguns sacerdotes,
nos terraços do palácio, procurando no horizonte algum astro novo, para eles
desconhecido.
A perturbação que assaltou aquele príncipe foi grande e via-se através dos gestos e
nas palavras com que estava interrogando os mestres de Israel. Os escribas, ao
mesmo tempo que os doutores, ainda tentaram, em vão, acalmá-lo com discursos sem
fim, dizendo-lhe que se não devia dar importância a esses homens do Oriente, muito
dados a sonhos e interpretações imaginárias, colhidas no movimento das estrelas.
Se algum acontecimento sobre o Messias se viesse a dar, era no Templo e na cidade
santa que, em primeiro lugar, dele haveria conhecimento e Herodes de tudo seria
informado.
Evangelho
Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judeia, no tempo do rei Herodes, alguns
magos do Oriente chegaram a Jerusalém e perguntaram: «Onde está o Rei dos Judeus
recém-nascido? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos para Lhe prestar
homenagem.» Ao saber disso, o rei Herodes ficou alarmado, assim como toda a
cidade de Jerusalém. Herodes reuniu todos os sumos sacerdotes e os doutores da Lei
e perguntou-lhes onde o Messias deveria nascer. Eles responderam: «Em Belém, na
Judeia, porque assim está escrito por meio do profeta: “E tu Belém, terra de Judá, não
és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá
um Chefe que vai apascentar Israel, meu povo.”» Então Herodes chamou
secretamente os magos, e investigou junto deles sobre o tempo exacto em que a
estrela havia aparecido. Depois mandou-os a Belém, dizendo: «Ide e procurai obter
informações exactas sobre o Menino. E avisai-me quando O encontrardes, para que
também eu vá prestar-Lhe homenagem.» Depois de terem ouvido o rei, partiram. E a
estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até que parou sobre o lugar
onde estava o Menino. Ao verem de novo a estrela, os magos ficaram radiantes de
alegria. Quando entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe.
Ajoelharam-se diante dele e prestaram-Lhe homenagem. Depois, abriram os seus
cofres e ofereceram presentes ao Menino: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonho
para não voltarem a Herodes, regressaram à sua terra, seguindo por outro caminho.
(Mt 2,1-12)
Domingo, 23 de Dezembro

107
Muito cedo ainda, Herodes mandou chamar os três Reis Magos, a quem de novo
interrogou sobre os motivos da sua viagem à Judeia.
Compreendendo ele que vinham honrar com presentes o rei dos Judeus, cujo
nascimento souberam pela estrela, Herodes, aparentando grande satisfação, mas
perturbado interiormente, procurou colher deles informações mais completas
relativamente a esse novo rei.
Com toda a simplicidade, Mensor, em nome de todos, descreveu a aparição no
Oriente, contando assim:
– Vimos uma Virgem com um Menino nos braços. Estava numa estrela fulgurosa e
grande.
Seguimo-la, porque se pôs em marcha e assim é que viemos ter às portas de
Jerusalém. Foi ela que nos trouxe aqui.
O Menino vestia de príncipe, como herdeiro de rei. Numa das mãos empunhava o
ceptro e na outra uma espada. Vimo-lo assim.
Ainda mais nos foi mostrado naquela estrela de luz. Havia nela um castelo. Um
castelo que tomou vulto e se fez cidade, cidade grande e vimos que o Menino,
tomando nela assento, a fez sua e nela dominou.
Sendo príncipe, usava na cabeça um diadema e todos os reis da Terra o adoravam.
No meio deles, oferecendo-lhe dádivas, reconhecemo-nos a nós próprios, que somos
três e por isso aqui nos encontramos.
Assim, também os impérios do mundo, aceitando o seu domínio, têm de lhe prestar
vassalagem.
Herodes, com mostras de uma falsa simpatia, disse-lhes que, falando os profetas de
uma cidade chamada Belém de Éfrata, onde devia nascer o novo rei, para lá deviam
partir e que, na volta, o informassem de tudo para que ele também o fosse adorar.
Era ainda muito de madrugada quando os Magos se retiraram da presença de
Herodes, pois vi as lanternas acesas, alumiando a frontaria do palácio.
Nos últimos tempos, o rei idumeu vivia numa vida de contrariedades, por factos
que muito o aborreciam. Pouco antes, isto é, ao tempo do nascimento do Senhor,
mandara ele assassinar um seu adversário no caminho de Jericó. Querendo Herodes
ter na mão os cargos de influência no Templo, conseguiu para muitos deles nomear
gente do seu partido e confiança.
Às pretensões do rei opunha-se um dos principais do sinédrio. A pretexto de uma
visita, conseguiu que esse príncipe dos sacerdotes tomasse o caminho de Jericó e, na
altura em que atravessava o deserto, mandou-o assassinar, divulgando o boato por
meio dos seus partidários, que uns salteadores lhe haviam tirado a vida.
Subindo depois a Jerusalém para as festas da Dedicação
(25 do mês de Casleu), quis, a seu modo, lisonjear os judeus, colocando num dos
pórticos do Templo um cordeiro de ouro (aliás um bode, pois era dotado de pontas).
Mas aconteceu que um israelita mais dedicado, vendo no facto uma afronta à lei de
Moisés, atirou o bode ao chão e partiu-o em dois. Como o prendessem, levantaram-se
outros zeladores da lei, havendo tumultos na cidade e no Templo, facto que ainda
mais irritou Herodes.
Muitos homens bons estavam na expectativa do nascimento do Salvador prometido.
Por sua vez, uns pastores, anunciando aparições no céu, declararam ter adorado,

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numa gruta de Belém, Aquele que havia de vir ao mundo.
Estes murmúrios tornaram Herodes desconfiado e intratável; mandando
secretamente uns homens àquela cidade saber o que se passava, ficou mais
tranquilizado quando lhe disseram que nada havia de importância. Apenas, numa
gruta das vizinhanças, nascera uma criança de gente pobre e pais errantes, a que
ninguém de consideração ligara a menor importância.
Mas quando vira entrar em Jerusalém os três reis do Oriente para adorar o Menino,
seguidos de um grande cortejo, reconheceu que não se tratava somente de dizeres da
gente desprezível e como os Magos não voltassem por Jerusalém, os amigos de
Herodes fizeram constar que tudo aquilo fora obra de visionários, que, reconhecendo
o logro, não se atreveram a regressar pela cidade santa.
Herodes, porém, que não confiava nessas explicações, arquitectava um plano
tenebroso, a fim de tirar a vida ao Menino.
Finda a conversa com Herodes, os Magos tomaram o caminho de Belém, saindo
pela porta do meio-dia. Apenas fora da cidade, atravessaram uma torrente que
naquele lugar muda de direcção.
Deixavam já na retaguarda o casario e os muros de Jerusalém quando depararam,
no horizonte, com a estrela que os tinha acompanhado na longa caminhada através do
deserto. De novo, no coração de todos renasceu a alegria que haviam perdido ao
entrar na cidade de Herodes. Cheios de contentamento, seguiram a estrela.
O caminho por onde foram guiados corria um pouco mais ao poente da estrada
principal de Belém, vindo a parar junto de um povoado onde acamparam. Para
dissetar pessoas e gado, apareceu-lhes, brotando providencialmente do chão, uma
nascente de água, que rodearam de terra e pedras.
Foi ali que acenderam lume e cozinharam uma refeição.
O repouso nesse lugar abençoado era-lhes bem necessário, pois em Jerusalém mal
puderam descansar com a ansiedade e as surpresas que por lá encontraram.
Mais tarde, vi o Senhor com os discípulos, descansando igualmente junto dessa
mesma nascente.
Pela estrada principal de Belém, subia muita gente com animais e bagagens.
Vinham talvez do pagamento dos impostos e pareciam seguir para os mercados de
Jerusalém, em visita ao Templo.
Já declinava o sol quando os Magos retomaram o caminho por ali quase deserto,
seguindo todos na mesma ordem por que entraram em Jerusalém: à frente Mensor, o
mais novo, seguido de Sair, o de cor bronzeada, e por fim o mais idoso de todos,
Teokeno, de cor branca.
Já o manto da noite se estendia sobre a terra onde acampou Jacob e dormem as
cinzas de Raquel, quando o cortejo do Oriente chegou às portas de uma casa, onde
um mês antes haviam igualmente parado José e Maria, para nela declararem os seus
nomes e meios de vida. Era a morada dos romanos e fora, no passado, solar da
família de David.
Dos velhos muros ficaram de pé restos, sobre os quais erigiram o edifício de hoje,
vasto e com andar superior. Havia nele soldados e era o posto destinado ao
pagamento das contribuições romanas.
Apeando-se os reis das suas montadas, vi que uns homens se aproximaram para os

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interrogar e logo uns empregados, trazendo ramos na mão, lhes ofereceram de beber.
Era essa a maneira de receber os visitantes de categoria. Os Magos não falaram no
Menino, pois sabiam que era em Belém que tinha nascido.
Findas as apresentações, como de novo lhes aparecesse a estrela a nascente da
cidade, retomaram as suas montadas e, torneado um fosso e restos de antigas
muralhas, chegaram junto do terebinto, onde levantaram tendas.
Estavam a meio dos trabalhos quando, cheios de admiração, viram que a estrela,
pairando sobre a gruta, se tornara mais brilhante. No meio dela, destacava-se a figura
do Menino que tinham visto no Oriente.
Descobrindo-se e dando graças a Deus, encaminharam-se todos para a entrada, pois
era nessa direcção que incidiam todos os reflexos da estrela.
Recebeu-os São José, a quem narraram a sua viagem e como tinham vindo até ali
para oferecer presentes e adorar o novo rei dos Judeus. Ao verem o interior da gruta
iluminado de uma luz celestial e ao fundo dela o Menino nos braços de sua Mãe,
cobriram-se com os mantos de gala e tudo dispuseram para as cerimónias, segundo o
ritual do Oriente.
Mensor, o primeiro a entrar, tirou as sandálias, enquanto dois mancebos
desenrolavam uma longa tapeçaria, no sítio onde os reis tinham de passar. Seguiram
mais dois servos levando as oferendas e logo Mensor, ajoelhando diante do Menino,
lhe colocou aos pés as dádivas a Ele destinadas. Logo após Mensor, seguiram mais
quatro homens da sua família.
Ao Senhor e a Sua Mãe saudou o rei com palavras de afecto, a que Maria
correspondeu por meio de sinais de agradecimento, deixando-lhe ver o Menino, que
retirou do manto em que o tinha envolvido.
A seguir a Mensor, vieram os outros reis com as suas oferendas, observando todos
o mesmo cerimonial. Vi que Mensor retirara de uma bolsa, presa à cinta, umas barras
de ouro virgem, da largura de um dedo, mas espalmadas nas extremidades. Maria
agradeceu, cobrindo-as com a fímbria do manto.
Sair, o segundo, que ficou muito tempo a contemplar o Menino, entregou-lhe, num
vaso de ouro, grãos de incenso, símbolo da sujeição à vontade de Deus.
Teokeno, já avançado em anos, não pôde ajoelhar, porque as pernas não lho
consentiram. Descoberto e inclinando-se respeitosamente, entregou por sua vez, num
vaso de ouro, uma planta de cor verde e de haste vertical. Era a erva da mirra,
símbolo da vitória contra todas as paixões ruins, porque Teokeno, em toda a sua vida,
lutara sempre contra o culto dos ídolos, a poligamia e os hábitos sanguinários de
muitos dos seus compatriotas. A Santíssima Virgem, que de nada precisava, porque
possuía Jesus, a maior de todas as riquezas, erguendo um pouco o véu que lhe velava
o rosto, agradeceu com humildade as ofertas que lhe foram entregues.
A seguir aos reis, aproximaram-se alguns dos familiares, que, adorando o Menino,
incensaram de perfumes o interior da gruta, segundo o costume das suas terras.
Regressando finalmente ao acampamento, deram graças a Deus, entoando cânticos
de uma melopeia cadenciada e monótona, própria dos povos orientais.
Como São José, pouco depois, juntamente com dois pastores, se apresentasse na
tenda dos viajantes, levando pão, fruta, favos de mel, legumes e bálsamo, os santos
reis aceitaram tudo o que, como hóspedes, lhes era oferecido, sendo inexplicável a

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alegria com que todos, reunidos em volta dos chefes e no meio de lágrimas, tomaram
parte na refeição daquela tarde.
Enquanto os factos referidos se iam desenrolando na gruta, vi que os habitantes de
Belém falavam da passagem dos homens do Oriente e do acampamento levantado
para os lados do vale dos pastores, chegando uns judeus, em atitude de espionagem, a
aproximar-se da gruta e vi que tomaram nota do que por ali observaram.
Segunda-feira, 24 de Dezembro
Em volta das tendas dos santos reis, foram-se juntando muitos pobres da cidade e
arredores e vi que os viajantes por todos distribuíram artigos de vestuário e grãos de
metal precioso. Soube que, nas suas terras, era esse o costume dos dias faustosos.
Particularmente me comoveu a caridade que usaram para com algumas velhinhas
pertencentes às famílias dos pastores, curvadas e pobres, que vestiram com ricos
tecidos de lã e ramagens.
À tarde, quando fizeram na gruta as suas despedidas ao Menino e sua Mãe, vi que
esta entregou como lembrança,
ao rei Mensor, o véu que a envolvia a ela e a Jesus, à hora em que, na véspera, ali
tinham dado entrada em adoração. Cheios de reconhecimento e chorando de alegria,
retiraram-se para as suas tendas, levando com eles aquela preciosa relíquia.
Em breve, todos se encontraram reunidos em volta do terebinto, para as cerimónias
da sua religião, sendo já hora avançada quando se recolheram para dormir.
Foi por volta da meia-noite que vi um mancebo resplandecente aproximar-se dos
reis adormecidos sobre tapetes e avisá-los de que deviam partir sem demora, tomando
pelo deserto de Engadi o caminho ao sul do mar Morto. Em poucos momentos
desarmaram as tendas e carregaram de bagagens os camelos e restantes animais da
caravana.
Reconhecendo o perigo que ameaçava o Menino, não partiram dali sem convidarem
São José para que os acompanhasse com Jesus e Maria para as suas terras, onde
estariam ao abrigo de toda a perseguição.
Seguindo de Belém, tomaram o caminho do sul, acompanhados daquele mancebo,
que, a certa altura, os dirigiu pelo deserto, já na direcção do Oriente.
Terça-feira, 25 de Dezembro
A passagem da extensa comitiva dos Reis Magos por Belém deu azo a que toda a
cidade falasse deles e do Menino nascido na gruta. Enquanto alguns metiam os
viajantes na conta de aventureiros e homens supersticiosos, lastimavam-se outros por
terem recusado hospedagem à Sagrada Família, quando, havia um mês, chegava à
cidade.
Contudo, alguns mais ponderados, conjugando as aparições de que os pastores
foram testemunhas e o aparecimento destes homens, bons e caritativos, oferecendo
dádivas a um Menino, nascido no meio de tantos sinais, perguntavam se esse recém-
nascido não seria designado por Deus para grandes destinos.
As autoridades intervieram e, reunindo numa praça os homens da cidade,
proibiram-lhes as visitas ao acampamento daqueles a quem chamavam aventureiros
do Oriente. Em conciliábulo secreto tinham resolvido, talvez por instigações de

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Herodes, encerrar os principais da comitiva nas prisões, que ficavam por baixo da
sinagoga.
Vi também São José, depois da retirada dos Magos, respondendo a várias
perguntas, que lhe dirigiam uns judeus velhos. Como da segunda vez que foi
chamado, lhes entregasse algumas peças de ouro, que os reis haviam oferecido ao
Menino, deixaram-no ir em paz.
Na tarde do mesmo dia, vi chegar à gruta São Zacarias, vindo de Hebron. Era a
primeira vez que visitava a Sagrada Família e como a Santíssima Virgem lhe
entregasse o Menino, apertou-o ao coração e, chorando de alegria, entoou um hino
em Seu louvor.
Quarta-feira, 26 de Dezembro
O dia de hoje foi de alegria e contentamento na gruta, devido não só à presença de
São Zacarias, que de tarde retirou para Jutá, como ao regresso de Santa Ana com a
filha mais velha, Maria Heli.
A Mãe da Virgem tinha a cada passo o Menino nos braços e só a ela é que Maria o
confiava, para que d’Ele cuidasse como seu. Nesta altura, vi que o cabelo do Menino
era louro e ondeado, parecendo-me que lho frisaram, pois vi friccioná-lo com a ajuda
de um pano, na ocasião em que o lavavam.
Na vida íntima da Sagrada Família tudo se fazia com grande singeleza, aliada a
uma santa veneração para com Jesus, como se dá com os eleitos de Deus. Por sua
vez, o Menino dava sinais de uma ternura para com sua Mãe como nunca vi em
crianças desta idade.
O sossego em volta da gruta era agora completo. Os habitantes da cidade deixaram
de ir para aqueles sítios, sendo o caminho que ali passava obstruído com árvores
colocadas ao travesso.
Aquela mulher, que Santa Ana fora visitar à tribo de Ben-
jamim, chamava-se Mará e era filha de Rhode, irmã de
Santa Isabel. Era pobre e alguns dos filhos, que depois nasceram, tornaram-se
discípulos do Senhor. Um deles tinha o nome de Natanael e foi o noivo das bodas de
Caná. Era aquela que estava junto da Virgem quando ela faleceu em Éfeso.
Este Natanael não é o que Jesus viu debaixo da figueira
(cf. Jo 1,45-51). O filho de Rhode havemos de o encontrar entre as crianças que
tomaram parte na festa que a Sagrada Família celebrou em Nazaré depois de Jesus
regressar de Jerusalém, quando foi encontrado entre os doutores no Templo.
A seguir às bodas de Caná, tendo os noivos feito voto de continência, Natanael
seguiu os discípulos de Jesus e foi baptizado com o nome de Amator (Amador). A
noiva era originária de Belém e pertencia à família de São José.
Amator veio a ser bispo e esteve em Edessa e na ilha de Creta, na companhia de
Carpus. De lá seguiu para a Arménia e, como fizesse muitas conversões,
desterraram-no para as margens do mar Negro. Restituído à liberdade, entrou nas
terras de Mensor onde, depois de operar vários milagres, foi martirizado na cidade de
Afakul, situada numa ilha do Eufrates.
Durante o dia, apareceram em Belém alguns emissários de Herodes que, entrando
em várias casas, pediam informações sobre um menino recém-nascido. Interrogaram

112
com instância uma mulher judia, pertencente a uma das principais famílias, que havia
pouco dera à luz um menino. Tendo já informações de que na gruta estivera uma
gente de baixa condição, nem lá sequer apareceram.
Enquanto estes factos se passavam na cidade, a Sagrada Família, prevenida por dois
dos pastores, retirava-se para a gruta de Marahá, onde todos ficaram. Decorreu a noite
no meio de cuidados e, como de manhã chegassem boatos da aproximação dos
homens de Herodes, São José tomou o Menino, envolveu-o no próprio manto e
levou-o para outro lugar, ficando Jesus durante esse tempo separado da Mãe.
Afastado o perigo e voltando o Menino, quando a Virgem o ia amamentar, receosa
que a ansiedade e aflição por que passara influísse no filho, deitou para o lado um fio
do seu leite virginal. A partir daquele dia, a rocha que forma a gruta ficou com a
virtude de dar o leite às mães que, por falta dele, não podem alimentar os seus
filhinhos.
27 a 30 de Dezembro
Durante os últimos dias, vi São José pondo em ordem tudo o que dizia respeito à
Sagrada Família, como se em breve tivesse de deixar a gruta, ao mesmo tempo que,
pelos pastores, que lhe prestaram serviços, distribuía vários utensílios, agora
dispensáveis.
A solenidade deste dia, como do último sábado festejado em Belém, foi celebrada
pela Sagrada Família na gruta de Marahá. Por isso, na tarde da sexta-feira, várias
pessoas que se dirigiam a Belém para as solenidades do sábado, vendo abandonada a
gruta da Natividade, seguiram sem nela parar.
Santa Ana foi a primeira a tomar o caminho de Nazaré, apenas findou o dia de
sábado. Via-a despedir-se da família e seguir, com Maria Heli, em direcção à Galileia
levando os presentes que ainda restavam, oferecidos pelos Reis
Magos.
A maior parte dos artigos levados por Santa Ana eram tecidos, que vieram a ser
utilizados mais tarde, quando da fundação da primitiva Igreja. De entre eles, restam
ainda algumas relíquias, tais como um fragmento da cobertura, sobre a qual os reis
colocaram as suas ofertas e um pedaço de um dos seus mantos.

113
Capítulo XII

114
Apresentação de Jesus no Templo
Evangelho
Terminados os dias da purificação d’Eles, conforme a Lei de Moisés, levaram o
Menino a Jerusalém, a fim de O apresentarem ao Senhor: «Todo o primogénito de
sexo masculino será consagrado ao Senhor.» Ofereceram em sacrifício um par de
rolas ou dois pombinhos, conforme ordena a Lei do Senhor. Havia em Jerusalém um
homem chamado Simeão. Era justo e piedoso. Esperava a consolação de Israel e o
Espírito Santo estava com ele. O Espírito Santo tinha revelado a Simeão que não
morreria sem primeiro ver o Messias prometido pelo Senhor. Movido pelo Espírito,
Simeão foi ao Templo. Quando os pais levaram o Menino Jesus, para cumprirem as
prescrições da Lei a Seu respeito, Simeão tomou o Menino nos braços e louvou a
Deus, dizendo: «Agora, Senhor, conforme a Tua promessa, podes deixar o Teu servo
partir em paz. Porque os meus olhos viram a Tua salvação, que preparaste diante de
todos os povos: luz para iluminar as nações e glória do Teu povo Israel.» O pai e a
mãe estavam maravilhados com o que se dizia do Menino. Simeão abençoou-os e
disse a Maria, mãe do Menino: «Eis que este Menino vai ser causa da queda e
elevação de muitos em Israel. Ele será sinal de contradição. Quanto a Ti, uma espada
há-de atravessar-te a alma. Assim serão revelados os pensamentos de muitos
corações.»(Lc 2,22-35)
A Sagrada Família partiu de Belém para o Templo na madrugada do dia 31 de
Dezembro, tomando o caminho a nascente da cidade, entre a gruta principal e a de
Marahá. Na véspera, ao cair da noite, vi a Santíssima Virgem tomar o Menino nos
braços e despedir-se do lugar do Nascimento, onde orou, e daquele onde Jesus fora
circuncidado.
Ao partir, Maria seguiu montada na jumenta, levando o Menino envolvido no
próprio manto, vendo eu então que os pés iam apoiados num suporte de madeira,
pendente da ilharga da montada. A viagem foi vagarosa, chegando pela tarde às
portas de Jerusalém. Vi-os parar numa casa onde vivia uma família de essénios do
parentesco de Maria Cusa.
Como no Templo se estivesse realizando uma festa, descansaram dois dias na
companhia daquela gente, que tão bem os recebera. No final da solenidade é que se
efectuou a cerimónia da Apresentação.
No último dia vi a Santíssima Virgem partir da casa dos essénios em direcção ao
Templo, sendo à entrada recebida pelo velho Simeão, que exercia um cargo
sacerdotal, embora de categoria inferior.
Vivia este varão santo numa habitação encostada aos muros do Templo e de há
muito que nas suas orações pedia, sem desânimo, a vinda do Salvador ao mundo. Na
véspera tivera ele revelação, por um anjo, de que o Infante prometido havia de ser o
primeiro dos que, no dia imediato, dariam entrada no lugar santo.
Daquela primeira porta, onde Maria chegou, foi ela acompanhada por uma piedosa
mulher, que lhe serviu de guia até ao vestíbulo da Apresentação, onde foi recebida
por Noémi, sua antiga mestra e também por Ana, a profetisa, ambas com a residência

115
nesta ala do Templo. A última delas recebeu o cabaz em que São José levou as
pombas do resgate e frutos da terra, que eram as oferendas do altar.
Dali é que Maria, juntamente com Jesus, deu entrada no santuário da Apresentação.
Ao centro dele e sobre a mesa rectangular, estenderam uma cobertura encarnada e,
por cima, outra de cor branca, mas a cair dos lados até ao chão. Nos extremos
colocaram quatro candelabros com bicos acesos e ao centro um berço de criança.
Eram quatro os sacerdotes a quem pertencia o cerimonial da apresentação. Simeão,
um deles, encaminhou a Santíssima Virgem até ao berço, onde colocou o Menino,
enquanto os levitas recitavam as orações da Lei.
As ofertas, que além dos pombos e frutos já referidos eram acompanhadas por
algumas placas de ouro, dádivas dos Reis Magos, foram colocadas no altar chamado
das oferendas.
O principal dos sacerdotes tomando então o Menino e elevando-o nas mãos,
voltou-o sucessivamente para as quatro faces do Templo, entoando as orações do
ritual mosaico.
Quando Simeão retirou o Menino do altar e o entregou à Virgem, que estava junto
da balaustrada com Noémi, entoou o cântico de alegria:
Agora, Senhor, conforme a Tua promessa,
podes deixar o Teu servo partir em paz.
Porque os meus olhos viram a Tua salvação,
que preparaste diante de todos os povos:
luz para iluminar as nações e glória do Teu povo Israel.
(Lc 2,29-32)
Evangelho
Havia também uma profetisa chamada Ana, de idade muito avançada. Era filha de
Fanuel, da tribo de Aser. Tinha-se casado muito jovem e vivera sete anos com o
marido. Depois ficou viúva e viveu assim até aos oitenta e quatro anos. Nunca
deixava o Templo, servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações. Ela chegou
nesse instante, louvava a Deus e falava do Menino a todos os que esperavam a
libertação de Jerusalém. Quando acabaram de cumprir todas as coisas, conforme a
Lei do Senhor, voltaram para Nazaré, sua cidade, que ficava na Galileia.(Lc 2,26-39)
De Jerusalém, a Sagrada Família seguiu directamente para a Galileia, passando por
Betoron onde a esperavam alguns servos de Santa Ana.
Esta cidade é a mesma onde a Virgem ficara dois dias, à data em que foi levada
para o Templo.
Simeão tinha três filhos e a sua mulher estava ainda viva, ao tempo da
Apresentação do Senhor. Os filhos, que eram todos empregados no Templo,
tornaram-se amigos de Jesus e dos Seus discípulos, em cujo número mais tarde foram
incluídos e prestaram grandes serviços aos fiéis, particularmente nas perseguições
que se levantaram depois da Ascensão do Senhor. Foi um deles quem preparou o
cordeiro pascal destinado à ceia de Quinta-Feira Santa. Simeão era ainda do
parentesco de Seráfia, que depois recebeu o nome de Verónica, e também de
Zacarias.
O filho mais velho devia ter quarenta anos ao tempo da Apresentação e o mais novo
vinte.

116
Ao regressar a casa, o velho Simeão encontrou-se doente, embora animado de
grande alegria e contentamento. Chamando para junto de si a mulher e os filhos,
falou-lhes da salvação de Israel e de tudo o que o anjo lhe anunciara e se passou no
Templo. Agravando-se o mal, veio a expirar, rodeado de alguns sacerdotes e parentes,
que oravam junto do leito.
Z
Assim que faleceu, foi o corpo levado para cima de uma prancha de madeira e
coberto com um lençol. Assim resguardado da vista, procederam à lavagem do
cadáver, utilizando uma esponja. A água, passando pelos orifícios da madeira, era
recolhida numa bacia de cobre.
Terminada esta primeira cerimónia, vi aplicarem-lhe umas folhas, ainda verdes,
que, devido à humidade, ficaram aderentes ao corpo, sendo finalmente tudo
enchumaçado com molhos de mirra.
Finda esta operação, envolveram-no num lençol de linho, apertado fortemente por
ligaduras sendo, na tarde do mesmo dia, transportado numa tábua de rebordos e sem
cobertura, acompanhando-o alguns homens de luzes acesas. O sepulcro fora aberto na
encosta fronteira ao Templo.
Vi o interior da câmara funerária, muito semelhante à que São Bento mandara abrir
no primeiro mosteiro que edificara. As paredes eram, na face interna, revestidas de
ornamentos, resultantes da aglomeração de pedras coloridas, representando figuras de
estrelas e flores.
A cela da Virgem, no Templo, apresentava igualmente figuras deste género. No
túmulo de Simeão, o espaço interior, sendo reduzido, dava margem apenas para que
os homens pudessem circular em volta do cadáver.
Reparei também que, ao conduzirem o cadáver, seguiram todos a passo acelerado,
mais depressa do que nos nossos enterros de hoje.

117
EM CASA DE SANTA ANA
As pessoas que desde Betoron acompanharam a Sagrada Família seguiram em
direcção à Galileia, chegando finalmente à casa de Santa Ana, não longe do vale de
Zabulão, onde continuava a morar esta bem-aventurada. Vi-as lá, ao cair da tarde,
tomando parte numa festa semelhante à que ali se realizara, quando Maria partiu para
o Templo. Toda a família e pessoas da vizinhança acolheram o Menino com
satisfação e grande alegria, mas sem os clamores ruidosos, como era costume em
datas festivas.
Lá se encontravam, além de Maria Heli e sua filha, de nome Maria Cléofas, outra
mulher de Jutá e aquela que ficara ao serviço de Maria na gruta de Belém.
Terminada a festa, vi São José carregar duas ou três jumentas de vários artigos
empacotados e tomar, pouco depois, o caminho de Nazaré.
No dia seguinte, 6 de Fevereiro, vi Santa Ana com Jesus nos braços acompanhar a
Virgem e seguir com ela igualmente em direcção a Nazaré, onde a Sagrada Família ia
de novo fixar residência. Percorreram juntas por caminho suave o espaço de meia
légua que separa as duas casas.
Apesar de viver em Zabulão, aquela boa mãe não esquecia a Sagrada Família, que
ficara residindo em Nazaré, enviando-lhe com frequência artigos de alimentação.
Z
Como tudo naquela casa é edificante! Maria desempenha a missão de mãe e ao
mesmo tempo de serva submissa de Jesus e de José. À vista de todos é como a mais
humilde das criaturas.
Sensibiliza a alma vê-la tomar o Menino, ligá-lo e cuidar dele como se Jesus não
fosse o Deus de misericórdia que tudo criou, deixando-se levar e carecendo do leite
materno, como o mais fraco dos seres humanos.
Domingo, 25 de Fevereiro
Do ombro da Santíssima Virgem pendia-lhe um rolo de fio de lã, que duas agulhas,
ambas de osso, iam transformando no vestuário, que se lhe avolumava sobre o joelho.
Num alpendre ali perto, São José entregava-se aos labores do seu ofício e vi que
entre a madeira amontoada na oficina se encontravam várias peças, já trabalhadas,
com destino a divisões interiores para casas de habitação.
Ao vê-lo assim, tudo dispondo e ordenando para regularidade de trabalho, senti na
alma uma tristeza sem limites, pois o santo esposo de Maria estava muito longe de
pressentir os trabalhos que o esperavam no caminho do
Egipto.
Santa Ana, por sua vez, aparecia frequentemente em Nazaré, trazendo sempre
alguns mimos para a Sagrada Família.

118
PREPARATIVOS
PARA A MORTE DOS INOCENTES
Herodes mandara reunir uma companhia de soldados. Vi-os num grande terreno
armando-se sob controlo do rei. Iam munidos de escudo, capacete e espada larga em
forma de cutelo. Alguns eram portadores de lança e usavam as pernas cingidas por
tiras em forma de ligadura.
No dia 26, vi de novo Herodes rodeado de escribas e doutores que pareciam ler em
rolos de pergaminho. Visivelmente perturbado, como no dia em que os Magos o
interrogaram sobre o lugar onde acabava de nascer o Salvador, o velho rei deu ordens
secretas aos soldados, que dali foram ocupar três das principais cidades indicadas
pelo príncipe.
Parecia-me que era de cada uma dessas terras que as mães deviam trazer os seus
filhos à cidade de Jerusalém, enquanto os soldados ocupavam os principais pontos,
com o fim de sufocar qualquer tentativa de rebelião.
27 de Fevereiro
Vi hoje os soldados de Herodes que, tendo partido de Jerusalém, tomaram posições
em Belém e Hebron, ocupando também outra povoação situada entre aquelas duas
cidades e o mar Morto, cujo nome me passou da memória. As populações, a
princípio, inquietaram-se, mas como os soldados se demorassem sem intuitos de
hostilidade, voltaram tranquilos aos trabalhos habituais.
Herodes não comunicou a ninguém os pensamentos reservados que alimentava
relativamente a estas manobras.
Quarta-feira, 28 de Fevereiro
Santa Ana, acompanhada de uma serva, trouxe alguns géneros para Maria, entre
eles aves de criação. Vi-as a todas
reunidas em Nazaré. Com elas estava a filha mais velha de
Santa Ana, de nome Maria Heli, que viera acompanhada
de um menino de quatro a cinco anos, neto desta última e filho de Maria Cléofas.
As mulheres são as mesmas em toda a parte! Vejo-as aqui a conversar
familiarmente sobre o que lhes diz respeito e passando Jesus das suas mãos para os
braços do menino ali presente. Tudo se passa como no tempo em que nascemos e
fomos crianças.
Maria Heli mora com o marido Cléofas, a umas três léguas a nascente de Nazaré, e
a filha, Maria Cléofas, casada com Alfeu, reside na mesma povoação, mas no
extremo dela. Vi-as, à tarde, reunidas em oração, em volta de uma mesa, coberta de
vermelho e branco, tendo ao alto uma lâmpada suspensa, que iluminava todo aquele
limitado recinto. A Virgem Maria, colocada na frente de Santa Ana, lia num livro, em
forma de rolo, as preces da Lei. Rezando, fazem-no num tom cadenciado e rítmico,
que me lembra o salmodiar do convento onde professei.

119
Capítulo XIII

120
A Sagrada Família foge para o Egipto
Quinta-feira, 1 para 2 de Março
São José que, à chegada das santas mulheres a Nazaré tinha ido à casa de Santa
Ana, perto do vale de Zabulão, encontrava-se de regresso ao cair da tarde, e mal se
tinha recolhido para descansar quando recebeu a ordem de partir para o Egipto.
Vi-o deitado e dormindo, com a face apoiada no braço.
Foi então que o anjo, sob a forma de um mancebo de luz, se aproximou do leito e
lhe falou, conforme se encontra narrado no santo Evangelho.
Evangelho
Depois que os magos partiram, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e
disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o
Egipto! Fica lá até que te avise. Porque Herodes vai procurar o Menino para o
Matar.» José levantou-se de noite, tomou o Menino e Sua Mãe e partiu para o Egipto.
Lá ficou até à morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor havia dito por meio
do profeta: «Do Egipto chamei o Meu Filho.»(Mt 2,13-15)
São José ergueu-se, meio acordado, mas abatido pela fadiga da viagem, tornou a
pegar no sono. Foi então que o anjo, tomando-o pelo braço, o acordou de vez e,
confirmando a ordem dada, desapareceu.
São José acendeu a lâmpada, avivando as cinzas do lar e avisou Maria,
comunicando-lhe a ordem que tinha de partir já a caminho do Egipto. Dali foi ao
lugar onde guardava a jumenta e tratou dos aprestos para a viagem.
Prevenida sua mãe e irmã, Maria tratou com elas dos preparativos, enquanto o
Menino continuava a dormir na esteira que lhe servia de leito. Todas já erguidas e
acatando com submissão a vontade do Senhor, foram dispondo tudo
com serenidade e calma. Porém, o coração de Santa Ana estalava-lhe de dor, mal
podendo resignar-se a um afastamento dos seus – Jesus e Maria – para terras tão
longínquas.
São José terminara os arranjos da partida. Maria, ajudada por sua mãe e irmã,
juntara, o melhor que lhe foi possível, os artigos mais necessários.
Ainda não era meia-noite quando a Virgem tomou o Menino e juntamente com a
sua mãe e Maria Heli, foi caminhando na dianteira, onde se lhes foi juntar São José,
acompanhando a jumenta com o que lhes era necessário para a viagem. Seguindo de
Nazaré na linha de oeste, foram passar a pouca distância da casa de Santa Ana, que
lhes ficou à direita.
Ao chegar o momento da partida, não é fácil descrever a aflição daquela mãe,
abraçando a filha, como se nunca mais
a houvesse de tornar a ver.
Maria seguiu montada na jumenta, que São José guiava, levando o Menino
embrulhado no manto, que descendo da cabeça lhe envolvia todo o corpo. Vi que os
pés iam apoiados num suporte de madeira pendente à ilharga da montada.
Feitas as despedidas, voltou Santa Ana a Nazaré, onde a vi cuidando dos arrumos
da casa.

121
Como, por ordem sua, chegassem de Zabulão dois servos, vi-os transportar os
artigos desnecessários em Nazaré. Um deles, cobria-se de pele de carneiro e calçava
sandálias de couro, atadas por correias aos artelhos, vestindo o outro uma túnica
comprida.
Entretanto, a Sagrada Família continuava no seu caminho, no sentido poente,
tomando a primeira refeição ao abrigo de um alpendre. Pela tarde, vi-os chegar a uma
povoação chamada Názara, onde foram recebidos por uma família semipagã, que,
embora adorando no monte Garizim, pagava um tributo ou prestação de serviços no
Templo de Jerusalém. Não eram da raça judaica, mas receberam amigavelmente
Maria e José.
Por ali voltaram, no regresso do Egipto e no dia em que, encontrado Jesus no
Templo, recolhiam a Nazaré.
Os filhos deste casal foram baptizados por São João Baptista, juntando-se mais
tarde aos discípulos do Senhor.
Na viagem para o Egipto, demoraram-se ali um dia inteiro.
Não longe de Názara, ficam várias cidades, cujos nomes ouvi nomear. Recordo-me
ter ouvido Légio, Massalot, parecendo que o lugar onde ficou a Sagrada Família se
encontra situado entre estas últimas.

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O TEREBINTO DE ABRAÃO
Domingo, 4 de Março
Finda a solenidade do sábado, a Sagrada Família deixou a povoação de Názara.
Tornei a vê-la na tarde do domingo, protegida da curiosidade do público pela
folhagem de uma árvore multissecular, conhecida pelo nome de terebinto de Abraão.
Fora já à sombra dela que se haviam recolhido numa tarde de frio, quando, na última
viagem, seguiam a caminho de Belém. Ali pernoitaram hoje, de domingo para
segunda-feira.
Ficava o lugar nas proximidades de Siquém e não longe dos caminhos que levam a
Moreb, Thenat, Siló e Arumat.
Fora à sombra desse terebinto que Jacob enterrara os ídolos de Labão e que, mais
tarde, Josué agrupara, em frente da Arca da Aliança, todos os seus combatentes e os
obrigou à renúncia solene da idolatria.
Por aquela altura da viagem, chegaram aos ouvidos de Maria e de José os rumores
dos projectos de Herodes; reconhecendo os perigos da sua demora ali, assim que
clareou o dia seguinte, retomaram de novo o caminho do Egipto.
Ainda não era meio-dia, quando os vi junto de uma árvore de bálsamo, descansando
pela primeira vez. A região era ali fértil, jorrando junto deles uma nascente de água.
Foi então que, pela primeira vez, vi o Menino com os pés à vista, sentado nos joelhos
de Sua mãe.
Dos ramos pendiam bagas arredondadas e das incisões feitas no tronco iam
correndo para recipientes de pedra gotas de seiva que os viandantes recolhiam. Era a
árvore do bálsamo.
A Sagrada Família recolheu também o que precisava para a sua viagem e,
terminado o repasto de pão e bagas silvestres, de novo retomou o caminho em
direcção ao Sul.

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SÃO JOÃO FOGE PARA O DESERTO
Zacarias e Isabel foram, por sua vez, informados do perigo que corria a vida de São
João Baptista.
Vi a santa tomar o menino e, na companhia de Zacarias, fugir com ele em direcção
ao deserto, a duas léguas além de Hebron.
Transposta uma torrente, utilizando para esse fim um tronco de árvore, vi Zacarias
separar-se dos seus e tomar o caminho de Nazaré, com intuito de colher informações
sobre o destino de Jesus e Sua Mãe.
João Baptista levava a servir-lhe de vestuário uma pele de cordeiro e, embora
tivesse só dezoito meses, podia já caminhar sozinho e saltitar, como fazem as
crianças de mais idade, graças a um cajado a que se encostava.
Ao falar-se de desertos, é preciso não fazer ideia de uma planície arenosa e estéril.
Desertos são extensões de terrenos acidentados, onde crescem arbustos com bagas e
frutos selvagens. Encontram-se neles superfícies rochosas, com vales e grutas
profundas. Santa Isabel levou o menino para uma caverna dessas, que era a mesma
onde se refugiou Madalena, depois da morte do Senhor.
Como ao fim de algum tempo parecia afastado o perigo, Santa Isabel voltou de
novo com o menino para a sua casa de Jutá. Porém, passados meses, como fossem
intimadas as mães a levar a Jerusalém os seus filhos até dois anos de idade, de novo
buscou refúgio para o menino na mesma gruta do deserto.

124
A VIAGEM DA SAGRADA FAMÍLIA
Terça-feira, 6 de Março
A seguir à paragem junto da árvore do bálsamo, a Sagrada Família, tendo vencido
as encostas do monte das Oliveiras, foi, no seguimento da sua viagem, passar nas
proximidades de Belém, já no caminho de Hebron.
A duas léguas do vale de Mambré, vi que Jesus e Maria encontraram abrigo numa
gruta de grandes dimensões, voltada para um vale deserto. No alto ficava uma
povoação de nome semelhante a Efraim. Parece-me que era a sexta estação da sua
viagem.
Ao chegarem a essa altura, trilhando sempre caminhos desertos, longe das cidades e
estalagens, vi que pelas faces de Maria corriam lágrimas de amargura.
Vendo-se em terra desconhecida, sem água e tendo sofrido todo o género de
privações, tomou o Menino nos braços e levantou-o, suplicando aos céus. Vi então
que um fio de água principiou a gorgolejar no fundo da gruta, abastecendo a Sagrada
Família enquanto se manteve ali. Ao mesmo tempo, um anjo, descendo do alto, veio
dar-lhes ânimo e conforto para o resto da viagem.
Pouco depois, aparecendo por ali uma cabra selvagem, vi que Maria se abeirou dela
e lhe tirou o leite, como se o animal estivesse há muito acostumado com ela. E assim
decorreu aquele dia, mais confortados já, não tanto pelo repouso tomado, como pela
presença do anjo e factos sobrenaturais ali
ocorridos.
Antes da Sagrada Família ter procurado refúgio nesta gruta, já no passado ela havia
servido de refúgio a um dos profetas e, mais tarde, a Samuel e a David. Foi ali que
enquanto este rei orava, avisado por um anjo, recebeu ordem para fazer frente ao
gigante Golias.
A Sagrada Família, deixando a gruta, continuou no caminho do Sul, ficando-lhe à
esquerda o mar Morto.
Como, por essa altura, o Senhor abençoasse a gruta, deu a entender que sobre ela
haviam mais tarde de edificar uma igreja.
A gruta que abrigou a Virgem e o Menino tornou-se depois conhecida pelo nome de
Paragem de Maria e era visitada por grupos de peregrinos, sem que, todavia,
conhecessem com precisão tudo o que ali se passara.
Mais tarde, gente pobre fez dela casa de habitação.
Deixada a gruta e percorridas sete léguas além de Hebron, deram entrada naquela
zona do deserto, onde Santa Isabel se refugiara com o seu filho João. Vi que, a seguir
a um longo percurso, a Família de Nazaré se aproximou de um lugar cuja vegetação
parecia dar indícios de água próxima.
Parando ali, foram repousar num abaixamento de terreno, onde crescera erva, mas
agora já toda crestada do sol. Estava seca e como ardessem de sede, vi Maria, à
semelhança de Agar no deserto, tomar o Menino nos braços e orar fervorosamente ao
céu, com lágrimas nos olhos e o coração oprimido de tristeza.
Não havia água ali e o Sol queimava já, naquele deserto testeiro da Arábia.
Quando a Sagrada Família se ia abeirando do deserto, vi João Baptista, pequenino
ainda, mas inspirado já por um sentimento interior, ir-se aproximando também do

125
caminho por onde Jesus havia de passar.
Santa Isabel havia-se ausentado da gruta e João, partindo sozinho, subiu ao alto de
um rochedo. No fundo dele estava a Sagrada Família; o pequenino Baptista, ao vê-la,
e sabendo que o Menino e seus pais ardiam de sede, levantou suplicante os olhos ao
céu e, com uma vara, feriu a pedra dura, de onde principiou a correr água em
abundância.
Vi que a vara de João tinha na ponta uma flâmula de casca de árvore, com a divisa
Agnus Dei.
A torrente seguiu em direcção ao feno seco onde se encontravam Jesus e Maria. A
Virgem, reconhecendo João no alto do rochedo, ergueu nos braços o Menino e
falando-lhe, disse:
– Olha, aquele é João, que está no deserto.
Vi, nesse momento, que João Baptista deu sinais de alegria, animado do mesmo
contentamento com que exultara no ventre de sua mãe, no dia da Visitação, e
deixando o alto da rocha, tomou de novo o caminho da gruta.
Como a água fosse correndo até ao sítio onde os viajantes acamparam, vi São José
cavar na terra um reservatório que logo transbordou com a abundância da água. Dela
todos beberam, sem exceptuar a jumenta, enchendo por fim o odre para as
necessidades da viagem. Como a demora ali fosse de duas a três horas vi que, antes
da partida, lavaram no reservatório não só o rosto, mãos e pés, como também o corpo
do Menino.
Seguindo dali por terrenos pedregosos, foram encontrar, já no caminho do deserto e
acostados à rocha, uns alpendres destinados ao abrigo dos viajantes. Moravam lá uns
homens, agora condutores de camelos, mas que em tempos viveram do ofício de
salteadores.
Era essa gente de instintos cruéis, mas acolheram com afabilidade a Sagrada
Família. Um deles, com vinte anos de idade, tinha o nome de Rúben.
Nas proximidades e a pouco mais de duas léguas do mar Morto, havia uma
povoação chamada Anani, Aném ou Anim. Nela moravam também famílias de
costumes selvagens, que lá se fixaram a seguir a uma guerra.
Retomando o caminho pela via normal, que em parte segue o rumo do nascente,
continuaram o seu roteiro em direcção às terras do Egipto. O último lugar da Judeia
onde descansaram, a duas léguas da primeira paragem, chamava-se Mará, já nos
limites do deserto. Porém, dos habitantes da povoação não receberam nenhuma ajuda
para a viagem. Esta Mará não é a mesma de onde Santa Ana era originária.
Findo este primeiro trajecto da viagem, entraram definitivamente no grande deserto
de areia, onde se não via traço algum de caminho.
Continuando na direcção do Egipto, chegaram a um ponto onde se descobriram as
linhas de uma cadeia de montanhas de cor cinzenta. Ao vê-las, oraram, pedindo a
ajuda do céu, e aparecendo-lhes uns animais de aspecto doméstico, foram-nos
seguindo até se aproximarem dos referidos montes (talvez a serra de Séir). Ao chegar
às faldas das primeiras colinas, ficaram surpreendidos com o verde da vegetação,
notando também que, ao escurecer, alguém acendia, no alto de uma árvore, um
lampião que de noite ficava a indicar o caminho dos que viajavam. Era uma cilada
dos salteadores, que viviam nos esconderijos da montanha.

126
Quando a Sagrada Família se aproximou, vieram ao encon-
tro dela o chefe e cinco companheiros. A impressão que me deixaram foi de homens
de instintos ferozes. Notei, porém, que do rosto do Menino partia um reflexo de luz
que iluminou a alma do chefe.
Transformado pela claridade que o ferira, ordenou que nenhum dos companheiros
tocasse nos viajantes. Por sua vez, servindo-lhes de guia, conduziu-os até à caverna
onde morava, e lá os apresentou à mulher, contando-lhe a impressão que recebera ao
ver aquele Menino.
Foi a Sagrada Família bem acolhida, embora a princípio manifestasse certo
acanhamento. Vi que a Virgem e São José tomaram assento no chão, e como se
dispusessem a comer do pouco que traziam, foi a mulher do chefe buscar pão com
mel e fruta, que os santos viajantes aceitaram reconhecidamente.
Pouco depois, a mulher acendeu o lume num ângulo da caverna e dispôs junto dela
um assento que destinou a Maria. Vi também que a Virgem pediu água numa
escudela para lavar o Menino, o que fez, resguardando-lhe o corpo sob um pano
estendido. Foi assim que, guardado das vistas dos que o rodeavam, lhe deu o banho,
secando os panos ao calor do lume.
O salteador não tirava os olhos do Menino e dos hóspedes e, ao ver os cuidados da
Virgem para o seu bendito Filho, disse para a mulher:
– Este Menino não é como os outros meninos dos judeus. Deve ser um santo de
Deus. Pede à sua mãe para que deixe lavar o nosso filho leproso na água que ficou do
banho, pois talvez lhe sirva de remédio.
Dado o assentimento, tomaram nos braços o filho, que era de três anos, mas já roído
da lepra. Logo que o banharam naquela água, começaram a cair-lhe do corpo umas
crostas duras e o pequeno ficou curado.
A mãe, como que fora de si, quis abraçar a Santíssima Virgem e Jesus; Maria,
porém, fez-lhe sinal para não lhe tocar, nem ao Menino, mas que deitasse a água
numa cisterna, pois a virtude curativa lá ficaria.
Como fossem chegando outros homens, ao verem o milagre ali operado, todos
olhavam cheios de respeito e assombro para aqueles viajantes e para o Menino que
levavam com eles.
O temor e respeito com que os bandidos fitavam Jesus e Sua Mãe eram tanto mais
de estranhar quanto é certo terem, ainda naquela noite, feito alguns assaltos a
viajantes, que lhes passaram por perto.
Z
Nesta altura das contemplações, vi numa caverna, ao fundo da montanha, algumas
crianças roubadas junto com tapeçarias, vestuário, animais domésticos e de carga,
como carneiros, camelos, etc. Era ali o armazém dos salteadores.
Voltando à caverna do alto da montanha, vi que a Santíssima Virgem, depois de a
gente se retirar, repousou um pouco,
descansando durante aquela noite.
Ao chegar o dia seguinte, os próprios salteadores acompanharam a Sagrada Família
por caminhos tortuosos, que dali desciam até ao fundo da serra. Ao despedirem-se, o
chefe, voltando-se para os viajantes, falou assim:
– Quando rezardes ao Céu, lembrai-vos sempre de nós.

127
A estas palavras vi a cena do Calvário e nela o bom ladrão repetir quase as mesmas
palavras:
– Lembrai-vos de mim, Senhor, quando estiverdes no Vosso reino.
O filho do bandido curado da lepra era Dimas, crucificado com Cristo, na Sexta-
Feira Santa. A mulher do salteador, passados tempos, deixou aquelas companhias e
foi morar na mesma gruta, onde dias antes rebentara aquela fonte de que se abasteceu
a Sagrada Família.
Deixando já para trás aquela montanha, abriu-se diante dos santos viajantes o
grande areal que os separava do Egipto e, como desconhecessem o caminho, vi
alguns animais do deserto, semelhantes a lagartos e outros répteis, caminharem a seu
lado, como a apontar-lhes a direcção que deviam seguir.
Prolongando-se ainda a região das areias e como os animais desaparecessem, vi que
um gracioso milagre substituiu a companhia desses bichos selvagens. Dos dois lados
da linha, por onde deviam seguir, iam aparecendo umas flores do deserto, conhecidas
pelo nome de rosas de Jericó, e por elas é que foram encaminhados até um lugar
chamado Gas ou Gosé e, passado ele, vi-os chegar a outra povoação, cujo nome
começava, se não me engano, por Lepe ou Lape [talvez Pelusa].
Ao lado da cidade viam-se, rasgados em várias direcções, canais e valas, destinados
a guiar a água que por ali corria com abundância.
Continuando no seu roteiro, os santos viajantes tiveram, mais adiante, de atravessar
um desses cursos de água, utilizando uma jangada de troncos de madeira, notando eu
que os animais eram previamente resguardados em abrigos, ou encaixotamentos
semelhantes a cubas, e neles é que os transportavam para a outra margem.
O serviço da condução era feito por dois homens de cor baça, seminus, de nariz
espalmado e lábios grossos.
Postos na outra margem, foram passar junto de umas casas dispersas, mas, como os
habitantes mostrassem aspecto selvagem e pouco afável para os forasteiros, não se
lhes dirigiram a pedir coisa alguma. Era, segundo creio, a primeira terra pagã do
Egipto.
Até ali, a Sagrada Família viajou dez dias em território da Judeia e dez através do
deserto. A partir desse povoado, a terra tornou-se já outra, rica em pastagens e
abundante em rebanhos de gado.
Foi aqui que, pela primeira vez, deparei com letras e desenhos gravados no tronco
das árvores. Vi também, mas pendentes dos ramos, figuras de ídolos, semelhantes a
crianças enfaixadas. Reparei igualmente no vestuário dos homens, muito semelhante
aos tecelões de algodão, que habitavam na terra dos Reis Magos. Eram todos gordos e
fortes e vi que prestavam culto aos ídolos pendentes nas árvores de que falei.
Na sequência da viagem, foram encontrar uns alpendres desocupados e neles
descansaram de tão longa caminhada. Como, porém, se lhes tivessem acabado todas
as reservas da viagem, dirigiram-se a uns pastores, que lhes forneceram água de um
poço vizinho. O povo também não era hospitaleiro e como lhes recusasse qualquer
alimento, foram seguindo até um conjunto de árvores, à margem do caminho. Foi
com alegria indizível que, no meio delas, descobriram uma tamareira, mas com os
frutos tão no alto, que não era possível chegar-lhes. Descansaram à sombra dela e,
como orassem fervorosamente, Maria tomou o Menino nos braços e erguendo-o ao

128
alto, implorou a ajuda do Senhor.
Vi então um novo milagre. A árvore deixou pender os ramos, à altura de lhes
poderem colher os frutos. Foi graças à intervenção divina que mataram a fome e
colheram reservas para o resto da viagem. Aproximando-se a noite, foram procurar
refúgio no tronco já carcomido de um velho sicómoro, onde se abrigaram até ao outro
dia.
Retomando dali o caminho, vi-os chegar, pela tarde, a uma elevação de terreno
onde, já extenuados de tão longas caminhadas, resolveram parar e descansar. Como
noutros lugares do deserto, também ali lhes faltava água; porém, sempre confiada na
ajuda do céu, a Virgem orou ao Senhor e logo, com alegria de todos, começou a
correr, quase a seus pés, uma fonte de água, onde beberam e igualmente mataram a
sede à jumenta.
Depois que dali partiram, a fonte continuou regando a terra em volta e, dentro em
pouco todo aquele sítio apareceu coberto de vegetação e relva.
Algumas famílias, aproveitando a frescura do lugar, ali se vieram estabelecer; e
tendo elas plantado ali árvores de bálsamo, vi que, no regresso à Judeia, a Sagrada
Família já ali recolheu desse líquido precioso, ficando o lugar conhecido pelo nome
de Jardim do Bálsamo.
Vi que, mais tarde, cavaram ao lado outro poço; mas, como fosse salobra a água
que dela provinha, misturavam-na com a da nascente da fonte de Maria e assim a
tornavam boa para regar os jardins.
Os santos viajantes, seguindo pelo areal, no caminho do poente, foram ter a uma
cidade, já em parte arruinada, de nome Heliópolis (cidade do sol) ou On. Nela
pontificava, ao tempo dos filhos de Jacob, o sacerdote egípcio de nome Putifar, em
cuja casa vivia Asnat, aquela filha que Diná deu à luz, depois de raptada pelos
siquemitas.
Foi essa Asnat que veio a ser mulher do patriarca José. Na mesma cidade, residia
também Dionísio, o Areopagita, vivo ainda à data da morte de Cristo.
A seguir às devastações de uma guerra, foram as antigas habitações da cidade, já
em ruínas, ocupadas por gente de fora, que ali se fixou.
Antes de entrar em Heliópolis, transpuseram uma ponte sobre um rio de grande
massa de água, que me pareceu ter vários braços.
O extremo dela dava acesso a uma praça arborizada. No centro e assente em
pedestal de forma piramidal, elevava-se um ídolo, a que prestavam culto. Ao redor
havia um círculo de poiais onde os habitantes vinham depor oferendas votivas. Vi
então que o ídolo tinha cabeça semelhante à de um touro e amparava nas mãos uma
estatueta de criança.
Poucos instantes se tinham passado, depois que a Virgem e São José haviam
chegado ao abrigo das árvores, quando, no meio de espanto geral, a terra tremeu e os
ídolos, perdendo o equilíbrio, caíam desfeitos por terra.
Houve uns momentos de ansiedade e tumulto. Alguns homens, que trabalhavam no
canal, acorreram ao lugar e, dentre eles, um que tinha servido de guia a Maria e José
numa parte do último deserto. Vendo-os na praça e como fosse homem bom, dirigiu-
se-lhes e acompanhou-os para longe do tumulto. Porém, ao serem vistos e como
atribuíssem à presença desses estranhos a queda dos ídolos, tentaram agredi-los; mas

129
um segundo abalo despejou do fundo uma grande massa de lodo, que submergiu
esses homens e o ídolo tombado no chão.
No meio daquela confusão geral, a Sagrada Família encaminhou-se para outro
bairro da cidade onde foi encontrar uma casa vazia, ao lado de um grande templo
abandonado, onde se recolheram todos.
Z
Em Heliópolis, há quarteirões da cidade edificados sobre trabalhos de abóbada, por
onde corre água; a travessia dos rios efectua-se graças a troncos de árvores enterradas
no lodo.
Vi templos quase intactos e colunas semelhantes a torres, a cujo alto se subia por
degraus exteriores. Vi outras colunas esguias cobertas de figuras estranhas e
pontiagudas, assim como enormes figuras, semelhantes a cães aninhados (esfinges)
mas de rosto humano.
A Sagrada Família passou a habitar parte daquele edifício abandonado,
aproveitando o espaço vazio entre algumas colunas, que vieram a servir de apoio para
um andar superior.
Foi também no intervalo dos pilares, ligados por um tapume de madeira, que São
José montou a sua oficina de carpinteiro. Numa dessas divisões, vi também um altar
coberto de pano encarnado e branco e, no alto, uma lâmpada acesa.
São José, no seu exílio, ocupava-se principalmente em trabalhos de madeira,
próprios da terra, como escabelos ou tamboretes de três pés, cabazes e tapumes de
verga entrelaçada, destinados a divisórias internas para casas e cabanas de gente
pobre. Vi-o fabricar também umas guaritas de madeira leve, destinadas a abrigos para
o sol, em lugares de vigilância. Também era frequente vê-lo em serviços fora da sua
oficina.
Também vi a Santíssima Virgem nos seus trabalhos de tecelagem ou crochet, fazer
uso de um pau a findar em maça, mas não sei como é que o utilizava; assim como a vi
trabalhando no fabrico de tapetes e artigos de malha. Algumas mulheres
procuravam-na.
Ao norte da cidade de Heliópolis ficava a terra de Gessén, que foi morada dos
filhos de Jacob. Viviam lá muitos judeus entregues a práticas supersticiosas à mistura
com actos do verdadeiro culto, segundo o rito de Moisés.
Tendo erigido um templo, quiseram os seus antepassados igualá-lo em tudo ao que
Salomão edificara em Jerusalém. Mas com os anos, foram caindo na idolatria, a ponto
de adorarem um bezerro de ouro, chegando a colocar na arca do santuário objectos
repugnantes e indignos de culto. Vi que outros de tal maneira se corromperam, que
adoravam figuras semelhantes a furões, invocados por eles contra os crocodilos,
praticando também impurezas abomináveis, julgando por meio delas apressar a vinda
do Messias.
Para os judeus estabelecidos mais nas proximidades de Heliópolis, foi São José
encarregado de levantar uma casa de oração ou sinagoga. Nela é que as famílias do
sítio se reuniam, sob a presidência de um sacerdote, já avançado em anos. Lá vi a
Sagrada Família associada à restante comunidade.

130
A MATANÇA DOS INOCENTES
Os Reis Magos, terminada a adoração do Menino, voltaram às suas terras, seguindo
por outras vias. Naquela data, andando Herodes preocupado com a solução de
negócios e família, foram-se-lhe amortecendo os receios e apagando a lembrança do
recém-nascido. Porém, o regresso da Sagrada Família a Nazaré, com a apresentação
do Menino no Templo, acompanhada das predições de Simeão e Ana, voltaram a avi-
var-lhe a lembrança daqueles homens do Oriente e das recomendações que lhes
fizera.
Para a execução dos seus planos sanguinários, ordenou Herodes o alistamento de
homens, que armou e municiou numa praça da cidadela. Vi-os empunhando lança e
cingindo espada. O escudo tinha um pouco a forma de meia lua. Alguns levavam as
pernas cingidas de tiras de pano. A espada, de folha larga, era curta e vi que todos
usavam capacete. Tais foram as primeiras ordenações para a matança dos inocentes.
No dia imediato, vi de novo Herodes consultando alguns escribas e visivelmente
agitado. Os soldados seguiram para vários destinos, incluindo Belém, ocupando os
principais pontos com o fim, talvez, de impedir qualquer gesto de sublevação ou
porventura abafar os rumores resultantes do acto que o rei premeditava.
Os soldados entraram em Hebron e noutra povoação situa-
da para os lados do mar Morto, de nome Gilgal.
Velhaco e astuto como era, o velho idumeu não deixou transparecer o objectivo das
suas manobras.
Os habitantes, nada compreendendo do que se estava a passar, olhavam para tudo o
que viam, fazendo as mais variadas suposições sobre tão insólitos movimentos da
força armada.
Z
Então Herodes, vendo que havia sido iludido pelos Magos, irou-se muito, mandou
algozes, matou todos os meninos que havia em Belém e em todo o seu termo, de dois
anos para baixo, conforme o tempo que tinha averiguado dos Magos. Cumpriu-se
então o que foi anunciado pelo profeta Jeremias, que diz:
– Ouviu-se um grito em Rama, choro e grande lamento: é Raquel que chora os
seus filhos, e não quer ser consolada, porque eles já não existem. (Mt 2,16-18)
Este acontecimento foi revelado por um anjo à Santíssima Virgem em Heliópolis,
quando Jesus tinha ano e meio de idade. João Baptista, já com dois anos de idade,
continuava escondido no deserto, a partir do decreto de Herodes, ordenando que as
mães apresentassem os seus filhos com menos de dois anos de idade.
Nesse dia, vi as mães com os seus filhos a caminho de Jerusalém.
Algumas traziam dois, vindo um ao colo e outro pela mão.
Fez-se espalhar a notícia que o rei lhes ia distribuir prémios, como recompensa da
sua fecundidade.
A degolação efectuou-se em sete lugares diferentes. Hoje, vi chegar a Jerusalém as
mães de Hebron, Belém e de outro lugar também ocupado por soldados.
Encaminharam-nas para um grande prédio, chamado palácio da justiça, junto do
edifício, que mais tarde foi morada de Pilatos.
Havia uma construção maior ao centro, que parece ter servido já de sinagoga, e

131
duas menores, laterais; à frente abria-se uma grande praça murada.
As mulheres foram conduzidas para as casas mais baixas e, quando aí se viram
fechadas, suspeitando de alguma cilada, começaram a lastimar-se e a chorar. Ali
ficaram durante toda a noite.
Z
Hoje (9 de Março), depois do meio-dia, vi um quadro horroroso; foi a matança dos
inocentes. No edifício mais alto, encontravam-se várias personagens. Uma delas,
vestindo manto encarnado, com forros brancos, pareceu-me ser o próprio Herodes.
Nos baixos desse corpo do palácio, que era o da justiça, abria-se uma grande sala,
em forma de cárcere. E como as mães fossem chamadas, uma por uma, ao passarem
por esse lugar, eram-lhes tirados os filhos, que um grupo de vinte soldados degolava
no pátio interior.
Vi que, tomando da espada, lhes cortavam a garganta, atravessando-lhes em
seguida o coração com uma lança.
Foi um espectáculo horrível.
Os meninos, mortos dessa maneira, eram atirados para o meio do pátio e ali
ajuntados em pilha.
As mães, ao verem o destino dos filhos, davam gritos lancinantes, arrancando os
cabelos de dor e desespero. Finda a carnificina, que se prolongou pela tarde fora,
abriram ali mesmo um grande fosso, onde enterraram as crianças mortas.
No lugar dessa mortandade realizavam-se antigamente as execuções capitais. O
número de meninos degolados nesse dia foi mais de setecentos.

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SÃO JOÃO NO DESERTO
Santa Isabel, sendo prevenida por um anjo da matança próxima dos inocentes,
tomou o seu filho João e fugiu com ele para uma gruta mais afastada que a primeira e
com ele ficou uns quarenta dias.
Findo esse período de tempo, durante o qual um essénio da comunidade do monte
Horeb, ainda parente de Santa Ana, trazia de comer ao menino, retirou-se aquela
bem-aventurada mãe para a sua casa de Jutá.
A ajuda do eremita do Horeb em breve pôde ser dispensada, pois João vivia melhor
no convívio dos animais silvestres do que na companhia dos homens. Sendo
destinado para crescer no caminho da inocência, fugia de tudo o que era malícia
humana ou tivesse aparências de pecado.
Como Jesus, também não aprendeu nas escolas. Era o Espírito Santo que o instruía.
Vi-o muitas vezes rodeado de luz sobrenatural e, ao lado, figuras luminosas
semelhantes a anjos.
O deserto em que vivia não era estéril e árido. No meio dos rochedos cresciam
arbustos com bagas e cerejeiras selvagens de que se alimentava.
Entre João e os animais havia um traço de união, uma íntima familiaridade, que os
aproximava e confundia como se todos fossem crianças. Todavia, essa atracção e
simpatia era maior nas aves do céu, que lhe poisavam nos ombros e lhe serviam de
mensageiras. São João parecia compreendê-las e falava-lhes como a pessoas
familiares.
Do meio das rochas, o santo eremita descia aos rios e subia-lhes a corrente. Os
peixes, obedecendo à sua voz, aproximavam-se das margens e acompanhavam-no.
Com o tempo, vi que João se foi afastando da pátria onde nascera, talvez por causa
dos perigos que o ameaçavam.
Os animais, que lhe tinham grande amizade, serviam-lhe de mensageiros e
avisavam-no da proximidade dos inimigos.
Se os homens o procuravam, ia refugiar-se nos esconderijos, permanecendo cada
vez mais nos desertos. Como fazia já em menino, vestiu-se durante toda a vida de
peles de animais, trazendo sempre na mão o cajado de pastor.
Por duas vezes se aproximou da terra onde nascera, encontrando-se com os seus
pais, que o desejavam junto deles. Por meio de revelações deviam saber onde é que
ele se encontrava, pois sempre que Isabel o ia procurar, João vinha do deserto ao seu
encontro.

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A SAGRADA FAMÍLIA EM MATAREA
Ao fim de dez meses e quando Jesus atingiu a idade de dois anos, a Sagrada
Família, faltando-lhe o trabalho e vendo-se a cada passo perseguida, pois eram
frequentes as perturbações nos templos dos ídolos, resolveu deixar Heliópolis e
aproximou-se de Mênfis.
Seguindo pela margem do rio Nilo a caminho do Sul, tiveram de se abrigar no
vestíbulo de um templo pagão. Como muitos outros, o ídolo nele adorado tinha a
cabeça parecida com a do boi e era guarnecido de três chifres.
Na altura em que a Sagrada Família se aproximava, caiu por terra partindo-se ao
meio. Verifiquei então a existência, no costado do animal, de aberturas várias, onde
queimavam as oferendas.
Como se levantasse grande tumulto e prendessem a Sagrada Família, ameaçando-a,
um dos principais levantou-se no meio deles, dizendo que mais lhes aproveitava pedir
a ajuda do Deus desses estrangeiros, do que persegui-los. Falou-lhes dos flagelos que
os antigos egípcios sofreram, nomeadamente da morte dos primogénitos, por nessa
terra maltratarem o povo a que estes pertencem.
Deixando-os seguir em paz, continuaram subindo a margem do rio até uma
povoação fronteira a Mênfis, que lhe ficava a nascente e se chamava Tróia. Os
terrenos eram ali muito lamacentos, formando o Nilo, pelo seu espraiamento, várias
ilhas.
Uma parte da primeira daquelas cidades fora construída, nesta margem, ao tempo
dos Faraós. Lá se via ainda um palácio com torre acastelada, onde por vezes subia a
família do soberano.
Vi também o lugar dos canaviais, onde foi encontrado Moisés, quando menino.
Mênfis formava como que três cidades nas duas margens, tendo uma delas o nome de
Babilónia, mais a jusante do rio.
Na passagem da Sagrada Família por ali, vi que entre Heliópolis e Mênfis jaziam
muitos lugares abandonados e em ruínas.
Nos tempos de maior grandeza, que foi o domínio dos Faraós, com os muitos
canais, diques de pedra e palácios, as edificações entre aquelas duas cidades
sucediam-se quase sem interrupção.
Maria e José, sendo mal recebidos em Tróia, resolveram retroceder no sentido
montante. Deixaram à direita a povoa-
ção de Babilónia, já abandonada e quase a afundar-se no meio do lodo.
Ao fim de uma caminhada de duas léguas, chegaram a um lugar, nas proximidades
de Heliópolis, situado numa língua de terra.
As águas do Nilo banhavam-no por dois lados e tinha agora o nome de Matarea,
pois o antigo fora outro diferente.
As casas onde vivia a gente do sítio eram construídas com folhagem de tamareiras e
lama endurecida ao sol.
Ali é que São José encontrou trabalho, dedicando-se à construção de casas mais
sólidas, feitas de madeira entrelaçada. Sobre elas, utilizando os terraços já mais
resistentes, podiam os habitantes viver uma parte do dia.
Como aqui, com a presença da Sagrada Família, derruíssem alguns ídolos, surgiu

134
também um sacerdote que, falando à multidão, acalmou os ânimos, recordando
igualmente os castigos já sofridos pelos seus antepassados.
Em volta de Matarea viviam alguns judeus que, ao verem os exemplos da Sagrada
Família, se foram aproximando dela e em breve constituíram juntos uma comunidade
que passou a reunir-se num templo pagão abandonado, por eles transformado em
sinagoga. À sombra dela passaram a cantar os salmos, tornando-se São José como
que o pai de todos.
As indústrias e género de vida dos habitantes dessa terra eram muito rudimentares.
Viviam da extracção de turfa e usavam, na maior parte, utensílios de pedra e ossos.
Foi São José quem primeiro começou a usar instrumentos mais aperfei-
çoados.
Nos primeiros tempos, a vida da Sagrada Família foi cheia de privações,
principiando São José, como foi dito, por trabalhar no fabrico de cabanas. Mas os
naturais, por ele ser estrangeiro, tratavam-no como escravo e ora lhe pagavam o
salário ora o despediam sem qualquer retribuição.
À falta de madeira para cozinhar, vi queimarem erva seca e canaviais do rio, sendo
salobra toda a água do sítio.
São José em breve concluiu a casa destinada à Sagrada Família e dividiu-a em
compartimentos. Tinha ao centro um lar e possuía, entre as peças de mobiliário,
alguns escabelos e mesas pequenas.
A gente da terra comia sentada no chão.
Ali viveram alguns anos e, durante eles, vi cenas várias relativas à sua vida de
exílio. No quarto destinado à Santíssima Virgem, havia uma cavidade onde
colocavam o leito do Menino. Junto dele, vi muitas vezes Maria de joelhos e orando.
São José dormia sempre em lugar diferente.
Noutro sítio da casa, prepararam um oratório, onde os três se reuniam para as
orações do costume.

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MORTE DE SÃO ZACARIAS
João Baptista, depois que, por uma ordem especial de Deus, abastecera de água a
Sagrada Família em viagem para o Egipto, regressou ao ermo, onde se refugiara,
continuando a vida de solitário no deserto. Como os pais ficassem vivendo em Jutá,
voltou mais tarde para junto deles.
Tornei a vê-lo na idade dos quatro para os cinco anos quando, acompanhado de
Santa Isabel, de novo se refugiou no deserto. Zacarias, que se ausentara, talvez para
não assistir à separação do filho que amava entranhadamente, tinha-lhe dado a bênção
no dia anterior.
Vi a mãe de João caminhando a passo firme ao lado do filho. Isabel era uma mulher
cheia de ânimo, de porte elevado e figura agradável. São João, de olhar límpido e
alma simples, logo que deu entrada no deserto, tomou a dianteira, caminhando lesto e
de passo resoluto.
A princípio, tomaram juntos o caminho em direcção ao Norte, deixando à direita
uma extensão ou talvez corrente de água. Transpondo em seguida uma ribeira, vi-os
seguir na via do nascente, até se internarem numa garganta apertada entre penedias.
Foi aí que ficou a viver João Baptista.
As rochas eram agrestes na cumeada. Mas no fundo cresciam arbustos de fruta
silvestre, como cerejas, bagas e outros.
Foi esse o lugar escolhido para a vida contemplativa de São João.
Isabel abraçou o menino e, ao despedir-se dele, apertou-o por três vezes ao coração.
Tornei a vê-la, já no final daquele desfiladeiro, voltar-se, chorando, e dizer adeus ao
filho.
Durante as visões deste novo período da vida de São João no deserto, estava eu
muito doente, mas Deus concedeu-me a graça de assistir a todos esses factos e como
visse João afastar-se mais e mais de sua mãe, senti-me dominada por uma grande
tristeza, pois me parecia que dificilmente voltaria a encontrar a casa dos pais. Porém,
uma voz tranquilizou-me, dizendo:
– Sossega, o menino sabe muito bem os caminhos por onde tem de seguir.
Pareceu-me que, estando eu igualmente no deserto, João Baptista, iluminando-me o
espírito, mostrava como é que, reprimindo os sentidos e mortificando-se, ia dia a dia
subindo nos caminhos do Senhor.
Nada, porém, me podia surpreender, porque, ao tempo em que eu, quando pequena,
vigiava o gado no pasto, vivia também muito familiarmente com João, no deserto.
Sempre que eu lhe queria falar, chamava-o assim:
– São Joãozinho, vem aqui. E o menino ali aparecia, dando-me os ensinamentos
que lhe pedia.
Por isso, não era para mim motivo de surpresa que São João
aprendesse tantas coisas no convívio com os animais e as plantas do deserto, porque
também eu, na minha infância, quando trabalhava nos campos ou ia buscar lenha à
floresta, estudava e aprendia nas folhas e flores, como se para mim fossem livros
abertos.
A forma e cor delas e os próprios animais que passavam eram para mim uma fonte
contínua de ensinamentos. Como eu falasse aos outros do que aprendia nas obras da

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criação, via que algumas pessoas me escutavam admiradas, mas a maior parte ria-se
de mim e, desde então, fui-me acostumando a guardar para meu aproveitamento o
que aprendia nas obras de Deus.
Continuando nas minhas contemplações a fazer companhia a São João no deserto,
vi como se ia familiarizando com as flores e os animais. As aves, porém, tinham por
ele uma particular amizade. Obedecendo à sua voz, associavam-se aos cânticos em
honra do Senhor e, nas caminhadas pelo deserto, acompanhavam-no em bandos,
mostrando-lhe a direcção que devia seguir.
Z
Chegando a vez de Zacarias subir ao Templo, aproveitou Santa Isabel a ocasião
para visitar o seu filho.
São João Baptista fora predestinado para viver na solidão e, afastado de todo o
comércio humano, recebeu os dons sobrenaturais do Espírito, que instruía na
inteligência e sabedoria de Deus. Foi assim que a Providência se encarregou de dispor
tudo para os próprios acontecimentos humanos e o obrigaram a buscar um refúgio no
deserto, tendo para lar, no alto, o céu estrelado e, em baixo, o convívio familiar dos
animais.
Jesus tivera de fugir para longe, vivendo em terras do Egipto, a fim de escapar à
fúria de Herodes. Por sua vez, João Baptista, o Precursor, como os factos
extraordinários que lhe precederam o nascimento se tornassem conhecidos do mesmo
tirano, é obrigado a buscar um refúgio nas solidões do deserto.
Por mais de uma vez, Herodes, sem exercer violências, antes por vias persuasivas,
mandou inquirir Zacarias qual o sítio onde se encontrava o Baptista.
Em face das respostas do santo ancião, resolveu empregar meios extremos. Quando
Zacarias, já próximo da porta de Belém, se encaminhava para o Templo levando as
vítimas destinadas ao sacrifício, viu-se inesperadamente rodeado de soldados que o
prenderam e encerraram num cárcere perto do monte Sião.
Como se recusasse a declarar o sítio onde se encontrava o filho, infligiram-lhe
torturas tão cruéis que veio a expirar no meio delas.
Ao terem conhecimento da morte do santo sacerdote, os seus amigos levaram-lhe
os restos mortais, que sepultaram não longe do Templo.
Este Zacarias não é aquele que foi morto entre o Templo e o altar, por motivo de
uma disputa sobre a linhagem do Messias e a primazia de lugares que se arrogavam
algumas das principais famílias.
Quando Isabel regressou do deserto, foi, durante uma parte da viagem, acompa-
nhada por João, que a certa altura, recebendo a bênção da mãe, voltou a refugiar-se na
solidão.
Ao dar entrada na sua casa de Jutá é que soube da morte cruel de Zacarias. Apode-
rou-se dela tão grande dor que, abandonando a casa e o que nela possuía, foi reunir-se
a seu filho, junto do qual morreu, pouco antes de a Sagrada Família voltar do Egipto.
Foi aquele essénio do monte Horeb, o mesmo que assistia a João, quem a enterrou
no deserto.
João, sepultada a mãe, deixou aqueles rochedos e afastando-se mais ainda da casa
paterna, internou-se no deserto, agora plano, até encontrar um lago, em cujas margens
ficou a viver.

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Muitas vezes vi junto dele figuras luminosas de anjos, que o instruíam e vi que São
João, com uma ingenuidade infantil e sem acanhamento, lhes falava familiarmente.
O santo Precursor veio ainda uma vez secretamente à casa que fora dos pais, onde
estava a morar uma sobrinha de San-
ta Isabel. Nesse tempo, era já quase homem.

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A VIDA DE JOSÉ E DE MARIA NO EXÍLIO
Para uso doméstico, não dispunham os habitantes de Matarea senão da água do
Nilo. Embora salobra e má, era dela que todos bebiam.
Nos primeiros tempos, a Sagrada Família teve de sofrer muito, não só devido à
qualidade da água, como também à falta de alimentação que, para os santos
emigrados, quase não passava de fruta.
A Santíssima Virgem, vendo São José na dura necessidade de transportar a água da
fonte do Bálsamo, que ficava no deserto, dirigiu-se ao céu e, estando em oração,
apareceu-lhe um anjo a apontar para um lugar vizinho. Olhando, viu uma árvore de
grande porte e junto dela uma pedra que em tempos fora altar. Avisado da aparição,
começou São José a remover o entulho, indo encontrar um poço de água fresca e
revestido interiormente de pedra. Dela ficaram usando não só a Sagrada Família
como os judeus que viviam nas proximidades.
O primeiro trabalho que vi Jesus fazer foi ajudar Sua Mãe: transportar água dessa
nascente. Tempos depois, vi-O levar a São José utensílios que lhe faziam falta ou que
teria esquecido em casa.
O Menino prestava atenção a tudo o que Lhe diziam e a alegria que dava aos pais
compensava-os de todas as inclemências por que até ali tinham passado.
Vi-O também ir ao povoado dos judeus e trazer de lá o pão que sua Mãe recebia em
pagamento das encomendas e os trabalhos por ela executados.
A fonte de Matarea não deve a sua origem à intervenção da Santíssima Virgem,
pois já ali existia, embora coberta de pedregulhos. Nesse lugar, tinha já habitado o
santo rei Job que, muito antes de Abraão, como ali encontrasse a fonte, ofereceu a
Deus um sacrifício sobre a pedra que lhe ficava ao lado.
O pai de Job tinha um irmão de quem descendia a família de Abraão. Era chefe de
uma tribo e vivia já ao tempo em que foi construída a torre de Babel. Job era o mais
novo de treze irmãos e de um deles é que veio a descender a família de Abraão.
O pai de Job chamava-se Joctan, filho por sua vez de Heber, que habitava ao norte
do mar Cáspio.
A terra onde Job primeiro se estabeleceu, situada ao norte de uma cadeia de
montanhas, era de natureza pantanosa e ficava entre dois mares. No espaço ocupado
hoje pelo mar, que fica mais ao ocidente, levantava-se, antes do dilúvio, uma cadeia
de montanhas e nelas moravam os maus espíritos que então dominavam os homens.
Foi nessa região que Job passou pela primeira vez pelas suas provas. Resolvendo
abandonar aquele país, ficou a morar nos territórios do Cáucaso, situado mais ao sul.
Numa parte do Egipto, dominavam por esse tempo uns reis pastores, originários
daquelas mesmas terras. Como um desses reis escolhesse para esposa do seu filho
príncipe uma princesa da raça do Cáucaso, foi Job encarregado de a conduzir ao palá-
cio real, na companhia de grande séquito.
Job era novo ainda, de cabelo ruivo e tez de um moreno pálido e a nova princesa
pertencia à sua linhagem.
Por esse tempo, o Egipto era pouco povoado e ainda não possuía os grandes
monumentos, começados a construir no tempo dos filhos de Israel.
Como recebida a princesa, o rei desejasse guardar o seu compatrício, Job deu-lhe

139
terras que chegavam para ele e para os da sua tribo. Ali viveu cinco anos, sendo sua
pertença o lugar onde estava a morar a Sagrada Família bem como as outras de
origem judaica.
A fonte tinha sido mostrada por Deus àquele patriarca que, sobre a pedra vizinha,
resolveu oferecer um sacrifício ao Senhor.
Job era um homem de boa presença e amigo do bem. Conhecia o verdadeiro Deus e
adorava-O como seu Criador. Ao observar a natureza, os astros, a luz e todas as mais
obras criadas, subia delas até Deus e n’Ele contemplava a grandeza da criação.
Nunca prestou culto às figuras de animais que os homens do seu tempo adoravam.
Representando, porém, na sua mente uma ideia material do verdadeiro Deus,
procurou fazer dela uma imagem sensível, esculpindo uma figura humana com
reflexos de luz na cabeça e parece-me que dotada de asas.
Na cidade oferecida a Job, vi um culto abominável ligado às superstições que
presidiram à construção da torre de Babel. Os habitantes prestavam adoração a um
boi com entranhas de fogo para onde atiravam crianças vivas.
Entre outros animais do Nilo, vi um de patas negras e com traços de cavalo e de
porco.
Na terra vagueavam outros de aspecto repugnante. De entre eles, vi um com forma
de toupeira podendo, pela disposição das patas, saltar de uma casa para outra.
Em face da abjecção deste povo, vi, muitas vezes, o santo rei Job voltar-se para o
Oriente e suspirar pelas terras onde nascera.
Por esse tempo, foram-me presentes muitas figuras proféticas relativas aos filhos de
Israel no Egipto e à salvação da humanidade.
Ao fim de cinco anos, Job resolveu deixar o Egipto e regressar à sua pátria com o
séquito que o acompanhara.
Durante as provações por que teve de passar este patriarca, decorreram primeiro
nove anos, depois sete e em seguida doze, que foram os intervalos de repouso.
Estas palavras do livro de Job – E como o mensageiro da desgraça falasse ainda... –
são equivalentes a estas:
– E a desgraça que o tinha afligido estava ainda na boca do povo, quando uma
segunda o veio ferir.
As provações por que passou deram-se em três regiões diferentes. A última, que foi
seguida de uma prosperidade maior, visitou-o num país a nascente de Jericó, onde se
colhe o incenso, a mirra e metais preciosos, como o ouro, etc.
Noutra visão, vi mais coisas relativas a Job. Assim é que, em conversa com dois
amigos, lhe ouvi contar todos os factos da sua vida e as comunicações que Deus lhe
fizera. Ficaram eles sendo os confidentes das graças que o Senhor lhe fizera.
Chamavam-se Hai e Uis ou Ois.
A história da vida de Job foi assim religiosamente conservada e transmitida até
Abraão e seus filhos. Moisés pô-la por escrito para servir de conforto aos israelitas
cativos no Egipto e depois errantes no deserto.
A princípio, a narração era menos completa. Salomão deu-lhe nova forma,
enriquecendo-a de ensinamentos sobre a prática da virtude. Nela se encontram, por
isso, associados com a sabedoria de Salomão, os conselhos práticos de Job e de
Moisés.

140
Quando Abraão esteve no Egipto, ergueu tendas junto da nascente de Job e vi que,
agrupando o povo das vizinhanças, o instruía sobre as coisas de Deus.
Abraão esteve no Egipto por duas vezes. Da primeira, foi compelido a deixar
Canaã, devido à fome e porque Deus assim lho ordenara.
Voltou lá segunda vez, com o fim de reaver um tesouro de família que uma
sobrinha de Sara, à semelhança do que fez Raquel quando furtou os deuses de Labão,
levou com ela para o Egipto e, como aí casasse, foi o tesouro vendido por grande
preço, passando a ser pertença do rei e dos sacerdotes.
Era essa mulher da raça de Job e por isso, também, do parentesco dos reis pastores
que tinham dominado numa parte do Egipto. Uma das suas filhas foi aquela Agar,
mãe de Ismael,
todos da raça de Sara.
O tesouro consistia num registo genealógico dos filhos de Noé e, em particular, dos
que descendiam de Sem até Abraão. Era formado de peças triangulares de ouro e
prata, tendo inscritos os nomes dos progenitores das várias famílias hebreias.
As peças ligavam entre si, à semelhança dos pratos de uma balança, multiplicando-
se, segundo o número de gerações.
O conjunto da armação, dobrando-se, era guardado numa caixa de fácil transporte.
Quando Abraão esteve pela primeira vez no Egipto, temendo que o matassem por
causa da rara beleza de sua mulher, fê-la passar por irmã e não mentiu, pois Sara,
sendo também filha de Tharé, era sua consanguínea, embora filha de outra mãe (Gn
20,12,12).
O Faraó, informado da formosura de Sara, mandou-a buscar para sua mulher. Ao
saberem dos intuitos do rei, Abraão e Sara pediram a Deus para que lhes valesse e
como Sara desse entrada no palácio real, logo caíram, feridas de grave doença, todas
as mulheres do rei e muitas outras da cidade. Aterrorizado e sabendo, só então, que
Sara era mulher de Abraão, mandou que lha restituíssem.
Mais tarde, como possuísse a estima do Faraó, pediu-lhe a restituição do tesouro
das genealogias, que lhe foi entregue, partindo com ele e a sua comitiva em direcção
à terra de Canaã.
A fonte de Matarea, vi-a tempos depois rodeada de casas, ao tempo em que no
lugar da casa da Sagrada Família foi erigida uma igreja; junto do altar-mor, descia-se,
por meio de uma escada, até a uma cavidade ou cripta que, por algum tempo, serviu
de morada à Virgem e ao Menino.
Vi também que os próprios turcos conservavam uma lâmpada acesa na referida
igreja, persuadidos como estavam de que lhes aconteceria alguma desgraça no dia em
que a lâmpada deixasse de arder.
Nos tempos modernos, vi que a povoação em volta tinha desaparecido, ficando a
fonte no meio de um terreno quase abandonado, tendo em volta árvores de fruto.

141
REGRESSO A NAZARÉ
Vi tudo quanto se passou relativamente ao regresso de Maria e José às terras da
Judeia.
Herodes há muito que tinha morrido. Mas os perigos não desapareceram por
completo.
A vida de José e Maria, naquela terra de exílio, fora-se-lhes tornando cada vez mais
custosa. Os naturais viviam entregues a práticas horríveis de idolatria. Vi-os sacrificar
aos ídolos aqueles recém-nascidos, que tinham algum defeito e, quando a vítima era
uma criança perfeita, julgavam praticar um acto dos mais santos do seu ritual
idolátrico.
Além destes factos, entregavam-se a cultos secretos de abomináveis impurezas, que
infectaram os mesmos judeus, ali nascidos.
Como São José vivesse do seu trabalho de carpinteiro, ao chegar o dia do
pagamento, vi-o uma vez cheio de tristeza, porque lhe recusaram o salário ajustado.
Em casa, estavam a passar por grandes privações e o santo patriarca nada tinha para
matar a fome aos seus.
Cheio de preocupações e de dor, ajoelhou-se no caminho e pediu a Deus para que
lhe valesse. Vi então que um anjo lhe apareceu durante a noite, dizendo-lhe que
partisse dali para a terra de Israel.
Evangelho
Quando Herodes morreu, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egipto e
disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e Sua Mãe e volta para a terra de Israel, pois já
estão mortos aqueles que procuravam matar o Menino.» José levantou-se, pegou no
Menino e na Sua Mãe e voltou para a terra de Israel. Mas, quando soube que
Arquelau reinava na Judeia, como sucessor de Herodes, seu pai, teve medo de ir para
lá. Por isso, depois de receber aviso em sonho, José partiu para a região da Galileia e
foi morar numa cidade chamada Nazaré. Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito
pelos profetas: «Ele será chamado Nazareno.»(Mt 2,19-23)
São José avisou a Santíssima Virgem e partiram do Egipto com a mesma prontidão
com que tinham abandonado as terras da Judeia.
Ao saber-se da partida da Sagrada Família, muita gente da terra veio dizer-lhe
adeus, oferecendo para a viagem géneros alimentícios, vendo eu que alguns eram
conservados em caixas feitas de cascas de árvores. Entre essa gente havia alguns
israelitas, mas na maior parte eram pagãos convertidos.
Os judeus nativos quase se não diferençavam, no viver, dos pagãos da terra.
Houve homens que viram com satisfação a retirada da Sagrada Família que, diziam
eles, era protegida por espíritos mais poderosos que os daquela terra.
Entre as pessoas que se despediram de Maria, encontrava-se uma mãe, pertencente
a uma família de classe elevada que, por meio da oração da Virgem, tinha sido curada
da esterilidade, dando à luz um menino que recebeu o nome de Deodato. Chamava-se
ela Mira e, ao despedir-se, vi que entregou a Jesus várias moedas de forma triangular,
sendo umas de cor amarela e as restantes pardacentas ou de cor branca. O Menino, ao
recebê-las, olhou para Sua Mãe, como
a mostrar-se reconhecido pela oferta, que lhes seria útil para a viagem.

142
Carregada a jumenta com os utensílios mais necessários, foram passar entre
Heliópolis e a povoação dos judeus, em direcção à fonte que, devido à oração da
Virgem, brotara no deserto, quando vinham a caminho do Egipto. Ali encheram um
odre e recolheram em âmbulas uma reserva da seiva daquelas plantas do bálsamo,
que junto da água nascente se desenvolveram em grande quantidade.
São arbustos da altura de pouco mais de uma cepa mediana e têm folhas
semelhantes às do trevo. Muitas vezes, vi São José fabricar uns vasos de cascas de
árvores que, ligadas as juntas com pês ou betume, serviam para recolher estes e
outros líquidos. Foi o trabalho que hoje realizou, enquanto a Santíssima Virgem se-
cava ao sol as peças de vestuário que lavara na fonte do Bálsamo.
Seguindo dali, tomaram o caminho pelo deserto, livres de todo o perigo.
Para se defenderem do Sol, vi-os levar, cobrindo-lhes a cabeça, uma placa de
cortiça que São José adelgaçara. Essa cobertura tinha a segurá-la uma tira de pano
que, descendo do alto, vinha prender-se junto ao queixo.
Jesus ia vestido com uma túnica cinzenta e calçava sandálias que lhe chegavam até
ao meio do pé, fabricadas também de cascas de árvores. A Santíssima Virgem
também usava sandálias.
Durante a viagem, encontrei-os por vezes em aflição, ao verem que a Jesus era
custoso andar pela areia quente do deserto. Paravam muitas vezes para sacudir as
areias do calçado e alternarem o Menino sobre a jumenta.
Vi-os passar por algumas cidades, sendo uma delas de nome Ramsés e
atravessarem de novo aquele canal de água, que do Nilo levava ao mar Vermelho.
O pensamento de São José, quando saiu do Egipto, não era voltar para Nazaré, mas
fixar residência em Belém, sua terra natal. Sabendo porém, ao chegar às terras da
Judeia, que lá reinava Arquelau, ficou indeciso sobre o que devia fazer. Vi a Sagrada
Família tomar seguidamente o caminho de Gaza, cidade pagã, onde se demorou três
meses. Ao fim destes, um anjo avisou-os, dizendo-lhes que deviam seguir para
Nazaré, o que fizeram.
Santa Ana era ainda viva e, assim como outras pessoas da sua intimidade, sabia
onde é que os santos viajantes se encontravam.
O regresso do Egipto deu-se no mês de Setembro, tendo Jesus oito anos de idade,
menos poucas semanas.

143
Capítulo XIV

144
Jesus entre os doutores
No espaço que vai dos dez até aos vinte anos da vida do Salvador, somente vi na
casa de Nazaré três pessoas: Jesus, Maria e José.
A santa casa constava de três compartimentos, sendo o maior ocupado pela
Santíssima Virgem. Era nele que, à luz de uma lâmpada, oravam juntos, de pé e
braços cruzados no peito.
Pelo dia fora, cada um vivia entregue às suas ocupações. São José, ajudado muitas
vezes pelo Senhor, trabalhava na arte de carpinteiro, pois o vi cortando e aparelhando
madeiras.
Maria empregava a maior parte do dia em serviços de costura e, nas encomendas de
malha, vi-a trabalhar com agulhas de madeira bastante compridas. Vi-a quase sempre
sentada e com uma giga ao lado.
Neste período da sua vida, em Nazaré, vi-os apenas duas vezes em casa de outras
pessoas.
Cada uma das pessoas da Sagrada Família passava a noite em quarto ou alcova
própria. Naquelas duas ausências, pareceu-me, porém, que os três ocupavam o
mesmo compartimento.
A cama não passava, naquele tempo, de uma esteira que, ao levantar, era enrolada
no sentido da cabeça.
Evangelho
O Menino crescia e fortalecia-se, cheio de sabedoria. E a graça de Deus estava com
Ele. Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa. Quando o
Menino completou doze anos, subiram para a festa, como de costume. Passados os
dias da Páscoa, voltaram, mas o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que os Seus
pais o notassem. Pensando que o Menino estivesse na caravana, caminharam um dia
inteiro. Depois começaram a procurá-l’O entre parentes e conhecidos. Não O tendo
encontrado, voltaram a Jerusalém à procura d’Ele. Três dias depois, encontraram o
Menino no Templo. Estava sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes
perguntas. Todos os que ouviam o Menino estavam maravilhados com a inteligência
das Suas respostas. Ao vê-l’O, os Seus pais
ficaram emocionados, Sua Mãe disse-Lhe: «Meu filho, porque fizeste isto connosco?
Olha que Teu pai e eu andámos angustiados, à Tua procura.» Jesus respondeu:
«Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devo estar na casa do Meu Pai?» Mas
eles não compreenderam o que o Menino acabava de lhes dizer. Jesus desceu então
com Seus pais para Nazaré e obedecia-lhes. E Sua mãe conservava no coração todas
estas coisas. E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e graça, diante de Deus e dos
homens.(Lc 2,40-52)
Z
A nordeste de Nazaré, há uma povoação de nome Gofna. É nela que moravam os
pais de João e Tiago Maior. Sendo estes quase da mesma idade do Senhor, foram
também Seus companheiros de infância, até à data em que, partindo com o pai para
Betsaida, se entregaram à faina da pesca.

145
Por aquele tempo, vivia também em Nazaré um homem chamado Zebedias, ou
Sabadias, que não deve ser confundido com Zebedeu, o pai daqueles companheiros
do Senhor e, mais tarde, apóstolos do Evangelho.
Este Zebedias tinha uma filha casada com um parente próximo de São Joaquim.
Deste consórcio nasceram quatro filhos, chamados Cléofas, Tiago, Judas (Tadeu) e
Jafet, de idade igualmente aproximada da do Senhor. Todos eles foram discípulos de
João, seguindo Cristo, depois de o santo Precursor ser degolado por Herodes Antipas.
Estes quatro irmãos são aqueles que, juntamente com André e Saturnino, foram ter
com Jesus, na margem de lá do Jordão, quando o Baptista o apontou aos que o
ouviam, dizendo: Eis o Cordeiro de Deus.
E ficaram um dia inteiro com o Senhor.
Celebrando-se, pouco depois, as bodas de Caná, os quatro tomaram parte nas festas
ali realizadas.
Quando chegavam as solenidades da Páscoa, a Sagrada Família juntava-se à de
Zebedias e seguiam juntos para a adoração no Templo.
Esses quatro igualmente pertenceram ao número dos companheiros da infância do
Salvador.
O mais velho, Cléofas, residia em Emaús, ao tempo da morte de Cristo e foi a ele,
quando se dirigia para casa juntamente com São Lucas, que o Senhor apareceu na
tarde da Sua Ressurreição gloriosa.
Já desde os primeiros anos Jesus avantajava-se na altura aos da sua idade. A cor do
rosto, embora de uma brancura levemente pálida, anunciava vigor e saúde.
O olhar era suave e a fronte elevada. O cabelo, de cor loira, mas de um louro
carregado, caía-lhe sobre as espáduas, dividido, a partir do alto da cabeça, em dois
tufos sedosos.
Como vestuário, usava túnica de cor cinzenta, que lhe descia até aos pés,
guarnecida de mangas, que se alargavam no sentido da frente.
Z
Tinha Jesus completado oito anos de idade quando, pela primeira vez, subiu com
seus pais a Jerusalém para a celebração da Páscoa.
As viagens do Senhor à cidade santa não passaram despercebidas.
Não só as famílias onde se hospedava, como os próprios sacerdotes do Templo e os
doutores da lei notaram em Jesus a piedade e acerto com que em tudo procedia.
Falava-se d’Ele em Jerusalém e, numa nacionalidade como a judaica, onde quase
todos se conheciam, era apontado como o modelo dos meninos.
Nos anos a seguir, todos procuravam encontrar-se com o filho de José – era assim
que O chamavam – e com Ele falar, escutando-o e fazendo-lhe perguntas.
Quando, aos doze anos, subiu de novo a Jerusalém, já era lá conhecido. Na viagem
para a celebração da Páscoa juntaram-se, a partir de Nazaré, as três famílias já
referidas, a saber: a de Zebedias, a de Tiago e João com seu pai Zebedeu, e a que era
constituída por Maria, José e Jesus.
Nas viagens, os mais novos costumavam seguir adiante. Jesus e os Seus
companheiros de Nazaré e os filhos de Zebedeu caminhavam juntos, abrindo o
cortejo dos peregrinos.
Z

146
No regresso, findas as solenidades da Páscoa, Jesus, pela altura do monte das
Oliveiras, separou-se do grupo a que pertencia. Vindo mais atrás Maria e José,
supuseram os companheiros que se iria juntar aos da Sua família.
O Senhor, porém, descendo o monte das Oliveiras, foi ter àquela hospedaria de
essénios onde Maria e José haviam descansado na véspera da Purificação. Lá é que
Jesus ficou os três dias que esteve em Jerusalém.
A partir do monte das Oliveiras, continuaram os pere-
grinos seguindo o caminho de Nazaré, na suposição uns de que Jesus ia com o grupo
dos mancebos e estes persuadidos que se juntara a Seus pais.
Quando, pelo cair da tarde, se encontraram na altura da cidade de Goma, ficaram
Maria e José em sobressalto por não encontrarem o Menino, voltando sem demora
pelo mesmo caminho, a perguntar a toda a gente se O tinham visto. Ao che-
gar a Jerusalém, foi ainda maior a inquietação por não O encontrarem, nem d’Ele
terem notícia as famílias dos seus conhecimentos.
Os dois primeiros dias empregara-os Jesus visitando com outras pessoas duas das
escolas de Jerusalém e, ao terceiro, foi ter à que funcionava junto do Templo. Tinha
esta como objectivo a formação de sacerdotes e levitas. Os ensinamentos nela
ministrados abrangiam não só os conhecimentos religiosos, como as ciências
profanas do tempo.
A presença de Jesus, nas primeiras escolas, causou admiração pela sabedoria que
manifestava em todas as perguntas e respostas. Os primeiros a aplaudi-l’O pertenciam
ao número dos doutores e escribas.
Ora, como os que se declaravam mestres de Israel reconhecessem n’Ele ciência
superior à deles, sentindo-se tomados de inveja, resolveram levá-l’O a uma reunião
pública e confundi-l’O com perguntas capciosas.
A sessão efectuou-se numa sala redonda, onde mais tarde o mesmo Senhor devia
ensinar, nas Suas pregações no Templo. Presidiam os mesmos doutores e escribas que
mais a princípio o haviam admirado.
Vi o Menino sentado numa grande cadeira, larga demais para Ele. Rodeavam-n’O
os arguentes, todos com as insígnias sacerdotais. Pareciam animados de sentimentos
rancorosos contra Jesus, a tal ponto que cheguei a recear qualquer violência.
A sala era espaçosa e grande a concorrência. Porém, reinava pouca ordem entre a
assistência. Por cima da cadeira que Jesus ocupava, viam-se cabeças de bronze,
figurando cães (ou talvez leões). A vista dessas figuras causava no público uma
impressão desagradável de terror e asco.
Figuras semelhantes encontravam-se igualmente noutras salas próximas, na maior
parte destinadas a receber as oferendas do Templo.
A sala destinada à prova do Senhor ficava em frente do santuário e ao meio do
pórtico.
Como nos dois primeiros dias Jesus escolheu, nos seres criados, as imagens e
comparações para as respostas que dera, tiveram os judeus o cuidado de convocar
para a nova reunião os homens mais abalizados nas artes e ciências profanas.
Foram pois muitas as perguntas que lhe dirigiram. Muitas e sobretudo argutas.
Principiou Jesus por lhes dizer que, não sendo aquelas coisas do ensino dos
preceitos da Lei, lhes responderia, visto ser essa a vontade de Seu Pai.

147
Não compreendendo o que queria dizer com a «vontade de seu Pai», julgaram que
São José lhe recomendara para lhes mostrar tudo quanto sabia sobre ciências.
Respondendo pois às perguntas feitas, o Senhor tratou, em primeiro lugar, do que
dizia respeito à medicina, falando do corpo humano com tal precisão, que suscitou o
assombro dos tais sábios. Respondeu também ao que lhe perguntaram sobre
astronomia, arquitectura, agricultura, geometria, aritmética e jurisprudência.
Todos estes pontos foram por Ele de tal maneira relacionados com as profecias, a
promessa do Redentor, a Lei, os sacrifícios e mistérios do culto, que os chamados
mestres de Israel, cheios de surpresa e confundidos, passaram sucessivamente do
espanto à confusão e vergonha.
Encontravam-se desorientados ao verem um menino dar-lhes lições sobre a lei de
Moisés e os profetas. Mais ainda: ensinando-lhes coisas para eles inteiramente
desconhecidas. É por isso que, sentindo-se humilhados no seu orgulho e confundidos,
passaram do espanto aos movimentos de ódio rancoroso contra aquele “ensinador de
coisas novas”.
Havia duas horas que Jesus falava, quando Maria e José, entrando no Templo,
perguntaram pelo Menino.
Foi-lhes respondido que estava entre os doutores.
Não lhes pertencendo lá entrar, mandaram recado para que se viesse embora. Mas a
resposta, porém, foi que não podia sair, sem primeiro cumprir as ordens do Alto.
Esta primeira resposta encheu Maria de tristeza, pois era a primeira vez que a
obrigava a esperar. Era a primeira vez também que falava em obedecer a outrem,
diferente dos pais.
Jesus continuou a falar durante mais de uma hora. Terminada a doutrina e
esclarecidas as objecções com que pretendiam confundi-l’O, é que deixou a sala e foi
ao encontro de Maria e de José, que estavam à Sua espera no átrio de Israel e no lugar
reservado às mulheres.
Foi então que Maria lhe disse:
– Filho, porque procedeste assim connosco?
– Não sabíeis que Eu devo ocupar-me nas coisas de Meu Pai? Foi a resposta do
Senhor.
Diante dos meus olhos passaram todas as cenas relativas aos ensinamentos de Jesus
e compreendi tudo quanto Ele ia dizendo. Mas os sofrimentos têm sido para mim
tantos, que só a muito custo posso descrever o que acabo de narrar.
Foi grande a impressão causada entre os doutores. Porém, mais tarde, quando
alguém lhes falava da passagem de Jesus no Templo, diziam que se tratava de um
mancebo cheio de presunção, a quem eles deram uma boa ensinadela.
Z
Ao sair do Templo, a Sagrada Família encontrou um grupo de pessoas de Nazaré
que estavam à sua espera. Eram três homens, duas mulheres e alguns jovens.
Vi que seguiram juntos, em atitude de oração e com as mãos sobre o peito.
Percorridos vários lugares da cidade, atravessaram uma torrente com ponte e
seguiram pelo monte das Oliveiras, demorando-se em algumas das cabanas de
ramagens ali erigidas.
Pelo caminho seguido em atitude de oração, pareceu-me que se tratava do

148
cumprimento de um voto.
No regresso a Nazaré, vi celebrarem uma festa em casa de Santa Ana. Nela
tomaram parte vários meninos da idade do Senhor. Vi que eram em número de trinta
e três, número significativo dos anos que Jesus passou na Terra.
Não sei, porém, se era costume fazer-se todos os anos, no regresso das solenidades
da Páscoa, ou se com ela celebravam a data da entrada de Jesus na adolescência.
Nesta solenidade, o Senhor falou aos companheiros numa linguagem que então não
chegaram a entender, referindo-se a outras festas, em que a água se transformaria em
vinho e o vinho e pão em sangue e carne, para servirem de alimento aos homens, até
ao fim do mundo.
A partir dessa data, Jesus tornou-se para os companheiros da Sua idade um
verdadeiro guia, ensinando-os em tudo quanto lhes podia ser de utilidade para a vida.
Foi aos dezoito anos que entrou abertamente no trabalho, par a par com São José.
Z
Nas minhas contemplações, antes como depois dos doze anos, vi o Menino sempre
pronto para ajudar Maria e José, tanto em casa como nos serviços de fora. Para com
as outras pessoas, Jesus era igualmente prestável e de tal maneira gostava de ajudar a
todos, que o apontavam como modelo dos meninos de Nazaré.
Os pais das vizinhanças, quando algum dos filhos desobedeciam, costumavam
dizer:
– Olha, vês, que dirá Jesus quando souber que tu és assim mau? Vai ficar triste e já
não torna a ser teu amigo!
E quando os encontrava, ou os pais dos prevaricadores lhe contavam o que se
passara, Jesus falava de tal maneira ao coração dos transgressores que de teimosos os
tornava submissos e obedientes.
À medida que se aproximava a data da pregação do Evangelho, via-O mais
entregue à meditação e à oração.

149
Notas de Rodapé
1 Subida ao Monte Carmelo II, XXII, 4 e 5.
2 Ibid. II, XXI, 2-3.
3 Comprendre le sens du Message de Fatima, Documentation Catholique 2230, 16/7/2000, 678.
4 Ibid. cf. 679.
5 Ibid., sublinhados meus.
6 Ibid., sublinhados meus.
7 Ibid.
8 Ibid.
9 STh. q 174 a 6 r 3.
10 Visionen und Prophezeihungen, Basel-Freiburg-Wien, Herder, 1958, 10.
11 Ratzinger, « Comprendre le sens… » 679.
12 «La crédibilité des révélations privées», in La vie spirituelle. Supplément 53 (1937) 29-48.
13 Rahner, Visionen... 24.
14 Ibid.
15 Op. cit. 25-30.
16 “Apparizioni” in De Fiores, S.-Meo, São (eds.), Nuovo dizionario di mariologia, 117.

150
Índice
Prefácio 6
Capítulo I 17
Os Antepassados da Virgem Maria 18
Capítulo II 21
A Imaculada Conceição de Maria 22
Capítulo III 27
O Nascimento da Virgem Maria 28
Capítulo IV 35
Apresentação de Maria no Templo 36
Capítulo V 47
São Gabriel aparece a Zacarias 48
Capítulo VI 50
O casamento da Virgem Maria 51
Capítulo VII 55
Anunciação à Virgem Maria 56
Capítulo VIII 61
Maria visita sua prima Isabel 62
Capítulo IX 68
O nascimento de Jesus 69
Capítulo X 82
A adoração dos Pastores 83
Capítulo XI 91
A chegada dos Reis Magos 92
Capítulo XII 114
Apresentação de Jesus no Templo 115
Capítulo XIII 120
A Sagrada Família foge para o Egipto 121
Capítulo XIV 144
Jesus entre os doutores 145
Notas de Rodapé 150

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