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MAR ABSOLUTO

MAR ABSOLUTO

fOI DESDE SEMPRE o mar.


E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.
Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído


pelos mares do Oriente, com seus cora"is e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.
Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há mais ninguém,
não, não haverá mais ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.
E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e santos náuticos.
E fico tonta,
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar 1argo!
Livrando o corpo da lição frágil da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
Parece-nos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
lllultiplicada em suas malhas de perigo.
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Queremos a sua solidão robusta, Aceita-me apenas convertida em sua natureza:


uma solidão para todos os lados, plástica, fluida, disponível,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do igual a ele, em constante solilóquio,
[mundo, sem exi~ências de princípio e fim,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia. desprendida de terra e céu.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto, E eu, que viera cautelosa,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos. por I?rocurar gente passada,
suspeito que me enganei,
O mar é só mar, desprovido de apegos, que há outras ordens, que não foram bem ouvidas;
matando-se e recuperando-se, que uma outra boca falava: não somente a de antiaos mortos,
correndo como um touro azul por sua própria sombra, e o mar a que me mandam não é apenas este ma;.
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo, Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício. mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos
Não precisa do destino fixo da terra, E entre água e estrela estudo a solidão. ·
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança. E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano. l
Tem um reino de metamorfose, para experiência: E este mar visível levanta para mim
seu corpo é o seu próprio jogo, uma face espantosa.
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita. E ~etrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E e logo uma pequena concha fervilhante
Baralha seus altos contrastes: nódoa líquida e instável. '
cavalo épico, anêmona suave, célula azul sumindo-se ·
entrega-se todo, despreza tudo, no reino de um outro mar:
sustenta no seu prodigioso ritmo ah! do· Mar Absoluto.
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos,
mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.
Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões: NOTURNO
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma. BRUMOSO navio
o que me carrega
E assim como água fala-me. por um mar abstrato.
Atira-me búzios, como lembrança de sua voz, Que insigne alvedrio
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino. prende à idéia cega
teu vago retrato?
Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si: A distante viagem
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom . adormece a espuma
breve da palavra:
Não me quer arrastar como meus tios outrora, - máquina de aragem
nem lentamente conduzida, que percorre a bruma
como meus avós, de serenos olhos certeiros. e o deserto lavra.
222 CECíLIA MEIRELES / OBRA POÉTICA. JJAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS ! MAR ABSOLUTO 223
Ceras de mistério Também não sei com segurança, muitas vezes,
selam cada poro da oferta que vai comigo, e em que resulta,
da vida entregada: , . ois o mundo é mágico!
Em teu mar, no 1mpeno t ocou-se o Lírio, e apareceu um Cavalo Selvagem.
de exílio onde moro, B um anel no dedo pode fazer desabar da lua um temporal.
tudo é igual a nada.
Já vês que me enterneço e me assusto,
Capitão que conte . entre as secretas maravilhas.
quem és, porque existes, B não posso medir todos os ângulos do meu gesto.
deve ter havido.
Eu? _ bebo o horizonte. Noites e noites, estudei devotamente
Estrelas mais tristes. nossos mitos, e sua geometria.
Coração perdido.
por mais que me procure, antes de tudo ser feito,
Sonolentas velas eu era amor. Só isso encontro.
hoje dobraremos: Caminho, navego, vôo,
_ e a nossa cabeça. _ sempre amor,
Talvez dentro delas Rio desviado, seta exilada, onda soprada ao contrário,
ou nos duros remos - mas sempre o mesmo resultado: direção e êxtase.
teü NOME apareça.
A beira dos teus olhos,
por acaso detendo-me,
que acontecimentos serão produzidos
em mim e em ti?
CONTEMPLAÇÃO
Não há resposta.
NÃo Acuso. Nem perdôo. Sabem-se os nascimentos
Nada sei. De nada. quando já foram sofridos.
Contemplo.
Tão pouco somos, - e tanto causamos,
Quando os homens aparecei am, com tão longos ecos!
eu não estava presente. Nossas viagens têm cargas ocultas, de desconhecidos vínculos.
Eu não estava presente, Entre o desejo de itinerário, uma lei que nos leva
quando a terra se desprendeu do sol. age invisível e abriga
Eu não estava presente. mais que o itinerário e o desejo.
quando o sol apareceu, no céu.
E, antes de haver o ceu, Que te direi, se me interrogas?
EU NÃO ESTAVA PRESENTE. As nuvens falam?
Não. As nuvens tocam-se, passam , desmancham-se.
Como hei de acusar ou perdoar? As vezes, pensa-se que demoram, parece que estão paradas . ..
Nada sei. - Confundiram-se.
Contemplo.
E até se julga que dentro delas andam estrelas e planetas.
~h, aparência. . . Pode talvez andar um tonto pássaro perdido.
Parece que às vezes me falam. oz sem pouso, no tempo surdo.
Mas também não tenho certeza.
Quem me deseja ouvir, ne.stas paragens Não acuso nem perdôo.
onde todos somos estrangeiros? Que faremos, errantes entre as invenções dos deuses?
224 CEC1LlA MEIR E L ES / OBRA PO E TI CA. MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 225
E u não estava presente, qu ando form aram Formas, desenho
a voz tão fr ágil dos pássaros. que tive, e esqueço!
-Falas, desejo
Quando as nuven s começaram a existir, e movimento
qual de nós estava presente? - a que tremendo,
vago segredo
ides, sem medo?!

PRAZO DE VIDA Sombras conheço:


não lhes ordeno.
No MEIO do mundo faz frio , Como precedo
faz frio no meio do mundo, meu sonho inteiro,
muito frio. e após me f)erco,
sem mais governo?!
Mandei armar o meu navio. Nem me lamento
Volveremos ao mar profundo, nem esmoreço:
meu navio! no meu silêncio
há esforço e gênio
No meio das águas faz frio. e suave exemplo
Faz frio no meio das águas, de mais silêncio. /
muito frio.
Não permaneço.
Marinheiro serei sombrio, Cada momento
por minha provisão de mágoas. é meu e alheio.
Tão sombrio! Meu sangue deixo,
breve e surpreso,
No meio dá vida faz frio , em cada veio
faz frio no me io da vida. semeado e isento.
Muito frio. Meu campo, afeito
à mão do vento,
O universo ficou vazio, é alto e sereno:
porque a mão do amor foi partida AMOR. DESPREZO.
no vazio .
Assim compreendo
o meu perfeito
acabamento.
AUTO-RETRATO
Múltipla, venço
SE ME CONTEMPLO, este tormento
tantas me vejo, do mundo eterno
que não entendo que em mim carrego:
quem sou, no tempo e, una, contemplo
do pensamento. (,) jogo inquieto
em que padeço.
Vou desprendendo
elos que tenho, E recupero
alças, enredos ... o meu alento
E é tudo imenso ... e assim vou ~ endo.
MEJRELES.-8
226 CECfLTA MEIRELES / OBRA POl!:TICA #AR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS ! MAR ABSOLUTO 227 l
Ah , como dentro Com que doçura ,a transparente aurora
de um pns10neiro tece na fina seda do arrozal
há espaço e jeito aéreos desenhos de orvalho! Nem lágrima,
nem pérola, nem íris de cristal ...
para esse apego
a um deus supremo, Com que doçura as borboletas brancas
e o acerbo intento prendem os fios verdes do .arrozal
do seu concerto com seus leves laços! Nem dedos, nem pétalas,
com a morte, o erro ... nem frio aroma de anis em cristal.

(Voltas do tempo Com que doçura o pássaro imprevisto


sabido e aceito de longe tomba no verde arrozal!
do seu desterro .. . ) - Caído céu, flor azul, estrela última:
súbito sussurro e eco de cristal.

VIGILÂNCIA COMPROMISSO

A ESTRELA que nasceu trouxe um presságio triste; TRANSPORTAM meus ombros secular compromisso.
inclinou-se o meu rosto e chorou minha fronte: Vigílias do olhar não me pertencem;
que é dos barcos do meu horizonte? trabalho dos meus braços
é sobrenatural obrigação.
Se eu dormir, aonde irão esses errantes barcos,
dentro dos quais o destino carrega Perguntam pelo mundo
almas de angústia demorada e cega? olhos de antepassados;
querem, em mim, suas mãos
o inconseguido.
E como adormecer nesta Ilha em sobressalto, Ritmos de construção
se o ·perigo do mar no meu sangue se agita, enrijeceram minha juventude,
e eu sou, por quem navega, a eternamente aflita? e atrasam-me na morte.
Vive! - clamam os que se foram,
E que deus me dará força tão poderosa ou cedo ou irrealizados.
para assim resistir toda a vida desperta Vive por nós! - murmuram suplicantes.
e com os deuses conter a tempestade certa?
Vivo .por homens e mulheres
A estrela que nasceu tinha tanta beleza de outras idades, de outros lugares, com outras falas.
que voluntariamente a elegeu minha sorte. Por ínfantes e velhinhos trêmulos.
Mas a beleza é o outro perfil do sofrimento, Gente do mar e da terra,
e só merece a vida o que é senhor da morte. suada, salgada, hirsuta.
Gente da névoa, apenas murmurada.

B como se ali na parede


MADRUGADA NO CAMPO estivessem a rede e os remos,
o mapa,
COM QUE DOÇURA esta brisa penteia e lá fora crescessem uva e trigo,
a verde seda fina do arrozal - e à porta se chegasse uma ovelha,
Nem cílios, nem pluma, nem lume de lânguida que me estivesse mirando em luar,
lua, nem o suspiro do .cristal. e perguntando-se, também.
228 CECfLIA MEIRELES / OBRA POETIC,t(
fv[AR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS ! MAR ABSOLUTO 229
Esperai! Sossegai!
Também como este ar da noite:
Esta sou eu - a inúmera. sussurrante de silêncios,
Que tem de ser pagã como as árvores cheio de nascimentos e pétalas.
e, como um druida, mística. Igual à pedra detida,
Com a vocação do mar, e com seus símbolos. sustentando seu demorado destino.
Com o entendimento tácito, E à nuvem, leve e bela,
instintivo, vivendo de nunca chegar a ser.
das raízes, das nuven s,
dos bichos e dos arroios caminheiros. À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
Andam arados, longe, em minha alma. ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.
Andam os grandes navios obstinados.
Sou minha assembléia, Sede assim qualquer coisa
noite e dia, lucidamente. serena, isenta, fiel.

Conduzo meu povo Não como o resto dos homens.


e a ele me entrego.
E assim nos correspondemos.

Faro do planeta e do firmamento, MUSEU


bússola enamorada da eternidade,
um sentimento lancinante de horizontes, ESPADAS FRIAS, nítidas espaáas,
um poder de abraçar, de envolver duras viseiras já sem perspectiva,
as coisas sofredoras, cetro sem mãos, coroa já não viva
e levá-las nos ombros, como os anhos e as cruzes. de cabeças em sangue naufragadas;
anéis de demorada narrativa,
E somos um bando· sonâmbulo leques sem falas, trompas sem caçadas,
passeando com felicidade pêndulos de horas não mais escutadas, -
por lugares sem sol nem lua. espelhos de memória fugitiva;
ouro e prata, turquesas e granadas,
que é da .presença passageira e esquiva
das heranças dos poetas, malogradas:
a estrela, o passarinho, a sensitiva,
SUGESTÃO a água que nunca volta, as bem-amadas,
a saudade de Deus, vaga e inativa ... ?
SEDE ASSIM - qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre, MINHA SOMBRA


sem pergunta.
TRANQÜILA SOMBRA
Onda que se esforça, que me acompanhas,
por exercício desinteressado. em pedras roxas,
no ar te levantas,
Lua que envolve igualmente acompanhando
os noivos abraçados meus movimentos,
e os soldados já frios : pisada e escrava
por tanto tempo!

..
230 CECíLIA METRELES / OBRA POÉTICA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOCOTO 23!

Vejo-te e choro Sou tão visível


da companhia: que não se estranha
que nem sou tua o meu sorriso.
nem tu és minha. E com tamanha
E me pertences clareza pensa
e te -p ertenço, que não preciso
mais do que à vida dizer que vive
e ao pensamento. minha presença.
E estou de longe,
Sombra por sombra compadecida.
toda abraçada, Minha vigília
levo-te como é anfiteatro
anjo da guarda. que toda a vida
Tens tudo quanto cerca, de frente.
me quero e penso: Não há passado
- frágil, exata. nem há futuro.
(Amor. Silêncio.) Tudo que abarco
se faz presente.
Ao despedir-me Se me perguntp.m
do mundo humano pessoas, datas,
sei que te extingues pequenas coisas
sem voz nem pranto, gratas e ingratas,
no mesmo dia. cifras e mar.cos
Preito como esse de quando e de onde,
tu, só, me rendes, - a minha fala
sombra que tinha! tão bem responde
que todos crêem
Imensa pena, que estou na sala.
que assim te deixe,
- ó companheira, E ao meu sorriso
sem companhia! ... vós me sorris . ..
Correspondência
do :Paraíso
çla nossa ausência
desconhecida
IRREALIDADE e tão feliz!

COMO NUM SONHO


aqui me vedes:
água esc.orrendo ROMANTISMO
por estas redes
de noite e dia. QUEM TIVESSE um amor, nesta noite de lua,
A minha fala para pensar um belo pensamento
pare<:e mesmo e pousá-lo no vento!
vir do meu lábio
e anda na sala Quem tivesse um amor - longe, certo e impossível -
suspensa em aS'a para se ver <:horando, e gostar de chorar,
de alegoria. e adormecer de lágrimas e luar!
232 CEClLIA MEIRELES / OBRA POf:TICA fv/AR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 233
Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas, Meus olhos te ofereço :
partisse por nuvens, dormente e acordado, espelho P.a ra a face
levitando apenas. pdo amor levado . .. que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
Quem tivesse um amor, sem dúvida nem mácula, jamais ninguém te esqueça.
sem antes nem depois: verdade e alegoria ...
Ah! quem tivesse . . . (Mas, quem teve? quem teria?) Então, da seda e nácar,
toda de orvalho trêmula,
serás eterna. E efêmero
o rosto meu, nas lágrimas
PASTORZINHO MEXICANO do teu orvalho .. . E frágil.

PASTORZINHO mexicano :
entre o duro agave e o cordeiro terno,
sentou-se em descanso. CONVITE MELANCÓLICO
Entre o duro agave e o cordeiro terno,
pastorzinho mexicano, VINDE TODOS, e contemplai-nos:
que somos os da terra fatigados,
tudo é verde campo: de cabelos hirsutos 2
para o agudo espinho, para o frouxo velo
e .para o silêncio do que estás pensando. e de joelhos sem força,
com ·palavras, paisagens, figuras humanas
pregadas para sempre em nossa memória.
Pastorzinho mexicano
de sonho coberto!
Teus olhos têm o mesmo espanto Já nem queremos nada,
dos de teu rebanho. tanto estamos desgostosos:
Anda a serra no céu e no campo nem água nem ouro nem beijo.
Para nunca mais - o horizonte e a sua flor!
Anda a serra no céu e o campo
deslizando seu corpo de ferro. Podeis vir, que já se extinguiram as revelações.
Vai andando e carregando Nada vos custa o espetáculo.
- olha como tão bem carrega! Rasgou-se o traçado em que nos gastamos em sonho
as três crias de seu flanco: e a arquitetura que trazíamos '
duro agave, voa de nôvo, em números celestes.
cordeiro terno,
pastorzinho mexicano: Vinde e contemplai-nos, que entardece.
Nossas sombras caminham para o reino da Sombra.
Nunca mais sabereis como foram nossos olhos:
vinde vê-los .para (se isto ainda se repetir)
!.º MOTIVO D;\ ROSA vossos filhos reconhecerem prontamente
os modos e o destino dos que apenas amaram,
e passaram,
VEJO-TE EM SEDA e nácar, amarrados,
e tão de orvalho trêmula,
que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas ~ eles, que tinham vindo
por ser bela e ser frágil. mostrar apenas um divino dinamismo!

..
234 CEC fLIA MEIRELES / OBRA PO ÉTI CA. MAR ABSOLUTO E OUTROS PO EM A S / MAR ABSOLUTO 235

DES~JO DE REGRESSO ESTE É O LENÇO

DEIXAI-ME nascer de novo, ESTE É o L E N ÇO de Marília,


nunca mais em terra estranha, pelas suas mãos lavrado,
mas no meio do meu povo, nem a ouro nem a prata,
com meu céu, minha montanha, somente a ponto cruzado.
meu mar e minha família. Este é o lenço de Marília
para o Amad,o.
E que na minha memória
fique esta vida bem viva, Em cada ponta, um raminho,
para contar minha história preso num laço encarnado;
de mendiga e de cativa no meio, um cesto de flores,
e meus suspiros de exíl io. por dois pombos transportado.
Não flores de amor-perfeito,
mas de malogrado!
Porque há doçura e beleza
na amargura atravessada,
e eu quero a memória acesa Este é o lenço de Marília :
depois da angústia apagada. bem vereis que está manchado:
Com que afeição me remiro! será do tempo perdido?
será do tempo passado?
Pela ferrugem das horas?
Marinheiro de regresso ou por molhado
com seu barco posto a fundo, em águas de algum arroio
às vezes quase me esqueço singularmente salgad9?
que foi verdade este mundo.
(Ou talvez fosse mentira . .. )
Finos azuis e vermelhos
do largo lenço quadrado,
- quem pintou nuvens tão negras
DISTÂNCIA neste pano delicadô,
sem dó de flores e de asas
QUEM sou EU, a que está nesta varanda, nem do seu recado?
em frente deste mar, sob as estrelas,
vendo vultos andarem? Este é o lenço de Marília,
por vento de amor mandado.
Sabem, acaso, os vultos, quem vão sendo? Para viver de suspfros
Sentem o céu, as águas, quando passam? foi .pela sorte fadado:
Ou não vêem, ou não lembram? breves suspiros de amante,
- longos, de degredado!
Como alguém deste mundo para a lua
dirige os olhos, meditando coisas Este é o lenço de Marília :
e assim no vago mira. nele vereis retratado
o destino dos amores
- Para este mundo vão meus pensamentos, por um lenço atravessado:
tão estrangeiros, tão desapegados, que o lenço para os adeuses
como se esta varanda fosse a Lua. e o pranto foi inventado.
236 CECILIA MEIRELES / OBRA POÉTICA !vfAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 237
Olhai os ramos de flores CANÇÃO
de cada lado!
E os tristes pombos, no meio, OUVI CANTAR de tristeza,
com o seu cestinho parado
sobre o tempo, sobre as nuvens porém não me comoveu.
do mau fado! Para o que todos deploram,
que coragem Deus me deu!
Onde está Marília, a bela? Ouvi cantar de alegria.
E Dirceu, com a lira e o gado? No meu caminho parei.
Meu coração fez-se noite.
As altas montanhas duras, Fechei os olhos. Chorei.
letra a letra, têm contado
sua história aos ternos rios, Dizem que cantam amores.
que em ouro a têm soletrado ... Não quero ouvir mais cantar.
Quero silêncios de e~trelas,
E as fontes de longe miram voz sem promessas do mar.
as janelas do sobrado.

Este é o lenço de Marília CARAMUJO DO MAR


para o Amado.
CARAMUJO DO MAR, caramujo,
Eis o que resta dos sonhos: nas areias seco e sujo ...
um lenço deixado.
"Fui rosa das ·ondas, da lua e da aurora,
Pombos e flores, presentes. e aqui estou nas areias, cujo
Mas o resto, arrebatado. pó vai gastando meu dourado flanco,
sem azuis e espumas, agora.
Caiu a folha das árvores, Vai secando o sol meu coração branco,
muita chuva tem gastado meu coração de água, divino, divino,
pedras onde houvera lágrimas. onde a origem do mundo mora.
Tudo está mudado.
Vou ficando ao vento todo cristalino,
Este é o lenço de Marília Quanto mais me perco, me transformo e fujo
como foi bordado. do intranqüilo mundo de outrora.
Só nuvens, só muitas nuvens
vêm pousando, têm pousado Minha essência plástica e pura
entre os desenhos tão finos docilmente se transfigura
de azul e encarnado. e vai sendo vida sonora.
Conta já século e meio
de guardado. Morto-vivo, em silêncio rujo;
da praia rasa, absorvo a altura,
Que amores como este lenço e celebro as ondas, as luas, a aurora ...
têm durado, as águas que dançam, a espuma que· chora, .. "
se este mesmo está durando
mai~ que o amor representado?
Caramujo do mar, caramujo,
nas areias seco e sujo . .•
238 CECILIA MEIRELES / OBRA POf:TIC,-i t.JAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 239

MULHER ADORMECIDA - ó pássaro que vais morrendo,


saberás que também se morre?
MORO NO VENTRE da noite:
sou a jamais nascida. A que dorme vai caminhando,
E a cada instante aguardo vida. a outra, desperta e imóvel jaz.
- Aonde te dissE:ram que voasses?
As estrelas, mais o negrume Segue teu rumo e canta em paz.
são minhas faixas tutelares,
e as areias e o sal dos mares.

Ser tão completa e estar tão longe! PRELúDJO


Sem nome e sem família cresço,
e sem rosto me reconheço . QUE TEMrO- SERIA,
ó sangue, ó flor,
Profunda é a noite onde moro. em que se amaria
Dá no que tanto se procura. de amor.
Mas intransitável, e escura.
Pérolas de espuma.
Estarei um tempo divino de espuma e sal.
como árvore em quieta semente, Nun'ca mais qenhuma
dobrada na noite, e dormente. igual.

Era mar e lua:


Até que de algum lado venha minha voz, mar.
a anunciação do meu segredo Mas a tua. . . a tua,
desentranhar-me deste enredo, - luar!
arrancar-me à vagueza imensa, Coroa divina
consolar-me deste abandono, que a própria luz
mudar-me a posição do sono. nunca mais tão fina
produz.
Ah, causador dos meus olhos,
que paisagem cria ou pensa Que tempo seria,
·para mim, a noite densa? ó sangue, ó flor,
em que se amaria
de amor!

SUSPIRO
LAMENTO DA NOIVA DO SOLDADO
NÃo TENHO NADA com as pessoas,
tenho só contigo, meu Deus. COMO POSSO .FICAR nesta casa perdida,
neste mundo da noite,
- Pássaro que .pelo ar deslizas, sem ti?
que pensamentos são os teus?
Ontem falava a tua boca à minha boca . ..
Minha estrela vai perseguida E agora que farei,
e por entre círculos corre. sem saber mais de ti!
240 CECtLIA MEIRELES / OBRA PO ÉTIC A fV[AR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 241
Pensavam que eu vivesse por meu corpo e minha alma! POR BAIXO DOS LARGOS F1CUS ...
Todos os olhos são de cegos. . . Eu vivia
unicamente de ti! POR BAIXO dos largos fícus
Teus olhos, que me viram, como podem ser fe chados? plantados à beira-mar,
Aonde foste, que não me chamas, não me pe-des, em redor dos bancos frios
como serei agora, sem ti? onde se deita o luar,
vão ·passando os varredores,
Cai neve nos teus pés, no teu peito, no teu calados, a vassourar.
coração ... Longe e solitário ... Neve, neve .
E eu fervo em lágrimas, aqui! Diríeis que andam sonhando,
se assim os vísseis passar,
por seu calmo rosto branco,
sua boca sem falar,
INSTRUMENTO - e por varrerem as flores
murchas, de verem amar.
A CANA AGRESTE ou a harpa de ouro
permitem que alguém as acorde E por varrerem os nomes
com brando pulso ou leve sopro. desenhados par a par,
Têm memória de águas e vento no vão desejo dos homens,
e - além dos mundos desvairados - na areia vã, de pisar ...
do silêncio, o etéreo silêncio! - por varrerem os amores
que houve naquele lugar.
Seus poderes de eternidade
tornam imenso e inesquecível Visto de baixo, o arvoredo
o som mais transitório e suave. é renda verde de luar,
desmanchada ao vento crespo
Chega-te concentrado e cauto, que à noite regressa ao mar.
que o universo inteiro te escuta!
Frase inútil, suspiro falso Vão passando os varredores;
vão ~passando e vão varrendo
vibram tão poderosamente a terra, a lembrança, o tempo.
que a mão pára, o lábio emudece,
com medo do seu próprio engano. E, de momento em momento,
E o eco sem perdões o repete varrem seu próprio passar . ..
para um ouvinte sobre-humano.

OS PRESENTES DOS MORTOS


EPIGRAMA
Os PRESENTES .dos mortos
PELO ARCO-ÍRIS tenho andado. arrastam-se ternamente
Mas de longe, e sem vertigens. no encalço dos vivos.
E assim pude abraçar nuvens,
para amá-las e perdê-las. Usam um silêncio diferente,
pousam de um modo peculiar.
Foi meu professor um pássaro,
dono de arco-íris e nuvens, Como também morreram um pouco,
que dizia com as asas, têm uma feição pálida e ausente.
em direção às estrelas. Comanda-os de longe esquiva estrela.
242 CECILIA MEIRELES / OBRA POffflCA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 243

Como, porém, não morreram de todo, Aqueles que inutilmente amou, estão longe ou perto?
aproxima-se com branduras de fantasma, Não sabe, não se lembra, não se interessa, já não tem
e a cada instante se detêm, necessidade de querer, de ser querida: no seu mundo
medrosos, por se encontrarem na nossa frente. ela é tudo, ela é todas, multiplicada do ninguém.

Somos tão bruscos, tão agressivos! (Olhos fechados. Coração quieto.)


É tão sensível aos delicados modos da morte
a condição do áspero ser vivente! A suave morta é areia onde asa nenhuma bate sombra.
Areia cega às nuvens e às estrelas. Tão perdida ...

Digam-lhe o que quiserem. Chorem. Amem-na. É agora ausente


por completo, como aprendeu, dia a dia, na vida.
2.º MOTIVO DA ROSA
(Olhos fechados: e instruída.)
A Mário de Andrade

POR MAIS QUE TE CELEBRE, não me escutas,


embon em forma e nácar te assemelhes O TEMPO NO JARDIM
à concha soante, à musical orelha
que grava o mar nas íntimas volutas. NESTES JARDINS - há vinte anos -, andaram os nossos muitos
[passos,
Deponho-te em cristal, defronte a espelhos, e aqueles que então éramos se contemplaram nestes lagos.
sem eco de cisternas ou de grutas ...
Ausências e cegueiras absolutas Se algu1!1 de nós, avistasse o que seríamos com o tempo,
ofereces às vespas e às abelhas. todos nos choranamos, de mútua pena e susto imenso.

e a quem te adora, ó surda e silenciosa, E assim nos separamos, suspirando dias futuros
· e cega e bela e interminável rosa; e nenhum se atrevia a desvelar seus próprios m'undos.
que em tempo e aroma e verso te transmutas!
E ago"ra que separados vivemos o que foi vivido,
Sem terra nem estrelas brilhas, presa com doce amor choramos quem fomos nesse tempo antigo.
a meu sonho, insensível à beleza
que és e não sabes, porque não me escutas ...
DIANA
A Manuel Bandeira
SUAVE MORTA
AH, o TEMPO inteiro
À SUAVE MORTA, que dizem os figurinos abertos perseguindo, de bosque em bosque,
rastros desfigurados!
e seu espelho e seu perfume e seus anéis? ~
As flores tocam-lhe
(Olhos fechados . . Narina imóvel.) com bloços de aço a carne rápida.
E a chuva enche-lhe os olhos.
Que :Podem dizer os poetas? E agora os _santos qu~ l~;. importam?
E os amigos? Por onde os rostos verdadeiros, e os mf1e1\1 Manejava o arco
de tal maneira suave e exata
(Olhos fechados. Memória dormida.) que . era belo ser vítima.
244 CEClL!A MEIRELES ! OBRA POE:T/CA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 245
Voltava à noite, Guardei o vento que tocava
vazia a aljava, e pensativa, a harpa dos teus cabelos verticais,
com sua sombra, apenas. e teus olhos estão aqui, e são conchas brancas,
docemente fechados, como se vê nas estátuas.
Nenhuma caça Guardei teu lábio de coral róseo
valera a seta nem o gesto e teus dedos de coral branco.
da caçadora triste. E estás para sempre, como naquele dia,
comendo, vagarosa, fibras elásticas de crustáceos,
Nenhuma seta, mirando a tarde e o silêncio
nenhum gesto valera o grito e a espuma que te orvalhava os pés.
reproduzido no eco.
Não te acabarás, Evelyn.
Eu te farei aparecer entre as escarpas,
BEIRA-MAR seria serena,
e os que não te viram procurarão por ti
que eras tão bela e nem falaste.
Sou MORADORA das areias,
de altas espumas: os navios Evelyn ! - disseram-me,
passam pelas minhas janelas . apontando-te entre as barcas.
como o sangue nas mmhas veias,
como os peixinhos nos rios ... E eras igual a meu destino:

Não têm velas e têm velas ; Evelyn - entre a água e o céu.


e o mar tem e não tem sereias; Evelyn - entre a água e a terra.
e eu navego e estou parada, Evelyn - sozinha -
vejo mundos e estou cega, entre os homens e Deus.
·porque isto é mal de família,
ser ,de areia, de água, de ilha ...
E até sem barco navega
quem para o mar foi fadada. XADREZ
LEVA-ME o TEMPO para a frente,
Deus te proteja, Cecília, certo de sua direção.
que tudo é mar - e mais nada. Pausado passo indiferente!
(Peão.)

EVELYN Que ímpeto me vem, de repente,


e se esforça por contrariá-lo?
ó nervosa crina, asa ardente!
NÃO TE ACABARÁS, Evelyn.
(Cavalo.)
As rochas que te viram são negras, entre espumas finas;
sobre elas giram lisas gaivotas delicadas, . . . Talvez meu poder aumente,
e ao longe as águas verdes revolvem seus 1ardms de vidro. e o tempo invicto alcance e toque . ..
Como, porém, mudar-lhe a ação?
Não te acabarás, Evel}rn. (Roque.) .
246 CEC/l/11 MEIREU:S I OBRA POllTICA MAR AJJSOl.UTO E OUTJ<OS POEMAS 1 MAR ABSOl.UTO 247
Lcva·me o tempo para a frente, Palavtas tristes que não me dissesses,
di7.cndo passo a passo: ...es minha!" Jicnlidos no vcntó, PQr outro h1~nr,
E acrescentando. por piedade: os deuses do.ti cantp0$ tts recolhcri0tm,
para O.S lrnnsform:1r.
"Rainha!'•
i·u eras a fir\!OJ'C andando n!t 1erra.
E apen:1s digo, debiJmcnte, con1 rníz(.~ vivas, pássaros a cantar.
conto quem sonh3 e se persuade: Contigo. con1igo. Atnonio rvlnc.hado
··Tua, 3penas tua. serei . .. foro. bo1n passear.

Rei!" Por n1on1cs e vales ir andando, aodnndo


e, entret!l.çadorc.~ que vão o caçar. •
ouvir teus: lebréus perseguindo a Jun,
corçn verde. no ar.
DOCE CANTAR

TÃO LISO ESTÁ nteu coração, REALIZAÇÃO DA VIDA


tão lisos. meus pensamentos,
que as lágrinias rolnrão, NÃO ;\1E PEÇAS que cante.
e os conh!ntnn1entos. pois nndo longe.
pois ando agorn
Folhas verdes e encarnadas muito esquecida.
tão lisas nunca scrdo,
nem orvalhadas. Vou n1irando no bosque
1
o arroio claro
Nunca serão as espádas <: o provisória
lisas como o n1eu coração. nor escondida.
mas gr·ossas e enferruja.das.
E procuro minhn nlma
E aos meus lisos pensamentos e o corpo, n1csmo.
nunca se compararão e a voz outrorn
nem luzes nea1 ventos. cn1 mi1n seniida .
Que as imagens e os n1omcntos E n1e \'ejo somente
rugas sempre -São. pcqucnu son1bru
sem rempo e non1e,
ní.s10 perdidn,
POEMA A ANTONIO MACHADO - nis10 que se buscam
pelas estrelas.
CoNTIOO, A'N'TONtO, Antonio Machado,
com febre e lágrimas,
contjgo quisera passear, e que era a vida.
por maithã de serra, por noite de .rio,
por nascer de Juar.
DESAPEGO
Palavra$ calmas que fosses dizendo,
seriam folb.as movidos no ar. A VIDA VAI deprcssn e devagar.
Tu eras a ãrvore, a árvore, Antonio, Mas n iodo 1nomento
com sua alma· prclimjnar. penso que posso ncabac.
248,. CECfLIA MEIRELES / OBRA POÉTICA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 249
Porque o bem da vida seria ter Era das águas, vinha das águas:
mesmo no sofrimento fota batizado Batista.
gosto de prazer. A velhinha chora. O velhinho medita.
Já nem tenho vontade de falar
senão com árvores, vento, Não vem certa? Onde está, que não manda uma letra?
estrelas, e águas do mar. Que demora tão esquisita!
Perto do amor. Longe da vista.
E isrn pela certeza de saber Era das águas, vinha das águas.
que nem ouvem meu lamento
nem me podem responder. O ,p rimeiro torpedo atinge e precipita
o primeiro navio: o do soldado Batista.
O velhinho reflete: "Oxalá não tenha
BAILE VERTICAL ido para longe. . . para a África. . . e assista
horrores ... " E a · velhinha respC1nde, contrita:
DESLIZAMOS tão fluidos, vagamente, "Era das águas, vinha das águas,
neste chão vertical! Que Deus o proteja, e a Virgem bendita,
Nossos braços não lutam, na torrente, e seu padrinho, São João Batista .. . "
porque este é um baile sobrenatural.
Ambos se afligem. (Quem sabe, nas águas ... ?)
Caem todos os nossos dons humanos Mas não dizem nada. Nenhuma t.credita
- palavras, pensam~ntos ... - V~o, e receia também que o outro não resista . ..
mais depressa que nos, aos derradeiro~ 1planos
onde, afinal, se deixa mesmo o coraçao. Era das águas, vinha das águas.
Fora-se nas águas, na data prevista
Mas é tão grande a festa!. . . Há tanta pressa, pela curva da vida, em ambas as mãos inscrita.
tamanha confusão, tal vertigem pelo ar,
que ninguém mais pergunta onde começa, Nas cadeiras de vime, os velhinhos sent;idos
e parece impossível terminar. perguntam a quem chega: "Quanto dista
a África do Brasil? Que distância infinita!"
Era das águas, vinha das águas, foi-se nas águas ...
BALADA DO SOLDADO BA TJST A Os jornais já trazem, o rádio já grita:
só eles não sabem! - Morreu no mar o rnldado Batista.
ERA DAS ÁGUAS, vinha das águas:
trazia sua sorte escrita Só eles não sabem! Não saberão por muito temipo ...
na palma das mãos, o soldado Batista. O amor preserva. O amor ressuscita.
Enquanto não souberem, sonharão que ainda exista
Nos primeiros dias de sangue,
uma velhinha chorava aflita, em algum lugar seu filho, o soldado Batista.
soletrando o seu nome na lista.
Era das águas, vinha das águas.
Um velhinho disse: "Permita VIMOS A LUA
Deus que acabe a guerra!" Na c1ista
VIMOS A LUA nas~er, na tarde clara.
dos mares já dançava o navio,
e o moço, por ser fatalista, Orvalhavam diamantes, as tranças aéÍeas das ondas
sorri para a onda que o solicita. e as janelas abriam-se para florestas cheias de cigarras.
250 CECILIA MEIRELES / OBRA ' POÉTICA fv[AR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 251
Vimos também a nuvem nascer no fim do oeste. Não suspires .pelo que existe
Ninouém lhe dava importância. nesses caminhos do sol e da lua.
Par:ce uma pena solta - diziam.
Uma flor desfolhada. Semeia, colhe, perde, e.a nta,
Vimos a lua nascer, na tarde clara. que a cavalgada leva seu destino.
Subia com seu diadema transparente,
vagarosa, suportando tanta glória. Ferraduras ígneas virão
procurar onde estás, na hora que é tua.
Mas a nuvem pequena corria veloz pelo céu.
Reuniu exércitos de lã parda, Entre essas patas de aço e nuvem,
levantou :POr todos os lados o alvoroto da sombra. estão :Presos teus campos e teus mares.
Quando quisemos outra vez luar, Irás ao céu num selim de ouro,
ouvimos a chuva precipitar-se nas vidraças, sem saberes quem pôs teu pé no estribo.
e a floresta debater-se com o vento.
Rodarás entre a poeira e Sírius,
Por detrás das nuvens, porém, com esses ginetes sem voz e sem sono,
sabíamos que durava, gloriorn e intacta, a lua.
até vir .o mais poderoso
.
que esmague a rosa ,guardada
1
'!m teu peito.
CAVALGADA Depois, continuarão saltando, mas tão longe
que não perturbarão tuas pálpebras soterradas.
ESCUTA o GALOPE certeiro dos dias
saltando as roxas barreiras da aurora.

Já passaram azuis e brancos:


cinzentos, negros, dourados passaram.
RETRATO OBSCURO
Nós, entretidos pela terra,
não levantamos quase nunca os olhos. VÊEM-SE PASSAR seus dois :pés,
serenos e certos.
E eles iam de estrela a estrela, Mas, como as pedras admiradas
asas, crinas e caudas agitando. e o pó jacente
e as mínimas vidas contritas,
Todos belos, e alguns sinistros, sabe-se que há uma espécie de ninho em redor deles,
com centelhas de sangue pelos cascos. que lhes retira o peso, e governa,
governa seu destino e o dos demais.
Se alguém lhes suplicasse: "Parem!"
- não parariam - que invisível látego Assim é ela.
ao flanco impôs-lhes ritmo certo. Entre pássaros e flores,
Se por ·acaso alguém dissesse: "Voem! ~ preciso procurar aprender suas mãos;
inclinam-se, giram, passam,
Mais depressa e para mais longe!" pertencem a outros enredos,
- veria o que é, no céu, a voz humana . .. têm ofícios longe da terra.
Escuta o galope sem pausa Perguntam-me por ela.
da cavalgada que vai para oeste. Tão triste, responder!
252 CECíL!A MEIRELES / OTJRA POÉTICA fv[AR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 253

Ela chega, toca-me, deixa-me. PÁSSARO AZUL


Eu nem olho para ela.
Doce e amargo é pensá-la , TUA ESTIRPE habitara alcândoras divinas.
e estar à sua disposição, tacitamente. Com pé~ de pr~ta e anil desceste antigos tempos.
Sou o degrau da escada e o fecho em que pousam seus dedos. E em mmhas maos pousaste, e o silêncio explicou-se
Às vezes, seu baço espdho, por tua voz, que era de nunca e era de sempre.
e o campo onde um momento desliza seu véu.
Nomes de estrelas vinham sobre as tuas asas,
Ela vai sempre na frente. e era o teu corpo uma ampulheta pressurosa.
Sozinha. Com um silêncio de bússola e deusa. Entre as nuvens procuro o último azul que foste ...
Livre de· encont: os, paradas, limites, Mas, de tanto saber, nada mais se deplora.
anda leve como as borboletas
e segura como o sol no céu. Como te penso tanto, e tã.o longe procuro
tua música além das nuvens, não te esqueças
E é diante de suas mãos que se sente
que possó estar um dia, em lágrima extraviada.
esta miséria taciturna,
pólen do céu brilhando entre os altos planetas.
a obrigação do horizonte,
o curto espaço entre o nascimento e a morte. Mas não voltes aqui, pois é pesado e triste
o humano clima, para o teu destino aéreo.
Choro porque ela está por estar - assim perto e entre nós, Eu mal te ·posso amar, com o sonho do meu corpo
e comigo, - sem mim. condenado a este chão e sem ~osto terrestre.
Sua presença animando e enganando minha forma.
não me deixando ver até onde sou ela,
e desde onde a outra que a acompanha,
sabendo-a e sem a saber. 3. 0 MOTIVO DA ROSA

Vede a cor de seus olhos SE o MAR chegasse


como desmaia, desaparece, límpida e liberta, esta manhã,
por firmes ou oscilantes horizontes, como veria a tua face;
Sei, quando ela fala, que é diferente ·de todos, Omar Khayyam,
e, mesmo quando se parece comigo, ·fÍco seín saber se sou eu. tu, que és de vinho
e de romã,
E quando não diz nada, sofro, perguntando o ql.1e a detém, e, por orvalho e por espinho,
por lugares que apenas sinto, aço de espada e Aldebarã?
e não a posso ajudar a amar rrem a sofrer, Se Omar te visse
porque nem sofre nem ama, esta manhã,
e é pura, ausente e próxima. talvez sorvesse com meiguice
teu cheiro de mel e maçã.
Q11em podérá dizer alguma coisa certa a seu respeito? Talvez em suas mãos morenas
Ela mesma para·riá, ouvindo-se descrever~ te tomasse, e dissesse apenas:
atônita. "É curta a vida, minha irmã."
'seu rosto inviolável é como o das estrelas,
quando os homens explicam: Mas por onde anda a sómbra antiga
'.' Aquela é Sírius ... ·Aquela, Antares ... Aquela ... " do amargo astrônomo do Irã?
E como as estreias Por isso, deixo esta cantiga
a levo e me leva - incomunicável , - tempo de mim, asa de abelha
suspensa na vida, _ na tua carne eterna e vã,
sem glória e sem melancolia. rosa vermelha!
254 CECILIA MEIRELES / OBRA POÉTICA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 255
Para que vivas, porque és linda, E tão românticos seremos,
e contigo respire ainda de tão magoado romantismo,
Omar Khayyam. que as folhas dos galhos supremos
que se de~ prenderem no abismo

TRANSIÇÃO pousarão na nossa memória


- secas borboletas caídas -
o AMANHECER e o anoitecer e choraremos sua história,
~parecedeixarem-me intacta. - resumo de todas as vidas .
Mas os meus olhos estão vendo
o que há de mim, de mesma e exata.

Uma tristeza e uma alegria


o meu pensamento entrelaça: SAUDADE
na que estou sendo a cada instante,
outra imagem se despedaça.
NA AREIA do Douro, orvalhada de ouro,
menina Ondina,
. Este mistério me pertence: era lindo brincar.
que ninguém de fora repara Transparentes peixes, translúcidos seixos
nos turvos rostos sucedidos entre os nossos dedos vinham desmaiar.
no tanque da memória clara.

Ninguém distingue a leve sombra Por negras colinas, trepavam as vinhas,


que o autêntico desenho mata. menina Ondina,
E para os outros vou ficando muito longe de nós.
a mesma, continuada e exata. Dentro das figueiras, vozes zombeteiras
armavam espelhos para a nossa voz.
(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas, Os barcos rabelos carregavam .pelo
e pelas mil que vão chegando. . rio sossegado seus largos barris.
noite e dia. . . - não consentidas, Ah, na areia clara quem sempre ficara,
mas recebidas e esperadas!) menina Ondina,
pastoreando as ondas, pastora feliz!

ROMANTI~MO
Doce era a cantiga das manhãs antigas,
menina Ondina!
Pela névoa sem fim,
SEREMOS AINDA românticos vinha o carpinteiro, com brancas madeiras
- e entraremos na densa mata, talhar barcas novas, iguais a marfim.
em busca de flores de prata,
de aéreos, invisíveis cânticos.
Neblinas tão vastas, areias tão gastas,
Nas .pedras, à sombra, sentados, menina Ondina!
respiraremos a frescura E no meu coracão
dos verdes reinos encantados caminhos tão longos para a água dos sonhos,
das lianas e da fonte pura. longos corno a areia dourada do chão ...
256 CEClLIA MEIRELES / OBRA POETICA. ]11AR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 257

E o rio corria, transportando o dia, Desenrolam-se terra e céu nessa memória


menina Ondina, de homem . O antigo é de hoje, o que vem não faz falta.
para o escondido mar. Tão perto andou do fim que sua vida é hi stória
Levava esquecidas também nossas vidas, sem elos. O resto mal o sobressalta.
com os peixes, os seixos e as coisas divinas
que morrem sem se acabar ... E pára a olhar, a ouvir, de súbito presente,
vindo outra vez, ele tão solto, ele tão ido ...
Casas. Pessoas. Fatos. . . - Este mundo! - O convalescente
regressa triste, como um cadáver arrependido.
INTERPRETAÇÃO

As PALAVRAS aí estão, uma por uma:


porém minha alma sabe mais. SURPRESA

TRAGO os CABELOS crespos de vento


De muito inverossímil se perfuma
o lábio fatigado de ais. e o cheiro das rosas nos meus vestidos.
O céu instala no meu pensamento
os seus altos azuis estremecidos.
Falai! que estou distante e distraída,
com meu tédio sem voz. Águas _borbulhantes, árvoreí; tranqüilas
vão adormentando meus tempos chorados.
Falai! meu mundo é feito de outra vida. · E a tarde oferece às mirihas pupilas
Talvez nós não sejamos nós. nuvens de flores por todos os lados.

ó verdes sombras, claridades verdes,


que esmeraldas sensíveis hei nutrido,
O CONVALESCENTE para sobre o meu coração verterdes
mirra de primaveras e de olvidos? ·
o CONVALESCENTE, diante do espelho,
examina seu branco rosto esmaecido. ó céus, ó terra que de tal maneira
Vago lilás, o lábio vermelho. ardente a amarga tenho atravessado,
Marfins. . . Lírios. . . E o quarto, um búzio em seu ouvido. por que agora pensais com tão fino cuidado
vossa mansa, calada, ferida prisioneira?
Diante do espelho, o convalescente
mira · o peito pálido e frio,
com os ossos paralelamente ...
E pensa no antigo feitio LAMENTO DA MÃE óRFÃ

de seus braços, de seu pescoço, FOGE POR DENTRO da noite,


e na direção pressurosa reaprende a ter pés e a caminhar,
de seu olhar, que era tão vívido, tão moço, descruza os dedos, dilata a narina à brisa dos ciprestes,
quando ele todo era mármore e rosa! corre entre a lua e os mármores,
vem ver-me,
E agora é débil, frouxo; e seu passo, que hesita entra invisível nesta casa, e a tua boca
diante do espelho, sente seu rumo longe e estranho. de novo à arquitetura das palavras
Entre os móveis a sua força é tímida. Levita habitua,
como um pássaro tonto sobre um ondulante rebanho. e teus olhos à dimensão e aos costumes dos vivos!

MEIRELES . - 9
258 CECILIA MEIRELES / OBRA POSTJCA. MAR ABSOLUTO E OUTROS PO EMAS / MAR ABSOLUTO 259

Vem para perto, nem que ia estejas desmanchado CARONTE


em fermentos do chão, desfigurado e decomposto!
Não te envergonhes do teu cheiro subterrâneo, CAR.ONTE, juntos agora remaremos:
dos vermes que não podes sacudir de tuas pálpebras, cu com a música, tu com os remos.
da umidade que penteia teus finos, frios cabelos
caridosos. Meus pais, meus avós, meus irmãos
já também vieram, pelas tuas mãos.'
Vem como estás, metade gente, metade universo,
com dedos e raízes, ossos e vento, e as tuas veias Mas eu sempre fui a mais marinheira:
a caminho do oceano, inchadas, sentindo a inquietação das marés. trata-me como tua companheira.

Não venhas para ficar, mas para levar-me, como outrora também Fala-me das coisas que estão por aqui,
[te trouxe, das águas, das névoas, dos peixes, de ti.
porque hoje és dono do caminho,
és meu guia, meu guarda, meu pai, meu filho, meu amor! Que mundo tão suave! que barca tão calma!
Meu corpo não viste: sou alma.
Conduze-me aonde quiseres, ao que conheces, - em teu braço Doce é deixar-se, e ternura o fim
recebe-me, e caminhemos, forasteiros de mãos dadas, do que se amava. Quem soube de mim?
arrastando pedaços de nossa vida em nossa morte,
aprendendo a linguagem desses lugares, !procurando os senhores Dize: a voz dos homens fafa-nos, ainda?
e as suas leis, ·
mirando a paisagem que começa do outro lado de nossos cadáveres, Não, que antes do meio ~ua voz é finda.
estudando outra vez nosso princípio, em nosso fim. Rema com doçura; rema devagar:
não estremeças este plácido lugar.

TRANSFORMAÇÕES Pago-te em sonho, pago-te em cantiga,


pago-te em estrela, em amor de amiga.
SOBRE O LEITO frio, Dize, a voz dos deuses onde principia,
sou folha tombada neste mundo vosso, de perene dia?
num sereno rio.
Caronte, narra mais tarde, a quem vier,
Folha sou de um galho como a sombra trouxeste aqui de uma mulher
onde uma cigarra,
nutrida de orvalho, tão só, que te fez seu amioo·
tão doce - ADEUS! - qu~ canta até contigo!
rasgou sua vida
em música - ao vento -
desaparecida ...
MADRUGADA NA ALDEIA
Sobre o leito frio,
sou folha e pertenço
· a um profundo rio. MADRUGADA na aldeia nevosa,
com as glicínias escorrendo orvalho
(Pela noite afora, os figos prateados de orvalho, '
vão virando sonho as uvas multiplicadas em orvalho
músicas de outrora ... ) as últimas uvas miraculosas. '
260 CECfLTA METRELES / OBRA POETTCA fV[AR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 261
O silêncio está sentado pelos corredores, Por entre as raízes, talvez se veja, de olhos fechados,
encostado às paredes grossas, como nunca se pôde ver, em pleno mundo,
de sentinela. cegos que andamos de iluminação.
E em cada quarto os cobertores peludos envolvem o sono : Perguhtareis: "Mas era aquilo, o teu silêncio?"
poderosos animais benfazejos, encarnados e negros. Perguntareis: "Mas ·era assim, teu coração?"
Antes que um sol luarento Ah, seremos apenas imagens inúteis, deitadas no barro,
dissolva as frias vidraças, do mesmo modo solitárias, silenciosas,
e o calor da cozinha perfume a casa com a cabeça encostada à sua própria recordação.
com a lembrança das árvores ardendo,
a velhinha do leite , de cabra desce as pedras da rua NOTURNO
antiqüíssima, antiqüíssima,
e o pescador oferece aos recém-acordados ESTRELA FRIA
os translúcidos peixes, da tua mão.
que ainda se movem, procurando o rio. Tênue cristal,
exígua flor.
Ai! Neva amor.
LEVEZA 1
Lua deserta
LEVE É o pássaro: do teu olhar.
e a sua sombra voante, Puro, glacial
mais leve. fogo sem cor!
Ai! Neva amor.
E a cascata aérea
de sua garganta, Imenso inverno
mais leve. de coração.
Gelo sem fim
E o que lembra, ouvindo-se a deslizar ...
deslizar seu canto,
mais leve. Pus-me a cantar
na solidão:
E o desejo r~pido
desse antigo instante, Teu frio vem
mais leve. do céu, de mim,
de ti, de quem?
E a fuga invisível Não há mais sol,
do amargo passante, verão, calor?
mais leve .
Ai! Neva amor.

FUTURO INIBIÇÃO
Vou CANTAR uma cantiga,
~ PRECISO que exista, enfim, uma hora clara, vou cantar - e me detenho:
depois que os corpos se resignam sob as pedras porque sempre alguma coisa
como máscaras metidas no chão. minha voz está prendendo.
262 CECfLIA MEIRELES / OBRA POE:TICA JJAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 263
Pergunto à secreta Música Todas em memória
por que falha ·o meu desejo, dessas seis donzelas
por que a voz é proi·bida que por mim perderam
ao gosto do meu intento. seu corpo, na terra ...
Meus crimes, paguei-os
E em perguntar me resigno, com brincos, fivelas,
me submeto e me convenço. coroas de prat41,
Será tardia, a cantiga? e mais que te dera,
Ou ainda não será tempo . .. para me livrares,
Senhora, da lepra!

Senhora da Várzea!
BLASF:f:MIA Senhora da Serra!
pede-me por sonhos:
SENHORA DA VÁRZEA, darei quanto peças
Senhora da Serra! - mais ouro, mais prata,
pelos teus santuários, mais luzes, mais telas.
com cinza na testa, Maior que os meus crimes
irei arrastando é a minha promessa.
os joelhos e a reza:
subindo e descendo Vejo com os meusf olhos
ladeiras de pedra, como degenera
sustentando andores, a carne que tive.
carregando velas, Por que me desprezas,
para me livrares, Senhora da Várzea?
Senhora, da lepra! Do mal que me cerca,
por que não me livras,
Senhora da Serra?
Senhora da Várzea, Mão com que matei,
Senhora da Serra! hoje se me entreva.
terás mais altareg,
terás mais capelas, Sinto desmanchada
sinos de mais bronze, em cinza funesta
mais flores, mais festas, a boca de outrora.
mais círios, mais rendas, E a língua me emperra
e de ouro coberta aquela peçonha
brilharás, Senhora, de que seis donzelas
de fazer inveja receberam morte,
a todas as santas lindas e sinceras.
que há na glória eterna! Senhora da Várzea!
Senhora da Serra!
Matei minha filha: Paguei meus pecados,
mas era tão bela! - e não me libertas?
Roubei cinco noivas: Calcaste dragões,
mas o amor não cega? dominaste feras,
E Deus não perdoa e ao mal que me oprime,
a quem se confessa? Senhora, me entregas?
Ergui seis igrejas: Por que não me salvas?
nenhuma te alegra? Que ordenas? Que esperas?
264 CEClLIA MEIRELES / OBRA POÉTICA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 265

Ah, santa insensível, que te envolve e nega,


não sofres, não pecas! Senhora da Várzea,
Senhora da Várzea! Senhora da Serra,
Senhora da Serra! ó virgem das virgens,
Devolve o ouro e a prata sem piedade - e ETERNA!
das minhas ofertas!
Que o vento '1rrebente CARTA
portas e janelas
das tuas igrejas! EU, Mas a estrela da tarde, que subia e descia o céu, cansada
SIM. -
E fiquem nas trevas [e esquecida?
ou sejam levados Mas os pobres, batendo às portas, sem resultado, pregando a noite
pelas labaredas [e o dia com seu punho seco?
altares queimados Mas as crianças, que gritavam de coração alarmado: "por que
e naves desertas! [ninguém nos responde?"
Caiam no teu peito Mas os caminhos, mas os caminhos vazios, com suas mãos estendidas
mais agudas setas! [à toa?
Arda em brasa o ramo Mas o Santo imóvel, deixando as coisas continuarem seu rumo?
que nas mãos carregas! ·E as músicas dentro de caixas, suspirando de asas fechadas?
Nunca mais se arrastem Ah ! - Eu, sim - porque já chorei tµdo, e despi meu corpo usado
meus joelhos nas pedras, [e triste,
nem a minha boca e as minhas lágrimas o lavaram, e o silêncio da noite o enxugou.
suspire mais rezas! Mas os mortos, que dentro do chão sonhavam ·c om pombos leves e
Nunca mais andores, [flores claras,
nem círios nem festas! mas os que no meio do mar pensavam na mensagem que a praia
Dei-te seis igrejas: [desenrolaria rapidamente até seus dedos . ..
que me deste? Lepra! Mas os que adormeceram, de tão excessiva vigília - e eu não
[sei mais se acordarão ...
Senhora da Várzea! e os que morreram de tanta espera. . . - e que não sei se foram
Senhora da Serra! [salvos .. .
Grito aos quatro ventos
do céu e da terra: Eu, sim. Mas tudo isso, todos esses olhos postados em ti, no alto
Conheci seis virgens: [da vida,
nenhuma severa não sei se te olharão como eu,
como tu, nem fria, renascida de mim, e desprovida de vinganças,
serena e perversa! no dia em que precisares de perdão.
Seis virgens matei!
Sou morto por esta!
Dei-lhe sedas e ouro DESENHO
que às outras não dera!
Soluçar de joelhos, Fui MORENA e magrinha como qualquer polinésia,
- só diante dela! e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
Morro impenitente, E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
fazendo-lhe guerra. e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam.
Que o fogo profundo
lamba a minha lepra! Isso era num lugar de sol e nuvens brancas,
Seja eu todo cinza, onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas . ..
no tempo dispersa, O eco, burlão, de pedra em pedra ia saltando,
negra cinza do ódio entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.
266 CECfLIA MEIRELES / OBRA POF:TIC-i UAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 267
Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho, Tão rápido e tão belo
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas, que era espanto senti-lo
que era desnecessário crescer, pensar,. e_s,crever poemas, e impossível prendê-lo.
pois a vida completa e bela e terna ah ia estava.
Memória e sonho, agora,
Com a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa! - a existência visível
E o papagaio como ficava sonolento! . , . da veloz caçadora!
O relógio era festa de ouro; e ~s gatos en1gmat1cos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo. Bastaria querer-te
pelas estrelas nadas
Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros, de teu vestígio inerte.
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes Mas ah! quem descrevera
moravam nos jardins sussurrantes e eternos. tuas mãos e teus olhos!
E teu rumo qual era! ...
E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e âe arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas. ESTÁTUA
Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas. JARDIM DA TARDE divina,
Levai-me aonde quiserdes! - aprendi com as primaveras por onde íamos passeando
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira. saudade e melancolia.

Toda a gente me falava.


E nasceu minha alegria
4. 0 MOTIVO DA ROSA do que não me disse nada.
NÃo TE AFLIJAS com â pétala que voa: O azul acabava-se, e era
também é ser, deixar de ser assim. céu, toda a sua cabeça,
poderosamente bela.
Rosas verás! só de cinza franzida,
mortas intactas pelo teu jardim.
Nos seus olhos sem pupilas
Eu digo aroma até nos meus espinhos, meus próprios versos estavam
ao longe, o vento vai falando em mim. como memórias escritas.

E por perder-me é que me vão lembrando, E na curva de seu lábio,


por desfolhar-me é que não tenho fim. o ar, em música transido,
perguntava por seu hálito.

Ah, como a tarde divina


OBSESSÃO DE DIANA foi velando suas flores,
A Raquel Bastos água, areia, relva fria ...

DIANA, teu passo esteve Nítida, redonda lua


em onda, em nuvem, na água prolongou seu corpo imóvel
- e foi lúcido e leve. numa perfeição mais pura.
2ó8 CECILIA MEIRELES / OBRA POETICA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 269

Fez parecer que sorria OS MORTOS


seu rosto para meu rosto:
divindade quase em vida. CREIO QUE o MORTO ainda tinha chorado, depois da morte:
enquanto os pensamentos se desagregavam,
Minha cegueira em seus olhos, depois de o coração se acostumar a ter parado.
minha voz entre seus lábios,
e minha dor em seus modos. Creio que sim, porque uma gota de choro havia entre as pálpebras,
feita de força já tão precária que nem pudera ir mais além,
Minha forma no seu plinto, que não correra, nem correria,
livre de assuntos humanos. e que também não secava.
De longe. Sorrindo.
E que ninguém teria tido a coragem desumana de enxugar.

Por que foi que o morto chorou?


AMOR-PERFEITO Que lembranças de sua vida chegaram até ali reduzido àquilo?

SUAS CORES são as de outrora, Sua vida não foi boa nem má:
com muito pouca diferença: foi como a dos homens comuns,
o roxo foi-se quase embora, a dos que não fizeram nenhum destino: aceitaram qualquer . . .
o amarelo é vaga presença. Dentro dele se debateram todas as coisas,
E em cada cor que se evapora e de dentro dele todas as coisas saíraht repercutindo sua incerteza.
vê-se a luz do jardim suspensa.
Creio que o morto chorou depois da morte.
Tão fina foi a vida sua, Chorou por não ter sido outro.
tão fina é a morte em que descansa! (É só por isso que se chora.)
Mais transparente do que a lua,
mais do que as borboletas mansa! Mas sobre seus olhos havia uns outros, mais infelizes,
Tanto o seu perfil atenua que estavam vendo, e entendendo, . e continuavam sem nada.
que, em peso, é menos que a lembrança. Sem esperança de lágrima.
Recuados para um mundo sem vibração.
Veludo de divinos teares, Tão incapazes de sentir que se via o 1empo de sua morte.
hoje seda seca e abolida, Antiga morte já entrada em esquecimento.
preserva os vestígios solares Já de lágrimas secas.
de que era feita a sua vida:
frágil coração, capilares E no entanto, ali perto, contemplando o morto recente.
de circulação colorida. Como se ainda fosse vida.
Se o levantar entre meus dedos,
pólen de tardes e sorrisos Maternal, porque o precedeu . • Apenas, sem poder sofrer,
cairá com tímidos segredos - de tanto saber e de tanto ter sido.
de tempos certos e imprecisos.
ó cinco pétalas, ó enredos
de sentimentais paraísos!
PEDIDO
Mas da leve gota pousada
no veludo, - mole diamante ARMEM A REDE entre as estrelas,
que foi a resposta da amada, para um descanso secular!
que foi a pergunta do amante - Os conhecidos - esquecê-los.
dela não se verá mais nada: E os outros, sem imaginar.
perdeu-se no vento inconstante. Armem a rede!
270 CECILIA MEIRELES / OBRA POl:TICA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 271

Chamem o vento, um grande vento ENTERRO DE ISOLINA


aéreo leão, para amarrar
sua juba de esquecimento - NÃo FAZ MAL que a chuva caia!
a esta rede, entre Deus e o mar. Agüentaremos a água nos olhos,
Chamem o vento! depois, cobriremos a cabeça com a saia!
Não falem nunca mais daquela - Não faz mal que no barro entremos!
que oscila, invisível, pelo ar. Quem tropeçar, fica ajoelhado.
Não digam se foi triste ou bela De barro fomos e seremos.
sua vocação de cantar!
Não falem nela. - Mas ninguém suje o caixão de Isolina!
Levantem bem, que o caixão é leve
onde vai a virgem menina.
NOITE NO RIO
- Não faz mal que nós nos sujemos:
BARQUEIRO do Douro, mas levantem os ramos de rosas
tão largo é teu rio, e os de dálias e crisantemos!
tão velho é teu barco,
.tão velho e sombrio - Andaremos léguas de estrada,
teu grave cantar! com léguas de chuva por cima.
Mas que Isolina não fiqHe cansada!
Barqueiro do Douro,
a noite vai alta, - Esperou tanto pelo seu dia!
- por onde perdeste Mas teve vestido de seda branca
o braço que falta, e manto igual ao da Virgem Maria.
barqueiro do Douro,
que tens de remar! - Tão bonitinha! Preta, preta!
Que vai ser a alma dela, agora?
Barqueiro do Douro, - Ou beija-flor ou borboleta . ..
já não alumia
tão baça candeia,
nesta névoa fria ...
A água entra nas tábuas CANTAR SAUDOSO
e escorre a chorar ...
TANGEDORAS de idades antigas,
Barqueiro do Douro, .pelo tempo andadas,
aonde chegaremos? todo o campo é nado das vossas cantigas.
Já não enxergamos
estrela nem remos, Das vossas cantigas, todo o maré nado,
nem margens, nem sombra tangedoras idas!
de nenhum lugar ... Pura eternidade foi vosso recado.
(Seu remo batia,
sua voz cantava. Vozes deixastes derramadas
Não me respondia. em terras pelo tempo andadas,
Remava, remava. e ainda são floridas!

A água parecia Deixastes lágrimas vertidas


mais negra que a noite, nas águas, tangedoras idas!
mais longa que o mar!) E ainda são salgadas ...
272 CECfLIA MEIRELES / OBRA POETICA J\l{AR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 273
MULHER AO ESPELHO Junto à áspera terra,
tua mão e a minha
HOJE QUE SEJA esta ou aquela, se encontraram sob
pouco me importa. o pânico súbito
Quero apenas parecer bela, da sensitiva.
pois, seja qual for, estou morta.
Que espasmo de nácar
Já fui loura, já fui morena, pela seiva aflita!
já fui Margarida e Beatriz. Nem rosa nem cedro
Já fui Maria e Madalena. souberam da ausência
Só não pude ser como quis. da sensitiva.
Aonde levaremos
Que mal faz, esta cor fingida esta dolorida
do meu cabelo, e do meu rosto, planta frágil, se
se tudo é tinta: o mundo, a vida, tua mão se apaga
o contentamento, o desgosto? em lírio e cinza?
Por fora, serei como queira Se teu rosto · esparso
a moda, que me vai matando. já não se adivinha,
Que me levem pele e caveira e teu lábio é, agora,
ao nada, não me importa quando. na manhã que chega,
puro enigma?
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus, Voa dos meus olhos
e morreu pelos seus pecados, a ~oite vivida.
falará com Deus. Na areia dos sonhos,
somente o desenho
Falará, coberta de luzes, da sensitiva.
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.
SOBRIEDADE

A TARDE encontrou-me aqui, entre tentativas perdidas.


SENSITIVA Perguntas seculares se levantavam do meu coração:
última planta dos desertos, voz · do Enigma ...
No CEDRO e na rosa, Ai de mim!
o gesto da brisa,
De joelhos, na noite, Falei às ondas abundantes: "Dai-me o caminho
colhíamos juntos embora cercado de pasmo e sombra
a sensitiva. por onde foi . . . - já não por onde veio! - "Ulisses!"
Ai de mim! ·
Teu lábio formava
uma lua fina. Pois subiu dentre as águas em vento exíguo,
Mas tua figura, rnenos que uma bandeira, que um pássaro, que um lenço ...
na sombra, - a folhagem P~ssou pelas minhas mãos. . . Deixou-as ... e eu sorri com delícia ...
muda bebia. A1 de mim!
274 CECILIA MEIRELES / OBRA f'Ol!;TICA. MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 275
Que coisa tênue, a minha vida, que conversa apenas com o mar, Caminham sombras duas a duas,
e se contenta com um sopro sem promessa, felizes só de serem infelizes,
que voa sem querer das ondas para as nuvens! e sem dizerem, boca minha, o que tu dizes ...
De não saberem, simples e nuas,
coisas da alma e do pensamento,
SlMBAD, O POETA e que tudo foi pó e que tudo é do vento . ..
ERAS UM HOMEM grande, e pousavas como as estátuas. Felizes com as misérias suas,
- Penso nas tuas mãos robustas, da cor do barro, simples e agrestes, como eu não poderia ser com a glória,
na tua cabeça triste, e no rosto moreno em que entardeciam porque tenho intuições, porque tenho memória . ..
aqueles olhos vagarosos que tiveste.
Lembro-me dos teus passos, indiferentes, andando, andando, Porque abraçada nos braços meus,
porque, obediente à minha solidão,
como se todos os caminhos fossem de areia: vivo construindo apenas Deus ...
um sangue de beduínos, de guerreiros e profetas
vazava rios de aceitação nas tuas veias.
Uma noite, louças floridas ofereceram pistaches, tâmaras ...
As luzes faziam de ouro e rubi copos e lábios. DOMINGO NA PRAÇA
As sombras oprimiam mansos pássaros sobre as músicas.
E tu perto da festa andavas - calmo poeta sábio. EM TRÊS ALTAS ondas a fonte desata
na negra bacia
Tua voz, grave e rouca, extraviava-se nesse idioma suas longas madeixas de prata.
em que os estrangeiros contam, em terra alheia, suas lembranças ...
Não sei se também sorrias. É bem possível que nunca chorasses. Entre o lago e as flores, desliza alegria
E nunca saberemos teu pensamento onde descansa. nás areias quietas:
cantos de ciranda, sapatinhcs brancos,
Teu corpo está por aí, deitado na curva da terra. aros velozes de bicicletas.
Com os teus olhos perdidos não sei que estrelas talvez olhas.
Que me fala de ti? Uma fita azul que se vai rompendo Depois dos _canteiros, dois a dois, sentados,
e um cravo, de mil cravos, que cheira a cinza e se desfolha. falando em sonho, sonhando acordados,
os namorados enamorados
Leve sombra és apenas. . . Que fizeram do teu peito, dizem loucuras, pelos bancos.
das tuas fortes mãos, do teu passo viril, que andava, andava? .. .
Dos teus olhos, onde um silêncio enorme abria as asas Ah, Deus, - e a grande lua antiga,
como águas tristes sobrevoando as ondas bravas? ... que volta de viagens, saindo do oceano,
ouve a alegria, ouve a cantiga,
ô Simbad, que chegaste de um país de miragens! ouve a linguagem de puro engano,
o tempo vai consumindo tua flor e tua seda . . .
E teus amigos, e nossos versos, e nossos túmulos, ouve a fonte quç desata
como quem torce a água das redes ... na negra bacia
novas madeixas de prata ...
As águas não eram estas,
TRANSEUNTE há um ano, há um mês, há um dia ...
Nem as crianças, nem as flores,
VENHO DE CAMINHAR por estas ruas. nem o rosto dos amores . ..
Tristeza e mágoa. Mágoa e tristeza. Onde estão águas e festas
Tenho vergonha dos meus sonhos de beleza. anteriores?
276 CECILIA MEIRELES / OBRA POSTICA fY[AR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 277
E a imagem da praça, agora, Animal encantado - melhor que nós todos! - que tinhas tu com
que será, daqui a um ano, [este mundo dos homens?
a um mês, a um dia, a uma hora? ... Aprendias a vida, placida e pura, e entrelaçada
em carne e sonho, que os teus olhos decifravam ...
Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos ...
Como vieste morrer por um que mata seus irmãos!
APARECIMENTO

DIVIDE-SE A NOITE, para que me apareças


e prolongues tua presença entre sonhos cortados.
GUERRA
Vejo o céu que ao longe caminha.
As montanhas respiram a luz das estrelas,
e, na ausência dos homens, TANTO É o sangue
o caule do tempo sobe com felicidade. que os rios desistem de ~eu ritmo,
e o oceano delira
Sobre a noite que resvala, e rejeita as espumas vermelhas.
conservo-te imóvel entre meus olhos e a vida.
Penso todos os pensamentos, '/. Tanto é o sangue
e nenhum me auxilia. que até a lua se levanta horrível,
E escuto sem querer as lágrimas e erra nos lugares serenos,
que germinam sozinhas, sonâmbula de auréolas rubras,
e seguem sozinhas um subterrâneo curso. com o fogo do inferno em suas madeixas.
Ah, meu sorriso morreu, por tristezas antigas.
Como te hei de receber em dia tão posterior? Tanta é a morte
que nem os rostos se conhectm, lado a lado,
e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso.

LAMENTO DO OFICIAL Oh, os dedos com alianças perdidos na lama .. .


POR SEU CAVALO MORTO Os olhos que já não pestanejam com a poeira .. .
As bocas de recados perdidos ...
Nós MERECEMOS a morte, O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes ...
porque somos humanos Tanta é a morte
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
que só as almas formariam colunas,
pela nossa cabeça embrulhad~ eC? séculos 9e sombra,
por nosso sangue estranhb e mstavel, ,pelas ordens as almas desprendidas. . . - e alcançariam as estrelas.
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.
E as máquinas de entranhas abertas,
Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquini.ia, e os cadáveres ainda armados,
os cálculos do gesto, e a terra com suas flores ardendo,
embora sabendo que somos irmãos. e os rios espavoridos como tigres, com suas máculas,
Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados e este mar desvairado de incêndios e náufragos,
de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros! e a Ilia alucinada de seu testemunho,
Que delírio sem Deus, nossa im,aginação! e nós e vós, imunes,
chorando, apenas, sobre fotografias,
E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha que, enganada, - tudo é um natural armar e desarmar de andaimes
recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno, entre tempos vagarosos,
ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração. sonhando arquiteturas.
278 CECILIA MEIRELES / OBRA POJfflCA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 279
5. MOTIVO DA ROSA
0 Foi a palavra quebrada
por muito encontro guerreiro:
ANTES DO TEU OLHAR, não era, ferozes golpes de espada
nem será depois, - primavera. na tênue virtude alada
Pois vivemos do que · perdura, de um coração prisioneiro.
não do que fomos. Desse acaso Cantar não adianta nada.
do que foi visto e amado: - o prazo
do Criador na criatura . . . Explicar-se não se explica.

Não sou eu, mas sim o perfume Por entre coisas imensas,
que em ti me conserva, e resume torto e ignorado se fica.
o resto, que as horas consomem.
Com pensativos vagares,
Mas não chores, que no meu dia, de fundos poços me abeiro:
há mais sonho e sabedoria chorar é muito mais fácil
que nos vagos séculos do homem. e talvez mais verdadeiro.

INSCRIÇÃO NATUREZA MbRTA


Sou ENTRE FLOR e nuvem, TINHA UMA CARNE de malmequeres, fina e translúcida,
estrela e mar. com tênues veios de ametista, como o desenho sutil dos rios.
Por que havemos de ser unicamente humanos, E ainda ficava mais branco, naquela varanda cheia de luar.
limitados em chorar?
Os outros peixes nadavam gloriosos por dentro das ondas,
Não encontro caminhos subiam, baixavam, corriam, brilhavam trêmulos de lua,
fáceis de andar. sem saberem daquele que não pertencia mais ao mar.
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar. Deitado de perfil, em crespos verdes sossegados,
ia sendo servido, entre vinhos claros de altos copos,
E por isso levito. envoltos numa gelada penugem de ar.
1j, bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente Seu olho de pérola baça, olho de gesso, consentia
de herança, em cada lugar. que lhe fossem levando, pouco a pouco, todo o corpo ...
E à luz do céu findava, e ao munnúrio do mar.
Rastro de flor e estrela,
nuvem e. mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar. OS HOMENS GLORIOSOS

SENTEI-ME SEM PERGUNTAS à beira da terra,


VIOLA e ouvi narrarem-se casualmente os que passavam.
Tenho a garganta amarga e os olhos doloridos:
MINHA CANTIGA servia deixai-me esquecer o tempo,
para dizer coisas densas . inclinar nas mãos a testa desencatada,
que apenas eu mesma ouvia. e de mim mesma desaparecer,
280 CECILIA MEIRELES / OBRA PO ETIC A
MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 281
que 0 clamor dos homens gloriosos A vida
cortou-me o coração de lado a lado. transborda
Pois era um clamor de espadas bravias, por todos
de espadas enlouquecidas e sem relâmpagos, os cantos.
ah, sem relâmpagos ... Acorda
pegajosas de lodo e sangue denso .. com modos
de puro
Como ficaram meus dias, e as flores claras que pensava! esplendor.
Nuvens brandas, construindo mundos, Procuro
como se apagaram de repente! meu rumo:
Ah, o clamor dos homens gloriosos horizonte
atrave~sando ebriamente os mapas!
escuro:
um muro
Antes o murmúrio da dor, esse murmúrio triste e simples em redor.
de lágrima interminável, com sua centelha ardente e eterna. Em treva
Senhor da Vida, leva-me para longe! me sumo.
Quero retroceder aos aléns de mim mesma! Para onde
me leva?
Converter-me em animal tranqüilo,
em planta incomu~icá':'.el, Pergunto a Deu se estou viva,
em pedra sem respiraçao. se estou sonhando ou acordada.
Lábio de Deus! - Sensitiva
Quebra-me no giro dos ventos e das águas! tocada.
Reduze-me ao pó que fui!
Reduze a pó minha memória!
RedU2íe a pó CONSTÂNCIA DO DESERTO
a memória dos homens, escutada e vivida ...
EM PRAIAS de indiferença
navega o meu coração.
Venho desde a adolescência
NOITE na mesma navegação.
- Por que mar de tanta ausência,
e areias brancas de tão
TÃO PERTO! despovoada inconsistência,
Tão longe! de penúria e de aflição?
Por onde (Triste saudade que pensa
é o deserto? entre a resposta e a intenção!)
Às vezes, Números de grande urgência
responde, gritam pela exatidão:
de perto, mas a areia branca e imensa
de longe. toda é desagregação!
Mas depois Em praias de indiferença
se enconde. navega meu coração.
Somos um Impossível, permanência.
ou dois? Impossível, direção.
Às vezes, E assim por toda a exisrência
nenhum. navegar navegarão
E em seguida, os que têm por toda ciência
tantos! desencanto e devoção.
282 CECILIA MEIRELES / OBRA POÉTICA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 283

CANTAR GUAIADO Nos rostos que mirávamos,


derreteu nosso olhar
TAMBÉM CANTAREI guaiado máscaras tão antigas
- ai, verde terra! ai, verde mar! - que se espantavam de acabar.
por haver buscado tanto
e ter tão pouco que amar! Nesse mundo que erguíamos
deixamos presa a nossa mão.'
Morrerei sem ter contado E os companheiros, nestes muros?
- ai, verde terra! ai, verde mar! Quando os terminam, e onde estão?
quantas bagas do meu pranto
ficam n·o mundo a rolar. Puros e tristes ficamos,
puros e tristes e sós.
Mas em meu lábio cerrado O coração é vaga nuvem.
- ai, verde terra! ai, verde mar! - E vaga areia, a voz.
fica o vestígio do canto,
ai!
do grande canto guaiado
para quem o interpretar ... TURISMO
- LEVE o DOCE de chila! - dizia.
CANÇÃO E era pálida e suave, /
sua boca de nata.
A Norman Fraser E seu vestido, de linho alvo.
VELA TEU ROSTO, formosa, Mirava com olhos de água e opala.
que eu sou um homem do mar.
Que há de fazer de uma rosa E embrulhava os doces com papel branco,
quem vive de navegar? lentamente, sem ruído.
- se qualquer vento a desfolha,
qualquer sol a faz secar, Nunca vi nada assim:
se o deus dos mares não olha toda a leiteria era cândida:
por quem se distrai a amar? esmalte, mármore, porcelana.
Pela grande água perdida, E seus braços formavam rios de leite,
anda, barca sem amor! e suas unhas, como seixos pequeninos,
Cada qual tem sua vida: brincavam com o barbante, viborazinha de marfim.
uns, de deserto, uns, de flor.
Vela teu rosto, formosa, Levantou seu rosto que nem camélia.
que eu sou um homem do mar. E sorriu, com uma tênue espuma
Poupa ao teu cetim de rosa nos dentes de cristal.
o sal que ajudo a formar . . .
Eu pensava-a abstrata,
e desmanchava-a em laranjeira florida,
sob um luar absoluto.
EVID~NCIA
Mas disse-me, entre os queijos tenros:
NUNCA MAIS cantaremos - Faltam cinco centavos.
com o antigo vigor: E esperou, com a palma da mão aberta.
o entusiasmo era inútil,
e desnecessário, o amor. Assim mesmo, sua mão parecia um narciso inclinado.
CECfLIA MEIRELES / OBRA PO/;TICA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 285
284
TRÂNSITO Miraclara, sal e sol
Miraclara, sol e sal,'
canta e lava, lava e canta
TAL QUAL me vês, com uma dourada garganta
há séculos em mim: defronte à minha janela. '
números, nomes, o lugar dos mundos
e o poder do sem fim. E à luz ·da manhã levanta
a sua colcha amarela
Inútil perguntar nas destras mãos de coral.
por palavras que disse:
histórias vãs de circunstância, Quem viu colcha igual àquela,
coisas de desespero ou de meiguice. como um grande girassol
num canteiro de cristal!
(Mísera concessão, Em redor de Miraclara
no trajeto que faço: dançam borboletas:
postal de viagem, endereço efêmero, brancas, e encarnadas
alibi para a sombra do meu passo .. . ) com riscas pretas.
Começo mais além: r
onde tudo isso acaba, e é solidão.
Onde se abraçam terra e céu, caladamente, ACALANTO
e nada mais precisa explicação.
DORME, que eu penso.
Cada qual assim navega
pelo seu mar imenso.
MIRACLARA DESPOSADA Estarás vendo. ' Eu estou cega.
Nem te vejo nem a mim.
MÃOS DE CORAL dentro da água, No teu mar, talvez se chega.
na tinta, entre o sol e o sal, Este, não tem fim.
Miraclara vai lavando
o seu antigo enxoval. Dorme, que eu penso.
Que eu penso nesse navio
clarividente em que vais.
Ai, doce mágoa
ver o futuro passar! Mensagens tristes lhe envio.
Libélulas de esmeralda Pensamentos. . . - nada mais.
vêem Miraclara lavar.

Mão de coral dentro da água,


na tina, entre o sal e o sol, CANÇÃO
Miraclara tor.ce a nuvem
cintilante do lençol. NÃo sou a das águas vista
nem a dos homens amada;
O azul que dorme redondo nem a que sonhava .o artista'
numa bacia de prata em cujas mãos fui formada.
é do anil do próprio céu Talvez em pensar que exista
que ali dentro se retrata. vá sendo eu mesma enganada.
286 CECILIA MEIRELES / OBRA POltTICA. MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS/ MAR ABSOLUTO 287
Quando o tempo em seu abraço Quanto mais vigiados, mais curtos!
quebra meu corpo, e tem pena, Com 9.Ue mágoa o horizonte avisto ...
quanto mais me despedaço, aproximado e sem recurso.
mais fico inteira e serena. Que pena, a vida ser só isto!
Por meu dom, divino faço
tudo a que Deus me condena.
Da virtude de estar quieta NôS E AS SOMBRAS
componho o meu movimento.
Por indireta e direta, E EM REDOR da mesa, nós, viventes
perturbo estrelas e vento. comíamos, e falávamos, naquela n~ite estrangeira,
Sou a passagem da seta e no.ssas sombras pelas paredes
e a seta, - em cada momento .. moviam-se, aconchegadas como nós
e gesticulavam, sem voz. '
Não digas aos que encontrares
que fui conhecida tua. :e.ramos duplos, éramos tríplices, éramos trêmulos,
Quando houve nos largos mares à luz dos bicos de acetilene,
desenho certo de rua? pelas paredes seculares, densas, frias,
E de teres visto luares, e vagamente monumentais.
que ousarás contar da lua? Mais do que as sombras éramos irreais.
1

Sabíamos que a noite era um jardim de neve e lobos.


E gostávamos de estar vivos, entre ·vinhos e brasas
MUDO-ME BREVE muito longe do mundo, · '
de todas as presenças vãs,
envoltos em ternura e lãs.
RECOBRO ESPUMA e nuvem
e areia frágil e definitiva. Até hoje pergunto pelo singular destino
Dispõem de mim o céu e a terra, das sombras que se moveram J·untas, pelas mesmas p a re des ...
para que minha alma insolúvel Oh
_ , as ~em saudades, sem pedidos, sem respostas .. .
sozinha apenas viva. Tao flmdas! Enlaçando-se e perdendo-se pelo ar . . .
Sem olhos para chorar ...
Naquelas cores de miragem
da água e do céu, mais me compreendo.
Anjo instrutor em silêncio me leva:
e elas me fazem
ver que sou e não sou, no que estou sendo. ANJO DA GUARDA

Fico tão longe como a estrela. ~o;-m~o QUE OUTROS miram com desprezo,
Pergunto se este mundo existe, silenc10 que aos demais aflige tanto,
e se, depois que se navega, um pensamento na vigília aceso,
a algum lugar, enfim, se chega . . .
- O que será, talvez, mais triste. um coração que não deseja nada
- esse é o mundo a que cheg~s, onde a vida,
Nem barca nem gaivota: só do sonho de ser é sustentada.
sõmente sobre-humanas companhias ...
Em suas mãos me entrego, Debruço-me, e não vejo de que parte
invisíveis e sem resposta. podes ter vindo, nem por que motivo.
Calada vigiarei meus dias. E a coragem perdi de perguntar-te.
CECILTA MEIRELES / OBRA POÉTICA. MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 289
288
Deixo-te isento. Não serás cativo E o pobre ali ficaria
de quem não te quer ver ~º. cat.iveiro como debaixo da terra,
de enigmas em que voluntana vivo. exposto à surdez do dia.

Mas não partes; que, cego e ~em memória, Pastam nuvens no ar cinzento.
por instinto conheces teu caminho, Bois aéreos que trabalham
e vens e ESTÁS, alheio à tua história. no arado do esquecimento.
E és como estrela, em séculos movida,
que num lugar ~o cé_u foi ~olocada
por uma simetna nao sabida. CAMPO

VEM VER o DIA crescer entre o chão e o céu,


o aroma dos verdes campos ir sendo orvalho na alta lua .
DIA DE CHUVA
Os bois deitados olham a frente e o longe, atentamente,
As ESPUMAS desmanchadas ap:·endendo alma futura nas harmonias distribuídas.
sobem-me pela janela,
correndo em fogos selvagens O mesmo sol das terras antigas lavra nas pedras estrelas claras.
de corça e estrela. Nem as nuvens se movem. Nem os fios se queixam.
Pastam nuvens no ar cinzento: Estão deitados, mirando-se, dos seus opostos lugares,
bois aéreós, calmos, tristes, e amando-se em silêncio, como esposos separados.
que lavram esquecimento.
Velhos telhados limosos Neste descanso imenso, quem te dirá que viveste em tumulto,
cobrem palavras, armários, e houve um suspiro cm teu lábio, ou vaga lágrima em teus dedos?
enfermidades, heroísmos ...
Morreram as ruas desertas e os seus ávidos habitantes
Quem passa é como um funâmbulo, ficaram soterrados pelas paixões que os consumiam.
equilibrado na lama,
metendo os pés por abismos ... A brisa que passa vem pura, isenta, sem lembrança.
Tece carícia e música nos finos fios do arrozal.
Dia tão sem claridade!
só se conhece que existes Em tua mão quieta, pousarão borboletas silenciosas.
pelo pulso dos relógios ... Em teu cabelo flutuarão coroas trêmulas de sombra e sol.
Se um morto agora chegasse Tão longe, tão mortos, jazem os desesperos humanos!
àquela porta, e batesse, E os corações perversos não merecem o convívio sereno das plantas.
com um guarda-chuva escorrendo,
e, com limo pela face, Mas teus pés andarão por aqui entre flores azuis,
ali ficasse batendo, e o seu perfume te envolverá como um largo céu.
- ali ficasse batendo O crepúsculo que cobre a memória, o rosto, as árvores,
àquela porta esquecida Inclinará teu corpo, docemente, em sua alfombra.
sua mão de eternidade ...
Tão frenético anda o mar A.cima do lodo dos pântanos, verás desabrochar o vôo branco
que não se ouviria o morto [das garças.
E, acima do teu sono, o vôo sem tempo das estrelas.
bater à porta e chamar ...
MEIRELES. - 10
290 CECILIA MEIRELES / OBRA POÉTICA. MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / MAR ABSOLUTO 291
A VOZ DO PROFETA EXILADO Adivinhar da flutuação: arrojo exato.
(Rápida, a espuma lava as lágrimas da praia ... )
A Haydée de Meunier
Deus-Mar! por ti vimos o Eterno e a Variedade:
CANSEI-ME de anunciar teu nome a ti pedimos o que deste e o que negaste.
às multidões desatinadas;
e, quando desdobrei teu rosto, Se um dia foste em nosso lábio prata móvel,
responderam-me com pedradas. branco alimento - um dia fomos, em teu lábio,

Deixei essas praias ferozes triste despojo, corpo vão, débil tributo .. .
de areias e alucinação. Porque és assim, para te amarmos e possuirmos,
Fui 110 meu barco de perigo, e em ti deixarmos nossa vida, mudamente,
de silêncio e de solidão. dada ao que for vontade e lei no teu mistério.
Solucei nas rochas desertas,
equilibrei-me na onda brava. Deus-Mar, tranqüilo, e inquieto, e preso e livre, antigo
Curvei de espanto a minha fronte: e sempre novo - indiferente e suscetível!
e com as águas do mar chorava. Em cada praia deste mundo te celebram
os que te amaram por naufrágios e vitórias,
Chorei pelas gentes perdidas ,1
de loucura e orgulho. Depois, e religiosos se renderam, convencidos,
por minhas visões, por meus gestos. à lição tácita dos símbolos marítimos.
E, finalmente, por nós dois.
Em que outros países, de que estranhos
mundos, alguém espera pela
minha voz, salva de martírios,
condutora da tua Estrela?
Diante dos horizontes próximos,
aflige-se o meu coração.
Não sei se é o tempo da chegada,
ou sempre o da navegação.

PÉRIPLO
MINHA É A DESERTA solidão, clara e severa,
onde respiro amanheceres seculares.
Meus navegantes, meus remotos pescadores .. .
óleo, sal, redes, altivez de densas brumas .. .
Olho das barcas que. sem pálpebra buscaram
entre sereias e medusas sua Estrela.
Graves cabeças modeladas por vento amplo,
rijos destinos, obedientes a onda e céu.
MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / OS DTAS FELIZES 293

A luz revela orvalhos no fundo das flores,


nas asas tênues das borboletas
e ensina a cintilar a mais ig~orada areia,
perdida nas sombras,
OS DIAS FELIZES submersa nos !imos.
Ensina a cintilar também
os insetos mínimos,
OS Dr AS FELIZES - alada areia dos ares, que se eleva
até a ponta dos ciprestes vagarosos.
Os DIAS FELIZES estão entre as árvores, como os pássaros: Pássaros que jorram das altas árvores
. viajam nas nuvens, caem na relva como pedras frouxas .
correm nas águas, As borboletas douradas e as brancas
desmancham-se na areia. palpitam com asas de pétaia,
entre água e flores.
E as cigarras agarradas aos troncos
Todas as palavras são inúteis, ensaiam na sombra suas resinas sonoras.
desde que se olha para o céu.
Essa ~ a glória do jardim,
A doçura maior da vida com roxos queixumes de ,rolas,
flui na luz do sol, pios súbitos, gorjeios melancólicos,
quando se está em silêncio. vôos de silêncio,
música de chuva e de vento,
débil queda de folhas secas
Até os urubus são belos, murmúrio de gota de água
no largo círculo dos dias sossegados. na umidade verde dos tanques.

Apenas entristece um pouco Quando um vulto humano se arrisca,


este ovo azul que as crianças apedrejaram: fogem pássaros e borboletas;
e a flor que se abre, e a folha morta,
esperam, igualmente transidas,
formigas ávidas devoram que nas areias do caminho
a albumina do pássaro frustrado. se perca o vesügio de sua passagem.
Caminhávamos devagar,
ao longo desses dias felizes,
pensando que a Inteligência O VENTO
era uma sombra da Beleza.
O CIPRESTE inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

O JARDIM A grande amendoeira consente que balancem


suas largas folhas transparentes ao sol.
Misturam-se uns as outros, rápidos e frágeis,
O JARDIM É VERDE, encarnado e amarelo. os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.
Nas alamedas de cimento,
movem-se os arabescos do sol Frondes rendadas de acácias palpitam inquietamente
que a folhagem recorta com o mesmo tremor das samambaias
e o vento abana. debruçadas nos vasos.
294 CECfLIA METRELES 1 OBRA POl:TICA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / OS DIAS FELIZES 295
Fremem os bambus sem sossego, CHUVA NA MONTANHA
num insistente ritmo breve.
COMO CAÍRAM tantas águas,
O vento é o mesmo: nublou-se o horizonte,
mas sua resposta é diferente, em cada folha. nublou-se a floresta,
nublou-se o vale.
Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros. E as plantas moveram-se azuis
dentro da onda que as toldava.
Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro ,reino. . Tudo se transformou em cristal fosco:
Seu movimento secou tambem, num desenho merte. as jaqueiras cansadas de frutos,
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa. as palmeiras de leque aberto,
e as mangueiras com suas frondes
O vento que percorre o jardim de arredondadas nuvens negras superpostas.
pode subir e descer por seus galhos inúmeros: O arco-íris saltou como serpente multicor
nessa piscina de desenhos delicados.
ela não responderá mais nada,
hirta e surda. naquele verde mundo sussurante.
~

SURDINA
VISITA DA CHUVA
QUEM TOCA PIANO sob a chuva,

ESTAS ALTAS árvores na tarde turva e despovoada?


são umas harpas verdes De que antiga, límpida música
com cordas de chuva recebo a lembrança apagada?
que tange o vento. Minha vida, numa poltrona
jaz, diante da janela aberta.
Vêm os sons mais claros Vejo árvores, nuvens, - e a longa
da amendoeira amarela, rota do tempo, descoberta.
pontuados na palma
das fortes folhas virentes. Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
Os sons mais frágeis nascem ramos de som, descoloridos.
na fronde da acácia leve,
com frouxos cachos de flores A chuva interfere na música.
e folhinhas paralelas. Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
Os sons mais graves escorrem séculos de melancolia . ..
das negras mangueiras antigas,
de grossos, torcidos galhos,
franjados de parasitas.
NOITE
Os sons mais longínquos e vagos
vêm dos finos ciprestes: "PSIU! PSIU!" - dizem os pássaros de guarda.
chegam e apagam-se, nebulosos, Mas os cães ladram, ladram,
desenham-se e desaparecem ... a noite inteira, inconsoláveis.
CECILIA MEIRELES / OBRA POF;TICA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / OS DIAS FELIZES 297
296
Então, os pássaros adormecem, fatigados e medrosos. E o cone torcido de um caramujo pequenmo
pousa entre as coisas da terra
o vestígio e o prestígio do mar,
E os insetos repetem baixinho e inutilmente: que elas não viram.
"Psiu! Psiu!", na imensa noite estrelada. Nessa paisagem tranqüila,
umas formigas pretas,
(A voz dos cães é um sonho triste, de pernas altas,
é o sonho de mortos e vivos, atravessam num tonto ziguezague
desesperado, as areias grossas e finas,
em voz alta ... ) e vêm pesquisar por todos os lados
cada folha de beldroega,
roxa, vermelha e verde.
MADRUGADA

o CANTO DOS GALOS rodeia a madrugada A MENINA E A ESTÁTUA


de altas torres de música chorosa.
A MENINA QUER brincar com a estátua da fonte
O canto dos galos sobe do mundo que é uma criança nua, em cuja cabeça os pas;arinhos
ajudando a separação da noite e do dia. pousam, depois do banho,
antes de voarem para longe.
:amelancólico levar a lua para longe do horizonte,
A menina, ·com muita .precaução,
e destruir da noite estrelada as últimas flores.
toca o braço da estátua,
O canto dos galos incansável sustenta a hora indecisa. e fala com ela essàs coisas com outro sentido
que as crianças dizem umas às outras
Somente o esplendor da montanha ofusca as vozes que plangiam. ou aos objetos com que conversam '
ou a si mesmas, quando estão sozi~has.
Por quem plangiam essas vozes vagarosas A menina insiste com a estátua,
no vasto lamento, simultâneas e isoladas? convida-a a descer do plinto,
Pela noite - ainda inclinada para o ocidente em sono? passa o dedo pelos seus pés de bronze,
ou pelo sol - que arranca a terra ao convívio das estrelas? examinando-os e persuadindo-a.
E diante de tal silêncio,
fica séria e .preocupada,
mira a estátua de perto,
AS FORMIGAS como a um pequeno deus misterioso
caminha de costas, mirando-a, '
EM REDOR do leão de pedra, e fica de longe a mirá-la,
as beldroegas armam lacinhos por um momento prolongado e respeitoso.
vermelhos, roxos e verdes.
No meio da areia,
um trevo solitário
pesa a prata do orvalho recebido. TAPETE
As areias finas são de ouro,
e, as grossas, como grãos de sal. No TAPETE CHINÊS, há dois homens sorridentes
Cintila uma lasca de mica, que dia e noite dão de comer uma eterna comida
junto ao cadáver de um cigarro a duas aves gorduchas que comem sem pausa e sem movimento.
que a umidade desenrolou.
298 CECfLTA MEIRELES / OBRA POÉTICA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / OS DIAS FELIZES 299
Todos vão e vêm por cima deste tapete redondo E a lua, que sobrevoa terras e mares incendiados,
com uma ponte longínqua sobre um céu amarelo. assiste ao jogo inocente, num quadrado de papelão.
Todos pisam estes dois homens, as suas aves, a sua comida. Ilumina as bolas vermelhas, verdes, amarelas e pretas
com a mesma luz que envolveu os feridos, longe, de bruços,
E os homens estão sorrindo, e os mortos solitários que o sol amanhecente encontra.
e este alimento não se acaba,
e as aves, de cabeça baixa,
continuam para sempre comendo . . .
O AQUARIO

O AQUÁRIO TEM um bosque verde submerso,


PARDAL TRAVESSO que não conhece pássaros nem vento.
EsTE PARDAL travesso
pia toda a manhã com fome exagerada. Areias douradas e !imosas
prendem raízes pálidas,
Mesmo assim pequeno, que se prolongam em finas palmas,
tenta voar dos galhos, em longas folhas ovais,
e salta desajeitado em crespos filamentos hirtos.
entre as plantas baixas. 1
Nesse mundo sem voz,
Assusta-se com qualquer ruído, navegam os peixes vermelhos.
foge aos pulos pelas sebes,
e, · quando encontra uma poça de água, Seus olhos cegos são dois preguinhos de ferro,
faz movimentos de nadador medroso. e é apenas um .peso de prata o seu abdome
para equilíbrio do corpo incerto e transparente.
À tarde, espreita para todos os lados,
desce da árvore, espaneja-se na areia, No circo líquido,
rápido, assustadiço, são trapezistas de malhas de ouro
pronto para a evasão. em exercícios livres.
Vai pulando, Descem de cabeça até o chão de areia,
inquieto com a sua travessura, sobem à superfície densa
sobe de galho em galho, onde beijam seu reflexo.
até sentir-se em segurança. Deslizam horizontais,
movendo a mandíbula triste,
Põe-se então a sacudir as areias das penas, mostrando pelo contorno do lábio prateado
como as crianças limpando os bolsos dos aventais. a cavidade escarlate que são.
Às vezes, em súbito pânico,
atravessam toda a água em correria brusca,
JOGUINHO NA VARANDA ou mordem a poeira verde que está sobre as folhas frias.
O MEU PARCEIRO joga com as bolas encarnadas: Seu olho sem pálpebra resvala imóvel,
"Se eu não ganhar desta vez, não dormirei a noite inteira. . e seus tênues enfeites . plissados
"O inimigo está avançando. Mas eu te11ho um plano estratégico. esvoaçam frenéticos.
"Estou imobilizado? Parece que caí num bolsão.
"Que fazer? Andar .para trás. Depois, darei um grande salto. Suspendem-se em trapézios inv1S1veis,
"Conquistei uma posição. Isso agora é uma cabeça de ponte ... " e à luz da manhã cintilam em nudez de coral.
300 CEC1L/A MEIRELES / OBRA POÉTICA {11AR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / OS DIAS FELIZES 301

Alta noite, estão quietos, ALVURA


colados aos vidros,
ou de lábio plantado na areia, CANTEMOS TAMBÉM os frescos lençóis e as colchas brancas,
ou boiando como pétalas encarnadas. estes campos de malmequeres engomados
onde o sono nem sonha.
Mas, se alguém passa,
voam sonâmbulos de um lado para outro, Cantemos os flocos das cortinas,
tão fluidos, tão ágeis as nuvens que adornam o céu de nácar,
que nunca se tocam, as dálias com seus colares de orvalho,
não tocam as plantas, e os mármores da porta, onde um raio de sol inscreve o dia.
e nem na água deixam a menor oscilação.
Todos os dias pergunto às plantas, Cantemos, cantemos estes ladrilhos cintilantes,
pergunto aos peixes do aquário e o claro esmalte por onde escorrem, tumultuosos,
a razão de sua existência matinais jorros de água, de precipitada espuma.
ali no meio da sala.
Cantemos a faiança lisa, os guardanapos ofuscantes,
Inclino à beira do vidro e o perfumado arroz-doce, e o leite, e a nata, e o sal e o açúcar,
minhas perguntas sem palavras. e os punhos de Edite, lustrosos e duros como a louça,
Pode ser que me estejam respondendo,
e que suas respostas silenciosas e seus dez dedos paralelos com umas belas unhas nítidas,
sejam também perguntas a respeito do meu rosto, que encrustam de cada lado da esp~lhante bandeja cromada
do meu rosto que sentem, mas não vêem. cinco finas, tênues, alvas luas crescentes.

EDITE
JORNAL, LONGE
CANTEMOS EDITE, a muito loura, branca e azul,
cujo avental de linho é a alegre vela de um barco QUE FAREMOS destes jornais, com telegramas, notícias,
num domingo de sol, e cuja coifa é uma gaivota anúncios, fotografias, opiniões ... ?
planando baixa, pelo quarto.
Caem as folhas secas sobre os longos relatos de guerra:
Cantemos Edite, a anunciadora da madrugada, e o sol empalidece suas letras infinitas.
que passa carregando os lençóis e as bandejas,
deixando pelos longos corredores Que faremos destes jornais, longe do mundo e dos homens?
frescuras de jardim e ar de nuvem caseira. Este recado de loucura perde o sentido entre a terra e o céu.
Cantemos Edite, a de mãos rosadas, que caminha De dia, lemos na flor que nasce e na abelha que voa;
com sorriso tão calmo e palavras tão puras: de noite, nas grandes estrelas, e no aroma do campo serenado.
sua testa é um .canteiro de lírios ·
e seus olhos, miosótis cobertos de chuva. Aqui, toda a vizinhança proclama convicta:
Cantemos Edite, a muito loura, branca e azul, "Os jornais servem para fazer embrulhos."
que à luz ultravioleta se converte em ser abstrato,
em anjo roxo e verde, com pestanas incolores, E é uma das raras vezes em que todos estão de acordo.
que sorri sem nos ver e nos fala calado.
Cantemos Edite, a qL'e trabalha silenciosa
preparando todas as coisas desta vida,
porque a qualquer momento a porta deste mundo se abre
e chega de repente o esperado Messias.
f!JAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / ELEGIA 303

rvfas tudo é inútil,


porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,
e a tua narina imóvel
ELEGIA não recebe mais notícia
do mundo que circula no vento.
1933-1937
Neste mês, sobre as frutas maduras cai o beijo áspero das vespas ...
~ MEMÓRIA DJ! - e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra,
JACINTA GARCIA BENEVIDES como água que borbulha.
MINHA AVÓ

" ... le sang de nos ancêtres qui forme


Neste mês, abrem-se cravos de perfume profundo e obscuro;
avec /e no/Te cette chose sans équivalence a areia queima, branca e seca,
qui d'ail/eurs ne se répétera pas . .. " junto ao mar lampejante:
R. M. R.ILKE: Lettres à un je1me poete · de cada fronte desce uma lágrima de calor.
Mas tudo é inútil,
porque estás encostada à terra fresca,
e os teus olhos não buscam mais lugares
nesta paisagem luminosa,
MINHA PRIMEIRA LÁGRIMA caiu dentro dos teus olhos. e as tuas mãos não se arredondam já
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído. para a colheita nem para a carícia. '
Neste mês, começa o ano, de novo,
No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva, e eu queria abraçar-te.
modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos. Mas tudo é inútil:
eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece.
Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesm·a claridade da lua.

Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas pálpebra5,


e a voz dos pássaros e a das águas correr, 3
- sem que a recolhessem teus ouvidos inertes.
MINHA TRISTEZA é não poder mostrar-te as nuvens brancas,
Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto? e as flores novas, como aroma em brasa,
com suas coroas crepitantes de abelhas.
Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho.
E tristemente te procurava. Teus olhos sorririam,
agradecendo a Deus o céu e a terra :
Mas também isso foi inútil, como tudo mais. eu sentiria teu coração feliz
como um campo onde choveu.

Minha tristeza é não poder acompanhar contigo


2 o desenho das pombas voantes,
o destino dos trens pelas montanhas,
NESTE MÊS, as cigarras cantam e o brilho tênue de cada estrela
e os trovões caminham por cima da terra, brotando à margem do crepúsculo.
agarrados ao sol.
Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas, Tomarias o luar nas tuas mãos,
e depois a noite é mais clara, fortes e simples como as pedras,
e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão. e dirias apenas: "Como vem tão clarinho!"
304 CECfLIA MEIRELES / OBRA POÉTICA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / ELEGIA 305
E nesse luar das tuas mãos se banharia a minha vida, A mar.gem desta pedra que te cerca,
sem perturbar sua claridade, o rosto das flores inclinará sua narrativa:
mas também sem diminuir minha tristeza. história dos grandes luares,
crescimento e morte dos campos,
giros e músicas de pássaros,
arabescos de libélulas roxas e verdes.
4 conversareis longamente,
em vossa linguagem inviolável.
EscuTo A CHUVA batendo nas folhas, pingo a pingo.
Mas há um caminho de sol entre as nuvens escuras. Os anjos de mármore ficarão .p ara sempre ouvindo:
E as cigarras sobre as resinas continuam cantando. que eles também falam em silencio.

Mas a mim - se te chamar, se chorar - não me ouvirás


Tu percorrerias o céu com teus olhos nevoentos, por mais perto que venha, não sou mais que uma sombra
e calcularias o sol de amanhã, caminhando em redor de uma fortaleza.
e a sorte oculta de cada .planta.
Queria deixar-te aq'!i as imagens do mundo que amaste:
E amanhã descerias toda coberta de branco, o mar com seus peixes e suas barcas;
brilharias à luz como o sal e a cânfora, os pomares com cestos derramados de frutos ·
tomarias na mão os frutos do limoeiro, tão verdes, os jardins de malva e trevo, com seus Perfumes brancos e
e entre o veludo da vinha, verias armar-se o cristal dos bagos. 1
[vermelhos.

E olharias o sol subindo ao céu com asas de fogo . E aquela estrela maior, que a noite levava na mão direita.
Tuas mãos e a terra secariam bruscamente. E o sorriso de uma alegria que eu não tive,
Em teu rosto, como no chão, mas te dava.
haveria flores vermelhas abertas.

Dentro do teu coração, porém, estavam as fontes frescas, 6


sussurrando.
E os canteiros viam-te passar Tuoo cabe aqui dentro:
como a nuvem mais branca do dia. vejo tua casa, tuas quintas de fruta,
as mulas deixando descarregarem ceirões repletos,
e os cães de nomes antigos
ladrando majes~osamente
5 para a noite aproximada.

UM JARDINEIRO desconhecido se ocupará da simetria Range a atafona sobre uma cantiga arcaica:
desse pequeno mundo em que estás. e os fusos ainda vão enrolando o fio
para a camisa, para a toalha, para o lençol.
Suas mãos vivas caminharão acima das tuas, em descanso, , Ne~se fio vai o campo onde o vento saltou.
das tuas que calculavam primaveras e outonos, Vai o campo onde a noite deixou seu sono orvalhado.
fechadas em sementes e escondidos na flor!
, Vai o sol com suas vestimentas de ouro
cavalgando esse imenso gavião do céu.
Tua voz sem corpo estará comandando,
entre terra e água, Tudo cabe aqui dentro:
o aconchego das raízes tenras, teu corpo era um espelho pensante do universo.
a ordenação das pétalas nascentes. E olhavas para essa imagem, clarividente e como vida.
306 CECfLIA MEIRELES / OBRA POÉTICA MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / ELEGIA 307

Foi do barro das flores, o teu rosto terreno, Sentindo-o, cobria minhas lágrimas com um riso doido.
e uns liquens de noite sem luzes j\gora, tenho medo que não visses
se enrolaram em tua cabeça de deusa rústica. o que havia por detrás dele.

Mas puseram-te numa praia de onde os barcos saíam j\qui está meu rosto verdadeiro,
para perderem-se. defronte do crepúsculo que não alcançaste.
Então, teus braços se abriram, j\bre o túmulo, e olha-me:
querendo levar-te mais longe: diz.e-me qual de nós morreu mais.
porque eras a que salvava.
E ficaste com um pouco de asas.
8
Teus olhos, poré.m, mediram a flutuação do caminho.
Por isso, tua testa se vincou de alto a baixo, HoJE! Hoje de sol e bruma,
e tuas .pálpebras meigas com este silencioso calor sobre as pedras e as ·folhas!
se cobriram de cinza. Hoje! Sem cigarras nem .pássaros.
Gravemente. Altamente.
Com flores .abafadas pelo caminho,
7 entre essas máscaras de bronze e mármor~
no eterno rosto da terra. ·
O CREPÚSCULO é este sossego do céu ,f

com suas nuvens paralelas Hoje.


e uma última cor penetrando nas árvores
até os pássaros. Quanto tempo passou entre a nossa mútua espera!
Tu, paciente e inutilizada,
É esta curva dos pombos, rente aos telhados, contando as horas que te desfaziam.
este cantar de galos e rolas, muito longe; Meus olhos repetindo essas tuas horas heróicas,
e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas, no brotar e morrer desta última primavera
ainda sem luz. que te enfeitou.
Oh, a montanha de terra que agora vão tirando do teu peito!
Mas não era só isto, o crepúsculo:
faltam os teus dois braços numa jar.ela, sobre flores, Alegra-te, que aqui estou,
e em tuas mãos o teu rosto, fiel, neste encontro,
aprendendo com as nuvens a sorte das transformações. como se do modo antigo vivesses
ou pudesses, com a minha .chegada, reviver.
Faltam teus olhos com ilhas, mares, viagens, povos,
tua boca, onde a passagem da vida Alegra-te, que já se desprendem as tábuas que te fecharam,
tinha deixado uma doçura triste, como se desprendeu o corpo
que dispensava palavras. em que aprendeste longamente a sofrer.
E, como o áspero ruído da pá cessou neste instante,
Ah, falta o silêncio que estava entre nós, ouve o amplo ~ difuso rumor da cidade em que continuo,
e olhava a tarde, também. - tu, que resides no tempo, no tempo unânime!
Nele vivia o teu amor por mim,
obrigatório e secreto. Ouve-o e relembra
Igual à face da Natureza: não as estampas humanas: mas as cores do céu e da terra,
evidente, e sem definição. o calor do sol,
a aceitação das nuvens,
Tudo em ti era uma ausência que se demorava: ~ grato deslizar das águas dóceis,
uma despedida pronta a cumprir-se. Udo o que amamos juntas.
CEC1LIA MEIRELES / OBRA POÉTI C-1. MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS / ELEGIA 309
308
Tudo em que me dispersarei _como te dispersaste. Com menos palavras, apenas.
E mais esse perfume de eternidade, Com o mesmo número de lágrimas
intocável e secreto, foi lição tua chorar pouco ·
que o giro do universo não perturba. para sofrer mais. '

Apenas, não podemos correr, agora, Aprendi-a demasiadamente.


uma para a outra. Aqui estamos, hoje.
Com este dia grave, de sol velado.
Não sofras, por não te po~eres levantar De calor silencioso.
do abismo em que te reclmas: Todas as estátuas ardendo.
não sofras, também, As folhas, sem um tremor.
se um pouco de choro se debruça nos meus olhos,
procurando-te. Não tens fala, nem movimento nem corpo.
E eu te reconheço .
Não te importes' que escute cair,
no zinco desta humilde caixa, Ah, mas a mim, a mim,
teu crânio, tuas vértebras, quem sabe se me poderás reconhecer!
teus ossos todos, um por um ...
Pés que caminhavam comigo, FIM
mãos que me iam levando, DE " MAR ABSOLUTO E oyrROS POEMAS''
peito do antigo sono,
cabeça do olhar e do sorriso ...
Não te importes. Não te importes ...
Na verdade, tu vens como eu te queria inventar:
e de braço dado desceremos por entre pedras e flores.
Posso levar-te ao colo, tambem,
pois na verdade estás mais leve que uma criança.
- Tanta terra deixaste porém sobre o meu peito!
irás dizendo, sem queixa,
apenas como recordação.
E eu, como recordação, te direi:
- Pesaria tanto quanto o coração que tiveste,
o coração que herdei?
Ah, mas que palavras podem os vivos dizer aos mortos?


E hoje era o teu dia ,de festa!
Meu presente é buscar-te.
Não para vires comigo:
para te encontrares com os que, antes de mim,
vieste buscar, outrora.