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UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO

SUL - UNIJUI
DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO
CURSO DE PSICOLOGIA

LAURA LUIZA LORENSET

AS NOVAS CONFIGURAÇÕES FAMILIARES NA CONTEMPORANEIDADE

SANTA ROSA
2012
LAURA LUIZA LORENSET

AS NOVAS CONFIGURAÇÕES FAMILIARES NA CONTEMPORANEIDADE

Trabalho de Conclusão de Curso de


graduação apresentado ao curso de
Psicologia da Universidade Regional do
Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul
– UNIJUÍ, como requisito parcial a
obtenção do titulo de Psicólogo.

ORIENTADORA: PROFª.Dra. LALA CATARINA LENZI NODARI

SANTA ROSA
2012
TERMO DE APROVAÇÃO

LAURA LUIZA LORENSET

A comissão Examinadora, abaixo assinada, aprova o trabalho de conclusão de curso

AS NOVAS CONFIGURAÇÕES FAMILIARES NA CONTEMPORANEIDADE

como requisito parcial para obtenção do título de Psicólogo da Universidade


Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ.

Trabalho de conclusão de curso definido e aprovado em: _____/_____/_____

BANCA EXAMINADORA

____________________________________________
PROFa. DRA. LALA CATARINA LENZI NODARI
Psicóloga; Doutora,
Professora do Departamento de Humanidades e Educação

____________________________________________
PROFa. KENIA SPOLTI FREIRE
Psicóloga; Mestre;
Professora do Departamento de Humanidades e Educação
AGRADECIMENTOS

Meu agradecimento em especial aos meus pais, Elemar Lorenset e Adelira


Wenning Lorenset, que me deram a vida e a oportunidade do estudo, acreditaram
em mim e tornaram seus, os meus sonhos. A vocês dedico essa conquista.
Obrigada por estarem sempre ao meu lado, apoiando-me e incentivando-me,
obrigada por nunca me deixarem só e por serem o meu porto mais seguro.

Aos meus irmãos, Diogo e Nádia, que cada um da sua maneira, perto ou
longe, fizeram parte dessa trajetória, que me ouviram sempre que necessitei. Vocês
completam a minha história.

Ao meu companheiro de todas as horas, Fábio J. Müller, que nunca me


deixou só e sempre soube compreender as horas em que o dever me impedia de
estar ao seu lado. Você faz parte da minha vida. Obrigada!

E finalmente aos meus mestres, peças fundamentais nessa conquista,


obrigada por toda sabedoria e conhecimento que dedicaram a nós durante esses
cinco anos. Em especial meus supervisores de estágio, Professoras Silvia e Tânia e
Professor Gustavo. Também a orientadora desse trabalho, professora Lala Catarina
Nodari, que dedicou muito de seu tempo a ouvir-me. Obrigada por toda atenção
dedicada.
RESUMO

O presente trabalho de pesquisa diz respeito às novas configurações


familiares. Este tem por objetivo descrever alguns dos novos arranjos familiares que
estão compondo a sociedade contemporânea. Para tanto, apresentamos questões
importantes quanto ao desenvolvimento psíquico do sujeito e a constituição dos
vínculos, elementos essenciais que se colocam no enlace familiar. Elaboramos
também um breve resgate histórico sobre a família. As discussões acerca da família
se dão a partir da família nuclear burguesa, que teve sua ascensão a partir do
século XIX. Temos esse modelo como referência, pois a mesma guiou as
constituições familiares por muito tempo. A questão que se apresenta e que
tentamos elucidar ao longo da pesquisa diz respeito a dois pontos fundamentais: de
que forma a sociedade está lidando com as novas configurações, e ainda, qual é o
lugar da família na contemporaneidade. Nesse sentido, pesquisamos, refletimos e
descrevemos alguns elementos que ao longo do tempo foram mudando na
sociedade, os quais lançaram novas formas de pensar e agir em todo o enlace
familiar, fatores que contribuíram com veemência para chegarmos à sociedade
contemporânea.

Palavras-chave: constituição psíquica, família, vínculos, novas configurações


familiares, sociedade contemporânea.
SUMÁRIO

SUMÁRIO ................................................................................................................... 5

INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 6

1 CONSTITUIÇÃO DO PSIQUISMO NO DESENVOLVIMENTO HUMANO .............. 8


1.1 A CONSTITUIÇÃO DOS VÍNCULOS .................................................................. 13

2 A FAMÍLIA ............................................................................................................. 18
2.1 BREVE HISTÓRICO ........................................................................................... 18
2.2 CONFIGURAÇÕES FAMILIARES....................................................................... 22

3 ANÁLISES E CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................. 32

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 36


6

INTRODUÇÃO

Sabemos que o homem para entrar na sociedade, como sujeito de direitos e


deveres, necessita de uma estrutura que o prepare para o convívio social; esta
estrutura é definida como família.

Quando pensamos em família, é inevitável pensarmos em um pequeno grupo


social composto por um casal e seus filhos. Essa forma é predominante no
imaginário e encontra-se presente nos mais diversos lugares do mundo.

Se observarmos a sociedade em que estamos inseridos, não será difícil


perceber as novas configurações familiares que estão postas na
contemporaneidade. A organização familiar transformou-se no decorrer da história
do homem; a família está inserida na base da sociedade sendo que as condições
históricas e as mudanças sociais determinam a forma como essa se organizará para
cumprir a sua função social. Entretanto, em virtude de muitas mudanças que
ocorreram nos últimos anos em nossa sociedade, a estrutura familiar começa a
constituir-se de maneira diferente.

A sociedade contemporânea caracteriza-se por grandes mudanças nos


campos da economia, da política e da cultura, afetando dessa forma, todos os
aspectos da existência pessoal e social. Essas mudanças repercutem fortemente na
vida familiar, desde o modelo de formação até o provedor do sustento.

Nesse sentido, com o surgimento de novas formas de família, ou seja, novas


famílias compostas de forma que a sociedade não estava habituada a observar,
colocam-se alguns interrogantes. De que forma a sociedade está lidando com as
novas configurações familiares? Considerando as inúmeras mudanças sociais que
7

ocorreram nos últimos tempos, de que forma podemos pensar ou repensar o lugar e
a importância da família na contemporaneidade?

Dessa forma, apresento o objetivo desse trabalho de pesquisa que vai à


procura da compreensão das novas configurações familiares, abrindo espaço para a
constituição dos vínculos, pois estes são os primeiros laços de afeto criados pelo
sujeito e determinaram as suas relações por toda a vida. Também faremos um
apanhado histórico sobre o início da vida privada, o qual nos possibilita compreender
os primeiros movimentos realizados que culminaram na sociedade contemporânea;
e por último, alguns modelos das novas configurações familiares. Considerando que
ao mesmo passo em que as famílias estão se transformando, o social também
precisa movimentar-se no sentido de criar recursos para lidar com os novos arranjos
familiares.

Assim sendo, o trabalho de pesquisa descrito abaixo é de fundo teórico. Os


conceitos são destacados em negrito e sublinhados. Aqueles que são fundamentais
ao desenvolvimento estão explicitados e aprofundados ao longo do trabalho. Outros,
necessários para a organização da estrutura conceitual, terão suas explicações em
notas de rodapé.
8

1 CONSTITUIÇÃO DO PSIQUISMO NO DESENVOLVIMENTO HUMANO

O bebê humano é entre os seres vivos o que vem ao mundo mais


despreparado, mais pré-maturo. Ele não existe somente a partir de sua concepção
ou de seu nascimento, passa a existir muito antes, como significante na linguagem,
ou seja, é a partir do desejo dos pais em ter esse filho e o discurso que estes
proferem em relação a isso, que começa a consolidar a preexistência de um bebê e
desta forma a criança já passa a ser incluída numa cadeia de significantes.

Ao nascer, o bebê encontra-se desprovido de manejos para garantir a sua


própria sobrevivência, pois diferentemente dos animais, a espécie humana não vem
dotada de instintos de sobrevivência. Estes instintos referem-se a algumas
necessidades que dizem respeito a: alimentação, necessidades físicas e biológicas
e também de calor e conforto. É necessário que aprenda como fazer, e isso se
constrói somente a partir da relação com o outro1. Diante desse “desamparo dos
seres humanos” como nomeou Freud (1950) a reação da criança é motora, ou seja,
ela chora, esperneia e grita; sendo que essas manifestações vêm em busca do alívio
do que está sentindo.

Inicialmente o bebê humano necessita inevitavelmente da presença do Outro


para poder sobreviver, pois essa condição de desamparo coloca a criança numa
posição total de dependência, e ela necessita que o outro, além de dar conta das
suas necessidades físicas, possa também dar conta de suas necessidades de
constituição psíquica.

Na constituição do psiquismo o Outro2 responsável pelas primeiras marcas


fundantes da constituição psíquica do bebê e também por inserir o bebê numa rede
simbólica é o Outro primordial. Este é um lugar discursivo, no qual a criança
encontra referência, ou seja, é aquele que exerce a função materna, encarregado de

1
Segundo Chemama (1993, p. 156), a respeito do outro: “Lugar onde a psicanálise situa, além do
parceiro imaginário, aquilo que, interior e exterior ao sujeito, não obstante o determina.” Ou seja,
este diz respeito ao semelhante, ao igual, aquele que se relaciona com o bebê, porém não exerce
função sobre ele.
2
Lacan (1964) diz que o conceito de “Outro” não se refere a uma pessoa física e sim a uma instância
que dá conta de uma dimensão simbólica. Tomando como referência a história do sujeito, o Outro
pode ser compreendido como linguagem, equivale à cultura, ao conjunto de marcas que preexistem e
constituem a história de um sujeito. O “outro” diz respeito à relação com o semelhante, designa o
sujeito, o ‘eu’ em sua singularidade.
9

atender a esse organismo em suas necessidades, passando assim, a dar significado


às suas manifestações.

O pequeno infans, isto é, a cria humana ainda não dotada de uma posição
discursiva de fala, não possui a estrutura psíquica constituída, e esta vai fundar-se
somente a partir da relação com o outro. Seu corpo (corpo aqui na ordem do Real)
se tornará o receptor do discurso parental, sendo esse o veículo de transmissão de
laços identificatórios, o que é fundamental para a sua constituição psíquica.

Nos primeiros momentos, os movimentos do bebê são resultados de reflexos


espontâneos e biológicos, mas estes aos poucos vão se colocando de forma
diferente no imaginário3 da mãe, que passa a querer significá-los. O choro da
criança que ao nascer é natural (físico), com o passar dos dias torna-se expressão
de dor e desconforto e depois transforma-se em um elemento de comunicação entre
a mãe e o seu bebê. Da mesma forma, podemos colocar as reações corporais que
são ligadas ao tônus muscular. Inicialmente estas são relacionadas a um momento
de descontração, de relaxamento, porém, com o tempo a função materna será a
responsável por imprimir significações afetivas a essas reações.

Este é um momento em que o bebê precisa ser falado, tocado e olhado pelo
Outro. Necessita de um Outro que signifique seu choro, seu grito e seu corpo. Não
prescinde de um Outro primordial que projete nesse corpo a sua própria demanda. A
mãe, a partir disso, permite que o bebê inicie a sua constituição humana um sujeito
dotado de psiquismo em desenvolvimento.

De acordo com Lacan (1999), a mãe desde o início comunica-se com o seu
bebê, a relação destes se dá a partir de desejo e demanda, estes fazem parte de um
universo composto de palavras e sons que vão sendo ouvidos pela criança e pouco
a pouco, esta vai os internalizando até que se torne capaz de produzir as suas
primeiras manifestações sonoras. O olhar da mãe também se coloca como

3
Imaginário, a partir de Lacan, Chemama refere que, o imaginário só pode ser pensado em suas
relações com o real e o simbólico. Este deve ser entendido como a imagem, sendo esse o registro
do engodo, da identificação, (CHEMAMA 1993, p.104). O imaginário, portanto remete-se a imagem,
ao que é fantasioso. Essa é a dimensão da comunicação, do entendimento do que é possível
nomear. Real, de acordo com Chemama (1993, p.182) é “definido como o impossível, real é aquilo
que não pode ser simbolizado totalmente na palavra ou na escrita e, por conseqüência, não cessa de
não se escrever” Simbólico, diz respeito a uma “Função complexa e latente que envolve toda a
atividade humana, comportando uma parte consciente e outra inconsciente, ligadas à função da
linguagem e, mais especialmente, à do significante.” (CHEMAMA, 1993, p.199).
10

primordial, pois é o seu olhar juntamente com a sua voz que nomeiam o filho,
concedendo a ele um lugar na família, consequentemente na sociedade e finalmente
no campo simbólico.

O corpo físico e psíquico do bebê, diante das suas mais diversas


manifestações, torna-se receptáculo do discurso materno. As manifestações
apresentadas por ele são interpretadas pela mãe, de acordo com desejo e saber,
que supõe ter sobre seu filho. Por conseguinte, a mãe presume uma posição
subjetiva antecipada sobre o seu bebê. Aqui, pode-se compreender a importância do
discurso materno como estruturante da imagem, pois é através desse que o
pequeno infans, (pré-sujeito) identifica-se e cria recursos para construir uma
compreensão sobre a sua imagem através da identificação especular.

A função materna não precisa necessariamente ser exercida pela mãe real.
Segundo Ramalho (1988, p. 67), “A Função Materna, como o próprio nome diz,
trata-se de uma função, que não necessariamente é exercida pela mãe real. Trata-
se de “marcar para a vida” este pequenino corpo que é gerado para vir a se
constituir num sujeito.”

Esta função diz respeito ao ato de suprir as necessidades vitais do bebê e


consequentemente fornecer a ele um contato satisfatório com o mundo. É a partir da
função materna que a criança encontra referências para a sua constituição psíquica.
Essa relação entre mãe e bebê constrói-se a cada olhar, a cada sorriso, a cada
passo, enfim, nas ações de trocas frequentes que ocorrem na relação. Para o bebê
é importante estar sob os cuidados e proteção de uma mãe suficientemente boa, ou
seja, uma mãe capaz de aceitar que não sabe tudo sobre o seu filho, capaz de
reconhecer sua ambivalência, e ao mesmo tempo, ser completamente terna, ter
prazer nos cuidados que direciona ao filho e consequentemente às outras
atividades. Por conseguinte, tornar-se capaz de abrir um espaço na relação para a
entrada de outra figura, aquela que também irá exercer uma função importante na
constituição psíquica da criança.

Portanto, é através da relação com os pais, do investimento que estes fazem


no filho e a maneira como o sustentam, que o bebê encontrará um lugar,
assegurando assim, a possibilidade de existência como sujeito.
11

Jacques Lacan, psicanalista francês, desenvolveu à guisa de compreensão


teórica sobre a constituição psíquica, a teoria do estádio do espelho.

Esse processo ocorre aproximadamente dos seis aos dezoito meses de


idade. É um momento em que se torna possível ao corpo do bebê, que era até
então, despedaçado; integrar-se. Isso ocorre pela identificação com a imagem do
Outro, a qual é sua imagem antecipada. Esse momento coloca-se como uma
experiência de identificação fundamental, pois é nesse período que a criança
conquista a imagem do próprio corpo e isso lhe possibilitará promover a estruturação
do “Eu”.

A criança quando colocada na frente do espelho, vivencia uma reação lúdica,


e desta forma poderá vir a conseguir estabelecer uma relação com a própria
imagem.

A experiência da criança nesse momento de sua vida organiza-se em três


tempos; os quais marcam a conquista progressiva da imagem de seu corpo.
Inicialmente, ela é percebida como sendo de outro real, do qual a criança procura se
aproximar. Coloca-se então, uma confusão entre o “eu” e o “outro”, na medida em
que, é a partir do outro4 que ela faz suas vivências5 e se orienta inicialmente. Nesse
período, a criança ao ser colocada em frente do espelho, faz movimentos no sentido
de pegar o que vê, percebendo a imagem como se fosse real.

Em seguida, no segundo momento do estádio do espelho, a criança já possui


condições para perceber que o “outro do espelho” é uma imagem e não “outro real”.
E então, ela terá atribuições suficientes para saber distinguir a imagem do outro, da
realidade do outro do espelho.

E por último, a criança passa a reconhecer que a imagem que se apresenta


no espelho é a sua própria imagem. Isso é tão importante quanto reconhecer-se
diante do espelho e ter a convicção de que tudo é apenas uma imagem. A imagem
dela própria.
4
O Outro especular é quem se ocupa dos cuidados da criança e assume o papel de espelho, pois é
na alienação do bebê à imagem do Outro que este lhe apresenta uma imagem antecipada de seu
corpo e o corpo inteiro se dá pelo toque, pelo manuseio, pela forma como o adulto vai inscrevendo
uma imagem pela via significante, pela via discursiva. O adulto inscreve pelos significantes uma
imagem que a criança vai assumindo pela via da identificação. Essa imagem especular antecipa à
integridade, a totalidade, a imagem adequada no contraponto da fantasmática do corpo desintegrado.
O outro especular faz o contorno da imagem que se dá pela via discursiva.
5
É observável que as crianças ao baterem em outrem, dizem ser batidas e ao verem outras
chorarem, choram também.
12

Esse momento é de um enorme significado para o sujeito. A criança passa a


ter uma condição global de representação do próprio corpo, substituindo a noção de
corpo esfacelado e desintegrado.

Essa imagem do corpo é estruturante para a identidade do sujeito. Através


dela, ele poderá realizar a sua identificação primordial, sendo que todo esse
processo constitui-se a partir da via imaginária do sujeito.

O sujeito, em sua constituição psíquica, necessita ainda, (segundo aquilo que


nos mostra a Psicanálise) de uma forma de ‘organização’ relativa à resolução de
“conflitos” que distinguem o processo identificatório; já em processo desde o
nascimento e cuja ‘figura’ primordial vem sendo a mãe. Desse modo, o Complexo de
Édipo, que se define em três tempos, nos ensina que, inicialmente, a criança vê-se
colocada como desejo da mãe, como o único objeto que pode satisfazê-la. Ele, de
fato, busca satisfazer esse desejo. A mãe está aqui para o filho como absoluta e
plena, a única que sabe sobre este. Nesse período, a função paterna ainda não está
colocada na relação mãe e filho, ela circula com significante no discurso materno,
mas sua função (como terceiro), como interditor, ainda não está posta.

Ressaltando essa ideia, Lacan (1957-1958) nos diz que:

A primeira relação de realidade desenha-se entre a mãe e o filho, e é aí que


a criança experimenta as primeiras realidades de seu contato com o meio
vivo. É para desenhar objetivamente essa situação que fazemos o pai entrar
no triângulo, embora, para a criança, ela ainda não tenha entrado. (LACAN,
1957-1958, p. 186).

O segundo tempo do Édipo caracteriza-se pelo interdito, pela inscrição da lei


paterna. A função paterna serve para fazer com que a mãe perceba que ela não é
suficiente para realizar o desejo todo do bebê e então seja capaz de abrir espaço
para a entrada do pai na relação. É o período em que o pai se coloca como instância
mediadora da relação mãe-filho. Ao assim proceder, priva a mãe de seu objeto de
desejo. Ele a castra. Desse modo, possibilita à criança defrontar-se com a falta e
esta pode questionar-se: - Sou ou não-sou o falo de mamãe? E assim, o pai passa a
ocupar um lugar de significante, conceitualizado: o Nome do Pai.

Estabelece-se a mediação paterna, que irá desempenhar um papel


preponderante na configuração da relação “mãe-criança-falo” como forma de
privação. Isso nos mostra que o pai, considerado aquele que priva a mãe desse
13

objeto, (o objeto fálico de seu desejo), desempenha um papel essencial em todo o


transcurso do complexo de Édipo.

A partir desse período inicia-se um deslocamento, no qual a criança acredita


que o falo da mãe é o pai, e não mais ela (a criança).

No último tempo do Édipo, a questão da criança passa ligeiramente de “ser ou


não ser o falo”, para “ter ou não ter o falo”. Nesse período ocorre a fixação da função
simbólica paterna em que o pai é investido como Ideal do eu. Desse modo, vemos
que:

No terceiro tempo, portanto, o pai intervém como real e potente. Esse tempo
se sucede à privação ou à castração que incide sobre a mãe, a mãe
imaginada, no nível do sujeito, em sua própria posição imaginária, a dela,
de dependência. É por intervir como aquele que tem o falo que o pai é
internalizado no sujeito como Ideal do eu, e que, a partir daí, não nos
esqueçamos, o complexo de Édipo declina. (LACAN,1957-1958, p. 201).

Segundo o autor, é a função paterna que permite à criança colocar-se numa


posição ativa, ou seja, ter condições de passar de uma posição de “assujeito” para a
de um sujeito desejante. O pai deve suportar a sua função, ou seja, deve
presentificar-se perante o filho e assim garantir a saída da totalidade materna diante
deste.

Desta forma, além dele poder inserir o filho na cultura, reestabelece para a
mãe a sua posição de mulher, pois o filho não é capaz de completar essa falta da
mãe. É somente a partir da ruptura com a mãe que o filho percebe-se como um ser
não completo, um ser faltante. Unicamente a partir do encontro com a falta, é que o
sujeito passa a desejar. Portanto, é necessário que a criança saia da posição de
simbiose com a mãe, o que acontece e se desvela pelo interdito paterno, pois só
desse modo a criança será capaz de desejar e bancar seus próprios desejos,
constituindo-se então; como sujeito.

1.1 A CONSTITUIÇÃO DOS VÍNCULOS

Quando estamos tratando de sujeitos, falar de vínculos torna-se fundamental.


Na verdade, essencial, porque este trabalho tem como objetivo central discutir e
compreender a questão vincular: sua origem, importância para a constituição do
14

sujeito e particularmente, na reflexão acerca da formação dos vínculos na família. A


literatura sobre o tema, mostra-nos o quanto a relação de uma mãe com seu filho
durante a infância é importante. Sabemos por esses estudos, que essa relação
deve ser preferencialmente estável, pois as experiências vividas pela criança, nesse
período, poderão marcar de modos diversos, o seu desenvolvimento.

É condição vital para a sobrevivência do bebê, a existência de alguém que


possa cuidar e responder a ele. Essa pessoa geralmente é a mãe. O bebê responde
a essa atenção recebida por seu cuidador com grande interesse. A partir dessa troca
criam-se os vínculos.

Aproximadamente, do sexto ao oitavo mês, o bebê consegue perceber o


quanto é dependente deste outro que o sustenta. Sente o quanto a sua presença o
tranquiliza, da mesma forma que a sua ausência deixa-o extremamente angustiado.
Ocorre algo como que uma passagem de relação utilitária para afetiva, o que
constitui o primeiro vínculo afetivo do bebê.

Resumindo ideias de John Bowlby; Lima colabora, com o que segue:

Já nos primeiros dias de vida do bebê, é possível observar a capacidade de


discriminação que este desenvolve para orientar-se em direção a mãe
através de diferir seu cheiro e sua voz dos demais. Além disso, afirma que
por volta da quinta semana de vida do bebê, este é capaz de eliciar sorrisos
mais afetivos ao ouvir a vós da mãe, do que quando ouve a vós do pai ou
de outras figuras estranhas. (LIMA, 2010, p. 26).

A figura de apego pode ser entendida como aquela que transmite segurança
e conforto para a criança. É aquela que a criança pode usar como apoio e que
propiciará segurança nas relações e explorações do resto do mundo.

Segundo Bowlby:

Quanto mais experiência de interação social um bebê tiver com uma


pessoa, maiores são as probabilidades de que ele se ligue a essa pessoa.
Por essa razão, torna-se a principal figura de apego de um bebê aquela
pessoa que lhe dispensar a maior parte dos cuidados maternos. (BOWLBY,
1997, p. 172)

A mãe geralmente é a principal figura de apego do bebê, pois além de suprir


as necessidades vitais e servir como suporte para esse bebê relacionar-se com o
mundo, também emana amor e carinho em todas as suas ações em relação a esse.
15

É a ela que o bebê recorre quando necessita, fazendo isso através do choro, do
sorrir, do balbuciar, da sucção não nutritiva, do agarrar-se, do chamar e da
locomoção. Esses comportamentos colocam-se sempre como mediadores entre o
bebê e sua figura de apego. Com a idade, a frequência e a intensidade dessas
manifestações para chamar a atenção, (em especial da figura de apego), tendem a
diminuir, dando espaço à linguagem.

Sendo assim, a principal fonte de vínculo, de ligação entre a mãe e o bebê é o


conforto do contato. A criação dos vínculos é algo que se dá muito além da
supressão das necessidades orgânicas. Tão importante quanto amamentar, é cuidar
e transmitir carinho, conforto e segurança à criança.

É durante a amamentação ou alimentação, o momento mais propício para se


estabelecer vínculos; no entanto, “o alimento não pode ser considerado como
reforçador do comportamento de apego para a pessoa que alimenta e supre as
necessidades corporais do bebê”, LIMA (apud, BOWLBY 2002, p. 29). A
alimentação não se mantém apenas como uma necessidade biológica, mas como
um momento privilegiado de manter contato com o filho, sendo este, construído
durante a infância e terá influência fundamental na vida adulta do sujeito. É nesse
período que no processo de constituição psíquica, muitas questões de
desenvolvimento, se produzem.

Nesse sentido, Bowlby (1997, p. 171) contribui dizendo que: “Os padrões de
comportamento de ligação manifestados por um indivíduo dependem, em parte, de
sua idade atual, sexo e circunstâncias, e, em parte, das experiências que teve com
figuras de ligação nos primeiros anos de sua vida”.

É possível compreender ainda que o comportamento de apego da criança


pode ser dirigido a mais de uma figura logo após o seu nascimento. Estas, pelo
modo como se estabelecem as trocas, podem vir a ser tratadas pelo bebê de
maneira especial. O papel da figura de apego da criança, geralmente representado
pela mãe, pode ser ocupado por outra pessoa. Observamos, portanto, que se uma
segunda figura, agir de forma maternal para com o bebê, é bem possível que este a
trate da mesma maneira que trataria sua mãe biológica.

Sendo assim, as primeiras relações e vínculos criados pela criança são de


extrema importância para o seu desenvolvimento. É a mãe, ou a primeira figura de
16

apego da criança, que irá lhe apresentar as outras pessoas significativas; como o
pai, os irmãos, avós. Enfim, todo o enlace familiar e social que serão norteadores e
determinantes para o seu desenvolvimento.

Quando a criança atinge certo grau de maturidade e torna-se capaz de


suportar a ausência da mãe; essa deixa de apresentar o comportamento de apego e
dedica-se a explorar o mundo exterior, o seu meio ambiente. A mãe então torna-se a
base de segurança da criança, e esta sabe que pode procurá-la quando cansar ou
sentir medo.

Podemos perceber esse mesmo comportamento no decorrer da vida do


sujeito, a partir dos escritos e observações de Bowlby, que nos diz:

No restante de sua vida, a pessoa é suscetível de manifestar o mesmo


padrão de comportamento, afastando-se cada vez mais e por períodos cada
vez maiores daqueles a quem a ama, ainda que mantendo sempre o
contato e regressando, mais cedo ou mais tarde. A base a partir de onde
um adulto opera será a sua família de origem, ou então uma nova base que
ele criou para si mesmo. Qualquer indivíduo que não possua tal base é um
ser sem raízes e intensamente solitário. (BOWLBY, 1997, p. 175).

Portanto, é a partir dos vínculos afetivos e relações positivas criadas no


âmbito familiar; assim como, a segurança e confiança da mãe passadas ao bebê,
que permitirão para que este seja capaz de inserir-se, no decorrer da vida, nos mais
diversos grupos. Desse modo, estará podendo estabelecer relação de confiança
com os demais sujeitos de seu meio social e cultura e criar então, a sua própria
maneira de se relacionar. Durante toda a vida, o sujeito irá remeter-se
inconscientemente às relações vividas na infância, são estas, as relações primárias
que determinam as relações futuras. A sensação de ter sido bem acolhido na
família, primordialmente, será determinante para estar e sentir-se seguro diante de
novas e complexas situações.

No capítulo que segue, nesse trabalho, serão desenvolvidas as questões


históricas da família. Esse resgate histórico faz-se necessário para termos subsídios
para a compreensão da evolução e mudanças que ocorreram na sociedade nos
últimos anos, e que culminaram nessa sociedade moderna e imediata composta
pelos mais diversos arranjos familiares.

Compreendemos que as famílias constituem-se de forma singular, isso dá-se


a partir das relações estabelecidas entre cada membro que compõem o grupo
17

familiar e principalmente pelos “tipos” de vínculos que são (ou foram) possíveis de
ser constituídos, durante os anos essenciais de desenvolvimento de cada sujeito e
a forma como esses conseguem estabelecer laços transferênciais e criar vínculos
de apego com cada novo “integrante” da família. Esses foram os objetos de estudo
apresentados nesse primeiro capítulo.

Portanto, a história da família inicia-se com o investimento dos pais no filho e


a forma de vínculo que conseguem estabelecer com esse. A partir dessas relações a
criança passará a criar recursos para ser como tal, integrante dessa família e
consequentemente, compor a sociedade a qual ela terá que inserir-se.

Nesse sentido, no capítulo que segue, traremos um apanhado histórico sobre


as transformações sociais e particulares da família, até chegarmos aos dias atuais;
contemplando ainda, a forma como a sociedade está lidando com as novas
configurações, ou seja, de que modo estão criando-se os vínculos na
contemporaneidade.
18

2 A FAMÍLIA

Este capítulo é uma construção da concepção de família ao longo dos


tempos. Ele será construído com base em textos e livros de história; com destaque
para os textos da História da vida privada e da História social da criança e da
família.6

Iniciamos trazendo elementos importantes sobre a configuração da família


burguesa e a instituição da vida privada. Temos como base esse modelo de família;
por ser constituído por pai, mãe e filhos; modelo este, que se mantém em nossa
sociedade até hoje. De outro lado, abordaremos questões sobre as novas
configurações familiares, para posteriormente podermos analisar de que modo a
sociedade atual, aparentemente forjada nos vínculos burgueses, está lidando com
essas novas formas de família que compõem a sociedade contemporânea.

2.1 BREVE HISTÓRICO

Quando pensamos em família, é inevitável pensarmos em um pequeno grupo


social tradicional, no caso, a família nuclear burguesa; a qual predominou por muitos
anos em nossa sociedade. Para entendermos um pouco mais sobre essa
configuração, vamos à busca da origem, do surgimento e das suas características.
Esse processo se dará por um apanhado inicial, sobre a constituição dos espaços
privados, após a primeira guerra mundial.

No início do século XX, até o começo dos anos de 1950, havia uma diferença
notória entre os lares burgueses e os populares. Os primeiros eram amplos e
dispunham de todos os espaços e estruturas necessárias para manter a privacidade
de seus moradores, em contraste, os lares populares possuíam apenas um, ou no
máximo dois cômodos, onde os camponeses e operários aglomeravam-se. No
campo, por vezes a casa era de apenas um cômodo, onde a família cozinhava e
dormia.

6
Nosso estudo histórico sobre a família, está baseado nos textos da Coleção História da Vida Privada
(vide referencias bibliográficas ao final) Nota da autora.
19

Nessas condições, além dos burgueses, era impossível ter uma vida privada.
Pais e filhos viviam todos os atos da vida cotidiana às claras, nada era recoberto. Da
mesma forma era difícil possuir objetos pessoais. Aqueles que possuíam era porque
os recebiam como presente: como uma faca, um cachimbo, um relógio ou uma joia.
Esses objetos possuíam um enorme valor simbólico para o sujeito. Eram eles, os
únicos que a pessoa podia reivindicar como propriedade sua.

Os burgueses, nessa época, já dispunham de uma vida e um espaço privado


muito mais amplo. Nesse período, os segredos pessoais ou segredos de família,
que por vezes eram silenciados até mesmo para os filhos; necessitavam de uma
pessoa externa à família, para serem confidenciados. A vida privada resumia-se a
isso; em segredos confidenciados a outros sujeitos.

No caso dos camponeses, esses segredos geralmente eram confiados às


enfermeiras, assistentes sociais e ao padre. Os burgueses por sua vez, possuíam
um número maior de confidentes, além do padre. Estes possivelmente confiavam
seus segredos aos tabeliães, aos criados ou ao médico da família.

Em meados do século XX, surge a habitação moderna. Composta por vários


aposentos, geralmente independentes. Também passou ser mais fácil o acesso à
água encanada. Por esta razão, cada membro da família pode se apropriar de um
espaço pessoal. Nos últimos anos, houve mudanças na sociedade, como a redução
da jornada de trabalho e o direito a férias remuneradas, proporcionaram o tempo
para os sujeitos poderem desfrutar desse espaço conquistado. A vida familiar
passou a se concentrar nas refeições, nos domingos e em locais definidos como a
cozinha ou outro ambiente familiar.

A ampliação da vida privada nesse período não se limitou ao âmbito familiar e


doméstico, mas também à forma de como sair dele. O automóvel tornou-se algo
acessível a muitos, e então, o tempo livre adquirido como direito de trabalho, assim
como a maior facilidade de locomoção proporcionou aos sujeitos a ampliação das
suas relações. Se generaliza para toda a população o acesso a lugares e
momentos de vida privada, que antes só eram reservados à burguesia. A vida
privada sai do âmbito doméstico e invade os locais públicos.

Nesse período a família ainda exercia um rigoroso controle sobre os seus


membros. Inicialmente tudo passava pela autorização do pai, o chefe, pois era
20

quem exercia o pátrio poder. Na França7, com as leis de 1965, sobre os regimes
matrimoniais e o pátrio poder; a inferioridade jurídica da mulher desaparece e esta
passa a ter os mesmos direitos de decisões legais que o homem. Porém, o poder
dos pais sobre os filhos é inquestionável, estes não tinham direito a vida privada, o
tempo livre deles pertencia aos pais que lhe encarregavam das mais diversas
tarefas e as suas relações eram minuciosamente vigiadas.

Os pais, portanto, possuíam o poder de decidir sobre o futuro de seus filhos.


Inicialmente decidiam sobre seu futuro profissional. Os burgueses decidiam sobre os
estudos que seriam realizados por seus filhos. Entre o povo, eram os pais que
escolhiam o ofício a ser ensinado aos seus filhos, colocando-os como aprendizes.
Posteriormente passava pela decisão dos pais o casamento, pois este era um
assunto de família, em especial se havia algum patrimônio em questão; tradição
seguida com veemência pela burguesia.

Na segunda metade do século XX, com o surgimento da instituição escolar,


uma das principais características da revolução social; a vida das pessoas passa a
configurar-se de uma maneira diferente. Os filhos já não podem aprender o ofício
dos pais, pois estes já não trabalham mais em casa, portanto, necessitam aprender
uma profissão fora. Os ensinamentos sobre a sociedade, que antes eram
aprendidos em casa, agora passam a ser função da escola. Podemos então,
observar que:

Essa rápida evolução --- ela se dá no prazo de uma geração --- traduz o
fechamento da família sobre a vida privada. Se a família é substituída pela
escola, e com seu próprio consentimento, é porque ela tem consciência de
sua incapacidade estatutária: como toda educação é educação para a vida
pública, a família ao se tornar puramente privada, deixa de ser plenamente
educativa. (PROST, 2009, p. 71).

A partir do momento em que os filhos têm suas próprias relações, passa-se a


formar grupos de amigos ou colegas. Essas relações que se criam a partir das
convivências escolares e que ampliam para outras situações sociais, caracterizam-
se como momentos da vida privada de cada um. Essas novas formas de
relacionamento, inevitavelmente passam a concorrer com a família. Essa

7
A constituição Brasileira de 1988 colocou-se como um marco jurídico frente a uma nova concepção
de igualdade entre homens e mulheres. A partir de então, desaparece a figura da chefia da sociedade
conjugal e também as preferencias e privilégios que sustentavam juridicamente a dominação
masculina. (LOPES, 2005, p. 407).
21

socialização dos filhos fez com que estes abandonassem a esfera doméstica; e a
família deixa de ser uma instituição para se tornar um simples ponto de encontro de
vidas privadas.

Essas constantes mudanças da realidade familiar contribuíram para novas


formas de relacionamento, o que parece estar permitindo uma evolução das ideias
acerca do casamento.

Segundo Prost (1999, p. 74), ainda na primeira metade do século XX, casar
era formar um lar, lançar as bases de uma realidade social nitidamente definida e
claramente visível dentro da coletividade. Nesse período, as pessoas casavam-se
para poderem dar sustento e auxílio mútuo ao longo da vida, que poderia ser
penosa. Casava-se também com o intuito de terem filhos, aumentar o patrimônio e
deixar-lhes a herança, pois acreditavam que dessa forma os seus filhos iriam
realizar-se e consequentemente, seus pais também. Nessa sociedade os valores
familiares eram centrais, era o êxito que cada indivíduo tinha em sua família, assim
como o papel que desempenhava, onde o os demais membros da sociedade
avaliavam e julgavam.

A sociedade não tinha como norma o amor para que se realizasse o


casamento e nem era isso que poderia definir o seu sucesso. De acordo com Prost:

Para se casar um homem e uma mulher deviam sentir certa atração, ter a
sensação que poderiam se entender, se apreciar, se estimar, em suma, que
poderiam combinar. Isso de forma nenhuma excluía que já se amassem,
nem garantia que viessem a se amar mais tarde: a valorização dos
aspectos institucionais do casamento mascarava as realidades afetivas.
(PROST, 1999, p. 75).

As opiniões começam a mudar a partir de 1930. Nesse período, com a


revolução dos jovens e com o casamento entre os estudantes; a união, lentamente
deixa de ser algo predestinado pelos pais com interesses financeiros, ou então,
como uma garantia de segurança para ambos, com o intuito de terem filhos para
consequentemente destinar sua herança e sentirem-se realizados. Passa-se a
entender o casamento como um momento de amadurecer as relações, que se
consuma com o desejo de ter filhos, e estes para serem bem criados, não
necessitam apenas do amor dos pais, mas também do amor entre eles. Então, o
amor passa a ocupar um lugar central no casamento.
22

A partir disso, a sociedade passa a ter uma posição mais aberta frente às
relações sexuais antes do casamento, desde que os noivos se amassem e
quisessem viver juntos. Porém, continuava-se a reprovar intensamente as mães
solteiras. No entanto, com o surgimento do feminismo, os costumes mudam
novamente, pois a contracepção feminina ganha espaço, permitindo que a
sexualidade se dissocie da procriação.

Para Prost (1999, p. 78) “o casamento então deixa gradativamente de ser


uma instituição para se converter numa formalidade”. Os filhos, a partir da evolução
educacional, conseguiram conquistar sua independência na família; já não precisam
mais se casar para poderem “escapar” dos pais para exercer sua sexualidade, pois
as relações sexuais passaram a ser aceitas sem o casamento.

Surge então a chamada “coabitação juvenil”; os jovens passam a morar juntos


sem o casamento, o que entre 1968 e 1969 já era algo bem comum. Os pais com
receio de romper com seus filhos acabavam aceitando a situação e por vezes até
contribuindo financeiramente com o sustento do jovem casal. E aos poucos a
sociedade passa a aceitar essa nova forma de viver instituída pelos jovens.

A partir de então a sociedade passa a configurar-se de uma nova maneira. Os


jovens que moram juntos já não desejam se casar, e a vida a dois diz respeito
somente a eles. O casamento por sua vez, torna-se constantemente mais frágil e
raro, o número de divórcios aumenta com rapidez. Porém, em contrapartida os
números de coabitações se mantêm fortemente.

Diante de todas essas transformações Prost (1999, p. 80) nos diz que “Além
do casamento a própria família é abalada, o lar formado por um casal e filhos já não
é norma exclusiva: as famílias com apenas um dos genitores são cada vez mais
frequentes”.

2.2 CONFIGURAÇÕES FAMILIARES

Vimos anteriormente que as mudanças sofridas na sociedade desde o século


XX contribuíram de forma significativa para chegarmos à sociedade contemporânea,
na qual estamos inseridos atualmente.
23

Inicialmente, temos referência à família nuclear burguesa, composta por pai,


mãe e filhos. Ela começa a delinear-se, no surgimento da escola, pela busca de
privacidade, com a preocupação de igualdade entre os filhos e a manutenção das
crianças junto aos pais. Há ainda o sentimento de família, valorizado pelas
instituições, das quais se pode citar como principal: a Igreja.

Atualmente, este modelo de família parece estar sofrendo uma grande crise
de identidade. Muitos fatores tem sido responsáveis por esta realidade. Dentre eles:
a Revolução Industrial, o Movimento Feminista, o Movimento da Juventude, a
entrada da mulher no mercado de trabalho, o aumento do número de divórcios,
assim como o surgimento da pílula anticoncepcional; a qual separou a sexualidade
da reprodução, interferindo diretamente na sexualidade feminina. Ainda, a prática
das inseminações artificiais, como também, de vários outros métodos e
possibilidades que surgiram no decorrer dos anos, contribuíram para essa chamada
crise da família nuclear. Portanto, todos estes fatores em simultâneo, vêm abalando
este grupo social (família). Esta por sua vez, encontra-se numa fase de transição,
pois deixa de corresponder às ideias estabelecidas no passado; um grupo social
imutável e com uma estrutura fortemente enraizada. Precisando adequar-se à
sociedade contemporânea, cuja vida é mais dinâmica, pois tudo se processa de
modo mais rápido e complexo.

Segundo Gomes (1988, apud SZYMANSKI, 2003, p. 26) a família é definida


como, “Um grupo de pessoas, vivendo numa estrutura hierarquizada, que convive
com a proposta de uma ligação afetiva duradoura, incluindo uma relação de cuidado
entre os adultos e deles para com as crianças e idosos que aparecerem nesse
contexto”. No entanto, a família passou por muitas transformações no decorrer dos
anos, até chegar aos moldes atuais. A família nuclear burguesa que surgiu no início
do século XVIII e até hoje predominou em nossa sociedade, entra em crise.

As expectativas em relação à família estão, no imaginário coletivo, ainda


impregnadas de idealizações, das quais a chamada família nuclear é um
dos símbolos. A maior expectativa é de que ela produza cuidados, proteção,
aprendizado dos afetos, construção de identidades e vínculos relacionais de
pertencimento, capazes de promover melhor qualidade de vida a seus
membros e efetiva inclusão social na comunidade e sociedade em que
vivem. No entanto, estas expectativas são possibilidades, e não garantias. A
família vive num dado contexto que pode ser fortalecedor ou esfalecedor de
suas possibilidades e potencialidades. (CARVALHO, 2003, p. 15).
24

Sendo assim, é preciso olhar a família no seu movimento, pois a mesma está
passando por momentos de organização e reorganização e torna-se visível a
conversão de novos arranjos familiares. É necessário enxergar a família
contemporânea, não apenas em seus pontos de fragilidade, mas compreendê-la
como um grupo social, cujo movimento é realizado no sentido de reorganizar-se, o
que vai de encontro ao contexto sociocultural inerente a contemporaneidade.

Nesse sentido, podemos pensar, nos diversos arranjos familiares existentes


em nossa sociedade, sendo que sentimento que une os seus membros é o afeto. As
pessoas podem conviver em uma determinada relação afetiva, independente do
gênero, sexo, ou grau de parentesco, pois a relação de cuidado e afeto de um para
com o outro, passa a significar um compromisso em que todos estão envolvidos. É
nessa relação que se estabelece o lugar onde cada um constitui-se e
consequentemente desenvolve-se enquanto sujeito.

Dentre os vários modelos de famílias que surgiram na contemporaneidade,


citamos alguns:

Famílias Reconstituídas: Quando ocorre o divórcio, os sujeitos vão à busca


da construção de uma nova família. Nesse caso, unem-se marido e mulher e
também os filhos provenientes de relações anteriores e estes vivem todos sob o
mesmo teto. Essa nova família pode se dar a partir de um novo casamento ou de
uma união estável. Os filhos possuem origens distintas quanto à paternidade
biológica. Diante da realidade atual, este modelo tende a aumentar sua incidência.

Essa nova configuração familiar, por vezes pode enfrentar problemas, pois
essa família necessitará passar por um período de adaptação frente à nova
configuração, o que nem sempre é vivido de forma tranquila, principalmente pelos
filhos. Estes terão que aprender a conviver com os seus “novos irmãos” e também
aprender a ter uma relação sadia com a madrasta ou padrasto. Já o novo casal,
frequentemente traz algum tipo de perda do relacionamento anterior, assim como
uma de forma de viver, hábitos que ele carrega junto que foram construídos em
outra relação. Esses pontos também terão que passar por uma readaptação, para
que essa nova família se consolide.

Famílias Monoparentais: São famílias decorrentes de divórcios ou


separações, também famílias em que um dos pais é viúvo ou solteiro. Nessa
25

configuração um dos pais assume os cuidados com o filho e o outro não é ativo na
parentalidade. A monoparentalidade também é considerada para aquelas mulheres
que decidem ser mãe solteira desde o início da gestação e ainda para aquele que
decide adotar uma criança, mesmo sem ter um companheiro.

Antigamente a monoparentalidade ocorria como um fenômeno involuntário,


pois era fruto de uma situação imposta, como por exemplo, a viuvez. Atualmente
esse fenômeno caracteriza-se cada vez mais como voluntário. Ele parte de uma
opção do sujeito, demonstrado por exemplo, como podemos observar no crescente
número de divórcios.

Uma das dificuldades da monoparentalidade é que o genitor guardião deve


suprir tanto as necessidades econômicas, quanto as afetivas. Os filhos por sua vez,
são obrigados a conviver sem a presença contínua de um dos pais; estes por vez
podem enfrentar problemas sociais que geralmente ocorrem nas escolas ou em
rodas de amigos.

Família Extensa ou Ampliada: Entende-se por família extensa, aquela que


se estende para além da unidade do casal ou unidade de pais e filhos. Ela é
formada por parentes próximos, como tios, avós, enteados, primos, enfim, pessoas
as quais a criança ou adolescente convive e mantém vínculos de afinidade e
afetividade.

Família Homoparental: Família em que existe uma união conjugal entre duas
pessoas do mesmo sexo. Nessas famílias, não é algo comum haver laços
sanguíneos, isso de certa forma parece facilitar uma maior cumplicidade no
compartilhamento das responsabilidades comuns. Nessa configuração, também não
há os papéis de gêneros definidos, ou seja, a mãe que cuida dos filhos e da casa e o
pai que provê o sustento de todos, pelo contrário, ambos desempenham o papel de
pai e mãe, responsáveis pelo bem estar físico-emocional dos filhos.

A homoparentalidade, aos poucos, começa a ganhar legitimidade social, uma


vez que, as relações e as instituições sociais estão constantemente em processos
de mudança. Isso se dá, a partir da reestruturação dos papéis na sociedade como
um todo.

Uniões Consensuais: É definida como aquela formada por um homem e


uma mulher livre de formalidades legais do casamento, dispostos a conviverem e
26

constituir família. Essa forma de união está tendo um significativo aumento em


nossa sociedade.

Famílias Com Filhos Advindos Das Novas Tecnologias De Reprodução


e/ou Fertilização: Essa técnica tem por objetivo possibilitar que pessoas com
problemas de infertilidade e esterilidade possam satisfazer o desejo de alcançar a
maternidade ou a paternidade, constituindo assim a sua própria família.

Diante dessas técnicas, citaremos brevemente duas, sendo essas as mais


conhecidas e recorridas pelas pessoas que desejam formar uma família com filhos,
mas que por algum empecilho não estão aptos para a concepção natural e então
necessitam recorrer às novas tecnologias para poderem alcançar o seu desejo.

Citamos então:

Inseminação Artificial: essa técnica consiste em depositar espermatozoides,


previamente capacitados em laboratório no interior do útero usando meios artificiais.

Fecundação In Vitro: Aqui a técnica consiste em unir em laboratório o óvulo


com o espermatozoide, com a finalidade de obter um número adequado de embriões
para realizar o tratamento e transferi-lo para o útero materno. Essa técnica é uma
alternativa válida apenas depois do casal ter recorrido a outros tratamentos como a
inseminação artificial e essa por sua vez tenham falhado.

As mais diversas formas de fecundação ou fertilização podem ser entendidas


como mais uma maneira de constituir uma família. Podemos pensá-la como uma
alternativa para aqueles que desejam ter seus filhos legítimos. Cabe a cada casal
analisar o que de fato deseja.

Família Dissolvida Com Guarda Compartilhada: Essa forma de família


ocorre a partir do momento em que o casal decide não viver mais junto, no entanto,
estes possuem filhos e continuam sendo os responsáveis por eles.

A guarda compartilhada implica no exercício conjunto e pleno da família, aqui


não ocorre o mesmo que na guarda exclusiva, onde um dos pais possui apenas o
direito de visita aos filhos, pelo contrário, os filhos têm a opção de escolherem com
quem querem morar. No entanto, a outra parte não perde as atribuições que lhe são
conferidas, e que deve continuar cumprindo intensamente o poder familiar, ou seja,
deve continuar participando veementemente das questões fundamentais da vida dos
27

filhos, como os estudos, esporte, lazer, enfim, todas as atividades que são
necessárias a presença das figuras parentais.

A separação dos pais com certeza traz algum tipo de perda para os filhos e a
família, no entanto, é fundamental que os pais possam ter o discernimento de que
seus filhos necessitam dos dois para constituir-se de forma saudável. Quando a
separação é inevitável, fato que tem aumentado em nosso país, é importante que os
pais coloquem seus filhos em primeiro lugar. Dessa forma, podemos afirmar que a
guarda compartilhada, sem restrições de visitas e de certa forma como uma
responsabilidade maior de cada um para com seus filhos; seria a forma menos
danosa de se conseguir lidar com essa situação, que causa tanto sofrimento nas
figuras envolvidas.

Família adotiva: Diz respeito a um casal ou então a uma única pessoa que
assume um indivíduo como seu filho. A partir da adoção, a responsabilidade e os
direitos dos pais biológicos são transferidos aos pais adotantes. Dizendo de outra
forma, a adoção é o processo onde cria-se um lugar de filho a um sujeito que não
possui a mesma história que o casal. Este por sua vez, irá integrar essa família e a
partir do acolhimento passará a reconhecer-se e também a ser reconhecido como
filho.

Família Projetada Sem Filhos: Essa é uma forma de família na qual o casal
planeja sua vida sem filhos, visando afins econômicos. Nessa lógica, o homem e a
mulher contribuem financeiramente a fim de construírem um patrimônio e
consequentemente poderem aproveitar férias sem preocupações e com gastos para
a educação dos filhos.

Diante das mais variadas formas de configurações familiares, citamos apenas


algumas, sendo que essas já são suficientes para podermos observar as grandes
mudanças nos enlaces que se constituíram no mundo contemporâneo. A família
nuclear já não se coloca mais como norma a ser seguida sem que as pessoas
possam se contrapor a ela. De acordo com Szymanski “Pode-se supor que ao
aceitar o modelo de família burguesa como norma e não como um modelo
construído historicamente, se aceita implicitamente seus valores, regras, crenças e
padrões emocionais” (2000, p. 24).
28

Certamente que muitas dessas novas formas de arranjos familiares já


existiam, entretanto, estes eram ignorados pelo restante da sociedade, como se
nada estivesse ocorrendo. Porém, a partir do momento em que os protagonistas
desses arranjos passaram a exigir seus direitos de cidadãos, sendo esses; o
respeito, direito a conviver em sociedade sem discriminação, direito de ter uma vida
“normal” como os demais membros da sociedade; direito a poder constituir uma
família com filhos, entre outros. Estes, desta forma, provocaram a sua visibilidade
perante toda a sociedade e assim começaram a surgir questões que interpelam até
hoje todo o tecido social.

A sociedade por sua vez, mostrou e ainda mostra certa resistência diante das
configurações que se “desviam” do modelo da família burguesa. Principalmente se
existirem crianças que compõem esse núcleo familiar. Nesse sentido, podemos nos
referir a Szymanski (2000, p. 23) que nos fala um pouco sobre as relações entre os
membros da família, a sua importância e a sua consequência. De acordo com a
autora, as interpretações das inter-relações eram feitas a partir do modelo da família
nuclear burguesa, e se por ventura alguma família se afastava da estrutura do
modelo, esta era chamada de “desestruturada” ou “incompleta”, também
consideravam que dessa família poderiam surgir problemas emocionais, ou seja, era
considerada a estrutura da família e não a qualidade das relações.

A partir de todas essas mudanças, tanto na sociedade quanto na família,


podemos observar alguns pontos em comum que as famílias contemporâneas vêm
apresentando; a notável diminuição do número de membros nas novas
configurações; a diminuição dos casamentos religiosos; o aumento das uniões
consensuais; o evidente aumento da inserção feminina no mercado de trabalho e a
participação de vários membros da família em sua economia, sendo que, quanto
mais pobre for a família, mais os filhos contribuem na renda familiar independente da
idade.

Dessa forma, podemos dizer que dentre todas as mudanças ocorridas na


estrutura familiar nesses últimos anos, o fato de ela não ocorrer mais a partir do
casamento típico e religioso, pode ser considerada uma das mais marcantes, sendo
que até o Código Civil já fez mudanças em relação às uniões dos casais.

Diante de tantas perspectivas diferentes frente às configurações familiares,


conceituar a família e diferenciá-la de outros grupos sociais, torna-se cada vez mais
29

um desafio do mundo contemporâneo, pois estamos inseridos em uma sociedade na


qual a célula base para o seu funcionamento são as configurações familiares e as
formações dos vínculos. Afinal, é a partir de como o homem constitui-se enquanto
sujeito que este irá contribuir com o andamento, ordem e funcionamento da
sociedade. Tudo inicia no âmbito familiar. Devemos ainda considerar que o homem
para ingressar na sociedade, como sujeito de direitos e deveres, necessita de uma
estrutura que o prepare para uma convivência social. Essa estrutura é a família. Ela
é a referência de sua existência; a instituição familiar será seu rumo norteador até o
final da mesma.

O que podemos afirmar em relação aos mais diversos arranjos familiares, é


que o essencial é o afeto que une os membros, independente da sua configuração.
A família por ser a base da constituição do sujeito, dos vínculos e
consequentemente da sociedade, deve ser reconhecida e protegida sem quaisquer
tipos de discriminação. Afinal, a sociedade está movimentando-se cada vez mais
para novas formas de uniões, as quais irão mais cedo ou mais tarde se tornar tão
frequentes e reconhecidas como o casamento religioso e as famílias nucleares que
predominaram por tanto tempo em nosso cenário social.

Bock, em relação às configurações familiares, nos diz que:

Vamos percebendo, então, que a família, como a conhecemos hoje, não é


uma organização natural nem uma determinação divina. A organização
familiar transforma-se no decorrer da história do homem. A família está
inserida na base material da sociedade, ou dito de outro modo, as
condições históricas e as mudanças sociais determinam a forma como a
família irá se organizar para cumprir sua função social. (BOCK, 2002, p.
248).

Com esse fragmento do texto de Bock, podemos reafirmar que a influência e


as mudanças sociais e culturais ocorridas desde o século XVIII contribuíram
plenamente com o surgimento das novas configurações familiares que cada vez
mais se presentificam em nossa sociedade.

Dessa forma, coloca-se com grande relevância trazermos a luz algumas


considerações de Vitale(2000) sobre a socialização da família. As informações
referidas são retiradas do texto Socialização e Família: Uma análise intergeracional.

Como sabemos, a subjetividade constitui-se lentamente e continuamente e


se dá a partir das relações e investimentos que o sujeito estabelece com o mundo
30

que o rodeia, ou seja, as experiências vividas, a cultura e sociedade que está


inserido. Esse processo de integração da subjetividade, de acordo com a autora, é
entendido como socialização.

A socialização se coloca inicialmente como primária sendo entendida como


interiorização da realidade, a partir da relação entre a criança e os outros
significativos, e dizem respeito aos aspectos da vida social que devem ser
transmitidos. Diante disso, a criança inicialmente interioriza objetos e situações que
pouco a pouco irão contribuir para a construção da identidade, traços esses que ela
levará por toda sua vida.

Esse mundo interiorizado na primeira infância através da socialização


primária irá no decorrer da vida receber novas interiorizações, essa será a
socialização secundária que é a responsável por facilitar a adaptação do indivíduo
em novos papeis.

Assim, podemos salientar mais um ponto fundamental da família na vida do


sujeito, pois esta torna-se referência para esse que ali se constituiu e remonta
novamente a essencialidade desta que o acompanhará por muitos momentos da
vida, até que seja capaz de criar sua própria família e repassar por gerações a
função que essa carrega.

A família, além de se colocar como um espaço onde se criam condições


favoráveis para a constituição de um sujeito, o que os torna consequentemente
criadores e mantenedores da sociedade, ainda se apresentada como a base sólida
em que se desenvolvem condições de socialização, função necessária para todo o
desenvolvimento e qualidade de relacionamentos favoráveis que irão se colocar
necessariamente no decorrer da vida.

Vitale, em relação à família e a socialização nos diz que:

A família não é o único canal pelo qual se pode tratar a questão da


socialização, mas é, sem dúvida, um âmbito privilegiado, uma vez que este
tende a ser o primeiro grupo responsável pela tarefa socializadora. A família
constitui uma das mediações entre o homem e a sociedade. Sob este
prisma, a família não só interioriza aspectos ideológicos dominantes na
sociedade, como projeta, ainda, em outros grupos os modelos de relação
criados e recriados dentro do próprio grupo. (VITALE, 2000, p. 90).
31

É no interior da família que se começa a elaborar o comportamento social dos


indivíduos. A família representa para a criança um grupo cultural, sendo portanto, a
responsável por imprimir valores e crenças naqueles que a compõem, Esses valores
que são transmitidos foram um dia ensinados e passados pelos pais desses que
hoje ensinam. É algo que ocorre entre gerações. Os valores vão mudando a cada
época; logo a cada nova geração, configura-se uma nova sociedade e cultura, pois
estas estão sempre recebendo informações e novas formas de viver as quais,
necessitam adaptar-se, implicando na adaptação de todo o tecido social para que a
sociedade tenha condições de continuar se desenvolvendo.
32

3 ANÁLISES E CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo desse trabalho, percebemos que a família contemporânea já não


tem mais a mesma estrutura rígida de antigamente. Hoje as configurações se dão
das mais variadas maneiras, e a sociedade por sua vez, pelo que podemos
observar; mesmo demonstrando certa resistência frente aos novos arranjos
constituídos na sociedade contemporânea: parece estar processando de forma mais
rápida e consciente as novas configurações.

Percebe-se também que a família nuclear burguesa não é mais hegemônica,


embora tenha deixado na sociedade resquícios de sua organização. No entanto,
esta não é mais o único modelo institucional que pode ser considerado para
caracterizar as famílias no contexto atual.

Várias mudanças ocorreram nas sociedades ocidentais que contribuíram para


o surgimento de novas formas de família, desde a entrada da mulher no mercado de
trabalho até o progresso cientifico (técnicas de fertilidade). Muitos fatores exerceram
forte influência sobre a sociedade o que passou a influenciar os grupos familiares.
Considerando que a família não é um grupo homogêneo e sim um universo de
relações diferenciadas, essas mudanças que ocorreram externas a família,
acabaram atingindo-a como estrutura e também de forma diversa cada uma das
relações e cada parte das relações. Portanto, as mudanças que ocorrem na
sociedade tem fortes implicações na família como um todo.

Apesar das diversas transformações ocorridas, sabemos que a estrutura


familiar é essencial para o desenvolvimento psíquico e físico saudável de qualquer
sujeito que se encontre em estruturação.

A família nuclear burguesa que por muito tempo predominou em nossa


sociedade, mesmo hoje, não sendo mais a única configuração, transmitiu e deixou
marcada na sociedade a função de uma família. Consideramos que a família é a
primeira e principal instituição da vida de cada sujeito. Ela é a responsável por criar
condições favoráveis para a constituição dos vínculos, fator essencial para o
desenvolvimento do sujeito, pois é através deste que o mesmo será capaz de
relacionar-se com diferentes grupos no decorrer de toda a sua vida.
33

É no enlace familiar que o indivíduo irá constituir-se e tornar-se sujeito, é a


partir do acolhimento, da antecipação, do investimento, enfim, dos mais variados
fatores constitutivos que ocorrem no âmbito familiar, que o pequeno infans irá
ascender para a vida social. Para que isso ocorra, é necessário que este tenha tido
a possibilidade de constituir vínculos, estes primeiramente com os entes familiares.
É a partir da qualidade dos vínculos estabelecidos no âmbito familiar, com as figuras
parentais, ou seja, a figura de apego que o sujeito será capaz de criar seus próprios
recursos psíquicos para relacionar-se com o restante do mundo. É a família
também, a responsável pelo primeiro contato social da criança, é ela que apresenta
o mundo para a criança e a “forma de como viver nele”.

Portanto, a família desempenha as funções mais primordiais e essenciais na


vida do sujeito. Faz-se mister dizer que a família é condição para a sobrevivência e
desenvolvimento de todos os sujeitos.

Nesse sentido, a partir de todas as mudanças ocorridas em relação às


famílias, observando ainda as novas formas de união entre casais e a maneira como
estes constituem sua família e planejam suas vidas, podemos dizer que
independente destes seguirem ou não um padrão familiar pré-estabelecido pela
sociedade, unem-se pelo amor, pelo afeto, pela importância que um tem para o
outro, sem considerar as condições históricas e tradicionais da família. No entanto,
não parecem ter deixado de lado a importância, os valores e o compromisso que
essa instituição carrega dentro da sua função de formadora de sujeitos e
consequentemente da sociedade, independente da sua configuração. É a partir
dessas mudanças que a cultura e a sociedade começam a movimentar-se de
maneira diferente.

Para que uma família se constitua e seja plenamente saudável para todos que
a compõem, o elemento principal é o afeto, o amor de uns para com os outros. Não
podemos mais dizer qual é a melhor configuração familiar diante de tantas, mas
podemos afirmar que todas são boas, ou melhor, que cada uma à sua maneira,
independente de sua configuração, são essenciais e possuem a mais bela função: a
de constituir um sujeito.

A realização deste trabalho, permite-nos afirmar que a hipótese de que a


instituição familiar evoluiu ao longo dos tempos, passando por algumas fases e
34

tomando diversos rumos de transformações até culminar com o modelo da família


contemporânea, confirma-se.

A sociedade, como podemos observar a partir dos escritos dos autores


estudados, transformou-se muito a partir do século XX. Várias foram as mudanças
que alteraram o habitual cenário social constituído até então. Entre essas mudanças
podemos relembrar a Revolução Industrial, o direito ao voto conquistado pelas
mulheres, o surgimento da pílula anticoncepcional que desvinculou a sexualidade da
reprodução; entre outras modificações que foram possibilitando a mudança na vida
social dos sujeitos, assim como na subjetividade de cada um.

As pessoas passaram a comportar-se de maneira diferente, a mulher


conquistou direito e respeito, as crianças foram valorizadas. Tudo isso, em
simultâneo, pouco a pouco foi mudando o tecido social. Inevitavelmente todas as
questões que inicialmente atingiram a sociedade, passaram também a refletir na
ordem familiar. Essa por sua vez, começou também a sentir os efeitos das
mudanças ocorridas na sociedade, o que a levava consequentemente a modificar-
se.

As famílias começam então a constituírem-se de maneira diferente, novas


configurações surgem, o que culmina na sociedade contemporânea atual.

O interesse em pesquisar sobre esse assunto surgiu justamente para poder


pensar de que forma a sociedade está criando recursos para poder lidar com os
novos arranjos familiares. Da mesma forma, o tema coloca-se com grande
relevância na formação acadêmica, pois enquanto profissional, faz-se necessário
poder entender de que maneira essas famílias estão constituindo-se assim como, as
questões que aparecem com ela, tanto subjetivas dos sujeitos enlaçados nesses
novos arranjos, como as sociais que permeiam essas novas configurações.

A partir da pesquisa realizada, considerando que durante o século XX os


burgueses confidenciavam seus segredos aos criados, aos padres ou então aos
médicos da família, questiono-me sobre quem são os confidentes na
contemporaneidade? A quem os sujeitos que constituem as novas configurações
familiares, confidenciam suas questões? Seria este um lugar para o psicólogo no
mundo contemporâneo? Acredito que essa seja uma questão que mereça novas
oportunidades para ser pensada em pesquisa. As configurações familiares podem
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ter mudado, a sociedade inquestionavelmente também; no entanto, existe algo que


permanece: as pessoas necessitam falar e necessitam de alguém que as escute.
Portanto, a grande questão que resta é: Quem (e de que modo), no mundo
contemporâneo, são as pessoas que acolhem a fala do seu semelhante?
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