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VISÕES DA IDENTIDADE ROMANA EM CÍCERO E SÊNECA

Luiz Fernando Dias Pita

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-


Graduação em Letras Clássicas da Universidade
Federal do Rio de Janeiro como quesito para a
obtenção do Título de Doutor em Letras Clássicas.
Orientadora: Profª. Drª Vanda Santos Falseth

Rio de Janeiro
Abril de 2010
2

VISÕES DA IDENTIDADE ROMANA EM CÍCERO E SÊNECA

Luiz Fernando Dias Pita

Profª. Drª. Vanda Santos Falseth

Tese de Doutoramento submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras


Clássicas (Área de Concentração: Culturas da Antiguidade Clássica), da Faculdade de
Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro como parte dos requisitos necessários à
obtenção do título de Doutor em Letras Clássicas.

Rio de Janeiro, de abril de 2010.

_____________________________________________________________________
Profª. Drª. Vanda Santos Falseth
(Orientadora)
Universidade Federal do Rio de Janeiro

_____________________________________________________________________
Profª. Drª Alice da Silva Cunha
Universidade Federal do Rio de Janeiro

_____________________________________________________________________
Prof. Dr. Amós Coêlho da Silva
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

_____________________________________________________________________
Prof. Dr. Francisco de Assis Florêncio
(Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

_____________________________________________________________________
Profª. Drª Mary Kimiko Guimarães Murashima
(Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

_____________________________________________________________________
Profª. Drª. Arlete José Mota
(Suplente)
(Universidade Federal do Rio de Janeiro)

_____________________________________________________________________
Prof. Dr. Airto Ceolin Montagner
(Suplente)
(Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
3

À Marli, por ter-me devolvido o sentido do termo família.


Ao Virgílio, pelo futuro.
4

Agradeço

Ao Prof. Dr. Carlos Antonio Kalil Tannus pela


orientação precisa, segura e entusiasmada,
assim como pela amizade com que me honrou;

À Profª Drª Vanda Santos Falseth, que


atualizou o velho adágio “Amica certa in hora
incerta cernitur.”

Ao corpo de professores do Programa de Pós-


Graduação em Letras Clássicas da Universidade
Federal do Rio de Janeiro; pelo brilhante curso
aí ministrado;

Ao corpo de professores do curso de


Especialização em Língua Latina da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
pelas sólidas bases que me possibilitaram
realizar este voo;

Ao amigo Prof. Marcelo de Melo Soares, pela


colaboração sempre presta;

Ao amigo Prof. Me. Dimas de Fonte Silva pelo


sempre fecundo intercâmbio de ideias e
experiências;

Ao amigo Prof. Emerson Xavier, que


transmitindo-me seus conhecimentos de
francês, possibilitou-me a leitura da maioria dos
textos utilizados na elaboração deste trabalho;

Aos companheiros de jornada.


5

“Deve-se estudar a literatura romana


principalmente com o propósito de
compreender a história de Roma, enquanto a
história grega deve ser estudada com o
propósito de compreender a literatura
grega.”
(R. H. Barrow)
6

RESUMO

VISÕES DA IDENTIDADE ROMANA EM CÍCERO E SÊNECA

Luiz Fernando Dias Pita

Profª. Drª. Vanda Santos Falseth

Resumo da Tese de Doutoramento submetida ao Programa de Pós-graduação em


Letras Clássicas (Área de Concentração: Culturas da Antiguidade Clássica), da
Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro como parte dos
requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Letras Clássicas.

O estudo das obras de Cícero e de Sêneca permite perceber, além dos temas já
consagrados pela exegese, a formulação de novas propostas identitárias para o povo
romano, baseadas tanto na manutenção quanto na adaptação do mos maiorum, e também
na recepção das escolas filosóficas gregas, com especial papel para o estoicismo. Assim,
obras destes autores, e também a praetexta Otávia, propõem ou demonstram novos
paradigmas para a romanidade, ao mesmo tempo em que criam e/ou refletem as relações
entre Literatura, Filosofia e História no Império Romano, cujas reverberações podem ser
ainda hoje percebidas nas culturas de latinidade.
7

RESUMEN / RÉSUMÉ

VISÕES DA IDENTIDADE ROMANA EM CÍCERO E SÊNECA

Luiz Fernando Dias Pita

Profª. Drª. Vanda Santos Falseth

Resumo da Tese de Doutoramento submetida ao Programa de Pós-graduação em


Letras Clássicas (Área de Concentração: Culturas da Antiguidade Clássica), da
Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro como parte dos
requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Letras Clássicas.

RESUMEN

El estudio de las obras de Cicerón y de Séneca permite percibir, además de los temas
ya consagrados por la exegesis, la formulación de nuevas propuestas identitarias para el
pueblo romano, basadas tanto en el mantenimiento como en la adaptación del mos
maiorum, y también en la recepción de las escuelas filosóficas griegas, con especial
papel para el estoicismo. Así, obras de estos autores, y también la praetexta Octavia,
proponen o demuestran nuevos paradigmas para la romanidad, al tiempo en que crean
y/o reflejan las relaciones entre Literatura, Filosofia e História en el Imperio Romano,
cuyas reverberaciones se pueden todavía hoy percibir en las culturas de latinidad.

RÉSUMÉ

L‟étude des œuvres de Cicéron et de Sénèque nous permettent d‟apercevoir, au-delà


des thèmes déjà consacrés par l‟exégèse, la formulation de nouvelles propositions
identitaires pour le peuple romain, établies tant sur la manutention comme sur
l‟adaptation du mos maiorum, et aussi sur la réception des écoles philosophiques
grecques, avec rôle privilégié pour le Stoïcisme. Ainsi, des œuvres des auteurs
mentionnés, et aussi la praetexta Octavie, établissent ou démontrent des nouveaux
paradigmes pour la romanité, au même temps que créent ou refléchissent les rélations
entre la Littérature, la Philosophie et l‟Histoire dans l‟Empire Romain, dont les
repercussions se peuvent, jusqu‟aujourd‟hui, se noter dans les cultures de latinité.
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SUMÁRIO

Nota Introdutória p. 10
1 INTRODUÇÃO p. 12
2 A QUESTÃO IDENTITÁRIA EM ROMA p. 25
2.1 Uma identidade de limites p. 25
2.1.1 Mos maiorum, base da romanidade p. 28
2.1.1.1 A tríade fundamental do mos maiorum p. 29
2.1.1.2 Conceitos secundários do mos maiorum p. 33
2.1.1.3 Conceitos terciários do mos maiorum p. 37
2.1.2 A “dinâmica identitária” romana p. 39
2.2 Os limites da identidade p. 43
2.3 Uma nova identidade para um novo homem p. 47
2.3.1 Homo nouus... p. 49
2.3.2 ... et homo uetustus p. 50
2. 4 - Novas variáveis numa velha equação p. 51
2.5 – Rumo à simbiose p. 52
3 CÍCERO: A ROMANIDADE FILOSÓFICA p. 54
3.1 – Cícero: esboço biográfico p. 55
3.1.1 – Cícero, magister eloquentiae p. 59
3.1.2. - Cícero, o filósofo p. 61
3.2 – O pensamento político de Cícero p. 63
3.2.1 - De Re Publica p. 64
3.2.2 – De finibus p. 74
3.2.3 – “Tusculanae Disputationes” p. 82
3.2.3.1 – A “Escola do Pñrtico” e a nova identidade p. 84
romana
3.2.3.2 – Virtus, prima inter pares. p. 86
3.2.4 – Catão e Lélio: a velhice e a amizade p. 89
3.3 – Uma nova identidade e a modernização conservadora p. 95
4 SÊNECA: A FILOSOFIA NO TRONO DO IMPÉRIO p. 98
4.1 Augusto e a nova crise identitária p. 98
9

4.2 Os sucessores de Augusto p. 103


4.3 O “emergente” na sociedade romana p. 105
4.4 “A consciência do Império” p. 108
4.4.1 O Estoico e o Trágico p. 110
4.4.2 A “Eminência Parda” do Quinquennium Neronis p. 117
4.4.3 De Clementia e De Beneficiis. p. 119
4.5 Ad Lucilium Epistolae Morales p.124
5 UM TEXTO APÓCRIFO COM MUITAS LEITURAS p. 132
5.1 Um trovão ao longe p. 132
5.2 Octauia: obra de Sêneca? p. 134
5.2.1 A datação p. 134
5.2.2 A obra e seu percurso p. 137
5.2.3 A questão da autoria p. 138
5.2.4 Uma estrutura inovadora e de aproximações p. 145
5.2.4.1 Características gerais da fabula praetexta p. 151
5.2.4.2 Um enquadramento desconfortável p. 155
5.2.4.3 História e Literatura: construções discursivas p. 157
5.2.4.3.1 Octauia como romance histórico p. 159
5.2.4.3.2 Octauia como narrativa de extração p. 162
histórica
5.3 Simulacro de julgamento p. 165
5.4 Uma aula de Astronomia p. 173
6 CONCLUSÃO p. 177
7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS p. 182
ANEXOS p. 189
ANEXO 1 – Texto latino de Octauia p. 190
ANEXO 2 – Proposta de tradução de Octauia p. 213
10

Nota Introdutória

Quando do ingresso ao curso de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em

Letras Clássicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi apresentado um projeto de

tese cujo resultado é este que se tem em mãos. Contudo, deve-se ressaltar que entre aquele

projeto e este resultado final há algumas diferenças, e, portanto, convém esclarecer-se seu

porquê.

O projeto original buscava detectar e examinar o surgimento e a evolução, em

Roma, a), daqueles valores que acabaram por constituir a identidade romana, b), a

construção de discursos identitários, através do desenvolvimento e debate destas ideias, no

âmbito de obras literárias diversas, consideradas como “narrativas de extração histñrica”.

Contudo, este projeto original pareceu, já aos examinadores, abarcar um espectro

temporal excessivamente longo, assim como obras produzidas em condições extremamente

díspares, tendo sido recomendada sua redução às obras que delimitassem um período

menor de tempo. Ademais, o número e a extensão das obras de Cícero e de Sêneca em que

o tema da identidade romana é levantado logo mostrou-se maior do que o que pensáramos

a princípio, sendo-nos imperativo incluir, no corpus de nossa análise, obras que antes não

havíamos cogitado serem necessárias. Outrossim, logo percebeu-se igualmente que a

exígua bibliografia, existente e disponível, a respeito de algumas das obras que

pretendíamos avaliar constituía-se em obstáculo incontornável; assim, não nos restou

alternativa senão rendermo-nos ao peso dos fatos e reduzir definitivamente nosso trabalho

final aos limites sugeridos anteriormente.

Deve-se acrescentar ainda que o súbito falecimento de nosso orientador, o Prof. Dr.

Carlos Antonio Kalil Tannus - que além de privar, a nós, de sua inigualável companhia no

plano físico, e, aos estudos clássicos no Brasil, de um de seus maiores professores e


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pesquisadores - foi um fator determinante para nossa decisão de retirar de nosso projeto os

itens finais, já que o processo de sua substituição pela Profª Drª Vanda dos Santos Falseth

tomou mais tempo do que o esperado, em razão de entraves burocráticos. Estes foram ao

fim vencidos, e nossa atual orientadora pôde, enfim, iniciar, com o entusiasmo que lhe é

peculiar, a tarefa que o Fatum lhe designou. Porém, tal atraso consumiu-nos um tempo

precioso de pesquisa.

Desse modo, fique o leitor ciente de que esta tese é, ao fim, um recorte daquele

projeto originalmente apresentado. Entretanto, para que não fosse raso, tampouco foi largo;

e, em razão diretamente proporcional, será mais curto e, também, mais profundo.


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1 INTRODUÇÃO

Uma breve análise da trajetória dos Estudos Clássicos no meio acadêmico

internacional logo evidenciará que esta atravessou, nos anos centrais do século XX, um

período de crise de paradigmas que, cremos, apenas recentemente se tem superado.

Se até o início do século XX predominava na Academia uma abordagem

eminentemente gramaticalista e filológica do latim, estudos pautados nos avanços

proporcionados pelas diversas correntes linguísticas pós-saussureana oxigenaram os

estudos do idioma, levando à publicação de obras como as de Ernout, Niedermann,

Crusius, Marouzeau, Monteil, Pinkster et alii, que até hoje são tidos como pedras angulares

para o estudo aprofundado da língua latina.

Entretanto, os estudos da produção literária greco-latina não foram igualmente

beneficiados pelos avanços da Teoria Literária do mesmo período: os progressos, nessa

área, foram mais tímidos. Isso se deu, pensamo-lo, não apenas porque estes estudos são

limitados a um corpus fechado mas também porque sobre este corpus paira o peso de dois

milênios de uma exegese que moldou uma tradição crítica com poder de chancela sobre as

possibilidades de abordagem de um texto clássico. Em razão disto, vemos que as

possibilidades de investigação, geralmente cartesianas e positivistas, dos textos clássicos


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foram, paulatinamente, sendo exauridas, e que obras como a de Paratore e Bayet, apesar da

envergadura e do fôlego com que cobrem a produção literária latina, são também o

esgotamento desta linha investigativa.

Em processo paralelo, o mundo acadêmico presenciou a ascensão de um novo

paradigma, que privilegiava o conhecimento oriundo das Ciências Exatas. A coincidência

entre este privilégio conferido às Ciências Exatas e o esgotamento da linha investigativa

historicista levou o conhecimento sobre a Cultura Clássica a ser tratado, pejorativamente,

como uma “obsolescência” acadêmica. Confundindo-se o método investigativo – este de

fato esgotado – com o próprio conhecimento sobre o Mundo Clássico, logo visto como

incapaz de fornecer novas explicações sobre seu próprio objeto de estudo e, tão grave

quanto, como igualmente incapaz de contribuir para uma mais bem calibrada interpretação

do momento vivido, no presente, pelas áreas de conhecimento que tangenciava. Impôs-se,

por questão de sobrevivência, a renovação.

Contudo, romper ou flexibilizar essa tradição exegética será tarefa para sucessivas

gerações de investigadores. Nesse aspecto, fica patente que estudos como os de René

Martin e Jacques Gaillard, Gian Biagio Conte e, principalmente, de Pierre Grimal

representam uma modificação no método investigativo, posto priorizarem o estudo da

trajetória dos gêneros literários antigos, independentemente da linearidade historicista.

Contudo, mesmo estes estudos não esgotam as possibilidades de abordagem de seu método

e, consequentemente, ainda não completaram a distância necessária para colocar-se pari

passu com os avanços realizados pelos estudos linguísticos. No que tange ao nosso

conhecimento das manifestações culturais da Antiguidade Clássica – mormente os estudos

literários – podemos afirmar que esse processo de renovação está ainda em curso.

Assim, é perceptível que a pesquisa voltada para as culturas da Antiguidade

Clássica tem apresentado, nos últimos anos, uma grande renovação em sua temática,
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abordagens e paradigmas. A exploração de obras historicamente relegadas a segundo

plano, novas leituras de textos basilares e a (re)construção do corpus teórico interpretativo

deste conjunto de obras, à luz das novas correntes teóricas que se vêm desenvolvendo

principalmente no âmbito da Literatura, da Historiografia e da Filosofia, têm conduzido a

uma reorganização do conhecimento que temos sobre o Mundo Antigo, e, mais

detalhadamente, o universo da Cultura Clássica, colocando, na ordem do dia,

questionamentos que, há algumas décadas, não seriam considerados pertinentes ao

universo da Antiguidade; ou ainda, analisando, no corpus de nosso conhecimento a

respeito do Mundo Antigo, a possível presença de conceitos geralmente atribuídos ao

mundo contemporâneo.

Um destes conceitos, característico do pensamento pós-moderno, é o da identidade

e suas tipologias – nacional, cultural, social, religiosa, etc. Este é um conceito que ganha

relevo à medida que o avanço do processo de globalização tem reduzido as

particularidades socioculturais daqueles que se veem nele envolvidos. Para nós, membros

da chamada sociedade de informação, impõe-se a dicotomia: de que modo é possível

participar plenamente do sistema econômico mundial e sua consequente dissolução de

fronteiras, e, paralelamente, preservar(-se) enquanto grupo social ou mesmo como

indivíduo?

Ora, o fenômeno contemporâneo da globalização econômica encontra paralelos na

ascensão do impérios alexandrino e romano: à dissolução, manu militari, das fronteiras

políticas, seguiu-se uma integração econômica jamais vista – e por séculos irrepetida – e

também uma integração cultural, iniciada pelo helenismo e que, atravessando o período

romano, será perpetuada ainda pelo Cristianismo. Esta integração cultural, é sabido,

formularia aquilo que, desde o Renascimento, acostumamo-nos a chamar de “Civilização

Greco-Romana”.
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O caráter dual dessa civilização, expresso até mesmo pelo adjetivo composto que a

define, já demonstra a existência de ao menos uma importante divisão: aquela que,

geograficamente formada por um Oriente helenístico e um Ocidente latinizado, denuncia

haverem coexistido, durante o domínio romano, ao menos duas grandes identidades

culturais, a que se pode acrescentar as de outros povos, como egípcios, judeus, celtas,

germânicos, etc.

Desse modo, é possível que nos perguntemos: diante de um quadro semelhante,

teriam havido questionamentos semelhantes aos que ora nos fazemos? Teriam os antigos

meditado sobre os problemas acarretados pela unificação movida pelos impérios supra-

mencionados? Enfim, teria existido, na Antiguidade Clássica, alguma reflexão sobre a

identidade cultural? Em caso afirmativo, como tais questionamentos ter-se-iam formulado,

por quem, e, mais grave, a que conclusões se chegou?

No caso específico de Roma, cuja irrupção no xadrez político mediterrânico se dá,

no século III a.C., sem estar secundado por uma florescência no âmbito cultural, teriam

sido efetivadas construções discursivas que visassem definir a identidade romana – para

além da “mera” superioridade militar - perante a dos diversos povos que perfaziam o tecido

social dos territórios que conquistara? Se isto se deu, como se deu? Quem teria realizado

esse processo, e, mais importante, quais as ideias que foram, então e por conseguinte,

veiculadas? Enfim, o que, ao longo de todo esse processo, acabaria por definir um romano

como tal? Sob que estatutos viria a constituir-se uma identidade cultural? E, por último,

esta identidade ter-se-ia modificado ao longo da própria história romana e/ou graças ao

contato de Roma com os povos que conquistou?

Tais questionamentos, que ensejaram a construção deste trabalho, são justamente

aqueles a que visamos responder. Para fazê-lo, no entanto, torna-se imprescindível

flexibilizar-se ainda mais o recorte de nosso corpus; por isso, mesmo partindo das análises
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realizadas por aqueles autores já mencionados acima, é-nos necessário abrir mão não só da

linearidade positivista quanto de atermo-nos a um único gênero literário: a busca de fontes

que nos possibilitassem responder às questões acima expostas nos obrigaram a privilegiar,

mais que a forma, o discurso em si, e, mais que o discurso, as intenções que nele estão

embutidas.

Para tanto, foi necessária a compreensão daqueles sistemas discursivos romanos em

que, seja qual for a roupagem, suas concepções de mundo, de sociedade e de indivíduo

tenham sido expostas de modo mais inequívoco e em que suas reflexões a respeito tenham

sido construídas. Tal tarefa, embora creiamo-la necessária até mesmo para, como dito

acima, uma interpretação mais exata da contemporaneidade, é, pela envergadura de saberes

que congrega, demasiado hercúlea para ser realizada individualmente. Optou-se, portanto,

por sua divisão em tópicos de mais fácil execução, razão pela qual decidimos reduzir o

escopo de nosso trabalho a um patamar mais modesto, e, selecionando um campo de

atuação estrito, partiremos da premissa de que o espaço de interseção entre os saberes

filosófico, literário e historiográfico sempre proporcionará campo para abrigar semelhantes

discussões. Por isso, principiamos nosso estudo dedicando-nos àqueles autores que, através

do desenvolvimento de um pensamento filosófico – expresso em textos de mérito literário

– preocuparam-se em estabelecer os paradigmas culturais que constituriam a identidade

cultural romana - que doravante chamaremos romanidade.

Tendo sido imperativo fazer-se o exame do processo de construção e/ou

cristalização destes paradigmas, dever-se-á antes atentar para o fato de que estes são em

maior número em dois momentos históricos: o fim da República e o governo de Nero.

Dessa forma, mesmo resultando de um processo que dura boa parte do período

republicano, ficou-nos patente que os paradigmas da romanidade foram mais bem expostos

– e assumiram um dos formatos que os consagrou - no momento em que a República


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atravessava sua crise final, aqueles instantes históricos que antecederam à instauração do

império como regime político. Outrossim, o governo de Nero, em que a fragilidade e as

contradições do sistema imperial ficaram mais evidentes, graças ao regime de terror

imposto pelo governante, também ensejou a reconfiguração dos paradigmas da identidade

romana.

Assim, será na produção escritural destes dois momentos que buscaremos tanto os

paradigmas quanto os discursos nos quais se configuram a interpretação que lhes é dada.

Tais discursos apresentam a articulação, na órbita do literário e do historiográfico, de

saberes produzidos pelos mais destacados pensadores romanos: Marco Túlio Cícero e

Lúcio Aneu Sêneca.

A seleção de tais autores se dá por razões diversas: Cícero e Sêneca são, dentre os

escritores de língua latina, aqueles cujo conjunto de obra encontra-se melhor preservado.

Ademais, ambos foram considerados os intelectuais mais destacados de seus respectivos

tempos, além de terem exercido forte influência no pensamento das gerações

imediatemente subsequentes e mesmo ao longo dos séculos seguintes. Ao longo de sua

copiosa produção, temos percebido haver, ainda que em caráter subjacente, e esta constitui

a nossa tese, todos aqueles questionamentos que acima apresentamos.

Realizamos , portanto,, na obra destes autores, o levantamento de um corpus em

que se reflita ou se proponha uma identidade romana, vinculada, ou não, a qualquer escola

de pensamento; contudo, neste corpus, o fato mais claramente perceptível é que os

discursos identitários formulados por estes dois autores serão, também e igualmente,

respostas a questões relativas a seu próprio tempo. Desse modo, o modo pelo qual Cícero

definirá a romanidade é, em si mesma, uma resposta à crise sociopolítica do fim da

República. Com Sêneca não será muito diferente: visará definir o homem romano segundo

a realidade inspirada pelo governo de Nero. A posição assumida por estes pensadores a
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respeito de seu próprio tempo nos permite questionar também se, em seu discurso

identitário, estaria sendo apregoado posicionamento político, havendo assim, uma

definição de romanidade que, partindo do campo filosófico, ultrapassa o espectro cultural e

alcança o plano político.

Visando explorar a presença dos discursos identitários nas obras desses dois

autores, recorreu-se ao estudo sistemático de todos os textos de sua autoria a que pudemos

ter acesso. No caso específico de Cícero, descartamos os discursos jurídicos do autor, não

porque ali não estivessem presentes subsídios para nossas argumentações, mas porque

esses mesmos subsídios seriam encontrados alhures, no conjunto de suas obras ditas

filosóficas e políticas. Assim, foram ao fim analisados cinco textos: De Re Publica, De

Finibus Bonorum et Malorum, Tusculanae Disputationes, Cato Maior de Senectute e

Laelius de Amicitia. À exceção do primeiro, publicado em 52, os demais foram todos

produzidos entre os anos de 45 e 43, ano da morte do autor, em plena crise fatal da

República.

Já no caso de Sêneca, nossa análise centrou-se inicialmente em De Clementia e De

Beneficiis, obras em que se realizam – como Cícero fizera em De Re Publica e em De

Legibus – a adaptação da romanidade ao Império. E também nas Ad Lucilium Epistulae

Morales, em que o pensador, já na oposição à tirania de Nero, expõe com vagar e

didatismo sua concepção do ser humano e estabelece outra visão do que comporia o

homem romano.

Como forma de examinar a permanência dos valores romanos no período posterior

ao de Sêneca, analisamos a praetexta Octauia, obra que, tendo sido a única de seu gênero

que nos chegou, suscita ainda uma série de desdobramentos das visões identitárias

romanas, ao tempo em que estabelece relações – que cremos inusitadas, ao tratarmos da

Antiguidade - entre Literatura e História e entre identidade e ideologia.


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Ademais, a inexistência1 de uma tradução em língua portuguesa do texto de

Octauia fez com que nos decidíssemos a “cometer” essa tradução, que se encontra como

anexo a este trabalho, juntamente com o texto latino original, tal como publicado pela Les

Belles Lettres.

Mas se cremos ter deixado claras as linhas gerais de nossa pesquisa, falta-nos

esclarecer as razões pelas quais optamos por um estudo de um tema “transversal” como o

da identidade romana. Pesquisar a probabilidade de existência, nos textos latinos, de uma

discussão acerca da identidade romana é tarefa que exige, inicialmente, a explicação das

razões de ser efetuada. Tal explicação, a ser feita em seguida, demonstrará – assim

pretendemos – que a busca dessa identidade tem repercussão direta na discussão a respeito

da nossa própria, uma vez que, inserido o Brasil no contexto do que se condicionou chamar

América Latina, qualquer busca a respeito da romanidade será, de certo modo, uma busca

por uma fração de nossas próprias raízes.

Ademais, executar essa busca tomando como objeto de análise textos de Cícero e

Sêneca impõe, outrossim, o estabelecimento de nosso próprio viés de leitura e análise

desses textos, já que, em se tratando da literatura clássica, é imperativo esclarecer algumas

particularidades dessa literatura, tarefa que passaremos a executar.

Um fato logo chamará a atenção de quem quer que inicie estudos nas letras da

Antiguidade: o de que estas não podem ser estudadas através dos mesmos procedimentos

utilizados para as letras da Idade Moderna ou Contemporânea.

Acostumados a conceber os estudos literários de uma forma que não se restringe a

uma compartimentalização que divide a história literária em diversas fases - mas que

1
Sabemos da ausência de qualquer edição no Brasil; ademais, tendo consultado o Prof. Dr. Sebastião
Tavares de Pinho, da Universidade de Coimbra, este nos confirmou ter sido a última edição do texto lançada
em Portugal aquela editada em 1972, comportando uma tradução realizada por José António Segurado e
Campos, alertando-nos ainda sobre ser tal obra “absolutamente esgotada”.
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também a engloba -, contendo, cada uma destas, características particulares, das quais

determinados autores seriam fundadores e/ou representantes mais bem apurados e cujas

obras formar-lhe-iam o cânone, os neófitos no estudo das letras clássicas cedo se deparam

com o estranhamento provocado pela ausência destes fatores.

No quadro de estudo das Letras Clássicas não existiria o que a contemporaneidade

chama “estilos de época”, pois o processo escritural não era compreendido como passível

de alterações tão abruptas como aquelas que hoje detectamos como produto, por exemplo,

de um choque geracional entre escritores. Tampouco os procedimentos utilizados por tal

ou qual poeta ou dramaturgo, mesmo quando de sua lavra, não poderiam ser

compreendidos como peculiaridades suas: o aproveitamento das estruturas rítmicas era

prática não só costumeira mas valorizada entre autores distantes uns dos outros até mesmo

por alguns séculos.

O valor e a originalidade de um autor eram, pois, medidos por sua habilidade em

(re)criar temas utilizados ou estruturas de versificação já consagradas; valendo-nos de uma

comparação com a gastronomia, podemos afirmar que o cordon bleu iria não para o que

inventasse uma nova receita, mas para aquele que melhor reproduzisse dado prato.

O que acima afirmamos tem as mais diversas consequências quando nos

defrontamos, com um olhar impregnado de contemporaneidade, com aqueles textos que

formaram o primeiro cânone e o embrião da literatura ocidental: habituados a distinguir –

pela temática, pela escrita e pela retórica – autores, estilos, épocas, o mosaico de textos da

Antiguidade logo nos parece demasiado monocromático. As diferenças que entre eles há

manifestam-se de modo por demais sutil para uma percepção direta e imediata, cumprirá

então esmiuçar os detalhes de cada texto, para perceber a arquitetura e a trama que em cada

um subjaz. Resta ao neófito navegar nestes textos como o marinheiro de cabotagem,

impedido de afastar-se da costa pelo risco, real e iminente, de naufrágio.


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Tampouco poderá o neófito prender-se à biografia dos autores antigos, pois nada

dista mais destas obras que seus próprios autores. Não se pode jamais esperar aquela

identificação entre biografia, valores e retórica que tanto delicia os que se detêm no

Romantismo ou nas vanguardas literárias: nas letras clássicas autor e obra(s) são seres não

só distintos mas também distantes, um fato de que Petrônio e seu Satyricon são suficiente

exemplo.

Conjugados, tais fatores explicariam ainda o porquê de diversos autores pensarem

ser a literatura grega “hierarquicamente” superior à latina: esta seria, enfim, um conjunto

de simples repetições dos processos desenvolvidos por aquela, com os autores latinos

servindo-se reiteradamente dos modelos gregos para criar obras que quase nunca poderiam

igualar-se ao original2. Contudo, devemos, nós também, prevenir nosso olhar e nossa

capacidade de julgamento quanto à ultravalorização – propugnada pelos românticos e

repetida por seus sucessores – da originalidade como quesito avaliativo da primeira ordem.

No entanto, se tamanhas semelhanças podem ser insuficientes para estimular

alguém a dedicar-se ao estudo das letras clássicas, por serem ainda distantes do paladar a

que nos acostumamos, resta então o trabalho de, a partir de um conhecimento consistente

dos elementos constituintes da literariedade contemporânea, buscar encontrar, na produção

da Antiguidade, o(s) embrião(ões) destes mesmos elementos. Este é, portanto, sobretudo,

um trabalho de detecção “genealñgica” em que a produção greco-latina será esquadrinhada

a partir de um novo viés epistemológico: importante para a constituição mesma das

literaturas do Ocidente – tanto pelas temáticas que insere, quanto pelos procedimentos que

inaugura – resta-nos estabelecer concretamente o onde e o como se dão – se se dão – este

perpetuar, na literatura ocidental contemporânea, dos elementos literários estabelecidos

2
Muito embora o trato dado, por mãos latinas, à temática de inspiração grega poderá conceder a esta última
abordagens antes impensadas, chegando mesmo a significar um salto qualitativo, bastando para isso conferir
o trabalho de reconstrução das obras de Homero efetuado por Vergílio em sua Eneida.
22

pelos antigos. E mais, se a produção literária da chamada Civilização Greco-Romana é

aquela caracterizada como produto da interseção cultural destas duas civilizações,

logicamente aqueles elementos cuja presença fosse detectável em apenas uma destas será

um tópico particularizante desta cultura.

Mas se mencionávamos aqui a literariedade ocidental contemporânea, resta-nos

ainda definir com exatidão a que nos referimos ao usar o termo “Ocidente”. Obviamente,

quando se pensa este termo, damo-nos conta de que duas definições são possíveis: segundo

a primeira delas, o “Ocidente” é aquela porção do mundo construída, historicamente, sobre

o tripé formado pelo pensamento grego, o direito romano e a religiosidade judaico-cristã;

já a segunda definição efetuaria um recorte na primeira: se todas as nações passíveis de

enquadrar-se na primeira são de direito ocidentais, sê-lo-iam de fato apenas aquelas

consideradas desenvolvidas, isto é, aquelas que alcançaram plena industrialização e podem

hoje inserir-se na chamada sociedade de informação.

A aceitação apriorística do desenvolvimento econômico como critério de definição

do Ocidente engendra uma dicotomia no mínimo insólita, pois retira do quadro a única

porção que de fato se define usando um epíteto que é igualmente reivindicação direta desta

pertinência e proclamação indireta de sua condição de herdeira de ao menos uma fração da

cultura antiga: a América Latina.

Deste modo, se a participação da América Latina no conjunto das nações ocidentais

só pode ser questionada em razão de seu desenvolvimento econômico, faltam-nos ainda

estudos que busquem o esclarecimento da veracidade desta pertinência e desta condição de

herdeira da latinidade antiga.

É neste sentido que cumpre construirem-se possibilidades de estudo da Roma

Antiga que nos capacitem a verificar as razões – de âmbito cultural, mais profundas que as

contingências históricas – que justifiquem o epíteto “latina” dado a – e reivindicado por -


23

esta porção da América, o que seria contribuição decisiva para os estudos neolatinos; e, no

que mais nos diz respeito, analisar-se a permanência dos valores culturais latinos mesmo

em tamanha distância espaço-temporal como a que há entre esses dois universos culturais.

Evidentemente, objetarão os críticos, essa proclamada fração se encontraria

(enormemente) diluída pelas transformações realizadas na cultura latina, seja pelos demais

povos que se fizeram presentes na Península Ibérica após 476, seja pelas culturas

ameríndias aqui encontradas após 1492, seja ainda pela decisiva contribuição africana às

culturas da América.

Contudo, repliquemos a essa objeção alertando que, independentemente do quão

diluída se encontre, é perceptível – desde o nível institucional até às fundações da cultura

popular - a persistência de elementos culturais, antropológicos, folclóricos, etc., que

estavam já presentes na cultura latina da Antiguidade e que também estão na cultura

hispano-romana resultante da aclimatação daquela em território ibérico. Essa persistência

seria indicativo de que, mais do que uma referência de civilização modelar, a cultura latina

atuaria como elemento formador de todas as esferas do espírito e do pensamento latino-

americano.

Assim sendo, para nós, latino-americanos que somos, nenhum estudo sobre a nossa

própria identidade cultural pode prescindir daquilo que mais de perto, como classicistas,

nos diz respeito: a identidade cultural que herdamos dos romanos. Nosso estudo, por

conseguinte, não poderia principiar de fato senão pelo estudo da identidade cultural

romana. Estudo este que não poderá deixar de lado a própria história romana, que, segundo

R. H. Barrow: “se debe estudiar la literatura romana principalmente con el propósito de


24

comprender su historia, mientras que la historia griega se debe estudiar con el propósito

de comprender la literatura griega” (Barrow, 1986: 11)3

Em nosso próximo capítulo, estudaremos como se deu o processo de formação da

identidade romana em sua fase mais antiga, quando se estabelecem aquelas bases presentes

em toda a trajetória de Roma, até o momento da primeira crise identitária, coincidente com

o apogeu da República.

3
“deve-se estudar a literatura romana principalmente com o propósito de compreender sua história, enquanto
a história grega deve ser estudada com o propósito de compreender a literatura grega.”
25

2 A QUESTÃO IDENTITÁRIA EM ROMA

Desde o momento da fundação de Roma, até a crise da República, Roma construiu

um modelo identitário ímpar, cujo êxito foi comprovado pela própria ascensão de seu

poder. Este modelo não se distingue apenas pelas peculiaridades que apresenta: é

sobretudo no que seu modo de construção - distante daquele praticado por outras

civilizações de seu tempo - tem de sui generis que o modelo identitário romano deve ser

estudado. No capítulo que ora se inicia, abordaremos tanto o conteúdo quanto a construção

desse modelo, assim como as crises que, em dado momento, levarão à necessidade de sua

reconstrução.

2.1 Uma identidade de limites

Se fosse possível reduzir toda uma cultura a uma única expressão, limites seria o

termo no qual poderíamos resumir a cultura romana, já que a história e os mitos romanos

estão impregnados de relatos em que a ideia de limites apresenta importância fundamental

e decisiva.
26

Roma é mitologicamente fundada por sobre o princípio da inviolabilidade de seu

território, evidenciando que, antes mesmo da existência de uma cidade de fato, existiria

uma cidade de direito, com limites espaciais já definidos, e cuja transposição causariam a

morte de Remo.

Outro fator importante para definir-se o homem romano é sua origem “mestiça”, já

que, para povoar a cidade que fundara, Rômulo

adiciendae multitudinis causa uetere consilio condentium urbes, qui obscuram atque
humilem conciendo ad se multitudinem natam e terra sibi prolem ementiebantur,
locum qui nunc saeptus escendentibus inter duos lucos est Asylum aperit. Eo ex
finitimus populis turba omnis, sine discrimine liber an seruus esset, auida nouarum
rerum perfugit; idque primum ad coeptam magnitudinem roboris fuit. (TITO LÍVIO;
Ab Vrbe Condita, VIII, 5)4

Ainda que Tito Lívio – como visto acima – declare ser “um velho hábito dos

fundadores de cidades”, a ação de Rômulo de permitir livre entrada em Roma a qualquer

um que desejasse partilhar do destino da cidade não encontra paralelo nos povos do mundo

antigo: enquanto os egípcios jamais se expandiram para além das margens do Nilo e os

hebreus simplesmente não concebiam estender sua “cidadania”, restrita desde sempre

apenas a quem partilhasse de sua origem étnica e religiosa; e enquanto fenícios e gregos

fundavam suas novas colônias com os excedentes populacionais de suas prñprias “cidades-

mães”; Roma é fundada sobre uma cidadania que poderia ser adquirida, não se

fundamentando numa homogeneidade “étnica” e/ou cultural, como as anteriores, mas

numa homogeneidade jurídica: será romano, enfim, quem dispuser do mesmo estatuto

jurídico dos nascidos em Roma. Estatutos estes que foram por Rômulo estabelecidos,

segundo o mito e corroborado por Tito Lívio, no mesmo ritual que consagrou a cidade:

“Rebus diuinis rite perpetratis uocataque ad concilium multitudine quae coalescere in

4
“em razão de um velho hábito dos que fundam cidades, que, para aumentar-lhes a população, ao fundá-las
chamavam a si a prole obscura e humilde nascida da terra, criou o Asilo, um lugar que está agora entre dois
bosques, vedado aos que aí sobem. Para ali toda uma turba de povos vizinhos, sem discriminar-se se livre ou
escravo fosse, acorreu ávida de coisas novas, e essa foi a primeira mostra da força da cidade.”
27

populi unius corpus nulla re praeterquam legibus poterat, iura dedit.” (TITO LÍVIO; Ab

Vrbe Condita, VIII, 1)5

Se Rômulo organizara os espaços territorial e jurídico originais da cidade, caberá a

seu sucessor, além de estabelecer novas leis e costumes, organizar o espaço temporal. A

atuação de Numa Pompílio é reconhecida por ter sido este o rei

“qui bellum nullum quidem gessit, sed non minus ciuitati, quam Romulus, profuit;
nam et leges Romanis moresque constituit, qui consuetudine praeliorum iam latrones
ac semibarbari putabantur. Annum descripsit in duodecim menses, prius sine aliqua
computatione confusum, et infinita Romae sacra ac templa constituit.” (EUTRÓPIO,
Breu. Hist. Rom., III,1)6

Famoso por ter estabelecido um calendário de doze meses – o de Rômulo possuía apenas

dez – mais próximo, portanto, dos limites do ano astronômico, Numa Pompílio foi

conhecido também pelos templos e cultos que estabeleceu, e, segundo Tito Lívio 7, o

primeiro destes templos teria sido o de Jano, deus bifronte que preside, entre outros

assuntos, aos limites em geral. Mais tarde, o próprio Numa Pompílio construirá em Roma

dois outros templos: um dedicado a Júpiter Término, deus também dos limites, e outro à

Fides. Sintomaticamente, os três templos eram localizados no Capitólio.

Mas Numa também “deu leis e costumes ao povo”, não temos nñs motivos para

duvidar de que, tendo, segundo o mito, sido o seu um reinado de paz e ordem, em que são

assentadas as bases da romanidade, tenha sido nesse momento aquele em que o mos

maiorum começa a ganhar sua noção orgânica, tornando-se , portanto, aquele conjunto de

valores e práticas consuetudinárias que atravessarão toda a história romana, o que faz

necessário que, antes de prosseguir, explicitemos quais os valores que estariam contidos no

5
“Tendo tratado as coisas divinas com o ritual e convocado e reunido uma multidão que não poderia unir-se
na forma de um único povo senão pelas leis, estabeleceu-lhes os direitos.”
6
“que não travou guerra alguma, mas não serviu menos à cidade do que Rômulo; pois constituiu as leis e os
costumes para os romanos, que então eram tidos como ladrões e semibárbaros devido a seus hábitos
guerreiros. Dividiu o ano, que antes era confuso, sem qualquer contagem, em doze meses, e construiu em
Roma infinitos templos e lugares sagrados.”
7
In: Ab Vrbe Condita, XIX. (2005: 66)
28

conceito de mos maiorum, pois, se Rômulo e Numa teriam, como rezam as lendas,

delimitado, respectivamente, o espaço e o tempo físicos sob os quais a cidade era regida, o

mos maiorum delimitaria o espaço psíquico de circulação de seus habitantes.

2.1.1 Mos maiorum, base da romanidade

Em seus estudos de História da Cultura Clássica (1989), Maria Helena da Rocha

Pereira apresenta um detalhado estudo sobre as ideias morais dos romanos. Estas ideias

formam, segundo a autora, “a parte mais significativa do seu legado cultural, a ponto de se

poder dizer que o mundo moderno, consciente ou inconscientemente, define os seus

prñprios padrões de comportamento pela adesão ou rejeição daqueles valores.” (PEREIRA,

1989:321).

Ao analisarmos esse conjunto, evidencia-se que, apesar de apresentarem diversas

particularidades, formam um todo em que o que têm de complementar é exponencialmente

realçado, até porque não fica restrito ao mundo das regras de convivência da vida familiar:

as ideias morais desenvolvidas pelos romanos espraiavam-se para cada meandro da vida

pública, encontrando assim ampla ressonância na organização política da cidade. Desse

modo, no tocante a esse conjunto, duas conclusões podem ser alcançadas: a) fica claro que

o todo é maior que a soma das partes, e b) o povo romano era sistematicamente regulado

por suas próprias concepções de moral e pelos valores daí resultantes.

Havia, contudo, uma hierarquia entre essas ideias e os valores que preconizavam:

no topo desta hierarquia, encontravam-se os conceitos de fides, pietas e uirtus, que

passaremos a examinar em seguida 8.

8
Essa hierarquia, convém notar, é defendida por Pierre Grimal em seu texto A Civilização Romana (1988).
Na obra de Mª Helena da Rocha Pereira não existe menção ao fato; porém, a interrelação entre os diversos
29

2.1.1.1 A tríade fundamental do mos maiorum

Fides está, segundo Rocha Pereira, “no centro da ordem política, social e jurídica

de Roma” (1989:322). Verdade que se comprova pelo fato de que, naquele seu templo

construído a mando de Numa, ficava a sede dos arquivos romanos e era sede - inicialmente

provisória, mais tarde alternativa - de reuniões do senado romano. Mas o significado de

Fides ia além do antropomórfico: Fides é, também, “um juramento que compromete ambas

as partes na observância de um pacto “bem-firme” (ROCHA PEREIRA; 1989:324)”. Outra

definição de Fides, mais detalhada, pode também ser encontrada em Pierre Grimal:

É o garante da boa-fé e da benevolência mútua em toda a vida social. Usa oficialmente


o título do Fides Populi Romani (a Boa-Fé do Povo Rmano) e, tal como o deus
vizinho, Terminus, garante a conservação das demarcações (fronteiras da cidade,
limites dos campos e tudo o que se deve manter para que seja salvaguardada a ordem
das coisas), Fides assegura as relações dos seres, tanto nos contratos como nos
tratados, e mais profundamente ainda no contrato implícito, definido pelos diferentes
costumes, que liga os cidadãos entre si. (GRIMAL, 1988:70-1)

Evidentemente, Fides não regularia unicamente as relações contratuais humanas,

pois os compromissos que apadrinhava podiam também abarcar os deuses, que também a

ela se submetiam: ao cumprimento dos ritos tradicionais por parte dos homens, caberia aos

deuses responder com suas respectivas bênçãos.

Nítido está, portanto, que o conceito de Fides esconde outra característica, bem

própria de sociedades agrárias: o desejo da estabilidade. Pois sendo à primeira vista a

personificação da confiança e do empenho pela manutenção da palavra, Fides acaba sendo

também um agente regulador da estabilidade, pois uma vez que os compromissos - dos

homens entre si, e também com as divindades - estão fixados, conjuram-se para longe o

imprevisível, fonte de anarquia e de subversão, e também o inovador, fonte de

desconfiança.

conceitos que a pesquisadora lusa apresenta é de tal monta, que acaba por confirmar a preponderância desses
conceitos frente aos demais.
30

Esta observância, absoluta e irrevogável, do compromisso estabelecido seria a razão

da unidade social e política desfrutada por Roma: reunidos, congregados e organizados

como sociedade através de juramentos realizados diante da Fides, os romanos teriam a

obrigação de manter uma unidade de valores que se traduziria também em ações.

Outro conceito de suma importância para os romanos seria o de Pietas, que Grimal

explicará como

...a atitude que consistia em observar escrupulosamente não só os ritos mas as relações
existentes entre os seres no interior do universo: a pietas começa por ser uma espécie
de justiça do imaterial que mantém as coisas espirituais no seu lugar, ou que as remete
para o seu lugar sempre que um acidente revela alguma perturbação. (GRIMAL,
1988:70)

Logo, se Fides consistia num valor a ser preservado na e pela sociedade, Pietas

seria a prática cotidiana que conduziria a essa preservação. Percebendo-se a imediata

complementaridade entre esses dois conceitos, vê-se porém que Pietas se prolonga por um

terreno em que Fides não transita, pois atua também como elo daquelas relações sociais

que não se baseariam na palavra ou na confiança, mas na natureza - as relações familiares,

de gens ou mesmo de tribo. Rocha Pereira, na obra já citada, definirá Pietas, portanto,

como

...um sentimento de obrigação para com aqueles a quem o homem está ligado
por natureza. Quer dizer, por conseguinte, que liga entre si os membros da
comunidade familiar, unidos sob a égide da patria potestas, e projetada no pretérito
pelo culto dos antepassados. Está, pois, firmada nos sentimentos religiosos dos
romanos, que se sentiam protegidos pelos deuses Manes, Lares e Penates, e que
pensavam que o dono da casa tinha o seu genius tutelar e a esposa era protegida por
Juno.
Estabelecendo assim um vínculo afetivo entre os membros de uma família, a
pietas alargava-se à divindade, e acaba por compreender também as suas relações com
o Estado. (PEREIRA, 1989: 328-30).

Atuando então como o “cimento” das relações entre determinada fração social, a Pietas

será também a base das relações hierárquicas da sociedade romana como um todo, pois,

segundo Grimal, existirá “uma pietas para com os deuses, mas também para com os
31

membros dos diversos grupos a que se pertence, para com a própria cidade e, para além

desta, afinal para com todos os seres humanos (GRIMAL, 1988:70)”.

É necessário reparar que os dois mais antigos conceitos basilares da moral romana

são valores que delimitam o espaço das relações humanas, e regulam também o modus

operandi dessas mesmas relações, não sendo de modo algum conceitos que valorizem ou

particularizem o indivíduo frente à sociedade. Ao contrário, não esboçam qualquer

preocupação a respeito da individualidade - não havendo, em sua origem, qualquer espaço

para a subjetividade – mas preocupava-se antes com a conservação e organização do grupo

social como um todo. A moral romana existe para garantir a sobrevivência da cidade, da

família e, somente por último, do indivíduo, cujas possibilidades de expressão, nessa

sociedade, ficavam também claramente (de)limitadas, através do conceito de Virtus.

Se Fides controlava as relações estabelecidas por consentimento mútuo e Pietas

regulava aquelas estabelecidas pela natureza, Virtus determinava o que seria a conduta

esperável dos homens daquela sociedade9. É claro, a Virtus tornava o indivíduo consciente

de que seu valor consistia exatamente na subordinação à coletividade, correspondendo ao

que dele se esperasse, como bem definirá Grimal:

Esta virtude romana é feita de vontade, de severidade (a grauitas, a seriedade, isenta


de frivolidade), a dedicação à pátria. (...) é essencialmente a consciência de uma
hierarquia que subordina estritamente o indivíduo aos diferentes grupos sociais, e estes
grupos uns aos outros. Os imperativos mais constrangedores emanam da cidade; os
mais imediatos, da família. O indivíduo não conta para além da sua função no grupo.
(GRIMAL, 1988:66)

Justamente porque as expectativas de Roma em relação a seus cidadãos variaram

grandemente ao longo dos séculos, Virtus será, dentre os conceitos até aqui arrolados, o

que sofrerá, diacronicamente, maiores modificações: enquanto Fides e Pietas,

acompanhando as transformações culturais derivadas do advento do Cristianismo, se

9
E o termo “homens” deve ser entendido no seu sentido restrito, já que o termo forma-se de uir (homem),
acrescido do sufixo tut(s), indicativo de estado. Nesse aspecto, uma boa tradução para o termo não seria
virtude, e sim hombridade.
32

transmutariam respectivamente em “fé” e “piedade” – quando tratam da relação do homem

com o divino -, e em “confiança” e “respeito” – ou mesmo “temor” -, quando tratando do

relacionamento dos homens entre si; Virtus, que de início abarcava também uma série de

outros conceitos dele derivados, sofreria, ao longo do tempo, ora com o fato de que alguns

desses conceitos adquiririam “autonomia”, ora porque acompanharia toda a gama de

transformações na conduta dos romanos.

Apesar disso, um ingrediente será perene na trajetória do conceito de Virtus: não

deixou jamais de representar a submissão à cidade, e, retornando a Grimal, podemos

afirmar que

Esta moral romana possui uma orientação nítida: o seu fim é a subordinação da pessoa
à cidade e ainda há pouco tempo o seu ideal continuava a ser o mesmo, a despeito de
todas as transformações econômicas e sociais. Quando um romano, ainda no tempo do
Império, fala de uirtus (...), refere-se menos à conformidade com valores abstratos do
que à afirmação em ato, voluntária, da qualidade viril por excelência, ao domínio de
si. (GRIMAL, 1988:66)

Se Virtus era inicialmente, o nome dado a um conjunto de qualidades inerentes ao

indivíduo, estas, segundo Rocha Pereira, seriam: fides, sapientia, modestia, continentia,

aequitas e honos – conceitos que não sofreram modificações expressivas até os dias de

hoje. Tais conceitos seriam, ainda segundo Rocha Pereira, expressivos em uma sociedade

agrária e oligárquica, tal como era a Roma republicana, contudo, à medida que a expansão

de Roma comprometeu a unidade sociopolítica da cidade, esses conceitos se desligariam

do de Virtus, ora adquirindo autonomia, ora decaindo em importância.

Analisados em conjunto, percebemos que fides, pietas e uirtus seriam os três

vértices de um plano em que todos os demais valores da tradição romana estariam

inseridos, como coordenadas. Os demais valores da tradição romana existem, pois, em

relação a esses três, devendo ser considerada sua expressão frente a uma situação concreta.
33

E quais seriam esses demais valores? No estudo de Rocha Pereira, que até aqui

temos utilizado como base, estão listados os seguintes conceitos: gloria, dignitas, grauitas,

auctoritas, clementia, concordia, libertas, otium cum dignitate, res publica, sapientia,

humanitas. Contudo, ou estes conceitos estão subordinados a algum(ns) dos três

fundamentais, logo, de segunda grandeza, ou não teriam existido durante toda a história

romana, razão pela qual devem ser analisados à parte10.

2.1.1.2 Conceitos secundários do mos maiorum

Um primeiro grupo de conceitos seria aquele formado pelo trinômio honor, dignitas

e gloria, assim dispostos por expressarem uma gradação: Honor é a qualidade do uir

honestus, cujo mérito é reconhecido publicamente e tem, por isso, uma função pedagógica

na cidade, pois, para um cidadão, ser considerado honestus tornava-o exemplo de distinção

frente a seus pares.

Em função da honor, era facultado ao cidadão seguir o chamado cursus honorum, a

escala dos cargos públicos passíveis de serem exercidos por aqueles que preenchessem os

diversos requisitos para tal: cidadania, idade, renda, classe social de origem, etc.

Dignitas, conceito muito próximo ao de honor; atua num nível pessoal. Ou seja,

enquanto honor é uma qualidade pessoal reconhecida pela coletividade, dignitas deriva da

posição social – que pode vir de berço - e/ou do prestígio alcançado por quem detenha

honor.

10
Fique claro que nossa apresentação pretende-se sumaríssima. Esses conceitos – e a análise de seu papel na
cultura romana – demandam estudos muito mais aprofundados que o aqui podemos realizar.
34

Por fim, temos o conceito de gloria, que, segundo Rocha Pereira, consiste em “ser

considerado bom pelos homens de bem” (1988:334). Ademais, segundo a mesma autora, a

gloria

resulta de três condições: ser amado pela multidão; ter a sua confiança (fides); ser
admirado e digno de honrarias (honor). Logo, gloria combina com fides, (...), e
sobretudo com honor, com a qual acaba por formar um binômio muitas vezes
invocado (honor et gloria). (PEREIRA, 1988:335)

apenas, portanto, a quem observassse a fides a ponto de merecer atitude recíproca da

cidade, e tivesse chegado ao nível de honor, seria permitido ter o estatuto de gloriosus.

Assim, se honor advém do reconhecimento pelos pares, i.e., pelos membros do

círculo social direto, e a dignitas resulta das ações do uir honestus; a gloria nasce do

reconhecimento, por todos os cidadãos, dos feitos ou do valor do indivíduo. Será, portanto,

uma qualidade inerente à vida republicana, pois somente onde houvesse ampla

possibilidade de debate poder-se-ia discutir sobre quem mereceria ser chamado uir

magnus.

Tendo-a como condição sine qua non para as demais, podemos considerar fides

como ponto em torno do qual gloria gravita. Mas tal qualidade seria, em Cícero, não mais

considerada como atrelada à fides, mas a uirtus, fato que rompe o trinômio acima

delineado e atrela gloria a outro grupo de conceitos11. Evidentemente, com o fim da

dinâmica na vida pública decorrente do estabelecimento do Império, o conceito de gloria

seria concentrado primeiramente na pessoa do imperador, e, mais tarde, com o

Cristianismo, na sua própria concepção da Divindade.

Um segundo grupo de valores, formado pelo binômio grauitas e auctoritas, está

localizado em torno da uirtus, e novamente há uma relação hierárquica: grauitas - termo

que originalmente está relacionado à ideia de “peso” - pode ser sintetizado como o “ter

11
Cícero chegaria a escrever uma obra intitulada De Gloria, hoje perdida.
35

consciência do peso de suas ações”, correspondendo, pois, à “seriedade moral” que é

esperada, do indivíduo, no nível pessoal e familiar. Como extensão de grauitas à vida

pública, deriva o conceito de auctoritas, a capacidade do homem público de prolongar sua

grauitas perante a cidade, e, a partir daí, exercer o poder (potestas) que lhe está confiado.

Auctoritas é, por conseguinte, uma qualidade moral aplicada à vida pública. Trata-se ainda

de um conceito bastante antigo entre os romanos, já que é mencionado na Lei das XII

Tábuas.

Estes dois conceitos, segundo Cícero, não teriam equivalentes na cultura grega,

sendo exclusivamente romanos. Entretanto, com o Império e o consequente esvaziamento

da vida pública, ambos seriam transmutados: grauitas passa a ser simplicitas; enquanto

auctoritas perderia seu sentido original, sendo substituído por potentia.12

Tal mudança reflete bem as mofidicações no pensamento da sociedade romana,

advindas do regime imperial: se antes a grauitas era necessária para obter-se auctoritas e,

daí, exercer sua potestas, com o novo regime, o mandatário poderá dispensar a grauitas –

como Calígula e Nero – e, mesmo sem auctoritas, exercer não a potestas, mas a potentia

pura e simples; enquanto, para os demais, restaria uma grauitas decaída, esvaziada de seu

peso original e metamorfoseada em simplicitas.

Se os dois conceitos anteriores não tinham equivalentes entre os gregos, os dois a

seguir, clementia e concordia, serão, novamente segundo Rocha Pereira, tão fortemente

modificados por valores congêneres de origem grega, que, por suas características

intrínsecas, estarão próximos, respectivamente, dos de pietas e de fides.

Ainda que o termo clementia já existisse na cultura romana, não se percebe, até a

agonia da República, seu uso como ação política. Se, até aquele momento, os romanos

12
A própria substituição de um substantivo concreto (potestas) por um abstrato (potentia), indica também
que a ideia antes expressa, definida e delimitada pela res publica, agora não tem mais os contornos nítidos,
sendo antes um valor em si próprio.
36

preferiram a seueritas, a clementia ganhará posição a partir do Império, sendo vinculada,

no entanto, à vontade do governante - de quem passa a ser uma qualidade, como defenderá

Sêneca em seu De Clementia.

Desse modo, se antes a clementia era um conceito aplicável na vida pessoal e não

na pública; nessa será inserido durante o Império, na qual ocupará um lugar central, ainda

que seu uso seja considerado prerrogativa do imperador; pois é sua forma de retribuição à

pietas que se lhe deve, já que sua figura tem caráter divino.

Concordia será outro conceito adquirido dos gregos. Termo que traduz o conceito

grego de “homónoia”, definido por Rocha Pereira como “a harmonia no modo de pensar e

de sentir” (PEREIRA, 1988:335). A concordia diferiria de fides no sentido de que esta

deve ser conquistada por um cidadão ou resultar de um acordo plenamente deliberado,

enquanto aquela somente pode resultar de um consenso, mútuo ou coletivo. De qualquer

modo, a Fides seria a mantenedora da Concordia, e mesmo que esta também tenha sido

deificada, aquela a precede em antiguidade junto ao povo romano.

A concordia, dessa vez ordinum, seria também um conceito desenvolvido por

Cícero em suas obras a partir de De Re Publica, como meio de conseguir a unidade entre

as ordens senatorial e equestre.

Outro dos conceitos chamados secundários forma um conjunto único: trata-se de

labor, termo que designava a capacidade do homem em realizar as tarefas que provessem o

sustento, próprio e dos seus. Relacionando a capacidade de trabalho do indivíduo ao tipo

de trabalho realizado, nota-se, na trajetória cultural romana, que o conceito de labor mal

disfarça um juízo de valor sobre o trabalho em si: quanto mais próximo da vida campestre

a profissão do indivíduo, tanto mais correto seria seu caráter. Isso se percebe, ao longo da

história, em obras dos mais diversos matizes: desde o De Re Rustica de Catão até as
37

Geórgicas de Vergílio, o homem romano é, por excelência, um agricultor capaz de ser

também soldado.

2.1.1.3 Conceitos terciários do mos maiorum

Ademais dos conceitos primários – fides, pietas e uirtus – que delimitam o espaço

dos valores romanos e secundários - honor, dignitas, gloria, grauitas, auctoritas, clementia

e concordia – que se articulam aos primeiros, há ainda um grupo de conceitos que se

prendem aos secundários, aos quais remetem. Este grupo, mais restrito, seria composto por

libertas e otium cum dignitate.

Libertas era a condição desfrutada pelo homem em sua condição de cidadão, que

não só lhe permitia exercer a vida pública mas também exercer atividades econômicas. No

plano político da República, libertas tem um valor indissociável dos de dignitas e

auctoritas, já que apenas o homem livre pode alcançá-los. E é através de dignitas e

auctoritas que libertas se prende igualmente à fides e à uirtus.

Desse modo, libertas é tanto um conceito abstrato como uma condição concreta de

que o cidadão romano desfruta. Vale recordar também que, historicamente, os romanos

consideram o surgimento da república como o nascimento de sua condição de libertas.

O outro conceito terciário é o de otium cum dignitate. Como o nome já indica, este

conceito também se une ao de dignitas, e, indiretamente, ao de uirtus. Otium cum dignitate

consiste, na República, na tranquilidade advinda por ter o cidadão, já, ocupado todas as

atividades que dele a cidade exigisse, tendo alcançado a dignitas. Neste caso, era-lhe

facultado abster-se conscientemente da atividade política e da vida pública. Cícero, no

entanto, defenderá que o otium cum dignitate não deve ser sinônimo de inatividade, mas de
38

tranquilidade para decidir a que atividade – principalmente as de caráter intelectual –

dedicar-se.

Por último, temos um conceito que, sem prender-se a qualquer dos grupos

anteriores, pode ser encarado tanto como uma prática quanto como um “supraconceito”

que atua como coletivo dos já mencionados, trata-se do mos maiorum.

Significando, em sua tradução mais simples, o “costume dos antigos”, o mos

maiorum era a tradição que fundamentava o modelo da vida em comum do povo romano.

Sua observância era considerada um verdadeiro tabu para a população da Urbe, já que,

como vimos, o temor às inovações seria uma marca fundamental da pietas.

Contudo, o questionamento que podemos aqui encetar é: estando os costumes dos

antepassados baseados nos conceitos que ora expusemos, sua prática não faria mais que

traduzir, em preceitos e no cotidiano, os valores tidos como pilares fundamentais da

romanidade, desse modo, a expressão mos maiorum não teria podido atuar, no inconsciente

coletivo do povo romano, como o termo evocativo de todos e cada um daqueles conceitos

já citados? Cremos que a resposta seja afirmativa, já que Syme (1971) definirá este

conceito dizendo que “não é um cñdigo de lei constitucional, mas um conceito vago e

emocional”. (SYME, apud ROCHA PEREIRA, 1989:351; grifo nosso)

Cremos que o termo podia referir-se à explicação de uma dada prática ou conduta –

esta, evidentemente, baseada num dos conceitos acima – e que, por essa razão, e também

por ser, como Syme afirma, “vago e emocional”, este conceito terá sido usado também, ao

longo da história romana, como sinônimo ou como coletivo daqueles já aqui expostos.

Outro fator que corrobora nossa crença é o que, ao contrário dos demais conceitos,

o de mos maiorum não sofre ressignificações ao longo do tempo. Referindo-se sempre a

um tempo pretérito, o mos maiorum é usado no sentido que aqui defendemos, o de um

coletivo dos valores e práticas consagrados pela tradição, embasados pelos conceitos
39

expostos. Em suma, seria, portanto, o coletivo desses mesmos conceitos, razão pela qual,

ao longo deste trabalho, preferimos utilizar o termo mos maiorum para referirmo-nos ao

conjunto de conceitos sobre os quais, desde os primórdios, a romanidade se construiu 13.

2.1.2 A “dinâmica identitária” romana

Se acima examinamos os conceitos que delimitariam a romanidade, distinguindo-a

dos elementos característicos de outros povos, devemos agora, retomando os mitos

fundadores de Roma, perceber que, neles, já se via com nitidez a preocupação romana em

ter, no ato de delimitar, o estabelecimento de uma condição sine qua non para sua própria

existência: o que é bem apropriado para uma cultura de agricultores-soldados. Para esses, é

necessário delimitar o espaço das plantações, a posse de cada terreno, o tempo para a

colheita, o tempo destinado às práticas militares e mesmo para a guerra, cada atividade

exercida, enfim, pelos romanos exigia uma delimitação clara e inequívoca do espaço e do

tempo, por isso, (de)limitam-se o espaço e o tempo e estabelecem-se os costumes e as leis

que também limitam, assim como ordenam, a ação dos homens nesse espaço e tempo. Isso

já constituirá o elemento fundamental de diferenciação entre romanos e gregos, pois, como

muito bem ressaltará Umberto Eco:

Os gregos conhecem a polis, mas as cidades da Grécia são numerosas. A etnia


helênica possui os confins móveis de uma língua despedaçada em vários dialetos. Os
bárbaros começam onde já não se fala grego. A linguagem determina a identidade.
Para o Romano, pelo contrário, Roma é tudo aquilo a que se conferiu uma definição
política (finis) romana, e os bárbaros começam onde já não há ciues romani. A língua
latina impõe-se como selo político de uma ordem desejada, não encontrada, mas nada
impede o intelectual romano de também falar grego. (ECO, 1989:26)

13
Haverá ainda um quarto grupo de conceitos Ŕ sapientia e humanitas - que só tardiamente surgiram na
história de Roma, não havendo qualquer menção a eles anterior ao processo de helenização. Sendo conceitos
que se desenvolvem plenamente na obra de Cícero, serão examinados no capítulo a ele dedicado.
40

O que poderia, então, ser absorvido e incorporado por Roma? Tudo aquilo que

pudesse ser ordenado segundo o padrão romano, um padrão que será, sobretudo, jurídico.

Podemos, então, fazer coro a Umberto Eco, para quem, em Roma “Unidade e identidade

são um produto jurídico, Roma é um sistema de leis que agem no interior de certas

fronteiras, a cidadania romana é um privilégio para quem assume certos encargos e tira

partido de certos direitos. (ECO, 1989:26)”

A princípio , portanto, Roma é o intento de dar limites e ordem à realidade, fato que

estará sempre presente ao longo da história, afinal, muito da expansão romana dos séculos

seguintes terá como resultado final a ordenação, segundo o modelo romano, daquilo que

estiver dentro dos limites do poder de Roma. Roma ordena, e contida na ambivalência

desse verbo está, além de sua disposição para impor ordem ao mundo, sua igual

necessidade de organizar esse mundo de modo a que pudesse compreendê-lo.

Estabelece-se uma dinâmica da ação romana: Roma ordena para compreender e

compreende para disciplinar. Ora, traçar as linhas-mestras dessa ordenação era, mesmo que

os romanos de então não tivessem tido consciência do fato, um processo dialético cuja

culminância acarretaria o pleno desenvolvimento do direito civil, para além simplesmente

do mos maiorum. Ou seja, o direito romano surge como práxis filosófica, mesmo sem que

houvesse uma escola filosófica stricto sensu que lhe fornecesse um lastro teórico.

Há ainda que considerar-se que, ab ouo, Roma é produto de uma mestiçagem,

termo que não deve ser compreendido como aplicado – apenas - às características raciais,

mas às culturais do povo romano: formado inicialmente por gente oriunda das mais

diversas regiões da Itália central, a convivência entre povos distintos tornou habitual o

aproveitamento, a adaptação e a incorporação seletiva de valores, crenças, costumes e

hábitos oriundos de culturas próximas, enfim, mas sobretudo distintas.


41

Cria-se então uma segunda dinâmica, dessa vez cíclica, à medida que Roma se

expande pelo território italiano: uma nova expansão traça novos e mais amplos limites -

que devem ser ordenados -, esses limites incorporam ao orbe romano novas populações -

que devem ser romanizadas - e características culturais - que devem ser selecionadas –

incorporando-se à cultura romana o que for considerado aproveitável.

Definida como estatuto jurídico, a romanidade é, de início, suficientemente elástica

para adaptar elementos novos, como por exemplo, os substratos linguísticos vizinhos,

sejam eles lígures, gauleses, etruscos, osco-úmbrios, sabinos, volscos, etc. Prova cabal

disso é o Dictionnaire Étymologique de la Langue Latine (1932), de Ernout e Meillet, que,

segundo Antonio Houaiss (1989), registra haver no latim clássico cerca de mil e duzentos

termos de origem celta e seiscentos de proveniência germânica, sendo ainda incalculável o

número de termos de origem grega. Outro exemplo desse processo de incorporação e

adaptação é o do próprio alfabeto latino, resultante da adaptação romana de um alfabeto

grego recebido por via etrusca.

Se a identidade romana, e mais tarde a latina, é, como vimos, elástica, é por outro

lado bastante rígida em seu pragmatismo: dentro de uma lógica cartesiana que vê no

continuum espaço-temporal o locus para a existência de Roma, vê na ordenação jurídica o

único modus operandi para a legítima incorporação ordenada de novos elementos à cidade.

Mesmo os deuses estrangeiros não estavam livres desse imperativo: para que pudessem ser

cultuados na Vrbs, deviam ser legalmente introduzidos pelo pontifex no panteão romano.

Essa necessidade de ordem atinge cada meandro da cultura latina, não sendo devaneio

pensar que a preferência da língua latina pela formação de períodos subordinados, a rigidez

extrema da consecutio temporum e a equivalência semântica entre o supino, o acusativo de

finalidade e o gerundivo não seriam reflexos, no plano linguístico, da inconsciente vontade

romana de ordenar o mundo.


42

A língua, aliás, seria um dos mais eficientes meios de romanização. Porta pela qual

o bárbaro recém-conquistado poderia anelar participar plenamente da vida romana, seu

aprendizado foi prática recorrente entre os povos submetidos, e isso não deixou nunca de

significar a ordenação do pensamento desses povos segundo o padrão do latim,

alcançando, entre a urbe e seu orbe, uma unidade que, segundo Georges Duby:

“não se fundou apenas sobre as colônias dispersas, sobre uma estrela de calçadas todas
elas conducentes ao centro, sobre uma constelação de aglomerados urbanos de
estrutura semelhante, sobre o direito. Fundou-se sobre uma língua, a dos mandamentos
militares, a dos decretos de justiça, a das liturgias do poder: a língua do velho país
latino.” (DUBY; 1989: 12)

É imprescindível pensar que, se Roma ordena o mundo, essa é sua ordenação do

mundo: Roma é o centro desse universo, ponto de expansão de um poder constituído sobre

fundações distintas das das nações contemporâneas e também ponto de convergência da

riqueza material e cultural dos povos conquistados. Porém, não há aqui lugar para um

pensamento divergente, pois, desde o fim da monarquia, Roma é, sob a capa de uma

República, uma oligarquia agro-mercantil com forte poder militar. Esta oligarquia exerce,

de maneira centralizadora e censória, um poder que não admite questionamentos sobre sua

prática de poder nem sobre sua própria razão de ser.

Mas ainda assim haverá questionamentos, e esses viriam da própria Roma, do povo

romano que exigia maior retorno pelas contribuições que fizera à expansão. Não se tratava

apenas de maior distribuição de riquezas, mas sim de mais ampla participação política e de

extensão de voz e voto à plebe. Essas reivindicações, somadas ao crescimento e à expansão

da urbe logo farão com que não bastem mais o mos maiorum.

Assim, a codificação das leis nas XII Tábuas não deve ser vista apenas como

reflexo das crises sociais em Roma mas também uma mostra do espírito universalizante da

identidade romana: se essa é definida pelo estatuto jurídico, este estatuto deveria ser de

pleno conhecimento de todos aqueles por ele regidos, assim como o intento de torná-las,
43

por sua (a)fixação no Fórum, perenes. Inseridas, integradas e imutáveis dentro daqueles

continuum cartesiano, as XII Tábuas representarão, até aquele momento, o píncaro da

trajetória identitária romana: não apenas o espaço e o tempo, mas também a sociedade é

ordenada de modo permanente, segundo regras que se pretendem imutáveis.

Assim, ao longo dos cerca de trezentos anos desde a fundação de Roma até a

publicação das XII Tábuas, temos a formação de um primeiro padrão identitário romano,

gestado em paralelo à consolidação da urbe e sua expansão pela Itália. Esse padrão

identitário manter-se-á impoluto durante os dois séculos seguintes, e o processo de

ordenação do mundo segundo Roma terá seguimento com as três Guerras Púnicas e com a

conquista da Magna Grécia.

Veremos em sequência que esse processo terá, para Roma, consequências

inusitadas e que levarão à reconfiguração da própria identidade romana, de que os distintos

modi operandi empregados na absorção dos elementos culturais dos conquistados serão

prova.

2.2 Os limites da identidade

Ainda que os dois processos, o das Guerras Púnicas e o da conquista dos territórios

helênicos tenham se dado de modo praticamente concomitante, uma vez que esses

processos tiveram consequências distintas para a identidade romana, serão abordados em

separado iniciando-se pelas guerras contra Cartago.

De origem fenícia, Cartago já era, em cerca de 300 a.C., a maior potência

econômica do Mediterrâneo ocidental, uma vez que, tendo as cidades fenícias submergido

diante do poder dos impérios surgidos pós-Alexandre, Cartago as pudera substituir como

principal entreposto comercial entre as duas partes do Mediterrâneo. Sua política


44

expansionista a levara a conquistar a metade ocidental da Sicília, de onde podia lançar-se à

tomada da Itália.

Envolvida na guerra de Cartago contra as cidades sicilianas, Roma, ao final da

Primeira Guerra Púnica (264-241 a.C), assume o controle total da Sicília, incluindo aí

algumas cidades gregas. Inicia-se a expansão de Roma para além do território peninsular

da Itália. Apesar do violento embate e da longa guerra, como a Sicília não havia sentido a

presença de um superestrato cultural cartaginês, não se pode dizer que tenha havido algo a

ser incorporado diretamente pelos romanos – o que o foi, deu-se por via indireta, através da

mediação das populações gregas da Sicília.

Na Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.), os romanos conquistam aos cartagineses

todo o leste da Espanha – iniciando sua presença na Península Ibérica - e grande parte do

norte da África, incorporam ainda as ilhas da Sardenha e da Córsega ao seu território. Na

Terceira (149-146 a.C.), os romanos destroem Cartago a tal ponto que a cidade teve de ser

refundada, pois a antiga ficara tão destruída que foi preferível riscá-la do mapa.

A vitória nas Guerras Púnicas levariam Roma a dois novos desafios: testar a

validade daquela segunda dinâmica de expansão a que nos referimos, desta vez em

populações não-itálicas, com poucos referenciais culturais comuns, e, abalada na sua

estrutura econômica e social por causa da sucessão de guerras, as questões sociais seriam,

em Roma, agravadas, levando ao rompimento daquele –então fragilizado já - equilíbrio

social adquirido desde as XII Tábuas. O primeiro desafio seria vencido com o tempo: ao

tempo de César, a Hispânia e a África eram já províncias muito bem romanizadas, e o

número de escritores latinos que daí advirão será prova disso. Quanto ao segundo,

voltaremos a abordá-lo mais adiante.

A questão que aqui devemos nos fazer é: por que a conquista de Cartago, que deu a

Roma o controle de praticamente todo o território do Mediterrâneo ocidental, teve tão


45

pouca repercussão no plano cultural? É óbvio que Roma incorporou todos os avanços na

tecnologia naval cartaginesa, além de tê-la substituído como potência política; mas a

resposta à questão acima, parece-nos, está situada no próprio nível de desenvolvimento

cultural das populações recém-conquistadas: se Cartago era herdeira das rotas comerciais

fenícias, não se pode afirmar que o tenha sido também da cultura fenícia, que, aliás, já há

tempos estava em plena decadência, sob o império dos selêucidas. Seu nível cultural,

podemos supor, não devia diferir muito do da própria Roma naquele período, logo, não

havia mesmo muito a ser incorporado à cultura romana.

Se a conquista de Cartago teve as consequências acima descritas, as conquistas de

Tarento (272 a.C.) e, principalmente, Siracusa (212 a.C.) significarão, para Roma, o

contato com todo o universo cultural da Magna Grécia. E esse contato terá inúmeras

consequências para a trajetória da romanidade.

A primeira dessas consequências é o contato com uma civilização muitíssimo mais

requintada que sua própria, requinte esse que logo contagia a elite romana e adentra seu

cotidiano com uma força impensável. Assiste-se, no plano cultural, ao pleno impacto da

forte influência da cultura helenística no modus uiuendi das elites romanas, que adotam

hábitos de consumo que modificam profundamente seu modo de vida. A austeridade que

até então marcara a elite romana é substituída pelo luxo, e sua ostentação estabelece novos

padrões de consumo e de gosto artístico cujo melhor exemplo é a ascensão de Terêncio aos

palcos: artista voltado para a elite, seu teatro opõe-se diametralmente ao de Plauto, artista

de vertente popular.

Há também todo um grande incremento da vida cultural em Roma uma vez que a

influência das artes gregas tampouco deixa de se fazer sentir, muito embora, convém notar,

essa influência helênica seja repleta de tensões entre os dois povos, pois, segundo Barrow:
46

...las nuevas costumbres se debían a la influencia del pensamiento y del modo de vida
de los griegos: y hay que tener en cuenta que por “griego” debemos entender no la
suprema expresión del génio helénico, tal como se manifiesta en cuatro o cinco de los
grandes autores de los siglos V y IV a.C., sino la cultura que se difundió por todo el
Mediterráneo oriental, cultura cuya fuente principal de inspiración era la gran época
de Atenas. Esta cultura se había apoderado de los aspectos menos importantes porque
era incapaz de alcanzar en su emulación la altura de los momentos cumbres. Había
adulterado el lenguaje, la literatura y el carácter griegos. Podían adquirirse las obras
griegas y muchos las leían; pero los griegos que los romanos empezaban a tratar en su
vida cotidiana ya no eran siempre como los atenienses del siglo V. Aunque los
romanos aprovechaban las capacidades artísticas y profesionales de estos nuevos
griegos, en general los despreciaban por su carácter, y los despreciaban sobre todo
porque no habían sabido ser dignos de su pasada grandeza. (BARROW, 1986:61)14

Colocando-se de lado essa tensão, percebe-se que essa influência grega será responsável

pela introdução de diversos procedimentos artísticos – que consolidam ou dão novo

impulso à Literatura e à Pintura – no mundo romano e, que, passado o deslumbramento

inicial, lançará o pensamento romano a uma nova esfera de abstração até então

inalcançada.

Os romanos de então logo constatariam a superioridade cultural grega, e não será

sem razão que Cícero afirmará, nas Disputationes Tusculanae (I,3) : “Doctrina Graecia

nos et omni litterarum genere superabat; in quo erat facile uincere non repugnantes.”15

Tal constatação certamente terá atingido o narcisismo romano: se até então considerara os

outros como bárbaros; agora, diante do passado grego, Roma era colocada nessa posição.

Contudo, os romanos não tardariam a agir com a cultura grega da mesma forma já

praticada com outros povos: era necessário delimitá-la para conhecê-la, conhecê-la para

14
“... os novos costumes deviam-se à influência do pensamento e do modo de vida dos gregos: e deve-se
levar em conta que por “grego” devemos entender não a suprema expressão do gênio helênico, tal como se
manifesta em quatro ou cinco dos grandes autores dos séculos V e IV a.C., mas a cultura que se difundiu por
todo o Mediterrâneo oriental, cultura cuja fonte principal de inspiração era a grande época de Atenas. Essa
cultura havia se apoderado dos aspectos menos importantes porque era incapaz de alcançar em sua emulação
a altura dos momentos máximos. Havia adulterado a linguagem, a literatura e o caráter gregos. Podiam
adquirir as obras gregas e muitos as liam; mas os gregos com quem os romanos começavam a tratar em sua
vida cotidiana já não eram siempre como os atenienses do século V. Ainda que os romanos aproveitassem as
capacidades artísticas e profissionaiss deestes novos gregos, em geral os desprezavam por seu caráter, e os
desprezaavam sobretudo porque não souberam ser dignos de sua grandeza passada. (BARROW, 1986, p.61)
15
“A Grécia nos superava em educação e em todo gênero de letras; pois era fácil vencer os que não
lutavam.” Repare que há, mesmo em Cícero, um certo desdém pela superioridade grega.
47

dela selecionar o que fosse considerado válido, e, afinal, ordená-la segundo seu próprio

conjunto de valores. Dessa vez, no entanto, dadas as dimensões do conhecimento a ser

apreendido, logo ficou patente que, ao fazê-lo, a própria base da cultura romana poderia ser

modificada.

2.3 Uma nova identidade para um novo homem

Outrossim, o novo padrão de consumo das elites romanas faz aumentar a distância

entre o patriciado e uma plebe que, ademais, também se modificava: a população romana

de então já não eram os agricultores-soldados de séculos atrás, mas toda uma massa

formada por novos atores sociais. Por conseguinte, esses novos padrões de gosto e

consumo acirrarão ainda mais a tensão social na Vrbs, uma vez que a ostentação desses

novos hábitos pela elite será mais um ponto de insatisfação das camadas alijadas do poder.

Forma-se uma situação que será muito bem sintetizada por Jean Bayet:

La vie économique et sociale, la sensibilité même de Rome en furent bouleversées:


l‟afflux des richesses et des œuvres d‟art encouragea au luxe et à la recherche des
jouissances; en contre-partie, l‟orgueil national s‟aggravèrent. Surtout l‟unité morale
fut rompue entre les hautes classes pleines de morgue et une plèbe de plus en plus
cosmopolite. La vieille aristocratie s‟hellénisait avec goût et encourageait le purisme;
la foule, au contraire, se porta vers les aspects matériels et troubles de l‟hellénisme
asiatique; entre elles, le Sénat défendait, non sans quelque hypocrisie, l‟idéal vieux-
romain. (BAYET, 1953: 100-101).16

Mas, mais que isso, esses atores novos não são apenas novos atores, mas atores diferentes,

que não partilham dos mesmos valores da elite – seja esta elite helenizada ou

16
“A vida econômica e social, a própria sensibilidade de Roma foram abaladas: o afluxo de riquezas e de
obras de arte encorajou o luxo e a busca pelos prazeres; em contra-partida, o orgulho nacional se agravou.
Sobretudo a unidade moral entre as altas classes cheias de arrogância e uma plebe cada dia mais cosmopolita.
A velha aristocracia se helenizava com gosto e encorajava o purismo; a massa, ao contrário, se guiou pelos
aspectos materiais e problemas do helenismo asiático; entre eles, o Senado defendia, não sem alguma
hipocrisia, o velho ideal romano.”
48

tradicionalista. Junto com a estrutura social decadente, aquele primeiro padrão identitário

romano começa a dar sinais de exaustão, como bem definirá René Pichon (1903)

La destruction de l‟ancien édifice social est commencée au IIIe siècle. Elle s‟accomplit
de diverses causes, intérieures et extérieures. Au dedans, c‟est la lutte des patriciens et
plébéiens, les triomphes successifs de ces derniers; or, les nouveaux venus sont animés
d‟un esprit opposé à celui des aristocrates. Ils sont indifférents aux anciennes
traditions morales, politiques ou religieuses – même hostiles, puisque c‟est au nome de
ces traditions qu‟on les a si longtemps tenus à la porte de la cité. En solidarisant avec
leur propre cause celle des mœurs antiques, les patriciens ont compromis ces mœurs
elles-mêmes. (PICHON; 1903: 31)17

Logo, não é apenas a organização social romana que se vê questionada, é todo o conjunto

de valores sobre os quais essa organização fora construída que se intenta reformar, isso,

por si só, já representa a necessidade de construção da identidade romana, porque o

panorama que formara a identidade então vigente já fora radicalmente modificado.

Suficiente mostra dessas modificações é a súbita alteração na religiosidade romana:

La religion formaliste est de moins en moins suivie; elle est remplacée chez les gens
cultivés par le scepticisme, et dans la basse classe par les cultes orientaux, plus
passionés, plus favorables aux effusions du mysticisme individuel. (PICHON; 1903:
31)18

Assiste-se , portanto, a uma conjugação de fatores que ensejarão toda a sucessão de

acontecimentos que conduzirão, mais tarde, ao Império. Vale recordar, contudo, que o

padrão identitário continua sendo aquele respaldado pela tradição e defendido pelo Senado;

e justamente a tendência em reprimir-se quaisquer intentos de reforma social, mesmo

garantindo vitórias temporárias, apenas adiavam um embate ainda maior.

Mas, se falávamos, de atores diferentes, convém verificarmos que mudanças no

quadro social de fato ocorreram nesse período.

17
“A destruição do antigo edifício social começou no século III a.C. Ela se consumou por diversas causas,
internas e externas. No início, é a luta entre patrícios e plebeus, os triunfos sucessivos dos últimos; ora, os
recém-chegados são imbuídos de um espírito oposto ao dos aristocratas. São indiferentes às velhas tradições
morais, políticas ou religiosas – são até hostis, pois é em nome destas tradições que foram por muito tempo
mantidos fora da cidade. Unindo sua própria causa à dos costumes ancestrais, os patrícios acabaram por
comprometer estes costumes.”

18
“A religião formal é cada vez menos seguida, substituída entre os pessoas cultas, pelo ceticismo, e nas
classes baixas, pelos cultos orientais, mais passionais e favoráveis às efusões do misticismo individual”.
49

2.3.1 Homo nouus...

Para tanto, importa reconhecer que todo o processo de expansão militar e política

de Roma, ocorrido nos três séculos anteriores, conduziriam, forçosamente, a um necessário

reequacionamento das estruturas de poder da Vrbe: há, em razão das conquistas, um

enorme aumento na quantidade de escravos em território romano; ademais, a necessidade

de aumento do número das legiões necessárias para o controle das regiões conquistadas -

conduz a um expressivo aumento dos contingentes militares; os gastos de manutenção

dessas tropas engendra uma rede de intendência que detona o aquecimento do comércio,

fazendo surgir uma camada da população enriquecida com e interessada na expansão do

poder militar romano - um poder cuja administração demanda cada vez mais funcionários.

Cria-se, dentro dessa espiral de crescimento do poder romano, uma demanda de

mão-de-obra em que o elemento humano necessário para ocupar-se de todas estas novas

funções será, em expressiva maioria, oriundo da ordem equestre. Isso conferirá aos

membros dessa ordem – chamados homines noui - uma mobilidade e um destaque social de

que até então não desfrutaram – na prática, a ordem equestre constituirá uma subordem

social: uma camada média, sustentáculo do poder, que, sem ser contudo aquinhoada com

qualquer fração do mesmo, logo será um elemento a mais a pressionar por mudanças no

que lhe garantam uma participação, no jogo político, proporcional ao papel que passaria a

exercer.

As consequências dessa espiral de crescimento logo se fazem sentir: o imperium19

torna-se grande demais para ser bem administrado pela República, e estes novos atores

19
Neste trabalho, utlizamos o termo latino imperium para referirmo-nos às regiões sob poder romano, não à
instituição política, que ainda não se constituíra. Ao referirmo-nos ao regime, utilizaremos o termo português
império.
50

sociais, unidos aos veteranos militares e à plebe urbana, reivindicam mais terras e maior

representatividade.

As duas reivindicações acima apontadas estão na gênese de quase todas as

convulsões sociais vividas pela república romana em seus últimos cento e cinquenta

anos20, cujas consequências e idiossincrasias acabarão por conduzir ao Império. Mas essas

não eram, porém, as únicas transformações ocorridas no panorama sociopolítico romano,

uma vez que a classe dirigente - o patriciado hereditário, de base econômica latifundista e

representado pelo Senado - encontrava-se dividida entre os que propunham a manutenção,

a qualquer custo, do status quo, e aqueles que reconheciam a necessidade de reformas no

quadro sociopolítico, embora não abrissem mão de conduzirem, eles mesmos, estas

reformas.

2.3.2 ... et homo uetustus

É nesse momento que se destacará a figura de Marco Pórcio Catão (234-149 a.C.),

legítimo representante das correntes mais tradicionalistas do patriciado. Sua ação como

censor eleito em 184 a.C foi marcada por uma tentativa de reconduzir a sociedade romana

àquela ordem já desvalorizada: combateu a ostentação e o exibicionismo dos ricos e

buscou depurar o Senado das inovações que considerava nocivas. Catão caracterizou-se

pelo rechaço sistemático a qualquer inovação na cultura romana, e, obviamente, a

influência grega foi seu alvo preferencial: fez com que os filósofos e retores gregos fossem

proibidos de residir em Roma.

Suas ações como censor tiveram êxito, em parte, devido a sua independência dos

poderosos e honestidade ímpar, no entanto, mesmo seu empenho em combater a influência

20
As exceções seriam as diversas revoltas de escravos ocorridas no período.
51

grega teve um resultado dúbio: de fato, os valores do pensamento grego foram excluídos

da vida pública, contudo, nada podia ser feito quanto à vida privada dos cidadãos. O

próprio Catão foi mostra disso quando, na velhice, dispôs-se a estudar grego. Ao fim,

Catão acabou sendo o mais legítimo representante de uma identidade romana que já não

podia responder à realidade vigente.

2. 4 Novas variáveis numa velha equação

Não devemos entender com isso que aquela antiga configuração da identidade

romana tenha sido destruída. Os romanos de então, assim como seus ancestrais, tinham

ainda necessidade de delimitar para ordenar: delimitam ainda o espaço e o tempo segundo

sua própria lógica, e ainda ordenam o mundo e sua sociedade segundo seu próprio padrão

jurídico. No entanto, se sua identidade é ainda aquela do passado, não é mais, porém,

apenas aquela, e é da dificuldade em absorver, por si só, as novas variáveis identitárias que

surgem que a sociedade romana – e com ela sua própria identidade - passará por toda uma

série de convulsões.

Onde então poderiam os romanos buscar mecanismos que lhes possibilitassem

reequacionar, incluindo as novas variáveis, sua identidade cultural? A resposta estaria

justamente no recurso à Filosofia, pois sendo uma de suas missões buscar respostas sobre o

ser humano, poderia colaborar com essa empreitada. Assim, teremos um segundo

nascimento da Filosofia em Roma, e essa nova filosofia já não será mais o arcabouço

teórico do Direito, mas todo o surgimento de um pensamento filosófico romano.

Ao falarmos de pensamento filosófico romano, devemos entender esse termo não

como o surgimento de uma filosofia romana autônoma da grega, mas pela busca, no

pensamento grego, do necessário para revestir a cultura tradicional romana de uma base
52

filosófica que lhe outorgasse nova profundidade, capacitando-a ao enfrentamento das

transformações sociais, já expostas, e culturais, que este contato com a Grécia provoca. O

maior êxito dessa busca, no período republicano, estará personificado em Cícero: sua

produção escritural, importantíssima no âmbito da Filosofia e do Direito, representa a

síntese do que afirmávamos.

Entendamos, portanto, que o recurso à Filosofia não tem apenas a intenção de

proporcionar um “revestimento teñrico” àquelas práxis – jurídica e ética - já consagradas;

mais que isso, apresenta-se também como intento de solução para um dilema que a

absorção do helenismo trouxera à elite romana, pois a recepção da cultura helenística – e

dos novos costumes que esta introduzira, indispondo o espírito romano aos rigores de sua

própria tradição cultural e drenando de sua vida cultural o pleno sentido de valores como

auctoritas, grauitas, constantia, simplicitas, fides, etc., igualmente retirara-lhe as bases

sobre as quais sua própria essência até então se assentava. Os intelectuais romanos de

então percebem que a expansão de seu poder custara-lhes a perda do centro gravitacional

de sua cultura.

2.5 – Rumo à simbiose

Após as primeiras agitações sociais conduzidas pelos Gracos e que acarretam os

governos de Mário, apoiado pelo partido popular, e Sila, este apoiado plenamente pelo

Senado, o poder republicano adota a estratégia de distribuir territórios conquistados entre

soldados veteranos e funcionários, diminuindo, apenas momentaneamente, já que novas

guerras e conquistas sempre produziriam novos veteranos. a pressão por reforma agrária.

Outra estratégia de Mário, a de permitir a qualquer cidadão, independentemente de sua

origem social, o ingresso no exército, não apenas diminui a quantidade de desocupados na


53

urbe, como acaba também por transferir as relações de lealdade da tropa, que migram da

aristocracia para o próprio generalato romano. Isso acaba por garantir uma sobrevida à

aristocracia como classe dominante, mas fica claro que o poder está mudando de mãos,

ainda que de modo bastante lento e sujeito a retrocessos, como se evidencia na concessão,

por parte de Mário, da cidadania romana a todos os habitantes da Península Itálica.

Unidos, os interesses de cada um destes agentes sociais – mesmo que

ocasionalmente opostos entre si – colocarão o patriciado romano em xeque: não há como

manter sua posição sem negociar com ou apoiar-se nestes novos grupos, ainda que isto

signifique ao mesmo tempo abrir mão de alguma fração de seu poder de classe dominante.

Julgado dessa forma, talvez a figura de Júlio César se apresentasse como capaz de fazer

essa necessária transição de forma minimamente satisfatória para todos, todavia, seu

assassinato em 44 a.C., torna irreconciliáveis estes grupos e abre caminho para a

instauração do império como instituição política, fato que se concretiza com a ascensão de

Augusto em 27 a.C.

Se neste capítulo abordamos a trajetória de Roma e o modus operandi pelo qual se

construiu uma identidade romana, que, desafiada pelas transformações na sociedade de que

é produto, busca na Filosofia grega uma nova base de sustentação; nosso próximo capítulo

abordará como, na obra filosófica de Marco Túlio Cícero, ocorre essa simbiose entre

identidade romana e o pensamento grego, com a inserção de novos valores na cultura de

Roma.
54

3 CÍCERO: A ROMANIDADE FILOSÓFICA

Em nosso capítulo anterior, analisamos que, desde sua fundação, o processo

histórico romano não só transformara o Direito no elemento regulador de sua sociedade,

mas, indo além, transformara-o no seu espaço de reflexão sobre o próprio homem.

Ocupando essa função, é no âmbito do Direito que encontraremos – sempre disposto de

maneira pragmática e sucinta, como foi conveniente aos romanos – um substrato de caráter

filosófico.

Vimos também que o desenvolvimento da sociedade romana, e a expansão de seu

poder, introduziram novas personagens em seu tecido social, tornando cada vez mais

complexa a trama de suas relações, e como, em decorrência disso, o modelo identitário que

até aquele momento servira para a composição da romanidade não mais serviria para

abarcar o conjunto dessa (nova) sociedade. Esse fato conduziu, no bojo da absorção da

cultura helenística pela intelectualidade romana, ao estudo da Filosofia grega no intento de

fornecer um novo lastro àquela (também nova) conformação identitária.

Uma vez que acreditamos que Cícero será o primeiro autor em que se percebem

questionamentos acerca da identidade romana, abordaremos aqui, em algumas de suas

obras, os momentos em que esses questionamentos, e as propostas que faz, tornam-se mais

evidentes. Convém ressaltar que não realizaremos aqui uma análise completa de qualquer
55

das obras de Cícero, mas tão somente dos pontos onde há uma proposição de caráter

identitário. Antes, porém, façamos uma breve recapitulação de sua biografia.

3.1 – Cícero: esboço biográfico

Nascido em Arpino em 106 a.C., Cícero será um dos mais destacados

representantes daqueles homines noui a que nos referimos anteriormente: oriundo da

ordem equestre, estuda em Roma e inicia, com brilhantismo, sua carreira como advogado,

conseguindo, entre 81 e 79, diversos êxitos em julgamentos tidos como “causas perdidas”.

No entanto, não estudou apenas Direito: durante seus anos de formação, estudara Filosofia

com o estoico Diódoto e o acadêmico Fílon de Larissa. Isto será um fator decisivo para sua

formação forense e também para sua atuação política: Cícero reunirá em si uma sólida

formação em ambas as áreas e estará, mais que ninguém em seu tempo, apto a, trafegando

entre ambas, construir pontes entre elas.

Em razão disso e com o acréscimo de seu reconhecido talento como escritor, Cícero

será o primeiro nome romano capacitado a elevar o patamar da discussão sobre os rumos

da sociedade romana – compreendendo-se aí a proposição de uma nova concepção

hereditária - tornando-se, “par l‟ ampleur de sa pensée, la diversité de ses activités, par son

action politique, aussi, qui reste inséparable de son génie d‟orateur et d‟écrivain, il

rassemble en lui et symbolise ce temps qui est le sien et où l‟expression est au service de la

cité. (GRIMAL, 1994:162)”21, como bem sintetizará Pierre Grimal.

Entre 79 e 77, Cícero realiza novos estudos, em Filosofia e Retórica, em Rodes e na

Ásia. Retornando a Roma, retoma suas atividades como advogado e inicia seu cursus

21
“pela amplitude de seu pensamento, pela diversidade de suas atividades, por sua ação política também,
que é inseparável de sua genialidade como orador e escritor, reúne em si e simboliza esse tempo que é o seu e
onde a expressividade está a serviço da urbe.”
56

honorum, galgando todos os degraus políticos da sociedade romana: questor em 75 a.C.,

edil curul em 69, pretor urbano em 66, e cônsul em 63 22 são as que mais se destacam.

Durante todo este tempo, embora não tenha deixado de estudar, as publicações de Cícero

estão restritas aos seus discursos forenses, ficando evidente que Cícero soube usar destes

discursos para estabelecer sua fama e posicionar-se entre os notáveis de seu tempo,

ousando defender causas ou ideias que o colocariam no centro da vida pública, e no papel

de peça-chave para o jogo político de Roma, pois “les discours judiciaires concernent, dans

leur grande majorité, des procès de caractère politique et ce sont eux, et non les quelques

procès privés que nous avons mentionnés, qui ont fait la gloire de Cicéron. La vie

publique, à Rome, le voulait ainsi.” (GRIMAL, 1994:168)23

Assim, nesta fase de sua vida, Cícero usa seus talentos para sua própria ascensão

social. 24 E se em seus discursos não deixa de haver uma preocupação com a Filosofia, esta

se encontra submetida à necessidade de defender, e vencer, uma determinada causa. Porém

percebe-se que, mesmo entre estes discursos, está presente a exaltação de um modelo

político, o da República Senatorial, do qual Cícero se torna um ardoroso defensor.

Sua ascensão como figura pública tende a ser vista como contraditória, uma vez que

Cícero surge como um seguidor, embora moderado, da causa popular e, à medida que

conquista maiores espaços no ambiente político romano, vai, paulatinamente - e ao

contrário do que se poderia esperar -, aderindo à causa conservadora. Contudo, mesmo

costumando dividir os grupos políticos em atuação naquele momento histórico entre

22
É durante seu mandato como cônsul que desbarata a conspiração promovida por Lúcio Sérgio Catilina,
não só prendendo mas executando sumariamente os que o apoiavam.
23
“os discursos jurídicos dizem respeito, em sua grande maioria, a processos de caráter político e são estes, e
não os demais processos privados que mencionávamos, que fizeram a glória de Cícero. A vida pública, em
Roma, assim o exigia.”
24
Outro fator que certamente terá contribuído para sua ascensão social e política foi seu alinhamento político
com Pompeu, para quem defendeu os poderes ilimitados concedidos pela Lex Manilia em 66 a.C.
57

Optimates e Populares, vale ressaltar que não se trata, de fato, de partidos políticos, mas de

grupos representativos de estamentos sociais muito próximos, como Norma Musco

Mendes explicita ao declarar que “não existia uma oposição formal entre senadores e

equestres, que desfrutavam do mesmo gênero de vida, tinham os mesmos gostos e ideias

políticas. (MENDES; 1988: 54)”. A disputa era, segundo Grimal, colocada num nível

ainda mais baixo, já que “il n‟y avait guère de débats idéologiques ni de partis bien définis;

ce qui l‟emportait, c‟étaient les rivalités entre les personnes et les clans qui avaient pour

enjeu la conquête des magistratures et des gouvernements provinciaux. (GRIMAL,

1994:168)”25.

Fato é que Cícero, mesmo direcionando-se à causa conservadora, não obteve, junto

aos optimates, o reconhecimento a que certamente fazia jus. Isso se dá porque, apesar do

fato de que essa adesão teria acelerado sua ascensão social, a leitura de seus textos mostra

que Cícero não foi um mero adulador do patriciado, mas o defensor de um sistema político,

o da república oligárquica, no qual essa classe era dominante. E é por essa razão que

contraiu, ao longo de sua carreira, uma série de inimigos justamente entre os membros do

patriciado; chegando a ser exilado – graças a uma lei proposta por Clódio - por ter

executado cidadãos sem julgamento, durante a repressão aos catilinários 26.

É durante o Primeiro Triunvirato (59-53), que a estrela de Cícero começa a

esmaecer: exilado em 58, retorna a Roma em 57 e é constrangido a defender vários de seus

antigos inimigos. Em 52, é novamente afastado do centro das decisões, através de uma

25
“Não existiam debates ideolñgicos nem partidos bem definidos, o que a conduzia, eram as rivalidades entre
pessoas e clãs que tinham por objetivo a conquista de magistraturas e de governos provinciais.”
26
Outro fato que dificultou a aceitação de Cícero foi sua insistência, após a conjuração de Catilina, em
apresentar-se como pater patriae: o esprit de corps do patriciado não podia aceitar que um membro da ordem
equestre houvesse prendido e executado diversos membro de sua classe. Contudo Cícero sempre manteve
grande número de admiradores entre o povo, que celebrou seu triunfo quando de seu retorno do exílio.
58

nomeação ao cargo de procônsul na Cilícia (51). Em suma, Cícero jamais recuperou, no

campo político, a importância antes adquirida.

Outra contradição em Cícero é sua tentativa de colaboração com o Triunvirato, uma

aparente traição ao sistema republicano. Mas se muito dessa colaboração resulta de

constrangimento, pode-se porém perceber, subjacente, a defesa do Senado enquanto órgão

condutor da nação. Analisado sob este prisma, sua trajetória política torna-se quase linear:

sua intenção maior, até esse momento, era a almejada concordia ordinum que poria fim às

convulsões da República, mesmo que ficasse, temporariamente, sob um “regime de

exceção”. Sob esse assunto, Gian Biagio Conte é categórico ao afirmar que:

Despite the many fluctuations, Cicero‟s political career follows a consistent line. In
the context of a general rapprochement between Senate and equites the homo nouus
supported the nobilitas, and even afterwards he remained faithful to the idea of
concord and to the senatorial cause. His attempt at collaboration with the triumvirs
was a response to the need for an authoritative government, and here, too, Cicero was
concerned to preserve the prestige and the prerogatives of the Senate. Even the
temporary rapprochement with Caesar‟s autocratic tendencies and to maintain power
within the familiar framework of republican traditions. (CONTE; 1994:185)27

Durante a Guerra Civil (49-47), Cícero adere ao grupo de Pompeu. Uma adesão

sem entusiasmo, pois estava consciente de que, qualquer que fosse o vencedor, o Senado

estaria condenado à perda de grande parte de seu poder. Com a vitória de César, Cícero é

logo perdoado, já que César era suficientemente perspicaz para perceber que, assim o

fazendo, neutralizaria seu poder de ação. O estratagema de César dá certo, e Cícero,

recusando-se a colaborar com o novo governante, permanece oficialmente afastado da vida

pública até o assassinato do ditador em 44 28. A partir de então, tenta interferir novamente

27
“Apesar de algumas flutuações, a carreira política de Cícero segue uma linha consistente. No contexto de
uma aproximação geral entre o Senado e os equites o homo nouus apoiou a nobilitas, e mesmo contradito ele
manteve fé na ideia de concórdia e na causa senatorial. Sua tentativa de colaboração com os triúnviros foi
uma resposta à necessidade de um governo autoritário, e aqui, também, Cícero buscou preservar o prestígio e
as prerrogativas do Senado. Mesmo a aproximação temporária com as tendências autocráticas de César e
manter o poder nas estruturas familiares da tradição republicana.”
28
Não se duvida de que Cícero estivesse a par dos Idos de Março, mas sua participação ativa no assassinato
de César não pode ser comprovada. Contudo, inclinamo-nos a crer que, indiretamente, as obras de Cícero
tenham sido fundamentais nesse processo, conforme demonstraremos a seguir.
59

no rumo dos acontecimentos, mas, transformado em peão no jogo político entre Marco

Antônio e Otaviano, é proscrito e depois executado a mando do primeiro em 43.

3.1.1 – Cícero, magister eloquentiae

A decadência do papel de Cícero na política é inversamente proporcional a sua

produção escritural: nos anos que sucedem ao de seu consulado (63 a 43), Cícero produz

uma grande quantidade de obras, voltadas para a Retórica, para a Filosofia e para o

pensamento político romano. Apesar de voltada para áreas tão díspares, novamente

podemos recorrer a Conte para defender a ideia de uma linha-mestra em seus textos:

But as his years and his disappointments mounted up, he felt the increasing need to
reflect on the bases of politics and morality and went back to Hellenistic thought. The
aim of his philosophical works is the same one that inspires some of his most
important speeches: to provide a solid intellectual, ethical, political base for a
dominant class whose need for order would not be translated into obtuse isolation and
whose respect for the national tradition (mos maiorum) would not hinder the
absorption of Greek culture,(…). (CONTE; 1994:177)29

A participação de Cícero no jogo político em Roma acabou por ser menor do que o

brilho que deu às letras latinas de seu tempo: seu nome é até mesmo usado para delimitar

um dos períodos literários de Roma 30; isso se deve primeiramente a seu êxito como orador,

posição na qual alcançou, ainda em vida, pleno reconhecimento como o mais importante

dos prosadores e oradores romanos. Nesse aspecto, Cícero destacou-se não apenas por ser

um dileto praticante da retórica da persuasão mas também por ter estudado profundamente

os fundamentos e as técnicas dessa ciência, publicando uma série de livros sobre o assunto:

29
“Mas como nesses anos seus desapontamentos cresceram, ele sentiu a crescente necessidade de repensar
as bases da política e da moral, e voltou-se para o pensamento helenístico. O alvo de seus trabalhos
filosóficos é o mesmo que inspira alguns dos seus mais importantes discursos: prover uma sólida base
intelectual, ética e política para uma classe dominante cuja necessidade de ordem não poderia ser traduzida
num isolamento obtuso e cujo respeito pela tradição nacional (mos maiorum) não poderia atrapalhar a
absorção da cultura grega,...”
30
Diversos historiógrafos da literatura latina estabelecem os anos de Cícero (81-43 a.C.), como uma das fases
da literatura romana.
60

De inuentione, De Oratore, Partitiones Oratoriae (54)31, De Optimo Genere Oratorum

(52), Brutus, Orator (46) e Topica (44).

Dentre estas obras, no entanto, duas irão além do objetivo principal e nos tratarão

da identidade romana: Brutus e Orator. O primeiro é uma refutação do neoaticismo que

caracterizara até então seus discursos e, também e principalmente, uma história da

eloquência latina, um texto em que, segundo Pierre Grimal:

“il retrace l‟histoire de l‟éloquence romaine, depuis ses plus lointaines origines
saisissables jusqu‟à l‟époque contemporaine. Dans cet ouvrage, qu‟il intitula Brutus,
en hommage à son jeune ami, pour lequel il a beaucoup d‟estime, il sacrifie aux
tendances du jour, le désir croissant de connaître les antiquités de Rome; ce n‟est pas
un hasard si l‟un des interlocuteurs est Atticus. Mais la succession des notices
consacrées, par ordre chronologique, aux orateurs ne laisse pas de tracer une véritable
histoire de la vie politique depuis plus d‟un siècle. (GRIMAL, 1994:173) 32

Ou seja, o que se explicita neste texto é como Cícero interpreta o – tumultuado – período

histórico precedente, período em que, respeitando-se o “depuis plus d‟un siècle” de

Grimal, determinará o ano de 146 a.C., em que termina a Terceira Guerra Púnica, com a

destruição definitiva de Cartago, e em que Corinto é destruída - como o marco que delimita

o início das sucessivas crises do sistema republicano, e também da identidade romana. O

que está subreptício no discurso de Brutus é a interpretação, por Cícero, do percurso

histórico romano.

O Orator, escrito no mesmo ano de 46 a.C., chama-nos a atenção por ser uma obra

de caráter doutrinal, abordando como deve proceder o grande orador. É também dedicado a

Bruto, mais um de longa série a que voltaremos em seguida.

31
Sabe-se com certeza que o De Oratore é de 54, sobre os demais a data é aproximada. Porém a ordem de
sua apresentação acima é a da publicação dos textos.
32
“...ele retrata a histñria da eloquência romana, desde suas origens mais longínquas até a época
contemporânea. Nesta obra, que chamou Brutus, em homenagem a seu jovem amigo por quem tem muita
estima, ele sacrifica às tendências do momento, ao desejo crescente de conhecer as antiguidades de Roma; e
não é por acaso que um dos interlocutores é Ático. Mas a sucessão, em ordem cronológica, de fatos
consagrados pelos oradores não deixa de traçar uma verdadeira história da vida política desde há mais de um
século.”
61

3.1.2. Cícero, o filósofo

Mais que o mestre da eloquência, o Cícero que aqui nos interessa investigar é o

filósofo cujo pensamento comporta um programa político e, dentre deste, uma nova

concepção da identidade romana. Se, como já dito, Cícero fora, na juventude, aluno do

acadêmico Fílon e do estoico Diódoto, seu aprendizado nestas duas escolas serviu para que

manifestasse, sempre que possível, uma profunda repulsa pelo epicurismo. A explicação

para tal posicionamento nos será dada novamente por Conte:

There are two principal grounds for Cicero‟s aversion to Epicureanism, closely linked
to one another. First, the Epicurean philosophy leads to a lack of interest in politics,
whereas the boni ought to participate actively in public life. Second, Epicureanism
excludes the divinity‟s providential function (to the extent that it does not deny its
existence) and thus weakens the links with traditional religion, which remains the
fundamental basis of ethics for Cicero. (CONTE; 1994:193-4)33

Fica , portanto, evidente que o epicurismo ia completamente de encontro às bases da

cultura romana, uma vez que desafiava diversos dos valores consagrados no mos maiorum.

Assim, descartado o epicurismo, restava a Cícero (re)pensar a política – e de

passagem a identidade cultural – romana a partir das duas outras escolas, aquelas mesmas

que estudara na juventude: o academicismo platônico e o estoicismo. Cícero, no entanto,

não se detém aí: a evolução de seu trabalho faz com que penda para o neoacademicismo,

baseado principalmente no pensamento de Carnéades de Cirene (214-129 a.C.). Segundo

Paul Harvey (1998), Carnéades defendia “a impossibilidade de atingirmos o conhecimento

certo, mas que, à falta deste, podíamos chegar a conclusões com vários graus de

probabilidade de certeza, conclusões estas que podem constituir uma diretriz para nossa

conduta. (Harvey; 1998: 101)”.

33
“Há dois principais argumentos para a aversão de Cícero pelo epicurismo, fortemente unidas uma à outra.
Primeiramente, a filosofia epicurista conduz à perda de interesse pela polítca, enquanto os boni devem
participar ativamente na vida pública. Em segundo lugar, o epicurismo exclui a função providencial da
divindade (mesmo que não negue sua existência) e desse modo rompe os elos com a religião tradicional, que
permanece como a base fundamental da ética, para Cícero.”
62

A filosofia de Cícero, contudo, vai ainda além dos limites do neoacademicismo: em

seus livros manifestam-se diversos pontos em que a influência estoica é marcante, quando

não predominante, como nas questões relativas à ética, afinal, conforme mais uma vez

Conte:

“Cicero recognized that Stoicism furnished the most solid moral basis for the citizens‟
commitment to the community. Yet by virtue of his taste and culture he felt himself
remote from an intransigent Stoic such as Cato [the Younger] or from an Academic of
rigid morality such as Brutus. (CONTE; 1994:194)34

De fato, Cícero era um eclético, e cremos não poder ter sido diferente, pois sendo a

aquisição seletiva e pragmática do pensamento, práticas e valores culturais estrangeiros um

procedimento já consagrado da cultura romana, Cícero estaria tão somente agindo segundo

seu condicionamento cultural, mas, além disso, Conte afirma que:

Cicero is original in the choice of subject and in the shaping of the arguments, since
the problems poses by society are new. Cicero knits together the torn limbs of
Hellenistic thought in order to extract from it an ideal structure that will operate
effectively in regard to Roman society. (CONTE; 1994:192)35

À parte sua produção sobre a retórica, que embute, como vimos, sua visão da

história, Cícero possui dois outros grupos de obras: a), sobre política, constituído de De Re

Publica (54-51), De Legibus (52-?) e, b), sobre filosofia propriamente dita, em que se

arrolam: Paradoxa Stoicorum (46), escrito em 46 a.C.; Academica, De Finibus Bonorum et

Malorum, Tusculanae Disputationes e De Natura Deorum, todos produzidos em 45, De

34
“Cícero reconheceu que o estoicismo fornecia a mais sñlida base moral para o comprometimento dos
cidadãos para com a comunidade. Mas em razão de seu gosto pessoal e cultura ele se sentia distante de um
estoico intransigente como Catão [de Útica] ou de um acadêmico de moralidade rígida como Brutus.”

35
Cícero é original na escolha do tema e na construção dos argumentos, uma vez que os problemas colocados
à sociedade também são novos. Cícero costurou os tecidos rasgados do pensamento helenístico ´para extrair
daí uma estrutura ideal para operar efetivamente em relação à sociedade romana.”
63

Diuinatione, De Fato, Cato Maior de Senectute, Laelius de Amicitia e De Officiis, escritos

em 4436.

Apesar de enquadrados em grupos distintos, a já mencionada linha-mestra que

conduz o pensamento, a ação política – e se reflete nos textos – de Cícero nos concedem

que estas obras sejam analisadas em conjunto, uma vez que, nos seus textos políticos,

Cícero traça as linhas gerais de conduta do cidadão partícipe de um modelo de estado que o

próprio Cícero traça; e, nos seus textos mais estreitamente filosóficos, Cícero estabelece o

padrão de conduta e de pensamento desse mesmo cidadão, recorrendo, para tanto, a

modelos diversos, conforme veremos adiante.

3.2 – O pensamento político de Cícero

Vimos que Cícero escreveu duas obras de caráter mais estreitamente político: De

Re Publica e De Legibus, no entanto, nossa análise aqui estará concentrada exclusivamente

na primeira, já que, segundo Gian Biagio Conte (1994), esta obra não teria sido publicada

durante a vida de Cícero: “Inspired again by the model of Plato, who had followed the

Republic with the Laws, Cicero complemented the dialogue on the state with de De

Legibus, begun in 52 and probably not published during his lifetime.(CONTE;

1994:190)”37. Afirmação esta corroborada, de modo ainda mais enfático, por Pierre

Grimal, que afirma ainda que este livro somente teria sido terminado após a morte de

César:

36
Há a variação de alguns meses na produção destas obras, para alguns autores (Harvey e Paratore), as
Tusculanae Disputationes teriam sido concluídas apenas em 44, e De Fato teria sido escrito em 43.
Inclinamo-nos aqui, no entanto, pelas datas consideradas pela maioria dos autores consultados.
37
“Inspirado novamente no modelo de Platão, que continuou a República com as Leis, Cícero complementou
o diálogo sobre o estado com o De Legibus, iniciado em 52 e provavelmente não publicando durante sua
vida.”
64

Il semble que la mort de César n‟ait pas été étrangère à ce qui apparaît comme un
regain d‟optimisme. Il retrouve les idées qui lui avaient dicté, peut-être vers 52 ou 51,
son traité Des lois (De Legibus), où se trouvait affirmée la possibilité, pour un homme
d‟État, d‟influer sur la vie de la cité, et de rompre les prétendus déterminismes qui
passaient pour la dominer. Il se peut que le De Legibus, à peine achevé au moment où
Cicéron partait en Cilicie, soit resté inédit et n‟ait été publié qu‟après la mort de son
auteur. (GRIMAL, 1994:177)38

Como as ideias que Cícero defende nesta obra só teriam visto a luz durante o governo de

Augusto e não tiveram repercussão durante o período em análise, cremos ser melhor

deixarmos de lado o exame de De Legibus e concentrarmo-nos mais detidamente em De Re

Publica.

3.2.1 - De Re Publica

Escrito ainda durante o Primeiro Triunvirato, De Re Publica é construído, desde o

título, à semelhança da “República”, de Platão. Como esse, naquele temos a narração de

um debate ocorrido entre diversos amigos na quinta de Cipião Emiliano. Debate em que

são discutidos diversos temas relativos à organização do Estado e em que Cipião acaba se

tornando não apenas um condutor do debate mas um alter ego do autor, uma vez que as

opiniões expressas serão as de Cícero.

A obra compunha-se originariamente de seis livros, dos quais nos restaram os dois

primeiros e fragmentos, de extensão variada, dos outros; entre os quais se encontra o

famoso Somnium Scipionis, quase um texto à parte.

Mas se o texto demarca, desde o título, sua proximidade com o de Platão, qual

seria, por outro lado o distanciamento com o “República”? Cremos que o primeiro marco

38
“Parece que a morte de César não foi estranha a quem a via como uma retomada do otimismo. Ele
reencontra as ideais que havia ditado, talvez em 52 ou 51, seu tratado sobre as leis (De Legibus), onde se
encontrava afirmada a possibilidade, para um homem de Estado, de influir na vida da urbe, e de romper os
pretensos determinismos que pareciam dominá-la. Talvez o De Legibus mal terminado no momento em que
Cícero partia para a Cilícia, tenha ficado inédito e sñ tenha sido publicado apñs a morte de seu autor.”
65

de distanciamento seria a afirmação da superioridade da práxis romana sobre a teorização

grega, afirmação que se explicita já nos primeiros momentos do texto, como se vê no

trecho abaixo, que, dito por Cipião, mal esconde a biografia do próprio Cícero:

Sed neque iis contentus sum quae de ista consultatione scripta nobis summi ex Graecia
sapientissimique homines reliquerunt, neque ea quae mihi uidentur anteferre illis
audeo. Quam ob rem peto a uobis ut me sic audiatis: neque ut omnino expertem
Graecarum rerum, neque ut eas nostris in hoc praesertim genere anteponentem, sed ut
unum e togatis patris diligentia non inliberaliter institutum, studioque discendi a
pueritia incensum, usu tamen et domesticis praeceptis multo magis eruditum quam
litteris.' (CÍCERO; De Re Pub., I,36)39

Aliás, em quase todas as suas obras filosóficas, a proclamação da superioridade

romana frente à especulação grega tornar-se-ia um lugar-comum para Cícero, chegando a

alcançar tons ainda mais fortes que o acima, como se percebe na abertura das Tusculanae,

em que, mesmo que reitere a superioridade dos valores e das práticas romanas, Cícero não

deixa de reconhecer-se como tributário da mesma:

...cum omnium artium, quae ad rectam uiuendi uiam pertinerent, ratio et disciplina
studio sapientiae, quae philosophia dicitur, contineretur, hoc mihi Latinis litteris
inlustrandum putaui, non quia philosophia Graecis et litteris et doctoribus percipi non
posset, sed meum semper iudicium fuit omnia nostros aut inuenisse per se sapientius
quam Graecos aut accepta ab illis fecisse meliora, quae quidem digna statuissent, in
quibus elaborarent.” (CICÉRON; Tusc., I, 1)40

Retornando à De Re Publica, devemos recordar que sua produção se dá durante a

vigência do Primeiro Triunvirato, momento em que o rodízio de poderes consagrado na

república dual é suspenso em nome de um mandato trino. Mandato este que, mal
39
“...se as doutrinas políticas dos mais esclarecidos escritores gregos não me satisfazem completamente,
tampouco me atrevo a ter preferência pelas minhas próprias ideias. Suplico-vos, , portanto,, que não me
escuteis como a um ignorante, completamente estranho às teorias gregas, nem tampouco como a um homem
inteiramente disposto a dar-lhes a preferência; sou romano antes de mais nada, educado com os cuidados de
meu pai no gosto dos estudos liberais, estimulado desde pequeno pelo desejo de aprender, mas formado
muito mais pela experiência e pelas lições domésticas do que pelos livros”. Todas as traduções de De Re
Publica são de Amador Cisneiros.
40
“...como a teoria e a prática de todas as artes que dizem respeito ao meio correto de viver estão contidas no
estudo da sabedoria, que é chamada filosofia, considerei ilustrar com letras latinas, não porque a filosofia não
pudesse ser apreendida com os mais sábios ou com os textos gregos, mas porque sempre foi minha opinião
que os nossos tenham melhorado e tornado mais sábias do que os gregos todas as coisas que - quer tenham
descoberto por si, quer tenham recebido deles – ao menos considerassem dignas e às quais se tenham
dedicado.” Tradução nossa.
66

disfarçando as tendências autocráticas dos três mandatários – César, Pompeu e Crasso–,

instaurava um frágil equilíbrio e conseguia, no máximo, retardar um conflito interno em

Roma. Cícero, antevendo que, qualquer que fosse o resultado desse conflito, o sistema dual

republicano entraria em agonia, busca minorar os danos, delineando o que cogitava ser um

modelo “ideal” do novo regime. Uma opção, que, ao fim, não deixaria de ser uma

concessão aos mandatários já em cena:

“Sed et in regnis nimis expertes sunt ceteri communis iuris et consilii, et in


optimatium dominatu uix particeps libertatis potest esse multitudo, cum omni consilio
communi ac potestate careat, et cum omnia per populum geruntur quamuis iustum
atque moderatum, tamen ipsa aequabilitas est iniqua, cum habet nullos gradus
dignitatis. (...) Itaque quartum quoddam genus rei publicae maxime probandum esse
sentio, quod est ex his quae prima dixi moderatum et permixtum tribus.” 41 (CÍCERO;
De Re Pub., I,43)

Desejando o fortalecimento do poder pessoal do dirigente – que, esperava, seria

Pompeu –, Cícero começa a delinear um perfil para o dirigente que, distintamente do

sistema dual estabelecido desde a criação da República, já pressupunha que o exercício do

poder se concentrasse em um único indivíduo; restando apenas delinear os contornos desse

indivíduo. O contorno básico será, para Cícero, a virtude – termo empregado no sentido

que lhe dão os estoicos – em detrimento dos poderes militar e econômico – à época,

ressalte-se, exercidos tanto pelo patriciado quanto pelos equestres enriquecidos:

Nam diuitiae, nomen, opes uacuae consilio et uiuendi atque aliis imperandi modo
dedecoris plenae sunt et insolentis superbiae, nec ulla deformior species est ciuitatis
quam illa in qua opulentissimi optimi putantur. Virtute uero gubernante rem publicam,
quid potest esse praeclarius? Cum is qui imperat aliis seruit ipse nulli cupiditati, cum
quas ad res ciuis instituit et vocat, eas omnis conplexus est ipse, nec leges inponit
populo quibus ipse non pareat, sed suam uitam ut legem praefert suis ciuibus.
(CÍCERO; De Re Pub., I,51) 42

41
“...na monarquia, a generalidade dos cidadãos toma pouca parte no direito comum e nos negñcios públicos;
sob a denominação aristocrática, a multidão, apenas livre, está privada de qualquer meio de ação, e mesmo de
deliberação; por últimos, quando o povo assume todo o poder, mesmo supondo-o sábio e moderado, a própria
igualdade se torna injusta desigualdade, porque não há degradação que distinga o verdadeiro mérito.”
(...)“Por minha parte, creio que a melhor forma política é uma quarta formada da mescla e reunião das três
primeiras”.
42
“ ...o nome ilustre, o poderio, sem a sabedoria que ensina os homens a se governarem a dirigir os outros
nada mais são do que uma vergonhosa e insolente vaidade; não há no mundo espetáculo mais triste que uma
sociedade em que o valor dos homens é medido pelas riquezas que possuem. Ao contrário, que pode haver de
mais belo e preclaro que a virtude governando a República? Que é mais admirável do que esse governo,
67

Cícero acaba por esboçar a figura do dirigente de modo tal que acabaria constituindo-se

como um paradigma do mandatário, sendo estes contornos reevocados diversas vezes, ao

longo dos séculos, como meio de consolidação de poderes ditatoriais: se o governante é um

agente da virtude, virtuosas serão suas ações, quaisquer que sejam seus motivos,

justificativas e/ou consequências43.

Mas não nos enganemos, Cícero, defensor da causa senatorial, advoga de modo

enfático a necessidade de independência entre os poderes executivo, legislativo e

judiciário, visando ao equilíbrio do Estado:

id enim tenetote quod initio dixi, nisi aequabilis haec in ciuitate compensatio sit et
iuris et officii et muneris, ut et potestatis satis in magistratibus et auctoritatis in
principum consilio et libertatis in populo sit, non posse hunc incommutabilem rei
publicae conseruari statum. (CÍCERO; De Re Pub., II,57) 44

Uma defesa em que Cícero sai duplamente beneficiado, pois, com o fortalecimento do

sistema judicial, sua condição de advogado o coloca em franco destaque; ademais, com a

estabilidade do legislativo (i. e., do Senado), sua posição, devido ao livre trânsito de que aí

desfrutava, sairia, também, privilegiada. Entretanto, apesar de poder extrair daí algum

benefício pessoal, Cícero é veemente ao defender a supremacia do Direito na formação,

organização e condução da sociedade:

Quare cum lex sit ciuilis societatis vinculum, ius autem legis aequale, quo iure
societas ciuium teneri potest, cum par non sit conditio ciuium? Si enim
pecunias aequari non placet, si ingenia omnium paria esse non possunt, iura
certe paria debent esse eorum inter se qui sunt ciues in eadem re publica. Quid
est enim ciuitas nisi iuris societas ciuium? (CÍCERO; De Re Pub., I,49)45

quando o que manda não é escravo de paixão alguma e dá exemplo de tudo o que ensina e preconiza, não
impondo ao vulgo leis que é o primeiro a não respeitar, mas oferecendo, com lei viva, a própria existência
aos seus compatriotas?
43
Este, inclusive, será o mote de que Sêneca se valerá na formação do jovem Nero.
44
“considerai o que disse de início: um estado em que os direitos e as prerrogativas não estão num equilíbrio
perfeito, em que os magistrados não têm suficiente poder, bastante influência as deliberações dos nobres e o
povo bastante liberdade, não pode ter estabilidade nem permanência.”
45
“Sendo a lei o laço de ouro de toda sociedade civil, e proclamando seu princípio à comum igualdade,
sobre que base assenta uma associação de cidadãos cujos direitos não são os mesmos para todos? Se não se
68

Se a sociedade romana, tal como preconizada por Cícero, pressupunha o equilíbrio

de poderes e a virtude como regente das ações do governante, sua defesa da igualdade de

direitos parece paradoxal quando constatado que Cícero defende também o modelo

oligárquico da república. Contudo, vale recordar que Cícero almejava sobretudo a

concordia ordinum, e a igualdade de direitos seria uma condição sine qua non para

alcançá-la.

Mas a igualdade de direitos defendida por Cícero não significa a inexistência de

uma elite mais bem capacitada para dirigir a República. Uma elite que, talvez para não

ferir as suscetibilidades dos membros do Triunvirato, Cícero exemplifica com outro

“triunvirato”, formado por membros destacados do “Círculo dos Cipiões”.

...quare sint nobis isti qui de ratione uiuendi disserunt magni homines (ut sunt), sint
eruditi, sint ueritatis et uirtutis magistri, dam modo sit haec quaedam, siue a uiris in
rerum publicarum uarietate uersatis inuenta, siue etiam in istorum otio ac litteris
tractata, res (sicut est) minime quidem contemnenda, ratio ciuilis et disciplina
populorum, quae perficit in bonis ingeniis, id quod iam persaepe perfecit, ut
incredibilis quaedam et diuina uirtus exsisteret. Quodsi quis ad ea instrumenta animi,
quae natura quaeque ciuilibus institutis habuit, adiungendam sibi etiam doctrinam et
uberiorem rerum cognitionem putauit, ut ii ipsi qui in horum librorum disputatione
uersantur, nemo est quin eos anteferre omnibus debeat. Quid enim potest esse
praeclarius, quam cum rerum magnarum tractatio atque usus cum illarum artium
studiis et cognitione coniungitur? Aut quid P. Scipione, quid C. Laelio, quid L. Philo
perfectius cogitari potest? Qui, ne quid praetermitterent quod ad summam laudem
clarorum uirorum pertineret, ad domesticum maiorumque morem etiam hanc a Socrate
aduenticiam doctrinam adhibuerunt. Quare qui utrumque uoluit et potuit, id est ut cum
maiorum institutis tum doctrina se instrueret, ad laudem hunc omnia consecutum
puto.46 (CÍCERO; De Re Pub., III,2)

admite a igualdade da fortuna; se a igualdade da inteligência é um mito, a igualdade dos direitos parece ao
menos obrigatória entre os membros de uma mesma república. Que é, pois, o Estado, senão uma sociedade
para o direito?”
46
“Não se deve, por isso deixar de reconhecer que a arte social de governar os povos, ou na variedade dos
descobrimentos dos homens versados no governo da República, ou no que eles escreveram em seu ócio
fecundo, longe de ser uma ciência sem importância, desperta nos engenhos privilegiados uma virtude divina
e quase incrível; e quando a essas excelsas faculdades naturais, desenvolvidas pelas instituições civis, se
unem, como nos interlocutores deste diálogo, sólida instrução e extensos conhecimentos, ninguém haverá que
a eles se devem antepor. Com efeito, que pode existir de mais preclaro do que o conhecimento e o hábito dos
problemas mais importantes da política, quando se unem a eles de prazer e a experiência das artes do
entendimento? Que homens haverá melhores do que Cipião, Lélio e Filão, que para reunir às tradições dos
seus antepassados e aos seus costumes domésticos a doutrina estranha que haviam recebido de Sócrates? Em
69

Deve-se notar que Cícero lança mão do termo doctrina para especificar o conjunto

de ensinamentos socráticos, certamente Cícero assim age para contornar o preconceito

vigente na sociedade romana quanto ao termo, não se valendo , portanto, do vocábulo

philosophia, nessa época já corrente na cultura grega, tampouco o termo sapientia é

utilizado.

Em De Re Publica Cícero defendia, enfim, que as elites hereditárias do patriciado

fossem substituídas, na condução dos negócios públicos, por uma elite intelectual, como,

aliás, Platão já havia defendido na obra em que Cícero se inspirou. De qualquer modo,

perceba-se que mesmo o mais ardoroso defensor da tradição republicana acreditava serem

necessárias reformas no sistema político e, também, na formação dos quadros dirigentes da

república.

Ao escrever De Re Publica, Cícero não apenas defende um conjunto de ideias com

a pretensa finalidade de orientar a elite política romana na resolução das crises

institucionais que se acumulavam já desde há um século e cuja última consequência fora o

Triunvirato. Sua proposta é mais ambiciosa, pois visa, embora defendendo as prerrogativas

do Senado, redefinir não apenas o funcionamento do sistema republicano, mas indicar um

novo referencial de valores, resultante da simbiose entre aqueles já consagrados no mos

maiorum e os defendidos pelo estoicismo e pelo academicismo. Mas Cícero vai além:

seleciona um grupo de personagens históricas do passado recente de Roma como

representantes ideiais –ou idealizados - dessa simbiose.

Cícero lança mão de um grupo de personagens a que recorrerá em diversas de suas

obras: os já citados membros do “Círculo dos Cipiões”. Este grupo, reunido ao redor de

Cipião Emiliano, teria sido o principal responsável pela absorção romana da cultura grega,

suma, quem ambas as coisas quer e pode, quem se instrui ao mesmo tempo na doutrina presente e nas
instituições passadas, julgo que merece a maior consideração e os mais perfeitos elogios.”
70

no século anterior. Além disso, nele figurariam grandes nomes do cenário político, militar

e cultural, não sendo sem fundamento que Cícero os utilizasse como símbolos de uma

“aurea aetas” da república: o apogeu do modelo, em plena saúde antes da eclosão das

crises abordadas no capítulo anterior.

Os membros do Círculo dos Cipiões – e também Catão, o Censor - acabariam por

tornar-se, nas mãos de Cícero, uma galeria fixa de personagens aos quais recorreria quando

desejasse discutir valores caros à identidade romana, bastando-nos citar textos como

Laelius de Amicitia – em que Lélio narra a trajetória de sua amizade com Cipião, e os

valores que essa amizade embutia, representava e defendia – e Cato Maior de Senectute,

em que, transformando Catão em personagem, faz com que defenda e justifique alguns dos

valores mais caros ao mos maiorum. Desse modo, sempre que necessário apresentar a

defesa de elementos socioculturais já consagrados e conformativos da sociedade romana,

Cícero lançava mão de sua trupe de personagens históricas, das quais voltaremos a tratar

quando abordarmos especificamente os dois textos mencionados acima.

Se em De Re Publica, Cícero esboçara uma nova configuração do Estado, as

próximas de suas obras a abordarmos enfocarão não o Estado romano, mas o indivíduo em

si. Obviamente, o indivíduo que interessa a Cícero é o cidadão, pois este é, no mundo

romano, o ser social por excelência. Acreditamos que esta mudança no foco deve-se a

fatores diversos, entre os quais o fato de que Cícero escreve De Re Publica entre 54 e 51,

durante a vigência do Triunvirato, enquanto as demais obras foram escritas entre 46 e 43,

já após a Guerra Civil e durante a ditadura de César.

A guerra civil foi, como sabemos, iniciada em 48; quando, após a morte de Crasso e

a dissolução dos laços familiares que uniam César a Pompeu, os dois mandatários restantes

empenham-se em conquistar o poder. O movimento que simboliza o início da guerra civil é

também uma ruptura brutal com o passado de Roma: se um dos pilares fundamentais de
71

sua identidade era a inviolabilidade de seu território – a ponto de que às próprias legiões

romanas era proibido aquartelar-se na Vrbs – este princípio seria derrubado na travessia do

Rubicão.

Mas esse não seria o único pilar a ser derrubado por César naquele momento:

lembremo-nos de que, em 46 a.C., é realizada a reforma do calendário. O estabelecimento

de novas bases para a contagem do tempo, ainda que corrigisse erros existentes desde

Numa Pompílio, significou, enfim, uma modificação radical do continuum espaço-

temporal: em consequência de uma nova (de)limitação do espaço, já violado, e do tempo,

modificado, cumpria reordenarem-se as leis que, até então, regulavam aquela sociedade.

Em decorrência disso, novas leis forçosamente moldariam um novo homem, e

sendo o romano um homem completamente moldado pelas leis de sua sociedade, Cícero

certamente esperaria poder exercer alguma influência no processo: através de sua ação

como jurista, influenciar o processo de modificação da estrutura republicana e, atuando

como filósofo, influir na formação de um novo modelo de homem romano, uma nova

identidade romana, enfim, que já interiorizasse a influência da filosofia grega.

É nesse contexto que Cícero se valerá de um termo que, embora já presente na

língua e na literatura latinas, terá um deslocamento de sentido que o conduzirá à condição

de sinônimo de philosophia: trata-se de sapientia, termo sobre o qual vale dedicarmos

nossa atenção, uma vez que pode elucidar algumas questões sobre como os romanos

apre(e)ndiam a realidade.

Sapientia seria, em sua origem, um substantivo abstrato derivado de sapiens,

particípio presente do verbo sapere, cujo significado primordial seria o de “sentir o

sabor”47, sendo o étimo do verbo saber, em suas variadas formas, nas línguas românicas.

47
Este significado, em desuso, persiste dicionarizado na língua portuguesa, e, ainda que pouco usado,
apresenta-se mais vivamente na língua espanhola
72

Mas, se em sua trajetória, o termo sapientia chegará a ser sinônimo de filosofia – o

termo estreia na língua latina pelas mãos de Ênio, já com essa acepção -, acreditamos ainda

que uma análise da etimologia deste termo poderá fornecer-nos pistas para a elucidação do

modus cognoscendi romano: ao estudar-se o campo semântico de sapere detectamos o

seguinte deslocamento de sentidos: degustar, saborear > provar > experimentar > conhecer.

Assim, se o que se saboreia é, no decorrer do processo, algo que se experimenta,

que é , portanto, passível de ser experimentado, permitimo-nos pensar que, nessa transição

de significados, é possível observar-se, de modo tão sumário quanto inequívoco, uma

expressão característica da identidade romana: sua visão pragmática da realidade, para

quem seria conhecimento aquilo que pudesse ser (com)provado, passível de ser submetido

à prática empírica, o que descartaria, de início, qualquer reflexão teórica mais aprofundada:

para os romanos o saber é, antes de tudo, uma experiência concreta.

Ser uma experiência concreta, conforme a origem do termo nos explica, expõe uma

razão, mais profunda que um mero complexo de inferioridade, para a histórica

desconfiança romana para com o conhecimento grego: afinal, usar um termo que trata da

necessidade de comprovação empírica como sinônimo de outro que designa um

conhecimento abstrato trai o paradoxo instaurado na mentalidade romana pela chegada da

filosofia grega; ao passo em que a transição do significado desse termo demonstra o

desarme do pensamento romano sobre o assunto.

Mas o termo sapientia adquire em latim outra carga semântica, independente da

original, posto que o sentido que a interpreta mudará do campo gustativo para o cognitivo

e, mais precisamente, para a moral. A esse respeito dirá Mª Helena da Rocha Pereira que, “

no sentido moral, a sapientia corresponde sobretudo à moderação (...) Mas pode-se dizer,

de um modo geral, que são os sentidos de sophia que ela abrange” (ROCHA PEREIRA,

1989:411).
73

Deslocado para o âmbito da moral, sapientia acabará se tornando sinônimo de

“sabedoria” e, mais estritamente, da prñpria philosophia. Mas isso, em Roma, não poderia

deixar de acarretar a injeção de um novo valor semântico, já que o pensamento romano

logo concederá a este conceito o valor de uma virtude política, já que seu detentor poderia

bem servir à cidade, se e quando necessário.

Esta evolução do conceito acabaria por torná-lo próximo do de uirtus – recordando

que, para os estoicos, estes termos se equivaliam. E esta aproximação semântica com uma

das qualidades que os romanos mais desejavam para seus líderes políticos torna esta

qualidade também palatável aos romanos, configurando como sábio o homem público que

age sob parâmetros morais definidos, tendo a formação cultural como ferramenta a seu

dispor. Desse modo, em Roma, ser sábio é uma qualidade que, como todas as demais,

forma o cidadão para a sociedade. E não será gratuito que os dois maiores nomes da

cultura romana – Cícero e Sêneca - tenham sido reconhecidos como os mais sábios de suas

respectivas épocas, tendo sido também homens de efetiva ação na vida pública, como,

aliás, já declaramos.

Nesse contexto, Cícero acaba por tornar-se o responsável por alçar a sapientia à

condição de um dos valores fundamentais da identidade romana. Conceito tardio na

formação da romanidade, sapientia não pode ser considerada parte do mos maiorum,

entretanto, tampouco sua influência posterior deverá ser minimizada. Mesmo porque, com

as rupturas no continuum espaço-temporal realizadas por César, exigiam-se novos alicerces

para a compreensão do homem romano e sua posição no mundo.

Se era necessário, , portanto,, estabelecer novos limites para a identidade romana, e,

nesses novos limites, a influência da filosofia grega devesse estar, já, interiorizada, não

será um despropósito que o mais aprofundado trabalho filosófico de Cícero - obra cuja
74

análise procederemos em seguida – chame-se justamente De finibus bonorum et

malorum48.

3.2.2 – De finibus

De finibus bonorum et malorum é uma obra dividida em cinco livros, nos quais

Cícero apresenta a defesa e a refutação das escolas filosóficas até aqui tratadas: no livro I,

Mânlio Torquato faz a apresentação e defesa do epicurismo, refutada por Cícero no livro

II. No livro III, temos Catão de Útica, neto do Censor, expondo a concepção estoica, sobre

a qual Cícero tecerá suas críticas no livro IV. Já o livro apresenta apenas a exposição, feita

por Pisão Calpurniano, dos méritos da Academia, com uma breve análise de Cícero

inserida no próprio livro.

Mais uma das obras de Cícero dedicadas a Bruto, vale recordar que De finibus foi

publicado em 45 a.C., pouco antes, , portanto,, do assassinato de César. Dentre as obras

filosóficas de Cícero, De finibus é aquele em que o autor realiza sua mais veemente defesa

da prática filosófica em Roma, e o faz já na abertura do texto, quando alega que:

Non eram nescius, Brute, cum, quae summis ingeniis exquisitaque doctrina
philosophi Graeco sermone tractauissent, ea Latinis litteris mandaremus, fore ut hic
noster labor in uarias reprehensiones incurreret. Nam quibusdam, et iis quidem non
admodum indoctis, totum hoc displicet philosophari. Quidam autem non tam id
reprehendunt, si remissius agatur, sed tantum studium tamque multam operam
ponendam in eo non arbitrantur. Erunt etiam, et ii quidem eruditi Graecis litteris,
contemnentes Latinas, qui se dicant in Graecis legendis operam malle consumere.
Postremo aliquos futuros suspicor, qui me ad alias litteras uocent, genus hoc scribendi,
etsi sit elegans, personae tamen et dignitatis esse negent.49 (CÍCERO; De finibus, I,1)

48
Atentando-se para o polissemia do termo finis, -is que pode não apenas indicar “o grau supremo de algo”
mas também a fronteira, a borda, o confim, a extremidade, o limite, enfim. Em se tratando de Cícero, o uso
deste termo não será um acidente.
49
“Eu não ignorava, amigo Bruto, quando comecei a expor em latim o que os filósofos gregos tinham
tratado com máximo engenho e magnífica doutrina, que este nosso trabalho havia de estar sujeito a várias
censuras. Alguns, e não de todo indoutos, reprovam todo e qualquer gênero de filosofia. Outros, sem rejeitá-
la completamente, se a fazemos moderadamente, consideram mau que eu tenha votado tanto estudo e tanto
trabalho a semelhante tarefa. Haverá alguns instruídos nas letras gregas e depreciadores da latina, que
julgarão preferível ocupar o tempo com ler os gregos. Por fim, suspeito que não haverá de faltar quem me
75

Percebe-se como, segundo Cícero, o próprio fato de dedicar-se à filosofia ainda era

visto negativamente por uma parte da intelectualidade romana, havendo ainda quem

preconizasse que os estudos filosóficos não deveriam servir-se do latim50. Verifica-se, pois

a existência de apenas uma pequena margem de manobra para o trabalho que Cícero

realiza: discorrer sobre filosofia – o que, para muitos romanos, era por si só uma falta – e

fazê-lo em latim – uma falta até para aqueles se dedicassem a tais estudos.

Entre o negar qualquer recepção da filosofia grega e o fazê-lo de modo

subserviente, Cícero opta por agir dentro da tradição romana: delimita e experimenta as

escolas filosóficas a serem absorvidas – com a clara exclusão do epicurismo -, ordena o

conhecimento a aproveitar-se – e o faz mostrando os pós e os contras de cada uma das

escolas restantes, selecionando assim o que considera de fato aproveitável -, e por fim

realizar sua definitiva incorporação ao conhecimento romano. Contudo, distintamente da

absorção de uma técnica qualquer, a absorção de ideias provenientes de uma corrente de

pensamento passa pela incorporação, pela linguagem, da capacidade de expressar um novo

conceito, pois qualquer conceito desenvolvido numa língua-origem deverá ser reproduzido

na língua-meta. Sendo aquela o grego e essa o latim, impõe-se defender a capacidade da

língua latina de expressar a quantidade de novos conceitos a serem absorvidos. Não é vão, ,

portanto,, que Cícero despenda boa parte do livro I defendendo não só a capacidade de o

latim desempenhar tal tarefa:

Non est omnino hic docendi locus; sed ita sentio et saepe disserui, Latinam linguam
non modo non inopem, ut uulgo putarent, sed locupletiorem etiam esse quam
Graecam. Quando enim nobis, uel dicam aut oratoribus bonis aut poetis, postea

estimule a escrever acerca de outra coisa, porque não seria adequada a filosofia à dignidade da minha
pessoa.” (Todas as traduções de De finibus bonorum et malorum são de Carlos Ancède Nougué.)
50
Não será gratuito pois o fato de que, novamente, Cícero utilize o termo doctrina, dessa vez acompanhada
do genitivo philosophi para denominar a área de conhecimento: acreditamos que Cícero estaria “dourando a
pílula” para seus leitores.
76

quidem quam fuit quem imitarentur, ullus orationis uel copiosae uel elegantis ornatus
defuit? (CÍCERO; De finibus, I,10)51

uma vez que, fazendo-o, defende não apenas a capacidade expressiva do latim, mas ataca

também os que o colocam em patamar abaixo do grego.

Rudem enim esse omnino in nostris poetis aut inertissimae segnitiae est aut fastidii
delicatissimi. Mihi quidem nulli satis eruditi uidentur, quibus nostra ignota sunt. An
“Vtinam ne in nemore...” nihilo minus legimus quam hoc idem Graecum, quae autem
de bene beateque uiuendo a Platone disputata sunt, haec explicari non placebit Latine?
(CÍCERO; De finibus, I,5) 52

Se reconhecer a superioridade grega era, como já observamos, para Cícero um verdadeiro

anátema, o pater patriae viu-se, no entanto, obrigado a transigir, diante da possibilidade de

inexistência de uma plena tradução de um vocábulo, como se percebe no diálogo que

encetou com Catão, presente no livro III:

Cicero: -Si enim Zenoni licuit, cum rem aliquam inuenisset inusitatam, inauditum
quoque ei rei nomen inponere, cur non liceat Catoni? Nec tamen exprimi uerbum e
uerbo necesse erit, ut interpretes indiserti solent, cum sit uerbum, quod idem declaret,
magis usitatum. Equidem soleo etiam quod uno Graeci, si aliter non possum, idem
pluribus uerbis exponere. et tamen puto concedi nobis oportere ut Graeco uerbo
utamur, si quando minus occurret Latinum, ne hoc ephippiis et acratophoris potius
quam proegmenis et apoproegmenis concedatur; quamquam haec quidem praeposita
recte et reiecta dicere licebit.
Cato: - Bene facis, inquit, quod me adiuuas, et istis quidem, quae modo dixisti, utar
potius Latinis, in ceteris subuenies, si me haerentem uidebis.
Cicero: - Sedulo, inquam, faciam. Sed 'fortuna fortis'; quare conare, quaeso. Quid
enim possumus hoc agere diuinius? (CÍCERO; De finibus, III,15)53

51
“Não é esta a ocasião de prová-lo, mas creio, e muitas vezes o defendi, que a língua latina não só não é
pobre, como a considera o vulgo, senão que é mais rica que a grega. Sim, por que quando nos faltou, não
digo a nós, mas aos bons oradores e poetas, e pelo menos depois que tivemos a quem imitar, qualquer ornato
ou elegante elocução?”
52
“Ser de todo ignorante com respeito ao que escreveram os nossos poetas delata ou uma grande inércia e
desídia, ou um paladar demasiado enojadiço e delicado. A mim não me parecem bastante eruditos os que
ignoram as nossas coisas. Se lemos na nossa língua aquela cena que assim principia: “Quem dera que no
bosque...”, e nos agrada não menos que em grego, por que não nos hão de agradar em latim os preceitos que
Platão ministrou sobre o bem e a felicidade da vida?”

53
“Cícero: - Se foi lícito a Zenão, quando inventava algo inusitado, dar um nome inaudito, por que não se há
de consentir o mesmo a Catão? Ademais, não é necessário que traduzas palavra a palavra, como costumam
fazer os intérpretes ignorantes, quando o melhor para tornar compreensível o pensamento é usar uma
expressão conhecida. Eu costumo indicar com muitas palavras latinas o sentido de uma só grega quando não
posso tomar outro caminho, e não obstante, creio que se nos deve conceder o uso de uma palavra grega
quando não nos ocorre uma latina, e que, assim como se usam os termos “ephíppia” e “acratophoro”, se
devem usar também “proégmena” e “apoproégmena”, ainda que pudéssemos dizer em latim “praeposita” e
“reiecta”.
77

Assim, outra finalidade – mais uma significação de finis – da obra seria (com)provar as

possibilidades expressivas da língua latina, e não será sem propósito que, para cada

conceito grego debatido nos diálogos, seja oferecida e discutida uma hipótese de tradução

ou equivalência em latim. E mais, Cícero preconiza que o latim possui maior elasticidade

para a criação de novos vocábulos assim como mais facilidade de incorporação de termos

estrangeiros:

Quamquam ex omnibus philosophis Stoici plurima nouauerunt, Zenoque, eorum


princeps, non tam rerum inuentor fuit quam uerborum nouorum. Quodsi in ea lingua,
quam plerique uberiorem putant, concessum a Graecia est ut doctissimi homines de
rebus non peruagatis inusitatis uerbis uterentur, quanto id nobis magis est
concedendum, qui ea nunc primum audemus attingere? Et quoniam saepe diximus, et
quidem cum aliqua querela non Graecorum modo, sed eorum etiam, qui se Graecos
magis quam nostros haberi uolunt, nos non modo non uinci a Graecis uerborum copia,
sed esse in ea etiam superiores, elaborandum est ut hoc non in nostris solum artibus,
sed etiam in illorum ipsorum adsequamur. Quamquam ea uerba, quibus instituto
ueterum utimur pro Latinis, ut ipsa philosophia, ut rhetorica, dialectica, grammatica,
geometria, musica, quamquam Latine ea dici poterant, tamen, quoniam usu percepta
sunt, nostra ducamus. (CÍCERO; De finibus, III,5) 54

Ultrapassando essa discussão, Cícero apresentará, já no livro I, o valor da razão

como guia para as ações dos homens, levando-os a possuir determinados valores:

Inuitat igitur uera ratio bene sanos ad iustitiam, aequitatem, fidem, neque homini
infanti aut inpotenti iniuste facta conducunt, qui nec facile efficere possit, quod
conetur, nec optinere, si effecerit, et opes uel fortunae uel ingenii liberalitati magis
conueniunt, qua qui utuntur, beniuolentiam sibi conciliant et, quod aptissimum est ad

Catão: - Bem fazes em ajudar-me, mas, quando haja termos na nossa língua, usá-los-ei sempre. No restante,
tu socorrer-me-ás, quando me vejas em dúvida.
Cícero: - Certamente o farei, e com muita presteza. Lança-te, , portanto,, à empresa, que a fortuna ajuda os
audazes. E que matéria mais divina poderíamos tratar?”
54
“É verdade que, dentre todos os filósofos, foram os estoicos os que mais fizeram inovações. Zenão, o
príncipe da escola, não foi tanto inventor de coisas como de vocábulos novos. E, se tal se concedeu aos
gregos, numa língua que quase todos consideram a mais rica, e se entre eles foi lícito para os homens doutos,
quando tratavam de coisas ainda inexploradas, valer-se de palavras insólitas, quanto mais não se nos deve
conceder a nós, que só agora, pela primeira vez, ousamos tocá-las? E pela mesma razão que já dei muitas
vezes – não sem certa queixa, não tanto dos gregos como de alguns dos nossos, que querem passar por gregos
antes que por latinos, porque, com efeito, não nos vence a Grécia em abundância de palavras, sendo nós, ao
contrário, superiores nisto – temos de trabalhar para conseguir esta maior quantidade não só nas nossas
próprias artes, mas também nas deles. E, conquanto muitas palavras gregas, que por antigo costume usamos
como latinas – por exemplo, a própria filosofia, a retórica, a dialética, a gramática, a geometria, a música -,
pudessem expressar-se em latim, tenhamo-las, porém, dado que as tolera o uso, por nossas.”
78

quiete uiuendum, caritatem, praesertim cum omnino nulla sit causa peccandi.
(CÍCERO; De finibus, I,52)55

Deve-se, no entanto, reparar que, dentre os valores que Cícero arrola – fides, aequitas,

iustitia – apenas fides faz parte do mos maiorum. Os demais, aequitas e iustitia, são valores

cuja personificação é mais recente, remontando não à fundação da cidade, mas à

instauração do sistema republicano. Ao igualar esses valores à fides, Cícero comete uma

ação com dupla consequência: recorda ao leitor sua posição como sustentáculos do sistema

republicano e, paralelamente, concede-lhes mais peso na identidade romana, já que são

mostradas como qualidades inerentes ao homem virtuoso.

Ademais, dois outros valores que Cícero evoca são igualmente elevados à categoria

de valores componentes da uirtus: liberalitas e beneuolentia56. Esses valores, no entanto,

seriam sobretudo valores universais, não se aplicando estritamente à noção clássica da

cidadania romana. Com isso, Cícero incorpora quatro novos valores na composição de

uirtus, o que resultará, como “efeito dominñ”, em uma nova concepção da romanidade em

que a filosofia, ainda que denominada apenas doctrina philosophi, já terá contribuído

efetivamente. Até porque, para Cícero, a filosofia grega não contradiz - ao contrário,

reitera - o costume ancestral. Esse costume que seria, já, uma práxis filosófica em estado

latente, uma vez que, mesmo que em seu grau mínimo, capacitava aqueles que os

observassem para a distinção entre o bem e o mal:

Cato: - Egone quaeris, inquit, quid sentiam? Quos bonos uiros, fortes, iustos,
moderatos aut audiuimus in re publica fuisse aut ipsi uidimus, qui sine ulla doctrina
naturam ipsam secuti multa laudabilia fecerunt, eos melius a natura institutos fuisse,
quam institui potuissent a philosophia, si ullam aliam probauissent praeter eam, quae
nihil aliud in bonis haberet nisi honestum, nihil nisi turpe in malis; ceterae
philosophorum disciplinae, omnino alia magis alia, sed tamen omnes, quae rem ullam

55
“A verdadeira razão, , portanto,, convida as mentes sãs à justiça, à equidade e à boa-fé; e ao homem fraco
e impotente como é, não lhe aproveita a injustiça, porque não pode conseguir facilmente o que deseja nem
retê-lo se o consegue; e os recursos da riqueza e do talento convêm mais à liberalidade, mediante a qual se
consolida a benevolência, que é tão necessária para viver bem, especialmente se não há nenhuma causa para
cometer faltas.”
56
Ainda que Cícero grafe beniuolentia, preferimos essa forma por ser mais próxima à das línguas românicas.
79

uirtutis expertem aut in bonis aut in malis numerent, eas non modo nihil adiuuare
arbitror neque firmare, quo meliores simus, sed ipsam deprauare naturam. Nam nisi
hoc optineatur, id solum bonum esse, quod honestum sit, nullo modo probari possit
beatam uitam uirtute effici. Quod si ita sit, cur opera philosophiae sit danda nescio. Si
enim sapiens aliquis miser esse possit, ne ego istam gloriosam memorabilemque
uirtutem non magno aestimandam putem. (CÍCERO; De finibus, III,11; grifo nosso)57

Enfim o termo esperado! De maneira discreta e quase imperceptível, Cícero acaba

por usar o termo philosophia, concluindo seu processo de aclimatação do paladar romano

ao novo conhecimento. Evidentemente, isso se dá como parte de um processo em que

Cícero acaba por conferir uma base filosófica ao senso comum romano, criando uma ampla

zona de intercessão entre essas duas fontes de saberes, mas sem que haja, de fato, sua

fusão. Contudo, ao estabelecer que essa zona de intercessão compreende a distinção entre o

bem e o mal, e que esse é o ponto de partida de todo o conhecimento posteriormente

desenvolvido, Cícero estabelece que a filosofia é –também - a base da justiça, uma vez que

esta somente pode desenvolver-se a partir da zona de intercessão.

Em efeito reverso, por ter sido iustitia um dos novos valores incorporados por

Cícero à uirtus e, estando essa baseada, na filosofia, é novamente a filosofia quem ganha

peso na composição da romanidade.

Se até então, para os romanos, o Direito era, inconscientemente, a práxis de uma

filosofia, Cícero, demonstrando a intercessão entre o mos maiorum e a filosofia em si,

evidenciou essa relação. Porém, Cícero mostra também que, para além de uma finalidade

prática – tão ao gosto romano - do conhecimento filosófico, a filosofia pode ainda servir a

outras funções, sendo, ao fim, a forma mais plena de conhecimento:

57
“Queres saber o que eu penso? Eu penso que muitos varões, virtuosos, fortes e moderados, que figuraram
nos anais da nossa República ou conhecemos nós mesmos, e que empreenderam, sem nenhuma doutrina
filosófica, seguindo tão-somente os impulsos naturais, muitas ações louváveis, foram mais bem educados
pela natureza do que teriam podido ser por nenhuma filosofia, afora aquela que não considera como bem
senão o honesto e como mal senão o torpe. As demais escolas filosóficas, conquanto sem dúvida umas mais
que outras, mas em suma todas as que contam entre os bens ou os males coisas sem nenhuma relação com a
virtude, não só não têm prestígio algum nem servem para tornar-nos melhores, mas corrompem a própria
natureza. Se não se concebe que só é bom o que é honesto, de maneira alguma se pode aprovar que a vida
feliz consista na virtude. E, se assim não fosse, por que nos haveríamos de dedicar à filosofia? Se o sábio
pudesse ser infeliz, guardar-me-ia eu, muito, de ter em grande apreço a gloriosa e memorável virtude.”
80

Nec enim gubernationi aut medicinae similem sapientiam esse arbitramur, sed actioni
illi potius quam modo dixi et saltationi, ut in ipsa insit, non foris petatur extremum, id
est artis effectio. (...) Sola enim sapientia in se tota conuersa est, quod idem in ceteris
artibus non fit. Inscite autem medicinae et gubernationis ultimum cum ultimo
sapientiae comparatur. Sapientia enim et animi magnitudinem complectitur et
iustitiam, et ut omnia quae omini accidant infre se esse iudicet, quod idem ceteris
artibus non contingit. Tenere autem uirtutes eas ipsas, quarum modo feci mentionem,
nemo poterit, nisi statuerit nihil esse quod intersit aut differat aliud ab alio, praeter
honesta et turpia. (CÍCERO; De finibus, III, 25)58

Concentrando-se ainda no Direito, Cícero iria ainda empenhar-se em demonstrá-lo

como uma consequência da filosofia, uma vez que, se é através da filosofia que se

estabelece a crença no direito natural, é desse direito que seria desenvolvido, através da

vida em sociedade, o Direito civil romano:

Ex omnibus philosophis natura tributum esse docuerunt, ut ii, qui procreati essent,
a procreatoribus amarentur, et, id quod temporum ordine antiquius est, ut coniugis
uirorum et uxorum natura coniuncta esse dicerent, qua ex stirpe orirentur amicitia
cognationum. Atque ab his initiis profecti omnium uirtutum et originem et
progressionem persecuti sunt. Ex quo magnitudo quoque animi existebat, qua facile
posset repugnari obsistique fortunae, quod maximae res essent in potestate sapientis.
Varietates autem iniurasque fortunae facile ueteres philosophorum praeceptis instituta
uita superabat.
Principiis autem a natura datis amplitudines quaedam bonorum excitabantur partim
profectae a contemplatione rerum occultiorum, quod erat insitus menti cognitionis
amor, e quo etiam rationis explicandae disserendique cupiditas consequebatur;
quodque hoc solum animal natum est pudoris ac uerecundiae particeps appetensque
coniunctiorum hominum ad societatem animaduertentesque in omnibus rebus, quas
ageret aut diceret, ut ne quid ab eo fieret nisi honeste ac decore, his initiis, ut ante dixi,
et seminibus a natura datis temperantia, modestia, iustitia et omnis honestas perfecte
absoluta est. (CÍCERO; De finibus, IV, 17-18) 59

58
“Não consideramos a sabedoria semelhante à arte da navegação ou à da medicina, mas antes à arte do
histrião e à arte da dança, porque estas têm em si mesmas o seu próprio fim último, sem buscá-lo fora
dela.(...) Assim, pois, só a sabedoria é plena e perfeita em si mesma. E por isso é inexata a comparação entre
o fim da sabedoria e o fim da medicina e o da pilotagem. A sabedoria abarca a magnanimidade e a justiça, e o
ter o homem por inferiores a ele todas as coisas que lhe sucedem – e isso não se dá nas demais artes.
Ninguém pode conceber as virtudes de que antes falávamos sem começar por crer que só duas coisas diferem
entre si: o honesto e o torpe.” Repare que aqui Cícero retorna ao termo sapientia, apesar de considerá-los
sinônimos, a inserção de philosophia deve ser paulatina.
59
“Foram eles (os estoicos) os primeiros, dentre todos os filósofos, a dizer que é de origem e direito natural
que os pais amem os filhos, e que também o é o amor conjugal, o qual é ainda anterior no tempo, e de cuja
raiz nascem as relações de parentesco e amizade. A partir destes princípios, investigaram a origem e o
desenvolvimento de todas as virtudes, dentre as quais está entre as primeiras a magnanimidade, com a qual se
pode facilmente resistir à fortuna, estando, como estão, as coisas sob o poder do sábio. A variedade e as
injúrias da fortuna, superava-as facilmente a disciplina dos antigos filósofos e a vida educada segundo os
seus preceitos. Dados estes princípios pela natureza, começava depois a ampliá-los pela contemplação das
verdades mais recônditas, uma vez que há um amor de ciência inato na alma, ao qual se segue a avidez de
investigar as razões e de discuti-las, sendo ademais o homem o único animal que sente pudor e vergonha, o
81

Cícero acaba estabelecendo a crença de que uma sociedade bem estruturada é

aquela em que há uma complementaridade entre o direito natural, do qual derivaria o senso

comum, e o direito civil, regulador das relações sociais. O empenho de Cícero se dá então

no sentido de, deixando clara esta complementaridade, demonstrar não haver oposição

entre aquelas distintas formas de direito e os novos valores trazidos pela filosofia.

Valores entre os quais Cícero aponta agora para temperantia e modestia, que vê

complementares a honestas - substantivo abstrato que expressa a qualidade de possuir

honor. Desse modo, temperantia e modestia passariam a ser ingredientes necessários à

honor, ao invés de serem, como Rocha Pereira (1989) alertou, componentes independentes

da uirtus. Sendo inerentes a honor, essa deixaria de ser um valor absoluto em si, o que tem,

indiretamente, uma consequência política: sendo honor condição sine qua non para o

exercício do poder, seu detentor deverá ser igualmente modesto e de bom temperamento, a

antítese de figura autocrática de César.

Mostrando essa correspondência e aquela complementaridade, Cícero demonstra

também a confluência entre os dois tipos de conhecimento, afirmando tacitamente que

ambos podem ser úteis ao Estado romano - que nesse momento já não era, de fato, a

república senatorial que Cícero defendia – mas também ao homem romano, que, através da

nova moral preconizada por Cícero – uma moral que não rompia a tradição, mas que, ao

mesmo tempo que lhe incorporava novos valores, dava-lhe novos pontos de apoio –

poderia capacitar-se a ser não apenas cidadão mas também indivíduo, na nova Roma que o

somatório das convulsões sociais estava criando.

Ao delimitar a fronteira entre o bem e o mal, Cícero acaba por diluir também as

antigas fronteiras entre a tradição romana e o pensamento grego, e entre o direito natural

único que apetece a união social com seus semelhantes, e único que em todas as coisas que faz ou diz busca
guardar honestidade e decoro. Desta semente deitada pela natureza nascem e se aperfeiçoam depois a
temperança, a modéstia, a justiça e toda e qualquer honestidade.”
82

(universal) e o direito civil (romano). Diluídas essas fronteiras, o romano não deixa de ser

um cidadão devotado ao Estado, mas pode igualmente ser um indivíduo que, desfrutando

dos direitos prescritos por sua cidadania e imbuído dos valores nacionais, servirá

espontaneamente ao Estado. Abre-se também, com isso, o caminho para uma nova

configuração da identidade romana, já que, sendo possível modificar-se aquele sistema –

até então coeso, mas fechado – em que se constituíra o mos maiorum, novos valores serão

agregados àquela identidade.

Mas não podemos ver a ação de Cícero como deletéria à tradição, ao contrário, ao

vesti-la com a nova roupagem da filosofia, Cícero tenta preservá-la, pois, mesmo que a

situação política se modificasse a ponto de que a tradição deixasse de ser fundamental para

a manutenção do Estado, o indivíduo romano já estaria dela impregnado, dando-lhe

continuidade. Fato que, forçosamente, teria repercussão na formação do cidadão e, em

última instância, no Estado em si.

É, portanto, no intuito dessa preservação que Cícero publicará, em sequência à De

finibus bonorum et malorum, as Tusculanae Disputationes, obra cuja - breve - análise

procederemos em seguida.

3.2.3 – “Tusculanae Disputationes”

Escritas em 45 a.C. as Tusculanae Disputationes são compostas de cinco livros e é,

como a anterior, dedicada a Bruto. Contudo, as Tusculanae inovam por sua forma: ao invés

da costumeira reunião de amigos, de Cícero ou os de Cipião, nessa obra temos apenas um

diálogo entre duas pessoas, sabidamente um mestre e seu discípulo.

O texto se abre com uma pequena introdução em que Cícero declara que a filosofia

é um tema digno de abordagem pela literatura latina, embora esta não houvesse, até então,
83

tratado o tema de uma forma digna de sua importância. E que, mesmo que essa situação

estivesse já se modificando, a produção filosófica em latim padecia de qualidade:

Philosophia iacuit usque ad hanc aetatem nec ullum habuit lumen litterarum
Latinarum; quae inlustranda et excitanda nobis est, ut, si occupati profuimus aliquid
ciuibus nostris, prosimus etiam, si possumus, otiosi. 6 In quo eo magis nobis est
elaborandum, quod multi iam esse libri Latini dicuntur scripti inconsiderate ab optimis
illis quidem uiris, sed non satis eruditis. (CÍCERO; Tusc., I, 5-6) 60

Iniciado o diálogo entre mestre e discípulo, o livro I discorre sobre a morte, vista

como um obstáculo à felicidade. Contudo, acaba se defendendo a ideia de que a morte, seja

uma aniquilação do ser ou uma oportunidade para a mudança da alma, não será jamais um

mal. O livro II trata do sofrimento físico, que deve ser suportado em nome da virtude, e da

morte como refúgio último para o sofrimento.

O livro III trata do sofrimento da mente e de suas causas possíveis: tristeza, inveja,

compaixão, aflição, desalento e de como vencê-las, pela reflexão, coragem e autodomínio.

O livro IV, de certa forma, continua o terceiro, tratando de outros distúrbios da mente e de

como uma correta conduta filosófica será capaz de derrotá-los. O livro V discute se

apenas a virtude – vista sob o prisma estoico - seria suficiente para levar o sábio à

felicidade, e Cícero acaba por concluir que o homem virtuoso será, pela virtude em si

mesma, sempre feliz. Percebe-se que, nesta obra, o neoacademicismo está ausente: pela

abordagem dos temas tratados, vê-se que Cícero volta-se diretamente ao estoicismo como

norma de conduta do indivíduo que visa a uirtus.

Se Cícero se decide pelo estoicismo como fonte primordial para a conduta do

indivíduo, convém pausarmos momentaneamente nossa discussão sobre as Tusculanae

Disputationes e examinarmos mais detidamente as posições defendidas por esta escola

filosófica.

60
“A filosofia, que devemos lustrar e restaurar, esteve inerte e até o nosso tempo não teve brilho algum nas
letras latinas; , portanto,, se ocupados servimos em algo aos nossos concidadãos, sirvamos também, se
pudermos, quando ociosos. Desconsiderai mesmo que já dizem existir muitos livros latinos escritos por
alguns bons homens, mas não suficientemente competentes naquilo que mais deve ser trabalhado por nós.”
84

3.2.3.1 A “Escola do Pñrtico” e a nova identidade romana

Comprovada então a adesão de Cícero ao estoicismo e evidenciado seu cuidado em

divulgar os ideais estoicos e demonstrar sua importância, mostremos o que capacitaria esta

escola a funcionar como novo norte para a identidade cultural romana. Para tanto, convém

determo-nos ainda um pouco nas características gerais desta escola. Objetivando fazê-lo,

preferimos a menção a Pierre Aubenque et alii (1981), cujo texto alia o necessário

esclarecimento a uma concisão ímpar sobre o tema:

O estoicismo tira seu nome do Pórtico (Stoa), lugar de Atenas onde se reuniam
seus adeptos. Diferentemente do epicurismo, não está ligado à autoridade incontestada
de um único fundador. A doutrina estoica se constituiu antes progressivamente pelas
contribuições sucessivas dos três primeiros chefes da escola: Zenão de Cício (332-
262), que, depois de ter sido o discípulo do cínico Crates, funda a nova escola por
volta de 300 a.C.; Cleanto de Assos (por volta de 312-232) e Crisipo (277 – por volta
de 204), que mereceu o título de segundo fundador do estoicismo, restabelecendo e
confirmando a unidade da escola contra as dissidências de certos discípulos e os
ataques, de inspiração “probabilista”, da Nova Academia. A partir daí, o ensinamento
estoico será transmitido, com uma continuidade espantosa, durante vários séculos. Se
o médio estoicismo, representado essencialmente por Panécio (180-110) e Possidônio
(por volta de 135-51), que tiveram o grande mérito histórico de introduzir o estoicismo
em Roma, trai contaminações platônicas ou aristotélicas, o novo estoicismo, ou
estoicismo imperial, marcará uma volta à ortodoxia do antigo estoicismo.
Esse novo estoicismo, que se desenvolveu em Roma sob o Império, está ligado a
três grandes nomes: Sêneca (nascido por volta do início da era cristã, morto em 65),
Epicteto (nascido em 50, morto entre 125 e 130) e Marco Aurélio (121-180),
imperador em 161). Esses três pensadores, cujas obras nos foram conservadas no
essencial (enquanto os escritos do antigo e do médio estoicismo só nos são acessíveis
através de resumos ou citações de autores posteriores), serão os verdadeiros
propagadores do estoicismo no Ocidente. É através deles que Guillaume du Vair,
Montaigne, Corneille, Vigny e tantos outros conhecerão as lições da sabedoria estoica.
(AUBENQUE et al., 1981: 169)

Como visto, o processo de aproveitamento dos ideais estoicos pelos romanos,

mesmo se iniciado por Cícero, não se restringe a este autor, sendo antes um processo que,

avaliado dentros dos limites estreitos da vida dos três grandes filósofos que Aubenque

menciona, durou pelo menos 140 anos, dos primeiros escritos de Sêneca, em 40 d.C, à

morte de Marco Aurélio, em 180.


85

Ainda do texto de Aubenque, extraem-se dois fatores explicativos do êxito da

chamada Escola do Pórtico: seus ensinamentos, sendo um produto coletivo, podiam, por

isso mesmo, ser melhorados ou adaptados a novas realidades – como seria o caso dos

romanos – e, apesar disso, mantinham uma continuidade que lhe conferia o aspecto de

solidez desejado para o que quer que se alçasse às condições de doutrina de estado e de

base identitária. Porém, se estes fatores colocariam o estoicismo em condição privilegiada

para servir ao propósito acima delineado, o que, na essência de seu pensamento, o

capacitaria em definitivo para tanto? Faz-se mister o retorno a Aubenque, para dar a esta

questão uma resposta válida:

...é para a moral que tendem todos os esforços dos estoicos. Esta se reduz a alguns
princípios simples: não há outro bem que a retidão da vontade, outro mal que o vício:
tudo o que não é nem vício nem virtude é indiferente. Desses axiomas resultam uma
multidão de consequências paradoxais: a doença, a morte, a pobreza, a escravidão não
são males, mas “indiferentes”; o sábio é, por definição, feliz, mesmo nos sofrimentos;
o mau é sempre infeliz, já que inflige a si próprio, por seu vício, o único dano que sua
alma possa sofrer. (AUBENQUE, et al., 1981: 177)

Os axiomas do estoicismo, percebe-se logo, coadunam-se perfeitamente com o mos

maiorum romano, conjunto de valores que, embora amplamente arraigado nos séculos

precedentes, fora porém, abalado pelas convulsões sociais e, principalmente, pelo

relaxamento dos costumes. Entretanto, enquanto o mos maiorum funcionava – por ser

condição inerente à educação familiar romana – como um contrato social coletivo, a moral

estoica, sendo norma de vida apenas daqueles que se dedicavam à escola, devia ser

divulgada, justificando-se, com isso, uma obra como a de Cícero, que serve, também,

como artigo de divulgação da escola estoica.

Concluído este esclarecimento, retornemos às Tusculanae Disputationes.


86

3.2.3.2 – Virtus, prima inter pares.

As Tusculanae serão, enfim, a obra na qual Cícero elevará a uirtus à categoria de

prima inter pares entre os conceitos que, agregados ao mos maiorum, (con)formam o novo

conjunto de valores em que a romanidade se apoiará. E, àquele que a possui, Cícero

outorgará o título de “sábio”, condição sine qua non para o alcance da felicidade61.

No conjunto das obras aqui selecionadas, as Tusculanae Disputationes acabam

ocupando uma posição única: seja pela forma de composição, em que Cícero descarta suas

habituais galerias de personagens e deixa em cena tão somente um mestre e um discípulo -

cuja única função é propor os temas para discussão -, seja pelo conteúdo, que é

inteiramente voltado ao indivíduo e sua busca pela virtude e felicidade, as Tusculanae

Disputationes, em princípio, destoariam completamente das anteriores.

Contudo, quando consideramos que esta obra foi escrita imediatamente após o De

finibus bonorum et malorum, percebemos que os dois textos, de fato, apresentam uma

nítida sequência na exposição de suas ideias: se em De finibus... Cícero apregoa os prós e

os contras das principais escolas filosóficas gregas, nas Tusculanae Disputationes o que

vemos é a aplicação prática dos principais valores dessas escolas – com grande destaque

para o estoicismo - a questões concretas. Pragmaticamente, como convém a um romano,

Cícero apresenta, através dos diversos exemplos que há na obra – todos, evidentemente,

baseados na história de Roma - as situações em que aqueles valores foram de serventia ao

sábio.

Percebe-se ainda que há, nas obras selecionadas, uma redução de foco: se De Re

Publica tratava da organização e dos valores de uma república ideal e De Legibus

61
Ideia que será retomada por Sêneca em De uita beata.
87

propunha a disposição legal e jurídica para essa mesma república, e se o De finibus... trata

dos – antigos e novos - valores para o cidadão dessa mesma república, as Tusculanae

Disputationes mostrarão a esse cidadão, como é possível, na condição de indivíduo,

vivenciar a fusão entre velhos e novos valores sociais que Cícero mesmo propunha.

Outra redução de foco se dá quanto às personagens: na primeira obra, a fala

pertence aos contemporâneos de Cipião, em De Legibus e De finibus... quem dialoga são

os contemporâneos do próprio Cícero; mas, nas Tusculanae Disputationes, quem detém a

palavra é um “magister philosophiae”, cujo nome não nos é apresentado. Entretanto, fica

patente que esse é um estratagema de Cícero para poder apresentar mais diretamente suas

ideias, e, considerando que, em sua obra já mencionada, Harvey aponta para o fato de que,

nos manuscritos das Tusculanae Disputationes, as falas são indicadas pelas letras latinas M

e A, respectivamente “Marcus” e “Adolescens”, ou talvez o fossem pelas letras gregas M e

Δ, significando então “Mathetés” e “Didáskalos” (mestre e discípulo), teríamos então um

signo M com duplo sentido, podendo ser a inicial do praenomen de Cícero, igualando-se

assim Marcus a Magister. 62 Por fim, no De Officiis, Cícero se colocará definitivamente em

cena, realizando em primeira pessoa do discurso sua exposição – o que equivale a afirmar

sua própria autoridade como filósofo.

Entretanto, cremos haver, ainda, uma terceira e última redução de foco, esta com

maiores consequências no plano político: o fato de Cícero ter dedicado suas obras a Bruto

trai sua intenção de, ao longo de seus textos, fazer com que Bruto assumisse – como de

fato o fez – a vanguarda da resistência a César, em substituição a Pompeu, morto no Egito

em 48. Esta última hipótese transparece não apenas nas dedicatórias, mas na própria

condução das ideias realizada por Cícero na obra, principalmente nos livros I e II das

62
Essa proposta de Harvey é adotada por diversos estudiosos: várias edições das Tusculanae Disputationes
trazem as rubricas Auditor e Cicero, substituindo a A e M.
88

Disputationes: ao dedicá-las a Bruto, tornava-o receptor privilegiado da mensagem nelas

contida. Uma mensagem na qual a uirtus - e sua busca – se tornam as principais razão e

causa das ações do indivíduo, em nível pessoal ou político.

Ora, devendo o homem virtuoso não apenas praticar a virtude, mas, em seu nome,

agir em defesa de sua sociedade, fica clara para nós a intenção, exitosa aliás, de Cícero em

atrair Bruto – por meio da filosofia – para o grupo dos cesaricidas.

Assim, podemos crer que os objetivos de Cícero, nessa obra, são: dar continuidade,

no plano individual, às exposições de De finibus...; mostrar que apenas o sábio, por possuir

a uirtus, pode alcançar a felicidade e encorajar, em Bruto, sua participação no assassinato

de César.

Para além, contudo, desse último motivo, menos nobre e mais imediato, Cícero

também realiza uma apresentação pragmática de como deveria o indivíduo proceder na

busca da uirtus. E isso, cremos também, acaba por fortalecer a integração entre os valores

da tradição romana e os da filosofia grega, anulando, enfim, a distância entre os dois

conjuntos de conhecimento, amalgamando-os no que poderemos denominar romanidade

filosófica.63

Tanto é que, nas próximas obras de Cícero, serão abordados com mais

especificidade como mais alguns valores da tradição tiveram seu sentido modificado pelo

aporte filosófico. Vale lembrar que estas obras foram escritas entre 45 e 44 a.C. ou seja,

imediatamente antes ou após os Idos de Março; trata-se de um grupo de obras as quais a

crítica costuma considerar menores no corpus ciceroniano, no entanto, pensamos que, no

quadro da definição dos novos valores identitários, essas obras têm informações

importantes a nos fornecer.

63
Termo com que poderemos nos referir ao projeto identitário romano proposto por Cícero, já que esse
projeto se constrói sob o viés da filosofia.
89

O grupo seria originalmente formado por De gloria, Cato Maior de Senectute,

Laelius de Amicitia e De Virtutibus, escrito originalmente como apêndice a De Officiis.

Contudo, estando perdidos o primeiro e o último textos da lista acima, nossa análise estará

restrita aos dois restantes, vistos em conjunto.

3.2.4 – Catão e Lélio: a velhice e a amizade

Em Cato Maior, Cícero dá a palavra a Catão, o Antigo, avô daquele mesmo Catão

de Útica com quem Cícero dialoga em De finibus... e também seu correligionário político

junto aos Optimates. Nesta obra, a personagem-título fala a respeito da velhice, vista não

como um impedimento à execução dos deveres – de indivíduo, de paterfamilias, de

cidadão – mas sim como um estímulo adicional ao seu bom desempenho: uma vez que,

livre das necessidades do corpo, o senex pode dedicar-se melhor às do espírito e às

exigências da cidade.

Trata-se de um longo discurso em que a fala de Catão acaba por representar a do

próprio Cícero. Mais uma vez recorrendo às figuras históricas da Roma dos Cipiões, auge

do modelo republicano oligárquico que defendia, e colocando seu discurso na boca do

paradigma do tradicionalismo, Cícero acaba por dirigir, à classe senatorial, um chamado às

responsabilidades do cargo: se é aos velhos que cabe a tarefa de gerir a sociedade, vale

recordar que a raiz de senex (*sen-) é a mesma de senatus, -us64. Desse modo, convocava o

Senado a reassumir seu papel na sociedade romana, num tempo em que, com a guerra civil

em andamento, talvez se pudesse, ainda, pensar numa vitória de Bruto e Cássio e a

64
Conforme se vê no já mencionado Dictionnaire Étymologique de la Langue Latine, de Ernout e Meillet,
no verbete senex: “Le nominatif de senex comporte un suffixe –c- qui se retrouve dans un certain nombre de
dérivés, tandis que d‟autres sont formés sur le thème *sen- des cas obliques. On a donc: seneca, -ae; senatus,
-us.”
90

consequente restauração da república senatorial. Em caso contrário, a obra estabeleceria as

normas de conduta do novo Senado, criando parâmetros para o que seria, mais tarde,

conhecido como “oposição estoica”.

Logo em seguida, Cícero escreve Laelius de Amicitia, uma obra da qual devemos

mencionar as condições de sua produção: segundo Paratore (1983), este texto foi escrito

em fins de 44 a.C, quando as tropas de Bruto e Cássio já haviam sido derrotadas pela

aliança entre Otaviano e Marco Antônio, e Cícero - que nesse ínterim já havia pronunciado

as Filípicas - sabia que, constituído o Segundo Triunvirato, não tardaria a que seu nome

fosse incluído nas listas de cassação, exílio ou execução. Sabendo-se, portanto, com os dias

contados, Cícero refugia-se em sua uilla em Tusculum e redige, ainda, Laelius e De

Officiis.

Laelius de Amicitia tem, ainda, em relação às demais obras de Cícero, uma

inusitada preocupação literária, pois nesta obra é Cícero quem se coloca como narrador

explícito: no preâmbulo de sua obra – dedicada ao amigo Ático –, Cícero deixa claro que a

fala de Ático é, na verdade, a sua, assumindo a responsabilidade pelo discurso:

Sed, ut tum ad senem senex de senectute, sic hoc libro ad amicum amicissimus scripsi de
amicitia. Tum est Cato locutor, quo erat nemo fere senior temporibus illis, nemo prudentior;
nunc Laelius et sapiens (sic enim est habitus) et amicitiae gloria excellens de amicitia loquetur.
Tu uelim a me animum parumper auertas, Laelium loqui ipsum putes. C. Fannius et Q. Mucius
ad socerum ueniunt post mortem Africani; ab his sermo oritur, respondet Laelius, cuius tota
disputatio est de amicitia, quam legens te ipse cognosces. (CÍCERO; De Amic., I, 5) 65

E, talvez por isso, possamos pensar que, ao usar a primeira do singular na oração abaixo,

Cícero esteja falando de si mesmo, e não de sua personagem-título: “Quam ob rem caue

Catoni anteponas istum quidem ipsum, quem Apollo, ut ais, sapientissimum iudicauit;

65
“, portanto,, assim como então, um velho escrevia sobre a velhice a um outro velho, nesta nova obra, é um
amigo que escreve sobre a amizade a seu amigo mais querido. Naquele livro, quem fala é Catão, talvez o
homem mais velho do seu tempo e também, o mais sábio. Neste, quem fala sobre a amizade é Lélio, que não
somente era sábio (assim era considerado), mas, também, que ficou célebre como amigo. Peço-lhe, pois, que
me esqueça por um instante, e imagine estar a ouvir o próprio Lélio. Caio Fânio e Quinto Múcio (Cévola)
vêm à casa do sogro, após a morte do Africano; eles começam a conversa e Lélio responde, fazendo, sozinho,
toda a exposição sobre a amizade. Lendo-a, você vai se reconhecer nela.” (CÍCERO; 2006:17) Todas as
traduções de De Amicitia são de João Teodoro d‟Olim Marote.
91

huius enim facta, illius dicta laudantur. De me autem, ut iam cum utroque uestrum loquar,

sic habetote.” (CÍCERO; De Amic., I, 10) 66

E o que Cícero preconiza, nesse texto, como importante para a configuração da

(nova) identidade romana? Esta é, cremos, uma questão que admite duas respostas: a

primeira é de caráter (meta)físico – tema que Cícero tratou em obras que não abordamos

aqui -, mas que aponta para o fato de que, para além da religião tradicional romana,

admitiam-se também novas crenças, de origem estrangeira, tal como a concepção –

socrática, aliás – de um recompensa post-mortem:

Neque enim adsentior iis, qui haec nuper disserere coeperunt, cum corporibus simul
animos interire atque omnia morte deleri. Plus apud me antiquorum auctoritas ualet,
uel nostrorum maiorum, qui mortuis tam religiosa iura tribuerunt, quod non fecissent
profecto, si nihil ad eos pertinere arbitrarentur; uel eorum, qui in hac terra fuerunt
Magnamque Graeciam, quae nunc quidem deleta est, tum florebat, institutis et
praeceptis suis erudierunt, uel eius, qui Apollinis oraculo sapientissimus est iudicatus,
qui non tum hoc, tum illud, ut in plerisque, sed idem semper, animos hominum esse
diuinos iisque, cum ex corpore excessissent, reditum in caelum patere, optimoque et
iustissimo cuique expeditissimum. (CÍCERO; De Amic., IV, 13)67

Outra possibilidade de resposta encontra-se na listagem de valores sine quibus non poderia

um indivíduo ser considerado um uir bonus:

Qui ita se gerunt, ita uiuunt, ut eorum probetur fides, integritas, aequalitas, liberalitas
nec sit in iis ulla cupiditas, lubido, audacia, sitque magna constantia, ut ii fuerunt,
modo quos nominaui, hos uiros bonos, ut habiti sunt, sic etiam appellandos putemus,

66
“Não vá, , portanto,, colocar alguém acima de Catão, nem mesmo aquele que, como você diz, foi
proclamado por Apolo como o “mais sábio” dos homens, pois deste último, louvam-se as palavras, e do
outro, as ações. Quanto a mim, quero, agora, me dirigir a vocês dois: eis o que penso.” (CÍCERO; 2006:21)

67
“Com efeito, eu não concordo com aqueles que recentemente começaram a sustentar que a alma morre
juntamente com o corpo, e que a morte destrói tudo. Prefiro acreditar na autoridade dos antigos, ou na de
nossos ancestrais, que conferiam aos mortos direitos tão sagrados, coisa que não teriam feitos se acreditassem
que nada mais interessava aos mortos; prefiro, ainda, acreditar na opinião dos filósofos que viveram nesta
terra e deram à Magna Grécia, hoje decadente, é certo, mas então florescente, as instituições e os
ensinamentos que a formaram; acreditar, enfim, na opinião daquele que o oráculo de Delfos proclamou como
“o mais sábio”, e que, a esse respeito, não dizia ora isto, ora aquilo, como outros frequentemente o faziam,
mas sempre sustentou que as almas humanas são divinas, e que, no dia em que deixam o corpo, abre-se,
diante delas, um caminho que as leva de volta ao céu, e para as melhores e mais justas, esse retorno é mais
rápido.” (CÍCERO; 2006:25-27)
92

quia sequantur, quantum homines possunt, naturam optimam bene uiuendi ducem.
68
(CÍCERO; De Amic., V, 19)

Ao enumerá-las, Cícero arrola os novos valores com que (re)alicerçara a

romanidade, valores que, assim como os do mos maiorum, não eram, necessariamente,

oriundos da Filosofia, mas que ganhariam, com seu reforço, mais força perante as elites e

as massas. Entre esses, claro, inscreve-se a amizade, que, para Cícero, está na base de todo

laço social, sendo inexistente sem a justiça, que atuaria como seu “elemento regulador”.

Sendo a amizade e a justiça os elementos fundamentais da sociedade, todo o

edifício social – demolido com as diversas guerras mencionadas – poderia ser reconstruído,

pois tanto a tradição, baseada no mos maiorum, quanto seu suporte filosófico – elementos

constituintes da aqui chamada romanidade filosófica - estariam intactos. Enfim, em Laelius

de Amicitia, Cícero encerra um ciclo, ou como dirá Paratore:

...voltava ao seu ideal de Roma de um século antes, da Roma cipiônica, que se tornara
para o seu espírito uma espécie de sede utópica de todas as perfeições; voltavam
alguns dos interlocutores do De Oratore e do De Re Publica a exaltar alguns
princípios morais como a amizade, que eram a charneira das filosofias helenísticas,
mas que Cícero considerava praticamente afirmados, sobretudo pela grande tradição
oligárquica romana. (PARATORE; 1983: 230-31)

Outrossim, a intenção última de Cícero, nesse texto, parece-nos ser antes aquela manifesta

por René Martin e Jacques Gaillard:

Si les propos de Laelius sont peu denses, du point de vue philosophique, la réussite
littéraire de ce texte mineur tient à la qualité du ton donné à l‟éxposé. Et à y regarder
de plus près, cette fiction est troublante – car l‟on y voit la célébration de l‟ amitié
placée sous le signe de la laudatio funebris, de l‟oraison funèbre. En d‟autres terms,
Cicéron, qui s‟identifie à Scipion, emprunte-t-il ce détour pour déjá parler de lui-
même au passé? Scipion, dit Laelius, vivra toujours, car il était vertueux. Bien des

68
“Aqueles que se comportam, que vivem de forma tal que evidencia boa-fé, integridade, equidade e
liberalidade, nos quais não há cobiça, nem paixão, nem louca ousadia e demonstram grande firmeza de
caráter, como as personagens que acabo de citar, e que foram, todos eles, considerados homens de bem, nós,
na minha opinião, devemos, também, assim chamá-los, porque, na medida do possível, seguem a natureza,
que é a melhor guia da vida.” (CÍCERO; 2006:33) As personagens que Cícero citara eram: Caio Fabrício,
Mânio Cúrio e Tibério Coruncânio; cônsules que praticaram ações heroicas durante seus mandatos.
93

lignes sont émouvantes dans ce livre, et font songer à une consolation. Sentant venir sa
fin, Cicéron rêve d‟immortalité. (MARTIN; GAILLARD; 1993:232)69

Mesmo sendo seu “canto de cisne”, Laelius antecede ainda a uma obra que, sendo

praticamente a última das de Cícero, condensará todo seu pensamento no âmbito da

Filosofia: dessa vez dedicado a seu filho Marco, Cícero escreverá ainda, no mesmo ano, o

De Officiis, obra que, embora extensa, não chega a apresentar algum novo ângulo para a

observação da suas concepções identitárias romanas.

Vimos, portanto, que Cícero se vale da escolas filosóficas gregas, mas o faz usando

do procedimento padrão romano para a incorporação de novos paradigmas culturais:

delimitar – no tempo, no espaço e no âmbito do Direito – o objeto de interesse, e

selecionar, desse objeto, o item considerado válido. Contudo Cícero acaba por ir além, e,

com isso

L‟aproche des héritages hellénistiques ne se réduit pas à ressusciter d‟anciennes


querelles d‟école, épuisées parfois depuis un bon siècle, elle constitue une tentative
pour repenser en termes romains l‟apport de la culture grecque, et se subordonne à la
volonté de tenter une compréhension globale de l‟action humaine, selon les cadres de
pensée qui étaient ceux de Cicéron et de ses contemporains. (PROST, 1996:23)70

Cícero, como observamos, usa da filosofia grega, e, se para tanto, fez-se necessário

construir todo um vocabulário latino para dar conta dessa apropriação – abstrata –, Cícero

desempenhou essa tarefa; e, por fim, se sua busca ultrapassou os limites iniciais,

outorgando cidadania romana à filosofia grega, Cícero tornou, com isso, universal a

69
“Se os propñsitos de Laelius são pouco densos, do ponto de vista filosófico, o alcance literário desse texto
menor prende-se à qualidade do tom dado à exposição. E, observando-se mais de perto, essa ficção é
problemática – porque aí se percebe a celebração da amizade marcada pelo signo da laudatio funebris, a
oração fúnebre. Em outros termos, Cícero, que se identifica com Cipião, usa esse desvio para falar de si
mesmo já no passado? Cipião, diz Lélio, vivera sempre, porque era virtuoso. Muitas linhas são emocionantes
nesse livro, e fazem pensar numa consolação. Sentindo vir seu fim, Cícero sonha com a imortalidade.”
70
“A proximidade da herança helenística não se reduz a ressuscitar antigas querelas de escola, esgotadas há
um século, ela constitui uma tentativa de repensar em termos romanos o aporte da cultura grega, e se
subordina à vontade de tentar uma compreensão global da ação humana, segundo os padrões de pensamentos
que eram os de Cícero e seus contemporâneos.”
94

romanidade - condição de que até mesmo seus portadores eram inconscientes -, chegando

aos limites do metafísico, esse fato só pode ser computado a seu crédito.

E mais, ao desenvolver novos parâmetros para a romanidade, Cícero acabará por

desembocar em novo conceito, o de humanitas, sendo considerado por Paratore (1983), “o

principal criador e ilustrador do conceito totalmente latino da humanitas. (1983: 240)”: sua

obra filosñfica, que o prñprio Paratore chamará “fragmentária e assistemática” ajudará a

moldar aquela espiritualidade latina da qual, uma vez aproveitada pelo Cristianismo,

seremos todos tributários. Vale, portanto, que tratemos desse conceito.

À semelhança de sapientia, humanitas será também o conceito de surgimento mais

tardio na cultura romana: resultando de uma lenta evolução da vida pública e do direito

civil, sua plena formulação, como vimos, só se dará na tormenta final da República.

Sua etimologia trai a evolução, dentro do conceito de cidadania, de um conjunto

mais amplo de seres humanos; evidenciado pelas características que farão do homem um

ser humano, e, mais tarde, humanitário, e com destaque para a civilidade, que engloba o

direito como norma básica de convivência. Este fato aproxima a humanitas latina da

paideia grega. Sobre essa transição, não pretenderíamos ser mais concisos que Pierre

Grimal, que, tratando do ius gentium, defende que os romanos

Transformaram-no na fórmula de uma espécie de justiça universal: a ciuitas romana


alargou-se para ciuitas humana. É legítimo pensar que a fórmula dos filósofos gregos
não teria adquirido esta eficácia se os romanos não lhe tivessem conferido a expressão
de um sentimento que traziam dentro de si de forma latente e que subitamente se viu
iluminado pela revelação vinda do Oriente. (GRIMAL, 1989:70)

Assim, articulados em relação a e a partir de fides, pietas e uirtus, os diversos

conceitos que formaram o mos maiorum serão os mesmos que definirão a romanidade e

que atravessarão todas as transformações da sociedade romana, até mesmo sobrevivendo a

ela, porque saberão evoluir do romano – concepção excludente - para o humano –

concepção abrangente. Desse modo, agregando-se sapientia e humanitas, aquela tríade que
95

apontamos como fundamental para o mos maiorum é transformada em um pentágono, e à

romanidade seriam incorporados um novo grupo de valores que, por realçarem a

importância da uirtus, preparariam, de certo modo, a visão de mundo romana para o novo

modelo político que se aproximava: o império.

3.3 – Uma nova identidade e a modernização conservadora

Seria válido interrogarmo-nos, aqui, se não seria contraditório, da parte de Cícero,

defender uma restauração plena do modelo político anterior e, ao mesmo tempo, preconizar

um novo conjunto de valores para a sociedade romana. Porém devemos recordar que essa

sociedade, tal como pretendida por Cícero, não é mais restrita aos cidadãos da Vrbs.

Ele mesmo um cidadão romano não-citadino, Cícero sabia que eram necessárias

mudanças na concepção da identidade romana para que se pudesse absorver, rápida e

satisfatoriamente, toda aquela população da península italiana que, desde Mário, tivera

acesso jurídico à cidadania. Ora, essa absorção passava necessariamente pela Magna

Grécia, ou seja, toda a região sul da Itália, centro agrícola de primeira ordem na península,

e ponto de expansão e controle do poder romano em todo o Mediterrâneo: os valores, os

costumes e as tradições dessa região deveriam estar, de algum modo, visíveis nessa nova

composição identitária.

Também as elites dos territórios mais distantes71 deveriam, para perpetuação do

poder romano, ser atraídas com maior eficácia para Roma, uma atração que deveria ser

executada não mais apenas manu militari, mas por modos mais sutis. E, finalmente, as

próprias elites da Vrbs deveriam adquirir um novo arcabouço identitário e ideológico,

71
Essas elites eram, na verdade, as populações helênicas, já que os demais povos sob o imperium não eram
considerados suficientemente civilizados para merecerem maior atenção, ou para que sua cultura pudesse
interferir na questão identitária em Roma.
96

justificando assim tanto a sobrevivência do mos maiorum, agora atualizado, como a

manutenção de seu poder.

Fica-nos patente que a intenção de Cícero era, claramente, a de reconstruir, não

necessariamente sob os mesmos valores, aquela unidade de pensamento existente no auge

da Roma republicana. Com isso, como dissemos, seria possível integrar não apenas os

grupos sociais em conflito na capital, em que o predomínio político dos Optimates estaria

consagrado mas também atrair para a romanidade o conjunto das populações italianas e as

elites das demais regiões conquistadas.

Tal atração se tornara um imperativo já que, até mesmo no cômputo populacional,

os habitantes de Roma contavam, agora, pouco para a manutenção do poder romano. Era

necessário, , portanto,, para a própria sobrevivência de Roma, ampliar o conceito de

romanidade. E uma estratégia para isso seria fazer com que o habitante das regiões

controladas por Roma pudesse, a par de sua própria origem, sentir-se parte de uma

coletividade maior, por partilhar valores mais profundos que o ius sanguinis ou o ius solis.

É por esse motivo que as obras de Cícero apontam para a incorporação, como

valores romanos, de valores outros, reconhecidos pela Filosofia como universais. E

também é por isso que, por outro lado, está clara também a intenção de universalizar o mos

maiorum.

Amalgamados, esses dois conjuntos ideológicos atrairiam para o sentimento de

romanidade os diversos grupos socioculturais sob o imperium. Cícero antevia, enfim, que o

sentimento em relação a Roma, para que Roma mesma se preservasse, deveria dar um

passo além, na direção da universalidade. Em resumo, para que Roma continuasse a ser

Roma, a Vrbs deveria ser, cada vez mais, Orbis.

A visão de Cícero estará, portanto, inscrita no que se pode denominar

“modernização conservadora”, em que as novas roupagens dadas a um determinado


97

sistema não escondem o intuito de preservar as estruturas que o regem. Isto fica claro

quando recordamos que, se o suporte filosófico aceleraria o processo de identificação dos

não-romanos, ou “neo”-romanos, com Roma e, ao mesmo tempo, conferia à identidade

romana novos pontos de sustentação, o modelo político e os mecanismos de acesso à

cidadania ficariam intocados.

Ainda que, em consequência do conturbado xadrez político que levou ao fim da

República, Cícero tenha sido assassinado a mando de Marco Antônio em 43 a.C., não se

pode dizer que sua obra tenha caído no esquecimento – prova disso é o fato de ser o autor

romano mais bem preservado – ou ainda que suas propostas no plano político e/ou

filosófico não tenham sido aproveitadas. Afinal, alcançando o poder, Augusto configurará

enfaticamente sua política pela pauta da preservação, ao máximo, das estruturas políticas

da República; assim como pela restauração do mos maiorum e das tradições ancestrais

romanas. Paradoxalmente, portanto, a romanidade filosófica, tal como preconizada por

Cícero, seria posta em prática pelo regime autocrático que ele tanto se empenhou em

evitar.

No entanto, se Cícero é produto da efervescência política e cultural de seu tempo, e

atuou dentro da dinâmica de poder(es) e da possibilidade de debate proporcionados pela

República, o mesmo não poderá dito de Sêneca – assunto de nosso próximo capítulo – já

que, cessada qualquer dinâmica e/ou debates políticos pelos sucessores de Augusto, esse

pensador viverá numa Roma que, apesar de manter uma retórica em que a vida pública

seria calcada no estoicismo, terá uma população a qual restará apenas um absenteísmo

quanto à vida pública, justificado pelo mesmo Epicurismo que Cícero tanto combatera.
98

4 SÊNECA: A FILOSOFIA NO TRONO DO IMPÉRIO

Cerca de quarenta anos separam a morte de Cìcero (43 a.C) do nascimento de

Sêneca (4 a.C), cerca de cem anos terão decorrido entre ambas as mortes, já que a de

Sêneca ocorre em 62 d.C. Essa informação pouco significaria se esse não fosse o primeiro

século de vigência do regime imperial, um período com algumas turbulências e em que se

processam diversas mudanças na sociedade romana, as quais aqui serão abordadas de

maneira sucinta.

4.1 Augusto e a nova crise identitária

Com o fim do Segundo Triunvirato (43-36) e as guerras entre Marco Antônio e

Otaviano, vencidas por este último, o poder se viu, pela primeira vez desde César,

concentrado em uma só pessoa. E, talvez por isso, Otaviano, logo cognominado Augusto,

instituiu um novo modelo de governo em que a concentração de poderes tornou-se a

tônica: Roma tornava-se, enfim, a sede do Império.

A fórmula desenvolvida por Augusto, entretanto, residia na própria (extrema)

popularidade do princeps e da submissão do Senado. Excessivamente centrada nessa

popularidade, a fórmula dependia, enfim, de que o governante mantivesse boas relações

com todas as instâncias de poder: senado, exército, população, etc. Dissolvidas as velhas
99

tensões entre optimates e populares, o governo de Augusto caracteriza-se pela efetivação

das ideias destes de maneira que contentasse também àqueles.

O governo de Augusto não se caracterizaria, no entanto, pela demolição sistemática

da estrutura governamental republicana; ao contrário, Augusto manteve o quanto pôde,

realizando sempre algumas adaptações motivadas pelo novo regime. Como governante,

após 27 a.C, Augusto empenhou-se em pacificar o Império, em promover a reconstrução

das províncias mais abaladas pelas sucessivas guerras e em embelezar a capital. Realiza

também uma política cultural em que se valorizam enormemente as artes; principalmente a

literatura, sendo este o momento em que a poesia latina é catapultada a um novo patamar,

graças a autores como Vergílio, Horácio e Ovídio.

Uma das tônicas dessa política será a retomada de valores tradicionais da

romanidade, em especial o resgate do mos maiorum. Esta retomada transparece até mesmo

na emissão de moedas realizada por Augusto, em que estes conceitos são personificados, já

que

De acordo com Augusto, um bom governante deveria observar a uirtus, a clementia, a


iustitia e a pietas, seguidas da auctoritas, potestas, corona ciuica e o título de pater
patriae. De todas elas, entretanto, somente a pietas e a iustitia figuram em suas
cunhagens explicitamente. (VIZENTIN, 2005:69)

Valorizando a pietas e a iustitia, Augusto reafirma um compromisso com tais conceitos –

que são úteis para apaziguar os ânimos cansados de seguidas convulsões políticas -, ao

mesmo tempo em que faz do meio circulante um excelente material de autopropaganda,

pois como defenderá Babelon:

Les abstractions personnifiées jouent un grand rôle dans les imaginations romaines,
soit qu‟elles expriment une satisfaction béate, dans les époques de prosperité, soit que
l‟affirmation qu‟elles symbolisent rallie la foi du peuple dans un avenir meilleur.
(BABELON, 1944:110)72

72
As abstrações personificadas têm um grande papel no imaginário romano, seja porque expressam uma
alegre satisfação, nas épocas de prosperidade, seja porque a afirmação que elas simbolizam unifica a fé do
povo em um futuro melhor.
100

Entretanto, mesmo com uma política cultural restauracionista, a aristocracia

romana73 terá agravada a crise identitária que até então vivenciara, pois além da

indisposição para com os referenciais de sua própria tradição cultural, somar-se-á a crise

advinda da perda de uma parte ainda maior de seu poder, partilhado agora com os novos

grupos sociais em que Augusto se apoia. A sensação de que a perda do poder era

decorrência também da crise cultural logo se faz sentir, levando uma boa parcela dessa

aristocracia – saudosa da república – a buscar propostas que lhe permitissem reconstruir

sua identidade e sobreviver enquanto classe, ou a simplesmente mergulhar no epicurismo,

agora tornado “válvula de escape” para uma situação sociopolítica bastante adversa.

É nesse momento que muitas das propostas realizadas por Cícero são acatadas pela

elite cultural, e também pelo regime imperial, que, embora deixando de lado o máximo

possível que fizesse alusão direta à tradição republicana, acabará abraçando os valores

defendidos por Cícero, e, por extensão, sua própria concepção de romanidade.

E apesar das proposições de Cícero não terem sido esquecidas durante os anos de

Augusto, a sensação de inferioridade cultural perante a Grécia persiste, pois é justamente

na Eneida que Vergílio traçará um eloquente manifesto do paradoxo representado pelo

poder de Roma e a condição menor que esta ocupava no plano cultural:

Excudent alii spirantia mollius aera,


Credo equidem; uiuos ducent de marmore uultus;
Orabunt causas melius, caelique meatus
Describent radio et surgentia sidera dicent:
Tu regere imperio populos, Romane, memento;
Hae tibi erunt artes, pacique imponere morem,
Parcere subiectis, et debelare superbos. (Vergílio, Aeneis VI, 847-53)74

73
É importante distinguir aqui “aristocracia”, i. e., a oligarquia hereditária que dirigia a República há
séculos,; de “elite”, os novos grupos a que a expansão do império dera existência.
74
“Outros saberão, com mais habilidade, abrir e animar o bronze, creio de boa mente, e tirar do mármore
figuras vivas, melhor defenderão as causas e melhor descreverão com o compasso o movimentos dos céus e
marcarão o cursos das constelações: tu, romano, lembra-te de governar os povos sob teu império. Estas serão
tuas artes, impor condições de paz, poupar os vencidos e dominar os soberbos.”
101

A perda das raízes culturais romanas ficará ainda mais evidente durante as

primeiras décadas do Império, posto que nesse momento se estende a outras camadas

sociais, uma vez que até mesmo a paz e a estabilidade que o Império proporcionam

contribuem para o agravamento da situação, como nos informa Jean Bayet:

... la société cultivée, qui assure aux écrivains un public et des encouragements,
s‟élargit toujours. Aux sénateurs délivrés des vrais soucis politiques, aux chevaliers,
fonctionnaires préférés du régime, se joignent la riche bourgeoisie des provinces et
même une sélection d‟affranchies. En effet, avec la pacification de l‟Empire et la
prospérité qui en résulta, le rôle des esclaves intelligents, intendants, secrétaires,
gérants, s‟accrut partout entre la bourgeoisie fonctionarisée et la plèbe fainéante;
affranchis et, avec leurs habitudes d‟activité et d‟entregent, s‟enrichissant souvent,
désireux au surplus de faire reconnaitre leur valeur intellectuelle et oublier leur
origine, ils sont le vrai ferment de la nouvelle société.
Ils sont le plus souvent originaires de l‟Orient. El les provinces asiatiques envoient
maintenant vers Rome, unique capitale, une foule de besogneux avides de se faire une
place. Ainsi un grand nombre d‟hommes dont le grec était la langue maternelle sont
appélés à l‟usage du latin. Mais ils ne renoncent tout à fait ni à leur mentalité ni à
leurs aspirations; et même leur influence modifie fort vite les mœurs et jusqu‟à l‟esprit
romains: les rangs se confondent, l‟orgueil national se perd, les curiosités se
multiplient, les plus nobles comme les plus basses. (BAYET, 1953: 444-5) 75

Assim, configurava-se, naquela parcela da elite romana - não mais composta

unicamente pela dualidade patriciado e equestres, e tampouco inteiramente embriagada

pela luxuria asiatica - a sensação de perda de identidade, e, embora delineiem-se projetos

de soerguer esta identidade tradicional romana, será em vão que o próprio Augusto estará,

durante seu governo, pessoalmente empenhado no resgate das tradições culturais

nacionais: o momento histórico inteiramente novo repele soluções antigas.

75
“A sociedade culta, que assegura aos escritores um público e encorajamento, aumenta sempre. Aos
senadores liberados de verdadeiros debates políticos, aos equestres, funcionários preferidos do regime,
juntam-se a rica burguesia das províncias e mesmo uma seleção de libertos. De fato, com a pacificação do
Império e a prosperidade resultante, o papel dos escravos inteligentes, intendentes, secretários, gerentes, se
espalha por toda parte entre a burguesia funcionarizada e a plebe desocupada; liberttos e, com seus hábitos de
atividade e empreendimento, enriquecendo-se frequentemente, desejosos ademais de fazer reconhecer seu
valor intelectual e esquecer sua origem, são o verdadeiro fermento da nova sociedade.
Eles são com maior frequência originários do Oriente. E as províncias asiáticas enviam agora para
Roma, única capital, uma legião de desejosos ávidos de conseguir um lugar ao sol. Desse modo um grande
número de homens cuja língua materna era o grego são chamados ao uso do latim. Mas eles não renunciam
de modo algum a sua mentalidade nem a suas aspirações; e sua influência modifica rapidamente os hábitos e
até mesmo o espírito romano: os níveis se confundem, o orgulho nacional se perde, as curiosidades se
multiplicam, tanto as mais nobres quanto as mais vis.”
102

Obviamente, percebe-se nas obras dos principais autores do tempo de Augusto, a

preocupação em valorizar - igualando ou sobrepujando - a cultura romana frente à grega:

esta seria uma questão imanente à produção de obras como a própria Eneida, por Virgílio;

e dos Fastos, por Ovídio, e não deixa de ser um traço de continuidade do pensamento de

Cícero.

Fica também patente - após o fracasso das tentativas de Augusto e o pouco impacto,

para além do ufanismo patriótico, despertado pela Eneida - que embora as propostas

ciceronianas houvessem introduzido novos valores na cultura romana, elevando a

romanidade de um estágio calcado no simples pragmatismo a outro, baseado no aporte

filosófico; a situação tornara-se tão mais complexa que rapidamente uma nova

configuração da identidade romana far-se-ia necessária.

Esta necessidade adviria do fato de que, se ao tempo de Cícero a plebe já era

formada por gente de origens as mais diversas, ao menos a elite social e cultural era

romana de boa cepa, nos anos de Augusto porém, era a própria elite que, pouco a pouco,

vinha recebendo elementos estrangeiros. Apesar de resolvida a crise política, a crise

identitária romana persistia, uma vez que novas personagens insistiam em entrar em cena.

Entretanto, já no texto de Bayet, supra-citado, subjaz a interrogação: onde estariam, em

meio a esta elite romana, aqueles que, havendo preservado o quanto possível sua

identidade cultural, ainda fossem capazes, mesmo com o fim de formular uma nova

síntese, de promover esta nova configuração identitária, que, se necessário, deveria

discernir, novamente, o espírito cultural romano do grego? Antes de responder a esta

questão, tracemos um breve panorama da trajetória do Império, através de seus

governantes, para que tenhamos uma visão mais clara – embora limitada – dos fatos

históricos do período.
103

4.2 Os sucessores de Augusto

Ao falecer, em 14 d.C., Augusto não encontrou problemas em transmitir o governo

a seu sucessor Tibério, o qual, apesar de não possuir a mesma popularidade do antecessor,

pôde ainda exercer seu poder com relativa tranquilidade, e tão seguro estava da solidez de

seu governo que pôde, em 29, retirar-se para a ilha de Capri e aí residir até a morte, em 37.

A política de Tibério contentou-se em perpetuar as linhas gerais estabelecidas por

Augusto, mormente no campo cultural em que se mantém a ênfase na defesa dos valores

morais, fato que, novamente, pode ser comprovado através da numismática do período

imperial:

Herdeira da tradição republicana, a cunhagem imperial, no entanto – e sobretudo a


partir de Tibério – modificou seus padrões estilísticos dando lugar ao aparecimentos
das virtudes e suas personificações, cuja ênfase recaiu principalmente em seu
conteúdo moral. (VIZENTIN, 2005:67)

Ou seja, enfatizar, no meio circulante, os valores das virtudes significava, por si só,

demonstrar quais seriam os valores que, segundo Tibério, deveriam ser perseguidos por

aquela sociedade. Contudo, parece-nos, novamente baseando-nos em Vizentin, não apenas

as virtudes que Augusto priorizara seriam defendidas: seus sucessores imprimiriam nas

moedas imperiais aquelas que, acreditavam, caracterizaria seu governo

Ao longo dos anos, outras virtudes e personificações, além das cardinais, são
incorporadas à cunhagem de moedas, assim como várias apresentações das ações do
príncipe para com seus súditos ou mesmo de suas atividades como dirigente do
Império. Assim, observa-se o aparecimento de Aequitas, Aeternitas, Annona, Ceres,
Concordia, Constantia, Felicitas, Fortuna, Honos, Libertas, Pax, Pudicitia, Salus,
Securitas, Spes, Tutela, Veritas e Victoria. (VIZENTIN, 2005:70)

Tal prática, evidentemente, nos permite aquilatar com maior precisão a imagem que cada

um dos Césares tentava transmitir à população. Mas também deixa claro quais foram os

valores em ascensão no período entre Augusto e Nero: como se percebe na lista acima, são

basicemente os mesmo que arrolamos no conjunto do mos maiorum, tal como preconizado
104

por Cícero: Aequitas, Honos, Concordia, Libertas, Constantia; acrescidos de outros,

sintomáticos das pretensões de um regime autoritário: Aeternitas, Tutela, Securitas, Pax,

Veritas e Victoria. Além, é claro, daqueles ideais que o regime, desde Augusto, defendia:

Felicitas, Pudicitia, Salus, Spes; e de algumas deusas de fundamental importância no

imaginário popular: Ceres, Annona e Fortuna. Constata-se, portanto, que o regime

instaurado por Augusto preocupou-se em preservar o mos maiorum, assimilando-o ao

conjunto de (novos) valores propostos – por Augusto e seus sucessores – para o regime

imperial.

O sucessor de Tibério, Caio, cognominado Calígula, acabaria sendo o responsável

pelas primeiras crises no regime imperial: franco desrespeito pelo constitucional,

tendências abertamente autocráticas, desprezo pelas instituições, falência econômica do

Estado, tirania. Calígula logo veio a ser deposto pelas legiões em 41, e substituído por seu

tio Cláudio, a quem caberia (re)organizar o modelo imperial, reparando os estragos que

Calígula impusera à solidez do regime.

É durante fins do governo de Tibério ou início do de Calígula que Sêneca começa a

despontar no quadro político romano, como Cícero, também era advogado – embora seus

discursos não tenham sido preservados – e sabe-se que não desfrutava da simpatia do

imperador, podendo-se afirmar que a deposição desse salvou-lhe a vida.

O governo de Cláudio é outro capítulo da conturbada relação entre poder imperial e

Senado: Cláudio não desprezava a instituição, mas julgava inadequado o modo de vida

claramente epicurista de muitos senadores, e também a ineficácia administrativa das

províncias sob jurisidição senatorial.

Como legislador, Cláudio era ponderado e cauteloso, e muito do que estabeleceu foi

preservado ou recuperado pelos Flávios, a dinastia que sucedeu aos Júlio-Cláudios em 69

d.C. No terreno militar, Cláudio foi responsável pela definitiva anexação da Bretanha ao
105

Império (43 d.C.). Contudo, os escândalos provocados pela promiscuidade de sua mulher,

Messalina, que levaram à execução desta e ao casamento do imperador com Agripina,

fizeram ainda com que Cláudio decidisse adotar o filho desta, o jovem Nero, em

detrimento dos filhos da primeira esposa: Britânico e Otávia. (Sendo Nero mais velho,

tornava-se o primeiro na linha de sucessão).

No início do governo de Cláudio (41-54), Sêneca foi exilado na Córsega, sob

acusação de adultério; mas seu exílio seria revogado em 49, pois Agripina convence

Cláudio a nomeá-lo preceptor de Nero. Com a morte do imperador, Nero herda o trono e,

para consolidar sua posição, casa-se com sua irmã adotiva Otávia e trama o assassinato do

jovem Britânico.

Ao longo de todo este período, forma-se no Senado, lenta mas de modo crescente,

uma oposição ao regime imperial: saudosos do poder desfrutado na República, muitos

senadores questionam a validade do regime, alegando que, se necessária foi sua

instauração por Augusto, como forma de pacificar o imperium, sua continuidade tornou-se

odiosa às instituições e às liberdades do povo romano. Esse grupo vale-se dos valores

estoicos para aglutinar suas ideias de retorno à República e é por isso mesmo denominado

“oposição estoica”.

Vista até aqui a sucessão do Império, voltemos à pergunta de Bieler sobre quem

poderia traçar essa novamente necessária (re)configuração da identidade romana,

analisando o papel que nela desempenharão os “emergentes” do Império.

4.3 O “emergente” na sociedade romana

Para tanto, será necessário voltar ainda uma vez ao período republicano, em que,

ainda durante o período de expansão do império, a prática de assentamento de cidadãos nos


106

territórios conquistados fará com que, décadas depois, surja no panorama social uma figura

inteiramente nova: a daquele cidadão romano que, mesmo não-nascido na Urbe, muitas

vezes sequer na Itália, tem interesses na manutenção do poder romano em sua região, ao

mesmo tempo em que deseja influir nos destinos do Estado.

Essa figura emergente terá especial destaque nas regiões do Ocidente: Gália,

Espanha, Bretanha e norte da África, onde o estabelecimento do Império sob Augusto

representou, sob o ponto de vista das relações entre o centro e a periferia do mundo

romano, uma reorganização político-econômica que, equacionando o sistema tributário e

estabelecendo a paz, consolidou o sentimento de pertinência ao orbe latino, acelerando

ainda mais o processo de romanização destas províncias. Romanização esta que, tendo

preservado muito das antigas tradições e da identidade cultural romana, seria agora um

recurso para contrabalançar a influência do Oriente helenístico, conforme se detecta ao

retornarmos a Bayet:

Cette poussée d‟orientalisme hellénisant est pourtant contenue par l‟apport des
provinces occidentales où la langue latine, fixée par l‟usage classique, gagne
puissament. Après la Cisalpine et la Narbonnaise, l‟Espagne donne à Rome une foule
d‟ écrivains, Porcius Latro, les Sénèques et Lucain, Columelle, en attendant Quintilien
et Martial; et voici que, dès 48, la nouvelle Gaule peut aspirer au droit de cité complet,
tandis que la Bretagne s‟ouvre à la formation romaine et que l‟Empire s‟étend dans
l‟Afrique du Nord jusqu‟à l‟Océan. Sans doute ces provinciaux enrichissent-ils aussi
le cosmopolitisme romain de traits nationaux: on a reconnu, dans les Espagnols, l‟éclat
et l‟enflure superbe de la race. Mais leur formation, plus purement latine, les agrége
mieux au passé de Rome, (BAYET, 1953: 444)76

Se estes eram os homens capazes de injetar sangue novo no velho espírito romano,

fazendo com que, dentro do Império e apesar da censura política exercida pelos

imperadores, a cultura romana - principalmente a literatura - ingressasse em nova fase de

76
Esta onda de orientalismo helenizante é entretanto contida pelo aporte das províncias ocidentais onde o
latim, fixado pelo uso clássico, vence com vantagem. Além da Cisalpina e da Narbonense, a Espanha dá a
Roma uma fila de escritores, Pórcio Latro, os Sênecas e Lucano, Columela, esperando ainda Quintiliano e
Marcial; e eis que, desde 48, a nova Gália pode aspirar ao direito completo de cidadania, enquanto que a
Bretanha se abre à formação romana e o Império se estende da África do Norte até o Oceano. Sem dúvida
estes provincianos enriquecem-se também o cosmopolitismo romano com traços nacionais: reconheceu-se,
nos espanhóis, a explosão e a fúria soberba da raça. Mas sua formação, mais puramente latina, os prende
melhor ao passado de Roma.
107

sua história, foram também responsáveis pela ampliação dos horizontes culturais romanos,

que não mais estariam restritos a Roma, antes dar-se-ia o inverso, fato que levou o

historiador literário Ludwig Bieler a dividir a produção escritural deste período em

literatura latina e literatura romana:

Los conceptos de literatura romana y literatura latina se entrecruzan. El latín se


escribió y habló todavía mucho después de la caída y desmembramiento del Imperio
Romano de Occidente. En los Estados que surgieron de él siguió siendo el latín el
idioma literario; desde la época carolíngia (y en Irlanda todavía antes) fue la lengua
universal y unificadora, al lado de las lenguas de las literaturas nacionales. Aún hoy
continúa siendo el latín el idioma de la Iglesia romano-católica. Pero esto tiene poco
que ver con la historia de la literatura romana: tan sólo como supervivencia de formas
y motivos literarios, de técnicas y elementos estilísticos y, sobre todo, como tradición
de aquella literatura.
No todos los autores romanos escribieron en latín. (..)Pero desde la edad clásica de
la literatura romana, los países que participaron activamente en ella estaban del todo
romanizados: Italia desde conquistas, España desde los comienzos de nuestra
cronología, África desde el siglo II, y las Galias desde finales del siglo III. La creación
literaria de los hombres nacidos en tales países pertenece esencialmente a la literatura
romana; los romanos nativos de la misma capital apenas si la representan, salvo los
oradores: son los nativos del resto de Italia y luego de las Provincias los que nos
transmiten lo típicamente romano. Tal es el caso de Ennio en el siglo II antes de
Cristo, así como el de Rutilio Namaciano en el V después de Cristo. (BIELER,
1992:9-10)77

Se Bieler se aferra ao fato político de vigência do Império Romano para realizar sua

distinção, deixa no entanto inequívoco o fato de que a literatura produzida em latim

durante o Império é, sobretudo, obra daqueles romanos que agravam aquele paradoxo já

77
Os conceitos de literatura romana e literatura latina se entrecruzam. O latim se escreveu e falou ainda
muito depois da queda e desmembramento do Império Romano do Ocidente. Nos estados que daí surgiram,
continuou sendo o latim o idioma literário; desde a época carolíngua (e na Irlanda ainda antes) foi a língua
universal e unificadora, ao lado das línguas literárias nacionais. Ainda hoje continua sendo o latim a língua
da igreja católica romana. Mas isto tudo tem pouco a ver com a história da literatura romana: tão só como
sobrevivência de formas e motivos literários, de técnicas e elementos estilísticos e, sobretudo como tradição
daquela liteatura.
Nem todos os autores romanos escreveram em latim. (...) Mas desde a era clássica da literatura
romana, os países que participaram ativamente nela estavam completamente romanizados: Itália desde a
conquista, España desde o início de nossa cronologia, África desde o século II, e as Gálias desde fins do
século III. A criação literária dos homens nascidos em tais países pertence essencialmente a literatura
romana, os romanos nativos da capital em si a representam muito mal, salvo os oradores: são os nativos do
resto de Itália e logo das províncias os que nos trasmitem tudo que é tipicamente romano. Tal é o caso de
Ênio no século II antes de Cristo, assim como o de Rutílio Namaciano no V depois de Cristo.
108

expresso na figura de Cícero: se este, apesar de ser um cidadão não-citadino78, é, ao menos

oriundo da Itália; enquanto Sêneca provém de outras paragens.

Antes de passarmos às relações da cultura romana imperial com a doutrina estoica,

podemos apresentar já as seguintes conclusões : a) o Império foi a solução política possível

para uma crise que possuía duas faces: a de uma crise política motivada pela expansão de

um poderio econômico e militar que postergou além do devido sua adaptação à nova

realidade que esta mesma expansão ensejara e a de uma crise identitária surgida

inicialmente na aristocracia e que mais tarde espalhou-se às demais classes que disputavam

parcelas do poder na Urbe, b) que fica ainda patente que, apesar de solução política, o

império é incapaz, por si só, de resolver - ao contrário, agrava - a crise identitária que

tentara resolver, e que tornava-se ainda mais urgente uma renovação no espírito romano

que lhe garantisse a própria sobrevivência; por fim, c) evidencia-se ainda que esta

renovação só seria possível – como de fato ocorreu – capitaneada pelos romanos das

províncias, que haviam preservado em maior grau o espírito que ora se impunha salvar.

Como consequência do somatório destes fatos, ficava aberto o caminho para que

homens como Sêneca ocupassem os espaços sociais, culturais e políticos do Império, o que

de fato ocorreu já na geração de seu pai, conhecido como Sêneca, o Retórico.

4.4 “A consciência do Império”

Vimos, acima, como uma biografia de intelectual e, principalmente, de homem

público romano como a de Lúcio Aneu Sêneca é, ademais de mérito do próprio, tornada

78
Razão pela que preferiremos, neste trabalho, usar os termos literatura e cultura latina ao referimo-nos à
produção feita por estes romanos, não porque não reconheçamos a validade do argumento de Bieler, mas
porque, dados os limites temporais estabelecidos para este trabalho, essa distinção suplanta em importância
àquela.
109

possível graças às mudanças no panorama da sociedade romana ocorridas no século

anterior.

Apesar de não nos determos neste trabalho na biografia de Sêneca – sobejamente

tratada em obras como La Vie de Sénèque, de Auguste Bailly; Vie de Sénèque, de René

Waltz e Sénèque ou la conscience de l’Empire, de Pierre Grimal, além de toda uma plêiade

de historiadores, filósofos e literatos – haverá, contudo, alguns fatos que deverão ser

forçosamente mencionados, e para isso optamos por recorrer ao ligeiro esboço já traçado

por Pierre Grimal:

Sorti d‟une famille qui n‟avait d‟autre ambition que de servir, dévoué au régime
impérial, comme tous les provinciaux, qui lui devaient tout, Sènèque aimait
passionnément la vie politique. Il était profondément ambitieux, et il lutta toute sa vie
pour avoir le droit de se consacrer au service de la Cité. Mais, en même temps, il était
doué d‟une vie intérieure intense. Il était fasciné par rechercer dans la philosophie
comme une véritable initiation mystique et il est certain que son choix du Stoïcisme
fut moins dicté par sa raison que par son cœur. (GRIMAL, 1957: 35)79

Nascido, assim como seu pai, Sêneca o Retórico, em Córdova, na Espanha,

pertence à segunda geração de homens públicos romanos não nascidos em Roma, na

maioria das vezes sequer na Itália, e cuja produção intelectual busca realizar a adaptação

da identidade romana ao modelo imperial de governo, conferindo-lhe um novo formato.

É essa a geração que entroniza na capital a compreensão de que o império era maior

de que uma cidade e as regiões que dominara. Se Cícero era consciente de que a Vrbs

deveria tornar-se, cada vez mais, Orbis, a partir dessa geração, de que Sêneca é sem dúvida

o principal nome, o Orbe suplanta a Urbe, e o nome “romana” passa a designar antes a

cultura expressa em latim que aquela do Lácio, conforme Bieler nos alertou.

79
“Saído de uma família que não tinha outra ambição senão servir, devotada ao regime imperial, como todos
os provincianos, que lhe deviam tudo, Sêneca amava apaixonadamente a vida política. Era profundamente
ambicioso, e lutou toda sua vida para ter o direito de consagrar-se ao serviço da Cidade. Mas, ao mesmo
tempo, era dotado de uma intensa vida interior. Era fascinado para buscar na filosofia uma verdadeira
iniciação mística e estava certo de que sua opção pelo Estoicismo foi ditada menor pela razão que pelo
coração.”
110

Ademais, será essa a geração que realizará, visando resgatar as tradições culturais

romanas, preservadas em suas regiões de origem, um novo encontro destas tradições com o

estoicismo helênico, e, nessa tarefa, Sêneca desempenhará um papel crucial, uma vez que,

tendo sido presença constante na corte imperial durante os reinados de Tibério a Nero, e

tendo sido o preceptor deste último e governado de fato o Império durante os anos da

minoridade deste, Sêneca terá a oportunidade – tão preconizada pelos filósofos desde

Platão, e que Cícero tanto almejou – de orientar esse mesmo Império pelos princípios do

estoicismo que abraçara e que tanto defendia, como testemunham seus textos.

E de que consistiam estes textos? E por que teria Sêneca abraçado o estoicismo

como escola filosófica e tentado, através de Nero, impô-lo como norma e diretriz do

Império? Para responder corretamente a estas questões, deveremos primeiramente observar

como se construiu, ao longo dos anos, a produção textual de Sêneca.

4.4.1 O Estoico e o Trágico

Por seu trabalho intelectual, Sêneca é considerado também o maior filósofo de

língua latina, tendo como concorrentes Cícero – que tratou a Filosofia sempre pela ótica do

Direito, como afirmamos anteriormente - e Marco Aurélio – embora este tenha escrito em

grego suas Meditações. Além disso, a figura de Sêneca sobressai ante estes dois por razões

estabelecidas por Paul Veyne:

En Séneca, las consideraciones filosóficas van delante de las convicciones, o, antes


bien, no se separan de ellas, mientras que, en Cicerón, sentimos un ligero
desdoblamiento: la filosofía venía a realzar las convicciones, a manera de barniz.
Por último, el filósofo Séneca era al mismo tiempo, como Cicerón, un escritor, lo
que se reconoce en una cosa, aunque filósofos, uno y otro escribieron en latín y no en
griego. (...) Cicerón y Séneca escogieron el latín porque se sabían con capacidades de
escritor, porque querían enriquecer su literatura nacional, porque no deseaban
111

encerrarse en el medio de los especialistas, sino que apuntaban al gran público


cultivado. (VEYNE, 1993, p.31-32)80

Fica patente que o destaque de Sêneca fica devido a dois critérios distintos: suplanta a

Cícero porque este ainda usa a Filosofia como arcabouço para uma práxis que é, afinal,

jurídica, enquanto Sêneca a torna um campo autônomo de conhecimento - o que não

deixaria de ser um resultado da ação de Cícero em conferir um lugar para a Filosofia na

sociedade romana. Quanto a Marco Aurélio, a crítica fica no âmbito linguístico: ter

escolhido escrever em grego o desqualificaria como escritor latino – embora não, segundo

a categorização de Bieler já mencionada, como escritor romano. De qualquer modo, é por

estes dois motivos que o nome de Sêneca, e sua obra filosófica, são justamente lembrados

entre os maiores da Antiguidade Clássica. Todavia, há ainda, segundo Paul Veyne, uma

razão para que se coloque Sêneca no conjunto dos grandes escritores latinos: a inovação

estilística que sua prosa representa, e que é, por sua vez, mais um distintivo entre sua obra

e a de Cícero:

Una de las razones de la modernidad de su estilo: frases breves, claras, mordaces,


directas, que saben hacer accesibles algunas cuestiones a veces arduas por el medio de
uma metáfora súbita. Éste es el estilo de nuestra prosa de ideas desde Montesquieu, y
de nuestro gran periodismo. Pero en la Antigüedad ese estilo se encontraba en los
antípodas de lo que se consideraba gran estilo, a saber: de la elocuencia, de los
amplios períodos cicerónicos cuyo comienzo, a veces, ya ha olvidado el lector cuando
llega al final; no importaba: la elocuencia antigua era en general una especie de bel
canto y, como este último, atraía a incontables aficionados. Sin embargo, había
excepciones, como Demóstenes, cuyo método no consistía en encantar, mecer y
seducir, sino en proyectar sobre sus auditores un influjo nervioso que los cautivaba. El
estilo de Séneca sigue el mismo camino.
Una palabra más: pese a su claridad, Séneca debe ser tomado en serio como
filósofo; ha pasado la época en que se le consideraba un literato con barniz de
filosofía, cuyo estudio se dejaba a los especialistas en letras latinas. La claridad de su
superficie deja percibir fundamentos conceptuales muy firmes, que son los del
estoicismo griego en su versión auténtica. Séneca no fue un decadente ni un

80
“Em Sêneca, as considerações filosñficas vão à frente das convicções, ou, melhor, não se separam delas,
enquanto que, em Cícero, sentimos um ligeiro desdobramento: a filosofia vinha a realçar as convições, como
um esmalte.
Por último, o filósofo Sêneca era, ao mesmo tempo, como Cìcero, um escritor, fato que se reconhece
numa coisa, ainda que filósofos, um e outro escreveram em latim e não em grego. (...) Cícero e Sêneca
escolheram o latim porque se sabiam com capacidade de escritor, por que queriam enriquecer sua literatura
nacional, porque não desejavam fechar-se no meio dos especialistas, mas porque apontavam ao grande
público culto.”
112

vulgarizador que se dirigiera al pretendido “espíritu práctico” de los romanos.


(VEYNE, 1993, p.12)81

No que tange à categorização de sua produção intelectual, o conjunto da obra de

Sêneca que chegou até nós pode ser dividido em dois grupos; o primeiro destes, formado

pelos textos de caráter filosófico, subdividir-se-ia nos subgrupos dos textos filosóficos

propriamente ditos e o dos textos dramatúrgicos. Esta divisão, evidentemente falha, é feita

baseada no princípio de inserirmos no primeiro subgrupo aqueles textos em que o autor

fala diretamente – a um dado interlocutor – sobre as questões filosóficas, tais como

expostas e analisadas pelo estoicismo de que foi um dos mais eminentes representantes.

Podemos igualmente incluir neste primeiro subgrupo sua produção epistolar, em especial

as Ad Lucilium Epistolae Morales, artifício com que, graças à divulgação de sua

correspondência para círculos muito maiores que o de seu destinatário, Sêneca expunha a

doutrina de sua escola filosófica. Também alguns de seus poemas podem ser categorizados

neste primeiro subgrupo.

O segundo subgrupo seria composto pelas tragédias escritas por Sêneca. Sobre

estas, vale a exposição feita por Millares Carlo:

De argumento griego en su totalidad, fueron compuestas para la lectura y no para


ser llevadas a escena. Sus títulos son Hercules furens, Troades (Hecuba); Phoenissae
(Thebais); Medea; Phaedra (Hippolitus); Oedipus; Agamemnon; Thyestes y Oetaeus.
En algunos cñdices se aðade una “pretexta” intitulada Octauia, posterior a la muerte
de Nerón.
En general, se trata de piezas que no pueden resistir la comparación con las grandes
concepciones de los autores griegos que les sirvieron de modelo, por lo común

81
Uma das razões da modernidade de seu estilo: frases breves, claras, mordazes, diretas, que saber tornar
acessíveis algumas questões às vezes árduas por meio de uma súbita metáfora. Este é o estilo nossa prosa de
ideias desde Montesquieu, e de nosso grande jornalismo. Mas na Antiguidade esse estilo se encontrava nas
antípodas do que se considerava “grande estilo”, a saber: da eloquência, dos amplos períodos ciceronianos
cujo começo, às vezes, o leitor já tinha esquecido quanto chegava ao final; não importava: a eloquência
antiga era em geral uma espécie de bel canto e, como este último, atraía a incontáveis fãs. Entretanto, havia
exceções, como Demóstenes, cujo método não consistia em encantar, mover, e seduzir, mas em projetar
sobre seus ouvintes um influxo nervoso que os cativava. O estilo de Sêneca segue o mesmo caminho.
Uma palavra mais: apesar de sua clareza, Sêneca deve ser levado a sério como filósofo, passou já o
tempo em que se lhe considerava um literato com verniz de filosofia, cujo estudo se deixava para os
especialistas em letras latinas. A clareza de sua superfície deixa perceber fundamentos conceituais muito
firmes, que são os do estoicismo grego em sua versão autêntica. Sêneca não foi um decadente nem um
vulgarizador que se dirigisse ao pretenso “espírito prático” dos romanos.
113

Sófocles y Eurípides. Hay, sin duda, en ellas admirables pasajes, pensamientos


bellísimos, descripciones brillantes, coros llenos de gracia y de encanto; pero,
juzgadas en conjunto, adolecen de frialdad, de falta de intriga, reemplazada por los
relatos demasiadamente largos; las pasiones son excesivas y la inoportuna verbosidad
resta eficacia a los sentimientos que se trata de poner en juego. (MILLARES CARLO,
1995:152)82

Consideradas, pois, não só por Millares Carlo mas pela maioria dos críticos, como o

ponto fraco de sua produção, os defeitos apontados nas tragédias de Sêneca traem a

intenção do autor em novamente demonstrar, desta vez usando a fórmula do drama, as

ideias filosóficas que defendia: tratava-se, enfim, da submissão, pura e simples, do Teatro à

Filosofia.

Já o segundo grupo seria formado por um grupo de 70 epigramas – quase todos de

discutível autoria – e pela sátira Diui Claudii Apocolocyntosis, composta por ocasião da

morte de Cláudio, que nos anos iniciais de seu governo, ordenara seu exílio na Córsega.

A datação de cada obra de Sêneca em particular é tema complexo, se algumas têm a

data facilmente dedutível, sobre outras permanecem dúvidas sem solução, contudo, sabe-se

que sua produção se dá entre os anos 40 e 65 d.C., ano de sua morte; entretanto importa

mais ainda ressaltar que, mesmo sendo uma obra tão vária e dispersa entre tantos textos, o

pensamento filosófico de Sêneca apresenta – ao contrário do de Cícero, e até porque este,

apesar de seus escritos, jamais foi, a rigor, um filósofo - uma linearidade quase absoluta.

Uma vez que a concepção contemporânea de filósofo – aquele que se dedica à

especulação filosófica ou ao ensino da Filosofia - é distinta daquela em voga na

82
De argumento totalmente grego, foram compostas para leitura e não para serem encenadas. Seus
títulos são Hercules furens, Troades (Hecuba); Phoenissae (Thebais); Medea; Phaedra (Hippolitus);
Oedipus; Agamemnon; Thyestes e Oetaeus. Em alguns códices acrescenta-se uma “pretexta” intitulada
Octauia, posterior à morte de Nero.
Em geral, trata-se de peças que não podem resistir à comparação com as grandes concepções dos
autores gregos que lhes serviram de modelo, comumente Sófocles e Eurípides. Há, sem dúvida, nelas
admiráveis passagens, pensamentos belíssimos, descrições brilhantes, coros cheios de graça e encanto; mas,
julgadas em conjunto, empalidecem pela frieza, falta de intriga, substituída por relatos demasiadamente
longos; as paixões são excessivas e a inoportuna verborragia rouba eficácia aos sentimentos que trata de
representar.
114

Antiguidade, definida mesmo a partir de uma diferença fundamental na própria concepção

de Filosofia, posto que

En el mundo grecorromano, la filosofía era cuestión de sectas, como en el Lejano


Oriente; un filósofo no se interesaba en la filosofía en general, sino que era platónico o
pitagórico o epicúreo o, como Séneca, estoico. La filosofía no era materia de
enseñanza universitaria, sino un estudio sublime que atraía a aficionados ricos, como
Séneca, y que daba de vivir a preceptores privados. (VEYNE, 1993:11) 83

é válido questionarmo-nos sobre a real adesão de Sêneca à escola estoica. Adesão esta já

questionada pelo mesmo Paul Veyne, na obra que vimos citando - Séneca y el estoicismo –

e também relativizada por Pierre Grimal, que prefere defender haver em Sêneca boas doses

de ecletismo e de independência:

Sénèque est un penseur d‟obédience stoïcienne. Il le proclame bien souvent, et se


vante d‟appartenir à l‟école la plus “virile”, et qui a porté le plus haut l‟idéal de la
Vertu. Toutefois, si sa pensée trouve appui dans le Stoïcisme, lui-même ne se
considère pas comme esclave de l‟Ècole. Il nous en avertit plusieurs fois, et affirme sa
défiance des formules proposées par tel ou tel maître du Portique. Nous le voyons,
dans le traité de la Vie heureuse, par exemple, s‟amuser à opposer les unes aux autres
toutes les définitions stoïciennes du bonheur, à montrer leur équivalence, pour en fin
de compte, en proposer une autre, qui lui est personnelle.
Souvent, aussi, il adopte des sentences épicuriennes. Les premières Lettres à
Lucilius se terminent toutes par quelque formule empruntée à l‟école rivale, dont il
affirme avec malice la vérité et la profondeur.
Pour toutes ces raisons, l‟on a souvent considèré Sènèque comme un éclectique
et un philosophe, sinon entièrement original, du moins indépendant. (GRIMAL, 1957:
40-1)84

Apesar, contudo desta aparente independência, estudos mais minuciosos do pensamento

senequiano logo demonstrarão que Sêneca diverge do estoicismo apenas naquilo que lhe é

83
No mundo greco-romano, a filosofia era uma questão de seitas, como no Extremo Oriente; um filósofo não
se interessava pela filosofia em geral, mas era platônico ou pitagórico ou epicúreo ou, como Sêneca, estoico.
A filosofia não era matéria de ensino universitário, mas um estudo sublime que atraia a aficcionados ricos,
como Sêneca, e que dava emprego a preceptores privados.
84
Sêneca é um pensador de obediência estoica. Ele o proclama frequemente, e se vangloria de
pertencer à escola mais “viril” e que elevou mais alto o ideal da Virtude. Entretanto, se seu pensamento
encontra apoio no Estoicismo, ele mesmo não se condidera um escravo desta escola. Ele nos adverte muitas
vezes,e afirma sua desconfiança das fórmulas propostas por tal ou qual mestre do Pórtico. Nós vemos, no
tratado Sobre a Vida Feliz, por exemplo, divertir-se a opor umas às outras todas as definições estoicas da
felicidade, a mostrar sua equivalência, para ao fim, propor outra, pessoal.
Frequentemente, também, ele adota sentenças epicúreas. As primeiras Cartas a Lucílio terminam
sempre por alguma fórmula emprestada da escola rival, que ele afirma com malícia a verdade e a
profundidade.
Por todas essas razões, frequentemente considerou-se Sêneca como eclético e um filósofo, senão
inteiramente original, ao menos independente.
115

secundário: a dialética, o excesso de minúcias e sutilezas - o que é, aliás, uma atitude bem

coerente com o pragmatismo romano. Logo, vale mais ater-se ao alerta emitido por

Grimal: “ ... il convint de ne pas être dupe des apparences, et surtout, de notre

connaissance, malheureusement fragmentaire, des sources de Sénèque. L‟orthodoxie

stoïcienne pèse sur lui bien plus qu‟il ne le dit.” (GRIMAL, 1957: 41)85

Entretanto, como pensador, Sêneca também acrescenta algo de seu à moral estoica:

a consciência de que o alcance dessa moral - por quem se dedique ao estoicismo -

significará um ato deliberado e voluntário de construção de uma harmonia que deverá

buscar consonância com a natureza, isto será demonstrado na seguinte citação – longa

porém necessária – de Aubenque et al.:

A moral estoica foi entretanto, desde a Antiguidade, tachada de incoerência. Viu-se


nela um conflito latente entre uma inspiração naturalista, que nos prescreve viver em
conformidade com a natureza, e uma inspiração precursoramente “formalista”, que
tenderia a definir a vida do sábio por sua harmonia interna, ela própria adquirida ao
preço de uma „indiferença” geral às circunstâncias exteriores. De fato, não há
contradição entre essas duas aproximações se se quer com efeito lembrar-se que a
própria natureza é concebida pelos estoicos como um todo solidário e harmonioso, de
maneira que, passando da harmonia representada da natureza à harmonia efetivamente
realizada em si mesmo, o sábio nada mais faz, para retomar uma expressão de V.
Goldschmidt, que realizar a mesma “estrutura” em diferentes níveis.
Não deixa de ser verdade que os estoicos hesitaram sobre o como dessa passagem.
O ideal teria sido deduzir a regra prática de uma interpretação da ordem do mundo.
Mas a ordem do mundo não se deixa sempre facilmente reconhecer no detalhe; o
estoicismo exige então de nós um ato de fé na racionalidade oculta do universo,
completado por uma técnica do uso das representações: trata-se, com efeito, de
considerar como indiferente o que é em si explicável, logo racional, mas que não
sabermos ainda explicar: a doença, o sofrimento, a morte etc. Essa técnica provisória
corria o risco de se enrijecer num indiferentismo generalizado, parente próximo do
ceticismo. É o que sucedeu, desde a segunda geração do estoicismo, com a dissidência
de Ariston de Quios (primeira metade do séuclo II a.C.), que ensinava que a dialética e
a física, já que a virtude é o único bem, nada mais são que curiosidades vãs.
(AUBENQUE et alii, 1981:178-180)

Este reconhecimento, por parte de Sêneca, de que a vida moral consiste em dominar

uma natureza humana sobre a qual a paixão exerce um poder de atração ainda mais

sedutor, será a chave que nos possibilita entender diversos dos seus textos, como De Vita

85
“convém não se enganar pela aparências, e sobretudo, por nosso conhecimento, infelizmente fragmentado,
das fontes de Sêneca. A ortodoxia estoica pesa sobre ele mais do ele assume.”
116

Beata, De Tranquilitate Animi, De Breuitate Vitae, etc. Também nos esclarece a razão de

haver-se decidido por, repisando as pegadas de Cícero, defender o valor do estoicismo

como escola destinada a capitanear seu intento de recuperação das tradições culturais

romanas: como Cícero já demonstrara, havia, entre a natureza desta escola e a das

tradições, uma identidade de princípios que bastava apenas expor sob a nova roupagem do

regime imperial.

Esta nova roupagem impunha-se inclusive como necessária, uma vez que não

existia, desde Augusto, qualquer ideologia que justificasse ou sustentasse o regime

imperial – fato que era excelente argumento para a oposição estoica -, o qual, se havia se

sustentado pelas figuras de Augusto e de Tibério, fora duramente abalado pelo governo de

Calígula e pelas crises entre Cláudio e o Senado.

Cremos que, com a intenção de criar essa ideologia de sustentação ao regime,

Sêneca construirá dois textos de suma importância para a compreensão daquele momento

histórico: De clementia e De Beneficiis.

Vale esclarecer, a identificação das crenças estoicas com as tradições culturais

romanas não foi estratégia exclusiva de Sêneca: essa simbiose teve um êxito que ultrapassa

mesmo os limites do regime imperial que dele se valia: através de Lucano, sobrinho de

Sêneca, a “oposição estoica” tentará também encaminhar-se no rumo da Literatura:

compositor da epopeia Pharsalia, nela Lucano celebra a velha ordem republicana, em

contraposição à Eneida. Porém, voltemos a Sêneca, analisando desta vez a sua participação

no governo de Nero.
117

4.4.2 A “Eminência Parda” do Quinquennium Neronis

Como mencionamos, ainda durante o governo de Cláudio, Sêneca, que se

encontrava exilado na Córsega em razão de um processo de adultério, é chamado a Roma

para que se encarregasse da educação de Nero, sobrinho, filho adotivo e provável herdeiro

do imperador. Com a morte de Cláudio em 54, Nero assume o governo e, orientado por

Sêneca e Burrus, inaugura o que promete ser um período de paz e prosperidade capaz de

superar o do próprio Augusto. De fato, o início de seu governo aponta para o cumprimento

dessas promessas, tem-se pois o início do que a História denominou quinquennium

Neronis. Muito embora exista uma controvérsia a respeito deste termo, já que como nos

explica Vizentin:

... a formulação do conceito do quinquennium Neronis teria surgido a partir de Aurélio


Vítor, historiador latino que viveu na segunda metade do século IV (em Liber de
Caesaribus V, 1-2 – obra que abrange os governos de Tibério a Constâncio II, e
Epitome de Caesaribus V, 2-5). Em sua obra, a expressão quinquennium Neronis teria
sido usada por Trajano (98-117) como sinal de aprovação às construções e aquisições
provinciais realizadas por Nero. Esse quinquennium sempre foi identificado com os
cinco primeiros anos do Principado neroniano, quando teria governado sob os
conselhos de Sêneca. Na realidade, apurou-se que Trajano se referia aos últimos cinco
anos, período em que, efetivamente, Nero procedeu a imúmeras reformas na cidade de
Roma, e quando foram anexados o Ponto (em 64) e os Alpes Cotianos (por volta de
63). (VIZENTIN, 2005: 47)

Controvérsias à parte, o fato é que no período entre sua subida ao poder (54) e o momento

em que ordena a morte de Agripina, sua mãe (59), o exercício do poder por Nero anuncia

uma tranquilidade inusitada, quando comparado ao de seus três antecessores. É sem dúvida

o momento em que a Filosofia ocupa o trono, embora devamos ressaltar que, apesar de ser

a eminência parda do poder, Sêneca não ocupa nele qualquer cargo oficial: seu papel de

conselheiro é totalmente informal e subsiste apenas graças à vontade de Nero.

Se Sêneca aparenta ser, neste momento, apenas um auxiliar convenientemente

discreto em uma posição aparentemente secundária, o exame de sua produção textual trai-
118

lhe a sua intenção: é durante o quinquennium Neronis que produzirá textos como De Ira,

em que o governo de Calígula é longamente criticado, pelo seu aspecto tirânico. Além

disso, trata Sêneca de plantear, junto a seus leitores, as questões que Veyne aponta:

¿hay que suprimir completamente los afectos, o podemos moderarlos, regularlos, con
el fin de darles una utilidad? ¿Es esto posible, aunque difícil y arriesgado? ¿O bien la
afectividad es una cosa tal que hacer eso sea imposible y hasta absurdo? Y, ¿cuál es el
papel del intelecto y del juicio en la afectividad? (VEYNE, 1993: 200)86

como se estivesse preparando seu público para aquela síntese que objetiva realizar, Sêneca

evidencia também porque um governo venal como o de Calígula não poderia de modo

algum ser tomado como modelo. Entretanto, sua tarefa de “demolição” não se detém neste

ponto: sua obra seguinte é a Apocolocyntosis Diui Claudii, publicado justo após a morte de

Cláudio e que narra a ascensão deste aos céus... transformado em abóbora! Este texto, uma

sátira menipeia, visaria demonstrar que, apesar das boas intenções de Cláudio, seu governo

estaria fadado ao fracasso por faltar-lhe aquele norte filosófico de que o governo de Nero

se servia. Segundo Vizentin no conjunto destes textos - De Ira e Apocolocyntosis Diui

Claudii -:

podem ser observados elementos de uma teoria de poder monárquico explicitamente


esboçados e fundados sobre o estoicismo mais ortodoxo, característica que lhe
garante, inclusive, a prerrogativa de orientação política para o primeiro período da
administração neroniana. (VIZENTIN, 2005: 46)

Já em 55, Sêneca publica um texto, De Clementia, obra composta originalmente em

três livros, dos quais nos restam unicamente o primeiro e uma parte do segundo. Neste

texto, Sêneca constrói toda uma nova teoria do poder, baseada na figura do Princeps, e na

qual se demonstra com clareza como deve o soberano nortear sua conduta, pautando-a

sempre pelos ditames do Estoicismo. Cremos, pois, valer a pena analisarmos com mais

vagar esta obra, juntamente com De Beneficiis.

86
Devem-se suprimir completamente os afetos, ou podemos moderá-los, regulá-los, com o fim de dar-lhes
uma utilidade? Isto é possível, ainda que difícil e arriscado? Ou então a afetividade é uma coisa tal que fazê-
lo seja impossível e até mesmo absurdo? E, qual é o papel do intelecto e do julgamento na afetividade?
119

4.4.3 De Clementia e De Beneficiis.

De clementia, podemos afirmá-lo, representa para o período de Nero o que o De Re

Publica representou para o Primeiro Triunvirato: uma tentativa de, através de uma síntese

das principais teorias de poder, possibilitar à Filosofia intervir no jogo político.

Contudo, há também algumas diferenças: se Cícero propusera um conjunto de

ideias que, mesmo direcionadas aos triúnviros, podiam estabelecer novos valores para toda

a população romana, Sêneca, uma vez que em seu tempo toda participação política

encontra-se anulada, escreve unicamente àquele que ainda tem poder de ação: o próprio

imperador. E por que o faz? Porque, ademais da necessidade de dar lastro ao regime, era

necessário, para tranquilizar a oposição, valer-se dos mesmos argumentos que utilizava,

esvaziando-lhe o discurso. Por outro lado, Sêneca percebia também que os já passados

oitenta anos de instauração do império construíram uma visão sobre a conduta do

governante, algo que mesmo Nero não poderia desdenhar. Daí que Paul Veyne possa

sintetizar o conteúdo deste texto da seguinte maneira:

Si Séneca parece dar a la clemencia una importancia exagerada es porque ésta se


situaba en el único margen de libertad de acción que un soberano podía dar muestras
de su carácter y de su moderación: su manera de tratar a los culpables de atentados
contra él o contra uno de sus súbditos; la clemencia es la pequeña diferencia
reveladora. Un rey inclemente revelará, al serlo, un alma de tirano; sus súbditos no
soportarán tener que obedecer a smejante alma, y Séneca advierte a Nerón que
untirano termina derrocado o asesinado.
La lección de De la clemencia es, por último, ésta: Roma debe aceptar ese régimen
monárquico que es una realdiad desde hace casi un siglo; en efecto “es la naturaleza la
que ha inventado la realeza”. Y, a la inversa, el príncipe se comportará como un buen
120

rey, sabrá autolimitarse, considerará que es el servidor de los gobernados, en lugar de


ser su amo. (VEYNE, 1993, p.34)87

Fica claro que, em De clementia, Sêneca se vale da natureza para justificar a

monarquia, isto não sendo mais de que assentar a monarquia sobre uma base

exclusivamente estoica, já que, se o estoicismo exigia fé na racionalidade do universo, i.e.,

da natureza, nada mais coerente, , portanto,, que o governo do Império – naquele instante

histórico praticamente todo o universo conhecido - se constituísse a sua imitação, logo o

De clementia se mostra

...as the sketch for an ideal political program based on fairness and moderation.
Seneca does not discuss the constitutional legitimacy of the principate or the openly
monarchic forms that it had now assumed; the only power was the power that
conformed to the Stoic conception of a cosmic order governed by logos (“universal
reason”), the power most suitable for representing symbol of the many peoples
making up the Empire. (CONTE, 2004: 412)88

Cabe então inquirirmo-nos por que De clementia se configura como um Contrato

Social avant-la-lettre? Seria intenção de Sêneca tão somente a de orientar Nero no sentido

de que este realizasse um governo baseado nos princípios estoicos, ou, através deste

governo, Sêneca pretendia, ao passo que apaziguava os ânimos da oposição estoica e

conferia aos súditos do Império uma sensação de segurança, reafirmar, mais uma vez sob o

envoltório da doutrina estoica, os valores tradicionais da cultura romana, o mos maiorum?

Inclinamo-nos pela segunda opção, uma vez que Sêneca é fiel aos valores de sua classe – a

oligarquia do Ocidente do Império -, aos valores do próprio Império, e aos de sua corrente

87
“Se Sêneca parece dar à clemência uma importância exagerada é porque essa se situava na única margem
de liberdade de ação que um soberano podia dar mostras de seu caráter e de sua moderação: sua maneira de
tratar aos culpados de atentados contra ele ou contra um de seus súditos; a clemência é a pequena diferença
reveladora. Um rei inclemente revelará, ao sê-lo, uma alma de tirano; seus súditos não suportarão ter que
obedecer a semelhante alma, e Sêneca adverte a Nero que um tirano termina derrubado ou assassinado.
A lição de De clementia é, por último, essa: Roma deve aceitar esse regime monárquico que é uma
realidade há quase um século; de fato, “é a natureza que inventou a realeza”. E, por sua vez, o príncipe se
comportará como um bom rei, saberá autolimitar-se, considerará que é o servidor dos governados, em lugar
de seu amo.”
88
“... como o esboço de um programa político ideal baseado em bondade e moderação. Sêneca não discute a
legitimidade constitucional do principado ou as formas abertamente monárquicas que ele agora assumiu; o
único poder era o poder conformado à concepção estoica de uma ordem cósmica governada pelo logos
(“razão universal”), o poder mais adequado como símbolo de representação de alguns dos povos pertencentes
ao Império.”
121

filosófica e, além de que a oportunidade, surgida através da posição privilegiada que lhe

caiu nas mãos, de unificar os três conjuntos de valores e colocá-los, através da Filosofia, no

trono do Império era algo que não poderia ser desperdiçado.

Paralelamente a De clementia, Sêneca publica, em sete livros, o texto que nos

chegou com o nome de De Beneficiis. Nesta obra, Sêneca trata de outro assunto importante

para aquele momento: a circulação de riquezas no Império.

Recordando-se que, desde o início de sua expansão, uma das formas de

enriquecimento das camadas superiores da população foi a pilhagem, pura e simples, dos

territórios conquistados e sua posterior exploração em prol dos conquistadores, fato que

quase sempre demandava um investimento inicial, mas que tornava a região uma das áreas

produtivas do imperium. Claro, esse segundo momento garantia um afluxo perene, porém

lento, de riquezas; sendo a conquista o fato que trazia um rápido aporte de valores à Urbe;

contudo se Cláudio conquistara a Bretanha – território pobre em riquezas imediatas, e que

demandaria sérios investimentos até que se tornasse produtivo; desde a incorporação do

Egito não se realizavam novas conquistas capazes de, realmente, aportar à capital aquelas

fortunas do passado.

Este fato acarretava uma situação até então não enfrentada por Roma: sem o

incremento nas riquezas, era necessário administrar-se aquelas já existentes e, manter

operacional a economia. Mas havia outro elemento complicador, pois como Pierre Grimal

nos recorda: “Rome a hérité de son passé républicain une hiérarchie sociale censitaire. Il y

a toujours des sénateurs, des chevaliers et tous les degrés de fortune, chacun s‟entourant du

train de maison correspondant à ses responsabilités dans la cité.” (GRIMAL; 2004:178)89

89
Roma herdou de seu passado republicano uma hierarquia social censitária. Há sempre senadores,
cavaleiros e todos os degraus de riqueza, cada um se cercando do serviço doméstico correspondente a suas
responsabilidades na cidade.
122

Numa sociedade em que o clientelismo era a regra, e ter clientes demandava sérias

despesas pessoais, a imposição de freios no afluxo de riquezas demandava também a

reorganização da vida econômica, tal fato também seria um ensejo para o abandono dos

prazeres epicuristas e para o retorno às tradições, menos danosas para o orçamento, pessoal

ou público.

Deste modo, De beneficiis esconde, sob a análise das relações de favores que se

entrelaçam por toda a sociedade, uma teoria de administração da riqueza no Império.

Nesta, Sêneca adverte que, vivendo o homem em sociedade, toda a riqueza a essa

sociedade pertence – e temos novamente o homem romano reduzido a sua condição de

“servo da cidade” – cabendo ao cidadão apenas sua momentânea administração. Assim,

sendo a riqueza coletiva, podia ser utilizada ou requisitada pelo poder público, a quem

cabia, em última análise, a gestão do patrimônio coletivo da Urbe.

Logo poderíamos pensar que Sêneca – até porque foi também banqueiro – traçava

uma justificativa para a intervenção do estado na economia, ou para o sequestro dos bens

dos desafetos políticos do imperador. Contudo, a finalidade era também outra: sendo,

como dito, coletiva a riqueza, da e na Urbe, o modelo político garantia que a circulação da

moeda se desse a uma velocidade suficiente para gerar uma impressão de riqueza aparente

que diminuiria a insatisfação com o regime – que se responsabilizava diretamente por

outras tarefas capazes de minorar as necessidades da massa, como a distribuição, gratuita,

de trigo à população.

Nesse aspecto,vale analisar o seguinte dado que nos é trazido novamente por Pierre

Grimal:

Tout le De Beneficiis est un effort pour rompre les cadres sociaux, et les remplacer par
des relations d‟homme à homme. Et c‟est là une prédication singulièrement opportune
123

dans une société où l‟accroissent des fortunes tendait à former, dans les maisons de
l‟aristocratie, de véritables armées serviles. (GRIMAL; 2004:181)90

Assim sendo, Sêneca pretende moldar não apenas o Princeps, mas, intervindo na

significação e na função social da riqueza – que sai do caráter individual para o coletivo –

interviria, por tabela, em toda a gama de valores materiais da sociedade romana. Essa

intervenção acarretaria também um transformar-se essa mesma sociedade que, pretendia

Sêneca, abraçaria o Estoicismo a partir de uma razão pragmática: a gestão dos bens

materiais.

É claro, tendo sido filósofo e banqueiro, Sêneca foi diversas vezes acusado de não

viver segundo o que pregava. Contudo, recorrendo-se novamente a Grimal, percebe-se a

razão de ter Sêneca vivido segundo esse paradoxo:

La richesse ne peut être rejetée a priori: un philosophe sans responsabilité politique,


tel Démétrius le Cynique, qui fréquentait volontiers la table de Sénèque, a le droit de
professer un mépris total pour les biens de Fortune et de refuser les présents du Prince.
Sénèque, engagé dans son action auprès de Néron, investi de responsabilités
immenses, ne peut le faire. (GRIMAL; 2004:178)91

Desse modo, entre Cícero e Sêneca repousa uma diferença crucial: ao segundo foi

dada a oportunidade de pôr em prática ideias que moldariam a sociedade romana de seu

tempo - e também a dos pósteros -, usando, para isso, a própria estrutura do poder.

Configura-se, pois, através da ação de Sêneca, um tipo particular de simbiose:

como em Cícero, o estoicismo torna-se veículo para a reformulação da identidade cultural

romana porque comporta nova significação para velhos valores, que já vinham caindo em

desuso, ao passo que, justamente por tornar-se co-fundamento para essa nova identidade

cultural, era alçado da condição de escola filosófica para a de doutrina – oficiosa – de

90
“Todo o De Beneficiis é um esforço para romper os níveis sociais, e substitui-los por relaçãoes de homem
a homem. E eis aí uma prédica sigularmente oportuna numa sociedade onde o crescimento das fortunas
tendia a formar, nas casas da aristocracia, verdadeiros exércitos servis.”
91
A riqueza não pode ser rejeitada a priori: um filósofo sem responsabilidade política, como Demétrio o
Cínico, que frequentava com prazer a mesa de Sêneca, tem o direito de professar um total desprezo pelos
bens da Fortuna e de recusar os presentes do Príncipe. Sêneca, engajado em sua ação junto a Nero, investido
de imentsas responsabilidades, não pode fazê-lo.
124

Estado. Os reflexos dessa simbiose serão, claro, percebidos, no como Sêneca (re)configura

a romanidade: diferentemente de Cícero, Sêneca não estabelece novos valores à

romanidade, contudo, confere nova carga de significados aos valores já existentes –

inclusive àqueles que Cícero consagrara.

Obviamente, o primeiro destes seria o da própria Clementia. Conceito que, como

vimos anteriormente, era oriundo da cultura grega e aplicava-se somente à esfera privada,

foi catapultado por Sêneca à esfera pública e tornado prerrogativa do governante – o que

não deixa de significar ao mesmo tempo uma extensão do conceito para o nível

governamental, e sua manutenção na esfera privada, já que de uso restrito pela pessoa do

imperador.

Contudo, vale recordar que os esforços de Sêneca em orientar o desempenho de

Nero estavam condenados ao fracasso: após a morte de Burro, dá-se a ascensão de

Tigelino, que afasta Nero dos valores que até então trilhara. Ocorre também o divórcio - e

posterior assassinato – de Otávia e o casamento de Nero com Popeia. Com o assassinato de

Agripina (59), o governo de Nero se encaminhará segundo uma trajetória de crescente

violência, e afastar-se-á em definitivo dos propósitos traçados por Sêneca.

Tendo perdido seu espaço na corte, desiludido, o filósofo se retira da cena política

da capital, não sem antes devolver a Nero todas as benesses dele recebidas, em 62, mesmo

ano em que Nero condena Otávia à morte, iniciando uma vida de recolhimento em sua

uilla, onde escreve as Ad Lucilium epistolae morales, série de cartas em que torna a

divulgar seus ideais estoicos e nas quais, veladamente, tece uma série de críticas à conduta

de Nero. Sendo essa a razão pela qual faremos aqui alguns comentários a respeito desta

obra que apresenta novas proposições sobre a identidade romana.


125

4.5 Ad Lucilium Epistolae Morales

As Ad Lucilium Epistolae Morales serão a obra de maior fôlego e importância de

Sêneca, escritas durante os anos de 62 a 65, enquanto o filñsofo desfrutava seu “retiro”, as

Epistolae constituem-se em verdadeiro curso – a distância – de filosofia. A estrutura das

124 cartas que nos chegaram demonstram terem sido escritas pensando-se em possível

divulgação. Daí não ser completamente inusitado que o filólogo romeno Eugen Cisek,

citado por Martin & Gaillard (1993), defenda que

...il faudrait distinguer trois groupes de lettres: les 45 premières seraient des lettres
réellement envoyées à Lucilius, et publiées pratiquement sans retouches; les lettres 46
à 88 auraient été remaniées et développées par Sénèque en vue de la publication, et
seraient en quelque sorte à demi authentiques; enfin les lettres 89 à 124 auraient été
rédigées directement pour la publication, et Lucilius en serait le dédicataire plutôt que
le destinataire. (MARTIN;GAILLARD, 1993:462)92

Mas não é apenas em seu conteúdo que repousa a importância das Epistolae:

distintamente da correspondência de Cícero, de caráter pessoal, a de Sêneca, tendo sido

compostas com o esmero de quem já visava sua possível publicação, acabam por ser a

matriz de um novo gênero da literatura latina: o chamado gênero epistolar 93.

Evidentemente, a origem deste gênero estaria também na literatura grega: Platão, e

principalmente, Epicuro, dele se valeram com frequência.

A primeira coisa que se detecta na leitura das cartas é que a “retirada” de Sêneca da

vida pública é uma semiverdade: se não tem mais qualquer proximidade com o poder, isso

não significa que esteja se dedicando ao ócio, já que o seu é o otium cum dignitate dos

92
“...deveríamos distinguir três grupos de cartas: as 45 primeiras seriam cartas realmente enviadas a Lucílio,
e publicadas praticamente sem retoques; as cartas 46 a 88 teriam sido reescritas e desenvolvidas por Sêneca
visando à publicação, e seriam, portanto, semiautênticas; enfim, as cartas 89 a 124 teriam sido redigidas
diretamente para publicação, e seriam antes dedicadas que destinadas a Lucílio.”

93
Evidentemente as Heroides de Ovídio podem também pleitear este título, contudo devemos considerar o
fato de que, no caso de Sêneca, realmente existe um destinatário.
126

antigos: “In hoc me recondidi et fores clusi, ut prodesse pluribus possem. Nullus mihi per

otium dies exit: partem noctium studiis uindico: non uaco somno, sed succumbo et oculos

uigilia fatigatos cadentesque in opere detineo. (SÊNECA, Ad Lucil. VIII, 1)94

De fato, é nesse período que Sêneca produz, além da correspondência com Lucílio,

os livros denominados Naturales Quaestiones, em que apresenta a visão estoica da

natureza, uma visão que encontra, na hierarquia dos seres, justificativa para a estratificação

social do Império.

Uma estratificação que, afinal, lhe é interessante defender, já que Sêneca, mesmo

tendo abandonado grande parte de sua fortuna ao deixar Roma, era ainda oriundo da elite

socioeconômica do Império, para a qual percebe-se, subjacente na retórica, o interesse em

conferir unidade ideológica. Não nos iludamos, pois, a visão política de Sêneca é tão

aristocrática quanto possível, com os diferenciais de que: a) não identifica - nem poderia

fazê-lo - a aristocracia do Império com a da República: esta se restringiria à da Urbe,

aquela, incluiria as elites das províncias – principalmente as do Ocidente, mais

profundamente romanizadas, e b) se é um aristocrata, não deixa de ser sensível às

necessidades das massas, mesmo as escravizadas, para quem defende não só um melhor

tratamento, mas também que sejam alcançadas pela ideologia estoica que propunha como

de Estado, como bem definirá Gian Biagio Conte:

In fact the Senecan ethic remains profoundly aristocratic, and the Stoic sapiens who
expresses his sympathy for ill-treated slaves also manifests openly his inalterable
disclain for the masses of people who have been rendered brutish by the spectacles in
the circus. (CONTE, 2004:415)95

94
“Se me recolhi em casa e fechei as portas foi para poder seu útil a um maior número. Nem um único dia
me chega ao fim na ociosidade; parte da noite, reservo-a para os meus estudos; não me disponho ao sono –
sucumbo a ele, e deixo repousar sobre o meu trabalho os olhos cansados da vigília e já prestes a cerrar-se.”
95
“De fato, a ética senequiana permanece profundamente aristocrática, e o sapiens estoico que expressa sua
simpatia por escravos maltratados também manifesta abertamente seu inalterável desdém para com as massas
que foram embrutecidas pelos espetáculos do circo.”
127

Sêneca manifesta, portanto, uma visão próxima à dos déspotas esclarecidos:

justamente porque abomina os costumes da plebe, crê na necessidade de instruir as massas,

para fazê-las abandonar seus hábitos:

Subducendus populo est tener animus et parum tenax recti: facile transitur ad plures.
Socrati et Catoni et Laelio excutere morem suum dissimilis multitudo potuisset: adeo
nemo nostrum, qui cum maxime concinnamus ingenium, ferre impetum uitiorum tam
magno comitatu uenientium potest. Unum exemplum luxuriae aut auaritiae multum
mali facit: conuictor delicatus paulatim eneruat et mollit, uicinus diues cupiditatem
inritat, malignus comes quamuis candido et simplici rubiginem suam adfricuit: quid tu
accidere his moribus credis, in quos publice factus est impetus? (SÊNECA, Ad Lucil.
VII, 6-7)96

A menção a Sócrates, Catão e Lélio como incapazes de manter-se incólumes diante da pressão

social seria uma justificativa para o afastamento de Sêneca da corte? Cremos que sim, embora esse

seu posicionamento elitista esteja disfarçando – mal – uma crítica ao próprio ambiente da corte, e

uma defesa do retorno ao mos maiorum como norma de conduta moral. Esse mos maiorum a que

Sêneca se refere não é, claro, aquele de Catão, mas o de Cícero, já influenciado pelo Estoicismo.

Mas o empenho em atrair as massas – e nesse termo podem também ser incluídas as elites

epicuristas, já que sua propensão ao prazer não as diferiria da plebe senão quanto ao objeto do

prazer em si – não poderia deixar de partir da realidade que as circunda. Desse modo, Sêneca se

vale do senso comum dessas massas, assim como do próprio Epicurismo.

A atenção dada, por Sêneca, ao epicurismo acaba constituindo-se em diferencial

entre a romanidade filosófica – de Cícero – e a estoica – de Sêneca: enquanto aquele

selecionava quais elementos do estoicismo utilizaria, ao tempo em que incorporava

também elementos do academicismo; este lançará mão dos valores estoicos como objetivo,

mas não necessariamente como ponto de partida. Por isso mesmo, embora rigidamente

96
“Há que subtrair à influência do vulgo o ânimo fraco e pouco firme na virtude: facilmente se passa para o
lado do maior número. Sócrates, Catão, Lélio – uma multidão inteiramente antagônica poderia abalar o seu
caráter. Digo-te mais: mesmo nós – e se nós nos esforçamos por robustecer o nosso caráter! -, nenhum de nós
seria capaz de fazer frente à avalanche dos vícios no meio de uma turba. Um só exemplo de luxo ou de
avareza basta para provocar muito mal: um companheiro de mesa de gosto sofisticado acaba por nos tirar a
energia e austeridade, um vizinho rico excita os nossos desejos, um amigo perverso propaga a sua peste por
muito puros e simples que sejamos: que pensas tu que sucederá àqueles costumes para que nos arrasta a
multidão?”. Todas as traduções das Cartas a Lucílio são de J.A Segurado e Campos.
128

estoico, Sêneca se mostra mais aberto ao Epicurismo que Cìcero: em diversos pontos das

Ad Lucilium Epistolae Morales, o melhor exemplo de um conceito estoico é extraído de

um texto de... Epicuro! Como se vê abaixo:

Id non de meo fiet: adhuc Epicurum complicamus, cuius hanc uocem hodierno die legi
“philosphiae seruias oportet, ut tibi contingat uera libertas”. Non differtur in diem, qui
se illi subiecit et tradidit; statim circumagitur: hoc enim ipsum philosophiae seruire
libertas est. (SÊNECA, Ad Lucil. VIII,7)97

O fato de Sêneca não se furtar a usar exemplos da escola filosófica diametralmente

oposta a sua demonstra novamente que sua ação se prende à lógica romana: é preciso

ordenar para compreender, e mesmo o pensamento de Epicuro, pela importância de que

desfrutava, não poderia ser deixado indefinidamente de lado. Além disso, se em Cícero o

descarte do Epicurismo era tão sistemático quanto radical, Sêneca, estabelecendo bem

claramente as diferenças entre as escolas, podia permitir-se uma apropriação seletiva de

suas propostas: “Hoc inter nos et illos interest: noster sapiens uincit quidem incommodum

omne, sed sentit; illorum ne sentit quidem. Illud nobis et illis commune est, sapientem se

ipso esse contentum.” (SÊNECA, Ad Lucil. IX,3)98

Avaliamos que uma das razões para a valorização dos textos de Epicuro seja o fato

de que o Epicurismo já alcançara, nessa Roma em que o absenteísmo político era uma

realidade do regime imperial, a primeira posição entre as escolas filosóficas da elite

romana. Não é gratuito o fato de que Lucílio, o destinatário das Epistolae, seja um

epicurista a quem Sêneca busca converter: em Lucílio configurava-se aquele padrão

característico de homem romano, ao tempo do governo de Nero.

97
“Tenho andado a respigar Epícuro, e dele li hoje esta frase: “Deves ser servo da filosofia se pretendes
obtere a verdadeira liberdade”. Não será posto de lado quem a ela se entregar confiadamente: logo ela lhe
prestará os seus benefícios. É nesta entrega total à filosofia que consiste a liberdade.” (SÊNECA, 2004:20).
Todas as traduções das Ad Lucilium Epistolae Morales são de J. A. Segurado e Campos.
98
“A diferença entre a nossa escola e adeles é que o sábio, na nossa concepção, embora o sinta, domina
todo o sofrimento, na deles, nem sequer o sente. Entre nós e eles existe um ponto comum: o sábio contenta-se
consigo prñprio.” (SÊNECA, 2004:22)
129

Justamente por focar o “romano típico” – claro, da elite – e não unicamente a

porção intelectualizada desta é que Sêneca demonstrará, ao longo das Epistolae, que o

conhecimento advindo do senso comum é também válido para a ascensão moral do

indivíduo:

Quam multi poetae dicunt, quae philosophis aut dicta sunt aut dicenda? Non attingam
tragicos nec togatas nostras: habent enim hae quoque aliquid seueritatis et sunt inter
comoedias ac tragoedias mediae. Quantum disertissimorum uersuum inter mimos
iacet! Quam multa Publilii non excalceatis, sed coturnatis dicenda sunt! (SÊNECA,
Ad Lucil. VIII, 8)99

Esse trabalho de conversão é feito por Sêneca – como se impunha pelo meio

epistolar – de maneira individual, como se fossem partilhados grandes segredos. O que,

além de captar, não só a benevolência mas a também a cumplicidade do leitor, recurso que

amplifica a repercussão do texto, principalmente quando justificado através de Epicuro:

“Egregie hoc tertium Epicurus, cum uni ex consortibus studiorum suorum scriberet: “haec,

inquit, ego non multis, sed tibi: satis enim magnum alteri theratrum sumus.” (SÊNECA, Ad

Lucil. VII,12)100

Situação em que se reforçam também o desejo de isolamento do sábio e,

novamente, o desdém pelos hábitos das massas:

Inimica est multorum conuersatio: nemo non aliquod nobis uitium aut commendat aut
imprimit aut nescientibus allinit. Vtique quo maior est populus cui miscemur, hoc
periculi plus est. Nihil uero tam damnosum bonis moribus quam in aliquo spectaculo
desidere; tunc enim per uoluptatem facilius uitia subrepunt. (SÊNECA, Ad Lucil.
VII,2)101

99
Quantos poetas há que já disseram o que os filósofos ou já disseram ou hão-de dizer um dia! Nem preciso
recorrer aos trágicos, ou às nossas pretextas (peças estas que possuem uma certa seriedade que as coloca a
meio caminho entre as comédias e as tragédias): até nos mimos, que quantidade se não encontra de versos
excelentes! Quantos versos não escreveu Publílio dignos de personagens de coturno, e não de gente descalça!
100
Em terceiro lugar há este dito notável de Epicuro, em carta dirigida a um dos seus companheiros de
estudos: “eu não escrevi isto para muitos, mas sim para ti; contemplarmo-nos um ao outro é espetáculo
suficiente”.
101
“É-nos prejudicial o convívio com muita gente: não há ninguém que nos não pegue qualquer vício, nos
contagie, nos contamine sem nós darmos por isso. Por isso, quanto maior é a massa a que nos juntamos, tanto
maior é o perigo. E nada há tão nocivo aos bons costumes como ficar a assistir a algum espetáculo, pois é
pela via do prazer que os vícios se nos insinuam mais facilmente.”
130

Mas, apesar de falar para a sua própria classe social, propondo-lhe a adesão ao

Estoicismo e a valorização do mos maiorum, o pensamento de Sêneca valoriza o conceito

de amizade, por crer ser este um intrumento para seu alcance:

Consortium rerum omnium inter nos facit amicitia; nec secundi quicquam singulis est
nec aduersi; in commune uiuitur. Nec potest quisquam beate degere qui se tantum
intuetur, qui omnia ad utilitates suas conuertit: alteri uiuas oportet, si uis tibi uiuere.
Haec societas diligenter et sancte obseruata, quae nos homines hominibus miscet et
iudicat aliquod esse commune ius generis humani, plurimum ad illam quoque de qua
loquebar interiorem societatem amicitiae colendam proficit; omnia enim cum amico
communia habebit qui multa cum homine. (SÊNECA, Ad Lucil. XLVIII, 2-3)102

Evidentemente, a amizade aqui não deve ser vista primeiramente como a interpretamos

hoje, mas segundo a mesma concepção defendida por Cìcero em Laelius de Amicitia: um

dos elementos fundamentais da sociedade romana, extendida agora a toda a coletividade

humana, abraçando , portanto, a noção de humanitas ciceroniana.

Desse modo, percebemos que a contribuição de Sêneca para a (re)construção da

romanidade não se dá pela introdução de novos valores, mas pelo reequacionamento dos já

existentes, para adequá-los à nova realidade política, que apoiava – o Império -, e uma

nova realidade social, a maior representatividade cultural do Oriente, que combatia.

Por conseguinte, mesmo agregando-lhe uma dose extra de Estoicismo, sua visão da

romanidade é mais ampla que a de Cícero, uma vez que não se pretende voltada apenas

para a elite urbana, mas para a elite daquele Império, para quem Sêneca constrói, de fato,

um novo pacto social – em De Clementia -, uma nova dinâmica de circulação da riqueza –

em De Beneficiis -, e um novo código de conduta – nas Ad Lucilium Epistolae Morales,

além de diversas outras obras suas, que focam em pontos mais específicos. No entanto,

mesmo mais ampla, a romanidade, tal como proposta por Sêneca, a que chamaremos
102
“A amizade estabelece entre nñs uma comunhão total de interesses; nem a felicidade nem a adversidade
são fenômenos individuais: vivemos para a comunidade. Não é mesmo possível alguém viver feliz se apenas
se preocupar consigo, se reduzir tudo as suas próprias conveniências: tem de viver para os outros quem quiser
viver para si mesmo. A convivência, - observada com nobre e contínuo empenho, - que nos insere como
homens entre outros homens e admite a existência de algo comum a todo o gênero humano, é da maior
importância para o desenvolvimento daquela convivência mais íntima – a amizade – de que eu há pouco
falava. Quem tiver muito de comum com os outros homens, terá tudo em comum com o seu amigo.”
131

romanidade imperial, não abandona nenhum dos valores do mos maiorum, ao contrário,

busca universalizá-los na prática, algo que Cícero apenas teorizou.

Sua posição a respeito do mos maiorum fica clara ao exortar seu leitor a fazer-se

imitador de Catão – representante máximo da tradição, como sabido – ou a Lélio:

O, felicem illum, qui non praesens tantum, sed etiam cogitatus emendat! O felicem,
qui sic aliquem uereri potest, ut ad memoriam quoque eius se componat atque ordinet!
Qui sic aliquem uereri potest, cito erit uerendus. Elige itaque Catonem: si hic tibi
uidetur nimis rigidus, elige remissioris animi uirum Laelium. Elige eum cuius tibi
placuit et uita et oratio et ipse animum ante se ferens uultus: illum tici semper ostende
uel custodem uel exemplum. Opus est, inquam, aliquo, ad quem mores nostri se ipsi
exigant: nisi ad regulam praua non corriges. (SÊNECA, Ad Lucil. XI, 10)103

Claro, Sêneca poderia também querer indicar a si mesmo como esse modelo a ser seguido.

Ademais, Sêneca introduz, como vimos, um novo gênero na literatura latina, meio

pelo qual, sabia o filósofo, conseguiria rápida divulgação de suas ideias e de sua visão da

sociedade romana.

A repercussão dessas ideias serão vistas em nosso próximo capítulo, em que

trataremos da praetexta Octauia, obra que, mesmo histórica e erroneamente atribuída a

Sêneca, reflete muito de sua visão identitária, a da romanidade imperial. Avaliamos, além

disso, que Octauia seja uma obra que estabelece novos padrões para o relacionamento

entre História e Literatura, numa configuração que pode ter sido herdada, ou retomada,

pelas literaturas da América Latina.

103
Feliz o homem que, não apenas pela sua presença, mas até pela sua imagem torna os outros melhores!
Feliz o homem capaz de ter por alguém tanto respeito que a simples lembrança do modelo basta para lhe dar
ordem e harmonia espiritual! Quem for capaz de ter por alguém um tal respeito, em breve inspirará por seu
turno respeito idêntico. Escolhe, por exemplo, Catão, se este te parecer demasiado rígido, escolhe Lélio, que
é homem de espírito mais maleável. Escolhe alguém cuja vida, cujas palavras, cujo rosto, enfim, espelho da
própria alma, sejam do teu agrado. Contempla-o sempre, ou como teu vigilante, ou como teu modelo. Temos
necessidade, repito, de alguém por cujo caráter procuremos afinar o nosso: riscos tortos só se corrigem com a
régua!
132

5 UM TEXTO APÓCRIFO COM MUITAS LEITURAS

Antes de adentrarmos no estudo do texto de Octauia, convém esclarecermos qual

foi a trajetória deste até nossos dias e também o porquê de sua autoria haver suscitado

tamanhos embates. Consideramos tal procedimento necessário posto poder explicar muito

sobre o valor do próprio texto de Octauia como reflexo do pensamento de Sêneca. Mas,

antes ainda, cremos necessário detalhar o panorama específico da literatura latina dos

primeiros decênios do Império.

5.1 Um trovão ao longe

Se, como dissemos no capítulo anterior, o violento processo de instauração do

Império, acrescido dos regimes ainda mais repressores de Tibério e Calígula, fizeram

cessar todo debate político e ideológico em Roma, aparentemente retirando da literatura a

possibilidade de ser veículo de circulação de ideias novas, não nos esqueçamos de que, em

muito do que se produz nesse momento, subsistem ainda a sátira ao poder – que o caso de

Fedro bem exemplifica -, a crítica política – bastando relembrar o já dito sobre Lucano – e

mesmo o panfletarismo ideológico, que pôde ser feito mesmo sob a sombra do imperador,
133

como o faz o próprio Sêneca. Entretanto, em que pesem todos esses consideranda, Ludwig

Bieler não deixa de ser crítico ao período em apreço, dizendo que:

Los dos impulsos a que debe su existencia la literatura romana llegan casi a un estado
de quietud: la imitación creadora de los griegos y la expresión de la propia manera de
ser en las formas así elaboradas. El empleo, hasta la extenuación, de los géneros
literarios y el sentimiento vital de una cultura tardía no tienen menos parte en este
acabamiento que el profundo cambio político, que cada vez se hace sentir más.
(BIELER, 1992:255)104

Parece-nos que Bieler reduz as possibilidades de inovação literária à evolução da

forma, descrendo de que a “expressão de sua prñpria maneira de ser”, ou seja a expressão

da romanidade, pudesse enveredar, autonomamente, por caminhos novos, mesmo

prescindindo de inovações formais. Além do que, a historiografia literária nos mostra que

as inovações de forma e de conteúdo literários raramente soem andar juntas; e que, após

períodos de grandes inovações na literatura, sucedem-se outros em que as inovações

inexistem ou se dão em menor grau, porém são estes aqueles períodos em que se filtram,

solidificam e, principalmente, praticam-se as inovações anteriormente criadas. Pois bem,

para compreender-se melhor a geração de Sêneca, não podemos nos esquecer de que esta é

a geração que sucede à de homens como Virgílio, Horácio e Ovídio. A geração de Sêneca

pode, pois, ser comparada a um trovão ao longe: brilha, mas sem causar estrondo.

Vale, então, inquirirmo-nos se não será paradoxal o fato de que um autor como

Sêneca, de inegável valor como filósofo, e como um filósofo que se vale da literatura para,

através de sua produção escrita, divulgar ideias complexas, e que ademais busca, como

demonstramos anteriormente, reforçar a simbiose entre a doutrina estoica com aquelas

tradições culturais que visava resgatar, tenha sido, por força da geração a que pertence, tão

monocromático como Bieler o retrata? Ou antes, não poderíamos considerar que a mesma

104
“Os dois impulsos a que a literatura romana deve sua existência chegam quase a um estado de quietude: a
imitação criadora dos gregos e a expressão da própria maneira de ser nas formas assim elaboradas. O
exemplo, até o cansaço, dos gêneros literários e o sentimento vital de uma cultura tardia não têm parte menor
neste fim que a profunda mudança política, que se faz sentir cada vez mais.”
134

complexidade temática detectada nos demais textos de Sêneca pode estar implícita, de

modo mais sutil e sob os disfarces da métrica e da estilística, em suas obras teatrais?

Tais questionamentos só poderiam ser respondidos ao examinarmos a relação entre

a produção teatral de Sêneca e seus demais textos. Há um fato, porém, que é elemento

complicador para que tenhamos, enfim, uma resposta satisfatória: o problema da datação

dos textos teatrais de Sêneca.

5.2 Octauia: obra de Sêneca?

Passaremos a expor questões relativas à autoria da obra, porque cremos que muita

da discussão existente em torno a Octauia deriva de ter sido atribuída a Sêneca.

5.2.1 A datação

No conjunto das obras de Sêneca a datação é sempre dedutível a partir de fatores

externos: referências a eventos políticos, sociais, naturais, etc.; contudo, as peças teatrais

que têm sua autoria confirmada não contêm um elemento referencial sequer que nos

permita conjecturar qualquer perspectiva sobre a data de sua produção. A hipótese mais

provável sobre o tema é, contudo, a defendida por Grimal e apresentada abaixo por

Dumont e François-Garelli:

... si l‟on considère la longueur des textes, le soin méticuleux apporté à la composition
et à la métrique (ses trimètres sont les plus soignés de toute la littérature dramatique
latine et ses chœurs font appel à la métrique difficile et raffinée des Odes d‟Horace), si
parallèlement on tient compte de la vie mouvementée de Sénèque, on conçoit
aisément, comme P. Grimal (1978), que les tragédies aient pu naître dans une période
de calme relatif, à un moment où, à l‟écart de la vie publique, il put se concentrer à
loisir sur la composition de ces textes difficiles. On songe tout naturellement à la
période de l‟exil ou à celle de la retraite. (...) Mais ce n‟est là qu‟une hypothèse fragile
135

que rien, dans les textes eux-mêmes, ne permet d‟étayer solidement. (DUMONT;
FRANÇOIS-GARELLI, 1998: 153)105

Se reforçam a opinião de Grimal sobre ter havido apenas dois períodos durante a

vida de Sêneca em que o filósofo poderia ter-se dedicado a escrever suas tragédias;

Octauia, por força de sua temática, somente poderia estar datada entre os anos 62, morte da

jovem, e 65, morte de Sêneca. Ou seja, durante seu período de retirada da vida pública.

Entretanto, mesmo em seu afastamento, cremos que Sêneca teria tido pouco tempo

disponível para a redação de uma obra como Octauia, afinal, é neste momento prolífico de

sua produção intelectual que Sêneca escreve as Ad Lucilium Epistolae Morales,

considerando o ápice de sua produção filosófica; e também em que tece, de modo sutil,

suas críticas ao governo de Nero. Contudo, dada a extensão (982 versos), a simplicidade do

vocabulário e da métrica (trímetros jâmbicos, métrica que Sêneca dominava com maestria,

e dímetros anapésticos nas falas do coro), sugerem ter podido Sêneca escrevê-la mesmo

neste período. Hipótese esta que se reforça pelo fato de ter Sêneca escrito até os seus

momentos derradeiros, conforme nos é relatado por Tácito: “Et nouissimo quoque momento

suppeditante eloquentia, aduocatis scriptoribus pleraque tradidit, quae, in uulgus edita eius uerbis,

inuertere supersedeo.” (TÁCITO, Anais, XV, 63; 1892: 665)106

A esta hipótese agrega-se outra, de caráter estilístico: todas as obras de Sêneca são

tragédias diretamente inspiradas em consagradas obras gregas; Octauia, por sua vez, é uma

105
“...se consideramos a extensão dos textos, o cuidado meticuloso dado à composição e à métrica (seus
trímetros são os mais cuidados de toda a literatura dramática latina e seus coros relembram a métrica difícil e
refinada das Odes de Horácio), se paralelamente tomamos em conta a vida movimentada de Sêneca,
concebemos tranquilamente, como P. Grimal (1978), que as tragédias teriam podido nascer num período de
calma relativa, em um momento em que, distante da vida pública, pôde concentrar-se com tranquilidade na
composição destes textos difíceis. Imaginamos naturalmente o período do exílio ou o da retirada (...) Mas
isso é apenas uma hipñtese frágil que nada, nos textos em si, permite estabelecer solidamente.”
106
“E então, nos derradeiros momentos, chamados os secretários, com abundante eloquência, ditou-lhes um
discurso que não desejo desfigurar e que está nas mãos de todo mundo, divulgados nos seus próprios
termos.” (TÁCITO, 1967: 419; tradução de Leopoldo Pereira)
136

obra praetexta, gênero considerado de origem puramente romana – embora a própria

pertinência de Octauia a esse gênero possa ser questionada, como veremos adiante.

Ficando a definitiva datação das demais obras e da própria Octauia como um

problema insolúvel; salvo, hipótese remotíssima, que algum achado arqueológico lance-lhe

nova luz; Octauia deve ser estudada também por apresentar dados sobre a relação entre

conhecimento e poder em Roma e, ainda, sobre estas mesmas personagens históricas, aqui

mostradas como entes dramatúrgicos. Assim, através de Octauia poder-se-á analisar a

formação do senso comum sobre estas personagens históricas – senso que os historiadores

romanos posteriores retomarão, consagrando, e também, analisando-se o ponto de visão

através do qual esse senso comum é formado, a permanência dos conceitos que Sêneca

agrupou naquilo a que chamamos romanidade imperial.

Estabelecido que, certamente, quando comparada à porção filosófica de sua obra,

podemos considerar o conjunto de suas peças como parte secundária da obra escritural de

Sêneca; esperamos igualmente ter deixado claro que este não pode, de modo algum, ser

considerado - dentro do período histórico em que foram produzidas - como composto por

obras teatrais menores. Descremos ainda que o estabelecimento do Império tenha sido fator

de diminuição do potencial temático do período, o que ocorre é o deslocamento da

temática usual para fora do debate político, assim como não acreditamos que a

cristalização dos padrões formais, que certamente ocorreu, seja em si mesmo um fator pelo

qual se possa diminuir o quociente qualitativo da literatura latina do primeiro século 107. Por

último, persiste o problema da datação das obras, problema em que Octauia se iguala

àquelas obras cuja autoria é, comprovadamente, de Sêneca. Resta-nos tratar da questão da

107
Até porque, na Antiguidade, a criatividade formal não era um quesito de valor literário tão importante
como será entre os séculos XVIII e XXI de nossa era.
137

autoria desta obra, o que começaremos a fazer reconstruindo a trajetória de como este e os

demais textos de Sêneca sobreviveram até nossos dias.

5.2.2 A obra e seu percurso

As obras de Sêneca foram preservadas através de duas coletâneas de manuscritos de

que Gauthier Liberman, em seu estudo sobre o texto de Octauia, bem detalha a trajetória:

On doit la survie de l‟unique tragédie prétexte romaine intégralement conservée au


rattachement de l‟Octavie au groupe des tragédies attribuées à Sénèque. De ces
dernières elle est la seule dont le texte ne nous ait pas été transmis par les deux
rameaux de la tradition: le fameux E(truscus = Laurentianus Plut 37,13), manuscrit de
la fin du XIe s., ne comporte pas l‟Octavie qui nous est parvenue grâce aux
descendants du manuscrit perdu [A]², dont aucun n‟est antérieur au XIIIe s. et qui sont
groupés en deux familles, α (C, S; V) et δ (P; T; G; Florilèges). Les deux rameaux E
et [A] remontent en dernière analyse à deux recensions de l‟Antiquité tardive.
(LIBERMAN, 1998: 85-6)108

Ainda sobre o tema, Léon Herrmann nos informa que, nos códices descendentes de [A],

denominados Vaticanus lat 1647 [l], de 1391; Ambrosianus D 276 (M) e Vaticanus lat

1769 [N], Octauia aparece ora intercalada entre outras obras, ora ao final. Segundo

Herrmann, o codex Vaticanus [l] é precedido do seguinte comentário: “Marci Lucii Annei

Senece tragedie nouem hercules, troades, phenissa, medea, phaedra, oedipus, agamemnon,

thiestes, hercules, octauia feliciter incipiunt” (HERRMANN, 1924: 1)109. É curioso pois

108
Devemos a sobrevivência da única pretexta romana integralmente conservada à junção de Octauia ao
grupo das tragédias atribuídas a Sêneca. Desses, ela é a única cujo texto não nos foi transmitido pelos dois
ramos da tradição: o famoso E(truscus = Laurentianus Plut 37,13), manuscrito do fim do século XI, não traz a
Octauia, que nos chegou graças aos descendentes do manuscrito perdido [A]², dos quais nenhum é anterior
ao século XIII, e que se agruparam em duas famílias: α (C, S; V) e δ (P; T; G; Florilégios). Os dois ramos, E
e [A] remontam, em última análise, às duas coletâneas da Antiguidade tardia.

109
Felizmente estão no princípio nove tragédias de Marco (sic) Lúcio Aneu Sêneca: Hercules (Furens),
Troades, Phenissa, Medea, Phaedra, Oedipus, Agamemnon, Thiestes, Hercules (Oetaeus), Octauia.
138

que, citando nove peças, sejam enumeradas dez, o que pode evidenciar dúvidas do copista

sobre a autenticidade do décimo texto (Octauia), ou simplesmente um lapsus calami.

5.2.3 A questão da autoria

Ao longo dos séculos, o fato de ter sido Sêneca o autor desta obra foi alvo de

diversos questionamentos, e os vários estudiosos da obra de Sêneca que se detiveram sobre

o assunto não se excusaram de tomar posição a respeito. Historicamente, o primeiro a pôr

em dúvida a autoria foi Coluccio Salutati, que, em 1371, já escrevia: “Ego uero, cum diu

de ceteris dubitarem eo quod longe a saeculo Senecae uiderentur extraneae, Octauiam post

eius fata compositam certissime coniectabam.” (apud HERRMANN, 1924:2)110

O que fica ainda por interrogar-se é justamente o fato que nos leva a seu exame: por

que razão teria sido esta obra, ainda que erroneamente, atribuída a Sêneca? E por que razão

pode-se duvidar de sua autoria? Afinal, a questão da ausência do texto em um dos códices

originais não seria, por si só, um grande problema, se o texto em si não desse ensejo a

tantos questionamentos que desafiassem a crença em ter sido Sêneca seu autor, sendo a

principal delas a que vemos abaixo, conforme nos assevera André Cartault:

L'Octauia, qui est une praetexta, la seule qu'on ait conservée, et qui traite de la mort
de la femme de Néron en 62, ne saurait être de Sénèque, puisqu'il y est question de la
chute de Néron, qui eut lieu en 68. On n'est pas d'action sur la date de la pièce. Il ne
semble pas qu'elle soit de beaucoup posterieure à Néron. (CARTAULT, 1922: 132)111

110
“Na verdade, como além disso eu há muito tempo duvidasse daquilo que já no tempo de Sêneca pareceria
estranho, supunha que Octauia certamente foi composta apñs sua morte.”
111
“A Octauia, que é uma pretexta, a única que conservamos, e que trata da morte da mulher de Nero em
62, não poderia ser de Sêneca, já que ali se trata da queda de Nero, que ocorreu em 68. Não parece que seja
muito posterior a Nero.”
139

Ainda que o assassinato político não fosse em absoluto um acontecimento

extraordinário em Roma, e que, após tantos crimes, fosse facílimo pressupor que a vez do

imperador não tardaria, o fato do texto tratar da morte de Nero – ocorrida após a de Sêneca

– é considerado como o principal impedimento para que esta autoria seja ratificada como

do filósofo. A par desse fato, também a estilística, a métrica, a qualidade dos diálogos, o

vocabulário, enfim, depõem contra a crença em Sêneca como sendo autor da obra.

Todavia, ao migrarmos do campo estilístico ao temático, encontraremos em Octauia

imagens semelhantes às de outras obras de Sêneca: o aspecto trágico do texto comporta

uma dose de violência, cruel e crua, inimaginável nas obras gregas que lhes deram origem.

Os outros principais argumentos de todos aqueles que se consorciam em refutar ser

Sêneca o autor desta obra são os seguintes, conforme arrolados por Dumont e François-

Garelli:

Le portrait de Néron, très caricatural, évoque plutôt l‟image que Tacite s‟efforça de
répandre. Octavie pourrait être l‟œuvre d‟un auteur de Galba ou de Vespasien, lorsque
la condamnation de Néron caractérise un courant politique pro-stoïcien qui reprend
vie.
Sénèque se met lui même en scène. Balbus, dit-on, l‟avait dèjà fait en 43. Mais cela
constituait à peine un précédent: la lettre d‟Asinius Pollion à Cicéron (Fam. X, 32) sur
ce thème souligne le ridicule et l‟absence de scrupules de ce questeur un
comportement par ailleurs méprisable.
Lorsqu‟on les compare à ceux des tragédies mythologiques, la langue, le style, et la
métrique d‟Octavie trahissent certaines insuffisances. Le vocabulaire est peu élaboré,
répétitif, et les chœurs n‟utilisent que le dimètre anapestique. (DUMONT;
FRANÇOIS-GARELLI, 1998: 172)112

112
“O retrato de Nero, muito caricato, evoca antes a imagem que Tácito se esforçou em pintar. Octauia
poderia ser a obra de um autor de Galba ou de Vespasiano, até porque a condenação de Nero caracteriza uma
corrente política pro-estoica que reganha vida.
Sêneca se coloca ele mesmo em cena. Balbo, diz-se, já o havia feito em 43. Mas isso constituía um
mal precedente: a carta de Asínio Polião a Cícero (Fam. X, 32) sobre o assunto sublinha o ridículo e a
ausência de escrúpulos deste questor, um comportamento aliás desprezível.
Ainda que se comparem essas duas tragédias mitológicas, a língua, o estilo, e a métrica de Octauia
traem certas insuficiências. O vocabulário é pouco elaborado, repetitivo, e os coros utilizam apenas o dímetro
anapéstico.”
140

Mesmo sendo estes argumentos respeitáveis, convém notar que os estudiosos que advogam

a causa de Sêneca como autor de Octauia conseguem refutá-los quase todos, conforme se

pode verificar através da longa e ardorosa, porém necessária, citação de Alfred Gudemann:

Durante mucho tiempo se ha discutido que Séneca sea el autor de este ciclo de
dramas, aunque ello esté certificado por citas a su nombre y por la tradición
manuscrita unánime. Mas hoy se dan por infundadas las dudas sobre la autenticidad,
pues todas las tragedias reflejan de modo inequívoco el espíritu y el estilo del filósofo.
La misma Octauia, que nos presenta el trágico destino de la esposa de Nerón,
primero repudiada y luego condenada a muerte, ha sido recientemente defendida de
nuevo como auténtica, con razones de mucho peso. Claro está que no pudo ser
publicada en vida del César. El mismo Séneca figura en la obra, e intenta, aunque en
vano, volver a la razón al mal aconsejado emperador, que arde en amor por la hermosa
Popea. Incluso la profecía del asesinato de Nerón, acaecido tres años después de la
muerte de Séneca, no es insuperable obstáculo para admitir la autenticidad, si se tiene
en cuenta la suerte de los dos césares que precedieron a Nerón en el trono.
Precisamente en Séneca se encuentran vaticinios o atisbos del futuro aun más
desconcertantes: por ejemplo, en la Medea y en las Naturales Quaestiones.
Si las tragedias no eran más que un reflejo, en parte una desgraciada corrección
retórica de sus espléndidos originales griegos, habiendo la mayoría sido escritas
durante su destierro, la pretexta Octauia pertenece al penúltimo año de la vida del ya
anciano autor. Tratándose de una tragedia de contenido romano, el autor estaba
reducido a sus propias dotes de composición y de invención, así por lo que se refere a
la forma como a la intriga. Constituye, pues, espléndido testimonio de su talento
poético el que esta obra resultase, con mucho, la más importante producción de su
Musa dramática, Quod uoluit, effecit (“realizñ lo que quiso”): con estas palabras
concluye su crítica Quintiliano, que ciertamente no se distingue por su benevolencia
hacia Séneca. (GUDEMANN, 1942:200-01).113

113
“Durante muito tempo se discutiu que Sêneca seja o autor deste ciclo de drama, ainda que isso esteja
certificado por menções a seu nome e pela tradição manuscrita unânime. Mas hoje se dão por infundadas as
dúvidas sobre a autenticidade, pois todas as tragédias refletem de modo inequívoco o espírito e o estilo do
filósofo.
A própria Octauia,que nos apresente o trágico destino da esposa de Nero, primeiro repudiada e logo
condenada à morte, foi recentemente defendida de novo como autêntica, com razões de muito peso. Claro
está que não pôde ser publicada durante a vida do César. O próprio Sêneca figura na obra, e tenta, ainda que
em vão, trazer à razão o mal aconselhado imperador, que arde em amor pela bela Popeia. Inclusive a profecia
do assassinato de Nero, acontecido três anos depois da morte de Sêneca, não é um obstáculo insuperável para
admitir a autenticidade, se se leva em conta a sorte dos dois césares que precederam a Nero no trono.
Precisamente em Sêneca se encontram vaticícios ou previsões de futuro ainda mais desconcertantes: por
exemplo, em Medeia e nas Naturales Quaestiones.
Se as tragédias não eram mais um reflexo, em parte uma desgraçada correção retórica de seus
esplêndidos originais gregos, tendo a maioria sido escritas durante seu desterro, a pretexta Octauia pertence
ao penúltimo ano da vida do já ancião autor. Tratando-se de uma tragédia de conteúdo romano, o autor estava
reduzido a seus próprios dotes de composição e de invenção, tanto no que se refere à forma quanto à intriga.
Constitui, pois esplêndido testemunho de seu talento poético que esta obra resultasse, com vantagem, na mais
importante produção de sua Musa dramática. Quod uoluit, effecit (“realizou o que quis”): com estas palavras
conclui sua crítica Quintiliano, que certamente não se distingue por sua benevolência em relação a Sêneca.”
141

Expostos os argumentos pró e contra a autoria, aos quais retomaremos adiante, devemos

ainda pensar a encenação de Octauia. Nesse aspecto, vale notar que Octauia é um texto

teatral cuja única rubrica – indicações de encenação, tais como cenário, vestuário, etc – é

“scaena romae DCCCXV ab vrbe condita”114, fato que reforça a tese de que o texto tenha

sido escrito, apesar do formato teatral, para leitura. Hipótese essa que é corroborada por

todos os autores até aqui pesquisados e que exemplificaremos recorrendo novamente a

Gudemann:

A menudo se ha suscitado la cuestión de si estas tragedias fueron alguna vez


llevadas a la escena en la antigüedad. Su estructura técnica consentía perfectamente
una representación escénica. Tal representación, empero, no es verosímil, sobre todo
porque Séneca, contra la teoría y la práctica unánimes de los antiguos, nos presenta
directamente escenas de horror, conmovedoras y sangrientas, en vez de hacerlas
referir por un mensajero. ¿O es que se permitía entonces simplemente en la escena, lo
que no hería ninguna susceptibilidad en la arena del anfiteatro? Por desgracia,
ignoramos si las tragedias de su contemporáneo, el citado Pomponio Secundo, seguían
una técnica dramática análoga. De ser éste el caso podríase contestar afirmativamente
a aquella pregunta. (GUDEMANN, 1942:201).115

É indubitável que um texto cuja autoria se atribua a Sêneca deve – dada a

importância deste autor no cenário cultural do Império, de que tratamos no capítulo

anterior – ser averiguada pelos que se dedicam ao estudos das letras latinas; contudo,

qualquer afirmação definitiva a respeito do tema está sujeita também ao, improvável porém

vigente, surgimento de qualquer informação, nova e categórica, que nos leve a rever as

posições já solidamente estabelecidas. No entanto, posto que também é nossa intenção

examinar, neste capítulo, todos os aspectos extra-textuais de Octauia, cremos conveniente

iniciar este exame com uma visão panorâmica do que este texto representa e apresenta.

114
“Cena em Roma, no ano 815 da fundação da cidade.”
115
Amiúde se suscitou a questão de se essas tragédias foram algumas vez encenadas na antiguidade. Sua
estrutura técnica consentia perfeitamente uma representação cênica. Tal representação, contudo, não é
verossímil, sobretudo porque Sêneca, contra a teoria e a prática unânimes dos antigos, nos apresenta
diretamente cenas de horror, comoventes e sangrentas, em vez de fazê-las mencionar por um mensageiro. Ou
então se permitia simplesmente em cena o que não feria nenhuma suscetibilidade na arena do anfiteatro? Por
desgraça, ignoramos se as tragédias de seu contemporâneo, o citado Pompônio Segundo, seguiam uma
técnica dramática análoga. Fosse esse o caso e se poderia responder afirmativamente aquela pergunta.
142

Octauia é uma obra a que o Dicionário Oxford de Literatura Clássica grega e

latina, compilado por sir Paul Harvey, dedica um verbete o qual, condensado, tem o

seguinte teor:

Tragédia romana, incluída nos manuscritos entre as tragédias de Sêneca o Filósofo,


mas escrita provavelmente por um imitador tardio. (...) A peça é tediosa, com excesso
de lamentações e ostentação de erudição mitológica, mas é o único drama histórico
conservado na íntegra. (HARVEY, 1998: 360)

Trata-se pois de uma peça em que são narrados os últimos momentos da vida

pública de Otávia, primeira esposa de Nero, filha do imperador Cláudio e última

descendente consanguínea de Augusto; assassinada – sob a acusação de adultério – por

ordem de seu marido. Sua morte dará início a um novo patamar do terror com que Nero,

desde o fim do quinquennium Neronis, vinha marcando seu governo, e também ao intento

de destruição das últimas prerrogativas políticas herdadas da República. Mais que isso,

significa desfazer-se da imagem de “príncipe ideal” que, assessorado por Sêneca, até então

se empenhara em construir.

Signo inicial da série de perturbações políticas que convulsionariam Roma e que

culminariam com o assassinato de Nero e com a guerra civil de 69; o repúdio e a morte de

Otávia terá atingido fortemente a consciência dos cidadãos romanos, uma vez que a

História registra manifestações públicas de apoio a Otávia e de repúdio a Popeia, nova

esposa de Nero - manifestações que são inclusive mencionadas no texto da peça.

Todos estes fatores, quando somados, permitem-nos entender a razão por que esta

morte suscitaria a composição de uma peça, e mais, permitem-nos entender também a

razão pela qual esta obra – apesar de ser, sob diversos aspectos, considerada de qualidade

inferior – se haja perpetuado até nossos dias, tornando-se inclusive, como Harvey afirma, a

única praetexta – isto é, baseada em argumento da história de Roma – conservada

integralmente.
143

Entretanto, desdobrado do problema da autoria, percebe-se, quando cotejados o

verbete de Harvey e o texto de Cartault que citamos anteriormente, que falta-nos

igualmente certeza sobre a época da composição da obra: Harvey fala ter sido composta

por um “imitador tardio”, já Cartault diz-nos que esta obra não parece ser posterior a Nero.

Acreditando que um tema tão ligado a um período específico da História não seria passível

de despertar, no público dos séculos seguintes, interesse tal que ensejasse a redação de uma

peça, tendemos a concordar com Cartault: tal obra deve ter sido composta em período em

que a lembrança dessas personagens históricas – principalmente a da protagonista –

estivesse ainda vívida na memória do público.

É esta, enfim, a conclusão a que chega Herrmann: pressupondo que a peça tenha

sido composta em um período não superior a vinte anos após a morte de Otávia, isso nos

faz estimar que o texto tenha sido escrito durante o governo dos Flávios – entre 69 e 96

D.C -, principalmente o de Vespasiano, mas passemos às conclusões de Herrmann:

L‟hypothèse que nous avons faite et qui du reste ne nous appartient qu‟en commun
avec de nombreux contemporains est la suivante: la pièce aurait été écrite au début du
règne de Vespasien par un élève de Sénèque, désireux de faire son apologie et de
l‟imiter dans le genre de la prétexte qu‟il n‟avait pas abordé. (HERRMANN,
1924:167.)116

Aceita esta hipótese - até porque constitui-se na mais plausível das que se

apresentam – fica patente que, se Octauia, apesar de todas as argumentações em prol, não é

de fato obra de Sêneca, será, outrossim, um dos melhores reflexos, no âmbito literário, de

seu pensamento.

116
“A hipñtese que levantamos e que ademais temos em comum com diversos contemporâneos é a seguinte:
a peça teria sido escrita no início do reinado de Vespasiano por um aluno de Sêneca, desejoso de fazer sua
apologia e de imitá-lo no gênero de pretexta, que ele jamais abordara.”
144

Portanto, ademais de provar o êxito do autor de Octauia117 em sua tarefa de

divulgar o estoicismo como escola filosófica e defender um retorno aos valores do mos

maiorum, Octauia serve ainda como prova da popularidade de Sêneca e do quanto seu

pensamento se divulgara. Sobre este mesmo autor, deduz-se que não tenha sido homem de

letras, pois, se o fosse, certamente seu nome seria mencionado em algum dos estudos

literários de primeira mão que nos chegaram e sequer te-lo-iam confundido com Sêneca;

além disso, resta dizer que todos os autores pesquisados concordam em que terá sido

alguém próximo a todas as personagens históricas que menciona: decerto algum membro

da corte cujo nome, lamentavelmente, não chegou até nós. Como ilustração dessa teoria,

recorreamos a Liberman: “il est contemporain des faits, plus ou moins stylisés, qu‟il

rapporte; il émane peut-être d‟un témoin oculaire; il y est mis en œuvre une analyse

remarquable de la tyrannie.” (LIBERMAN, 1998, VII-VIII)118

Permitimo-nos, no entanto, discordar de Harvey em dois aspectos: cremos que

caracterizar o autor anônimo como “imitador tardio” e entender a peça como “tediosa”,

pode tratar-se, em ambos os casos, de excessivo rigor de julgamento.

Não se pode imputar ao autor a caracterização como “imitador” já que seu

propósito é justamente o de valorizar o pensamento de seu mestre. Não o movia o desejo

da glória literária mas tão somente o de engrandecer a memória de Sêneca e vilipendiar a

conduta de Nero – evidentemente, estes desejos trazem desdobramentos múltiplos, que

esclareceremos em outro momento -, além disso, a expressão “imitador” sugere uma tarefa

de plagiário, o que o autor anônimo certamente não foi, o que reafirmamos com o seguinte

117
Denominado Pseudo-Sêneca nas edições de Octauia publicadas pela Les Belles Lettres, mas que
preferiremos chamar “autor anônimo” para evitar o tom pejorativo que o termo “pseudo” assume em
português.
118
“ele é contemporâneo dos fatos, mais ou menos estilizados, que narra, talvez uma testemunha ocular;
colocou na obra uma análise notável da tirania.”
145

questionamento: por que razão um autor, na intenção de cometer um plágio, ousaria

aventurar-se em um gênero não praticado pela sua “vítima”?

Segundo Herrmann, uma das características de Octauia é a de tecer uma série de

relações com outras obras das literaturas latina e grega, nesta, o caso mais flagrante é

Electra, em sua versão de Eurípedes. No caso da literatura latina, percebem-se

principalmente paráfrases de Virgílio, Cícero e Ovídio, além obviamente de Sêneca. Isto

nos mostra que o autor anônimo, mesmo não sendo um, pelo menos conhecido,

profissional das letras, era conhecedor da produção literária canônica, tanto a grega quanto

a das gerações latinas precedentes e também a de seu próprio tempo, estando em condições

de com ela dialogar e de usá-las para a elaboração de sua própria obra, configurando estas

referências antes como um diálogo intertextual do que como um recurso motivado pela

falta de criatividade. Discordamos também do termo “tardio” pelo que já expusemos

quando tratávamos da datação.

5.2.4 Uma estrutura inovadora e de aproximações

Quanto a considerar Octauia uma obra “tediosa”, cremos que, mesmo havendo um

grande número de repetições no texto, o “tédio” em questão resultará antes do olhar que

lancemos à obra durante sua leitura, porque pensamos que suas possibilidades de leitura

ainda não foram suficientemente exploradas.

O autor de Octauia seguiu com relativa liberdade os preceitos que Horácio já

expusera para a tragédia em sua Epistola ad Pisones:

Segnius irritant animos demissa per aurem


Quam quae sunt oculis subiecta fidelibus et quae
Ipse sibi tradit spectator: non tamen intus
Digna geri promes in scaenam multaque tolles
Ex oculis, quae mox narret facundia praesens:
146

Ne pueros coram populo Medea trucidet,


Aut humana palam coquat exta nefarius Atreus,
Aut in auem Procne uertatur, Cadmus in anguem;
Quodcumque ostendir mihi sic, incredulus odi.
Neue minor neu sit quinto productior actu
Faula, qua posci uult et spectanda reponi;
Nec deus intersit nisi dignus uindice nodus
Incederit, nec quarta loqui persona laboret.
Actoris partes choris officiumque uirile
Defendat, neu quid medios intercinat actus
Quod non proposito conducat et haereat apte.
Ille bonis faueatque et consilietur amice
Et regat iratos et amet peccare tiementes;
Ille dapes laudet mensae breuis, ille salubrem
Iustitiam legesque et apertis otia portis;
Ille legat commissa deosque precetur et oret,
Ut redeat miseris, abeat Fortuna superbis119. (HORÁCIO, 1911: 602-3)

Contudo, se obediente no respeito à divisão da obra em cinco atos, nosso autor aparenta ter

cometido um grande desequilíbrio na divisão dos versos relativos a cada ato: se o primeiro

ato tem 376 versos, o segundo terá 215 (versos 377 a 592); o terceiro terá apenas 96 versos

(593 a 689); o quarto ato terá 129 (versos de número 690 a 819) e o quinto e último, 162

(820 a 982).

Fica a pergunta: esta divisão tão desproporcional dos atos será demonstração da

falha criativa do autor ou servirá a algum propósito estilístico? Cremos na segunda opção,

conforme demonstraremos à frente.

Tampouco há, em momento algum do texto, o encontro de quatro personagens em

cena; de fato, bem poucas são as cenas em que chegamos a ter três personagens; quase toda

119
“Quando recebidas pelos ouvidos, causam emoção mais fraca do que quando, apresentadas à
fidelidade dos olhos, o espectador mesmo as testemunha; contudo, não se mostrem em cena ações que
convém se passem dentro e furtem-se muitas aos olhos, para as relatar logo mais uma testemunha eloquente.
Não vá Medeia trucidar os filhos à vista do público; nem o abominável Atreu cozer vísceras humanas, nem se
transmudará Procne em ave ou Cadmo em serpente diante de todos. Descreio e abomino tudo que for
mostrado assim.
Para ser reclamada e voltar à cena, não deve uma peça ficar aquém nem ir além do quinto ato; nem
intervenha um deus, salvo se ocorrer um enredo que valha tal vingador; nem se empenhe em falar uma quarta
personagem. Que o coro desempenhe uma parte na ação e um papel pessoal; não fique cantando entre os atos
matéria que não condiga com o assunto, nem se ligue a ele estreitamente. Cabe-lhe apoiar os bons, dar
conselhos amigos, moderar as iras, amar aos que se arreceiam de errar; louvar os pratos da mesa frugal, bem
como a justiça salutar, as leis, a paz de portas abertas; guarde os segredos confiados a ele, ora aos deuses,
peça que a Fortuna volte aos infelizes e abandone os soberbos.” Segundo a tradução de Jaime Bruna em
ARISTÓTELES; HORÁCIO; LONGINO. A Poética Clássica. 5 ed., São Paulo: Cultrix, 1992. págs. 60-61.
147

a peça é movida por longos monólogos e/ou diálogos entre grupos muito bem

determinados: Otávia, Popeia e suas respectivas amas; Sêneca e Nero, Nero e o prefeito do

palácio – que supomos ser representação de Tigelino, uma vez que Burro também morre

em 62, de causas aparentemente naturais. Há também o longo monólogo de Agripina, que,

com 52 versos ocupa além da metade do terceiro ato.

Não se encontra, no texto, qualquer intervenção divina. Ao contrário, há uma fala

que demonstra até mesmo um certo desprezo pela figura dos deuses, esta se encontra no

verso 449, em que Nero, referindo-se ao poder do Senado de, com a chancela do

imperador, proclamar a divindade de alguém - como já ocorrera com Rômulo, César,

Augusto e outros - pergunta a Sêneca: “Stulte uerebor, ipse cum faciam, deos?”120

Igualmente não encontraremos, nesta obra que foi atribuída a Sêneca, o mesmo

estilo violento que caracterizou o cordobês: embora se faça menção a diversos atos de

violência cometidos por ou por ordem de Nero, em todos estes a ação é descrita no texto de

maneira indireta: o recurso ao mensageiro é um preceito rigorosamente obedecido.

Contudo, em determinado momento (versos 593 a 645), o autor rompe violentamente com

esta diretriz da dramaturgia horaciana e nos traz o já mencionado monólogo de Agripina,

que narra ao público seus últimos momentos. A cena, se chegou a ser algum dia

dramatizada – do que duvidamos – certamente terá tido grande impacto junto ao público,

mesmo porque, até o momento da morte de Otávia, este era o maior dos crimes que se

atribuíam a Nero.

Interessa, outrossim, ressaltar o que nos parece ser uma inovação do autor anônimo:

constitui-se no dado que, ao longo do poema, vemos sucederem-se dois coros.

Isto em si não é uma novidade, pois sabe-se de diversas peças gregas que

procediam dessa forma; contudo, a inovação aqui reside nos seguintes fatos: a) não

120
“Sou idiota de temer os deuses que eu mesmo proclamo?
148

tivemos notícia de qualquer obra romana em que dois coros fossem utilizados, e b) mesmo

entre as peças consultadas, tampouco soubemos de alguma em que os dois coros tomassem

explicitamente partido pelas personagens: há um que apoia Otávia como legítima esposa de

Nero e co-herdeira do trono, e outro, que apoia Popeia e que defende seu casamento com o

imperador.

Percebe-se, pois, que, mais que “desempenhar uma parte na ação”, os coros

assumem posições, refletindo a opinião dividida do povo romano em relação ao tema,

demonstrando o valor das jovens e condenando ou defendendo a opção de Nero. Mais: no

quarto ato, entre os versos de número 762 e 819, um dos coros – o de Popeia - dialoga

diretamente com o mensageiro que organiza a defesa do palácio do Príncipe contra o

ataque da população que, furiosa, defendia a manutenção de Otávia como esposa e

imperatriz, população esta que o coro de Otávia representava. Estamos propensos a

considerar este procedimento de dar ao coro estatuto de personagem uma inovação, uma

vez que não encontramos qualquer referência a que este recurso tenha sido usado por

qualquer outro autor romano, fato que acaba por distanciar ainda Octauia do conjunto da

dramaturgia senequiana, pois nesta, segundo Bieler: “...el coro actúa por completo a la

manera helénica” (BIELER, 1992: 48).121

Também é de se notar a ausência explícita de um corifeu, ainda que as aparições de

Sêneca supram sua tarefa de admoestar a Nero por seus erros; mesmo assim, a personagem

Sêneca, usando sempre da Filosofia para fazê-lo, dista bastante da figura quase mítica que

os corifeus assumiam nas tragédias gregas e mesmo em suas adaptações por parte do

Sêneca dramaturgo.

121
“o coro atua completamente à maneira helênica”.
149

Se cremos mesmo que a presença personificada de dois coros, assim como a

ausência de um corifeu, sejam inovações do autor anônimo, cremos também ser mister

explicar suas consequências: tendo sido o texto composto para a leitura pública, e não para

a encenação; estes coros acabam por atuar como personagens; assim fazendo, têm

diminuídos seu valor como consciência da população ou de mensageiro dos deuses que lhe

era anteriormente atribuído. Diminuído, mas não extinto, pois o coro de apoio a Otávia

continua agindo nesse sentido, como nos afirmam Dumont e François-Garelli: “La pièce

conserverait alors certains caractères du genre, notamment dans les chœurs, où les

partisans d‟Octavie énumèrent les forfaits des grands tyrans de l‟histoire romaine.

(DUMONT; FRANÇOIS-GARELLI, 1998: 174). 122

Acreditamos que uma das razões para que existam dois coros em Octauia é de que

desta maneira se imprime maior dinamismo aos diálogos e se consegue, sem incluir-se

mais personagens – que deveriam necessariamente ter seu correspondente histórico -, um

maior número de opiniões e de vozes contrastantes ao texto. Também cogitamos haver

uma razão dramatúrgica: em caso de existir uma encenação do texto, a duplicidade de

coros, além de surtir todos os efeitos acima descritos, aumentaria o número de partes

cantadas em cena, agradando ainda mais o público romano que, segundo Bieler: “se sentía

alejado de la temática ática, pedía claramente mucha música junto al esplendor del

montaje” (BIELER, 1992: 48)123, que comenta ainda algo que nos é claramente perceptível

quando da leitura do Octauia: “El elemento musical, unido al “pathos” del lenguaje, dio a

la tragedia romana un carácter extrañamente barroco.” (ibidem)124.

122
“A peça conservaria então certos caracteres do gênero, notadamente nos coros, onde os partidários de
Otávia enumeram as faltas dos grandes tiranos da histñria romana.”
123
“sentia-se distante da temática ática, pedia claramente muita música junto al esplendor da montagem.”
124
“O elemento musical, unido ao pathos da linguagem, deu à tragédia romana um caráter estranhamente
barroco.”
150

Rompendo com o que fora preceituado por Horácio, sua dupla presença acaba por

dotar a peça de uma polifonia que, além de representar a divisão da opinião pública a

respeito das acusações feitas a Otávia, tem como efeito colateral aproximar o texto das

formas consagradas de romance.

Fica claro, portanto, que, mesmo sendo Octauia, pela sua temática e estrutura, uma

tragédia, isso não impede que apresente, frente ao modelo proposto por Horácio, inovações

que tomam forma na bipartição do coro e sua consequente redução à condição de

personagem – quando interage com o mensageiro – ou de narrador – quando nos transmite

informações não apresentadas durante a encenação -, e que isso acarreta uma polifonia que

diminui o caráter absoluto das personagens, externando seus conflitos e pondo em

suspenso quaisquer manifestações do sobrenatural. Uma polifonia como a que

descrevemos acima nos leva a crer que Octauia possa ser considerada uma obra em que já

se manifestem traços daquilo que viria, posteriormente, a constituir-se em elementos de

romance.

Isto é algo que de modo algum pode depor contra o autor da peça, pois uma análise

do gênero praetexta indica que este já conteria em si uma forma embrionária de romance,

marcadamente em sua tipologia denominada “romance histñrico”. O exame dessa relação

ordena um estudo mais acurado tanto da fabula praetexta quanto de suas relações com o

romance histórico e suas diversas tipologias, o que procederemos em seguida. Pois,

independentemente da categoria textual em que Octauia possa - com maior ou menor grau

de conforto - ser enquadrada, é fato que também deve ser lida como o documento que mais

nitidamente evidencia a relação Literatura e História na cultura romana, mesmo porque foi

a única praetexta a ser integralmente preservada, e este aspecto do texto é demasiado

importante para que se ponha de lado: ao contrário, é de suma importância designar-se um

espaço para que realizemos uma abordagem de Octauia como texto referencial desta
151

relação, sem dúvida importantíssima para uma cultura como a romana, que tudo registrava

nos anais de sua história.

Deste modo, acreditamos que a próxima abordagem que se deva realizar sobre o

texto de Octauia seja a reflexão a respeito de como, a partir deste texto, começaram a

constituir-se especificadades na relação entre Literatura e História, primeiramente no

Império Romano, em seguida no Ocidente cristão e, mais tarde, também na América

Latina, onde um gênero como o romance histórico – que guarda íntima relação com o teor

textual de Octauia Ŕ é dos mais férteis. Caberá pois examinar mais amiúde tanto o

processo de construção da relação entre Literatura e História, dentro das especificidades

que esta relação assumiu no Império, assim como, para determinar qual o lugar que se

pode, hoje, conferir ao texto de Octauia, examinar também as releituras sofridas por este

texto ao longo das transformações nessa relação que no Ocidente se processaram.

Mas se os romanos denominavam fabula praetexta a tipologia textual em que se

narrava sua História, devemos estabelecer as linhas principais deste padrão de narrativa.

5.2.4.1 Características gerais da fabula praetexta

Todos os autores de que nos vimos servindo ao longo deste trabalho são unânimes

em apontar Névio (circa 270-199 a.C) como o criador do gênero. Ao que se sabe, Névio

era natural da Campânia, mas havia obtido cidadania romana 125; compunha basicamente

comédias e restam-nos títulos e fragmentos de pelo menos 34 obras suas de gênero cômico.

Foi contemporâneo de Ênio e sabe-se que o jovem Plauto o conheceu já na velhice. Sobre

sua relação com a praetexta, Gudemann assim se posiciona:

125
Névio pode, portanto, ser considerado, como Cícero, um cidadão não-citadino oriundo da Itália.
152

Él es asimismo el fundador del drama nacional histórico, de la fabula praetextata


(llamada así por el traje , la toga praetexta, de los personajes que figuraban en la
misma, pertenecientes a la clase senatorial), como algo análogo a la tragedia de temas
tomados de la leyenda heroica griega. Por los dos títulos que conocemos – un tercero,
Lupus, es dudoso – y algunos fragmentos, se sabe que en una de ellas dramatizó la
infancia y juventud de Rómulo y Remo, y en la otra la heroica victoria, viva aún en el
recuerdo general, de M. Claudio Marcelo, quien el año 222 dió muerte junto a
Clastidio, en singular combate, al caudillo galo Virdúmaro. Se tiende con facilidad a
menospreciar la originalidad de tales produciones. (GUDEMANN, 1942: 18)126

Ao definir a praetexta como “drama nacional histñrico”, Gudemann já nos dá a direção a

seguir para um exame do que foi este gênero dramatúrgico, e deixa claro que sua

compreensão passará necessariamente pelo exame da – nem sempre pacífica - relação entre

Literatura e História.

Detectar os elos que construíam essa relação é tarefa bastante penosa em virtude da

falta de outras praetextae com que trabalhar. O já mencionado Dicionário Oxford de

Literatura Clássica grega e latina menciona existirem, além de Octauia, “fragmentos ou

vestígios de doze outras, tais como a Clastidium, de Névio, o Rapto das Sabinas de Ênio, o

Bruto de Ácio e o Aeneas de Pompônio Segundo.” (HARVEY, 1998:414). A exiguidade

de fontes faz com que Bieler declare, enfaticamente, que: “Los escasos fragmentos que

quedan de ésta127, como de las demás piezas de teatro “pretextas” (sñlo se conserva la obra

Octavia, atribuida a Séneca) no permiten formular ningún juicio sobre la forma artística y

el estilo.” (BIELER, 1992: 45)128.

126
É entretanto o fundador do drama nacional histórico, da fábula praetextata (chamada assim pelo traje, a
toga praetexta, das personagens que figuravam na mesma, pertencentes à classe senatorial), como algo
análogo à tragédia de temas tomados da lenda heroica grega. Pelos dois títulos que conhecemos – um
terceiro, Lupus, é duvidoso – e alguns fragmentos, sabe-se que numa delas dramatizou a infância e juventude
de Rômulo e Remo, e na outra a heroica vitória, viva ainda na memória geral, de M. Cláudio Marcel, que, no
ano 222, deu morte em Clastidium, em combate singular, ao chefe gaulês Virdumaro. Tende-se com
facilidade a menosprezar a originalidade de tais produções.
127
Bieler refere-se aqui a Lupus, obra de Névio.
128
Os escassos fragmentos que restam desta, como das demais peças pretextas (só se conserva a obra
Octauia,atribuida a Sêneca) não permitem formular nenhum julgamento sobre a forma artística e o estilo.
153

Entendemos que Bieler se refere ser impossível afirmar-se algo com respeito à

métrica e à estruturação das praetextae dispondo de apenas um texto preservado na íntegra.

Contudo, uma citação de Bayet, referente a Névio, pode ajudar-nos quanto à função social

da praetexta:

Ces pièces, qui prêtaient à des étalages triomphaux et à des défilés de toute sorte,
doivent avoir été composées sur commande, à l‟occasion d‟une cérémonie nationale
ou d‟une semi-privée de la gens Claudia: ce qui suffit à indiquer que Naeuius comptait
dans la noblesse et dans l‟État aussi bien des protecteurs que des ennemis. (BAYET,
1953: 55)129

Demonstrando o caráter de celebração patriótica que as praetextae embutiam, fica claro

que a representação deste drama histórico – sempre drama, supomos, considerando o

caráter formal e severo do Estado romano cujos feitos se encenavam – ficava sujeita ao

mecenato e à celebração de algum fato histórico ou social sobre o qual seria construído o

texto a encenar-se.

Isto nos autorizaria também a fazer duas outras suposições que, pensamos,

explicaria o desaparecimento de todo um gênero de obras que, durante os anos de expansão

da República, certamente desfrutou de alguma popularidade: em virtude de estarem sempre

ligadas a acontecimentos ainda presentes na memória da população, e intimamente ligados

à vida de alguma personagem histórica, as praetextae não seriam compostas com a

finalidade de repetirem-se “em cartaz” ao longo de anos; ao contrário, cogitamos que a

grande maioria delas deve ter sido composta para apresentação única e vinculada a um

evento específico e de público muitas vezes restrito. Tais fatos explicariam a pouca

necessidade de preservação dos textos e mesmo nos permite pensar se alguns destes,

aqueles destinados a uma única encenação, chegariam mesmo a ser escritos, uma vez que

poderiam ser memorizados pelos atores tão somente para o evento previsto.

129
Estas peças, que serviam a exposições triunfais e a desfiles de toda sorte, devem ter sido compostas sob
encomenda, na ocasião de uma cerimônia nacional ou de uma semiprivada da gens Claudia: o que basta para
indicar que Névio contava na nobreza e no Estado com tantos protetores quanto inimigos.
154

Considerando a trajetória dos cem anos anteriores a Nero, percebe-se que, decerto,

a praetexta fosse um gênero já em decadência, uma vez que certamente os governantes do

Império – interessados, desde Augusto, em mostrar o sucesso do novo regime em trazer

paz e harmonia a Roma – não ostentariam triunfos nem encenariam obras que narrassem os

sucessos do passado - realizações da República – que tampouco deveriam ser rememorados

em um ambiente onde a oposição ao novo regime, mesmo que calada, ainda se fazia sentir.

Por fim, como este é, ademais, um tempo de poucos conflitos externos para Roma, as

oportunidades deste tipo de gênero teatral tornavam-se ainda mais exíguas. Quanto à

história de seu próprio tempo, que interesse haveria para os governantes do Império em

encenar textos relativos às guerras civis, às perseguições políticas, ou aos “êxitos”

administrativos de Tibério, Calígula e Cláudio; imperadores cuja memória estaria sempre

dividindo os espíritos dos seus concidadãos?

Ao tratar da praetexta nos versos 285 a 288 de sua Epistola ad Pisones, Horácio

não esconde o orgulho de que este seja um gênero dramático genuinamente romano, mas

também confere a seus versos um tom nostálgico expresso pelos verbos no pretérito

perfeito de que se vale:

Nihil intemptatum nostri liquere poetae,


Nec minimum meruere decus uestigia graeca
Ausi deserere et celebrare domestica facta
Vel qui praetextas uel qui docuere togatas.130 (HORÁCIO, 1911: 611)

Então devemos interrogarmo-nos sobre o porquê do autor de Octauia ter-se valido

de um gênero já então em desuso ou em decadência? A resposta parece-nos bastante

simples: todos os acontecimentos do governo de Nero oferecem abundante matéria-prima

para qualquer tipo de representação, bastando apenas, neste caso, selecionar qual

130
“Nada deixaram de tentar os nossos poetas; nem foi o menor mérito a coragem de abandonar as pegadas
gregas e celebrar os fastos nacionais, tanto dos que encenaram tragédias pretextas como dos autores de
togatas.” Segundo a tradução de Jaime Bruna em ARISTÓTELES; HORÁCIO; LONGINO. A Poética
Clássica. 5 ed., São Paulo: Cultrix, 1992. pág. 63.
155

forneceria melhor possibilidade de resgatar-se a memória e as ideias de Sêneca e ou de

praticar a damnatio memoriae de Nero.

Contudo, realizar uma praetexta centrada em uma personagem – Otávia - com

intenções como as mencionadas acima acabam resultando em metamorfose ou simples

manipulação dos paradigmas do gênero; conforme argumenta abaixo Liberman, ao alegar

que

L‟action de l‟Octavie est un cadre historique qui n‟est pas rempli par le jeu vivant des
relations entre les nombreux personnages. Aucune scène ne confronte Octavie et
Néron. On sent trop qu‟il y a deux sujets concurrents dans la pièce, le destin d‟Octavie
et la tyrannie de Néron. Dans ce second sujet, les personnages mettent en scène non
sans artifice l‟analyse et la stigmatisation que l‟auteur fait d‟une époque, et, à travers
Néron, d‟un régime. (LIBERMAN, 1998, XI)131

Deste modo, temos em mãos um paradoxo: a única obra que nos resta de um gênero

destinado aos triunfos e às celebrações dos grandes feitos e nomes de Roma é uma obra de

denúncia e protesto contra o exercício do poder no regime imperial.

5.2.4.2 Um enquadramento desconfortável

Percebemos, enfim, mesmo sem termos qualquer outro texto integral que nos

permita uma comparação mais aprofundada, que Octauia é uma obra a quem o epíteto

praetexta não serve em sua justa medida, seja porque foge ao caráter triunfal e/ou

laudatório que Bayet e outros historiadores alegam ter sido característico do gênero, seja

porque se constitui justamente em seu oposto: uma obra de denúncia dos crimes de Nero.

Constata-se que o autor desta obra tinha em mente não realizar um panegírico como a

Eneida ou a Farsália se propunham a ser, mas em condenar os desvarios do imperador e

131
“A ação de Octauia é uma moldura histórica que não é preenchida pelo jogo vivo das relações entre as
numerosas personagens. Cena alguma confronta Otávia e Nero. Sentimos, demais até, que há dois temas
concorrentes na peça, o destino de Otávia e a tirania de Nero. No segundo tema, as personagens põem em
cena, não sem artifício, a análise e a estigmatização que o autor faz de uma época, e, através de Nero, de um
regime.”
156

demonstrar, com exemplos da história recente, os perigos que a concentração de poderes

pode trazer, quando nas mãos de um tirano. Por outro lado, se se distancia da Eneida,

podemos dizer que Octauia antecipa em alguns séculos o J’accuse! de Zola. A

inadequação da classificação como praetexta para Octauia é defendida por Dumont e

François-Garelli, que apresentam, de passagem, outro argumento contra a autoria por

Sêneca:

Or le terme même de praetexta, qui se réfère au vêtement symbolique de magistrat


comme à celui de certains prêtres, vêtement à la signification politique et religieuse
symbolisant le caractère sacré de l‟imperium, perd sa valeur lorsqu‟on l‟applique à
l‟Octavie. La pièce ne célèbre, tout au plus, que la sagesse et les convictions anti-
tyranniques du philosophe Sènèque et d‟une partie du peuple romain. Notre moraliste
était-il assez facétieux pour se prendre lui-même comme héros de réference?
(DUMONT; FRANÇOIS-GARELLI, 1998:173)132

Mesmo sendo assaz tentador pensar em Sêneca, ou no autor anônimo, como aquele que,

por sua própria inserção como personagem de uma de suas obras, seja o criador de um

processo de metalinguagem que anteciparia em cerca de mil e quinhentos anos o que

Cervantes efetua no Dom Quixote; mantemo-nos conscientes do fato de que Octauia é obra

produzida em tempo no qual, segundo Bieler: “avanza la costumbre de mezclar géneros y

estilos literarios; la fuerza de la retórica se robustece cada vez más, mientras se relaja la

relaciñn vital del autor con su obra.” (BIELER, 1992:256)133. E é justamente porque

também se podem mesclar os gêneros literários que devemos repensar a categorização de

Octauia como praetexta.

Frisemos que o que aqui se discute não é o estatuto de Octauia como tragédia – já

demonstrado anteriormente - nem o processo de sua construção, apesar dos desvios

132
“Ora, o prñprio termo praetexta, que se refere tanto à vestimenta simbólica de magistrado como à de
alguns sacerdotes, vestimenta com significação política e religiosa simbolizando o caráter sagrado do
imperium, perde seu valor assim que aplicada à Octauia. A peça celebra, tão somente, a sabedoria e as
convições anti-tirânicas do filósofo Sêneca e de um parte do povo romano. Nosso moralista era tão jocoso
para tomar a si mesmo como herói de referência?”
133
“avança o hábito de misturar-se gêneros e estilos literários, a força da retórica se robustece cada vez mais,
enquanto se afrouxa a relação vital do autor com sua obra.”
157

também já mencionados, segundo as regras estritas do cânone clássico. Devemos, ainda,

estar atentos a que uma obra, mesmo estando em versos, pode ser caracterizada como

narrativa, e, como tal, apresentar pontos comuns com outras tipologias textuais nas quais,

em razão de outros fatores, não poderia ser enquadrada. Por isso acreditamos que, apesar

de todos os fatores que nos autorizam a classificar Octauia como uma tragédia latina, a

pertinência da obra no conjunto das praetextae demonstra-se como uma categorização

desconfortável, pelos aspectos já acima citados.

Ainda é notório que, em que pese o rigor com que se atém ao cânone, Octauia não

deixa de demonstrar uma relação entre Literatura e História sem paralelo – ao menos

conhecido – na Antiguidade latina; mas cujas reverberações são perceptíveis nas literaturas

contemporâneas, em especial as da América Latina. Se há, enfim, este desconforto em

categorizá-la, convém investigar que outra categoria poderia ser-lhe aplicável. Cogitamos

ser este enquadramento possível se nos dispensarmos de buscá-los nas tipologias teatrais –

antigas ou modernas - e voltarmo-nos para os tipos de narrativa romanesca.

Como cremos que é impossível encontrar, dentro das tipologias textuais

características da Antiguidade, onde Octauia poderia ser alocada, e também porque

pensamos – conforme anunciamos em nossa introdução - que a obra apresenta, porque

antecipa, diversos pontos em comum com a literatura da Modernidade e da Pós-

Modernidade - no tocante à relação entre Literatura e História - preferiremos explorar,

entre as tipologias textuais da contemporaneidade, o locus cabível a Octauia. Para tanto,

será mister discorrermos sobre como, dentro do panorama literário dos períodos supra-

citados, esta relação se estabeleceu, assim como demonstrarmos as consequências do

enquadramento de Octauia nas mesmas.


158

5.2.4.3 História e Literatura: construções discursivas

Posto que História e Literatura desfrutam da convicção comum de serem ambas

capazes de configuração de realidade(s), é no caráter marcadamente mimético de seus

discursos que estes saberes se interceptam.

Contudo, na visão do historiador “ortodoxo” – assim definido como aquele que crê

no discurso historiográfico como expressão da verdade - o conceito de real estará

intrinsecamente ligado à experiência dos sentidos, embora lhe interessem apenas os fatos

sociais cuja repercussão interfiram no destino e no desenvolvimento de dada(s)

sociedade(s). Tais fatos, que de sociais se alçam à condição de históricos, constituirão a

realidade sobre a qual o historiador se debruçará, e, à primeira vista, nela não haverá lugar

para o conceito de mímese. Ainda assim o processo mimético ocorre, pois, como considera

Hayden White:

La obra histórica como lo que más manifiestamente es: es decir, una estructura verbal
en forma de um discurso de prosa narrativa que dice ser un modelo, o imagen, de
estructuras y procesos pasados con el fin de explicar lo que fueron representándolos.
(WHITE, 1992:14, grifos do autor)134

Mas, ainda que narrativa, a ortodoxia historiográfica rejeita categoricamente

qualquer proximidade do seu objeto de estudo com a ficcionalização: os pressupostos do

racionalismo iluminista estabeleceram a verdade como único patamar sobre o qual pode a

História construir todos os seus discursos. Voltando-nos em direção a Benjamin, este nos

alerta – e o fazendo ratifica Hayden White – para a construção discursiva do fato histórico,

pelo modo como tangenciam as ideias de coesão e coerência que devem preencher sua

tipologia textual: “O historicismo se contenta em estabelecer um nexo causal entre vários

134
A obra histórica como o más claramente é: quer dizer, uma estrutura verbal em forma de um discurso de
prosa narrativa que diz ser um modelo, ou imagem, de estruturas e processos passados com o fim de explicar
o que foram, representando-os.
159

momentos da história. Mas, nenhum fato, meramente por ser causa, é só por isso um fato

histñrico. Ele se transforma em fato histñrico postumamente.”(BENJAMIN, 1996:232).

Corroborando Benjamin e apoiando White, Linda Hutcheon questiona o “estatuto

de veracidade” na discursividade histñrica, assumindo um posicionamento que se

contrapõe ao rumo que a historiografia tomara. Daí a conceituar o trabalho do historiador

como construção de uma metaficção historiográfica, assim definida:

A metaficção historiográfica refuta os métodos naturais, ou de senso comum, para


distinguir entre o fato histórico e a ficção. Ela recusa a visão de que apenas a história
tem uma pretensão à verdade, por meio do questionamento da base dessa pretensão na
historiografia e por meio da afirmação de que tanto a história como a ficção são
discursos, construtos humanos, sistemas de significação, e é a partir dessa identidade
que as duas obtêm sua principal pretensão à verdade.(HUTCHEON, 1991:127)

Sendo construção discursiva – e, portanto, usuário dos mesmos processos do saber

literário –, o historiográfico daquele se distingue por: a) ter a linearidade como proposta

(única) de organização, b) ter a objetividade como modus operandi e c) ter o signo da

veracidade como seu regente. A influência de tais conceitos por sobre o processo escritural

fará com que este siga a mesma trajetória da historiografia.

5.2.4.3.1 Octauia como romance histórico

Pode-se detectar no surgimento do Romantismo o ponto em que a conjunção entre

os dois saberes que vimos estudando chegou ao zênite, dando inclusive origem a um

gênero narrativo que, híbrido, contraria o senso comum da Biologia por ser extremamente

fértil: o romance histórico.

Surgido em inícios do século XIX, o romance histórico tem na obra de Walter Scott

seu modelo mais tradicional e que estabelece os princípios que lhe garantirão lugar no

cânone. (Note-se que, de toda a tipologia romanesca, o histórico é o gênero que se


160

estabelece sob o modelo mais rígido: justamente o scottiano). No seu surgimento, o

romance histórico seguia à risca os processos de construção discursiva que a História

coroara como os únicos válidos: linearidade narrativa; fidelidade aos fatos tidos como

“verdadeiros” pela História oficial - mostrados como pano de fundo - já que sempre se

mostrava a vida de personagens ficcionais ou secundários no processo histórico. Outro

detalhe tem grave importância no modelo scottiano: os fatos históricos tratados estarão

sempre localizados à distância, senão no espaço, mas no tempo. Será justamente este o

primeiro dado que nos impede de inserir Octauia nesta categoria, afinal, a situação

histórica retratada na peça são recentes: aceita a hipótese de Herrmann de que a obra teria

sido composta durante o governo de Vespasiano, o autor estaria, por conseguinte, tratando

de fatos que estavam ainda nítidos na memória de todos.

Outro dado que nos dificulta classificar a obra segundo este critério é o fato de

haverem inexatidões quanto à historiografia – algo que o romance histórico não admite.

Em Octauia, estas apresentam-se em dois momentos do texto, conforme o cotejo da

narração transmitida na peça com aquela legada pelos historiadores posteriores ao período

da ação dramática. Assim, neste momento, e nos que se seguirem, processaremos uma

comparação entre estas narrativas, tais como mostradas no texto, e sua “versão” segundo

historiadores como Suetônio e Tácito, que se detiveram nos acontecimentos daquele

período histórico e que, ao lado de Tito Lívio, são os principais construtores da

historiografia romana.

O momento em que a narrativa de Octauia escapa à veracidade historiográfica é

que, segundo Suetônio (VI, 35), há uma diferença de doze dias entre o repúdio de Otávia

por Nero e seu casamento com Popeia: “Poppaeam duodecimo die post diuortium Octauiae
161

in matrimonium acceptam dilexit unice” (142-4)135. Na peça, o segundo ato termina com

Nero comunicando a Sêneca sua decisão de casar-se com Popeia – já grávida, aliás – e ao

início do terceiro, no dia seguinte, o matrimônio já ocorrera. Também o modelo scottiano

exige, quase didaticamente, esclarecimentos quanto aos motivos das ações das personagens

históricas, e isto nos falta em Octauia, como afirma Liberman: “La pièce n‟évoque pas

explicitement la répudiation d‟Octavie, elle n‟en mentionne pas le prétexte, la stérilité de la

jeune femme. Il n‟ya pas question de l‟accusation d‟adultère avec un esclave grec que

Popée tenta en vain de faire peser sur Octavie.” (LIBERMAN, 1998, X)136”

A falta das motivações históricas e a deformação do tempo histórico para adaptar-se

ao narrativo, além do fato de a obra pôr em evidência as personagens históricas, são os

fatores que nos impedem de classificarmos Octauia como romance histórico, ao menos

segundo o modelo scottiano, o qual não é a único modelo que o gênero apresenta, como

veremos em seguida.

Além do scottiano, outro modelo de romance histórico aparece na Europa – este

formulado por Alfred de Vigny – e destoa daquele por colocar em primeiro plano as

figuras históricas. Octauia parece estar inserida na “árvore genealñgica” deste modelo de

romance que, se não alcançou, na Europa, a popularidade do scottiano, é ainda assim

considerado, por Alexis Márquez Rodríguez137 (1996), como o modelo de romance

histórico preponderante na América Latina do século XIX. Para isso, aponta as

coincidências estruturais existentes entre o modelo de de Vigny e aquele presente em

135
“No décimo-segundo dia após seu divórcio de Otávia considerou Popeia unida (a si) em matrimônio.”
136
A peça não evoca explicitamente o repúdio de Otávia, ela sequer menciona o pretexto, a esterilidade da
jovem. Não se menciona a acusação de adultério com um escravo grego que Popeia tenta em vão lançar sobre
Otávia.
137
In: MÁRQUEZ RODRÍGUEZ, Alexis. Historia y Ficción en la Novela Venezolana. Caracas: Ediciones
La Casa de Bello, 1996.
162

Xicoténcatl138. O modelo scottiano, para Márquez Rodríguez, parece ter-se estabelecido

após ou concomitantemente ao de de Vigny139.

Em decorrência disso, a principal reprimenda feita pela crítica europeia de então ao

modelo de de Vigny - colocar à frente da narrativa a personagem histórica - parece-nos a

mais facilmente aplicável ao caso de Octauia, até porque, se o modelo scottiano partia de

heróis já estabelecidos na história da nação, ao autor anônimo, naquele momento da

história do Império Romano, uma vez que pretendia a (re)construção da identidade

cultural, cabia estabelecer antes o herói.

E este é, afinal, o trabalho desenvolvido pelo autor anônimo: estabelece uma tríade

de personagens com papéis bem demarcados: o herói (Sêneca), luminar de conhecimento

que desafia o tirano (Nero) com a força que sua doutrina filosófica lhe proporciona; e a

mártir (Otávia), que simboliza em si mesma não apenas a última herdeira dos júlio-

cláudios, nem tampouco as demais vítimas do regime imperial, tal como exercido por

Nero - ao qual se fazia, enfim, oposição - mas constituía-se também em exemplo da

resignação estoica.

É enfim em torno à figura de Sêneca que o autor de Octauia reflete o que

acreditava ser o paradigma identitário romano: através da personagem Sêneca, o autor

mostrava o padrão de comportamento que se deveria esperar de um cidadão. Padrão esse

que, repetimo-nos, estava assentado na fusão do mos maiorum com o estoicismo: o autor

de Octauia usou, astutamente, a personagem Sêneca para discutir e divulgar as próprias

ideias do filósofo Sêneca.

138
Obra considerada o primeiro romance histórico latino-americano, publicada no México em 1826.
139
Independentemente do modelo que primeiro nos teria inspirado, o romance histórico teve na América
Latina uma destacada preponderância sobre as demais variedades de romance em razão da premente
necessidade de construção das nacionalidades e de literaturas nacionais dentro do espaço hispano-
americano.
163

Ademais, se verídica a hipótese de que a peça tenha sido escrita antes dos Anais

de Tácito e da Vida dos Doze Césares de Suetônio; é-nos lícito imaginar também se, em

efeito reverso, não terá o texto de Octauia, literário, colaborado para o retrato histórico

que estas obras constroem destas figuras que até hoje povoam o imaginário ocidental.

5.2.4.3.2 Octauia como narrativa de extração histórica

Se fica clara a possibilidade de alocar-se Octauia como um romance histórico

avant la lettre, calcado no modelo de de Vigny, o segundo item que apontamos

demonstra perfeitamente que, à medida que o romance histórico engendrava sua

descendência, novas tipologias se fizeram necessárias para classificar seus “herdeiros”,

seus “bastardos” e, no caso de Octauia, seus “ancestrais”. Mais, se a denominação inicial

parece conceder ao gênero romance a exclusividade no trato do histórico, como

classificar-se aquelas formas narrativas que - como Octauia - pertencem claramente a

outros gêneros – ou, pior, têm gêneros indefinidos - mas ainda assim tratavam da

História, seja como pano de fundo ou cortina de palco?

Em busca de uma resposta a este questionamento e visando preencher esta lacuna

terminológica, André Trouche cunhou, aplicando inicialmente à literatura hispano-

americana, uma expressão que acreditamos poder ser estendida à literatura latina - o

termo “narrativa de extração histñrica”, cuja justificativa corrobora nossa visão acerca a),

da existência de um espaço intertextual histórico-literário na literatura latina e b), da não-

linearidade na construção destes textos; a citação, por conseguinte, faz-se mais do que

necessária:

... a opção pelo composto “narrativas de extração histñrica” encontra-se no fato de


que o diálogo com a História não se restringe ao âmbito do romance histórico, e sua
linha de continuidade, ou ao âmbito das chamadas metaficções historiográficas. Ao
164

contrário, no universo do sistema literário hispano-americano, muito antes do século


XIX, já encontramos significativa produção narrativa que toma o histórico como
intertexto. Refiro-me à crônica historiográfica dos séculos XVI e XVII e a alguns
narradores como Domingo Faustino Sarmiento e Ricardo Palma, ambos no mesmo
século XIX, mas totalmente afastados do modelo do romance histórico, tomaram a
memória, a história e o legendário oral como signos contíguos não excludentes,
compartilhando a mesma perplexidade e o mesmo projeto de autoconhecimento, a
partir do diálogo com a história. (...)
Neste sentido, o composto narrativas de extração histórica, entendido
conceitualmente como o conjunto de narrativas que encetam o diálogo com a
História, como forma de produção de saber e como intervenção transgressora, se nos
afigura como mais adequado que aqueles, cunhados ao longo do tempo.
(TROUCHE, 2006: 43-4)

Assim concebidas, as narrativas classificadas como de extração histórica se

apresentam como categoria suficientemente abrangente para dar conta daquelas

construções textuais que fogem às tipologias estabelecidas pelo cânone literário, como é o

caso de Octauia, em que se mesclam tipologias distintas.

Nascida em terreno intertextual, acrescido da impossibilidade de estabelecermos a

completa linearidade do processo constitutivo da literatura latina140 e pela inexequibilidade

da compartimentação dos saberes - tornada possível pela inoperância da objetividade

histórica fora da linearidade - a categoria narrativa de extração histórica parece comportar

uma chave para a compreensão do vínculos entre o processo de construção identitária

vinculado à doutrina estoica ensejado por Sêneca e a elaboração de um texto como o de

Octauia – visto que o apresenta como uma rede discursiva intencionalmente elaborada e

em que se percebe que, a partir da tríade que acima mencionamos, o autor anônimo

objetiva refletir outra, aquela já expressa por Sêneca: a de uma nova identidade cultural

romana, baseada na antiga tradição de valores, ratificada pelo estoicismo e expressa através

de um regime, que mesmo sendo o imperial, não mais seria tirânico.

Mas se até aqui mencionamos haver, em Octauia, um tratamento da relação História

e Literatura diferenciado daquele que as letras romanas consagraram - fato este em que nos

140
Impossibilidade esta gerada pela enorme quantidade de lacunas criadas pelas obras perdidas ao longo dos
séculos.
165

baseamos para qualificá-la como narrativa de extração histórica -, tratamento este que,

aliado a uma configuração da estrutura de tragédia que escapava parcialmente aos ditames

expostos por Horácio, e que, congregados, estes fatores aproximam o texto da peça ao

gênero do romance histórico; convém ressaltar a existência, na obra, de outro tipo de

hibridismo, que trai uma intencionalidade que o autor não nos confessa, mas de que nos

traça pistas, conforme examinaremos a seguir.

5.3 Simulacro de julgamento

Se os teóricos acima mencionados creem ser a fabula praetexta um gênero

dramático destinado à representação de fatos históricos romanos, temos, pelos motivos que

vimos expondo, razões para crer que o valor de Octauia não se restringe apenas a sua

pertinência ao gênero – fato que, como vimos, representará uma diminuição das

possibilidades de leitura que este texto apresenta – mas porque pensamos que este texto

embute algo até então inusitado nas obras romanas: em Octauia não se faz apenas a revisão

do período histórico precedente, mas vai-se além: a peça realiza o “julgamento público”

das personagens históricas deste período. Defendemos tal hipótese baseados na leitura do

texto e a partir da seguinte análise de Liberman, que, ao tratar da desproporção dos atos da

obra, acabou por atrair-nos para tal questão:

La disproportion entre l‟acte I et les suivants est notable; notable aussi la brièveté de
l‟acte III. L‟auteur n‟a pas su équilibrer pourvu la pièce d‟une construcion sensible:
l‟acte IV (dialogue d‟Octavie et de sa nourrice). L‟acte V, qui évoque dans sa seconde
partie l‟exil d‟Octavie et les malheurs des femmes de la maison julio-claudienne,
correspond, dans sa première partie (dialogue de Néron et du préfet), à l‟acte II
(dialogue de Néron et de Sénèque). Cette construction fait immédiatement voir que la
piéce est en fait centrée sur deux personnages, Octavie et Néron. La figure
d‟Agrippine, femme et victime, comme Octavie, de Néron, mais aussi, comme Néron,
bourreau d‟Octavie; occupe l‟acte central, où son spectre apparaît ample et magnifique
166

récit, le chœur évoque son naufrage et son assassinat, et dans l‟acte final, où le chœur
résume son infortune. (LIBERMAN, 1998, IX)141

Ocupando cerca de quase a metade de toda a obra, o tom do primeiro ato de

Octauia é, sem dúvida, aquele de lamentação exposto por Harvey, pois neste ato

apresentam-se todas as dores vividas pela protagonista. Esta narra a sua ama seus

dissabores, pessoais e os de sua família: a morte de sua mãe, pai e irmão; a opressão por

parte da madrasta Agripina; o casamento forçado com Nero e a ascensão deste ao trono; o

envolvimento do imperador com Popeia e a crueldade e repúdio que sofre. A participação

da ama neste ato é a de tão somente proporcionar oportunidades para que Otávia se

manifeste.

Esta seria a leitura meramente teatral da praetexta Octauia, em uma perspectiva de

leitura revisionista do passado próximo, entretanto, pensamos ser também possível ler-se a

obra como o simulacro de um julgamento, daí que o primeiro ato seria o momento em que

a vítima apresenta suas queixas ao juiz. Assim, além de expor ao público todos os

problemas que envolvem Otávia, e de realizar a captatio beneuolentiae deste mesmo

público, este longo primeiro ato serve igualmente para colocar o público na posição deste

juiz que até então falta à obra.

Temos também a primeira participação do coro, em que se manifesta o assombro da

população romana pelos fatos em curso e lamenta a decadência dos romanos do presente,

quando comparados às figuras do passado. De igual modo, nesta fala do coro – uma

daquelas em que assume a condição de narrador – discorre-se sobre a morte de Agripina,

141
A desproporção entre o ato I e os seguintes é notável; notável também a brevidade do ato III. O autor não
soube equilibrar a peça com uma construção sensível: o ato IV (diálogo de Otávia e sua ama). O ato V, que
evoca em sua segunda parte o exílio de Otávia e as infelicidades das mulheres da casa julio-claudiana,
corresponde, em sua primeira parte (diálogo de Nero com o prefeito do palácio), ao ato II (diálogo de Nero e
Sêneca). Esta construção faz imediatamente ver que a peça está de fato centrada sobre dois personagens.
Otávia e Nero. A figura de Agripina, mulher e vítima, como Otávia, de Nero, mas, também como Nero,
carrasca de Otávia, ocupa o ato central, onde seu fantasma realiza um longo e magnífico discurso, o coro
evoca seu naufrágio e seu assassinato, e no ato final, onde o coro resume seu infortúnio.
167

demonstrando este primeiro crime de Nero como uma prova de sua culpabilidade: Nero,

matricida, não pode ser julgado como réu primário.

O segundo ato se inicia com um monólogo de Sêneca em que este, lamentando a

perda da paz em que vivia seu exílio na Córsega; faz um retrospecto das principais crenças

estoicas: mormente a das Eras de Ouro, Prata, etc., em que estes dividiam a história da

humanidade, este monólogo é interrompido pela entrada abrupta de Nero, acompanhado de

prefeito do palácio.

Nero entra em cena ordenando as mortes de Plauto e Sula – este, descendente do

ditador Sula, fora acusado de haver atentado contra a vida de Nero; aquele, simplesmente

por ser também descendente de Augusto e, portanto, fazer parte de linha de sucessão ao

trono. Inicia-se um diálogo entre Sêneca e Nero: o filósofo admoesta o imperador sobre o

modo como vem exercendo o poder; neste diálogo presenciamos a práxis do estoicismo tal

como predicado por Sêneca em De clementia e nas Ad Lucilium epistolae morales - que

sequer haviam sido escritas em 62, ano em que se desenrola a ação dramática. Nero

contesta as proposições filosóficas de Sêneca com um simples argumento: sendo o

imperador, tem o poder de agir do modo como o faz, logo, agir tiranicamente é apenas usar

de suas prerrogativas; e como justificativa para suas atitudes, recorre ao modus operandi

pelo qual Augusto alcança tornar-se o primeiro imperador. Nero, acusado, defende-se

alegando não ser o primeiro a abusar do poder, posto que a conduta de Augusto já lhe

franqueara tal direito.

Importa perceber, neste segundo ato, que a personagem Sêneca representa aqui não

só o próprio filósofo – conselheiro do imperador - , mas também o papel de promotor,

naquele momento em que interroga o acusado sobre suas atitudes e o inquire sobre sua

culpabilidade. Se isto serve para realçar a figura de Sêneca como a consciência do regime

imperial, serve também para demonstrar como devem agir aqueles que manifestem sua
168

adesão às ideias por ele defendidas durante o período em que fora a “eminência parda” do

regime: o estoicismo como norma de conduta dos romanos, qualquer que seja seu nível

social, contribuindo para o resgate e a preservação daqueles valores que constituíam a

romanidade.

Repare-se também que, neste segundo ato, não há qualquer participação de coro,

seja porque os mesmos se refiram a Otávia e a Popeia, seja ainda porque, atuando um deles

como juiz, o mesmo deve, durante um julgamento, apenas assistir ao interrogatório do réu

pela promotoria.

O terceiro ato é o mais curto, e é, para aqueles que leiam Octauia apenas como peça

teatral, um verdadeiro intermezzo sem ligações firmes com o que até então tenha sido

mostrado: temos aqui a aparição do fantasma de Agripina, que narra em primeira pessoa

suas próprias desgraças, começando por afirmar ser, no Hades, atormentada por Cláudio,

que reclama o justo castigo para seu assassino e o de Britânico. Agripina declara ainda

estarem as Fúrias preparando para Nero um castigo ainda pior que aqueles pelos que o

Hades é famoso – fato que já mencionamos quando levantamos a questão da autoria.

Importa ainda notar que Agripina não narra aqui, novamente, os fatos de sua morte,

apenas reitera ser verídico o que dissera Otávia no primeiro ato. Ao terminar sua fala,

penitenciando-se por ter sido sempre nefasta aos seus, Agripina deixa a cena e retorna

Otávia, instando ao seu coro que deixe de chorar por ela, já que a morte que se aproxima

será linimento para seus dissabores. Responde enfim o coro ter chegado o doloroso dia em

que Popeia assume o lugar de Otávia ao lado do imperador e anuncia as tragédias e

convulsões que isso acarretará, inquirindo-se sobre o valor que ainda reste ao povo romano

para que possa impedir esse fato.

Se este ato, embora curto, é aquele que mais se aproxima do estilo de Sêneca, pelo

valor que este conferia à dramaticidade e à exposição em cena da violência; é igualmente o


169

ato que, dentro de nossa leitura “judicial” do texto, apresenta fatos novos: a figura de

Agripina, mencionada anteriormente como a primeira das vítimas de Nero, presta seu

depoimento ao tribunal e traz à luz sua versão dos fatos. Por encontrar-se já “cumprindo

sua pena – no Tártaro -, situação em que é impossível uma “redução de sentença”, o

depoimento de Agripina pode ser considerado desinteressado e verídico.

Vemos ainda uma “réplica” de Otávia, que, novamente como vítima, percebe

serem, dado o poder do réu, poucas suas chances de uma real vitória, assim prepara-se já

para perder sua causa. Devemos pensar no impacto que este texto, se representado fosse,

causaria junto à plateia: se a captatio beneuolentiae de que se valera no primeiro ato, já a

levara a identificar-se com Otávia, a postura de Nero - no segundo ato da obra - e o

depoimento de Agripina apenas teriam feito aumentar o sentimento de repulsa pela figura

do imperador; no entanto, esta fala de Otávia seria já o coup de grâce em qualquer

simpatia que se pudesse ainda ter pela figura do Príncipe.

Importa ainda perceber que, neste momento, o coro deixa momentaneamente de

funcionar como juiz e assume a posição de júri; neste sentido, delibera sobre os efeitos

nefastos das ações do Príncipe sobre a tranquilidade da população e, assim, retornando a

sua posição de juiz, decreta que não se permita a Nero unir-se a Popeia e repudiar sua

legítima esposa.

O quarto ato tem uma posição sutil dentro do texto de Octauia, pois nele a figura

central não é a da protagonista, mas justamente a de Popeia, de quem a ama, ao acudi-la,

recebe a notícia de que esta mesma não se sente uma vencedora ao ter sido preferida por

Nero, uma vez que este ordenara a morte de seu primeiro marido, segundo Tácito chamado

Rufrius Crispinus, assim como mais tarde ordenaria a morte do filho que com ele Popeia

tivera.
170

Mas Popeia alega ter tido também um pesadelo com Agripina, pesadelo cuja

descrição logo nos faz perceber tratar-se da aparição de Agripina no ato anterior. Com isso,

o “depoimento” de Agripina torna-se público e notório para todas as partes envolvidas no

julgamento.

Todas as falas de Popeia têm por finalidade convencer a plateia de que ela não é

diretamente culpada ou cúmplice das ações de Nero, mas que é, também, uma vítima do

imperador, e que está consciente de que mais tarde poderá ser substituída assim como

Otávia está sendo. No entanto, sua fala tampouco esconde o orgulho por saber-se desejada

pelo imperador, no que é corroborada por sua ama. Curiosamente Popeia conscientiza-se

disto através de um sonho em que Nero mata seu marido com uma punhalada na garganta,

que é, segundo Suetônio a maneira como o próprio Nero morreria, como vemos em:

Dein diuolsa sentibus paenula traiectos surculos rasit, atque ita quadripes per
angustias effossae cauernae receptus in proximam cellam decubuit super lectum
modica culcita, uetere pallio strato instructum; fameque et iterum siti interpellante
panem quidem sordidum oblatum aspernatus est, aquae tepidae aliquantum bibit.
Tunc uno quoque hinc inde instante ut quam primum se impendentibus contumeliis
eriperet, scrobem coram fieri imperauit dimensus ad corporis sui modulum,
componique simul, si qua inuenirentur, frusta marmoris et aquam simul ac ligna
conferri curando mox cadaueri, flens ad singula atque identidens dictitans: "Qualis
artifex pereo!" (...)

άμδί χτύπος
οΰατα αάλλει” ferrum iugulo adegit iuuante Epaphrodito a libellis. (SUETÔNIO, VI,
47-9; 1996: 170-74)142

Chamada à razão pelo discurso de sua ama, Popeia vê entrar em cena seu próprio coro,

que, comparando Nero a Júpiter, evoca os amores volúveis deste deus, e comparando

142
Em seguida, com seu manto rasgado pelas sarças e, passando rastejante pelo mato, entrou, de gatas,
pelos estreitos do esgoto que acabara de cruzar, onde ele se deitou em uma cama feita de um colchão péssimo
e de uma velha colcha como coberta, aí , atormentado pela fome e e tomado pela sede, rejeitou o pão que lhe
ofereceram, mas bebeu bastante da agua quente.
Logo, como cada um de seus companheiros o convidava a escapar sem demora dos insultos que o
esperavam, ele ordenou cavarem a sua frente um buraco com suas medidas, de colocarem a sua volta alguns
pedaços de mármore, se o encontrassem e de trazer água e madeira, para prestar as últimas homenagens a seu
cadáver e chorava e repetia a todo momento “Morro como um artista!”
E já se aproximavam os cavaleiros cuja ordem era de trazê-lo vivo. Quando percebeu sua chegada
disse tremendo: “O galope de cavalos rápidos fere minhas orelhas”, então, enfiou a espada na garganta, no
que foi ajudado por Epafrodito.
171

Popeia a Helena, prediz que por sua causa poderiam ter início conflitos semelhantes aos de

Troia, mas que isto não acontecerá pois que não é uma disputa entre homens a que tem

lugar, mas a preferência, absoluta e inquestionável, de um deus.

A fala deste coro é interrompida pela entrada de um mensageiro que ordena aos

soldados manterem-se em posição para evitar que os que apoiam Otávia invadam o

palácio. Este mensageiro, convém notar, reporta-se ao coro, dialogando diretamente com

ele, o que, como vimos anteriormente, constitui-se em inovação na práxis da tragédia, uma

vez que apenas os protagonistas ouviam o coro. É neste momento que este coro, até então

atuando em defesa da prerrogativa de Nero em tomar Popeia como esposa, já que, como

deus, era-lhe permitido agir como Júpiter; arvora-se também em defensor das prerrogativas

de Nero em reprimir quaisquer manifestações que significassem o questionamento de suas

ordens.

Percebe-se aqui que, se Popeia, ao falar, visa sobretudo demonstrar ser, ela mesma,

incapaz de resistir ao poder do tirano, fato que significa uma subversão do julgamento, já

que tudo nos levaria a pensar que Popeia seria uma testemunha de defesa de Nero, e é nisto

que a personagem acaba não se constituindo. Por outro lado, o coro que se apresenta

assume a posição de advogado do imperador, e, insistindo na sua deidade, determina sua

liberdade de ação quanto a reprimir seus opositores. Assim, o chamado chorus Poppeae é,

na verdade, um coro de Nero, que, baseado nos argumentos que este coro lhe confere,

passa de réu a juiz.

O quinto e último ato da peça apresenta Nero já em suas novas posições: a de juiz,

que condena à morte toda oposição que favoreça Otávia; exige do povo sacríficios ainda

mais pesados, reduzindo-o à total obediência e ainda faz alusão ao incêndio de Roma –

ocorrido em 64 - como forma de punição à cidade; e a de promotor, que trama a acusação

pela qual Otávia será exilada e morta. A crueldade de Nero aqui é potencializada pela
172

figura do prefeito do palácio, que tenta contemporizar com o imperador, pedindo-lhe que

aja com maior cuidado para não acirrar ainda mais os ânimos: se até mesmo figuras

histórica de notória reputação, como eram as de Faenius Rufus ou de Tigelino 143, estaria

preocupada com o destino da jovem, isso serve como argumento de reforço para a tirania

de Nero.

Segue-se um diálogo entre Otávia e seu coro; este, sabendo-se despojado de sua

anterior condição de juiz – mas não da de narrador -, tenta convencer Otávia da fatalidade

que a fama aporta, para isso, recorre à memória de vultos da República, como os Gracos e

sua mãe, alertando enfim que a humildade é uma forma de preservar-se a vida - eis a

afirmação de um valor estoico -, ao que Otávia responde, e fazendo-o, obtém sua

“tréplica”, que melhor seria não ter nascido pessoa e sim qualquer forma de animal. O coro

manifesta-se ainda uma vez, alertando a submissão dos mortais aos destinos e, para isso,

arrola os destinos das mulheres dos júlio-cláudios. Este alerta se configura na prédica de

mais um valor genuinamente estoico: o da aceitação dos golpes do destino. Em sua última

fala, Otávia acata seu destino e pede vingança aos deuses do Tártaro. A peça termina com

uma última fala do coro, que condena não a Otávia nem a Nero, mas a própria Roma, por

permitir que tais coisas tivessem acontecido.

No roteiro de leitura que propomos este quinto ato demonstra fielmente o absurdo

da tirania de Nero e configura, para o público, a imagem do tirano que cumpria, doravante,

evitar. Mas mais: efetiva aquela elevação da personagem Otávia do papel de vítima em que

se encontrava no primeiro ato, ao de ré e mártir do estoicismo que assume ao ver-se

irremediavelmente condenada por aquele a quem acusara e cujo desempenho evoluiu,

durante a obra, do papel de réu ao de juiz e de carrasco. Também o coro de Otávia, ao

143
De péssima reputação e que ocuparam o cargo após a morte de Burrus em 61. O autor anônimo não
explicita qual dos dois ocupava o cargo quando dos fatos da peça.
173

perder para Nero o papel de juiz desempenhado nos atos anteriores, assume o papel antes

desempenhado por seu preceptor, ensinando-a nos preceitos básicos daquele estoicismo

que Sêneca tentara fazer com que Nero seguisse.

Convém raciocinar que, em sua fala final, o coro transfere uma última vez os papéis

de réu e de juiz ao povo de Roma, responsável por tais fatos terem ocorrido na sede do

império e, ao mesmo tempo, capacitado agora a presidir o julgamento de Nero: alçado a

esta condição a plateia poderia, no plano da realidade, purgar(-se) dos males perpetrados

pelo tirano ficcional, representativo daquele outro real, a que o público havia sobrevivido.

Assim, se Octauia é obra que, em sua estruturação apresenta características da

tragédia clássica, com variações que pudemos considerar inovações - uma vez que não

detectamos similares alhures – que constroem, de maneira assaz peculiar, aproximações

com o gênero romanesco que nos capacitam a considerá-la, mais que uma praetexta,

também uma narrativa de extração histórica. Vemos que também se apresenta, na

organização dos atos e dos fatos dramatúrgicos, uma narração “judicial”, posto que a peça

realiza o juízo de pelo menos duas das personagens em cena – Otávia e Nero – utilizando-

se para tal de depoimentos, testemunhos, coros atuantes como defesa e acusação e,

transferindo, enfim, o papel de juiz para o público.

5.4 Uma aula de Astronomia

Já dissemos aqui que Octauia é uma obra escrita também para divulgação do

pensamento de Sêneca, que, como vimos em nosso capítulo anterior, era solidamente atado

à escola estoica, cujos valores são indiretamente defendidos na obra. O exame destes

valores mostrou-nos que os estoicos davam grande importância à movimentação dos

astros, não com a finalidade de prever o futuro, como usual na mística pagã, mas porque
174

consideravam seu movimento como demonstração da transitoriedade da condição humana,

transitoriedade que poderia ser vencida pelo apego aos valores do Pórtico.

Deste modo, cremos que a dinâmica das funções exercidas pelas personagens de

Octauia pode ter sido inspirada – e, por sua vez, exemplificadora - do transitório presente

no movimento dos astros. Reforça-nos tal opinião o fato de que a peça se inicia com a

seguinte fala de Otávia, que assume, neste contexto, uma importância maior que a de

simplesmente estabelecer o prazo delimitado pela lei das três unidades praticada na

dramaturgia antiga:

Iam uaga caelo sidera fulgens


Aurora fugat,
surgit Titan radiante coma
mundoque diem reddit clarum. (versos 1 a 4)

assim como estes versos do monólogo inicial de Sêneca (versos 385 a 390)

O quam iuuabat, quo nihil maius parens


Natura genuit, operis immensi artifex,
caelum intueri, [solis et cursus sacros
mundique motus] noctis alternas uices
orbemque Phoebes, astra quam cingunt uaga,
lateque fulgens aetheris magni decus; 144

que nos atentam para a necessidade de compreender-se o mundo através das revoluções

dos astros.

Assim, se tudo se move, é natural que as personagens deste drama tenham

suficiente mobilidade para intercambiar seus papéis, mas da mesma maneira que o

movimento dos astros só nos é perceptível por estarmos em um ponto fixo de referência,

esse intercâmbio só será passível de análise àqueles que se situarem em igual condição

durante uma possível apresentação ou leitura do texto: o público.

144
Sobre a tradução destes versos de Octauia, veja os anexos ao fim deste trabalho.
175

Com isso, percebemos que, em Octauia, apenas o público está em condições de

apreciar todos os meandros do texto e pode, por esta razão, preencher as lacunas

resultantes do fato de não haver, em toda a obra, qualquer diálogo entre Otávia e Nero ou

mesmo entre Otávia e Sêneca. O fato de ser o único ponto estável em meio a todo o

transitório que a obra contém e a incumbência de preencher as lacunas do texto conduz o

público, necessariamente, à condição de verdadeiro juiz dos fatos que a peça narra.

Qual o propósito disto? Por que desejaria o autor anônimo conferir ao público um

papel tão ativo em sua obra? De que modo isto contribuiria para o propósito de divulgar os

ideais de Sêneca de reconstrução dos valores da tradição cultural romana? Cremos que a

resposta está contida na própria gênese destes valores: grande parte do mos maiorum é

oriundo - e formulador - da melhor tradição republicana, aquela que, nos séculos que

antecederam ao império, não descartava, mesmo que a República fosse uma oligarquia - a

participação popular. E essa foi uma tradição que mesmo o Império não apagara, uma vez

que não suprimira a organização política republicana; neste aspecto, a figura do imperador

apenas se impusera como suprainstitucional.

Não é sem propósito, pois, que, mesmo sendo escrita no período imperial, os

modelos de romanidade que a peça arrola sejam os mesmos defendidos pelas grandes

personagens da República: o público-alvo prioritário da peça não seria, por conseguinte,

somente aquele que se agrupara sob o nome de “oposição estoica” e que já vinha, há

décadas, opondo-se não necessariamente à pessoa do imperador, mas ao regime imperial:

também os defensores do principado enquanto sistema teriam a oportunidade de perceber

que as convulsões enfrentadas nos anos 68-69 deviam-se antes à pessoa de Nero que às

incoerências do sistema. Ambos os públicos - a oposição estoica e os partidários do regime

imperial - a quem interessava agrupar estariam assim contentados: o primeiro, por verem

reafirmados valores tradicionais e estoicos propostos; o segundo, por perceber que não se
176

atacavam na obra as instituições vigentes. Estes dois grupos encontrariam, através do

simulacro de juízo presente na obra, oportunidade para reavivar suas crenças políticas e

também a chance de purgar, no plano da realidade, os males mostrados na ficção que se

referiam ao passado recente. Assim, Octauia cumpriria o papel catártico comum às

tragédias - de purgação dos males e renovação da crença nos valores que alicerçam uma

comunidade. No caso em si, os valores da romanidade imperial145.

Através desta possibilidade de participação do público, é ainda perceptível o intento

de retomada de um velho axioma da cultura romana, de que Cícero foi o máximo

representante: em Octauia volta-se a fazer do Direito o campo ideal para a práxis

filosófica. Se a obra visava divulgar a filosofia estoica e os valores da tradição, (re)unir-se

a Filosofia ao Direito seria um ocasião ímpar para o êxito do resgate cultural proposto.

Mas se a peça é uma representação e documento da divulgação das ideias de

Sêneca, o que resta desse processo, após sua morte e o fim da dinastia dos júlio-cláudios?

Conseguir-se-ia, através da restauração dos valores tradicionais romanos, reforçados pela

doutrina estoica, construir-se a), restaurar os valores da romanidade, tais como propostos

por Sêneca?, ou ainda b), forjar-se uma nova identidade cultural, mesmo que esta

abrangesse apenas a parte ocidental do Império? Estas perguntas serão respondidas em

nosso próximo capítulo, em que concluiremos o presente trabalho.

De qualquer modo, fica claro que Octauia merece um lugar de maior destaque no

quadro da literatura latina, não certamente pela elaboração artística com que, nela, se

maneja a linguagem; mas pela multiplicidade de relações que constrói com as artes de seu

tempo – em que, pela ausência do corifeu e personificação dos coros, inova discretamente

145
Vale ressaltar que isto seria possível de execução durante o governo de Vespasiano, imperador
pragmático e dotado de excelente senso de humor, preocupado antes com as fronteiras e com a administração
do que com a perseguição aos inimigos políticos, fenômeno que, em seu governo, foi antes a exceção que a
regra: Vespasiano também se beneficiaria com a obra porque esta, denegrindo ainda mais a figura de Nero,
acabaria sendo-lhe propaganda indireta.
177

a linguagem da tragédia - e com a tradição dramatúrgica estritamente romana – em que,

escapando aos supostos limites da fabula praetexta, constrói uma relação ímpar entre

Literatura e História, sob diversos aspectos antecipatória de fenômenos contemporâneos -,

também por apresentar múltiplas possibilidades de leitura deve Octauia ser vista como

obra polissêmica, e que se vale de uma postura participativa do público para conduzi-lo à

adesão ao projeto senequiano.


178

6 CONCLUSÃO

Lendo-se a trajetória de Roma nos anos seguintes percebe-se que, embora no plano

individual o estoicismo não obtivesse tanto sucesso em concorrer com o epicurismo, seus

princípios tornar-se-iam o fio condutor da administração imperial durante o governo dos

Flávios e dos Antoninos. Ademais, o estoicismo continuaria, através de Epicteto, sendo

divulgado por todo o império, e alcançaria seu grau máximo com Marco Aurélio, o

imperador-filósofo que, em suas Meditações, escreveria a mais conhecida obra desta escola

filosófica.

Nesse novo processo, consagra-se a visão identitária de Sêneca: a fusão dos valores

estoicos com os da romanidade filosófica ciceroniana, agregados ao regime imperial; este

modelo. Entretanto, não será restrito apenas aos habitantes de língua latina, ao contrário,

buscará extender-se a todos os habitantes do império.

Assim, pode-se pensar que a ideologia proposta por Sêneca teve um sucesso parcial

em sua tarefa: constituiu-se norma administrativa e reforçou o sistema de valores do

império, mas não pôde erigir-se em modelo de identidade exclusivo para os romanos de

língua latina justamente porque seu pensamento não cabia em limites tão estreitos.

E quanto à romanidade em si? O que podemos concluir sobre este tema? Vimos, no

decurso deste trabalho que a romanidade foi resultado de uma longa construção em que a
179

sociedade romana, nas diversas fases de sua história, desenvolveu um modo de apreender o

mundo, de interpretá-lo e de assimilá-lo que, à época, jamais fora praticado.

A partir de uma concepção de tempo – contínuo, irrepetido, mas em que se

renovam as práticas tradicionais: mandatos públicos, celebrações religiosas, práticas

agrícolas, etc. – que se desenrola num espaço (con)sagrado: o pomerium, o limes, o fines;

de acordo com leis fundamentadas no e que são reflexo do mos maiorum.

Desse modo, a identidade romana constituir-se-ia, inicialmente, não apenas na

conjugação de dois códigos até hoje praticados: o ius sanguinis e o ius solis, mas estaria

agregado um terceiro item: o estatuto jurídico daquele que partilha do código de conduta,

crendo no mesmo sistema de valores estabelecido pelo mos maiorum.

Este é o código de valores sobre o qual se constituiu a romanidade em sua fase

inicial. Todavia, com o desenvolvimento e expansão do imperium, esse terceiro item

cresceria em importância, desvinculando-se cada vez mais dos dois primeiros: o estatuto

jurídico os suplanta do mesmo modo como o orbe vai suplantando cada vez mais a urbe.

As crises que aqui analisamos, a agonia da República e a tirania de Nero, acabaram

sendo fatores que levariam à reformulação da romanidade em si: não podendo deixar de

dar conta de novos valores incorporados pela influência cultural da Magna Grécia e muito

menos deixar de oferecer respostas à crise política: a identidade romana terá diversos de

seus conceitos redefinidos através da obra de Cícero: um destes, uirtus, terá seu valor

aumentado; outros – sapientia e humanitas – serão incorporados à identidade romana, que,

através desses novos valores, incorpora valores do estoicismo e do academicismo gregos e

poderá universalizar-se. Ao incorporar, para reforçar-se, os valores da filosofia, aquela

primeira romanidade torna-se o que chamamos aqui romanidade filosófica.

O processo pelo qual tais valores se incorporam à identidade romana é lento e passa

pela elaboração de discursos que deverão inclusive defender a possibilidade de filosofar-se


180

em latim. Mas a aplicação desses discursos resulta mais da política restauradora de

Augusto que propriamente da recepção imediata da obra de Cícero, já que o próprio Cícero

não dispôs de oportunidades para efetuá-la.

Mas se a ascensão de Augusto – e o estabelecimento do regime imperial – acabou

por consagrar aquilo que Cícero já teorizara, é óbvio que Cícero, defensor do modelo

republicano, não cogitara na possibilidade política do império, havendo pois um vazio

quanto à manutenção desses valores dentro do novo regime político. Cumpre que estes

valores sejam, senão reformulados, validados dentro da perspectiva de perpetuação do

regime imperial.

A possibilidade dessa reformulação surge através da obra de Sêneca, que,

reequacionando os valores da romanidade filosófica, aumenta o peso do conceito de

clementia ao mesmo tempo que reduz o espectro filosófico ao estoicismo. Com isso,

Sêneca acaba por propor um novo pacto para a sociedade romana: o regime poderá ser

autoritário, mas nunca tirânico, um pacto cujo êxito será atestado pelos governos estáveis

dos Flávios e dos Antoninos, no século seguinte. À romanidade, segundo Sêneca, não

bastará ser filosófica, mas será também imperial.

Ademais, Sêneca amplia ainda mais a propagação dos valores da romanidade:

calcada no estoicismo, estes valores serão universalizados numa escala impensada por

Cícero. Isto se deve ao fato de que, se ambos são cidadãos, mesmo sem serem citadinos,

Cícero é, ao menos, da Itália; enquanto Sêneca, oriundo da Hispânia terá uma visão mais

ampla que a de Cícero quanto ao problema da (enorme) diversidade sociocultural do

Império.

Partindo-se desse ponto, percebemos que não há oposição entre o modo como

Cícero e Sêneca veem a identidade romana, o que antes se detecta é a existência de uma

linha de complementaridade entre os dois pensadores romanos: Cícero, pensando salvar a


181

República, acaba estabelecendo valores pelos quais a romanidade continuaria existindo

mesmo se dissociada do modelo político que até então lhe dera lastro; Sêneca, valendo-se

da romanidade tal como estabelecida por Cícero, desenvolve mecanismos pelos quais os

valores que a compunham alcançariam todos os cidadãos do império. A romanidade, em

consequência disso, iria aos poucos se universalizando, passando a representar uma rara

injunção do pensamento no Ocidente. A romanidade deixaria, com isso, de ser uma

condição social e jurídica – como em seus primórdios – tornando-se, para além disso, um

verdadeiro “estado de espírito”, acessível mesmo a quem não possuísse a ciuitas romana,

pois era possível sentir-se romano, mesmo que não se fosse romano.146

E é justamente por ter-se tornado – ou por ter sempre sido, ainda que revestido de

um estatuto jurídico – é que a identidade romana apresenta uma dinâmica ímpar: diante de

crises que tornam necessária a adaptação dessa identidade a uma nova condição, essa se dá

também pelo retorno ao mos maiorum, aos valores mais antigos dentre aqueles já

consagrados pelo tempo; reclama-se a identidade a partir da defesa e preservação desses

mesmos valores, e sua adaptação se faz sem que sua essência jamais profunda seja

modificada, enfim, essa dinâmica da identidade romana – e talvez todas as da latinidade,

ousamos dizer – assume um caráter paradoxal, os momentos em que se expande – pela

agregação de novos valores – são também aqueles em que realiza um “retorno às origens”.

Mas algo mais pode ainda ser dito sobre as visões da identidade romana em Cícero

e Sêneca: ambas são formulações discursivas, manifestas através de um processo escritural

que, apesar de fragmentado e alinear em Cícero, e coeso e linear em Sêneca, são

inovadores no uso da literatura para refletir-se, concomitantemente, sobre uma situação

146
Evidentemente, a romanidade não teria sua última fase em Sêneca: outras formulações seriam efetuadas,
por exemplo, por Santo Agostinho, em De Ciuitate Dei. Mas nessas obras já não se coloca a discussão
identitária romana frente à alteridade cultural, principalmente grega: desse conflito, sobra apenas a oposição
entre Civilização e Barbárie, suplantada por outra entre o paganismo e o Cristianismo. Não se esgota o
debate, mas esse ultrapassa o recorte que nos propusemos para este trabalho.
182

imediata – a crise da República, a tirania de Nero – e um problema “perene”: as

transformações da sociedade e a consequente crise de valores que esta acarretava. Assim o

fazendo, confeririam às letras latinas a condição de espaço privilegiado para o reflexão a

respeito da sociedade, numa envergadura jamais alcançada pela literatura grega, e que não

seria superada até o Romantismo.

A literatura latina seria, a partir de Sêneca, o espaço para o debate e exposição de

ideias, mas também para a experimentação e construção de novos vínculos entre o

ideológico, o identitário e o formal, como pudemos analisar a partir da praetexta Octauia.

E cremos que os exemplos não parariam aí: as relações que Octauia constrói – entre

Literatura e História e entre a identidade cultural e a ideologia política e a interpenetração

de práticas, estilos e gêneros literários – estarão presentes em outras obras latinas, tais

como, respectivamente: Scriptores Historiae Augustae, obra coletiva; Octauius, de

Minúcio Félix, e Noctes Atticae, de Aulo Gélio; extendendo-se, alinearmente, através da

Idade Média e da Modernidade, à Literatura Latino-Americana contemporânea, na qual

percebemos que os mesmos debates – e as mesmas formas de travar o debate – se

perpetuam.
183

6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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190

ANEXOS
191

ANEXO A

Texto latino de Octauia


192

L. ANNAEI SENECAE OCTAVIA

PERSONAE

OCTAVIA
POPPAEA
NERO
PRAEFECTVS
NVTRIX OCTAVIAE
NVTRIX POPPAEAE
SENECA
MATER NERONIS
NVNTIVS
CHORVS ROMANORVM

SCAENA ROMAE DCCCXV AB VRBE CONDITA

OCT.: Iam uaga caelo sidera fulgens 01


Aurora fugat,
surgit Titan radiante coma
mundoque diem reddit clarum.
Age, tot tantis onerata malis, 05
repete assuetos iam tibi questus
atque aequoreas uince Alcyonas,
uince et uolucres Pandionias:
grauior namque his fortuna tua est.
Semper genetrix deflenda mihi, 10
prima meorum causa malorum,
tristes questus natae exaudi,
si quis remanet sensus in umbris.
Vtinam ante manu grandaeua sua
mea rupisset stamina Clotho, 15
tua quam maerens uulnera uidi
oraque foedo sparsa cruore!
O nox semper funesta mihi,
tempore ab illo lux est tenebris
inuisa magis: 20
tulimus saeuae iussa nouercae,
hostilem animum uultusque truces.
Illa illa meis tristis Erinys
thalamis Stygios praetulit ignes
teque extinxit, miserande pater! 25
modo cui totus paruit orbis
ultra Oceanum cuique Britanni
terga dedere,
ducibus nostris ante ignoti
iurisque sui, 30
coniugis, heu me, pater, insidiis
oppresse iaces seruitque domus
193

cum prole tua capta tyranno.


NVTR.: Fulgore primo captus -heu fragili bono-
fallacis aulae quisquis attonitus stupet, 35
subito iacentis ecce Fortunae impetu
modo praepotentem cernat euersam domum
stirpemque Claudi, cuius imperio fuit
subiectus orbis, paruit liber diu
Oceanus et recepit inuitus rates. 40
En qui Britannis primus imposuit iugum,
ignota tantis classibus texit freta
interque gentes barbaras tutus fuit
et saeua maria, coniugis scelere occidit,
mox illa nati cuius extinctus iacet 45
frater uenenis, maeret infelix soror
eademque coniunx nec graues luctus ualet
ira coacta tegere crudelis uiri;
+quem secreta + refugit semper, atque odio pari
ardens maritus mutua flagrat face. 50
Animum dolentis nostra solatur fides
pietasque frustra: uincit immitis dolor
consilia nostra nec regi mentis potest
generosus ardor, sed malis uires capit.
Heu quam nefandum prospicit noster timor 55
scelus, quod utinam numen auertat deum!
OCTAVIA NVTRIX O mea nullis aequanda malis
fortuna, licet
repetam luctus, Electra tuos.
Tibi maerenti caesum licuit 60
flere parentem,
scelus ulcisci uindice fratre,
tua quem pietas hosti rapuit
texitque fides:
me crudeli sorte parentes 65
raptos prohibet lugere timor
fratrisque necem deflere uetat,
in quo fuerat spes una mihi
totque malorum breue solamen.
Nunc in luctus seruata meos 70
magni resto nominis umbra.
NVTR.: Vox en nostras perculit aures
tristis alumnæ;
cesset thalamis inferre gradus
tarda senectus?
OCT.: Excipe nostras lacrimas, nutrix, 75
testis nostri fida doloris.
NVTR.: Quis te tantis soluet curis,
miseranda, dies?
OCT.: Qui me Stygias mittet ad umbras.
NVTR.: Omina quaeso sint ista procul. 80
194

OCT.: Non uota meos tua nunc casus,


sed fata regunt.
NVTR.: Dabit afflictae meliora deus
tempore mitis;
tu modo blando uince obsequio
placata uirum. 85
OCT.: Vincam saeuos ante leones
tigresque truces,
fera quam saeui corda tyranni.
Odit genitos sanguine claro,
spernit superos hominesque simul, 90
nec fortunam capit ipse suam
quam dedit illi per scelus ingens
infanda parens.
Licet ingratum dirae pudeat
munere matris
hoc imperium cepisse, licet
tantum munus morte rependat, 95
feret hunc titulum post fata tamen
femina longo semper in aeuo.
NVTR.: Animi retine uerba furentis,
temere emissam comprime uocem.
OCT.: Toleranda quamuis patiar, haud umquam queant 100
nisi morte tristi nostra finiri mala.
Genetrice caesa, per scelus rapto patre,
orbata fratre, miseriis luctu obruta,
maerore pressa, coniugi inuisa ac meae
subiecta famulae luce non grata fruor, 105
trepidante semper corde non mortis metu,
sed sceleris. Absit crimen a fatis meis,
mori iuuabit; poena nunc grauior nece est
uidere tumidos et truces miserae mihi
uultus tyranni, iungere atque hosti oscula, 110
timere nutus cuius obsequium meus
haud ferre possit fata post fratris dolor
scelere interempti, cuius imperium tenet
et sorte gaudet auctor infandae necis.
Quam saepe tristis umbra germani meis 115
offertur oculis, membra cum soluit quies
et fessa fletu lumina oppressit sopor:
modo facibus atris armat infirmas manus
oculosque et ora fratris infestus petit,
modo trepidus idem refugit in thalamos meos; 120
persequitur hostis atque inhaerenti mihi
uiolentus ensem per latus nostrum rapit.
Tunc tremor et ingens excutit somnos pauor
renouatque luctus et metus miserae mihi.
Adice his superbam paelicem, nostrae domus 125
spoliis nitentem, cuius in munus suam
195

Stygiae parentem natus imposuit rati,


quam, dira post naufragia, superato mari,
ferro interemit saeuior pelagi fretis:
quae spes salutis post nefas tantum mihi? 130
Inimica uictrix imminet thalamis meis
odioque nostri flagrat et pretium stupri
iustae maritum coniugis poscit caput.
Emergere umbris et fer auxilium tuae
natae inuocanti, genitor, aut Stygios sinus 135
tellure rupta pande, quo praeceps ferar.
NVTR.: Frustra parentis inuocas manes tui,
miseranda, frustra, nulla cui prolis suae
manet inter umbras cura, qui nato suo
praeferre potuit sanguine alieno satum 140
genitamque fratris coniugem pactus sibi
toros nefandos flebili iunxit face.
Hinc orta series facinorum: caedes, doli,
regni cupido, sanguinis clari sitis;
mactata soceri concidit thalamis gener 145
uictima, tuis ne fieret hymenaeis potens:
(Pro facinus ingens!) feminae est munus datus
Silanus et cruore foedauit suo
patrios penates, criminis ficti reus.
Intrauit hostis, ei mihi, captam domum, 150
dolis nouercae principis factus gener
idemque natus, iuuenis infandi ingeni,
scelerumque capaxque, dira cui genetrix facem
accendit et te iunxit inuitam metu.
Tantoque uictrix facta successu ferox 155
ausa imminere est orbis imperio sacro.
Quis tot referre facinorum formas potest
et spes nefandas feminae et blandos dolos
regnum petentis per gradus scelerum omnium?
Tunc sancta Pietas extulit trepidos gradus 160
uacuamque Erinys saeua funesto pede
intrauit aulam, polluit Stygia face
sacros penates, iura naturae furens
fasque omne rupit: miscuit coniunx uiro
uenena saeua, cecidit atque eadem sui 165
mox scelere nati; tuo quoque extinctus iaces,
deflende nobis semper infelix puer,
modo sidus orbis, columen augustae domus,
Britannice, heu me, nunc leuis tantum cinis
et tristis umbra; saeua cui lacrimas dedit 170
etiam nouerca, cum rogis artus tuos
dedit cremandos membraque et uultus deo
similes uolanti saeuiens flamma abstulit.
OCT.: Extinguat et me, ne manu nostra cadat!
NVTR.: Natura uires non dedit tantas tibi. 175
196

OCT.: Dolor, ira, maeror, miseriae, luctus dabunt.


NVTR.: Vince obsequendo potius immitem uirum.
OCT.: Vt fratrem ademptum scelere restituat mihi?
NVTR.: Incolumis ut sis ipsa, labentem ut domum
genitoris olim subole restituas tua. 180
OCT.: Expectat aliam principis subolem domus;
me dira miseri fata germani trahunt.
NVTR.: Confirmet animum ciuium tantus fauor.
OCT.: Solatur iste nostra, non releuat mala.
NVTR.: Vis magna populi est. OCT.: Principis maior tamen. 185
NVTR.: Respiciet ipse coniugem. OCT.: Paelex uetat.
NVTR.: Inuisa cunctis nempe. OCT.: Sed cara est uiro.
NVTR.: Nondum uxor est. OCT.: Iam fiet, et genetrix simul.
NVTR.: Iuuenilis ardor impetu primo furit,
languescit idem facile nec durat diu 190
in Venere turpi, ceu leuis flammae uapor:
amor perennis coniugis castae manet.
Violare prima quae toros ausa est tuos
animumque domini famula possedit diu,
iam metuit eadem – OCT: Nempe praelatam sibi. 195
NVTR: Subiecta et humilis, atque monumenta extruit
quibus timorem fassa testatur suum.
Et hanc leuis fallaxque destituet deus
uolucer Cupido: sit licet forma eminens,
opibus superba, gaudium capiet breue. 200
Passa est similes ipsa dolores
regina deum,
cum se formas uertit in omnes
dominus caeli diuumque pater,
et modo pennas sumpsit oloris, 205
modo Sidonii cornua tauri,
aureus idem fluxit in imbri;
fulgent caelo sidera Ledae,
patrio residet Bacchus Olympo,
deus Alcides possidet Heben 210
nec Iunonis iam timet iras,
cuius gener est qui fuit hostis.
Vicit patiens tandem obsequium
coniugis altae pressusque dolor.
Sola Tonantem tenet aetherio 215
secura toro maxima Iuno,
nec mortali captus forma
deserit altam Iuppiter aulam.
Tu quoque, terris altera Iuno,
soror Augusti coniunxque, graues 220
uince dolores.
OCT.: Iungentur ante saeua sideribus freta
et ignis undae, Tartaro tristi polus,
lux alma tenebris, roscidae nocti dies,
197

quam cum scelesti coniugis mente impia 225


mens nostra, semper fratris extincti memor.
Vtinam nefandi principis dirum caput
obruere flammis caelitum rector paret,
qui saepe terras fulmine infesto quatit
mentesque nostras ignibus terret sacris 230
nouisque monstris; uidimus caelo iubar
ardens cometen pandere infaustam facem,
qua Plaustra tardus noctis alterna uice
regit Bootes, frigore Arctoo rigens.
En ipse diro spiritu saeui ducis 235
polluitur aether, gentibus clades nouas
minantur astra, quas regit dux impius.
Non tam ferum Typhona neglecto Ioue
irata Tellus edidit quondam parens:
hic grauior illo pestis, hic hostis deum 240
hominumque templis expulit superos suis
ciuesque patria, spiritum fratri abstulit,
hausit cruorem matris - et lucem uidet
fruiturque uita noxiam atque animam trahit!
Pro summe genitor, tela cur frustra iacis 245
inuicta totiens temere regali manu?
In tam nocentem dextra cur cessat tua?
Vtinam suorum facinorum poenas luat 248
orbis tyrannus, quem premit turpi iugo 250
morumque uitiis nomen Augustum inquinat!
NVTR.: Indignus ille, fateor, est thalamis tuis,
Nero insitiuos, Domitio genitus patre, 249
sed cede fatis atque fortunae tuae,
alumna, quaeso neue uiolenti moue
iram mariti. Forsitan uindex deus 255
existet aliquis, laetus et ueniet dies.
OCT.: Graui deorum nostra iam pridem domus
urgetur ira, prima quam pressit Venus
furore miserae dura genetricis meae,
quae nupta demens nupsit incesta face, 260
oblita nostri, coniugis, legum immemor.
Illos soluto crine, succincta anguibus
ultrix Erinys uenit ad Stygios toros
raptasque thalamis sanguine extinxit faces;
incendit ira principis pectus truci 265
caedem in nefandam: cecidit infelix parens,
heu, nostra ferro meque perpetuo obruit
extincta luctu; coniugem traxit suum
natumque ad umbras, perdidit lapsam domum.
NVTR.: Renouare luctus parce cum fletu pios, 270
manes parentis neue sollicita tuae,
graues furoris quae sui poenas dedit.
CHORVS ROMANORVM:
198

Quae fama modo uenit ad aures?


Vtinam falso credita perdat
frustra totiens iactata fidem, 275
nec noua coniunx nostri thalamos
principis intret, teneatque suos
nupta penates Claudia proles;
edat partu pignora pacis ,
qua tranquillus gaudeat orbis 280
seruetque decus Roma aeternum.
Fratris thalamos sortita tenet
maxima Iuno;
soror Augusti sociata toris
cur a patria pellitur aula? 285
Sancta quid illi prodest pietas
diuusque pater?
Quid uirginitas castusque pudor?
Nos quoque nostri sumus immemores
post fata ducis, cuius stirpem
prodimus aeuo suadente metu. 290
Vera priorum uirtus quondam
Romana fuit uerumque genus
Martis in illis sanguisque uiris.
Illi reges hac expulerunt
urbe superbos
ultique tuos sunt bene manes, 295
mactata tua, miseranda manu, 301
nata Lucreti, 302
stuprum saeui passa tyranni. 303
Te quoque bellum triste secutum est, 300
uirgo, dextra caesa parentis 296
ne seruitium paterere graue et 297
improba ferret praemia uictrix 298
dira libido. 299
Dedit infandi sceleris poenas 304
cum Tarquinio Tullia coniunx, 305
quae per caesi membra parentis
egit saeuos impia currus
laceroque seni uiolenta rogos
nata negauit.
Haec quoque nati uidere nefas
saecula magnum, 310
cum Tyrrhenum rate ferali
princeps captam fraude parentem
misit in aequor.
Properant placidos linquere portus
iussi nautae,
resonant remis pulsata freta; 315
fertur in altum prouecta ratis,
quae resoluto robore labens
199

pressa dehiscit sorbetque mare.


Tollitur ingens clamor ad astra
cum femineo mixtus planctu. 320
Mors ante oculos dira uagatur;
quaerit leti sibi quisque fugam:
alii lacerae puppis tabulis
haerent nudi fluctusque secant,
repetunt alii litora nantes; 325
multos mergunt alta profundi.
Scindit uestes Augusta suas
laceratque comas
rigat et maestis fletibus ora.
Postquam spes est nulla salutis, 330
ardens ira, iam uicta malis:
"Haec" exclamat "mihi pro tanto
munere reddis praemia, nate?
Hac sum, fateor, digna carina,
quae te genui, quae tibi lucem 335
atque imperium nomenque dedi
Caesaris amens.
Exere uultus Acheronte tuos
poenisque meis pascere, coniunx:
ego causa tuae, miserande, necis 340
natoque tuo funeris auctor
en, ut merui, feror ad manes
inhumata tuos,
obruta saeuis aequoris undis...".
Feriunt fluctus ora loquentis, 345
ruit in pelagus rursumque salo
pressa resurgit;
pellit palmis cogente metu
freta, sed cedit fessa labori.
Mansit famulis in pectoribus 350
spreta tristi iam morte fides:
multi dominae ferre auxilium
pelago fractis uiribus audent,
bracchia quam uix lenta trahentem
uoce hortantur manibusque leuant. 355
Quid tibi saeui fugisse maris
profuit undas?
Ferro es nati moritura tui,
cuius facinus uix posteritas,
tarde semper saecula credent. 360
Furit ereptam pelagoque dolet
uiuere matrem
impius ingens geminatque nefas:
ruit in miserae fata parentis
patiturque moram sceleris nullam. 365
Missus peragit iussa satelles:
200

reserat dominae pectora ferro.


Caedis moriens illa ministrum
rogat infelix,
utero dirum condat ut ensem: 370
"Hic est, hic est fodiendus" ait,
"ferro, monstrum qui tale tulit."
Post hanc uocem cum supremo
mixtam gemitu
animam tandem per fera tristem
uulnera reddit. 375

II ATO

SENECA: Quid? Impotens Fortuna, fallaci mihi


blandita uultu, sorte contentum mea
alte extulisti, grauius ut ruerem edita
receptus arce totque prospicerem metus? 380
Melius latebam procul ab inuidiae malis
remotus inter Corsici rupes maris,
ubi liber animus et sui iuris mihi
semper uacabat studia recolenti mea.
O quam iuuabat, quo nihil maius parens 385
Natura genuit, operis immensi artifex,
caelum intueri, [solis et cursus sacros
mundique motus] noctis alternas uices
orbemque Phoebes, astra quam cingunt uaga,
lateque fulgens aetheris magni decus; 390
qui si senescit, tantus in caecum chaos
casurus iterum: Tunc adest mundo dies
supremus ille, qui premat genus impium
caeli ruina, rursus ut stirpem nouam
generet renascens melior, ut quondam tulit 395
iuuenis, tenente regna Saturno poli.
Tunc illa uirgo, numinis magni dea,
Iustitia, caelo missa cum sancta Fide
terras regebat miteque humanum genus.
Non bella norant, non tubae fremitus truces, 400
non arma gentes, cingere assuerant suas
muris nec urbes: peruium cunctis iter,
communis usus omnium rerum fuit;
et ipsa Tellus laeta fecundos sinus
pandebat ultro, tum piis felix parens 405
et tuta alumnis. Alia sed suboles minus
conspecta mitis,(...)
Tertium sollers genus
nouas ad artes extitit, sanctum tamen,
mox inquietum quod sequi cursu feras
auderet acres, fluctibus tectos graui 410
extrahere pisces rete uel calamo leui,
201

decipere uolucres crate uel [calamo et leui]


tenere laqueo, premere subiectos iugo
tauros feroces, uomere immunem prius
sulcare terram, laesa quae fruges suas
interior alte condidit sacro sinu. 415
Sed in parentis uiscera intrauit suae
deterior aetas: eruit ferrum graue
aurumque, saeuas mox et armauit manus;
partita fines regna constituit, nouas
extruxit urbes, tecta defendit sua, 420
aliena telis aut petit praedae imminens.
Neglecta terras fugit et mores feros
hominum et cruenta caede pollutas manus
Astraea uirgo, siderum magnum decus.
Cupido belli creuit atque auri fames 425
totum per orbem, maximum exortum est malum
luxuria, pestis blanda, cui uires dedit
roburque longum tempus atque error grauis.
Collecta uitia per tot aetates diu
in nos redundant:saeculo premimur graui, 430
quo scelera regnant, saeuit impietas furens,
turpi libido Venere dominatur potens,
luxuria uictrix orbis immensas opes
iam pridem auaris manibus, ut perdat, rapit.
Sed ecce, gressu fertur attonito Nero 435
trucique uultu. Quid ferat mente horreo.

NERO PRAEFECTVS SENECA

NER.: Perage imperata: mitte, qui Plauti mihi


Sullaeque caesi referat abscisum caput.
PRAEF: Iussa haud morabor; castra confestim petam.
SEN.: Nihil in propinquos temere constitui decet. 440
NER.: Iustum esse facile est cui uacat pectus metu.
SEN.: Magnum timoris remedium clementia est.
NER.: Extinguere hostem maxima est uirtus ducis.
SEN.: Seruare ciues maior est patriae patri.
NER.: Praecipere mitem conuenit pueris senem. 445
SEN.: Regenda magis est feruida adolescentia.
NER.: Aetate in hac satis esse consilii reor.
SEN.: Vt facta superi comprobent semper tua.
NER.: Stulte uerebor, ipse cum faciam, deos? 450
SEN.: Hoc plus uerere quod licet tantum tibi.
NER.: Fortuna nostra cuncta permittit mihi.
SEN.: Crede obsequenti parcius: leuis est dea.
NER.: Inertis est nescire quid liceat sibi.
SEN.: Id facere laus est quod decet, non quod licet.
NER.: Calcat iacentem uulgus. SEN.: Inuisum opprimit. 455
NER.: Ferrum tuetur principem. SEN.: Melius fides.
202

NER.: Decet timeri Caesarem. SEN.: At plus diligi.


NER.: Metuant necesse est – SEN.: Quidquid exprimitur graue est.
NER.: ...Iussisque nostris pareant. SEN.: Iusta impera.
NER.: Statuam ipse. SEN.: Quae consensus efficiat rata. 460
NER.: Destrictus ensis faciet. SEN.: Hoc absit nefas.
NER.: An patiar ultra sanguinem nostrum peti,
inulctus et contemptus ut subito opprimar?
Exilia non fregere summotos procul
Plautum atque Sullam, pertinax quorum furor 465
armat ministros sceleris in caedem meam,
absentium cum maneat etiam ingens fauor
in urbe nostra, qui fouet spes exulum.
Tollantur hostes ense suspecti mihi,
inuisa coniunx pereat et carum sibi 470
fratrem sequatur! Quidquid excelsum est cadat!
SEN.: Pulcrum eminere est inter illustres uiros,
consulere patriae, parcere afflictis, fera
caede abstinere, tempus atque irae dare,
orbi quietem, saeculo pacem suo. 475
Haec summa uirtus, petitur hac caelum uia.
Sic ille patriae primus Augustus parens
complexus astra est, colitur et templis deus.
Illum tamen Fortuna iactauit diu
terra marique per graues belli uices, 480
hostes parentis donec oppressit sui:
tibi numen incruenta summisit suum
et dedit habenas imperi facili manu
nutuque terras maria subiecit tuo;
inuidia tristis, uicta consensu pio, 485
cessit senatus; equitis accensus fauor;
plebisque uotis atque iudicio patrum [est]
electus orbem iam sacra auspicio regis 489
tu pacis auctor, generis humani arbiter, 488
patriae parens, quod nomen ut serues petit 490
suosque ciues Roma commendat tibi.
NER.: Munus deorum est, ipsa quod seruit mihi
Roma et senatus quodque ab inuitis preces
humilesque uoces exprimit nostri metus.
Seruare ciues principi et patriae graues, 495
claro tumentes genere quae dementia est,
cum liceat una uoce suspectos sibi
mori iubere? Brutus in caedem ducis,
a quo salutem tulerat, armauit manus:
inuictus acie, gentium domitor, Ioui 500
aequatus altos paene per honorum gradus
Caesar nefando ciuium scelere occidit.
Quantum cruoris Roma tum uidit sui,
lacerata totiens! Ille qui meruit pia
uirtute caelum, diuus Augustus, uiros 505
203

quot interemit nobiles, iuuenes, senes,


sparsos per orbem, cum suos mortis metu
fugerent penates et trium ferrum ducum,
tabula notante deditos tristi neci! .
Exposita rostris capita caesorum patres 510
uidere maesti, flere nec licuit suos,
non gemere dira tabe pollutum forum,
stillante sanie per putres uultus graui.
Nec finis hic cruoris aut caedis stetit:
pauere uolucres et ferae saeuae diu 515
tristes Philippos, hausit et Siculum mare
classes uirosque saepe caedentes suos.
Concussus orbis uiribus magnis ducum:
superatus acie puppibus Nilum petit
fugae paratis, ipse periturus breui: 520
hausit cruorem incesta Romani ducis
Aegyptus iterum; nenc leues umbras tegit.
Illic sepultum est impie gestum diu
ciuile bellum. Condidit tandem suos
iam fessus enses uictor hebetatos feris 525
uulneribus, et continuit imperium metus:
armis fideque militis tutus fuit,
pietate nati factus eximia deus,
post fata consecratus et templis status.
Nos quoque manebunt astra, si saeuo prior 530
ense occuparo quidquid infestum est mihi
dignaque nostram subole fundaro domum.
SEN.: Implebit aulam stirpe caelesti tuam
generata diuo, Claudiae gentis decus,
sortita fratris more Iunonis toros. 535
NER.: Incesta genetrix detrahit generi fidem,
animusque numquam coniugis iunctus mihi.
SEN.: Teneris in annis haud satis clarus est fides patet,
pudore uictus cum tegit flammas, amor.
NER.: Hoc equidem et ipse credidi frustra diu, 540
manifesta quamuis pectore insociabili
uultuque signa proderent odium mei,
tandem quod ardens statuit ulcisci dolor:
dignamque thalamis coniugem inueni meis
genere atque forma, uicta cui cedet Venus 545
Iouisque coniunx et ferox armis dea.
SEN.: Probitas fidesque coniugis, mores, pudor
placeant marito: sola perpetuo manent
subiecta nulli mentis atque animi bona;
florem decoris singuli carpunt dies. 550
NER.: Omnes in unam contulit laudes deus
talemque nasci fata uoluerunt mihi.
SEN.: Recedet a te, temere ne credas, amor.
NER.: Quem summouere fulminis dominus nequit,
204

caeli tyrannum, saeua qui penetrat freta 555


Ditisque regna, detrahit superos polo?
SEN.: Volucrem esse Amorem fingit immitem deum
mortalis error, armat et telis manus
arcusque sacras, instruit saeua face
genitumque credit Venere, Vulcano satum: 560
uis magna mentis blandus atque animi calor
amor est; iuuenta gignitur, luxu, otio
nutritur inter laeta Fortunae bona.
Quem si fouere atque alere desistas, cadit
breuique uires perdit extinctus suas. 565
NER.: Hanc esse uitae maximam causam reor,
per quam uoluptas oritur; interitu caret,
cum procreetur semper, humanum genus
Amore grato, qui truces mulcet feras.
Hic mihi iugales praeferat taedas deus 570
iungatque nostris ipse Poppaeam toris.
SEN.: Vix sustinere possit hos thalamos dolor
fidesque populi, sancta nec pietas sinat.
NER.: Prohibebor unus facere quod cunctis licet?
SEN.: Maiora populus semper a summo exigit. 575
NER.: Libet experiri, uiribus fractus meis
an cedat animis temere conceptus furor.
SEN.: Obsequere potius ciuibus placidus tuis.
NER.: Male imperatur, cum regit uulgus duces.
SEN.: Nihil impetrare cum ualet, iuste dolet. 580
NER.: Exprimere ius est, ferre quod nequeunt preces?
SEN.: Negare durum est. NER.: Principem cogi nefas.
SEN.: Remittat ipse. NER.: Fama sed uictum feret.
SEN.: Leuis atque uana. NER.: Sic licet, multos notat.
SEN.: Excelsa metuit. NER.: Non minus carpit tamen. 585
SEN.: Facile opprimetur. Merita te diui patris
aetasque frangat coniugis, probitas, pudor.
NER.: Desiste tandem, iam grauis nimium mihi,
instare: liceat facere quod Seneca improbat.
Et ipse nuptae uota iam pridem moror, 590
cum portet utero pignus et partem mei.
Quin destinamus proximum thalamis diem?

III ATO

AGRIPPINA: Tellure rupta Tartaro gressum extuli,


Stygiam cruenta praeferens dextra facem 595
thalamis scelestis: nubat his flammis meo
Poppaea nato iuncta, quas uindex manus
dolorque matris uertet ad tristes rogos.
Manet inter umbras impiae caedis mihi
semper memoria, manibus nostris grauis 600
adhuc inultis: reddita est meritis meis
205

funesta merces puppis et pretium imperi


nox illa qua naufragia defleui mea;
comitum necem natique crudelis nefas
deflere uotum fuerat: haud tempus datum est
lacrimis, sed ingens scelere geminauit nefas. 605
Perempta ferro, foeda uulneribus sacros
intra penates spiritum effudi grauem
erepta pelago, sanguine ex(s)tinxi meo
nec odia nati: saeuit in nomen ferus
matris tyrannus, obrui meritum cupit, 610
simulacra, titulos destruit memores mei
totum per orbem, quem dedit poenam in meam
puero regendum noster infelix amor.
Extinctus umbras agitat infestus meas
flammisque uultus noxios coniunx petit, 615
instat, minatur, imputat fatum mihi
tumulumque na[s]ti, poscit auctorem necis.
Iam parce: dabitur, tempus haud longum peto.
Vltrix Erinys impio dignum parat
letum tyranno, uerbera et turpem fugam 620
poenasque quis et Tantali uincat sitim,
dirum laborem Sisyphi, Tityi alitem
Ixionisque membra rapientem rotam.
Licet extruat marmoribus atque auro tegat
superbus aulam, limen armatae ducis 625
seruent cohortes, mittat immensas opes
exhaustus orbis, supplices dextram petant
Parthi cruentam, regna diuitias ferant:
ueniet dies tempusque quo reddat suis
animam nocentem sceleribus, iugulum hostibus 630
desertus ac destructus et cunctis egens.
Heu, quo labor, quo uota ceciderunt mea?
Quo te furor prouexit attonitum tuus
et fata, nate, cedat ut tantis malis
genetricis ira, quae tuo scelere occidit! 635
Vtinam, antequam te paruulum in lucem edidi
aluique, saeuae nostra lacerassent ferae
uiscera: sine ullo scelere, sine sensu innocens
meus occidisses; iunctus atque haerens mihi
semper quietam cerneres sedem inferum, 640
proauos patremque, nominis magni uiros,
quos nunc pudor luctusque perpetuus tenet
ex te, nefande, meque quae talem tuli.
Quid tegere cesso Tartaro uultus meos,
nouerca, coniunx, mater infelix meis? 645
OCTAVIA: Parcite lacrimis urbis festo
laetoque die,
ne tantus amor nostrique fauor
principis acres suscitet iras
206

uobisque ego sim causa malorum. 650


Non hoc primum pectora uulnus
mea senserunt: grauiora tuli;
dabit hic nostris finem curis
sine morte dies;
non ego saeui cernere cogar
coniugis ora, 655
non inuisos intrare mihi
thalamos famulae;
soror Augusti, non uxor ero.
Absint tantum tristes poenae
letique metus- 660
scelerum diri, miseranda, uiri
potes hoc demens sperare memor?
Hos ad thalamos seruata diu
uictima tandem funesta cades.
Sed quid patrios saepe penates
respicis udis confusa genis? 665
Propera tectis efferre gradus,
linque cruentam principis aulam.
CHOR.: En illuxit suspecta diu,
fama totiens iactata dies: 670
cessit thalamis Claudia diri
pulsa Neronis,
quos iam uictrix Poppaea tenet,
cessat pietas dum nostra graui
compressa metu segnisque dolor. 675
Vbi Romani uis est populi,
fregit diros quae saepe duces,
dedit inuictae leges patriae,
fasces dignis ciuibus olim,
iussit bellum pacemque, feras 680
gentes domuit,
captos reges carcere clausit?
Grauis en oculis undique nostris
iam Poppaeae fulget imago
iuncta Neroni.
Affligat humo uiolenta manus 685
similes nimium uultus dominae
ipsamque toris detrahat altis,
petat infestis mox et flammis
telisque feri principis aulam.

IV ATO

NVTRIX POPPAEAE Quo trepida gressum coniugis thalamis tui 690


effers, alumna, quidue secretum petis
turbata uultu? Cur genae fletu madent?
Certe petitus precibus et uotis dies
207

nostris refulsit: Caesari iuncta est tuo


taeda iugali, quem tuus cepit decor 695
et culta san[e]cte, tradidit uinctum tibi
genetrix Amoris, maximum numen, Venus.
O qualis altos quanta pressisti toros
residens in aula! Vidit attonitus tuam
formam senatus, tura cum superis dares 700
sacrasque grato spargeres aras mero,
uelata summum flammeo tenui caput;
et ipse lateri iunctus atque haerens tuo
sublimis inter ciuium laeta omina
incessit habitu atque ore laetitiam gerens 705
princeps superbo: talis emersam freto
spumante Peleus coniugem accepit Thetin,
quorum toros celebrasse caelestes ferunt
pelagique numen omne consensu pari.
Quae subita uultus causa mutauit tuos? 710
Quid pallor iste, quid ferant lacrimae doce.
POP.: Confusa tristi proximae noctis metu
uisuque, nutrix, mente turbata feror,
defecta sensu. Laeta nam postquam dies
sideribus atris cessit et nocti polus, 715
inter Neronis iuncta complexus mei
somno resoluor; nec diu placida frui
quiete licuit. Visa nam thalamos meos
celebrare turba est maesta: resolutis comis
matres Latinae flebiles planctus dabant; 720
inter tubarum saepta terribili sono
sparsam cruore coniugis genetrix mei
uultu minaci saeua quatiebat facem.
Quam dum sequor coacta praesenti metu,
diducta subito patuit ingenti mihi 725
tellus hiatu; lata quo praeceps toros
cerno iugales pariter et miror meos,
in quis resedi fessa. Venientem intuor
comitante turba coniugem quondam meum
natumque; properat petere complexus meos 730
Crispinus, intermissa libare oscula,
irrupit intra tecta cum trepidus mea
ensemque iugulo condidit saeuum Nero.
Tandem quietem magnus excussit timor;
quatit ossa et artus horridus nostros tremor 735
pulsatque pectus; continet uocem timor,
quam nunc fides pietasque produxit tua.
Heu quid minantur inferum manes mihi
aut quem cruorem coniugis uidi mei?
NVTR.: Quaecumque mentis agitat intentus uigor, 740
ea per quietem sacer et arcanus refert
ueloxque sensus. Coniugem, thalamos, toros
208

uidisse te miraris amplexu noui


haerens mariti? Te, mouent laeto die
pulsata palmis pectora et fusae comae? 745
Octauiae discidia planxerunt sacros
inter penates fratris et patrium larem.
Fax illa, quam secuta es, Augustae manu
praelata clarum nomen inuidia tibi
partum ominatur, inferum sedes toros 750
stabiles futuros spondet aeternae domus.
Iugulo quod ensem condidit princeps tuus,
bella haud mouebit, pace sed ferrum teget.
Recollige animum, recipe laetitiam, precor,
timore pulso redde te thalamis tuis. 755
POP.: Delubra et aras petere constitui sacras,
caesis litare uictimis numen deum,
ut expientur noctis et somni minae
terrorque in hostes redeat attonitus meos.
Tu uota pro me suscipe et precibus piis 760
superos adora, maneat ut praesens status.
CHORVS Si uera loquax fama Tonantis
furta et gratos narrat amores
(quem modo Ledae pressisse sinum
tectum plumis pennisque ferunt, 765
modo per fluctus raptam Europen
taurum tergo portasse trucem),
quae regit, et nunc deseret astra,
petet amplexus, Poppaea, tuos,
quos et Ledae praeferre potest 770
et tibi, quondam cui miranti
fuluo, Danae, fluxit in auro.
Formam Sparte iactet alumnae
licet et Phrygius praemia pastor:
uincet uultus haec Tyndaridos, 775
qui mouerunt horrida bella
Phrygiaeque solo regna dedere.
Sed quis gressu ruit attonito
aut quid portat pectore anhelo?
NVNTIVS CHORVS Quicumque tectis excubat miles ducis, 780
defendat aulam cui furor populi imminet.
Trepidi cohortes ecce praefecti trahunt
praesidia ad urbis, uicta nec cedit metu
concepta rabies temere, sed uires capit.
CHOR.: Quis iste mentes agitat attonitus furor? 785
NVNT.: Octauiae fauore percussa agmina
et efferata per nefas ingens ruunt.
CHOR.: Quid ausa facere quoue consilio doce.
NVNT.: Reddere penates Claudiae diui patrios parant
torosque fratris, debitam partem imperi, 790
quos iam tenet Poppaea concordi fide?
209

Hinc urit animos pertinax nimium fauor


et in furorem temere praecipites agit:
quaecumque claro marmore effigies stetit
aut aere fulgens, ora Poppaeae gerens, 795
afflicta uulgi manibus et saeuo iacet
euersa ferro; membra per partes trahunt
diducta laqueis, obruunt turpi diu
calcata cae(oe)no. Verba conueniunt feris
immixta factis, quae timor reticet meus. 800
Saepire flammis principis sedem parant,
populi nisi irae coniugem reddat nouam,
reddat penates Claudiae uictus suos.
Vt noscat ipse ciuium motus mea
uoce, haud morabor iussa praefecti exequi. 805
CHOR.: Quid fera frustra bella mouetis?
Inuicta gerit tela Cupido: .
flammis uestros obruet ignes
quis extinxit fulmina saepe
captumque Iouem caelo traxit. 810
Laeso tristes dabitis poenas
sanguine uestro;
non est patiens feruidus irae
facilisque regi:
ille ferocem iussit Achillem
pulsare lyram, 815
fregit Danaos, fregit Atriden,
regna euertit Priami, claras
diruit urbes.
Et nunc animus quid ferat horret
uis immitis uiolenta dei.

V ATO

NERO O lenta nimium militis nostri manus 820


et ira patiens post nefas tantum mea,
quod non cruor ciuilis accensas faces
extinguit in nos, caede nec populi madent
funerea Roma quae uiros tales tulit.
Admissa sed iam morte puniri parum est: 825
grauiora meruit impium plebis scelus.
At illa, cui me ciuium subicit furor,
suspecta coniunx et soror semper mihi,
tandem dolori spiritum reddat meo
iramque nostram sanguine extinguat suo; 830
mox tecta flammis concidant urbis meis,
ignes, ruinae, noxium populum premant
turpisque egestas, saeua cum luctu fames.
Exultat ingens saeculi nostri bonis
corrupta turba nec capit clementiam 835
210

ingrata nostram, ferre nec pacem potest,


sed inquieta rapitur hinc audacia,
hinc temeritate fertur in praeceps sua.
Malis domanda est et graui semper iugo
premenda, ne quid simile temptare audeat 840
contraque sanctos coniugis uultus meae
attollere oculos; fracta per poenas, metu
parere discet principis nutu sui.
Sed adesse cerno rara quem pietas uirum
fidesque castris nota praeposuit meis. 845
PRAEFECTVS NERO Populi furorem caede paucorum, diu
qui restiterunt temere, compressum affero.
NER.: Et hoc sat est? Sic miles audisti ducem?
Compescis? Haec uindicta debetur mihi?
PRAEF.: Cecidere motus impii ferro duces. 850
NER.: Quid? Illa turba, petere quae flammis meos
ausa est penates, principi legem dare,
abstrahere nostris coniugem caram toris,
uiolare quantum licuit incesta manu
et uoce dira,? debita poena uacat? 855
PRAEF.: Poenam dolor constituet in ciues tuos?
NER.: Constituet, aetas nulla quam famae eximat.
PRAEF.: Tua temperet nos ira, non noster timor.
NER.: Iram expeciabit prima quae meruit meam.
PRAEF.: Quam poscat ede, nostra ne parcat manus. 860
NER.: Caedem sororis poscit et dirum caput.
PRAEF.: Horrore uinctum trepidus astrinxit rigor.
NER.: Parere dubitas? PRAEF.: Cur meam damnas fidem?
NER.: Quod parcis hosti. PRAEF.: Femina hoc nomen capit?
NER.: Si scelera cepit. PRAEF.: Estne qui sontem arguat? 865
NER.: Populi furor. PRAEF.: Quis regere dementes ualet?
NER.: Quis concitare potuit. PRAEF.: Haudquaquam,
reor, mulier. NER.: Dedit natura cui pronum malo
animum, ad nocendum pectus instruxit dolis.
PRAEF.: Sed uim negauit. NER.: Vt ne inexpugnabilis 870
esset, sed aegras frangeret uires timor
uel poena; quae iam sera damnatam premet
diu nocentem. Tolle consilium ac preces
et imperata perage: deue(i)ctam rate
procul in remotum litus interi(e)mi iube, 875
tandem ut residat pectoris nostri tumor.
CHORVS OCTAVIA O funestus multis populi
dirusque fauor,
qui cum flatu uela secundo
ratis impleuit uexitque procul,
languidus idem deserit alto 880
saeuoque mari.
Fleuit Gracchos miseranda parens,
perdidit ingens quos plebis amor
211

nimiusque fauor,
genere illustres, pietate, fide,
lingua claros, pectore fortes, 885
legibus acres.
Te quoque, Liui, simili leto
Fortuna dedit,
quem neque fasces texere, suae
nec tecta domus - Plura referre 890
prohibet praesens exempla dolor:
modo cui patriam reddere ciues
aulam et fratris uoluere toros,
nunc ad poenam letumque trahi
flentem miseram cernere possunt. 895
Bene paupertas humili tecto
contenta latet:
quatiunt altas saepe procellae
aut euertit Fortuna domos.
OCT.: Quo me trahitis quodue tyrannus
aut exilium regina iubet? 900
Sic mihi uitam fracta remittit,
tot iam nostris et uicta malis?
Sin caede mea cumulare parat
luctus nostros, inuidet etiam
cur in patria mihi saeua mori? 905
Sed iam spes est nulla salutis:
fratris cerno miseranda ratem.
Haec en cuius uecta carina
quondam genetrix, nunc et thalamis
expulsa soror miseranda uehar. 910
Nullum Pietas nunc numen habet
nec sunt superi:
regnat mundo tristis Erinys.
Quis mea digne deflere potest
mala? Quae lacrimas nostras questus 915
redderet aedon?
Cuius pennas utinam miserae
mihi fata darent!
Fugerem luctus ablata meos
penna uolucri procul et coe(p)tus
hominum tristes caedemque feram. 920
Sola in uacuo nemore et tenui
ramo pendens
querulo possem gutture maestum
fundere murmur.
CHOR.: Regitur fatis mortale genus,
nec sibi quidquam spondere potest 925
firmum et stabile
quem per casus uoluit uarios
semper nobis metuenda dies.
212

Animum firment exempla tuum,


iam multa domus quae uestra tulit: 930
quid saeuior est Fortuna tibi?
Tu mihi primum tot natorum
memoranda parens, nata Agrippae,
nurus Augusti, Caesaris uxor,
cuius nomen clarum toto 935
fulsit in orbe,
utero totiens enixa graui
pignora pacis,
mox exilium, uerbera, saeuas
passa catenas, funera, luctus,
tandem letum cruciata diu. 940
Felix thalamis Liuia Drusi
natisque ferum ruit in facinus
poenamque suam.
Iulia matris fata secuta est:
post longa tamen tempora ferro 945
caesa est, quamuis crimine nullo.
Quid non potuit quondam genetrix
tua, quae rexit principis aulam
cara marito partuque potens?
Eadem famulo subiecta suo 950
cecidit diri militis ense.
Quid cui licuit regnum, in caelum
sperare, parens tanta Neronis?
Non funesta uiolata manu
remigis ante, 955
mox et ferro lacerata diu
saeui iacuit uictima nati.
OCT.: Me quoque tristes mittit ad umbras
ferus et manes ecce tyrannus.
Quid iam frustra miseranda moror? 960
Rapit(d)e ad letum quis ius in nos
Fortuna dedit.
Testor superos - quid agis, demens?
Parce precari quis inuisa es
numina diuum: Tartara testor
Erebique deas scelerum ultrices 965
nec te, genitor,
dignum tali morte et poena:
non inuisa est sors ista mihi.
Armate ratem, date uela fretis
uentisque petat puppis rector 970
tandem Pandatariae litora terrae.
CHOR.: Lenes aurae zephyrique leues,
tectam quondam nube aetheria
qui uexistis raptam saeuae
uirginis aris Iphigeniam, 975
213

hanc quoque tristi procul a poena


portate, precor, templa ad Triuiae.
Vrbe est nostra mitior Aulis
et Taurorum barbara tellus:
hospitis illic caede litatur 980
numen superum;
ciuis gaudet Roma cruore.
FINIS
214

ANEXO B

Proposta de tradução de Octauia


215

Otávia
de Lúcio Aneu Sêneca

Personagens
OTÁVIA
POPÉIA
NERO
PREFEITO DO PALÁCIO
AMA DE OTÁVIA
AMA DE POPÉIA
SÊNECA
AGRIPINA
MENSAGEIRO
CORO DOS ROMANOS

Cena em Roma, no ano 815 de sua fundação (62 DC).


OCT.: Já a brilhante Aurora afugenta do céu as errantes estrelas, e Titã surge com a
brilhante cabeleira, a devolver o claro dia ao mundo. Vamos, cedo arqueada de tantos
males, retoma já as queixas habituais a ti e suplanta as aquáticas alcíones, suplanta as
aves filhas de Pandião posto que tua sorte é mais grave que a delas. Ó mãe a ser por mim
sempre chorada, causa primeira dos meus males, ouvi os prantos tristes da tua filha, se há
ainda nas sombras os sentidos. Oxalá a triste Cloto tivesse com sua velha mão rompido
meus cordões antes que eu visse as tuas feridas, o teu rosto manchado com o sangue
espargido! Ó Noite sempre funesta a mim! Desde aquele tempo a luz me é mais odiosa que
as trevas: suportamos as ordens, o ânimo hostil e os olhares ameaçadores da feroz
madrasta. Ela, ela trouxe à frente do meu leito nupcial os fogos estígeos e, com a triste
Erínea te extinguiu, ó pai miserando! Ó pai, único a quem o mundo inteiro além-oceano
obedeceu, e a quem os bretões, antes desconhecidos dos nossos generais, deram as costas
em fuga, jazes oprimido pela traição e tua casa e prole, ai de mim!, está escravizada pelo
tirano e seu direito de cônjuge.
Quem quer que se detenha atônito, apanhado pelo primeiro fulgor das cortes
falaciosas; eis que de repente num ímpeto de sorte – ai! Bem frágil! – perceba jazendo
derrubada a poderosa casa e a estirpe de Cláudio, a cujo poder foi o mundo submetido,
preparou um dia o livre Oceano e recebeu obrigado. Eis que quem primeiro pôs o jugo aos
bretões, quem foi protegido com muitos navios por estreitos desconhecidos, por mares
enfurecidos e entre bárbaras gentes, morreu criminosamente pela mão da esposa, essa
vitimada em seguida pelo filho, cujo irmão jaz morto envenenado e a infeliz irmã e mesma
cônjuge lamenta, sem poder colocar um luto completo, coagida que foi pela ira do marido
cruel, que em segredo sempre se refugia na tristeza e, com raiva, lança à face do marido
com ódio e violência recíprocos. Nossa fé e piedade consolam em vão o espírito aflito: a
dor amarga vence os nossos conselhos, nem ao rei pode o ardor generoso da mente, mas
toma as forças aos maus. Ai! Quão nefando crime nosso temor prevê, oxalá um espírito
afaste o divino Nero.
Ó minha sorte – a nenhum mal comparável – embora, ó Electra, eu recorde os teus
lutos. A ti, infeliz, foi-te permitido chorar o pai morto, punir o crime pelo irmão vingador,
tua piedade roubou a confiança e a escondeu do inimigo: a mim o temor proíbe pôr luto
pelos pais roubados por uma sorte cruel, e veta chorar a morte do irmão em quem estava
minha única esperança e rápido alívio de tantos males. Agora, preservada em meus lutos, à
sombra do grande nome. [1-71]
216

AMA: Eis que em nossos ouvidos ressoa a voz da triste menina que criei, poderá a minha
longa velhice descansar no leito? [72-74]
OCT.: Recolhe nossas lágrima, ó ama, testemunha fiel de nossa dor. [75-76]
AMA: Quem te consome o dia com tantas preocupações, ó pobrezinha?[77-78]
OCT.: Quem me enviará às sombras do Estige. [79]
AMA: Desejo que esta pessoa esteja distante. [80]
OCT.: Os teus desejos não governam mais a minha vida, mas o destino. [81-82]
AMA: Deus dará melhores tempos à aflita pelo medo; apenas com calma tu obterás o dócil
favor do teu marido.[83-85]
OCT.: Vencerei antes leões cruéis e tigres ferozes que o coração selvagem do tirano cruel.
Ele odeia os gerados de sangue limpo, igualmente despreza os homens e os deuses, e nem
o destino que a nefanda mãe engenhosa deu-lhe por meio de crimes. Embora o ilustre
ingrato não se envergonhe dos maus presságios por ter tomado este império com a ajuda da
mãe, ainda que tenha pago tamanho favor com a morte, mas mesmo após o destino que
teve, essa mulher levará todavia este título para todo o sempre. [86-97]
AMA: Retém as palavras do espírito furioso, contém a voz temerariamente emitida. [98-
99]
OCT.: Ainda que eu tenha sofrido coisas toleráveis, em momento algum nossos males são
capazes de ter fim, senão com nossa morte triste. Cortada da mãe, roubada criminosamente
do pai, privada do irmão, coberta do pobre luto, pressionada pela tristeza, odiosa ao marido
e sujeita a minha serva, convivo com luz infeliz, meu coração sempre tremendo, não pelo
medo da morte, mas dos crimes. Embora falte um crime, alegrar-me-á morrer pelo meu
destino; ver agora a face do tirano cruel ruborizada pela morte da mísera que sou, ver o
autor do terrível crime, que se diverte com a sorte desta de quem toma o poder, temer os
movimentos daquele cujo destino não possa - após a dor pelo assassinato célere do meu
irmão - obter minha complacência, e ainda beijar o inimigo, é um castigo mais pesado!
Quão frequentemente a sombra de meu irmão se oferece a meus olhos, dissolve meu
descanso com os braços e o sono fecha os olhos cansados do choro: somente a mãos fracas
e os olhos monta o átrio com tochas e clama a cabeça do irmão inimigo, logo o mesmo,
trêmulo, foge em direção aos meus leitos nupciais, e persegue o inimigo que está casado
comigo e que rouba nosso orgulho com uma espada violenta.
Então o tremor espanta o sono e o grande pavor renova o luto e o medo da mísera
que sou. Acrescente a isto a cortesã soberba aninhada no espólio de nossa casa, em honra
de quem o filho conduziu a mãe à barca do Estige, a qual, tendo superado os mares após
pragas e naufrágios, comprou com ferro cruel um estreito do mar: qual esperança de
salvação para mim após tamanho sinistro? A inimiga vencedora se lança ao meu leito e
com ódio a nós devasta e, como preço do corpo, pede ao marido a cabeça da justa esposa.
Emerge das sombras e traz auxílio à filha que te invoca, ó pai, ou abre, rompida a terra, os
canais estígeos, aonde eu seja atirada. [100-136]
AMA: Em vão chamas para ti os manes de teu pai, pobrezinha, em vão, a ninguém entre as
sombras permanece os cuidados de sua prole: Que dizer de quem pôde preferir a seu filho
um de sangue alheio, e uniu-se à esposa gerada de seu irmão, contraindo um casamento
nefasto sob um facho frágil? Aqui inicia a série dos crimes: assassinatos, traições, cobiça
do poder, sede de sangue nobre; um genro despedaçou ao sogro no leito como vítima
imolada, poderoso como nos teus himeneus. (Oh, que grande crime!) Silanus foi dado
como presente à mulher, e, culpado de crimes fictícios, degradou com seu sangue os
penates paternos. Esse entrou como meu inimigo na casa tomada, um jovem de grande
crime feito filho e genro do príncipe pelas trapaças da madrasta. E logo vencedora, tornada
feroz pelo êxito, ousa atacar o sagrado império do mundo. Que esperança pode então
217

recuperar um reino que as formas nefandas dos crimes e os enganos macios da mulher
pedem pelo mais alto de todos os crimes? Então a santa Piedade expôs os passos trêmulos,
e a cruel Erínea adentrou com funesto pé o palácio, manchou os sacros penates com um
feixe estígeo e, furiosa como lhe é peculiar, rompeu com o direito e o destino: a esposa
misturou para o marido venenos cruéis, e a própria matou criminosamente a seu filho; tu
também, infeliz menino a ser por nós sempre chorado, jazes morto, apenas uma estrela no
firmamento, coluna da casa augusta, Britânico, ai de mim!, agora és apenas uma leve cinza
e uma triste sombra; por quem mesmo a cruel madrasta verteu lágrimas quando deu à
cremação teus membros e articulações, e a chama fúnebre, esvoaçante, consumiu teu rosto
similar ao de um deus. [137-173]
OCT: Mate-me, para que não caia por nossa mão![174]
AMA: A Natureza não te deu tantas forças. [175]
OCT.: A dor, a ira, a aflição, as misérias, o luto darão. [176]
AMA: Obedecendo vencerá melhor o homem feroz.[177]
OCT.: Para que me restitua o irmão criminosamente suprimido? [178]
AMA: Para que tu estejas a salvo, para que um dia restituas a oscilante casa de teu pai à tua
descendência. [179-180]
OCT.: A casa espera do príncipe outra descendência; a mim trazem o destino terrível de
meu pobre irmão.[181-182]
AMA: Tamanho favor confirmará o espírito dos cidadãos. [183]
OCT.: Este é assolado pelos nossos males, mas não os alivia. [184]
AMA: A força do povo é grande. OCT.: Todavia a do Príncipe é maior. [185]
AMA: Ele protegerá a esposa. OCT.: A amante o proíbe. [186]
AMA: Certamente ela é indesejável a todos. OCT.: Mas é cara ao homem. [187]
AMA: Mas ainda não é sua esposa. OCT.: Logo o será, e mãe também. [188]
AMA: O ardor juvenil delira ao primeiro ímpeto, mas para vergonha de Vênus,
languidesce facilmente e, assim como o vapor da chama, não dura nem um dia. O amor
pela esposa casta permanece. A primeira serva que ousou violar teus leitos e possuiu o
espírito do senhor durante um tempo, já temeu a senhora. OCT.: Certamente esta é sua
preferida.[189-195]
AMA: Submissa e humilde, e a confessa eleva monumentos pelos quais atesta seu medo. E
um alado deus Cupido, rápido e falaz a destituirá: embora seja de formas eminentes,
soberba em recursos, em breve tomará a alegria. Ela, a rainha dos deuses, passou as
mesmas dores, quando o senhor do céu e pai dos deuses se transformou em diversas
formas, e então assumiu as penas de um cisne, logo os chifres do touro de Sidônia, e ainda
como ouro fluiu na chuva; as estrelas de Leda brilham no céu, Baco reside no Olimpo
paterno, o deus Alcides (Hércules) possui Hebe sem temer mais as iras de Juno, que foi sua
inimiga e de quem hoje é genro. A paciente Juno conquistou todavia o agrado do marido,
que diminuiu a dor da suprema esposa. Juno retém, sozinha e com a máxima segurança, o
Tonante preso ao leito etéreo, nem apanhado em forma de mortal, Júpiter faltará ao altivo
quarto. Tu também, outra Juno na terra, irmã e esposa do Augusto, vencerás grandes
padecimentos.[196-221]
OCT.: Unem-se pelas estrelas diante de mares cruéis e ondas de fogo, o triste céu ao
Tártaro, a luz fértil às trevas, o dia à noite orvalhada, a nossa mente - que recorda sempre o
irmão morto - com a mente ímpia do celestial marido. Oxalá o senhor dos deuses - que
sempre sacode as terras com o trovão hostil, e aterroriza nossas mentes com os fogos
sagrados e com novos monstros - decida oprimir terrivelmente com chamas a cabeça do
nefando príncipe; vimos no céu o cometa mostrar no céu a cauda hostil, na qual Bootes
governa os carros tardios da noite alternando-se no frio com o regente Arctoo: eis que o
218

próprio éter é poluído com o terrível espírito do cruel general, os astros ameaçam as gentes
com novos flagelos, que o impiedoso senhor ordena. Não tão feroz quanto Typhon ao ser
desprezado por Júpiter a irada Terra produziu embora mãe: este é mais importante que
aquele a peste, este inimigo dos deuses e dos homens expulsou os sacerdotes de seu templo
e os cidadãos da pátria, lançou fora o espírito do irmão, exauriu o sangue da mãe -- e vê e
goza a luz e retira da vida a alma e a ofensa! Ó grande pai, por que atiras tantas vezes, ao
acaso e em vão, com mão real, as poderosas teias? Por que a tua direita pára contra mão tão
nociva? Oxalá o tirano do mundo pague as penas de seus crimes, que oprimem o nome dos
Augustos com torpe jugo e o sujam com costumes viciosos! [222-247]
AMA: Reconheço que ele, Nero, um adotivo, gerado por Domício, é indigno do teu leito,
mas eu te peço: cede ao Destino e à tua sorte, filha, e não mova a ira violenta do teu
marido. Talvez um deus vingador apareça de algum lugar e advenha um dia feliz. [248-
256]
OCT.: Nossa casa foi outrora perseguida pela ira dos grandes deuses, primeiramente a dura
Vênus oprimiu com furor as bodas da minha pobre mãe, as quais a louca contraiu sob uma
tocha incestuosa, esquecida de nós, do marido, olvidada das leis. A este leito, a vingadora
Erínea - com o cabelo solto e cingida com serpentes – fez vir aos leitos estígeos e apagou
com sangue as tochas roubadas do leito nupcial; o peito feroz do príncipe ardeu em ira,
ocasionando um nefando massacre: assassinou com ferro nossa mãe infeliz, ai!, e
esmagou-me em luto perpétuo; lançou a mulher e seu filho às sombras, abandonou a casa
decaída. [257-269]
AMA: Deixa de renovar os lutos apiadados com teu choro, e não invoques o espírito de tua
mãe, a qual deu grandes castigos a seu furor. [270-272]
O CORO DOS ROMANOS: Que novas chegam agora a nossos ouvidos? Oxalá perca-se a
fé no mentiroso, pelos créditos tantas vezes dados em vão, que nenhuma nova mulher
adentre o leito de nosso príncipe e que a esposa mantenha seus penates e a prole cláudia; e,
com o parto, dê à luz a um penhor de paz, que tranquilo alegrará o mundo e conservará a
honra eterna de Roma. A grande Juno manterá os leitos do irmão para a lançada à sorte;
por que a irmã casada do Augusto é expulsa do palácio paterno? Que a ela é útil a Santa
Piedade e o divino pai? Qual a pureza e o pudor mais castos? Nós também estamos
esquecidos, após o destino de nosso senhor, cuja estirpe abandonamos, persuadidos por um
medo doentio.
A verdadeira virtude romana foi a dos antigos e a verdadeira estirpe de Marte estava em
seus sangue e forças. Eles expulsaram desta cidade os reis soberbos e bem vingados estão
os teus manes e a tua imolada filha de Lucrécio, liberta por mão compadecida de ser
estuprada pelo cruel tirano. [ó virgem morta pela destra mão do pai para que não sofresse
com a pesada escravidão e a ímproba vencedora levasse prêmios pela vontade da sorte, a ti
também seguiu a guerra,] Como Túlia, esposa do cruel Tarquínio, deu penas criminosas, a
qual pelos membros mortos do pai levou os carros cruéis e a filha violenta negou seis
pedidos ao dilacerado.
Estes séculos também viram um sacrilégio maior, quando o príncipe enviou ao mar Tirreno
a mãe fraudulentamente presa em barco fatal. Apressam-se os obedientes marinheiros em
deixar os portos tranquilos; impulsionados pelos remos, ressoam pelos estreitos; a
embarcação é conduzida ao alto mar pelo avanço dos remos; a qual atingida por uma trave
solta é jogada ao mar que se abre e a absorve. Envia-se um grande clamor aos céus,
misturado ao choro da mulher. A Morte vaga praguejando ante os olhos; cada um procura
para si uma fuga da destruição: uns, feridos, se agarram como bonecos às tabuas e rasgam
as ondas desprotegidos, outros, nadando, alcançam o litoral; afundam muitos nas
profundezas do abismo. A Augusta rasga suas vestes, desenlaça os cabelos, e molha as
219

faces com prantos entristecidos. Quando é já nula a esperança de salvação, ardendo em ira,
já vencida pelo mal, exclama: “Estes são, ñ filho!, os prêmios que me dás por tantas
ofertas? Sou digna desta nave, confesso, pois te gerei, dei-te à luz, e, enlouquecida, dei-te
ainda o nome e o poder de César. Ergue teu rosto do Aqueronte e farte-se com meus
pesares, ó marido: eu sou, ó pobre, a causa da tua morte e autora da morte do teu filho: eis
que, como merecido, sou levada a teus manes, tragada pelas cruéis ondas do mar...”. Ferem
as ondas o rosto da que fala, que cai ao mar e logo ressurge batida pela maré; impelida pelo
medo, afasta as águas com as mãos, mas desiste cansada pelo esforço. A fé - já desprezada
pela triste morte - permaneceu no coração dos criados: muitos, com as forças alquebradas
pelo alto mar ousam trazer auxílio à senhora, braços já fatigados a puxam, exortam com
palavras e a levantam com as mãos.
Por que ter fugido do cruel (se) a ti alcançaram as ondas do mar? Teu filho, cujo
crime a posteridade apenas sempre lentamente os séculos crerá, há de morrer pela espada.
A que foi roubada ao mar enlouquece; mas o ímpio cruel sofre porque a mãe vive, e
duplica o crime: irrompe contra o destino da pobre mãe e sem demora alguma a ataca. A
guarda enviada cumpre as ordens: abre à espada os peitos da senhora. A infeliz moribunda
pede ao assassino que enfie terrivelmente a espada em seu útero: “Aqui, Aqui deve ser
enterrada a espada” diz, “pois é quem gerou a tal monstro.” Apñs esta fala, mesclada a um
supremo gemido, entregou a alma entristecida através de uma chaga atroz. [273-376]

II ATO

SENECA: Por quê, ó Impotente Fortuna que me acaricia com o rosto falacioso, elevaste
tanto minha sorte que, sendo recebido com arcos, desabasse e descobrisse tamanho medo?
Melhor me ocultava, distante do mal da inveja, escondido entre os rochedos do mar da
Córsega, onde por direito meu espírito sempre vagava livre a refletir meus estudos. Oh!
Quanto me alegrava ao observar atentamente nada mais disciplinado quanto o céu que a
mãe Natureza, artífice de um imenso trabalho, gerou, e [o sol e os sagrados cursos do sol e
o movimento do mundo] as vezes alternadas da noite e de Febo, astros vagantes que
circundam o mundo, e o esplendor amplamente brilhante do grande éter; que, se envelhece,
há de cair profundamente no cego caos. Então chega aquele dia supremo, que a ruína do
céu desabe sobre a gente ímpia, para que, renascendo, depois gerasse melhor uma nova
estirpe, que o jovem que ora possui os reinos de Saturno trouxe outrora do céu . Então a
Justiça, essa virgem, deusa de grande espírito, enviada do céu com a santa Fé, regia com
doçura as terras e o gênero humano. As gentes não ignoram as armas, as guerras, os
violentos frêmitos das trompas; nem costumam circundar com muros suas cidades, o
caminho e a passagem de tudo, o uso de todas as coisas foi comum a todos; e ademais
mesmo a alegre Terra mostrava recantos fecundos, como a mãe feliz que está segura com
os filhos piedosos. Mas outras linhagens menos dóceis se apresentam, (...) Uma terceira
gente solerte, mas ainda santo, ergueu às novas artes, logo inquieto porque ousasse seguir
as feras cruéis em seu curso, arrancar das ondas, com a rede ou com o caniço, pesados
peixes; enganar os animais velozes com armadilhas ou prendê-los com um laço;
emparelhar os ferozes touros, já domados, os primeiros a sulcar a terra pura com um arado,
a qual, ferida, ergueu ao alto seus produtos ao longo do santo sulco. Mas sucedeu-a uma
era pior que penetrou as entranhas dos pais: logo extraiu em quantidade o ferro e o ouro, e
armou as mãos cruéis; estabeleceu limites aos reinos partidos, elevou novas cidades,
defendeu seus telhados dos dardos alheios ou ameaçou saques. A virgem Astraea, grande
esplendor das estrelas, desprezada, foge das terras e costumes ferozes dos homens e das
mãos sujas pela traição cruel. Cupido fez brotar por todo o mundo a grande nascente da
220

guerra e a fome do ouro. A luxúria dos maus é uma peste macia, a quem o longo tempo e o
grave erro deram forças e robustez. Os vícios coletados por todas as eras caem sobre nós
em um único dia: somos premidos por um tempo pesado, no qual os crimes reinam, a
impiedade furiosa age com crueldade, o poderoso é dominado pela torpe libido de Vênus, a
luxúria vencedora já rouba com mãos avarentas, apenas para perdê-las, as imensas riquezas
do mundo. Mais eis que chega Nero, com um passo atônito e com o semblante cruel.
Tenho horror ao que quer que traga na mente. [377-436]

NERO, O PREFEITO DO PALÁCIO E SÊNECA

NER.: Mande agir seus subordinados: que me tragam a cabeça cortada dos mortos Plauto e
Sulla. [437-8]
PREF.: Não retardarei as ordens, agora mesmo enviarei os soldados. [439]
SEN.: Convém nada constituir que atemorize os próximos. [440]
NER.: É fácil ao peito a que falta o medo ser justo. [441]
SEN.: A clemência é o grande remédio para o temor. [442]
NER.: Extinguir o inimigo é a maior virtude de um líder. [443]
SEN.: Proteger os cidadãos é a maior do pai da pátria. [444]
NER.: Convém a um velho indulgente dar conselhos aos meninos. [445]
SEN.: A de reinar é a mais febril adolescência. [446]
NER.: Creio que nesta idade estamos fartos de conselhos. [447]
SEN.: Que os deuses aprovem sempre os teus feitos. [448]
NER.: Tolamente venerarei os deuses, quando eu mesmo os faça? [449]
SEN.: Isto é venerares a ti próprio mais do que se permite .[450]
NER.: Toda nossa Fortuna o permite a mim. [451]
SEN.: Pensa em ser mais complacente: a Fortuna é uma deusa fugaz. [452]
NER.: É apropriado a um tolo desconhecer o que lhe é permitido.[453]
SEN.: É louvável fazer o que é certo, não o que é permitido. [454]
NER.: O povo pisa quem descansa. SEN.: O inimigo oprime. [455]
NER.: A espada protegerá o príncipe. SEN.: A confiança é melhor. [456]
NER.: É correto a César ser temido. SEN.: E mais ainda ser querido. [457]
NER.: É necessário que temam... SEN.: O que quer que seja expressado é importante.
[458]
NER.: ...e obedeçam a nossas ordens. SEN.: Governa com ordens justas. [459]
NER.: Isso eu mesmo decidirei. SEN.: As quais o consenso farão ratificar. [460]
NER.: A espada desembainhada fará. SEN.: Que nos falte este crime. [461]
NER.: Acaso sofrerei ter pedido além de nosso sangue, para que impune e desprezado
rapidamente seja oprimido? Os exílios não atemorizaram os decaídos Plauto e Sulla, cujo
ódio pertinaz arma para meu assassinato os ministros da vítima, enquanto também
permanecer na nossa cidade um grande favor dos ausentes, que protege a esperança dos
proscritos. Que os inimigos suspeitos a mim sejam tomados pela espada, a esposa odiosa
pereça e siga seu querido irmão. Caia o que quer que há no céu! [462-471]
SEN.: É belo sobressair entre os homens ilustres, aconselhar a pátria, poupar os aflitos,
abster-se do feroz assassinato, dar tempo à ira, quietude ao mundo, paz a seu século.
Exige-se esta suprema virtude, este caminho celeste. Assim aquele primeiro Augusto, pai
da pátria, foi tomado às estrelas e elevado a deus nos templos. Também a Fortuna jogou-o
um dia por terra e mares, por entre graves lances de guerra, enquanto pisou os inimigos de
seu pai. Um espírito pacífico submeteu a ti o teu e deu-te com mão amiga as rédeas do
império e com um sinal subjugou terras e mares a ti; o triste senado cedeu por inveja,
221

vencida esta por piedoso consenso, que ergueu o apoio dos equestres e dos desejos da
plebe e o juízo dos pais, tu, autor da paz, juiz do gênero humano, pai da pátria, regerás o
mundo escolhido já sob o sagrado auspício que o título de “Augusto” exige e Roma
recomenda seus cidadãos e serviçais a ti . [472-491]
NER.: O presente dos deuses é que é a própria Roma que serve a mim, e que o senado
expressa medo de nós com preces constrangidas e palavras humildes. Não é um sinal claro
de loucura conservar aqueles grandes cidadãos da pátria que se enfurecem contra o
príncipe, enquanto possa com uma palavra ordenar serem mortos os suspeitos a si? Bruto
ergueu a mão para assassinar o líder de quem obtivera a salvação: César, invicto no aço,
conquistador de povos, igualado a Júpiter nos altos graus das honrarias, morreu por um
crime horrível dos cidadãos. Quanto Roma, dilacerada por todos, viu de sangue então!
Aquele Augusto, que mereceu o divino pela piedosa virtude dos céus, matou quantos
nobres, jovens, velhos, espalhados pelo mundo, como afugentassem seus penates por medo
da morte, e das armas dos três chefes, anotando em tabuletas os nomes dos entregues à
triste morte! Não permitiu aos tristes pais ver ou chorar as cabeças expostas com o pus
terrível destilando sânie pelos pesados rostos apodrecidos, nem gemer imprecações
terríveis no sujo fórum. Tampouco demarcou aí o fim do sangue ou da morte: feras cruéis e
rápidas apavoraram um dia os tristes Filipos, e muitas vezes derramou seus navios e
homens sangrentos ao mar Siculo. Perseguido pelo mundo pelos homens do grande líder:
superado em batalha pede o Nilo aos marinheiros preparados à fuga, há de morrer em
breve: Uma vez mais o impuro Egito drenou o sangue de um líder romano e sequer cobriu-
lhe o corpo com sombras leves, e foi impiamente sepultado durante a guerrra civil. O
vencedor, embora já exausto, embainhou suas espadas debilitadas entre as feridas atrozes e
perpetuou o império do medo: que assegurou com confiança nas armas dos soldados, pela
exímia piedade do filho tornou-se um deus, consagrado pelos destinos e estabelecido nos
templos. Nós também alcançaremos os astros, se antes tiver me ocupado com uma espada
cruel de quem quer que tenha sido contrário a mim e tiver fundado nossa casa com uma
digna descendência. [492-532]
SEN.: Povoará teu palácio com a linhagem celeste gerada de um deus, glória da gens
Cláudia, tirada à sorte ao irmão pelo costume de Juno. [533-5]
NER.: A mãe incestuosa subtrai a confiança à gente, e o espírito da cônjuge nunca foi
unido ao meu. [536-7]
SEN.: A confiança não se mostrou bastante clara nos anos de infância; quando ardeu em
chamas, o amor foi vencido pelo pudor . [538-9]
NER.: Eu mesmo sem dúvida acreditei em vão nisto um dia, ainda que sinais evidentes no
peito e no rosto insociável mostrassem ódio por mim, até que por fim a dor ardente decidiu
que se vingaria: sendo vencida, Vênus, a esposa de Júpiter e a deusa feroz em armas
permitirão uma esposa digna em tipo e forma ser levada a meu leito. [540-6]
SEN.: Que a probidade e a confiança da esposa, os costumes e o pudor agradem ao marido:
pois permanecem para sempre únicas e submissas a alguém de mente e espírito bons; um a
um os dias apanharão a flor do decoro. [547-550]
NER.: Um deus colocou todos esses louvores em uma mulher, e os destinos quiseram que
essa tivesse nascido para mim. [551-2]
SEN.: Acaso creias temer que o amor se distancie de ti. [553]
NER.: Quem não pode ser punido por derrubar o senhor do trovão, o tirano do céu, que
penetra mares cruéis e reinos de Plutão, arranca os deuses do céu? [554-6]
SEN.: Um engano mortal finge ser o alado Cupido um deus sem medo, Vulcano confia em
Vênus, arma as mãos sagradas com flechas de arco e ensina com cruel ardor o filho: o
amor é uma grande força da mente e um macio calor da alma, engendra a juventude, nutre-
222

se com luxo e ócio entre os alegres bens da Fortuna. Tomara desistas de favorecer e voar,
pois logo perde suas forças e cai morto. [557-565]
NER.: Creio ser essa a máxima causa da vida, pela qual é gerada a volúpia; enquanto -
graças ao Amor, que emudece as feras sanguinárias - for sempre procriado o gênero
humano, que não tem destruição. Que esse deus leve adiante de mim os fachos conjugais e
una Popéia a nosso leito. [566-571]
SEN.: Nem a dor e a confiança do povo, nem a santa piedade com dificuldade demonstra
possa sustentar este leito. [572-3]
NER.: Serei proibido de fazer algo que a todos se permite? [574]
SEN.: O povo sempre exige mais dos maiores. [575]
NER.: Agrada por à prova, acaso o furor recebido, alquebrado por minhas forças, permita
aos espíritos temer.[576-7]
SEN.: É melhor, benevolente, obedecer a teus cidadãos. [578]
NER.: Mal se governa, quando o povo rege os chefes. [579]
SEN.: Dói, e com razão, o nada tentar enquanto se pode. [580]
NER.: É certo pronunciar e conduzir orações que não podem ser ouvidas? [581]
SEN.: Negar é duro. NER.: É nefasto coagir o príncipe. [582]
SEN.: O próprio príncipe a mande embora. NER.: Mas então levará fama de vencido. [583]
SEN.: A fama é leve e vã. NER.: Embora seja assim, notabiliza a muitos. [584]
SEN.: A excelsa temeu. NER.: Todavia não aproveita menos. [585]
SEN.: Facilmente será subjugada. A honestidade e o pudor da esposa e a vida do divino pai
derrube os méritos . [586-7]
NER.: Desiste já então de instar a mim com essa severidade excessiva: que se me permita
fazer o que Sêneca desaprova. E eu mesmo retardo os votos à noiva, quando já carrega no
útero um presente que é parte de mim. Por que não marcamos o casamento para amanhã?
[588-590]

III ATO

AGRIPINA: Pela Terra rompida deixei o Tártaro, com a destra ensanguentada portando
adiante o facho estígeo do leito criminoso: Popéia se case com meu filho sob essas chamas,
as quais a mão vingadora e a dor de mãe derrramará a tristes pedidos. A memória da minha
morte impiedosa permanece sempre entre as sombras, para aqui dos nossos severos Manes
não-vingados: aquela funesta noite em que, devolvida as pagas dos marinheiros aos meus
méritos, chorei meu naufrágio e o preço do poder; embora meu desejo fosse chorar o crime
do filho terrível e a morte dos companheiros: não foi dado tempo às lágrimas, mas o cruel
repetiu criminosamente o ato nefasto. Atravessada pela espada, enterrada pelas feridas
derramei o grave espírito sagrados penates adentro, rastejando até o mar tempestuoso, mas
não acalmei os ódios do meu filho com meu sangue. O cruel tirano enfureceu-se contra o
nome da mãe, desejou o mérito de destruir-me as imagens, derrubou as placas em minha
memória por todo esse mundo que, para meu castigo, nosso amor infeliz deu ao menino
para governar. O espectro sinistro insiste, ameaça, joga sobre mim o destino e o túmulo do
filho, exigindo seu assassino. Acalma-te já: será dado, peço um tempo breve. Ainda que
raramente seja concedido, não peço um tempo longo. A Erínea Vingadora prepara um fim
digno ao ímpio tirano, açoites e uma horrível fuga que supere a sede de Tântalo, o trabalho
maldito de Sísifo, o pássaro de Títio e a roda que rouba os membros de Ixio. Embora o
soberbo erga um palácio de mármore, cubra-o com ouro e envie para lá as imensas obras
de um mundo exausto, coortes de soldados armados guardem seu umbral e peçam
suplicantes a destra ensanguentada dos partos, que os reinos tragam suas riquezas: virá o
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dia e o tempo no qual, abandonado, destruído e perseguido por todos, entregue aos
inimigos a garganta e a alma culpada por seus crimes. Ai, por onde decaíram meu trabalho
e meus desejos? Para onde, atônito, tua raiva e os destinos te conduzirem, ó filho, que, por
tantos males, caia a ira da mãe, que morreu por um teu crime! Quem dera, quando dei-te à
luz pequenino, nutri e alimentei, feras cuéis tivessem dilacerado nossas entranhas, tivesses
morrido meu e inocente, sem qualquer crime, sem qualquer sentido; e unido e agarrado a
mim - sempre quieta - discernisses os infernos, os ancestrais e o pai, homens de grande
nome, que o pudor e o luto perpétuo afastam agora de ti, ó nefasto, e a mim que tal
situação sofri. Por quê, sendo madrasta, esposa, mãe infeliz cesso a esconder meu rosto dos
meus no Tártaro ? [593-645]
OCTAVIA: Poupai as lágrimas da cidade para um dia festivo e alegre, que o tamanho
favor para conosco não suscite a ira do príncipe e eu não seja para vós uma causa de males.
Esta não será a primeira ferida que meu peito recebeu: levei mais graves; este dia sem
morte dará fim a nossas preocupações. Eu não serei levada a separar-me da face do marido
cruel, nem a deixar entrar escravas em meu leito inimigo; serei irmã do Augusto, não
esposa. Louca coitada, como podes - lembrada dos crimes de um homem cruel - ter
esperança de que faltem tanto as tristes penas quanto o medo da morte? Cairás um dia
sobre este leito, embora como uma vítima funesta. Mas, confusa, e muitas vezes de
joelhos, a quais penates dirigirás teu olhar? Apressa-te em deixar esse teto, abandona o
palácio ensanguentado do príncipe. [646-667]
CORO: Eis que raia o perigoso dia, dia de fama espalhada a todos, a Cláudia, expulsa,
deixou o leito do sinistro Nero, que a vencedora Popéia já detém, enquanto se esgotam
nossa grave piedade e vagarosa dor, comprimidas por um medo pesado. Onde está a força
do povo romano, que muitas vezes quebrou os chefes malditos, deu leis invencíveis à
pátria, deu outrora os feixes aos cidadãos dignos, governou a guerra e a paz, domou gentes
ferozes, encerrou no cárcere os reis cativos? Eis que por toda a parte, ante nossos olhos
pesados, refulge já a estátua de Popéia unida à de Nero. A mão violenta atire ao chão o
rosto excessivamente parecido ao da senhora, e puxe a mesma de volta ao leito supremo,
exija com chamas e dardos ser levados ao palácio do príncipe. [668-689]

IV ATO

A AMA DE POPÉIA: Para onde, tremendo, teu passo te afasta do leito conjugal, filha, e
que segredo pedes com o rosto transtornado? Por que tuas faces se molham com o choro?
Certamente o dia resplandeceu como pedido em nossas preces e votos: foste unida a César
- a quem teu decoro santamente agarrou - pela tocha conjugal, e a adornada Vênus, a mãe
de Amor, a maior dos numes, trouxe vencido a ti. Oh, já residindo no palácio, com quanta
força venceste a outra no leito supremo! Um senado atônito vê enfeitares a tua estátua com
os melhores incensos e espargires os sagrados altares com o vinho puro, eu, quando muito,
mantive a cabeça escondida com um véu brilhante; e o próprio príncipe parado e unido a
teu lado e dos sublimes cidadãos caminhou entre os presságios alegres, trazendo alegria no
rosto e nas palavras ditas pelo soberbo apoio, tal como Peleus aceitou a esposa Tétis
emersa dentre a espuma, cujo casamento do par os habitantes do céu celestes e os do mar
anunciam ter celebrado com todo o consenso. Qual súbita razão mudou teu semblante?
Explica que palidez é essa, que te leva às lágrimas. [690-711]
POP.: Sou vista com a mente confusa, perturbada e privada de sentido, ó ama, e com o
rosto triste pelo medo da próxima noite. Pois o dia, embora feliz, cedeu o pórtico às
estrelas e o céu não permitiu à noite desfrutar em paz um dia tranquilo e, presa entre o
abraço de Nero e o meu me liberto no sono; ora a triste turba deseja celebrar minhas boda:
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as mães latinas davam choros comovidos, com os cabelos soltos; com um rosto ameaçador
a cruel mãe de meu marido sacudia, entre o terrível som acelerado das trompas, uma tocha
nupcial banhada em sangue. Enquanto continuo coagida pelo medo ao presente, fui levada
a diversas partes no momento em que, de repente, apareceu a mim um grande buraco na
terra; entendo ser atirada de cabeça aonde estão os meus leitos conjugais e ao mesmo
tempo os contemplo, nos quais, cansada, tornei a sentar. Descubro então meu marido e
filho acompanhando a turba; Crispinus apressa-se em pedir meus braços e em oferecer-me
os beijos interrompidos, mas irrompeu o cruel Nero em minha casa com a espada trépida e
enfiou-a na garganta. Enfim um grande medo abala a tranquilidade; um tremor horrível
sacode nossos ossos e músculos e faz pulsar nosso peito; o temor contém a voz, que agora
divulga tua piedade e fé. Ai! Por que os manes infernais ameaçam a mim ou por que vi o
sangue de meu marido? [712-739]
AMA: Todo esforço que conduz à ampliação da mente leva-a novamente, através da
quietude, ao sentido sagrado, arcano e veloz. Admira-te de ter visto o marido, o casamento,
o leito, agarrando as núpcias com o abraço do teu novo marido? Os peitos pulsantes e os
cabelos arranjados movem-te no dia alegre com palmas? Choraram as separações de
Otávia do irmão entre os santos penates e lares dos pais. Essa tocha, que seguiste, levada à
frente pela mão da Augusta, pressagia para ti o nome limpo da inveja das partes, o assento
estável do inferno anuncia o leito futuro da casa eterna. O teu príncipe, que enfiou a espada
no pescoço, não moverá guerras, mas cobrirá a espada com a paz. Recupera o ânimo,
retoma a alegria, peço, devolve-te a teu casamento com o temor afastado. [740-755]
POP.: Estabeleci santuários e ergui santos altares, para aplacar o nume do deus com as
vítimas imoladas, para que as ameaças da noite e do sono sejam expiadas e o terror
atemorizado se volte contra meus inimigos. Lança votos por mim e adora os deuses com
preces piedosas, para que o presente estado das coisas permaneça. [756-761]
CORO: Se é verdadeira a fama loquaz e furtiva de Júpiter que narra seus amores felizes
(que contam que escondido apenas sob uma pele de plumas e penas tenha seguido o jarro
de Leda, que como touro selvagem tenha carregado Europa pelo mar, que outrora, para
admirar a Dánae derramou-se em radiante ouro, que governa os astros mas agora os
deixará, pois pedirá Popeia, teus braços e a ti, os quais pode preferir aos de Leda. Esparta
jactar-se-á da beleza da sua filha e o pastor frígio dos seus prêmios, esta (Popeia) vencerá
os rostos dos filhos de Tíndaro, que moveram guerras terríveis e apenas deram os reinos à
Frígia. Mas... quem corre com um passo atemorizado ou quem porta o desejo no peito?
[762-779]
MENS.: Quaisquer que seja o soldado do líder que guarde sentinela nos telhados, defenda
o palácio a que o furor do povo ameaça. Eis que as coortes trépidas do prefeito impõem o
governo à cidade, que nem vencida abandonou com medo a raiva temerariamente recebida,
mas ganhou forças. [780-784]
CORO: Por quê esse furor atônito agita as mentes? [785]
MENS.: As multidões agitadas e manifestas em favor de Otávia incorrem em um grande
crime. [786-787]
CORO: Explica o que ousaram fazer, e sob conselho de quem. [788]
NÚN.: Buscam devolver os divinos penates paternos, os leitos do irmão e a parte devida do
poder à filha de Cláudio, os quais já Popéia retém com confiança e concórdia. Para cá o
favor excessivo e pertinaz arde e conduz temerariamente à fúria os espíritos precipitados:
Todas aquelas efígies em que o rosto de Popéia permaneceu, seja no mármore límpido ou
no bronze brilhante, jaz maltratada pelas mãos do povo e derrubada a ferro; trazem-lhe os
membros despedaçados amarrados por nós, que pisoteados mergulham, à luz do dia, no
lodo imundo. Encontram palavras confusas para os feitos ferozes, as quais calo de repetir
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por temor. Tentam cercar com chamas o palácio do príncipe, caso não entregue a nova
mulher à ira do povo, e devolva, vencido, seus penates à Cláudia. Para que o próprio
conheça por minha voz a revolta dos cidadãos, não me demorarei a executar as ordens do
prefeito. [789-805]
CORO: Por que moveis vãs guerras ferozes? Cupido cria uma teia invencível: aquele que
muitas vezes extinguiu os raios e trouxe Júpiter cativo ao céu derrubará com fogo vossas
chamas. Pagareis tristes penas com vosso sangue, pela ofensa cometida; pois Cupido não é
paciente e dócil ao rei Júpiter quando férvido de ira: ele ordenou ao feroz Aquiles tocar a
lira, enfrentou os gregos, enfrentou os átridas, derrubou os reinos de Príamo, aterrorizou
nobres cidades e agora a força violenta e intimorata que o povo traga horroriza o espírito
do deus. [806-819]

V ATO

NER.: Oh! A mão de nossos soldados é muito lenta e a minha ira, sofrida após tamanho
crime, não se sacia com o sangue do cidadão, nem com a matança do povo, pois a fúnebre
Roma que gerou tais homens não apaga em nós a lembrança das tochas erguidas. Mas a
tropa já foi instruída a punir com a morte: o ímpio crime da plebe merece a mais grave
punição. E aquela que levantou o furor dos cidadãos contra mim, esposa e irmã de quem
sempre suspeitarei, entregue enfim o espírito à minha dor e extingua nossa ira com seu
sangue; que logo sucumbam os tetos das minhas cidades às chamas: fogo, ruína, horrível
miséria e fome cruel oprimam com o luto o povo daninho. A grande turba corrupta se
ensoberbece das riquezas de nosso governo, não recebe a nossa clemência, não pode trazer
nem fazer a paz, mas com sua inquieta audácia, com sua temeridade, é arrastada para cá e
levada ao abismo. A plebe deve ser domada por males e oprimida sempre por pesado jugo,
não para que ouse tentar algo semelhante e erguer os olhos contra o santo rosto de minha
mulher; alquebrada pelos castigos, aprenda pelo medo a obedecer ao menor sinal de seu
príncipe. Mas percebo estar presente o homem que a rara piedade e conhecida confiança
dos meus quartéis dispôs. [820-845]
PREF.: Cessei a raiva do povo oprimido com a morte de poucos, que resistiram
temerariamente durante o dia. [846-7]
NER.: E isto é o bastante? Assim, soldado, ouviste o chefe? Ser dominado? É esta a
vingança devida a mim? [848-9]
PREF.: Os comandantes destruíram a revolta dos ímpios à espada. [850]
NER.: Acaso falta uma pena devida a essa turba, que ousou lançar meus penates às
chamas, dar leis ao príncipe, subtrair do leito nossa querida esposa, violar com a mão
terrível e com voz amaldiçoada o quanto pôde? [851-855]
PREF.: A dor constituirá a pena contra teus cidadãos? [856]
NER.: Constituirá, e não excluas a ninguém pela idade. [857]
PREF.: Tua ira nos moderará, não nosso temor. [858]
NER.: Esperará minha ira a primeira que a mereceu. [859]
PREF.: Devore o quanto deseje, não poupe nossa mão. [860]
NER.: Pois nossa mão pede uma morte horrível e a cabeça da irmã. [861]
PREF.: O rigor trépido apertou horrorosamente o laço. [862]
NER.: Hesitas em prepará-lo? PREF.: Por que duvidas de minha lealdade? [863]
NER.: Pois poupas a cabeça do inimigo. PREF.: Uma mulher apenas toma este nome?
[864]
NER.: Se tomou o de traidora. PREF.: Acaso há quem denuncie a criminosa? [865]
NER.: O furor do povo. PREF.: Quem vai reger os loucos? [866]
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NER.: Quem pôde incitá-los. PREF.: De modo algum creio ter sido a mulher. [867]
NER.: A natureza deu o ânimo benévolo a quem é mau, instruiu o peito ao erro para que
fosse morto.PREF.: Mas negou a força. [868-869]
NER.: Para que acaso tivesse sido inatacável, mas o temor ou castigo partisse as forças
alquebradas; que já a tarde oprime a culpada e condenada. Receba conselho e preces e
cumpra nossas ordens: manda a vencida por barco longe a uma praia remota, para que lé
seja executada. [870-876]
CORO: Oh, sombrio e terrível favor para muitos do povo, que com uma brisa favorável
inflou a vela e levantou com remos, abatido abandona o mesmo ao mar alto e cruel.
Chorou a mãe miseranda dos Gracos, os quais o grande amor e o enorme favor da plebe
pôs a perder, ilustres em família em piedade, em fé, na língua irrefreada, fortes de peito,
amargos nas leis. A ti também, Lívio, a Fortuna deu semelhante dor, que nem pôde tecer os
fasces, nem os telhados de sua casa - a dor presente proíbe recordar mais exemplos: tão
logo os cidadãos entenderam a quem entregar a pátria e fazer voltar o leito da irmã ao
palácio, agora podem ver a pobre Otávia, ser levada em lágrimas ao castigo e ao
esquecimento. Bem sorri a pobreza contente em seu teto humilde: muitas vezes as
tempestades ou a Fortuna derruba altas casas. [877-898]
OCT.: Para onde me trazeis e que tirano ou a rainha ordena o exílio? Tão cedo a vida me
retoma, já eu quebrada e vencida por nossos males? Mas se com minha morte prepara
exceder nossos lutos por que me impede também morrer na pátria que me foi sempre
cruel? Mas já é nula a esperança de salvação: digna de pena, percebo o barco do irmão.
Eis esta em cuja quilha será erguida agora a pobre irmã expulsa do leito, como o foi
outrora a mãe derrotada. Nenhuma Piedade agora o espírito tem, nem há deuses: as tristes
Eríneas governam o mundo. Quem pode chorar dignamente meus males? Que rouxinol
pediu para levar nossas lágrimas? Oxalá os destinos dessem à pobre de mim as penas dele!
Eu ,separada através de asas aladas, logo fugiria às tristes façanhas dos homens, ao meu
luto e à morte feroz. Só, no vazio bosque, e pendurada em um fino galho poderia espalhar
o murmúrio queixoso da garganta. [899-923]
CORO: O gênero humano é mortalmente regido pelos destinos, que o sol quis. por vários
motivos. sendo sempre temido por nós; ninguém pode garantir-se firme e estável. Os
exemplos reforçem teu ânimo, já são muitos os que vossa casa trouxe: por que a Fortuna é
mais cruel contigo? Tu, nascida de Agripa, nora de Augusto, esposa de César, cujo nome
nobre refulge pelo mundo inteiro, logo deves lembrar como Lívia de Druso, feliz pelo
casamento, e mãe primeira da tua descendência, cai por causa do crime do filho cruel e
qual sua pena: tantas vezes esforçada por um importante penhor de paz no útero, teve em
seguida o exílio, castigos, foi presa a cruéis correntes, morte, luto, condenada ainda ao
esquecimento. Júlia seguiu o destino da mãe: mesmo após tanto tempo foi morta pela
espada, ainda que sem crime algum. O quê não pôde tua própria mãe que governou o
palácio do príncipe, e poderosa e querida pelo marido em razão de um parto? Mas a
própria morreu sujeita a um escravo seu pela espada terrível de um soldado. Por que a
alguém a tão grande mãe de Nero permitiu esperar um reino no céu? Intocada por mão
funesta antes de embarcar, logo caiu vítima do filho, atravessada pela espada num dia
terrível. [924-957]
OCT.: Eis que a mim também o feroz tirano envia às tristes sombras e aos manes. Por que
já detenho as vãs lembranças? Partamos rapidamente ao sono que a Fortuna deu-nos por
direito. Declaro aos deuses... - que fazes, demente? Desprezada pelos deuses, poupa-te de
invocá-los: declaro às deusas vingadoras de crimes do Tártaro e do Érebo não a ti, ó pai,
digno de tal morte e castigo: essa sorte não foi desejada por mim. Armai o barco, dai a vela
aos ventos e pelo mar alcance logo, capitão, as praias de Pandatária. [958-971]
227

CORO: Ó brisas leves e sonolentas do Zéfiro, que outrora por uma nuvem etérea
arrebatastes a Ifigênia raptada e escondida dos altares da virgem cruel, levai também uma
vez esta, de um triste castigo, aos templos de Diana Trívia. Nossa cidade é mais branda que
Áulis ou a bárbara Táurida: se ali o estrangeiro é sacrificado aos deuses, Roma se contenta
com o sangue de seus cidadãos. [972-982]

FIM