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G
Ana Maria Colling
Losandro Antonio Tedeschi
(Organizadores)

Gg
g Dicionário Crítico de

ênero
Prefácio
Michelle Perrot

2a Edição

2019
Gestão 2015-2019
Universidade Federal da Grande Dourados
Reitora: Liane Maria Calarge
Vice-Reitor: Marcio Eduardo de Barros

Equipe EdUFGD
Coordenação editorial: Rodrigo Garófallo Garcia
Divisão de administração e inanças: Givaldo Ramos da Silva Filho
Divisão de editoração: Cynara Almeida Amaral,
Raquel Correia de Oliveira e Wanessa Gonçalves Silva
e-mail: editora@ufgd.edu.br
A presente obra foi aprovada de acordo com a
Resolução do Conselho Editorial n. 15/2017, de 17/11/2017.
Conselho editorial:
Rodrigo Garófallo Garcia
Marcio Eduardo de Barros
Fabiano Coelho
Clandio Favarini Ruviaro
Gicelma da Fonseca Chacarosqui Torchi
Rogério Silva Pereira
Eliane Souza de Carvalho
Editora iliada à

A revisão textual e a normalização bibliográica deste livro


são de responsabilidade de seus organizadores.
Projeto gráico e capa: Marise Massen Frainer
Impressão e acabamento: Gráica Pallotti
Os autores são responsáveis pela escolha e apresentação das opiniões expressas neste livro, as
quais não são necessariamente as mesmas da UNESCO e não comprometem a organização.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP).

D546 Dicionário crítico de gênero / Ana Maria Colling, Losandro Antônio


Tedeschi, org. ; prefácio [de] Michelle Perrot. – 2.ed. – Dourados, MS :
Ed. Universidade Federal da Grande Dourados, 2019.
748 p.
Textos em português e espanhol
Disponível em pdf no catálogo da editora:
https://www.ufgd.edu.br/setor/editora/catalogo.
ISBN 978-85-8147-155-6 (versão impressa)
1. Papel sexual – Dicionários. 2. Sexismo – Dicionários. I. Colling, Ana
Maria. II. Tedeschi, Losandro Antônio. III. Perrot, Michelle.

CDD 23. ed.- 305.303


Ficha catalográica elaborada pela Biblioteca Central – UFGD, em conformidade com a Res. n. 184 do
Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB)
Maria Isabel Soares Feitosa – CRB1-1571
©Todos os direitos reservados. Permitida a publicação parcial desde que citada a fonte.
SUMÁRIO

Prefácio, 11 Ciência, 109

Agradecimentos, 15 Cinema, 112

Apresentação, 17 Ciudadanía, 115

A Clio, 120

Aborto, 21 Clitóris, 125

Acoso sexual (en el trabajo), 26 Condição Feminina, 130

Adultério, 30 Condorcet - Educação da mulher, 133

AIDS, 34 Conhecimento, 138

Alteridade, 39 Corpo, 141

Amor Cortês, 41 Culto Mariano, 144

Anatomia, 46 Cultura Visual, 147

Androginia, 49 D
Aprendizaje, infancia y género, 52 Daltro, Leolinda, 151

Aristóteles, 62 Derrida, Jacques (desconstrução,

B diférance), 154

Beauvoir, Simone, 68 Desigualdade, 159

Beleza e gênero, 74 Diferença/Diferencia, 162

Biorelexividade narrativa, 80 Direitos Humanos, 165

Bourdieu e a dominação masculina, 83 Direitos sexuais e reprodutivos, 173

Bruxas/Feitiçaria, 87 Divórcio, 177

Butler, Judith, 91 Docência e gênero, 181

C E
Capitalismo Gore, 96 Economia solidária, 188

Castração, 99 Educação, 192

Cérebro, 104 Educação Popular, 195

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Entendido, 200 G
Epistemologia feminista, 203 Galeno e Hipocrates, 323
Escravidão, 208 Garçonne, 326
Escrita Feminina, 213 Gênero, 330

Esporte, 218 Gênero e Cinema, 333

Essencialismo, 222 Geograia Feminista, 339

Estereótipos, 226 Geração, 343

Etnia, 231 Gouges, Olympe de, 345

Eugenia, 236 Gravidez, 347

F H
Higienismo, 352
Família, 240
(Nova) História
Feminicídio, 245
Cultural, 355
Feminilidade/Feminino, 248
História das mentalidades, 360
Feminismo-Feminismos, 251
História das mulheres, 367
Feminismo Negro, 255
História oral e as mulheres, 372
Feminismo Pos/decolonial, 260
Historiograia e gênero, 379
Filosoia da diferença, 267
Homoafetividade, uniões homoafetivas, 383
Filosoia Feminista, 272
Homoerotismo, 388
Flora Tristán, 276
Homofobia, heterossexismo,
Fotograia e gênero, 282 heterossexualidade compulsória,
Foucault e as mulheres, 290 heteronormatividade, 390
Freire e a condição das mulheres, 294 Homossexualidade, 395
Freiras e religiosas – as mulheres Honra, 400

consagradas, 299 Humor Feminista, 405

Freud, Sigismund, 308 I


Friedan, Betty, 311 Identidade, 409

Fronteira e fronteiriços(as), 315 Imprensa Feminista, 413

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Infância, 418 Misoginia, 515

Inter/multiculturalidade; Montagem, 518

inter/multiculturalismo, 423 Movimentos Feministas, 522

Interseccionalidad, 427 Mujeres Árabes, 527

J Mulher e Guerra, 532

Julia Lopes de Almeida, 434 Mulheres indígenas, mulheres

L ameríndias, 536

La Barre, Poulain de – a educação da Mulheres Judias, 540

mulher, 439 Mulheres Migrantes, 545

Lacan, Jacques, 444 Mulheres surdas, 550

LGBT, 448 N
Lilith/Eva, 452 Natureza/naturalização, 554

Literatura Feminina, 457 Ninfomania, 558

Loucura, 461 Nísia Floresta, 561

Lutz, Bertha, 466 O


M ONU, 565

Manuais de civilidade / P
comportamento, 471 Palavras - Silêncio, 571

Maria Lacerda de Moura, 476 Paterfamilias, 573

Marianismo, 481 Patriarcado, 578

Marxismo, 485 Pecado Original, 582

Masculino/Masculinidade, 489 Perrot, Michelle, 587

Maternidade, 495 Pizan, Christine, 590

Matriarcado, 500 Platão e a natureza feminina, 596

Memória, 504 Poder (Poder/Saber), 600

Menstruação, 508 Políticas Feministas, 604

Miedo, 510 Poscolonialismo: Caribe Poscolonial, 608

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Pós-Feminismo, 614 V
Prostituição, 617
Violência de Gênero/Intolerância, 715
Q Virgem Maria, 718
Queer, Teoría, 625
Viuvez, viúvas, 724
R Voto feminino, 731
Relações de Gênero, 630
W
Relações Internacionais e Gênero, 634
Woolf, Virginia, 736
Representação, 639
Wollstonecraft, Mary, 740
Resiliência, 643
Índice de autores, 743
Resistência, 647

Rousseau, Jean Jacques, 651


Rubin, Gayle, 654

S
Salud Feminina, 659
Scott, Joan, 662

Sexo/Sexismo, 666

Sexualidade, 669
Subjetividade, 672

Sufragismo/Sufragetes, 676

T
Teologia Feminista, 681

Teoria Crítica, 686

Teoría uterina/Parteras, 693


Trabalhadoras rurais, 699

Trabalho, 704

Trabalho feminino/proissões
femininas, 708

Transgênero, 712

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PREFÁCIO

Ce Dictionnaire, superbement pensé, documenté, organisé, atteste de la


vitalité et du développement des recherches sur les femmes et le genre dans le
monde ibérique et latino-américain, dont le Brésil est un phare. Car c’est une
initiative brésilienne dont il faut féliciter les coordinateurs, Ana Maria Colling et
Losandro Antonio Tedeschi, tous deux enseignants-chercheurs à l’UFGD (Uni-
versité fédérale de Grande Dourados, Matto Grosso do Sul), université engagée
depuis de nombreuses années dans les programmes « Femmes/Genre », avec
une perspective pluridisciplinaire très sensible dans le Dictionnaire, ouvert aux
multiples facettes des sciences humaines.
Ils ont suscité, recueilli et ordonné une matière foisonnante autour de
deux axes majeurs: les personnes qui, par leur écriture, leur pensée, leur action
ont contribué au développement de ce champ; d’autre part, les notions qui le
structurent. D’un côté, Simone de Beauvoir, Poulain de la Barre, Pierre Bourdieu,
Judith Butler, Michel Foucault, ou Bertha Lutz. De l’autre, Aborto, Aids, Clitoris,
Histeria, Homofobia, Lesbianismo, Pecado original… Les articles proposent des
analyses approfondies autour du prisme du genre. Par exemple, la notice ( Marga-
reth Rago) consacrée à Michel Foucault traite non pas de l’œuvre du philosophe,
mais de son apport, parfois controversé, à l’histoire des femmes et à celle de la
sexualité.
Ces données sont classées dans l’ordre alphabétique des entrées 156 au-
teurs ont rédigé plus de 162 notices. Cela représente un conluent de recherches
et d’écritures qui aboutit à ce leuve, à cette somme unique, nécessaire, utile, qui
a valeur de manifeste et suscite l’admiration.
Après le silence obscur du laboratoire, vient la synthèse en pleine lumière.
Voici, mis à la disposition du plus grand nombre, un demi – siècle de rélexions et
de recherches sur l’histoire des femmes, les relations entre les sexes, leur différen-
ce, les sexualités, le genre.Témoin des progrès accomplis, des découvertes qui ont
changé nos conduites et peut-être nos vies par les chemins de liberté qu’ouvre
la connaissance, ce Dictionnaire pionnier, original, désormais indispensable ins-
trument de travail, fait le point de nos savoirs et nous incite à poursuivre.

Michelle Perrot

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Este dicionário, muito bem pensado, documentado, organizado, atesta a


vitalidade e o desenvolvimento da pesquisa sobre mulheres e gênero no mundo
ibero e latino-americano, do qual o Brasil é um farol. Esta iniciativa brasileira
deve-se aos coordenadores, Ana Maria Colling e Losandro Antonio Tedeschi,
professores da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados, Mato Gros-
so do Sul ), universidade engajada há muitos anos em programas sobre “Mulhe-
res/gênero”, numa perspectiva multidisciplinar visível no dicionário, aberta às
múltiplas faces das ciências humanas.
Os organizadores criaram, coletaram e ordenaram um material abundan-
te em torno de dois eixos principais: intelectuais que, através da sua escrita, seu
pensamento e suas ações, contribuíram para o desenvolvimento deste campo; e
os conceitos por eles analisados . Por um lado, Simone de Beauvoir, Poulain de la
Barre, Pierre Bourdieu , Judith Butler, Michel Foucault, Bertha Lutz... Por outro,
Aborto , Aids, Clitóris, Histeria, Homofobia, Lesbianismo, Pecado Original... Os
textos oferecem análises aprofundadas sob o prisma de gênero. Por exemplo,
o verbete (Margareth Rago) dedicado a Michel Foucault não trata somente da
obra do ilósofo, mas da sua contribuição, por vezes controversa, à história das
mulheres e da sexualidade.
Os verbetes são classiicados em ordem alfabética. 156 autores escreve-
ram 162 verbetes. Isto representa uma conluência de pesquisa e escrita que ca-
minha em sentido único, necessário, útil, que se manifesta em valor, provocando
admiração.
Após o silêncio escuro do laboratório vem a síntese em plena luz. Eis
aqui, disponível a todos, meio século de relexão e pesquisa sobre a história das
mulheres, as relações entre os sexos, sua diferença, as sexualidades, o gênero.
Testemunha dos progressos alcançados, das descobertas que mudaram nosso
comportamento e talvez nossas vidas, pelos caminhos de liberdade que o co-
nhecimento abre, este Dicionário, pioneiro, original, doravante ferramenta in-
dispensável de trabalho, é um registro dos nossos saberes e um incentivo a
continuar.

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Este diccionario, magniicamente pensado, documentado y organizado,


muestra la vitalidad y el desarrollo de la investigación sobre mujeres y género
en el mundo ibérico y latinoamericano, del cual Brasil es un faro. Esta iniciativa
brasileña se debe a los coordinadores Ana Maria Colling y Losandro Antonio
Tedeschi, profesores de la UFGD (Universidad Federal de Grande Dourados,
Mato Grosso do Sul), universidad comprometida con programas sobre “Mu-
jeres/Género”, desde una perspectiva multidisciplinaria, abierta a las múltiples
caras de las ciencias humanas.
Los organizadores crearon, colectaron y ordenaron abundante material
al rededor de dos ejes: los intelectuales que a través de su texto, su pensamiento
y sus acciones contribuyeron para el desarrollo de ese campo; y, por otro, los
conceptos por ellos analizados. Por un lado, Simone de Beauvoir, Poulain de la
Barre, Pierre Bourdieu , Judith Butler, Michel Foucault, Bertha Lutz… Por otro,
Aborto, SIDA, Clítoris, Histeria, Homofobia, Lesbianismo, Pecado Original…
Los textos ofrecen análisis profundos bajo el prisma de género. Por ejemplo, el
verbete (Margareth Rago) dedicado a Michel Foucault no trata solamente de la
obra del ilósofo, pero su contribución, a veces controvertida, a la historia de las
mujeres y de la sexualidad.
Las entradas del diccionario son presentadas en orden alfabético. 156 au-
tores escribieron 162 entradas. Eso representa una conluencia de investigaciones
y escritos que resulta en ese rio, en ese montante único, necesario, útil, lo cual
tiene un valor obvio y que provoca la admiración.
Después del silencio oscuro del laboratorio, viene la síntesis a plena luz.
Aquí esta, disponible a un gran numero de personas, la mitad de un siglo de
relexiones e investigaciones sobre la historia de las mujeres, las relaciones entre
los sexos, sus diferencias, las sexualidades, el género. Testigo de los progresos
realizados, de las descubiertas que cambiaron nuestro comportamiento, y quizás
nuestras vidas, por los caminos de libertad que se abren del conocimiento, este
Diccionario pionero, original, de aquí en adelante indispensable instrumento de
trabajo, es un balance de nuestros saberes y un aliento a continuar.

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AGRADECIMENTOS

Realizar uma obra coletiva como este Dicionário Crítico de Gênero, que
reúne escritoras e escritores de vários países, só foi possível pelo desprendimento
destas intelectuais que vislumbraram neste trabalho a visibilidade e a consolida-
ção de uma área extremamente profícua e necessária no mundo acadêmico. Nos-
sa primeira intenção ao organizar este Dicionário Crítico de Gênero, que reúne
intelectuais das mais diversas áreas do conhecimento, para além dos muros da
História, é de que ele possa ser uma ferramenta útil de pesquisa e uma alavanca
para outros projetos.
Portanto, os primeiros agradecimentos são para estas e estes amáveis co-
legas sem o qual esta obra não seria possível. Em segundo lugar, à Universidade
Federal da Grande Dourados - UFGD, através de sua editora, pelo seu apoio
nessa 2ª edição.
Um agradecimento especial à historiadora Michelle Perrot. Intelectual e
feminista de imensa importância para quem trabalha com história das mulheres
e das relações de gênero e profundamente comprometida com a democratização
da História. Com gentileza, desprendimento e simpatia, prerrogativa das grandes,
através de suas palavras, deu seu apoio, valorização e reconhecimento ao Dicio-
nário Crítico de Gênero.
E por im, ao público leitor, às autoras e autores, nosso carinho especial e
agradecimento nessa 2ª edição.

Ana Maria Colling


Losandro Antonio Tedeschi
Organizadores

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APRESENTAÇÃO

O “Dicionário Crítico de Gênero” partiu do entendimento de que era ne-


cessário reunir numa obra o conjunto de vocábulos de referencial crítico, assim
como aqueles termos que permitem um tratamento problematizador do universo
dos estudos de gênero, mulheres, masculinidades e sexualidades. A iniciativa foi
possível pelo apoio da UFGD e da existência de um Laboratório de Estudos de
Gênero, História e Interculturalidade (LEGHI), e da Cátedra/UNESCO – Di-
versidade cultural, Gênero e Fronteiras alojados nesta universidade.
Agora em uma segunda edição, com a responsabilidade desta obra ter sido
agraciada em 1º lugar com o prêmio nacional da ABEU (Associação Brasileira de
Editoras Universitárias) 2016, na categoria Ciências Humanas, a obra é revista e
novos verbetes são incorporados.
Nestes tempos sombrios em que a categoria de análise de gênero é, em
muitos espaços, especialmente política e religiosa, demonizada, escrever sobre
esta temática revela-se um trabalho de responsabilidade social. Temos a certeza
de que muitos e muitas que se arvoram em críticas, desconhecem seu verdadeiro
sentido. Como combater, por exemplo, a violência contra a mulher e os homos-
sexuais, chaga mundial, se não conhecermos a história do desprezo ao corpo
feminino?
Joan Scott, uma das criadoras da categoria de análise “gênero”, na década
de 80, através de seu paradigmático texto Gênero: uma categoria útil de análise histórica,
proporcionou um novo universo linguístico-conceitual, transdisciplinar, amplian-
do o debate epistemológico no conjunto da comunidade acadêmica. Scott, atenta
ao movimento conservador que assola o Ocidente, e não somente o Brasil, rei-
tera a importância do conceito gênero, transformado em uma questão política.
Como a categoria de análise de gênero pressupõe a incorporação de ou-
tros tantos conceitos e de diversas autoras/es que historicamente auxiliaram as
análises, a proposta deste dicionário é de se apresentar como uma obra plural,
que tem a pretensão de visualizar as diferenças de interpretações.

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Michele Perrot, reconhecida historiadora francesa e coordenadora junta-
mente com Georges Duby da já clássica obra em 5 volumes A História das Mu-
lheres no Ocidente, enumera os três movimentos que contribuíram para a chegada
das mulheres na História; não somente elas, mas todos os demais sujeitos sub-
sumidos pelo discurso moderno. Perrot destaca como importantes: a crise dos
grandes paradigmas como o positivismo e o marxismo; a explosão da História
com a Nova História (história em migalhas); e a demanda social com o movi-
mento feminista. (PERROT. Michele. As mulheres e os silêncios da História. Bauru/
SP, EDUSC, 2005).
O positivismo centrava sua análise na história política, privilegiando as
fontes diplomáticas e militares, uma história de guerras e batalhas onde as mu-
lheres não apareciam; o marxismo, referencial teórico marcante na historiograia
ainda hoje, não deu importância para as contradições entre homens e mulheres
ou para as questões femininas, porque as contradições de classe e os seus em-
bates eram a questão de fundo. Segundo eles, as discussões sobre sexualidade,
relações de poder entre homens e mulheres seriam resolvidas após a revolução.
A explosão dos conceitos como igualdade e liberdade trazida pela história
das mulheres e das relações de gênero e poder permitiu uma releitura do passado,
uma prestação de contas entre memória e história. A noção de gênero obrigou a
repensar a visão androcêntrica e colonialista da historiograia e apontou possibi-
lidades de novas explicações da sociedade e da história, que exigiu a consideração
de todos os sujeitos implicados nela. Por este motivo, muitas/os historiadoras/os
têm utilizado a categoria de gênero em suas análises, como metáfora de sujeitos
invisibilizados pela história única.
As autoras e os autores dos verbetes apresentados neste dicionário fo-
ram escolhidos por nós, organizadores, por serem intelectuais envolvidos com
as questões de gênero e reconhecidos no meio acadêmico pelas suas produções
nesta área. São intelectuais das mais variadas universidades brasileiras, latino-a-
mericanas e europeias, de diversas áreas de pensamento alojadas no campo das
Ciências Humanas e Sociais.
O dicionário não é bilíngue, mas editado em português e espanhol numa
tentativa de respeito à escrita de cada um e cada uma, optando por publicar os
verbetes no idioma de seus autores.
Em 1988, Michele Perrot indagava: “é possível uma história de mulheres?”,
porque tão longe quanto nosso olhar histórico alcança vê-se apenas a dominação

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masculina. Como então elas poderiam pensar sua história? Esta pergunta ainda
nos desacomoda. A história das mulheres é uma história diferente, é uma nova
história ou é uma outra história? Ainda achamos que incluir as mulheres no relato
histórico não signiica incluir a metade da humanidade, mas um ato que afeta a
humanidade em seu conjunto? Como transformar a cultura que aprendeu como
verdade a desqualiicação do feminino?
Certamente muitos dicionários sobre as relações de gênero ainda serão
editados, especialmente levando em consideração ser esta área temática ainda
nova, prenhe de signiicações e estudos, mas, de nossa parte, nos consideramos
felizes em poder contribuir, neste momento histórico, com este empreendimento
que nos deu tanto prazer em organizar, especialmente por ser uma obra coletiva.

Ana Maria Colling


Losandro Antônio Tedeschi
Organizadores.

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Aborto

A prática de expelir do corpo hu-


mano o resultado do encontro entre o
óvulo e o espermatozoide é polêmica.
Trata-se de uma prática, ainda que secu-
lar, dominada, em grande medida, pela
moral cristã. É, no Brasil, criminalizada,
um crime contra o feto.
No Brasil, o Código Penal de
1940, decreto-lei nº 2.848, de 7 de
dezembro de 1940, nos Artigos 124, 125
e 126, a prática da interrupção da ges-
tação é considerada crime quando pra-
ticado por uma mulher gestante, a seu
pedido e/ou sem o consentimento da
gestante. Este Código Penal vigente, de
1940, permite o aborto nas situações de
gravidez em que há risco de morte para
a mulher e em caso de estupro.
Em 2012, o Supremo Tribunal
Federal aprovou a terceira situação na
qual o aborto não é considerado crime
no país: quando o feto é anencéfalo/in-
viável. Nestas situações de abortamen-
to previstas é necessária a autorização
da Justiça e a realização da interrupção
da gravidez. Ainda, em caso de estupro
comprovado é autorizado o abortamen-
to.
Este é um campo minado, que,
como airma Danielle Ardaillon (1997),
surge como situações-limite no cenário
público, marcadas polêmicas e divergên-
cias. Falar abertamente sobre aborto é
enfrentar as políticas de controle sobre
o corpo feminino. Esta política ao do-

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minar, determinar e disciplinarizar os “por um lado, fortalecer a agenda na-
corpos com úteros impõe a gravidez cional de pesquisas sobre aborto, or-
como realização e, ao contrário, a in- ganizando o conhecimento disperso, e,
terrupção como a condenação moral e por outro, aproximar o debate políti-
legal. co da produção acadêmica brasileira.”
É neste terreno de lutas que se (DINIZ, 2008, p.5.). Por meio desta
dá a produção de conhecimentos his- pesquisa, a autora recuperou “2.135
tóricos sobre as práticas de aborto. É, fontes em Língua Portuguesa, publica-
sem dúvida, uma escrita comprometida das por autores, periódicos e editoras
com a relexão nos campos das éticas nacionais ou estrangeiros.” (DINIZ,
e das morais em sua díade com as lutas 2008, p. 8). E realizou estudo de 398
por conquistas de direitos humanos no fontes que apresentavam pesquisas
que diz respeito a autonomia sobre o empíricas sobre aborto.
próprio corpo. Uma história que, no Este importante levantamento
dizer da ilosofa Jeanne Marie Gagne- demonstra, como conclui a antropó-
bim (2006, p. 57), “consegue ouvir a loga Debora Diniz (2008), a relevância
narração insuportável do outro e que do tema aborto nas pesquisa realizadas
aceita que suas palavras levem adiante, no Brasil a partir da década de 1980,
como num revezamento, a história do sendo “um forte indício da importân-
outro”. cia do tema para a saúde pública no
Entretanto, os movimentos fe- País. Grande parte das publicações é
ministas em prol dos direitos sexuais de ensaios, artigos de opinião e peças
e reprodutivos das mulheres, ao fazer argumentativas. (...) Os estudos com
frente a criminalização e a moralização evidências são quase todos relativos
da interrupção da gestação, defendem ao campo da Saúde Pública.” (DINIZ,
a livre decisão das mulheres sobre seu 2008, p. 7).
próprio corpo; e vão além, lutam pela “O aborto é uma questão de
descriminalização do aborto no Brasil saúde pública.”, airma DINIZ (2008,
e pela vida das mulheres que decidem p. 7), para esta estudiosa, a solidez des-
pelo procedimento abortivo. te entendimento implica em “enfrentar
Em 2008, a antropóloga Debora com seriedade esse fenômeno signiica
Diniz (2008) publicou o livro “Aborto entendê-lo como uma questão de cui-
e saúde pública: 20 anos de pesquisas dados em saúde e direitos humanos, e
no Brasil” que sistematiza duas déca- não como um ato de infração moral de
das de publicações sobre o tema do mulheres levianas.” (DINIZ, 2008, p.
aborto no Brasil. A autora objetivava 7).

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Com fontes de dados das inter- e de política pública ligada ao plane-
nações por abortamento no Serviço de jamento familiar, enquanto o aborto
Informações Hospitalares do Sistema permaneceu inscrito nos registros da
Único de Saúde estima-se que foram criminalidade e da moral religiosa.”
1.054.242 abortos induzidos em 2005. (DINIZ, 2012, p. 315).
A Pesquisa Nacional do Aborto (PNA) Conquanto a recorrência da
realizada em 2010 mostra que uma em prática do aborto, as discussões sobre
cada cindo mulheres, com quarenta aborto no Brasil surgiram dentro do
anos de idade, havia realizado ao me- movimento feminista em meio às re-
nos um aborto, utilizando como méto- sistências à ditadura civil-militar. Nes-
do abortivo o Citotec. Já as mulheres te contexto brasileiro, segundo Leila
com idade superior a quarentas anos Barsted (1992, p. 107), “tanto as ques-
airmaram que recorram as clínicas tões do feminismo, quanto a questão
clandestinas. especíica do aborto eram, ainda, temas
Entretanto, há estimativas alar- considerados transplantados de outros
mantes sobre o número de aborto contextos sociais.”, especiicamente
ilegais que vem à tona quase sempre das sociedades capitalistas modernas
quando há óbitos de mulheres em e desenvolvidas do hemisfério norte,
função de terem realizado aborto em onde o feminismo tinha o direito ao
clínicas clandestinas ou quando mulhe- aborto como “reconhecimento do di-
res vítimas de estupro lutam por auto- reito à autonomia individual e como
rização para realização do procedimen- contestação ao poder do Estado em le-
to autorizado pela Justiça Brasileira em gislar sobre questões da intimidade do
Hospitais credenciados. indivíduo.” (BARSTED 1992, p. 107)
Apesar dos altos índices de Para Leila Barsted (1992), é de
abortamento, amplamente denuncia- forma tímida que a questão do aborto,
do pelos movimentos feministas, e enquanto tema político, surgem publi-
da urgência da efetivação dos direitos camente no Brasil dentro da agenda
sexuais e reprodutivos das mulheres, política do feminismo. Nos anos 1970,
propalados pelo movimento feminis- em que pesem “as contradições do
ta dos anos 1990 por meio do slogan movimento na deinição de uma iden-
“Nosso Corpo nos Pertence”, da re- tidade” (BARSTED, 1992, p. 110) o
volução dos contraceptivos orais nos Centro da Mulher Brasileira, em 1978,
anos 1960, com autorização e desauto- e “lançou um manifesto reivindicando
rização quanto aos cuidados reproduti- espaço para os temas-tabu, dentre eles
vos, “a concepção passou a ser discu- as questões da sexualidade e do abor-
tida como uma questão de biomédica to.” (BARSTED, 1992, p. 110)

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Apesar desta reinvindicação, produção “O Fim do Silêncio” (2008),
para Joana Maria Pedro (2003, p. 254), dirigido por Thereza Jessouroun, cria-
“no Brasil, contudo, o movimento fe- se issuras no mutismo em torno da
minista não teve participação direta prática. No Documentário “O Fim
na liberação dos contraceptivos para do Silêncio”, publicação da Editora
o uso. A ditadura militar, iniciada em Fiocruz, ao longo de cinquenta e dois
1964, impediu qualquer manifestação minutos mulheres, de diferentes idades
popular, assim como reuniões, asso- e moradoras de diversos estados bra-
ciações, debates”. Entretanto, segundo sileiros contam como, quando e por
Pedro, jornais e revistas noticiaram e que decidiram interromper a gravidez.
divulgaram o contraceptivo ENOVID, São palavras, quase que confessadas à
pílula anticoncepcional cujo comércio câmera e a pesquisadora/produtora do
teve início no Brasil em 1962, após ter documentário. São palavras que desve-
sido aprovado em 1960 Estados Uni- lam cortinas de silêncio sobre o corpo
dos pelo FDA — Food and Drug Ad- da mulher; são palavras de coragem de
ministration, atrelado à alarmes sobre verdades de mulheres que apesar dos
superpopulação na América Latina. estigmas decidiram falar, contar, narrar
(PEDRO, 2003) e questionar os controles sobre o cor-
Nos anos 1980, com a demo- po feminino.
cratização política do Brasil, o Movi- Ousaram negar-se enquanto
mento Feminista, assumi publicamente corpo reprodutor, ação tida como pe-
a questão do aborto. Sendo objeto de cado e subversão aos olhos da moral
estudos, publicações e mobilizações religiosa; crime aos olhos cegos do
das organizações feministas. No iní- Código Penal Brasileiro, e de enfren-
cio dos anos 1990 “dentre as ações do tamento para os movimentos feminis-
movimento de mulheres pelo direito tas em prol das descriminalização do
ao aborto destacam-se as pressões so- aborto.
bre as diversas câmaras municipais, em Para Leila Barsted (1992, p.
particular nas capitais dos estados, para 104), o direito ao aborto “se constitui
fazer incluir, nas leis orgânicas dos mu- na expressão mais radical da liberdade
nicípios, o direito ao atendimento nos do cidadão perante o Estado.” Apesar
serviços públicos de saúde, nos casos do “manto de silêncio e tabu”, na Mar-
de aborto previstos em lei.” (BARS- cha Mundial das Mulheres, em 2013,
TED, 1992, p. 125). cartazes airmavam: “Eu aborto, tu
Diante de histórias sobre a prá- abortas, somos todas Clandestinas”,
tica do aborto, atualmente, contadas e em clara postura de contestação aos
registradas em documentários como a silêncios em torno do aborto e ruptu-

• 24 •
ra com a moral que pedagogiza a ver- rasgos nos corpos femininos frente à
gonha, o medo, a culpa, o silêncio e a biopolítica patriarcal. Enfrentam como
morte para as mulheres que decidem foi e tem sido as lutas incessantes pelo
sobre seu corpo na contramão das in- domínio do próprio corpo e pelas vi-
gerências do Código Penal Brasileiro e das das mulheres, que não se querem
da moral vigentes. nem pecadoras, nem criminosas, nem
Ademais, no 5° Encontro Fe- clandestinas nem mortas no Brasil; se
minista Latino-Americano e Cariben- querem vivas e donas de si.
ho, realizado no ano de 1999, em Juan
Dolio, na República Dominicana ins- Paula Faustino Sampaio
tituiu-se o 28 de setembro como dia
Latino-Americano e Caribenho pela Referências e sugestões de leitura
Descriminalização do Aborto. Somen-
ARDAILLON, Danielle. Cidadania de corpo inteiro:
te em dois países latino-americanos e discursos sobre o aborto em número e gênero. São Paulo,
caribenhos: Cuba e Uruguai, o aborto 1997. Tese (Doutorado em Sociologia) – Universidade de
São Paulo.
foi legalizado. Ainda, a Cidade do Mé-
BASTED, Leila. Legalização e descriminalização do abor-
xico legalizou o aborto em 2007, mas to no Brasil: 10 anos de luta feminista. Revista Estudos
no restante do México, o aborto é cri- Feministas. Rio de Janeiro,v.0, n.2, p. 104-130, 1992.
me. DINIZ, Debora. Aborto e Saúde Pública no Brasil. Ca-
Para Debora Diniz, “O tema dernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 23, n. 9, p.
1992-1993, set. 2007.
do aborto se cruza com o com o do
planejamento reprodutivo, mas prin- ______. Três Gerações de Mulheres. In: PINSKY, Carla
Bassanezi.; PEDRO, Joana Maria. (Orgs.) Nova História
cipalmente com ideais sociais sobre das Mulheres. São Paulo: Contexto, 2012. p.331-332.
a maternidade e o feminino. Mas, di-
GAGNEBIN. Jean Marie. Lembrar, escrever, esquecer.
ferentemente de outras mudanças no São Paulo: Ed. 34, 2006.
campo reprodutivo, como as tecnolo-
PEDRO, Joana Maria (Org.) Práticas proibidas: práticas
gias reprodutivas ou a pílula do dia se- costumeiras de aborto e infanticídio no século XX. Flo-
guinte, o aborto se mantém escondido rianópolis: Cidade Futura, 2003.

sob um manto de silêncio e tabu” (DI- ______. A experiência com contraceptivos no Brasil:
NIZ, 2012, p. 323.). uma questão de geração. Revista Brasileira de História.
São Paulo, v. 23, nº 45, p. 239-260 – 2003.
Os estudos e as lutas dos mo-
PERROT, Michelle. Os silêncios do corpo da mulher. In:
vimentos feministas sobre aborto no
MATOS, Maria Izilda Santos de.; SOIHET, Rachel. São
Brasil são issuras no “pesado silên- Paulo: Editora UNESP, 2003. p.13-41.
cio sobre o corpo da mulher” (PE- PITANGUY, Jacqueline. O Movimento Nacional e In-
RROT, 2003, p. 18). São escritas que ternacional de Saúde e Direitos Reprodutivos In:GIF-
FIN, Karen (Org.) Questões da saúde reprodutiva. Rio
evidenciam as experiências de mulhe- de Janeiro: Editora Fiocruz, 1999.
res. Mostram como se deu e se dão os

• 25 •
• problema social mundial por parte del
movimiento feminista y sindical.
Acoso sexual (en el trabajo) Desde el momento en el que las
feministas de la Universidad de Cornell
Inicialmente la lucha contra el en EEUU llamaron, allá por los seten-
acoso sexual laboral se coniguraba de ta, a esta violencia sexual harassment
manera casi exclusiva como una con- (1), hasta la actualidad se han elabora-
culcación de la dignidad humana. Se do gran número de instrumentos jurí-
entiende la misma como el marco en el dicos, además del protomarco anterior;
que se desarrollan el resto de derechos que han ido conformando su concep-
fundamentales entre los que destacan to, así como su necesaria prevención.
el derecho a la intimidad, la integridad En el caso español la conigu-
física, la integridad psíquica, la igual- ración del acoso sexual laboral ha ido
dad y la libertad. Dicho planteamiento evolucionando desde sus inicios en el
inicial ha sido completado hasta encu- período franquista hasta la actualidad.
adrarse claramente en el ámbito de la Su coniguración inicial estaba atrave-
discriminación por razón de sexo, en el sada de la moral imperante de la época.
ámbito de las violencias contra las mu- Es decir, tanto en la denominaciones
jeres como vulneración de los derechos empleadas como en las descripciones
humanos. Ello es importante porque de las mismas (enfatizándose claramen-
cuando se habla de violencia de género te la resistencia ante tales conductas) se
no siempre se relacionan con la discri- observa como el bien jurídico protegi-
minación por razón de sexo como me- do fundamental no era la libertad7 se-
xual sino más bien la moral imperante,
dio generador-sustentador. Ni tampo-
la honestidad y la decencia. Esto llevó a
co se establece una relación directa con
una cosiicación ideológica del cuerpo
lo que es una escandalosa vulneración
de las mujeres mediante la cual se con-
de los derechos humanos. Por tanto, en
vierten en las garantes culturales, las
demasiadas ocasiones, se las recluyen
portadoras de valores superiores, pero
en departamentos estancos, que lo que
no en las sujetas afectadas en primera
provocan es el enquistamiento de las
instancia por tales deleznables conduc-
mismas al no emprenderse las necesa- tas. Conforme ha ido avanzando la de-
rias intervenciones correctoras de ca- mocracia y se ha ido incorporando a la
rácter integral. Esta evolución a la que misma una perspectiva feminista y, por
me reiero no es casual, ya que anda ende, de derechos humanos, tales cir-
pareja al hecho de ponerle nombre, así cunstancias se han ido corrigiendo. El
como a su visibilización como grave acoso sexual es un ilícito cuyas notas

• 26 •
características fundamentales son que artículo también se ha procedido a in-
ataca de manera directa al principio cluir el acoso como chantaje sexual, el
de igualdad entre mujeres y hombres. condicionamiento de un derecho o de
Es además discriminatorio por razón una expectativa de derecho a la acep-
de sexo Art. 14 C.E (2); pero también tación de una situación constitutiva de
es un ilícito de carácter pluriofensivo, acoso sexual o de acoso por razón de
ya que afecta a otros bienes jurídicos sexo se considerará también acto de
protegidos como la integridad física o discriminación por razón de sexo (Art.
moral (Art. 15CE), la intimidad perso- 7.4). A su vez, se ha señalado que el
nal (Art. 18CE), la libertad sexual, el mismo es discriminatorio por razón de
derecho a la salud y la seguridad (Art. sexo (Art. 7.3). Reforzándose de mane-
43CE) y el derecho al trabajo (Art. ra fehaciente la defensa ante el acoso
35CE). sexual en el trabajo mediante el Art.
Recientemente en el estado es- 9 LOIEMH relativo a la indemnidad
pañol se ha realizado un paso más en frente a represalias.
el camino de la prevención del acoso Además en relación directa con
sexual laboral mediante la aprobaci- todo lo indicado hasta ahora, se ha de
ón de la Ley Orgánica para la Igual- hacer mención a la Recomendación
dad Efectiva de Mujeres y Hombres 92/131/CEE de la Comisión, de 27 de
de 2007 (LOIEMH) (3). Una ley que noviembre de 1991, relativa a la pro-
tiene como objetivo fundamental ha- tección de la dignidad de la mujer y del
cer real la igualdad de género en todos hombre en el trabajo con su anexo re-
los ámbitos que conforman la socie- lativo al Código práctico encaminado
dad española. Desde dicho marco la a combatir el acoso sexual en el tra-
LOIEMH se ha convertido en el refe- bajo(4) el mismo señala que está cla-
rente fundamental para la caracteriza- ro que para millones de mujeres de la
ción del acoso sexual (en el trabajo) en Comunidad Europea, el acoso sexual
el Estado español. Se deine en el Art. es una parte desagradable e inevitab-
7.1 sin perjuicio de lo establecido en el le de su vida laboral. Además existen
Código Penal, a los efectos de esta Ley una serie de grupos que se ven espe-
constituye acoso sexual cualquier com- cialmente afectados por el acoso sexual
portamiento, verbal o físico, de natu- en el trabajo: las mujeres divorciadas o
raleza sexual que tenga el propósito o separadas, las mujeres jóvenes y las que
produzca el efecto de atentar contra la se incorporan por primera vez al mer-
dignidad de una persona, en particular cado de trabajo, las que tienen contra-
cuando se crea un entorno intimidato- tos laborales precarios o irregulares, las
rio, degradante u ofensivo. En dicho mujeres que desempeñan trabajos no

• 27 •
tradicionales, las mujeres incapacitadas pletos en el imaginario social. Por lo
físicamente, las lesbianas y las mujeres cual se puede airmar que en todos los
de minorías raciales corren un riesgo grupos está presente que son supuesta-
desproporcionado. Los homosexuales mente víctimas más fáciles, porque van
y los hombres jóvenes también son a tener menos mecanismos de defensa.
vulnerables al acoso. Con relación a ta- Ello nos permite apreciar claramente
les grupos se observa que el mismo se cómo las conductas de acoso sexual
ejerce contra personas que en el ima- tienen un fuerte componente de poder
ginario social no tienen poder, básica- mal empleado. Pero no es un poder
mente las mujeres en general, así como único, es decir, de un superior, de un
se agrava en los casos que las mujeres mando, sino que es un poder respal-
están “solas”, entendiendo por muje- dado socialmente a través del sexismo
res “solas” a aquellas que no tienen un social, el cual se iltra en las empresas,
hombre protector al lado. También se porque quienes las forman también
agrava en el caso de las mujeres que en- son integrantes de las sociedades.
tran en el mercado laboral o están en Finalmente es importante re-
sectores muy masculinizados, es decir, marcar que el acoso sexual en el tra-
se ejerce contra aquellas que rompen bajo es una cuestión de poder mal
la norma, salen de su ámbito privado entendido según el cual se reduce a la
o aspiran a ejercer una profesión que otra mediante la dominación. En dicho
en el imaginario social no es de muje- proceso de dominación se entreme-
res. De nuevo se agrava en el caso de zclan justiicaciones vinculadas a las
las personas que no siguen la hetero- creencias de inferioridad (por tanto,
normatividad, o sea, va contra aquellas de desvalor) de lo supuestamente fe-
personas que se permiten el lujo de vi- menino respecto a lo supuestamente
sibilizar su orientación sexual no hete- masculino (con valor o sobrevalor), así
rosexual. También se agrava en el caso como se legitima el control masculi-
de las mujeres diversas funcionalmente no como lo hegemónico y verdadero
o pertenecientes a alguna minoría. En dentro del orden social impuesto. Ade-
estos casos la mayor exposición a di- más dichas justiicaciones en el ámbito
chas conductas viene dado por la so- laboral (aunque no sólo en el mismo)
breacumulación vulnerable, es decir, al se entremezclan con justiicaciones de
hecho de ser mujeres se suma otra cau- carácter clasista en las que, de nuevo,
sa más. En cuanto a las mujeres y los la jerarquía es normalizada como úni-
hombres jóvenes, la razón es la misma, ca forma de organización y de enten-
en mi opinión, ya que no tienen poder. dimiento de las relaciones humanas y,
Unas por ser mujeres y jóvenes y otros por supuesto, del poder y control.
porque todavía no son hombres com-
• 28 •
Además dichas estructuras son transgredir aquello que también deinía
generadoras de violencia; porque son el refrán, a la mujer en su casa nada le
injustas, ya que siempre consideran a pasa. En deinitiva, el acoso sexual en
alguien como no-ser completo. En tal el trabajo es una terrible forma de vio-
incumplitud están todas las mujeres; lencia sexual contra las mujeres por el
pero también todos aquellos hombres simple hecho de serlo; pero la misma
que no se incluyen en dicha única su- se ha venido sustentando en el sexismo
puesta masculinidad hegemónica o que como manera normalizada de organi-
no pertenecen a la clase superior de la zación y relación humana, por lo que
jerarquía establecida. A su vez, tales es- se requieren normas y medidas espe-
tructuras necesitan de la violencia para ciicas contra el acoso sexual en el tra-
poderse imponer, para poder sobrevi- bajo a todos los niveles políticos; pero
vir al inlujo de los derechos humanos también se requiere que la prevención
como nueva justiicación ideológica del mismo se vincule con la erradicaci-
contra todo tipo de justiicaciones ón de tales visiones jerárquicas y dico-
discriminatorias de muchos siglos, de tómicas de lo que se supone somos las
milenios, así como se requiere la vio- mujeres y los hombres, de lo que se su-
lencia también contra la aspiración de pone que es un trabajador y una traba-
alcanzar la ciudadanía plena en todos jadora, de la eliminación de todo tipo
los ámbitos. También en el ámbito la- de discriminaciones e injusticias socia-
boral, por qué no. les, económicas, culturales, políticas,
Ciertamente tales vulneracio- etc. tanto dentro de la empresa como
nes de derechos en el ámbito laboral fuera. En deinitiva del respeto a los
se presentan tanto para hombres como derechos humanos. En cuanto al mal
para mujeres, ya que como comen- ejercicio del poder que se está comen-
ta Tárraga Poveda (5) todavía hoy no tando. Añadir que el mismo se presenta
se tiene muy clara la diferencia entre tanto en el acoso de intercambio como
trabajador y siervo. Es decir, entre un en el acoso ambiental. Porque el mis-
hombre libre y otro que no lo es. Pero mo también tiene un componente de
si la condición de siervo es terrible, a la abuso de autoridad, de mando, porque
condición de sierva se le une la condi- para crear ese ambiente intimidatorio,
ción de sierva sexual, lo cual es central degradado, violento se requiere poder.
en cuanto al acoso sexual en el traba- No siempre el poder ha de ser formal,
jo, ya que la misma no tiene libertad sino también el mismo puede ser in-
al entendérsela como un ser inferior e formal, ¿qué mayor poder de carácter
incompleto. Como un objeto al servi- estructural, sistemático, simbólico, etc.
cio de, como una intrusa que ha osado que el propio orden patriarcal?

• 29 •
Pero entonces, ¿el poder siem- TÁRRAGA POVEDA, J., “Trabajador o siervo. (O, dei-
nitivamente, sobre la vigencia de los derechos fundamen-
pre es malo?, considero que no. Por- tales en la relación de trabajo)”, Aranzadi Social num.
que el poder puede ser ejercido con 16/2003, 200, Pág. 1.

carácter transformador. De hecho, la



evolución que han tenido los derechos
humanos desde su primera promulga-
Adultério
ción, así como la evolución jurídico-ju-
dicial del acoso sexual son un ejemplo Do latim adulteriu, burlar, men-
de empleo del poder para el cambio. tir, trair, engabelar, dar volta, corrom-
Tales planteamientos además han de ir per, que viola a idelidade conjugal;
acompañados de políticas de igualdad prevaricação, união destoante e relação
en todos los ámbitos que conforman à margem do Sacramento matrimonial.
nuestras sociedades. La ciudadanía ple- Diante de uma pluralidade de sentidos,
na se construye en todos, ellos y ellas. signiicados e conceitos o adultério e
suas práticas desenham e traçam iti-
Maria Ángeles Bustamante Ruano nerários instigantes sobre a história da
intimidade e a condição humana. No
Referencias y indicaciones
tocante as relações matrimoniais, adul-
de lectura
tério nomeia o/a cônjuge que manteve
ALEMANY GÓMEZ, A., LUC, V., MOZO GONZÁ- relações sexuais com um/a terceiro/a
LEZ, C., El acoso sexual en los lugares de trabajo, Insti- fora do casamento, ferindo o contrato
tuto de la Mujer- Serie Estudios, nº 70, Madrid, 2001,
Pág. 14. de união civil e/ou religiosa. Em quase
todas as sociedades, o adultério é con-
CONSTITUCIÓN ESPAÑOLA DE 1978. BOE nú-
mero 311 de 29/12/1978, páginas 29313 a 29424 (112 siderado uma grave violação dos deve-
Págs.) English version:http://www.boe.es/aeboe/consul- res da conjugalidade, regidos por leis e
tas/enlaces/documentos/ConstitucionINGLES.pdf
códigos de união conjugal consentidos
LEY ORGÁNICA PARA LA IGUALDAD EFECTI- nos costumes culturais e aprovados
VA DE MUJERES Y HOMBRES. BOE número 71 de
23/3/2007, páginas 12611 a 12645 (35 Págs.). English pelo Estado.
version: http://www.empleo.gob.es/es/igualdad/Docu- O Direito Romano criou a no-
mentos/LEY_ORGANICA_3_2007.pdf
ção de idelidade conjugal e estabele-
RECOMENDACIÓN 92/131/CEE DE LA COMISI- ceu penalidades nas áreas civil e penal,
ÓN, DE 27 DE NOVIEMBRE DE 1991, RELATIVA A
LA PROTECCIÓN DE LA DIGNIDAD DE LA MU- e o ofendido podia fazer justiça com as
JER Y DEL HOMBRE EN EL TRABAJO CON SU próprias mãos, matando a esposa adúl-
ANEXO RELATIVO AL CÓDIGO PRÁCTICO EN-
CAMINADO A COMBATIR EL ACOSO SEXUAL tera, pois considerava o adultério crime
EN EL TRABAJO.http://europa.eu/legislation_summa- contra a autoridade do pater-familias.
ries/employment_and_social_policy/equality_between_
men_and_women/c10917b_es.htm No período medieval, a igreja cristã
fez sacralizar o casamento, dogma que

• 30 •
coninou o erotismo e a sexualidade puritana, onde Hester é condenada a
voltada a reprodução. Na tradição re- viver separada da sociedade por ter co-
ligiosa católica, o adultério era um ata- metido o pecado de adultério.
que ao direito masculino sobre o corpo No Brasil quinhentista, como na
feminino e destruidor do amor conju- América espanhola, os discursos sobre
gal. Era, nos escritos dos Apóstolos, a honra feminina advertia as mulheres
um pecado também do homem: “Eu, casadas para esquivarem-se da prática
porém, vos digo, que qualquer que do adultério. Nas páginas de “Cons-
atentar numa mulher para a cobiçar, já tituições primeiras do arcebispado da
em seu coração cometeu adultério com Bahia alertava-se as mulheres casadas
ela.” (Mateus 5:28). Desde seu início, sobre a prevaricação. “É muito grave,
o cristianismo não admitiu o divórcio e prejudicial à República o crime do
nem a inidelidade conjugal. Tomás de adultério contra a fé do matrimônio, e
Aquino (século XIII) na Summa The- é proibido por Direito canônico, civil
ologica sustentou que dentre os vícios e natural, e assim os que o cometem
mais pecaminosos está o adultério, ou são dignos de exemplar castigo”. De
fornicação fora do matrimônio: a luxú- acordo com a legislação portuguesa
ria era o pior dos pecados. Na lógica vigente no Brasil Colônia (1500-1822),
tomística, a mulher é a fonte do mal, pelas Ordenações Filipinas (1603), o
sedutora e pecadora por excelência, adultério era considerado como falta
recebendo como castigo as dores da grave para ambos os cônjuges e tam-
gestação e do parto, e submeter-se ao bém motivo de separação perpétua
marido. No Islamismo, a punição para pela norma eclesiástica, e preconizava
o adultério pode ser o apedrejamento, a morte da mulher adultera. “E toda
abandono à própria sorte, mutilação
mulher, que izer adultério a seu ma-
do corpo, escárnio público e até mes-
rido, morra por isso”. No século XVII
mo a morte. Embora o Alcorão deina
o padre Manuel Bernardes chamava
também o adúltero masculino, recai
atenção das mulheres sobre os galan-
sobre a mulher o crime de honra. No
teios masculinos, “nada responda, nem
Judaísmo, a prática do adultério era
ainda para se mostrar irada” e na au-
condenada e vista como uma ameaça à
sência prolongada do esposo evitar ir
integridade moral do indivíduo e à pre-
igreja “porque por miséria humana, e
servação de Israel como uma “nação
instigação diabólica, pode suceder, que
sagrada”: “Não cometerás adultério”,
indo a buscar indulgências, traga pe-
e “Não cobiçarás a mulher do próxi-
mo.” (Decálogos). Outras religiões têm cados”; e para se distrair, aconselha o
suas normas e controle, como vemos padre, “Leiam e meditem exemplos de
no ilme A Letra Escarlate, sociedade matronas castas, que antes escolherem

• 31 •
perder a vida, que violar a fé conjugal”. estavam permanentemente sobre ri-
(SILVA, 1984, p. 192-4). No sudeste do goroso controle diante dos discursos
Brasil colonial na tentativa de manter a morais inoculados na teia da sociedade
honra feminina intacta era costume das colonial, onde a prática do adultério as
famílias mais abastadas recolher aos castigava com severidade. Em algumas
conventos da região mulheres conside- regiões do Brasil matava-se em nome
radas mais “afoitas. Poder-se-ia dizer da honra: no norte do Brasil, nos se-
que na sociedade colonial honra, virtu- ringais do Amazonas, o adultério fe-
de, honestidade eram preceitos funda- minino custava à vida da mulher. No
mentais para a mulher e que a prática extremo sul, em Nossa Senhora do
do adultério constituía-se como falta Desterro (hoje Florianópolis) era prá-
grave e sujeitas as punições severas. tica de uma parcela da população, atra-
No século XVIII e XIX os dis- vés da imprensa, chamar atenção dos
cursos moralistas visavam inibir a mu- maridos modernos diante dos namori-
lher adúltera. Segundo Vainfas “a lei cos de suas esposas.
do adultério o cerne da condenação ao A literatura, por sua vez, pro-
concubinato e, neste sentindo, parece duziu imaginários e subjetividades no
mais preocupada com as uniões feitas tocante ao adultério. Lúcio de Men-
à margem da autoridade eclesiástica”, donça, em 1882, publica o romance
ou um pecado diante das leis de Deus e “O marido da adúltera”, onde narra os
uma ofensa à honra feminina. Por isso infortúnios do marido traído e a desen-
[...] as mulheres casadas devem ser for- voltura da adultera nos salões do Brasil
imperial. Na Rússia de Tolstói, “Ana
tes, discretas e prudentes: dentro em
Karênina”, não encontra alternativa a
suas casas, zelosas; fora delas, recata-
não ser o suicídio diante do seu adulté-
das; e em todas as ocasiões, exempla-
rio. E diante da moralidade portuguesa
res; [...]. (VAINFAS, 1986, p. 41-8).
do século XIX, Eça de Queirós, em
O Código Civil Napoleôni-
1875 no romance “O Primo Basílio”,
co (1804), vigente em toda a Europa,
relata o adultério de Luísa consumida
aplicado também no Brasil, obrigava
moralmente nos seus jogos de preva-
a mulher casada a residir no domicílio
ricação. No século XX, Raymond Ra-
do marido e a prestar-lhe obediência.
diguet contempla a sociedade francesa
Conforme este Código, o homem po-
com o romance “Le Diable au corps”
dia solicitar o divórcio sempre que a
onde os personagens para sobrevive-
mulher praticasse adultério, mas a ela rem em adultério dependem cada vez
cabia a solicitação se o adultério tivesse mais do alongamento da guerra. No
sido praticado “com escândalo públi- romance medieval “Tristão e Isolda”,
co”. No Brasil imperial as mulheres para viverem em adultério afrontam

• 32 •
constantemente o rei Marcos e em Os ideais de nação moderna,
muitas ocasiões a adultério ocorria civilizada e moralizada, concernentes
dentro dos aposentos da rainha. a ilosoia Positivista no Brasil após a
A ilosoia oitocentista cons- proclamação da República, faziam re-
truiu um modelo de mulher casta e sob lação entre a honra sexual e a interven-
o jugo de seus maridos, justiicando a ção do Estado; o corpo das mulheres,
inferioridade das mulheres na diferen- encerrado ao espaço privado, era alvo
ça sexual e na sua natureza voltada a de controle médico e aquelas que co-
procriação, destituindo-as da participa- metessem adultério atentavam contra
ção política e da cidadania, portanto, se sua natureza, desonra para os maridos
cometesse adultério, seria falta grave. e a família. A luxúria, pior dos peca-
dos, no século XIX torna-se poderosa
Estas ideias foram transformadas em
doença de caráter venéreo. Nas leis pe-
verdades cientíicas no século XIX,
nais de 1890 e 1932, era punido com
com o advento da privacy e do contro-
prisão para a mulher (3 anos), e para
le mais rígido sobre os corpos: a adul-
o homem quando desviava o sustento
tera é comparada a prostituta porque
da família; já o Código Civil de 1916
não cumpre seu papel de esposa iel,
reairma a subordinação da mulher e
honrada, casta, cordata e submissa, va-
lores importantes para airmação dos representa os desejos da sociedade da
estados nações e na preservação dos época e dos juristas no controle da se-
laços consanguíneos e direito de he- xualidade e do possível comportamen-
rança. Segundo Margarita Ramos, “ca- to desviante das mulheres. Os juristas
bia à mulher, através de sua castidade e julgavam os casos de conlitos sexuais
idelidade, sustentar a legitimidade do privados na defesa da honra sexual,
sangue, já que esse era um fator impor- cujos ideias de civilidade e modernida-
tante para dizer da honorabilidade tan- de acompanham os preceitos de hon-
to de seu pai quanto de seu marido. A ra da família, porquanto, às mulheres
inidelidade feminina era, portanto, pe- cobravam-se prescrições de gênero
rigosa por duas razões: a primeira seria dentro da ilosoia positivista. (CAU-
a desonra do pai ou do marido perante FIELD,2000). Já no Código Penal de
a sociedade e a segunda seria o risco de 1940, o adultério continuava a igurar
essa traição trazer para o seio familiar entre os crimes contra o casamento,
ilhos estranhos, ilegítimos.”(RAMOS, mas a pena de detenção foi equiparada
2012). O Código Penal de 1830 cata- para homens e mulheres.
logou o adultério como crime de segu- Até meados do século XX, a so-
rança do Estado. ciedade brasileira imputava somente a

• 33 •
mulher o crime de adultério, e conside- Referências e sugestões de leitura
rava natural que o homem cometesse
traição; a elas se atribuía o adjetivo de VAINFAS, Ronaldo(org.). História e Sexualidade no Bra-
sil. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1986.
adúltera. A conduta caracterizadora do
adultério permaneceu até 2002, com a RAMOS, Margarita Danielle. Relexões sobre o processo
histórico-discursivo do uso da legítima defesa da honra
mudança do Código Civil, dado que o no Brasil e a construção das mulheres. Revista Estudos
casamento para o ordenamento jurídi- Feministas, vol.20, n. 1. Florianópolis, Jan./Apr. 2012.

co brasileiro tem como característica, CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra: moralidade,


por herança cristã, a monogamia. O modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940).
Campinas, SP: Unicamp, 2000.
adultério conigurava dano social “um
dos principais motivos causadores do SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Sistema de casamento no
Brasil colonial. São Paulo: T. A. Queiroz: Ed. da Univer-
desquite visto como destruidor de fa- sidade de São Paulo, 1984.
mílias” e pelo artigo 240 do Código
DIBIE, Pascal. O quarto de dormir: um estudo etno-
Penal de 1940, era considerado crime; lógico. Tradução Paulo Azevedo Neves da Silva. Rio de
revogado, deixou de permanecer na Janeiro: Globo, 1988.

órbita penal, por entendimento na ju- LIMA, Lana Lage da Gama (org.). Mulheres, adúlteros e
risprudência que não conigura dano padres. Rio de Janeiro, Dois Pontos, 1987.

social. O adultério sempre foi tratado •


com cuidado especial pelos juristas,
motivo de calorosos debates e discur- AIDS
sos, e pauta em todas as legislações de
ordenamento civil e penal no Brasil. AIDS é o acrônimo formado
Em todos os casos, com intuito de pelas inicias da expressão inglesa Ac-
controle dos corpos e da sexualidade quired Immune Deiciency Syndrome
das mulheres, o adultério foi alvo da ou Síndrome da Imunodeiciência Ad-
preocupação de juristas com a manu- quirida (SIDA na versão luso-espanho-
tenção do monopólio conjugal pelos la), usado pela primeira vez em 1982
homens, da honra familiar, e por consi- para designar uma nova “doença”
derado motivo central dos pedidos de constatada no início daquela década. O
separação conjugal. Em palavras inais, uso do acrônimo deve-se a descoberta
o adultério motivou, e ainda motiva, de que AIDS é uma síndrome que ata-
crimes de honra masculina, dadas as ca o sistema imunológico do paciente,
estruturas hierárquicas de gênero ainda decorrente do vírus HIV que pode ser
presentes na sociedade e na cultura. adquirido no uso de seringas com san-
gue contaminado, transfusão de sangue
Antônio Emilio Morga (contaminado) e através de relações se-
Marlene de Fáveri xuais desprotegidas. Conforme Susan

• 34 •
Sontag (2007, p. 90), “estritamente fa- mação de úlceras na pele, conhecidas
lando, o termo AIDS - síndromVe da como Sarcoma de Kaposi, e que vie-
imunodeiciência adquirida- não desig- ram a óbito em menos de 24 meses de
na uma doença, e sim um estado clíni- tratamento. Em julho de 1981 o jornal
co, que tem como consequência todo New York Times publicava a matéria
um espectro de doenças.” que icou conhecida como o primeiro
O sistema imunológico é res- registro sobre a AIDS, intitulada Rare
ponsável pelas defesas do corpo con- cancer seen in 41 homosexual (Câncer
tra outros organismos e sua debilidade raro encontrado em 41 homossexuais).
deixa o paciente exposto a uma série Iniciava-se, assim, uma mórbida as-
de infecções e contaminações de do-
sociação entre o novo e raro tipo de
enças que podem, inclusive, levar a
“câncer” e a homossexualidade, em
óbito. Desde 1983, com o isolamento
especial, masculina. Em 1º de maio de
do vírus HIV por médicos americanos 1983 o mesmo jornal publicou uma
e franceses, pesquisas médicas e far- importante matéria onde noticiava que
macológicas favoreceram o desenvol- a AIDS poderia ser causada por um
vimento de uma série de medicações vírus. Ainda que o acrônimo já fosse
antirretrovirais que, quando associadas corrente no vocabulário médico, esse
(o chamado “coquetel”), impedem a foi o primeiro registro para o grande
proliferação do vírus, mas não conse- público, substituindo o uso de ou-
guem eliminá-lo. Portanto, é possível tros termos com GRID (Gay Related
um controle da AIDS, porém sua cura, Immune Deiciency) ou “câncer gay”,
infelizmente, ainda é uma meta a ser onde se evidenciava pejorativamente a
atingida. incidência da síndrome entre homens
Segundo Gabriel Rotello (1998) homo ou bissexuais.
é bem possível que o vírus HIV já es- As comunidades homossexuais
teja convivendo com a humanidade nos Estados Unidos (ver LGBT), e
há muito tempo, mas foi especialmen- também em outras partes do mundo,
te no inal dos anos 1970 e início dos passaram a sofrer ataques de ordem
anos 1980 que se desenvolveu uma moral e política, em função do aumen-
ecologia propícia para sua prolifera- to dos casos de pacientes com AIDS
ção. Nessa época diagnosticou-se que naquela primeira metade dos anos
1980. Ainda segundo Sontag (2007), a
41 homens homossexuais em Nova
AIDS passou a ser vista como metá-
York e Califórnia, nos Estados Unidos,
fora da própria homossexualidade, ou
apresentavam uma forma “rara de cân-
seja, associada a ideias como perigo,
cer”, cujas características eram a for-
contágio e, mais grave ainda, combate

• 35 •
e, se fosse possível, sua total eliminação Aqui, assim como nos Estados
da sociedade. Nos anos em que Ronald Unidos, os ataques às comunidades
Regan esteve à frente da presidência da homossexuais ganharam força e auto-
República nos Estados Unidos (1981- ridades públicas em São Paulo exigiam
1989) sua base aliada conhecida como o fechamento de espaços de sociabili-
“Nova Direita” era formada pela fusão dade gay, como bares, saunas, casas de
de várias agremiações conservadoras, shows na região do Largo do Arouche
entre elas um grupo de fundamentalis- e cinemas de exibição de ilmes porno-
tas religiosos que se intitulavam “Maio- gráicos.
ria Moral”. Esses grupos combateram Nos Estados Unidos, os índices
a homossexualidade e os direitos ad- de contaminação e óbito evoluíram em
quiridos pelo movimento gay no país, uma trajetória ascendente até meados
em uma cruzada que transformava os da década de oitenta. Com o número
pacientes acometidos pelo HIV em ob- de homossexuais doentes aumentan-
jetos também de outro tipo de ataque, do cada vez mais e lutando para man-
o político-ideológico. Marcelo Secron ter os direitos conquistados ao longo
Bessa airma que nesse contexto se dos anos (além de expandir outros,
pode falar em uma epidemia “discur- como atendimento hospitalar, medi-
siva”, na qual as comunidades homos- cação e auxílio funeral para as pessoas
sexuais se viram sob ataque direto tan- acometidas pelo vírus), organizações
to do vírus HIV quanto de discursos homossexuais americanas passaram
conservadores, nos anos conhecidos a se mobilizar e criar novas redes de
historicamente como os da “epidemia organização. Importantes associações
da AIDS.” como a Gay Men’s Health Crisis, fun-
Ao mesmo tempo, no Brasil, dada em 1982 por Larry Kramer (dra-
em 1983 os jornais noticiavam a morte maturgo, roteirista e ativista gay ameri-
do Markito, “um dos maiores nomes cano), iniciaram campanhas de auxílio
da alta costura do país. Idade: 31 anos. às pessoas com HIV e incentivavam o
Causa Mortis: a então quase desco- uso do preservativo de látex, a camisi-
nhecida e letal AIDS (...) que vinha nha (sic), como forma de conter a pro-
atingindo sobretudo homossexuais do pagação do vírus, ao mesmo tempo em
sexo masculino, nos Estados Unidos e que reairmavam direitos, entre eles, a
Europa. A partir daí, essa doença, con- liberdade sexual. A conscientização de
siderada predominantemente america- líderes dos grupos homossexuais e a
na e rica, invade com sensacionalismo busca de práticas sexuais mais saudá-
os meios de comunicação e o quoti- veis estimularam o uso do preservativo
diano dos homossexuais brasileiros”. entre muitos homens que mantinham
(TREVISAN, 2000, p.429).
• 36 •
relações sexuais com outros homens. síndrome: os comportamentos de ris-
Dessa forma, em função de uma ampla co. Nesse momento a AIDS já não po-
mobilização das redes LGBT no país, deria ser resumida a um determinado
a partir do ano de 1986 começou a se grupo de pessoas (homo ou bissexu-
perceber uma curva decrescente de ais) mas sim a comportamentos e há-
óbitos entre homossexuais, que evo- bitos que poderiam ser mais ou menos
luiu até o inal da década, dando um vulneráveis à infecção. Com tal cresci-
novo caráter ao termo “Orgulho Gay”. mento, outra situação que desaiava os
Esse passou a ser associado, naquele pesquisadores e autoridades médicas
momento histórico, à capacidade de era o crescente número de nascimen-
mobilização e organização das comu- tos de crianças infectadas pelo HIV, i-
nidades homossexuais na contenção lhas de pais aidéticos ou soropositivos
da AIDS. (pessoas infectadas pelo vírus mas que
No Brasil, ao inal da década de não desenvolveram a AIDS).
1980, artistas e intelectuais tornavam Em meados da déca da de 1990,
pública sua condição de portadores a ONU, através da UNAids, fomenta-
do vírus HIV, dando maior visibilida- va a elaboração de políticas públicas e
de à doença e as formas de contágio, programas estatais para conter a propa-
desenvolvimento e, naquele momento, gação do HIV em nível mundial. Nos
às suas letais consequências. A Revista Estados Unidos, as principais ações
Veja, na edição de 26 de junho de 1989 estavam ligadas às organizações sociais
estampava na capa a foto de Cazuza, de apoio a homossexuais, enquanto no
cantor e compositor, já bastante de- Brasil o Departamento de DST/AIDS
bilitado sob a manchete: Uma vítima do Governo Federal (criado em 1986)
da AIDS agoniza em praça pública. ampliava a distribuição gratuita de pre-
Cazuza faleceu poucos meses depois, servativos de látex e de antirretrovirais
em 1990, aos 32 anos de idade, tornan- na rede pública do Sistema Único de
do-se um dos ícones vítimas da AIDS Saúde.
no Brasil.
Nos anos seguintes o que se
O crescimento dos casos de
observou foi a ampliação da AIDS em
AIDS entre heterossexuais no inal
países do continente asiático e africa-
da década de 1980 e início dos anos
no, onde se concentravam, em 2010,
1990 causou preocupação às autori-
mais de dois terços dos 41 milhões de
dades médicas e públicas. Um núme-
portadores do vírus HIV no mundo.
ro crescente de mulheres passou a ser
Estimava-se que aproximadamente
diagnosticadas com o vírus, rompendo
50% dessa população poderia desen-
com a ideia de que aquela era uma do-
volver a doença.
ença “gay”, revelando outro lado da

• 37 •
Ainda que nos últimos anos se masculina) e a ampliação de serviços
observe um grande avanço no desen- e atividades para essa população. Por
volvimento das medicações e tratamen- isso campanhas sobre o uso do preser-
tos para soropositivos e acometidos vativo de látex e o prazer sexual depois
pela AIDS, o Brasil vêm apresentando dos 60 anos de idade vêm sendo incen-
um aumento progressivo nos casos de tivadas por autoridades médicas e pro-
infecção, especialmente entre grupos gramas governamentais.
jovens na faixa dos 13 aos 25 anos e O contato sexual com uma pes-
a chamada terceira idade (adultos com soa infectada pelo vírus HIV hoje não
60 anos ou mais). Algumas hipóteses signiica, necessariamente, contágio ou
procuram compreender esses novos desenvolvimento da síndrome. Tra-
números, que vão na contramão da tamentos disponibilizados pelo SUS,
tendência mundial de queda dos ín- como o Programa de Pós-Exposição
dices de contaminação, da ordem de (administração de medicações antir-
20% entre os anos 2000 e 2010 (Cf. retrovirais até 72 horas após o conta-
UNAids). to, pelo período de 28 dias), tendem
Sobre o crescimento de infec- a impedir a replicação do vírus. Da
ção entre a população jovem, uma mesma forma, seguindo o tratamento,
das explicações é o fato dessa geração pessoas diagnosticadas como soropo-
não ter vivido os anos da “epidemia”, sitivas podem viver anos com a carga
desconhecendo o lado mais perverso viral indetectável, o que signiica que
do HIV e suas consequências. Nasci- ainda que tenham o vírus, não o estão
dos em meados da década de 1990 em transmitindo. O que as autoridades
diante, quando a doença já era consi- médicas alertam é que ainda que essas
derada controlada (mas não extinta) e conquistas cientíicas estejam dando
a medicação distribuída gratuitamente bons resultados, o uso continuo da
pelo SUS, o que garante melhores con- medicação pode trazer problemas co-
dições de vida aos portadores do vírus, laterais a longo prazo, permanecendo
a AIDS pode estar sendo encarada a AIDS como uma “doença” de alta
como uma doença “comum” ou ainda, complexidade. Porém é a esperança
de baixa periculosidade. da descoberta de uma cura que ainda
Quanto a terceira idade, a hipó- motiva ativistas, cientistas e pacientes
tese aventada se refere ao prolonga- a continuarem a lutar. Descoberta que
mento da vida sexual ativa das pessoas será considerada, certamente, uma das
nessa faixa etária, em especial pelos no- mais importantes da ciência moderna.
vos tratamentos ligados à sexualidade
Flávio Vilas-Bôas Trovão
(por exemplo, medicações para ereção

• 38 •
Referências e sugestões de leitura sobre a passagem do mundo situado
nas fronteiras da cultura ao mundo so-
TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso: a ho-
mossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. (3a.
cial onde os papéis e identidades são
ed.) Rio de Janeiro: Record, 2000. claramente deinidos. O tratamento à
SONTAG, Susan. Doença como metáfora, AIDS e suas
alteridade situava-se na deinição dos
metáforas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. limites entre civilização e barbárie,
ROTELLO, Gabriel. Comportamento sexual e AIDS. com ênfase à identidade social, à mes-
A cultura gay em transformação. São Paulo: Summus, midade e à educação para tornar-se um
1998.
bom cidadão. Nesse sentido, os limites
BESSA, Marcelo Secron. Histórias positivas: a literatura da contribuição da ilosoia grega para
(des)construindo a AIDS. Rio de Janeiro: Reccord, 1997.
a concepção da alteridade mostrou-se
BLASIUS, Mark e PHELAN, Shane. We are everywhere: tendenciada à exclusão do outro que
a historical sourcebook of gay and lesbian politics. New
York: Routledge, 1997. não estava integrado à polis, suge-
rindo o outro como um não amigo e
• resultando na ausência do totalmente
Outro. Por sua vez, Levinas apresen-
Alteridade ta uma alternativa para se pensar a
questão da alteridade no pensamento
Deinição/Histórico: Alterida- ilosóico contemporâneo: não mais
de, do latim alteritas, signiica ser ou- pensar o Outro a partir da centralida-
tro, colocar-se ou constituir-se como de do eu ou fundada na perspectiva do
outro. A alteridade é um conceito mais eu transcendental, mas a partir de uma
restrito do que diversidade e mais ex- subjetividade capaz de acolher o outro,
tenso do que diferença (ABBAGNA- ou seja, acolher a idéia do ininito. A
NO,1998, p.34). O conceito assume ideia do ininito rompe com o caráter
uma perspectiva multidisciplinar e tra- totalizador da relação entre o Mesmo e
duz, dessa forma, a relevância da sua o Outro e do próprio pensamento que
compreensão e amplitude na sua con- procura englobá-los numa unidade to-
cepção nos campos do conhecimento, talizadora de sentido. Com o desenvol-
bem como a sua reordenação ao longo vimento de outras perspectivas aliadas
dos tempos. ao desenvolvimento do conhecimento
No âmbito primordial ilosói- cientíico, observou-se o deslocamen-
co, a estrita relação do conceito de al- to da ontologia centrada em uma re-
teridade com o mito (Ártemis) revelava lexão a partir da natureza e da visão
a preocupação grega com os limites do de uma objetividade diversa, em dire-
universo cultural e político e com o de- ção à perspectiva da consciência de si
senvolvimento de uma compreensão e da subjetividade. Paul Ricoeur (1913-

• 39 •
2005) desenvolveu uma alternativa “unidade” do homem é sua aptidão
para pensar a alteridade que chamou para inventar modos de vida e formas
de hermenêutica do si-mesmo, em que de organização social muito diversos.
concebe que o ser no mundo é, antes O que seres humanos têm em comum
de tudo, um ser que é, em si-mesmo, é a capacidade para se diferenciar uns
um ser com o outro tanto na sua cons- dos outros, para elaborar costumes,
ciência como em suas relações com os línguas, modos de conhecimento, ins-
outros seres humanos. Em outras pa- tituições, jogos muito diversos. Nessa
lavras, o ser humano é um ser intrinse- direção, a alteridade enquanto uma
camente comunitário e plural, um ser abordagem antropológica é o fenôme-
dotado de uma estrutura baseada em no que promove o reconhecimento,
três elementos: o da linguagem e o de o conhecimento e a compreensão de
uma constituição diferenciada pela re- humanidade plural. A abordagem an-
lação do si-mesmo e da alteridade. tropológica provoca a revolução do
Por sua vez, a perspectiva antro- “olhar”, implicando num descentra-
pológica “por vezes conhecida como mento radical, ruptura com a ideia de
a ciência da alteridade” reconhece a há um “centro do mundo”. Essa visão
alteridade como um princípio consti- reducionista do outro ao ocidentalis-
tutivo da subjetividade, considerando mo - naturalização como dogma ou a
a existência do sujeito como resultado existência de uma essência humana -
histórico dos encontros originais do eu tem seu contraponto na majoração da
de cada sujeito com os outros. alteridade que leva ao dogmatismo da
A experiência da alteridade no relatividade de culturas heterogêneas
estudo do Homem na sua plenitude e justapostas. Ambas redundam em uma
dos fenômenos que o envolvem assu- identiicação integral por meio das se-
me proporções consideráveis no sécu- guintes situações: o acesso à compre-
lo XIX com o acesso do mundo oci- ensão do outro por si e à compreensão
dental a sociedades longínquas e com de si pelo outro. O outro é uma igura
contato restrito com grupos vizinhos. possível de mim, como eu dele.
Com base nos encontros entre as cultu-
Maria Cristina Caminha
ras o conhecimento (antropológico) da de Castilhos França
cultura ocidental passa inevitavelmente
pelo conhecimento das outras cultu- Referências e sugestões de leitura
ras; e o exercício da alteridade leva ao
reconhecimento de que essa é apenas ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosoia. 3ª ed.
São Paulo: Martins Fontes, 1998. DAMATTA, Roberto.
uma cultura possível entre tantas outra. Relativizando: Uma Introdução à Antropologia Social.
Para a antropologia o que caracteriza Rio de Janeiro, Rocco, 1987.

• 40 •
LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. 9ª Maria, que se constituem em um dos
edição. São Paulo: Brasiliense, 1996.
primeiros produtos de uma política
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antro- cultural de Afonso X. Também consi-
pológico. 17ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999
derada a Bíblia estética do século XIII,
VERNANT, Jean-Pierre. Entre Mito & Política . São para José Filgueira Valverde (1985),
Paulo: Edusp, 2002.
estas Cantigas são o mais atraente dos
• mariologios, o mais copioso em língua
românica, uma obra que relete varia-
Amor Cortês dos aspectos da vida familiar, popular e
cortesã. O elogio à Maria, que a poesia
O amor cortês é um discurso mariana faz, não deixa de apresentar a
amoroso que emergiu da poesia lírica Virgem como uma dama, que precisa
dos trovadores provençais, escrito em ser cortejada.
língua d`oc (língua vernacular da região As Cantigas de Santa Maria da-
do Languedoc, sul da França), entre tam do inal do século XIII, possivel-
os séculos XI e XII, e se difundiu por mente escritas entre 1270 e 1282 em
toda a Europa Medieval. O primeiro galego-português, a língua poética da
poeta trovador, Guilherme IX, duque Península Ibérica. Pertencente à lírica
da Aquitânia e conde de Poiters, legou trovadoresca e compreende 427 poe-
11 cansos, das que temos notícias, que mas que narram os milagres da Virgem
misturam escárnio e elementos da líri- ou homenageiam seus louvores. Essas
ca amorosa trovadoresca. A obra que Cantigas foram o resultado de uma
se tem de Guilherme foi compilada e obra de compilação de fontes orais ou
organizada por Alfred Jeanroy, em cé- escritas de origens geográicas distin-
lebre obra, de 1934. Das 11 Cansos, a tas.
número 10 é aquela que, na leitura de Nas Cantigas de Santa Maria, a
Jeanroy representa o nascimento da lí- dama sans merci compartilha com ou-
rica cortês. tros personagens as atenções dos tro-
O amor cortês é resultado da vadores. Para, além disso, o objetivo é
poesia lírica dos travadores, dos quais enaltecer Maria e demonstrar que ela é
se pode destacar, além de Guilherme pródiga em recompensar aqueles que
IX, Bernard de Ventador e Pierre Car- nela coniam.
denal, e no trovadorismo Galego-por- Mas, ainda se pode referir os
tuguês a obra de Afonso X, o Sábio. romances de cavalaria mais importan-
Sendo deste último uma das mais im- tes escritos em língua não latina, como
portantes contribuições ao culto ma- Lancelot de Chrétien de Troyes ou o
riano, com as suas Cantigas de Santa Roman de la Rose, de Guilherme de
Lorris.

• 41 •
O amor Cortês é uma forma O amor cortês teve existência
amorosa complexa que pode ser vista profana e, por isso, autônoma; tratou-
ao mesmo tempo inteiramente den- -se de um amor humano que propu-
tro e fora do modelo de sociedade do nha uma ascese, no sentido de levar o
qual ele surgiu. Ao mesmo tempo, ele amante a debruçar-se de tal forma so-
somente pode ser compreendido no bre si mesmo a ponto de reconstituir
interior das relações sociais e do cal- seu caráter e construir sua virtuose.
do cultural da Europa da Idade Média Os trovadores procuraram ela-
Central e do Renascimento do século borar uma forma amorosa totalmente
XII, mas avança contra um terreno al- puriicada de tudo o que possa não
tamente rígido do modelo moral cris- ser da natureza do amor. O objetivo
tão que é o casamento. Este que, justa- foi constituir um amor verdadeiro,
mente nesse mesmo momento, emerge ino, bom e puro. O ato carnal torna-
como sacramento e como uma das for- va o amor conjugal “venal utilitário”
mas de controle utilizadas pela Igreja, (NELLI, 1980, p. 86), mas isso não
sobre a sociedade. Le Goff (2005) diz quer dizer que os trovadores pregavam
que o amor cortês faz do terreno do a completa abstinência sexual, ao con-
casamento o lugar/espaço no qual se trário. Tratava-se, no caso, de negar o
trava um debate, uma guerra, uma dis- caráter utilitário da relação sexual, ra-
zão pela qual facilmente tanto o amor
puta de forças, que têm como conse-
cortês é uma forma de negar o casa-
quência a “revolução” dos costumes e
mento, quanto uma forma de amor
da “própria sensibilidade”.
adúltero.
Trata-se de uma relação amo-
O poema amoroso do trovador,
rosa esranha àquele ambiente, mas ao
ou a Canso, como se chamava, se re-
mesmo tempo produto mesmo das
porta sempre à exposição dos estados
suas injunções históricas, da situação
da alma do trovador, este mesmo que
singular do feudalismo no Sul da Fran-
se confunde com o próprio sujeito do
ça e do novo contexto urbano e bur-
seu poema, geralmente, um jovem ca-
guês que vivia a Europa cristã. Uma
valeiro que disputa a Dama com um
relação que volta o homem-cavaleiro
ao seu interior e que o leva a realizar Grande Senhor. Nesse sentido, for-
aventuras únicas e irrepetíveis e, sobre- ma-se um trio amoroso: o jovem ca-
tudo, a olhar para si mesmo, voltar-se valeiro, geralmente representado pela
sobre seu sofrimento, seu amor, sua igura do trovador, a grande Dama,
Dama, como o fez Abelardo, o ilóso- mulher de alta linhagem, rica e casada,
fo, ou como mostrava Guilherme nas e o Senhor, suserano que abriga em seu
suas cansos. castelo o próprio trovador e sua trupe.
Não há dúvida de que no centro do

• 42 •
poema está sempre a Dama, é a devo- oso, respeitando as regras do amor e da
ção a ela o que articula as relações da cortesia. A alegria do amor, assumida
tríade amorosa. pelo trovador que ama incondicional-
Eis um dos elementos mais mente sua Dama idealizada e superior
marcantes da retórica cortês do bon a tudo o que existe, é a fonte mesma da
amour: o culto a uma mulher ausente virtude cavaleiresca, tanto no torneio
e inacessível. Trata-se de uma idealiza-
a lutar e mostrar sua virilidade, quanto
ção da mulher amada, ela é possuido-
a escrever versos. O que intensiica a
ra das maiores e mais altas qualidades.
produção literária dos trovadores é o
São qualidades tão signiicativamente
irreais, que jamais poderiam ser des- horizonte da Senhora, é a promessa
cobertas em uma mulher real. Elas do amor e é a espera interminável pelo
essencializam a Dama, no sentido de momento de beijá-la.A Dama como
colocá-la numa situação ideal, como fonte de virtude pode ser encontrada
uma substância que paira transcenden- em toda a tradição literária do amor
talmente, em relação às mulheres com cortês. No Tratado de André, o Cape-
seus corpos empíricos. lão (2000, p. 98) são as negativas vee-
Para Nelli (1980, p. 87) “a dama mentes da mulher que levam o homem
adorada transmite-nos mais facilmente nobre a revelar mais e mais, através da
a impressão de que simboliza um ser palavra, os males que esperam aquelas
sobrenatural ou equilibrado ou mui- que desdenham o deus do amor. E as-
to simplesmente a essência feminina sim se sucede uma justa dialética entre
consagrada pela morte”. Não se trata,
a Dama e o homem nobre. De modo
para esse autor, de uma incorporação
que cada um, tanto o homem nobre,
do culto à virgem, de modo que se pu-
quanto a Dama, estejam a constituir-se
desse supor ser a virgem a Dama idea-
lizada pelos trovadores. Mas, a mulher no interior do debate, como indivídu-
não simboliza a Virgem, ou a sabedoria os. A justa entre os amantes, a promes-
ou mesmo a Igreja Cátara: “ela reme- sa de amor que a Dama faz ao preten-
te-nos unicamente para a sua própria dente, e que nunca se realiza, fortalece
imagem, transigurada e sempre pron- o amor e lança o homem em busca da
ta, de resto, para recair nas realidades virtude. O amor cortês se revela no tra-
terrenas” (NELLI, 1980, p. 87). tado de Capelão, com a expectativa da
De qualquer modo, as virtudes salvação e do enaltecimento da Dama
da Dama reletem imediatamente no como fonte de virtude.
poeta/cavaleiro. Pois é por amor a ela Bem, sabe-se que tanto nos po-
que o cavaleiro poderá se mostrar virtu- emas dos trovadores do sul da França,

• 43 •
quanto nos romances do ciclo arturia- matéria unânime entre os medievalis-
no, a Dama é uma mulher de alta li- tas. O que se pode ver empiricamente
nhagem. E ela forma junto ao Senhor, é que, nessa época, a Europa Ocidental
detentor de toda autoridade e riqueza assistiu o despertar de uma soma signi-
e o trovador, vital como um adoles- icativa de mulheres que, fosse na lite-
cente, alegre, espirituoso e juvenil, o ratura ou na realidade vivida, rompiam
trio amoroso que marca o amor cortês com os padrões sociais vigentes, como
como o espaço de rebeldia em relação vemos pelo exemplo de Heloisa ou de
ao casamento cristão. Hildegarda de Bingen. Entretanto, lon-
O trovador se relaciona de ge estavam os medievais de suspender
modo ambíguo com o Senhor, que o caráter misógino da sua cultura, fora
pode ser suserano e mecenas e, ao mes- literatura ou do sim diante do altar, o
mo tempo, inimigo mortal, em função casamento era precedido de uma in-
da disputa pela Dama e da quebra do trincada negociação.
contrato de idelidade. Concluímos en- O amor cortês não se deine
tão, que essa forma amorosa cortês é apenas pela negação ao casamento,
adultera. Mas, que casamento era esse nem pela alusão insistente e repetitiva
que os trovadores abominavam e que, à Dama inalcançável e excedente, ele
por exemplo, Heloisa relutou em acei- constitui uma erótica nova e inédita no
tar quando Abelardo a ela propôs? ocidente e estranha à noção de dese-
É bem verdade que o amor cor- jo como falta. É essa forma amorosa
tês cantado pelos trovadores se vale do cortês, inventado no século XII, que
ambiente da sua época a im de criar anuncia o amor romântico ocidental.
os temas das suas canções e, indubita- Na erótica cortês, o amante, via
velmente, o tema da castidade, da ne- de regra o trovador, vê no sofrimen-
gação do ato carnal, no sentido de ser to amoroso um autêntico prazer, tor-
elemento que torna impuro o amor, nando o sofrimento, alegria. Trata-se
estava tanto no discurso dos teólogos, de gozar com o sofrimento, de se ter
quanto na retórica dos trovadores. A prazer na humilhação que causa a cega
época da emergência do lirismo cortês obediência à Dama. A alegria liberta
foi um momento de construção de um do desejo como falta, pois que ela é
imaginário intensamente povoado pela fonte de juventude (ROUGEMOND,
virtude da castidade, pelo apelo à vir- 2003, p. 164).
gindade. Alegria e sofrimento não são
Muito se disse sobre o enalteci- sentimentos apartados, ao contrário,
mento da mulher a partir do século XII, no amor cortês, são inseparáveis e
no Ocidente Medieval, mas isso não é complementares. Para os trovadores o

• 44 •
que permite o regozijo, o gozo e a pro- bilidades de vida, independentemente
dução literária, é a distância da Dama do que se instituía e consolidava no
e a promessa de um dia voltar a vê-la. mundo feudal da Baixa Idade Média.
Assim escrevia Guilherme: “Que Deus Ela pretendia a airmação de um estilo
me deixe viver ainda,/ Para que eu po- de vida nobre diante da desagregação
nha minhas mãos sob seu mantel!”, dos ideais cavalheirescos. Bloch mos-
fazendo clara alusão apenas à possibili- tra tal desagregação através da história
dade de voltar a possuir a Dama. de Lanval, um cavaleiro da corte de
Na literatura cavaleiresca em Arthur. Lanval foi o único cavaleiro
geral, o sofrimento se revela na errân- da corte de Arthur a não receber nem
cia pela loresta, num tormento sem terra nem mulheres, ele foi esquecido
im, na doença e, às vezes, na morte, é pelo Suserano. Desse modo, ele é con-
exemplo disso tudo o amor de Tristão tado no contingente daqueles cavalei-
e Isolda. Esse sentimento produz um ros despossuídos em função das novas
estado de alma que gera sofrimento e relações de herança e consangüinidade
alegria, e que situa o obstáculo “que da Baixa Idade Média. Lanval vaga per-
é, sobretudo, a interdição do dese- dido pelo campo até encontrar com a
jo “como um elemento imanente ao dama-fada que lhe permite prestígio e
amor. “Escreveu Pierre Cardenal: Eu riqueza, coisas as quais Arthur não lhe
tenho desejo, eu desejo e preiro de- concedeu: “a dama fada promete-lhe
sejar sempre”. Ora, o obstáculo é um eterna idelidade (em contraste com
fator de enobrecimento, de fortaleci- o esquecimento de Arthur) e, o que é
mento e de eternização do amor, no mais importante, tanta riqueza quan-
sentido de um apagamento dos aman- to o coração dele desejar” (BLOCH,
tes. 1995, p. 209).
O in amour foi um elemento
necessário para a distinção do nobre Nilton Mullet Pereira
Rejane Barreto Jardim
em relação ao burguês: essa categoria
de gente que invade o modo de vida
Referências
medieval. As práticas amorosas corte-
ses serviram numa época de surgimen- BLOCH, Howard R. Misoginia medieval e a invenção do
amor romântico ocidental. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.
to de novos grupos sociais na Europa
ocidental, como elemento singulariza- CAPELÃO, André. Tratado do amor cortês. Tradução
Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes,
dor e diferenciador da nobreza corte- 2000.
sã. Tratava-se de constituir uma outra
FILGUEIRA VALVERDE, José. Alfonso X El Sábio.
“forma de vida” especíica para a no- Cantigas de Santa Maria. Códice Rico de El Escorial.
Madrid: Editorial Castalia, 1985.
breza, que abrisse um campo de possi-

• 45 •
LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. no podía ser cuestionado. Sin embar-
Tradução de José Rivair de Macedo. Bauru, SP: EDUSC,
2005. go, el mito de la neutralidad de la cien-
cia está cuestionado y se ha demos-
NELLI, René. Os cátaros. Lisboa: Edições 70, 1980
trado que es una falacia. El contexto
ROUGEMOND, Denis. História do amor no Ocidente. social, cultural y político condicionan
São Paulo: Ediouro, 2003.
la ciencia y la enmarca con los valores
Sugestões de leitura imperantes en un momento histórico
CANTIGUEIROS. Ulletin of the. Cantigueiros de Santa
determinado. Así mismo, los intereses
Maria. New York: Medieval and Rainaissance Textsd and y subjetividades de los actores implica-
Studies. , v. IV, XI, XII.
dos inluyen en el paradigma predomi-
JEANROY, Alfred. La poésie lyrique dês troubadours. nante en la ciencia (MIQUEO, 2001).
Tomo II. Paris: Henri Didier Éditeur, 1934.
De tal manera que la interpre-
METTMANN, Walter (ed.).Cantigas de Santa Maria. tación histórica del cuerpo de la mu-
Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra: Universi-
dade de Coimbra, 1959, 4v. jer ha mostrado una vez más cómo los
discursos imperantes en las ciencias de
O’CALLAGHAN, Joseph F. El Rey Sábio. El Reinado
de Alfonso X de Castilla. Sevilla: Universidad de Sevilla, la salud han tenido como objetivo jus-
1996. tiicar el destino social de las mujeres,
RIQUER, Martin de. Los Trovadores: historia literaria y que ha consistido fundamentalmente
textos. Barcelona: Editorial en la exclusión del ámbito público y su
Ariel, S. A., 2001.
coninamiento en el ámbito privado.
• Por este motivo, los textos cientíicos
de referencia hasta bien entrado el si-
Anatomia
glo XX han estado cargados de plante-
amientos ideológicos tendentes a con-
La construcción cientíica de
ceptualizar el cuerpo de las mujeres de
la anatomía y isiología femenina a lo
manera coherente con el orden social
largo de la historia ha tenido un carác-
establecido, deinido por los hombres,
ter marcadamente androcéntrico. Las
elevando a la categoría de natural lo
ciencias de la salud, al igual que otras
construido social y culturalmente (LA-
ramas del conocimiento, han estado
QUEUR, 1994).
dominadas por una fuerte presencia
Así mismo estas ciencias han
masculina, mientras que las aportacio-
deinido un modelo universal, coinci-
nes de las mujeres no han sido visibles
dente con el sexo masculino, utilizado
ni reconocidas.
como norma de referencia y que ha re-
La ciencia siempre ha estado ro-
presentado el máximo estado evolutivo
deada de un halo de neutralidad y se
de todos los seres vivos. Se ha consi-
ha considerado que cualquier plantea-
derado el cuerpo del hombre como el
miento basado en supuestos cientíicos

• 46 •
más evolucionado de la especie huma- la menopausia han sufrido un proceso
na, siendo el cuerpo de la mujer menos de medicalización, mientras que otros
perfecto e inferior al del hombre (BA- procesos masculinos no los han sufri-
RRAL, 2001). do. A esto hay que añadir que histó-
Las diferencias anatómicas y ricamente algunos de estos procesos
isiológicas entre hombres y mujeres han sido considerados como repulsi-
son evidentes y visibles, pero estas di- vos y degradantes para las mujeres, por
ferencias no justiican por si solas la ejemplo la menstruación se ha consi-
construcción cultural del sexo y género derado como algo sucio y desagradable
a lo largo de la historia y que, con lige- y durante ese periodo las mujeres han
ras variaciones y escasas excepciones, sido consideradas impuras y malignas
ha caracterizado a todas las socieda- para algunas culturas. La menstruación
des como patriarcales. Las diferencias había que ocultarla y nombrarla de ma-
más importantes lo son en el campo nera eufemística, existiendo toda una
de la reproducción y preservación de variedad de nombres para referirse a
la especie humana. De tal manera que ella. En la actualidad, aunque muchos
las características sociales que se han de estos prejuicios se han superado, en
atribuido tradicionalmente a hombres el imaginario colectivo existe la creen-
y mujeres, derivadas fundamentalmen- cia de que las mujeres se vuelven más
te de esas capacidades reproductivas, sensibles e irritables durante la mens-
han sido consideradas como naturales, truación, habiéndose descrito el deno-
propias de la naturaleza de cada sexo. minado síndrome premenstrual con la
Además de construir culturalmente las consecuente medicalización del mismo
diferencias entre hombres y mujeres, (VALLS-LLOVET, 2009).
las jerarquizan ubicando a las mujeres Otro proceso isiológico sobre
en un estatus inferior al del hombre, el que existen bastantes creencias es el
considerando esta jerarquización como de la menopausia, considerada como
algo natural derivado de la diferente el inal de la vida sexual y reproductiva
naturaleza biológica de hombres y mu- de las mujeres. Tradicionalmente se ha
jeres (VALLS-LLOBET, 2009). vivido como una crisis por parte de las
Los procesos anatómicos y i- mujeres, sobre la base de que su único
siológicos especíicos de las mujeres in en la sociedad era la reproducción.
han sido considerados como anóma- Este proceso también ha sufrido una
los, pues han representado la desvia- excesiva medicalización y, en algunos
ción del estándar masculino que se ha casos, ha sido bastante perjudicial para
constituido como el referente univer- la salud de las mujeres.
sal. Así la menstruación, la gestación, La pretendida inferioridad de
la mujer y su conceptualización como
• 47 •
sexo débil ha tenido su refrendo en de ser madre, considerado como la cul-
una caracterización del carácter de la minación de su vida. Las mujeres que
mujer como emocionalmente inesta- no podían serlo lo han vivido como
ble, hipersensible y dominada por su una autentica tragedia, sintiéndose cul-
biología. El planteamiento que subya- pables por ello. Los cambios sociales
ce es que los órganos reproductivos y han cambiado poco estos esquemas y
todos los procesos relacionados con las mujeres siguen siendo las respon-
la reproducción, especialmente los sables de la reproducción biológica y
hormonales, ejercen una decisiva in- social. Se han incorporado al ámbito
luencia en las mujeres, hasta el punto público pero los hombres no se han
de que gran parte de su conducta está corresponsabilizado en la misma medi-
determinada por los vaivenes hormo- da del ámbito doméstico. La mujer si-
nales del ciclo menstrual o en su caso gue estando obligada a ser una “buena
de la menopausia o climaterio. En base madre” por encima de cualquier otra
a esto, las mujeres son poco aptas para condición que asuma.
ejercer las tareas que se han deinido Por otra parte, el control del
como propias del sexo masculino, y cuerpo de las mujeres ha sido una
que están relacionadas con el ejercicio constante en todos los periodos histó-
y desempeño de tareas en el espacio ricos hasta la actualidad. Este control
público (ESTEBAN, 2004). ha sido más férreo en todo lo relacio-
Pero además de la reproducción nado con la sexualidad y la reproduc-
biológica, la reproducción social ha ción y ha sido ejercido por los hom-
sido asignada a las mujeres. Así el cui- bres, utilizando para ello las ciencias,
dado de personas mayores, de perso- especialmente la medicina, la religión,
nas enfermas, de personas en situación el derecho, la política, etc. Una de las
de dependencia, de los hijos e hijas y cuestiones que mejor ejempliican esto
de la familia en general, ha sido una es la legislación referente a la sexuali-
función asignada a las mujeres con el dad y la reproducción, en la que se in-
argumento de que biológicamente es- cluye el aborto, que en la mayoría de
tán más preparadas para este in. los países son objeto de enfrentamien-
El destino social de la mujer ha tos políticos, religiosos y sociales y que
sido durante muchos años ser esposa y por desgracia ponen en peligro la salud
madre y esto ha condicionado también y la vida de muchas mujeres en el mun-
su sexualidad, que debía tener como do (FALCIO, 1999).
único objetivo el matrimonio y la re- En deinitiva, la anatomía de las
producción. El estatus de adulta en la mujeres ha sido utilizada para justii-
mujer ha venido deinido por el hecho car su exclusión y subordinación en la

• 48 •
sociedad y ha sido el discurso médico •
imperante el que ha legitimado esta si-
tuación. Se ha constituido en la mejor Androginia
base para asegurar el estatus quo y las
relaciones de poder entre hombres y A androginia tem sido retomada
mujeres en las sociedades patriarcales. desde os anos 1960 no âmbito do con-
junto dos movimentos sociais difusos
Maria Luisa Grande Gascón que se convencionou chamar contra-
cultura, caracterizado por uma forte
Referencias crítica ao modo de vida difundido pela
sociedade de consumo. Tais propo-
BARRAL, Mª José. Genes, género y cultura. En: MI-
QUEO, Consuelo et al (Eds.) Perspectivas de género en
sições, desenvolvidas, sobretudo, por
salud. Fundamentos cientíicos y socioprofesionales de uma juventude oriunda das camadas
diferencias sexuales no previstas. Madrid: Minerva Edi-
ciones, p. 135-162, 2001. médias urbanas estadunidenses e euro-
péias e repercussão em outras partes do
FALCIO, Alda. Feminismo, género y patriarcado. En:
LORENA, Fries y FACIO, Alda (Eds.): Género y Dere- globo, focavam, entre outras questões,
cho. Santiago de Chile: LOM Ediciones, p. 21-60, 1999. na ruptura com o modelo hegemônico
ESTEBAN, Mari Luz. 2004. Antropología del cuerpo. fundado no patriarcalismo e no sexis-
Género, itinerarios corporales, identidad y cambio. Bar- mo, gerando uma estética unisex, ex-
celona: Bellaterra.
pressa no comprimento dos cabelos,
LAQUEUR, homas. La construcción del sexo. Cuerpo no vestuário ou nos acessórios, e uma
y género desde los griegos hasta Freud. Madrid: Ediciones
Cátedra. Colección Feminismos, 1994. sexualidade mais plástica, que compor-
MIQUEO, Consuelo. Semiología del androcentrismo.
tava uma erótica bissexual. O cantor
Teorías sobre reproducción de Andrés Piquer y François e compositor britânico David Bowie
Broussais. En: MIQUEO, Consuelo et al (Eds.) Perspec-
tivas de género en salud. Fundamentos cientíicos y socio- que, na primeira metade dos anos 1970
profesionales de diferencias sexuales no previstas. Madrid: criou a personagem Ziggy Stardust,
Minerva Ediciones, p. 97-134, 2001.
a estadunidense Madonna nos anos
VALLS-LLOBET, Carme. Mujeres, salud y poder. Ma-
drid: Ediciones Cátedra. Colección Feminismos, 2009.
1980/90, dialogam diretamente com
a suspensão das diferenças de gênero
Indicaciones de lectura em suas apresentações. No Brasil, os
HARDY, Ellen y JIMÉNEZ, Ana Luisa. Masculinidad y emblemáticos Ney Matogrosso e Cás-
género. Revista Cubana de Salud Pública, n.27(2), p.77-
88, 2001.
sia Eller, assim como os integrantes do
grupo carioca Dzi Croquettes, cons-
PASTOR, Rosa. Cuerpo y género: representación e
imagen corporal. En: BARBERA, Ester y MARTÍNEZ, truíram performances que remetemos
Isabel. Psicología y género. Madrid: Pearson Educación, diretamente à suspensão das fronteiras
2004.
do binarismo de gênero desde os anos

• 49 •
1970. A estética andrógina assumia, agora nada mais é que um nome posto
então, um caráter político de ruptura em desonra. (...) o masculino de início
com os estereótipos de gênero. Déca- era descendente do sol, o feminino da
das depois, o aparecimento da igura terra e o que tinha de ambos era da
do transgênero no movimento LGBT lua” (56-57).
leva a que estudiosos retomem o tema Os pertencentes a esses três gê-
da convivência dual e pacíica de as- neros tratavam-se de seres nascidos de
pectos do feminino e do masculino em predecessores dos deuses. Eram criatu-
um mesmo ser como experiência indi- ras duplicadas: duas iguras masculinas
vidual e/ou proposição política. unidas entre si a partir das espáduas,
A Antiguidade guarda as raízes com dois pares de pernas e dois pares
míticas do andrógino, arquétipo uni- de braços, uma cabeça com duas faces
versalmente difundido. N’O Banquete, e duas genitálias iguais; duas iguras
Platão (1991) coloca na boca de Aris- femininas unidas da mesma maneira;
tófanes a explicação do surgimento de inalmente, o terceiro tratava-se de um
tal igura. Tal relato encontra-se situa- ser masculino unido a um ser feminino,
do no referido texto na oportunidade dotado de dois pares de braços e dois
das exposições acerca das teorias da pares de pernas, uma face masculina
alma e, ali, do amor. Trata-se de uma e uma face feminina em uma cabeça
preleção moral sobre as faces do ho- apenas e as diferentes genitálias. Como
mem, de seus sentimentos e de suas andavam rapidamente quando com os
ações, de forma exemplar, que elabora quatro membros no chão, assumiam
a existência de uma igura que antece- uma forma esférica, lembrando os as-
deria os estereótipos de gênero, com- tros dos quais descendiam.
portando-os a ambos. “Com efeito, Aristófanes continua sua expo-
nossa natureza outrora não era a mes- sição a Erixímaco informando-lhe que,
ma que a de agora, mas diferente. Em assim como os gigantes, ilhos dos ti-
primeiro lugar, três eram os gêneros da tãs, quiseram alcançar o céu e destro-
humanidade, não dois como agora, o nar os deuses e foram vencidos em
masculino e o feminino, mas também batalha, os nascidos dos astros, duplos
havia a mais um terceiro, comum a es- e orgulhosos de si, também quiseram
tes dois, do qual resta agora um nome, alcançar esse território proibido. Zeus,
desaparecida a coisa; andrógino era en- o governante dos deuses, teria, então,
tão um gênero distinto, tanto na for- se decidido por fender esses seres,
ma como no nome comum aos dois,
restando a Apolo a tarefa de lhes fa-
ao masculino e ao feminino, enquanto

• 50 •
zer olhar as entranhas rasgadas e, em na cosmogonia hebraica, no Gênese, a
seguida, curar-lhes as feridas, costuran- narrativa da criação do mundo e dos
do a pele de cada um deles, polindo as seres viventes, interpretada de duas
pregas da pele e deixando como única maneiras. A primeira diz respeito à
marca o umbigo. Os duplos, a partir de própria divindade, uma vez que, tendo
então separados, tornados mais fracos criado homem e mulher, o fez à sua se-
“homens e mulheres”, buscariam in- melhança, donde é possível interpretar
cessantemente cada qual sua metade. que o criador traz em si os aspectos de
O convívio entre os elementos mas- cada um. A segunda refere-se à retirada
culinos e femininos paciicamente, ou de Eva do próprio Adão, sujeito que
ainda, o ideal de unidade e totalidade comportaria até então os dois gêne-
ros em si (ELIADE, 1991, 103-108).
igura em um único ser, teria seu im
A tradição abraâmica imputaria a Eva
dramaticamente instalado pela decisão
a culpabilidade sobre o advento da ex-
divina.
pulsão do Éden, uma das razões pelas
Origem similar, divina, teria
quais o binarismo de gênero e a desi-
Hermafrodito, ser mítico ilho de
gualdade entre ambos passaria a per-
Hermes e Afrodite. O jovem, cuja tra-
mear as demais interpretações a afas-
jetória é narrada por Ovídio em suas
tar a possibilidade de compreensão da
Metamorfoses, em suas andanças, tor- unidade masculino/feminino na igura
na-se objeto de desejo de uma ninfa, do criador.
entidade das águas. Não corresponde Nos séculos XVIII e XIX, no
imediatamente às investidas daquele Ocidente, o hermafrodita seria a ima-
ser feminino inicialmente, mas, sedu- gem vitoriosa da junção dos seres, haja
zido, banha-se em suas águas. A ilha vista uma cultura que via na diferença
de Oceano enlaça o amado e roga aos motivo para a exclusão e, consequen-
deuses permanecer unida a ele. Com temente, uma ciência que lhe acompa-
sua prece atendida, fundem-se os cor- nhava. Estando a diferença entre ho-
pos, surgindo um indivíduo que com- mens e mulheres centrada na isiologia
porta, para gozo da ninfa e opróbrio e no sexo, o indivíduo que trouxesse
do jovem, o masculino e o feminino em si elementos de ambos encarnaria a
(Livro IV). Entretanto, se o andrógino igura foucaultiana do monstro. Dessa
se satisfaz com sua dualidade, a Her- forma, a ciência seria a responsável por
mafrodito ela pesa, envergonhando- tornar a monstruosidade devidamente
-lhe. adequada à separação isiológica dos
Outra origem para o convívio sexos tornada natural, ou seja, cabia
entre o masculino e o feminino está reparar tal desvio da natureza.

• 51 •
Se a repercussão dos mitos da HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Tradução de
J. A. A. Serrano. São Paulo: Iluminuras, 1991;
antiguidade (grega ou hebraica) se faz OVÍDIO. Metamorfoses. São Paulo: Madras, 2003.
sentir fortemente ainda nos primeiros
PLATÃO. Diálogos. Tradução e notas de José Cavalcanti
decênios do século XXI, isso se deve de Souza, Jorge Paleikat e João Cruz Costa. 5 ed. São
Paulo: Nova Cultural.
em razão da sobreposição discursiva.
Os discursos religioso e cientíico têm SINGER, June. Androginia: rumo a uma nova teoria da
sexualidade. São Paulo: Cultrix, 1990.
sido colocados um sobre o outro sem
TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso - a ho-
que qualquer deles tenha sido descar- mossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. 3 ed.
tado. A ocorrência do transexual não rev. ampl. São Paulo: Record, 2000.

nos remete ao andrógino, na medida



em que não há o convívio pacíico en-
tre o feminino e o masculino “razão da
Aprendizaje, infancia
própria existência dos procedimentos
y género
de adequação a um e a outro”, mas,
a transgeneridade parece ser a ligação No siempre se asocia la infan-
possível. Importa ressaltar que, para cia al género y, de esta forma, se oculta
uma compreensão da multiplicidade que los modelos de género son cons-
que compõe a sociedade contemporâ- tructos culturales naturalizados que se
nea e a necessidade de convívio entre transmiten desde la niñez, describien-
indivíduos e grupos sociais distintos, do trayectorias diferentes para niñas y
o andrógino passa a ser uma imagem niños. Signiicar la infancia en relación
essencialmente política, detentora de al binomio sexo-género es el objeto
força primordial para a superação da que nos ocupa. Primero se realizan
desigualdade por seu caráter transcen- unos breves apuntes sobre los senti-
dos de la infancia como grupo sujeto
dente dos contrários.
de derechos y como etapa educativa. A
Miguel Rodrigues de Sousa Neto continuación se describe la categoría
género, sus características e impactos
Referências e sugestões de leitura en el desarrollo de identidades dicoto-
mizadas, jerarquizadas y excluyentes.
BRUNEL, Pierre (org.). Dicionário de mitos literários.
Tradução de Carlos Sussekind, Jorge Laclette, Maria he- Por último se dedica un espacio a la
reza Rezende Costa e Vera Whately. 2 ed. Brasília/Rio de educación, pues es a través de los pro-
Janeiro: Editora da UnB/José Olympio, 2000.
cesos de enseñanza que se transmiten
ELIADE, Mircea. Meistófeles e o andrógino. Tradução y se aprenden los géneros, y es a través
de Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes,
1991. de dichos procesos que también pue-
den desaprenderse. En esta perspecti-

• 52 •
va es reto de las sociedades del siglo que deberán garantizarse, promoverse
veintiuno la deconstrucción de los y protegerse los derechos de la niñez
modelos de género que, desde el mo- “sin distinción alguna, independiente-
mento de nacer, prescriben de forma mente de la raza, el color, el sexo, el
estereotipada la vida de las niñas y de idioma, la religión, la opinión política o
los niños. de otra índole, el origen nacional, étni-
Sobre los signiicados de infancia: En co o social, la posición económica, los
1989 la Asamblea General de las Na- impedimentos físicos, el nacimiento o
ciones Unidas aprobó la Convención cualquier otra condición del niño, de
sobre los Derechos de la Infancia. Su sus padres o de sus representantes le-
contenido son los derechos humanos gales” (Art. 2.1).
de las niñas y de los niños menores Para acotar el signiicado de in-
“de dieciocho años de edad, salvo que, fância, hay que señalar que este con-
en virtud de la ley que le sea aplicab- cepto es deinido en el Diccionario de la
le, haya alcanzado antes la mayoría de Lengua Española (2001) como el período
edad” (Art.1). La Convención ha de de la vida humana desde que se nace
entenderse y aplicarse en base a dos hasta la pubertad, pero también reiere
principios que José Vidal Beneito re- al conjunto de los niños de tal edad,
iere a los derechos humanos: el prin- así como al primer estado después
cipio de universalidad dialógica que del nacimiento. Por su parte Lorenzo
hace convivir lo idéntico y lo diferente; Luzuriaga, en el Diccionario de Pedagogía,
y el principio de indivisibilidad, pues signiica a la infancia en relación a la
los derechos humanos –como corpus educación. Airma el autor que es el
doctrinal y como práctica jurídico-polí- primer grado del desarrollo del ser hu-
tica– forman un todo único e indivisib- mano y la edad más apropiada para la
le al tener como centro de referencia e educación, pues es la edad plástica por
imputación el ser humano en su espe- excelencia y, por tanto, la más propi-
ciicidad individual, o la humanidad en cia para la acción educativa (Luzuriaga,
su expresión más genérica (Vidal-Be- 2001). En este sentido la infancia es
neyto, 2006). descubrimiento, aprendizaje y cons-
Atendiendo a los principios trucción del yo.
señalados la Convención reconoce la Tales acepciones llevan a pen-
identidad diferencial del grupo de me- sar la infancia no sólo como una etapa
nores que hace referencia a la niña y educativa, sino también como una con-
al niño como sujetos de derechos y, al dición y un estado, y como una catego-
mismo tiempo, a una etapa evolutiva ría social inventada y construida que
y educativa, la infancia, período en el ha ido experimentando cambios en sus

• 53 •
signiicados. De la creación de la infan- tablece el derecho a disponer de me-
cia como ser y grupo diferente al adul- dios y asistencia para su crianza y su
to –superando la concepción de adulto desarrollo material, moral y espiritual.
en miniatura–, a la desaparición de la Esta primera Declaración fue escrita
infancia en sociedades postmodernas. por Eglantyne Jebb, fundadora en el
De una infancia desprotegida y aban- Londres de 1919 de la organización
donada, familiar e institucionalmente, Save the Children, primera organización
a una infancia sujeto de derechos –en no gubernamental de la infancia crea-
ocasiones en exceso idolatrada y en da para ayudar a las niñas y a los niños
extremo sobreprotegida–. De la infan- desplazados y refugiados por la Prime-
cia dividida en etapas evolutivas cro- ra Guerra Mundial.
nológicas y claramente diferenciadas El año 1948 la Asamblea Ge-
en edades –primera infancia, segunda neral de las Naciones Unidas aprueba
infancia, adolescencia…–, a un diluir- la Declaración de Derechos Humanos
se tales compartimentaciones, un acor- que hace referencia a la infancia reco-
tarse algunas etapas y un prolongarse nociendo que ésta tiene “derecho a cui-
de otras que lleva a un estado de eter- dados y asistencia especiales” (Art. 25).
na infancia. De la infancia olvidada, a En 1959 la misma Asamblea aprueba
proyectar en ella exigencias de futuro la Declaración de los Derechos del
–a veces con demasiadas presiones y Niño, incorporando derechos como la
prescripciones–. libertad y la no discriminación, el dere-
Tal evolución se produce en cho a un nombre y a una nacionalidad,
diferentes espacios y momentos tem- el derecho a la educación, a la atención
porales, quedando relejada en diversas de la salud y a una protección especial.
normativas que muestran los cambios, Posteriormente, antes y después
así como las resistencias a los mismos de la Convención de 1989, se aprueban
de algunos países donde se sigue ne- normativas internacionales en áreas es-
gando la infancia y no se reconocen pecíicas que incorporan referencias
sus derechos. Los antecedentes direc- concretas a la protección de la infancia
tos de la Convención muestran la evo- con el objeto de impedir la explotaci-
lución en la signiicación de la infancia, ón, el maltrato, la discriminación, y la
el desarrollo de una mayor sensibilidad exclusión de niñas y niños. También
hacia la misma, así como los retos aún se crea un Comité de los Derechos del
pendientes. Niño que supervisa la aplicación de la
En 1924 la Liga de las Nacio- Convención.
nes aprueba la Declaración de Ginebra La categoría sexo-género: La infan-
sobre los Derechos del Niño que es- cia va adquiriendo presencia en socie-

• 54 •
dades en cambio, y es en este proceso La teoría sobre el binomio
dinámico que se reconocen los dere- sexo-género permite explicar estos
chos de las niñas y de los niños como dos conceptos, describir que la pala-
derechos humanos universales e indivi- bra sexo es utilizada para designar los
sibles, aunque ello no es obstáculo para rasgos biológicos, y la palabra género
que diferencias como el origen geográ- para designar el modelo cultural atri-
ico y el territorio de vida, la étnia y la buido a cada sexo. Poner en relación
cultura, las vivencias de migración, las ambos conceptos lleva a comprender
características físicas y psicológicas, la que la persona es resultado de biología
clase social y el nivel económico de y del entorno sociocultural donde vive.
las familias, la formación de madres y Como explica Marcela Lagarde esta es
padres, entre otras diferencias, com- una teoría amplia que abarca hipótesis,
porten vivencias de desigualdad, no interpretaciones y conocimientos re-
de forma aislada, sino en interrelación lativos al conjunto de fenómenos his-
unas con otras. tóricos construidos en torno al sexo.
Las diferencias señaladas están Como categoría relacional correspon-
atravesadas –van acompañadas siem- de al orden sociocultural conigurado
pre– por la diferencia sexo que suma sobre la base de una sexualidad cons-
y agrava la situación de las mujeres y truida históricamente, de acuerdo a un
de los hombres, pues el sexo asociado orden que predetermina y clasiica a los
al género mantiene a las personas su- seres humanos en dos grupos: el feme-
jetas a proyecciones estereotipadas del nino y el masculino. Las diferencias de
ser mujer y del ser hombre. Es en este género no son biológicas, se van ges-
sentido que María Milagros Rivera air- tando y desarrollando en un proceso
ma que la diferencia sexual es una evi- histórico social que se construye y se
dencia del cuerpo humano, un hecho reproduce con la inalidad de natura-
conigurador de cada vida femenina o lizar la identidad sexual y la sexualidad
masculina, de sus potenciales, de sus (Lagarde, 1996). Es en el momento de
facultades, de sus posibilidades de exis- nacer que se activan procesos que van
tencia en el mundo y en la historia. Ello a ir moldeando y doblegando a niñas y
es así porque el sexo no sólo funda, a niños de acuerdo al tipo de mujer y
sino que la diferencia sexual anunciada de hombre que se considera adecuados
al nacer –es niña, es niño– acompaña en cada sociedad y época concretas.
durante toda la vida el cuerpo que una El entorno sociocultural, reair-
es y que uno es, marca para siempre la mado políticamente, actúa con la in-
historia de cada ser humano (Rivera, tencionalidad de imponer prototipos,
2005). es decir, la forma de ser de cada sexo –

• 55 •
el ser de mujeres y el ser de hombres–, solo grupo, el grupo mujeres o el gru-
determinando cuáles deben ser sus de- po hombres. Grupos separados entre
seos, sus valores y sus comportamien- si y deinidos homogéneamente, re-
tos en función del género femenino o chazando con ello que hay diferencias
del género masculino adjudicado. Tales entre las personas de un mismo sexo.
modelos de género –aparentemente Victoria Sau señala cuatro característi-
cambiantes pero manteniendo sus es- cas del género, no naturales sino cons-
tructuras estereotipadas– condicionan truidas, que abocan a tales vivencias.
y afectan la vida de mujeres y de hom- La primera relativa al hecho señalado
bres que, desde la infancia, se ven so- anteriormente, relativo a que en la es-
metidos a adoptar personalidades que pecie humana sólo se diferencian dos
condicionan y limitan sus identidades géneros que corresponde a dos sexos.
libres. A niñas y a niños se les obliga La segunda establece que el género es
a adoptar las características de un úni- vinculante, es decir, los géneros son si-
co modelo de género, y se les prohíbe métricos antitéticos dependientes uno
adoptar rasgos y funciones que se con- del otro. La tercera alude a la jerarqui-
sideran no apropiados al sexo biológi- zación de los géneros, estableciendo
co que se identiica al nacer, y cuando el femenino como el subordinado y
lo hacen son objeto de sanción. La el masculino como el dominante. Y la
transgresión del género, en el senti- cuarta se reiere a la estructura inva-
do de mostrar preferencia por rasgos riable, en el tiempo y en el espacio de
y adoptar comportamientos que son los géneros, pues aunque se produzcan
considerados como propios del otro variaciones se mantienen como direc-
sexo, el transitar por diferentes identi- trices reguladoras del ser mujer y del
dades, e incluso atreverse a deinir otras ser hombre (Sau, 2000).
nuevas no marcadas ni controladas a Impactos de discriminación de los
priori, recibe como respuesta el recha- géneros: Las relaciones que se estable-
zo social, la etiquetación marginadora cen desde el momento del nacimiento,
en base a normas estereotipadas que, junto a las expectativas que se anti-
como marcas referenciales, aprisionan cipan respecto a la niña y al niño no
y encapsulan. son neutrales. La historia muestra que
La diversidad de los seres hu- desde la primera infancia son las niñas
manos es negada, y las identidades di- las que sufren una mayor negación de
ferenciales son rechazadas cuando se los derechos de protección, provisión
prohíbe que cada niña y cada niño se y participación. Pero además, como se
desarrolle y se muestre como un ser ha indicado, las niñas y los niños que
único, abocando a formar parte de un no se ajustan al patrón normativizado

• 56 •
para su sexo –masculino o femeni- cho civil y político. Ello exige crear las
no– son estigmatizados y marginados. escuelas necesarias y garantizar la edu-
La diferencia es castigada con la des- cación como derecho social, económi-
protección y vulneración de derechos co y cultural asegurando la gratuidad y
humanos. Ello sucede a pesar que la la obligatoriedad. La accesibilidad exi-
propia Declaración Universal de los ge a los gobiernos no negar el acceso
Derechos Humanos de 1948 establece de todas las niñas y de todos los niños
que “todos los seres humanos nacen li- ; junto a ello crear las condiciones para
bres e iguales en dignidad y derechos” gozar de una formación no limitada
(Art. 1). Tal vulneración de derechos a una etapa de enseñanza obligatoria,
es mostrada en los informes anuales sino permanente a lo largo de la vida.
sobre la situación de la infancia en el La aceptabilidad demanda garantías de
mundo de organismos internacionales calidad para la educación, acompaña-
como UNICEF. Los informes cons- das de estándares mínimos de salud y
tatan que el sexo es diferencia que seguridad, y de requisitos de un saber
comporta experiencias de opresión, de ser y un saber hacer docente lleno de
violencia, de exclusión, especialmente profesionalidad. Por último la adapta-
vividas por las niñas. Nacer mujer con- bilidad exige que las escuelas se adap-
tinúa siendo diferencia que aboca a vi-
ten al principio del interés superior de
das más precarizadas, empobrecidas y
la niña y del niño incluido en la Con-
vulnerables.
vención de 1989 (Tomasevski, 2004).
El género actúa como detonan-
Estos cuatro elementos confor-
te de las situaciones diferenciales que
madores del derecho a la educación
viven las mujeres y los hombres en el
han de ser ejes de las políticas educati-
mundo, relejo de ello es la educación
cuyo derecho es mayormente negado a vas que deben tener en cuenta los im-
las niñas. Como señala Katarina Toma- pactos de género de las mismas. Ello es
sevski no puede existir un derecho sin necesario dado que las realidades his-
que existan las obligaciones guberna- tóricas y del presente muestran como
mentales correspondientes, sin que se los entornos educativos mantienen es-
deinan y pongan en práctica políticas tructuras de género que permean los
que garanticen una educación asequib- procesos de enseñanza y de aprendi-
le, accesible, aceptable y adaptable para zaje activando mecanismos sexistas ya
todas y todos. sean éstos explícitos u ocultos. No se
La asequibilidad, supone la obli- puede ignorar, además, que la prescrip-
gación de los gobiernos de garantizar ción de los géneros es beligerantemen-
el derecho a la educación como dere- te coercitiva, obliga a ser de acuerdo

• 57 •
un determinado modelo renunciando actúa sólo en el ámbito de la educaci-
a otros posibles. ón, sino en todos los ámbitos de la vida
Aprender en femenino, aprender en y de relación humana reproduciendo
masculino: Entre otros documentos, en el androcentrismo, es decir, el partir y
la Guía de Coeducación del Instituto de aplicar la creencia que el hombre es y
la Mujer dependiente del Ministerio de ha de ser la medida de todas las cosas.
Sanidad, Servicios Sociales e Igualdad Tal forma de pensar y actuar se pre-
de España, se diferencian las prácticas senta como verdad incuestionable e
que diicultan la igualdad de oportu- inamovible. Nacer hombre, y adoptar
nidades y se establece la coeducación el género masculino, se establece como
como modelo educativo orientado a la virtud, como parámetro de valor su-
justicia social. La coeducación recono- premo, mientras que nacer mujer es un
ce la diversidad de género y contempla desvalor. Para Eduardo Galeano ello
la escuela como un espacio no neutral muestra que vivimos una escuela de un
en el que se transmiten valores patriar- mundo al revés. Un mundo dividido
cales, asumidos como tradicionales, entre seres superiores –que ostentan
que contribuyen a aumentar las dife- el poder y ordenan– y seres subordina-
rencias entre mujeres y hombres. De- dos –que están desposeídos de poder
saprender tales concepciones precisa y obedecen–, porque unos nacen para
de una escuela coeducativa cuya ina- mandar y otras nacen para ser manda-
lidad sea la eliminación de estereotipos das. Tal situación evidencia relaciones
de género para superar las desigualda- marcadas por el género construido,
des sociales y las jerarquías culturales aunque determinados grupos se obsti-
entre mujeres y hombres (Instituto de nen en justiicarlas genéticamente (Ga-
la Mujer, 2008). En las sociedades del leano, 1998).
siglo veintiuno este enfoque pedagógi- Los modelos de género se na-
co no ha logrado suplantar totalmente turalizan, y se enseña que así es, y al
las concepciones segregadoras y mi- hacerlo se establecen dos mundos di-
xtas que reproducen fuertemente los sociados entre sí. Un mundo inferior,
modelos de género a través de prácti- el privado, habitado por las mujeres a
cas sexistas. las cuáles sólo se les permite cultivar el
El sexismo, entendido como el saber cotidiano y la sensibilidad; mu-
conjunto de métodos empleados en el jeres que desde niñas son instruidas
seno de una cultura patriarcal, mantie- para reproducir y acatar el rol de subal-
ne las relaciones de domino del mundo ternas y el deber de la sumisión. Y un
masculino sobre el femenino, el poder mundo superior, el público, habitado
de los hombres sobre las mujeres. No por hombres que sólo pueden cultivar

• 58 •
el saber cientíico y la razón; hombres intentan invertirse o modiicarse por
instruidos desde niños para producir y otras formas de relación distintas a los
para acatar el deber de asumir el poder modelos de género imperantes se ge-
y la obligación de oprimir. Dos mun- neran dos reacciones: por una parte,
dos separados que se fuerza a estar problemas para el poder patriarcal que
alejados uno del otro con la inalidad es cuestionado en su legitimidad; por
de determinar el ser y el estar de las
otra parte se muestran otras posibles
mujeres y de los hombres. Dos mun-
masculinidades y feminidades (Con-
dos que se encuentran encerrados en
nell, 2003).
sí mismos, en laberintos erráticos que
Estos movimientos abren la po-
no permiten su encuentro, abocando
sibilidad educativa de pensar los géne-
siempre a una única salida.
ros y sus impactos desde otras miradas
Como nos dice Mercedes Oli-
que postulan una diferencia sexual no
vera ello es así porque los géneros se
determinada. En esta perspectiva Ju-
reproducen de generación en genera-
dith Butler realiza una crítica a la idea
ción como parte del carácter transcen-
esencialista de que las identidades de
dente de las prescripciones culturales
género son inmutables y encuentran su
contenidas en diversidad de situacio-
arraigo en la naturaleza, en el cuerpo
nes de género, entendidas tales situa-
o en una heterosexualidad normativa y
ciones como las formas concretas en
obligatoria. Para la autora no hay una
que las mujeres viven la condición de
sola identidad, la identidad es plural
subordinadas: en el trabajo que reali-
y se puede viajar de una a otra. Pero
zan, en sus funciones sociales, en sus
además pertenecer a un género no im-
conductas, sentimientos, creencias e
plica una sexualidad, no están ligados,
intereses (Olivera, 2004: 22). De for-
pues se puede ser mujer y heterosexu-
ma complementaria Robert W. Connell
al, bisexual, lesbiana o sin sexualidad
considera que las situaciones de género
(Butler, 2007). Adoptar un género es
son vividas de forma diferente por los
vestirse de una forma determinada, las
hombres, pues como práctica social el
niñas de rosa y los niños de azul, y si
género se reiere a los cuerpos y a lo
bien al crecer y ser consciente ello, el
que éstos hacen, y se origina dentro de
“yo” puede sentirse bien –si la opción
estructuras deinidas de relaciones so-
es libre–, también puede generar mie-
ciales de poder, de producción y de de-
do que sujeta y oprime –ya sea porque
seo que se exige sean controladas por
es opción impuesta, ya sea por temer la
los hombres. Cuando estas situaciones
perdida de un lugar, de una identidad

• 59 •
que da seguridad y angustia al mismo los libros de texto y otros materiales
tiempo–. Desde la niñez se adopta un educativos y de ocio constituyen cana-
género concreto, y al hacerlo se apren- les de transmisión y fortalecimiento del
de a actuar a través de los mensajes del binomio sexo-género.
entorno, de lo que se prescribe y lo que No se nace mujer, no se nace
se prohíbe, de los roles y las funciones hombre. Se enseña y se aprende. Se
enseña a aprender por descubrimiento,
que se asumen.
ensayando, probando, experimentan-
Se aprende a ser mujer y a ser
do. También se enseña a aprender imi-
hombre a través de procesos de con-
tando, observando y copiando mode-
formación a las normas de modelos
los de referencia, haciendo aquello que
de género que se transmiten. Niñas y
se valora como positivo en las demás
niños van doblegándose a moldes este-
personas o que se espera sea premiado.
reotipados para encarnar culturalmen-
Y también se enseña a aprender obe-
te lo que se da por determinado bio-
deciendo las normas que el entorno no
lógicamente. Se enseña y se aprende
sólo muestra, sino que inculca y no deja
un sistema de género clasista que esta-
cuestionar ni transgredir, pues la no
blece y mantiene polarizaciones entre
obediencia es castigada. En cualquier
los dos sexos. Dicho sistema de clases
proceso de enseñanza-aprendizaje, sea
diferencia poderes –quién lo ejerce y
éste más autónomo o más directivo, lo
quién lo acata–; marca los espacios de
que se aprende es reforzado de forma
presencias y funciones sociales –qué
positiva o negativa por las personas
puede hacer cada sexo y dónde–; estab-
adultas en relación, pero también por
lece cómo deben ser las relaciones –de
el grupo de iguales, en función de si
dependencia o de autonomía–; y dicta
se ajusta o no a los modelos culturales
cuáles deben ser los intereses y proyec-
que se considera adecuados para las
tos de vida –se determina un presente
niñas y para los niños.
y un futuro separado–. La escuela y la
Desaprender, la apertura a otras for-
familia, el grupo de amigos y amigas,
mas de ser: Si la educación reproduce,
los medios de comunicación, el barrio,
también puede contribuir a transfor-
la ciudad o la comunidad donde vive la
mar. Es desde la educación que pueden
niña y el niño son entornos de inluen-
promoverse procesos para desapren-
cia. Educación formal, no formal e in-
der el género, pero ello exige revisar las
formal constituyen vías de enseñanza
concepciones que lo continúan legiti-
del género. El lenguaje, los contenidos
mando. Las que mantienen las diferen-
del currículum, la organización y ges-
cias en derechos y oportunidades entre
tión de las instituciones, los espacios y
los dos sexos en base a justiicaciones
ambientes de aprendizaje, los juegos,

• 60 •
biológicas. Las que también perpetúan que prescriben los modelos de género,
los modelos opuestos invirtiendo el sino también al currículum oculto que
valor de cada uno, es decir, a partir de los mantiene y los fortalece porque ac-
valorizar y engrandecer el género fe- túa en silencio y desde la invisibilidad
menino y desvalorizar y empequeñecer impune.
el género masculino. O las que con- Desaprender es quitar los velos
tinúan considerando el género feme- de todo lo que permea estereotipada-
nino como menor y deienden que la mente las diferentes esferas de vida,
igualdad se consigue cuando mujeres de relación y de aprendizaje de niñas
y hombres adoptan los rasgos del gé- y de niños. Es tomar conciencia que
nero masculino. Tales concepciones los géneros imponen limitaciones al
muestran variaciones en las formas de desarrollo personal de niñas y niños,
pensar y proyectar la categoría sexo-gé- porque niegan el aprendizaje libre en la
nero, pero son ejemplos que también infancia, y porque crean desigualdades
evidencian su permanencia. y obligan a vivir ciudadanías de prime-
Desaprender el género signiica ra y segunda clase, ciudadanías plenas
no construirlo desde el momento de y ciudadanías defectivas. Desaprender
nacer, no asignar modelos de género es volver a aprender, es tener voluntad
política y, como señala Madeleine Ar-
que diferencian expectativas, mensajes
not avanzar, ya desde la primera infan-
y actuaciones diferentes respecto a la
cia, en el desarrollo de una ciudadanía
niña o al niño. Desaprender es no cre- inclusiva que precisa de una educación
ar contextos de prohibición o de per- humanista que se posiciona ante las in-
misión, de facilitación o de inhibición justicias globales para acortar la brecha
en función de la identidad de género de las desigualdades basadas en la per-
que se quiere forjar. Desaprender es un petuación de modelos de género (Ar-
proceso de deconstrucción que exige not, 2009).
focalizar el género como un enfoque
y una forma de mirar y de analizar con Isabel Carrilo Flores
sentido político y, al mismo tiempo, su-
Referencias y Indicaciones
pone el reconocimiento que el sistema
sexo-género es reduccionista cuando ARNOT, Madeleine. Coeducando para una ciudadanía
es interpretado como una forma de en igualdad. Compromisos con las agendas globales y na-
cionales. Madrid: Morata, 2009.
clasiicación dual, ija, estática en el es-
BUTLER, Judith. El género en disputa: el feminismo y
pacio y en el tiempo. Desaprender es la subversión de la identidad. Barcelona: Paidós, 2007.
prestar una atención especial no sólo
CONNELL, Robert W. Masculinidades. México: Uni-
a los mecanismos y estructuras visibles versidad Nacional Autónoma de México, 2003.

• 61 •
GALEANO, Eduardo. Patas arriba. La escuela del mun-
do al revés. Madrid: Siglo XXI, 1998.
Aristóteles
INSTITUTO DE LA MUJER. Guía de coeducación.
Documento de Síntesis sobre la Educación para la Igual- A “natureza feminina” talvez o
dad de Oportunidades entre Mujeres y hombres. Madrid: mais poderoso discurso construído, é
Ministerio de Igualdad, 2008.
apresentada desde sempre como uma
LAGARDE, Marcela. Género y feminismo: desarrollo
humano y democracia. Madrid: Horas y Horas, 1996.
evidência dada, mas, segundo Fran-
çoise Héritier, “não existe instituição
LUZURIAGA, Lorenzo. Diccionario de Pedagogía. Bue-
nos Aires: Losada, 2001, 3ª edición. social que se baseie exclusivamente na
natureza. Todas são um efeito da arte,
NACIONES UNIDAS. Declaración universal de de-
rechos humanos. Disponible en http://www.un.org/es/ da invenção dos grupos, nos limites,
documents/udhr/ [Fecha de consulta: 20 de octubre de certamente, do fato biológico e na-
2013]
tural.” (HÉRITIER, 1996, p. 282). O
OLIVERA, Mercedes (coord.). De sumisiones, cambios y
rebeldías. Mujeres indígenas de Chiapas. Tuxla Gutiérrez:
equilíbrio do mundo, como o corpo
Universidad de Ciencias y Artes de Chiapas, 2004. humano, se funda em uma harmonia
REAL ACADEMINA ESPAÑOLA. Diccionario de len- desses contrários, e todo o excesso
gua española. Disponible en www.rae.es [Fecha de con- em um âmbito anuncia desordem e/
sulta: 18 de octubre de 2013.
ou enfermidade. Relações de poder
RIVERA, María-Milagros. La diferencia sexual en la his-
toria. Valencia: Universitat de Valencia, 2005.
ou juízos de valor demonstram carac-
terísticas apresentadas como naturais,
SAU, Victoria. Diccionario ideológico feminista. Volu-
men I. Barcelona: Icaria, 2000, 3ª edición.
e, portanto, irremediáveis, observáveis
no comportamento, como as “qualida-
SAU, Victoria. Diccionario ideológico feminista. Volu-
men II. Barcelona: Icaria, 2001. des” ou os “defeitos” femininos consi-
derados como marcados sexualmente.
SAVE THE CHILDREN. http://www.savethechildren.
es/ [Fecha de consulta: 10 de junio de 2013] Se recuarmos no tempo à pro-
TOMASEVSKI, Katarina. El asalto a la educación. Bar-
cura da construção inicial do discurso
celona: Intermón Oxfam, 2004. da “natureza feminina”, constatare-
UNICEF. Convención sobre los Derechos del niño. Dis- mos que ele foi deinido pelos gregos
ponible en http://www.unicef.es/infancia/derechos-del- no início da cultura ocidental, pensa-
-nino/convencion-derechos-nino [Fecha de consulta: 4
de septiembre de 2013] mento que condicionou nossa cultura,
sofrendo várias inlexões até o século
UNICEF. Estado mundial de la infancia. Disponible en
http://www.unicef.org/spanish/sowc/index_61804.html XVIII, quando o corpo feminino é
[Fecha de consulta: 20 de octubre de 2013]
destinado unicamente como “apto
VIDAL- BENEYTO, José (ed.). Derechos Humanos y para a maternidade”, para a reprodu-
diversidad cultural. Barcelona: Icaria, 2206.
ção. A normatização da deinição mé-
• dica cruza-se com uma preocupação
política do Estado: a do interesse pela

• 62 •
saúde dos seus cidadãos, a necessidade Para Aristóteles, a condição de
de cidadãos úteis e racionais. ser “cidadão” era dada àqueles que to-
Aristóteles (384 - 322 AC) um mavam parte na cidade. É dessa parti-
dos mais inluentes ilósofos gregos, cipação no culto que se originavam os
após a morte de seu pai Nicômano, direitos civis e políticos. Em Política,
médico do rei Amintas, ixou-se em airma que o desenvolvimento da ple-
Atenas, onde durante vinte anos ou- nitude humana só tem lugar na cidade:
viu as lições de seu mestre Platão. Em “Aquele que não pode viver em socie-
335 A.C. fundou o Liceu, denominado dade, ou não necessita de nada para so-
também de escola peripatética, porque breviver, é uma besta ou um deus.”(A-
o mestre dava suas aulas passeando RISTÓTELES, 1960, p. 124). Na casa
com os alunos. que é a unidade primeira da cidade, e
Suas obras de lógica, reunidas que deve constar de escravos e livres,
sob o nome de Organon, fundam a encontramos três tipos de relações:
teoria do conhecimento; as obras de amo e escravo, marido e mulher e pai
ilosoia natural aliam uma mistura de e ilho.
observações empíricas e de exigências As relações marido-mulher e
racionalistas. O tratado Do Céu inau- pai-ilho diferem da relação amo-escra-
gura a cosmograia, assim como A vo, porque este por natureza não per-
Metafísica funda a física numa teolo- tence a si mesmo. Porém, a justiicação
gia, numa teoria de Deus como motor da autoridade é baseada no princípio
do universo. Em Ética a Nicômano e de que “o macho é mais apto para a
Política, Aristóteles demonstra a im- direção do que a fêmea e o velho mais
portância da prática em moral, o papel apto do que o jovem”, portanto, a mu-
do meio geográico, econômico e so- lher deve ser governada como se go-
cial. Sua obra Das Partes dos Animais, verna um cidadão; porém, sem haver
é considerada por muitos como o pri- alternância no poder, porque a mulher
meiro tratado de anatomia e isiologias não tem autoridade. Na teoria política
comparadas. de Aristóteles, a natureza deine quem
Aristóteles concebe o ser huma- manda e quem obedece:
no como um ser racional, dotado de Distinguir mulher e escravo era
razão e a sua felicidade consiste em vi- uma tarefa difícil já que o ilho subor-
ver de acordo com a razão. Sua impor- dinado ao pai tornar-se-ia um adulto.
tância na ilosoia, que atravessa os sé- Pergunta-se: qual a diferença entre a
culos e chega nos tempos atuais como ausência de faculdade deliberativa do
escravo e a ausência de autoridade na
um dos ilósofos mais respeitados, é
mulher? Para os gregos, e Aristóteles
decorrente das obras citadas acima.
em especial, a inferioridade feminina
• 63 •
se dá em todos os planos “ anatomia, pronunciadas; tem também o pêlo mais
isiologia, ética. Mas o que dizer do ino nas espécies que possuem pêlo, e,
mundo ocidental onde ainda estes dis- nas que os não possuem, o que faz as
cursos são o que de melhor se disse, o suas vezes. As fêmeas têm igualmente
que de melhor se pensou sobre o ser a carne mais mole que os machos, os
humano? joelhos mais juntos e as pernas mais
No seu tratado sobre os ani- inas. Os seus pés são mais pequenos,
mais, Aristóteles entrega-se a um nos animais que têm pés. Quanto à
longo exame dos corpos femininos. voz, as fêmeas têm-na sempre mais
Conhecendo mais de quatrocentas fraca e mais aguda, em todos os ani-
espécies zoológicas, Aristóteles tenta mais dotados de voz, com excepção
descrevê-las e compará-las servindo- dos bovinos: nestes, as fêmeas têm a
-se de duas categorias, a do gênero e voz mais grave que os machos. As par-
a da espécie, genos e eidos. Para todos tes que existem naturalmente para a
os seres que não nascem por geração defesa, os cornos, os esporões e todas
espontânea, quer dizer, da terra úmida a outras partes deste tipo pertencem
ou de substâncias em decomposição, em certos géneros aos machos, mas
existem fêmeas. não às fêmeas. Em alguns géneros, es-
Segundo Aristóteles, há duas tas partes existem em ambos, mas são
maneiras de deinir as características mais fortes e desenvolvidas nos ma-
dos corpos femininos: a analogia e a chos.”(ARISTÓTELES, apud SISSA,
inferioridade relativamente aos corpos 1993, p. 102).
masculinos. Por um lado, a diferença O tamanho do cérebro, a dife-
entre machos e fêmeas é uma relação rença entre homens e mulheres, con-
de correspondência: onde os machos ceito utilizado durante muito tempo
possuem um pênis, as fêmeas apresen- para caracterizar a mulher como um ser
tam um útero, “que é sempre duplo, inferior intelectualmente, e demons-
do mesmo modo que, nos machos, os trar a maior inteligência dos homens,
testículos são sempre em número de é inaugurado nos textos de Aristóteles
dois” (ARISTÓTELES, 1961, p. 5). sobre As Partes dos Animais: “Entre
Na História dos Animais, a compara- os animais, é o homem que tem o cére-
ção entre masculino e feminino é rea- bro maior, proporcionalmente ao seu
lizada salientando-se as suas diferenças tamanho, e, nos homens, os machos
e a mulher aparece com o corpo mais têm o cérebro mais volumoso que as
débil, mais fraco: “A fêmea é menos fêmeas. (...) São os machos que têm o
musculada, tem as articulações menos maior número de suturas na cabeça, e

• 64 •
o homem tem mais do que a mulher, Animais. A mãe fornece o material ina-
sempre pela mesma razão, para que nimado e passivo que é o sangue mens-
esta zona respire facilmente, sobretudo trual: “Quando o resíduo seminal da
o cérebro, que é maior.” (ARISTÓTE- menstruação sofreu uma cocção con-
LES, 1957, p. 41). veniente, o movimento que provém do
Comparando a mulher com macho far-lhe-á tomar a forma que lhe
uma criança, doente por natureza, en- corresponde. (...) De maneira que, se o
velhecendo mais rapidamente porque movimento dominar, fará um macho e
“tudo o que é pequeno chega mais ra- não uma fêmea, e o produto asseme-
pidamente ao seu im, tanto nas obras lhar-se-á ao gerador mas não à mãe; se
de arte como nos organismos natu- não dominar, toda a potência que lhe
rais”, Aristóteles não cansa de repetir falta faltará igualmente no produto.”
que as fêmeas são mais fracas e mais (ARISTÓTELES, 1961, p. 147).
frias e, por natureza, apresentam uma É na questão da geração que
deformidade natural. Os seios, que são Aristóteles anula o papel da mulher,
maiores nas mulheres que nos homens retira-lhe o trabalho de criadora (é o
não escapam ao olhar observador do sêmen que desempenha a função do
ilósofo, que, comparando-os com os artista, porque constitui em si, poten-
músculos peitorais do tórax masculino, cialmente, a forma), estabelecendo a
“carne compacta”, considera-os como menoridade e a inferioridade femini-
intumescências esponjosas, capazes de na, assim como uma perversidade que
se encherem de leite, mas moles e rapi- advém de seu sexo. A própria forma
damente lácidos. côncava da madre criaria um desejo
Assim como Hipócrates, Aris- mais violento, explicável pelo princípio
tóteles também preocupa-se com o natural do horror ao vácuo. Mas, entre
sangue menstrual. É porque a mulher é todas as fêmeas, a mulher e a jumenta
um ser impuro que ela sofre esta catar- atingem, com este ilósofo, o extremo
se através da menstruação: “Num ser da lubricidade, pois tinham a particu-
mais fraco deve necessariamente pro- laridade de serem as únicas que se en-
duzir-se um resíduo mais abundante e tregavam ao coito durante a gravidez.
cuja cocção é menos elaborada”. Este Enquanto Hipócrates atribui
sangue produzido por uma falta de ca- semente quer ao macho quer à fêmea,
lor, sinal da frieza feminina, constitui contribuindo ambos para a formação
a contribuição do animal fêmea para de um novo ser, em Platão e Aristóte-
a concepção de uma criança, defende les a mulher é vista como inferior, não
o ilósofo no Tratado da Geração dos tendo um papel relevante na geração:

• 65 •
“Em consequência da sua juventude, truções textuais como o relato bíblico
da sua velhice ou de qualquer outra da criação e a queda do paraíso ou o
causa(...) dá forma a um produto im- Tratado da geração dos animais de
perfeito, defeituoso, de segunda esco- Aristóteles. Este ilósofo, em especial,
lha. (...) Aquele que não se assemelha exercerá uma grande inluência que
aos pais é já, em certos aspectos, um ainda se mantém viva na tradição da
monstro (teras): porque, neste caso, a teologia e da ilosoia escolástica pre-
natureza afastou-se, em certa medida, sente na Igreja Católica.
do tipo genérico (genos). O primeiro A supremacia masculina foi air-
desvio é exactamente o nascimento de mada baseando-se em textos de investi-
uma fêmea em vez de um macho.”(A- gação cientíica, para proteger a família
RISTÓTELES, 1957, p. 167). e a ordem social. Mesmo autores que
Na sua relação com o homem, repudiam a “imperfeição natural” da
tanto em Platão como em Aristóteles, mulher e airmam a igualdade entre os
a mulher é vista como um desvio, uma dois sexos, não fogem ao pensamento
“defeituosidade natural”. “O que é que comum em designar às mulheres um
forçou a que o pensamento que Platão papel de complementaridade: “o des-
e Aristóteles nos dessem sistematica- tino mais profundo da mulher é ser
mente uma imagem, uma concepção companheira do homem”, ou “encon-
negativa da mulher?”pergunta Teresa tra-se completamente sob a determi-
Joaquim. Estes dois ilósofos, segun- nação da natureza e, por consequência,
do ela, recolheram e transformaram só esteticamente é livre: num sentido
a tradição literária, médica e cientíica mais profundo, só se torna livre atra-
em relação à mulher e a sistematizaram vés do homem.” (KIERKEGAARD,
em seus sistemas explicativos, caracte- 1968, p. 153).
rizando o homem como o criador da
ordem social e a mulher excluída des- Ana Maria Colling
ta ordem. Um é criador da ordem; da
lei, a outra está do lado do desejo, da Referências e sugestões de leitura
desordem: “É sobre estas clivagens ARISTÓTELES. Les parties des animaux. Paris: Les Bel-
simbólicas que se vai fundar a própria les Lettres, 1957.
sociedade.” (JOAQUIM, p. 85). ______. Política. São Paulo: Atena, 1960.
Os discursos sobre a imagem
______. De la génération dês animaux. Paris: Les Belles
da mulher, sua representação, deiniam Lettres, 1961.
não somente normas de comporta-
HÉRITIER, Françoise. Do Poder improvável das mulhe-
mento, como normas jurídicas e pre- res. In: As Mulheres e a História. Lisboa: Dom Quixote,
ceitos morais, referendados por cons- 1995.

• 66 •
______. Masculino/Femenino. El pensamiento de la di-
ferencia. Barcelona: Ariel, 1996.

JOAQUIM, Teresa. Menina e Moça. A construção social


da feminilidade. Lisboa: Fim de Século, 1997.

KIERKEGAARD, Soren Aabye. O conceito de angústia.


Lisboa: Hemus, 1968.

SISSA, Giulia. Filosoias do gênero: Platão, Aristóteles e


a diferença dos sexos. In: História das Mulheres no Oci-
dente. v. 3. Porto: Afrontamento, 1993.

• 67 •
Beauvoir, Simone

Alguns aspectos biográicos de


Simone de Beauvoir fazem-se necessá-
rios para contextualizar sua obra. Sua
infância transcorreu de acordo com
os valores morais de sua época. Po-
rém, aos 19 anos, ela já confessava à
sua melhor amiga, Zaza, dúvidas sobre
qual seria o seu futuro. Em um de seus
diários, registrou que seu pai, após per-
der muito dinheiro com investimentos,
declarou com muito pesar a ela e à sua
irmã Helène que nunca se casariam por
não possuírem dote. Portanto, teriam
que trabalhar e não seriam obrigadas
a casar com um marido pertencente à
alta sociedade e ter ilhos. (ROWLEY,
2006). Ao contrário do que parte da
literatura airma, o trabalho feminino
não constituía uma exceção. Situação
cada vez mais corrente nos meios ru-
rais e urbanos da primeira metade do
século XX, em França, entre 1906 e
1946 as mulheres representaram entre
36 e 38% da população ativa (SOHN,
1991, p.119) No entanto, a condição
feminina era vista como uma barreira
para o trabalho intelectual. Na contra-
mão dessa tendência, a jovem Simone,
de origem burguesa e que estudara em
colégio católico, e que assistira ao de-
clínio social de sua família, tornou-se
professora de ilosoia aos 21 anos ao
ser aprovada no agregátion (concurso
público que garantia cargo vitalício de
professora no sistema francês de ensi-

• 68 •
no). No processo seletivo de 1929, o ciando as gerações posteriores, espe-
primeiro colocado foi Jean Paul Sartre, cialmente aquelas vinculadas à intelec-
que ela conhecera ainda nos exames tualidade feminista. A obra integra o
preparatórios para o concurso. projeto de Beauvoir de um existencia-
Vinte anos depois, em 1949, lismo impregnado de humanismo e a
com a publicação de O Segundo Sexo (Le provocação inicial do livro, “que é uma
deuxième sexe) (SS), Simone de Beau- mulher?” (SS I, 7), expressa uma ina
voir aparece ao grande público como articulação dos conceitos de situação,
uma pensadora original. É possível liberdade, transcendência e justiicação
que o livro, produzido no período do normativa com o movimento da auto-
pós-guerra, seja o resultado de uma ra em compreender a si e às mulheres
tomada de consciência da própria iló- como possiblidade de superação livre
sofa sobre a sua condição de mulher de sua situação existencial na transcen-
em meio a um conlito que provocou dência do discurso ilosóico. O modo
mutações nas relações de gênero. Em como a autora começa seu texto, “he-
todo o continente europeu, mas es- sitei muito tempo em escrever um li-
pecialmente em França, o período da vro sobre a mulher. O tema é irritan-
Guerra e os anos subsequentes evi- te, principalmente para as mulheres”
denciaram desequilíbrios nas relações (Idem), assume o inevitável da ilosoia
de gênero. As punições para as mulhe- a que se ilia: a existência humana é a
res que foram consideradas colabora- livre assunção, ou negação, das possi-
doras do Eixo é um exemplo: muitas bilidades de justiicar-se em projetos
que tiveram suas cabeças raspadas em sempre dinâmicos e intersubjetivos
verdadeiras cerimônias públicas. Para que são o fato mesmo dessa liberda-
outras tantas, envolvidas diretamente de situada em seu exercício. É o peso
no conlito (enfermeiras, militantes da ontológico que Beauvoir dá à situação
resistência francesa), o im da guerra que singulariza seu pensamento. Veja-
signiicou a tentativa de retorno à nor- mos como isso sustenta o projeto de O
malidade: ao cotidiano feminino nos Segundo Sexo.
esperados papeis de esposas, mães ou, A noção de situação opera, na
no máximo, trabalhadoras associadas a ilosoia do século XX, como uma re-
proissões típicas de seu sexo. (QUÉ- cusa a toda essência que pretendesse
TEL, p.238). antecipar algum conteúdo ao fato con-
O livro de Beauvoir, que so- creto do existir humano. Os escritos
mente em Francês vendeu mais de de Beauvoir anteriores a 1949 e que
um milhão e meio de cópias, marcou versam sobre a moral – Pirro e Cinéas
o pensamento do século XX, inluen- (1944) e Por uma moral da ambiguidade

• 69 •
(1947) – apresentam a sua relexão so- que isso é propriamente o que o ser
bre a liberdade de modo que o referen- humano não é, a pergunta inicial “que
cial situacional funciona como exigên- é uma mulher?” só pode ser colocada
cia de uma justiicação normativa para de modo autêntico – entenda-se, ex-
a liberdade. Ao recusar as concepções pressada situacionalmente – por uma
abstratas e absolutas da liberdade in- mulher que tenha assumido livremen-
dividual, Beauvoir enraíza-a no movi- te sua situação como um dado: é-se
mento de transcendência do existente mulher. Esse é, para Beauvoir, um
em direção ao seu próprio sentido de primeiro dado que cumpre conside-
existir, quando a conirmação inter- rar, ainal, diferente dos homens (aqui
subjetiva do mundo justiica ou nega o sempre entendidos como os machos
valor-conteúdo da ação humana indivi- do gênero humano), sempre que uma
dual cuja liberdade valora o mundo. Na mulher expressa-se tem que declarar-
valoração pela ação, o indivíduo recusa -se mulher (SSI, 9) e isso porque, a
o nada e o sem sentido que arrebatam este dado, junta-se outro a partir do
sua existência quando confrontada qual ele se constitui como singular: se
com a initude e, simultaneamente, en- aos homens essa declaração não é uma
contra-se irremediavelmente situado exigência é porque “o fato de ser um
nas multi-valências de sua existência homem não é uma singularidade [...] há
que precisa ser decidida e assumida, ou um tipo humano absoluto que é o tipo
negada, como liberdade. Esta “moral masculino” (SSI, 9-10). Toda a investi-
existencialista” já seria uma contribui- gação sobre a mulher descreverá o dra-
ção suiciente da autora para um dos ma dos movimentos de interrogação,
problemas dessa ilosoia, aquele que relexão e superação desta situação de
se pergunta sobre a possibilidade de estar posta como um indivíduo, se não
uma liberdade individual que não seja derivado, relativizado em face de outro
absoluta, mas que continue sendo li- indivíduo que se tornou soberano ab-
vre; e de uma existência que não esteja soluto de seu gênero.
votada, de antemão, ao niilismo ou ao É no drama desta oposição que
absurdo. Beauvoir sustenta a crítica que permeia
No SS, Beauvoir airma que toda a obra: a alocação do feminino
“todo ser humano concreto sempre se sob a categoria da alteridade. A alteri-
situa de um modo singular... [e] nenhu- dade do Outro está em seu modo de
ma mulher pode pretender sem má-fé ser singular como o que não integra o
situar-se além de seu sexo” (SSI, 8): sentido que se airma como um abso-
assim como não há sentido em tratar- luto; ao mesmo tempo, a alteridade do
-se de um ser humano abstrato, por- Outro é um elemento essencial para

• 70 •
que um absoluto possa airmar-se en- concreta. A submissão das mulheres
quanto tal. Essa dialética Eu-Outro, é investigada pela autora como o re-
segundo a autora, remonta à estrutura sultado concreto da ação de homens
original da consciência humana, seja e mulheres em seu drama existencial
no modo como Hegel a descreveu, seja que é, simultaneamente, individual e
como aparece nas investigações histó- intersubjetivo. É dentro desse marco
ricas e antropológicas levadas a cabo, interpretativo que Beauvoir airma que
por exemplo, por Lévy-Strauss e a par- o corpo feminino, identiicado em sua
tir dele (Cf. SSI, 11s), mas a questão é situação com o seu sexo, submete-a ao
saber como e por que essa polarização macho como realização das inalidades
está assim estabelecida na realidade hu- relativas ao prazer e à reprodução (SSI,
mana, engendrando posições relativas 25-57); mas é igualmente esse corpo,
de soberania aos homens e de submis- historicamente submetido pelas condi-
são às mulheres? O primeiro volume ções materiais da espécie na pura bio-
do SS, ao tratar dos Fatos e mitos sobre a logia, que furta-a à superação de sua
condição histórica da mulher e mesmo condição débil, “houvesse a mulher
sobre a sua origem conhecida, descre- realizado com o homem a conquista da
ve a dialética dessa relação vivida pelos Natureza, a espécie humana ter-se-ia,
dois polos no interior de um gênero e então, airmado contra os deuses atra-
que os constitui reciprocamente. Esse vés dos indivíduos de ambos os sexos.
movimento constitutivo das identi- Mas a mulher não soube tornar suas as
dades vai-se dando na extensão e no promessas da ferramenta. [...] O que
signiicado, emancipador ou de sub- lhe foi nefasto foi o fato de que, não se
missão, como as possiblidades abertas tornando um companheiro de trabalho
pela situação no mundo são vividas pe- para o operário, ela se viu excluída do
los homens e pelas mulheres: o com- mitsein humano” (SSI, 98).
plexo biológico-material-psíquico dos Se o ser humano não é com-
indivíduos situa-os como dados em preendido alheio a sua situação e nela
um mundo que também é dado, mas vive concretamente como liberdade,
o modo da sua ação revela o direciona- então os marcos biológicos e históri-
mento da sua existência – o seu sentido cos (materiais ou psíquicos) são cons-
– para emancipar-se do ou submeter-se tituídos por essa duplicidade do dado
ao dado. É nestes termos que Beauvoir e do desejado, ou do ser como situa-
concebe a liberdade: os seres humanos ção e do ser como vir-a-ser, da possi-
são igualmente livres, mas de um modo bilidade que é, também, situação. Para
concreto, não abstrato, porque sempre Beauvoir, a situação humana é circuns-
referidos à sua situação: a liberdade é crita, simultaneamente, pelo dado e

• 71 •
pela transcendência do dado na ação quem ela é signiica separar, de início,
humana livre, que realiza-se como mé- o existente mulher da sua ação, única
dium entre o dado e a realidade, ela é instância em que a sua verdade como
sentido. Assim, o dado biológico não um existente pode ser desvelada. Mas
tem realidade além do seu caráter de signiica, também, encobrir que a su-
dado e o seu sentido [de realidade] jeição da mulher à condição mítica de
depende do assumir do sentido; esse ser o Outro misterioso que não se dei-
assumir, por sua vez, é livre, e nele a xa penetrar em seus mistérios, porque
humanidade transcende sua situação, sua essência é mistério, é a condição da
ou sucumbe à sua imanência. É sob manutenção da posição mítica do ho-
essa ótica que Beauvoir analisa os Mitos mem como soberano Absoluto.
sobre a mulher como racionalizações O segundo volume da obra não
justiicadoras da sua situação. Através poderia abrir senão com o mais difun-
deles, os seres humanos, ao invés de dido slogan feminista, “Ninguém nasce
superarem a divisão dos sexos como mulher: torna-se mulher” (SS II, 9).
destino natural, narram a irreversibi- O tornar-se mulher é ali proposto por
lidade desse destino em que a mulher Beauvoir nas experiências vividas por
apenas desenvolve a sua essência femi- homens e mulheres nas dimensões do
nina. A pergunta feita de início “o que indivíduo e da vida social que o efeti-
é a mulher?” já denunciava o perigo do vam, que o alçam à condição de real.
problema ser colocado nesta forma: Seja nas instituições formadoras, seja
ela orienta-se para uma resposta em nas diversas possibilidades da vivência
que a objetivação da mulher em uma presente, mulheres e homens forjam-
essência feminina parece inevitável, e -se em sua identidade individual na
certamente o faz porque a situação em relação que a sua liberdade estabelece
que Beauvoir pensou e escreveu O Se- com a liberdade daqueles com quem
gundo Sexo é de suspeição e descrença convivem. De modo semelhante como
sobre a suiciência daqueles mitos. Ao ser sexuado é um dado que não está
inalizar o primeiro volume, Beauvoir ao alcance das determinações individu-
diz que não “se deve confundir o mito ais, também a resolução da signiicação
com a apreensão de uma signiicação; desse ser sexuado em sua singulari-
a signiicação é imanente ao objeto; ela dade não está determinada antes que
é revelada à consciência numa experi- o indivíduo assuma a sua situação no
ência viva, ao passo que o mito é uma sentido de reforçá-la ou de superá-la.
ideia transcendente que escapa a toda Daí a importância que a autora atribui
tomada de consciência” (SSI, 301), por ao trabalho como meio de conquista
isso, perguntar(se) a uma mulher sobre da autonomia para os seres humanos

• 72 •
e para a mulher em especial. É a sua transcendência. Um último e não me-
sujeição econômica mais elementar, às nos grave resquício da diferença sexual
vezes ao nível da sobrevivência, que como inferioridade e debilidade é a in-
impedem a mulher de romper com a capacidade moral a que a irresponsabi-
excessiva preocupação de si que aco- lidade, sempre associada ao feminino
mete um ser humano em dependência. seja pela autovitimação da mulher, seja
É pelo trabalho que o gênero humano pelo desprezo masculino, encarna na
criou-se e renova-se na independência mulher. Enquanto o gênero humano
e autonomia com relação a tudo o que for um, marcado pela diferença sexual,
o submete ou mistiica e que infanti- e esta aninhada numa relação de do-
liza-o. A conquista do trabalho como minação mistiicadora, é a moralidade
produção de autonomia, ainda que não como justiicação racional e efetivação
seja suiciente, é condição indispensá- da liberdade humana que seguirá coxe-
vel para que as mulheres experimen- ante.
tem e exercitem-se em situações de No campo dos estudos feminis-
efetivo desaio que as façam romper tas, talvez a mais relevante contribui-
com o destino que, até então, lhes foi ção de Beauvoir tenha sido transportar
determinado. “Foi pelo trabalho que a o debate sobre as hierarquias entre os
mulher cobriu em grande parte a dis- sexos – antes centrado na biologia -
tância que a separava do homem; só o para a arena da história. É, portanto,
trabalho pode assegurar-lhe uma liber- através do estudo das sociedades que
dade concreta” (SS II, 449), mas Beau- a ilósofa se propôs a compreender o
voir assinala, também, que a libertação modo como as mulheres foram histo-
no plano econômico não implica de ricamente associadas à fragilidade e à
modo imediato “uma situação moral, inferioridade. Para Beauvoir, diferen-
social e psicológica igual a do homem” ças biológicas, como a capacidade de
(SS II, 451) e é no plano deste acrés- gestar e amamentar, foram cultural-
cimo de libertação que o projeto de mente associadas a funções inferiores.
uma humanidade igualada sexualmen- Como resultado, as próprias mulheres
te precisa orientar-se. As ambivalências reconheceriam o universo como obra
vividas pela “mulher independente” masculina e não se considerariam res-
trazem, segundo a autora, como maior ponsáveis, porque sua experiência não
risco e efetivo prejuízo, a permanência lhes ensina a ser sujeito. E para sair da
da mulher numa atitude irresponsável condição de objeto, a mulher deveria
com relação à si como indivíduo e, por ultrapassar este dado de inferiorida-
isso, incapaz de responsabilizar-se com de corporal. (COLLIN, 1991) Se, por
um projeto humano orientado pela um lado, o livro SS explicitava a con-

• 73 •
dição feminina como de objeto e não preconceitos e valores que impedissem
de sujeito, por outro apontava que o o pleno desenvolvimento humano.
ser humano é capaz de modiicar a Para ela: “Libertar a mulher é recusar
própria natureza. Então porque não encerrá-la nas relações que mantém
seria capaz de mudar a própria reali- com o homem, mas não as negar; ain-
dade histórica? Nessa perspectiva, a da que ela se ponha para si, não deixará
libertação da mulher ocorreria princi- de existir também para ele: reconhe-
palmente através do trabalho, mas em cendo-se mutuamente como sujeito,
um mundo no qual o trabalho não seja cada um permanecerá – entretanto –
sinônimo de exploração. Não bastaria um outro para o outro”. (1980, p. 500)
mudar as leis, os costumes, as institui-
ções para que mulheres e homens se Giovana Dalmás
Natália Pietra Méndez
tornassem iguais. Seria preciso uma
mudança individual, uma nova huma-
Referências e sugestões de leitura
nidade, que, desde a infância, educasse
meninos e meninas com as mesmas BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro:
possibilidades de futuro. Nota-se, por- Nova Fronteira, 1980. 1, 2 v.

tanto, que a condição de sujeito de sua COLLIN, Françoise. Diferença e diferendo. A ques-
própria história seria determinada pelo tão das mulheres na Filosoia. In: PERROT, Michelle;
DUBY, Georges; THÉBAUD, Françoise. História das
acesso à educação e ao trabalho. En- Mulheres no Ocidente. O Século XX. Porto: Edições
quanto o homem era educado para ser Afrontamento, 1991.

ativo, Beauvoir concluía que a mulher ROWLEY, Hazel. Tête-à-Tête. Rio de Janeiro: Objetiva,
era educada a ser passiva e aprender a 2006.

aguardar o amor, a não perder sua fe- SOHN, Anne-Marie. Entre duas guerras. In: PERROT,
minilidade: “Hoje, graças às conquistas Michelle; DUBY, Georges; THÉBAUD, Françoise. His-
tória das Mulheres no Ocidente. O Século XX. Porto:
do feminismo, torna-se dia a dia mais Edições Afrontamento, 1991.
normal encorajá-la a estudar, a praticar
QUÉTEL, Claude. As mulheres na guerra (1939-1945).
esporte; mas perdoam-lhe mais que ao São Paulo: Larousse do Brasil, 2009.
menino o fato de malograr; tornam-

-lhe mais difícil o êxito, exigindo dela
outro tipo de realização: querem, pelo
Beleza e gênero
menos, que ela seja também uma mu-
lher, que não perca sua feminilidade”.
Qual a importância da beleza
(1980, p.23)
para a mulher? Ela é mesmo funda-
Beauvoir pode ser considerada
mental? O ideal de beleza é sempre o
uma intelectual engajada em um ideal
mesmo ou varia historicamente? A be-
libertário que consistia na abolição de
leza é opressiva para as mulheres?

• 74 •
Poder e inteligência são consi- que a do belo, só que, sem se alternar
derados, normalmente, atributos eró- com esta ou ser por ela acompanhada,
ticos masculinos e beleza e juventude, cansa, e não pode ser desfrutada por
atributos eróticos femininos. As vir- muito tempo.
tudes femininas tradicionalmente não A ciência da beleza: Nancy Etcoff
estão ligadas ao espírito ou à inteligên- publica em 2000 um livro que se tor-
cia, mas à beleza do corpo. Segundo nou um best seller nos Estados Uni-
o ilósofo Immanuel Kant, a mulher dos chamado Survival of the Prettiest, the
poderia chegar a ser inteligente e des- Science of Beauty (1999). O livro contém
tacar-se nas artes e ciências, contudo, uma tese trivial e outra polêmica. A
com isso ela despertaria apenas respei- trivial é que os homens preferem as
to do homem, mas não mais seu amor mulheres mais bonitas, a inteligência
e perderia todo o poder que ela pudes- sendo indiferente ou negativa para a
se ter sobre o sexo forte. Tal é dito no escolha de uma parceira. As mulheres,
texto Observações sobre o sentimento do belo por sua vez, preferiam homens com
e do sublime “O estudo laborioso ou a status, poder ou dinheiro. As garotas
especulação penosa, mesmo que uma mais bonitas da high school (ensino mé-
mulher nisso se destaque, sufocam os dio americano) são aquelas que con-
traços que são próprios a seu sexo; e seguem marry up, casar com homens
não obstante dela façam, por sua sin- acima do seu nível social.
gularidade, objeto de uma fria admira- Etcoff cita um experimento
ção, ao mesmo tempo, enfraquecem os realizado pelo antropólogo John Mar-
estímulos por meio dos quais exerce shall Townsend (TOWNSEND &
seu grande poder sobre o outro sexo” LEVY, 1990). Foram mostrados aos
(Kant, 2000, p 49). homens três fotos de mulheres e às
Ao dizer que a mulher relacio- mulheres três fotos de homens, cada
na-se ao belo, Kant não nega a relevân- foto representando pessoas de belezas
cia do seu papel na sociedade, nem a desiguais e a cada pessoa foi atribuída
reduz a um papel doméstico. Ela deve uma proissão de status sócio econô-
frequentar os salões e deixá-los mais mico diverso (garçonete/ garçom, pro-
leves com sua presença, servindo de fessora/professor e médica/ médico).
contraponto à seriedade dos assuntos Foi perguntado aos participantes das
masculinos: O belo feminino deve ser- pesquisas com quais dessas pessoas
vir como uma pausa ao sublime mas- eles gostariam de sair, de fazer sexo,
culino, pois aqueles que combinam namorar e de casar. As mulheres prefe-
ambos os sentimentos descobrem que riam o homem mais bonito e com mais
a comoção do sublime é mais poderosa dinheiro, mas, abaixo desses, médicos

• 75 •
não atraentes recebiam a mesma pre- A tese polêmica do livro é que
ferência que professores muito atra- a beleza não atende essencialmente a
entes. No caso do homem, mulheres padrões culturais, mas a simetrias da
não atraentes isicamente nunca eram espécie e que as mulheres bonitas se-
preferidas, independentemente do seu riam preferidas pois seus traços har-
status social. mônicos indicariam um melhor poder
Segundo Etcoff essa é uma das reprodutivo. Analogamente, homens
experiências que mostra a preferência com poder, dinheiro, saber, garanti-
do homem pela beleza, independente riam à prole um melhor sustento. Eu
do status socioeconômico e a prefe- chamaria esta tese de evolucionista, a
rência das mulheres pelo status socio- qual fundamenta, na biologia evolucio-
econômico. Tal fato explicaria porque nista, as preferências dos homens por
as executivas de uma grande empresa, mulheres jovens e bonitas e das mu-
segundo a autora, poder-se-iam sentir lheres por homens com poder e status.
atraídas pelo seu secretário, personal Parece que, como crítica a uma teoria
trainer ou servente e teriam diiculda- de que tudo era cultural, entramos
des para lidar com esses sentimentos, agora numa era na qual tudo passa a
enquanto para os homens o status in- ser biológico. O fundamento biológi-
ferior da mulher não se constitui num co, frente a um fundamento cultural,
obstáculo, podendo até mesmo ser um apresenta uma certa diiculdade para
incentivo, já que os homens considera- qualquer tentativa de mudança de pa-
riam, segundo a autora, mulheres que drão, pois continuaríamos tendo as
ganham mais do que eles menos atra- mesmas preferências dos homens das
entes. cavernas, visto que não houve nenhu-
Etcoff coloca-se como oposito- ma mutação signiicativa desde então.
ra às feministas, tais como Naomi Wolf, Etcoff não reduz suas airmações a ca-
que defendem ser a beleza um produto sais heterossexuais, tentando mostrar
cultural que mantém a dominância do que as preferências masculinas pelo
macho. Iniciando seu livro com uma belo e femininas pela inteligência per-
citação de Aristóteles de porque se de- manecem mesmo em casais do mesmo
seja a beleza física (“Ninguém que não sexo. Assim, em casais homossexuais
é cego poderia fazer essa pergunta”), masculinos, a beleza seria um atributo
ela faz um elogio da beleza como um altamente valorizado no parceiro, en-
poder legítimo da mulher sobre o ho- quanto o mesmo não aconteceria com
mem, e, assim como Camiglie Paglia, as mulheres homossexuais.
restitui à beleza uma cidadania no dis- A tese de Etcoff é altamente
curso feminino. questionável, pois existiram historica-

• 76 •
mente vários modelos de beleza femi- ceder à imposição do macho, somos
ninos. Qual desses corresponderiam ao hoje um pouco mais permissivas em
padrão reprodutivo biológico? Seriam relação às formas de embelezamento.
as voluptuosas mulheres de Rubens, as Devemos questionar, contudo, formas
rechonchudas banhistas de Renoir ou mais radicais de submissão aos padrões
as esquálidas modelos das décadas de de uma cultura. A cirurgia plástica, por
exemplo, poderia ser vista como auto-
70 ou 80, tais como Twiggy ou Kate
nomia feminina de moldar seu corpo?
Moss? Os padrões de beleza parecem
Ou ela deve ser vista como uma mu-
mudar conforme a cultura. Como air-
tilação para a submissão aos modelos
ma Peperonoe (PEPENOE, 2003): impostos? Seria ela um mecanismo de
todas as culturas tiveram seus padrões justiça e autonomia ou uma submissão
de beleza. Essa autora examina as mu- inaceitável?
lheres das tribos do Saara. Lá, ao con- Por um lado, podemos conside-
trário de suas companheiras urbanas e rá-la como uma submissão a padrões
ocidentais, as mulheres almejam cor- impostos. Por outro, podemos vê-la
pos fartos e gordos. como uma autonomia em relação a
Os padrões de beleza feminino nosso próprio corpo, uma liberdade
se apresentam como variações cultu- de moldá-lo como queremos, poden-
rais, que dependem dos valores de uma do signiicar uma expansão do nosso
determinada sociedade. Até onde iría- poder de escolha. Contudo, podemos
mos para seguir esses padrões? objetar que essa escolha não é na ver-
O corpo mutilado: Ainda que não dade uma livre decisão, mas sim uma
se possa concordar com a tese evolu- submissão a padrões que nos fazem
cionista de Ectoff, as pesquisas por ela desejar ter um tipo de corpo especíi-
apontadas mostram que uma mulher co. Além disso, a cirurgia plástica não
cujos traços estejam de acordo com estaria muito longe de um prática de
o considerado belo de uma cultura mutilação corporal. Nós, ocidentais,
levaria vantagem na disputa por um nos sentimos superiores às nossas
parceiro naquela cultura. Poderíamos companheiras que são mutiladas pela
pensar, então, que as atividades que prática de mutilação genital feminina,
aumentem a beleza feminina possam
ou mesmo às mulheres girafas, obriga-
ser consideradas como uma forma de
das a usar colares que lhes alongam os
superar injustiças naturais? Se as femi-
pescoços, ou às japonesas de outrora,
nistas mais radicais das décadas de 70
obrigadas à prática de controle do cres-
e 80 consideravam que mesma a ma-
quiagem e o salto alto eram formas de cimento dos pés. Mas não estaríamos

• 77 •
hoje nos submetendo ao mesmo tipo senão impossíveis, de atingir. Pode-
de prática mutiladora, através da cirur- mos ter uma ideia da impossibilidade
gia plástica, sob pena de sermos exclu- de atingir o ideal Barbie, se comparar-
ídas socialmente? mos com as medidas médias da mulher
Pensar a cirurgia plástica como americana: 101-86-109.
autonomia seria possível se a modii- O corpo idealizado da Barbie
incorpora a contradição de uma so-
cação do corpo não seguisse um único
ciedade que idolatra o corpo magro e
modelo. Contudo, nossa sociedade oci-
propõe, ao mesmo tempo, o excesso
dental segue um modelo feminino es-
de consumo, incluindo o de nutrientes.
pecíico, da mulher esguia, para a qual O ideal Barbie leva a mais do
acúmulos adiposos são considerados que simplesmente uma cópia de um
atestado de feiura e exclusão social. modelo, em alguns casos a uma série
Um dos modelos deste padrão pós-a- de cirurgias plásticas, a uma mutilação,
nos 50 é a boneca Barbie. para se aproximar deste ideal.
Modelo Barbie: A boneca Barbie Anti-Barbies: Vemos hoje uma
aparece em 1959 e torna-se o item tendência que se opõe ao padrão Bar-
mais vendido da empresa de brinque- bie. Um dos exemplos mais signiica-
dos Matell. Uma Barbie é vendida a tivos desta tendência foi a apresenta-
cada 2 segundos, e 95% das garotas ção na mídia de um padrão anti-Barbie
americanas têm uma Barbie. através da campanha da marca Dove
As pesquisadoras Urla e Swe- sobre a beleza real, veiculada entre
dung realizaram uma pesquisa na 2004 e 2007. A campanha, intitulada
década de 90 no Laboratório de An- de “Real Curves”, teve a ousadia de de-
tropometria da Universidade de Mas- saiar os padrões tradicionais de bele-
sachusetts, para estimar as dimensões za, apresentando corpos femininos de
corporais da Barbie, caso ela tives- vários tipos. Mulheres gordinhas, com
se um tamanho real (URLA; SWE- mais idade, com celulite, com cabelos
DUNG, 2000, p. 414). Elas projetaram brancos, eram apresentadas em outdo-
as medidas da Barbie para a altura de ors, ocupando o espaço antes reserva-
uma top model (1,77 m) e para a altura de do apenas às modelos magras e jovens.
uma mulher média americana (1,62 m). Como parte da campanha, foi
No primeiro caso, as medidas de busto, encomendada uma pesquisa de com-
cintura e quadris seriam 89-51-81 cm; portamento, realizada em 10 países
no segundo, para a altura da mulher com três mil mulheres. Segundo a pes-
média americana, as medidas seriam quisa, somente 2% das mulheres pes-
81-43-71 cm, medidas muito difíceis, quisadas se autodeinem como sendo

• 78 •
bonitas, 75% das mulheres deinem Preta Gil torna-se uma por-
sua beleza como sendo mediana e 50% ta voz nas mulheres gordinhas e da
entendem que seu peso está acima do diversidade estética. Contudo, ela é
ideal. enquadrada pela medicina, utilizan-
No movimento de mulheres, o do padrões pretensamente cientíicos
ideal anti-Barbie pode ser visto na re- para controlar corpos, no que Foucault
cente onda da Marcha das Vadias, na chamaria de biopoder. No programa
qual as mulheres protestam contra a Medida Certa, apresentada pelo Fan-
violência e os padrões impostos. Elas tástico nos Domingos a noite, ela e
contestam padrões de vestuário consi- Gaby Amarantos, outra cantora com
derado “decente” e a ideia de que al- padrões estéticos alternativos, são pe-
gum tipo de roupa fora desse padrão sadas e seus sinais vitais são avaliados e
estaria induzindo ao estupro ou violên- elas são declaradas fora de forma física
cia; padrões de comportamento sexual, e não saudáveis. A gordura é dita não
segundo o qual uma mulher que exerce saudável, e contra essa verdade preten-
livremente sua sexualidade deveria ser samente cientíica, aparentemente não
considerada vadia, e também padrões há argumentos. Preta Gil e Gaby Ama-
estéticos, segundo o qual a mulher rantos emagrecessem um pouco a cada
deveria se adaptar a um corpo com semana, chegando ao inal do progra-
proporções previamente deinidas. O ma, mais “saudáveis”, e mais próximas
slogan levado pelo movimento “Tire do padrão considerado belo pelas bra-
os seus padrões do meu corpo” ilustra sileiras; contudo, seu biótipo continua
bem esse tipo de questionamento con- sendo de mulheres rechonchudas.
tra padrões impostos às mulheres. Finalmente Preta Gil, com al-
Por im, podemos falar sobre o guns quilinhos a menos, mas ainda
caso de uma cantora brasileira, Preta uma anti-Barbie, estampa a capa de
Gil, cujas formas são de uma mulher Revista Nova de dezembro de 2013.
mais gordinha do que o considerado Talvez na longa história desta revista,
ideal. Ela escandalizou o público há tenha sido a única vez que uma mulher
alguns anos atrás, quando posou nua considerada (ainda) gordinha sirva de
para a capa de seu álbum musical. O modelo para as mulheres brasileiras.
escândalo deveu-se mais ao fato de Que tal fato signiique o início da li-
mostrar uma mulher fora dos padrões bertação de um padrão exclusivo, que
nua do que o nu propriamente dito. Re- oprime a maioria de nós.
centemente, ela posou para uma marca
de lingeries e a recepção também foi Maria de Lourdes Borges
bastante polêmica.

• 79 •
Referências signiicação das experiências cotidia-
nas”. Daí, ao fazer narrativas das cenas
ETCOFF, Nancy. Surviva1 of the prettiest : he science
of beauty. New York, Doubleday, 1999
de sua própria história, que se conigu-
ram como algo sempre particular, con-
KANT, Imannuel. Observações sobre o belo e o sublime.
São Paulo, Papirus 2000.
tingente, aberto e quiçá inesgotável, a
pessoa procura dar sentido às suas ex-
PEPENOE,Rebecca. Feeding desire: Fatness, Beauty and
sexuality among a Saharan people. London, New York:
periências e, nesse percurso, constrói
Routledge, 2003. outras representações sobre si mesma.
TOWSEND; John e LEVY, Gary. “Efect of Potential
Esses movimentos foram ini-
Partner’s Physical Attractiveness and Social economic Sta- ciados nos anos 1980, cujos pioneiros
tus on sexuality and Partner Selection” Journal of sexual
behavior (1990): 149-164. mais conhecidos entre nós brasileiros/
as são Gaston Pineau (França e Cana-
URLA, Jaqueline and SWEDUNG, Alan. he antromo-
metry of Barbie. In: SCHIEBINGER, Londa. Feminism dá), Pierre Dominicé, Matthias Finger,
and the body. New York: Oxford University Press, 2000. Marie Christine Josso (Suíça), Guy de
Villers (Bélgica), António Nóvoa (Por-
Sugestões de leitura tugal). No Brasil, as pesquisas educa-
cionais com fontes autobiográicas
BORDO, Susan. Unbearable weight: feminism, western
culture and the body. Berkeley: University of California têm se voltado mais para as questões
Press, 2003
identitárias, notadamente, na formação
SCHIEBINGER, Londa. Feminism and the body. New docente. Ainda são raras aquelas que
York: Oxford University Press, 2000.
investigam a ressigniicação da experi-
VILHENA NOVAIS, Joana. O intolerável peso da feiúra. ência no ato de narrar a própria vida.
Rio de Janeiro: Editora da PUC do Rio, 2013.
A pertinência epistemologia das
WOLF, Naomi. he Beauty mith. New York: Bantham pesquisas biorelexivas narrativas nos
Doubleday Dell Publishing, 1991.
domínios das Ciências das Humanas e
nos campos da Educação e/ou Áreas

ains tem apresentado contribuições
férteis para desvelar os processos que
Biorelexividade narrativa
produzem e reproduzem a subordina-
ção de gênero, por exemplo, identii-
O conceito de biorelexivida-
cando como as relações de gênero se
de narrativa está situado no referente
organizam e se sustentam, e quais são
epistemológico da lógica do sensível,
algumas de suas consequências na in-
a partir da experiência das escritas de
serção das mulheres no mundo do tra-
si. Pautado em movimentos socioe-
balho e na produção da pobreza.
ducativos de “Histórias de vida em
Compreender as assimetrias en-
formação”, estimula escutas abertas e
tre homens e mulheres na sociedade
polifônicas, alicerçado na ideia de “res-

• 80 •
como advindas de práticas sociais nos mensões histórica, social, cultural, edu-
leva a reletir sobre os fundamentos cativa e religiosa, dentre outras. É, pois,
da desigualdade. A noção de relações também uma maneira de conhecer me-
sociais de sexo, de relações de gênero, lhor as pessoas e como elas conseguem
airma que, em primeiro lugar, as de- mobilizar interna e externamente o que
sigualdades entre homens e mulheres vão aprendendo e se apropriando em
suas trajetórias vivenciais. Josso (2010,
são fundadas socialmente, portanto,
p. 31) esclarece, “[...] não era mais ape-
não são as diferenças biológicas que
nas a aquisição de uma cultura cientíi-
justiicam a desigualdade. Nesse senti-
ca relativa a um conjunto de disciplinas
do, fazem parte desse contexto de aná- e a sua história, mas mais fundamental-
lise: a) as categorias cognitivas da práti- mente a tomada de consciência de um
ca e historicidade; b) o sistema pessoal conjunto de pontos de vista possíveis
de produção de saberes; c) os discursos sobre si mesmo e seu meio, a atenção
psicanalíticos; d) a questão hermenêu- voltada para os pressupostos constitu-
tica; e) as implicações socioepistemo- tivos da epistemologia do aprendente,
lógicas do método. a integração consciente do processo às
Existem elos entre linguagem, práticas, a capacidade de verbalização
relexividade e consciência histórica, das experiências, o poder-comunicar
numa relação dialética entre a reinven- com terceiros, a capacidade de identii-
ção de si e a ressigniicação da própria cação e de diferenciação com as teori-
experiência. Essas correntes multi- zações e experimentações de outrem, a
dimensionais que se forma, remete a capacidade de atribuição de sentido às
proliferação de alguns neologismos ações empreendidas.”
que acionam o termo grego bio como O argumento baseia-se na tese
preixo “biograização, biocognitivo, de que a reconstrução das próprias
bioético, biopolítico” ao representa- paisagens (sejam elas afetivas, físicas
rem um importante indicador linguís- ou psíquicas) de experiências do sen-
tico da construção de novos espaços sível, permite que o/a docente possa,
conceituais para o trabalho com o iné- por um lado, escutar melhor o seu en-
dito dos problemas vitais. torno, o seu lugar e a si mesmo e, por
Este é o processo de poder se outro, institui a possibilidade de outras
reinventar, visto que possibilita a iden- e novas formas para pensar o mundo e
tiicação, dos processos desencadeados suas relações proissionais.
pelos estados de ser/estar no mundo Ao narrar nossa própria histó-
e que emergem do vivido no mundo ria, o que buscamos é dar signiicado
do trabalho intelectual, a partir das di- às experiências e, nesse percurso, outra

• 81 •
representação de nós mesmos acaba compõe-se de Farht (viagem) e pode
sendo construída e, portanto, reinven- ser associada a Gefahr (perigo). Nesse
ta-se. Isso se faz mediante o ato de di- sentido, ela remete a uma temporalida-
zer, de narrar, (re)interpretar! Decorre de longa e sugere a ideia de aventura.
daí a constatação da relação dialética Um dos princípios fundadores
entre a reinvenção de si e a ressignii- das escritas de si como prática de for-
cação da experiência daquilo que nos mação é a dimensão autopoiética. Au-
acontece e de sua importância política topoiese “ do grego autos, “próprio”;
estratégica como foco investigativo in- poiésis, criação, invenção, produção.
terdisciplinar. Neologismo criado por Humberto
Para Passeggi (2011, p. 148), “Se Maturana e Francisco Varela nos anos
as palavras não são apenas uma repre- 1970 para designar a capacidade dos
sentação da realidade, mas uma forma seres vivos de produzirem a si pró-
de construir uma realidade humana, ou prios. O termo passou em seguida para
de humanizar a realidade transforman- as ciências sociais e humanas para se
do-a em discurso (...)”, ganha destaque referir à capacidade humana de se au-
a noção de experiência, “(...) que evoca torregular, autoadequar, autoinventar.
sua natureza cambiante e sua estreita Desse ponto de vista, o falar de
relação com a formação humana.” si hermenêutico, apresenta três movi-
O termo experiência deriva do mentos distintos e ao mesmo tempo
latim experientia/ae e remete à “pro-
interdependentes. São eles: pensar em
va, ensaio, tentativa”, o que implica
si, falar de si e escrever sobre si. Per-
da parte do sujeito a capacidade de
cebe-se que no interior dessa tríade há
entendimento, julgamento, avaliação
um elemento comum, o conceito de
do que acontece e do que lhe circun-
da. Os termos Erlebnis e Erfahrung, “si mesmo”, que nada mais é do uma
equivalentes de experiência em alemão, proposta organizadora de determinado
nos chama a atenção para a ressigni- princípio de racionalidade.
icação da experiência. Erlebnis tra-
duz-se, geralmente, por “experiência Sandra Vidal Nogueira
vivida”ou”vivência”, entendida como
Referências
uma situação mais imediata, pré-rele-
xiva e pessoal; Erfahrung associa-se JOSSO, Marie-Christine. Caminhar para si. Porto Ale-
a impressões sensoriais e ao entendi- gre: EDIPUCRS, 2010, p.31.

mento cognitivo, que integra o vivido PASSEGI, Maria da Conceição. A experiência em forma-
num todo narrativo e num processo ção. Educação, Porto Alegre, v. 34, n. 2, maio/ago. 2011,
p. 148.
de aprendizagem. A palavra Erfahrung

• 82 •
Sugestões de leitura distribuição bastante estrita das ativi-
dades atribuídas a cada um dos dois
ABRAHÃO, Maria Helena Menna Barreto. (Org.). A
aventura (auto)biográica - teoria & empiria. Porto Ale-
sexos, de seu local, seu momento, seus
gre: EDIPUCRS, 2004. v. 1, p. 201-224. instrumentos; é a estrutura do espa-
ARENDT, Hannah. Compreender: formação, exílio, to-
ço, opondo o lugar de assembleia ou
talitarismo. Traduzido por Denise Bottman. São Paulo: de mercado, reservados aos homens, e
Companhia das Letras, 2008.
a casa, reservada às mulheres; ou, no
BESSE, Jean-Marc. Ver a Terra: Seis ensaios sobre a paisa- interior desta, entre a parte masculi-
gem e a geograia. São Paulo: Perspectiva, 2006.
na, como o salão, e a parte feminina,
DELORY-MOMBERGER, Christine. Biograia e educa- como o estábulo, a água e os vegetais; é
ção: iguras do indivíduo-projeto. Natal: EDUFRN; São
Paulo: Paulus, 2008. a estrutura do tempo, a jornada, o ano
agrário, ou o ciclo de vida como mo-
• mentos de ruptura, masculinos, e lon-
gos períodos de gestação, femininos”
(BOURDIEU, 1999, p. 18).
Bourdieu e a dominação Essa dominação masculina
masculina (construção simbólica) opera num
campo mágico que incorpora não so-
A categoria “dominação masculi- mente o assentimento ao dominante,
na” desenvolvida pelo sociólogo fran- mas a naturalização, o consentimento
cês Pierre Bourdieu nos mostra que as dessa dominação, por parte de domi-
relações sexuais são socialmente insti- nantes e dominados, exercendo sobre
tuídas e engendram o mundo social e os corpos um poder que em nenhum
simbólico com referenciais de mascu- momento traz o signo da coação física.
linidade e feminilidade compondo di- “A dominação masculina encontra suas
mensões do habitus e da dominação sim- condições de possibilidade e sua con-
bólica, cujas manifestações perpassam trapartida econômica (no sentido mais
o universo habitado por dominantes amplo da palavra) no imenso trabalho
e dominados. Tomando como refe- prévio que é necessário para operar a
rencial a análise da sociedade Cabila, transformação duradoura dos corpos
Bourdieu estende a explicação da do- e produzir as disposições permanentes
minação masculina a todas as formas que ela desencadeia e desperta; ação
sociais, ao destacar que: “a ordem so- transformadora ainda mais poderosa
cial funciona como uma imensa má- por se exercer, nos aspectos mais es-
quina simbólica que tende a ratiicar a senciais, de maneira invisível e insidio-
dominação masculina sobre a qual se sa, através da insensível familiarização
alicerça: é a divisão social do trabalho, com um mundo físico simbolicamente

• 83 •
estruturado e da experiência precoce e Uma história que reconhece as
prolongada de interações permeadas estruturas sociais como lócus de cons-
pelas estruturas de dominação. Os atos trução das relações homem/mulher
de conhecimento e de reconhecimento deve compreender que as relações de
práticos da fronteira mágica entre do- gênero passam, então, pela rejeição do
minantes e dominados, que a magia do caráter ixo e permanente das oposi-
poder simbólico desencadeia, e pelos ções binárias. Essa constatação é de
quais os dominados contribuem, mui- signiicativa relevância na medida em
tas vezes à revelia, ou até então contra que rompe não só com o determinis-
a vontade, para sua própria domina- mo biológico, como também com a
ção, aceitando tacitamente os limites própria ordem cultural modeladora
impostos, assumem muitas vezes a do “ser homem” ou “ser mulher” nas
forma de emoções corporais – vergo- sociedades, ao reconhecer nesta con-
nha, humilhação, timidez, ansiedade, dição um estatuto histórico e cultural-
culpa – ou de paixões e de sentimentos mente construído.
– amor, admiração, respeito – emoções Como se dá a reprodução das
que se mostram ainda mais dolorosas relações de gênero? Reconhecendo a
por vezes, por se traírem em manifes- constância, a permanência, “as inva-
tações visíveis, como o enrubescer, o riantes trans-históricas da relação en-
gaguejar, o desajeitamento, o tremor, a tre os gêneros”, Bourdieu ressalta a
cólera” (BOURDIEU, 1999, p. 51-52). importância de “descrever e analisar a
Bourdieu enfatiza ainda que a (re) construção social, sempre recome-
dominação masculina centrada na do- çada, dos princípios de visão e divisão
minação simbólica é o princípio que geradores dos gêneros e, mais ampla-
justiica e legitima as demais formas de mente, das diferentes categorias de
dominação/submissão, exercitadas de práticas sexuais”. Pois “uma verdadeira
maneiras singulares e múltiplas e, sen- compreensão das mudanças sobrevin-
do diferentes em suas formas segundo das, não só na condição das mulheres,
a posição – social, geográica, espacial,
como também nas relações entre os
étnica, de gênero – dos agentes envol-
sexos, não pode ser esperada, parado-
vidos. Joan Scott (1992), na mesma di-
xalmente, a não ser de uma análise das
reção de Bourdieu, adverte para a ne-
transformações dos mecanismos e das
cessidade de se considerar a existência
instituições encarregadas de garantir a
de uma história das mulheres a ser es-
perpetuação da ordem dos gêneros”
crita, que aborde a noção de represen-
(BOURDIEU, 1999, p. 102-103).
tação e dominação, da desigualdade de
Sobre os papéis especíicos e
poder na história dada pela dominação
articulados das instituições sociais na
masculina.

• 84 •
reprodução da dominação masculina, roga: “a dominação masculina não
diz Bourdieu que “coletivos ou priva- continuará a pesar na investigação
dos, as regularidades da ordem física (masculina ou feminina) sobre as mu-
e da ordem social impõem e inculcam lheres e, se sim, de que modo?” Em
as medidas que excluem as mulheres sua análise, a visão feminina sobre si
das tarefas mais nobres…, assinalan- mesma e sobre a história é uma visão
do-lhes lugares inferiores…, ensinan- dominada, que não vê a si própria. Ele
do-lhes a postura correta do corpo…, nos aponta para a necessidade de sub-
atribuindo-lhes tarefas penosas, baixas metermos nosso olhar à uma relexão
e mesquinhas”. (BOURDIEU, 1999, crítica para termos condições de des-
p. 34). Segundo o autor, em relação nudar as questões que envolvem os
os papéis especíicos e articulados das pressupostos da violência simbólica e
instituições sociais na reprodução da da dominação masculina e que podem
dominação masculina: “o trabalho de “vedar o acesso à visão das mulheres”
reprodução esteve garantido, até época (BOURDIEU, 1995, p. 59).
recente, por três instâncias principais, Para o autor, o papel das mulhe-
a Família, a Igreja e a Escola, que, ob- res na economia dos bens simbólicos
jetivamente orquestradas, tinham em é o de se comportar como objeto, ins-
comum o fato de agirem sobre as es- trumento cuja função é contribuir para
truturas inconscientes. É, sem dúvida, a perpetuação ou aumento do capital
à família que cabe o papel principal na simbólico em poder dos homens. A
reprodução da dominação e da visão dominação masculina, assim, inscre-
masculinas; é na família que se impõe ve-se nas disposições (habitus) dos su-
a experiência precoce da divisão sexual jeitos (homens e mulheres) dessa eco-
do trabalho e da representação legíti- nomia: “cabe às mulheres, nesse jogo
ma dessa divisão, garantida pelo di- de papéis sociais, comportar-se como
reito e inscrita na linguagem. Quanto objetos de troca; aos homens, cumpre
à Igreja, marcada pelo antifeminismo o compromisso de levar a sério todos
profundo... ela inculca (ou inculcava) os jogos assim constituídos” (BOUR-
explicitamente uma moral familiarista, DIEU, 1975). Por conseguinte, con-
completamente dominada pelos valo- forme explicita Bourdieu, os homens,
res patriarcais e principalmente pelo tanto em Cabília quanto nas socieda-
dogma da inata inferioridade das mu- des ocidentais contemporâneas, tam-
lheres…” (BOURDIEU, 1999, p. 103- bém são prisioneiros e vítimas da re-
104). presentação dominante.
No texto “observações sobre a his- Analisar a dominação masculina
tória das mulheres” Bourdieu nos inter- implica, então, consciência de nossa

• 85 •
condição de pesquisadores ou pesqui- através de uma ação política que real-
sadoras, pois somos inluenciados por mente considere todos os efeitos da
estruturas sociais e cognitivas que re- dominação que se exerce com a cum-
velam uma tradição masculina de pen- plicidade das estruturas incorporadas
sar o poder e o conhecimento, aspec- dos habitus e das estruturas das grandes
tos que são interiorizados na forma de instituições, em que a ordem masculi-
esquemas inconscientes de percepção na e a ordem social como um todo é
e apropriação das estruturas históricas reproduzida. É preciso “descolonizar
da lei masculina. o feminino” diz ele. Descolonizar as
Um dos maiores efeitos da do- mulheres é desconstruir os discursos
minação simbólica é a imposição da elaborados sobre elas, tão eicazes, que
representação dos órgãos sexuais, uma elas também o assumiram, para assim
construção social das diferenças ana- reconstruir em bases igualitárias, em-
tômicas visíveis. Segundo Bourdieu, o poderando-as. A desnaturalização dos
mundo social constrói esta diferença discursos das práticas sobre e contra as
anatômica, e esta diferença anatômi- mulheres é tarefa essencial. A descons-
ca socialmente construída se torna o trução do masculino e do feminino
fundamento da diferença social que tem o sentido de desnudar os discursos
a fundamenta. Penso hoje, diz ele, para ver como se construíram os gêne-
que “muitas das divisões que entre os ros na história, como também as ques-
kabyles eram produzidas pela ordem tões do trabalho, do estudo, dos papéis
masculina, a divisão do espaço, etc., sociais, da natureza, das essências, etc.
são reproduzidas por intermédio do
sistema escolar, que é um lugar de re- Losandro Antonio Tedeschi
produção das categorias de construção
da diferença entre os sexos, por exem- Referências e sugestões de leitura
plo, por meio das diferenças entre as BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. Rio de
disciplinas, etc.” (BOURDIEU, 1996 Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

p. 32). ______. A economia das trocas simbólicas. São Paulo:


Pierre Bourdieu nos mostra em Perspectiva, 1974.

suas obras que existe uma longa jorna- ______. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand
da para uma história de mulheres, isso Brasil, 2000

porque elas tem uma visão dominada ______. Observações sobre a história das mulheres. In:
DUBY, Georges; PERROT, Michelle. As Mulheres e a
que não vê a si própria. Ao defender História. Lisboa: Dom Quixote, 1995.
veementemente o desaparecimento
______. Novas relexões sobre a dominação masculina.
progressivo da dominação masculina, In: Gênero & Saúde. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

• 86 •
BOURDIEU, P.; PASSERON, C. A reprodução: ele- cação do “crime” da feitiçaria. É mister
mentos do sistema de ensino. Rio de Janeiro: Francisco
Alves, 1975. enfatizar que esse tema foi costumei-
ramente o foco de intensas análises
CHARTIER, Roger. “Diferenças entre os sexos e do-
minação simbólica”. Cadernos Pagu. São Paulo: UNI- entre os historiadores, principalmente
CAMP, 1995. a perseguição a essas iguras sociais,
SCOTT, J. História das Mulheres. In: BURKE, P. (Org) fonte de debates acadêmicos sobre os
A escrita da história. São Paulo: UNESP, 1992. “tempos de desespero” (MICHELET,
2003, p. 17), os quais o período medie-
• val se encontrava. Em uma época de
pestes, pobreza no campo, destruição
Bruxas/Feitiçaria de colheitas, mortes e incompreen-
são sobre as mais diversas doenças, a
Segundo Vainfas, a bruxa, in- imagem da feiticeira era um misto de
venção do medievo, se caracterizaria medo, poder e perigo. Se, posterior-
como a personagem histórica com alu- mente, o médico simbolizaria também
são direta ao “pacto com o demônio”, um detentor de poder pelos conheci-
fator que, no caso da feitiçaria, poderia mentos especíicos, e, por isso, odiado
simbolizar uma competência mais vaga pela Igreja, ainda assim era melhor que
de práticas mágicas as mais diversas, a feiticeira, porque esta “ousa curar
mas, nem por isso, deixando de ser sem ter estudado” e, portanto, “deve
igualmente mal vista na Idade Média, morrer” (MICHELET, 2003, p. 23).
devido ao seu apelo ao sobrenatural. As justiicativas para o extermí-
De forma geral, a bruxaria e a feitiçaria nio poderiam ser as mais simples: era a
foram marginalizadas inclusive na Ida- mulher viúva, sem família e herdeiros,
de Moderna, momento de desenvolvi- ou até mesmo a “feia anciã” “muito
mento dos Estados e das políticas de embora, segundo Michelet, poderia
cristianização das igrejas protestantes e ser mesmo a mais jovem e bela”, por
católicas (Cf. VAINFAS, 2011). representarem, na construção do pre-
Inicia-se, assim, especialmente conceito, a parte mais quista ou mais
no século XV em diante, com o encal- frágil da sociedade. A ligação da “fra-
ço cada vez maior da Inquisição, a dei- queza feminina” indicaria mais sinais
nição que demarcaria os denominados de sua maleabilidade com os domínios
praticantes de magia, em sua maioria, e ilusões do Diabo. Além disso, a pers-
mulheres: o lado sombrio da socieda- pectiva de que a mulher é mais crédu-
de, o qual deveria ser controlado e ex- la e propensa a impulsos emocionais,
terminado. Portanto, majoritariamente levam-na a ser a referência principal
a essas mulheres era destinada a impli- de utilização de conhecimentos de er-

• 87 •
vas e segredos para malefícios, sobre- çaria. No entanto, segundo ele, ainda
tudo por vingança aos homens. (Cf. assim esses estudos se demonstraram
SALLMANN, 1991). De acordo com demasiadamente preocupados com as
Jean-Michel Sallmann, os documentos razões da legitimação do preconceito
inquisitórios demonstram a feitiçaria e não se atentaram aos signiicados
como uma guerra dos sexos, a qual de simbólicos dos praticantes de magia.
um lado, encontra-se a mulher agres- As documentações, em sua maioria de-
siva e, de outro, o homem ameaçado positárias da perspectiva da Inquisição,
em sua capacidade de reprodução, deiniram os olhares, inclusive de di-
visto que cabia a feiticeira os dons de versos intelectuais, acerca da constru-
privar os homens de seu “membro vi- ção simbólica sobre a feitiçaria em seus
ril” (SALLMANN, 1991, p. 522), uma diversos âmbitos; até mesmo entre os
implícita alusão ao domínio masculino pensadores do período da revolução
pela representação simbólica do falo. cientíica do século XIX, que, ao deter-
De qualquer maneira, foi pelo minarem a imagem desses praticantes,
intenso estudo dedicado a essas per- o faziam sob as pesadas adjetivações
seguições que Carlo Ginzburg se pro- dos perseguidores (Cf. GINZBURG,
pôs a uma pesquisa mais aprofundada 1991). Neste caso é possível citar o
sobre o tema: compreender, além das próprio Michelet, que muito embora
visões pejorativas dos perseguidores, tenha se inluenciado do romantismo
também as atividades e comportamen- europeu (fator digno de ser analisado
tos dos perseguidos, induzindo a uma na característica literária de seus escri-
investigação de suas crenças. Para este tos), a tentativa de reconstruir e valori-
historiador, se de um lado, a tentativa zar a igura da feiticeira está sustentada
de se fazer uma história “dos outros”, no misticismo criado pelos inquisido-
muitas vezes esquecidos na historio- res e suas descrições dessa personagem
graia “dentre eles, os estudos femi- em sua relação com o demônio.
nistas” contribuiu para a construção Seguindo as investigações de
de um diálogo frutífero com métodos Ginzburg, as falas dos perseguidos,
interpretativos dos antropólogos e a muitos sob tortura, denotaram exa-
abertura para pesquisas sobre campos tamente aquilo que o imaginário do
até então nebulosos para a área aca- medo quis determinar e que funda-
dêmica; por outro lado, as críticas ao mentou a existência dos sabás: práticas
progresso tecnológico, ao capitalismo de canibalismo com crianças, cópulas
e a maneira como este arruinou outras com o Diabo e banquetes noturnos;
culturas também inluenciou para os visões que, antes de se cristalizarem na
avanços na chamada história da feiti- igura dos feiticeiros, era destinada aos

• 88 •
demais marginalizados sociais: judeus e sabás nos mais diversos relatos; já to-
leprosos. talmente contaminados da visão maca-
Com a descoberta de novas do- bra. (Cf. GINZBURG, 1991).
cumentações, como a dos benandanti Embora a maioria das pesqui-
(“andarilhos do bem”) de Friul, na Itá- sas sobre a construção marginalizada
lia dos séculos XVI e XVII, os quais das praticantes de magia seja realizada
se denominavam caçadores de bruxas sobre a Idade Média em diante, faz-
e batalhadores noturnos, também eles -se necessário salientar que ainda na
foram correspondidos com as práticas antiguidade uma visão pejorativa foi
do sobrenatural e acusados pelo crime. também determinante para a caracte-
Porém, foi por meio de suas falas que rização dessas personagens. Assim é o
se descobriu uma série de interligações caso da feiticeira Medeia - esse misto
dos cultos com o xamanismo - práticas de mulher, poder e magia, que mesmo
e crenças ancestrais, ainda de períodos hodiernamente nos causa inquietações
pré-históricos e, posteriormente, de re- por ter matado seus próprios ilhos em
lação com culturas asiáticas e do orien- vingança à traição de seu amante Jasão
te próximo na antiguidade de maneira na tragédia grega Medeia de Eurípides
geral. Segundo Ginzburg, essas ideias (431 a. C.). Segundo Olga Rinne, estu-
inluenciaram a pesquisa de estudiosos diosa dos mitos de Medeia (Cf. RIN-
como Murray que deiniu a relação en- NE, 1999), nas crenças mais antigas,
tre esses ritos da feitiçaria com crenças essa igura dramática era relacionada à
antigas ligadas à fertilidade dos campos - Grande Deusa -, à qual se integravam
e o poder destinado à natureza. Essa as deusas do Olimpo: Hera, Afrodite,
tese, posteriormente criticada, não Atenas, e ainda, Hécate - representante
conseguiu, de acordo com Ginzburg, da feitiçaria para os poetas. No perío-
delimitar em que ponto se encontra- do matrifocal, essas deusas, bem como
riam os extratos mais antigos e onde seus dons do desejo, da renovação, do
estariam deinidas as apropriações. conselho e da cura, conjugavam-se na
Mas, de qualquer forma, auxiliou na igura dessa única divindade maior, cuja
compreensão da existência de elemen- função era proteger e guiar os mortais.
tos xamânicos da relação dos vivos e Com a existência de sacerdotisas ao
do culto aos mortos, dos voos mágicos culto à Grande Deusa - como a própria
noturnos, dos rituais de transmutações Medeia - buscava-se manter um eter-
de animais. A questão é que, conforme no ciclo de vida, morte e renascimento
a perseguição da feitiçaria se extinguia, por meio de magias e sacrifícios rituais
desaparecia também a existência dos feitos com animais e homens. Com o

• 89 •
surgimento dos deuses masculinos na vez que deter esses saberes aliados aos
teogonia grega, as deusas foram aos “encantamentos mágicos” signiicava
poucos perdendo sua força simbólica. obter inluência e domínio. Há, dessa
Além disso, com o século V a. forma, um debate crítico na relação do
C., período da escrita de Eurípides, o conhecimento e da soberania que com
homem começava a ser a medida de ele se adquire. Em outras palavras, o
todas as coisas. O logos, ou seja, a teatro trágico “cuja realização se con-
razão, passava a ser estimada e é por cretizou no período clássico grego”
esse aspecto que o tragediógrafo cons- se determinou principalmente por um
truiu a personagem Medeia: em um âmbito ilosóico e político com o de-
período histórico de supervalorização senvolvimento da polis e dos interesses
da civilização helênica, da política, das do Estado. Nesse sentido, esse mesmo
deinições ilosóicas, da moral e da teatro foi igualmente responsável pela
ética. Sacrifícios humanos passaram a construção negativa da imagem socio-
ser vistos como condutas hediondas cultural da mulher feiticeira.
e injustiicáveis. Nestes termos, não Também o Brasil se viu rodeado
há uma defesa explícita da mulher, na desse embate, mas agora com a ima-
peça de Eurípides. Sua força não se en- gem de curandeiras e benzedeiras - tão
contra em uma ideia positiva da igura bem identiicadas, por exemplo, com
feminina estrangeira, destemida e inde- as praticantes de cultos afro-brasilei-
pendente - diferentemente das mulhe- ros, como o candomblé e a umbanda
res de Atenas; as gregas civilizadas que, nas crenças religiosas ou com a cultura
por isso mesmo deveriam ser submis- indígena e a lora medicinal brasileira.
sas e aceitar o seu destino (Cf. PUGA, Segundo Del Priore, o próprio corpo
2009). Segundo Maria Regina Candido, feminino era visto com temor e mis-
há, inclusive, uma denúncia presente ticismo, uma vez desconhecido pelos
na tragédia: a sophia de Medeia po- portugueses erradicados na colônia,
deria simbolizar tanto um auxílio para horrorizados com a menstruação (Cf.
curar doenças femininas, quanto para DEL PRIORE, 1997). Da mesma for-
envenenar inimigos por vingança indi- ma, a falta de médicos no Brasil da
vidual (Cf. CANDIDO, 2001). época instigava ainda mais a presença
Por não se tratar apenas de uma dessas curandeiras e benzedeiras, por
história da passionalidade exacerbada vezes as únicas oportunidades de se
de uma mulher é que, com sua tragé- conseguir tratamento. Não raro, a pro-
dia, Eurípides propõe questionamen- cura do fervor religioso, a Igreja bus-
tos sobre o perigo de se expor sabe- cava controlar as práticas populares,
res especíicos e a utilização de ervas sugerindo que as curandeiras fossem
a essas representantes femininas, uma “substituídas por Nossa Senhora”(-

• 90 •
DEL PRIORE, 1997, p. 91), e, o mais MICHELET, Jules. A Feiticeira. São Paulo: Aquariana,
2003.
instigante é notar que os próprios ritos
foram apropriando rezas católicas à RINNE, Olga. Medéia: o direito à ira e ao ciúme. 9. ed.
São Paulo: Cultrix, 1999.
“virgem Maria”.
Para ins de considerações inais SALLMANN, Jean-Michel. Feiticeira. In: DUBY, Ge-
orge; PERROT, Michelle (Orgs). História das Mulhe-
e maiores indicações sobre o tema da res - Do Renascimento à Idade Moderna. 3 Vol. Porto:
feitiçaria, o ilósofo italiano Umberto Edições Afrontamento, São Paulo: EBRADIL, 1991, p.
517-533.
Eco faz diversas referências da repre-
sentação da bruxa em obras de arte li- PUGA, Dolores. Pode ser a Gota D’água: em cena a tra-
gédia brasileira da década de 1970. 2009. 293 f. Disser-
terárias e imagéticas ao longo da histó- tação (Mestrado em História) - Programa de Pós-Gradu-
ria, construindo relexões, não apenas ação em História, Universidade Federal de Uberlândia,
Uberlândia, 2009.
do imaginário sobre essa personagem,
mas também do horror e da feiura •
nela circunscritos, ao passar, desde a
imagem das feiticeiras de Macbeth de Butler, Judith
Shakespeare, até o simbolismo pre-
sente nas bruxas de Walt Disney. (Cf. (24 de febrero de 1956, Cleve-
ECO, 2007). land, Ohio, EEUU). Bachelor of Arts
en Yale University, Summa cum laude
Dolores Puga Alves de Sousa en Filosofía (1978) y Doctora, también
en Filosofía, por la misma universidad
Referências e sugestões de leitura
(1985) con una tesis que años más tar-
CANDIDO, Maria Regina. O saber mágico de Medéia.
de publicó ampliada como Subjects of
Revista Mirabilia - Revista Eletrônica de História Antiga Desire (1999). Alcanzó reconocimien-
e Medieval. Dezembro 2001. Disponível em: <http://
www.revistamirabilia.com/Numeros/Num1/medeia. to internacional al dar fundamento
html>. Acesso em: 01 jul. 2009. ilosóico a la teoría queer en Gender
DEL PRIORE, Mary. Magia e Medicina na colônia: o Trouble (1989), si bien su propuesta
corpo feminino. In: BASSANEZI, Carla; DEL PRIORE, excede esos límites e incide en espa-
Mary (Orgs). História das Mulheres no Brasil. São Paulo:
Contexto, 1997, p. 78-114. cios teóricos más amplios. Bosquejar
ECO, Umberto. Bruxaria, satanismo, sadismo. In: Histó-
sus aportes, aún en desarrollo, en un
ria da Feiura. Rio de Janeiro: Record, 2007, p. 202-239. espacio tan reducido me obliga a trazar
GINZBURG, Carlo. História Noturna  Decifrando o sólo algunas líneas conceptuales bási-
Sabá. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. cas. En principio, Butler apela al giro
LIMA, Vivi Fernandes de; VILAÇA, Fabiano. Ronaldo lingüístico y se inscribe en una tradi-
Vainfas (entrevista). Revista de História. Fevereiro de 201 ción ilosóica antiilustrada. Adopta
Disponível em: < http://www.revistadehistoria.com.br/
secao/entrevista/ronaldo-vainfas>. Acesso em: 04 ago. la dialéctica hegeliana, no en sentido
2013.
metafísico, sino retóricamente. Su es-

• 91 •
trategia es interesante: se distancia del material por la cultura. Si no hay sexo
emotivismo y de las posturas feminis- natural, tampoco hay género: ambos
tas que considera naïve (Chodorow, son constructos culturales. Sobre estas
Gilligan) tanto como de la tradición bases, Butler elabora su dislocación de
ilustrada (Rawls, Habermas y Benha- las categorías con las que pensamos,
bib). Partiendo de Hegel y Nietzsche, conceptualizamos y vivimos nuestra
recupera aspectos del psicoanálisis de identidad, que entiende como un con-
Freud, Lacan e Irigaray y fusiona apor- junto de identiicaciones. Extiende
tes de la ilosofía del lenguaje anglófo- su análisis a otros binarismos como
na (Austin, Searle) y francesa (Deluze, cuerpo / alma [mente]. Si el cuerpo es
Derrida y Foucault). Aborda proble- “Otro”, el “Yo”masculino se cree un
mas vinculados al cuerpo, que remi- fenómeno no corpóreo que reprime,
ten a la fenomenología existencialista niega o proyecta un cuerpo al Otro-
(Beauvoir, Merleau-Ponty y Sartre). En -mujer, Otro-negro, Otro-minoría ét-
menor medida reivindica su iliación nica o sexual; el cuerpo negado retorna
feminista, aunque retoma a teóricas entonces como existencia alienada. A
tales como Rich, de Lauretis, Wittig o partir de trabajos de Wittig y Foucault,
Fraser, con quien polemiza. En Gender desarrolla la idea de apropiación del
Trouble desafía la categorización bina- sexo-género, en tanto la diferencia ana-
ria varón / mujer señalando la imposi- tómica no precede sus interpretaciones
bilidad de inscripción discursiva de se- culturales, sino que, por el contrario, la
res humanos que no se identiican con diferencia en sí misma ya es una inter-
uno de esos polos. Denuncia cómo el pretación cultural que descansa sobre
sexo-género constituye una institución supuestos normativos naturalizados.
de la diferencia reiicada que excluye Desafía así, los modos tradicionales en
como abyectos (Kristeva) a quienes que “identidad”, “sujeto” y “materia”
no se reconocen qua varones o muje- han sido entendidos históricamen-
res, base del estatus de sujeto. Gracias te por la ilosofía y por el feminismo.
a que las diferencias pueden multipli- El entretejido cuerpo-mundo cultu-
carse y referirse unas a otras, radicaliza ral se lleva a cabo performativamente
su hipótesis de que los sexos no tienen como producto de la fantasía indivi-
una base ontológica binaria. En Bodies dual y colectiva: No hay identidad de
that Matter (1993) deconstruye la noci- género y por fuera de sus expresiones
ón de cuerpo y de materia, fundamen- performativas sólo hay disciplinamien-
to legitimador del dimorismo sexual, to heterosexual del deseo. En Merely
y rechaza la categoría “género” como Cultural (1997), examina la relación
impuesto a la supericie del cuerpo entre ciudadanía, derechos e identidad

• 92 •
sexual y se pregunta cómo se organiza ne al deseo según aquello de lo que se
el dispositivo normalizador de la iden- carece; en la Etica, de Espinoza, que lo
tidad. Propone adoptar sexo-géneros considera esencia del hombre; y en la
paródicos para denunciar el disciplina- Fenomenología de Hegel, en el pasa-
miento de género, que es el efecto más je de la dialéctica del amo y el siervo,
productivo del poder que caliica a los como deseo de reconocimiento. Butler
cuerpos de por vida, inscribiéndolos en examina cómo el disciplinamiento del
el dominio de la inteligibilidad cultural. deseo nos constituye en quienes so-
Rompe así las determinaciones discur- mos, por lo que lo deine como pro-
sivas binarias y alienta la proliferación ductor de su objeto, rompiendo con la
paródica de los sexos / géneros / su- metafísica de la sustancia. En The Psy-
jetos / deseos en cuerpos dinámicos e chic Life of Power retoma esa idea y
inconstantes, productos de la libertad. concluye que el deseo no es ni errático
En Excitable Speech (1997), The Psy- ni ciego, sino que siempre es deseo de
chic Life of Power (1997) y “What is algo deinido, lo que identiica como
Critique?” (2000), enfatiza el potencial intencionalidad del deseo, origen del
subversivo de las identidades, que en- Yo que se muestra en el habla. Como
tiende como inestables y sin reconoci- sujeto lingüístico, se revela en la auto-
miento, como sucede con quienes son referencia como un “Yo” que emerge
“producidos” como “inferiores”: las creado y descubierto por una expresi-
mujeres, los judíos, los “negros”, lxs ón concreta del deseo, que es también
queer, y propone abandonar identida- conocimiento, porque punto de vista y
des coherentes y estables. Como con- deseo son lo mismo. Excitable Speech
secuencia subversiva, las identidades parte de la concepción foucaultiana de
paródicas desafían las posiciones de que sexo y poder son coextensivos y
inferioridad y exclusión que consoli- que los discursos hegemónicos infor-
dan las narrativas hegemónicas que ha- man cuerpos binariamente sexuados
cen visibles a los sujetos qua abyectos. como efecto violento del poder. La
“Desire” (1995) y Subjects of Desire política de la performatividad presu-
(1999) tratan la relación entre ilosofía pone así el poder iterativo del discurso
y deseo, al que siempre ha entendido para producir el fenómeno del sexo bi-
como “lo Otro” de la razón. Butler nario al que regula y constriñe. El po-
concluye que esa negación del deseo es der presiona externamente al sujeto, lo
una modalidad de deseo que “produ- subordina y lo conforma en términos
ce” ciertas personalidades ilosóicas. de existencia y trayectoria de su deseo.
Identiica tres hitos: el tratamiento de De ello depende el sujeto de un dis-
Platón en el Banquete, donde se dei- curso que nunca ha elegido, pero que

• 93 •
paradójicamente es origen y sostén de como miembros de tal comunidad. Si
su agencia a partir de un giro trópico. el deseo es una estructura polivalente,
Es decir, el poder constituyente del su- el movimiento que establece identidad
jeto gira sobre sí en una función tro- es coextensivo con el mundo y el self
pológica que funda agencia. Habilitar sólo se encuentra a sí mismo a través
agencia, implica partir de un “clivaje de su encuentro con la alteridad y con
pasional”(passionate attachment), ma- la diferencia. La construcción de la
niobra que queda claramente analizada propia identidad exige del encuentro
en Antigonas´s Claim (2000) y artícu- con la alteridad. Por tanto, la toma de
los aines. Antígona habla en el espacio conciencia de que la alteridad está en
público y en la toma de la palabra, en la identidad y viceversa la obliga a des-
su apropiación del discurso, se inscribe cartar la identidad como auto-idéntica,
como sujeto-agente de su propio deseo coherente e individual, ya que el sujeto
de dar sepultura honorable a su herma- se reconoce como constituido por de-
no. Habla desde un lugar que antes no seos que lo exceden, de los que incluso
existía en el orden establecido; desde no puede hablar pero que igualmente
fuera del discurso hegemónico fuerza conforman su identidad. Si bien el de-
la ley con un lenguaje de soberanía que, seo vertebra gran parte de sus obras,
paradójicamente, es origen y sostén de en las últimas Butler da muestras de
su agencia. Produce así una esfera pú- deseo de convivencia. Sobre todo en
blica nueva en la que se hace audible su Giving an Account of Oneself (2005),
voz de mujer. Parting Ways: Jewishness and the Cri-
Tras la caída de las Torres Ge- tique of Zionism (2012), Disposses-
melas (2001), los intereses de Butler se sion: The Performative in the Political
amplían a zonas vinculadas a la vulne- Dispossession: Conversations with
rabilidad de la vida y a la responsabi- Judith Butler (2013) y algunos textos
lidad. Subraya que sólo en y a través previos aines como Precarious life
de una comunidad el sujeto puede (2004) y Frames of War (2009), Butler
constituirse y adquirir la identidad que formula problemas tradicionalmen-
desea y busca. En otras palabras, sólo te abordados por la ilosofía moral,
puede alcanzar una cierta identidad preguntándose si las cuestiones mo-
en la comunidad que le brinda reco- rales surgen en el contexto de las re-
nocimiento en tanto no es un “indi- laciones sociales, si cambian según el
viduo”aislado sino un miembro de un contexto, si son inherentes al contex-
grupo al que “pertenece”. Esto hace to. Basándose en Adorno, responde
que se alcance el auto-conocimien- que la moral siempre surge cuando las
to gracias a otros que nos conirman normas de comportamiento dejan de

• 94 •
ser obvias e indiscutidas en la vida de y signiicarla continuamente a la espe-
una comunidad. En suma, se pregun- ra de sus próximos textos. Por ahora,
ta por las condiciones de emergencia toda conclusión sobre su obra es me-
de las cuestiones morales, para airmar ramente precaria.
que tales preguntas surgen cuando un
cierto ethos colectivo ha perdido auto- Maria Luisa Femenias
ridad. Subraya así el carácter histórico y
cambiante de la indagación moral que Referencias y indicaciones
exige siempre la apropiación vital de
BURGOS, E. Qué cuenta como una vida. La pregunta
un Yo. Retoma la cuestión foucaultina por la libertad en Judith Butler, Madrid, Mínimo Trán-
sito, 2008.
de la confesión y sus dos modalidades:
como artiicio del poder para dominar CASALE, R. y C. Chiacchio, Máscaras del Deseo, Bue-
nos Aires, Catálogos, 2009.
y someter la conciencia y como un acto
positivo que pone en palabras la ver- CHAMBERS, S. y T. Carver, Judith Butler and Political
heory, London, Routledge, 2008.
dad sobre sí mismo. Y si su verdad se
vincula con la identidad judía, rechaza FEMENÍAS, M. L. Judith Butler, una introducción a su
lectura, Buenos Aires, Catálogos, 2003.
como Arendt el discurso del sionismo.
En Parting Ways y en un complejo SALIH, S. Judith Butler: Critical hinking, London-
-New York, Routledge, 2002.
entramado de artículos y debates pú-
blicos, su punto de mira conceptual
inaugura nuevas deiniciones de Suje-
to. Deiende, por un lado, la prioridad
de la convivencia que obliga a cada
quien a resolver escenas ambiguas que
lo ligan indisolublemente a discursos
hegemónicos perturbadores. Por otro,
a dar respuesta a la pregunta: ¿Qui-
én eres? “tomada de Cavarero” y que
pone en conjunción tanto la pregunta
formulada como la multiplicidad de
respuestas posibles. Estas mutaciones
del pensamiento butleriano abren am-
plios juegos de convergencias y diver-
gencias conceptuales que recorren los
espectros de su propio pensamiento.
En tanto se encuentra en elaboración,
no hay cierre deinitivo; hay que leerla

• 95 •
Capitalismo Gore

O termo capitalismo gore se


refere à re-interpretação da econo-
mia hegemônica e global nos espaços
(geograicamente) fronteiriços e/ou
precarizados economicamente. O ter-
mo gore, emprestado do cinema, faz
referência à extrema violência. Então,
por capitalismo gore nos referimos
ao derramamento de sangue explíci-
to e injustiicado, preço que o Tercei-
ro Mundo paga ao seguir as, cada vez
mais exigentes, lógicas do capitalismo
neocolonial; a enorme porcentagem de
vísceras e desmembramentos, frequen-
temente misturados ao crime organiza-
do; a divisão binária do gênero e aos
usos predatórios dos corpos, tudo isso
mediante a violência explícita como
ferramenta de necroempoderamento.
Denominamos necroempoderamen-
to aos processos que transformam
contextos e/ou situações de vulnera-
bilidade e/ou subalternidade em pos-
sibilidade de ação e autopoder, desde
prácticas distópicas e autoairmação
perversa alcançada através de práticas
violentas. Ao falar de capitalismo gore
nos referimos a uma transvaloração de
práticas que se levam a cabo de forma
mais visível nos territórios fronteiri-
ços, onde cabe a siguinte pergunta:
Que formas convergentes de estraté-
gia estão desenvolvendo os subalter-
nos-marginalizados […] sob as forças
transnacionalizadoras do Primeiro

• 96 •
Mundo? (SANDOVAL 2004, p.81). In- necropolítica. Propomos essa analogia
felizmente, muitas das estratégias para entre o endriago como personagem
enfrentar o Primeiro Mundo ou apro- literário que pertence à metáfora co-
ximar-se dele são formas ultra-violen- lonial sobre os Outros, os não acei-
tas para conseguir capital: práticas de táveis, os inimigos e as subjetividades
violência extrema. O capitalismo gore capitalísticas e violentas representadas
é aquele que se embasa na economia pelos criminosos mexicanos. Assim o
do crime organizado e desorganizado, fazemos porque é fundamental con-
que participa do narcotráico transna- siderar que a construção do endriago
cional, da rentabildade da norte e da se baseou numa ótica colonialista, que
construção sexista dos gêneros. Diante segue presente em muitos territórios
dessa ordem de ideias é preciso se per- do planeta considerados como ex-co-
guntar: Que tipo de sujeitos são resul- lonias, recaindo sobre as subjetividades
tantes dessa reinterpretação e aceitação capitalísticas terceiro-mundistas, por
do neoliberalismo extremo advindo do meio de uma recolonização econô-
capitalismo gore? Os endriagos. For- mica, inanciada mediante demandas
mulamos o termo endriago para fa- de produção e hiperconsumo global,
lar dessas subjetividades capitalísticas criando novos sujeitos ultra-violentos
(GUATTARI e ROLNIK, 2006), pen- e destruidores, que conformam as ilas
sando na pertinência da tese de Mary da precariedade gore e do narcotráico,
Louise Pratt, quem airma que o mun- como um dos seus principais dispositi-
do contemporâneo está governado vos. Os sujeitos endriagos surgem num
pelo retorno dos monstros (PRATT, contexto especíico: o pós-fordismo e,
2002, p.1). A igura do endriago ad- mediante essa análise, podemos traçar
vém da literatura, aparece no livro VII uma rápida genealogia para explicar o
de Amadís de Gaula. É um monstro, vínculo entre pobreza e violência, en-
cruza bestial de homem, hidra e dra- tre o nascimiento de sujeitos endria-
gão, dotado de elementos defensivos e gos e o capitalismo gore. O cotidiano
ofensivos suicientes para provocar o desses sujeitos é “[…] a justaposição
temor em qualquer adversário. Sua for- realista da proliferação de mercadorias
ça é tal que a ilha que habita se torna e exclusão do consumo; [são] contem-
uma paisagem desabitada, uma espé- porâneo[s] da combinação de um nú-
cie de inferno terrenal no qual só têm mero crescente de necessidades com a
acesso cavaleiros cujo heroísmo ronda crescente falta de recursos básicos por
os limites da loucura e cuja descrição uma parte importante da população”
se assemelha aos terrotórios fronteiri- (LIPOVETSKY 2007, p.181). Esse
ços contemporâneos assediados pela coninamento ao subconsumo faz com

• 97 •
que esses sujeitos decidam fazer uso mercado escape à violência, seja essa
da violência como ferramenta de tra- apresentada como mercadoria com va-
balho, de empoderamento e aquisição lor simbólico agregado, ou como fer-
de capital. Devido a fatores como a ramenta de empoderamento distópico,
ascensão do hiper-consumismo como já que são os sujeitos endriagos os que
horizonte do sentido e socialização mostram a “outra face” do consumo
nas sociedades capitalistas contempo- da violência; estreitando as margens
râneas, o uso da violência frontal se entre o poder de consumo e o nível/
poder aquisitivo conseguido através do
populariza cada vez mais entre as po-
uso dessa violência como ferramenta
pulações empobrecidas/miseráveis e
de trabalho. Já que tudo se uniica atra-
é considerada, em muitos casos, como
vés do consumo, pode-se interpretá-lo
uma resposta ao meio, à “desviriliza-
como a constatação da identidade, con-
ção” que pesa sobre muitos homens,
sagração através da compra e a reair-
dada a crescente precarização laboral e mação de um status, já não social, mas
a incapacidade de ocuparem, de modo individual. O consumo como mediador
legítimo, seu papel de provedores. É da verdadeira vida dentro da lógica fe-
necessário clariicar que não só o uso roz do neoliberalismo. Entendemos os
da violência se populariza, mas tam- sujeitos endriagos como um conjunto
bém seu consumo. Dessa maneira, esse de indivíduos que circunscrevem uma
uso desmedido da força se converte subjetividade capitalística, iltrada pe-
não só em ferramenta de trabalho, mas las condições econômicas globalmente
em mercadoria que se oferece a distin- precarizadas, junto a um agenciamento
tos nichos de mercado; por exemplo, subjetivo, desde práticas ultra-violentas
às classes médias e privilegiadas, atra- que incorporam de forma limítrofe e
vés da violência decorativa., fenôme- autoreferencial “aos sistemas de cone-
no que consiste em oferecer armas e xão direta entre as grandes máquinas
outros dispositivos utilizados em várias produtivas, as grandes máquinas de
formas de violência, transformados em controle social e as instâncias psíqui-
objetos de decoração como a AK-47 cas que deinem a maneira de perceber
o mundo” (GUATTARI e ROLNIK
transformada em lâmpada, granadas
2006, p.41), bem como o cumprimen-
de mão transformadas em enfeites de
to das demandas de gênero prescritas
Natal, tanques de guerra comercializa-
pela masculinidade hegemônica.
dos como veículos civis, por exemplo:
O endriago, como característica
os populares Hummer etc.
identitária, é anômalo e transgressor.
Esse fenômeno acaba ocasio-
Combina a lógica da carência (pobreza,
nando que nenhum setor ou nicho de

• 98 •
fracasso, insatisfação) e a lógica do ex- propõe-se o termo capitalismo gore
cesso, lógica da frustração e a lógica do para enunciar essa economia da violên-
heroísmo, pulsão de ódio e estrategia cia extrema, que conecta as demandas
utilitária. As subjetividades endriagas da masculinidade violenta, do sistema
nos mostram que “os corpos inseridos econômico neoliberal e do discurso
em processos sociais como a circula- neocolonial. O capitalismo gore como
ção do capital variável nunca devem se taxonomia discursiva pode ser um
considerar dóceis ou passivos” (HAR- ponto de partida para enunciar uma
VEY 2000, p.141). Isso é fundamental realidade que atinge dolorosamente a
para analisar o papel do crime organi- maioria dos países latinoamericanos
zado, o narco-estado mexicano e suas (ainda que não exclusivamente).
conexões com o capitalismo gore. As-
sim, o narcotráico no México e a cria- Sayak Valencia Triana
ção de uma precariedade gore podem
ser lidos como produto das demandas Referências bibliográicas
neoliberais, numa sociedade cuja eco- GUATTARI, F.; ROLNIK, S. Micropolítica. Cartografí-
nomia política é disfuncional, que tem as del deseo. Madrid: Traicantes de Sueños, 2006.

como cenário expandido o contexto HARVEY, D. Espacios de esperanza. Madrid: Akal,


socioeconômico atual, onde reina a 2000.

precarização econômica (que resulta LIPOVETSKY, G. La felicidad paradójica. Ensayo so-


da precariedade existencial) e que der- bre la sociedad hiperconsumista. Barcelona: Anagrama,
2007.
ruba, radicalmente, os mitos de pro-
gresso que o discurso do iluminismo e PRATT, M. L. “Globalización, Desmodernización y el
Retorno de los Monstruos”. Tercer Encuentro de Perfor-
do humanismo haviam proposto como mance y Política. Universidad Católica. Lima, 2002.
possíveis vias de acesso à “modernida-
SANDOVAL, C. “Nuevas ciencias. Feminismo Cyborg
de”. O narcotráico como dispositivo y metodología de los oprimidos.” en: AA.VV. Otras Ina-
de controle nos mostra, ainda, a inexo- propiables. Feminismos desde las fronteras. Madrid: Tra-
icantes de Sueños, 2004
rável lógica que os corruptos utilizam
para se justiicar, baseada em servir ao •
melhor licitante, seja o empresário, o
delinquente ou ambos. Sabemos que Castração
se corromper não é uma decisão difícil
quando o panorama que se vislumbra Castração, por si só, já é uma
é só de perdas e de atraso econômico. palavra forte. Remete imediatamente
O que se torna difícil nesses casos é a algo cruel, punitivo e extremamente
resistir à tentação consumista. A estru- violento. As relações de gênero, por
tura da distopia é complexa, portanto, sua vez e coincidentemente, comparti-

• 99 •
lham com ela estas mesmas caracterís- rais, onde então o organismo estaria
ticas: foram (e são ainda, infelizmente) encarregado de administrar, biológi-
cruéis, punitivas e violentas. Ao longo ca e isiologicamente, os elementos
do tempo, as mulheres registram uma constitutivos da identidade. Aliás, estes
trajetória de abusos e privações que eram os dois “caminhos” possíveis,
envergonham nossa história e ainda o que condiz muito com o contexto
reverberam avassaladoramente, en- social e ideológico ao qual Freud era
quanto os estudos sobre gênero e as contemporâneo, mas foi algo que se
militâncias feministas lutam para expor manteve fortemente implícito mesmo
à sociedade e para combater tais práti- após o posterior desenvolvimento des-
cas e ideologias, pautadas na intolerân- tas ideias iniciais, quando então o foco
cia e na ignorância. deixou de ser o corpo e passou a se
Freud conceituou e abordou concentrar nos fatores interacionais e
profundamente a questão da castração psíquicos.
no início do século passado, em sua O autor, então, rapidamente
obra “Um caso de histeria, três ensaios percebeu que haveria muito mais en-
sobre a teoria da sexualidade e outros volvido ali do que pensava a princípio.
trabalhos” (FREUD, 2006). Nela, uti- Freud já tinha uma boa clientela em
lizou como metáfora a obra “Édipo seu consultório quando passou a ques-
Rei”, do dramaturgo grego Sófocles, tionar-se acerca de que papel poderia
escrita por volta de 427 a. C. Assim, ter algum evento traumático no desen-
ele elaborou um de se mais conheci- volvimento de problemas de ordem
dos e importantes conceitos, o “com- psicológica. Um destes “problemas”,
plexo de Édipo”, o qual se tornou sua na época, era a homossexualidade.
base fundamental para compreender o Freud acreditava que meninos expos-
desenvolvimento psíquico e sexual da tos a traumas, ou então seduzidos por
personalidade. Como parte dele, surge algum adulto, poderiam mais tarde, e
então o chamado “complexo de castra- em decorrência disto, apresentar a ho-
ção”, e também outro construto im- mossexualidade como distúrbio resul-
portante para a abordagem crítica sob tante.
o ponto de vista do gênero, a “inveja Porém, analisando sua própria
do pênis”. experiência clínica, ele percebeu que
Freud, neurologista por for- eram muito variáveis e inconstantes os
mação, incialmente acreditava que papéis que tais eventos exerciam em
a formação psicológica de homens seus pacientes. Notou que nem todos
e mulheres se formaria baseada nos que os experienciavam traumas torna-
seus respectivos determinantes natu- vam-se homossexuais, bem como havia

• 100 •
homossexuais que nunca haviam pas- tindo de uma relação quase simbiótica
sado por tais experiências. Isto repre- com a mãe (em função, principalmente,
sentou uma quebra de paradigmas para das necessidades de sobrevivência), até
o ávido cientista, quando então a pri- a aquisição do controle dos próprios
mazia dos fatores biológicos e ambien- esfíncteres, o inconsciente, em ambos
tais abriu caminho para a consideração os sexos, vai registrando as experiên-
da mente como a principal responsável cias infantis - as quais se dão, funda-
pelo desenvolvimento psicológico. A mentalmente, com a igura materna.
partir deste processo relexivo, Freud Então, a partir instauração do comple-
chegou ao que, provavelmente, foi (e xo de Édipo, meninos e meninas se-
ainda é) o mais importante conceito de guem por caminhos desenvolvimentais
sua obra: o inconsciente. distintos, porém com um ponto em
Este advento adquire importân- comum: o complexo de castração. O
cia aqui, neste texto, porque, mesmo inconsciente, neste ponto, mostra-se
sendo um marco fundamental na histó- em ebulição, produzindo as fantasias
ria da psicologia, na ordem da etiologia que irão direcionar cada um dos sexos
da personalidade (e de seus distúrbios) à produção de sua subjetividade.
Freud “transferiu” ao inconsciente a Para os meninos, tais fantasias
responsabilidade que era previamente dizem respeito à chegada do pai na
do organismo. Ou seja, mesmo que relação mãe-ilho enquanto um “com-
considerasse os fatores interacionais petidor” pelo amor da mãe. Ao incons-
e psicológicos, o inconsciente ainda ciente desta criança, tal pai seria como
era o grande “gestor”, com vontades um intruso, nada bem-vindo, àquela
e propósitos próprios - os quais, já por união de amor até então aparentemen-
deinição, diretamente incontroláveis, te indissolúvel e incondicional com sua
e de papel preponderante no processo mãe. Assim, com a libido (a energia
de desenvolvimento. O inconsciente, que “abastece” o inconsciente e seus
enquanto instância, adquire autonomia processos) direcionada ao próprio pê-
e protagonismo, e os processos psico- nis, uma nova fantasia inaugura-se sob
lógicos de sua ordem passam a deter- a forma do temor da castração, quando
minar as características identitárias de então o menino percebe que a mãe não
homens e mulheres, bem como seus o possui - ela está “castrada”. Então,
desvios patológicos. temendo a mesma retaliação por aque-
Assim, a formação da persona- le que “reivindica” a mãe, o menino
lidade em meninos e meninas tomam, passa a identiicar-se com esta igura
inicialmente, um mesmo rumo. Par- paterna - identiicação esta que se tor-

• 101 •
na o protótipo para todo o desenvolvi- ção social da mulher não somente da
mento da identidade masculina. sociedade na qual o autor estava in-
Já para as meninas, pode-se dizer serido, mas infelizmente também em
que o caminho é mais cruel. Ao atingir nossa própria, ainda nos dias de hoje.
seu complexo de Édipo, percebe que A mulher não-fálica é uma mulher des-
existe uma diferença crucial com rela- tituída de poder, e invejosa do poder
ção aos meninos: ela não possui pênis. varonil. Assim, amargurada pela não-a-
A angústia que isso traz ao seu incons- ceitação do lugar-comum a ela reserva-
ciente vem justamente da percepção do para assegurar sua “normalidade”,
de que ela e a mãe não possuem um ela tem sua tentativa de desconstrução
falo porque ambas foram castradas. da ordem vigente transformada em
Mas por que tal “atrocidade”? Porque, inadequação e subversão.
semelhante ao que acontece com os A dominação masculina e he-
meninos, a menina nutre inconsciente- teronormativa manteve-se através dos
mente um amor pelo pai. Como este tempos porque aos homens foi dada
amor não pode ser consumado, a natu- uma supremacia social, onde sempre
reza “extirpada” do pênis surge então foram reconhecidos como cidadãos.
como uma espécie de “punição” pelo À condição masculina foram reserva-
seu desejo proibido. Isto a faz, por dos os direitos, enquanto à feminina
conseguinte, identiicar-se com a mãe, sobraram os deveres. A história da
também castrada, para, assim, desen- humanidade foi construída tanto por
volver sua identidade feminina. eles quanto por elas, porém quase que
Esta etiologia caracteriza as mu- totalmente escrita por homens. Pos-
lheres como um ser psicológica e ana- suímos um vasto panteão de sábios,
tomicamente incompleto, podado de profetas e heróis, os quais eternamente
sua plenitude, esta apenas possível aos “salvavam” as mulheres, naturalmente
homens. Sem terem o direito a possuir indefesas e vulneráveis, que seguiam
o falo, a elas resta nutrir a denominada admirando-os e seguindo-os sob sua
“inveja do pênis”. Assim, na dinâmica sombra.
freudiana, a mulher apenas conseguiria Segundo a ótica da castração, a li-
aproximar-se da condição masculina bertação das mulheres de sua condição
quando gerar um/a ilho/a, este/a re- secundária e a reivindicação de direitos
presentando o seu falo perdido. igualitários reverbera no desnecessário
Como então desvincular a con- e no supérluo. O que necessita cons-
dição feminina para Freud e a crítica cientização é que a mulher possui um
realizada pelos estudos de gênero? Ela histórico de inúmeras castrações, seja
expressa com idelidade a representa- na sociedade, na política ou na família.

• 102 •
Os homens, como gestores e protago- los homologadores, teriam de deixar
nistas, despertariam então um desejo o lugar-comum para pertencerem ao
de equidade nas mulheres que seria ba- “lugar-nenhum”. Já que as mulheres
seado na inveja dos “postos” que eles almejariam exatamente a posição que
administrariam tão competentemente. previamente ocupavam, a eles seria
A castração da mulher na contempo- inadmissível adotarem qualquer repre-
raneidade é a negação histórica de seus sentação ligada à sujeição. Esta condi-
próprios direitos, tais como o voto, a ção acaba, muitas vezes, sendo justii-
separação conjugal, os cargos de che- cativa, por exemplo, para explosões de
ia e até a alfabetização, por exemplo. violência contra a mulher (WINCK e
Estes, por sua vez, seriam compensa- STREY, 2008).
dos por uma série de deveres “mais Finalizando, é importante lem-
importantes” e, sobretudo, naturais à brar que, mesmo com as valiosas con-
identidade feminina, tais como manter quistas do feminismo, as mulheres
a união da família (sob qualquer custo, ainda são castradas por nossa cultura
mesmo com violência ou inidelidade quase tanto quanto foram por nossa
do cônjuge), administrar as necessida- história. Enquanto a militância pelas
des da casa, ou alimentar e maternar equidades de gênero for confundida
aqueles/as sob sua responsabilidade apenas como uma rebeldia vazia de
outorgada. Elas assim não teriam, a uma causa ilegítima, não somente as
princípio, motivos para se desconten- mulheres, mas também a multiplici-
tarem como seu microcosmo pleno de dades de gêneros que existem além da
atividades fundamentais ao seio fami- dicotomia masculino-feminino estarão
liar, mesmo que às custas de sua pró- marginalizadas e subestimadas. Ainda
pria subjetividade (STREY, 2002). nos carece uma visão crítica sobre gê-
O puro e simples sentimento nero, para a desconstrução de ditames
inveja de um poder masculino, legíti- históricos à identidade feminina que, a
mo “por natureza”, por conseguinte exemplo da temática aqui tratada, fa-
levaria as mulheres a quererem desti- ziam muito mais sentido na sociedade
tuir os homens de seus papéis sociais, do início do século passado. Enquan-
políticos e familiares apenas por capri- to pessoas, independentemente do(s)
chos desnecessários. Muitos homens, gênero(s), não forem destituídas de
então, conforme comenta Trevisan papéis castratórios e de relações de
(1998), enfrentariam a denominada poder não-igualitárias, será necessária
“crise da masculinidade”. Estes, assim a conscientização de que está na pró-
(injustamente) castrados de seus fa- pria noção de “normalidade” um dos

• 103 •
pontos cruciais que ela própria se nega por receber e processar informações
a enxergar. do corpo, tornando-se o principal ór-
gão do sistema nervoso. Além de re-
Gustavo Espíndola Winck ceber e armazenar informações, é res-
ponsável por promover ações (o falar,
Referências o andar, o pegar, o comer, o controle
FREUD, Sigmund. Um caso de histeria, três ensaios so-
da temperatura corpórea, a pressão ar-
bre a teoria da sexualidade e outros trabalhos (1905). Rio terial, os batimentos cardíacos e a res-
de Janeiro: Imago, 2006.
piração). Desse modo, ele atua a partir
STREY, Marlene. Aprendendo a ser inferior: As hierar- de uma rede de controle integrada-
quias de gênero. In STREY, M; LYRA, A.; XIMENES,
L. (org.). Gênero e Questões Culturais: A Vida de Mu- mente a outros sistemas do corpo.
lheres e Homens na Cultura. Recife: Ed. Universitária da
UFPE, 2002.
O cérebro humano contém mi-
lhões de neurônios. Estes são células
TREVISAN, João. Seis balas num buraco só: A crise do
masculino. Rio de Janeiro: Record, 1998. nervosas, a partir das quais as infor-
mações entre o cérebro e o corpo são
WINCK, Gustavo; STREY, Marlene. A voz mais alta,
mas na hora certa: A naturalização na violência de gênero “trocadas”. Por meio de sinais quími-
enquanto recurso legitimado ao homem. Ártemis, 9. p.
113-133, dez. 2008.
cos e elétricos, os neurônios, que não
estão apenas localizados no cérebro,
Sugestões de leitura mas também ao longo de ramiicações
BUTLER, Judith. Gender trouble: Feminism and sub- nervosas por todo o corpo, enviam e
vertion of identity. New York: Routledge, 1999. recebem as informações, direcionan-
BUTLER, Judith. Cuerpos que importan: Sobre limites do-as à diferentes áreas do cérebro.
materiales y discursivos del “sexo”. Buenos Aires: Paidós, Anatomicamente, o cérebro é
2005.
constituído por dois hemisférios. Cada
FREUD, Sigmund. O Ego e o Id e outros trabalhos hemisfério é formado por diferentes
(1923-1925). Rio de Janeiro: Imago, 2006.
áreas, as quais estão associadas às dife-
GUIMARAES, Veridiana. A concepção freudiana da se-
xualidade infantil e as implicações da cultura e educação.
rentes ações, como o desenvolvimento
Educativa, 15 (1), p. 53-66, 2012. de raciocínio, a fala, a coordenação de
ZORNIG, Silvia Maria. As teorias sexuais infantis na atu-
movimentos, o controle muscular, o
alidade: Algumas relexões. Psicologia em Estudo, 13 (1), recebimento de estímulos da pele (sen-
p. 73-77, jan./mar. 2008.
sações de frio e calor), a visão, a audi-
ção, a memória, entre outras.

Muitos/as estudiosos/as bus-
Cérebro cam diagnosticar os comportamento
de homens e mulheres pautando suas
Biologicamente, o cérebro é análises e explicações na anatomia e
concebido como órgão responsável isiologia cerebral. Seja pela contagem

• 104 •
de neurônios ou pelo estudo especí- como o órgão responsável por todas as
ico do desenvolvimento das diferen- propensões, sentimentos e capacidades
tes áreas do cérebro, alguns/algumas (SABBATINI, 2008).
pesquisadores/as levantam hipóteses A partir de 1980, os estudos
sexistas e homofóbicas, na tentativa de sobre padrões cognitivos e comporta-
justiicar as causas pelas quais homens, mentais dos indivíduos, caracteristica-
mulheres, gays, lésbicas, transexuais mente essencialistas, ganham destaque
comportam-se de determinada forma, no cenário cientíico, trazendo em suas
e não de outra. análises as relações de poder tradicio-
Os estudos para investigar as nais. Entre esses estudos, destacam-se
possíveis distinções no funcionamen- os que buscam uma explicação genéti-
to cerebral de homens e mulheres são ca para os comportamentos e as pes-
uma prática que desperta interesse há quisas da neurociência que procuram
muito tempo; tinham, e continuam identiicar as diferenças entre os cére-
tendo, como objetivo dar sustentação bros de homens e mulheres (BEIRAS
“cientíica” para tais diferenças en- et al., 2008). Na década de 1990, as
tre os sujeitos. Conforme Sabbatini neurociências realizaram grandes avan-
(2008), os neurologistas suspeitavam ços quanto à descoberta de diferenças
da existência de diferenças morfológi- “cientiicamente comprovadas” entre
cas do cérebro desde a época da fre- os cérebros dos homens e das mulhe-
nologia, no século XIX – produzida res (SABBATINI, 2007). Conforme
pelo médico Franz Joseph Gall (1758- Kraft (2005), a chamada “moderna
1828), sendo a primeira teoria comple- neurociência” concentrou-se inicial-
ta sobre a localização das diferentes mente em dar sustentação cientíica à
funções no cérebro. De acordo com noção de ascendência masculina e aos
Laqueur (2001), acreditava-se que, por estudos sobre as diferenças do cérebro
meio de uma análise cuidadosa do for- em função do gênero.
mato da cabeça e de outros traços, po- Sabbatini (2007) airma que,
deriam ser avaliados trinta e sete (37) ao longo do tempo, para o estudo das
componentes do caráter humano, para diferenças cerebrais entre os sujeitos,
cada indivíduo. No trabalho “A anato- foram sendo desenvolvidos diferentes
mia e Fisiologia do Sistema Nervoso métodos, tais como: medidas volumé-
em Geral e do Cérebro em Particular”, tricas de regiões cerebrais, imagens por
Gall propõe que as faculdades morais e tomograia, PET-scanners e ressonân-
intelectuais do sujeito são inatas e que cia magnética, exame do cérebro de
a sua manifestação dependia da organi- pessoas falecidas, entre outros. Estes
zação do cérebro – o qual considerava têm como inalidade permitir as/aos

• 105 •
cientistas investigar esse órgão em sua de forma crucial, de seu sistema ner-
minúcia, deinindo diferenças e classi- voso. Para Ortega e Vidal (2013,), “po-
icando distintos “grupos anatomoi- rém, a ideia do sujeito cerebral é mais
siológicos” de cérebros. ampla que a de homo cerebralis ou de
As imagens produzidas a partir homem neuronal. Designa uma igura
desses adventos tecnológicos têm se antropológica – o ser humano como
popularizado e difundido entendimen- cérebro – com uma diversidade grande
tos, experiências vividas, signiicados e de inscrições sociais e imaginárias, den-
representações sobre o que é ser ho- tro e fora dos campos neurocientíicos.
mem e mulher, homossexual, heteros- [...] Nas últimas décadas este processo
sexual e transexual. As imagens falam sofreu uma verdadeira explosão, como
sobre esses sujeitos, classiicam-nos, se pode veriicar pelo aparecimento
posicionam-nos e deinem-nos. de campos como neuropolítica, neu-
Ortega e Vidal (2007) vêm tra- roteologia, neuroética, neuroeducação
zendo essa discussão na expressão neuromarketing, neuroascese, neuro-
“sujeito cerebral”. Para esses autores, fenomenologia, neuroilosoia, neuro-
o progresso dos estudos sobre o cé- economia, neuropsicanálise, neuroarte
rebro, a proliferação de suas imagens etc.”.
na mídia, a circulação de informações O entendimento de sujeito ce-
relacionadas ao funcionamento e ativi- rebral emerge no sentindo de ampliar-
dades desse órgão produzem na socie- mos algumas discussões acerca das
dade percepções de que o cérebro seria neurociências, para além de um campo
portador das propriedades, comporta- de saber com implicações sociais ou
mentos e, assim, autor das ações que que tenha impacto na sociedade, mas
caracterizam modos de ser e estar no como um campo incrustado na esfera
mundo. Seria esse o órgão responsá- social.
vel pela deinição das individualidades, Para que o sujeito conheça e
passando a ser considerado um ator entenda seu cérebro e, assim, conheça
social. a si mesmo, observamos uma ampla
Para esses autores, ao longo do produção de artefatos (livros, ilmes,
século XIX, ocorreu a transformação programas televisivos, revistas, entre
do entendimento do cérebro como lo- outros) que tem como propósito apre-
cal da alma. Assim, este passa a ser o sentar as descobertas cientíicas rela-
órgão do self. Atrelado a esse conceito cionadas a esse órgão. Podemos citar,
de sujeito cerebral, emerge também a como exemplos, dois livros da neuro-
noção do “homem neuronal”, ou seja, cientista Suzana Herculano-Houzel:
os seres humanos seriam dependentes, “O cérebro nosso de cada dia: des-

• 106 •
cobertas da neurociência sobre a vida tarefas entre os hemisférios esquerdo
cotidiana” (publicada em 2002, a obra e direito do cérebro, ela faz diferente
tem como objetivo explicar alguns as- dele. (HAUSMANN, 2005, p. 43)
pectos relacionados ao funcionamento Em programas televisivos tam-
do cérebro em situações do cotidiano) bém podemos perceber a presença de
e “Fique de bem com seu cérebro: guia saberes da neurociência, os quais vêm
prático para o bem-estar em 15 passos” distinguindo homens e mulheres em
(publicada em 2007, a obra apresenta virtude das diferenças cerebrais de cada
alternativas para potencializar a sensa- um. Estas justiicariam e apontariam o
ção de bem-estar através de achados da que cada gênero está apto para fazer
neurociência acerca do funcionamento na sociedade (MAGALHÃES, 2008).
do cérebro). O excerto abaixo – do programa Fan-
Outros livros dedicam-se a tástico – exempliica tal apontamento:
mostrar as “diferenças” existentes O modelo de corpo do cérebro
entres homens e mulheres. “Por que é feminino, se não acontecesse nada de
os homens fazem sexo e as mulheres errado todo mundo ia ser mulher [...]
fazem amor? Uma visão cientíica [e na oitava semana o tempo fecha e pinta
bem-humorada] de nossas diferen- uma chuva de hormônios, a tal da tes-
ças”, de Allam e Barbara Pease, é um tosterona, ou seja, a Ciência prova que
exemplo de artefatos, como esse, que Eva veio primeiro que Adão. (SEXO,
buscam explicar por meio de dados 2008).
da neurociência os comportamentos, A partir desses fragmentos, po-
habilidades, entre outros aspectos de demos perceber o caráter essencialista
homens e mulheres, de forma descon- desse discurso, que atribui às distinções
traída e de fácil entendimento. anatomoisiológicas entre o cérebro de
Com relação à divulgação de mulheres e homens a justiicativa das
explicações sobre as diferenças entre diferenças de comportamento, aptidão,
homens e mulheres, pautadas na neu- habilidades e padrões cognitivos, ou
rociência, podemos citar a revista de seja, as diferenças entre os gêneros são
divulgação cientíica, como Scientiic consideradas como algo dado pela na-
American Brasil. O excerto abaixo tureza, da essência do sujeito. Na me-
exempliica essa questão: dida em que o conceito de gênero air-
Homens e mulheres pensam de ma o caráter social do feminino e do
modo diferente? Há muito tempo os masculino, pretende-se afastar propo-
cientistas cognitivos dizem que sim. sições essencialistas sobre os gêneros,
Agora, dispõem de dados biológicos a ótica ica voltada para um processo,
também: quando se trata de dividir as para uma construção.

• 107 •
Para além das explicações rela- munidade cientíica, acadêmica ou dos
cionadas às diferenças comportamen- centros de pesquisa. O que percebe-
tais, aptidões e habilidades entre ho- mos é que os resultados produzidos
mens e mulheres, o cérebro também nesses estudos cientíicos também
seria o órgão que justiicaria os modos são veiculados em outros meios de in-
de os sujeitos relacionarem-se. Isso formar e comunicar, ou seja, a mídia
pode ser percebido nas publicações impressa e televisiva – conforme os
existentes em periódicos internacio- exemplos mencionados anteriormente.
nais. Assim, vão sendo construídos signii-
A primeira indicação de cor- cados sobre esse órgão. Signiicados
relações neurais para preferência de que acabam por estabelecer subjetivi-
parceiro sexual veio do estudo de au- dades e determinadas conigurações
tópsia do terceiro núcleo intersticial sociais, bem como maneiras de perce-
do hipotálamo anterior (INAH-3) de ber os corpos, as sexualidades, os sujei-
Simon LeVay (1991) onde o INAH-3 tos e a nós mesmos/as.
foi encontrado menor em homens ho-
mossexuais do que em homens presu- Joanalira Corpes Magalhães
midamente heterossexuais, e indistin- Benícia Oliveira da Silva
Paula Regina Costa Ribeiro
guíveis de mulheres presumidamente Fabiane Ferreira da Silva
heterossexuais. [...]. ( RAHMAN, 2010,
p. 1061) Referências
Esses processos de investigação
do cérebro e das sexualidades possibi- BEIRAS, Adriano et al. Sexo e gênero em revistas: uma
análise preliminar de discurso. Psicologia em Estudo, Ma-
litou-nos perceber as Ciências como o ringá, n. 1, p. 97-104, jan./mar. 2008.
campo de saber legitimado para pro-
HAUSMANN, Marcus. Questão de Simetria. Viver
dução de “verdades” para as diferentes Mente & Cérebro Scientiic American, São Paulo, n. 146,
formas de ser homem, ser mulher, de p. 40-45, mar. 2005.

viver os prazeres e desejos corporais, KRAFT, Ulrich. O poder do feminino. Viver Mente &
reiterando, de alguma forma, as teses Cérebro Scientiic American, São Paulo, n. 146, p. 46-
51, mar. 2005.
do determinismo biológico. Os saberes
cientíicos produzidos e documenta- LAQUEUR, homas. Inventando o sexo: corpo e gêne-
ro dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume Dumará,
dos, pelos diferentes campos de saber, 2001.
acabam por instituir o que deve ser dito
MAGALHÃES, Joanalira Corpes. Por que os homens
sobre o cérebro e seu funcionamento. nunca ouvem e as mulheres não sabem estacionar? Ana-
Essas formulações extrapolam lisando a rede de discursos das neurociências quanto às
questões de gênero em alguns artefatos culturais. 2008.
os espaços dos periódicos cientíicos, 84 f. Dissertação (Mestrado em Educação em Ciências).
sendo acessados por outros sujeitos, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Ale-
gre, 2008.
não somente os que compõem a co-

• 108 •
ORTEGA, Francisco; VIDAL, Fernando. Mapeamento ORTEGA, Francisco. O corpo incerto: corporeidade,
do sujeito cerebral na cultura contemporânea. Reciis, Rio tecnologias médicas e cultura contemporânea. Rio de Ja-
de Janeiro, n. 2, p. 257-261, 2007. neiro: Garamond, 2008. 256 p.

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em: http://www.globo.com/fantastico Acesso em: 16
maio 2008.
uma construção contingente e parcial,
em oposição aos saberes universais e
Sugestões de leitura totalizantes. Desse modo, a Ciência
constituir-se-á pelas interações entre
AMARAL, Jonathan Henriques do. O cérebro e a na- os diferentes pontos de vista de “su-
turalização das diferenças de gênero em um artefato de
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lanpedsul.com.br/admin/uploads/2012/Genero,_Sexua-
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MAGALHÃES, Joanalira Corpes; RIBEIRO, Paula Re-
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cias y horizontes de igualdad. Barcelona: Fundació Vidal econômicos e políticos (WORT-
i Barraquer, 2003. MANN; VEIGA-NETO, 2001). Por-

• 109 •
tanto, a Ciência não é neutra, mas se mento independente de gênero, etnia/
encontra inscrita na cultura e na histó- raça, classe, e outros marcadores dos
ria. Ela é produto da atividade humana, sujeitos e grupos sociais. Além disso,
impregnada de valores e costumes de o discurso “tradicional” sobre a Ciên-
cada época, sendo, portanto, provisó- cia, representada como a “verdade”
ria, mutável e questionável. universal e absoluta, neutra, imparcial,
A razão, a lógica, o quantitativo, desinteressada, visando o bem e o pro-
a observação, a experiência, o controle gresso da humanidade, aproxima a Ci-
e a previsibilidade, a objetividade, ten- ência moderna dos dogmas da religião,
do conceitos da física e da matemática pois seu valor universal e inquestioná-
como referenciais de rigor e exatidão vel ganha legitimidade no mundo intei-
cientíica, são aspectos que caracteriza- ro (HENNING, 2007).
ram e ainda caracterizam uma prática/ A partir das contribuições de
produção intelectual como Ciência; Michel Foucault (2004; 2008), a Ci-
logo, é considerado não Ciência tudo ência pode ser entendida como uma
o que não se adequar a esses discur- formação discursiva que institui e
sos e práticas. Essa concepção, ainda regulamenta códigos, procedimen-
dominante, tem como base o pressu- tos, normas, regras, rituais, saberes e
posto de que um método é o que vai “verdades”, que vão, constantemente,
deinir o que é a Ciência e o caminho subjetivando-nos. A Ciência dá-se na e
cientiicamente “correto” de produ- pela linguagem e na articulação entre
zir conhecimento, por meio da lógica, determinados “regimes de verdade”
da racionalização, da observação e da que determinados grupos colocam em
experimentação, tendo o espaço do funcionamento e passam a ser aceitos
laboratório como locus privilegiado de como “verdades”, que não são ixas e
investigação e produção do conheci- imutáveis, mas, sim, provisórias e his-
mento cientíico. tóricas. Para Attico Chassot (2004, p.
Assim, a objetividade, a neu- 249), “a ciência não tem dogmas. Tem
tralidade, a racionalização e a univer- algumas verdades e estas são transitó-
salidade são características do fazer rias. Há muitos conceitos que já foram
Ciência. Uma Ciência legítima é repre- ensinados como sendo a explicação
sentada como sendo “livre de valores”, para uma determinada situação e de-
autônoma, imparcial e universal, uma pois houve necessidade de se revisa-
Ciência que subjuga seu caráter huma- rem as posições, pois outro modelo
no, social, cultural e histórico. Dessa de explicação era mais apropriado”.
forma, a Ciência seria objetiva, neutra Nessa discussão, não está em jogo
e universal por constituir um conheci- a relevância ou não da produção do

• 110 •
conhecimento cientíico, mas, sim, os A crítica à Ciência tem perma-
seus efeitos de “verdade”, que produ- necido como um dos temas de discus-
zem maneiras especíicas de ver e agir são nas agendas feministas, que vem se
no mundo, fabricando as pessoas e o ampliando e se complexiicando desde
próprio mundo. a década de 1970, quando a expressão
É a partir dessas proposições “gênero e ciência” foi utilizada pela
que a Ciência pode ser entendida como primeira vez, em 1978, como título de
a “grande narrativa” que se instaura na um artigo de Evelyn Fox Keller, no
Modernidade com o caráter de verda- qual ela discutia as relações entre sub-
de legitimadora de conceitos (HEN- jetividade e o objetividade (LOPES,
NING, 2007). Ao entender a Ciência 2006). No caminho da crítica à Ciên-
como uma narrativa, constituída por cia, as feministas avançaram na denún-
relações de poder e saber, enfatiza-se cia sobre a exclusão e invisibilidade das
o papel constituidor da linguagem na mulheres no contexto da Ciência, mos-
produção dos discursos cientíicos e trando o caráter androcêntrico e sexis-
verdadeiros, na produção do que a ta que a perpassa; entraram nas discus-
Ciência pode e deve fazer, e principal- sões sobre os próprios fundamentos
mente sobre quem está autorizado a da Ciência moderna, suas teorias e
fazer Ciência. práticas, a forma como os sujeitos são
A Ciência como um construto socializados no fazer cientíico, as desi-
humano foi moldada por valores so- gualdades de gênero que constituem a
ciais e culturais que excluíram (e ainda Ciência, os preconceitos de gênero na
excluem) e invisibilizaram as mulheres seleção de objetos e análise de dados,
da produção do conhecimento. A es- a linguagem sexista e discriminatória,
trutura de gênero deiniu o Homem entre outros aspectos.
como sujeito do conhecimento. Por-
tanto, as habilidades e características Joanalira Corpes Magalhães
Benícia Oliveira da Silva
necessárias para produzir a Ciência são Paula Regina Costa Ribeiro
tidas como masculinas, das quais as Fabiane Ferreira da Silva
mulheres são “naturalmente” despro-
vidas. A Ciência dita universal é uma Referências
Ciência masculina, branca, elitista, oci-
CHASSOT, Attico. A ciência através dos tempos. 2. ed.
dental, burguesa, embora se pretenda São Paulo: Moderna, 2004.
neutra, livre de marcadores sociais, tais
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 10. ed. São
como gênero, etnia/raça, classe social, Paulo: Loyola, 2004.
geração etc..

• 111 •
______. A arqueologia do saber. 7. ed. Rio de Janeiro: dos em duas vertentes: a primeira diz
Forense-Universitária, 2008.
respeito à utilização do cinema como
HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da recurso pedagógico no ambiente es-
ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva
parcial. Cadernos Pagu, Campinas, n. 5, p. 07-41, 1995. colar e a segunda entende o cinema
HENNING, Paula Corrêa. Profanando a Ciência: relati-
como uma eicaz instância pedagógica
vizando seus saberes, questionando suas verdades. Currí- (BALESTRIN, 2009). Nesse sentido, a
culo sem Fronteiras, v. 7, n. 2, p. 158-184, jul./dez. 2007.
segunda vertente percebe a educação
LOPES, Maria Margareth. Sobre convenções em torno como um processo amplo que abrange
de argumentos de autoridade. Cadernos Pagu, Campinas,
n. 27, p. 35-61, jul./dez. 2006. não só as instituições formais de en-
sino, mas também as múltiplas instân-
WORTMANN, Maria Lúcia Castagna; VEIGA-NETO,
Alfredo. Estudos culturais da ciência & educação. Belo cias e os artefatos da nossa cultura.
Horizonte: Autêntica, 2001.
Ao mesmo tempo em que são
entretenimento, os ilmes desenvolvem
Sugestões de leitura
uma pedagogia, ensinam modos de ser
ANDERY, Maria Amália et al. Para compreender a ci- e viver. Sendo produtos da cultura, as
ência: uma perspectiva histórica. 9. ed. Rio de Janeiro: produções cinematográicas produzem
Espaço e Tempo; São Paulo: EDUC, 2000.
sujeitos e identidades. Nos dias atuais,
CHALMERS, Alan. A fabricação da ciência. São Paulo:
Fundação Editora da UNESP, 1994.
podemos dizer que a mídia ocupa pa-
pel central, e o cinema, nessa perspec-
CHASSOT, Attico. A ciência é masculina? É sim, senho-
ra!. 2. ed. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2006. tiva, pode ser considerada uma ação
pedagógica. Como diz Guacira Louro:
FEYERABEND, Paul. Contra o método. São Paulo: Edi-
tora UNESP, 2007. [...] distintas posições-de-sujeitos [...] e
KUHN, homas. A estrutura das revoluções cientíicas.
de gênero vêm sendo representadas,
9. ed. São Paulo: Perspectiva, 2007. nos ilmes, como legítimas, moder-
LATOUR, Bruno; WOOLGAR, Steve. A vida de labo- nas, patológicas, normais, desviantes,
ratório: a produção dos fatos cientíicos. Rio de Janeiro:
Relume Dumará, 1997.
sadias, impróprias [...]. Ainda que tais
marcações sejam transitórias [...] é pos-
______. Ciência em ação: como seguir cientistas e en-
genheiros sociedade afora. São Paulo: Editora UNESP, sível que seus resíduos e vestígios per-
2000. sistam, (LOURO, 2008, p. 81).
SCHIEBINGER, Londa. O feminismo mudou a ciên- Nessa perspectiva, o cinema
cia?. São Paulo: EDUSC, 2001.
vira uma eiciente instância pedagógi-
• ca, pelo seu poder de sedução e por
não dispensar o prazer e o divertimen-
Cinema to. São narrativas que nos interpelam;
o ambiente de uma sala de cinema
Os estudos mais recentes sobre propicia um envolvimento entre per-
cinema e educação podem ser dividi- sonagens e plateia, produzindo efeitos

• 112 •
de realidade. Corroborando com esse captura não somos impassíveis; ne-
argumento, Elí Fabris airma: elas [...] gociamos posições. Para marcar essas
nos interpelam para que assumamos negociações na produção dos signiica-
nosso lugar na tela, para que nos iden- dos, vale pensarmos um pouco sobre
tiiquemos com algumas posições e a teoria de endereçamento, discutida
dispensemos outras. Naquele momen- por Elizabeth Ellsworth, que mostra
to, ocorre uma simbiose entre o cor- que as produções cinematográicas são
po do espectador e a história vivida na pensadas para um determinado públi-
tela. (FABRIS, 2008, p. 118). co, mas o endereçamento nem sempre
A narrativa fílmica ensina. O au- atinge seu objetivo, e é aí que se pro-
tor Ismail Xavier (2008, p. 14) enfatiza picia uma negociação entre espectador
que “o cinema que ‘educa’ é o cinema e ilme. Segundo a autora, “essa nego-
que faz pensar, não só o cinema, mas ciação tampouco é, jamais, uma coisa
as mais variadas experiências e ques- simples ou única. Pois da mesma for-
tões que coloca em foco”. Ao assistir ma que o espectador ou a espectadora
um ilme, damos início a variadas ne- nunca é exatamente quem o ilme pen-
gociações: o que fazer com essas ima- sa que ele é ou ela é, assim também o
gens? O que ela despertou no que me ilme não é, nunca, exatamente o que
moveu? O que eu tomo como meu e ele pensa que é.” (2001, p. 21).
o que eu dispenso? São inúmeros sen- Ao mesmo tempo em que o ci-
tidos e representações desenvolvidos nema, como artefato cultural, colabo-
durante uma sessão de cinema. Segun- ra na produção e na manutenção das
do Stuart Hall esses signiicados cultu- representações, é também produzido
rais não são só processos mentais; têm por elas. Graeme Turner, em seus ar-
efeitos reais e regulam as práticas so- gumentos sobre cinema, apresenta
ciais. Gênero, nessa perspectiva é uma uma visão semelhante: “assim como o
construção histórica e cultural, cons- cinema atua sobre os sistemas de sig-
tituindo-se a partir do conhecimento niicação da cultura – para renová-los,
produzido pelos discursos imbricados reproduzi-los ou analisá-los – também
nas relações de poder. São os efeitos é produzido por esses sistemas de sig-
e as consequências das representações niicação.” (1997, p. 128-129). É nes-
contidas nesses discursos que inluen- se sentido que tomo o cinema como
ciam a construção das identidades de produto e produtor das representações
gênero. sobre as práticas de gênero.
O cinema nesse ínterim é um O cinema, aqui, vai além de arte
poderoso discurso no qual somos e comunicação; é um produto cultural
capturados pelas imagens. Mas nessa produzido por práticas sociais e, por

• 113 •
isso, atravessado de signiicados. A Os trailers, as chamadas de vei-
partir do movimento da tela, o cinema, culação, a escolha das músicas, os pla-
como artefato da cultura, vai produzin- nos, os closes, o igurino e o próprio
do, ressigniicando e visibilizando re- desenrolar das cenas são práticas dis-
presentações e signiicados das práticas cursivas que, sendo acionadas em um
sociais e, assim, constituindo sujeitos ilme, permitem a signiicação e a res-
e identidades. Desse modo, é preciso signiicação de práticas de gênero que
pensar nas narrativas e nos discursos operam em direção à constituição dos
que a linguagem cinematográica tem sujeitos. Obviamente, não posso air-
produzido a respeito das concepções mar que todos os sujeitos são interpe-
de gênero na contemporaneidade. lados, mas o processo narrativo de um
Como artefato cultural, o cine- ilme produz efeitos.
ma pode ser analisado como instância Durante a escrita deste verbete,
pedagógica que produz, ressigniica e argumentei que o cinema é uma eicaz
veicula determinados modos de co- instância pedagógica que não apenas
nhecer, viver e valorar os papéis de produz, mas também atualiza tipos de
gênero. Segundo os pressupostos das normatividade de gênero. O cinema é
teorizações culturais contemporâneas, um meio privilegiado através do qual a
um ilme é considerado um texto, e o representação é construída e veiculada.
enfoque analítico está nas representa- A imagem em movimento produz um
ções que circulam em uma película. A efeito de realidade particularmente es-
linguagem cinematográica tem suas pecial, e essa imagem permite variadas
especiicidades. A escolha da música, leituras. Como Rosângela Soares eluci-
dos planos, dos ângulos, das cores, da, “o trabalho do analista da imagem
do igurino, das tomadas, entre outras é precisamente decifrar as signiicações
coisas, colabora com a construção de que a naturalidade aparente das mensa-
signiicados que envolvem o especta- gens visuais implica”. Portanto perce-
dor/a, aumentando os efeitos de rea- ber quais representações e quais jogos
lidade. de poder estão implicados na aparente
Trata-se, portanto, de problema- naturalidade das imagens e quais são os
tizar os modos pelos quais a narrativa efeitos disso na construção das identi-
fílmica constrói modos especíicos de dades de gênero é de estrema impor-
vivenciar os papéis de gênero. Penso tância para a construção de um mundo
que o cinema divulga alguns dos possí- mais igualitário.
veis discursos que constituem sujeitos
e identidades de gênero. Paula Tatiane de Azevedo

• 114 •
Referências e sugestões de leitura •
BALESTRIN, Patrícia Abel. Gênero e sexualidade no ci-
nema: questões para a educação. 2010. Disponível em: Ciudadanía
<http://patriciaabelbalestrin.blogspot.com/2010/03/
genero-e-sexualidade-no-cinema-questoes.html>. Acesso
em: 1º set. 2011. Constituye una de las grandes
FABRIS, Elí Terezinha Henn. Representações de espaço ideas del pensamiento político occi-
e tempo no olhar de Hollywood sobre a escola. 1999. dental y desde las décadas inales del si-
Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de
Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, glo XX adquiere una relevancia notable
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Ale- en los debates académicos y políticos.
gre, 1999.
No tiene, no obstante, un signiicado y
______. Em cartaz: o cinema brasileiro produzindo sen-
tidos sobre escola e trabalho docente. 2005. Tese (Dou-
deinición simple ni deinitiva. Su na-
torado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em turaleza es polémica, histórica y teóri-
Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005. ca, ha generado y genera importantes
debates normativos y luchas políticas.
______. Cinema e educação: um caminho metodológico.
Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 33, n. 1, p. 117- Dicho de otro modo, la naturaleza y el
133, jan./jun. 2008.
signiicado de la ciudadanía, y la idea
ELLSWORTH, Elizabeth. Modos de endereçamento: de igualdad que incorpora como ele-
uma coisa de cinema; uma coisa de educação também.
In: SILVA, Tomaz Tadeu da. Nunca fomos humanos: nos
mento fundamental, no es ija y estáti-
rastros do sujeito. Belo Horizonte: Autêntica Editora, ca, sino compleja y problemática, cam-
2001.
biante, conlleva inclusión y exclusión,
HALL, Stuart. he work of representation. In: HALL, comporta prerrequisitos. En tanto ide-
Stuart (Org.) Representation: cultural representations
and signifying practices. London: housand Oaks; New al político, provoca luchas y conlictos
Delhi: Sage, 1997.
sobre su extensión, levanta anhelos y
LOURO, Guacira Lopes. Nas redes do conceito de gêne- aspiraciones, apunta a un horizonte de
ro. In: Lopes, M. J. D.; MEYER, D. E. E.; WALDOW, V.
R. (Org.). Gênero e saúde. Porto Alegre: Artes Médicas, posibilidades o de futuro. Remite a la
1996. idea de política misma “al tipo de so-
______. Cinema e sexualidade. Educação & Realidade, ciedad y comunidad política que que-
Porto Alegre, v. 33, n. 1, p. 81-97, jan./jun. 2008. remos” (MOUFFE, 1993), “al tipo de
SOARES, Rosângela de Fátima R. Namoro MTV: ju- vida colectiva que queremos asumir y
ventude e pedagogias amorosas/sexuais no Fica Comigo.
2005. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de
promover”, de ahí que su signiicado
Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, esté sometido a constantes luchas y
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Ale-
gre, 2005. renegociaciones (BOSNIAK, 2010).
Tan vieja como la política, la idea de
TURNER, Graeme. Cinema como prática social. São
Paulo: Summus, 1997. ciudadanía delimita o conforma cierto
tipo de ser humano. Abarca derechos,
XAVIER. Ismail. Um cinema que “educa” é um cinema
que (nos) faz pensar. Entrevistador: Fabiana de Amorim obligaciones y pertenencia. Implica a la
Marcello. Educação & Realidade, Porto Alegre, UFRGS,
v. 33, n. 1, jan./jun. 2008, p. 13-20.
identidad individual y colectiva. Susci-

• 115 •
ta cuestiones de justicia y democracia. mujeres y los hombres han estado en
Tiene distintas dimensiones: jurídica, una relación diferente con ella, en des-
política, social, económica, sexual, cul- ventaja de las mujeres” (Lister, 2001).
tural, corporal e íntima. Y, por lo regu- Una plantilla de género que responde
lar, la encontramos adjetivada: ‘univer- a: varón, soldado, trabajador, nacional,
sal’, ‘civil’, ‘política’, ‘social’, ‘sexual’, según un modelo unitario y universa-
‘multicultural’, ‘ecológica’, ‘cosmopoli- lista de la ciudadanía, permitiendo en-
ta’, ‘desnacionalizada’, ‘postindustrial’, tender el distinto acceso de las mujeres
‘europea’, ‘lexible’… La profusión del a los derechos civiles, políticos y socia-
lenguaje de la ciudadanía, así como las les, mostrar las abstracciones y parado-
críticas a esta idea en el contexto del jas, las contradicciones y tensiones.
debate actual, llevan a determinar cual El feminismo de los sesenta
es su signiicado y valor, si es una her- y setenta, en general, no expresa sus
ramienta políticamente útil o, por el demandas en el lenguaje político de la
contrario, hay que ir más allá de la ciu- ciudadanía, en gran medida porque se
dadanía. asocia ciudadanía con estatus formal
La relación de las mujeres con (VOET, 1998) y por excluir el espacio
la ciudadanía ha sido difícil tanto en privado. En los noventa el renovado
términos de exclusión como de incor- interés en la ciudadanía se deja sentir
poración. La historia de las mujeres también entre las teóricas feministas
y del feminismo está jalonada por las que, además de poner de relieve la
luchas por la ciudadanía. Excluidas de ausencia del análisis de género entre
la ciudadanía y la democracia ateniense los teóricos de la ciudadanía, revisan
(IRIARTE, 2002). Vindicándola ante las teorías, los modelos y las prácticas
la Declaración de los Derechos del Hombre y tradicionales. Las críticas feministas
el Ciudadano (O. de Gouges, M. Wolls- señalan que los modelos tradicionales
tonecraft). Luchando por el sufragio o de ciudadanía, esto es, liberal y repu-
por los Derechos Humanos. El movi- blicano -la ciudadanía como estatus o
miento y la teoría feminista han puesto como práctica- coinciden en presentar
de maniiesto esta complicada relación al ciudadano como universal cuando
o, con otras palabras, han sacado a la en realidad es masculino. El comunita-
luz que la ciudadanía tiene sexo-género, rismo, el multiculturalismo o el ecolo-
que es donde “la exclusión de las muje- gismo, tampoco saldrán bien parados
res ha estado más irmemente impresa del escrutinio crítico.
en su plantilla histórica” (HOBSON/ Desde los análisis críticos pio-
LISTER, 2002, p. 23); que siempre ha neros de la ciudadanía universal, a i-
tenido género “en el sentido de que las nales de los años ochenta, se destaca el

• 116 •
vínculo entre individualidad y masculi- privada no son dos esferas separa-
nidad. La ciudadanía moderna, la ciu- das, están estrechamente relacionadas,
dadanía universal, en términos gene- como pone de maniiesto la crítica a las
rales, reiere a la relación formal entre teorías del contrato, clásicas y contem-
individuo y Estado-nación, al vínculo poráneas, que lleva a cabo C. Pateman
entre ciudadanía y nacionalidad. Con- (1988). La esfera público-política surge
iere a los individuos un estatus formal, de un contrato del que quedan exclui-
abstrayendo toda particularidad, marca das las mujeres, pero no puede cons-
o diferencia, sea de raza, clase, sexo o tituirse como tal sin la esfera privada
cualquier otra. Responde a la igualdad que contiene un contrato especíico: el
formal. Mas la igualdad formal, tras el contrato sexual. El tránsito del ‘estatus’
lento y costoso acceso de las mujeres al ‘contrato’ opera según la lógica del
a ella, no implica que las mujeres par- patriarcado fraternal moderno: ‘indivi-
ticipen plenamente de la ciudadanía, o duo’, ‘contrato’, ‘trabajador’ y ‘ciuda-
dejen de ser ‘ciudadanos de segunda’. dano’ son categorías patriarcales. Las
La abstracción no funciona, el indi- mujeres pueden conseguir la condición
viduo abstracto es masculino (AMO- formal de individuos civiles pero no en
RÓS, 1987; SCOTT, 1996) y las mu- el mismo sentido que los varones, las
jeres no son propiamente ‘individuos’. mujeres no son ahora excluidas, sino
El concepto de individuo sobre el que incorporadas como mujeres al mundo
se construye la categoría de ciudadano público, a la sociedad civil, lo que lleva
descansa en el individuo libre e igual, a Pateman a plantear el ‘dilema Wolls-
independiente y dueño de sí mismo, no tonecraft’ (1989, 1992). Por su parte I.
obstante, este ideal de independencia y M. Young (1989) analiza críticamente
libertad individual viene dado en tér- el ideal de ciudadanía universal enten-
minos de independencia económica, y dida como que se extiende a todas las
así, airma Saraceno: “el concepto de personas y que transciende la particu-
ciudadanía se topó con la imposibili- laridad y las diferencias. La igualdad
dad inherente de ser verdaderamen- se concibe como identidad y destaca
te igualitario para todos y alcanzar la dos sentidos de la universalidad: como
propia universalidad”. Las mujeres son generalidad, esto es, lo que tienen en
dependientes económicamente. Los común los ciudadanos en oposición a
hombres son dependientes del trabajo lo que diieren; como igualdad de tra-
doméstico de las mujeres, un prerre- to, es decir, leyes y reglas son ciegas a
quisito o condición que hay que tomar las diferencias individuales o de grupo.
en consideración (SARACENO, 1988, Cuestiona el vínculo entre ciudadanía
p. 128). La esfera pública y la esfera igual y los dos sentidos de universali-

• 117 •
retribuido está localizado en la esfera tado, mercado, familia y matrimonio,
privada (PATEMAN, 1989; FRASER/ demandando una reconiguración de la
GORDON, 1992). La igura que con- ciudadanía que responda a los cambios
densa los problemas y contradicciones necesarios, que afectan tanto a muje-
es la de la ‘madre trabajadora’: “No existe res como a hombres, en las esferas pú-
una igura análoga, ni a nivel jurídico ni blica y privada, al trabajo remunerado
simbólico, de padre trabajador; es de- y a la incorporación de los cuidados,
cir, de un individuo que tiene a la vez abogando por la plena pertenencia e
responsabilidades laborales y de cuida- incorporación activa a la comunidad,
do de la familia” (SARACENO,1988, a las comunidades, en las que viven.
p. 139). La legitimidad de las mujeres Con otras palabras, tras las críticas a
como trabajadoras es precaria -ser ma- los modelos de ciudadanía, las teóricas
dre y trabajadora está sujeto a contra- políticas feministas han desarrollado
dicción- y, en consecuencia, también lo diferentes propuestas; estas pueden ar-
es su ciudadanía. O, como indica Yu- ticularse en torno a tres imágenes nor-
val-Davis, referido al modelo de ciuda- mativas respecto del género: ciudada-
danía estatal, la característica especíica nía ‘neutral’, ciudadanía ‘diferenciada’,
de la ciudadanía de las mujeres es su ciudadanía ‘pluralista’. (LISTER, 2001;
‘naturaleza dual’: “por un lado, las mu- HOBSON/LISTER, 2002)
jeres están siempre incluidas, al menos El nexo entre ciudadanía y na-
en cierta medida, en el cuerpo general cionalidad, por último, pone de relieve
de ciudadanos del Estado y sus proyec- los problemas y tensiones de la per-
tos sociales, políticos y económicos; y tenencia. Ya Saraceno (1988) advertía
por otro lado, siempre hay, más o me- que la nacionalidad adquiere un “sta-
nos desarrollado, un cuerpo separado tus adscrito y semi-natural”, bien que
de legislación que se relaciona con ellas el criterio de adquisición sea el jus san-
en su condición especíica de mujeres” guinis, bien sea el jus soli. Dicho nexo
(YUVAL-DAVIS, 1996, p. 169) presenta la paradoja de que las mujeres
El debate feminista sobre la son consideradas como ‘soportes de
ciudadanía ha puesto de relieve el fal- la nación’ al tiempo que no son incor-
so universalismo, que la ciudadanía poradas como individuos, sino como
no puede circunscribirse a la relación miembros de la familia, experimentan-
formal entre individuo y Estado (YU- do esta inferioridad de forma diversa
VAL-DAVIS/WERBNER, 1999), que según sea ‘la clase, grupo étnico o na-
no es solo un estatus sino también una ción a la que pertenezcan o de la que
práctica, un conjunto de prácticas; ha provengan”, lo que da lugar a conlic-
mostrado las interconexiones entre Es- tos, y entre los más destacados, los que

• 118 •
se darán luego a propósito de la ciu- Referencias
dadanía multicultural y las luchas por
el reconocimiento. Pero también de AGRA ROMERO, Mª X. Cidadanía. Dicionário de Fi-
losofía Moral e Política. Instituto de Filosofía da Lingua-
forma particular en la actualidad en re- gem, FCSH/UNL, en línea.
lación con la ciudadanía cosmopolita o
AMORÓS PUENTE, Celia. Espacio de las iguales, es-
global, con los problemas que suscitan pacio de las idénticas. Notas osbre poder y principio de
los nuevos lujos migratorios y la glo- individuación. Arbor CXXVIII, 1987, p. 113-127.

balización económica, la pérdida de so- BOSNIAK, Linda. Citizenship, Noncitizenship, and the
beranía del Estado-nación, la crisis del Transnationalization of Domestic Work. En, BENHAB-
IB, S./RESNIK, J. Migrations and Mobilities. Citizen-
Estado de bienestar y el auge del ne- ship, Borders, and Gender. New York: New York Univer-
oliberalismo. ¿Ciudadanía para quien? sity Press, 2009, p. 127-156.

¿Ciudadanía donde? Serían ahora las BOSNIAK, Linda. Desnacionalizando la ciudadanía, en


preguntas pertinentes (BOSNIAK, SOYSAL, Y./BAUBÖCK, R./BOSNIAK, L. Ciudadanía
sin nación. Bogotá: Siglo del Hombre editores, 2010.
2009; SHACHAR, 2007) y la igura de
‘mujer trabajadora doméstica migrada’ FRASER, Nancy/GORDON, Linda. Contrato versus
caridad: una reconsideración de la relación entre ciu-
una de las principales a tener en cuenta dadanía civil y ciudadanía social. Isegoría: 6, 1992, p.
a la hora de seguir pensando y contem- 65-82.

plando la faz excluyente de la ciuda- LISTER, Ruth. Citizenship and Gender, en NASH, K./
danía, sus fronteras y límites, a la hora SCOTT, A. (Eds.). Blackwell Companion to Political So-
ciology. Oxford: Blackwell, 2001, p. 323-332.
de plantearse si estamos ante el in del
modelo unitario de ciudadanía (ONG, MOUFFE, CHantal. he Return of the Political. Lon-
don,New York: Verso, 1993.
1999; BENHABIB/ RESNIK, 2009)
y, como suscitaba Saraceno ¿qué es lo ONG, Aihwa. Flexible Citizenship. he cultural logics
of transnationality. Durham&London: Duke University
que hoy parece más visible y urgente Press, 1999.
en cualquier relexión sobre la ciudada-
PATEMAN, Carole. he Disorder of Women. Cam-
nía?, ahora en un contexto postwestfa- bridge: Cambridge University Press, 1989.
liano, postindustrial, postmarshalliano.
PATEMAN, Carole. Equality, diference, subordination:
En un contexto en el que se detectan the politics of motherhood and women’s citizenship, en
nuevos déicits pero así mismo nos BOCKS, G. / JAMES, S. /eds.). Beyond Equality and
Diference. London: Routledge, 1992, p. 17-31.
encontramos con nuevos sujetos y
nociones emergentes de la ciudadanía. SARACENO, Chiara. La estructura de género de la ciu-
dadanía. En, Mujer y realidad social. II Congreso Mundial
Desde esta perspectiva habrá que con- Vasco. Bilbao: Servicio Editorial Universidad del País Vas-
templar entonces los registros en que co, 1988, p. 123-141.

puede comprenderse para quien tiene SCOTT, Joan. Only Paradoxes to Ofer. French Feminists
valor la ciudadanía, así como los del and the Rights of Man. Cambridge, Mass, London: Har-
vard University Press, 1996.
‘más allá de la ciudadanía’.
SHACHAR, Ayalet. he Worth of Citizenship in an Un-
equal World. heoretical Inquieries in Law. Why Citizen-
Maria Xosé Agra Romero ship?: 8, 2007, p. 367-388.

• 119 •
VOET, R. Feminism and Citizenship. London: Sage, logia grega, Clio seria uma das ilhas
1998.
da relação entre Zeus e Mnemósine.
YOUNG, Iris Marion. Polity and Group Diference: A Zeus, ao consultar os outros deuses se
Critique of the Ideal of Universal Citizenship. Ethics: 99,
1989, p. 250-274. era necessário realizar algo mais após
a façanha de derrotar o deus Cronos
YUVAL-DAVIS, Nira. Género y nación: articulaciones
del origen, la cultura y la ciudadanía. Arenal: 3:2; julio- na batalha contra os Titãs (Titanoma-
-diciembre 1996. quia); estes responderam que era mister
YUVAL-DAVIS, N./WERBNER, P. (eds). Women, Citi- a presença de seres que com seus can-
zenship and Diference. London, New York: Zed Books,
tos celebrassem a glória imperecível da
1999.
parte dos deuses. Foi então que Zeus
Indicaciones de lectura teria se unido com Mnemósine, titâ-
nide irmã de Cronos e ilha de Urano
BENHABIB, Sheyla/ RESNIK, Judith. Migrations and
Mobilities. Citizenship, Borders, and Gender. New York: e Gaia, durante nove noites. Diferen-
New York University Press, 2009. temente dos outros titãs, Mnemósine
IRIARTE, Ana. De amazonas a ciudadanos: pretexto gi- não foi aprisionada no Tártaro, o que
necocrático y patriarcado en la Grecia Antigua. Madrid: relete a importância da memória para
Akal, 2002.
os gregos na Antiguidade. A relação
HOBSON, Barbara/LISTER, Ruth. Citizenship. En B. dos gregos com a memória era bem
HOBSON/J. LEWIS/B. SIIM: Contested Concepts in
Gender and Social Politics. Cheltenham/Northampton: peculiar. A memória era perpetuada
2002, p. 23-54.
através da música e de cantos, ou seja,
LISTER, Ruth. Citizenship. Feminist Perspectives. Lon- a “história” e os mitos daquela época
don: MacMillan, 1997.
eram transmitidos de forma oral, e não
ROSENEIL, Sasha (ed). Beyond Citizenship? Feminism escritas.
and the transformation of belonging. Palgrave, Mac-
Millan, 2013.
Mnemósine, segundo Hesío-
do era a “rainha das colinas da Eleu-
• téria”, a terra da liberdade. Do enlace
com Zeus teriam surgido nove musas.
Clio A origem das musas é imprecisa, ao
menos nas primeiras fontes clássicas.
Do grego Κλειώ (Kleiô), seu O caráter divino dessas iguras é cor-
nome deriva do verbo grego Kleo, roborado pela presença de suas repre-
“para tornar famoso” ou “celebrar”; sentações na estatuária grega, conser-
ou Glória; “A Proclamadora”. É con- vadas em diversos templos dedicados
siderada a musa da História desde a ao deus Apolo, como atesta o historia-
designação da “inteligentzia acadêmica dor grego do século II d. C. Pausanias
de Alexandria” (SCHORSKE, 2000, p. em sua obra Descrição da Grécia. Com
1). Segundo uma das versões da mito- o tempo, as funções e distribuições das

• 120 •
Musas e suas atividades ganharam con- as divindades de todas as artes como
tornos mais precisos, até o ponto de a música, canto e poesia, além das ci-
atribuir-se um domínio para cada uma, ências, o que signiica que para os gre-
que vinha acompanhada de seu atribu- gos antigos a memória era a metade de
to especíico. Já em Homero (Odisseia toda ação criativa. As musas cantavam
e Ilíada) se aponta o número nove para sobre o presente, o passado e o futu-
as musas e a condição divina delas, de- ro. Nos banquetes no monte Olimpo
tentoras do conhecimento de todo os cantavam para Zeus e para os outros
acontecimentos. Os neopitagóricos, deuses as glórias e os feitos heroicos
da mesma forma que os neoplatôni- dos gregos. No monte Parnaso, elas
cos, viam no número nove uma clara eram acompanhadas pela lira do deus
referência ao sentido supremo da per- da música, Apolo, e responsáveis pela
feição. O nove era considerado um nú- inspiração de poetas e músicos, além
mero completo, pois contém três vezes da promoção das artes e das ciências.
o número três. Isso signiica o número O relato de Hesíodo tornou-se
perfeito por excelência, pois ele possui canônico quanto ao número, aos teô-
princípio, meio e im. Hesíodo (Teogo- nimos e à correspondência das musas
nia) apresenta o nome das musas, são em relação aos gêneros literários - es-
elas: Calíope, “a de bela voz”; Clio, “a peciicamente à épica, lírica, tragédia e
que dá a fama”, que se dedicava à his- comédia – e aos gêneros do saber mais
tória, criadora da poesia história e he- valorizados na Antiguidade – a história,
roica, introduziu o alfabeto fenício no cosmologia, música e dança. As musas,
mundo grego; Erato, “a amável”, deu segundo Hesíodo, habitavam em dois
origem à poesia do amor e à mímica; lugares: o monte Hélicon, na Beócia, e
Euterpe, “a doadora de prazeres” era a o monte Olimpo, na Macedônia. Ain-
musa da poesia lírica e da música; Mel- da que geograicamente e hierarquica-
pomene, “a poetisa” era a musa da tra- mente situadas à margem do panteão
gédia – teatro – e do canto; Polímnia, olímpico, pois se atribuía a morada das
“a que canta” ou “a dos muitos hinos”, musas também ao monte Parnaso na
entre os quais a música sacra, a harmo- Fócida, a invocação dessas iguras mí-
nia e eloquência poética; Terspisícore, ticas era a que necessariamente ante-
“a que se deleita na dança” brilhava cedia quaisquer atividades intelectuais
na dança e no canto coral; Thalia, “a humanas. Em um contexto mais am-
festiva” presidia à comédia e à poesia plo, para a produção do conhecimento
pastoral; e Urania, “a celestial” ou a na Antiguidade, eram as musas quem
“rainha dos montes”, era a musa da atribuíam autoridade intelectual para
astronomia. As musas representavam que os homens pudessem criar.

• 121 •
Clio era quem proclamava e a representação do deus Apolo ao cen-
conferia a fama, cujo nome era rela- tro, tocando um instrumento, rodeado
cionado às festividades, celebrações, pelas nove musas e poetas antigos e
cantos e glórias dos guerreiros e de um modernos. Não há um claro consen-
povo. Sua representação habitualmen- so entre os estudiosos da obra sobre a
te era a de uma jovem com uma co- identiicação de cada uma das musas,
roa de louros, carregando em sua mão ou mesmo dos poetas. Clio pode ser
direita uma trombeta, para proclamar identiicada tanto sentada à direita de
os altos feitos, e na mão esquerda um Apolo, com vestes brancas e seguran-
livro ou um rolo de pergaminho, o que do um objeto dourado com sua mão
provavelmente estava relacionado com direita, quanto à esquerda do deus,
a introdução do alfabeto fenício pela representada de peril segurando um
musa no mundo grego e o vínculo da livro. À época de Rafael, ainda não ha-
história com a escrita. Seus símbolos via um índice iconográico sobre for-
eram a trombeta, ou clarim, com o qual mas de representação pictóricas, como
declamava os feitos heroicos e a clepsi- aqueles que pintores da segunda meta-
dra, um dos primeiros instrumentos de de do século XVI poderiam encontrar
medida do tempo. na edição da Mitologia [1567] de Natale
Contudo a representação das Conti e, sobretudo, na importante obra
musas não foi algo estático durante os Iconología [1593] de Cesare Ripa, onde
séculos. Na Antiguidade a represen- o autor caracteriza a musa como uma
tação das musas pode ser observada donzela coroada de louros, segurando
em templos, na forma de relevos ou uma trompa na mão direita e na es-
esculturas. Em Bardo, na Tunísia, é querda um livro sobre o que está es-
possível observarmos um mosaico, crito Thucydides (RIPA, 1987, p. 109-
provavelmente do século III, represen- 119). Na obra O Parnaso [c. 1631-1633]
tando o poeta Virgílio acompanhado de Nicolas Poussin, o pintor também
da presença de suas musas que o ins- apresenta o deus Apolo sentado ro-
piram para a escrita de sua obra épi- deado pelas nove musas e nove poe-
ca, a Eneida. Identiicam-se as musas tas. Podemos identiicar Clio coroada
como sendo Melpomene, segurando de louros, segurando uma espécie de
uma máscara, e Clio, segurando um trompa dourada. Na obra Alegoria da
pergaminho. A partir da época mo- Pintura [c. 1666], de Johannes Vermeer,
derna também podemos observar a Clio é representada com seus atributos
profusão de representações das musas clássicos, uma coroa de louros sobre a
através da pintura. Na obra O Parnaso cabeça, um livro e uma trombeta dou-
[1511], de Rafael Sânzio, observamos rada, em um cenário composto por

• 122 •
diversos elementos, como se fosse um tigação, pesquisa, explicação do autor,
estúdio onde posa de modelo, servin- aprender a conhecer através do ques-
do de musa inspiradora à igura de um tionamento. Contudo, histör também
pintor que registra o momento em sua signiica aquele que sabe ou vê, ressal-
tela. Na pintura Clio [1689], de Pierre tando a ideia de que a história é uma
Mignard, a musa da História é apresen- “imagem do passado” criada pelo jogo
tada sentada e com todos os elementos entre a imaginação e a relexão sobre
que tradicionalmente a caracterizam, os materiais legados pelas gerações que
carrega em sua mão uma trombeta em nos precederam.
tons dourados e segurando um livro O passado revelado aos poetas
sobre seu colo. Ao lado de seu pé des- por intermédio e inspiração do can-
nudo sobre o chão repousa a coroa de to das musas, como Clio, não situava
louros e outros livros. Anton Raphael os eventos em um quadro temporal
Mengs ao pintar sua versão d’O Parna- (VERNANT, 2003, p. 141). A história,
so [c. 1760-1761] traz a inluência de que teve seu berço na Grécia antiga,
antigos pintores sobre o tema e uma nascera vinculada ao mito. Este per-
caracterização mais precisa das musas. mitia aos gregos antigos sistematizar
Clio aparece sentada no solo e rodeada seu passado. Porém, nele não havia
de pergaminhos, enquanto observa a cronologia ou temporalidade deini-
igura central do deus Apolo, seguran- da. O mito era a-histórico. Já a história
do em suas mãos um pergaminho e um produzida no tempo de Heródoto não
estilete. rompia com o mito, mas o reelabora-
A história, como forma de ex- va, não se separando de forma radical
plicação, nasceu unida à ilosoia, da tradição das memórias de epopeias
sendo fruto da própria mitologia gre- centradas no canto das glórias de he-
ga na Antiguidade. O mito fornecia róis. No entanto, apesar da intenção de
os modelos para a conduta humana, Heródoto querer preservar a memória
conferindo signiicação e valor à exis- de acontecimentos e atos heroicos, o
tência. Nesse sentido, era “a narrati- historiador grego não recorre mais ao
va de uma ‘criação’: ele relata de que recurso de invocar as musas através de
modo algo foi produzido e começou seu canto para os feitos gloriosos. Sua
a ser” (ELIADE, 2002, p. 11). Foram narrativa fora construída através de in-
os próprios gregos que descobriram vestigações e o recurso de relatos e do-
a importância da explicação histórica. cumentos dos eventos e tradições que
O termo histör, que deriva do grego, lhe eram contadas. Segundo Hartog
signiica etimologicamente mais do (2000, p. 13), Heródoto “investiga”,
que uma narrativa, mas também inves- pois não possuiria a autoridade natu-

• 123 •
ral de um aedo ou uma musa, poden- criativas dos homens. Há variações em
do somente contar com o processo de relação aos seus nomes, ao número
investigação, que signiica o primeiro delas e aos seus atributos especíicos.
momento dentro de sua operação his- Contudo, essas indeterminações origi-
toriográica. Desta forma Heródoto le- nárias se estendem às diversas funções
gava à história o papel antes atribuído a as quais Clio e as outras musas foram
Clio, o de preservar os feitos humanos sendo investidas ao longo das diferen-
do perigoso esquecimento pelo tempo, tes épocas em que sempre comparece-
conferindo a imortalidade aos aconte- ram como avatares dos gêneros literá-
cimentos. rios e as ciências.
A novidade introduzida por A serena isionomia da musa
Heródoto, com sua investigação sis- da história, Clio, é evidenciada por
temática que seguia à construção de Pesavento (2005, p. 7) ao analisar sua
sua narrativa histórica, foi vinculada postura portando o estilete da escrita
à perspectiva humana e secular dos e a trombeta da fama, sendo, prova-
acontecimentos. Na geração seguinte, velmente, a ilha dileta de Mnemósine,
Tucídides segue adiante estes novos que, enquanto detentora da memória,
paradigmas insistindo numa narrativa gerou a própria história. Clio, tributá-
contínua com uma cronologia rigorosa, ria da linguagem escrita, mesmo tendo
e sob uma análise estritamente secular, suas origens na oralidade dos aedos,
com ênfase aos comportamentos po- cantando as histórias de deuses e he-
líticos do homem (FINLEY, 1989, p. róis, tem a capacidade de partilhar e
23-4). Ambos os historiadores gregos cruzar formas de percepção e conhe-
da Antiguidade deixaram como legado cimentos sobre o mundo. Clio, por
ao ofício do historiador a importância origem e natureza, ocupa o espaço de
de seus métodos. No século XIX, o embate entre o mito e a ciência, onde,
processo de disciplinarização da histó- a partir do sono atávico, constrói ar-
ria instaurou rígidos paradigmas meto- gumentativamente seu direito à vigília
dológicos modernos que afastavam a (PESSANHA, 1992, p. 34).
memória da história e suas fontes. O Clio inspira os historiadores,
que deine e delimita o trabalho dos inebriados pelo tempo, cantando os
historiadores não são suas fontes, é o grandes feitos da humanidade. A His-
seu método (MOMIGLIANO, 2004). tória (Clio), pois, se aparenta com o po-
Nos mais antigos textos lite- der (Zeus), a memória e a justiça (Mne-
rários e iconograias, Clio e as outras mósine), seus pais, e se irmana com as
musas são apresentadas como as di- ciências e as artes. Os historiadores, ao
vindades inspiradoras das atividades se constituírem como seres temporais

• 124 •
que “conversam com os mortos”, bus- RIPA, Cesare. Iconología. Vol. 2. Madrid: Akal, 1987.
p. 109-119.
cam superar o esquecimento do tempo
eternizando a História pela realização SCHORSKE, Carl. E. Pensando com a história. São Pau-
lo: Companhia das Letras, 2000.
de seu ofício.
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre os
gregos. São Paulo: Perspectiva, 2003.
Rivadávia Padilha Vieira Júnior
Vanderlei Machado

Referências
Clitóris
CONTI, Natale. Mitología. Livro VII. Murcia: Universi-
dad de Murcia, 1988.
Biologicamente, a Anatomia
FINLEY, Moses I. Uso e abuso da história. São Paulo: descreve-o como um órgão alongado
Martins Fontes. 1989.
e erétil, localizado na vulva, mais espe-
HARTOG, François. A fábrica da história: do “aconteci- ciicamente, centrado na parte superior
mento” à escrita da história, as primeiras escolhas gregas.
In: História em revista. Universidade Federal de Pelotas. entre os pequenos lábios.
Instituto de Ciências Humanas, Dep. De História e An-
tropologia, v. 6, dez. 2000, 13.
Atualmente, sabe-se que o cli-
tóris é uma estrutura complexa que se
MOMIGLIANO, Arnaldo. As raízes clássicas da histo-
riograia moderna. Bauru: EDUSC, 2004.
constitui de componentes internos e
externos. O prepúcio ou capuz clitorial
PAUSANIAS. Descripción de Grecia. 3. Vol. Barcelona:
Orbis, 1986. é uma das partes externas do clitóris
que cobre parcialmente ou totalmente
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & história cultu-
ral. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. a glande clitoriana, também visível. In-
ternamente, a glande subdivide-se em
PESSANHA, José Américo. O sono e a vigília. In: NO-
VAES, Adauto (Org.); et AL. Tempo e história. São Pau- duas raízes curvas e alongadas.
lo: Companhia das Letras, 1992.
O clitóris é um órgão extrema-
Sugestões de leitura mente sensível devido às suas milha-
res de terminações nervosas. Por isso,
BOYANCÉ, P. Le culte dês muses chez lês philosophes
grecs: études d’histoire et de psychologie religieuse. Paris: quando estimulado, com o aumento
Boccard, 1993. da pressão sanguínea, o sangue con-
HESIODO. Teogonia. São Paulo: Iluminuras, 1992. verge para a glande, provocando o seu
enrijecimento e aumento de tamanho.
ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspec-
tiva, 2002. Devido a isso, e também por sua estru-
tura interna não se limitar à glande, a
GRIMAL, Pierre. Dicionário de mitologia grega e roma-
na. Rio de Janeiro: Bertrand, 1992. estimulação clitoriana pode ser desen-
cadeada em diferentes regiões, varian-
OTTO, W. F. Las musas. El origen divino del canto y del
mito. Buenos Aires: Eudeba, 1981. do de mulher para mulher. Além disso,
os músculos que compõem o clitóris,

• 125 •
e que são os responsáveis pela sua ere- O’ Connel (DOMINICI, 2013), desta-
ção, não relaxam por completo após o cou que ainda havia muito a se conhe-
orgasmo. Desse modo, a continuidade cer sobre o clitóris e, assim, passou a
de estímulos pode ocasionar múltiplos explorar a anatomia desse órgão.
orgasmos nas mulheres. Atualmente, o prazer sexual é
Deste modo, não é à toa que, diretamente relacionado ao clitóris,
culturalmente, o clitóris é conhecido caracterizando-o, inclusive, como um
como o órgão responsável pelo prazer órgão que tem a exclusiva função de
da mulher – o “botão mágico”. Sua possibilitar que a mulher sinta prazer.
fricção pode, como resposta sensorial, Obstante das compreensões contem-
dar sensações de prazer e promover o porâneas, o prazer foi desvinculado da
orgasmo. No entanto, não se trata ape- história da sexualidade da mulher; os
nas de mágica; outros fatores podem conhecimentos acerca dessa questão
inluenciar no sentimento do prazer, foram esquecidos e desaparecendo ao
além de que cada mulher sente e vive longo dos anos.
seus prazeres de diferentes formas. Alguns anatomistas acredi-
A premissa aceita e divulgada tam que o clitóris é conhecido desde
por muito tempo de que a sexualidade o século II, mas há controvérsias. O
das mulheres era restrita em relação a anatomista Renaldus Colombo (LA-
dos homens; hoje, esta não pode mais QUEUR, 2001), em meados do século
ser sustentada como uma “verdade”. XVI, declarou-se o descobridor do cli-
Por consequência, suas vivências e tóris, airmando ter descoberto o “pê-
seus prazeres foram sendo limitados e nis feminino”, e que este era “eminen-
regulados. temente o ponto de prazer da mulher”.
Em frente às restrições, os si- Colombo (LAQUEUR, 2001) tratou
lenciamentos e a própria ignorância, a sua descoberta com paixão e poe-
mitos e tabus acerca da sexualidade da ma, nomeando sua descoberta como
mulher e especiicamente sobre o clitó- “amor ou doçura de Vênus”. Na mes-
ris foram sendo produzidos. Inclusive, ma época, o anatomista Andreas Vesa-
algumas mulheres nunca visualizaram lius descreveu os órgãos reprodutores
e/ou tocaram seus clitóris devido a das mulheres. No entanto, Renaldus
questões sociais e culturais. não teve o mesmo reconhecimento
É importante ressaltar que, há de Vesalius e suas descrições acerca da
muitos séculos, o que se fala, escreve- “anatomia do prazer” foram esqueci-
-se e conta-se desse órgão é, em grande das (DOMINICI, 2013).
parte, realizada por homens. Recente- Um século depois, o anatomista
mente, a urologista australiana Helen holandês Regnier de Graaf, que acredi-

• 126 •
tava ser o pioneiro nos estudos sobre de Hipócrates perdurou por muito
reprodução, airmou a importância do tempo, até mesmo na Idade Média,
clitóris para a reprodução, sustentando com a vigilância e desconiança da
que, sem sentir prazer, nenhuma mu- Igreja sobre os prazeres da carne, o
lher aceitaria “fazer” ilhos. No entan- conhecimento cientíico predominava,
to, sua constatação e a importância do com direito a prescrições médicas para
clitóris foram ignorados; apenas dois uma reprodução exitosa: “Lubriique o
séculos depois, George Kobelt descre- dedo com óleo perfumado e friccione
veu e desenhou o clitóris com detalhes a vulva com movimentos circulares”
que não havia sido observados ou di- (DOMINICI, 2013). Os tempos pas-
vulgados. sam; em 1875, com a “descoberta”
Finalmente, a medicina parecia do processo de reprodução feita por
ter reconhecido a importância do cli- Edouard Van Beneden, a Ciência, que
tóris; em 1900, o clitóris passou a in- antes atribuiu ao clitóris todas as vir-
tegrar as ilustrações do reconhecido tudes, agora o isenta de qualquer im-
livro de anatomia Gray’s Anatomy, de portância na reprodução. E como Van
autoria de Henry Gray. No entanto, em Beneden airmou, a única função do
1948 o órgão torna a desaparecer, dei- clitóris é dar prazer à mulher, o que na
xando de ser mencionado e ilustrado época foi argumento suiciente para
nos livros. que o órgão fosse desprezado e esque-
Perante a história da “descober- cido (DOMINICI, 2013). Certamen-
ta” e reconhecimento do clitóris, se- te, os estudos de Van Beneden são de
gundo O’ Connel (DOMINICI, 2013), suma importância para a Ciência. No
a Ciência nunca se sentiu à vontade em entanto, assim como muitos conheci-
estudar e descrever um órgão exclusivo mentos cientiicamente produzidos, as
do corpo das mulheres, que, conforme proposições de Van Beneden tomaram
Colombo (LAQUEUR, 2001), trata-se proporções que inluenciaram e, até
do ponto básico do prazer venéreo da hoje, inluenciam nas sexualidades da
mulher. mulheres. Instituir que o clitóris dei-
Na antiguidade, Hipócrates xara de ser necessário, tornou tanto o
acreditava que as mulheres também órgão como o prazer feminino margi-
tinham esperma e que, por isso, pre- nalizados. Assim, o clitóris deixou de
cisavam sentir orgasmos para que a re- ser mencionado nos escritos cientíi-
produção fosse efetiva. Neste tempo, cos e o prazer feminino passou a não
o clitóris já era considerado como um ser considerado.
“botão mágico”; e o prazer da mulher A masturbação feminina passou
era levado em consideração. A teoria a ser proibida. As genitálias das mulhe-

• 127 •
res passaram a ser retratas como im- em que as mulheres são forçadas a ter
puras, o que pode ser visto em muitas seus clitóris amputados, costurados ou
obras de artes antigas, em que a igura mutilados, no intuito de que estas não
do diabo era colocada nas partes ínti- sintam mais prazer. Embora essas prá-
mas das mulheres, reforçando a tradi- ticas sejam repudiadas e condenadas
ção cristã de que os prazeres da carne pela Organização Mundial de Saúde
estão diretamente ligados ao pecado e (OMS), alegando que esses rituais são
à dor. barbáries que causam males psicoló-
A Ciência criou seus próprios gicos e físicos às suas vítimas; sabe-se
demônios. Lesbianismo, ninfomania, que ainda essa prática ocorre em apro-
icterícia e cegueira foram considerados ximadamente 30 países localizados
doenças causadas por desequilíbrios principalmente na África e no Oriente
mentais. Nas mulheres, esses desequi- Médio.
líbrios eram originados pela excitação Dentre os campos que se ocu-
sexual. Sendo assim, não havia dúvidas param e se ocupam em desvendar e
do culpado: o clitóris. vendar o clitóris, além da Medicina,
Em 1865, Baker Brown levan- Anatomia e Fisiologia, a Psicologia e
tou a hipótese de que o clitóris era o a Psiquiatria também fazem parte da
responsável pela a histeria, a epilepsia história do clitóris. Sigmund Freud,
e outras doenças consideradas como inspirado na teoria do psiquiatra Ri-
loucura. O tratamento indicado foi a chard von Kraff-Ebing de que “as zo-
remoção do órgão. Assim, milhares de nas erógenas da mulher são o clitóris
mulheres foram mutiladas até os anos enquanto ela é virgem, e a vagina e o
1920. colo do útero depois da deloração”
As questões culturais acerca do (LAQUEUR, 2001, p. 281), não nega
clitóris vão além de sua identiicação e a importância do orgasmo.
reconhecimento no corpo da mulher. Porém, airma que o prazer pro-
O conhecimento produzido acerca porcionado pelo clitóris é considerado
normal apenas em meninas com cerca
desse órgão, como o responsável pelo
de cinco anos de idade. Portanto, as
prazer feminino, promove a propa-
mulheres adultas devem ter orgasmos
gação de práticas como a circuncisão
vaginais; qualquer uso do clitóris para
feminina (cliterodectomia), também
sentir prazer seria sinal de imaturidade.
chamada de mutilação genital femini-
A teoria de Freud coloca em xe-
na e a inibulação (costura dos lábios
que a teoria dos/as pesquisadores/as
vaginais ou do clitóris). Estas práticas
estadunienses William Masters e Virgi-
são realizadas principalmente em al-
nia Johnson. O médico e a psicóloga,
gumas sociedades africanas e asiáticas,
mundialmente conhecidos por seus

• 128 •
estudos de dimensões terapêuticas isiologia do clitóris, mas não se trata
nas áreas da psicologia e da isiologia apenas de saber o funcionamento e
do ato sexual, foram os primeiros a a estrutura de um órgão. O clitóris é
constatarem que a estrutura do clitó- uma parte do corpo da mulher; ao no-
ris estende-se ao longo da vagina. Esse meá-lo e estabelecermos saberes sobre
conhecimento possibilitou airmar que ele, é da mulher que estamos falando.
tanto o orgasmo clitoriano, quanto o Ao instituir que o clitóris pudesse ser
vaginal, são quase inteiramente clito- a causa de transtornos mentais ou que
rianos. sua anatomia tratava-se de um “pênis
É possível perceber que a his- invertido”, muitas representações so-
tória do clitóris foi sendo escrita de ciais foram sendo determinadas e dis-
acordo com as condições culturais e
seminadas. Até hoje, ecos de um pre-
históricas possibilitadas em determina-
conceito produzido historicamente são
dos tempos. Ao revisitarmos a história
ouvidos quando nos deparamos com
da anatomia, observa-se que o corpo
preceitos como: uma mulher que gosta
da mulher foi estudado e desvendado a
de sexo é tarada, fogosa, ninfomanía-
partir do corpo do homem. Ao tomar
ca; mulheres sérias não se masturbam;
o corpo do homem como referência,
mulher que tem posicionamento forte
as descrições passam a ser compara-
tivas e homólogas; airmações como é dita “homem de saias”; mulheres que
“o clitóris é o pênis feminino” e a tese são responsáveis pela economia da casa
tecida por Freud de que “as mulheres ou que trabalham fora são nomeadas
têm inveja do pênis” posicionam as “o homem da casa”. Há uma diversa
mulheres como o oposto do homem. lista de designações, nas quais somos
Na busca de comparações e identiica- interpelados/as; muitas vezes, repro-
ções de órgãos e estruturas correspon- duzimo-las sem questionarmos e/ou
dentes, partindo do corpo do homem, problematizarmos sobre suas origens.
a mulher torna-se o outro, o diferente;
na falta de um órgão e de uma estrutu- Joanalira Corpes Magalhães
Benícia Oliveira da Silva
ra, coloca-se que a mulher é incomple- Paula Regina Costa Ribeiro
ta, como se faltasse alguma coisa. Fabiane Ferreira da Silva
Nesse contexto, é fato que mui-
tas histórias sobre o clitóris foram es- Referências
critas e contadas, possibilitando que
DOMINICI, Michèle. Clitóris, o prazer proibido (Le
muito conhecimento acerca desse ór- Clitoris, Ce Cher Inconnu). [Documentário]. Disponível
gão fosse produzido. É inegável a im- em: <http://chatasdeatenas.blogspot.com.br/2013/05/
clitoris-o-prazer-proibido documentario.html>. Acesso
portância de conhecer a anatomia e a em: 29 jun. 2013.

• 129 •
LAQUEUR, homas Walter. Inventando o sexo: corpo e sobre sua situação de inferioridade e na
gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume Du-
mará, 2001. luta pela igualdade.
Partindo do rastreamento em
Sugestões de leitura um amplo leque de textos feministas,
podemos sugerir que o termo condi-
DE LA IGLEISA, Matilde et al. Biopolítica del clíto-
ris: análisis de un caso de protección jurídica del placer.
ção feminina esteve presente até os
Disponível em: <http://www.scielo.org.ar/scielo.php?pi- anos 1990 no vocabulário das teóricas
d=S1851-16862009000100040&script=sci_arttext&tl-
ng=en>. Acesso em: 10 jun. 2013.
feministas que buscaram organizar, e
por vezes criticar, a trajetória das cate-
MACHADO, Paula Sandrine. O sexo dos anjos: um
olhar sobre a anatomia e a produção do sexo (como se
gorias de análise que vão se sucedendo
fosse) natural. Cadernos Pagu, Campinas, v. 24, p. 249- a partir da segunda onda. O declínio de
281 jan./jun. 2005.
seu uso é detectado a partir da recusa
RAGO, Margareth. O elogio do sexo da mulher. Cader- teórica em colocar os corpos das mu-
nos Pagu, Campinas, n. 14, p. 291-297. 2000.
lheres no centro do debate e da emer-
______ . Os mistérios do corpo feminino, ou as mui- gência do conceito gênero, nos anos
tas descobertas do “amor venéris”. Projeto História, São
Paulo, v. 25, dez. 2002. Disponível em: <http://revistas. 1980, e sua apropriação maciça pela
pucsp.br/index.php/revph/article/view/10587>. Acesso teoria feminista na década seguinte.
em: 10 jun. de 2013.
A discussão sobre a condição
ROHDEN, Fabíola. O corpo fazendo a diferença. feminina esteve presente nos veículos
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pi-
d=S0104-93131998000200007&script=sci_arttext>. midiáticos e, posteriormente, ela apa-
Acesso em: 02 maio 2013. rece em depoimentos que rememoram
o período, colhidos e trabalhados por

meio da História Oral. Encontramos
fartamente no campo feminista a his-
Condição Feminina
toricização dos inicialmente explo-
rados “estudos sobre a mulher”; das
Denominou-se condição femi-
categorias mulher, mulheres e gênero,
nina a “condição” que determinaria
buscando discutir sua aplicação teórica,
uma identidade comum para as mulhe- mas também prática, ou seja, sua fun-
res, com base na biologia ou, melhor ção política na sociedade. Discussões
dizendo, no fato de terem nascido (se sobre o tema estampam com frequên-
tornado, como diria Simone de Beau- cia jornais e revistas de público mais
voir) mulheres. O termo foi apropria- amplo, cujas reportagens questionam
do pelo movimento de mulheres e pe- a situação das mulheres, principalmen-
las protagonistas da chamada segunda te nos anos 1970 e 1980. No Brasil, o
onda feminista para dar sustento aos termo esteve associado ao protago-
argumentos que utilizavam no debate nismo das mulheres em diversas ati-

• 130 •
vidades, mais especiicamente a partir sexo, que discutia a crise da “identida-
da Década da Mulher (1975-1985). A de feminina” e que foi amplamente di-
determinação, pela Organização das fundido em diversos países, entre eles
Nações Unidas, de 1975 como o Ano os latino-americanos.
Internacional da Mulher, ao mesmo Para Vera Soares (1994), o ter-
tempo atendeu a demandas do movi- reno comum que permite as relações
mento, reconhecendo sua visibilidade, entre o movimento feminista e o mo-
mas também gerou outras demandas vimento de mulheres, em termos mais
na imprensa mundial, voltada então amplos, aparece em duas dimensões:
para o que passou a fazer parte do sen- “o descobrimento e a relexão de sua
so comum como a condição feminina, identidade como mulheres e a ênfase
da qual encontramos a variação “con- no cotidiano”. A partir destes elemen-
dição da mulher”. tos, a condição feminina era discutida
Mapeando os caminhos percor- em grupos de mulheres. Exemplos
ridos pelos conceitos, nos deparamos desta discussão aparecem em reporta-
com a obra que foi um marco para o gens encontradas em jornais dos anos
movimento feminista e também para 1970, na Europa, nos Estados Unidos
o movimento de mulheres. No tomo ou no Brasil. Citamos como exemplo
dois de O segundo sexo – A experiência as mulheres cineastas que passaram a
vivida – Simone de Beauvoir (1949) rodar ilmes com perspectiva feminis-
aborda a questão em um dos capítu- ta, que alegavam abertamente o intuito
los, intitulado “Situação e caráter da de discutir, por meio de seu trabalho, a
mulher”. Já no primeiro parágrafo, a condição feminina (cf. Veiga, 2013). A
autora informa que a “condição” da adjetivação “feminina” foi posterior-
mulher permaneceu a mesma, através mente combatida dentro do campo
das mudanças supericiais que vinham feminista, por estar associada a uma
da Grécia antiga até o inal dos anos discutível natureza das mulheres, indi-
1940, quando o livro foi publicado na cando algo que lhes era intrínseco, uma
França. Assim como o termo “condi- característica essencial, que se reletia
ção humana”, a “condição feminina” em suas ações e trabalhos (por exem-
relaciona-se a um estado físico e psi- plo: literatura feminina ou cinema fe-
cológico, a uma maneira de ser, mes- minino). Politicamente, tal qualidade
mo que historicamente construída. Ele era algo a ser combatido, mas isso não
também mostra sua força a partir de impediu que o termo fosse apropriado
1963, com a publicação do livro Mística para além das arestas do feminismo.
feminina, da autora estadunidense Bet- Nas palavras de Linda Nichol-
ty Friedman, inspirado em O segundo son (2000), “Dizer que as mulheres

• 131 •
têm sido diferentes dos homens des- po: condição feminina, maternidade e menta-
se ou daquele jeito é dizer que as mu- lidades no Brasil Côlonia. Estes exemplos
lheres são desse ou daquele jeito. Mas (cf. Pedro, 2005) nos dão a referência
inevitavelmente as características da da presença do termo nos debates so-
‘natureza’ ou da ‘essência’ das mulhe- bre a situação hierarquicamente infe-
res – ainda que essa ‘natureza’ ou essa rior das mulheres na sociedade.
‘essência’ seja descrita como social- Para Adriana Piscitelli (2001), “a
mente construída – tendem a reletir ‘condição’ compartilhada pelas mulhe-
a perspectiva daqueles que as fazem”. res – e da qual se deriva a identidade
Portanto, para historicizarmos o que entre elas – está ancorada na biologia
foi chamado condição feminina, é ne- e na opressão por parte de uma cultu-
cessário situarmos o termo, estabele- ra masculina. O corpo aparece, assim,
cendo um limite temporal para seu uso, como o centro de onde emana e para
cuja demarcação acaba sendo borrada onde convergem opressão sexual e de-
ao encontrarmos ainda na atualidade sigualdade”. Ainda para a autora, “O
seu uso para variados ins. A princípio, conceito de patriarcado, útil do ponto
no Brasil, ele aparece nos títulos dos de vista da mobilização política, colo-
livros de algumas autoras a partir da cou sérios problemas no que se refere
década de 1980, entre elas Miriam Mo- à apreensão da historicidade da condi-
reira Leite (1984), com a obra A condi- ção feminina”.
ção feminina no Rio de Janeiro, século XIX: Para concluir a explanação so-
antologia de textos de viajantes estrangeiros; bre o termo, voltamos a Simone de
Nanci Valadares Carvalho (1988), que Beauvoir (1949) e sua introdução do
organizou o livro intitulado A condição primeiro tomo de O segundo sexo: “O
feminina, cujos capítulos faziam um drama da mulher é esse conlito entre a
apanhado desta “condição” em diver- reivindicação fundamental de todo su-
sos setores, discutindo temas como jeito que se põe sempre como o essen-
aborto, trabalho, cidadania e feminis- cial e as exigências de uma situação que
mo; também Rachel Soihet (1989), a constitui como inessencial. Como
com o livro Condição feminina e formas pode realizar-se um ser humano den-
de violência: mulheres pobres e ordem urba- tro da condição feminina? Que cami-
na, 1890-1920; Leila Mezan Algranti nhos lhe são abertos? Quais conduzem
(1993), que publicou a obra Honradas a um beco sem saída? Como encontrar
e devotas: mulheres da colônia, condição femi- a independência no seio da dependên-
nina nos conventos e recolhimentos do sudeste cia? Que circunstâncias restringem a
do Brasil, 1750-1822; e ainda Mary Del liberdade da mulher, e quais pode ela
Priore (1993), com o livro Ao sul do cor- superar?” Com suas questões de fun-

• 132 •
do existencialista, podemos dizer que VEIGA, Ana M. Cineastas brasileiras em tempos de dita-
dura: cruzamentos, fugas, especiicidades. Florianópolis,
Simone de Beauvoir e seu livro inau- 2013. 397p. Tese (Doutorado em História) – Universida-
guraram as relexões e o debate sobre a de Federal de Santa Catarina.

condição feminina, que encontramos,


de maneira dispersa, ainda nos dias de •
hoje.
Condorcet - Educação
Ana Maria Veiga da mulher
Joana Maria Pedro
Condorcet igura com desta-
Referências e sugestões de leitura que no pequeno grupo de precursores
que, embora “com muita frequência
ALGRANTI, Leila M. Honradas e devotas: mulheres da
colônia, condição feminina nos conventos e recolhimen- esquecidos, ridicularizados ou desco-
tos do sudeste do Brasil, 1750-1822. Rio de Janeiro: José nhecidos”, Benoîte Groult (2010, p.
Olympio & Edunb, 1993.
14) acha que mereceriam “entrar no
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: a experiência
vivida. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967.
pouco povoado panteão dos homens
feministas”. Mesmo não tendo sido
CARVALHO, Nancy V. A Condição Feminina. São Pau-
lo: Vértice; Ed. Revista dos Tribunais, 1988. o primeiro, Jean Antoine Nicolas de
DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo: condição femini-
Caritat, Marquês de Condorcet, des-
na, maternidade e mentalidades no Brasil Colônia. Rio de taca-se, nesse papel de precursor, por
Janeiro: José Olympio, Edunb, 1993.
vários motivos: pelo momento - o da
FRIEDAN, Betty. Mística Feminina. Rio de Janeiro: Vo- Revolução Francesa; por ele mesmo
zes, 1971.
- membro da nobreza, último grande
LEITE, Miriam M. (Org.). A condição feminina no Rio
de Janeiro, século XIX: antologia de textos de viajantes
ilósofo do iluminismo, famoso mate-
estrangeiros. São Paulo: HUCITEC, Fundação Nacional mático, pensador e político revolucio-
Pró- Memória, 1984.
nário, situado à esquerda no quadro
NICHOLSON, Linda. Interpretando o gênero. Revista da doutrina liberal; pelas causas que
de Estudos Feministas, vol.8, n.2. Florianópolis, 2000,
p. 9-43. abraçou – a da Revolução, a do com-
PEDRO, Joana M. Traduzindo o debate: o uso da cate-
bate às desigualdades, a da libertação
goria gênero na pesquisa histórica. História. Vol.24, n.1, dos escravos, a da igualdade entre os
São Paulo: 2005, p. 77-98.
sexos, a da instrução universal, públi-
PISCITELLI, Adriana. Re-criando a (categoria) mulher? ca, gratuita, laica e comum para ambos
Cadernos Pagu, Campinas-SP, 2001.
os sexos; inalmente, porque, como diz
SOARES, Vera. Movimento feminista: paradigmas e de-
saios. Revista Estudos Feministas. N. Especial, Florianó-
Groult (2010, p. 54), o seu Ensaio so-
polis-SC, 1994, p. 11-24. bre a admissão das mulheres ao direito
SOIHET, Raquel. Condição feminina e formas de vio- de cidadania, de 1790, foi “o primeiro
lência: mulheres pobres e ordem urbana, 1890-1920. Rio
de Janeiro: Forense Universitária, 1989.
manifesto feminista da Revolução”,

• 133 •
antecedendo em um ano a proposta de multo organizado por pessoas ligadas
Declaração dos direitos da mulher e da ao mercado de escravos.
cidadã de Olympe de Gouges. Em 1790, no texto Sobre a admis-
É importante notar que a ques- são das mulheres ao direito de cidadania, o
tão da igualdade entre os sexos, inclu- autor trata explicitamente da questão
sive quanto à educação, não se colocou do direito de cidadania (droit de cité)
como questão isolada. Houve uma das mulheres, mas estendendo-o a to-
causa comum anterior – a da liberta- dos os indivíduos da espécie humana,
ção dos escravos – abraçada tanto por independentemente de sexo, cor e re-
Condorcet como pela feminista Olym- ligião: “Ora, os direitos dos homens
pe: “Por causa dos laços entre o Anti- resultam unicamente do fato de que
go Regime e o comércio dos escravos, são seres sensíveis, suscetíveis de ad-
os anos que precederam a Revolução quirir ideias morais, e de raciocinar
viram aparecer também o antirracis- sobre essas ideias. Assim, tendo as mu-
mo. O futuro deputado da Gironda, lheres essas mesmas qualidades, têm,
Brissot, amigo de Olympe, e o abade necessariamente, direitos iguais. Ou
Gregoire tiveram a ideia de fundar um nenhum indivíduo da espécie humana
Clube dos Amigos dos Negros que tem verdadeiros direitos, ou todos têm
adquiriu certa notoriedade em Paris; os mesmos; e aquele que vota contra
Condorcet tomou a si a elaboração dos o direito de outro, seja qual for sua
fundamentos teóricos e ilosóicos da religião, cor ou sexo, desde logo abju-
emancipação dos Negros.” (Noack, rou os seus.” (Condorcet. In: Badinter,
1993, p. 76) 1991, p. 45-46).
Condorcet já izera, anos antes O direito igual da mulher à ins-
(1781, p. 9), esta denúncia: “Reduzir trução, apenas implícito no manifesto
um homem à escravidão, comprá-lo, de 1790, é explicitado em 1791 na obra
vendê-lo, mantê-lo na servidão, es- Cinco memórias sobre a instrução pública
tes são verdadeiros crimes, e crimes (Condorcet, 2008). Coutel e Kintzler
maiores que o roubo.” De Olympe, o (In: Condorcet, 1994, p. 6) atribuem
abade Gregoire diria, em 1808, que ela a esse autor “a teoria mais completa e
foi a “única mulher entre aqueles que mais moderna da escola republicana”.
haviam abraçado a causa dos negros Na Primeira Memória, que trata da na-
e dos mestiços” (Apud Noack, 1993, tureza e objeto da instrução pública, lê-
p. 76). Boicotada por cinco anos, a sua -se que a sociedade deve ao povo uma
peça A escravidão dos negros só seria en- instrução pública; que a deve igual-
cenada na Comédie Française em de- mente nas diversas proissões; que a
zembro de 1789, em meio a grande tu- deve ainda como meio de aperfeiçoa-

• 134 •
mento da espécie humana; que há que ser comum e coniado a um mesmo
estabelecer diversos graus na instru- mestre, que possa ser escolhido indife-
ção comum; que a educação pública rentemente num e noutro sexo”. A ins-
deve limitar-se à instrução; por im, trução comum, longe de ser perigosa, é
que as mulheres devem compartilhar “útil aos costumes”, e a principal causa
a instrução comum dada aos homens da separação dos sexos no ensino são a
(Condorcet, 2008, p. 17-59). Segundo avareza e o orgulho (Condorcet, 2008,
o autor, “não se poderia estabelecer a p. 60-63).
instrução só para os homens, sem in- Em 1792, no “Relatório e pro-
troduzir uma desigualdade notável não jeto de decreto sobre a organização
somente entre marido e mulher, mas geral da instrução pública apresenta-
também entre irmão e irmã, entre ilho dos à Assembleia Nacional em nome
e mãe” (Condorcet, 2008, p. 59). do Comitê de Instrução Pública em
O autor liberal apresenta vários 20 e 21 de abril de 1792”, Condorcet
argumentos em favor da tese de que inicia sustentando o caráter universal
“É necessário que as mulheres tenham e nacional da instrução pública: “Se-
a mesma instrução que é dada aos ho- nhores. Oferecer a todos os indivíduos
mens”: 1º. Para que [elas] possam con- da espécie humana os meios de prover
trolar a instrução que é dada aos seus suas necessidades, de assegurar o seu
ilhos. [...]; 2º. Porque a falta de instru- bem-estar, de conhecer e de exercer os
ção das mulheres introduziria nas fa- seus direitos, de entender e de cumprir
mílias uma desigualdade contrária à sua com seus deveres; [...] Tal é a primeira
felicidade. [...]; 3º. Porque é um meio inalidade de uma instrução nacional e,
de se fazer os homens conservarem os desse ponto de vista, ela é, para o po-
conhecimentos que adquiriram em sua der público, um dever justiça.” (Con-
juventude. [...]; 4º. Porque as mulheres dorcet, 2010, p. 22).
têm o mesmo direito que os homens à Na sequência, apoiando-se no
instrução pública. (Condorcet, 2008, p. princípio da igualdade, Condorcet
58-60). (2010, p. 21-35) reairma que a instru-
E tendo os mesmos direitos, ção deve ter uma organização nacional
“elas têm o direito de obter as mesmas e que a educação deve ser “tão igual
facilidades para adquirir as luzes, que quanto universal”, sustentando ainda
podem lhes dar os meios de exercer re- que esta deve estar aberta para todas
almente tais direitos, com uma mesma as idades, inclusive para adultos, com
independência e numa extensão igual”. vários níveis: escolas primárias, escolas
E mais: “Já que a instrução deve ser secundárias, institutos, liceus, níveis es-
de modo geral a mesma, o ensino deve tes com ensino totalmente gratuito, e,

• 135 •
por im, a sociedade nacional das ciên- progressos da igualdade em um mes-
cias e artes. mo povo; enim, o aperfeiçoamento
No entanto, Luzuriaga (1959, p. real do homem.” (Condorcet, 1970, p.
46-47) anota que Condorcet, em seu 194). O autor identiica também três
projeto, não chega a reconhecer a obri- causas principais das desigualdades: a
gatoriedade do ensino, nem a prever a desigualdade de riqueza; a desigualda-
preparação para o magistério, embo- de de estado ou condição entre aquele
ra, em compensação, introduzam-se cujos meios de subsistência se transmi-
aí ideias que se adiantam em grande tem à sua família e aquele a quem estes
parte ao que, muito mais tarde, haveria meios dependem da parte de sua vida
de constituir “o movimento da escola em que ele é capaz de trabalhar; por
única ou uniicada e da educação de- im, a desigualdade de instrução (Con-
mocrática”. Lopes (1981, p. 60), por dorcet, 1970, p. 199). Para as duas pri-
sua vez, salienta que a unanimidade meiras causas o autor propõe medidas
entre os três estados [nobreza, clero e que preiguram as políticas sociais que
burguesia] não ia além da necessidade se iriam delineando a partir do inal
de reforma do aparelho escolar e do do século XIX e que tomariam corpo
caráter público da instrução: “Sua ad- no Estado do Bem-Estar, no terceiro
jetivação, isto é, se obrigatória ou não, quartel do século XX. Para a elimina-
se laica ou não, se universal ou não, se ção da terceira causa da desigualdade,
gratuita ou não, vai depender do jogo o autor propõe a igualdade de instru-
de forças políticas, sociais e econômi- ção: “A igualdade de instrução que se
cas em cada momento da Revolução e pode esperar obter, mas que deve ser
do grupo que assume o poder.”
suiciente, é aquela que exclui toda de-
Após sua morte não de todo
pendência, tanto forçada como volun-
esclarecida na prisão em 1794, sua es-
tária. [...] Nós mostraremos que, por
posa Sophie publica a obra mais famo-
uma escolha feliz tanto dos próprios
sa de Condorcet: Esboço de um quadro
conhecimentos quanto dos métodos
histórico dos progressos do espírito humano,
de ensinar, pode-se instruir a massa
redigida na clandestinidade em Paris.
inteira dum povo a respeito de tudo
Nessa obra aparece com toda a força
aquilo de que um homem precisa sa-
a preocupação com a superação da
ber para a economia doméstica, para a
desigualdade, inclusive entre os sexos:
administração de seus negócios, para o
“Nossas esperanças sobre os destinos
livre desenvolvimento de sua proissão
futuros da espécie humana podem se
e de suas faculdades; para conhecer os
reduzir a estas três questões: a destrui-
seus direitos, defendê-los e bem exer-
ção da desigualdade entre as nações; os
cê-los; para ser instruído sobre os seus

• 136 •
deveres; para julgar as próprias ações e liberal como Mandeville e Smith, Con-
aquelas dos outros de acordo com as dorcet é antípoda do primeiro e repre-
próprias luzes [...]” (Condorcet, 1970, senta grande avanço em relação ao se-
p. 201, tradução minha) gundo; e enquanto aqueles radicavam
Condorcet entende que “a ins- suas teorias no princípio da Liberdade,
trução bem dirigida corrige a desigual- este fundamenta suas propostas no da
dade natural das faculdades, em vez Igualdade (Ferraro, 2009), justamente
de fortalecê-la, da mesma forma que oo princípio ao qual, no século XX,
as boas leis remediam a desigualdade nasceriam abraçados os direitos funda-
natural dos meios de subsistência”. mentais sociais, entre eles o da educa-
Entende ainda que, entre os progres- ção (Sarlet, 2005, p. 56).
sos do espírito humano mais impor- No entanto, por muito tempo
tantes para a felicidade geral, deve-se ainda se iria tomar como modelo, não
colocar “a destruição completa dos Condorcet, mas Rousseau, o “brilhan-
preconceitos que estabeleceram entre te líder do antifeminismo no século
os sexos uma desigualdade de direitos XVIII”, como diz Groult (2010, p. 53),
que é funesta ao próprio sexo que ela com sua proposta de uma educação
favorece”. Para ele, a total destruição para Emílio e outra para Soia.
dos costumes autorizados por esses
Alceu Ravanello Ferraro
preconceitos haveria de “favorecer o
progresso da instrução e, sobretudo,
Referências e sugestões de leitura
torná-la verdadeiramente geral, seja
porque esta seria estendida aos dois BADINTER, Elisabeth (Org.). Palavras de homens
(1790-1793): Condorcet, Proudhomme, Guyomar... [et
sexos com mais igualdade, seja porque al.]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
ela não pode tornar-se geral, mesmo
CONDORCET, Jean Antoine Nicolas de Caritat, Mar-
para os homens, sem o concurso das quis de. Rélexions sur l’esclavage des nègres - 1781. La
mães de família”. (Condorcet, 1970, p. Société Tipographique, Neufchatel, 1781. Disponível
em: http://classiques.uqac.ca/classiques/condorcet/rele-
203, 211 e 212). xions_esclavage_negres/condorcet_relexions_esclavage.
Na “Quinta memória”, Con- pdf. Acesso em: 25 abr. 2013.

dorcet (2008, p. 258, grifos do autor) _____. Esquisse d’un tableau historique des progrès de
diz que, por muito tempo, considerara l’esprit humain (1793-1794). Paris: Librairie Philosophi-
que J. Vrin, 1970. Disponível em:http://classiques.uqac.
que suas ideias eram sonhos, quando, ca/classiques/condorcet/esquisse_tableau_progres_hum/
de repente, “um só instante [a Revo- esquisse_tableau_hist.pdf . Acesso em: 31 maio 2008. (A
tradução Esboço de um quadro histórico do progresso do
lução] colocou um século de distância espírito humano, Campinas, Ed. UNICAMP, 1993, tem
o inconveniente de traduzir repetidamente préjugé por
entre o homem de hoje e o de ama- prejuízo em vez de preconceito).
nhã”. Na questão da instrução pública,

• 137 •
______. Sobre a admissão das mulheres aos direito de entender outras formas de apropria-
cidadania. In: BADINTER, Elisabeth (Org.). Palavras de
homens (1790-1793): Condorcet, Proudhomme, Guyo- ção de conhecimentos, requer antes de
mar... [et al.]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. p.
43-52.
tudo, um estudo do pensamento de-
senvolvido pelo Sociólogo português
______. Cinco Memórias sobre a instrução pública. Tra-
dução e apresentação de Maria da Graça de Souza. São Boaventura de Sousa Santos (2000;
Paulo: Ed. UNESP, 2008. 2004; 2007; 2010a/b) sobre o assunto.
______. Escritos sobre a instrução pública. Campinas, Ao explicitar a noção de co-
SP: Autores Associados, 2010. (Coleção clássicos da edu-
cação / Coordenação deste volume da coleção Gilberto nhecimento sobre este ponto de vista,
Luiz Alves). emerge a possibilidade de uma visão
COUTEL, Charles; KINTZLER, Catherine. Presénta- crítica ampliada acerca dos princípios
tion. In: CONDORCET, Marie Jean Antoine Nicolas
de Caritat, Marquis de. Cinq mémoires sur l’instruc-
centrais nas lutas pelas questões de
tion publique, 1791. Paris: Garnier-Flammarion, 1994. gênero, ou seja, autonomia, liberdade
Disponível em: <http://classiques.uqac.ca/classiques/
condorcet/cinq_memoires_instruction/Cinq_memoi- e autodeterminação. A intencionali-
res_instr_pub.pdf>. Acesso em: 8 maio 2008.
dade é, pois, contribuir com alguns
FERRARO, Alceu Ravanello. Liberalismos e educação. subsídios teóricos que oportunizem o
Ou por que o Brasil não podia ir além de Mandeville.
Revista Brasileira de Educação, v.14, n. 41, p. 308-325, ingresso e a permanência num proces-
maio/ago. 2009. so emancipatório, quiçá irreversível de
GROULT, Benoîte. Le féminism au masculin. Paris: Ber- pessoas e coletivos!
nard Grasset, 2010.
Os trabalhos do autor, enqua-
LOPES, Eliana Marta S. T. Origens da educação pública. drados em três macroáreas, quais se-
A instrução na Revolução burguesa do século XVIII. São
Paulo: Loyola, 1981. jam: a Epistemologia, a Sociologia do
LUZURIAGA, Lorenzo. História da educação pública.
Direito, a Teoria da Democracia, for-
São Paulo: Ed. Nacional, 1959. necem importantes subsídios para a
NOACK, Paul. Olympe de Gouges. Courtisane et mili- compressão das teorias participativas
tante des droits de la femme. Paris: Fallois, 1993. p.185- da democracia, incluindo as noções de
196
regulação e emancipação.
SARLET, Ingo Wolfang. A eicácia dos direitos funda-
mentais. 5. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2005. Santos (2000; 2004) sustenta a
tese de que estamos vivendo na con-
• temporaneidade um momento mar-
cado pela transição paradigmática, no
Conhecimento qual o projeto da modernidade se en-
contra em profundo declínio, a partir
Este conceito abordado na pers- de suas principais racionalidades e vias
pectiva da busca por encontrar novas de acesso aos conhecimentos, ou seja,
racionalidades e, consequentemente, a emancipação e a regulação.

• 138 •
Isto quer dizer que, o pilar da sequente hegemonia do princípio da
emancipação, constituído por três for- regulação, o mercado sobre os outros
mas de racionalidade/conhecimento, dois princípios, o Estado e a comuni-
a saber: estético-expressiva, cogniti- dade. Portanto, a ciência tornou-se a
vo-instrumental e prático-moral, cujos forma de racionalidade absoluta, ou
pontos extremos são o colonialismo seja, hipercientiicização da emanci-
pação e o mercado, o único princípio
(ignorância) e a solidariedade (conheci-
regulador moderno, hipermercadoriza-
mento), se encontram em vertiginoso
ção da regulação.
desequilíbrio em relação ao pilar deno-
A denominada hipercientiiciza-
minado de regulação, composto pelo ção da emancipação, identiicada por
Estado, o mercado e a comunidade e Santos (2000; 2004; 2007), pode ser
nos quais os pontos extremos são o entendida como uma limitação ao co-
caos (ignorância) e a ordem (discipli- nhecimento emancipação, pois a impo-
na). sição da ciência sobre o senso comum
Esse período transicional é, acabou por levar às monoculturas das
pois, marcado na leitura do autor, por práticas e dos saberes.
dois níveis básicos: a natureza episte- A primeira ruptura epistemoló-
mológica e o cunho societal. Essa tran- gica evidenciou-se quando a ciência se
sição ocorre entre o paradigma domi- diferenciou do senso comum conser-
nante da ciência moderna (sociedade vador, hierárquico e autoritário. Com o
patriarcal, produção capitalista, demo- passar do tempo, no entanto, a ciência
cracia autoritária e desenvolvimento acabou por se tornar uma forma de
global e excludente) e o paradigma conhecimento superior, isolada e ina-
emergente (ainda sem uma estrutura cessível. Afora isso, o autor ressalta
bem deinida). ainda a existência de tensões dialéticas
Há de se considerar ainda, de que marcam a modernidade ocidental,
acordo Santos (2000; 2004), que a ab- entre as esferas do público e privado,
sorção do pilar da emancipação pelo Estado e sociedade, Estado-nação e
pilar da regulação foi efetivada por globalização.
meio da convergência entre a moder- A saída dessa primeira fase pres-
nidade e o capitalismo. A sobreposi- supõe a recuperação do conhecimento
ção do conhecimento regulação sobre emancipação e torna-se imprescindível
o conhecimento emancipação se deu assim, uma segunda ruptura, agora de
através da imposição da racionalidade natureza epistemológica, como forma
cognitivo-instrumental sobre as ou- de transformar o conhecimento cien-
tras formas de racionalidade e a con- tíico (totalizante e antidemocrático)

• 139 •
em um novo senso comum, concebido Os problemas fundamentais
por Santos (2000; 2004) como sendo nos diversos espaços-tempo da socie-
‘‘conhecimento prudente para uma dade, como o espaço-tempo mundial,
vida decente’, formado a partir de cin- da produção, da cidadania e doméstico,
co dimensões: a solidariedade, a parti- isto é, a rede em que se conhece e se
cipação, o prazer, a autoria e a artefac- vive, apresentam diiculdades que cla-
tualidade discursiva. mam soluções fundamentais. Em fun-
Para Santos (2000, p. 75), ‘‘o ção da colonização através do princípio
princípio da comunidade e a raciona- cientíico, a participação icou restrita a
lidade estético-expressiva são as repre- uma noção de esfera política entendida
sentações mais inacabadas da moder- a partir da concepção hegemônica da
democracia: a democracia representa-
nidade ocidental” e, por isso, seriam
tiva liberal. E, vamos além, o paradig-
os princípios que poderiam colaborar
ma dominante, contudo, não permi-
para a construção de um novo pilar
te repensar o futuro. Por isso, impõe
emancipatório. Nesse sentido, o prin-
reinventá-lo, abrir um novo horizonte
cípio da comunidade é ‘‘o mais bem
de possibilidades. Para isso, só há uma
colocado para instaurar uma dialética
solução: a utopia, assim compreendida
positiva com o pilar da emancipação’’
“A utopia é a exploração de novas pos-
(Santos, 2000, p. 75). sibilidades e vontades humanas, por
A racionalidade estético-expres- via da oposição da imaginação à neces-
siva por sua vez, foi a que mais icou sidade do que existe, só porque existe
fora do alcance da colonização. Assim em nome de algo radicalmente melhor
como a colonização do prazer se deu que a humanidade tem o direito de de-
através do controle das formas de la- sejar e por que merece a pena lutar. A
zer e dos tempos livres, Santos (2000, utopia é uma chamada de atenção para
p. 76) sustenta que “fora do alcance da o que não existe como (contra) parte
colonização, manteve-se a irredutível integrante, mas silenciada, do que exis-
individualidade intersubjetiva do homo te (...).” (SANTOS, 1997, p. 324).
ludens, capaz daquilo a que Barthes cha- A dignidade humana e o direi-
mou jouissance, o prazer que resiste ao to à vida concebida enquanto quali-
enclausuramento e difunde o jogo en- dade se constitui em referente básico
tre os seres humanos. Foi no campo da de resgate para um projeto utópico do
racionalidade estético-expressiva que o Estado democrático e social de direi-
prazer, apesar de semienclausurado, se to, com vistas ao acesso e permanên-
pode imaginar utopicamente mais do cia das pessoas num ideário educativo
que semiliberto.” mais coletivo e solidário, de acesso e

• 140 •
apropriação de conhecimentos. Desta los, ossos, vísceras, relexos e sensa-
forma, há de se repensar, que nas expe- ções, o corpo é também o seu entorno,
riências comunitárias de movimentos ou seja, a roupa e os acessórios que o
populares e na valorização dos saberes adornam, as intervenções que nele se
locais, emergem fontes inesgotáveis de operam, a imagem que dele se produz,
pilares signiicativos para os alicerces as máquinas que nele se acoplam, os
das novas racionalidades. sentidos que nele se incorporam, os si-
lêncios que por ele falam e a educação
Daniela Silva de Lourenço de seus gestos. Não são, portanto, as
Sandra Vidal Nogueira
semelhanças biológicas que o deinem,
mas, fundamentalmente, os signii-
Referências e sugestões de leitura
cados culturais e sociais que a ele são
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o associados. Esse modo de entender o
social e o político na pós-modernidade. 3.ed. São Paulo: corpo se afasta da teorização tradicio-
Cortez, 1997.
nal, segundo a qual é visto como “um
______. A crítica da razão indolente: contra o desperdí- substrato biológico naturalmente dado
cio da experiência. SP: Cortez 2000.
e inquestionável, em cima do qual se
______. Conhecimento prudente para uma vida decen- erguem, de forma separada e indepen-
te: um discurso sobre as ciências revisitado. SP: Cortez,
2004. dente, os sistemas sociais e culturais de
signiicado” (SILVA, 2000, p. 42). O
______. Para além do pensamento abissal: das linhas glo-
bais a uma ecologia dos saberes. Revista Crítica de Ciên- corpo é produto de uma construção
cias Sociais, Coimbra (78): 3-46, out., 2007.
cultural, social e histórica sobre o qual
______. Um discurso sobre as ciências. 7ª ed., SP: Cor- são conferidas diferentes marcas em
tez, 2010a.
diferentes tempos, espaços, conjuntu-
______. A universidade no século XXI: para uma refor- ras econômicas, grupos sociais, étnicos
ma democrática e emancipatória da Universidade. SP:
Cortez, 2010b.
etc. Ou seja, não é algo dado a priori,
nem mesmo é universal: é provisório,
• mutável e mutante, suscetível a inúme-
ras intervenções consoante o desen-
Corpo volvimento cientíico e tecnológico de
cada cultura, bem como suas leis, seus
Palavra polissêmica, cuja emer- códigos morais e sua linguagem, visto
gência no âmbito das ciências sociais que ele é construído também a partir
e humanas decorre de análises advin- daquilo que dele se diz. Em outras pa-
das do movimento feminista em seus lavras: a linguagem cria o existente e,
diferentes aportes epistemológicos. com relação ao corpo, tem o poder de
Mais do que um conjunto de múscu- nomeá-lo, classiicá-lo, deinir-lhe nor-

• 141 •
malidades e anormalidades, instituin- caráter histórico e biopolítico dos cor-
do, por exemplo, o que é considerado pos. Ao analisar determinadas institui-
adequado em determinado contexto ções como escolas, fábricas, hospitais
histórico e social. Vale destacar que e prisões, Foucault dá visibilidade ao
observar o corpo a partir de sua di- poder que investe no corpo diferentes
mensão cultural não signiica negar sua disciplinas de forma a docilizá-lo, co-
materialidade biológica, mas entender
nhecê-lo e controlá-lo no detalhe. Seu
que esta materialidade não é tomada
objeto de investigação está direcionado
como central na deinição do que seja
para as práticas sociais, as experiências
o corpo, nem mesmo é o local a partir
do qual se estabelecem hierarquias en- e as relações que produzem o corpo
tre os diferentes corpos e sujeitos. em um determinado tempo e local, de
O corpo é também o local de uma forma especíica e não de outra
construção da nossa identidade, uma qualquer. Segundo o autor, o controle
vez que “a existência é corporal” (LE da sociedade sobre os indivíduos não
BRETON, 2006, p. 24). O corpo, por- opera apenas pela ideologia ou pela
tanto, não é algo que temos, mas algo consciência, mas tem seu começo no
que somos. Ao tematizá-lo, estamos corpo, com o corpo. “Foi no biológi-
nos referindo a nós mesmos, à nossa co, no somático, no corporal que antes
subjetividade, àquilo que parecemos de tudo investiu a sociedade capitalista.
ou que gostaríamos de parecer. Isso re- O corpo é uma realidade biopolítica”
mete a entender que o corpo resulta de (FOUCAULT, 1992, p. 77).
um contínuo e minucioso processo pe- Considerando o caráter históri-
dagógico, cuja ação conforma modos co do corpo, para analisá-lo torna-se
de ser e de se comportar. Educa-se o necessária a sua problematização, ou
corpo na escola e fora dela: na religião, seja, é importante estranhar o corpo,
na mídia, na medicina, nas normas colocá-lo em questão. Problematizar,
jurídicas, enim, em todos os espaços por exemplo, os signiicados e a valo-
de socialização nos quais circulamos rização que determinadas culturas atri-
cotidianamente. Pensar o corpo dessa buem a alguns corpos e as hierarquias
maneira pressupõe saberes ancora- que a partir da sua anatomia se estabe-
dos em referenciais teóricos e políti- lecem e que designam quais são os cor-
cos que possibilitam desnaturalizá-lo. pos desejáveis e aceitáveis – lembrando
que, apesar de serem transitórias, essas
Nesse sentido, ganham relevância os
referências têm o poder de excluir, infe-
escritos de Michel Foucault, especial-
riorizar e ocultar determinados corpos
mente aqueles nos quais evidencia o
em detrimento de outros. Não é sem

• 142 •
razão que o corpo jovem, produtivo, Os corpos possuem gestuali-
saudável, belo e sexualmente atrativo dades conformadas e transgressoras,
é um ideal perseguido por um núme- numa educação que é atravessada por
ro ininito de mulheres e homens do várias perspectivas, inclusive de gêne-
nosso tempo, cujos investimentos indi- ro. Vale lembrar que o gênero igual-
viduais demandam energia, dinheiro e mente não é algo que está dado, mas
responsabilidade. Pensemos nos apor- é construído social e culturalmente
tes da denominada indústria da beleza, e envolve um conjunto de processos
da saúde e do itness, cuja ampliação que vão marcando os corpos a partir
não cessa de acontecer. Adornos, cos- daquilo que se identiica ser masculino
méticos, roupas inteligentes, tatuagens, e/ou feminino. O corpo é generiica-
próteses, dietas, suplementos alimenta- do e essa generiicação não acontece
res, academias, cirurgias estéticas, me- naturalmente; resulta de processos cul-
dicamentos e estimulantes fazem parte turais, pois, se os corpos são constru-
de um conjunto de saberes, produtos e ídos na cultura, as representações de
práticas a investir no corpo, produzin- feminilidade e masculinidade a eles as-
do-o diariamente. A todo o momento sociados também o são. Isso signiica
nos deparamos com discursos e práti- perceber que “os corpos carregam dis-
cas que investem nossos corpos, inci- cursos como parte de seu próprio san-
tam nossos desejos, produzem nosso gue” (BUTLER apud PRINS; MEI-
imaginário, movimentando, de modo JER 2002, p. 163). Eles, os discursos,
diverso e peculiar, diferentes assujei- se acomodam no corpo e, do mesmo
tamentos e resistências. Ainal, na so- modo que as representações de gênero,
ciedade contemporânea os corpos são se inscrevem nas suas carnes.
espetáculos. São instituições perfor- Feitas essas considerações, é im-
mantes que, ao se moverem, tornam portante registrar que a produção do
carne representações e discursos que corpo se opera simultaneamente no
operam no detalhe com o controle, coletivo e no individual. Nem a cultura
a vigilância, o esquadrinhamento e é um ente abstrato a governar o sujeito,
a ixidez. E, também, a resistência, o nem o sujeito é um mero receptáculo a
descentramento e a transgressão. Não sucumbir às diferentes ações que sobre
podemos esquecer que, no capitalismo ele se operam. Reage a elas, aceita, re-
avançado, o corpo se tornou um ob- siste, negocia, transgride, tanto porque
jeto de consumo em nome do qual se a cultura é um campo político como o
ediica um crescente mercado de pro- corpo. Ele próprio é uma unidade bio-
dutos e serviços, objetivando sua cons- política que, ao mesmo tempo em que
trução, seus cuidados, sua libertação e, é único, é também partilhado porque
também, seu controle. semelhante e similar a uma ininidade

• 143 •
de outros corpos produzidos neste nhecido pelo Concílio de Éfeso em
tempo e nesta cultura. 431. No século VI se generaliza por
toda a cristandade, chegando até o
Silvana Vilodre Goellner Ocidente, por essa época diminuindo
de intensidade e voltando com grande
Referências força em meados do século IX, alcan-
çando seu apogeu entre os séculos XII
LE BRETON, David. A sociologia do corpo. Petrópolis:
Vozes, 2006. e XIII. A Idade Média a venera como
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Ja-
a primeira entre todos os santos, as-
neiro: Graal, 1992. sumindo posição de destaque, sendo
PRINS, Baukje; MEIJER, Irene C. Como os corpos se
celebrada artisticamente de diferentes
tornam matéria: entrevista com Judith Butler. Revista Es- formas.
tudos Feministas, Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 155-167,
2002. Assim, incorporando Maria ao
seu panteão, o cristianismo, apesar de
SILVA, Tomaz T. da. Teoria cultural e educação: um voca-
bulário crítico. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. sua indiscutível misoginia, se abriu a
essa igura tão emblemática e cara às
Sugestões de leitura crenças populares, à representação
da Deusa- Mãe ou das Mães-Terra. A
CORBIN, Alain; COURTINE, Jean-Jacques; VIGA- Igreja produz uma metáfora, muito ei-
RELLO, Georges. História do corpo 3: As mutações do
olhar: o século XX. Petrópolis: Vozes, 2008. caz, se representando ela mesma como
mãe e virgem, a Santa Madre Igreja.
LE BRETON, David. A sociologia do corpo. Petrópolis:
Vozes, 2006. Importante ressaltar que o do-
mínio das sensibilidades humanas se
LOURO, Guacira. O corpo educado: pedagogias da se-
xualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. desenvolve lado a lado e passa junto
às dimensões da sua existência social e,
GOELLNER, Silvana V. A produção cultural do corpo.
In: LOURO, Guacira; FELIPE, Jane; GOELLNER, Sil- embora a narrativa mítica seja atempo-
vana V. Corpo, gênero e sexualidade: um debate contem- ral, mito e rito existem apenas na sua
porâneo na educação. Petrópolis: Vozes, 2013.
historicidade; o rito ritualiza e reatua-
ORTEGA, Francisco. O corpo incerto: corporeidade, liza o mito dando a ele novos signii-
tecnologias médicas e cultura contemporânea. Rio de Ja-
neiro: Garamond, 2008. cados. Para Hilário Franco Jr. “mito e
rito não existem na sua atemporalidade
• intrínseca, mas na historicidade que
lhes dá sentido, e à qual eles próprios
Culto Mariano dão sentido.”
Dessa forma, também os mitos
A crença em Maria e, sobretudo da era feudal se contaminaram mutua-
em suas aparições e milagres, remonta mente, assumindo algumas funções. A
ao Oriente grego. Seu culto foi reco- narrativa mítica poderia ter cumprido,

• 144 •
em alguns casos, um papel legitimador guns textos evangélicos que advogam
de peregrinações, das festas tradicio- a igualdade entre homens e mulheres
nais ou de origens dinásticas. Além dis- e a tradição oriental que as considera
so, para esse historiador, “pode ocor- inferiores aos homens.
rer também que ela organize em uma Maria foi a protetora iel dos
mesma narrativa, tradições de origens cristãos em sua luta contra os muçul-
diversas, eruditas e folclóricas: assim manos, nas sociedades ibéricas. Uma
ela contribui para a integração da so- sociedade da guerra e da agressão pre-
ciedade cristã por meio de uma mito- cisava de uma santa padroeira da guer-
logia que tende a se uniicar.” ra. Embora nas tradições mais antigas
Esposa, mãe, irmã, enim Maria as deidades femininas fossem a repre-
foi representada de inúmeras maneiras sentação da vida e da fertilidade, na
e em algumas delas ela era a própria versão da Virgem pelo cristianismo ela
Igreja, apesar de todo o discurso misó- foi, também, uma divindade da guerra.
gino do clero que acompanha a histó- Isso está perfeitamente de acor-
ria da Igreja Cristã, a Virgem serviu de do com a realidade da Europa medie-
meio de divulgação dos projetos dessa val, colocar-se em marcha pelo amor
instituição. O discurso religioso a apre- de Deus. Estava em sintonia com uma
sentava de distintas maneiras, adaptan- sociedade que se cristianizava pela for-
do o mito de acordo com as necessida- ça da palavra e da espada. A própria
des do momento: ora Ela era superior, Igreja se militarizava e desenvolvia um
tal como a Igreja, ora inferior tal como cristianismo de combate que se articu-
a humanidade.
lava com os valores cavalheirescos da
Discurso aqui entendido como
sociedade feudal.
aquilo que engendra e é, ao mesmo
Como exemplo dessa represen-
tempo, engendrado pelo social é as-
tação da Virgem, pode-se citar o mo-
sim palavra em movimento, prática da
delo da Virgen del Pilar, protetora das
linguagem: com o estudo do discurso
tropas aragonesas; os Reis Católicos
observa-se o homem falando. Dessa
foram presenteados por Maximiliano
forma, o discurso das narrativas míti-
da Áustria com uma imagem de Nossa
cas cumpriria um papel mediador entre
Senhora de Vélez; que se tornou pro-
o homem e a sua realidade social.
tetora dos cristãos durante o sítio à
Aliás, o clero jamais resolveu
Málaga. Por im, a Virgen de las Batallas,
algumas contradições, do seu discurso
da catedral de Sevilha, sempre presente
misógino e a adoção da Virgem como
nas expedições guerreiras de Fernando
a alegoria da própria Igreja. Além de
III, o Santo, pai de Afonso X, o Sábio.
outra lagrante contradição entre al-
• 145 •
O desenvolvimento do culto à de la Iglesia, Maria foi a Mãe gloriosa,
Virgem Maria, desde o século XI e XII, a mãe espiritual. Os poetas do século
construiu para as mulheres dois mode- XIII se vinculavam a Ela. Assim como
los básicos: a virgindade e a maternida- Afonso X se dirige a Santa Maria como
de, ambos inspirados na Virgem-Mãe. mia Madre, Berceo também se conside-
Na poesia mariana de Afonso ra seu ilho, Madre del tu Gonzalvo, excla-
X, o sentimento materno recebe uma ma comovido: Madre, dándote buen preçio
importante acolhida. Nele ocorre a que eres pïadosa.
presença feminina em, pelo menos, O Culto Mariano transcende
29 Cantigas, as quais estão relacionadas as fronteiras de classe, sendo venera-
diretamente com o exercício da ma- da tanto nos segmentos abastados da
ternidade, isso sem falar em algumas sociedade, quando nas classes subalter-
poucas que tratam, também, do senti- nas. Rompendo as fronteiras religiosas,
mento paterno. A mulher-mãe foi uma sendo, também celebrada, por exem-
imagem muito cara ao universo mental plo, entre os muçulmanos. É venerada
da Idade Média. por homens e mulheres, sendo a Santa
Também em Gonzalo Berceo se Protetora de muitas ordens religiosas e
pode observar o desenvolvimento do leigas.
afeto parental, tanto no relato da Vida É representada artisticamente
de Santa Oria, quanto nos Milagros de no Ocidente e no oriente, segundo os
Nuestra Señora. A imagem da Virgem elementos formais e estilizados, priori-
com seu ilho ao colo é talvez o mode- zando a suavidade, humanidade e femi-
lo mais freqüente da Virgem gótica. O nilidade como característica essenciais.
homem cristão medieval, tão marcado
pelo maravilhoso, recria em cada mãe Rejane Barreto Jardim
terrena a Mãe celestial e seu Divino i-
lho. Referências e sugestões de leitura
É provável que a Idade Média CANTIGUEIROS, Ulletin of the. Cantigueiros de Santa
tenha cultuado, mais do que qualquer Maria. New York: Medieval and Rainaissance Textsd and
Studies. , v. IV, XI, XII
outra época, a igura da Virgem Mãe,
uma mulher ao mesmo tempo ilha, CAPELÃO, André. Tratado do amor cortês. Tradução
Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes,
mãe e irmã. A sua representação em 2000.DUTTON, Brian. Obras completas. Estúdio y edi-
prosa, verso e imagens povoou o ima- ción crítica por Brian Dutton. London: Tamesis Books
Limited. 1981. 5v: El Sacrifício de la misa, La vida de
ginário das diferentes sociedades da Santa Oria, El Martírio de San Lorenzo.
Europa medieval.
FILGEURIA VALVERDE, José. Alfonso X El Sábio.
Desde que Santo Agostinho a Cantigas de Santa Maria. Códice Rico de El Escorial.
proclamou como a Madre de los miembros Madrid: Editorial Castalia, 1985.

• 146 •
JEANROY, Alfred. La poésie lyrique dês troubadours. do “pedagogía negativa” (surgida de
Tomo II. Paris: Henri Didier Éditeur, 1934.
la combinación entre la Teoría crítica
LOYN, Henry R. Dicionário da Idade Média. Rio de Ja- y los Estudios de Género) ha sido el
neiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
análisis de las relaciones establecidas
RODRIGUES LAPA, Manuel (ed.). Cantigas d’escarnho entre la visualidad, lo visible, lo visto, y
e de maldizer dos cancioneiros medievais galego-portu-
gueses. Coimbra: Editorial Galáxia, 1970. las estructuras de poder.
Nicholas Mirzoeff, desde los
SOLALINDE, Antonio G. (ed). BERCEO. Milagros de
Nuestra Señora. Madrid: Espasa-Calpe, 1944, 1v. estudios de Cultura Visual, y haciendo
hincapié en el carácter in-disciplinado
METTMANN, Walter (ed.).Cantigas de Santa Maria.
Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra: Universi- de esta propuesta, describía este nue-
dade de Coimbra, 1959, 4v.
vo terreno como un trabajo de escritu-
O’CALLAGHAN, Joseph F. El Rey Sábio. El Reinado ra fantasma (“Ghostwriting”) donde el
de Alfonso X de Castilla. Sevilla: Universidad de Sevilla,
1996.
fantasma, lo “visual negativo” podría-
mos añadir, es el lugar intermedio (“in
PÉREZ DE TUDELA y VELASCO, María Isabel. Maria
en el vetice de la Edad Media. Las mujeres e el cristianis-
between”) que escapa a la mirada del
mo medieva,. Madrid, p. 59-69, 1989. espectro panóptico y que tiene múl-
______. El espejo de la feminilidad en la Edad Media tiples nombres en múltiples lenguas:
Española. Anuario ilosóico, Madrid, p. 621-634, 1993. diásporas, exilios, queers, migrantes,
RIQUER, Martin de. Los Trovadores: historia literaria y gitanos, refugiados, tutsis, palestinos.
textos. Barcelona: Editorial Ariel, S. A., 2001. Esta lista puede sin duda ser engor-
ROUGEMOND, Denis. História do amor no Ocidente. dada por todo el resto de categorías
São Paulo: Ediouro, 2003. liminares (identitarias y más allá), por
todas aquellas posiciones, experiencias,
• conocimientos, silencios y cuerpos ge-
nerados en y desde los bordes.
Cultura Visual Homi Bhabha apela a esas mis-
mas “vidas en los bordes” en su bús-
El registro de lo visual: ¿Cómo queda por ubicar la cuestión de la cul-
producimos conocimiento desde la vi- tura en el “más allá”: en los espacios que
sualidad?, ¿en qué sentido son las re- él denomina de “entre medio” y que
laciones visuales relaciones de poder?, no suponen ni el trazo de un horizon-
¿quién dictamina lo visible?, ¿cómo ve- te radicalmente nuevo, ni el abandono
mos?, ¿qué no es visto?, ¿qué se repre- completo del pasado. Por su parte,
senta?, ¿cómo se representa?, ¿cuándo Gloria Anzaldúa evoca este “entre me-
empieza y termina la representación? dio” en su famoso texto Bordelands/La
Una de las principales líneas de Frontera, al deinirlo como un “residuo
análisis de lo que hemos denomina- emocional”, “a vague and undetermi-

• 147 •
ned place created by an emocional re- También ellos retoman el carác-
sidue.” Los habitantes de este espacio ter interdisciplinario, el compromiso
son los atravesados: “the squint-head, the político y el carácter autocrítico de las
perverse, the queer, the troublesome, derivas de la Teoría crítica, para anali-
the mongrel, the mulato, the half bre- zar el gran poder que actualmente ejer-
ed, the half dead. cen la visión y el “mundo visual” tanto
Anzaldúa también evoca el po- en la conformación de sentido, como
der de la visión, de la visualidad como en el establecimiento y repetición de
recurso al borde del sentido, al elaborar valores estéticos, de estereotipos de gé-
en torno a la mirada atravesada como nero y de relaciones de poder. Es decir,
forma de nueva conciencia, una mira- los estudios de cultura visual analizan
da encarnada desde “el otro lado.” Se críticamente el papel que las represen-
reiere a la vida en la frontera al límite taciones y el mundo de la cultura visual
entre el inglés y el español, la domina- han tenido, a lo largo de la historia en
ción anglo y la dominación machista la construcción y modelaje de cuerpos,
mexicana hacia las mujeres, la sexua- subjetividades y estereotipos, y en la
lidad liminal y la imposición heterose- legitimación de relaciones binarias y
xual. El cruce de un lado hacia el otro, desiguales de poder establecidas entre
de lo textual y material a lo visual, de sujeto y objeto de la representación:
lo recto a lo atravesado constituye el hombre-mujer, norte-sur, occidente-o-
movimiento rector de sentido alterado riente, arte-artesanía, etcétera.
“Every time she has to make “sense” Al igual que ocurriera en los
of something, she has to “cross over” orígenes alemanes de la Teoría crítica,
to make a hole of the old boundaries los Estudios de Cultura Visual se le-
of the self and slipping under or over, vantaron contra ese prejuicio evolutivo
dragging the old skin along, stumbling modernista, sostenido por la ideología
over it… It is only when she in on the hegemónica, que considera la tempo-
other side and the shell cracks open ralidad de la historia occidental (léase
and the lid from her eyes lifts that she “primermundista”) como la sucesión
sees things in a different perspective.” exclusiva (unívoca) de hechos legíti-
(ANZALDÚA, 1985) mos y relevantes.
A principios de los años noven- Frente a este perverso meca-
ta, recogiendo todavía el impulso de nismo que ha logrado presentar como
los llamados “studies”, aparece en la central y universal lo que en realidad
academia anglosajona un nuevo campo es solo una de las posibles perspecti-
de trabajo denominado “Visual Cultu- vas, los Estudios de Cultura Visual,
re” o Estudios de Cultura Visual. apoyados en las teorías postcoloniales

• 148 •
y feministas, han reclamado la consti- este giro en la visión que permite otras
tución, en palabras de Shohat y Stam, formas del encuentro, de la conversa-
de un nuevo tipo de análisis policén- ción y del entretenimiento: “There was
trico, dialógico y relacional que ponga one among them who might have been
de maniiesto las relaciones de reci- President but for the fact that she was
procidad existentes entre las diferentes blind and deft. She was smart, but not
culturas visuales. Un nuevo ámbito de one of the geniuses. She was a drea-
trabajo desde donde romper, al menos mer, a creative force, an innovator. It
potencialmente, con el “buen ojo” y was she who dreamt of freedom. But
“el buen gusto”, un lugar desde donde she was not a builder of fairy castles.
luchar contra la esencialidad de signii- Having dreamed it, she had to make it
cados y sentidos, y apostar por la po- come true (VARLEY, 1978).
sibilidad de sentir y signiicar de otra Los estudios de cultura visual,
manera como la teoría crítica, están compues-
En este sentido, los Estudios tos de giros y cruces, giros epistemoló-
de Cultura Visual, desde esta pedago- gicos, visuales, pedagógicos y políticos
gía negativa, igual que ocurre con toda que nos permiten ver “desde el otro
perspectiva crítica, priorizan la impor- lado”. Estas maniobras posibilitan la
tancia de la contextualización de la claridad sólo al atravesarnos, al entre-
producción de signiicados a través de -tenernos y sobre todo entendernos
lo visual. Y es que las imágenes, como –más aún en los silencios– de las en-
las ideas, tienen historia. Lo interesante crucijadas del poder contemporáneo,
además es pensar, tal y como sugiere el cual nos muestra a “todas luces” que
Irit Rogoff, en las consecuencias de lo más oscuro, lo más indescifrable es
desplazar la especiicidad histórica de lo que nos sucede en el momento, en
lo estudiado hacia la especiicidad his- el presente.
tórica de aquel que está realizando el
estudio. Marisa Belausteguigoitia
Como el protagonista de “The Rian Lozano
persistence of vision”, un viajero que,
Referencias y Indicaciones
por equivocación, aterriza en una co-
munidad aislada de sordo-ciegos, con- G. Anzaldúa (1987). Borderlands/La frontera: he new
formada sobre un complejo lenguaje mestiza. San Francisco, CA: Spinsters/Aunt Lute. H.
Bhabha (2002 [1994]). El lugar de la cultura. Buenos
de roces y contactos, el giro visual nos Aires: Manantial.
ayuda a conformar visiones particula-
Donna Haraway. [1988] “Situated Knowledges: he
res del mundo. En su referencia a su Science Question in Feminism and the Privilege of Partial
encuentro con la protagonista, una Perspective”, Feminist Studies, vol. 14-3: 575-599.

mujer ciega y sorda, puede apreciarse

• 149 •
N. Mirzoef (2002 [1998]). “he Subject of Visual Cul-
ture”. In: N. Mirzoef (2002 [1998]). he Visual Culture
Reader. London/New York: Routledge.

I. Rogof (2002 [1998]). “Studying Visual Culture”. In:


N. Mirzoef (2002 [1998]). he Visual Culture Reader.
London/New York: Routledge.

E. Shohat & R. Stam (2002 [1998]). “Narrativizing


Visual Culture. Towards a de Barcelona.

John Varley. [1978] he persistence of vision. New York:


he Dial Press / James Wade.

• 150 •
Daltro, Leolinda

Leolinda Daltro foi a precurso-


ra do movimento organizado feminino
no Brasil, professora e grande defen-
sora dos direitos dos indígenas e das
mulheres. Nasceu na Bahia em 14 de
julho de 1859 e migrou, em 1887, com
o primeiro marido e os ilhos, para a
Capital Federal em busca de melhores
condições de vida. Ardorosa defenso-
ra dos direitos dos indígenas batalhou
tanto pela alfabetização laica dos mes-
mos quanto buscou a sua integração
na sociedade, sem conotações missio-
nárias, ideia inovadora para época. No
inal do século XIX, empreendeu um
ambicioso projeto de alfabetização dos
povos indígenas, percorrendo durante
quatro anos o interior do estado de
Goiás. Na época, separada do marido,
deixou os ilhos pequenos sob a guar-
da de conhecidos para empreender tal
viagem acompanhada pelo ilho mais
velho. Por conta de sua ousadia, re-
cebeu vários epítetos. A imprensa da
época assim a descreveu: “santa, anjo,
excêntrica, monomaníaca, visionária,
heroína, louca de hospício, doce mãe,
aproveitadora, herege e anticristo fo-
ram alguns dos títulos que ela recebeu
de admiradores e desafetos” (ROCHA,
2002). O nome de Leolinda Daltro es-
teve em evidência na imprensa brasi-
leira por quase 15 anos, tanto devido
ao seu envolvimento com os indígenas
quanto por outra causa defendida com

• 151 •
ousadia e esmero: o feminismo. Seu composto exclusivamente por mulhe-
primeiro ato político foi a congrega- res, pois estava vedada a participação
ção de algumas mulheres em apoio à masculina. Apesar desse interdito, Leo-
candidatura de Hermes da Fonseca à linda Daltro, sua presidente, tanto pro-
presidência do Brasil, no ano de 1909, curava o apoio dos políticos da época
e que recebeu o nome de Junta Femi- para a sua causa, como se prontiicava
nil pró-Hermes-Wenceslau. Para Mariana a apoiar os que se identiicavam com
Coelho (2002, p.152) essa “associação sua luta. Ela também se aproveitou da
política de cuja descrição se depreende aproximação de iguras políticas mas-
ser o ponto de partida para a ação do culinas de destaque para dar visibilida-
feminismo no Brasil, pois foi a primeira de aos atos do partido em suas mani-
fundada com intuitos de trabalhar pela festações públicas. Mais do que o voto,
emancipação do sexo feminino brasi- o PRF solicitava a emancipação plena
leiro”. Esse foi o ponto de partida para, das mulheres brasileiras, mesmo assim,
em 1910, Leolinda fundar na capital do ou por causa disso, o pioneirismo de
país um partido político, o Partido Repu- Leolinda foi mal visto na época, e sua
blicano Feminino (PRF). Céli Regina Jar- luta foi muito ridicularizada. Em entre-
dim Pinto (2003, p. 18) salienta que a vista para um jornal do Rio de Janeiro,
criação desse partido “merece atenção ela assim se pronunciou: “pois então o
especial pela ruptura que representou senhor não sabe quanto fui combati-
[...] pelo fato de ser um partido político da, vilipendiada, ridicularizada porque,
composto por pessoas que não tinham simplesmente, só porque me bati por
direitos políticos, cuja atuação, portan- uma aspiração ainda descolada no tem-
to, teria de ocorrer fora da ordem esta- po em que levantei o estandarte do Fe-
belecida”. E June Hahner (2003, p.280) minismo no Brasil.” (A Batalha, Rio de
assinala que a pretensão do partido era Janeiro, 02.abr.1931, p.1). Elaine Rocha
a de reavivar a questão do voto femi- (2002) e Márcia Abreu (2007) salien-
nino “dentro do Congresso, onde não tam que Daltro se dedicou à missão
tinha mais sido tratada desde o Con- de educar os povos indígenas até 1911,
gresso Constituinte de 1891”. O PRF quando transferiu seu foco de atuação
tinha por meta: “congregar a mulher para a causa da emancipação feminina.
brasileira na capital federal e em todos Nessa época seu nome também passou
os Estados do Brasil, promovendo a a ser associado ao movimento das suf-
cooperação entre as mulheres na de- fragettes, movimento militante pelo voto
fesa das causas relativas ao progresso feminino da Inglaterra, o que deu uma
pátrio” (DIARIO OFICIAL, 1910, p. conotação negativa a suas demandas
47). Um diferencial do partido era ser junto ao público. Em 1917 a causa do

• 152 •
voto feminino foi um dos temas do e utilizar a imprensa para divulgar os
carnaval na cidade do Rio de Janeiro e seus atos –, o que as diferenciava era a
o nome de Leolinda Daltro motivo de forma como eram vistas pela socieda-
risos e chacotas. A partir de 1918, a im- de da época. O pioneirismo de Daltro
prensa cunhou o termo “mau feminis- sofreu mais o preconceito do que o
mo” para diferenciar a ação do grupo de Bertha Lutz, pelo fato de sua mi-
de Daltro do feminismo praticado por litância ter surgido na mesma época
Bertha Lutz. Nos anos de 1910 e 1920, em que as inglesas aplicavam as suas
Leolinda Daltro tentou, por várias ve- táticas mais agressivas para alcançar
zes, se qualiicar como eleitora, com os seus objetivos. Isso fez com que os
base no argumento de que a lei eleito- atos de Leolinda e de suas seguidoras
ral não impedia o alistamento feminino fossem diretamente associados com os
bem como participou como candidata das suffragettes, o que se provou negati-
em algumas eleições da capital federal, vo para a imagem dela e para a causa
sem sucesso. Devido a sua militância que defendia. Um artigo publicado em
o tema do voto feminino voltou a ser 1934 bem resume as agruras por que
agenda da imprensa e do Parlamento. A Leolinda Daltro passou em vida: “Foi
partir de 1922, o movimento liderado a primeira líder da emancipação femi-
por Daltro passou cada vez mais para a nina e o que sofreu por causa disso! [...]
obscuridade, enquanto o grupo lidera- os jornais não a poupavam, trazendo-
do por Lutz cresceu cada vez mais até -a ao ridículo mais doloroso... Não se
se irmar como o maior grupo em prol contam as humilhações por que pas-
do sufrágio feminino no país. A feição sou, as amarguras que lhe atribularam
mais comportada da luta em prol do a existência de lutadora. [...] Respondia
sufrágio feminino foi assim imposta aos ataques cruéis de seus adversários,
pelo grupo de Bertha, tal como salien- trabalhando sempre pela causa de que
ta Céli Pinto (2003). As iguras de Le- foi paladina denodada: a emancipa-
olinda Daltro e Bertha Lutz são bons ção da mulher. E hoje, a mulher vota,
exemplos dos tipos de feminismo que a mulher tem um lugar entre os de-
circulavam na época. Embora ambas putados da nação, a mulher entra em
perseguissem o mesmo ideal de uma concursos para as repartições públicas
maior valorização do papel da mulher desbancando os homens, a mulher
na sociedade – procurando cada uma pleiteia todos os direitos políticos con-
com seu estilo de ação pressionar os cedidos aos homens, sem que ninguém
políticos para atingir os seus objetivos ache isso uma coisa absurda, condená-

• 153 •
vel, motivo de censura geral. [...] Ela MELO, Hilda Pereira de; MARQUES, Teresa Novaes.
Partido Republicano Feminino – A construção da cida-
guardou para si todas as agruras, todos dania feminina no Rio de Janeiro. Revista do Instituto
os sacrifícios da campanha, para que Histórico e Geográico do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro,
2000.
anos depois as suas companheiras de
PINTO, Céli Regina Jardim. Uma história do feminismo
sexo pudessem serenamente colher os no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2003.
frutos, os proveitos e as honrarias da
ROCHA, Elaine Pereira. Entre a pena e a espada: a tra-
vitória” (Correio da Manhã, Rio de Janei- jetória de Leolinda Daltro (1859 – 1935) – patriotismo,
ro, 27.set.1934,p.4). Na década de 1930 indigenismo e feminismo. 2002. 335 f. Tese (Doutora-
do em História). Universidade de São Paulo, São Paulo,
permaneceu ativa nessa luta fazendo 2002.
parte da Aliança Nacional de Mulheres, A Batalha, Rio de Janeiro, 02.abr.1931.
agremiação fundada em 1931 pela ad-
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 27.set.1934.
vogada Natércia da Silveira, bem como
sendo candidata nas eleições de 1933 DIÁRIO OFICIAL. 17 de dezembro de 1910.

e 1934. A disputa pela primazia e pelo


Sugestões de leitura
pioneirismo à frente do movimento
organizado feminino podia ainda ser ABREU, Maria Emilia Vieira de. Professora Leolinda
Daltro: Uma proposta de catequese laica para os indíge-
veriicada em 1934, quando Leolinda nas do Brasil: 1895-1911. 2007. 101 f. Dissertação (Mes-
concorreu a uma vaga no Parlamento, trado em Educação). Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo, São Paulo, 2007.
pelo Partido Nacional do Trabalho. Nes-
sa última tentativa, ela reiterou que “a KARAWEJCZYK, Mônica. As ilhas de Eva querem vo-
tar. Dos primórdios da questão à conquista do sufrágio
sua campanha feminista precedeu à de feminino no Brasil (c.1850-1932). 398 f. Tese (Doutora-
todas as senhoras que se apresentam do em História). Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, Porto Alegre, 2013.
como líderes do feminismo. Foi quem
levantou, de longa data, no Brasil, a MARQUES, Teresa Cristina de Novaes. Elas também
desejam participar da vida pública: várias formas de par-
ideia do direito político da Mulher!” – ticipação política feminina entre 1850 e 1932. Gênero,
tal como aparece estampado no pan- Niterói, v.4, n.2, p. 149-169, 1.sem. 2004.

leto de sua campanha. Faleceu no Rio Verbete Leolinda de Figueiredo Daltro. In: SCHU-
de Janeiro, em 4 de maio de 1935, víti- MAHER, Shuma, BRAZIL, Érico Vital (Org.). Dicioná-
rio Mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de
ma de um atropelamento. Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

Mônica Karawejczyk •

Referências Derrida, Jacques


(desconstrução, différance)
COELHO, Mariana. A Evolução do Feminismo. Subsí-
dios para a sua história. 2. ed. Curitiba: Imprensa Oicial
do Paraná, 2002. O ilósofo franco-argelino Jac-
HAHNER, June E. Emancipação do Sexo Feminino. A ques Derrida (1930-2004) é um pen-
luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850-1940. Flo- sador contemporâneo que integra o
rianópolis: Mulheres, Santa Cruz: EDUNISC, 2003.

• 154 •
que se convencionou chamar de pen- São interpretações de Nietzsche que
samento pós-estruturalista, embora ele Alan D. Schrift (2006) divide em dois
mesmo não costumasse se reconhecer grandes grupos. No primeiro, Derrida
nesta denominação, genérica demais estaria ao lado de autores como Michel
por pretender estabilizar autores he- Foucault, Sara Kaufman, Philippe La-
terogêneos entre si. Considero que se coue-Labart e Bernard Pautrat. São lei-
pode usar pensamento da desconstru- turas voltadas para a questão do estilo
ção e pós-estruturalismo como termos do discurso ilosóico e para a forma
intercambiáveis, recorrendo a este úl- literária de apresentação das questões
timo pela necessidade de situá-lo no ilosóicas, que fazem parte, ainda se-
contexto do pensamento francês dos gundo Schrift, de três importantes te-
anos 1960/1970, que se desenvolve a mas então dominantes no pensamento
partir das aberturas proporcionadas francês: a desconiança em relação à
pelo estruturalismo. hermenêutica, a relexão sobre a natu-
Os anos 1960, nos quais Der- reza da linguagem, e a crítica ao huma-
rida começa a sua trajetória ilosóica, nismo metafísico.
vão se conigurar por uma renovação O segundo grupo de leitores
da ilosoia depois do estruturalismo. franceses de Nietzsche, do qual faz
Por isso, seu percurso na ilosoia se- parte novamente Derrida, mas tam-
guirá ao mesmo tempo um distan- bém Deleuze e Jean-François Lyotard,
ciamento da fenomenologia, na qual privilegia temas como a ênfase na in-
iniciou seus estudos, e uma crítica ao terpretação – que em Nietzsche, como
estruturalismo, com a qual vai indicar em Derrida, é sempre um ato de força;
que, embora esse pensamento preten- a crítica ao pensamento binário – que
da abandonar um ideal de fundamen- percorrerá toda a obra de Derrida; a li-
to, ainda está organizado em estrutu- gação entre poder e conhecimento e a
ras estáveis em torno de um centro. A necessidade de julgar diante da ausên-
estrutura centrada seria, para ele, uma cia de critério.
forma de limitar o jogo da estrutura, Em 1972, por ocasião do cente-
de ainda airmar um ideal de presença nário da publicação de O nascimento da
e de verdade. tragédia (NIETZSCHE, 1992), aconte-
Derrida reconhece em Freud, cem na França dois colóquios dedica-
Heidegger e Nietzsche suas principais dos à obra de Nietzsche. É neste en-
inluências. No que diz respeito a Niet- contro que Derrida faz a conferência
zsche, Derrida faz parte de um amplo “A questão do estilo”, que depois seria
movimento de recepção do ilósofo publicada como “Esporas – os esti-
alemão na França dos anos 1960/1970. los de Nietzsche” (DERRIDA, 2013).

• 155 •
Neste texto, Derrida explora diversos chamar atenção para o fato de que, no
temas na leitura que faz de Nietzsche, pensamento da desconstrução, as au-
cuja obra faz muitas referências às mu- sências são valorizadas, e não desqua-
lheres. Na sua crítica ao ideal metafí- liicadas. No âmbito do pensamento
sico de verdade, Nietzsche se vale de pós-estruturalista, Derrida será um dos
pelo menos três recursos: 1) a suspen- autores a airmar a ausência de um su-
são da verdade entre aspas, 2) a ver- jeito estável a ser representado, o que
dade-aparência; 3) a verdade-mulher, também interessará a muitas teóricas
sobre a qual Derrida vai partir para feministas, como Judith Butler, Dru-
pensar a sua crítica ao ideal de verdade. cilla Cornell, Tina Chanter, Elizabeth
Em Nietzsche, mas também em Grosz, Diane Elam, para citar apenas
Derrida, a busca da verdade seria uma algumas. Para elas, é no esvaziamento
operação de dominação, de apropria- de termos como verdade, feminino,
ção, de posse, uma operação masculi- masculino, que o pensamento da des-
na. Na crítica de Nietzsche ao acesso construção pode se articular com a te-
ao conhecimento, privilégio masculi- oria feminista.
no do qual ele vai desdenhar, há uma Desconstrução: Ainda que seja
ainidade com a crítica de Derrida ao classiicado dentro do grande grupo
fono-falo-logo-centrismo, termo que o do pós-estruturalismo francês, a de-
aproximará das teóricas feministas, por nominação pensamento da desconstrução
sintetizar o privilégio concedido à phone – expressão que resulta da inluência
e ao logos e ao phallus (BERNARDO, de Heidegger e da sua destruição da
2008). Se em Nietzsche esta “verdade” metafísica, como se verá a seguir – sin-
é uma mulher, em Derrida trata-se de gulariza melhor o trabalho de Derrida,
suspender entre aspas todos os concei- cuja obra é voltada para a leitura de di-
tos ilosóicos, que fazem parte de um ferentes autores e não para o desenvol-
“discurso do sujeito masculino falante, vimento de teses e princípios que lhe
presente, e garantidor do sentido e da sejam próprios.
verdade”. É da palavra alemã Destruktion
Ao colocar o feminino num que Derrida propõe a sua desconstru-
lugar de não-verdade, como lugar de ção, na esteira do projeto de Heideg-
onde algo novo pode surgir, Derrida ger (2002), para quem a destruição não
será criticado por ainda estar repetindo tem sentido negativo, mas a intenção
a tradição, que historicamente associou de apontar para os limites que impe-
o feminino à falta, ao vazio a ser preen- diram a tradição de pensar a ques-
chido pelo outro, que é sempre mascu- tão do ser. Quando Derrida propõe
lino. É Gayatri Spivak (1997) quem vai um deslocamento de destruição para

• 156 •
desconstrução, está não apenas se di- vel, essência/aparência, masculino/
ferenciando de Heidegger, mas tam- feminino), Derrida promove o que ele
bém lembrando que a palavra alemã chama de inversão e deslocamento,
Destruktion não tem a mesma conota- movimentos que pretendem trazer à
ção que destruição tem em francês e, tona o polo subordinado e ao mesmo
acrescento, em português. Em ambos tempo promover um deslocamento
os idiomas, destruição está ligada a ani- dos conceitos que estavam apoiados
quilamento, conotação que a palavra nesta diferença opositiva (DERRIDA,
alemã não carrega. Se em Heidegger 1992). Por serem movimentos simul-
a destruição da metafísica tinha como tâneos, não fases de um programa, ele
objetivo retornar à originalidade dos recusa o termo “fases” e explica que,
conceitos, a im de pensar a questão para desconstruir uma determinada
do ser, apagada da história da ilosoia oposição, é preciso inverter a hierar-
pelo menos desde os gregos, em Derri- quia, de maneira a perceber a estrutura
da a palavra desconstrução estará rela- conlitiva e subordinante da oposição.
cionada a uma ideia de decomposição, A intenção não é apenas fazer emergir
dessedimentação, de análise das cama- o que até então estava recalcado, mas
das sedimentadas do pensamento, que proporcionar um novo recurso ao pen-
formam os elementos discursivos com samento. Farão parte deste duplo mo-
os quais pensamos. vimento o deslocamento do conceito
Assim, o objetivo do pensamen- de linguagem para o quase-conceito de
to da desconstrução não é “destruir” escritura, o deslocamento do concei-
os autores sobre os quais se debruça, to de signo para o quase-conceito de
mas escavar as camadas que funda- rastro, o deslocamento do conceito de
mentaram determinados conceitos, ser para o quase-conceito de différance,
a im de mostrar como estes foram termos que integram o que chamo aqui
construídos sobre certas premissas ou de “vocabulário Derrida”. Com este
fundações que encerram os limites de vocabulário, o pensamento de Derrida
tais conceitos. Desconstruir teria, as- se caracteriza pela crítica à metafísica,
sim, a função de trazer à tona aquilo que para ele será sempre “metafísica
que precisou ser recalcado, rebaixa- da presença” (DUQUE-ESTRADA,
do. A estratégia da desconstrução se
2002).
desenvolve, em grande medida, sob
Différance: O termo différance
resultado de um duplo gesto: ao iden-
aparece na obra de Derrida em 1967,
tiicar uma estrutura hierárquica nos
discretamente usado em dois textos
pares binários da tradição metafísica
sobre o problema do signo: Grama-
(universal/singular, sensível/inteligí-
tologia (DERRIDA, [1967] 2004), no
• 157 •
qual ele discute o signo da linguística Por im, uma das heranças que
estruturalista de F. Saussure, e A voz e o Nietzsche deixa a Derrida é a confron-
fenômeno (DERRIDA, [1967] 1994), no tação com a obra de Kant. Derrida foi
qual ele discute o signo na fenomeno- um leitor de todo o arcabouço teórico
logia de Husserl. Para Derrida, o pro- de Kant, e seus trabalhos se referem,
blema do signo não é um entre outros, direta ou indiretamente, ao ilósofo das
mas é uma questão profundamente li- Luzes. A partir da leitura dos textos
gada a uma época histórico-metafísica políticos de Kant – leitura que marca o
(SAFATLE, 2011). Em 1968, quando que muitos comentadores chamam de
ele pronuncia a conferência “A différan- “segundo Derrida” – o ilósofo fran-
ce” (DERRIDA [1968] 1991), Derrida co-argelino desenvolve sua proposição
sintetiza e formula sua proposição de de hospitalidade incondicional, termo com
différance, termo com o qual tenta o qual Derrida estabelece sua discus-
dar conta do que, no português, seria são sobre ética e política (RODRI-
uma conjunção verbal em gerúndio – GUES, 2013).
diferenciando –, mas opera com um
duplo sentido do verbo diferir – no Carla Rodrigues
sentido de diferenciar e no sentido de
Referências e sugestões de leitura
adiar. Différance seria, assim, ao mesmo
tempo o movimento de diferenciação BERNARDO, Fernanda. Femininograia’s: pensar-habi-
e o movimento de adiamento que, jun- tar-escrever o mundo no feminino. In: CONGRESSO
FEMINISTA DE LISBOA, 2008.
tos, indicariam essa impossibilidade de
DERRIDA, Jacques. “Diférence sexuelle, diférence on-
presença a si, seja de um sujeito, seja tologique (Geschlecht I)”. In: ______. Heidegger et la
de um objeto, seja de um signiicado. question. Paris: Champs Flamarion, 1990.

Différance entrará no vocabulário de ______. “Chorégraphies – entrevista com Christie V.


McDonald”. In: ______. Point de suspension – Entre-
Derrida num momento de questiona- tiens. Paris: Galilée, 1992.
mento do apelo fenomenológico de
______. A voz e o fenômeno: introdução ao problema
Husserl – “de volta às coisas mesmas” do signo na fenomenologia de Husserl. Tradução de Lucy
Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.
–, que em Derrida será deslocado para
“a coisa mesma sempre escapa”. Esse ______. Gramatologia. Tradução de Miriam Chnaider-
man e Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Perspectiva,
escapar é o movimento da différance, 2004.

que faz com que a coisa mesma esteja _______. Esporas – os estilos de Nietzsche. Tradução de
implicada em dois movimentos: dife- Rafael Haddock-Lobo e Carla Rodrigues. Rio de Janeiro:
NAU Editora, 2013.
renciação e adiamento ininito de sua
DUQUE-ESTRADA, Paulo Cesar. “Derrida e a escri-
presentiicação, tornando frágil toda tura”. In: DUQUE-ESTRADA, Paulo Cesar (Org.). Às
identidade dos sujeitos e dos objetos. margens da ilosoia. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio e
Edições Loyola, 2002.

• 158 •
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Már- alguém ou alguma coisa ou conceito só
cia Sá Cavalcante Shuback. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
v. 1. é idêntico a si mesmo e não para com
um outro ou outra. Deste prisma, ao se
NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia ou
helenismo e pessimismo. Tradução de J. Guinsburg. São falar em igualdade se aborda automa-
Paulo: Cia. das Letras, 1992. ticamente a desigualdade. Ou seja, no
RODRIGUES, Carla. Coreograias do feminino. Floria- pensamento racional formal o igual é
nópolis: Editora Mulheres, 2009. em si mesmo desigual para com um(a)
______. Duas palavras para o feminino: hospitalidade e outro(a) visto que apenas a identidade
responsabilidade. Sobre ética e política em Jacques Derri-
poderia ser a “igualdade plena”. Não
da. Rio de Janeiro : Faperj/NAU Editora, 2013.
por acaso utilizar o termo igualitaris-
SCHRIFT, Alan D. “Nietzsche’s French Legacy”. IN:
MAGNUS, B. e HIGGINS, K. (orgs). he Cambridge
mo tem certo peso pejorativo visto que
Companion to Nietzsche. Cambridge Press, 2006. seria um arremedo do que se propõe
SPIVAK, Gayatri. “Displacement and the discourse of
idêntico sem jamais o ser, visto que
woman”. In: HOLLAND, Nancy. Feminist interpreta- seria apenas o igual. (MOSER; MUL-
tions of Jacques Derrida. Pensilvânia: he Pennsylvania
State University Press, 1997.
DER; TROUT, 2004)
Neste contexto, icam claras
SAFATLE, Vladimir. “Être juste avec Freud”. IN: MA-
NIGLIER, Patrice (org.). Le moment philosophique des as razões do lema que marca(ou) os
années 1960 en France. Paris: PUF, 2011. fundamentos da histórica burguesa
moderna e contemporânea a partir
• da Revolução Francesa: “Liberdade,
igualdade e fraternidade”. Em nenhum
Desigualdade momento os burgueses propuseram o
im irrestrito das desigualdades, antes
Do ponto de vista dos princípios elas estavam contidas na deinição da
do pensamento racional a desigualdade igualdade e mesmo como base da li-
é elemento fundamental para que um berdade visto que a “igualdade plena”,
conceito se diferencie dos outros per- no campo do político-social poderia
mitindo que cada um seja aquilo que conduzir a equivocos. Assim, discutir a
é. Falar em igual é discorrer sobre o desigualdade, por contraditória que pa-
desigual e não apenas no terreno dos reça, ecoa como a discussão das bases
conceitos, mas, também, no mundo daquilo que nos torna o que somos e
real, das coisas, das individualidades. como somos. (PINSKY, 2005)
Assim, “igualdade plena”, “total”, não Se, do ponto de vista dos con-
seria possível, do ponto de referência ceitos a identidade é percebida como
das idéias, visto que esta seria a iden- elemento fundamental que confere
tidade quer de conceitos ou dos ele- originalidade a um ser, termo ou teo-
mentos manifestos no mundo. Algo, ria – vejam-se os embates em torno do

• 159 •
conceito de gênero, de transgênero, de no pensamento binário. Haveria uma
feminino, de masculino, de atividade, natureza imutável, haveria mesmo uma
de passividade entre tantos outros – e natureza que tudo determinaria e que
este aspecto é enfatizado pelos pesqui- desenvolveria ao longo da existência. A
sadores mais argutos como elemento desigualdade seria essencial na medida
fundamental para se compreender o em que explicita os modelos a serem
alcance e limites de determinada con- seguidos. Retornando ao campo dos
tribuição teórico-crítico-metodológica; termos, os desiguais que seguissem
no plano do social e político, a meta, suas essências seriam iguais; todavia,
sobretudo no terreno da História, é aqueles que não se adequassem a esta
compreender o que aquele determi- desigualdade essencial seriam “antina-
nado recorte espaço-temporal tem de turais” em um grau no qual a desigual-
especíico enquanto desigual a tudo o dade seria percebida e notada.
mais pesquisado e compreendido. As- A segunda concepção é deno-
sim, o que atrai a pesquisa histórica é o minada de naturalista e se expandiu
desigual, o especíico, o único. a partir do século XVII concorrendo
Todavia, o como se aborda a pelo espaço de ser reconhecida como
origem da desigualdade e como ela critério de verdade capaz de explicar
é mantida ou se manifesta variou ao a realidade. A ciência com seu méto-
do buscou encontrar aquilo que é a
longo dos séculos em conformidade
regularidade da natureza e do homem
a tendência teórica de fundo adotada
– ainda apenas o homem – para for-
pelo(a) pesquisador(a). Quatro gran-
mular leis que seriam universais e ne-
des tendências se estabeleceram não
cessárias para se compreender o mun-
apenas no campo acadêmico para ex-
do e o comportamento. Esta tendência
plicar a desigualdade, mas, também, no
abre espaço ao determinismo da natu-
campo religioso, no campo político e
reza sobre a existência. A natureza de
social. (SUCHODOLSKI, 1984)
homens e mulheres seria desigual em
A primeira, e talvez a mais mar-
sua biologia corpórea que lhe atribuía
cante, é a concepção essencialista que
um destino social. A consciência deve-
reinou soberana até o século XVII.
ria se dobrar diante do natural para ser
Nesta corrente de pensamento e ação reconhecida como o desigual que gera
o indivíduo seria dotado de uma essên- a igualdade na sociedade e mesmo na
cia que precede sua existência. A essên- natureza pela sua regularidade de gru-
cia seria inata determinando o que é ser po conforme o corpo lhe atribuía.
homem ou mulher, macho ou fêmea, O século XVIII possibilitou
hetero ou homo, para icar-se apenas uma nova tendência de compreensão

• 160 •
da realidade social e política que viabi- igual na medida em que se reconhecem
lizou a reinterpretação da desigualda- as desigualdades e busca equacioná-las
de a partir da crítica ao essencialismo a partir da tolerância, da pluralidade, da
e ao naturalismo, a nova corrente foi diversidade humano-cultural-subjetiva
denominada histórico-social. O duelo e de políticas públicas. Marco funda-
essência e existência, entre natureza mental nesta perspectiva foi a Declara-
e sociedade enquanto determinantes ção Universal dos Direitos Humanos.
das desigualdades ainda é forte, mas, Assim, por contraditória que
se abre espaço para o homem como pareça, o termo desigualdade, que vem
determinado por sua história, por seu do latim aequalitate, igualdade e que foi
processo de constituição social. As- alterado pelo preixo dês, indicando a
sim, as desigualdades seriam fruto das negação da igualdade trouxe em seu
relações históricas e sociais e políticas bojo as premissas necessárias para que
e econômicas e culturais que vivem e aquilo que era desigual por essência,
não mais de uma essência que prece- por natureza, se tornasse a base das
de a existência ou reféns da natureza transformações de concepções para
a qual pertence. A meta passa a ser superar a mesma desigualdade em
compreender a partir do histórico-so- nome da igualdade de gênero.
cial como os modelos foram forjados
e impostos como critérios de igualdade Wlaumir Doniseti de Souza
diante da desigualdade individual, so-
Referências e sugestões de leitura
cial, política e econômica.
Doravante passa-se a denunciar, KERSTENETZKYC.L. Desigualdade e pobreza. Dis-
ponível em: http://www.scielo.br/pdf/%0D/rbcsoc/
sobretudo no século XX, na versão crí- v15n42/1740.pdf . Acesso em 20 de maio de 2013.
tica-social-histórica o quanto o desigual
MENDES, D. T. (Org.) Filosoia da educação brasileira.
é o elemento fundante da igualdade e, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1985.
para além do modelo burguês da Re- MOSER, P.K.; MULDER, D.H.; TROUT, J.D. Teoria
volução Francesa, passa-se a defender do conhecimento. São Paulo: Mastins Fontes, 2004.

o desigual enquanto especiicidade da PINSKY, J., B. (Orgs) História da cidadania. São Paulo:
Contexto, 2005.
pessoa humana para a liberdade em pa-
tamar de igualdade de gênero que tem SANTOS, J.A. dos. Desigualdade social e o conceito
de gênero. Disponível em: http://www.ujf.br/virtu/i-
dentro de si a especiicidade de cada les/2010/05/artigo-3a7.pdf . Acesso em 20 de maio de
2013.
um, de cada grupo. Inicia-se a partir da
corrente histórica-social, e dentro des- SCOTT, J. Gênero: Uma categoria útil para a análise
histórica. Disponível em: http://disciplinas.stoa.usp.
ta percepção, mas de modo ampliado, br/pluginile.php/6393/mod_resource/content/1/G%-
C3%AAnero-Joan%20Scott.pdf . Acesso em 20 de maio
a se defender criticamente que só se é de 2013.

• 161 •
• como airma Jacques Derrida, la inter-
dependencia de los términos binarios
Diferença/Diferencia es jerárquica, siendo el primero de ellos
el que es más importante; el término
Los seres humanos somos ani- positivo es el principio, el que está del
males simbólicos, porque tenemos la lado del logos; el otro signiica en rela-
capacidad de usar un lenguaje simbó- ción a él y es, necesariamente, carencia,
lico por el que sustituimos realidades el enemigo del logos (SCOTT, 1992, p.
por conceptos. Poseemos un código 85-104).
personal, cultural e incluso de género Hélène Cixous (1975), como
por el que traducimos los signiicantes Bourdieu, rechaza estas oposiciones
(realidades de cualquier tipo) a signii- binarias porque signiican, precisamen-
cados determinados; y ese código, que te, la subordinación total de uno de los
sería como un lenguaje cifrado, es el términos, y porque ella cuestiona cual-
símbolo. Es decir, que las cosas no son quier noción identitaria ija, ya sea lite-
lo que son, sino lo que signiican. raria, cultural o de género.
El orden simbólico, que es lo que En los estudios de género las
estructura el pensamiento, depende del voces binarias son igualdad/diferencia,
lenguaje, que es el que le ha dado reali- pero estos términos no son excluyen-
dad al mundo; a él están sujetas la cul- tes entre sí, puesto que, como muy
tura y la sociedad. El estructuralismo bien explica Scott, «la antítesis [igual-
ha analizado cómo el signiicado se ha dad/diferencia] misma esconde la in-
construido a partir del contraste entre terdependencia de los dos términos, ya
los signos, es decir, en base a términos que la igualdad no es la eliminación de
binarios que establecen oposiciones la diferencia, y la diferencia no excluye
constituyentes de un orden conceptual la igualdad» (1992, p. 94).
que orienta todo el pensamiento, tanto En verdad, los conceptos dico-
el ilosóico y cientíico, como el de la tómicos son igualdad/desigualdad.
vida diaria, creando, así, orden simbó- Bourdieu explica que las dife-
lico. Lévi-Strauss airma que la mente rencias entre los sexos conluyen con
humana funciona en términos binarios. las oposiciones que organizan el uni-
Una de las oposiciones binarias verso «para sostenerse mutuamente,
básicas en la coniguración del orden práctica y metafóricamente, al mismo
simbólico es la dicotomía hombre/mu- tiempo que los “esquemas de pensa-
jer, pues el mundo está organizado de miento” las registran como diferencias
acuerdo a la construcción de ambos “naturales”, por lo cual no se puede
sexos, que están jerarquizados, porque, tomar conciencia fácilmente de la rela-

• 162 •
ción de dominación que está en la base producto de la identidad, se cuestione
y que aparece como consecuencia de ésta o no» (2004, p. 30).
un sistema de relaciones independien- De aquí que la otra oposición
tes de la relación de poder» (LAMAS, válida sea la de los antónimos identi-
1999, p. 93). El juego de diferencias y dad/diferencia.
antagonismos entre masculino y feme- Para Lacan el orden simbólico
nino se incluye en un sistema de opo- es un constituyente formal de la cul-
siciones que informan, según Bour- tura, cultura patriarcal, porque, airma,
dieu, las estructuras cognitivas de toda el Sujeto que rige los destinos de la
la “cultura mediterránea” (LAMAS, humanidad no puede ser otro que el
1999, p. 94). poseedor biológico del pene. En este
Por su parte, Cixous sostiene sentido, la imposibilidad de las mujeres
que la diferencia entre los sexos se de ser y de ser seres sociales, tanto en
debe al cuerpo de la mujer, porque los la realidad física como imaginaria, es
diferentes sexos tienen consecuencias el hecho constatable de su alienación
psíquicas. En el mismo sentido, Alicia y de su falta de conciencia de sí; por
Puleo (2000) engloba en el término gé- esto airmaba que «la mujer no existe»
nero el signiicado de identidad sexuada, (AMORÓS, 1997, p. 327). La diferen-
que no es sino la construcción psico- cia hombre/mujer no parte del género,
lógica del individuo y señala las dife- sino de la sexuación, y «no proviene de
rencias existentes entre el sujeto feme- la biología ni de la cultura, sino de la
nino y el masculino; diferencias que lógica del lenguaje, que es una lógica
son construidas socialmente y que no centrada en el soporte fálico» (ZAVA-
tienen origen biológico. Lacan insiste LA, 2004, p. 30).
en que tenemos que tener en cuenta el Lo que el postmodernismo
inconsciente, frente a la idea de que los quiere decir es que no existe una esen-
seres humanos somos sólo razón. cia de mujer, una identidad subjetiva
Así, pues, los términos hom- de la mujer como eterna, ahistórica,
bre/mujer, masculino/femenino son porque la mujer es una construcción
producto de la lógica del lenguaje y, iccional forjada por diversos discur-
por ende, de las identiicaciones imagi- sos occidentales, como el cientíico,
narias y simbólicas de la sociedad, pero el literario, el jurídico, el médico, etc.
también lo son de «los procesos in- (SCOTT, 1996). Por eso hay que crear-
conscientes vinculados a la simboliza- la. Como dice Victoria Sau, «La iloso-
ción de la diferencia sexual» (LAMAS, fía, la religión y la ciencia son grandes
1999, p. 88). Iris M. Zavala concluye monólogos colectivos del género mas-
que «lo masculino y lo femenino serían culino, donde el otro, en este caso el

• 163 •
interlocutor femenino, no es tenido en Así, siguiendo los principios del
cuenta» (1992, p. 19). postmodernismo, el orden simbólico
El feminismo de la diferencia deja de ser un orden constituyente para
se apoya en que la ilosofía ha estado pasar a ser un orden constituido, en el
siempre preocupada por averiguar si que la mujer sí puede estar inscrita. Se
hay una uniformidad que pueda llegar trata de constituir el orden simbólico
a unir la diversidad; es decir, ha preten- de la madre, como alternativa al siste-
dido reducir las diferencias a lo igua- ma patriarcal. Crear orden simbólico
litario. Sostiene que Platón, Descartes, signiica introducir la variable de la di-
Kant y Hegel impusieron el orden ló- ferencia sexual en todos los ámbitos de
gico de lo igual; es decir, impusieron el la vida, del pensamiento, de la política
(MURARO, 1994).
pensamiento racional masculino como
Para el feminismo deconstruc-
un criterio absoluto, prescindiendo de
tivista las mujeres no tendrían nada
toda diferencia.
que ganar con el igualitarismo, con el
Es Luce Irigaray quien, recha-
acceso al poder y a los recursos mas-
zando una tradición de pensamiento
culinos. Es más, Irigaray airma que
que ha pensado la diferencia a través
la verdadera naturaleza de las mujeres
de la supresión ─ o de considerarla
ha sido sistemáticamente negada; con
inferior ─, de suprimir al otro, intenta sus planteamientos reivindicativos, las
redeinir el sujeto femenino partiendo feministas «corren el peligro de estar
de que la diferencia femenina no se trabajando por la destrucción de las
conigura como un sujeto alternativo mujeres; más generalmente, de todos
al sujeto masculino falogocéntrico, sus valores» (AMORÓS, 1997, p. 390).
sino más bien como una alternativa de Aceptar la igualdad como punto de
alteridad respecto al sujeto, que es mas- partida es negar la diferencia sexual de
culino (MOI, 2006, p. 148). La pensa- las mujeres en pro del sujeto masculi-
dora francesa no pretende construir un no, que ha sido presentado por el saber
sujeto femenino. En este sentido, ha- androcéntrico como universal.
bría que desmitiicar al «sujeto mascu- Luce Irigaray opina que las mu-
lino de la razón» (AMORÓS, 1997). El jeres deben esforzarse por alcanzar
postmodernismo acepta las categorías su propio lenguaje, que es poético y
de otredad y de alteridad con las que está cargado de un potencial subver-
relativiza las categorías universales y sivo con respecto al orden patriarcal.
abre posibilidades nuevas para una ar- Considera que se puede reconstruir la
ticulación diferenciada del otro polo de identidad femenina si nos olvidamos
la diferencia sexual: la mujer. de los discursos androcéntricos y nos

• 164 •
dedicamos a explorar nuestro cuerpo y RIVERA GARRETAS, María Milagros. El fraude de la
Igualdad. Barcelona: Planeta, 1997.
la experiencia del placer sexual; a partir
de aquí se construiría una nueva subje- SAU, Victoria. Otras lecciones de psicología. En SAU,
Victoria, [et al.]. Otras lecciones de psicología. Bilbao:
tividad femenina. Maite Canal Editora, 1992. p.11-36.
La mujer no debe tomar como
SCOTT, Joan. Igualdad versus diferencia: Los usos de la
medida de sí misma lo masculino; por teoría posestructuralista. Debate feminista, Año 3, Vol.
5, 1992.
el contrario, lo que se propone es la
recuperación del mundo simbólico fe- SCOTT, Joan W. El género: una categoría útil para el
análisis histórico. En LAMAS, Marta (comp.) El género:
menino, airmando las relaciones de la la construcción cultural de la diferencia sexual. México:
hija con la madre, reconociendo la au- PUEG, UNAM, 1996. p. 265-302.
toridad de ésta, y el afidamento ─relaci- ZAVALA, Iris M. La otra mirada del siglo XX. Madrid:
ón de autoridad entre una mujer adulta La esfera de los libros, 2004.

y una joven. No se trata de ser iguales Indicaciones de lectura


a los hombres, sino de cuestionar el
BIRULÉS, Fina (ed.). Filosofía y género. Identidades fe-
código secreto de un orden patriarcal meninas. Pamplona, Pamiela, 1992.
que convierte las diferencias en desi-
IRIGARAY, Luce. Espéculo de la otra mujer. Madrid:
gualdades. Los cambios estructurales Akal, 2007.
y legislativos pueden ser un punto de
POSADA KUBISSA, Luisa. Sexo y esencia. De esencia-
partida, pero no de llegada. Milagros lismos encubiertos y esencialismos heredados. Madrid:
Rivera (1997) llama a esta situación el Horas y Horas, 1998.

fraude de la igualdad. RIVERA GARRETAS, María-Milagros. Nombrar el


mundo en femenino: pensamiento de las mujeres y teoría
feminista. Barcelona: Icaria, 2003 (3ª ed.).
Maria Ángelis Perez Carpio

Referencias

AMORÓS, Celia. Tiempo de feminismo. Sobre femi-


Direitos Humanos
nismo, proyecto ilustrado y postmodernidad. Madrid:
Cátedra, 1997.
A desigualdade de gênero é uma
CIXOUS, Hélène. Sorties. En CIXOUS, Hélène Y CLÉ- afronta à igualização proposta pelos
MENT, Catherine. La jeune née. Paris: U.G.E. 10/18, Direitos Humanos desde a sua fun-
1975. p. 114-246.
dação no século XVIII. Os três prin-
LAMAS, Marta. Género, diferencias de sexo y diferencia cipais documentos sobre os Direitos
sexual. Debate feminista, Año 10, Vol. 20, 1999. Humanos, são um relexo do social e
MOI, Toril. Teoría literaria feminista. Madrid: Cátedra, da estreiteza em relação às diferenças
2006 (4ª ed.). de gênero. A França que criou a Decla-
MURARO, Luisa. El orden simbólico de la madre. Ma-
drid: Horas y Horas, 1994.
ração que pretendia ser universal, foi o
último país do ocidente a conceder o
PULEO, Alicia. Filosofía, género y pensamiento crítico. voto às mulheres, sua cidadania políti-
Valladolid: Secretariado de Publicaciones de la Univer-
sidad, 2000. ca.

• 165 •
Esta desigualdade, o poder e o francesa é semelhante á norte-ameri-
domínio de uns sobre outras tem a sua cana, também o documento da ONU
história. A reivindicação de Direitos apresenta similaridades aos seus ante-
Humanos aplicados às mulheres ocor- cessores. Segundo Hunt, “por quase
re porque até há pouco tempo não dois séculos, apesar da controvérsia
eram consideradas humanas, mas sim, provocada pela Revolução Francesa,
ilhas, esposas de humanos. A história a Declaração dos Direitos do Homem
dos Direitos Humanos é contada atra- e do Cidadão encarnou a promessa de
vés de três documentos fundamentais direitos humanos universais. Em 1948,
tidos como textos fundadores: A De- quando as Nações Unidas adotaram a
claração da Independência dos EUA Declaração Universal dos Direitos Hu-
de 1776; a Declaração dos Direitos do
manos, o artigo 1ª dizia: “Todos os se-
Homem e do Cidadão de 1789 e a De-
res humanos nascem livres e iguais em
claração Universal dos Direitos Huma-
dignidade e direitos. Em 1789, o artigo
nos decretada pela ONU em 1948.
1º da Declaração dos Direitos do Ho-
O primeiro documento é elabo-
mem e do Cidadão já havia proclama-
rado por Thomas Jefferson nos Esta-
do; “os homens nascem e permanecem
dos Unidos após a independência da
livres e iguais em direitos”. Embora as
Inglaterra. A Declaração dos Direitos
da Virginia (EUA) de 1776 é uma de- modiicações na linguagem fossem sig-
claração de direitos que abre caminho niicativas, o eco entre os dois docu-
para a independência da América do mentos é inequívoco. “(HUNT, 2009,
Norte e que vai ser a inspiradora para o 15).
documento lançado após a Revolução O Brasil assinou a Declaração
Francesa – Declaração dos Direitos do Universal dos Direitos Humanos em
Homem e do Cidadão. O terceiro do- 1948 comprometendo-se com seus
cumento lançado pela ONU em 1948 termos e seu princípios. A redemocra-
segue os anteriores em seus princípios tização do Brasil após os negros tem-
gerais. Se os dois primeiros falam em pos da ditadura militar de 1964, recolo-
Direitos do Homem o terceiro avança cou novamente em debate a atualidade
e fala em Direitos do ser humano. Mas da defesa dos Direitos Humanos. O
os três silenciam sobre as mulheres. Programa Nacional de Direitos Huma-
Se o segundo possui muitas ai- nos implementado em 1996 exige uma
nidades com o documento norte-ame- mudança no campo das mentalidades.
ricano, e é consequência da Revolução Embaladas pelo Iluminismo e
Francesa, o terceiro é um efeito da Se- a Ilustração, a Revolução Americana
gunda Guerra Mundial. Se a declaração (1776) e a Revolução Francesa (1789)

• 166 •
fundam os novos direitos civis. O que a autonomia. No séc XVIII, e ainda
distingue as declarações do século hoje, não se imagina que todas as pes-
XVIII é a sua abrangência. A ruptura soas sejam autônomas. Para isso duas
histórica e política efetuada pela Revo- qualidades estavam implicadas: a capa-
lução Francesa tenta ir além da propos- cidade de raciocinar e a independência
ta norte-americana com pretensões de de decidir por conta própria. No sécu-
universalidade. Ao lançar a Declaração lo XVIII em especial, as crianças, os
dos Direitos do Homem e do Cidadão, loucos, os escravos, os criados, os sem
a nova burguesia no poder, ambiciona propriedade e as mulheres não tinham
contemplar a humanidade como um independência para serem autônomos.
todo: declaração dos direitos civis de Todos eles podiam um dia tornar-se
todos homens, de todos os países, de autonomos, crescendo ou comprando
todos os povos, de todas etnias. sua liberdade. Apenas as mulheres não
Uma sociedade mais justa e tinham nenhuma destas opções: eram
igualitária era o sonho de intelectuais deinidas como inerentemente depen-
e ilósofos da época. Liberdade, Igual- dentes de seus pais e maridos pelos
dade, Fraternidade, conceitos que se aparatos jurídicos.
transformaram em paradigmáticos Quando se dizia que todos eram
após a Revolução Francesa, sintetiza- iguais perante a lei, contestava-se um
ram os direitos do novo cidadão e são sistema de valores carregado de pri-
as palavras de ordem contra as opres- vilégios adquiridos pelo nascimento.
sões passadas. Mas este modelo liberal Abolidas as diferenças entre os três
para o Ocidente, designou ou relegou estados, muitas outras permaneceram,
muitos à condição de desiguais. É a entre elas a desigualdade entre os se-
partir dessa Revolução que se cons- xos, distinguindo um mundo inferior
truiu o modelo de cidadania que atra- doméstico para as mulheres frente ao
vessou o ocidente e da qual muitos per- mundo superior, público, próprio dos
maneceram excluídos. Michel Foucault homens.
identiica na tríade revolucionária, tão Gênero e Direitos Humanos
cara aos franceses, a delimitação de es- tem se demonstrado um problema
paços e comportamentos a serem se- de difícil solução. Quando a francesa
guidos por todos os indivíduos como Olympe de Gouges foi decapitada por
dispositivos de submissão: por trás da escrever a Declaração dos Direitos da Mu-
liberdade, grande reclusão; por trás da lher e da Cidadã icou explicito a quem
igualdade, a escravidão do corpo; por se destinava a nova cidadania. Olympe
trás da fraternidade, a exclusão. apresentou esta declaração aos Estados
Uma das prerrogativas funda- Gerais franceses em 1791, como uma
mentais da liberdade e da igualdade é resposta à Declaração dos Direitos do

• 167 •
Homem e do Cidadão, reconhecida faculdades intelectuais; que pretende
como momento fundador dos moder- aproveitar a Revolução e reclamar os
nos direitos da liberdade e a igualdade. seus direitos à igualdade, para não di-
Após lutar juntamente com os homens zer mais. (...) Considerando que a igno-
pelos ideais burgueses da Revolução rância, o esquecimento ou o desprezo
Francesa, não sentiu o seu sexo re- dos direitos da mulher são as únicas
presentado na declaração universal. O causas das desventuras públicas e da
documento que apresenta se revela de corrosão dos governos, elas resolve-
particular importância por conter air- ram expor numa solene declaração os
mações e reivindicações das mulheres direitos naturais inalienáveis e sagrados
em termos de direito e denunciar a co- da mulher...”
notação parcial do sujeito masculino. Sua declaração transforma-se
Olympe de Gouges demonstra- no primeiro manifesto público em fa-
va a parcialidade do sujeito masculino vor dos direitos da mulher. No contex-
e reivindicava que a diferença de sexo to dramático da Revolução Francesa,
não pode justiicar a exclusão das mu- por causa da sua crítica pública aos va-
lheres do poder político e da cidadania lores patriarcais e à violência do poder
social. Aceitava o princípio da univer- jacobino, ela foi guilhotinada em 1793.
salidade que está na base da declaração Segundo os revolucionários franceses,
dos direitos do homem e reivindicava Olympe seria guilhotinada por te co-
a diferença que hoje deinimos como metido dois “pecados”: querer ser um
de ‘gênero”, fazendo de homens e de homem de estado e trair a natureza de
mulheres o fundamento da nação. A seu sexo.
Declaração, constituiu-se na primeira Embora os revolucionários
interrogação sobre o papel da mulher franceses reivindicassem a ideologia
nas teorias e práticas institucionais ao republicana fundada na liberdade e na
tentar demonstrar as capacidades inte- igualdade dos cidadãos, não estendiam
lectuais e racionais do gênero femini- estes direitos às mulheres. Mirabeau,
no: “Homem, sabes ser justo? É uma Danton e Robespierre, célebres igu-
mulher que te pergunta: não quererás ras da Revolução, rejeitavam a idéia
tolher-lhe esse direito. Dize-me, quem de uma hierarquia natural entre os ho-
te deu o soberano poder de oprimir mens, mas mantinham-se mudos em
o meu sexo? (...) Extravagante, cego, relação às mulheres. Muitas delas ten-
desdenhoso da ciência e degenerado, taram fazer-se ouvir, através da pena
neste século de luzes e de perspicácia, ou da palavra, gritando nas tribunas da
na mais crassa ignorância, quer impe- Assembléia ou em manifestações de
rar sobre um sexo que tem todas as rua, mas eram escarnecidas, caricatura-

• 168 •
das e desqualiicadas. Propalava-se que de cité de 1790, questiona a exclusão das
as revolucionárias possuíam uma sen- mulheres do direito de cidadania que,
sualidade desenfreada e uma violência segundo ele, equivale a qualquer outra
incontrolável, para serem vistas como forma de discriminação, contrária ao
mulheres pouco respeitáveis e perigo- espírito emancipador da revolução.
sas. Pela primeira vez uma voz mas-
Robespierre, referindo-se às culina vem se opor à farta argumenta-
revolucionárias que haviam lutado ao ção sobre as razões “naturais” para a
seu lado na derrubada do antigo re- discriminação das mulheres. Quanto às
gime, deixa escapar a sua misoginia: justiicativas da inferioridade feminina
“As mulheres aceitam as novas idéias para excluir as mulheres, Condorcet
porque são ignorantes; espalham-nas arrolou-as e recusou-as uma a uma.
facilmente porque são levianas e lutam Frente ao argumento isiológico em
por elas muito tempo porque são tei- relação à gestação, aleitamento e mens-
mosas” (PALLA, 1985, 28). No 9 de truação, que transformava a mulher
Brumário de 1793, a Convenção de- em incapaz de exercer seus direitos
cide fechar os clubes fundados pelas cívicos, perguntava se privava-se dos
mulheres e, quatro dias depois, Olym- direitos políticos quem era acometido
pe é decapitada. A revolução inspirada de gota regulamente ou que se resfria-
em promessas libertadoras não altera o va facilmente. “Não violaram todos
estatuto das mulheres, demonstrando o princípio da igualdade dos direitos,
que as diferenças de gênero e de seus privando tranqüilamente a metade do
papéis sociais são mais profundas e gênero humano daquele de concorrer
arraigadas que as diferenças políticas, para a formação das leis, excluindo
econômicas e sociais. as mulheres do direito de cidadania?”
Assim como nem todas as mu- (CONDORCET, 1991,45).
lheres aderiram ao ideário igualitário Na discussão sobre a universa-
de Olympe de Gouges e outras revolu- lidade dos direitos do cidadão, a ques-
cionárias, nem todos os homens porta- tão central era se a Declaração dos Di-
vam-se da mesma maneira que Danton reitos do Homem aplicava-se a todos
e Robespierre. Jean Marie Condorcet, os seres humanos, seja qual for o seu
ilósofo de concepções feministas, de- sexo, religião ou raça, ou se dizia res-
nunciou todas as formas de opressão peito somente aos homens. Para sub-
sobre a mulher, considerando essencial trair às mulheres o exercício de seus
a simetria entre os sexos em relação a direitos naturais, seria preciso primeiro
todos os aspectos da vida social. Em provar que elas não pertenciam ao gê-
sua obra Sur l‘admission des femmes au droit nero humano. A posição de Condorcet

• 169 •
é clara: “Ou nenhum indivíduo da es- a moral da mulher. Rousseau referenda
pécie humana tem verdadeiros direitos, a feminilidade natural da mulher, a do-
ou todos têm os mesmos; e aquele que çura, a modéstia, as atividades caseiras
vota contra o direito do outro, seja qual e propõe o enclausuramento feminino:
for sua religião, cor ou sexo, desde logo “Só uma mulher deve mandar em casa.
abjurou os seus”. Mas deve limitar-se ao governo do-
Condorcet não conseguiu adep- méstico, não se meter com as coisas de
tos entre os homens, e muitas mulheres fora, se manter encarcerada em casa”
burguesas também não concordavam (Cf. BADINTER, 1991, 20). Discorria
com suas propostas, preferindo seguir também sobre a educação dos ilhos
a cartilha de Emílio (o novo modelo que deveriam receber carinho e cui-
de cidadão) e sua Soia, de Rousseau, o dado. Quanto às mulheres, devem ser
porta-voz da liberdade, segundo elas. O educadas na vergonha e no pudor.
que Rousseau fornecia, na verdade, era Elisabeth Badinter, em Palavras
uma exemplar legitimação burguesa à de Homens, analisa o lugar da mu-
subordinação da mulher no casamento. lher na sociedade segundo os revolu-
Com a adesão das mulheres francesas à cionários franceses, lembrando que o
proposta da relação entre Emílio e So- discurso dominante durante a Revo-
ia, Condorcet desabafa: “tenho medo lução Francesa, tributário a Rousseau,
de me indispor com elas... falo de seus triunfará nas sociedades ocidentais até
direitos, e não de seu império; podem o im da Segunda Guerra Mundial.
suspeitar de minha vontade secreta de A advertência de Rousseau de que a
diminuí-lo; e depois que Rousseau me- única chance de felicidade da mulher
receu a aprovação delas, dizendo que é abandonar o mundo exterior, sofrer
só eram feitas para cuidar de nós, e em silêncio e dedicar a vida aos seus
para nos atormentar, não devo espe- familiares teve boa acolhida entre as
rar que elas se declarem a meu favor” mulheres do mundo inteiro. A receita
(CONDORCET, 1991:19). era seguir a função que a natureza lhe
O teórico europeu da igualdade, destinou, sob pena de ser anormal e
Jean-Jacques Rousseau, estabelece que infeliz. As mulheres não exercerão os
a vida das mulheres está consagrada ao direitos cívicos, não possuirão direitos
papel doméstico. O ilósofo deine que humanos, já que a felicidade de todos,
a existência feminina materializa-se nos inclusive delas próprias, tem este pre-
olhos dos outros, (não é somente ne- ço, conclui o ilósofo.
cessário ser honesta é preciso parecer Se no século XVIII, Condorcet
honesta aos olhos dos outros) estabe- pode ser considerado como um dos
lecendo uma ligação entre a natureza e únicos revolucionários e parlamenta-

• 170 •
res a reconhecer a equivalência política editado logo após a Revolução France-
entre os sexos, no século seguinte ou- sa, determinou por mais de um século
tros homens e mulheres juntaram-se a a subordinação privada das mulheres e
esta preocupação. John Stuart Mill, em inluiu decisivamente na negação à sua
seu livro Subjection of Women (escrito a cidadania política, em todo o ocidente.
quatro mãos com sua mulher Harriet O Código Civil brasileiro edita-
Taylor), chamou a atenção para a alie- do em 1917, assumiu as diretrizes do
nação feminina: sem acesso ao poder Código napoleônico, que legitimava o
político, as mulheres não teriam meios princípio da incapacidade civil das mu-
de garantir os outros direitos funda- lheres casadas, consideradas menores
mentais para se tornarem sujeitos au- submetidas à autoridade do marido,
tônomos. desprovidas de todos os direitos polí-
Segundo Mill, a sujeição das mu- ticos. O casamento, que através de vá-
lheres tem sido tão universal quanto a rios discursos é elevado ao único ideal
diferença entre os sexos. Considerava
feminino, à única maneira de realiza-
a situação social de inferioridade das
ção feminina como esposa e mãe, é,
mulheres como um problema político
ao mesmo tempo, a prisão da mulher;
e social, descaracterizando a diferença
transforma-se na sujeição de um sexo
biológica como origem da subordina-
pelo outro. Arranjar marido signiicava
ção feminina. A sujeição das mulheres
para a mulher perder a capacidade jurí-
põe em dúvida o valor do conceito de
dica. O casamento privava-a de exercer
democracia e, para Mill, esta só será al-
os direitos pessoais e patrimoniais.
cançada através da democracia sexual,
Com o casamento a mulher re-
sobretudo na família. Perguntava ele:
baixava-se à categoria de menor, de-
“è possível denominar democracia um
sistema político que exclui as mulheres pendente do marido, mas todas que-
da cidadania, e portanto, da partici- riam casar-se, porque solteiras não
pação política?” (MILL, apud ALVA- eram bem vistas socialmente. Extremo
REZ, 1994). paradoxo de considerar-se o estado da
A desigualdade entre os sexos casada como o que oferece um maior
é historicamente construída e sua face status a uma mulher, ao mesmo tempo,
mais cruel é a violência praticada con- como tal, sua capacidade e personali-
tra a mulher. A violência contra a mu- dade jurídica, já diminuída, ica con-
lher é o atestado desrespeito aos Di- sideravelmente reduzida. As mulheres
reitos Humanos invocados por todas eram, portanto, destinadas a viverem
declarações. O Código napoleônico, como menores de idade de maneira
de 1804, encarnação da modernidade, permanente.
• 171 •
O conceito de honra é inaugu- e quando foram arquitetados, descons-
rado neste código e a honra da mulher truí-los, é uma tarefa árdua e difícil,
é um dos principais motivos alegados mas necessária. A radical desigualdade
para seu extermínio. Este conceito de entre os sexos – a violência contra a
honra é sexualmente localizado e o mulher, uma das mais claras violações
homem é o legitimador, uma vez que aos direitos humanos, por ser trans-
a honra é atribuída pela sua ausência, nacional e atravessar todas as catego-
rias como classe, raça, etnia, geração,
através da virgindade, ou pela presen-
necessita a convocação dos direitos
ça no casamento. Os crimes em defesa
humanos para combatê-la. Enquanto
da honra, são perpetrados e justiica-
a sociedade conviver com esta chaga
dos tendo como base estes códigos
cultural, ica em suspenso seu projeto
e deixou milhares de criminosos em de liberdade e emancipação.
liberdade, numa demonstração da co-
nivência do estado com a violência do- Ana Maria Colling
méstica e da persistência de uma hie-
rarquia sexual. Referências e sugestões de leitura
A incapacidade da mulher, esta-
ALVAREZ, Ana de Miguel. Como leer a John Stuart
belecida pelo Código Civil é eliminada Mill. Madrid: Júcar, 1994.
em 1962 com a edição do Estatuto da
BADINTER, Elisabeth. Palavras de Homens (1790-
Mulher Casada, mas a cultura, as men- 1793). Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1991.
talidades, durante muito tempo con- BONACCHI, Gabriela; GROPPI, Ângela (org.) O Di-
servaram o estatuto da defesa da hon- lema da Cidadania. Direitos e deveres das mulheres. São
Paulo: Unesp, 1995.
ra masculina. A Lei Maria da Penha,
CONDORCET, Sobre a admissão das mulheres ao direi-
implementada em 2006, surge como to de cidadania. In: BADINTER, Elisabeth. Palavras de
alternativa no Brasil de combater a Homens (1790-1793). Rio de janeiro: Nova Fronteira,
1991.
violência contra a mulher - questão de
GOUGES, Olympe. Declaração dos direitos da mulher e
saúde pública e violadora dos direitos da cidadã. In: BONACCHI, Gabriela; GROPPI, Ângela
humanos. A violação dos direitos hu- (org.) O Dilema da Cidadania. Direitos e deveres das mu-
lheres. São Paulo: Unesp, 1995.
manos femininos, dá-se, principalmen-
te, dentro das paredes domésticas, es- HUNT, Lynn. A invenção dos direitos humanos: uma
história. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
paço historicamente sacralizado.
MILL, John Stuart. A Sujeição das Mulheres. São Paulo:
Os discursos que nomearam o Escala, 2006.
masculino e o feminino se inculcaram
PALLA, Maria Antônia. O essencial sobre a Condição
profundamente na cultura ocidental feminina. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda,
e estabeleceram a preponderância do 1985

masculino e a subordinação do femini- ROUSSEAU, Jean-Jaques. Emílio ou Da Educação. Rio


de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992.
no. Abrir os discursos, mostrar como

• 172 •
SCOTT, J. La citoyenne paradoxale. Lês féministes fran- de cada termo tem linhas próprias que
çaises et lês droits de l’homme. Paris, Albin Michel, 1998.
se cruzam para formulação do termo
• “direitos sexuais e reprodutivos” em
profundo diálogo com o campo dos
Direitos sexuais direitos humanos, aqui entendido não
e reprodutivos como um dado, mas uma construção
(ARENDT, 1989.), embora o termo
Em pleno século XXI, movi- não tenha sido mencionado na Decla-
mentos feministas, movimento LGBT ração Universal dos Direitos Huma-
(Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, nos, em 1948. (FREEDMAN; ISAAC,
Transexuais e Transgêneros), entre 1993).
outros, defendem, gritam e publicam Já na Conferência Internacional
“Meu corpo, minhas regras!” Na dé- de Direitos Humanos, em Teerã, no
cada de 1970, o movimento feminista ano de 1968, a reprodução humana foi
airmava em conferências e campanhas objeto de atenção em função da pres-
publicitárias que “Nossos corpos nos são sobre os países menos desenvolvi-
pertencem”. Ontem e hoje, falamos, dos economicamente e suas políticas
escrevemos e reiteramos os direitos de controle demográico. Nesta con-
das mulheres decidirem o que fazer e ferência, direitos reprodutivos foi dei-
como fazer com seu próprio corpo. nido como uma prerrogativa dos pais,
Naquele momento e no atual, as mo- que “têm como direito humano básico
bilizações, as lutas e os estudos eram decidir de forma livre e responsável so-
e são em defesa dos direitos sexuais e bre o número e o espaçamento de seus
reprodutivos das mulheres. ilhos e o direito à educação adequada
Conceituar direitos sexuais e re- e informação a este respeito.” (FRE-
produtivos é uma tentativa de constru- EDMAN; ISAAC, 1993, p. 20). Deste
ção de uma vereda em um espaço em modo, o termo “direitos reprodutivos”
formação, marcado por tensões, diver- não foi deinido como autonomia das
gências e silêncios. Trata-se de histori- mulheres, e sim do casal heterossexual.
cizar a formulação deste conceito em Em 1979, a Convenção sobre a
uma leitura na perspectiva de gênero. Eliminação de todas as Formas de Dis-
Se escritos juntos, o termo “di- criminação contra a Mulher, da Orga-
reitos sexuais e reprodutivos” possui nização das Nações Unidas, defendeu
uma genealogia política especíica; se a obrigação de eliminar a discrimina-
escritos separados, “direitos reproduti- ção contra mulheres e, ao mesmo tem-
vos” e “direitos sexuais”, a genealogia po, assegurar a igualdade entre homens
e mulheres. Somente na II Conferência
• 173 •
Mundial sobre os Direitos Humanos, neomathusiano, propôs a defesa dos
em 1993, em Viena, a sexualidade das direitos humanos, do bem-estar social
mulheres, mais precisamente a elimina- e da igualdade de gênero, do planeja-
ção da violência baseada no gênero e mento familiar no âmbito da saúde e
todas as formas de abuso e exploração dos direitos sexuais e reprodutivos.
sexual, foi mencionada e discutida. (CORRÊA, 1996, p. 2).
Em outra direção, em prol aos No âmbito das discussões e das
direitos reprodutivos das mulheres, a I pressões na Conferência do Cairo, o
Conferência Internacional da Mulher, movimento gay e lésbico, que desde
realizada no México, em 1975, foi um o inal do ano 1980, envolvido na luta
importante espaço para defesa do direi- por combater a chamada epidemia da
to à autonomia reprodutiva, entendido AIDS pressionou a inclusão do ter-
como o direito à escolha reprodutiva mo “direitos sexuais”, entretanto, ao
sob a noção de controle e integridade termo permaneceu de fora, sendo re-
corporal (MATTAR, 2008). tomado na IV Conferência Mundial
No âmbito das conferências sobre a Mulher, em Pequim, em 1995,
da Organização das Nações Unidas e passando a compor o termo direitos
voltada às mulheres o avanço signii- sexuais e reprodutivos.
cativo em relação aos direitos sexuais Para Ávila (2003, p. 466), as re-
das mulheres deu-se na IV Conferên- lações sexuais enquanto relações so-
cia Mundial sobre Mulheres, realizada ciais no âmbito da cidadania, “colocam
em Beijing (Pequim) em 1995, quando a heterossexualidade e a homossexuali-
os direitos reprodutivos foram incor- dade como práticas sexuais igualmente
poradas nas discussões sobre direitos livres” no plano da dignidade humana.
humanos (PIOVESAN, 2003). O controle sobre a própria sexualida-
Contudo, foi na Conferência In- de, incluindo a saúde sexual e reprodu-
ternacional sobre População e Desen- tiva, e a decisão livre, autônoma, sem
volvimento das Nações Unidas, reali- estar sujeita à qualquer forma de coer-
zada na cidade do Cairo, no Egito, de ção, de discriminação ou de violência,
05 a 13 de setembro de 1994, que teve é entendido como direito humano das
por objetivo discutir temas relaciona- mulheres.
dos à demograia e economia, que o Apesar do conceito direitos se-
termo “direitos sexuais e reproduti- xuais e reprodutivos ganhar notorie-
vos” ganhou notoriedade. Ao operar dade a partir da Conferência do Cai-
uma mudança de paradigma, a Confe- ro, o movimento feminista reunido
rência do Cairo na tentativa de superar na Conferência Internacional sobre
as políticas populacionais, alinhadas ao Mulher e Saúde, em Amsterdã, 1984,

• 174 •
usou o termo “direitos reprodutivos” e fundamental pressão para utilização
nas campanhas em prol da autode- do termo “direitos sexuais e reproduti-
terminação reprodutiva das mulheres. vos”, bem como para conceituação do
Anos antes, em 1979, na fundação da mesmo no âmbito do direito das mu-
Rede Nacional pelos Direitos Repro- lheres decidirem sobre seu corpo, in-
dutivos, nos Estados Unidos, o termo cluindo as campanhas para descrimina-
“direitos reprodutivos” teve visibilida- lização do aborto, cabendo ao Estado
de e integrou campanhas em defesa prover as condições para as mulheres
dos direitos reprodutivos, sendo tema decidirem de forma livre e autônoma.
central do movimento feminista e gay Para Corrêa e Petchesky (1996)
nos anos 1970. é preciso pensar os “direitos sexuais
Nas lutas do movimento femi- e reprodutivos em termos de poder e
nista norte-americano, o termo per- recursos”. O poder é compreendido
mitia ampla crítica à concepção de como “tomar decisões com base em
maternidade como dever das mulhe- informações seguras sobre a própria
res, fortalecia a luta pelo direito de de- fecundidade, gravidez, educação dos
cidir sobre o aborto e formas e usos ilhos, saúde ginecológica e atividade
dos anticonceptivos. “Nossos corpos sexual; e recursos para levar a cabo
nos pertencem” tornou-se palavra de tais decisões de forma segura.” (COR-
ordem do movimento feminista dos RÊA; PETCHESKY, 1994, p. 149.)
anos 1970. Este slogan evidenciou o Neste sentido, “o corpo existe em um
reconhecimento do corpo como lugar universo socialmente mediado.”
primeiro da existência e a reapropria- No Brasil, nos anos 1970, sob
ção do corpo feminino. o Regime Ditatorial Civil-Militar, que
Trata-se, portanto, da formu- cerceava os direitos políticos e as lutas
lação de um conceito fora da alçada pelos direitos sociais, o tema da repro-
das conferências da ONU, que, por dução foi atrelado à questão da saúde
sua vez, passou a integrar o termo, em da mulher, muito embora o movimen-
função da presença e das pressões do to feminista no Brasil tenha, desde
movimento feminista e do movimento os anos 1960, a liberdade sexual das
gay nas conferências sobre população, mulheres como bandeira de luta (PE-
sobre mulheres e direitos humanos DRO, 2003).
quanto ao direito à autodeterminação. No Brasil, o Programa de Assis-
A presença e a luta do movimen- tência Integral à Saúde da Mulher, cria-
to feminista no âmbito das conferên- do em 1983, estabeleceu política pú-
cias organizadas pela Organização das blica para a saúde integral da mulher,
Nações Unidas exerceram importante entendida como saúde reprodutiva. A

• 175 •
questão da concepção, do exercício da direitos sexuais e reprodutivos, por
maternidade e das novas tecnologias ativistas feministas, o Conselho Nacio-
reprodutivas, incluindo a esterilização nal dos Direitos da Mulher, criado em
de mulheres, foram pautas discutidas 1985, e setores religiosos, entre eles a
tantos nas políticas públicas quanto na Igreja Católica (PITANGUY, 1999).
mídia. Ainda em 2004, a “Política Na-
Nesta programa, houve a inclu- cional de Atenção Integral à Saúde da
são dos homens e da noção de saúde Mulher” visava a promoção da melho-
sexual, o que é um avanço para os di- ria das condições de vida e saúde das
reitos sexuais e reprodutivos na pers- mulheres e incluía a distribuição de an-
pectiva de gênero. As políticas públi- ticoncepcional, a atenção humanizada
cas para promover os direitos sexuais obstétrica, neonatal e ao abortamento
e reprodutivos seguiram de perto a e redes de apoio contra a violência em
questão da contracepção, esterilização, mulheres são avanços. Contudo, apesar
aborto e assistência à saúde. Mas, os da defesa dos direitos iguais para mu-
estudos recentes e polêmicas sobre o lheres, só recentemente, as mulheres
aborto mostram que a integralidade e a das classes populares, as mulheres ne-
equidade da atenção, enquanto princí- gras, as mulheres indígenas, as mulhe-
pios da política de saúde, que integra- res do campo, etc, passaram a alvos das
políticas públicas de atenção à saúde.
ram o Programa de Assistência, imple-
As múltiplas tensões que per-
mentado ao longo dos anos 1990, não
passam este território conceitual impli-
foram exitosas.
cam retirar o conceito do campo indi-
Defender os postulados dos
vidualista (CORREA; PETCHESKY,
direitos reprodutivos seja na ótica fe-
1996) para colocá-lo no campo do
minista, seja na ótica da políticas po-
poder e dos recursos, ou seja, trazer
pulacionais, é assumir “um confronto
o debate do direito à reprodução, à
político acirrado que se situa nos cam-
sexualidade livre e sem qualquer tipo
pos da ética, da moral e das relações de
discriminação para o campo dos direi-
classe, gênero e raça” (ÁVILA, 1993,
tos humanos. Trata-se de discutir e de
p. 387).
defender os direitos das mulheres de
No Brasil da redemocratização,
decidirem sobre seu corpo tendo as
luta ferrenha icou também eviden-
condições para tomada de decisão de
ciada na Assembleia Nacional Consti-
forma livre e autônoma e assim viver
tuinte em 1987, quando a “Carta das
sua sexualidade com prazer.
Mulheres aos Constituintes” explicitou
Na trajetória do conceito “direi-
as contendas acerca da deinição dos
tos sexuais e reprodutivos”, ao longo

• 176 •
do século XX, a defesa dos direitos FREEDMAN, L.P. e ISAACS, S.L. Human Rights and
Reproductive Choice. Studies in Family Planning, v. 24,
reprodutivos e sexuais, enquanto “uma n. 1 p. 18-30, 1993.
ideia construída na modernidade, a
MATTAR, Laura Davis. Reconhecimento jurídico dos
partir da prática política das mulheres direitos sexuais: uma análise comparativa com os direitos
em torno de sua demanda na esfera reprodutivos. Sur, Rev. int. direitos human., São Paulo ,
v. 5, n. 8, June 2008.
reprodutiva” (ÁVILA, 1993, p. 382),
trouxe para o campo político a discus- PEDRO, Joana Maria. A experiência com contraceptivos
no Brasil: uma questão de geração. Revista Brasileira de
são da sexualidade e reprodução, mas História. São Paulo, v. 23, nº 45, p. 239-260 – 2003.
não abriu mão do campo da moral ain-
PIOVESAN, F. Temas de Direitos Humanos, 2 a ed., São
da dominado pelas religiões cristãs. Paulo: Max Limonad, p. 221-235, 2003.
Portanto, apesar das conquistas PITANGUY, Jacqueline. O Movimento Nacional e In-
pontuais em direção à vivência plena ternacional de Saúde e Direitos Reprodutivos In:GIF-
FIN, Karen (Org.) Questões da saúde reprodutiva. Rio
dos direitos sexuais e reprodutivos pe- de Janeiro: Editora Fiocruz, 1999.
las mulheres, é preciso destacar que
outros sujeitos aderiram à luta, como o Sugestões de leitura
movimento LGBT, pondo em xeque as ÁVILA, Maria Betânia. Modernidade e Cidadania Re-
deinições de direitos humanos ilumi- produtiva. Revista Estudos Feministas, n.2, 1993, p.382.

nistas e limitações do termo “direitos •


sexuais e reprodutivos” das Conferên-
cias da ONU, dos movimentos femi- Divórcio
nistas, e, por outro lado, fortalecendo
a discussão pela liberdade sexual e as Divórcio: do latim divortium,
mobilizações por políticas públicas em derivado de divertĕre, ou “separar-se”.
favor dos direitos humanos e da cons- Nas representações mais recorrentes
trução de relações de gênero livres do na cultura ocidental, a palavra Divór-
patriarcalismo. cio remete ao ato de separação entre
cônjuges, em cujo signiicado está em-
Paula Faustino Sampaio butido o rompimento legal e deinitivo
Referências do vínculo de casamento civil, um con-
trato que ixa os direitos e deveres do
ÁVILA, M. B. Direitos Sexuais e Reprodutivos: desaios casal e regulamentados por Leis de um
para as políticas de saúde. In: Cadernos de Saúde Pública,
Rio de Janeiro, 19 (Sup.2):S465-S469, 2003.
determinado Estado.
Em todas as culturas, a união
CORREA, Sonia; PETCHESKY, Rosalind. Direitos
sexuais e reprodutivos: uma perspectiva feminista. Phy- entre pessoas de sexo diferentes, e do
sis, Rio de Janeiro , v. 6, n. 1-2, 1996. Available from mesmo sexo mais contemporanea-
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi-
d=S0103-73311996000100008&lng=en&nrm=iso>. ac- mente, bem como para desfazer desta
cess on 16 Feb. 2015.http://dx.doi.org/10.1590/S0103- condição civil, tem sido alvo de discur-
73311996000100008.

• 177 •
sos, regulamentos e leis, e/ou vividas gundo este Código, o casamento era um
nas práticas consuetudinárias. O pro- contrato desigual, exigindo obediência
cesso legal de divórcio pode envolver da mulher ao marido e concedendo-lhe
questões como atribuição de pensão o divórcio apenas no caso de este levar
de alimentos, regulação de casa de mo- sua concubina ao domicílio conjugal.
rada de família, as formas de partilha A Igreja exercia poder e inluência no
de bens, herança, regulação de poderes Império, tanto que em 1827 um De-
paternal e maternal, guarda de ilhos creto real irmava a obrigatoriedade
menores, regulação de pensões. das disposições do Concílio de Trento,
No Brasil colonial (1500-1822), consolidando a jurisdição eclesiástica
a família era o centro das relações, ali- nas questões matrimoniais. Em 1861,
cerçada no casamento, e seguia as leis através do Decreto 1.144, a faculdade
civis instituídas em Portugal para o de dispensar os impedimentos e a de
controle dos corpos, sob o consenti- julgar a nulidade do casamento passa
mento da Igreja, das Ordenações Ma- para a autoridade civil, que institui pu-
nuelinas e, mais tarde, das Filipinas. Às nições às uniões sem um contrato civil,
mulheres aplicavam-se normas de con- a par do costume de realizar apenas o
duta severas na cobrança de sua casti- casamento religioso. Situações de con-
dade, virtude e idelidade, vistas como litos eram comuns, e a legislação ecle-
responsáveis pela honra da família, siástica autorizava divórcios em casos
com rígido controle da Igreja Católica especiais: se um ou os dois cônjuges
sobre uniões conjugais, que exigia a in- passasse a seguir a vida religiosa; na
dissolubilidade do casamento, embora ocorrência de adultério; heresias; prá-
o concubinato fosse prática comum. ticas graves de sevícias, ou renúncia da
(DEL PRIORE, 1993). A coabitação fé católica. Ao longo do oitocentos até
de casais não precedida do sacramen- a década de 1870, solicitações de se-
to do matrimônio era (e é) considerada paração foram feitas, sobretudo, pelas
pecado, conforme estabelecido pelo esposas, dado o dote e os ‘negócios de
Concílio de Trento (1545-1563). A sa- família’, e havia casos em que a Igreja
cralização do matrimônio tem origem Católica autorizava outras núpcias, ou
na igreja cristã medieval, quando fez os “casamentos de consciência”, para
do casamento voltado apenas à repro- ins de status, honra familiar e salvar
dução, monogâmico, indissolúvel e he- almas em pecado (BRUGGER, 2005).
terossexual. Com a proclamação República
No Brasil imperial (1822-1889), (1889) e a separação Igreja e Estado,
juristas instruíam-se no Código Civil foi assinado o Decreto nº 181, em
Napoleônico, outorgado em 1804; se- 1890, instituindo o casamento civil; to-

• 178 •
davia, persistia o costume do matrimô- 2000, p. 63). Para os juristas, o divórcio
nio religioso. Outro Decreto, o de n. era uma questão de civilidade, objeto
521, ditava que o casamento civil devia de legislação própria, o que levou a
preceder o de qualquer culto, e discipli- outros projetos divorcistas em 1900 e
nava a separação de corpos quando ha- em 1908. Em 1910, foi proposto que
via provas aceitáveis como o adultério; os cônjuges que estivessem separados
sevícia ou injúria grave; abandono vo- judicialmente por mais de cinco anos
luntário do domicílio conjugal por dois pudessem requerer o divórcio, mas ve-
anos contínuos; e mútuo consentimen- tado pelo Senado.
to dos cônjuges se casados há mais de O Código Civil de 1916, de
dois anos. Conigurava-se o desquite, autoria do jurista Clóvis Beviláqua,
ou a dissolução da sociedade conjugal manteve o desquite para identiicar a
com a separação dos cônjuges – de separação de corpos/cônjuges, e per-
corpos - e seus bens, sem rompimento manecendo o vínculo matrimonial. A
do vínculo matrimonial. um desquite precediam causas como
Projetos que visassem moder- o adultério, tentativa de morte, sevícia
nização/modernidade tinham eco nos ou injúria grave e abandono voluntário
anos iniciais da República. O tema em do lar conjugal (art. 317). Nas décadas
torno das uniões conjugais e divórcio seguintes, destacavam-se discursos ju-
gerava debates nos âmbitos político, i- rídicos sobre a honra sexual, base da
losóico, religioso e jurídico para o or- família e honra da nação, dentro da
denamento e civilização dos costumes, concepção positivista, com o objetivo
assunto este ventilado na Constituinte de civilizar e conscientizar no regra-
de 1891, mas excluído do texto. A pri- mento das condutas. Deiniram os cri-
meira tentativa de criação do divórcio mes contra a honra, o pudor, o abuso
no Brasil foi em 1893, apresentada à sexual, na perspectiva de estabelecer
Câmara dos Deputados, e rejeitado; o controle das condutas, como enten-
em 1896 e 1899, novas tentativas na diam ser uma nação sadia e civilizada.
Câmara e no Senado, sempre com re- A Constituição de 1934 expressou a
jeição. Embora a Constituição de 1891 retomada de poder da Igreja Católica,
tenha proclamado uma república de e os constituintes da Liga Eleitoral Ca-
cidadãos livres e iguais perante a lei, tólica (LEC) exigiram o compromisso
manteve-se a diferença entre homens e na recusa ao divórcio, sendo incluído
mulheres, mas, “as mulheres permane- artigo tornando o casamento indissolúvel,
ceram sendo ‘cidadãs inativas’, sujeitas dispositivo mantido nas Constituições
às leis republicanas e sem o direito à brasileiras de 1937, 1946, 1957 e 1969.
participação cívica”. (CAULFIELD, Em 1969, o poder militar outorgou a

• 179 •
Emenda Constitucional n. 1/69, li- com a assinatura do presidente Geisel:
mitando as votações para projetos de Lei 6.515, de 26 de dezembro de 1977,
divórcio com quorum de dois terços de conhecida como “Lei do Divórcio”,
senadores e de deputados. que concedeu a possibilidade de um
No início da década de 1950, novo casamento, porém, uma única
práticas sociais modiicam-se, mas per- vez. Os parlamentares pró-divórcio te-
manecia a cobrança da família-modelo ciam argumentos sobre a necessidade
centrada no pátrio-poder. Entretanto, da recondução da mulher desquitada a
o divórcio era tema recorrente no par- um novo casamento, outro lar nuclear,
lamento. O mais enfático parlamen- ao controle de outro homem, e assim
tar na defesa pela institucionalização salvaguardar sua honra, como aparece
do divórcio no Brasil foi o advogado nos argumentos de Nelson Carneiro,
Nelson Carneiro, deputado federal a especialmente na sua obra A luta pelo
partir de 1947 e senador entre 1971 e Divórcio (1977).
1985. Em 1952, propôs a retirada da O ano de 1977 icou marcado
expressão “vínculo indissolúvel” da na história do direito de família no
Constituição, e rejeitada. Nos debates e Brasil com a lei que permitiu a recom-
argumentos, a Igreja Católica mantinha posição familiar e a possibilidade de
o dogma da indissolubilidade do matri- obter nova identidade jurídica civil. As
mônio, e o divórcio como destruidor novas conigurações familiares legiti-
de família. madas pela Lei do Divórcio reletiam
Em 1975, foi apresentada o intenso movimento de novas ideias,
Emenda Constitucional nº 5, propon- desejos e visões de mundo que circu-
do a dissolução do vínculo matrimo- lavam na sociedade da época quebran-
nial após cinco anos de desquite ou do paradigmas e rompendo dogmas
sete de separação de fato; em sessão longamente estabelecidos pela moral
de 8 de maio de 1975, a emenda obte- religiosa e pela ordem liberal conser-
ria maioria de votos (222 contra 149), vadora. E, anunciava-se uma possível
porém insuicientes para atingir o quo- abertura política, lexibilizando con-
rum exigido de dois terços. Finalmen- servadorismos.
te, após longos debates e participação Todavia, para as mulheres, per-
de grupos de pressão pró e contra, a sistia a cobrança das normas de com-
Emenda Constitucional nº 9, apresen- portamento e interdições mais rígidas,
tada pelos senadores Nelson Carneiro e quando desquitadas, e depois divor-
e Accioli Filho, foi aprovada no dia 16 ciadas, sobre elas recaíam expressões
de junho de 1977, por 219 votos a fa- depreciativas como separada, desqui-
vor e 161 contra, e transformada em lei tada, mãe-solteira, delorada, desonra-

• 180 •
da, ‘amiga’, prostituta, fácil, decaída, mento civil pode ser dissolvido pelo
concubina, amante, teúda, manteúda, divórcio sem prévia separação judicial,
sirigaita, palavras dirigidas inclusive imediato, como divórcio direto. Contudo,
no interior dos tribunais. Na prática, o status civil divorciado/a somente po-
até 1977, quem casava no civil, perma- derá ser desconstituído se houver novo
necia com um vínculo jurídico para o casamento, sendo o divórcio em si, ir-
resto da vida; caso a convivência fosse reversível.
insuportável havia o desquite, que in-
Marlene de Fáveri
terrompia com os deveres conjugais e
terminava com a sociedade conjugal:
Referências e sugestões de leitura
os bens eram partilhados, separavam-
-se os corpos, mas nenhum dos dois CARNEIRO, Nelson. A luta pelo divórcio: síntese de
uma campanha em defesa da família. São Paulo: Editora
tinha proteção jurídica noutra união, Lampião, 1977.
e não havia leis que resguardassem os
CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra: moralidade,
direitos de união estável daqueles que modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940).
viviam juntos informalmente. Campinas, SP: Unicamp, 2000.

A Constituição de 1988 traz sig- DEL PRIORE, Mari. Ao sul do corpo: condição femini-
niicativo avanço no campo das rela- na, maternidade e mentalidades no Brasil Colônia. Rio
de Janeiro: José Olympio; Brasília, DF: Edumb, 1993.
ções afetivas, ampliando possibilidades
DIGIOVANNI, Rosângela. Rasuras nos álbuns de famí-
de im de vínculo conjugal pelo divór- lia: um estudo sobre separações conjugais em processos
cio, e a Lei n. 7.841, de 1989, revogou jurídicos. Campinas, 2003. Tese (Doutorado em Ciências
Sociais). Universidade Estadual de Campinas, Campinas.
o art. 38 da Lei do Divórcio e passou
a permitir divórcios sucessivos. Em FAVERI, Marlene de e TANAKA, Teresa Adami. Di-
vorciados, na forma da Lei: discursos jurídicos nas ações
2002, o novo Código Civil Brasileiro, judiciais de Divórcio em Florianópolis (1977-1985).
Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 18(2), maio-
além de reconhecer outras formas de -agosto/2010. p. 359-383.
constituição familiar e das uniões está-
veis, também inclui o Divórcio como •
uma forma de dissolução conjugal.
Em 2007, com a Lei n. 11.441, Docência e gênero
foi permitido requerer divórcio e sepa-
ração consensuais, por via administra- Com o im de recuperar as ar-
tiva (sem ação judicial) para casais sem ticulações entre gênero e trabalho
ilhos. Em 2009, outra lei compatibiliza docente, as pesquisas a respeito têm
o lapso temporal do divórcio realizado se dirigido principalmente a duas pro-
no estrangeiro com a sistemática cons- blemáticas: o resgate da gênese da do-
titucional. E, a partir de 2010, o casa- cência como forma de compreender as

• 181 •
transformações pelas quais a mesma solitários em sua proissão, começam a
vem passando no transcorrer dos sé- constituir uma categoria, exigindo for-
culos, em especial desde a modernida- mação especíica, o que só se concreti-
de; e o exame das características, repre- zará mais organizadamente a partir do
sentações e identidades transmitidas século XIX.
ao ofício, considerando seu processo Algumas décadas iriam se pas-
de feminização. Uma terceira proble- sar até que as mulheres não apenas se
mática é de mais recente abordagem: tornassem alunas, mas também profes-
trata-se das especiicidades da presença soras, fenômeno que data aproxima-
masculina na docência, particularmen- damente da segunda metade do século
te considerando o estado feminizado XIX e se consolida nas primeiras déca-
do ofício. das do século XX. Uma das questões
Gênese da docência: Assim, como que podemos nos fazer, e que envol-
pano de fundo é preciso dizer que em ve o tema da representação, é: de que
grande parte da vida da humanidade o forma o trabalho docente se torna um
ensino foi realizado por homens. Reto- “trabalho de mulher?” Abordarei este
mando a síntese de Nóvoa (1991), as tema, de forma mais atenta, dirigindo-
características da escola dita moderna - -me à produção brasileira.
aquela que adquire as feições que reco- Feminização da docência. Foi basi-
nhecemos até hoje -, foram amadureci- camente tendo por origem investiga-
das paulatinamente da Idade Média até ções no campo da história da educação
a Idade Moderna. Podemos dizer até que a análise sobre trabalho docente e
mesmo que o desenvolvimento da ins- gênero principia no Brasil, mais enfati-
tituição escola colabora com a produ- camente no início dos anos 1980. Po-
ção do mundo moderno, abrangendo rém, nem todas essas análises izeram
transformações na ideia de infância; na uso do conceito de gênero nessa fase.
ideia do que seria educação; e na con- Enquadradas, de maneira ampla, no
cepção sobre o local onde a educação tema “mulher e educação”, seu propó-
(agora, das crianças) deveria ocorrer sito era examinar, em todas as partes
(FERREIRA, 2006). do território nacional, o processo de
Mas é somente no inal do sé- inclusão das mulheres, primeiro, nos
culo XVIII, posteriormente às revo- bancos escolares; segundo, nos estra-
luções burguesas, que um processo dos, na condição de docentes. Come-
massivo de escolarização tem início, çou-se, assim, a tentar compreender
porque é aí que o Estado se coloca o com mais clareza as modiicações pas-
dever de ensinar. Quando isso aconte- sadas pela docência, a partir do que i-
ce, os professores (homens), até então cou conhecido como seu processo de

• 182 •
feminização. Usarei o conceito de fe- primeira escola de formação de profes-
minização sistematizado por Yannou- sores no Brasil foi criada em 1835, na
las (2011, p. 273), para quem há dois cidade de Niterói, e contava com um
enfoques que devem ser mais bem dis- diretor/professor homem e com 13
criminados: “uma perspectiva funda- alunos homens. Deste então a paulati-
mentalmente quantitativa, preocupada na, mas contundente, pressão das mu-
em descrever e mensurar o fenômeno lheres para ingresso nessas escolas foi
que denominamos como feminilização, forçando modalidades de ensino em
e uma perspectiva fundamentalmente separado até a década de 1880, quando
qualitativa, que procura compreender foi introduzido o ensino misto (VIL-
e explicar os processos, a qual deno- LELA, 2000). Isso possibilitou que
minei feminização propriamente dita”. mais mulheres pudessem formar-se e
Assim, a feminização da docên- pleitear funções docentes que foram
cia pode ser compreendida como um sendo abertas por todo o país.
processo formado por duas dimen- Outro argumento colocado re-
sões: (1) aumento massivo de pessoas fere-se à saída dos homens do ofício
do sexo feminino no ofício (feminiliza- docente de primeiras letras, em função
ção); (2) identiicação das característi- da ocupação de novos postos de traba-
cas desse ofício como eminentemente lho com maiores rendimentos, quando
femininas (feminização propriamente da expansão do sistema de produção
dita), o que inclui o valor social confe- e com a ampliação da urbanização no
rido ao mesmo. país (HYPOLITO, 1997; LOURO,
Existe uma série de causas atri- 2001). Embora muito frequentemente
buídas à feminização da docência, que citado, esse argumento parece-me ser
se retroalimentam. Argumenta-se a mais afeto às experiências relatadas na
respeito da expansão da escola estatal literatura internacional que serve de
(VIANNA, 2001), graças à Lei Geral marco aos nossos estudos, faltando,
do Ensino (1827), responsável pelas ainda, uma análise histórica mais pre-
chamadas “escolas de primeiras le- cisa no caso do Brasil, que demonstre
tras”, e ao Ato Adicional de 1834, que essa transferência. Um dos problemas
transferiu às províncias a formação de para essa análise é a limitação dos estu-
docentes e a organização de seus sis- dos estatísticos, ou dos censos, no pe-
temas de ensino (primário e secundá- ríodo referido. No entanto, se pensar-
rio). A partir daí, começou a fundação mos que a ocupação da docência pelas
de Escolas Normais para formação de mulheres já alcança 51% em 1907 e
docentes, paulatinamente ocupadas 70% em 1920, em nível nacional (DAL
por mulheres. Para ter-se uma ideia, a ROSSO, 2010) - bem antes que possa-

• 183 •
mos pensar numa ampla procura dos mesma maneira reorganizou-se o sen-
homens por vagas abertas em outros tido da escola: se tornar-se professora
setores, pelo capitalismo em desenvol- foi a oportunidade surgida para o in-
vimento -, uma hipótese a levantar tal- gresso de mulheres na esfera pública,
vez fosse que as mulheres não entram o espaço escolar, especialmente nas
porque os homens saem da docência, séries iniciais, foi ressigniicado como
mas que os homens não se voltam às vagas não tão “público”, mas como uma ex-
novas criadas, que foram ocupadas pelas mu- tensão do trabalho doméstico permiti-
lheres. do para aquelas mulheres consideradas
Em conseqüência, uma tercei- com moral sem mácula.
ra causa citada é a que vê a docência Dessa forma, o trabalho do-
como um dos locais de entrada da cente pode passar a ser entendido,
mulher no mercado de trabalho e em inclusive por quem o executa, como
outros espaços públicos (ALMEIDA, não-trabalho. Quem exerce atividades
no espaço privado não trabalha, “pro-
1998; FERREIRA, 2008; LOURO;
fessa”, “cuida”; faz o que é inerente a
2001). Quem defende essa perspectiva
sua “natureza” ou o que é resultado de
busca demonstrar que o ingresso - gra-
sua “vocação”, não o que foi adquirido
dativo, mas em grande escala - das mu-
por estudo, relexão e treinamento. Por
lheres na função de professoras não foi
conta disso, transladou-se às represen-
algo tranquilo e consensual. Foi preci-
tações a justiicativa de que foi o pro-
so muita discussão, muitas pressões e
cesso de feminização a provocar a des-
uma grande mudança nas represen-
valorização da docência, um dos mitos
tações sobre o sentido da docência e
sobre a atual situação do ofício mais
sobre quem está apto/a a ensinar, para repetidos na literatura e pormenori-
que as mulheres se instalassem na pro- zadamente contestado por Almeida
issão. (1998), Louro (2001), Vicentini (209) e
Nessa acirrada disputa, destaca- Lugli (2009), para quem o trabalho do-
da em várias pesquisas (LOURO, 2001, cente nunca foi bem remunerado nem,
TAMBARA, 2002; UEKANE, 2010), tampouco, reconhecido.
a representação de docência que se
Muitos dos estudos sobre a do-
tornou dominante é a de que poderia
cência, atualmente, têm se dedicado a
ensinar quem não é vista como supor-
averiguar como as identidades docen-
te econômico do núcleo familiar, mas
tes vêm sendo atravessadas por todas
que sabe, mais do que ninguém, como
“cuidar”: a mulher, cuja “natureza” as representações mencionadas: sobre
teria sido dotada dessa habilidade. Da a natureza desse trabalho, sobre ser

• 184 •
mulher professora e, igualmente, sobre sociedade, ora procuram imprimir re-
ser homem professor. lações mais igualitárias em suas vidas e
Homens na docência. As pesquisas negar, ainda que parcialmente, alguns
sobre os homens na docência – calca- valores tradicionais de masculinidade e
das ou não na concepção de masculini- feminilidade”. Por outra parte, Louro
dades (CONNELL, 1995) – são muito (1997) indica que a escola é marcada
mais recentes e em menor número do tanto por características masculinas
que aquelas realizadas sobre a femini- quanto femininas, dado que o cuidado
zação. Em compensação, trazem insi- convive com o desenvolvimento do
ghts muito interessantes ao pleitear que conhecimento, tradicionalmente ligado
identidades femininas e masculinas são ao mundo masculino.
construídas em cenários conjuntos e Ademais dessas autoras, há ou-
que, portanto – repetindo Scott (1995) tras a desenvolver tais ideias, das quais
–, qualquer informação sobre os ho- vou citar Catani; Bueno; Sousa (1998);
mens é informação sobre as mulheres, Demartini e Antunes (1993); Ferreira;
e vice-versa. Klumb (2012); e Paula (2005). Basica-
É nesse sentido que Carvalho mente o que fazem é examinar as dife-
(1998) destaca a importância de re- rentes trajetórias de homens e mulhe-
conhecer os locais de trabalho como res que se tornam docentes, buscando
gendrados, gerando signiicados e averiguar como o gênero se expressa
identidades de gênero e construin- nas mesmas, bem como as representa-
do relações e hierarquias de trabalho. ções de gênero de uns e outras. Air-
Homens e mulheres, então, trazem mam que homens e mulheres chegam
à escola suas representações sobre o à docência por caminhos diferentes,
que lhes compete proissionalmente, as mulheres precocemente - pois a
reproduzindo e/ou reinterpretando docência é, para elas, destino social -,
essas supostas funções, às vezes alte- enquanto os homens ingressam nela
rando as concepções predominantes. tardiamente, por falta de melhor alter-
Para Vianna (2001, p. 102-103): “pro- nativa ou porque, para eles, isso impli-
fessores e professoras mostram as ten- cou em real melhoria social. Por esse
sões e contradições que permeiam suas motivo, as pressões que esses recebem
por ascender na carreira são maiores,
vidas pessoais e proissionais sob a
deixando o trabalho em sala de aula e
ótica das relações de gênero. Ora refe-
dedicando-se a cargos de direção no
rendam papéis tradicionais reservados
sistema educacional como um todo.
aos homens e às mulheres em nossa

• 185 •
Gênero e docência. Em síntese, CATANI, Denice, BUENO, Belmira; SOUSA, Cynthia.
Os homens e o magistério; as vozes masculinas nas narra-
considerar o trabalho docente uma ne- tivas de formação. In: BUENO, B., CATANI, D.; SOU-
SA, C. (org.). A vida e o ofício dos professores; formação
cessidade social objetiva colabora para contínua, autobiograia e pesquisa em colaboração. São
questionar uma identidade calcada no Paulo:Escrituras, 1998. p.45-64.

caráter vocacional das mulheres à do- CONNELL, Robert W. Políticas da masculinidade. Edu-
cação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 185-206,
cência. Mas, para isso, um uso mais jul./dez. 1995.
preciso do conceito de gênero se faz
DAL ROSSO, Sadi. Condições estruturais de emergência
necessário. Sobre isso Vianna (2001, do associativismo e sindicalismo do setor de educação.
p. 88) pretende ver mais do que sim- Leitura a partir de dados censitários brasileiros. In: SE-
MINÁRIO DA REDE DE PESQUISADORES SO-
plesmente a “mera presença do sexo BRE ASSOCIATIVISMO E SINDICALISMO DOS
TRABALHADORES EM EDUCAÇÃO, 2., 2010, Rio
feminino” na docência e indica vários de Janeiro. Anais. Rio de Janeiro: IUPERJ/UFRJ/UnB,
aspectos a serem investigados, como a 2010. p. 1-19. Disponível em http://nupet.iesp.uerj.br/
rede/seminario2010.htm.
formação, o currículo e a organização
docente. DEMARTINI, Zeila de B. F.; ANTUNES, Fátima F.
Magistério primário: proissão feminina, carreira mascu-
De fato, uma parcela dos estu- lina. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 86, p. 5-14,
dos sobre o trabalho docente consi- ago. 1993.

dera que uma análise que faz uso do FERREIRA, Márcia Ondina V. Desconforto e invisibili-
dade: representações sobre relações de gênero entre sindi-
gênero poderia revelar os sentidos das calistas docentes. Educação em Revista, Belo Horizonte,
modiicações que o ofício vem sofren- n. 47, p. 15-40, jun./2008. Disponível em: http://www.
scielo.br/pdf/edur/n47/02.pdf
do, inluenciando a questão salarial, as
justiicativas para a diminuição da au- ______. Somos todos trabalhadores em Educação? Re-
lexões sobre identidades docentes desde a perspectiva de
tonomia no trabalho, a perda de reco- sindicalistas. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 32, n.
nhecimento da importância social da 2, p. 225-240, maio/ago. 2006. Disponível em: http://
www.scielo.br/pdf/ep/v32n2/a02v32n2.pdf
atividade, e uma possível introjeção,
______; KLUMB, Márcia C. V. Vozes morais e represen-
por parte das mulheres e dos homens tações de gênero entre sindicalistas docentes. In: SILVA,
professores, do papel secundário de Márcia A.; MEIRA, Mirela R. (orgs.). Mulheres trabalha-
doras; olhares sobre fazeres femininos. Pelotas: Editora da
seu trabalho. UFPel, 2012. p. 37-65.

HYPOLITO, Álvaro. Trabalho docente, classe social e


Márcia Ondina Vieira Ferreira relações de gênero. Campinas: Papirus, 1997.

Referências LOURO, Guacira. Mulheres na sala de aula. In: DEL


PRIORE, Mary (org.). História das mulheres no Brasil.
5. ed. São Paulo: UNESP/Contexto, 2001. p. 443-481.
ALMEIDA, Jane. Mulher e educação: a paixão pelo pos-
sível. São Paulo: UNESP, 1998. ______. O gênero da docência. In: ______. Gênero, se-
xualidade e educação. Petrópolis, Vozes/CNTE, 1997. p.
CARVALHO, Marília. Vozes masculinas numa proissão 88-109.
feminina: o que têm a dizer os professores. Estudos Femi-
nistas, Florianópolis, v. 6, n. 2, p. 406-422, 1998. NÓVOA, António. Para o estudo sócio-histórico da gê-
nese e desenvolvimento da proissão docente. Teoria &
Educação, Porto Alegre, n. 4, p. 109-139, 1991.

• 186 •
PAULA, Cláudia R. Trajetórias e narrativas de homens
negros no magistério. In: OLIVEIRA, Iolanda de; SILVA,
Petronilha; PINTO, Regina (orgs.). Negro e educação;
escola, identidades, cultura e políticas públicas. São Pau-
lo: Ação Educativa/ANPEd, 2005. p. 118-132.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise his-


tórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2,
p. 71-99, jul./dez. 1995.

TAMBARA, Elomar. Proissionalização, escola normal,


feminização e feminilização: magistério sul-rio-grandense
de instrução pública – 1880/1935. In: HYPOLITO, Ál-
varo; VIEIRA, Jarbas; GARCIA, Maria Manuela (orgs.).
Trabalho docente: formação e dentidades. Pelotas: Seiva,
2002. p. 67-97.

UEKANE, Marina Natsume. “Mulheres na sala de aula”:


um estudo acerca do processo de feminização do magis-
tério primário na Corte Imperial (1854-1888). Gênero,
Niterói, v. 11, n. 1, p. 35-64, 2. sem. 2010. Disponível
em: http://www.revistagenero.uf.br/index.php/revista-
genero/article/view/59/37

VIANNA, Claudia. O sexo e o gênero da docência. Ca-


dernos Pagu, n. 17/18, p. 81-103, 2001/02.

VICENTINI, Paula; LUGLI, Rosário. História da pro-


issão docente no Brasil: representações em disputa. São
Paulo: Cortez, 2009.

VILLELA, Heloísa. O mestre-escola e a professora. In:


LOPES, Y.; FARIA FILHO, L. e VEIGA, C. (orgs.). 500
anos de educação no Brasil. 2. ed. Belo Horizonte: Autên-
tica, 2000. p. 95-134.

YANNOULAS, Silvia. Feminização ou feminilização?


Apontamentos em torno de uma categoria. Temporalis,
Brasília, ano 11, n. 22, p. 271-292, jul./dez. 2011.

• 187 •
Economia solidária

A Economia Solidária apre-


senta uma memória sócio-histórica
e econômica pautada na experiência
coletiva com o objetivo de superação
de desigualdades e conquista de uma
vida digna e autônoma. Para pensá-la
na perspectiva de gênero, pode-se dizer
que ela é estruturada por princípios de
organização que remontam ao século
XVIII, quando grupos de mulheres
questionavam a alta de valores de pro-
dutos, especialmente, da farinha que se
constituía na principal matéria prima
para o feitio de pão.
Esse contexto histórico foi re-
gistrado por Thompson ao apresentar
(mesmo de modo pouco analítico e
sem expor a participação das mulheres
na constituição das classes trabalhado-
ras) as resistências de mulheres, que
além de realizarem motins nas portas
de padarias e baterem panelas, elas
trancavam os estábulos e impediam os
homens de venderem a farinha, por-
tanto, questionavam a carestia do pão,
principal produto alimentício da época.
Formas de resistência seme-
lhantes são registradas na obra de Mi-
chelle Perrot, já com uma perspectiva
feminista da “mulher popular rebelde”
(inal do século XVIII e século XIX).
A autora substitui a “[...] representação
dominante de uma dona-de-casa insig-
niicante, negligenciada e negligenciá-
vel, oprimida e humilhada, pela de uma

• 188 •
“mulher popular rebelde”, ativa, resis- atualmente estrutura princípios de or-
tente, guardiã das subsistências, admi- ganização coletiva e solidária.
nistradora do orçamento familiar, no A economia solidária faz parte
cento do espaço urbano.” (PERROT, desse imaginário social e, na contem-
2006, p. 172). poraneidade, diante da intensiicação
As mulheres segundo a autora: do modo capitalista de produção e, ao
“[...] desdobram uma extrema enge- mesmo tempo, com a ampliação da de-
nhosidade para encontrar nos múl- mocracia participativa, grupos em con-
tiplos comércios das cidades, onde dições econômica e social vulneráveis
conhecem todos os cantos, recursos podem se organizar para alcançar con-
complementares que empregam para dições dignas para viverem, em cam-
completar o orçamento da família ou pos econômico, social e cultural.
lhe proporcionar alguns pequenos pra- Por conseguinte, a economia so-
zeres, ou que economizam para os dias lidária apresenta outra lógica e outros
difíceis que vêm periodicamente com princípios, que vão além da simples
os meses parados. Em tempos de crise capacidade de produção e comerciali-
ou de guerra, essa contribuição mar- zação de bens e produtos. A produção
ginal se torna essencial. As mulheres e o consumo voltam-se para a elevação
então se ativam em todos os sentidos” da qualidade de vida estendida ampla-
(PERROT, 2006, p. 190). mente na sociedade, alcançando gru-
Essa memória histórica alimen- pos diversos.
ta uma compreensão da economia so- A produção deve ser acessível a
lidária com viés feminista e de gênero quem produz e a todas as pessoas que
que rompe com a lógica capitalista direta ou indiretamente participam do
masculina de organização social ao va- processo, por exemplo, a comunidade
lorizar as práticas em prol de qualida- onde se efetiva o processo produtivo
de de vida e incentivar a organização deve ter capacidade econômica para a
coletiva, a solidariedade, a ousadia, o aquisição de produtos resultantes do
questionamento da ordem estabeleci- trabalho do grupo, ou seja, os efeitos
da, dentre outros. retornam às pessoas, empoderando-as
A presença dessas mulheres por perceberem sua força produtiva,
nesses tipos de movimentos foi emble- organizativa e criativa. Isso revela que
mática no Brasil em décadas recentes, a economia solidária está intimamente
tanto no campo quanto nas cidades. relacionada à luta pela autodetermi-
Vivências primordiais para a consti- nação dos povos, ao reconhecimento
tuição de uma experiência rebelde que do bem viver e se expressa cotidiana-
se estendeu nos anos subsequentes e, mente nas “lutas” das comunidades

• 189 •
tradicionais contra a mercantilização dos de viver e se apresentam “abertas”
da vida, em favor dos bens comuns, da aos riscos e às ousadias para a ruptura
gestão comunitária e da reciprocidade. dessa lógica.
No Brasil, o surgimento da Além desses fatores, as desigual-
economia solidária pode ser indicado dades de gênero no mundo do traba-
a partir dos anos de 1980, de modo lho persistem, assim como a divisão
pouco organizado, com impulso signi- sexual do trabalho (trabalho remunera-
icativo nos anos de 1990, originária de do e trabalho doméstico não remune-
ampliação de crises econômicas deste rado). Há ampliação da participação de
período e de organização sindicais em mulheres no mercado de trabalho, en-
prol da retomada de empresas em cri- tretanto, os salários ainda são inferio-
ses, objetivando recuperar postos de res aos dos homens, as atividades são
trabalho. (SINGER, 2000). A partir de vulneráveis e precárias, estão em maior
então, o movimento pelo fortalecimen- número nas atividades informais e as
to da Economia Solidária se amplia e taxas de desemprego são maiores entre
inclusive, conquista outros setores so- elas. Essa realidade se mantém porque
ciais, como as universidades, lideranças as relações sociais de gênero continu-
no processo de incubação de empreen- am orientadas por poderes masculinos
dimentos econômicos solidários. que perpassam instituições e legisla-
As mulheres são protagonistas ções, há o predomínio de assimetrias
da Economia Solidária por vários mo- e hierarquias de gênero, fortalecedoras
tivos, dentre eles, por estarem direta- de divisões sexuais do trabalho, do sa-
mente ligadas às condições de escassez, ber e do poder.
à falta de alimentos e de roupas, o não A Economia Solidária com in-
acesso à moradia, à educação, à saúde. terface aos estudos de gênero propõe
Elas são abonadoras diretas em gerir a superação dessas desigualdades e traz
a vida da família e cuidar das crianças, como princípio fundante, a autonomia
além da feitura de alimentos. Não está- e emancipação de mulheres. É, por-
-se concordando com esta condição/ tanto, uma inspiração teórica e meto-
responsabilização feminina por tais dológica para a constituição de outros
tarefas, entretanto, historicamente as modelos de produção e de renda com
mulheres são as principais responsá- vistas à qualidade de vida. Está conso-
veis pela reprodução ampliada da vida. lidada em perspectivas criativas de tra-
A escassez e a perspectiva de balho nas dimensões do próprio corpo,
transformação são dimensões do coti- da subjetividade, da emoção e do em-
diano feminino, por isso, as mulheres poderamento. Desta sorte, questiona
buscam constantemente melhores mo- os modelos gestionários capitalistas/

• 190 •
masculinos dominantes, que enfraque- do/a ser humano/a, valorização da
cem e, em alguns casos, impossibilitam diversidade, emancipação, valorização
as potencialidades de emancipação e do saber local, valorização da apren-
de autogestão de mulheres, que espe- dizagem, justiça social na produção e
ram instituir suas práticas sociais e al- cuidado com o meio ambiente. (SE-
cançar uma vida mais digna. NAES, 2007, p. 32-33).
Neste sentido, a experiência da Em todo o Brasil, de norte a sul,
economia solidária abre um leque de grupos de mulheres participam de re-
probabilidades, e de possíveis histó- des solidárias, demonstram que diante
ricos, valoriza as histórias de vida, os desta experiência, pode ocorrer inclu-
conhecimentos e as práticas emanci- são social e seu empoderamento, na
padoras e solidárias das mulheres, des- medida em que se inserem no mercado
qualiicados historicamente. Os princí- de outro modo, de uma forma quali-
pios da economia solidária permitem, tativa, Pautam-se no trabalho coletivo,
portanto, a constituição de diálogo nas discussões, no processo de forma-
educativo construído a partir do ponto ção para o trabalho e, questionam a
de vista da cultura das mulheres en- hegemonia capitalista e as hierarquias
volvidas, que lideram neste diálogo, a de gênero.
busca por unidade produtiva e criativa, Essas redes permitem que as
além de emancipação social, política e mulheres produzam, conversem, so-
econômica e, prioritariamente, a equi- cializem experiência, apresentem-se
dade de gênero no campo do trabalho. como lideranças e exercitem a capa-
As mulheres formam grupos cidade de questionamentos que ex-
potenciais para o desenvolvimento da trapola a condição econômica. Elas
economia solidária porque, diante das voltam-se para sua subjetividade que
necessidades radicais de sobrevivência, se fortalece por meio da autonomia
elas criam saberes e fazeres, com a pro- inanceira, do acesso a conhecimentos
dução e comercialização informais de e técnicas produtivas, enim, pensam
diversos produtos para o aumento da sua condição no mundo e as formas de
renda familiar. Tais saberes e fazeres transformar tal condição.
são incorporados e recriados pela eco-
nomia solidária, ao tornarem-se produ- Marisa de Fátima Lomba de Farias
ção e comercialização, atividades ains
de empreendimentos econômicos so- Referências
lidários pautados nos seus princípios ECONOMIA SOLIDÁRIA, outra economia acontece.
essenciais, quais sejam: autogestão, Cartilha da Campanha Nacional de Mobilização Social.
Brasília: MTE, SENAES, FBES, 2007.
democracia, cooperação, centralidade

• 191 •
PERROT, Michelle. Os Excluídos da História: operários, e criação de criança, e um sentido abs-
mulheres e prisioneiros. 6 ed. Tradução de Denise Bott-
mann. Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra, 2006. trato, relacionado ao ato de formar ou
instruir. O termo educar é incorpora-
SINGER, P. Economia solidária: um modo de produção e
distribuição. In: SINGER, Paul; SOUZA, André. (Orgs.) do tardiamente à língua portuguesa, a
A Economia solidária no Brasil. A autogestão como res- partir do século XVII, pois até então o
posta ao desemprego. São Paulo: Contexto, 2000.
vocábulo criar traduzia as atividades de
THOMPSON, Edward P. Costumes em comum: estu- ensino: ensinar a criança a comer, en-
dos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Com-
panhia das Letras, 1998. sinar a criança a beber. Atualmente, o
termo não se refere somente à criação
Sugestões de leitura de crianças, pois seu campo semântico
abrange os âmbitos físico e intelectual.
BRASIL. Atlas da Economia Solidária no Brasil. Brasília:
SENAES/MTE, 2004.
Em sua obra Sobre a Pedago-
gia, que reúne um conjunto de aulas
CULTI, Maria Nelzida. Mulheres na economia solidária.
São Paulo: UNITRABALHO, 2004.
ministradas em 1776/77, 1783/84 e
1786/87, Immanuel Kant explica que
GAIGER, Luiz Inácio G. (org.). Sentidos e Experiências
da Economia Solidária no Brasil. Porto Alegre: Editora a educação compreende o cuidado, a
da UFRGS, 2004. disciplina e a instrução e é pela ação
SANTOS, BOAVENTURA DE SOUSA. Conhecimen- dessas duas últimas que se dá a forma-
to Prudente para uma Vida Decente. São Paulo: Cortez, ção (Bildung). “O homem não pode se
2003. 821p.
tornar um verdadeiro homem senão
SINGER, Paul. Introdução à economia solidária. São pela educação. Ele é aquilo que a edu-
Paulo, SP: Fundação Perseu Abramo, 2010.
cação faz dele” (KANT, 2002, p.15).
• Dessa forma, a educação pode contri-
buir para conduzir o ser humano a um
Educação estado melhor, provocando um deslo-
camento entre o que o ser humano é
A palavra educação provém do para o que ele pode ser.
latim educatio, que tem o sentido de criar Dois séculos mais tarde, Han-
ou de nutrir, cultura, cultivo. Designa nah Arendt, em sua obra Entre o Passa-
um ato, um processo ou um efeito. O do e o Futuro, abordará o tema da edu-
termo educar também possui origem cação. Para a autora, educar signiica
latina e seu signiicado está igualmen- colocar em relação, pois o ser humano
te circunscrito ao sentido de criar ou deve estabelecer relações com outros
alimentar. Segundo Luis Castello e seres humanos para assumir a respon-
Claudia Mársico (2007), podemos di- sabilidade coletiva pelo mundo. “Face
zer que o termo possui um sentido bá- à criança é como se ele [o professor]
sico, ligado ao âmbito da alimentação fosse um representante de todos os

• 192 •
habitantes adultos, apontando os de- dade criou e organizou para si, como
talhes e dizendo à criança: - “Isso é o sentido” (VALLE, 2009, p. 143). Para
nosso mundo” (ARENDT, 2011, p. a autora, entretanto, tal acepção, seria
239). Nessa perspectiva, a educação é muito genérica e careceria de especii-
uma porta de entrada para o mundo, cidade, por isso ela argumenta que no
pois tem a tarefa de acolher os recém- sentido que a “aspiração democráti-
-chegados ao mundo que os antecede e ca lhe concede, a ‘educação’ é prática
introduzi-los nesse mundo, o qual tem ‘deliberada’, submetida a permanente
uma história, uma cultura, modos de questionamento, e conduzida em rela-
pensamento e modos de vida comuns. ção a inalidades coletivamente institu-
Educação signiica, pois, o ato ídas [e se] faz acompanhar por uma in-
ou processo de educar ou educar-se tensa atividade investigativa, de exame
no mundo e inclui o conhecimento e e de relexão” denominada de teoria
desenvolvimento resultantes desse ato educacional (VALLE, 2009, p. 144).
ou processo. Nesse sentido, o termo Concordando com esse argu-
educar reúne dois grupos de signiica- mento, mas sem abrir mão da amplitu-
dos, associados aos termos educare – de de e da sutileza delineadas na primeira
fora para dentro do indivíduo, com o parte do conceito enunciado por Valle
sentido de orientar, levá-lo do ponto (2009), aproximamo-nos de autores e
em que se encontra para outro que se autoras do campo dos estudos cultu-
deseja alcançar – e educere – de dentro rais, como Stuart Hall (1997), do cam-
para fora, no sentido de promover as po dos estudos de gênero, como Gua-
potencialidades que o indivíduo pos- cira Lopes Louro (2010) e do campo
sui. dos estudos de currículo, como Tomaz
Lilian Valle (2009) explica que, Tadeu da Silva (2012), para assumir
em sua acepção mais genérica, o ato a noção de que educação envolve o
ou processo de educar remete a uma conjunto de processos pelos quais in-
atividade tão antiga quanto a própria divíduos são transformados e/ou se
instituição de uma sociedade organi- transformam em sujeitos de uma cul-
zada, pois corresponderia a uma prá- tura. Nessa perspectiva, a educação se
tica que responde pelas necessidades dá em diferentes espaços do mundo
mais elementares de conservação e de contemporâneo, sendo a escola ape-
reprodução do modo de ser de cada nas um deles. Tornar-se sujeito de uma
sociedade e implica “processos alta- cultura, por meio da educação, envolve
mente complexos de preservação [e complexos processos de ensino e de
transformação] da cultura, dos hábitos, aprendizagem que, contemporanea-
valores, comportamentos que a socie- mente, derivam de uma ininidade de

• 193 •
instituições “pedagógicas” (onde estão ações como transmitir, informar, ofer-
incluídos/as, por exemplo, a literatu- tar, apresentar, expor, explicar. Trata-
ra, o cinema, a música, a televisão e -se, em certa medida, de um processo
as propagandas). Tais processos po- que busca conduzir condutas, produzir
dem, grosso modo, ser divididos em determinadas práticas, incluir e excluir,
intencionais e não intencionais, sendo hierarquizar e normalizar os sujeitos:
que quase tudo que deinimos como quem sabe e quem não sabe, quem se-
educação enquanto prática especíica gue e quem não segue as regras, quem
e deliberada e, também, o que se pri- está dentro e quem está fora de deter-
vilegia discutir como objeto próprio minados padrões de normalidade. O
desse campo de conhecimento pode aprender, por sua vez, seria derivado de
ser incluído nessa categoria de proces- muitos processos que implicam abrir-
sos educativos intencionais. Os pro- -se à experiência ou a uma coisa qual-
cessos educativos não intencionais têm quer que desperte o desejo. Félix Guat-
sido muito pouco reconhecidos, visi- tari e Suely Rolnik (2000) explicam que
bilizados e problematizados, mas sua aprender supõe criar possibilidades de
importância tem sido ressaltada por singularização entendida como a dife-
estudos e pesquisas que se ocupam, rença, que resulta em nós e que desfaz
por exemplo, dos temas de gênero e o nós, abrindo-nos para outros modos
de sexualidade. Tem-se destacado que de ser e de estar no mundo, bifurcando
a produção das diferenças de gênero essa busca pelo homogêneo que pauta
resultam, na maioria das vezes, de pe- o ensinar.
dagogias culturais que envolvem estra- Ambos os processos – ensinar
tégias sutis, reinadas e naturalizadas, e aprender – compõem nossa educa-
exaustivamente repetidas e atualizadas, ção como sujeitos de determinadas
que quase não percebemos como tais culturas, nossa apreensão e nosso
(MEYER, 2012). manejo das linguagens e dos códigos
Nessa direção, educar supõe, constitutivos delas. E tanto o ensinar e
então, processos de ensino e processos quanto o aprender estão estreitamente
de aprendizagem e envolve: o que, com imbricados com o – e no – processo
quem e como nos ensinam e o que, de construção, manutenção e transfor-
com quem e como se aprende. Marlu- mação dos gêneros no contexto das
cy Paraíso (2011) faz uma interessante culturas em que nos (des)constituimos
distinção entre ensinar e aprender em como mulheres e homens de determi-
seus estudos. De certo modo, o que ela nados tipos. Trata-se de processos que
sinaliza é que o ensinar está focado em não são lineares, progressivos ou har-

• 194 •
mônicos e que também nunca estão Sugestões de leitura
inalizados ou completos. ALVARENGA, Luiz Fernando C.; DAL’IGNA, Maria
Cláudia. Corpo e sexualidade na escola: as possibilidades
Dagmar Estermann Meyer estão esgotadas? In: MEYER, Dagmar E. E.; SOARES,
Rosângela F. R.; DALLA ZEN, Maria Isabel H.; XA-
Maria Cláudia Dal’Igna VIER, Maria Luisa M. de F. (orgs.). Saúde, sexualidade
Maria Simone Schwengber e gênero na educação de jovens. 1.ed. Porto Alegre/RS:
Mediação, 2012, v.1, p. 49-58.

Referências e sugestões de leitura COSTA, Marisa Vorraber; SILVEIRA, Rosa Hessel;


SOMMER, Luis Henrique. Estudos Culturais, Educação
e Pedagogia. Revista Brasileira de Educação, n.23, p.36-
ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. 7.ed. 61, maio/jun./jul./ago. 2003.
São Paulo: Perspectiva, 2011.
DAL’IGNA, Maria Cláudia. Gênero, sexualidade e
CASTELLO, Luis A.; MÁRSICO, Claudia T. Oculto nas desempenho escolar: modos de signiicar os comporta-
palavras: dicionário etimológico para ensinar e aprender. mentos de meninos e meninas. In: 30ª Reunião Anual
Belo Horizonte: Autêntica, 2007. da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em
Educação. Caxambu/MG, 2007. Disponível em: http://
GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Micropolítica: car- www.anped.org.br/reunioes/30ra/index.htm
tograias do desejo. Petrópolis: Vozes, 2000.
KLEIN, Carin; DAL’IGNA, Maria Cláudia. Mulher-
-mãe responsável: competências necessárias para educar
HALL, Stuart (org.). Representation: cultural represen-
ilhos(as) saudáveis. In: Labrys. Estudos Feministas. (Edi-
tatios and signifying practices. London: Sage; Open Uni- ção em Português, Online), Florianópolis: UFSC, v.22,
versity, 1997. p.1-21, 2012.

KANT, Immanuel. Sobre a Pedagogia. 3.ed. Piracicaba: LOURO, Guacira Lopes. Pedagogias da sexualidade.
UNIMEP, 2002. 3.ed. In: ______ (org.) O corpo educado. Belo Horizon-
te: Autêntica, 2010. p.9-33.
LOURO, Guacira Lopes. Pedagogias da sexualidade.
3.ed. In: ______ (org.) O corpo educado. Belo Horizon- MEYER, Dagmar Estermann. Gênero e educação: teo-
te: Autêntica, 2010. p.9-33. ria e política. In: LOURO, Guacira; NECKEL, Jane F.;
GOELLNER, Silvana (orgs.). Corpo, gênero e sexualida-
de: um debate contemporâneo. 8.ed. Petrópolis: Vozes,
MEYER, Dagmar Estermann. Gênero e educação: teo-
2012. p.09-27.
ria e política. In: LOURO, Guacira; NECKEL, Jane F.;
GOELLNER, Silvana (orgs.). Corpo, gênero e sexualida- PARAÍSO, Marlucy Alves. Raciocínios generiicados no
de: um debate contemporâneo. 8.ed. Petrópolis: Vozes, currículo escolar e possibilidades de aprender. In: LEITE,
2012. p.09-27. Carlinda et al. (orgs.). Políticas, fundamentos e práticas
do currículo. Porto: Porto Editora, 2011. p.147-160.
PARAÍSO, Marlucy Alves. Raciocínios generiicados no
currículo escolar e possibilidades de aprender. In: LEITE, SCHWENGBER, Maria Simone V.; MEYER, Dagmar
Carlinda et al. (orgs.). Políticas, fundamentos e práticas E.. Filho/a perfeito/a (...) é resultado de muito trabalho
do currículo. Porto: Porto Editora, 2011. p.147-160. corporal da mãe. In: Instrumento, Juiz de Fora: UFJF,
v.12, n.2, p.21-31, jul./dez. 2010.
SILVA, Tomaz T. A produção social da identidade e da
diferença. In: ______ (org.). Identidade e diferença. A •
perspectiva dos Estudos Culturais. 12.ed. Petrópolis: Vo-
zes, 2012. p.73-102.
Educação Popular
VALLE, Lilian de A. Bastos do. Educação. In: PEREIRA,
Isabel; LIMA, Júlio César (orgs). Dicionário da Educa-
ção Proissional em Saúde. 2.ed. Rio de Janeiro: EPSJV, A EP constituiu-se e se desen-
2009.p. 143-150. volveu em oposição aos luxos das re-

• 195 •
lações sociais opressoras, excludentes Estas características dotam a
e autoritárias, em âmbitos como os EP de grande sensibilidade e mobili-
dos estados, instituições, movimentos dade para “adequar-se” aos tempos e
sociais e espaços comunitários. São di- espaços onde se desenvolve, pois lhe
versos os esforços para deini-la e mui- exigem situar-se na teia da história; re-
tas as conigurações conceituais que querem a problematização e compre-
perpassam os debates sobre temas e ensão das ocorrências e movimentos
questões que integram este campo teó- em curso nos contextos político-cultu-
rico-prático que vem se irmando, his- rais onde suas práticas se desenrolam
toricamente. Decorre desses esforços para que os desenhos dessas sejam co-
a presente síntese: a Educação Popular erentes com o que negam e com o que
concebida como prática social e cul- propõem e/ou airmam.
tural, que implica em ensino e apren- As formas regionais de desen-
dizagem, favorecidos por relações volvimento do capitalismo mundial
dialógicas (entre sujeitos, saberes, pers- tornam-se, para a EP, objeto privile-
pectivas teóricas, metodologias, fun- giado de estudo, dado a necessidade de
damentos ilosóicos) e que se move compreensão e crítica do “lugar” sobre
mediante a intencionalidade política de o qual sua práxis se exerce e das rela-
contribuir para a construção de uma ções de poder que enfrenta no trabalho
ordem social (nos mais diversos espa- com o conhecimento: ensinar, pesqui-
ços sobre os quais incide) que não seja sar, aprender, formar. São deslocamen-
marcada pela exploração, opressão e tos histórico-conjunturais que dão sin-
submissão. Propõe-se, como assevera gularidade às suas práticas, à medida
Torres (2008, p. 20), ao desenvolvi- que propiciam e, ao mesmo tempo,
mento de ações educativas e culturais requerem abertura a procedimentos
que se dirijam “a ampliar as formas de inusitados, dado a diversidade de sujei-
compreender e atuar dos setores po- tos, saberes e conteúdos que reúnem.
pulares”; à “geração e apropriação de Isto não subtrai a necessidade de com-
saberes condizentes com a construção preender o desenvolvimento histórico-
de sujeitos populares e de um projeto -estrutural deste modo de produção, já
político libertador”; à incidência sobre que as ações estratégicas (impugnação)
as subjetividades, desbordando a “ou- exigidas dos sujeitos sociais para tece-
tras dimensões da vida social como rem sua emancipação não podem per-
a economia e as relações de poder”. der de vista a lógica opressora das rela-
Consiste em um fazer teórico-prático ções de poder que o caracterizam. Não
com características impugnativas e, ao restringe, como atestam Mejia e Awad
mesmo tempo, propositivas. (2003, p. 28), a possibilidade de inte-

• 196 •
gração dos sujeitos dos processos edu- movimentos de identiicação e sentido
cativos a um universal “reconstruído de pertencimento.
desde as diferenças e especiicidades O signiicado de popular na EP
culturais” (proposição/airmação.). latino-americana é fortemente marca-
Assim, a forma de manterem-se do por relações sociais objetivas, mas
atentas às díades conjuntural/estrutu- também por correntes de pensamento
ral, local/global e ao emaranhado de que orientam seu fazer educativo e in-
relações que historicamente estas en- vestigativo. Mejia e Awad (2003, p. 28),
gendram proporciona à EP elementos consideram o popular como os am-
para subsidiar suas lutas no plano eco- plos setores da população que assim
nômico-político, no plano das iden- se constituem pela não participação
tidades de gênero, étnico-raciais, de social, exclusão e subordinação, “tan-
to nos processos particulares da vida
geração e dos direitos e necessidades
social como nos mais globais da uni-
especiais. Além disso, também propor-
versalidade e modernidade”. Estes são
ciona condições para a compreensão
processos que se instalam nos âmbitos
da diversidade e especiicidade de for-
da reprodução da vida e da produção;
mas e dispositivos de sujeição e subal-
atribuem à EP sensibilidade histórica
ternização dos sujeitos sociais que lhes
para problematizar relações como a de
são contemporâneos. Na América Lati-
gênero, além das relações de classe.
na, a EP foi um dos primeiros campos As formas de ver e viver o
teórico-práticos a assumir a discussão educativo e o popular condicionam a
de gênero, em suas instâncias de pro- pedagogia da EP que, gradativamen-
dução e certiicação do conhecimento. te, compreende que sua identidade se
ONG, como o CEAAL, mantém em constrói na integração entre elementos
sua plataforma de ação, desde a sua quase sempre dispersos em práticas
constituição, em 1982, a discussão da educativas: conteúdos, metodologias,
equidade de gênero. objetivos, intencionalidades, sentidos
O educativo na EP é conside- e âmbitos das práticas. Perpassa esta
rado o conjunto de iniciativas inten- pedagogia uma ética que considera
cionadas de ensino, aprendizagem e central a participação de educandos e
formação. Atua sobre saberes e conhe- educadores nas deinições e efetivação
cimentos e seus conteúdos e procedi- dos processos educativos.
mentos estão associados às culturas e São diversos os estudiosos que
vivências dos sujeitos que privilegia em tratam da história da EP na América
suas práticas: o popular. Mediante re- Latina. Mejia (1989) e Torres (2008)
lações dialógicas, alimenta nos sujeitos airmam que a EP desponta no con-

• 197 •
tinente como retomada dos ideais de mudanças nessas condições e orienta-
universalidade, gratuidade e obrigato- ções, principalmente para aquelas que
riedade da educação, nascidos com a envolvessem os setores da população
Revolução Francesa, ao inal do século mais vulneráveis à exploração. Os
XVIII. Evocam os nomes de Simon processos educativos que excediam às
Rodrigues, Domingo Faustino Sar- elites só conquistavam prioridade se o
miento e Jose Martí como reproduto- peril dos seus destinatários maculasse
res e reconstrutores de tais ideais. a imagem ou freasse os processos de
Referindo-se especiicamente modernização necessários à viabiliza-
ao Brasil e recorrendo a produções ção de tais economias e, por sua vez,
de Ghiraldelli, Paludo (2001, p. 82- reproduzissem a lógica prevalecente.
85) ressalta o papel dos socialistas, No período, o continente havia
anarquistas e comunistas, no início do se tornado palco de grande movimen-
século XX, na geração de iniciativas tação social conduzida por orientações
educativas para as classes subalternas, político-ideológicas diversas e o gran-
iniciativas de educação escolar e não de acontecimento que foi a Revolução
escolar; processos mais formais ou Cubana, em 1959, passou a incentivar
menos formais, parte deles conluindo lutas populares por mudanças nas rela-
para a luta pela escola pública no país. ções de poder.
A conjuntura do século XX in- Na segunda metade do século,
citou iniciativas, nas diversas esferas o quadro de agitação e transformação
das sociedades latino-americanas, de que tomou conta da Europa e os mo-
crítica, recusa e rebelião do “povo” em vimentos que mobilizaram países afri-
virtude das contradições geradas pelas canos e asiáticos chegam às Américas
opções econômicas e políticas das suas de forma peculiar, associados à referi-
elites dirigentes, compelindo campos, da experiência cubana, ao governo da
como o da EP, a sua interpretação. Unidade Popular no Chile, à Revolu-
Na primeira metade do século, ção Sandinista na Nicarágua e outras
em contexto de “guerra fria”, países iniciativas “menores”. Estruturam-se
latino-americanos aliados ao capita- ditaduras militares, mas acontecimen-
lismo norte-americano, estruturam tos como os citados apontam para a
economias periféricas dependentes e mobilidade das relações de poder.
sociedades orientadas por projetos de O contexto histórico-social
um nacional-desenvolvimentismo atra- favorece o surgimento de um novo
vessado por traços populistas. Pouco “contexto teórico” (Jara, 2006, p. 9),
espaço se abria para ações dirigidas a decorrência e provocação à criação e

• 198 •
ao confronto de abordagens, estraté- brasileiro: a montagem do Programa
gias pedagógicas e procedimentos in- Nacional de Alfabetização, pelo Minis-
vestigativos, na EP. As ações de gru- tério da Educação e Cultura.” (2001, p.
pos, movimentos sociais, organizações 52)
não-governamentais (ONGs), sindica- A EP latino-americana nutriu-
tos, igrejas e setores dos estados nacio- -se, especialmente, das produções te-
nais começam a necessitar de relexão órico-metodológicas e ilosóicas da
e a provocá-la. Tais constatações dão Filosoia e Teologia da Libertação, da
margem a Calado (1998, p. 131) assi- Teoria da Dependência, Pesquisa Par-
nalar que “dessa época resultam as ela- ticipante e Pedagogia Crítico-Liberta-
borações mais vigorosas e mais fecun- dora.
das da Educação Popular, a começar Depois de passar por iniciativas
pelas formulações freireanas, que se de reconceitualização nos anos 1990,
vão acompanhando de várias outras”. adentra o século XXI atenta às iniciati-
vas político-culturais que movimentam
E a Brandão detalhar, com a proprie-
países do continente em direção à de-
dade da vivência, as ramiicações que
mocratização e deine temas prioritá-
o trabalho de educação popular, no
rios para a sua produção e debate: po-
Brasil, assumiu naquele momento: “A
líticas públicas, poder local, economia
década de 1960, que nos envolveu a
solidária, meio ambiente, segurança
todos com a educação popular, foi o
alimentar, direitos humanos. Volta-se,
tempo de uma verdadeira reinvenção
com intensidade, à relexão sobre suas
da criatividade e do compromisso da epistemologias e metodologias de in-
educação no Brasil. A produção do vestigação, reairmando as que possam
método Paulo Freire dentro do Serviço transgredir a racionalidade disciplinar e
de Extensão Cultural da Universidade subverter a lógica das fronteiras rígidas
de Pernambuco; as experiências dura- que separam conhecimentos e sujeitos,
douras de uma educação conscientiza- como a pesquisa participante e a siste-
dora entre lavradores de Minas Gerais matização. Não secundariza, contudo,
para cima e para o oeste, através do temas da sua tradição, como diferença
Movimento de Educação de Base: a e especiicidades culturais, associan-
multiplicação de trabalhos culturais e do-os intimamente à utopia de outros
pedagógicos feita pelos Movimentos mundos possíveis de serem forjados,
de Cultura Popular (MCPs) e pelos mediante práticas de base vinculadas às
Centros Populares de Cultura (CPCs), iniciativas dos movimentos sociais. A
promovidos pela UNE e outras entida- EP não se livra, contudo, do paradoxal
des regionais e locais do estudantado desaio mudança/conservação, a cada

• 199 •
momento da história, tendo a enfren- MEJIA, Marco Raúl J.; AWAD Myriam Inés G. Educa-
ción popular hoy: en tiempos de de globalización. Bogotá:
tar o pacto geracional pressuposto em Ed. Aurora, 2003.
processos educativos condizentes com
PALUDO, Conceição. Educação popular em busca de al-
o que historicamente vem airmando e ternativas: uma leitura desde o campo democrático popu-
que a leva a ter em conta os elementos: lar. Porto Alegre: Tomo Ed.; Camp. 2001.

contexto (compreensão do seu tempo TORRES, Alfonso C. Educación popular y producción


e lugar de acontecer), diálogo (relações de conocimiento. La Pirágua, Panamá: CEAAL, n. 32,
2010. p. 8-25.
capazes de impugnar qualquer forma
de autoritarismo) e ética (liberdade TORRES, Alfonso C. La Educación popular: trayetoria y
actualidad. Bogotá: Ed. El Buho, 2008.
para que educandos e educadores em
relação possam se constituir como su- Sugestões de leitura
jeitos morais: ser-si, ser-junto, ser-rela-
ção). BRANDÃO, Carlos Rodrigues; ASSUMPÇÃO, Raiane.
Cultura rebelde: ensaios sobre a educação popular ontem
e agora. São Paulo: Ed. e Liv. Instituto Paulo Freire, 2009.
Elza Maria Falckembach
TORRES, Alfonso C. La Educación popular: trayetoria y
actualidad. Bogotá: Ed. El Buho, 2008.
Referências
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BRANDÃO, Carlos Rodrigues. De Angicos a Ausentes: educación popular del CEAAL – Consejo de Educación
40 anos de educação popular. Porto Alegre: MOVA-RS; Popular de América Latina y el Caribe, n. 35, Panamá,
CORAG, 2001. 2/2011. www.ceaal.org

CALADO, Alder Júlio Ferreira. Reproblematizando o(s) GT 06 – Educação Popular – ANPEd – Associação Na-
conceito(s) de Educação Popular. In: COSTA, Marisa cional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. www.
Vorraber. (Org.) Educação popular hoje: variações sobre o anped.org
tema. São Paulo: Loyola, 1998. p. 123-146.

FALKEMBACH, Elza Maria Fonseca. Sistematização em
Educação Popular: uma história, um debate... Caxambu,
MG: Anped, 2010. www.anped.org. Entendido
_____. Sistematização, uma arte de ampliar cabeças. In:
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE – MMA/PDA. Termo nativo usado mais inten-
Arte de ampliar cabeças: uma leitura transversal. Brasília:
MMA/PDA, 2006 (Série Sistematização, 11)
sivamente entre as décadas de 1960 e
1980, sobretudo nos centros urbanos.
JARA, Oscar H. A sistematização de experiências: práti-
ca e teoria para outros mundos possíveis. Brasília, DF:
Polifônico, signiica tanto categoria
CONTAG, 2012. identitária autoatribuída para homos-
______. Sistematización de experiências y corrientes
sexuais de ambos os sexos que não
inovadoras del pensamiento latinoamericano: uma apro- exibam estereótipos de gênero, como
ximación histórica, La Pirágua, Panamá: CEAAL, n.23,
1/2006. p. 7-16. código para reconhecimento recípro-
co, constituindo-se, nessa acepção,
MEJIA, Marco Raúl J. Educação popular: pedagogia e
dialética. Ijuí, RS: Ed. Unijuí, 1989. em mecanismo de resistência (RO-
DRIGUES, 2004, p. 4 e 28; 2004, p.

• 200 •
18; 2006, p. 86-88; GLENIEWICZ nismos de resistência, à semelhança do
et al, 1979; GREEN, 2000, p. 307- uso de palavras em nagô por homos-
308; GREEN e TRINDADE, 2005; sexuais masculinos e travestis, adeptos
HOUAISS, 2001, p. 1161; CERTEAU, ou não dos cultos de matriz africana.
2003). Nessa acepção vamos encontrar James Green historiciza o ter-
o registro colhido por Gleniewicz e ou- mo no Brasil, destacando sua cono-
tros . Nesse trabalho, os pesquisadores tação mais igualitária, livre do padrão
constataram seu uso como um código então muito rígido da reprodução dos
inter pares, destituído de noção estig- papéis de gênero, presente nos termos
matizante, usado como senha de iden- “bicha”, “boneca”, “bofe” (GREEN,
tiicação entre gueis e lésbicas que não 2000, p. 307-308; 424-427). Este pes-
assumiam postura social estereotipada quisador estabelece sua origem no Bra-
(“sem dar pinta”, discretos), indepen- sil aproximadamente nos anos de 1940
dentemente do papel que por ventura “ou mesmo antes” (GREEN, 2000,
adotassem em suas práticas sexuais. p. 308), baseando-se em cartas publi-
Essa designação de conteúdo restrito cadas no livro Homossexualismo masculi-
permitia que se certiicassem da orien- no, de autoria de Jaime Jorge (Rio de
tação sexual do interlocutor em espa- Janeiro: O Constructor, 1953). Ainda
ços não exclusivos, sem que para isso segundo sua pesquisa, entre os anos de
precisassem se expor. Também possi- 1960 e 1970 o termo vai sendo cada
bilitava a luência de uma comunicação vez mais utilizado para referir a um
cifrada, mais livre, vez que restrita a sua tipo de homossexual que não ostenta
compreensão entre aqueles que têm as estruturas rígidas da dicotomia do
“entendimento, combinação, consen- gênero. Ele documenta o seu emprego
so” ou “o espírito aberto” (HOUAISS, entre os estratos médios e alto, artísti-
2001, p. 1161, 2ª coluna) o suiciente cos, intelectualizados e urbanos da po-
para aceitar a homossexualidade (que pulação homossexual masculina – seu
corresponderia aos “simpatizantes” da objeto de pesquisa (GREEN, 2000, p.
década de 1990). Como registraram os 424-425). No entanto, ao se referir aos
pesquisadores da PUC-RJ, “a gíria ho- “primeiros ativistas” (sic) – militantes
mossexual é [era?], mais que qualquer dos grupos surgidos entre 1978 e 1980
outra, a maneira verbal dos indivíduos –, James parece tomar a experiência
dissimularem a sua condição discrimi- do grupo Somos/SP como idêntica a
nada política e socialmente” (GLE- todos os demais, espalhados em diver-
NIEWICZ et alli, 1979, p. 14). Nesse sos Estados do país, ao airmar que “a
emprego documentado, expressa a palavra [entendido] foi rejeitada pelos
criatividade na construção de meca- primeiros grupos gays brasileiros por

• 201 •
ser mais representativa de homosse- Green e em um centro urbano como a
xuais ‘enrustidos’” (GREEN, 2000, p. cidade do Rio de Janeiro, por 6,4% do
425). Em 1979, além do Somos/SP, total dos homens entrevistados e por
que existia já há um ano, surgiram dez 15% do total de mulheres presentes na
grupos: três em São Paulo, três no Pará, Parada do Orgulho (CARRARA e RA-
um na Baixada Fluminense, dois na ci- MOS, 2005, p. 35-37).
dade do Rio de Janeiro e um em Brasí- Se entre nós é demonstrado o
lia. No ano seguinte, mais treze: um em declínio em seu emprego nos primei-
Salvador, Belo Horizonte, Niteroi e na ros anos do século XXI, na Espanha e
Paraíba; três em Pernambuco; e mais em países da América Latina era ainda
seis em São Paulo (COLAÇO, 1984, p. bastante utilizado, ao menos nos anos
64). Pelo menos o da Baixada Flumi- inais do século passado, porém mais
nense sabe-se que era composto majo- com o sentido de código, senha, ao lado
ritariamente por trabalhadoras, negras da sinônima expressão de ambiente
e mestiças, não partilhando de modo (ALIAGA e CORTÉS, 2000, passim;
uniforme das mesmas visões de mun- BOTERO, 1980, p. 40). VIÑUALES,
do dos ativistas do sexo masculino, no seu glossário, esclarece: “Entendida
integrantes das camadas média e alta (o que entiende): Término que designa
e intelectualizados que comprovada- la presunta homossexualidad de outra
mente constituíram o Somos/SP (RO- mujer” (VIÑUALES, 2000, p. 184).
DRIGUES, 2004). Em meio a tanta Esta mesma autora, descrevendo as re-
diversidade cultural, presente entre os lações sociais nos ambientes lésbicos,
Estados da Federação que abrigaram informa: “Cuando alguna nueva açude
esses primeiros coletivos de militância, a um local, las otras tratan de averiguar
parece pouco crível que um termo tão si ‘entiende’ o no ...” (VIÑUALES,
polifônico pudesse gozar de recepção 2000, p. 111). GUASCH, por sinal,
e emprego uniforme. Um dado que assim nomeou a sua tese de douto-
parece apoiar esta suspeita pode ser rado: “El entendido: condiciones de
encontrado na pesquisa realizada por aparición, desarrollo y disolución de
Sérgio Carrara e Silvia Ramos com os la subcultura gay em Espana. Tesis de
participantes da Parada do Orgulho Doctorado, Tarragona: Universidad de
no Rio em 2004: Embora em visível Barcelona.” (GUASCH, 2000, p. 143).
declínio o seu uso pelos homens com Em Denise Portinari encontra-
o sentido de identidade autoatribuída, mos uma interessante relexão acerca
ele ainda era empregado, vinte e quatro do “entender” como um dos processos
anos depois do período aventado por que marca constitutivamente a homos-

• 202 •
sexualidade. A necessidade, dada pela GREEN, James. Além do Carnaval. A homossexualida-
de masculina no Brasil do século XX. São Paulo: Unesp,
heterossexualidade paradigmática (e 2000.
que por isso prescinde de explicações), GREEN, James e TRINDADE, Ronaldo (orgs.), SILVA,
de ser compreendida (entendida) pelo José Fábio Barbosa da... [et al.]. Homossexualismo em
São Paulo e outros escritos. São Paulo: Unesp, 2005.
sujeito desejante. Sendo uma forma de
sexualidade sobre a qual pesam tantas GUASCH, Òscar. La crisis de la heteosexualidad. Barce-
lona: Alertes, 2000.
representações (ainda) negativas, “o
HOUAISS, Antonio e VILLAR, Mauro de Salles. Di-
processo de entender, desencadeado a cionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro:
partir do ‘então eu soube que sempre Objetiva, 2001.

fui’, parece não ter im.” “Trata-se com PORTINARI, Denise. O Discurso da Homossexualidade
efeito de uma sexualidade que precisa Feminina. São Paulo: Brasiliense, 1989.

ser entendida ... para que o sujeito pos- RODRIGUES, Rita C. C.. Ação e relexão de um ativis-
mo homossexual na Baixada Fluminense: A experiência
sa constituir-se enquanto tal.” Desse do GAAG - Grupo de Atuação e Airmação Gay - 1979-
modo e contrariamente à heterosse- 1980. Monograia apresentada ao curso de graduação em
História Social da Universidade Federal Fluminense. Ni-
xualidade que jamais se exige qualquer terói, dezembro de 2004.
explicação, o homossexual é eterna- VIÑUALES, Olga. Identidades lésbicas. Barcelona:
mente convocado a justiicar e espe- Bellaterra, 2000.

ciicar (e confessar) minuciosamente


Sugestões de leitura
suas práticas e desejos. Ver Portinari,
1989, p. 70-72. GUIMARÃES, Carmen Dora. O homossexual visto por
entendidos. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

Rita de Cássia Colaço Rodrigues



Referências
Epistemologia feminista
ALIAGA, Juan Vicente e CORTÉS, José Miguel G. Iden-
tidad y diferencia. Sobre la cultura gay em Espana. Barce-
lona-Madrid: Egales, 2ª edición, Julio de 2000. A epistemologia pressupõe o
BOTERO, Ebel. Homoilia y homofobia. Medellín: ed. estudo das formas de produção do
Autor, 1980. conhecimento. Neste sentido discu-
CARRARA, Sérgio e RAMOS, Silvia. Política, Direitos, tir epistemologia é propor a relexão
Violência e Homossexualidade. Pesquisa 9ª Parada do
Orgulho GLBT – Rio 2004. Rio de Janeiro: CEPESC,
sobre os objetivos, os objetos e os
2005. sujeitos envolvidos nos processos de
Colaço, Rita. Uma conversa informal sobre homossexua- produção dos saberes. Contudo de-
lismo. Rio de Janeiro: edição da autora, 1984. ve-se começar dizendo que a cons-
GLENIEWICS, Alison; FROTA, Sílvia de Fátima Na- trução de um campo de saber é antes
gem; RUDNER, William Andrew; FARIAS, Zilah Cân-
dida Azevedo. A linguagem de discotecas gueis do Rio
de tudo uma questão de exercício de
de Janeiro. [Trabalho de conclusão de curso]. Pontifícia poder. Acompanhando os estudos de
Universidade Católica, Rio de Janeiro, 1979.

• 203 •
Foucault - que tanto inluenciaram e zidas no mundo também em função
inluenciam os estudos feministas - do poder. E se cada “sociedade tem
percebe-se que este autor articula saber seu regime de verdade” (FOUCAULT,
e poder de tal forma que não se pode 1999, p.2) temos já há certo tempo nas
tematizar a questão da construção do agendas feministas o irme propósito
saber sem tratar das formas de exercí- de que outros saberes sejam construí-
cio de poder. Especialmente nas obras dos. Neste sentido a epistemologia fe-
As Palavras e as Coisas (1966) e Arqueo- minista começa a ser conceituada: tra-
logia do Saber (1969), Foucault propõe ta-se do exercício de poder que busca
relexões que buscam perceber que a a construção de novos saberes. E que
instituição do saber (ou ainda, dos sa- sejam esses plurais, diversos e mesmo
beres) passa por diferentes instâncias subjetivos, ao contrário dos critérios
de vivência do poder. Os discursos, universais e reguladores estabelecidos
o que se faz dele e o que ele produz no modelo de ciência moderna.
são resultado de relações de poder Na tarefa de deinir epistemo-
luídas e oriundas de diferentes luga- logia feminista é importante dizer que
res. O poder “produz coisas, induz ao se trata não apenas de um empreendi-
prazer, forma saber, produz discurso” mento acadêmico ou político mais que
(FOUCAULT, 1999, p. 8), escreveu isso: a escrita feminista é um projeto de
ele, lembrando ainda que as relações colocar em debate questões por muito
de poder não são apenas repressivas. tempo silenciadas. Assim, é fundamen-
Para este pensador estar atento à gene- tal o entendimento de que se fala aqui
alogia, ou seja, a forma de constituição da colocação em discurso de um pro-
dos discursos, de saberes e objetos é jeto de poder. Margareth Rago (1998)
buscar modos de dar visibilidade àqui- lembra que nos anos 1980 Michelle
lo que foi construído como verdade, Perrot se perguntava se era possível
bem como é modo de entender os te- escrever uma história das mulheres.
mas sobre os quais se decidiu silenciar. Sua dúvida e indagação adivinham de
Tal orientação propõe impactos sig- entendimento que colocar em ques-
niicativos na produção dos trabalhos tão o sujeito mulher era privilegiar um
feministas, como dito acima. Ainal, sujeito universal, tal qual a ciência oci-
quando lembra tais questões Foucault dental faz quando mobiliza a catego-
estabelece também a possibilidade de ria homem. Contudo e como se sabe,
outras formas de produção de sabe- desde então os debates e estudos têm
res, em que outras e novas “verdades” entendido e, consequentemente pos-
podem ser construídas. Como ele pró- tulado, que é sim possível e necessário
prio escreveu, as verdades são produ- escrever sobre as mulheres. O diferen-

• 204 •
cial, entretanto, está no modo como também o de ir além desta ciência “en-
isso será feito: certamente questionan- viesada”.
do a universalização do sujeito mulher Foi entre as décadas de 1930 e
e com as mulheres assumindo a autoria 1970 que surgiram grupos acadêmicos
de tal escrita. E ainda considerando que passariam a problematizar a pro-
que tal escrita deve ser feita a partir de dução do conhecimento a partir de um
problematizações que considerem as viés crítico produzindo o que icaria
relações entre homens e mulheres. conhecido como estudos feministas
Continuando na imbricação en- ou estudos de mulheres. Na década
tre poder-saber uma das questões que de 1970 emergiria, no campo da pro-
é necessário considerar quando fala- dução do conhecimento, a perspecti-
mos em epistemologia feminista é a lo- va de gênero. No âmbito acadêmico a
calização de tal produção. Pois, acom- perspectiva buscava tornar a discussão
panhando o que diz Foucault, trata-se mais inclusiva, menos binária, muito
de localizar a emergência deste campo. embora também recebesse críticas por
Neste caso, vale dizer que a produção seu potencial desmobilizador, que po-
de uma escrita feminista não é de iní- deria abrir para o desempoderamento
cio uma questão acadêmica, mas que feminino. O fato é que o conceito de
a problematização e o desejo por uma gênero foi um divisor de águas nos
autoria feminista de saberes nasce no movimentos feministas, sendo que
movimento feminista. De acordo com nesta segunda onda o que estava em
M. Rago (1998, p. 29): “É a partir de jogo eram as “diferenças dentro da di-
uma luta política que nasce uma lin- ferença” (MATOS, 2008, p.338)
guagem feminista”. Ainda segundo Sintetizando e acompanhando o
esta historiadora a relexão política foi entendimento de M. Rago (1998) po-
seguida posteriormente por disciplinas de-se dizer que a epistemologia femi-
diversas como antropologia, história, nista é originária do movimento e do
psicologia, sociologia, etc. Ou seja, a desejo de um duplo encaminhamento.
produção acadêmica feminista é an- Por um lado, trata-se da participação
tes de tudo originária de uma discus- do feminismo ao lado de diferentes
são política do modo como a ciência campos disciplinares na crítica episte-
tematizava a mulheres, entre outras mológica atual. Crítica esta que busca
questões. Donna Haraway (1995) dis- denunciar o caráter excludente da ra-
cutindo este contexto lembra que as cionalidade burguesa em que a ênfase
feministas queriam um instrumento sobre o indivíduo não permite pensar
para descontruir as verdades de uma as diferenças. Aliás, é neste viés que o
“ciência hostil”, mas que o desejo era feminismo se aproxima do pensamen-

• 205 •
to pós-moderno. E por outro, diz res- vel “dispersão” causada pelos discur-
peito a uma nova forma de concepção sos pós-estruturalistas femininas que
e produção de conhecimentos, num dariam menos ênfase sobre a questão
projeto emancipador (RAGO, 1998, p. mais política e, portanto, práticas das
24-25). reinvindicações feministas (1998, p.
Em outras palavras: a epistemo- 63).
logia feminista “nasce” de um desejo Sandra Harding (1993) enten-
dentro do movimento de promover de que as feministas que se alinham
a crítica aos modos da ciência produ- na tendência pós-moderna optam por
zir conhecimentos e desta motivação uma “posição relativista inadequada”
tem migrado para outros movimentos sendo que esta associação não conse-
como, por exemplo, o que propõe uma guira “resolver” a questão e a necessi-
total revisão desta ciência em nome de dade de uma política que enfrente mais
um projeto feminista de fazer ciência. nomeada e ativamente os problemas
Neste último caso deve-se repetir que apontados pelo movimento. Além dis-
mais contemporaneamente muitos tra- so, é crítica de modo contundente da
balhos têm se apropriado da aproxima- possibilidade de uma epistemologia
ção com os textos pós-estruturalistas feminista que aposte nos mesmos ví-
não apenas para confrontar os para- cios criticados pelo movimento, espe-
digmas cientíicos, mas para fundar no- cialmente na ênfase sobre um modelo
vos modelos. Tendência que tem sido de ciência que estipule modelos para a
debatida e utilizada, mas que também produção de saberes.
tem sido alvo de algumas críticas. Certamente que não há um con-
No entendimento de Claudia senso e nem tão pouco um único pro-
de Lima Costa (1998) as aproximações jeto de epistemologia feminista, mas
entre o feminismo e teóricos pós-es- de modo geral, o que une as diferentes
truturalistas têm sido marcadas por vertentes deste campo é a tônica sobre
possibilidades, contradições e ambigui- a ideia de que este é um movimento
dades. Assim, se o contato com os tex- que reivindica autoria. Donna Haraway
tos de nomes como Foucault, Derrida, (1995) que discute a ideia de uma “ob-
Deleuze tem possibilitado instrumen- jetividade” na escrita feminista apre-
tos e a sensibilidade para que outras senta e defende a ideia de que os sabe-
compreensões sobre sujeito, saber e res feministas precisam ser localizados.
as noções de identidade e experiência Certamente ela não defende a objetivi-
femininas sejam consideradas (1998, dade tal qual as feministas rejeitam. De
p. 58), também têm sido apontados acordo com ela, as feministas busca-
possíveis problemas como uma possí- ram “desmascarar” os referenciais de

• 206 •
objetividade, pois esta ia de encontro modelo hegemônico de produzir sabe-
aos ideais de subjetividade e de atuação res, tal qual posto no mundo ocidental
coletivas que elas defendiam (1995, p. moderno. A epistemologia feminista é,
13). E ela concorda com essa rejeição. portanto, uma ação política de questio-
Mas, por outro lado, na visão de Ha- nar e propor mudança, o que tem sido
raway a objetividade da “localização” feito por sujeitos com associação po-
é importante aos estudos feministas e líticas e acadêmicas não hegemônicas.
para isso ela propõe que os posiciona- Contudo, para além das especiicidades
mentos iquem bem claros. Seu argu- o que se registra como “comum” a to-
mento é em prol de uma epistemologia dos esses projetos é o irme propósito
feminista situada e localizada, e que de eliminar qualquer tipo de universa-
seja, consequentemente, facilmente lização ou de verdades absolutas sobre
percebida. No seu entendimento tal mulheres e homens.
procedimento reforça o campo e não
signiicaria uma divisão entre sujeito e Cristiani Bereta da Silva
Nucia Alexandra Silva de Oliveira
objeto (20-21). Assim: “a objetividade
feminista trata (...) do conhecimen-
Referências
to localizado (...). Desse modo pode-
mos nos tornar responsáveis pelo que COSTA, Claudia de Lima. O feminismo e o pós-moder-
nismo/pós-estruturalismo: as (in)determinações da iden-
aprendemos a ver” (p. 21). Ou seja, tidade nas (entre)linhas do (com)textos. PEDRO, Joana
sua proposta é a de uma epistemologia Maria. GROSSI, Miriam Pillar. Masculino, feminino,
plural: gênero na interdisciplinaridade. Florianópolis:
centrada e fechada nas questões no- Editora das Mulheres, 1998.
tadamente feministas e feitas a partir
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Tradução e
deste ponto de vista e também do re- organização de Roberto Machado. 13ª ed. Rio de Janeiro:
conhecimento de um modo feminista Edições Graal, 1979.

de pensar e escrever. Ainda de acordo FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. Tradução


de Salma Tannus Muchail. 8ª ed. São Paulo: Martins
com ela, tal argumento se coloca pela Fontes, 1999.
necessidade de alocação, posiciona-
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Tradução
mento e parcialidade, condições que de Luiz Felipe Baeta Neves. 6ª ed. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2000.
são para Haraway determinantes para
que este projeto seja “ouvido” e válido. HARDING, Sandra. A instabilidade das categorias ana-
líticas na teoria feminista. Estudos Feministas. Rio de Ja-
Procurou-se mostrar aqui que neiro: CIEC/ECO/UFRJ, v.1, n.1, p.7-31, 1993
o desejo de propor uma epistemolo-
HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da
gia feminista está alicerçado em um ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva
parcial. Cadernos Pagu, Campinas/SP/UNICAMP, n.5,
projeto de poder que vislumbra a ne- p. 07-41, 1995.
cessidade de questionar e desfazer o

• 207 •
MATOS, Marlise. Teorias de gênero ou teorias e gênero? a sua inteira disposição. Aos escravos
Se e como os estudos de gênero e feministas se transfor-
maram em um campo novo para as ciências. Estudos era negado o direito a própria sexuali-
Feministas. Florianópolis: UFSC, v.16, n.2, p.333-357,
maio-agosto/2008.
dade e suas capacidades reprodutivas.
Em Reis (2003), escravidão é
RAGO, Margareth. Epistemologia feminista, gênero e
história. PEDRO, Joana Maria. GROSSI, Miriam Pillar. uma instituição social caracterizada
Masculino, feminino, plural: gênero na interdisciplinari- pelo direito de propriedade de huma-
dade. Florianópolis: Editora das Mulheres, 1998.
nos e na utilização de sua mão de obra,
Sugestões de leitura na qual o escravo está sob domínio
permanente desde seu nascimento,
CODE, Lorraine. (Ed.). Encyclopedia of feminist theo- de modo que os vínculos de poder e
ries. New York: Routledge, 2000.
domínio originados são perpetuados
NARAYAN, Uma. O projeto de epistemologia feminista: pela violência na qual a “morte social”
perspectivas de uma feminista não ocidental. JAGGAR,
Alison M. BORDO, Susan. R. Gênero, Corpo, Conheci- substitui à morte física do prisioneiro
mento. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1997.
de guerra, do condenado à morte, do
indigente ou enjeitado.

Maestri (2009 p. 21) classiica a
Escravidão escravidão como “experiência social de
submissão do trabalhador escravizado
Considerada a pior forma de ex- quanto à legislação, à dominação física
ploração da força de trabalho, na qual e cultural, às diversas formas de casti-
um ser humano é submetido à condi- gos e submissão, a cooptação social e
ção de propriedade de outro ser hu- ideológica, etc.”.
mano, por meio de coerção física e/ou A escravidão é uma das mais
psicologia. Expressa-se como a mais antigas instituições, identiicadas em
cruel forma de conisco da dignidade diversas sociedades desde a fase do
humana. Neolítico até os tempos modernos
Para Lovejoy (2002), a escravi- (MOORE, 2007). No Egito, as pirâmi-
dão é uma forma de exploração, carac- des, foram construídas pelos escravos.
terizada pela concepção de que os es- Praticada da Babilônia de Hamurabi à
cravos eram uma propriedade. Podiam Fenícia, nas clássicas Grécia e Roma e,
ser submetidos à condição de escravos, também, na África pré-colonial, parte
estrangeiros alienados a origem, por considerável dos povos antigos teve
sanções judiciais ou outras. A violên- contato ou foi submetida à escravidão.
cia física e psicológica podia ser usada (QUEIROZ, 1993). Em sua expres-
à vontade pelo proprietário de escravo, são moderna (no Continente Ameri-
que tinha a força de trabalho do cativo cano do século XV até o inal XIX),

• 208 •
a escravidão caracterizou-se por ter se XV. Aqui a sociedade livre usufrui do
consolidado como Modo de Produção trabalho de uma massa de escravos,
e submetido à condição de escravo, violentamente reprimida, fortemente
por meio de captura, sequestro e trá- vigiada, considerada como objetos.
ico, exclusivamente população negra c) A escravidão-racial de plan-
africana. tation tem origem no Oriente Médio
De acordo com Moore, ”a es- a partir do século IX, no período de
cravidão parece ter surgido dessa abássida, é praticada a partir do século
complexa problemática que consiste XV até o inal do século XIX, em todo
na crescente capacidade para enfren- continente americano, semelhante à
tar as contingências da sobrevivência escravidão econômica generalizada, a
mediante a produção de um excedente diferença reside no povo submetido à
social, por um lado, e o surgimento pa- condição de escravo: os negros africa-
ralelo de mecanismos de coerção que nos.
restringem as liberdades intrínsecas do A escravidão na África Pré-Colonial:
ser humano, por outro.” (2007, p. 221) A principal especiicidade das socieda-
Ainda que a escravidão possa des africanas era que estavam baseadas
ser identiicada em várias sociedades e nas relações de parentesco, cujo modo
em diferentes períodos históricos não de produção denominado doméstico,
há um único modelo de escravidão, caracterizava-se pelas “distinções etá-
contudo é possível apontar três cate- rias e sexuais, não havendo antago-
gorias estruturantes (MOORE, 2007 nismo de classe” (LOVEJOY, 2002,
p, 224): p.43). O poder político era baseado
a) A escravidão doméstico-ser- na gerontocracia, onde os mais velhos
viçal, fundada nas estruturas de famí- detinham o controle da produção e o
lia, conta com um número pequeno de acesso às mulheres. O que determinava
pessoas. Foi praticada na Ásia antiga e o poder de liderança de um velho era
medieval (China, Japão, Coréia, Índia e a quantidade de mulheres, o número
Indonésia), no Oriente Médio semita de ilhos e a capacidade de garantir a
pré-islâmico, na América pré-colonial cooperação entre as gerações, além do
(Olmeca-Sih, Inca, Maia, Asteca) e na acumulo dos bens imóveis, como: casa,
África. terras, plantações, rebanhos e água. A
b) A escravidão econômica ge- manutenção da sociedade icava sob a
neralizada surgiu na civilização Gre- responsabilidade da mulher por dois
co-romana, perdurou ao longo da motivos: a fertilidade e o trabalho agrí-
época medieval europeia até o século cola.

• 209 •
Nesse contexto, a escravidão vos: o militar, o serviçal, o produtor e
não causava nenhum impacto na base a mercadoria.
da formação dessa sociedade, para Lo- O escravo militar era uma cate-
vejoy, “os escravos não tinham ligação goria de alta posição, pois era escravo
com a rede de parentesco e tinham do Estado e não dos indivíduos, ocu-
apenas aqueles direitos que eram con- pavam posição estratégica na socieda-
cedidos por tolerância, não existia uma de, uma vez que cabia a eles proteger
classe de escravos. Ao mesmo tempo a sociedade de povos inimigos, situa-
ção que muitas vezes os colocava em
em que indubitavelmente desempe-
condição de igualdade em relação aos
nhavam funções econômicas, sua pre-
homens livres.
sença estava relacionada com o desejo
O escravo serviçal exercia fun-
das pessoas, fosse individual ou cole-
ção dentro do lar e ocupava uma supe-
tivo de contornar as relações sociais
rioridade efetiva em relação ao escra-
tradicionais de modo a aumentar o seu vo produtor, geralmente herdado. Era
poder. “ (2002, p. 44) considerado parte da família e, dentro
Mesmo em sociedades mais desta lógica, não podia ser vendido.
complexas, do tipo agro burocráti- Sua condição familiar é comparável a
co, o escravo apesar de sua condição dos empregados domésticos de hoje.
serviçal, e ainda que subalternizado e O escravo produtor poderia ser agri-
desprezado, está inserido na sociedade cultor, pastor, artesão, tinha direitos e
como mais um ator. privilégios, bem próximos ao do ho-
Nesse cenário pode-se até reco- mem livre; as mulheres que se incluíam
nhecer uma divisão de classes, mas di- nessa categoria, desenvolviam funções
ferente do que aconteceria mais tarde, domésticas eventuais e se ocupavam
ou seja, durante a expansão árabe-mu- das crianças.
çulmana, a condição de escravo é con- Quanto ao escravo mercadoria,
siderada como mais uma possibilidade encontrava-se na pior forma de escra-
de trabalho servil. vidão da África pré-colonial. Era consi-
A condição de escravo caracte- derado como objeto de produção, des-
prezado, maltratado, sem nome e sem
riza-se pela perda total do livre arbítrio
família estava sujeito à venda. Faziam
e a alienação a alguém, é condição he-
parte dessa categoria aquelas pessoas
reditária, entretanto, uma pessoa po-
que tinham cometido os piores crimes,
deria se tornar escrava nas seguintes
dentre eles latrocínio e estupro. (Mo-
condições: prisioneiro de guerra, crime ore, 2007, p. 231-232). Essa categoria
grave ou dívidas. Em linhas gerais po- de escravo cresceu exponencialmente
demos classiicar quatro tipos de escra- após a expansão árabe-mulçumana.

• 210 •
É preciso considerar que essa Congo, da Angola e de Moçambique
prática implicava numa sociedade que (distribuídos em Pernambuco, Minas
tinha escravos, mas não em um Modo Gerais e no Rio de Janeiro) e os su-
de Produção Escravista. Na atual fase daneses, da Nigéria, Daomé e Costa
dos conhecimentos sobre a histó- do Marim (cuja mão de obra era uti-
ria da África, não há indícios de que lizada no Nordeste, principalmente na
no continente a escravidão tivesse se Bahia).
consolidado como Modo de Produ- Enviados à força para o conti-
ção (FINLEY,1991; LOVEJOY, 2002; nente americano, em grandes embarca-
MOORE,2007). Destaca-se que o mo- ções chamadas Navios Negreiros, sub-
delo de escravidão africana se viu pro- metidos às condições de extremamente
fundamente alterado após o processo precárias, muitos morriam durante a
islamização do continente. travessia, vitimados pelos maus tratos,
Cabe ressaltar que embora não fome e doenças. Estima-se que mais de
conigurasse um modo de produção 10 milhões de escravos africanos che-
como aquele que aconteceria mais tar- garam vivos na América, dos quais 3,6
de, primeiro com os árabes-muçulma- milhões foram trazidos para o Brasil.
nos, e, depois, com os europeus, qual- Aqueles que sobrevivam à travessia do
quer tipo de cerceamento de liberdade Atlântico eram vendidos como “coi-
é condenável, visto que não existe es- sas” e deveriam ser submissos ao seu
cravidão boa. senhor, ou sofreriam os mais bárbaros
Escravidão no Brasil: A mão de castigos.
obra escrava africana foi introduzida Cabe salientar que durante
no Brasil em meados do século XVI, todo o período de escravidão, negros
pelos colonizadores portugueses, ini- e negras lutaram contra o cativeiro, a
cialmente com a inalidade de atender opressão e discriminação racial, por
as primeiras demandas por força de meio de múltiplas formas de resistên-
trabalho nos Engenhos de Açúcar na cia, das quais destaca-se as revoltas, fu-
região nordeste do país. Contudo de- gas, assassinato de senhores, suicídio,
correr do processo histórico a escra- infanticídio, quilombos e irmandades.
vidão consolidou-se como Modo de A mulher negra escravizada
Produção, que perdurou quase quatro (MOTT, 1988) teve participação em
séculos. quase todas as atividades econômicas
Os negros escravizados eram e era comum acumularem várias fun-
capturados no continente africano, de ções, acostumadas ao trabalho livre
diferentes grupos étnicos, as principais agrícola na África, aqui foram empre-
vítimas foram os bantos, vindos do gadas em menor número no cultivo da

• 211 •
terra. Nos engenhos moíam e tiravam botagem do serviço doméstico e/ou
os bagaços da cana; serviam ama de agrícola, o suicídio e o aborto eram re-
leite dos ilhos do senhor e estiveram correntes, o assassinato de senhores e
presente também na mineração. Em senhoras não era incomum. Em alguns
muitos engenhos e fazendas as escra- casos para obter alguns benefícios ime-
vas eram responsáveis pelos partos e diatos, a escrava fazia uso da sua sexua-
pelos cuidados aos escravos doentes e lidade para seduzir o senhor.
acidentados. Fugiam sós, acompanhadas ou
Apresentadas por muitos auto- em grupos, em direção aos quilombos
res como privilegiada, por ser escrava ou para as cidades na tentativa de se
doméstica da casa rica e não viver na passar por escravas alforriadas. Outra
senzala, ter acesso a uma alimentação importante forma de luta de mulheres
diferenças e vestir-se melhor, as mu- e homens escravizados expressou-se
camas eram, contudo, as que sofriam na utilização em benefício próprio, da
mais de perto a violência sexual de seu brecha oferecida pelo próprio sistema:
senhor e a ira das senhoras. a Carta de Alforria.
O fato de ser mulher não pou- De acordo com Verger (1988),
pou as escravas de sofrerem castigos, as mulheres baianas alforriadas eram
sempre que seu comportamento fosse independentes e em torno delas se for-
considerado indesejado, eram subme- mavam as famílias, vivam com os pais
tidas à palmatória, troncos, mutilação de sucessivos ilhos, tinham em geral
do corpo, marcadas de ferro, açoites, e mais dinheiros do que os homens com
não raro torturadas até a morte. quem viviam amasiadas. Naquele tem-
Entretanto, a mulher negra, não po já eram chefes de suas famílias, con-
aceitou paciicamente a condição de dição vivida na atualidade por muitas
escravizada, conforme observou M, mulheres negras.
“seja quando tentava amenizar a vida Para a negra e o negro escraviza-
enquanto escrava, obtendo alguns be- do, a luta diária para sobreviver e resis-
nefícios imediatos; quando procurava tir à lógica da escravidão foi algo além
saídas para a sua condição através das da complexidade da existência huma-
brechas, oferecidas pelo próprio siste- na, fundamentada, em grande parte, na
ma, ou então quando negava-se a qual- compreensão de mundo e nos valores
quer negociação, matando ou morren- ancestrais, e na crença de mudanças e
do.” (1988, p. 29) continuidade da Cosmovisão Africana.
A resistência da negra escravi- Os esforços empreendidos por
zada manifestou-se, por meio da sa- negras e negros escravizados na tenta-

• 212 •
tiva de preservar a memória, valores, •
crenças de seus ancestrais expressam-
-se hoje, na incisiva marca africana na Escrita Feminina
cultura brasileira, evidenciada, na mú-
sica, na língua, na religião, na dança, na A escrita feminina não designa
estética negra individual e coletiva. apenas uma literatura, a de corpo e voz
que mulheres escritoras (mais ou me-
Cintia Santos Diallo nos reconhecidas) realizaram e conti-
nuam a desenvolver como parte cons-
Referências e sugestões de leitura titutiva da História Cultural e Literária
de seu país.
DIALLO, Cíntia Santos. Silva, Dina Maria. História
da África: Múltiplas Aprendizagens. Dourados: Editora
A escrita feminina é fortemen-
Uems, 2010. te marcada pelas relações, condições
DIOP, ANTA CHEIKH. Nations Negres et Culture. Pa-
e trocas sociais, culturais, econômicas,
ris: Présence Africaine, 1979. intelectuais, linguísticas e geopolíticas
FINLEY, Moses I. Escravidão antiga e ideologia moder- que são estabelecidas entre os indiví-
na. Rio de Janeiro: Graal, 1991. duos, as comunidades e os povos desse
GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. 5. ed. rev. e mesmo país. Ela evidencia portanto
ampl. São Paulo : Ática, 1988. as relações de gênero e as de poder e,
LOVEJOY, Paul E. A escravidão na África: uma história assim, a sua característica como uma
de suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Bra- espécie de ‘impressão digital’ sobre os
sileira, 2002.
movimentos de seu tempo.
MOORE, Carlos. Racismo & Sociedade: novas bases Quando feminina, a escrita tor-
epistemológicas para entender o racismo. Belo Horizon-
te: Mazza, 2007. na-se uma outra modalidade, uma ou-
tra prática discursiva, cuja linguagem
MOTT, Maria Lucia de Barros. Submissão e resistência: a
mulher na luta contra a escravidão. São Paulo: Contexto, estética pode alcançar (ou não) um es-
1988.
tatuto especíico, o de uma literatura, a
PAIVA, Eduardo França. Ivo, Isnara Pereira. Escravidão, partir da qual será recorrente o que é
mestiçagem e histórias comparadas. São Paulo: Annablu-
me: PPGH-UFMG,: Ed. UESB, 2008.
seguramente mais tangível ao universo
feminino, e por ele, a sua expressão.
QUEIROZ, Suely Robles Reis de. Escravidão negra no
Brasil. São Paulo: Ática, 1987.
Na História da Humanidade, a
Literatura foi e perdura como uma das
REIS, Joao Jose. Negociação e conlito: a resistência negra
no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras,
aventuras próprias ao Espírito, como
2005. ela é também uma experiência intelec-
VERGER, Pierre. Fluxo e Reluxo do Tráico de Escravos tual e uma atividade transcendental.
entre o Golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos: dos No entanto, a Literatura também foi
séculos XVII a XIX. São Paulo: Corrupio, 1987.
uma ocupação, especialidade e prois-

• 213 •
são destinada exclusivamente aos ho- As graias femininas estampam
mens. Essa Literatura fez-se masculina o rosto, exploram o corpo e ultrapas-
e hegemônica. Tornou-se a referência: sam a pele do papel. As escrituras fe-
descrita, historiografada, (re)produ- mininas ao longo dos séculos mostram
zida e institucionalizada por homens, o quanto as mulheres desenvolveram
embora ninguém a denomine ‘literatu- o próprio corpo como um recurso de
ra masculina’. Ela é literatura, e ela se linguagem. O corpo é uma memória
projetou, como ‘a Literatura’. e a escrita é feminina. Por isso, além
No Brasil, a partir dos anos oi- do corpo as mulheres escreveram em
tenta e, particularmente, dos anos no- pedras, em leques, em chapéus, em
venta do século XX, a escrita feminina lenços, em tecidos, como publicam
assume uma outra, talvez, uma nova diários, cadernos íntimos, romances,
representação. A escrita feminina é ensaios, peças teatrais, contos, novelas
mais reconhecida e, sobretudo, menos e outros gêneros e suportes textuais
estigmatizada, pela crítica literária, pe- (jornais, revistas, periódicos etc.).
las Academias e cânones internacio- A História sobre a Escrita Femi-
nais. Distingue-se a escrita feminina e nina integra a Historiograia sobre os
a escrita femininista. Ambas encontra- suportes, as modalidades e os gêneros
rão seus espaços possíveis e até novos discursivos mais recorrentemente utili-
espaços e interlocutores. zados para a manifestação dessa escrita
O feminismo não é confundido tão inamente, quão duramente resis-
com um estilo, mas evidenciado como tente: a feminina.
uma prática social importante e, por- A escrita feminina atravessou
tanto, ele alcança outros públicos, ou- assim o longo e delgado io do tempo.
tros objetos artísticos, outros atores e Superou seus riscos e os limites geo-
instâncias culturais e intelectuais. políticos. Ultrapassou os obstáculos
Feminina, a escrita torna-se uma linguísticos. Saltou as muralhas religio-
prática, cujo exercício enunciativo re- sas e uma série de contigências sociais,
vela uma atividade especíica: feita, familiares e escolares por elas criadas.
desfeita e refeita por mulheres, sobre A sua existência ou resistência fez-se
mulheres ou através das literaturas, possível porque tal escrita ultrapassou
artes e lutas sociais que elas criam ou as contradições culturais presentes em
recriam, como atos de escrita, como cada sociedade. Reiro-me, por exem-
formas de combate social, com tinta e plo, aos preconceitos raciais, às con-
papel, com corpo e voz: em casa, na junturas sociopolíticas, às normas e
rua, na escola, na sociedade, na im- arbitrariedades de cunho religioso, às
prensa, na cidade e no campo. imposturas intelectuais e, assim, como

• 214 •
uma escrita sobrevivente, ela, pode conteúdo narrativo, poético, ou rele-
narrar uma outra historiograia sobre a xivo. Segundo o país, a religião e o re-
literatura feminina e o mercado que ela gime político instituído tais temas po-
conseguiu criar. dem ser contestados, quando redigidos
Essa escrita feminina representa por homens e, particularmente, quan-
as novas e as antigas relações de gêne- do enunciados por mulheres.
ro, pois que muito é reincidente, denso Nos países onde a repressão
e impermeável quando se trata do lu- moral, sexual, familiar, intelectual, po-
gar atribuído aos homens e às mulhe- lítica e religiosa é fortemente marcada,
res, aos brancos e aos negros, aos ne- as mulheres, quando escritoras, escre-
gros e mestiços, aos citadinos e nativos vem dentro, mas publicam (frequente-
no interior de uma sociedade ou país. mente) fora de seus países e, por isso,
A escrita feminina teve portanto essa literatura ou escrita feminina é ou
suas vezes, seus passos, seus vieses e torna-se uma escrita exilada. A escrita
seus processos como uma escrita femi- em exílio ou a escrita do exílio é, nessa
ninista e militante. Isso ocorreu, tanto perspectiva, eminentemente uma es-
nas Américas, quanto nas Europas e crita política contra a violência fami-
nas Áfricas. Esse percurso foi neces- liar, sexual, social, urbana, cultural ou
sário senão fundamental para derrubar religiosa vivida por meninas, moças,
(o mais possível) os mecanismos de mulheres, idosas, viúvas, prisioneiras,
exclusão e certos efeitos ideológicos, artistas, escritoras e, também, mulhe-
religiosos, políticos, sociais e culturais. res portadoras de alguma deiciência.
Assim é preciso reiterar que Tais temas constituem uma espécie de
nem toda escrita feminista é feminina, literatura-denúncia ou uma literatura-
como nem toda escrita feminina é fe- -cidadã ora mais, ora menos assumida
minista. Escrever em feminino ou pelo pelas escritoras e pelos escritores des-
feminino depende também dos temas ses países, e de outros.
- possíveis ou represados - num dado A escrita feminina tem revelado,
tempo, espaço e contexto, pois esses des-coberto, re(a)presentado as rela-
temas evoluem (e se diferenciam) den- ções entre homens e mulheres ao longo
tro de um mesmo país e entre diferen- da História, ou seja, seus movimentos,
tes nações. suas alianças, adesões, distâncias, nega-
Nesse sentido cabe lembrar ções e contradições. Assim essa escrita
que nem toda escrita feminina privi- é uma respiração, cuja inspiração revela
legia, por exemplo, o tema do amor, a presença sutil e feminina no mundo
do aborto e da liberdade sexual, como e, desse modo, a sua característica ou

• 215 •
dialogia no conjunto da Literatura: o A escrita feminina existiu, antes
seu porquê, o seu diferencial, a sua nu- dos livros, dos jornais, antes mesmos
ance e o seu potencial. dos velhíssimos almanaques e periódi-
Femininas Escritas foram, sem cos, folhetins, cordéis e tantas outras
dúvida, àquelas deixadas por cem, cen- formas manuscritas, à despeito do con-
to e cinquenta, duzentas ou mais mu- trole do chamado ‘mercado livreiro ou
lheres que a partir de meados do sé- editorial’.
culo XIX, no Brasil, ousaram quebrar Na China, em Xia, na Amazô-
o silêncio, expor o corpo, soltar a voz, nia, nas matas de Rondônia, num canto
pintar o papel com palavras velhas e sem nome pelos limites com o Surina-
novas. Desse movimento, uma primei- me, entre as estradas vermelhas de Ro-
ra literatura, pela tinta da vida, pela cor raima, no corpo nativo das mulheres
do sangue e pelo feminino do corpo
do Acre, como também, em diferentes
nasceu, então, um corpo literário.
paragens, feiras e praças de artesanato
Uma escrita desaprisionada,
e bordado do Nordeste, há escritas fe-
embora refém dos valores veiculados
mininas… Elas sobreviveram em ca-
naquela temporalidade e, portanto, à
dernos femininos pelos quatro pontos
condição submissa das mulheres dian-
cardeais do Brasil… Durante longos
te dos homens, diante da Lei, diante
meses pude então identiicar: lenços,
da Política e diante da Igreja. Quando,
bandeiras, escritos, cartas, desenhos,
fora das gavetas, saíram os primeiros
poemas, os primeiros ensaios e as pri- graias, versos, cancioneiros, roman-
meiras memórias de caráter autobio- ces, rezas bordadas, ditados em teci-
gráico ou, apenas, memorialístico. dos, receitas, panos escritos, pinturas
Isso não signiica dizer que antes corporais, braceletes e outros objetos
dessa época as mulheres não escreves- reveladores de uma escrita também fe-
sem. Isso signiica apenas que, no caso minina.
brasileiro, não foi possível reconstituir A escrita feminina se adere ao
documentações, informações, aponta- papel, mas o transcende. Ultrapassa
mentos e produções (suicientes) que seus limites e, desde sempre, se encar-
nos permitam conformar, antes desse na na pele das pedras, nos cascos das
período, a existência de uma escrita tartarugas, nos troncos das árvores, na
feminina em prol de um movimento rica e diversiicada iconograia amerín-
cultural e social amplo e especíico, o dia, mas não apenas, pois que penso no
de uma literatura de corpo e voz femi- inventário das escritas femininas reper-
ninos. toriados em Xia.

• 216 •
Por vezes essa escrita é também As primeiras escritoras de cor-
uma espécie de literatura em silêncio. po feminino, no Brasil, escreveram
Uma literatura poética que escreve a suas histórias de vida, suas memórias
vida ou apenas a acompanha, de forma sobre leituras e livros lidos, seus apon-
discreta, tímida, ora mais, ora menos tamentos biográicos, bem como sua
passiva e, assim, a sua presença duran- literatura poética e artística no sentido
te os rituais de passagem e através dos mais largo da expressão. Assim izeram
objetos que são criados e trocados ao por intermédio dos pedaços-inteiros
longo da existência, como aqueles lin- de uma literatura até então (incipiente)
díssimos lenços de amor e lenços de porque sem espaço e sem vez naquele
namorado que recolhi entre o Norte primeiro contexto e mercado cultural;
e o Sul de Portugal, a partir de 2001- o mercado do livro mostrou-se hostil
2002. no país, antes e depois, da Primeira Re-
A escrita feminina é permeável, pública.
presente, receptiva à medida que ela A escrita feminina brasileira não
narra o quotidiano e (re)cria memórias foge portanto às relações de força esta-
sobre práticas sociais e culturais que se belecidas com os homens e certamente
perderiam, se subjugadas ao rigor das com outras mulheres, em particular,
normas, dos críticos e das instituições àquelas que se opuseram à emancipa-
que regulam a chamada Literatura. ção, educação e literatura femininas.
A escrita feminina é portanto Quando essa escrita se constituiu
mais abrangente porque ela não de- numa forma estética e vibração discur-
pende exclusivamente do papel, nem siva, a escrita pode manifestar a espe-
dos estatutos literários oiciais, com ciicidade de um tratamento e uso da
seus clichês, etiquetas e categorias. linguagem, a que chamamos feminina,
Essa escrita feminina pude pois iden- donde o conceito de escrita feminina.
tiicar, também, nas tapeçarias, borda- Escrita em feminino. Escritu-
dos e tecidos (samplers) mui presentes ra feminina. Feminina-escrita. Escrita
nas Áfricas, como também em países pelo feminino são nuances, marcas,
de tradição asiática, além dos países apelações e representações que procu-
do Magrebe, da América do Norte, da ram enunciar o tratamento (diferencia-
América do Sul e numa larga amostra, do e variado) dessa escrita: o seu tim-
igualmente, presente na França, Ale- bre, a sua elocução, a sua formulação,
manha, Irlanda, Escócia, Itália, Espa- o seu discurso, o seu peril, silhueta,
nha e alguns países da América Central transparência, estética, linguística e lin-
e Europa do Leste. guagem.

• 217 •
Isto dito enuncio um outro ca- MACEDO, Ana Gabriela; AMARAL, Ana Luisa. Dicio-
nário de Escrita Feminina. Porto: Apontamento, 2005.
minho, cujas indicações bibliográicas
abaixo não são exaustivas, bem evi- MUZART, Zahide Lupinacci Muzart (org.). Dicionário:
Escritoras brasileiras do século XIX. Florianópolis: Ed.
dentemente, mas apoiam e ampliam os Mulheres, 1999, 2001 e 2009. vol. I, II e III.
apontamentos neste verbete sobre esse SANTELLANI, Violette. Femme sans igures et igures
mundo, muito vasto, o da escrita femi- des femmes. In: ROSSUM, Francoise Van; DÍAZ-DIO-
CARETZ, Myriam (Ed.). Hèléne Cixous: Chemins
nina e sua literatura. d’une Écriture. Amsterdam: Rodopi, [s. d.]. p. 149-61.

SLAMA, Béatrice. De la « littérature féminine» à « l’écri-


Catitu Tayassu
re-femme»: diférence et institution. In: Littérature, n°44,
1981. Paris: Perse: L’institution littéraire II. p. 51-81.
Referências e sugestões de leitura
SHOWALTER, Elaine. A crítica feminista no território
selvagem. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de. (Org.).
ANDRADE SOUTO-MAIOR, Valéria. Índice de dra- Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cul-
maturgas brasileiras do século XIX. Florianópolis: Ed. tura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 23-57.
Mulheres, 1996.
TELLES, Norma. Escritoras, escritas e escrituras. In:
BADINTER, Elisabeth. Um é o outro: relações entre ho- PRIORI, Mary de. (Org.). História das mulheres no Bra-
mens e mulheres. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
sil. São Paulo: Contexto, 1997, p. 401-442.
BEAUVOIR, Simone. Les femmes s’entêtent. Paris:
VIANA, Maria José Mota. Do sótão à vitrine : memórias
Temps Modernes, 1974.
de mulheres, Belo Horizonte : UFMG, 1993.
BRANDÃO Izabel ; MUZART, Zahidé Lupinacci
(Orgs.) Refazendo nós : Ensaios sobre mulher e Literatu-
ra, Florianópolis: Ed. Mulheres, 2003.

CESBRON, Georges. “Écritures au féminin. Proposi-


tions de lecture pour quatre livres de femmes”. In: Degré Esporte
Second, Paris, juillet, 1980. p. 75-119.

CIXOUS, Hélène. Chemins d’une écriture. Paris: Presses Não há dúvidas de que na con-
Universitaires de Vincennes, Paris 8, 1990.
temporaneidade o esporte se tornou
CUNHA, Helena Parente (Org.). Desaiando o cânone: um fenômeno cultural com grande
aspectos da literatura de autoria feminina na prosa e na
literatura (anos 70/80). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, abrangência e visibilidade, envolvendo
1999. sujeitos de diferentes contextos cultu-
DE LACERDA, Lilian (Catitu Tayassu). Álbum de lei- rais, seja como praticantes, seja como
tura : memórias de vida, histórias de leitoras, São Paulo
: Unesp, 2003.
espectadores. É uma prática regular
que se desenvolve no cotidiano das
DUBY, Georges; PERROT, Michelle (dir.). Histoire des
femmes en Occident, Paris: Plon, 1990-1991. (5 volu- cidades modernas, despertando inte-
mes). resse, mobilizando paixões, evocando
KRISTEVA, Julia. Revolution in Poetic Language, USA: sentimentos, criando representações
Columbia University Press, 1984.
de corpo, saúde e performance, con-
MISTACCO, Vicki, “Chantal Chawaf,” in Les femmes vocando nossa imediata participação.
et la tradition litteraire - Anthologie du Moyen Âge à nos
jours; Seconde partie: XIXe-XXIe siècles. London: Yale Ainda que seja uma prática que
Press, 2006. p.327-343. adquiriu centralidade na agenda políti-
• 218 •
ca e pedagógica do Brasil em função da ensinado consoante as regras sociais e
organização de megaeventos como a morais daquele tempo e que, ao mo-
Copa das Confederações 2013, a Copa diicar alguns dos antigos jogos po-
do Mundo de 2014 e os Jogos Olím- pulares, impõe a necessidade de uma
picos de 2016, há que referenciar que educação do corpo e do espírito dos
o esporte não é uma invenção do pre- jovens de forma a despertar lideran-
sente. Resulta de conceitos e práticas ças e a personiicar, em carne e osso,
há muito estruturadas no pensamento os ideais representativos de um grupo
ocidental, cujos signiicados foram e social especíico.
são alterados não só no tempo, mas Signo de distinção social, o es-
também no local onde aconteceram e porte passa a ser um estilo de vida,
acontecem. Em outras palavras, o es- com elementos constitutivos que são
porte possui história, e a identiicação expressos na comparação das perfor-
de seu surgimento remete a duas ver- mances atléticas e dos resultados, no
tentes teóricas: uma que localiza suas estabelecimento e submissão às regras
origens na Antiguidade, a partir da ixas, na especialização e na hierarqui-
sua similaridade com algumas práticas zação de papéis e funções, na organi-
vivenciadas por chineses, egípcios e zação em clubes, federações e outras
gregos, e outra que entende o espor- entidades e na estruturação de um
te como um produto da modernidade calendário próprio, tendo no olimpis-
que, apesar de sustentar certa seme- mo um campo de reairmação de sua
lhança com algumas práticas antigas, expressão, institucionalização e conso-
apresenta signiicados e sentidos com- lidação. Entendido aqui como um mo-
pletamente diferentes daquelas. vimento que nasce no inal do século
Em que pese essas diferentes XIX, cuja intervenção se dá na orga-
interpretações, o processo de organi- nização e promoção de valores agrega-
zação do esporte se consolida no im dos à prática esportiva e que tem nos
do século XIX e no início do XX, tor- Jogos Olímpicos sua expressão máxi-
nando-se símbolo de uma sociedade ma, o olimpismo é um terreno pleno
que enaltece os desaios, as conquis- de ambiguidades, pois, ao mesmo tem-
tas, as vitórias e o esforço individual. po em que procura assegurar uma cer-
É o esporte moderno, que se origina ta tradição oriunda da Grécia Clássica,
no século XVIII e se expressa nas pu- convive com a espetacularização do
blic schools inglesas (escolas destinadas esporte que, em diferentes situações,
a formar os ilhos da elite), espaço de distancia-se radicalmente dos valores
construção dos corpos e dos valores agregados às competições de outrora.
burgueses. O esporte que passa a ser Ou seja, há em torno do esporte rasgos

• 219 •
de tradição e de espetáculo, colocando intenso esforço pessoal, conquistaram
em ação diferentes paixões, sentimen- um lugar ao sol num mundo pleno de
tos, atitudes, desejos e vontades. adversidades. O esporte opera também
Ao analisar o esporte, há que se ao nível do imaginário individual e co-
considerar seu inegável potencial de letivo, quando é representado como
mobilização. Não é necessário muito promessa de felicidade, ascensão so-
esforço para identiicar sua capacidade cial, marketing pessoal, domínio tec-
de reunir pessoas de diferentes etnias, nológico, reconhecimento nacional e
gêneros, idades, orientações sexuais, airmação política de determinado país
classes sociais e credos religiosos. Os ou ideologia.
eventos esportivos são exemplares Assim, ainda que possamos
dessa airmação, pois neles podemos falar de um certo espírito olímpico,
visualizar uma espécie de expressão identiicando-o com o amadorismo, o
pública de emoções socialmente con- fair-play, a confraternização entre po-
sentidas: o frenesi, o congraçamento, vos, a exaltação à identidade nacional
a rivalidade, o êxtase, a violência, a e à promoção da paz, na atualidade é
frustração, a explosão em aplausos e necessário ressigniicar esses termos,
lágrimas de sentimentos que fazem vi- visto que não é mais possível entendê-
brar a alma dos sujeitos e das cidades -los como foram idealizados na Grécia
no exato momento em que viviicam a Clássica nem como foram recriados no
tensão entre a liberação e o controle de contexto europeu do século XIX. Há
emoções individuais. um tempo decorrido e outros sentidos
Esse demarcado interesse que o e signiicados foram se agregando ao
esporte desperta nos indivíduos cum- esporte, alterando, por consequência,
pre com a destruição da rotina, na me- muitos de seus valores e de seus princí-
dida em que possibilita uma espécie pios. Essa airmação remete à ideia de
de excitação agradável, promovendo que o esporte é plural e manifesta-se
o sentimento de identiicação coleti- de maneiras distintas em diferentes
va (ELIAS; DUNNING, 1985). Para culturas e tempos, e a essas manifes-
além dessas possibilidades, poderíamos tações agregam-se múltiplos valores.
pensar na própria promoção do espaço Solidariedade, consagração, celebração
esportivo como um terreno de virtu- são palavras por demais positivas se
osas visibilidades, visto que em torno pensarmos nas zonas de sombra que
do esporte, em especial de alto rendi- também residem no interior do mundo
mento, há a construção de representa- esportivo. Nacionalismos exacerbados,
ções que associam seus protagonistas exploração comercial e econômica,
com iguras heroicas que, mediante corrupção, especialização precoce, do-

• 220 •
ping, violência, discriminação sexual mulheres para nele se inserir e perma-
também têm sido temas a fazer parte necer. Representado, construído e pen-
do cotidiano esportivo, mesmo que sado como um território de domínio
por vezes os minimizemos e busque- dos homens, desde seus primórdios
mos a todo custo recuperar a tradição e às mulheres foram destinadas muitas
com ela fazer valer a representação do restrições, cerceamentos e interdições,
esporte como promotor de uma huma- grande parte delas assentadas no te-
nidade imanente a cada um de nós. mor à masculinização e aos prejuízos
Se por um lado o esporte con- que essa prática poderia trazer ao cor-
temporâneo está associado à exibição po feminino, sobretudo se pensarmos
de corpos tecnologicamente produ- em uma representação de feminilidade
zidos e treinados, à demonstração de fundamentada na beleza, na fragilidade
performances que parecem romper e na maternidade.
com os limites do corpo, reairman- Passado muito tempo de sua es-
do sua espetacularização, à exibição truturação, o esporte ainda se mostra
de marcas e produtos a promover seu como um terreno marcado pela desi-
consumo fácil, por outro, a essas prá- gualdade de gênero. Em que pesem as
ticas articulam-se discursos que exal- várias das conquistas das mulheres nes-
tam o seu potencial educativo, expli- se campo, ainda são bastante distintas
citado no convívio entre os diferentes, as condições por elas vivenciadas em
no exercício da competição sadia, no comparação aos homens. No esporte
congraçamento, na solidariedade e na de rendimento, são bem menores os
paz relevando, desse modo, o quanto recursos destinados para patrocínios,
é ambíguo o mundo esportivo. Cabe incentivos, premiações e salários; em
lembrar ainda que na cultura contem- algumas modalidades, a realização de
porânea o esporte se presentiica por campeonatos é bastante restrita e, por
meio de diferentes possibilidades, vezes, inexistente; há pouca visibilida-
sendo o alto rendimento uma de suas de nos diferentes meios midiáticos; a
faces. O esporte é também praticado participação de mulheres em órgãos
como opção de lazer e divertimento, dirigentes e de gestão do esporte é ín-
como espaço de sociabilidade, como ima; a inserção em funções técnicas,
opção de prevenção e/ou reabilitação, como treinadoras e árbitras, ainda é
sendo que a sua apropriação é recriada diminuta.
por quem o usufrui. Em relação ao esporte como
O esporte também é generiica- uma vivência de lazer, também há
do e, ao longo de sua história, foram muito a ser conquistado em termos
muitas as lutas empreendidas pelas de tempo e disponibilidade, uma vez

• 221 •
que, diante da responsabilização das KNIJINIK, Jorge Dorfman (org.). Gênero e esporte:
masculinidades e feminilidades. Rio de Janeiro: Apicuri,
mulheres pelo trabalho doméstico e a 2010.
criação dos ilhos, é notória a restrição
de seu tempo de lazer. Além dessas as- •
simetrias, originárias de representações
historicamente construídas, existem Essencialismo
outros temas ainda pouco abordados
em análises relacionadas à presença das Em seu sentido ilosóico, o es-
mulheres no esporte e que merecem sencialismo constitui-se em uma cor-
rente de pensamento que defende que
maior atenção e cuidado, tais como a
os sujeitos e o mundo que os cerca
crença de que algumas modalidades as
possuem propriedades essenciais, mar-
masculinizam e por essa razão devem
cando-os e constituindo-os enquanto
ser evitadas; os assédios sexual e mo-
o que são. No caso especíico dos fe-
ral e a violência sexual presentes em
minismos, essa perspectiva auxiliou na
clubes, federações e outras instituições
constituição da ideia de que existiria
esportivas; o pouco reconhecimento
uma essência feminina, concepção que
à diversidade sexual; a erotização no auxiliou na constituição de um projeto
modo de se referir às atletas, destacan- intelectual e político para pensar e agir
do seus atributos físicos e estéticos (ou em nome de um nós, a Mulher.
a ausência deles) e não seus méritos es- Segundo Daiana Full (1990, p.
portivos; a subvalorização do esporte 2), apesar do essencialismo ter se ar-
como sua principal ocupação prois- ticulado de muitas maneiras aos femi-
sional; e a não compreensão de que o nismos, podemos pensar essa relação
esporte pode se constituir como um a partir da ideia de uma feminilidade
espaço capaz de empoderá-las. pura, original, na essência fêmea, fora
dos limites do social e, portanto, não
Silvana Vilodre Goellner corrompida (embora, talvez, reprimi-
da) pela ordem patriarcal. O feminis-
Referências e sugestões de leitura mo da diferença desempenhou um
DEL PRIORI, Mari; MELO, Victor Andrade de (org.).
importante papel na constituição de
História do esporte no Brasil: do Império aos dias atuais. uma identidade essencialista, tendo em
São Paulo: Editora da Unesp, 2009.
mente que estudiosas, como Luce Iri-
ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excita- garay e Helène Cixous, defenderam a
ção. Lisboa: Difel, 1985.
existência de uma profunda diferença
GOELLNER, Silvana V. A pluralidade e o potencial pe- entre homens e mulheres, pois, ao mar-
dagógico do esporte na atualidade. Revista E, São Paulo,
v. 11, n. 2, p. 36-39, ago. 2004. car a alteridade feminina, fundamen-

• 222 •
talmente alicerçada na biologia, busca- reivindicações das muitas (e diferentes)
vam alcançar uma equidade social. mulheres.” (2011, p. 49).
Em um panorama geral, as fe- Dessa forma, as mulheres ne-
ministas inseridas dentro do movi- gras, trabalhadoras, lésbicas, enim,
mento da segunda onda questionavam passaram a questionar as relações de
“justamente que o universal, em nos- poder que atravessavam o próprio
sa sociedade, é masculino, e que elas movimento feminista, reivindicar a
não se sentiam incluídas quando eram diferença dentro da diferença. Assim,
nomeadas pelo masculino” (PEDRO, gradualmente o termo Mulher passou
2005, p. 80). Dessa maneira, enquan- a ser utilizado em sua pluralidade, as
to projeto intelectual e político, os fe- Mulheres, com o intuito de romper o
minismos passaram a reivindicar uma binarismo igualdade versus diferença,
cuja antítese “esconde a interdepen-
identidade comum, a Mulher, conver-
dência desses dois termos, pois a igual-
gindo, no campo acadêmico, para uma
dade não é a eliminação da diferença
proposta intelectual comum: opor-se
e a diferença não evita a igualdade”
aos pressupostos androcêntricos dos
(SCOTT, 1988, p. 38). Concepção,
saberes dominantes, rompendo, com
como já explicitado, que obscurece, ao
essa atitude, com a rigidez de propo-
se prender a oposição essencialista Ho-
sições normativas e estáticas de pensa-
mem versus Mulher, a própria diferen-
mento. ça entre as mulheres, seja no âmbito de
Contudo, a ideia essencialista seus desejos, caráter, comportamen-
que envolvia a categoria Mulher come- to, sexualidade, gênero, identiicação,
çou a ser fraturada dentro dos femi- subjetividade e experiência histórica
nismos, tendo em mente que passou a (SCOTT, 1988, p. 45).
problematizar a diferença entre as pró- Apesar da pluralidade imbricada
prias mulheres. Nas palavras de Gua- na categoria Mulheres, o foco principal
cira Lopes Louro: “A diferença entre da pauta feminista ainda era a subordi-
as mulheres, reclamada, num primeiro nação das mulheres à autoridade mas-
momento, pelas mulheres de cor, foi, culina, em suas diversas formas sociais,
por sua vez, desencadeadora de deba- culturais, políticas, econômicas e histó-
tes e rupturas no interior do movimen- ricas. Para Elisabeth Badinter (2005, p.
to feminista. Com acréscimo dos ques- 16-17), as denúncias e reivindicações
tionamentos, trazidos pelas mulheres feministas acabaram por valorizar uma
lésbicas os debates tornaram-se ainda vitimização do sujeito do feminismo.
mais complexos, acentuando a diversi- Dessa forma, “o infortúnio equivale
dade de histórias, de experiências e de a uma eleição, enobrece quem sofre, e

• 223 •
reivindicá-lo é arrancar-se da humani- a experiência de um sexo, tenha mui-
dade comum, é transformar o próprio to pouco, ou nada, a ver com o outro
desconcerto em glória”, ou seja, ao sexo” (SCOTT, 1990, p. 7). Ou seja,
cristalizarem uma vitimização femini- em um primeiro momento as feminis-
na, o feminismo da diferença utilizou tas criticaram o caráter androcêntrico
essa questão como um impulso, tendo da sociedade, propondo um ilogini-
em mente que “(...) a vitimização do
zação radical de suas lutas políticas e
gênero feminino permite unir a condi-
produções intelectuais, mas acabaram
ção das mulheres e o discurso feminis-
por recair em sua própria crítica, em
ta sob uma bandeira comum. Assim,
o quebra-cabeça das diferenças cultu- uma proposta de emancipação que vi-
rais, sociais ou econômicas desaparece sava somente “metade da sociedade”,
como pelo toque de uma vara de con- as Mulheres.
dão. Pode-se até comparar a condição Nesse contexto, o gênero apare-
das europeias, sem enrubescer, com a ceu enquanto categoria questionadora
das orientais, por serem mulheres, são dos modelos estáticos e estereotipados
vítimas do ódio e da violência.” (BA- construídos para homens e mulheres,
DINTER, 2005, p. 18). ou seja, os dispositivos que naturalizam
Apesar de colocar essas ques- padrões de comportamento atribuídos
tões em discussões em diferentes ní- a cada um deles. Contudo, como to-
veis da sociedade, a perspectiva es- dos os empreendimentos dos estudos
sencialista acabou por cristalizar, em feministas, o desenvolvimento teórico
algum sentido, a própria desigualdade do gênero esteve profundamente mar-
que buscava romper. Ou seja, “a críti- cado por uma pluralidade de pensa-
ca feminista também deve compreen- mento presente no seio do movimento
der como a categoria das ‘mulheres’, intelectual e político dos feminismos.
o sujeito do feminismo, é produzida e Em um primeiro momento, as
reprimida pelas mesmas estruturas de estudiosas ligadas aos Estudos Sociais,
poder por intermédio das quais busca- como a Antropologia Social ou a His-
-se a emancipação” (BUTLER, 2008, tória Social, problematizaram a subor-
p. 19). dinação das mulheres por meio do es-
Assim, as feministas da terceira tudo do sistema sexo-gênero, que opôs
onda (1980/90) passaram a propor que o sexo biológico ao gênero cultural. Ao
“estudar as mulheres de maneira isola- cunhar o termo, Gayle Rubin (1993)
da perpetua o mito de que uma esfera, buscava conceituar, sob sua égide, uma
série de arranjos pelos quais uma socie-

• 224 •
dade transforma a sexualidade biológi- discursivo/cultural mediante o qual
ca em produtos da atividade humana, o sexo é estabelecido como natural
e nos quais essas necessidades sexuais ou pré-discursivo. Nessa linha inter-
transformadas são satisfeitas. Num ní- pretativa, o sexo é, ele próprio, uma
vel mais geral, a organização social do postulação, um constructo que se faz
sexo se basearia no gênero, na obriga- no interior da linguagem e da cultura
toriedade do heterossexualismo e na (GUACIRA, 2008; BUTLER, 2010).
repressão da sexualidade da mulher, ou Ao inalizar, observamos dife-
seja, o gênero seria uma divisão social rentes momentos em que os feminis-
imposta aos sexos. mos se depararam e repensaram as for-
Segundo Michelle Perrot (2005), mas como suas próprias reivindicações
essa abordagem do gênero contribuiu e produções intelectuais esbarravam
para o entendimento de como as re- na ordem da essência. Assim, as críti-
presentações e os símbolos operam cas, por nós apontadas nesse verbete,
no campo da cultura e do poder, bem põe em questão a estrutura fundante
como deu destaque ao peso que as re- em que o feminismo, como política de
lações entre os sexos possuem sobre identidade, vem-se articulando. Assim,
os acontecimentos ou na evolução da os feminismos vêm pensado seus posi-
sociedade. Assim, o empreendimento cionamentos, com o intuito de criticar
teórico do sistema sexo-gênero con- a própria estrutura de um relato apre-
tribuiu, de muitas maneiras, para se sentado como universal, nas próprias
pensar no gênero como interpretação palavras que o constituem, não somen-
múltipla do sexo. te para explicar os vazios e os elos au-
Porém, as estudiosas vinculadas sentes, mas para sugerir outras leituras
aos Estudos Culturais, especialmente possíveis.
àquelas ligadas às teorizações pós-es-
truturalistas, passaram a questionar o Ivonete Pereira
Gregory da Silva Balthazar
caráter essencializante da interpretação
do sexo enquanto um dado natural –
Referências e sugestões de leitura
que existiria antes da inteligibilidade,
ou seja, seria pré-discursivo, de caráter BADINTER, Elisabeth. Rumo Equivocado: O Feminis-
mo e Alguns Destinos. Rio de Janeiro: Civilização Bra-
imutável, a-histórico (LOURO, 2008, sileira, 2005.
p. 66). Assim, passou-se a tencionar
BUTLER, Judith. Corpos que Pesam: Sobre os Limites
uma relexão sobre a historicidade do Discursivos do “Sexo”. In: LOURO, Guacira. O Corpo
próprio conceito de sexo e do cor- Educado: Pedagogias da Sexualidade. Belo Horizonte:
Editora Autêntica, 2010, pp. 151-172.
po, sugerindo que o gênero é o meio

• 225 •
______. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão O desaio é produzir conheci-
da Identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2008. mento sem que se caia na armadilha
conceitual de se (re)produzir estereó-
FULL, Diana. Essentially Speaking: Feminism, Nature,
and. Diference. London: Routledge, 1990. tipos. Mas a história dos pensamentos
LOURO, Guacira Lopes. Gênero, Sexualidade e Educa-
cientíicos evidencia que não foram
ção: Uma Perspectiva Pós-Estruturalista. Petrópolis: Edi- poucos os equívocos de estereotipia
tora Vozes, 2011.
cometidos nos mais diferentes cam-
______. Um Corpo Estranho: Ensaios sobre a Sexuali- pos, o que contribuiu para induzir os
dade e Teoria Queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
interlocutores a um comportamento
PEDRO, Joana Maria. Traduzindo o Debate: O Uso da reprodutivo.
Categoria Gênero na Pesquisa Histórica. História, São
Paulo, v. 24, nº 1, pp. 77-98, 2005. Assumir um determinado con-
ceito de estereótipo, como sendo o
PERROT, Michelle. As Mulheres ou os Silêncios da His-
tória. Bauru: Edusc, 2005. mais adequado ou apropriado para a
______. Escrever uma História das Mulheres: Relatos de
análise, estimula o nascedouro de mais
uma Experiência. Cadernos Pagu, n. 4, pp. 9-28, 1995. uma abordagem sem a crítica, comple-
RUBIN, Gayle. O Tráico de Mulheres: Notas sobre a
xidade ou lexibilidade que o termo
“Economia Política” do Sexo. Recife: SOS Corpo, 1993. exige.
SCOTT, Joan. Deconstructing Equality-Versus-Diferen- Em diversas áreas os estereó-
ce: Or, the Uses of Poststructuralist heory for Feminism. tipos são tomados como concepções
Feminist Studies, v. 14, n, 1, pp. 33-50, 1998.
rígidas sobre a realidade que não acei-
______. Gênero: Uma Categoria Útil de Análise His- tam ponderações, questionamentos ou
tórica. Educação e Realidade, Porto Alegre, 16 (2), pp.
5-22, 1990. contraposições. Ou, ainda, como ima-
STONE, Alison. Essentialism and Anti-Essentialism in
gens mentais reduzidas, simpliicadas
Feminist Philosophy. Journal of Moral Philosophy, n. 1, sobre um fato do cotidiano, pessoa,
v. 2, pp. 135-153, 2004.
grupo, lugar, crença, instituição, ma-
nifestação, constituindo-se como um
• julgamento generalizado, resultado do
acesso fragmentado, incompleto, a in-
Estereótipos formações sobre o observado, ou que
se dá mesmo anteriormente à obser-
Compreender o termo estere- vação. Esta forma de pensar conduz
ótipo exige que a análise equacione a um modo de agir e ressalta algum(s)
complexidade, lexibilidade e crítica aspecto(s) especíico(s), único que
necessárias para que não se reconstru- possa(m) ser impingido(s) como carac-
am modelos restritivos de abordagem terística única e determinante do todo,
da questão no campo teórico e práti- de modo a ser visto qualitativamente
co-social (Castro, 1999). como positivo ou negativo.

• 226 •
A questão, assim, na busca da que são diferentes da forma do “eu”
complexidade necessária, não seria de- pensar ou agir, culminou no exercício
bater ou discutir sobre a caracterização de poder econômico-político-ideológi-
dos estereótipos e nem sobre qual seria co de um povo sobre seus inimigos, de
a melhor conceituação para esta pala- um rei sobre seus súditos, de um gêne-
vra, o que seria um reducionismo. Mas, ro sobre o outro.
antes, de discutir os possíveis efeitos Na Ciência, os esforços para
que pensamentos, atitudes ou imagens descobrir ou até criar mecanismos que
estereotipadas possam provocar no justiicassem determinados compor-
âmbito social, político, econômico e tamentos humanos não foram raros e
no campo das Ciências sobre a ques- redundaram em versões estereotipadas
tão de gênero; do que é ser homem da realidade. Os sociólogos positivis-
ou mulher; fêmea ou macho; ativo ou tas Auguste Comte e Émile Durkheim
passivo; homo ou hetero, entre tantas se ocuparam de encontrar regras que
outras formas de se reduzir, estereo- se repetissem, com resultados seme-
tipando as relações humano-sociais lhantes, em contextos, comunidades e
em normais ou patológicas segundo o localidades diversas. Na Psicologia, os
pensamento binário, ou para além des- antecessores de Freud foram buscar
te, a bissexualidade, pan-sexualidade, nas vidas passadas a causa da histeria,
entre outras manifestações humanas. considerada um comportamento es-
Na trajetória da humanidade, tranho aos “padrões” sociais. Nas re-
pensamentos, atitudes e imagens este- ligiões, o ser humano foi visto como
reotipadas colaboraram para explicar produto divino, pronto. No campo das
e/ou legitimar como causa ou efeito linguagens, o estruturalista Ferdinand
da dominação e exploração de um gru- Saussure teve o mérito de conferir um
po pelo outro, de um país pelo outro, caráter cientíico à língua, mas correu
de um gênero sobre o outro; em que o risco de limitar o ser falante ao al-
a estereotipia positiva, historicamen- mejado objetivismo de uma dita nor-
te construída, cabia ao dominante ou ma culta, concebida no seu Curso de
aquele validado como conhecimento Linguística Geral (2013), excluindo, do
verdadeiro; e a estereotipia negativa ao campo de pesquisa, a subjetividade que
dominado ou aquele negado no campo funciona na fala, ou que fala no jogo
dos conhecimentos epistemologica- da alteridade, das relações presentes no
mente válidos. encontro “eu-outro”.
A concepção de opiniões sobre Nos anos de 1960, o pensar o
o “outro”, que não se coadunam com humano como ser que se constitui na
o universo de experiências do “eu”, linguagem, por intermédio do outro,

• 227 •
e, numa relação de troca, atua como o humano à vida, que o faz se alimen-
sujeito na constituição do outro e da tar com novas possibilidades, novas
própria linguagem começou a ganhar teorias, conhecimentos e pontos de
força na França, a partir de teorias sur- vista, que gera inquietações, que o faz
gidas no inal da década de 1920 e no se relacionar com o “outro” almejando
início da de 1930, com a Escola dos a superação das estereotipias. (BAKH-
Annales (BURKE, 2000). Vale lembrar TIN, 1997)
que Freud, no inal do século XIX, já Em vez de ser encarado como
havia iniciado, com a Psicanálise, os es- resultado de uma física social, em que
tudos sobre a inluência da linguagem seria apenas fruto de um conjunto de
na vida humana, inclusive na constitui-
normas pré-estabelecidas, convivendo
ção do inconsciente, teoria que é reto-
com um grupo de iguais, o humano,
mada, volta a ser discutida mais tarde
então, passa a ser visto como único e
na França, com pensadores que cola-
agente ativo da construção histórica
boraram para a construção uma nova
história das Ciências e perceberam plural. Essa unicidade, no entanto, não
que a tentativa de achar fórmulas para poderia advir senão da incompletude
a complexa teia de relações humanas proveniente das relações estabelecidas
poderia apagar, eliminar as diferenças ao longo da existência. O conjunto de
individuais. Quando isso ocorre, a aná- experiências possível a um indivíduo
lise, em vez de ser relativizada, tende não é igual a qualquer outro habitante
a se supericializar, dando origem, jus- do planeta. Mas isso não exime o hu-
tamente, aos estereótipos sancionados mano de ser social, já que, para ser úni-
por pares acadêmicos e fazendo escola. co, a coletividade que o cerca é funda-
(MARTINS, 2004) mental para constituí-lo como tal. Isso
Também no inal da década de
se dá concomitantemente à proposta
1920, na Rússia, Mikhail Bakhtin e seu
de que a coletividade é uma somató-
Círculo de Pesquisa praticamente da-
ria de seres únicos e diferentes uns dos
vam origem a uma ilosoia da lingua-
outros, o que, por si, poderia ser um
gem baseada na dialogia, na concepção
da história como construção social e obstáculo à construção de estereóti-
da Ciência como heterociência, resul- pos. É nesse contato com o diverso, o
tado do intercâmbio entre consciências além do “eu”, o externo, que os grupos
de seres falantes, em que o “eu” é, sim, humanos buscam a desconstrução dos
fragmentado, incompleto, mantendo- estereótipos. Olhar para o igual não
-se, assim, até a morte. Mas é essa in- acrescenta, não produz dúvidas, não
completude, para Bakhtin, que chama faz pensar. Fechar-se no “eu”, mono-

• 228 •
logizante, individualista, elimina a pos- Sendo assim, os estadistas não
sibilidade da experiência, do conhecer, sairiam de cena, mas agora dividiriam
do deparar-se com o “outro” e fazer espaço nos bancos acadêmicos com
um exercício de convivência, de aceita- grupos sociais antes discriminados,
ção, de tolerância. marginalizados, cujas vozes eram aba-
Para estimular o novo, o dife- fadas, pelos “donos do poder”, em for-
rente, a Ciência necessitava, num tem- matos estereotipados com validação
po de efervescência política e cultural negativa. Foram e são ainda exemplos
que foi a década de 1960, mudar o os negros, homossexuais, loucos, mu-
foco e pensar o individual, cada huma- lheres, trabalhadores rurais, transexu-
no enquanto único. Alterar a óptica da ais, bissexuais, num desilar crescente
relexão, migrando da análise histórica de demandantes que, no século XXI,
linear – baseada nos grandes feitos de levantam-se contra as visões e discur-
governantes e imperadores e no per- sos estereotipados, reducionistas e
curso temporal, cronológico, quase que privadores do fomento de diferentes
restrito ao gênero masculino como go- identidades com igual valor.
vernante e do macho guerreiro – para Os campos que tinham, então,
a observação das rupturas, das descon- um caráter unilateral, passaram a lançar
tinuidades históricas que constituem luzes sobre outras fatias da coletivida-
não uma linha, mas uma teia sustenta- de negadas em seus modos de ser, pen-
da sobre discursos, caracterizada por sar e existir pela visão e pelos discursos
repetições, retomadas e silenciamentos estereotipados do real. Antes elitizada,
de alguns textos em detrimento de ou- os estudos davam pistas de que entra-
tros, de alguns conceitos e não de ou- va num processo de abertura, em que
tros que tornam a realidade visível ou a ascensão das classes trabalhadoras
oculta ao pensar. para os bancos universitários faria sur-
É nesse jogo de tensões, de gir um coral de vozes, falas e discursos
disputas ideológicas por meio da lin- dissonantes do dominante tradicional
guagem que a história é construída, – branco, macho, heterossexual, cris-
as relações de gênero explicitadas ou tão –, clamando pelo direito de existir
ocultadas e os estereótipos construídos para além dos estereótipos negativos
ou desconstruídos ou reinventados do que lhes haviam sido historicamente
micro ao macro, segundo pensadores impingidos e construídos como limi-
franceses como Michel Foucault e Mi- tadores da existência. Neste ponto, o
chel Pêcheux. movimento feminista, o movimento

• 229 •
LGBT e o movimento negro foram trimento da fêmea, da mulher, do ho-
forças substantivas na negação de este- mossexual, dos saberes cotidianos que
reótipos e pela busca da igualdade. sobrevivem longe dos bancos acadê-
Nesse contexto, permite-se micos e de tantas outras potencialida-
pensar que a eliminação das diferenças des humanas diversas e plurais.
individuais que explicam os estereó- Considerando o exposto, a in-
tipos encontra respaldo na repetição trodução de estudos sobre grupos
exaustiva de determinados conceitos marginais gerou novas estratégias de
ou imagens, que são transmitidos por manutenção do poder. Essas, por sua
gerações e acabam se consolidando vez, resultaram em novas formas de
como suicientes para explicar o mun- resistência e, por conseguinte, de es-
do, a ponto de tornar invisíveis as re- tereótipos tanto positivos quanto ne-
lações de gênero como constitutivos gativos num jogo de formações das
do real e opressor do outro gênero, consciências, em que, por vezes, o este-
do outro sexo, da outra conduta. Os reótipo foi assumido como uma força
estereótipos, neste ponto, camulam a de reação capaz de unir o grupo contra
exploração e dominação do outro pela os oponentes. Nesse confronto, entre
absoluta exclusão, no caso da valora- estratégias de manutenção do poder e
ção negativa, ou pelo poder absoluto, de resistência é que emerge o novo, a
no caso da valoração positiva, ao apa- oportunidade do diálogo, do pensar
gar as pegadas individuais. sobre os próprios conlitos expressos
No entanto, isto não ocorre de na linguagem e por meio dela. Dessa
forma aleatória. As repetições ou silen- forma, os conceitos sobre o “outro”
ciamentos dependeriam dos interesses vão mudando, alternando-se, sofren-
dos grupos ou indivíduos detentores do variações, contribuindo para uma
de poder numa relação “eu-outro”, discussão sobre os estereótipos que
que direcionam o aparecimento de cer- permeiam as relações sociais, quer po-
tos textos e imagens e não de outros e sitivamente ou negativamente.
a forma como vão aparecer. A dissemi- Diante disso, o desaio é pro-
nação e a manutenção dos estereótipos mover uma lexibilização dos próprios
poderiam ser vistas, nesse nosso jogo conceitos, entendendo, assim, que a
argumentativo, como controle social, Ciência não é portadora de verdades
visando à manutenção e à perpetua- absolutas e que a transformação do co-
ção do próprio poder, do statu quo do nhecimento não se dá na reairmação
macho, do homem, do heterossexual, de dogmas, paradigmas estáticos, este-
do que tem formação superior, em de- reotipados, ou, então, no fazer Ciência

• 230 •
exclusivamente para e com a Ciência, MENIN, Maria Suzana de Stefano. Representação Social
e Estereótipo: A Zona Muda das Representações Sociais.
mas na abertura a vozes plurais disso- Revista Psicologia: Teoria e Pesquisa. Jan-Abr. 2006, vol.
nantes que ultrapassam os estereótipos 22, n. 1, p. 43-52. Universidade de Brasília (UnB).

de poder que constituíram verdades PÊCHEUX, Michel. Semântica e Discurso: uma crítica à
airmação do óbvio. Tradução: Eni Puccinelli Orlandi. 2.
históricas conceituais/visuais ou não. ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1995.
Disso, dependem visões menos este-
reotipadas e mais democráticas e par- •
ticipativas, em que a contribuição das
diferenças individuais apareça em meio
Etnia
a diferentes processos sociais.
No estudo das sociedades, a
Igor José Savenhago partir da análise do grau de consciên-
Wlaumir Doniseti de Souza cia que um determinado grupo social
tem da sua especiicidade cultural, his-
Referências tórica, linguística, religiosa (até mesmo
racial), o termo etnia (e em alguns ca-
BAKHTIN, Mikhail (VOLOCHINOV, V. N.). Marxis-
sos, grupos étnicos, como substituti-
mo e ilosoia da linguagem. 8.ed. São Paulo: Hucitec,
1997. vo), vem obtendo razoável aceitação.
Como os conceitos de raça e de tribo
BURKE, Peter. Escola dos Annales (1929-1989): a re-
volução francesa da historiograia. São Paulo: Editora da são objeto de críticas, enquanto refe-
Unesp, 2000. rencial de análise, o conceito de etnia
CASTRO, Florêncio Vicente; DIAZ, A. V. D.; VEJA, J. tem sido cada vez mais utilizado para
L. V.. Construcción psicológica de la identidad regional: designar a presença de características
tópicos y estereótipos em el processo de socialización el
referente a Extremadura. Badajoz (Espanha): Gráica Dis- culturais comuns a um determinado
putación Providencial de Badajoz, 1999, p. 63-66. grupo social, como, por exemplo, a lín-
MARTINS, R. M.; RODRIGUES, M. L. Estereótipos gua e os costumes. Ainda assim, mui-
sobre idosos: uma representação social gerontofóbica. tos estudiosos consideram o conceito
Millenium. Revista do ISPV, 29, 249-254, 2004.
como incompleto, demandando aper-
SAUSURRE, Ferdinand. Curso de Linguística Geral. 1ª feiçoamento teórico.
reimpressão. São Paulo: Cultrix, 2013.
A palavra etnia deriva de ethnos,
Sugestões de leituras vocábulo grego para designar “povo”,
que, no entanto, podia designar tam-
BAKHTIN, Mikhail. Hacia una ilosoia del acto ético.
bém povos não gregos (conferindo ao
Barcelona: Anthropos, 1997.
termo, neste caso, o sentido de “es-
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de ve- trangeiro”).
lhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
Entre os israelitas da Antiguida-
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 14. ed. Rio de, a palavra equivalente em hebraico
de Janeiro: Graal, 1999.
estabelecia uma nítida diferença entre

• 231 •
os povos da Bíblia e os povos não ju- ao reconhecimento) de um determi-
deus, denominados de “gentios”. No nado grupo étnico. A descendência ou
Novo Testamento, o termo passou a não de uma mesma comunidade ori-
distinguir os seguidores de Cristo dos ginal, neste caso, não é importante: o
não cristãos, ou seja, os pagãos ainda que importa é que os indivíduos com-
não alcançados pelo Cristianismo. Esse partilhem essa crença em uma origem
sentido do termo permaneceu em uso comum. Uma crença conirmada, de
até o século XVIII. seu próprio ponto de vista, pela pre-
No início do século XIX, o an- sença de usos e costumes semelhantes
tropólogo francês Georges Vacher de (religião, língua, costumes, por exem-
Lapouge, no obra L´Aryen, Son Rôle plo). Nesse sentido, a etnia é ou pode
Social (1899), entendendo que o fator ser uma construção artiicial do grupo,
determinante da história era a raça, en- cuja existência depende do interesse de
quanto deinidora das características seus integrantes em dela fazer parte.
hereditárias (físicas) comuns a um gru- Inclusão e identiicação constituem-se,
po de indivíduos, resgatou o conceito assim, em outros dois conceitos-cha-
de etnia para referenciar aquelas carac- ve para a formação e existência de um
terísticas de um agrupamento humano dado grupo étnico.
portador de práticas culturais com- A contrapartida à fórmula da
partilhadas, mas não necessariamente pertença étnica é a questão da exclu-
abarcadas pela raça. são: a construção de uma identidade
O sociólogo alemão Max Weber de grupo frequentemente implica di-
estabeleceu uma distinção não somen- ferenciação e a separação em relação
te entre raça e etnia, mas também entre a um “outro”, do não igual, fator que
etnia e Nação. Para o pensador, perten- promove, não raras vezes, o desenvol-
cer a uma raça implicaria uma mesma vimento de um autoconceito de supe-
origem (biológica ou cultural), enquan- rioridade coletiva, cuja resultante de-
to que pertencer a uma etnia pressupu- semboca na classiicação do diferente
nha a crença em uma origem cultural em um plano social inferior. Esta situ-
comum, independente dos aspectos ação foi observada com frequência du-
físicos do grupo. O conceito de Na- rante o processo de expansão europeia
ção, entretanto, implicava que, além da para outros continentes, a partir dos
presença de tal condicionante (a cren- séculos XV-XVI, postura fortemente
ça no pertencimento), houvesse uma utilizada ao longo de todo o século
demanda de poder politico. Coesão e XIX, ao longo do processo conhecido
pertencimento, portanto, são caracte- como colonialismo. A postura do do-
rísticas imprescindíveis à existência (e minador frente o dominado variou se-

• 232 •
gundo a política de colonização, as ri- um dos polos mundiais de atração de
quezas naturais (ou humanas) e o grau intensos luxos imigratórios prove-
de desenvolvimento e coesão das cul- nientes dos países do leste europeu,
turas locais. O sentimento de superio- asiáticos, africanos e mesmo latino-a-
ridade dos conquistadores, no entanto, mericanos das mais diferentes origens
sempre se fez presente. Desta maneira, raciais, étnicas e culturais. Estas so-
enquanto reforçava o fortalecimento ciedades multifacetadas – com tudo o
dos laços grupais e étnicos dos inva- que o termo sugere, no que se refere
sores, a conquista colonial provocava às práticas diferenciadas de usos, cos-
entre os submetidos uma progressiva tumes, crenças, língua, história e obje-
consciência de pertencimento, em- tivos individuais e de grupo – tem pro-
bora na condição de dominados. Tal vocado reações as mais diferentes, seja
situação gerou, paradoxalmente, em entre os próprios europeus, seja entre
numerosos casos, desejos contraditó- os imigrados - e entre uns e outros.
rios, quase sempre irreconciliáveis: de Diante da realidade, ou seja,
um lado, o desejo de imitar (ou mes- da presença (mais ou menos intensa,
mo de integrar) o grupo dominante, mais ou menos segregacionista, mais
absorvendo seus valores, sua cultura, ou menos excludente) de ações discri-
seu comportamento, em busca de acei- minadoras, ao lado daquelas medidas
tação; de outro, o desenvolvimento de legais voltadas para políticas de inser-
sentimentos de repulsa, de ódio nem ção social, cabe aos diferentes grupos
sempre reprimido, de vingança diante sociais afetados buscar saídas para seu
das humilhações sofridas. desconforto. O conceito de etnia ou
Tais contradições encontraram de grupos étnicos, portanto, mostra-se
espaço de manifestação no decorrer como um termo passível de utilização
das chamadas guerras de independên- quando o objeto de estudo são as so-
cia promovidas por povos africanos e ciedades contemporâneas, envolvidas
asiáticos (e até no continente america- no amplo processo de globalização da
no), processo que avançou, de maneira economia, na expansão dos luxos mi-
mais ou menos violenta, ao longo de gratórios e na popularização do acesso
boa parte do século XX, culminando às mídias sociais.
na formação de numerosos estados As reações, no entanto, não pa-
ainda em processo de construção de ram neste patamar: ao criar a catego-
uma identidade étnica. ria classe social, ainda em meados do
Em movimento paralelo, mas século XIX, Marx permitiu que uma
em sentido contrário, a Europa con- cunha se interpusesse entre o que era
temporânea vem se constituindo em dado como verdade cientíica e a rea-

• 233 •
lidade vivida por milhares de grupos Como resultado imediato dos
étnicos, religiosos, culturais, sociais, intensos estudos desenvolvidos a par-
políticos e sociais ao redor do mundo. tir dos anos 80 emergiu outra demanda
O século XX tornou-se um marco de não menos importante: a inserção/re-
fundamental importância nos estudos lação da categoria de análise etnia, uma
sobre a questão dos diferentes espaços vez que as diferenças de classe e de
e papéis ocupados por diferentes pro- gênero se faziam acompanhar também
tagonistas – e nem por isso uns menos da problemática das peculiaridades
importantes do que outros. étnicas e culturais. Num mundo cada
A rápida expansão da economia, vez mais globalizado, marcado por um
principalmente nas últimas décadas do intenso movimento migratório em di-
século, contribuiu enormemente para reção aos países situados na vanguarda
esta situação: a progressiva substitui- econômica, na busca de melhores con-
ção da força bruta no processo produ- dições de vida e de trabalho, milhões
tivo permitiu o ingresso das mulheres de indivíduos e suas famílias desloca-
no mercado de trabalho, abrindo opor- ram-se, seja do continente asiático, afri-
tunidades de participação no espaço cano ou sul-americano. No processo,
público como sujeitos sociais antes im- acirraram-se as disputas entre os “de
pensáveis. fora” e os “de dentro”, espaços sociais
Essa nova realidade de certa em cujo interior as mulheres constitu-
forma condicionou a necessidade de íram-se/constituem-se em alvo prefe-
repensar as dinâmicas sociais então rido de discriminação. Na qualidade/
ainda vigentes, com vistas a questionar missão de reprodutoras dos padrões
as estruturas do patriarcado e da so- culturais do grupo étnico, foram e ain-
ciedade de classes, as formas como se da são responsabilizadas, tanto pela
manifestavam no interior das relações manutenção, quanto pela reprodução
sociais (familiares, nos grupos étnicos, dos valores da etnia (fator considerado,
no trabalho, na política, na economia), de um lado, como impeditivo da inser-
e nelas, o papel subalterno desempe- ção dos imigrados no grupo dominan-
nhado pelas mulheres. O empenho te – ou em grupos subalternos - ou, de
de muitas intelectuais, principalmente outro, como promotoras de mudanças
no mundo anglófono, no processo de no corpo de valores, na tentativa de in-
construção de um instrumento me- tegração à comunidade local – conduta
todológico adequado para analisar tal igualmente reprovada.
conjunto de situações tão recentes e Consideradas estas tensões (in-
diversiicadas, derivou na criação da tra e extragrupo), vale lembrar que um
categoria gênero. grande número de migrantes (homens

• 234 •
e mulheres) não se “conformam” (ou sos e identidades coletivas que reside
seja, não se ajustam aos contornos de a relação problemática entre estrutura
uma forma previamente estabelecida) e práxis, e entre o social e o indivíduo”
e negam/rejeitam os modelos e valo- (MOORE, p. 16).
res de sua própria etnia. Neste senti- Assim colocada, a análise da
do, é possível identiicar as rupturas de relação entre gênero e etnia deve ser
padrões estabelecidos, principalmente
sempre permeada pelo contexto e nun-
quando uma investigação deine como
ca suposta de antemão. Tais questões
fonte de pesquisa a realização de en-
não podem ser dadas como permanen-
trevistas, dentro das propostas da His-
tória Oral. Ora, se aos homens, via de tes, nem como imutáveis, dado que por
regra, são destinados papéis de domi- vezes, a questão étnica é prioritária; em
nação, de poder (seja na família, seja outras, a sexual se destaca, por exem-
na comunidade, seja no espaço público plo, embora estejam imbricadas.
mais amplo), a contrapartida é a sujei-
Cleci Fávaro
ção das mulheres ao espaço privado,
ato e discurso de submissão. No entan-
Referências e sugestões de leitura
to, a realidade mostra não raras vezes a
subversão de tais papéis sociais. BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo:
MOORE refere que “a identi- Companhia das Letras, 1992.

dade de gênero é construída e vivida”. DEMANT, Peter. O mundo muçulmano. São Paulo:
Segundo a autora, “com gênero e com Contexto, 2004.

raça (ao que se pode acrescentar, com MEMMI, A. Retrato do colonizado precedido pelo re-
trato do colonizador. 3 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1989.
etnia), e com tudo o que podemos de-
nominar como princípios estruturan- MOORE, Henrietta L. Fantasias de poder e fantasias de
identidade: gênero, raça e violência. Revista do Núcleo
tes da vida social humana, o problema de Estudos de Gênero – PAGU, São Paulo: UNICAMP,
de como os indivíduos levam vidas n.14, p.13-44, 2000.

coletivas surge e ressurge como uma MURARO, Rose Marie; PUPPIN, Andrea Brandão
das problemáticas mais urgentes para (org.) Mulher, Gênero e Sociedade. Rio de Janeiro: Re-
lume Dumará: FAPERJ, 2001.
a ciência social contemporânea” (MO-
LISBOA, Teresa KLeba. Gênero, Classe e Etnia. Trajetó-
ORE, p. 15). Cabe perguntar: o que rias de vida de mulheres migrantes. Florianópolis: Ed. Da
faz com que os indivíduos resistam ou UFSC; Chapecó: Argos, 2003.

obedeçam? “Questões de desejo, iden- POUTIGNAT, Philippe; STREIFF-FENART, Jocelyne.


tiicação, fantasia e medo tem de ser Teorias da etnicidade. Seguido de Grupos étnicos e suas
fronteiras, de Fredrik Barth. São Paulo: UNESP, 1998.
discutidas. Como cada indivíduo tem
SAYAD, Abdelmalek. A imigração ou os paradoxos da
uma história pessoal, é na “interseção alteridade. São Paulo: USP, 1998.
dessa história com situações, discur-

• 235 •
• A Eugenia surge em um período
em quem vários cientistas dedicam-se
Eugenia ao estudo da herança biológica, dentre
eles podemos citar: Thomas Malthus,
Datado de 1882, o termo Eu- estudioso das leis de invariabilidade
genia foi cunhado pelo inglês Francis biológica e Prosper Lucas, cientista
Galton, cuja dedicação às diversas áre- francês que, por volta de 1850, investi-
as do conhecimento lhe permitiu ver- gou a Genealogia, relacionando carac-
sar sobre inúmeros “fenômenos natu- teres mentais e morais de criminosos e
rais”. Antes de se lançar aos estudos delinquentes (STEPAN, 2005).
eugênicos, transitou pela Geograia, Muito mais que fruto do re-
Meteorologia, Genética, Estatística, sultado de uma série de estudos que
Psicologia, Criminologia, Biometria. se caracterizaram como cientíicos,
Seu contínuo interesse em desvendar a partir de meados do século XIX, a
a hereditariedade o levou aos estudos Eugenia consolida-se em meio a dis-
antropométricos e à criação do labo- cursos raciais, muito em voga naquele
ratório de Antropometria. Com isso, período. Assim, constitui-se como um
Galton ampliou seus estudos acerca movimento de intervenções políticas e
das características humanas, tentando cientíicas. Como movimento político,
encontrar tantas características mensu- criava condições para que os resulta-
ráveis possíveis, para assim estabelecer, dos e proposições advindas de seus
por meio da estatística, uma relação “estudos” fossem inseridos em âmbito
com determinantes hereditários. social, muitos deles, por meio de medi-
Assim, Francis Galton pensa a das estatais de intervenção, como foi o
Eugenia como ciência da melhoria da caso de alguns países como Alemanha,
raça, capaz de legar às gerações futu- Estados Unidos da América e Argen-
ras boas qualidades morais, físicas e tina (HABIB, 2010; VALLEJO e MI-
mentais. Baseada nas discussões sobre RANDA, 2004; BLACK, 2003).
hereditariedade, a Eugenia apoiar-se- De modo geral, é possível si-
-ia sobre os estudos genealógicos e nalizar que a Eugenia atuava em três
as medidas antropométricas, para en- esferas: “Eugenia Positiva” - visava a
tão orientar suas ações. Inspirada no incentivar que casais “bem-nascidos”
controle do cruzamento seletivo, mui- tivessem um número maior de ilhos
to utilizado na agricultura, propunha do que os casais “disgênicos”, para
aplicá-lo à espécie humana com ins a tanto as medidas de incentivo ao ma-
obter um número cada vez maior de trimônio eugênico e ao aumento da na-
sujeitos com características superiores. talidade “hígida” deveriam ser incenti-

• 236 •
vadas; “Eugenia Negativa” - pretendia inicial uma palestra sobre Eugenia,
que o os casais “malnascidos” tivessem na Associação Cristã de Moços – SP.
menos ilhos do que os “casais eugê- Em 1918, é fundada a Sociedade Eu-
nicos”, como exemplo é possível citar gênica de São Paulo, sob os auspícios
medidas como a segregação, esteriliza- do próprio Kehl e Arnaldo Vieira de
ção e práticas de assassinato e aborto; Carvalho. Os dizeres e os anseios da
Eugenia Educativa - pretendia ensinar Eugenia, naquele momento, diziam
os preceitos eugênicos, os mecanismos respeito a uma série de intervenções
da hereditariedade e a identiicar na em diversos campos, dentre eles o Sa-
população os sujeitos que carregavam neamento, Higiene, Educação e tam-
os sinais da boa herança, assim como bém Educação Física (SOUZA, 2006,
os considerados malnascidos (STE- SILVA, 2008).
PAN, 2005, SOUZA, 2006). Apesar do movimento eugênico
A partir do início do século brasileiro organizar-se somente ao inal
XX, começam a despontar, na Euro- da década de 1910, já se faziam presen-
pa, as primeiras Instituições eugênicas. tes, por volta de 1900, discursos sobre
Algumas delas destinavam-se a inves- a Eugenia. Naquele momento, havia
tigações cientíicas, outras, a discutir alguns intelectuais que argumentavam
e promover políticas e legislação em em favor de uma melhoria racial, por
defesa de seus ideais. Fundada em meio de boas condições socioambien-
Berlim, em 1905, a primeira Institui- tais, assim como grupos mais radicais
ção foi The German Society for Race que pregavam práticas como segrega-
Hygiene, depois surgiu The Eugenics ção, esterilização e exames médicos
Education Society, na Inglaterra, em pré-nupciais.
1907-1908, The Eugenics Record Of- O movimento eugênico brasi-
ice, nos Estados Unidos, em 1910, e leiro atinge seu auge, realizando, em
a French Eugenics Society, em Paris, 1929, o I Congresso Brasileiro de Eu-
em 1912. Além disso, organizações e genia. Naquele mesmo ano, o “Bole-
temas eugênicos acharam seus cami- tim de Eugenia” começa a ser editado,
nhos em Áreas cientíicas, tais como a tendo seu último número lançado em
Antropologia, Psiquiatria, e Sociologia; 1933. Em 1931, Renato Kehl encabe-
seções de Eugenias eram estabelecidas ça a Comissão Central Brasileira de
em muitas organizações representan- Eugenia, um órgão que promoveria o
tes destas disciplinas (STEPAN, 2005). estudo e a divulgação da causa eugêni-
No Brasil, Renato Kehl inau- ca. Assim, grupos de eugenistas dedi-
gura, em 1917, uma campanha de di- cam-se a construir propostas de polí-
ticas públicas para serem apresentadas
vulgação eugênica, tendo como marco
ao governo que se iniciaria no ano de
• 237 •
1930. Apesar de sua fase profícua, ain- Ao homem, entretanto, cabia
da na primeira metade da década de o lugar de representante universal da
1930, a Eugenia brasileira começa a humanidade que se pretendia eugêni-
perder força política e adeptos (SOU- ca. Dentre suas características, pode-se
ZA, 2006; REIS, 1994). destacar a beleza física, a saúde orgâni-
Atravessada pelas representa- ca perfeita, a moralidade isenta de ví-
ções de seu tempo, a Eugenia constitui cios e a força atlética. Avesso ao álcool,
e constitui-se vinculada às hierarquias aos jogos de azar e às práticas sexuais
de gênero, atribuindo à natureza mani- que levariam às doenças venéreas, o
festa nos corpos causa primeira destas homem puro-sangue, representado
desigualdades. De acordo com Stepan pela estatuária grega, era adepto das gi-
(2005), as vinculações entre gênero e násticas e esportes (SILVA e GOELL-
Eugenia estabeleciam-se em um de NER, 2010).
seus fundamentos mais básicos, a re- Neste processo de construção
produção sexuada. Assim, consideran- de representações de gênero, o lugar
do que em muitos contextos regionais do outro, do disgênico e do intolerável
a reprodução era atribuição “essencial” também se constituía. Aos homens, a
das mulheres, diversos projetos eugê- moralidade malsã manifesta no vício
nicos centraram-se na feminilidade e do álcool e do jogo ladeava aquele su-
maternidade. jeito que, imprevidente, destruía a fa-
Cabe ressaltar, entretanto, que as mília pelos lastros da síilis.
relações entre gênero e Eugenia devem Às mulheres, a beleza como
ser consideradas nas especiicidades de obrigação era evidenciada por re-
cada caso (STEPAN, 2005). Por exem- presentantes femininas indolentes e
plo, dos diálogos estabelecidos entre vulgares, cujos corpos obesos eram
exercícios físicos e o projeto eugênico descritos como exemplos do que não
de Renato Kehl é possível identiicar as se deveria ser. De modo semelhante,
ginásticas e as danças como práticas de mulheres sedutoras de posse de seus
embelezamento e potencializadoras da truques dissimuladores de imperfei-
graciosidade e saúde femininas. Bela, ções são indicadas como vulgares e de
feminina e maternal (GOELLNER, moral duvidosa.
2003), a mulher/mãe deveria eviden- As relações entre gênero e Eu-
ciar seus encantos, sobretudo os físi- genia sinalizam ainda alguns pontos
cos, a im de encontrarem “bons mari- controversos, cujos estudos mais de-
dos”, como sugere a obra Kehl, datada tidos podem lançar outras possibili-
de 1935. dades de interpretação. Entrelaçadas à

• 238 •
pretensa neutralidade cientíica e natu- STEPAN, N. L. A hora da Eugenia: raça, gênero e na-
ção na América Latina. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz,
ralizadas pelas leis da natureza, as rela- 2005.
ções de gênero serviram de premissa
VALLEJO, Gustavo y MIRANDA, Marisa A. (2004),
ao pensar e ao fazer eugênico, assim “Los saberes del poder: Eugenesia y Biotipología en la
Argentina del siglo XX”, In Revista de Indias, Vol. LXIV,
como foram ressigniicadas pela “ciên- N° 231, Madrid.
cia da melhoria da espécie”.
Sugestões de leitura
André Luiz da Silva
ALBRIZIO, A. Biometry and Anthropometry: from Gal-
ton to Constitutional Medicine. In: Journal of Anthropo-
Referências
logical Sciences Vol. 85, pp. 101-123, 2007.

BLACK, E. A guerra contra os fracos. São Paulo: A Girafa CASTANED, L. A. Eugenia e casamento. História, Ciên-
Editora, 2003. cia e Saúde: Manguinhos. N.1 Rio de Janeiro: Fundação
Oswaldo cruz, 2003.
GOELLNER, S. V. Bela, maternal e feminina: Imagens
da mulher na Revista Educação Physica. Ijuí: Unijuí, GOULD, S. J. A falsa medida do homem. São Paulo:
2003. Martins Fontes, 1999.

HABIB, P. A.B.B. Agricultura e biologia na Escola Su- VALLEJO, G. Cuerpo y representación: la imagen Del
perior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ): os Hombre en la eugenesia latina. In: VALLEJO, G. e MI-
estudos de genética nas trajetórias de Carlos Teixeira RANDA, M. A. Políticas del Cuerpo: estratégias moder-
Mendes, Octavio Domingues e Salvador de Toledo Piza nas de normalización del indivíduo y la sociedad. Buenos
Jr. (1917-1937). Tese (Doutorado em História das Ci- Aires: Siglo XXI Editora Iberoamericana, 2
ências e da Saúde) – Fundação Oswaldo Cruz. Casa de
Oswaldo Cruz, 2010.

KEHL, R. F. Como escolher um bom marido? Regras


práticas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ariel Editora Ltda., 1935b.

REIS, J. R. F. Higiene mental e Eugenia: o projeto de


“regeneração nacional” da Liga Brasileira de Higiene
Mental (1920-30). 1994. 353 f. Dissertação de Mestrado
em História. Instituto de Filosoia e Ciências Humanas –
Universidade Federal de Campinas, 1994.

SILVA, A. L. A perfeição expressa na carne: A educação


física no projeto eugênico de Renato Kehl, 1917 a 1929.
Dissertação de Mestrado em Ciências do Movimento
Humano – ESEF/UFRGS. Porto Alegre, 2008.

SILVA, A. L. S. e GOELLNER, S. V. A invenção do ho-


mem eugênico: Enlaces entre Eugenia e Educação Física
nas obras de Renato Kehl (1917-1929). In: KNIJINIK,
J. D. e ZUZZI, R. P. Meninas e meninos na Educação
Física. Jundiaí, SP: Fontoura, 2010.

SOUZA, V. S. A Política Biológica como projeto: a


“Eugenia Negativa” e a construção da nacionalidade na
trajetória de Renato Kehl (1917-1932). Dissertação de
Mestrado apresentada ao Programa de pós-graduação da
COC/Fiocruz, 2006.

• 239 •
Família

Tal como outras categorias im-


portantes para a relexão crítica das
relações de gênero, o termo família
resiste a qualquer esforço delimitador
e universal de conceituação. A história
que marca a construção da ideia de um
conceito de família, pautado em rele-
xões teóricas e pesquisas empíricas em
marcha desde o século XIX, explicita
exatamente os limites interpretativos
das correntes analíticas que tendiam a
projetar sobre essa instituição um ideal
de unicidade, hoje amplamente con-
testado. Ao longo dos anos, os limites
dessas formulações teóricas foram se
tornando cada vez mais evidentes, de-
saiando os especialistas contemporâ-
neos a buscarem novas alternativas de
análise.
Os esforços frequentemente re-
novados de apreensão do conceito de
família, tanto na literatura estrangeira,
quanto na produção acadêmica nacio-
nal, não deve ser entendida de outro
modo senão como o resultado de um
longo debate motivado por diferentes
vertentes das Ciências Humanas. O
amplo repertório de escritos sobre fa-
mília só demonstra que o conceito está
muito longe de respeitar as fronteiras
estáticas, universais e deinitivas far-
tamente atribuídas por linhas teóricas
tradicionais a esta instituição. É pre-
cisamente por seu caráter dinâmico, e
por acompanhar o movimento da his-

• 240 •
tória por meio de importantes mudan- mática da família ocupou um espaço
ças em seu interior, que ainda faz todo central. Distribuída em diferentes tra-
sentido reletir sobre a ideia de família balhos, a relexão sobre família formou
e reformular a noção que fazemos des- um plano coeso de análise no conjunto
se grupo social, sem desatá-lo de toda de seus escritos, fundamentando em
uma contribuição teórica anterior. muitos aspectos a teoria psicanalítica
Como apontam os estudos re- por ele formulada. O impacto de seus
trospectivos sobre família, foi em me- textos foi tão profundo para o pensa-
ados do século XIX que os primeiros mento cientíico posterior que estudio-
teóricos, oriundos do campo da Filo- sas como Moraes e Bruschini, preocu-
soia e da Antropologia, romperam padas com as mudanças operadas no
com a assertiva dominante de que fa- conceito de família dentro do contexto
mília era uma instituição natural e ge- histórico brasileiro, não vacilaram ao
neralizada. A partir daí, pelo trabalho airmar que “depois de Freud, os estu-
desenvolvido por autores como Henry dos de família não podem mais anali-
Morgan, Jakob Bachofen e Friedrich sar as relações familiares sem levar em
Engels, a família tornou-se objeto de conta o nível psicológico das relações
estudo da Ciência. Conforme indica sociais que se passam em seu interior”
Bruschini, a família foi considerada (BRUSCHINI, 1989, p. 5). Concluin-
desde então como “uma instituição do, portanto, que é difícil “pensarmos
social e histórica, cujas estruturas e em termos de teoria da instituição fa-
funções são determinadas pelo grau de miliar sem o recurso aos conhecimen-
desenvolvimento da sociedade global” tos de psicanálise” (MORAES, 1985,
(1990, p. 34). p. 145).
Os debates teóricos se con- A solução freudiana para com-
centraram, em seguida, em descobrir preender a família, segundo se pode
como a família evoluiu no passado, depreender das leituras e reapropria-
seu comportamento no presente e as ções feitas à sua obra por autores como
formas que seriam adotadas por essa Ariès (1978) e Poster (1979), pautou-
instituição no futuro. Logo, as discus- -se na análise dos laços e da vivência
sões se diversiicaram, assumindo di- emocional como o fator responsável
ferentes perspectivas, na expectativa pelas relações sociais no seio de toda
de determinarem os estatutos teóricos estrutura familiar. A dimensão psicoló-
que dariam signiicado à família. gica dos personagens que compõem tal
A primeira grande contribuição unidade, uma vez considerada, revelou
à teoria da instituição familiar veio com uma série de conlitos, de disputas, de
a difusão da obra de Freud. Nela, a te- hierarquias e relações de força antes

• 241 •
invisíveis ou pouco valorizadas. Além femininos. A nova dinâmica domésti-
disso, a leitura de Freud sobre família ca funcionou por intermédio de uma
forneceu importantes argumentos para moral biológica que naturalizava a mu-
a conceituação cientíica do modelo de lher como mãe e protetora do lar e o
família nuclear moderna. homem como agente de autoridade e
Com base na teoria freudiana único provedor das condições mate-
de família moderna, alicerçada no ca- riais de subsistência.
samento, na iliação e na ideia de amor No Brasil, a vertente histórica
romântico, o pensamento sociológico, do funcionalismo icou a cargo de Gil-
representado pela corrente a qual se berto Freyre e Antonio Candido, que
convencionou chamar de funcionalis- se ocuparam em descrever a família
mo, sistematizou uma deinição uni- patriarcal e suas transformações. Até o
versal de família que inluenciou gran- início da década de 1970, predominou
de parte da produção sobre o assunto nas pesquisas sobre família no Brasil o
até os anos 1980. O modelo nuclear modelo de família patriarcal extensa,
difundido pelo funcionalismo excluiu difundido especialmente por Freyre,
da sua lógica explicativa qualquer ar- com a publicação, na década de 1930,
ranjo familiar que não correspondes- da obra Casa Grande e Senzala. A uni-
se aquele composto por um pai, uma dade doméstica da família patriarcal,
mãe e a prole originada dessa relação serviu de molde para a introspecção de
conjugal. O ingresso numa sociedade uma mentalidade referencial de família
moderna industrializada, conforme no Brasil, enquanto os outros modos
defendia a corrente funcionalista, em- de organização familiar foram relega-
purrou a instituição familiar a produzir dos a planos obscuros ou secundários.
uma importante mudança na sua con- Foi somente na década de 1980 que, no
formação, substituindo gradualmente Brasil, o uso generalizado desse mode-
as unidades domésticas expandidas por lo foi relativizado, com os trabalhos de
núcleos mais restritos de convivência Correa (1982) e Samara (1986).
familiar. Essa transformação teria sido Antes disso, ou concomitante a
acompanhada, dentre outros ajustes, essas relexões, estudiosos no mundo
por uma delimitação mais precisa en- já começavam a minar o conceito es-
tre as funções assumidas por homens trutural e universal de família dissemi-
e mulheres no interior da família. A nado pelo funcionalismo. Ariès (1978),
partir de então, família virou sinôni- sem adotar uma explicação evolu-
mo de unidade doméstica harmônica, cionista e linear, elaborou uma análi-
privada e independente, graças a essa se sobre a família a partir da ideia de
diferenciação de papéis masculinos e que as mudanças na estrutura familiar

• 242 •
poderiam acarretar transformações na autoridade e internaliza a submissão. A
estrutura emocional e psíquica de seus vertente frankfurtiana ousou tocar na
membros. Embora seu enfoque fosse ferida ao, de certo modo, denunciar a
o surgimento da infância como catego- família como agência reprodutora de
ria social, sua análise sobre a consoli- ideologias conservadoras. Contudo,
dação da família moderna, por volta do este reduto de dominação poderia dei-
século XVIII, inluiu na percepção de xar de ser o lugar de subserviência à
que tanto o conceito de família quan- autoridade paterna para se converter,
to o de infância eram ideias historica- por sua dupla dinâmica social, no local
mente construídas. Para ele, essa noção de oposição à tirania, de onde, portan-
poderia contribuir no conhecimento to, poderiam surgir as mudanças neces-
sárias para a autonomia dos indivíduos
da história social se fossem examina-
na vida cotidiana.
das as estruturas emocionais da vida
Esses desdobramentos dos es-
cotidiana dos vários tipos de família,
tudos sobre família, acompanhados
e não só do modelo nuclear, levando
de importantes contribuições para o
em consideração sua análise num nível
debate, como os advindos da teoria
psicológico. Poster (1979), tal como
psicanalítica de Freud, não foram su-
o historiador francês, também esteve
icientes para suplantar as ideias enges-
preocupado em demonstrar que é na sadas e atemporais que predominaram
família que o indivíduo encontra segu- sobre o conceito até a década de 1980.
rança emocional e aprende a manipular Poster, um dos críticos desse conhe-
seus sentimentos, por ser ela a primeira cimento simpliicador de família, sen-
instituição social de pertencimento. tenciou, em publicação de 1979, que
Paradoxalmente, do ponto de as Ciências Sociais ainda não possuíam
vista da normatização de leis e cos- uma deinição apropriada de família,
tumes, a família também adquiriu o ou mesmo um complexo coerente de
status de um lugar onde os conlitos e categorias que servisse de base para a
as ambiguidades eram gerados, trans- sua análise, ou ainda um esquema ri-
formando-se num espaço de frequen- goroso de conceitos para especiicar o
te coação social e psíquica. Na defesa que de signiicativo há em seu interior.
dessa ideia estiveram os pensadores da Não à toa sua provocação anunciava
Escola de Frankfurt, que de um modo uma nova tendência da literatura sobre
geral, passaram a debater o conceito de família, dedicada a iniciar o processo
família como o lugar de adestramento de compreensão das estruturas fami-
para a adequação social, onde a crian- liares divergentes, e não mais dos mo-
ça aprende a relação burguesa com a delos genericamente construídos.

• 243 •
Foi na virada dos anos de 1970 Também no Brasil, parte con-
para os anos 80 que, inclusive no Brasil, siderável dos estudos sobre família foi
um salto quantitativo e qualitativo foi inspirada ou dialogou com os avanços
registrado nos estudos que se dedica- e recuos do movimento de mulheres,
ram a conceituar família. As vertentes comprometido em grande medida
de estudos sobre a mulher integraram com o questionamento e a superação
este novo esforço teórico com bas- do modelo patriarcal e opressivo das
tante empenho, produzindo parte das relações familiares (MORAES, 1985).
pesquisas que, daí em diante, buscou Esta associação de interesses, que
tratar a categoria família conforme as aproximou a teoria da prática feminis-
suas especiicidades, buscando alcan- ta, evidencia o signiicado político da
çar toda sua pluralidade e dinamismo. discussão sobre família.
Os limites impostos às mulheres Mesmo com o volumoso con-
pelas normas de feminilidade e de or- junto de debates sobre família, ainda é
ganização do trabalho e da família foi o possível airmar que pouco se sabe a
que impulsionou as estudiosas feminis- respeito dela, e que muitas são as di-
tas, muitas delas formadas pela linha de iculdades em conhecer e sistematizar
pensamento marxista, a questionarem sua multiplicidade de tipos. No mundo
o tão consagrado modelo nuclear de contemporâneo, as formas alternativas
família. Do ponto de vista das relações de família, caracterizadas, por exemplo,
entre os gêneros, já não era admissível por pais e mães em seus segundos casa-
corroborar com uma ideologia que mentos, ou por mães solteiras, ou por
propagava o ideal de domesticidade da casais sem ilhos ou ainda por casais
mulher e legitimava as funções familia- homossexuais (FERES-CARNEIRO,
res conforme um determinismo bioló- 2005), tornam-se cada vez mais visí-
gico cada vez mais refutado pela epis- veis, desaiando o conceito monolítico
temologia feminista. O olhar crítico tradicional. Essas reformulações têm
sobre o modelo positivista de ciência, feito com que a deinição do termo fa-
que tanto colaborou com o essencia- mília, e sua própria realidade, assuma
lismo e o reducionismo na formulação um signiicado mais complexo e plural.
de um conceito de família, contribuiu,
Maria Beatriz Nader
acima de tudo, para valorizar a alteri-
Livia Silveira Rangel
dade da mulher e, consequentemente,
para denunciar o obscurecimento das Referências
diferentes experiências familiares em
tempos e lugares distintos. ARIÈS, Philippe & DUBY, Georges. História Social da
Criança e da Família. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

• 244 •
BRUSCHINI, Maria Cristina Aranha. “Uma abordagem PRADO, Danda. O que é Família. São Paulo: Brasiliense,
sociológica de família”. In. Revista Brasileira de Estudos 1981.
Populacionais, São Paulo: ABEP, v. 6, n. 1, p. 1-23, jan./
jun. 1989.

______. Mulher, Casa e Família: Cotidiano nas Camadas
Médias Paulistas. São Paulo: Fundação Carlos Chagas:
Vértice: Editora Revista dos Tribunais, 1990. Feminicídio
CÂNDIDO, Antônio. “he Brazilian Family”. In.Brazil,
Portrait of Half a Continent. New York: Dryden Press, O conceito de feminicídio é uti-
1951. p. 291-331. lizado para designar os homicídios de
CORRÊA, Mariza. “Repensando a Família Patriarcal mulheres em razão da condição de gê-
Brasileira”. In. ALMEIDA, Maria Suely K. Colcha de Re- nero. Entende-se como uma forma ex-
talhos. São Paulo: Brasiliense, 1982. p. 13-38.
trema de violência de gênero que resul-
ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Proprieda- ta na morte de mulheres. A expressão
de Privada e do Estado. Tradução Leandro Konder. Rio
de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. femicídio – ou ‘femicide’ como formu-
FERES-CARNEIRO, Terezinha (Org.). Família e Casal:
lada originalmente em inglês – é atribu-
efeitos da contemporaneidade. Rio de Janeiro: Ed. PU- ída a Diana Russel, que a teria utilizado
C-Rio, 2005.
pela primeira vez em 1976, durante um
FREUD, Sigmund. Obras completas. 3.ed. Madrid, Bi- depoimento perante o Tribunal Interna-
blioteca Nueva, s.d
cional de Crimes contra Mulheres, em Bru-
HELLER, Agnes. “O futuro das relações entre os sexos”. xelas. (1976) Já no Brasil, a categoria
In. CERRONI, Umberto et al. A crise da família e o
futuro das relações entre os sexos. Rio de Janeiro: Paz e
“femicídio” foi utilizada por Heleieth
Terra, 1971. Safioti e Suely Almeida (1995), com
MORAES, Maria Lygia Quartim de. “Família e Feminis- uma análise sobre homicídios de mu-
mo: o encontro homem/mulher como perspectiva”. In. lheres nas relações conjugais.
Perspectivas, São Paulo, n. 8, p. 143-152, 1985.
Pode-se dizer, que o feminicí-
POSTER, Mark. Teoria Crítica da Família. Rio de Janei- dio conigura-se como o ápice da tra-
ro: Zahar, 1979.
jetória de perseguição à mulher, com
diferentes formas de abuso verbal e
Sugestões de leitura
físico: como estupro, tortura, incesto
BORGES, Ângela; CASTRO, Mary Garcia (Orgs.). Fa- e abuso sexual infantil, maltrato físico
mília, gênero e gerações: desaios para as políticas sociais.
e emocional, perseguição sexual, escra-
São Paulo: Paulinas, 2007.
vidão sexual, heterossexualidade força-
CANEVACCI, M. (org.) Dialética da família: gênese,
estrutura e dinâmica de uma instituição repressiva. São
da, esterilização forçada, maternidade
Paulo: Brasiliense, 1981. forçada, psicocirurgia, entre outros,
GOODE, Willian J. Revolução Mundial e Padrões de Fa-
que culminam com a morte de muitas
mília. São Paulo: Nacional: EDUSP, 1969. mulheres. O feminicídio, em alguns pa-
LÉVIS-STRAUSS, C. A família: origem e evolução. Por-
íses da América Latina também é co-
to Alegre, Editorial Villa Martha, 1980. nhecido como femicídio, termos que

• 245 •
são utilizados para denunciar morte de sil, Bolívia, Chile, Costa Rica, El Salva-
mulheres que ocorrem em diferentes dor, Guatemala, Equador, Honduras,
contextos sociais. Nicarágua, Panamá, Paraguai e Peru
A violência contra a mulher (CLADEM, 2007) que buscam abor-
possui uma historicidade em torno da dar a questão do feminicídio, visando a
dominação masculina e dos padrões proteção das vítimas de violência femi-
culturais patriarcais. Seguindo essa ló- nina e entre outros princípios, garantir
gica histórica, o feminicídio apresenta o direito da mulher, bem como o aces-
complexidades em estabelecer na so- so a justiça. E, em última instância fun-
ciedade a caracterização dos responsá- damentar as discussões sobre a morte
veis, devido em parte, a burocratização ser ou não causada pela discriminação
excessiva de procedimentos jurídicos, baseada no gênero.
além das diiculdades na investigação As abordagens sobre feminicí-
criminal. dio, em certo período histórico, aten-
A repercussão na esfera social tavam para o campo de análise sob o
e intergeracional, trouxe, a partir de viés da relação de dominação ou mes-
2006, um estudo aprofundado sobre mo do modelo patriarcal nas questões
todas as formas de violência contra de gênero, porém, com o avanço das
as mulheres, proposto pela Secreta- perspectivas analíticas sobre a trans-
ria Geral das Nações Unidas. Neste versalidade de gênero com outros mar-
estudo, concluiu-se que a violência cadores sociais (idade/geração, raça/
contra a mulher ainda é um problema cor, religião, orientação sexual, origem
complexo que se manifesta em mo- social/regional) e as diferentes experi-
dos diferentes, de modo contínuo e ências de ser mulher contribuíram para
generalizado, afetando as chances de outras análises sobre como os crimes
desenvolvimento e progresso de cida- ocorrem e quem os pratica.
dãos. Um dos maiores obstáculos para Ainda há muita diiculdade na
os estudos sobre mortes de mulheres, qualiicação do crime de feminicídio,
e sobre os homicídios de forma geral, isso porque há conlitos nas estatísti-
como no Brasil, se dá pela falta de da- cas oiciais; os dados apresentados pe-
dos oiciais que permitam ter uma vi- los serviços de segurança e justiça tem
são mais próxima do número de mor- diferentes encaminhamentos daqueles
tes e dos contextos em que ocorrem. apresentados pelos serviços de saúde.
Com essa preocupação em estabelecer Nesse sentido, não se pode dis-
os dados, foram realizados alguns es- sociar a violência contra as mulheres
tudos em diferentes países da América com as relações de gênero, pois a vio-
Latina, como México, Argentina, Bra- lência é deinida como universal e es-

• 246 •
trutural e fundamenta-se no sistema de ou meninas tentam intervir para impe-
dominação patriarcal presente em pra- dir a prática de um crime contra outra
ticamente todas as sociedades do mun- mulher e acabam morrendo. Indepen-
do ocidental. Assim, o feminicídio e dem do tipo de vínculo entre a vítima
todas as formas de violência que estão e o agressor, que podem inclusive ser
correlacionadas apresentam-se como desconhecidos”.
resultado das diferenças de poder entre Certas condições históricas
homens e mulheres. Há, algumas dei- tendem a generalizar as ações violen-
nições para os tipos de feminicídio ou tas, naturalizando-as em torno das
femicídio(IIDH, 2006): questões étnicas, linguísticas, culturais.
“a)Femicídio íntimo: aqueles Mas, o fato é que a generalização ou
crimes cometidos por homens com os naturalização retira o caráter criminoso
quais a vítima tem ou teve uma rela- da ação violenta contra as mulheres, e
ção íntima, familiar, de convivência ou garante a impunidade de agressores. O
ains. Incluem os crimes cometidos período de impunidade dos que come-
por parceiros sexuais ou homens com tem feminicídio nos permite deduzir
quem tiveram outras relações interpes- que esses crimes se inscrevem numa
soais tais como maridos, companhei- relação de poder, em que são ultrapas-
ros, namorados, sejam em relações sadas as fronteiras da justiça, da lega-
atuais ou passadas; b) Femicídio não lidade, de relações de conjugabilidade,
íntimo: são aqueles cometidos por ho- de relações sociais e culturais, sendo
mens com os quais a vítima não tinha reforçados os fatores da inluência ten-
relações íntimas, familiares ou de con- tacular econômica e política dos pode-
vivência, mas com os quais havia uma res vigentes.
relação de coniança, hierarquia ou A abordagem sobre o feminicí-
amizade, tais como amigos ou colegas dio traz consigo o desejo de ódio em
de trabalho, trabalhadores da saúde, relação às mulheres, identiicadas no
empregadores. Os crimes classiicados interior das relações de gênero, as quais
nesse grupo podem ser desagregados afetam outras áreas da vida econômica,
em dois subgrupos, segundo tenha política, das ações jurídicas. A violação
ocorrido a prática de violência sexual feminina envolvendo o controle ou a
ou não. c) Femicídios por conexão: são posse do corpo feminino e o padrão
aqueles em que as mulheres foram as- de superioridade masculina, em que o
sassinadas porque se encontravam na ódio pode ser desencadeado por ações
“linha de fogo” de um homem que espontâneas, pela autonomina de seu
tentava matar outra mulher, ou seja, corpo, por ações que contrariam o pa-
são casos em que as mulheres adultas drão, desaiando o poder econômico

• 247 •
ou político tradicionalmente ocupados Referências e sugestões de leitura
por homens. Ao airmar a importân-
cia e a caracterização do feminicídio, AGUILLAR, Ana Letícia. Femicídio. La pena capital por
ser mujer. Revista Diálogos, ano 4, vol.4. Flacso, Gua-
pode-se contribuir na criação de es- temala, 2005. Neste estudo, a autora traz alguns relatos
sobre o femicídio, utilizando essa categoria de análise
tratégias de investigação criminal, com
para fundamentar as discussões em torno das formas de
empenho jurídico especíico capaz de violência.
levar aos autores, o rigor da lei, com
ALMEIDA, Suely Souza de. Femicídio: Algemas invisí-
uma visão especíica da realidade de veis do público-privado. Editora Revinter: Rio de Janeiro,
crimes de gênero em cada região do 1998.

Brasil. CARCEDO, Ana; SAGOT, Montserrat. Femicidio en


Costa Rica: 1990 – 1999. Colección Teórica 1. Instituto
O corpo assassinado das mu- nacional de las mujeres. San José: Costa Rica, 2000.
lheres evidencia-se como um corpo
CLADEM. Monitoreo sobre Femicidio/Feminicidio en
marcado pela vontade de repressão e El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicaragua y
destruição das partes que represen- Panamá. CLADEM, Lima, Perú, 2007
tam a voz e a feminilidade. A violência GARCIA, Leila P; FREITAS, Lúcia Rolim Santana de.
emerge nesses crimes de gênero como SILVA, Gabriela Drummond Marques. HOFELMANN,
Doroteia Aparecida. Violência contra a mulher: feminicí-
formas de controle do corpo feminino. dios no Brasil Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
Um controle que não apenas retira a – Ipea. 2010.
vida, mas que destroça o corpo da mu- MOTA, Maria Dolores Brito. Fisiograia dos assassinatos
lher. Não é suiciente matar; é preciso de mulheres – a imolação do corpo feminino no feminici-
dio. In: Agência de Notícias da América Latina ADITAL.
massacrar, mutilar, deformar esse cor- 2010. Disponível em: http://site.adital.com.br/. Acesso
po. ( MOTA, 2010) em 13. 02.2015.
Seguindo essa linha de raciocí- RUSSEL Diana; Femicide. 1992 [disponível em http://
nio, imprimir leis que sejam mais rígi- www.dianarussell.com/femicide.html. Acesso em
03.02.1015
das contribui para criminalizar as ações
violentas contra as mulheres, seja no SEGATO, Rita Laura. Que és un feminicídio. Notas para
un debate emergente. Série Antropología, 401, Brasília-
foro íntimo ou no espaço público. -DF, Universidade de Brasília, 2006.
Na luta de que o feminicídio tenha a
legalidade rigorosa necessária, temos •
no Brasil, a aprovação do projeto de
lei 8305/14, do Senado, que muda o Feminilidade/Feminino
Código Penal (Decreto-Lei 2.848/40)
para incluir entre os tipos de homicí- Historicamente no Ocidente a
dio qualiicado o feminicídio, deinido noção de feminino costuma designar
como o assassinato de mulher em ra- o conjunto de características, qualida-
zão de sua condição de sexo feminino. des e atributos social e culturalmente
reconhecidos como parte da natureza
Jaqueline Zarbatto da mulher. A ideia de feminino liga-

• 248 •
-se diretamente à sua oposição biná- (org.), 2009, p. 104) A legitimidade do
ria – o masculino – e é deinida, em feminino no padrão heteronormativo,
diversos contextos sociais, através de falocêntrico e compulsório é conferida
uma relação de negação, ou seja, aqui- a partir de referências que dependem
lo que NÃO pertence ao masculino exclusivamente da relação da mulher
é, portanto, feminino. A feminilidade com o outro e dos papeis atribuídos
pode ser deinida, dentro das possí- socialmente nesta relação: esposa e
veis variações no tempo e no espaço, mãe. Dessa maneira, as proissões ade-
a partir de um conjunto de caracterís- quadas para o seu universo de caracte-
ticas do padrão heteronormativo: Fra- rísticas naturalizadas, estariam ligadas
gilidade; Emoção; Beleza; Verborragia às qualidades de cuidado emocional e
“sem conteúdo”; Dependência social e físico, como por exemplo, enfermeira,
Nutriz emocional e física dos outros. professora primária, cozinheira e bor-
Assim, como bem ressalta Simone de dadeira. Desse modo, a diferenciação
Beauvoir (1949), a relação das caracte- sexual binária (homem-mulher) e as
rísticas é conformada por uma lógica atribuições essencializadas das carac-
que compreende o masculino como terísticas atribuídas ao seres humanos
sendo o UM social e o feminino como (masculino-feminino) ligam-se direta-
o Outro. mente às atuações e disputas de poder.
A naturalização e normatização A representação das diferenças
das relações sociais de sexo são, como estaria inscrita no corpo e a valência
bem aponta Joan Scott (1990), uma diferencial dos sexos se concretizaria a
forma primária de divisão de poder na partir de uma série de códigos morais
sociedade, uma vez que, ao signiicar que balizam as condutas sociais. Os
culturalmente um conjunto de caracte- discursos construídos utilizam a dife-
rísticas como parte da “normalidade”, rença anatômica como suporte para
pretende-se reforçar espaços de ação, a construção da referência simbólica
interdições e possibilidades de atua- que, por sua vez, ratiica a “natureza”
ção social. “Para as mulheres, existe feminina no corpo da mulher. Beau-
uma forte contradição entre a cons- voir ao airmar que “ninguém nasce
trução da feminilidade e a integração mulher: torna-se mulher” busca con-
no mundo do trabalho. Por um lado, testar a naturalização do feminino e
as mulheres que desejam fazer uma demonstrar como essas características
carreira valorizada devem aderir ao não são inerentes à natureza dos seres
sistema de defesa viril, desprezando humanos que possuem vagina, mas
ao mesmo tempo seu próprio sexo.” que ao contrário, fazem parte de toda
(MOLINIER e LANG in: HIRATA uma construção cultural que domina

• 249 •
o sujeito a partir da diferenciação se- (como dietas, ginásticas, intervenções
xual. A percepção do grupo sobre este cirúrgicas).
ser humano é que, em última medida, Pensar que a compulsoriedade
molda a maneira como este sujeito se da heterossexualidade está na base des-
comporta socialmente. Ser mulher é, ta dicotomia das características femini-
portanto, uma construção histórica. nas e masculinas, e discutir o seu sta-
Joan Scott (1990) enfatiza a di- tus de verdade natural absoluta, torna
mensão relacional dos comportamen- possível uma reinvenção das relações
tos femininos e masculinos airmando de gênero. Ao enfatizar que a cultura
que a categoria de gênero rejeita o ca- e a história possuem primazia na cons-
ráter ixo e permanente dessa oposição tituição de nossos corpos, subjetivi-
binária, uma vez que, as referências dades, condutas, representações, fan-
culturais são sexualmente produzidas tasias, práticas políticas, Judith Butler
a partir de símbolos, jogos de signi- (1990) complexiica esse debate ao
icação e dominação que permeiam airmar que não são os corpos biolo-
os discursos sócio/histórico/cultu- gicamente determinados que deinem
rais, tais como os discursos médicos, os comportamentos e atuações sociais,
jurídicos, religiosos e midiáticos. As mas ao contrário tais referências são
hierarquias de poder e estratégias de ações que se traduzem em identida-
dominação e sujeição são parte estru- des transitórias, matrizes discursivas
turante das relações de gênero embasa- e representações elaboradas ao longo
das em diferenças cujas características do próprio ato de diferenciação se-
são essencializadas, como uma forma xual. Essa ação é, portanto, um ato
de estruturação das práticas sociais. O performático. O deslocamento da es-
valor social do feminino deine-se em trutura binária, falocêntrica e compul-
relação ao seu corpo, à sua capacidade soriamente heterossexual causa sérias
de atrair, seduzir, depender e cuidar do confusões (Gender trouble) nos sujeitos,
outro. Dessa maneira, a feminilidade instituições, espaços sociais, poder pú-
heteronormativa possui uma espécie blico e jurídico. A desestabilização das
de prazo de validade subjetivo, cuja noções naturais sobre os seres huma-
ação do tempo inexoravelmente a di- nos divididos de maneira oposicional e
minuirá e depreciará frente ao grupo binária – feminino e masculino – cau-
social, portanto, para prolongar seu sam uma instabilidade tão profunda
tempo de vida social útil necessita ser que não raramente observa-se uma
constantemente agenciada por novas abjeção social desses sujeitos e uma
tecnologias e práticas de regulação defesa acalorada das características e

• 250 •
determinações binárias como sendo SCOTT, Joan Wallach. “Gênero: uma categoria útil de
análise histórica”. Trad. por Guacira Lopes Louro. Edu-
o padrão da “normalidade”. Drags cação & Realidade. Educação & Realidade, vol. 15, nº
queens e cross-dressers representam 2, jul./dez. 1990.

exemplos de como o feminino pode JAGGAR, Alison M. e BORDO, Susan R. (orgs.) Gêne-
ro, corpo e conhecimento. Rio de Janeiro: Record/Rosa
ser performaticamente constituído. A dos Tempos, 1997.
própria palavra “drag” signiica “Dress
As a Girl” (vestida como uma garota) •
colocando em questão diferentes po-
sições e perspectivas políticas que se
Feminismo-Feminismos
fundam nas diferenças sexuais. Butler
Fenômeno social, cultural que
propõe que o respeito às diferenças
assume feições especíicas de acordo
e aos novos sujeitos sexuais e sociais
com o lugar e os sujeitos que dele ou
não signiica uma nulidade de limites
nele falam. Uma das balizas históricas
ou mesmo falta de parâmetros ético
que informam esse fenômeno aparece
e morais, mas uma forma de compre- com a reivindicação de igualdade, feita
ender os seres humanos para além da por Mary Wollstonecraft, na Inglaterra.
polarização dicotômica homem-mu- Na Vindication of the Rights of Woman
lher. Dessa maneira, o incômodo que (Reinvindicação dos Direitos da Mu-
tais sujeitos atraem ao desestabilizar as lher) de 1792, o feminismo liberal ganha
noções, atitudes e valores que se consi- expressão na legislação que defende
deram naturais deve ser acolhido, pois igualdade de educação, salário e opor-
seria fundamental para um repensar as tunidade para as mulheres. Também
formulações de gênero e as estruturas chamado feminismo cientíico, empirismo fe-
de poder. minista ou feminismo da igualdade, foi prin-
cípio orientador da doutrina de ação
Ana Carolina Eiras Coelho Soares airmativa que possibilita o ingresso
das mulheres nas proissões, com base
Referências e sugestões de leitura na discussão que procurou estender os
BADINTER, Elisabeth. O conlito: a mulher e a mãe.
“direitos do homem” às mulheres,
Rio de Janeiro: Record, 2011. conforme pressupostos do liberalismo.
BADINTER, Elisabeth. Um Amor conquistado: o mito
Algumas estudiosas reconhecem três
do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. períodos em que, como vagas, distin-
BEAUVOIR, S. Le Deuxième Sexe. Gallimard, Paris,
guem diferentes movimentos: a pri-
1949, 2vols. meira vaga, localizada no século XIX,
BUTLER, Judith: Gender Trouble. New York, Routled- localiza, além da demanda pela igualda-
ge, Champman & Hall, 1990. de de direitos contratuais e de proprie-

• 251 •
dade, as lutas contra a subordinação partidos e conjuntos legislativos nacio-
das mulheres ao casamento e aos mari- nais. Tal ampliação tem um ponto de
dos. Desdobramentos se veriicam no inlexão, particularmente, com a publi-
século seguinte, com a conquista pelo cação de O Segundo Sexo, da ilósofa
direito de voto das mulheres (Nova francesa Simone de Beauvoir, que in-
Zelândia, 1893; Reino Unido, 1918; terroga o fundamento biológico da di-
EUA, 1919; Brasil, 1932, para citar ferença sexual e a destinação sócio-cul-
apenas alguns países), entre as lutas pe- tural das mulheres: “Não se nasce
los direitos sexuais e reprodutivos das mulher, torna-se mulher”. As lutas ma-
mulheres; a segunda onda, assinalada nifestam-se em discursos de diferentes
nas décadas de 1960 e 1970, é caracte- nacionalidades, estratos sociais, na im-
rizada pela crítica ao etnocentrismo, prensa e na literatura, em diferentes
em aliança com os movimentos norte- redutos da sociedade moderna. Na se-
-americanos pelos direitos civis e pelas gunda metade do século XX, é relevan-
lutas anti-colonialistas, nos EUA e na te, nos EUA, a formulação de críticas
Europa, e a emergência das feministas internas dirigidas à larga pauta de rei-
negras, entre elas Ângela Davis e Alice vindicações do movimento “women’s li-
Walker; a terceira vaga, a partir dos beration” a im de contemplar posições
anos 80 do mesmo século, é momento do movimento de mulheres negras. No
em que se pontua a acentuação dos livro Feminist Theory: from margin to the
movimentos e do pensamento social center, publicado em 1984 (Cambridge/
na direção de uma radicalização da crí- MA: Southend Press Classics, v.5), Bell
tica ao racionalismo essencialista e às Hooks elabora uma leitura das teorias
categorias da identidade, particular- e práticas feministas desde as margens
mente de sexo-gênero, raça-etnia e do movimento norte-americano con-
classe social. No primeiro período, os tra a exploração e a opressão sexista e
movimentos do pensamento e das prá- racista. Ainda na década de 80, os estu-
ticas políticas buscavam adicionar a ca- dos de gênero abrem um campo não
tegoria mulheres aos discursos da ciên- menos combativo de pesquisas inter-
cia, redeinindo papéis, funções e disciplinares. Inluenciada por Michel
conigurações do feminino na vida Foucault e outros pós-estruturalistas, a
biológica, política e social. Ao longo historiadora Joan Scott elabora uma re-
do século XX, amplia-se o cenário de lexão seminal, que serve de baliza e
relexões e conquistas feministas, pro- referência nesse processo. O artigo Gê-
cesso que pode ser observado não ape- nero, uma categoria de análise histórica, pu-
nas nos discursos de grupos mais orga- blicado em 1986 no American Histori-
nizados da sociedade civil - associações, cal Review (Gender: A Useful Category

• 252 •
of Historical Analysis, American His- LGBT. No Brasil, os movimentos fe-
torical Review 91, No. 5. December ministas também ampliam espaços so-
1986), procura desconstruir a oposição ciais e políticos de modo geral. As pu-
considerada universal entre homem e blicações na área são reveladoras do
mulher, masculino e feminino. Na dire- crescimento da contribuição de inte-
ção contrária ao uso descritivo da cate- lectuais brasileiras e do intercâmbio
goria gênero, a autora sugere pensá-la acadêmico e cultural. Destacam-se al-
como um saber sobre as diferenças se- gumas das mais antigas e persistentes:
xuais e uma forma de dar sentido às Revista de Estudos Feministas, da Univer-
relações hierárquicas de poder. Na es- sidade Federal de Santa Catarina (des-
teira dessas relexões, evidencia-se a de 1993); Revista Pagu, da Unicamp,
emergência do feminismo da diferen- (Campinas/SP, desde 1993); o Caderno
ça, que refuta deinitivamente a airma- Espaço Feminino, da Universidade Fede-
ção de que a ciência, a política, a histó- ral de Uberlândia (Uberlândia/MG,
ria teriam gênero neutro. Judith Butler, desde 1994); Gênero, da Universidade
ilósofa norte-americana, aprofunda a Federal Fluminense (desde 2000), e La-
relexão sobre a natureza biológica do brys, Estudos Feministas, da Universidade
sexo, dos corpos e identidades, ao dis- de Brasília/DF (Brasília/DF; Montre-
solver a dicotomia sexo-gênero (natu- al/Canadá; Paris/FR, desde 1994). A
reza-cultura) para pensar o sexo como proliferação de grupos de estudos e
ideal regulatório, ou seja, não como diálogos transdisciplinares, de publica-
aquilo que alguém tem, mas como nor- ções na área, a consolidação de espa-
ma que confere inteligibilidade cultural ços para o debate - colóquios nacionais
ao corpo sexuado no interior de uma e internacionais - e organizações políti-
ordem heteronormativa. Ao proble- cas governamentais e não-governa-
matizar a própria materialidade do cor- mentais –, entre elas o Conselho Na-
po, e deixar de enxergá-lo como um cional dos Direitos da Mulher, criado
objeto-sujeito no qual o gênero se im- em 1985, e a Secretaria de Políticas
prime ou um meio passivo pelo qual para as Mulheres do Governo Federal,
ele age, ela expõe a arena de práticas criada em 2003, são resultados dessas
regulatórias reiterativas que produzem ações que se multiplicam e que, por sua
performativamente o corpo e o sexo. vez, alargam as perspectivas de promo-
Os estudos de Judith Butler fertilizam ção de pesquisas e políticas públicas
a epistemologia feminista e as críticas para a transformação social na esfera
da cultura, e abrem caminhos para do trabalho, da saúde, da cultura e cida-
ações e elaborações outras, entre elas dania. São evidências da atuação das
as Teorias Queer e os Movimentos mulheres e da sociedade organizada

• 253 •
em suas lutas pelos direitos trabalhis- ções do feminino e do masculino, mos-
tas, reprodutivos, pelos direitos à con- trando que o discurso fundado no
tracepção e ao aborto, no combate aos biológico ou na natureza dos sexos é
crimes de assédio sexual, estupro e às um mecanismo do poder do patriarca-
formas cotidianas mais ou menos ex- do em operação, marcado de historici-
plícitas da violência, entre elas a violên- dade. As ações na sociedade e no pen-
cia doméstica. Desde os esforços mais samento, ou seja, os feminismos,
descritivos no sentido da visibilidade entendidos como instrumento e efeito
das práticas e dos movimentos das mu- dos movimentos sociais e das críticas
lheres até as formas do exercício críti- epistemológicas, procuram retirar das
co da cultura, que se propõem a en- sombras e do silêncio a construção das
frentar a violência impressa e expressa desigualdades de gênero, a divisão bi-
na linguagem e nos códigos sociais, nária, histórica e política da sociedade.
com o aporte da ilosoia da diferença, Assim, procuram mostrar os dispositi-
essas publicações e discursos são reve- vos de produção e naturalização das
ladores de uma miríade de estudos im- identidades sexuadas, reconhecer as
portantes e apresenta a plurivocidade formas históricas de operação da cul-
do pensamento feminista no Brasil e tura androcêntrica, para pensar e re-
no mundo. Portanto, tornando visível a construir, para além da desigualdade
presença e a contribuição das mulheres construída, a multiplicidade de experi-
na vida, na política, na produção e lei- ências humanas em outros termos. Su-
tura do mundo social, ou buscando gere-se o uso do termo no plural – fe-
desconstruir os mundos construídos minismos - para se dar a ler e conhecer
pela linguagem e pela cultura, os femi- o conjunto diverso de experiências e
nismos contemporâneos estão em mo- acepções possíveis que remetem ao
vimento: problematizam a construção enunciado.
da diferença sexual, a representação e a
reiteração binária dos corpos, a produ- Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro
ção da assimetria dos sujeitos, dos po-
Referências e sugestões de leitura
deres e das desigualdades sociais. As-
sim, ao evidenciarem as experiências e ALVES, Branca Moreira & PITANGUY, Jacqueline. O
ao formularem a crítica quanto ao pro- que é feminismo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.

cesso de diferenciação dos sexos nas BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo. São Paulo: Di-
diferentes formações histórico-sociais, fel, 1955.

os feminismos atuam e buscam des- BUTLER, Judith. Problemas de Gênero. Feminismo e


subversão da identidade. Rio de Janeiro: Editora Civili-
construir as identidades e representa- zação Brasileira, 2003.

• 254 •
HOOKS, bell. Feminist heory. From margin to the preendidas e atendidas dentro do mo-
centre. @nd Edition. Cambridge/MA: Southend Press
Classics, 1999. vimento, uma vez que este tomava a
categoria mulher como universal e não
FOUCAULT, Michel. A História da Sexualidade. Vol.1,
2, 3. 13a. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988. percebia – muitas vezes de maneira de-
liberada – que a maior parte das con-
NICHOLSON, J. Linda (Org.).Feminismo/posmoder-
nismo. Buenos Aires: Feminaria Editora, 1992.. quistas efetivadas até ali, que se orienta-
vam pela perspectiva liberal, atendiam
SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise his-
tórica. Educação & Realidade. Porto Alegre, vol. 20, nº apenas à parte branca e classe média
2, jul./dez. 1995, pp. 71-99. Revisão de Tomaz Tadeu da
do movimento, já que outras de suas
Silva a partir do original inglês (SCOTT, J. W.. Gender
and the Politics of History. New York: Columbia Univer- componentes careciam ainda da efeti-
sity Press, 1988. PP. 28-50.)
vação de direitos básicos, o que torna-
SHIENBINGER, Londa. O Feminismo mudou a ciên- va as demandas destas últimas diferen-
cia? Tradução: Raul Fiker. Bauru/SB: EDUSC, 2001.
tes e especíicas. Sendo assim, autoras
como Patricia Hill Collins, Angela Da-

vis, bel hooks – que decidiu grafar seu
nome em minúsculas como forma de
Feminismo Negro
diferenciação e resistência aos padrões
A construção de um feminismo acadêmicos –, Audre Lorde e Kimberle
que atendesse às necessidades especíi- Crenshaw passaram a elaborar análises
cas das mulheres negras começou a se que tinham como base a compreensão
consolidar, nos EUA, a partir de rele- do que é feminismo – “Em seu senti-
xões e ações propostas por militantes do mais amplo, o feminismo constitui
nos anos 70. Embora desde o século tanto uma ideologia como um movi-
XIX já ecoasse ali a pergunta “Não sou mento político global confrontando o
eu uma mulher?”, feita por Sojourner sexismo – uma relação social na qual
Truth para demonstrar as injustiças os homens, como um grupo, têm au-
cotidianas relacionadas às questões de toridade sobre as mulheres enquanto
raça, classe e gênero que se abatiam grupo.” (COLLINS, 2017, s/n) –, mas
sobre as mulheres recém-saídas da es- que buscavam dar conta “da margi-
cravidão (RIBEIRO, 2015; COLLINS, nalização social, econômica e política
2017), foi somente nas últimas décadas das mulheres negras nos EUA.” (RI-
do século XX que começou a ganhar BEIRO, 2015, p.53). Assim, de acordo
corpo uma produção teórica sobre o com Collins, utilizar o termo femi-
feminismo negro. nismo negro “posiciona as mulheres
Embora integrassem o feminis- afroamericanas para examinar como a
mo clássico, as mulheres negras não constelação particular de questões que
se sentiam plenamente ouvidas, com- afetam as mulheres negras nos Estados

• 255 •
Unidos faz parte de questões de eman- como primordiais. Era necessário pen-
cipação das mulheres globalmente” sar, também, como a ideia de raça, a
(COLLINS, 2017, s/n). despeito de sua inexistência biológica
Cabe ressaltar que, para estas e enquanto marcador indisfarçável de
autoras, constituíam importante fator distinção e discriminação, perpassava
de contribuição na formação do pen- as relações estabelecidas e se combina-
samento feminista negro as relexões va com gênero e classe para criar um
elaboradas por mulheres que estavam sistema complexo de dominação, que
ou estiveram fora dos tradicionais cen- colocava homens e mulheres, tanto
tros de produção de conhecimento. brancos quanto negros, em posições
Assim, considerações sobre as ações e sociais diferentes, mutuamente in-
o papel exercido por mães, professo- luenciáveis e hierarquicamente rela-
ras, líderes comunitárias, compositoras tivas entre si. Nas palavras de Angela
e outras agentes sociais negras, com- Davis “Raça é a maneira como a classe
preendidas como experiência cotidia- é vivida. Da mesma forma que gênero
na de luta e resitência, foram tomadas é a maneira como a classe é vivida. A
como parte fundamental e legítima, gente precisa reletir bastante para per-
juntamente com a produção teórica ceber que entre essas categorias exis-
acadêmica, do conjunto de ideias que tem relações que são mútuas e outras
formavam o feminino negro (BAIR- que são cruzadas. Ninguém pode as-
ROS, 1995; COLLINS, 2017). Ou seja, sumir a primazia de uma categoria so-
este pode ser deinido como “um con- bre as outras.” (DAVIS, 1997, p.8 apud
junto de experiências e ideias compar- MALTA; OLIVEIRA, 2016, p.58)
tilhadas por mulheres afro-americanas Assim, para deinir esta per-
que oferecem um ângulo particular de cepção, em 1989 Kimberlé Crenshaw
visão do eu, da comunidade e da socie- estabeleceu o conceito de intersec-
dade e ele envolve interpretações teó- cionalidade. Nesta deinição: “a in-
ricas da realidade de mulheres negras terseccionalidade é uma conceituação
por aquelas que a vivem”. (BAIRROS, do problema que busca capturar as
1995, p.463) consequências estruturais e dinâmicas
Ainda, por meio de suas ex- da interação entre dois ou mais eixos
periências cotidianas e de atuação no da subordinação. Ela trata especiica-
feminismo, as feministas negras per- mente da forma pela qual o racismo,
ceberam que não era possível aplicar o patriarcalismo, a opressão de classe e
a resolução de suas questões especí- outros sistemas discriminatórios criam
icas apenas às categorias de gênero desigualdades básicas que estruturam
ou classe em separado ou tomando-as as posições relativas de mulheres, raças,

• 256 •
etnias, classes e outras.” (CRENSHAW, lidade.” (CARNEIRO, 2003, p.118).
2002, p.177 apud RIBEIRO, 2016, Nas palavras de Lélia Gonzalez, repro-
p.101). Estabelecendo que raça, classe, duzidas por Sueli Carneiro, o feminis-
gênero e outras categorias se interpe- mo brasileiro impunha “duas diicul-
netram e criam realidades sociais, o dades para as mulheres negras: de um
conceito de interseccionalidade ga- lado, o viés eurocentrista do feminis-
nhou centralidade não só nas análises mo brasileiro, ao omitir a centralidade
que partem da perspectiva negra, mas da questão de raça nas hierarquias de
em todo contexto analítico feminista. gênero presentes na sociedade, e ao
No Brasil, embora já houvesse universalizar os valores de uma cultura
participação feminina, deinida como particular (a ocidental) para o conjun-
contribuição negra especíica, nos mo- to das mulheres, sem as mediações que
vimentos pela democratização e de- os processos de dominação, violência e
mandas populares de mulheres da dé- exploração que estão na base da intera-
cada de 1970, somente nos anos 1980 ção entre brancos e não-brancos, cons-
surgem as primeiras manifestações ne- titui-se em mais um eixo articulador do
gras declaradamente feministas. Isso se mito da democracia racial e do ideal de
deu porque nesse período ainda havia branqueamento. Por outro lado, tam-
uma rejeição, por parte das mulheres bém revela um distanciamento da reali-
negras brasileiras, à identidade femi- dade vivida pela mulher negra ao negar
nista, com a qual não se identiicavam toda uma história feita de resistências e
e percebiam como sendo pejorativa – de lutas, em que essa mulher tem sido
coisa de gente feia, que queimava sutiã protagonista graças à dinâmica de uma
(MOREIRA, 2007, p.60). memória cultural ancestral – que nada
Ainda, da mesma maneira que tem a ver com o eurocentrismo des-
nos EUA, no Brasil, “o feminismo es- se tipo de feminismo.” (CARNEIRO,
teve, também, por longo tempo, prisio- 2003, p.120). Desta maneira, questões
neiro das visões eurocêntrica e univer- impostas pela submissão da mulher ne-
salizante das mulheres. A conseqüência gra ao mito da democracia racial, pelo
disso foi a incapacidade de reconhecer ideal de branqueamento da sociedade,
as diferenças e desigualdades presentes pela estigmatização de seus corpos e
no universo feminino, a despeito da pela frequente violência à qual estão
identidade biológica. Dessa forma, as expostas, mas que resultavam em um
vozes silenciadas e os corpos estigma- movimento constante de resistência
tizados de mulheres vítimas de outras e luta, não eram percebidas como re-
formas de opressão além do sexismo, levantes para as feministas da época.
continuaram no silêncio e na invisibi- Esta situação fazia com que o movi-

• 257 •
mento de mulheres negras não se sen- feminista, enfrentando “as contradi-
tisse atendido em seus anseios dentro ções e as desigualdades que o racismo
do feminismo. e a discriminação racial produzem en-
É interessante notar que, mes- tre as mulheres, particularmente entre
mo dentro do movimento negro as negras e brancas no Brasil”, como no
mulheres encontravam resistência em movimento negro, exigindo “que a di-
terem suas demandas especíicas reco- mensão de gênero se instituísse como
nhecidas. “O Movimento Negro Unii- elemento estruturante das desigualda-
cado (MNU), uma das principais orga- des raciais na agenda dos Movimentos
nizações daquele período [1970-1980], Negros Brasileiros.” (CARNEIRO,
não entendia que as bandeiras delas 2003, p.120). Para Sueli Carneiro, “tal
deveriam ser defendidas pelo coletivo. processo vem resultando, desde me-
Em função disto, as questões referen- ados da década de 1980, na criação
tes à vida da mulher negra eram prete- de diversas organizações de mulheres
ridas por questões gerais. Dito de outra negras que hoje se espalham em nível
forma, o antirracismo não garantia a nacional; de fóruns especíicos de dis-
ausência de machismo no interior das cussões programáticas e instâncias na-
organizações, e as pautas das mulheres cionais organizativas das mulheres ne-
negras permaneciam invisibilizadas em gras no país a partir dos quais os temas
nome de uma luta que via mulheres e fundamentais da agenda feminista são
homens negros de forma homogênea.” perscrutados pelas mulheres negras à
(MALTA; OLIVEIRA, 2016, p.58). luz do efeito do racismo e da discri-
Nesse contexto, as organiza- minação racial. (CARNEIRO, 2003,
ções feministas negras surgem, a par- p.120).
tir de 1985, quando do III Encontro Para inalizar, resta dizer que,
Feminista Latino-americano, com a atualmente, diversos grupos que le-
perspectiva de construir uma identida- vam avante a bandeira do feminismo
de feminina negra, “voltada para: [...] negro têm encontrado na internet um
Airmação das mulheres negras como importante espaço para o exercício de
pessoa, como facção política, como sua militância. (MALTA; OLIVEI-
sujeito político, era uma airmação RA, 2016, p.58). É o caso de grupos
do valor da identidade das mulheres como Geledés – Instituto da Mulher
negras como um grupo coeso [...].” Negra, fundado em 1988, e do proje-
(MOREIRA, 2007, p.59-61). Nesta to Blogueiras Negras, criado em 2012.
perspectiva, o movimento feminista Em um alinhamento com a ideia de
negro trabalhou para que fosse reco- valorizar e incorporar a experiência
nhecido tanto dentro do movimento cotidiana de luta e resistência das di-

• 258 •
versas mulheres negras na formação MALTA, Renata Barreto; OLIVEIRA, Laila haíse Ba-
tista de. Enegrecendo as redes: o ativismo de mulheres
do pensamento feminista, proposta negras no espaço virtual. Gênero. Niterói, v.16, n.2, p.
pelas primeiras teóricas estaduniden- 55 – 69, 1.sem. 2016.

ses, este último grupo se apresenta da MOREIRA, Núblia Regina. O Feminismo Negro Brasi-
seguinte maneira: “Somos mulheres leiro: um estudo do movimento de mulheres negras no
Rio de Janeiro e São Paulo. Dissertação de Mestrado apre-
negras e afrodescendentes. Blogueiras
sentada ao Departamento de Sociologia do Instituto de
com estórias de vida e campos de inte- Filosoia e Ciências Humanas da Universidade Estadual
resses diversos; reunidas em torno das de Campinas, 2007.

questões da negritude, do feminismo, RIBEIRO, Djamila. Simone de Beauvoir e Judith Butler:


e da produção de conteúdo. Viemos aproximações e distanciamentos e os critérios da ação
política. Dissertação apresentada ao programa de Pós-
contar nossas estórias, exercício que -graduação em Filosoia na Universidade Federal de São
nos é continuamente negado numa Paulo, 2015.

sociedade estruturalmente discrimina- RIBEIRO, Djamila. Feminismo Negro para um Novo


tória e desigual.” (ANDRADE, s/d). Marco Civilizatório. SUR. São Paulo, v.13 n.24, p.99-
104, dez 2016.
Cumpre-se, desta maneira, o proposto
na gênese do feminismo negro, a con- Sugestões de leitura
tinuidade das “lutas contra o sexismo
e o racismo enfrentados pelas mu- BAIRROS, Luiza. Nossos Feminismos Revisitados. Estu-
dos Feministas, ano 3, 1995.
lheres negras, que também são parte
dos esforços da comunidade negra CARNEIRO, Sueli. Mulheres em movimento. Estud. av.,
para alcançar a igualdade e liberdade” São Paulo, v. 17, n. 49, p. 117-133, dez. 2003. Dispo-
nível em: <http://www.scielo.br/pdf/ea/v17n49/18400.
(COLLINS, 2017, s/n). pdf>. Acesso em 20 abr 2018.

Maria Cecília de Oliveira Adão COLLINS, Patricia Hill. Aprendendo com a outsider wi-
thin: a signiicação sociológica do pensamento feminista
negro. Soc. estado., Brasília , v. 31, n. 1, p. 99-127,
Referências abr. 2016. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/se/
v31n1/0102-6992-se-31-01-00099.pdf>. Acesso em 23
ANDRADE, Inaldete Pinheiro de. Quem somos. Blo- abr 2018.
gueiras Negras. Disponível em: <http://blogueirasnegras.
org/quem-somos/>. Acesso em 23 abr 2018.
COLLINS, Patricia Hill. O que é um nome? Mu-
BAIRROS, Luiza. Nossos Feminismos Revisitados. Estu- lherismo, Feminismo Negro e além disso.Cad. Pagu,
dos Feministas, ano 3, 1995. Campinas, n. 51, e175118, 2017. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/cpa/n51/1809-4449-c-
CARNEIRO, Sueli. Mulheres em movimento. Estud. av.,
pa-18094449201700510018.pdf>. Acesso em 28 fev
São Paulo, v. 17, n. 49, p. 117-133, dez. 2003. Dispo-
nível em: <http://www.scielo.br/pdf/ea/v17n49/18400. 2018.
pdf>. Acesso em 20 abr 2018.
DAVIS, Angela. Mulheres, Raça e Classe. São Paulo: Boi-
COLLINS, Patricia Hill. O que é um nome? Mu- tempo, 2016.
lherismo, Feminismo Negro e além disso.Cad. Pagu,
Campinas, n. 51, e175118, 2017. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/cpa/n51/1809-4449-c- •
pa-18094449201700510018.pdf>. Acesso em 28 fev
2018.

• 259 •
Feminismo Pos/decolonial nismo poscolonial” en la discusión so-
bre los rasgos que asumió el feminismo
En los inicios del feminismo la como “feminismo blanco occidental y
relexión sobre la emancipación de la heterosexista” y la preocupación sobre
mujer se hacía en función del binaris- las diferencias históricas y culturales
mo hombre/mujer, contrarrestándola podían afectar la teoría y la práctica
con la condición masculina. Las dife- política del feminismo. Para Teresa de
rencias entre mujeres eran subsumidas Lauretis, el sujeto del nuevo feminismo
a la ilusión de una opresión en común. (el feminismo de la época postcolonial,
Ahora las diferencias entre mujeres son como lo denomina), respecto al femi-
el nuevo eje articulador del feminismo. nismo de las etapas anteriores y a su
De este modo, desde la posición de las sujeto (deinido por la oposición de
mujeres negras — quienes “ostentan” la mujer al hombre sobre la base del
el estatus social más bajo que cualquier género, constituido únicamente por
otro grupo social por su triple opresi- la opresión, represión o negación de
ón sexista, racista y clasista “sin ‘otro’ la diferencia sexual) no es ya un suje-
institucionalizado al que puedan dis- to unitario, siempre igual a sí mismo,
criminar, explotar, u oprimir” (hooks, dotado de una identidad estable, ni un
2004: 49) —, la posición de los varones sujeto únicamente dividido en posicio-
afrodescendientes quedaría igualada a nes de masculinidad y feminidad. Es, al
la de las mujeres blancas, en tanto am- contrario, un sujeto que ocupa posicio-
bos pueden actuar como oprimidos nes múltiples, distribuidas a lo largo de
y opresores: “Los hombres negros diversos ejes de diferencia y atravesado
pueden ser víctimas del racismo, pero por discursos y prácticas que pueden
el sexismo les permite actuar como ser y, a menudo lo son, recíprocamente
explotadores y opresores de las mu- contradictorios.
jeres. Las mujeres blancas pueden ser El Feminismo postcolonial ha-
víctimas del sexismo, pero el racismo bla de feminismo del “Tercer Mundo”
les permite actuar como explotadoras y englobaría tanto a las mujeres opri-
y opresoras de la gente negra (…). El midas por la raza/género/sexo en el
sexismo de los hombres negros ha so- “Primer Mundo” como a las mujeres
cavado las luchas por erradicar el ra- de los países descolonizados o neoco-
cismo del mismo modo que el racismo lonizados. Estas tensiones se retrotra-
de las mujeres blancas ha socavado las en la década de los setenta, en la que
luchas feministas” (hooks, 2004: 49). el feminismo negro y/o lesbiano se
Este cambio de eje se inscribe despegaron del feminismo existente,
en el pensamiento próximo al “femi- criticado de racista y etnocentrista: esta

• 260 •
crisis puede señalarse como el antece- muchas mujeres con un movimiento
dente de lo que luego se llamaría fe- feminista cuyo emblema es la mujer
minismo “postcolonial”. Además, cabe blanca, occidental, heterosexual, de
mencionar que muchas de las integran- clase media, urbana, educada y ciuda-
tes de los movimientos de mujeres, dana contra el patriarcado, las feminis-
blancas y de color, estuvieron vincula- tas — que desconocían la opresión de
das al movimiento por los derechos ci- raza y clase — pospusieron y desecha-
viles en los EE.UU y habían participa- ron estas otras ausencias sintomáticas
do en las luchas nacionalistas contra el de la agenda feminista: el racismo, les-
colonialismo del “Tercer Mundo”. El bofobia, la colonización. En torno al
“Tercer Feminismo” o “Feminismo del llamado a la unidad del feminismo para
Sur”, se entiende como parte de una luchar contra la opresión universal del
propuesta anti-imperialista que sobre- patriarcado, las feministas –que des-
vuela la dicotomía geopolítica imperia- conocían la opresión de raza y clase-
lista Norte/Sur cuestionando las bases pospusieron y desecharon estas otras
orientalistas de lo que llamo una “re- opresiones y, de este modo, impidieron
tórica salvacionista” (Bidaseca, 2016: ver sujetos racializados sexualizados
81). Este discurso salvacionista “es y colonizados y la ubicación de estos
propio del feminismo occidentalizante sujetos en diferentes discursos raciali-
que se asocia a la ideología imperialis- zados. En efecto, encontraron que la
ta tal como Edward Said lo deine en categoría de patriarcado era una forma
Orientalismo” (2014: 84). La pensa- de dominación masculina universal,
dora feminista india Chandra Talpade ahistórica, esencialista e indiferencia
Mohanty en su trabajo “Bajo los Ojos a respecto de la clase o la raza y fue
de Occidente”, concibe los discursos este el motivo de su cuestionamiento.
académicos como centros de produc- Múltiples movimientos feministas en
ción de conocimiento de colonización EE.UU construyeron su crítica desde
discursiva. La producción de la “Mujer la posición étnica, cuando advirtieron
del tercer mundo” como sujeto mono- que eran silenciadas por las feministas
lítico singular (Mohanty 2008: 112) es blancas, aunque fueron también criti-
un discurso homogeneizador occiden- cadas de sectarias. Por un lado, el Por
tal que ignora las particularidades so- un lado, el Movimiento de mujeres fe-
cio-históricas y culturales de mujeres ministas negras — bell hooks, Ange-
concretas. la Davis, Audre Lorde, entre otras, de
El feminismo liberal burgués y quienes se rescata la antología Todas las
occidental hegemónico es puesto en mujeres son blancas, todos los negros
tela de juicio por el extrañamiento de son varones, pero algunas de nosotras

• 261 •
somos valientes (Gloria Hull, Patricia tal, lo feminismo de las fronteras. En
Bell Scott y Barbara Smith, 1982) —, el emblemático Borderlands/La Fron-
denuncia el racismo del feminismo tera. The new mestiza (1987) de Glo-
blanco y la ausencia de tratamiento de ria Anzaldúa o Este puente mi espalda
la clase y la raza. “El verdadero enfo- de Cherry Moraga y Gloria Anzaldúa
que del cambio revolucionario no está (1981) o Haciendo caras/Making Fcae,
nunca meramente en las situaciones Making Soul: Creative and Critical
opresivas de las que buscamos escapar, Perspectives (1990), Gloria Anzaldúa
sino en ese pedazo del opresor que propone asumir el mestizaje: la con-
llevamos plantado profundamente en ciencia mestiza surge de hacer habita-
cada uno de nosotros”, advierte Audre ble la propia posición de frontera (ge-
Lorde en los años de 1980. ográica: el borde de México, política,
En el trabajo colectivo “Otras sexual…) de su identidad de chicana
inapropiables” (2004), es su artículo lesbiana de color. Anzaldúa ha contri-
“Mujeres negras. Dar forma a la teoría” buido con la deinición de feminismo y
(2004). También, como Gloria Anzal- en el área cultural de la teoría chicana
dúa, escribe desde su propia experien- y queer.
cia de sentir la actitud condescendiente Una contribución muy especial
de las mujeres blancas feministas como fue la introducción del término mes-
“una forma de recordarnos que el mo- tizaje, que interpreta como un estado
vimiento era ‘suyo’ que podríamos de estar “más allá” (“entre-ó”). En sus
participar porque ellas lo permitían, in- trabajos teóricos, Anzaldúa hace un lla-
cluso nos alentaban a hacerlo. No nos mado a una nueva mestiza (“new mes-
veían como iguales […]” (p. 45). tiza”), que ella describe como un sujeto
Para hooks reverenciarse en el consciente de sus conlictos de identi-
patriarcado y no en el racismo les ha- dad, atrapada en encrucijadas, debien-
bilita a las feministas blancas que sigan do aprender y tolerar la “ambigüedad”.
actuando como explotadoras y opre- Utiliza el término el nuevo ángulo de
soras.” (Asunción portolés, p.7). Sexis- visión (“new angles of vision”) con el
mo, racismo y explotación de clase in de retar el pensamiento binario oc-
constituyen sistemas interrelacionados cidental. Inspirada en José Vasconce-
de dominación y opresión que deter- los, el ilósofo mexicano, quien llamó
minan la agencia femenina. como “raza cósmica”, “una raza mesti-
Los escritos de “mujeres de za, una mezcla de razas aines, una raza
color” mestizas como las escritoras de color — la primera raza síntesis del
chicanas, puertoriqueñas y latinas con- globo”, dice Anzaldúa, “opuesta a la
forman otro movimiento fundamen- teoría de la pureza de la raza aria, y la

• 262 •
política racial de la pureza que practica cutir los temas “importantes” y dejan
la América blanca, su teoría es inclusi- al quechua, el idioma nativo, para las
va. […]. Desde esta ‘crosspolinization’, cuestiones privadas o domésticas. El
una conciencia ‘allien’ se presentiica analfabetismo femenino, en comunida-
en el hacer una nueva conciencia mes- des de altura puede superar el 50% de
tiza, una conciencia de mujer. Esta es la población: las mujeres, en su lengua,
una conciencia de los bordes” (p. 99; aseguran que “son ciegas” y que “son
mi traducción). mudas” pues no saben leer ni hablar es-
Por su vez, el Feminismo Pari- pañol, y por tanto no pueden dirigirse
tario Indígena Andino “El concepto a extraños de la comunidad ni aspirar a
de género es patrimonio de las cien- un “cargo público”. Como en los privi-
cias sociales como categoría de análisis legios de la alimentación: “el hombre
y su construcción teórica es parte de come más no porque trabaje más sino
un proceso social y académico distante porque es hombre”; las campañas de
a los Andes.” (Rosalía Paiva, Feminis- esterilización forzada que fue objeto
mo paritario indígena andino, 2007). de denuncias en Peru, Guatemala, Bo-
Mientras la Unidad es el principio de livia (Sanjinés y su ilm) hasta la miso-
abstracción la cultura occidental, la ginia, especialmente hacia las mujeres
Paridad lo es para la cosmovisión in- indígenas en ciudad Juárez, Guatemala
dígena (Lajo, 2005). Esta cosmovisión o Canadá.
está compuesta por entidades comple- Algunos análisis que abordan
mentarias pero a la vez opuestas: mas- la temática de género (Silverblatt, Ri-
culino, femenino se complementan a la vera, Rostworowski, entre otras) su-
vez que se oponen, no se busca asegu- gieren que en las formaciones sociales
rar la superioridad masculina como en pre-hispánicos existía una igualdad de
la cultura occidental. género cuya matriz era una equitativa
Para Paiva el colonialismo occi- valoración de las tareas realizadas por
dental impuso en sus naciones por la ambos sexos y que son estos aportes,
fuerza una serie de costumbres y có- indispensables para la continuidad de
digos que se practican como si fueran la vida campesina y el cumplimiento de
propias en desmedro de la mujer in- las obligaciones hacia las autoridades
dígena, desde el silenciamiento en las imperiales, aquello que determinarían
asambleas comunales. Como señala la noción de complementariedad de la
Barrig (s/f) “En las asambleas campe- pareja. Estos estudios coinciden en la
sinas, los dirigentes varones eligen el existencia de principios comunes que
español — idioma que no conocen tienen en su vértice una organización
ni dominan las mujeres — para dis- dual en la mitología e incluso en los sis-

• 263 •
temas políticos en los Andes. El dualis- triarcado es una categoría transcultural
mo sería un concepto ordenador de la válida, y así concluir que “el género no
cosmovisión indígena: cada divinidad era un principio organizador en la so-
masculina poseía su doble, de caracte- ciedad Yoruba antes de la colonizaci-
res y atributos opuestos que sin embar- ón Occidental”. El patriarcado no está
go, se complementan. Las relaciones concebido como el opuesto a matriar-
de género tradicionales de los pueblos cado, sino para resaltar que no había
indígenas fueron en gran medida de- un sistema de género institucionaliza-
sestructuradas sobre todo en aquellos do. [...] Incluso, Oyewùmi nos indica
espacios de concentración poblacional que el género ha adquirido importan-
y comercio como los espacios urba- cia en los estudios Yoruba no como
nos. En este sentido, “occidentalizaci- un artefacto de la vida Yoruba sino
ón y patriarcalización de los sistemas porque ésta, tanto en lo que respecta
de género, pueden leerse en los Andes a su pasado como su presente, ha sido
como dos procesos paralelos” (Rivera; traducida al Inglés para encajar en el
1996:3). patrón Occidental de separación entre
En lo feminismo decolonial/ cuerpo y razón [...]. Asumir que la so-
descolonial, María Lugones ha enrique- ciedad Yoruba incluía el género como
cido al concepto de “colonialidad del un principio de organización social es
poder” en su texto “Colonialidad y gé- otro caso de “dominación Occidental
nero: hacia un feminismo descolonial” sobre la documentación e interpretaci-
(2008) propone la categoría “sistema ón del mundo; una dominación que es
moderno-colonial de género”. Airma facilitada por el dominio material que
que la categoría “género” es tan cen- Occidente ejerce sobre el globo” [...]
tral e indispensable como la categoría Oyewùmi airma que los/as investi-
“raza” para la vigencia del patrón colo- gadores siempre encuentran el género
nial del poder y del saber. No obstan- cuando lo están buscando.
te, cuestiona el status totalizador de la Esta discusión es pasible de leer
raza, en que la limitación parte de con- en el texto escrito por Rita Segato quien
siderar al género anterior a la sociedad se ubica en una segunda posición, en el
y la historia. Un punto neurálgico en el otro extremo, de la posición de María
debate acerca de la pre-existencia del Lugones y Oyeronke Oyewumi res-
género en el mundo colonial reúne a pecto de la inexistencia de género. Para
ambas iguras: Lugones y Segato. Para Segato las evidencias etnográicas del
dar cuenta de su inexistencia, Lugones mundo per-intrusión indican que no
cita a la feminista nigeriana Oyéronké existían sociedades igualitarias, que las
Oyewùmi para preguntarse si el pa- nomenclaturas de género ya estaban

• 264 •
disponibles desde la historia humana. enuncia al travesti en “su inasible alte-
La incidencia del pensamiento de la ridad”: “cuerpos indígenas cual no-lu-
colonialidad de poder/género es re- gar ignorado, cuerpos colonizados por
ceptora por los estudios de la disiden- el discurso que los rechaza, cuerpos
cia sexual. En su “Maniiesto en cuatro contemporáneos cuando un legado ir-
actos”, el ilósofo y performer peru- rumpe” (Campuzano, 2007: 9). En dis-
ano Giuseppe Campuzano abrió su tintas texturas, analiza distintas iguras
texto con una cita a Quijano acerca del como los enchaquirados, wawsa (eunu-
evolucionismo y dualismo, conceptos co), q’iwsa, ipa (“que viste vive habla y
nodales para el eurocentrismo y la co- trabaja como mujer”), para demostrar
lonialidad del poder impugnados en la cómo las coniguraciones de género en
propuesta de una historia a contrapelo la cultura prehispánica, no se limitan a
del Perú que se encuentra en el Museo las designaciones. Este binarismo ha
Travesti. Giuseppe Campuzano creó sido impuesto por la cosmovisión de
el Museo Travesti del Perú como un los colonizadores católicos.
proyecto conceptual, obra visual, por- En la perspectiva de los estudios
tátil y libro, “Donde se puede concen- del feminismo pós/decolonial, los es-
trar el universo entero a partir de unas tudios del feminismo islámico cuentan
cuantas imágenes y de ciertos fragmen- con importantes contribuciones de dis-
tos, restos, que siempre estuvieron pre- tintas autoras. En su artículo “Anhelos
sentes pero que nadie pudo detenerse Feministas y Condiciones postcolonia-
— hacía falta el milagro para que esto les”, Lila Abu-Lughod pone su atenci-
sucediera — y contemplarlo en toda la ón sobre el papel de mujeres musulma-
fascinación que su oscuridad lumino- nas que está cambiando en este nuevo
sa produce.” (2007:1) En él explora la siglo o el mundo postcolonial. Ese
huella del travestismo en el contexto cambio es llamativo porque en esos
del Perú. Se trata de un proyecto que tiempos postcoloniales, “Las mujeres
“empieza por impugnar saberes para se han convertido en símbolos poten-
lograr dislocar poderes” articulando tes de identidad y de visiones de la so-
una memoria del travestismo desde ciedad y la nación” (2002: 14). Como
el período prehispánico hasta la actu- explica, desde el feminismo Saba Mah-
alidad, trasladando “al travesti de los mood: “Fue la imagen del cuerpo de
márgenes al centro para replantear la una mujer afgana cubierto por una
historia del Perú desde el travestismo burka, y no la destrucción provocada
no como nuevo centro sino para mos- por 20 años de guerra subsidiada por
trar la relatividad de la historia oicial” los EE.UU, lo que sirvió de marco para
(Campuzano, 2009: 80). Campuzano la movilización de la organización Fe-

• 265 •
minist Majority contra el régimen tali- de la utilidad de los discursos sobre
ban. Esto es evidente en los relatos de las mujeres cubiertas con velos y en-
mujeres afganas que cuentan que sus cerradas en harenes entre cuatro pare-
vidas no mejoraron desde el derrum- des, también desempeñó un papel en
be del gobierno talibanés y cómo sus la comprensión de las libertades de las
vidas se tornaron más inseguras por la mujeres occidentales, entre unas “opri-
inestabilidad sociopolítica creciente.” midas” y otras “libres”.
(p. 10). Saba Mahmood, como Anzal-
La importancia que ha adquiri- dúa, centran su análisis en una diferen-
do el velo como signo de la domina- cia poco tratada la diferencia religiosa;
ción es insoslayable en la propaganda en este caso la tradición religiosa pa-
mediática y en las discusiones sobre los triarcal del islam. No obstante, cono
señala Abu-Lughod al hacer una bre-
derechos de las mujeres musulmanas
ve comparación entre mujeres musul-
que viven en el Primer Mundo, como
manas de tres países (Irán, Turquía, y
si fueran víctimas del sistema patriar-
Egipto), cuando se habla de “mujeres
cal de sociedades no occidentales en
musulmanas” no podemos generalizar-
sociedades occidentales. La obsesión
las porque cada país tiene su cultura e
europea por desvelar a las mujeres, es
historia que afecta las decisiones de sus
decir por quitarles (a ellas) el velo, lo poblaciones. Además, Abu-Lughod di-
inscribe, a mi entender, como signo rige su atención a la modernización, a
de autenticidad cultural. Hay una in- los lazos que la modernidad tendió con
quietante cercanía entre, por un lado, las mujeres, y a la cuestión tantas ve-
los discursos coloniales y los de algu- ces discutidas: si se puede ser moderno
nas representantes del feminismo oc- sin ser occidental. Esta característica
cidental, en términos “salvacionistas” contrasta con el movimiento de muje-
vía el camino del modelo occidental. res iraní cuyo objetivo es reinterpretar
Y por el otro, el discurso del “regre- los textos sagrados con la inalidad de
so a la autenticidad cultural” ante la construir relaciones equitativas entre
amenaza que imponía para las mujeres hombres y mujeres.
lo que un pensador iraní radicalizado
denominaba como “intoxicación occi- Karina Bidaseca
dental”. De modo que, “el velo en sí
mismo no debe ser confundido con, Referencias y sugerencias de
o hecho para, una suerte de agencia” lectura
(Abu-Lughod, 2002: 4; mi traducción).
ANZALDÚA, G. (ed.) Making Face, Making Soul, Ha-
Lo que me parece importante destacar ciendo caras. Creative and Critical Perspectives by Femi-
es lo que Jean Collier señala respecto nists of Color, San Francisco, Aunt Lutte Books, 1990.

• 266 •
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res tercermundistas en los Estados Unidos, San Francisco:
Feminism e a Radicalesbians, que cri-
Ism press. ticam as normas heterossexuais e ins-

• 267 •
titucionalizadas e apontam o sexismo grupo Psy-et-Po, com interesses pelos
étnico do sistema patriarcal. Kate Mil- problemas de linguagem e os escritos
let, Shulamith Firestone, Anne Koedt de Lacan e de Derrida.
e Adrienne Rich, entre outras femi- Em Speculum, Irigaray expõe a
nistas do inal dos anos 60 e também teoria da diferença sexual, criticando
dos anos 70, distinguem sexualidade e as abordagens de Freud e Lacan, bem
reprodução, e, abrem espaço para os como a tradição ilosóica, de Platão a
movimentos que se sucedem e que da- Hegel. Contra as teses essencialistas,
rão ao lesbianismo o status de teoria propõe nova concepção do femini-
respeitável. no pela diferença sexual e condena as
Na França, o grupo Psy-et-Po depreciações da sexualidade feminina
pela psicanálise (RESTAINO, 2002, p.
(Psicanálise e Política), guiado por
49). Com Irigaray, as feministas ditas
Antoinette Fouque, aborda a expres-
da diferença tomaram consciência de
são política das teorias psicanalíticas,
que “o mundo como representação”
aproximando-se das propostas sociais
não era mais que uma projeção do
do MLF (Mouvement de Libération des Fem-
sujeito masculino, e a subjetividade
mes). Outro grupo, no qual se incluem
formada apenas com base no relexo
Christine Delphy, Anne Tristan, Annie
(SENDÓN de LÉON, 2002, p. 16).
de Pisan e Monique Plaza, se apresenta Como ser sujeito tomando apenas o
em 1974 em Les Temps Modernes, e, to- outro e um mundo de representação
mando como referência o pensamento masculina como referência? A alusão
de Simone de Beauvoir, funda a revista ao speculum (contraposto de espelho) é,
Questions féministes, com a intenção de em Irigaray, um ataque sutil a Lacan,
inscrever o feminismo numa perspectiva que, em Estádio do Espelho, indicara
materialista e abolir o sistema de do- como decisiva a experiência especu-
minação patriarcal. Beauvoir atua como lar, na qual o menino ou a menina se
diretora de publicação, contribuindo veem reletidos no espelho e constro-
para a proposta de uma teoria sobre a em o sentido de suas identidades como
opressão das mulheres. Ligam-se a elas indivíduos separados da mãe e dos
feministas historiadoras, como Arlet- outros. O espelho que envia somente
te Farge e Elisabeth Badinter, ilósof- imagens precede da anuência do pai e
as, como Michèle Le Doeuff e Sarah de suas leis, feitas de palavras e lingua-
Kofmann, e, sobretudo, expoentes do gem que sancionam o papel masculino
feminismo francês dos anos 70, Luce como superior e o feminino como in-
Irigaray, Hélène Cixous, Julia Kriste- ferior. A ordem imposta pela lei do pai,
va e Monique Wittig, provenientes do na terminologia lacaniana, é chamada

• 268 •
de ordem simbólica, e os símbolos são seja, na lingugagem da lei do pai como
as palavras, os discursos, a linguagem, espelho, mantém-se a mulher em con-
que se distinguem das imagens e dos dição de inferioridade irremediável,
sinais. Estes pertencem à fase pré-ed- não sendo ela vista pelo homem tal
ípica, que Kristeva privilegiará como a qual é, mas como um buraco, uma falta,
ordem semiótica da mãe, em oposição uma ausência, o contrário de si. O falo
à fase da ordem simbólica do pai (RE- é aquilo que é pleno, a atividade, en-
STAINO, 2002, p. 50). quanto a vagina é a passividade, o nada.
Em Speculum, o tema central é O discurso masculino é falogocêntrico
o conceito de falogocentrismo, que e em tal ordem simbólica o homem se
explora a ambivalência do título do li- coloca no centro de tudo, enquanto
vro, pois este designa o espelho como possuidor do falo e do próprio discur-
instrumento de construção da iden- so (IRIGARAY, 2009, p.17-19).
tidade, tal como descreve Lacan, e o Irigaray critica as teses sobre a
espelho como objeto de uso ginecológ- sexualidade feminina como um cód-
ico, como instrumento que permite igo de comportamento e não uma
ao médico a visão da cavidade genital descrição dos fatos, com “fantasmas”
feminina. Tratando do falogocentri- que fazem a lei e transformam o ima-
smo, Irigaray ressalta a centralidade ginário em ordem social. Estabelece-se
do logos, da racionalidade discursiva, aí a relação do feminino com o pen-
na tradição ocidental, em paralelo com samento da diferença e do masculino
Derrida, que discorre sobre a realidade com o pensamento da identidade. A
marcada e criada pelo falocentrismo lógica para pensar o feminino deveria
originário da civilização. Em análise da transcender a do masculino, dito neu-
desconstrução da história da ilosoia tro ou universal e abstrato. (IRIGA-
e da psicologia, Irigaray mostra como RAY, 2009, p. 18-19). Retomando o
a diferença de gênero foi neutralizada mito da caverna de Platão, considera
e se interpretou a especiicidade fe- que a tradição ilosóica aceita a caver-
minina como uma imagem relexa e na como equivalente ao útero materno,
espelhada na única igura de identidade o speculum - enquanto o lugar da au-
concebida, a do mundo masculino. Se sência, da ignorância e da passividade-
o speculum é instrumento ótico cônc- que se contrapõe ao espelho externo
avo para examinar a cavidade do corpo – o bem e o sol (IRIGARAY, 2010, p.
humano, o espelho é a superfície plana 272). Em ensaios posteriores, Irigaray
que se abre ao público para restituir entende que a função da crítica femi-
a imagem humana. Nessa ideologia e nista seria a de desconstruir (em ter-
no imaginário da ordem simbólica, ou mos derridianos) a linguagem de todas

• 269 •
as disciplinas humanas, demonstrando vras, procurando não abafar a im de
os seus aspectos fundamentalmente des-mentir” (CIXOUS, 2001, p. 159).
falocêntricos e construindo uma outra De Monique Wittig, militante
linguagem, com valores distintos, não do feminismo de orientação lésbica
falsamente neutros mas especiicamen- dos anos 60, o escrito mais conhecido
te femininos (IRIGARAY, 2009, p. 97). é Não se nasce mulher, inspirado na fa-
Hélène Cixous, em especial em mosa frase de O Segundo sexo de Simone
O riso de Medusa, propõe exemplos de de Beauvoir. Trata-se de um reinado
escritura feminina plenos de diferença trabalho sobre a temática lésbica em
sexual, para indagar sobre o lugar da relação ao feminismo, que é referência
mulher na tradição discursiva ocidental para a leitura e compreensão de ten-
e concluir que “sempre vivemos sob o dências dos últimos anos. Wittig toma
alguns aspectos teóricos de Beauvoir e
Império do Próprio”. A história “está
de Virginia Woolf sob uma ótima ma-
dominada pelos mesmos senhores e
terialista, analisa a classe de mulheres,
eles a marcam com as insignías de sua
homens e lésbicas, estas últimas assu-
economia apropriadora”, só havendo
midas como condição especíica no
deslocamento para que ela “possa sem-
sentido de recusa do que possa ser to-
pre se repetir” (CIXOUS, 2001, p. 35).
mado ou imposto como natural, e air-
A lógica não neutra, mas fa-
ma que a heterossexualidade obriga-
locêntrica, do discurso ocidental é de tória limita a liberdade dos indivíduos.
tipo binário, o que legitima o papel Suas críticas alcançam a constituição
subordinado da mulher e deve ser re- da subjetividade e da identidade, jamais
futado por meio de uma escritura fe- dadas por natureza, mas por meio de
minina (écriture féminine) que ignore a escolhas livres (WITTIG, 1979).
lógica masculina. Trata-se de algo que Na Itália, o feminismo nasce
não pode ser teorizado ou codiicado, como consequência dos vários movi-
porque isso implica o léxico e a lógica mentos políticos de esquerda dos anos
da tradição falocêntrica, mas que tão 70 e airma-se não só como prática dos
somente se pode praticar, improvisar, grupos que vão se conscientizando
sem temor reverencial: uma escritura das reivindicações das mulheres, mas
de mulheres para outras mulheres, que pela elaboração teórica do que subjaz
cria estruturas sintáticas e linguísticas às lutas sociais e políticas. O manife-
novas. Assim as mulheres podem rea- sto Rivolta Femminile, que conta com
lizar por si mesmas uma parte de sua a presença de Carla Lonzi, prenuncia
liberação: “Escrever: roçar o mistério, a questão da diferença, em busca do
delicadamente, com a ponta das pala- direito à subjetividade e à autonomia,

• 270 •
fora dos parâmetros de uma “unilateral diferença sexual: “Tavez fosse mesmo
escravidão” (LONZI, 2010, p. 118). O o caso de se reletir suicientemente”
grupo inicialmente situado em Milão sobre a escolha de “separar-se da so-
e designado Libreria delle Donne pu- ciedade feita por homens” (MURARO,
blica, em 1987, um profundo estudo 2002, p. 93).
dos primeiros vinte anos do movimen- Cavarero ocupa-se inicialmente
to feminista italiano. Já em Verona, a dos problemas da linguagem ilosóica
liga remanescente se denomina Dio- e cientíica. No ensaio Per una teoria
tima, com a presença de Luisa Mu- della differenza sessuale, de 1987, ela
raro e Adriana Cavarero, toma como evidencia o caráter sexuado e mascu-
temática central a diferença sexual e a lino desse registro de linguagem, bem
construção de uma alternativa femini- como o fundo excludente da mulher
sta em relação à linguagem sexuada da que há no monismo da lógica tradi-
tradição masculina. cional, propondo que as mulheres tra-
Cavarero problematiza se o alvo balhem para construir uma linguagem
da teoria feminista não seria atacar a afeita a uma logica dual e não monís-
ordem falogocêntrica em seus próprios tica, que evidencie a diferença sexual
fundamentos lógicos, baseados numa e a expressão autônoma. Em escritos
linguagem que produz normas e hie- posteriores, tais como Nonostante Pla-
rarquias (CAVARERO, 2012, p. 114). tone (1990), Corpo in igure (1995), e
Ainda no grupo de Milão, com Tu che mi guardi, tu che mi racconti
destaque para Luisa Muraro, desen- (1997), aprofunda o confronto com
volve-se profunda crítica ao sistema teses da tradição ilosóica e literária
patriarcal, denunciando a opressão do Ocidente, aproximando-se, nos últ-
histórica da mulher. Na obra coleti- imos anos, de teoriasmais recentes na
va Non credere di avere dei diritti, de linha do feminismo de Braidotti, De
1987, a ideia-chave é que as mulheres Lauretis, Butler, Battersby.
não devem apoiar as reivindicações Contudo, o pensamento acerca
igualitárias propostas pelos homens e da diferença sexual sempre sustenta
muito menos se submeterem a deter- seus escritos, com o questionamento
minações tidas como universais. Para acerca da subjetividade feminina (CA-
Muraro, as mulheres devem erguer VARERO, 2009, p. 15). Mesmo que
suas diferenças e exaltar seus valores a mulher não tenha tido outrora uma
positivos por meio da prática da con- linguagem sua e deva utilizar a lingua-
iança, ou seja, que a mulher mais fra- gemdo outro, não podendo se repre-
ca possa coniar na mais forte em seu sentar a si mesma por meio de atos de
itinerário de liberação e airmação da fala, é preciso rever a simbologia igu-

• 271 •
rativa da tradição, para daí extrair o re- MAMBRINI, Luisella. Lacan e il femminismo contem-
porâneo. Roma: Quodlibet, 2010.
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Discursos feministas ante un nuevo siglo. Barcelona: Ica- ter ilosóico de seu discurso. O texto
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no qual sobressai o aspecto jurídico

• 272 •
levava em conta bases antropológicas, ilosoia em relação às mulheres é ide-
éticas e políticas do estado social da ologia patriarcal altamente misógina.
dominação masculina. A relexão so- De Platão e Aristóteles a Nietzsche,
bre as contradições do patriarcado sur- os homens que izeram a ilosoia ou
gia da percepção aguda das primeiras negligenciaram a questão das mulheres
pensadoras feministas que ainda não ou contribuíram para piorar a situação
se declaravam com o termo feminismo que elas ocupavam no cenário social
como uma crítica. A crítica dessas pen- em geral e também no campo ilosói-
sadoras dirigia-se à estrutura patriarcal co. Hoje quando se coloca a pergunta
da cultura, da sociedade e da política, “por que não há mulheres na história
em cujos termos mulheres eram trata- da ilosoia?” (embora sempre se men-
das como seres inferiores, dominados, cione algumas como Aspásia e Cristine
subservientes e subalternos. Podemos de Pisan) a resposta inevitável implica
também diferenciar a ilosoia feminis- as condições de produção da própria
ta da história da ilosoia que se ocupa ilosoia enquanto área sempre coman-
com o tema “mulheres” ou “femini- dada por homens segundo um progra-
no”. A ilosoia feminista não estudas ma de divisão do trabalho em que o
as mulheres como um mero tema a ser pensamento qualiicado como ilosoia
compreendido. Ela não pretende recu- não deveria ser acessível às mulheres.
perar traços perdidos que mostrariam Assim como as mulheres icaram afas-
o valor das mulheres no passado do tadas das artes, da literatura, da ciência,
pensamento. Antes, a ilosoia feminis- do direito, da vida pública em geral,
ta se ocupa em entender o modo como também a ilosoia não foi um campo
foi construída a deinição de “mulher”. aberto às mulheres. Se o mundo apaga
Um leitura feminista da ilosoia impli- a ilosoia, a ilosoia apaga as mulhe-
ca a crítica da ilosoia tradicional em res. Neste sentido, em relação à histó-
seu modo de ser essencialista. Um dos ria da ilosoia, só o que poderíamos
temas de interesse da ilosoia femi- fazer hoje, levando em conta a tradição
nista relativamente à história implica a ilosóica, seria recontar a história evi-
deinição da natureza feminina muito denciando o que os ilósofos homens
comum entre os ilósofos clássicos. falaram sobre as mulheres. Podemos
Neste âmbito raramente aparece algo também elencar alguns ilósofos e i-
que tenha sido escrito por homens lósofas que deixaram alguns textos
acerca de mulheres que não tenha sido favoráveis às mulheres como sujeitos
desabonatório (exceção é o livro A Su- do pensamento e da ação, mas em que
jeição das Mulheres de John Stuart Mill pese sua importância, são tão raros que
publicado em 1869). Toda a história da não chegam a formar um corpus ca-

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paz de ameaçar a dominação masculina mologia própria. A ilosoia feminista,
vigente até os dias de hoje. Por serem neste sentido, se diferencia radicalmen-
parte interessada os ilósofos homens te dos estudos sobre mulheres, assim
geralmente falaram mal das mulheres como dos estudos em torno do tema
construindo um processo de identii- do feminino, por ser justamente uma
cação das mulheres com algo inferior crítica radical de toda a epistemologia
e abjeto. O que a ilosoia feminista se e ontologia que dá base à dominação
propõe é, além de ser uma forma de masculina. O próprio termo “femi-
ética, ser também uma crítica da me- nino” é uma heterodeterminação do
tafísica do patriarcado. A ilosoia fe- patriarcado que, confundido com a
minista é, portanto, um projeto que se vida das mulheres, é um caráter a ser
estabelece na contramão da ilosoia desconstruído como fez a ilósofa es-
tradicional enquanto essa ilosoia é panhola Célia Amorós (1944) em seu
metafísica patriarcal ancorada em um livro “Hacia una Crítica de la Razón
discurso acrítico. A ilosoia feminista, Patriarcal” (1985). Toda a produção da
neste sentido, é necessariamente iloso- “identidade” heterodenominada pelos
ia crítica. Assim, a proposta que pode- homens como “feminina” é questiona-
mos identiicar como comum a todas da, do mesmo modo que “a mulher”
as ilósofas feministas diz respeito a como essência é questionada. Apesar
uma crítica profunda capaz não apenas disso, o feminismo de Célia Amorós
de desmantelar as estruturas estéticas, é o chamado Feminismo da Igualdade
políticas e morais do patriarcado, mas enquanto dá base teórica para a bus-
também as estruturas ontológicas da ca por direitos iguais para mulheres e
condição patriarcal à qual submetem- todos os seres oprimidos pelo patriar-
-se todos os discursos e todas as práti- cado.
cas. Assim, o feminismo ilosóico não A questão da igualdade acompa-
é apenas a desconstrução da história nha o feminismo desde sempre, tam-
patriarcal da ilosoia, mas a constru- bém o ilosóico e será fundamental
ção de uma ilosoia presente e futura para a ilosoia feminista. Junto com
que realmente seja crítica das metafísi- Olympe de Gouges, Mary Wollstone-
cas disfarçadas de ilosoias da subje- craft (1759-1797) pode ser considerada
tividade transcendental. O feminismo uma das precursoras da ilosoia femi-
ilosóico depende sempre, mesmo nista devido ao caráter inaugural de
quando seu interesse é eminentemen- sua crítica à pensadores de sua época,
te político, de uma crítica e de uma tais como Jean Jacques Rousseau que
espécie de refundação de uma episte- advogava a ideia de que as mulheres

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deveriam ser educadas para o prazer rença entre os sexos construída segun-
dos homens e mereciam uma educação do Beauvoir na história e na cultura.
restrita à casa. Wollstonecraft (que é a É a partir de Beauvoir que se separa a
mãe da famosa autora Mary Shelley) questão sexo (natureza física) e gênero
argumentou em seus textos em favor (papel social). O termo “gênero”, tor-
da educação igualitária entre homens na-se muito discutido entre as ilósofas
e mulheres. A reivindicação de uma feministas nos anos 60 e 70. Dentre as
educação pública vinha acompanhada mais citadas está Joan Scott (1941) que
da exigência de educação para a razão, tratou o termo gênero como uma ca-
pois naquele período vigia a crença de tegoria de análise histórica. Depois de
que a sensibilidade era própria da “na- O Segundo Sexo muitas ilósofas po-
tureza feminina” e de que as mulheres sicionaram-se como feministas de di-
deveriam ser educadas em seu nome. versos modos, mas é em Judith Butler
Neste caso, sua teoria era um comba- (1942) que encontramos uma novida-
te ao sexismo. A ideia da humanidade de em relação à teoria de Beauvoir. Em
universal defendida por ilósofos da seu livro Problemas de Gênero (1990)
época que, contraditoriamente, exclu- Butler questiona justamente a binarie-
íam desta humanidade as mulheres dade dos gêneros que está em jogo na
por sua diferença sexual foi um insight famosa frase de Beauvoir. Pois que esta
fundamental de Wollstonecraft para frase, na visão de Butler, coloca a mu-
toda a história posterior envolvendo lher construída em termos de gênero
feminismo e ilosoia. Podemos, to- como se o gênero fosse novamente a
davia, dizer que a primeira ilósofa verdade natural que resolveria os di-
propriamente feminista foi Simone de lemas da diferença. A questão funda-
Beauvoir (1908-1986) que, ao escrever mental do feminismo de Butler será a
O Segundo Sexo (1949) inaugurou o desconstrução do paradigma binário
questionamento sobre a construção da e da heterossexualidade, bem como a
mulher pelo homem como um “outro” desmontagem do gênero que é toma-
marcado por seu “sexo”. O Segundo do como natural no contexto social.
Sexo é um livro que questiona a “na- Butler colocará em cena o tema dos
tureza” feminina, que questiona a pró- corpos abjetos e de um pensamen-
pria ideia de “mulher”, e justamente to crítico da identidade dos gêneros
por isso propõe a questão que o tor- construídos e posteriormente naturali-
nou famoso: “ninguém nasce mulher, zados. Estudiosas como Julia Kristeva
torna-se mulher”. O livro é um vasto (1941), Hélène Cixous (1937) e Luce
questionamento sobre a suposta dife- Irigaray (1932) praticarão o que foi