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TESTES E EXAMES 12

Cotações

PROVA-MODELO DE EXAME 3 12N.O


o
11N.O
o
1
A A

GRUPO I 100

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.


PARTE A
Leia o poema.

O ELEVADOR DE SANTA JUSTA


podes caber à larga e não à justa no elevador de santa justa,
não te leva a parte nenhuma no sentido utilitário normal,
mas é a nossa torre eiffel. faz a experiência. por sinal
é um caso em que não custa aprender à nossa custa:
5 variamente na vida e na ascese se flibusta1,
e aprender à nossa custa é muito mais ascencional.

podes subir até ao miradouro se a altura não te assusta:


lisboa é cor de rosa e branco, o céu azul ferrete é tridimensional,
podes subir sozinho, há muito espaço experimental.
10 noutros elevadores há sempre alguém que barafusta,
mas não aqui: não fica muito longe a rua augusta,
e em lisboa é o único a subir na vertical.
Vasco Graça Moura, Poemas escolhidos 1963-1995,
Apresentação de Fernando Pinto do Amaral, Venda Nova, Bertrand, 1995.

1 se aventura.

1. 
Identifique o tema do poema explicitando o modo como se desenvolve. 16 (10+6)

2. 
Explique o sentido do último verso da primeira estrofe. 16 (10+6)

3. 
Comprove a transgressão às normas de pontuação, avançando uma justificação 16 (10+6)

para o facto.

PARTE B
Leia o texto.

Descendo ao particular, direi agora, peixes, o que tenho contra alguns de vós.
E começando aqui pela nossa costa: no mesmo dia, em que cheguei a ela, ouvindo os
Roncadores1, e vendo o seu tamanho, tanto me moveram o riso, como a ira. É possível
que sendo vós uns peixinhos tão pequenos haveis de ser as roncas do mar? Se com
5 uma linha de coser, e um alfinete torcido vos pode pescar um aleijado, porque haveis
de roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais. Dizei-me, o Espadarte porque não
ronca? Porque ordinariamente quem tem muita espada tem pouca língua. Isto não é
regra geral; mas é regra geral que Deus não quer Roncadores, e que tem particular
cuidado de abater, e humilhar aos que muito roncam. São Pedro, a quem muito bem
10 conheceram vossos antepassados, tinha tão boa espada, que ele só avançou contra

1
Prova-modelo de Exame 3

Cotações

um exército inteiro de Soldados Romanos; e se Cristo lha não mandara meter na


bainha, eu vos prometo que havia de cortar mais orelhas, que a de Malco2. Contudo
que lhe sucedeu naquela mesma noite? Tinha roncado, e barbateado Pedro que se
todos fraqueassem3 só ele havia de ser constante até morrer, se fosse necessário: e
15 foi tanto pelo contrário, que só ele fraqueou mais que todos, e bastou a voz de uma
mulherzinha para o fazer tremer, e negar. Antes disso já tinha fraqueado na mesma
hora, em que prometeu tanto de si. Disse-lhe Cristo no Horto que vigiasse, e vindo daí
a pouco a ver se o fazia, achou-o dormindo com tal descuido, que não só o acordou
do sono, senão também do que tinha brasonado4: Sic non potuisti una hora vigilare
20 mecum? [Marcos 14, 37] “Vós, Pedro, sois o valente, que havíeis de morrer por mim,
e não pudestes uma hora vigiar comigo?” Pouco há tanto roncar, e agora tanto dor-
mir? Mas assim sucedeu. O muito roncar antes da ocasião é sinal de dormir nela. Pois
que vos parece, irmãos Roncadores? Se isto sucedeu ao maior pescador, que pode
acontecer ao menor peixe? Medi-vos, e logo vereis quão pouco fundamento tendes
25 de brasonar, nem roncar.
“Sermão de Santo António aos peixes”, in Padre António Vieira, Obra completa
(dir. José Eduardo Franco e Pedro Calafate), tomo II, vol. X, Lisboa, Círculo de Leitores, 2014.

1 peixe cujo ruído se parece com o de um porco; 2 João, 18, 10 – alusão bíblica ao servo do Sumo Sacerdote Caifás, ao qual

São Pedro decepou a orelha direita, em resistência à prisão de Jesus; 3 fraquejassem; 4 vangloriar-se.

16 (10+6) 4. I ndique a intenção do orador ao selecionar o Roncador para alvo das suas
repreensões.
16 (10+6) 5. 
Comprove a possibilidade de se estabelecer um paralelismo entre o Roncador
e S. Pedro.

PARTE C

20 (12+8) 6. 
A dimensão crítica está presente em várias obras literárias ou em vários autores
com que já contactou.

Escreva uma breve exposição sobre o modo como a dimensão crítica está presente em
dois dos autores ou em duas das obras que estudou no Ensino Secundário.
A sua exposição deve incluir:
•  uma introdução ao tema;
•  u
 m desenvolvimento no qual explicite um aspeto que evidencie o modo como a
dimensão crítica está presente em cada um dos autores ou obras que selecionou,
fundamentando esse aspeto em, pelo menos, um exemplo pertinente;
•  uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

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GRUPO II

 eia o seguinte texto e responda às questões. Nas respostas aos itens de escolha
L 50

múltipla, selecione a opção correta.

AS PEQUENAS MEMÓRIAS
Um ou outro domingo, pela tarde, as mulheres desciam à Baixa para ver as mon-
tras. Geralmente iam por seu pé, alguma vez tomariam o carro elétrico, que era o pior
que me podia suceder nessa idade, porque não tardava a enjoar com o cheiro lá de
dentro, uma atmosfera requentada, quase fétida, que me revolvia o estômago e em
5 poucos minutos me punha a vomitar. Neste particular fui uma criança delicada. Com
a passagem do tempo esta intolerância olfativa (não sei que outro nome lhe poderei
dar) foi diminuindo, mas o certo é que, durante anos, bastava-me entrar num carro
elétrico para sentir a cabeça a andar à roda. Fosse qual fosse o motivo, pena de mim
ou vontade de alegrar as pernas, naquele domingo descemos a pé desde a Rua Fernão
10 Lopes minha mãe, a Conceição, creio que também Emília, e eu, pela Avenida Fontes
Pereira de Melo, logo a Avenida da Liberdade, e finalmente subimos ao Chiado que
era onde se mostravam os tesouros mais apreciados de Ali Babá. Não me lembro das
montras, nem é para falar delas que estou aqui, assuntos mais sérios me ocupam
neste momento. Junto a uma das portas dos Armazéns Grandella havia um homem
15 a vender balões, e, fosse por tê-lo eu pedido (do que duvido muito, porque só quem
espera que se lhe dê é que se arrisca a pedir), um daqueles balões passou às minhas
mãos. Não me lembro se ele era verde ou vermelho, amarelo ou azul, ou branco sim-
plesmente. O que depois se passou iria apagar para sempre da minha memória a
cor que deveria ter-me ficado pegada aos olhos para sempre, uma vez que aquele
20 era nada mais nada menos que o meu primeiro balão em todos os seis ou sete anos
que levava de vida. Íamos nós no Rossio, já de regresso a casa, eu impante1 como se
conduzisse pelos ares, atado a um cordel, o mundo inteiro, quando, de repente, ouvi
que alguém se ria nas minhas costas. Olhei e vi. O balão esvaziara-se, tinha vindo a
arrastá-lo pelo chão sem me dar conta, era uma coisa suja, enrugada, informe, e dois
25 homens que vinham atrás riam-se e apontavam-me com o dedo, a mim, naquela oca-
sião o mais ridículo dos espécimes humanos. Nem sequer chorei. Deixei cair o cordel,
agarrei-me ao braço da minha mãe como se fosse uma tábua de salvação e continuei
a andar. Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo.
José Saramago, As pequenas memórias,
Alfragide, Editorial Caminho, 2006.

1 orgulhoso.

1. O acontecimento evocado pelo narrador deu-se 5

(A) quando este era um adolescente de 15 anos.


(B) no momento em que, adulto, passou pelo local.
(C) aquando da visita que mais tarde fez a Lisboa.
(D) quando este teria cerca de seis ou sete anos.

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Prova-modelo de Exame 3

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5 2. O recurso às frases parentéticas (ll. 6-7 e 15-16)
(A) reforçam a ideia anteriormente expressa.
(B) encerram um comentário sobre as afirmações anteriores.
(C) apresentam uma explicação para as atitudes assumidas.
(D) anunciam a necessidade de explicitar as ideias expressas.
5 3. O narrador provocara o riso em alguns transeuntes, dado que
(A) arrastava, orgulhoso, o cordel de um balão que desaparecera.
(B) se mostrava feliz por arrastar pela baixa o balão oferecido.
(C) o balão enrugado e sujo lhe fazia lembrar o mundo.
(D) a perda do balão lhe trouxera a atenção da mãe e das pessoas.
5 4. A frase “que me revolvia o estômago e em poucos minutos me punha a vomitar”
(ll. 4-5) é complexa porque apresenta
(A) duas orações: uma adjetiva relativa restritiva e uma outra explicativa.
(B) três orações: uma subordinante, uma subordinada e uma coordenada.
(C) duas orações: uma subordinada adjetiva relativa explicativa e uma coorde-
nada copulativa.
(D) três orações: uma substantiva, uma adjetiva e uma coordenada assindética.
5 5.  pronome pessoal sublinhado em “uma atmosfera requentada […] que me re-
O
volvia o estômago e em poucos minutos me punha a vomitar” (ll. 4-5) desempenha,
respetivamente, a função sintática de
(A) complemento indireto e direto.
(B) complemento direto e indireto.
(C) complemento oblíquo e direto.
(D) complemento direto e oblíquo.
5 6.  emprego do pronome pessoal “ele” em “Não me lembro se ele era verde ou
O
vermelho” (l. 17) exemplifica o mecanismo de coesão
(A) lexical, por reiteração. (C) gramatical, interfrásica.
(B) gramatical, temporal. (D) gramatical, referencial.
5 7.  a frase “Íamos nós no Rossio, já de regresso a casa” (l. 21), o tempo verbal tem
N
um valor aspetual
(A) perfetivo. (C) habitual.
(B) imperfetivo. (D) genérico.
5 8. 
Indique o referente do elemento sublinhado em “nem é para falar delas que estou
aqui” (l. 13).

5 9. 
Refira o valor deítico de “aqui” (l. 13).

5 10. 
Identifique o valor modal presente em “Nem sequer chorei.” (l. 26).

50 GRUPO III
(30+20)
 amor à Pátria leva a que muitos sejam capazes de tudo para a defender, envolvendo-se
O
em conflitos bélicos ou atos terroristas com consequências, por vezes, desastrosas.
Num texto de opinião, de 200 a 300 palavras, desenvolva o tema proposto, recorrendo
a dois argumentos e a, pelo menos, um exemplo ilustrativo para cada um deles.

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PROVA-MODELO DE EXAME 3 – Proposta de correção GRUPO I – PARTE C


6. Ao longo dos diferentes períodos literários é percetível,
GRUPO I – PARTE A
em diferentes obras e autores, uma dimensão crítica. Por
1. Em primeiro lugar, o poema (de 1993) é um convite
isso, basta recuarmos até à poesia trovadoresca e pensar
para visitar o elevador de Santa Justa que, segundo o
nas Cantigas de Escárnio e Maldizer, visitar a obra vicen-
autor, é um lugar muito diferente dos outros. Assim, e
tina, recordar algumas reflexões do poeta em Os Lusía-
para confirmar esta premissa, recorre-se a um conjunto
das ou os vícios criticados por Vieira, por Eça de Queirós,
de argumentos, nomeadamente: ser espaçoso, permitir
entre outros.
chegar ao miradouro e ver o céu a três dimensões; pode-
Se nos detivermos no sermão de Padre António Vieira,
-se, ainda, subir sozinho, em paz. É uma manifestação
percebe-se claramente o objetivo do orador ao enume-
dos tempos modernos, uma obra da tecnologia e do pro-
rar os vícios dos peixes, metaforicamente associados
gresso industrial, símbolo de muitas ideias e projetos dos
aos homens. Efetivamente, Vieira condena a arrogância,
homens; "é a nossa torre Eiffel”, de onde se pode ver e
a prepotência, a ambição e a vaidade, porque pretendia
conquistar a cidade de Lisboa.
que os seus ouvintes mudassem comportamentos, tor-
2. Neste verso está contida a ideia de que qualquer pessoa nando-se pessoas melhores.
deve aprender por si mesma, pois só assim se dá valor Considerando a obra Os Maias, de Eça de Queirós, tam-
às coisas. Pode ser mais difícil, mais custoso, mas, por bém nos apercebemos de uma crítica intensa a com-
isso, é que é “ascensional”, dado tratar-se de uma apren- portamentos, situações e instituições, como o adultério,
dizagem, feita de sucessos e de fracassos, porém mais o provincianismo, a educação, a imprensa, as finanças,
compensadora, porque o esforço foi maior e foi pessoal, traçando, deste modo, um retrato da sociedade lisboeta
adquirindo, por isso, mais valor. oitocentista.
3. Como se pode verificar, o autor só faz uso da minúscula, Em síntese, a literatura permite ao leitor de hoje conhe-
mesmo depois do ponto final; tal facto poderá dever-se cer realidades distantes no tempo, muitos deles alvos
à necessidade de se afastar dos outros escritores, mar- de uma dimensão crítica. Contudo, o leitor acaba por re-
cando, assim, um estilo próprio que o fará ser reconhe- conhecer a atualidade de muitos dos temas criticados,
cido independentemente do género cultivado. Trata-se, uma vez que teimam em continuar presentes em muitos
portanto, de uma marca de estilo, à semelhança do que aspetos da sociedade atual.
fez Saramago ou outros autores, como Sophia de Mello 192 palavras
Breyner Andresen ou valter hugo mãe. GRUPO II
GRUPO I – PARTE B 1. (D); 2. (B); 3. (A); 4. (C); 5. (A); 6. (D); 7. (B).
4. Ao selecionar o Roncador para alvo da sua crítica, o ora- 8. “as montras”.
dor pretende criticar todos aqueles que sendo pequenos,
9. Valor espacial.
gostam de se fazer grandes. Ou seja, critica todos aqueles
que se acham maiores ou mais capazes do que aquilo que 10. Modalidade epistémica com valor de certeza.
realmente são, evidenciando que esta atitude, este defeito, GRUPO III
é ainda mais frequente naqueles que não têm razão para Proposta de planificação:
se gabarem. O orgulho e a arrogância são, pois, os dois de- Introdução: importância de amar a Pátria, de a defender, mas
feitos que o orador pretende criticar ao invocar o Roncador. sem o objetivo de a superiorizar a outras nações…
5. 
O orador faz um paralelismo entre o Roncador e Desenvolvimento:
S. Pedro. Se o Roncador se acha maior do que real- − a defesa da Pátria passa por defender um bem comum, a
mente é, também S. Pedro assume atitude semelhante. soberania e a especificidade de uma cultura, protegendo a
De facto, esta personagem bíblica fez promessas que nação de incursões estrangeiras. Tal facto leva à existên-
não conseguiu cumprir: no momento da verdade, cia de forças militares, como o exército, a PSP, a GNR, e de
fraquejou. S. Pedro comprometeu-se a defender Cristo, meios para proteger o país;
mas acabou por negar conhecê-Lo quando questionado − a defesa de uma nação pode ser direcionada para a domina-
por uma mulher; também se deixou adormecer quando ção, para comandar ou subjugar nações mais fracas, desres-
deveria ficar de guarda ao horto. No fundo, Pedro é peitando os direitos humanos, prevalecendo apenas a lei do
o melhor exemplo daqueles que se gabam muito, mas mais forte. Entender a soberania como sinónimo de domínio
acabam por não concretizar aquilo que dizem serem tem levado à destruição de muitos países e a muitos atenta-
capazes de fazer. dos, como os de Paris ou de Barcelona…
Conclusão: obrigatoriedade de respeitar os direitos humanos
e o princípio da não interferência através das armas, dado que
a violência gera violência e pode originar uma guerra à escala
mundial, com repercussões bem mais avassaladoras para a
Humanidade do que as que foram causadas pelas duas gran-
des guerras que ocorreram no século XX.