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RETRATAÇÃO...

Senhor presidente, senhor secretário, senhor tesoureiro, senhor ministerial, senhora


departamental, senhores departamentais e senhores colegas pastores distritais.

Na presença do Senhor dos senhores, o Reto Juiz, respeitosamente eu gostaria muito de poder
me retratar. Diante dessa egrégia comissão e diante de todos os que leram ou que ainda lerão
meu livro, de todo o coração, gostaria de poder me retratar!

Gostaria de poder dizer que errei em minhas considerações, em minhas interpretações, em


minhas abordagens e em minhas leituras da realidade.

Gostaria de poder dizer que meus lideres superiores foram exemplares, como é esperado deles
dentro da função de extrema responsabilidade que ocupam, ao receberem, tratarem e
responderem às sérias e inauditas observações e sugestões que, no espírito de Cristo, produzi e
confiei aos seus cuidados.

Gostaria de poder dizer que tais homens de Deus, depois de lerem tudo o que escrevi antes do
livro, não apenas me procuraram para me dar um feedback, como, em reconhecimento pelo
meu esforço em produzir e lhes entregar páginas que refletiam anos de oração, pensamento e
diálogo, se dignaram a responder a cada um dos questionamentos feitos, discutindo comigo
sobre os motivos pelo quais aceitavam ou desprezavam as ideias esboçadas.

Eu gostaria de poder dizer que, de fato, há canais abertos e efetivos de comunicação entre a
coletividade dos obreiros ordinários e a administração, especialmente nos concílios e reuniões
maiores, que possibilitem que os obreiros ordinários tenham suas observações ouvidas e
respondidas pela administração.

Gostaria de poder dizer que não constitui grave ofensa a Deus e semeadura maligna o falar-se
secretamente sobre os problemas da igreja e das falhas de seus líderes, inclusive mudando
imediatamente de discurso na presença de um superior, imaginando que, assim agindo, está-se
fazendo algum bem para a igreja.

Eu gostaria de poder dizer que não, não existe medo, receio, inibição e desconfiança por parte
da maioria dos obreiros ordinários para com seus superiores e que, assim, todos eles sentem
que podem se manifestar livre, fielmente e sem medo de interpretações que lhes tragam
retaliações, seja em particular ou, principalmente, em público.

Eu gostaria de poder dizer que, realmente, os obreiros ordinários são tão bem tratados e
respeitados como os obreiros em cargos superiores, e que, assim como estes, eles são mais
observados por seus acertos do que por seus erros.

Eu gostaria de poder dizer que a maioria de meus colegas de ministério não concordam comigo
quanto aos problemas que tenho apresentado.

Gostaria, ainda, de poder dizer que eles não têm medo de ser advertidos, marcados,
disciplinados, transferidos e até demitidos se decidirem se colocar ao meu lado na defesa desses
pontos.

Gostaria, assim, que as declarações da serva do Senhor quanto à exagerada preocupação dos
obreiros quanto ao salário se restringissem apenas a um período passado e nunca ao tempo
presente, como ela disse: “Alguns pastores se preocupam demasiadamente com o salário que
recebem. Trabalham por dinheiro e perdem de vista a santidade e a importância da obra. (...) Vi
que antes de a obra de Deus poder fazer algum progresso definido, é necessário que os pastores
sejam convertidos. Quando experimentarem a conversão, darão menor importância aos salários
e maior valor à importante, solene e sagrada obra que receberam da mão de Deus para cumprir,
a qual Ele exige seja feita fiel e esmeradamente, como aqueles que hão de prestar-Lhe estrita
conta. Um fiel registro de todas as suas ações é feito diariamente pelos anjos relatores. Todos
os seus atos, mesmo as intenções e propósitos do coração acham-se fielmente revelados. Nada
está oculto aos olhos oniscientes dAquele com quem temos de tratar. Os que despenderam
todas as suas energias na causa de Deus e que se arriscaram e investiram algo, sentirão que a
obra de Deus é parte deles, e não trabalharão meramente por salário. Não serão espectadores
buscando agradar-se, mas consagrarão a vida e todos os seus interesses a essa sagrada obra.”
Testemunhos para a Igreja, Vol. 1, pp. 467-469

Eu gostaria de poder dizer que, de fato, é apenas coisa da minha cabeça o pensamento de que,
por mais bem intencionados que nossos líderes possam estar, ainda assim eles precisam de
mecanismos que vigiem sua atuação, garantindo a representatividade do membros, permitindo
a livre atuação do Espírito do Deus e impedindo que danos graves sejam causados à igreja e ao
ministério.

Eu gostaria, na verdade, de poder dizer que não existem homens com objetivos escusos e
tortuosos em nosso meio, os quais, a menos que criemos formas de proteger a igreja e o
ministério, lhes farão tanto ou mais mal do que qualquer inimigo externo.

Eu gostaria de poder dizer com consciência tranquila que, no momento em que os obreiros são
eleitos para altos cargos, de fato, um poder sobrenatural se apossa deles de maneira tal que,
apesar de suas falhas, o crescimento da igreja, bem como seu desenvolvimento e sua nutrição
espiritual, não podem ser seriamente prejudicados.

Gostaria que a mensageira do Senhor nunca precisasse ter escrito sobre como o crescimento e
o progresso da igreja são, sim, prejudicados pela falta de comprometimento de pastores: “Vi
que a causa de Deus não está progredindo como pode e deve. Os pastores falham em empenhar-
se no trabalho com aquela energia, devoção e firme perseverança que a importância da obra
demanda. (...) A causa de Deus não progrediu em muitos lugares.” Testemunhos para a Igreja,
Vol. 1, pp. 467 e 469

Gostaria que não fossem reais as estatísticas apresentadas em meu livro, as quais retratam não
crescimento, mas estagnação e até decréscimo tanto na quantidade como na qualidade de
nossa membresia.

Gostaria de nunca ter tido ciência de que a taxa de apostasia em nossa divisão é a mais alta da
igreja mundial e que após termos batizado mais de 2,5 milhões de pessoas durante treze anos,
nosso número de membros caiu de cerca de 2,65 milhões no final de 2006 para 2,55 milhões no
final de 2019.

No máximo, gostaria de dizer que nossos líderes superiores reconhecem esses números e são
transparentes sobre eles tanto com os obreiros como com os membros; mais do que isso,
gostaria de poder dizer com confiança que, mesmo depois de treze anos, eles já tomaram todas
as medidas necessárias para corrigir esse curso.

Eu gostaria de poder dizer que, de fato, as necessidades de reavivamento e reforma em meio


aos nossos irmãos, dentro de nossas congregações, têm exatamente a mesma importância e o
mesmo peso de um reavivamento e reforma em nossos níveis superiores.
Eu gostaria de poder dizer, em outras palavras, que os líderes superiores não têm maior
responsabilidade para com a purificação e o reavivamento da igreja do que a membresia e que
a serva do Senhor se equivocou quando disse: " Os pastores precisam converter-se antes de
poderem fortalecer seus irmãos. (...) É necessária uma reforma entre o povo, mas essa deve
começar seu trabalho purificador pelos pastores. Eles são os vigias sobre os muros de Sião, para
fazer soar uma nota de advertência aos descuidados e imprudentes, e também retratar o
destino dos hipócritas de Sião.” Testemunhos para a Igreja, Vol. 1, pp. 469-470

Gostaria de poder dizer que, de fato, nossos líderes superiores não necessitam receber
observações, conselhos, sugestões, propostas e firmes advertências de ninguém,
principalmente de um obreiro ordinário do distrito pastoral.

Gostaria de poder dizer que apresento minha defesa meramente diante de pessoas que têm de
prestar contas a outros homens quanto à sua postura nessa reunião, e não diante do Ancião de
Dias que, do Seu santuário celestial, está avaliando como Sua igreja e os que a representam
estão julgando uma mensagem de reforma.

Gostaria muito de poder me retratar, afirmando que foi por pura excentricidade e por
preciosismo pessoal que me arrisquei tanto ao escrever duas cartas com teor tão delicado e,
aparentemente indigesto aos seus destinatários, e um livro de quase trezentas páginas que
consumiu boa parte do meu tempo livre ao longo de meses, além de uma soma importante de
dinheiro do meu limitado orçamento.

Gostaria de poder dizer que foi por um lapso de loucura que me posicionei de uma maneira que,
inevitavelmente, me traria diante dos senhores para ser julgado e sentenciado, disposto a
sacrificar meu ministério, o salário e os benefícios materiais dos quais eu, minha esposa e minhas
duas meninas temos gozado ao longo dos anos.

Gostaria de poder dizer que, sim, havia outros meios efetivos para que a devida atenção fosse
dada aos assuntos sérios e momentosos do livro que escrevi e que toda a exposição pública,
ainda que notadamente no contexto da membresia adventista, foi desnecessária.

Gostaria de crer que minhas cartas e meu livro deveriam ser tratados como uma subversão da
ordem natural das coisas, a qual tem sido tão favorável à igreja que, apesar de algumas
pequenas falhas de seus líderes, dispensava qualquer ato extraordinário e sem precedentes
como este.

Gostaria que o exemplo dos heróis da fé, dos reformadores, de homens e mulheres corajosos
que mudaram o mundo, enfim, não tivesse mais aplicação no mundo atual, uma vez que os
desafios que eles enfrentaram no passado não encontram qualquer paralelo no tempo presente.

Gostaria, sim, de acreditar que é suficiente apenas reconhecer os problemas e as necessidades


de melhoria, sem, contudo, fazer nada que requeira coragem, ousadia e riscos na busca de
melhorias efetivas. De fato, queria conseguir desprezar a advertência da mensageira do Senhor
quando disse que “Vezes há em que vários meios e fins, métodos diversos de operação quanto
à obra de Deus equivalem-se mais ou menos em nosso espírito; é exatamente então que se faz
mister o melhor critério. E se alguma coisa se faz para esse fim, deve ser feita no momento
oportuno. A mais leve inclinação do peso na balança deve ser notada, decidindo imediatamente
a questão. Muita demora fatiga os anjos. É mesmo mais desculpável tomar uma decisão errada,
às vezes, do que ficar sempre a vacilar, hesitando ora para uma, ora para outra direção. Maior
perplexidade e mal resultam de hesitar e duvidar assim, do que de agir às vezes muito
apressadamente. Tem-me sido mostrado que as mais assinaladas vitórias e as mais terríveis
derrotas se têm decidido em minutos. Deus requer ação pronta. Demoras, dúvidas, hesitações
e indecisão dão muitas vezes toda vantagem ao inimigo. (...) Perdem-se frequentemente vitórias
devido a tardanças. Haverá crises nesta causa. A ação pronta e decisiva no momento oportuno
conquistará gloriosos triunfos, ao passo que dilações e negligências darão em resultado grandes
fracassos e positiva desonra para Deus.” Obreiros Evangélicos 133-134.

Gostaria de poder dizer que está tudo bem em se admitir “somos todos falhos”, sem, contudo,
dizer em que estamos falhando e, mais importante, como buscaremos corrigir as falhas.

Gostaria de poder dizer que o Senhor da vinha vai justificar nossas sérias e persistentes omissões
em virtude de sermos falhos e termos uma natureza pecaminosa.

Gostaria de poder dizer que esse processo disciplinar não tem qualquer relação com as
retaliações sobre as quais falei nas cartas e no livro, os quais são infligidos àqueles cujas ideias
oferecem risco à sobrevivência de um sistema centralizador, que deposita poder em excesso e
exacerbada confiança sobre um ou poucos homens.

Gostaria de poder dizer que esse processo disciplinar visa pura e simplesmente “limpar” a
imagem da Igreja Adventista do Sétimo Dia, e não a imagem dos líderes que se sentiram
pessoalmente atingidos pelo que escrevi.

Gostaria de poder dizer que, de fato, o suposto "dano" à imagem da igreja causado pelo meu
livro é maior e, portanto, merece muito mais atenção, rigor e disciplina, do que o estrago
provocado pelos problemas apresentados em meu livro.

Gostaria de poder dizer que será meu livro quem determinará que imagem da igreja terão
aqueles que o lerem, e não as decisões que os senhores tomarem representando a igreja.

Gostaria de poder dizer que o único objetivo dessa reunião é o de corrigir um erro doloso
cometido por um obreiro vil e inconsequente, jamais o de silenciar verdades que clamam por
mudanças e emudecer de vez a voz dos obreiros.

Gostaria de poder dizer que esse processo disciplinar, ao ser concluído a gosto de seus
proponentes, realmente vai ter solucionado os seríssimos problemas que estão impedindo a
igreja de alcançar seu pleno potencial.

Gostaria de acreditar que todo o diálogo que está havendo e que toda a atenção que tem sido
dispensada pela administração aos anciãos, membros locais e até obreiros é fruto da mais pura
e natural forma com que as coisas são conduzidas normalmente.

Gostaria de poder afirmar que não existe competição exacerbada por parte de obreiros por
cargos administrativos e departamentais e que, assim, as famílias ministeriais não têm sido
prejudicadas pela ausência do pai e marido obreiro e até da mãe e esposa, obreira, em virtude
das exigências de sua função.

Gostaria de poder dizer que os pastores distritais têm plena condição e incentivo para se
realizarem no pastoreio das igrejas, uma vez que recebem tanto apoio, autonomia e
reconhecimento que ser chamado para uma cadeira administrativa ou departamental lhe
representaria um sacrifício, jamais uma promoção.

Gostaria muito de acreditar que Deus Se agrada e aprova o modo como Sua igreja está sendo
liderada, tornando desnecessárias declarações da pena inspirada como a de que os pastores
“Não devem permitir que o eu governe em lugar de Jesus, e precisam ser cuidadosos para não
dizer aos pecadores de Sião que tudo vai bem, quando Deus pronunciou maldição contra eles.”
Testemunhos para a Igreja, Vol. 1, pp. 468-469

Seria muito melhor para a igreja e para o ministério, muito mais fácil para mim e para todos
vocês se eu realmente pudesse dizer ou fazer todas essas coisas. Porém, não posso fazê-lo! De
acordo com minha consciência, não posso fazê-lo! De acordo com a Palavra de Deus, não posso
fazê-lo! Espelhando-me na conduta e nos atos extraordinários dos patriarcas, dos profetas, dos
apóstolos, dos mártires, dos pais da igreja, dos reformadores e dos pioneiros, jamais poderia
fazê-lo! Seria desonroso de minha parte fazê-lo! Retiraria o motivo de minha vida, de meu
chamado e de minha salvação em Cristo!

Humildemente, assim, desafio que se prove que meu livro está errado. E quando falo sobre
provas, me refiro às objetivas, isto é, baseadas numa consulta ao corpo de obreiros e aos líderes
e membros da igreja quanto às realidades que ele apresenta. Não estou advogando infalibilidade
em minhas palavras, apenas que os pontos essenciais e basilares que formam o espírito do livro
além de serem irrefutáveis justificam sua publicação.

Humildemente, desafio que se mostre onde minha obra atacou a igreja, a honra pessoal de
obreiros, ou fez generalizações que trazem desconfiança sobre o corpo ministerial e sobre a
própria liderança da igreja.

Humildemente, desafio que se apresente provas objetivas e inequívocas de prejuízo espiritual


trazido pelo livro à comunidade adventista em geral, bem como que se apresente provas na
Bíblia e nos Espírito de Profecia de que o mesmo foi inoportuno ou ímpio.

Vocês, hoje, decidirão em nome da Igreja Adventista do Sétimo Dia o que farão com um homem
que, no melhor de sua consciência, aceitou o difícil chamado de falar a verdade da única forma
que ela seria ouvida acima de qualquer possibilidade de ocultação, manipulação e supressão.

Não estou querendo criar um padrão! Deixei isso claro no meu livro! Estou advogando um ato
singular e extraordinário, com o objetivo de abrir um diálogo tão efetivo que traga mudanças de
longe almejadas.

Acima de tudo, não advogo por mim, mas pela causa que represento em nome de Deus. Advogo
pelo ministério para o qual o Senhor nos chamou. Advogo pelas nossas famílias ministeriais.
Advogo pela missão da nossa igreja. Advogo pela harmonia entre nós, obreiros. Advogo por um
ambiente de diálogo aberto e contínuo, a fim de que, unidos, assumamos e enfrentemos nossos
problemas, buscando pelas melhores soluções para eles.

Atenciosamente.

Pr. Tomaz Amaral de Jesus

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