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Quarta capa

A CONVIVÊNCIA NA CASA ESPÍRITA

É NECESSÁRIO TRAZERMOS O PENSAMENTO ESPÍRITA, EM SUA BASE


KARDEQUIANA, PARA FORTALECERMOS NOSSA SOCIALIZAÇÃO E
UNIÃO. DIRÍAMOS NAS PALAVRAS DE KARDEC, NO ENCONTRO COM OS
ESPÍRITAS DE LYON,: "... ESSE BANQUETE DE AMIGOS, MEUS MUI
AMADOS CONFRADES, COMO OS ÁGAPES DE OUTRORA, SEJA O
PENHOR DA UNIÃO ENTRE TODOS OS VERDADEIROS ESPÍRITAS."
(VIAJEM ESPÍRITA DE 1862).
NESSE TRABALHO, PORTANTO, PRETENDEMOS ESTUDAR OS
RELACIONAMENTOS HUMANOS NOS GRUPAMENTOS ESPÍRITAS, COM
SEU FOCO SOBRE A QUALIDADE DESSAS CONVIVÊNCIAS. PARA ISSO,
FOMOS BUSCAR NAS OBSERVAÇÕES DO CODIFICADOR, OS SEUS
VÁRIOS INSCRITOS, INSTRUÇÕES PARA NOS GUIAR NESSA DELICADA
TAREFA.

PRIMEIRA ORELHA
JARRI ROBERTO ALMEIDA DESDE 1988 REALIZA PALESTRAS PÚBLICAS,
E COORDENA GRUPOS DE ESTUDOS. É TRABALHADOR DA SOCIEDADE
ESPÍRITA AMOR E CARIDADE, EM OSÓRIO, OCUPANDO TAMBÉM
DIVERSAS FUNÇÕES NO MOVIMENTO ESPÍRITA DO LITORAL NORTE DO
RS. EM SUAS REFLEXÕES, BUSCA O DIÁLOGO ENTRE ESPIRITISMO E
CIÊNCIAS HUMANAS, DEFENDENDO A IMPORTÂNCIA DA INSERÇÃO DO
CONHECIMENTO ESPÍRITA NO CONJUNTO DO SABER HUMANO.
ATUALMENTE, TEM SE VOLTADO PARA O ESTUDO DA CONVIVÊNCIA E
DAS RELAÇÕES FAMILIARES, REALIZANDO PALESTRAS E SEMINÁRIOS.
É HISTORIADOR E PROFESSOR. É CASADO COM A PROFESSORA
GISELDA QUADROS, PAI DE GERMANO.

OUTROS LIVROS DO AUTOR:


FILOSOFIA DA CONVIVÊNCIA (PORTO ALEGRE, EDITORA AGE, 2006, 2ª
ED.);
HERÓIS DE PAPEL: AS REPRESENTAÇÕES SOBRE A REVOLUÇÃO
FARROUPILHA NA LITERATURA (PORTO ALEGRE, EDITORA ALCANCE,
2007);
O DESAFIO DA FELICIDADE: EM UM MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO
(PORTO ALEGRE, EDITORA FRANCISCO SPINELLI, 2007);
FAMÍLIA FRENTE & VERSO : UM OLHAR A QUATRO MÃOS SOBRE AS
RELAÇÕES (PORTO ALEGRE, EDITORA FRANCISCO SPINELLI, 2009), EM
COAUTORIA COM SILVANO MARQUES.
POSSUI, NA INTERNET VIRA O BLOG:
WWW.JARRIALMEIDA.BLOGSPOT.COM

SEGUNDA ORELHA
ALLAN KARDEC OFERECEU VALIOSAS INSTRUÇÕES, ALGUMAS
ESQUECIDAS OU IGNORADA, MAS QUE REPRESENTAM BASE
FUNDAMENTAL PARA A REAL COMPREENSÃO DA DOUTRINA ESPÍRITA.
EM SEUS DISCURSOS, POR OCASIÃO DA ABERTURA E ENCERRAMENTO
DO ANO SOCIAL DA SOCIEDADE PARISIENSE, E EM SUAS VÁRIAS
VIAGENS, NÃO SE FURTAVA EM CONCLAMAR OS ESPÍRITAS AO
CULTIVO DOS VALORES RENOVADORES DA ALMA.
POR ISSO BUSCAMOS SUAS OBSERVAÇÕES SOBRE A QUESTÃO DOS
MELINDRES, RESSENTIMENTOS, DAS DISSIDÊNCIAS, DO PAPEL DOS
DIRIGENTES E SOBRE O QUE ESTAMOS REALMENTE APRENDENDO E
APLICANDO NO COTIDIANO DE NOSSAS INSTITUIÇÕES.
O TEMA, BEM SABEMOS, É DELICADO E URGENTE EM NOSSO MEIO!
FICAMOS GRATOS SEU CONTEÚDO AQUI APRESENTADO PUDER
COLABORAR DE ALGUMA FORMA, NOS ESTUDOS INDIVIDUAIS OU EM
GRUPOS QUE PRETENDAM APROFUNDAR REFLEXÕES SOBRE A
QUALIDADE DE NOSSA CONVIVÊNCIA NAS CASAS ESPÍRITAS.
Jerri Roberto Almeida

A Convivência na
Casa Espírita
Reflexões e apontamentos
Com base nas instruções de
Allan Kardec
@ Jarri Roberto Almeida, 2011

Projeto Editorial:
Federação Espírita do Rio Grande do Sul

Capa:
Demitrius Gutierrez (Jimi Mars)

Editoração Eletrônica:
52C Produção Gráfica

Revisão:
Otávio Xavier Lokschin

Livraria e Editora Francisco Spinelli - FERGS


Av. Desembargador André da Rocha, 49
Fone ((51) 1740-3224- 1493
90050- 161. Porto Alegre, RS, Brasil
livraria@fergs.org.br
www.fergs.org.br

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

Dados internacionais de catalogação na publicação – CIP

Almeida, Jerri R. S. de
A convivência na casa espírita - reflexões e comportamentos com base
nas instruções de Allan Kardec. Porto Alegre: Francisco Spinelli, 2011

1. A Casa Espírita. 2. Convivência. 3. Espiritualismo. I. Título

16 x 23 cm 150p
CDD CDU

ISBN: 978-85-61520-15-1
Agradecimentos

Aos meus pais, Aprígio Fernandes de Almeida e Juraci Santos de


Almeida, Espíritos generosos que acolheram nessa existência. Minha Infinita
Gratidão.

Para minha esposa Giselda e meu filho Germano. Luzes no caminho.

Aos amigos do grupo de estudo espírita: Ângelo, Cláudio, Cristiano,


Dóris, Stella, Helton, Isalon, Jaciane, Liliane, Marcelo, Mara, Nilcéia, Rosângela
e Vera. Agradeço pelo aprendizado constante na arte da convivência, sempre
rica de reflexão.
Dedicatória

Para Nilton S. De Andrade, companheiro valoroso, incansável


trabalhador do Movimento Espírita de nosso Estado. Pelos estímulos e
orientações desde o início de nossa jornada.

Para Miguel Rocha, com quem aprendi, lá no início, a importância de


estudar Kardec.

Ao casal Lebrum e Rute Marques, amigos queridos, exemplos de


generosidade incondicional.

Com esse trabalho pretendemos homenagear a Federação Espírita do


Rio Grande do Sul, por ocasião de seus 90 anos.
Sumário
Apresentação.....................................................................................................................9
Kardec e o calcanhar de Aquiles......................................................................................11
A sociedade Espírita........................................................................................................14
Nossos temperamentos..................................................................................................17
Fraquezas humanas.........................................................................................................20
Os adeptos sinceros.........................................................................................................23
O ideal de perfeição........................................................................................................28
Críticas de críticos............................................................................................................32
As Intrigas........................................................................................................................36
A síndrome dos melindres...............................................................................................38
Ensaio sobre a tolerância................................................................................................41
O papel dos dirigentes.....................................................................................................46
O verbo doce ou enérgico...............................................................................................51
Conflitos doutrinários......................................................................................................53
Vou me afastar da Sociedade!........................................................................................58
Para além do ressentimento...........................................................................................62
Divergências produtivas..................................................................................................65
Cargos e funções.............................................................................................................68
O espelho que nos reflete...............................................................................................72
Unificando sentimentos..................................................................................................76
Evasão dos estudos.........................................................................................................79
Construindo convicção....................................................................................................83
A espiritualidade dos espíritas........................................................................................87
Promoção da convivência................................................................................................91
O homem novo................................................................................................................96
Bibliografia.......................................................................................................................99
Apresentação
Prezado Leitor,
Conheci Jerri Almeida, inicialmente, através de seus interessantes textos
publicados no Diálogo Espírita, periódico de nossa federativa, cujo caráter
filosófico nos instiga a pensar, a exercitar a fé raciocinada preconizada pelo
mestre Allan Kardec.
Ao longo do tempo, nas atividades de divulgação do Espiritismo ou de
unificação de nosso movimento, tive o ensejo de conhecer pessoalmente o
autor, o pensador dedicado ao ideal espírita, cuja marca pessoal foi revelada
como sendo a moderação ou o bom senso, sempre presente em sua postura
crítica responsável e pautada no bem.
Hoje, recebi com reverência a tarefa de apresentar a nova obra desse
amigo do Espiritismo, educador, historiador e escritor que é uma importante
referência intelectual do Movimento Espírita gaúcho. Após pensar no assunto
por algumas semanas, encorajei-me para este tentame e aqui estou
entregando em suas mãos essa notável obra que nos chega no tempo muito
oportuno.
Jarri, com sua madura capacidade reflexiva, realiza uma laboriosa
incursão no pensamento de Kardec através do recorte de vários discursos e
textos do Codificador, dando especial relevo a instruções dadas ao Movimento
Espírita nascente, presentes na Revista Espírita e noutros escritos do
missionário da Era Nova. Para tanto, procura dar sentido prático a essas
instruções fornecidas aos lidadores das casas espíritas, cujo cotidiano de
trabalho dobra um contínuo de aprendizagens significativas no campo de
serviço em que se matriculam, desaguando em processos educativos que se
estendem pela vida afora.
O livro nos fala, fundamentalmente, do valor da convivência na Casa
Espírita, sendo fiel aos postulados kardequianos, logrará atender aos seus
deveres maiores em consonância a função regeneradora da Doutrina dos
Espíritos junto à humanidade.
Na manutenção dos relacionamentos humanos na casa Espírita, fica
evidente na obra que o "calcanhar de Aquiles" está em nossas próprias
imperfeições, que, por sua vez, podem prejudicar a missão institucional do
Centro Espírita através de ações que as materializam no labor, quando a nossa
sombra interior ainda predomina em nossos comportamentos.
O autor também nos alerta quanto às "rachaduras" que favorecem a
ação espiritual perturbadora no âmbito de nossas instituições, destacando
dentre as posturas afetivas adotadas: o ciúme, as intrigas, as disputas internas,
os melindres e os corrosivos ressentimentos. Entretanto, não deixa de apontar
os saberes necessários à superação dessas problemáticas através da perfeita
comunhão de vistas e sentimentos, da cordialidade recíproca que deve nortear
a nossa convivência e da presença predominante da caridade cristã, além do
desejo real de instrução e melhoramento individual de nós que fazemos parte
do quadro de colaboradores dos grupos espíritas.
Recordemos que, como alternativa à humanidade sedenta de
espiritualidade e, por vezes, perdida num deserto de sentido existencial
aparentemente insolúvel nos discursos do materialismo científico, tanto quanto
na ilusão do formalismo religioso, o Espiritismo vem ensinar o Cristianismo do
Cristo, comunicando os meios práticos de sua aplicação no planeta inteiro e na
práxis social.
Kardec, como educador excelente, concita-nos a todo o momento à
aplicação dos saberes aprendidos com o Espiritismo, voltando-nos ao
aprimoramento de nós mesmos, e é dessa forma que a Casa Espírita pode
cumprir a finalidade educativa da Doutrina Espírita, quando seus participantes
assumirem conscientemente o processo de autoconhecimento e de vivência da
ética do homem de bem, inclusive, sociabilidades que a instituição fomenta
com seus serviços, nos quais podemos ser protagonistas.
Aliás, a atitude Cristã é o remédio apontado para os ressentimentos, os
desentendimentos, os apegos infelizes aos cargos, e é medida profilática a
tudo que venha, pelos motivos os mais variados, perturbar a marcha feliz do
trabalho que nos compete em nossas instituições, de esclarecer
espiritualmente os indivíduos e confortar os sofredores deste mundo pela
lucidez do conhecimento Espírita.
O livro, enfim, ressalta o caráter educativo das instituições Espíritas, em
prol do qual devemos trabalhar a fim de que elas sejam viveiros de luz,
fomentando a formação do homem novo, sujeito de um novo tempo em nossa
casa planetária.
Desejo a todos uma excelente leitura e vivências cada vez mais
assertivas na seara espírita, inspirados por esse belo trabalho de Jerri Almeida.

Paz e bem,
Vinicius Lousada
Bagé, dezembro de 2010.
Kardec e o calcanhar de Aquiles

Que os espíritas sejam, pois os primeiros a


aproveitar os benefícios que ele [ o espiritismo] traz, e que
inaugurem em entre si o reino da harmonia, que
resplandecerá nas gerações futuras.
Allan Kardec - Revista Espírita, dezembro de 1868.

Narra a mitologia grega que a deusa Tétis apaixonou-se por um rei


humano chamado Peleu. Desse amor nasceu um menino. Todavia, a mãe
percebeu que a criança havia herdado as características humanas do pai.
Entristecida, Tétis passou a banhar periodicamente o filho nas águas do Estige,
na expectativa de torná-lo invulnerável, com os qualificativos dos deuses. Certa
noite, no entanto, Peleu, já desconfiado das ausências e sua esposa, resolveu
segui-la. Aquela seria a última etapa, faltava somente mergulhar os
calcanhares do menino, por onde ela habitualmente o segurava. Mas Peleu,
sem nada saber, imaginando que sua divina esposa pudesse ter enlouquecido
e que ela afogaria seu pequeno filho, avança arrancando Aquiles de seus
braços.
O menino cresce e transforma-se no mais notável guerreiro. Mas
Aquiles, apesar disso, possuía seus pontos frágeis: os calcanhares. Foi assim
que, na guerra de Troia, um arqueiro de desastrado atingiu-lhe o calcanhar,
fazendo o poderoso soldado tombar e, ali mesmo, Aquiles pereceu.
Nessa breve introdução, desejamos ressaltar que todos nós possuímos
nossas vulnerabilidades. Na convivência humana esses "calcanhares" se
chocam, se atritam, provocando no panorama do mundo contemporâneo, com
sua cultura utilitarista, uma espécie de esvaziamento das relações. No cerne
dessa temática surge o problema da decepção com o outro que foge,
determinantemente, de nossas idealizações de perfeição.
Discutindo a chamada "sociedade da decepção", o filósofo francês Gilles
Lipovetsky afirmou:
Os valores hedonistas, a sobrecarga, os ideais
psicoculturais, os fluxos de informação, tudo isso deu
origem a um gênero de indivíduo mais introvertido, mais
exigente e, mas também, mais vulnerável aos tentáculos da
decepção. Após a "cultura do aviltamento" e a "cultura da
culpabilidade" (...) tempo agora o tempo das culturas da
ansiedade, da frustração e da decepção.
Para ele, uma das possíveis causas que ajudam a explicar esse
fenômeno contemporâneo é o enfraquecimento dos dispositivos religiosos de
socialização. Apesar das religiões, conforme, Gilles, não impedirem as
manifestações de amarguras e os desafios humanos, ela representa, em sua
versão conservadora, uma espécie de "refúgio" ou um "ponto de apoio" ou de
"consolação" insubstituível.
Kardec, muito antes de Gilles, já afirmava durante a Viagem Espírita de
1862, em discurso pronunciado nas reuniões gerais em Lyon e Bondeaux que:
O homem chegou a um período em que a ciência, as artes e a indústria
atingiram um limite até hoje desconhecido; se os gozos que dela tira satisfazem
à vida material, deixa o vazio na alma; o homem aspira a algo melhor: sonha
com melhores instruções; quer a vida, a felicidade, a igualdade, a justiça para
todos. Mas, como atingir tudo isso com os vícios da sociedade e, sobretudo,
com o egoísmo?
Para Kardec, a imperfeição humana é a fonte geradora de múltiplos
conflitos durante o conhecimento do Espiritismo não mais conduziria nem ao
isolamento, ao desespero, sua influência educativa já havia corrigido muitas
imperfeições, levado paz a inúmeras famílias, propagando esperança e
felicidade.
Dessa forma, é necessário trazermos o pensamento espírita, em sua
base kardequiana, para fortalecermos nossa união. Diríamos nas palavras de
Kardec, no encontro com os espíritas de Lyon, que "esse banquete de amigos,
meus mui amados confrades, como os ágapes de outrora, seja o penhor da
união entre todos os verdadeiros espíritas". (Viagem Espírita de 1862)
Nesse trabalho, portanto, pretendemos estudar os relacionamentos
humanos nos grupamentos espíritas, com seu foco sobre a qualidade dessas
convivências. Para isso, vamos buscar nas observações do Codificador, em
seus vários escritos, instruções para nos guiar nessa delicada tarefa.
As reflexões aqui expostas também foram colhidas a partir das
experiências práticas, das observações simples sobre o cotidiano, do contato
com inúmeros grupos, ouvindo as inquietações de muitos dirigentes e, por
vezes, as nossas próprias.
Allan Kardec ofereceu valiosas inscrições, algumas esquecidas ou
ignoradas, mas que representam base fundamental para a real compreensão
da Doutrina Espírita. Em seus discursos, por ocasião da abertura e
encerramento do ano social da Sociedade Parisiense, e em suas várias
viagens, não se furtava em conclamar os espíritas ao cultivo dos valores
renovadores da alma.
Por isso, buscamos suas observações sobre a questão dos melindres e
ressentimentos, das dissidências, do papel dos dirigentes e sobre o que
estamos realmente aprendendo e aplicando no cotidiano de nossas
instituições.
O tema, bem sabemos, é delicado e urgente em nosso meio! Ficamos
gratos se o conteúdo aqui apresentado puder colaborar de alguma forma nos
estudos individuais ou em grupos que pretendam aprofundar reflexões sobre a
qualidade de nossa existência.
O Espiritismo é proposta renovadora para os novos tempos. Com ele,
descobriremos veredas confortadoras para um novo horizonte existencial. O
momento, dizem os benfeitores espirituais, exige de todos nós o esforço
perseverante para o exercício contagiante do amor no mundo. Somente assim
poderemos superar mais rapidamente a sociedade da decepção, da qual fala
Gilles.
A sociedade Espírita

A sociedade tem por objetivo o estudo de todos os


fenômenos relativos às manifestações espíritas e suas
aplicações às ciências morais, físicas, históricas e
psicológicas. São defesas nela as questões políticas, de
controvérsia religiosa e de economia social.

Art.1. - Regulamento da Sociedade Parisiense de


Estudos Espíritas.
O Livro dos Médiuns - Cap. XXX

O mundo, atualmente, passa por grandes dilemas desafiando todos os


seguimentos da sociedade na busca de novos caminhos. Razão pura e
simplesmente não conseguiu resolver os problemas humanos, conforme a
promessa iluminista do século XVIII. Mas, por outro lado, as religiões
tradicionais, enclausuradas no dogmatismo e nas verdades fechadas,
perderam-se no que poderíamos denominar hoje de "materialismo espiritual". O
foco da assistência religiosa voltou-se, num mundo vazio de espiritualidade
para o atendimento das necessidades materiais e muitas vezes nem tão
importantes assim como: "acessar Jesus" para ser promovido, pagar dívidas
financeiras, arrumar emprego, trocar de automóvel, etc.
Vivemos no mundo e não podemos dele nos alienar. A essência dos
dilemas humanos, no entanto, é mais profunda e transcende aos aspectos
meramente materiais da existência. A Organização Mundial da Saúde alertou
em 2009 sobre a doença que atingiram, em poucas décadas parte da
população mundial ultrapassando inclusive as doenças vasculares: a
depressão.
Estamos vivendo, e pelo jeito viveremos por um bom tempo, num mundo
de "depressivos" e " anti-depressivos". O vazio existencial, fruto da ausência de
valores e de um sentido mais profundo para vida, com duas milhares de
criaturas para os caminhos tortuosos das doenças mentais e emocionais. No
verso, na parte não visível de muitas essas questões, agregam-se os dilemas
obsessivos, os conteúdos traumatizantes no passado, em forma de conflitos
inconscientes, os desajustes no temperamento e a agressividade instintiva,
enlouquecida pelo materialismo do passado e do presente.
Allan Kardec alertava, já no Regulamento da Sociedade Parisiense de
Estudos Espíritas, conforme a epígrafe deste capítulo que as instituições
espíritas deveriam se preocupar em aplicar o estudo do Espiritismo, entre
outras, "às ciências morais" e "psicológicas". Ora, o Espiritismo possui um
vigoroso e dinâmico conteúdo voltado para a evolução da ciência humana.
Com ele, novos horizontes que fazem perceptíveis, os mecanismos da vida se
tornam mais claros e inteligíveis, com aspecto espiritual Deixa de ser objeto de
crenças e da subjetividade humana, para tornar-se elemento concreto de
estudo e observação.
Ao mesmo tempo, o regulamento prescrevia que devem ser afastados
das sociedades questões como "política", "controvérsias religiosas" e
"problemas econômicos". Há uma nítida precaução, não em afastar o
Espiritismo dos "problemas do mundo", mas em demonstrar que o foco da
Sociedade Espírita é salvaguardar e difundir os objetivos do Espiritismo, sem
se deixar contaminar pelos "interesses do mundo".
Em seu discurso aos espíritas de Lyon e Bordeaux constante na Viagem
Espírita de 1862, Allan Kardec asseverava: "Coloco em primeira instância o
consolo que é preciso oferecer aos que sofrem, erguer a coragem dos caídos,
arrancar um homem de suas paixões, do desespero, do suicídio, detê-lo talvez
No Limiar do crime..." Essas colocações vão ao encontro dos objetivos da
Sociedade Espírita, sobretudo no que tange aos elementos morais e
psicológicos oferecidos pelo espiritismo ao ser humano.
Diante da complexidade do mundo contemporâneo, e das perspectivas
para o futuro, surge a necessidade de que os trabalhadores espíritas se
preparem com conhecimento e firmeza de confecções tais que os capacite a
enfrentar, com segurança e eficiência, os desafios da contemporaneidade. A
Casa Espírita, neste sentido, além da vigilância doutrinária de sempre, deve
investir na melhoria da convivência, para que a fraternidade e o respeito jamais
se afastem do grupo.
Pretender que os espíritas sejam infalíveis seria demasiadamente
absurdo para os padrões da Terra. Todavia, ser espírita não é uma mera
questão de rotulação, e Kardec em vários de seus escritos manifestou essa
preocupação. Na Casa Espírita não deve predominar em incessantemente o
espírito de oposição e de controvérsias. Sem uma certa "homogeneidade" não
é possível uma comunhão de pensamentos e, portanto, não são possíveis nem
calma nem recolhimento.
Em face disso, Kardec asseverou, na Revista Espírita de Janeiro de
1867 (Olhar retrospectivo sobre o Movimento Espírita): "Não basta dizer-se
espírita. Aquele que o é de coração prova-o por seus atos. Não pregando (...)
senão o bem, por respeito às leis, à caridade, à tolerância e à benevolência
para com todos". Trata-se de um conjunto de qualificativos para serem
exercitados cotidianamente, ao sabor dos esforços pessoais.
Responsabilidade, esforço e perseverança devem ser os instrumentos diários
de todos aqueles que desejam avançar na caminhada da vida.
Para que a Sociedade Espírita possa dar conta de sua imperiosa tarefa
junto à coletividade humana, seus trabalhadores e estudantes devem viver num
clima de produtiva harmonia, alicerçadas no firme propósito de crescimento
pessoal. Não se trata, como bem advertiu Herculano Pires, de uma preparação
para a "conquista de planos superiores", mas - simplesmente - administrar seus
potenciais criadores para viver e conviver com moderação e equilíbrio.
Centrado numa cultura do consumo, do instantâneo, onde se busca viver
intensamente o presente com o máximo de prazer, negando o sofrimento numa
busca perturbadora pela automedicação e o uso, cada vez mais frequente, de
anti-depressivos, o ser humano vive os dramas de nossa civilização. O
empenho pessoal, utilizando-se os recursos da reflexão regular da meditação e
oração, serão suportes valiosos, neste mundo conturbado, para fortalecer o
servidor do bem no seu ideal renovador. Perseverar é o lema fundamental para
a conquista desse mesmo.
Postura de autenticidade, fugindo-se das máscaras e dos modelos
idealizados de perfeição, oferecerá a todos nós, a imagem do que realmente
somos, sem culpas nem representações fantasiosas que possam nos afastar
da realidade concreta. Só podemos mudar em nós, o que realmente
conseguimos enxergar. Ser fraterno, deixar-se inundar pela fragrância do amor,
sem abandonar a necessária humildade controladora do ego, reconhecendo e
aceitando nossa condição humana de forma harmoniosa, é imperativo para
uma vivência mais plena.
Será desse fulcro, unindo conhecimento, humanidade e amor, numa
verdadeira sinergia, que a Casa Espírita disponibilizar â contemporaneidade,
justamente, o que lhe falta: não é por acaso que muitos psicólogos
recomendam a seus pacientes, diante de determinada problemática
psicológica, também a busca por uma instituição Espírita.
Entenda se, portanto, que a Casa Espírita não é mais uma expressão
dos tantos núcleos religiosos tradicionais espalhados pelo mundo. Neste
mesmo mundo onde os pensadores pós-modernos buscaram desconstruir
todas as certezas do conhecimento. O que isso significa então? Significa, entre
outras coisas, que apesar de nossas heranças culturais religiosas e da
fragmentação dos valores atuais, a Casa Espírita representa uma mudança,
fruto do trabalho de Kardec na perspectiva metodológica de nos relacionarmos
com o conhecimento, a partir da pesquisa, análise e observação dos
fenômenos psíquicos e espirituais. Portanto, espírita não é aquele que
simplesmente "acredita" na reencarnação e na comunicação mediúnica, por
exemplo, mas aquele que construiu a convicção da na imortalidade.
Compreende que é um espírito antigo em macha evolutiva através das
múltiplas experiências vivenciais.
Sem buscarmos uma classificação específica, desta ou daquela
natureza, podemos considerar a Casa Espírita como uma instituição
absolutamente inovadora, abrindo possibilidades para um novo paradigma
ético, cultural e espiritual na atualidade.
Nossos temperamentos

Entre os impacientes, sem dúvida alguns há de


muito boa fé e que gostariam que as coisas andassem
ainda mais depressa, assemelhando-se a essas criaturas
que julgam adiantar o tempo adiantando o relógio. Outros,
não menos sinceros, são impelidos pelo amor-próprio a
serem os primeiros a chegar; semeiam antes da estação e
apenas colhem frutos malogrados. Infelizmente, ao lado
destes existem outros que empurram o carro a mil por hora,
na esperança de vê-lo tombar.
Allan Kardec - Nova tática dos adversários do
espiritismo - Revista Espírita, junho de 1865

Na epígrafe acima, Allan Kardec descreve elementos típicos de nosso


tempo. O temperamento pode ser visto como um conjunto de elementos inatos
que caracterizam um sujeito, influenciando sua conduta, principalmente, no
meio social. O sentido etimológico da palavra (do latim: temperamentum) está
associado à ideia de temperança ou moderação. Aristóteles refere-se à
temperança como uma espécie de meio-termo mas nem sempre o
temperamento humano é caracterizado por esta moderação.
A diversidade dos temperamentos se explica pelos qualificativos e
incompletudes do Espírito em evolução. Assim, o temperamento flui de dentro
para fora, como bem lembrou Kardec em O Céu e o Inferno, primeira parte,
Capítulo VII. Representa traços da natureza e da própria essência peculiar a
cada ser humano, agregando-se aos demais componentes formativos da
personalidade.
Kardec exemplifica, na Revista Espírita de julho de 1863, o
temperamento de um jovem francês de vinte e três anos que possuía, desde a
infância, forte disposição para cólera diante da menor contrariedade. Quando
chegava em casa e não encontrava, imediatamente, o que queria, se algo não
estivesse em seu lugar habitual, se o que tivesse pedido não estivesse pronto
em um minuto, ficava irritado e colérico. O contato com o Espiritismo, segundo
Kardec, produziu no jovem o estado de reflexão fundamental: "o resultado de
minha cólera foi tornar-me doente e infeliz; e ela não me dá o que me falta;
então é inútil, desde que assim não progredi; ela me produz o mal e nenhum
bem me dá em troca".
Vale fazermos uma espécie de diagnóstico psicológico do próprio Eu:
Quais são os traços característicos do meu temperamento? Vejamos,
resumidamente, alguns tipos possíveis. A pessoas com variedade de
disposição, mas com dificuldade para definir um roteiro de vida. É comum
presenciarmos na instituição espírita, pessoas que iniciam no Estudo
Sistematizado e, depois de um tempo, desistem após um período afastadas,
decidem retomar, voltam a assistir palestras e adentram novamente a um
grupo de estudo, num ciclo quase interminável de saídas e retornos. Poderiam
encaixar-se neste exemplo pessoas portadoras de um temperamento instável.
Mas e aquelas pessoas com falta de habilidade na vida prática? Diante
dos desafios ou dos imperativos naturais da evolução, a pessoa,
inconscientemente ou não, se vitimiza, esperando que alguém lhe "carregue"
ou traga uma solução expressiva para seus problemas.
Observam-se, também, pessoas dotadas de ação, e que naturalmente
exercem uma liderança no grupo possuem capacidade de administrar pessoas,
recursos e situações. No geral, são aquelas que se tornam os alicerces da
instituição. Dedicam-se ao aprofundamento do estudo doutrinário e das
atividades administrativas possuem como traço marcante do temperamento a
liderança.
Temos pessoas com aptidões práticas, voltadas para coisas mais
imediatas, e por isso mesmo gostam de estar envolvidas com ações sociais em
geral, são pessoas otimistas e extrovertidas. Em nossas Casas Espíritas,
costumam situar-se, entre outras, na área de assistência e promoção social.
São temperamentos mais pragmáticos.
Encontramos, por vezes, pessoas de pouco impulso, que necessitam,
periodicamente, de motivação e estímulos para dar sequência aos seus
projetos de vida. Necessitam, quase sempre, que alguém lhes reforce o que já
sabem e, por isso, vivem buscando orientação no Atendimento Fraterno. Criam
uma espécie de dependência de orientação, marcada pela insegurança
psicológica.
No espaço das relações no Centro Espírita, encontramos, também,
aquelas pessoas no polo oposto ao do líder faltam iniciativa e entusiasmo nas
tarefas assumidas. São pessoas que, muitas vezes, possuem um seguro
conhecimento doutrinário, possuem o coração enternecido no bem, mas
carecem de dinamicidade para fazerem os trabalhos fluírem dentro do
esperado.
Há temperamentos, no entanto, comuns aos demais tipos psicológicos
identificados nesse texto. Podemos citar aquele sujeito que apresenta alto grau
de suscetibilidade emocional e, por isso, torna-se muito receptivo no campo
das relações humanas associa vários sentimentos, dentre os quais o orgulho.
São pessoas que se melindram ou se magoam, constantemente diante de
situações menores.
O encontro social das diversidades dos tipos psicológicos no espaço do
Centro Espírita deveria bem funcionar como uma "oficina de sentimentos",
considerando-se que os ensinos ali ofertados possuem alto valor psicológico. O
temperamento forte, associado ou não aos complexos que trazemos dessa
e/ou de vivências passadas, quando não administrado adequadamente,
termina por impor barreiras psicológicas e crises complexas no terreno das
relações.
Jung considerou os complexos como pertencentes a estrutura do
inconsciente, sendo que sua origem mais frequente e o conflito, mas admitia
que choques e traumas emocionais podem ser responsáveis por sua
formatação. De forma geral, complexo, como o próprio termo assiná-la, seria
uma constelação de elementos psíquicos (ideias, opiniões, atitudes...)
associados com diversas sensações, que se agregam no inconsciente, em
torno de um tema central. O conhecimento espírita nos permite pensar sobre
questões não resolvidas pelo Espírito diante das Leis da Vida, ficando
arquivadas nas entranhas de seu psiquismo. Um intenso sentimento de culpa,
arquivado no inconsciente em forma de conflito, poderá manifestar-se,
conforme assinalou André Luiz em seu livro no Mundo Maior, na estrutura
psíquica atual como comportamentos esquizofrênicos.
A psique, na análise espírita, é um sistema energético dinâmico e com
grande potencial. Assim cada processo psíquico possui como valor psicológico
a intensidade da energia (agressividade, libido, amor...) agregada a ele. O
modelo espírita considera ou inconsciente com suas unidades energéticas
responsáveis pelo armazenamento das experiências evolutivas do Espírito.
Nessa região estariam depositados os complexos palingenéticos, em
comunicação dinâmica com as demais estruturas da psique. Podemos inferir, a
partir disto, que os complexos influem de forma determinante na formação do
temperamento e da personalidade do Espírito reencarnado.
A rigor, dois tipos de complexos, em si mesmo opostos, representam a
adoção de comportamentos singulares com forte impacto no meio relacional:
os complexos de inferioridade e superioridade. No primeiro caso, encontramos
pessoas com uma baixa autoestima. Muitos indivíduos adotam condutas
mentais de queixume. Há uma intensa vitimização do sujeito na expectativa,
consciente ou inconsciente, de conquistar a atenção, carinho e amparo dos
outros.
O segundo caso, o complexo de superioridade representa uma tentativa
do ser de ignorar, diante das ocorrências do cotidiano, suas próprias fraquezas
e limitações. Em ambos os casos, porém encontramos traços evidentes da
incompletude humana, trazendo, portanto, conteúdos perturbadores assim
como qualificativos e conquistas já realizadas, nos inserimos, diante da vida,
numa proposta de permanente aprendizado.
Fraquezas humanas

... Espíritos malfeitores se ligam aos grupos, do


mesmo modo que aos indivíduos. Ligam-se,
principalmente, aos mais fracos, aos mais acessíveis,
procurando fazê-los seus instrumentos e gradativamente
vão envolvendo os conjuntos...
Kardec - O Livro dos Médiuns - Capítulo 29, item 340

A busca pelo melhoramento humano, função prioritária da instituição


Espírita, sofre - muitas vezes - os reveses naturais de forças opostas que
tentam obstaculizar o caminho do bem. Tais forças, emanadas de criaturas que
ainda vivem distanciadas dos valores nobres da vida, conspiram contra os
resultados obtidos nos núcleos estimuladores do esclarecimento e do amor.
A literatura espírita é rica de exemplos de entidades que buscam infiltrar,
nas Casas Espíritas, ideias perturbadoras com o objetivo de gerar desestrutura
interna. O grande problema para essas criaturas infelizes é, justamente, como
se infiltrar na Instituição, uma vez que as ações que exerçam estão dentro de
certos limites.
Sociedades Espíritas onde se cultivam a comunhão de ideias, a unidade
de princípios e de sentimentos nobres, dispõe de psicosfera altamente positiva
sob a assistência de Espíritos com elevados qualificativos. Isso, naturalmente,
dificulta em muito a ação de criaturas perturbadoras. Quando surgem algumas
"rachaduras" nessas estruturas espirituais da sociedade, os espíritos
malfeitores conseguem, como aludiu Kardec, vincularem-se a certos indivíduos
mais vulneráveis, estimulando - silenciosamente - o ciúme, as intrigas, as
disputas internas, os melindres e ressentimentos.
Dessa forma, sob o império da invigilância pessoal, alguns trabalhadores
espíritas abrem brechas para perniciosa influenciações nos grupos. Apesar
disso, ficar meramente procurando os "culpados" não trará melhores
resultados. Cumpre isto sim, refletirmos sobre o compartilhar das
responsabilidades, das ações profiláticas e das terapêuticas que poderão ser
aplicadas nestes casos.
Allan Kardec, em Obras Póstumas quando trata "Dos cismas", advertiu:
"Se, porém, o Espiritismo não pode escapar às fraquezas humanas, com as
quais se tem de contar sempre, pode todavia neutralizar as consequências e
isso é o essencial". Inúmeras ocorrências solicitam, dos dirigentes, decisões
amadurecidos na reflexão e na oração. O que fazer ou como proceder diante
desses problemas? Cada caso é uma situação singular, com características
próprias.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no Capítulo X, item 21, Allan
Kardec indagou o espírito São Luís sobre a conveniência em desmontar o mal
de outrem e obteve a seguinte resposta:

É muito delicada esta questão e, para resolvê-la,


necessário se torna apelar para a caridade bem
compreendida. Se as intenções de uma pessoa só a ela
prejudicam, nenhuma utilidade haverá nunca em divulgá-la.
Se, porém, podem acarretar prejuízo a terceiros, deve-se
atender de preferência ao interesse do maior numero.
Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a
mentira pode constituir um dever, pois mais vale caia um
homem, do que virem muitos a ser suas vítimas. Em tal
caso, deve-se pesar a soma das vantagens e dos
inconvenientes.

Parece-nos evidente que estamos tratando de algo muito complexo.


Todavia, a resposta de São Luiz nos fornece algumas pistas importantes.
Primeiramente é necessário olhar para o problema utilizando-nos de uma
"vidraça" o mais límpida possível: a caridade, conforme preconiza a questão
886 de O Livro dos Espíritos. Vale a pena recordarmos a pergunta de Kardec e
a resposta dada pelos Espíritos.

Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como


a entendia Jesus?
"Benevolência para com todos, indulgência para as
imperfeições dos outros, perdão das ofensas."

Esse é o princípio norteador de toda ação Espírita.


Surgem, no entanto, duas perguntas: Como as fraquezas de algumas
pessoas podem envolver e fragilizar o grupo? Se, apesar dessas
contingências, o grupo estivesse, suficientemente, numa comunhão de ideias e
sentimentos, haveria espaços para a disseminação de influências
perturbadoras? Se a resposta para essa última indagação for negativa, significa
que o problema não deve ser personalizado, mas tratado em nível de grupo.
Nesse caso, reuniões gerais de trabalhadores, palestras e seminários
sobre o assunto com o fim de alertamento e esclarecimento, podem surtir
efeitos positivos. Quando, no entanto, o problema fica mais localizado,
envolvendo um determinado setor da instituição ou algumas pessoas,
acreditamos que seja um dever dos dirigentes atuar também, sobre esses
indivíduos, buscando auxiliá-los direta e indiretamente, com o verbo doce ou
enérgico e com os recursos de assistência que a casa disponibiliza.
Mas Kardec bem alertou que o Espiritismo não poderia escapar das
fraquezas humanas. É imperativo não se ignorar os desvios que surgem, sob o
pretexto de que tudo está bem. Muitas vezes, quando ignorados, essas
pequenas fissuras que rompem mais tarde em terríveis rachaduras de
complexa solução.
Allan Kardec, nos discursos que fez na Sociedade Parisiense de
Estudos Espíritas não cansava de observar a necessidade de moderação, bom
senso e equilíbrio, ferramentas indispensáveis para harmonia pessoal e
institucional. O contrário disso: irritação, ciúme, fofoca, indignação, melindres,
disputa de cargos, entre outros, fragilizam as estruturas de defesa da Casa
Espírita.
Semelhante fato acontece com o corpo quando o sistema imunológico
enfraquece, facilitando a instalação e ação de agentes nocivos à saúde. O
fortalecimento do grupo em torno da oração e do esforço para a vivência da
ética cristã apontam novos horizontes para a convivência salutar e produtiva no
ambiente de nossas instituições. O descompromisso com esse propósito abrirá
possibilidades para conflitos insidiosos.
No Capítulo 29, item 340 e 341, de O Livro dos Médiuns, Kardec analisa
o problema da influência espiritual negativa nos grupos, escrevendo um valioso
roteiro de valores para afastar essas influências:

● Perfeita comunhão de vistas e de sentimentos;


● Cordialidade recíproca entre todos os membros;
● Ausência de todo sentimento contrário à verdadeira caridade Cristã;
● Único desejo: o de se instruírem e melhorarem, por meio dos ensinos
dos Espíritos e do aproveitamento de seus conselhos.

Kardec compreendia que os nossos maus pendores são, para nós,


piores que os maus espíritos, porque são esses pendores que os atraem. Por
isso mesmo, conviver é uma Lei Moral, pois são dessas interações
psicossociais que o espírito cresce na direção de si mesmo.
Os adeptos sinceros

Não se deve perder de vista que as reuniões


espíritas (e...) Tem as fontes de sua vitalidade na base
sobre que se assentam; nesse particular, tudo depende do
ponto de partida aquele que tem a intenção de organizar
um grupo em boas condições deve, antes de tudo,
assegurar-se do concurso de alguns adeptos sinceros, que
a levem a doutrina a sério e cujo caráter conciliatório e
benevolente seja conhecido.
Allan Kardec - Organização do Espiritismo,
item 14. Revista Espírita, dezembro de 1861.

No Panorama Geral das sociedades espíritas, não raras vezes nos


defrontamos com companheiros que, inadvertidamente ou intencionalmente,
colocam os seus interesses sempre acima dos objetivos da doutrina espírita.
Geram conflitos no grupo, em ponto o seu modo de pensar, por vezes, sobre o
falso argumento de que estão atualizando os ensinamentos de Kardec abrem
espaços para os desvios de rotas que em breve os deixaram distantes da
essência e das práticas espíritas. Temos visto inúmeros exemplos desta
ordem. Estudiosos espíritas, bem intencionados, que se perdem em cogitações
filosóficas, científicas ou religiosas, sem o compromisso real com o espiritismo.
Os efeitos disso são Sociedades divididas, outras se descaracterizam e
permanecem somente com o nome de "Espírita", gerando cizânia entre seus
membros. O adepto sincero é fiel à Doutrina. Por isso, Kardec recomenda que
para formar um grupo de boas condições é necessário buscar adeptos que
levem a sério o Espiritismo, pois a unidade de princípio é um ponto essencial.
É importante estar imbuído de boas intenções, mas somente isso não
basta, é fundamental ser fiel à Causa. Negligenciar esse preceito é colocar
entraves no curso natural da divulgação da Doutrina Espírita. Quando esses
entraves surgem, temos que tomar decisões. Há duas possibilidades: ou
optamos por uma atitude responsável de fidelidade aos princípios espíritas,
consolidados especialmente na obra de Kardec, e isso nos levará a uma zona
de conflito que deveremos administrar com argumentos, equilíbrio, firmeza e
fraternidade, ou - para não nos indispormos com alguém - simplesmente
adotamos uma postura de neutralidade e inércia.
O adepto sincero, diz Kardec, é alguém "conciliador" e "benevolente".
Taís qualificativos, não suprimem atitudes que, num certo momento, exigem
firmeza de conduta. É necessário que se busque, tanto quanto possível, a
diplomacia perante o conflito de interesses. Acompanhamos numa determinada
época, os problemas doutrinários e administrativos pelos quais vinha passando
uma instituição. Naquela Casa, os trabalhadores que não concordavam com as
mudanças implementadas pelo presidente e seu restrito grupo, optaram, depois
de um tempo de conflitos, por afastarem-se. A diretoria, ou o que sobrou dela,
ficou praticamente sozinha. Os sócios foram saindo, e os trabalhadores foram
se restringindo.
O presidente solicitou, então, desfiliamento dessa instituição do quadro
federativo. Os órgãos de unificação buscaram o diálogo com o grupo, na
expectativa de evitar o seu afastamento e, ao mesmo tempo, buscaram
encontrar um caminho plausível, conciliador, para harmonizar a instituição.
Após algumas reuniões, o presidente renunciou ao seu cargo em
conjunto com os outros membros da exígua diretoria. Deliberou-se, em face
disto, que um conselho administrativo, formado por espíritas "neutros",
provenientes de localidades próximas, assumisse o controle da instituição.
Constituiu-se um quadro maior de sócios que elegeu os novos dirigentes. Ao
longo desse processo, no entanto, sentia-se a presença amiga da
espiritualidade conduzindo, de forma inequívoca, a reestruturação desta casa.
Desde o início, no entanto, os novos dirigentes firmavam-se na defesa
dos postulados de Allan Kardec e das finalidades do Centro Espírita. Há uma
significativa diferença quando colocamos nossos interesses pessoais à frente
da obra e quando nos colocamos a serviço da obra. Disse-nos Kardec que a
vitalidade das reuniões espíritas tem suas fontes nas bases pelas quais se
assentam. Jamais deveremos, por nenhum argumento, abdicar da firmeza
doutrinária, alicerce natural de todo Centro Espírita.
Para isso, é fundamental que todo espírita saiba muito claramente quais
são os objetivos do Espiritismo. Não se trata de buscar uma resposta pessoal,
baseada no famoso "achismo". Propomos, isto sim, que se busque na obra de
Kardec a resposta para essa indagação. Há muitos textos que poderíamos citar
para este fim, mas optamos pela clareza das seguintes afirmações:
Espiritismo não institui nenhuma nova moral; apenas
facilita aos homens a inteligência e a prática da (moral)* do
Cristo, facultando fé inabalável e esclarecimento aos que
duvidam ou vacilam.
Allan Kardec - O Evangelho Segundo o Espiritismo,
Cap. 17, item 4.

Como se vê, nossas instituições se dirigem


exclusivamente aos grupos formados por elementos sérios
e homogêneos; os que querem seguir a rota do Espiritismo
moral, visando o progresso de cada um , fim essencial e
único da doutrina.
Allan Kardec - Organização do Espiritismo,
Revista Espírita, dezembro de 1861, item 17.

A fé raciocinada deriva, como sabemos, do conhecimento dilatado sobre


os mecanismos da vida e da Justiça Divina. Uma vez que o Espiritismo rompe
a neblina do materialismo, estimula, pelo esclarecimento renovador, um
melhoramento consciente do ser humano.
Partindo-se dessas observações, organizamos o esquema a seguir:
Claro está, portanto, que os objetivos gerais do Espiritismo são:
"estimular o progresso moral" e o "aperfeiçoamento gradual dos indivíduos". Os
dois se fundem e se completam. Muitos dirigentes e trabalhadores espíritas,
não se atendo a esses propósitos, cometem verdadeiros desatinos em nome
do Espiritismo. O próprio Kardec advertiu sobre isso na introdução de O Livro
dos Médiuns: "todos os dias a experiência nos traz a confirmação de que as
dificuldades e os desenganos, com que muitos topam na prática do Espiritismo,
se originam da ignorância dos princípios desta ciência".
Os objetivos do Espiritismo bem compreendidos e internalizados
estimulam o desenvolvimento da espiritualidade que, por sua vez, reflete no
melhoramento das relações convivenciais. Os adeptos sinceros, portanto,
observam e priorizam os objetivos do Espiritismo e da Sociedade Espírita, sem
uma segunda intenção pessoal. O próprio Kardec chamou a atenção para esse
fato em sua viagem Espírita de 1864, ao falar aos espíritas de Bruxelas e
Antuérpia:

... devem colocar-se em posição de destaque todos


os que militam pela causa com coragem, perseverança,
abnegação e desinteresse, sem segunda intenção pessoal,
que buscam o triunfo da doutrina pela doutrina, e não pela
satisfação de seu amor-próprio; enfim, aqueles que, por
seu exemplo, provam que a moral espírita não é uma
palavra vã...
Allan Kardec, O Espiritismo é uma ciência positiva.
Alocução de Allan Kardec aos espíritas de Bruxelas e
Antuérpia. Revista Espírita, Novembro de 1864.

O número de pessoas que buscam as Casas Espíritas vem aumentando


diariamente e de forma muito natural. Temos convicção que a principal causa
explicativa desse fenômeno seja uma inquietação do homem atual, diante dos
valores materialistas que definem o que o filósofo francês Gilles Lipovetsky
nominou de "era do vazio" ou "sociedade da decepção".
Atender aos imperativos do esclarecimento espiritual, promover a
construção da fé racional, do consolo diante dos embates do mundo, é o
fundamento do Espiritismo. As Casas Espíritas não devem fugir dessa
essência, sob pena de perderem o fio condutor desse pragmatismo renovador.
O narcisismo é um dos grandes adversários do adepto sincero. Nele,
encontramos uma boa dose de orgulho que leva o sujeito a enxergar somente
a si mesmo, a satisfazer seus interesses pessoais, como se nada mais
houvesse fora de si. São os que colocam a satisfação de seu amor-próprio
acima da Doutrina. Disso resultam muitas ideias intempestivas e prematuras
que terminam por gerar conflitos na convivência.
Os escolhos gerados por tais adeptos se esboçam de tal forma que
Kardec, no mesmo texto já citado da Revista Espírita de novembro de 1864,
afirmou: "Está provado que o Espiritismo é mais entravado pelos que o
compreendem mal do que pelos que não o compreendem absolutamente, e,
mesmo, pelos inimigos declarados ". E, com grande lucidez, enfatiza: "E é de
notar que os que o compreendem mal geralmente tem a pretensão de
compreender melhor que os outros. (...) tal pretensão, que denuncia o orgulho
é uma prova evidente da ignorância dos verdadeiros princípios da Doutrina".
O texto, pela sua clareza e importância, dispensa qualquer comentário.
Todavia, precisamos saber como enfrentar esse problema tão comum em
nossas instituições. Onde devemos investir? Qual o melhor caminho para
trabalharmos os objetivos do Espiritismo? Um dos aspectos relevantes é evitar
o isolacionismo dos indivíduos e dos grupos. O compartilhar das experiências e
dos conhecimentos é fundamental para o aprimoramento da nossa visão sobre
a doutrina. Por isso, Allan Kardec alertou:

Para remediar o inconveniente que acabo de


assinalar, isto é, para prevenir as consequências da
ignorância e das falsas interpretações, é preciso maior
empenho na vulgarização das ideias justas e na formação
de adeptos esclarecidos, cujo número crescente
neutralizará a influência das ideias errôneas.
Allan Kardec. O Espiritismo é uma ciência positiva.
Alocução de Allan Kardec aos espíritas de Bruxelas e
Antuérpia. Revista Espírita, novembro de 1864.

Nos grupos de estudos da doutrina, deveremos encontrar esse espaço,


onde poderemos entreter sem constrangimento e esclarecendo-nos
mutuamente, por uma discussão amistosa em que cada um traz o contributo de
suas leituras e suas observações. Desta forma, haverá possibilidade para uma
aproximação maior da própria essência do Espiritismo, diminuindo-se os riscos
da ignorância sobre os seus verdadeiros princípios.
Os adeptos sinceros não devem desanimar. As ideias e conceitos pouco
a pouco vão se desvelando e vencendo os obstáculos. O espiritismo não é uma
doutrina forjada na concepção individual, mas no fruto de ensino dado pelos
espíritos, dentro do caráter da universalidade do ensino.
O ideal de perfeição

Todavia, se nada pode deter a marcha do progresso


geral, há circunstâncias que podem provocar entraves
parciais, como uma pequena barragem pode retardar o
curso de um rio, sem ou impedir de correr. Deste número
são as atitudes irrefletidas de certos adeptos mais zelosos
que prudentes, que não calculam bem e o alcance de seus
atos ou de suas palavras...
Allan Kardec - falsos irmãos e amigos inábeis.
Revista Espírita, março de 1863.

O ideal de perfeição está gravado em nosso inconsciente, nas entranhas


de nosso ser. Somos perfectíveis, aspiramos uma meta evolutiva traçada pelo
Criador. Costumamos nos perceber, individualmente como seres incompletos
e, por isso, sujeitos ao erro. O olhar que temos sobre nós mesmos, muitas
vezes, não é o mesmo que costumamos nutrir pelos outros.
No convívio diário nos grupamentos espíritas, aprendemos que cada ser
humano possui um ritmo próprio de progresso, e que esse progresso ocorre de
forma socializada. Talvez, nesse sentido, possamos situar a ideia dos bons
espíritas, desenvolvida por Kardec, ou a Parábola do Bom Samaritano,
ensinada por Jesus. Quase sempre exigimos dos outros aquele ideal de
perfeição que trazemos arquivado. Exigimos que o outro se comporte a partir
da matriz do certo, mesmo que a ideia de certo e errado esteja convencionada
ao nosso restrito ponto de vista.
Dessa forma, podemos chegar a algumas conclusões. Quando se trata
de olharmos para nós mesmos, nos avaliamos, quase sempre, pela matriz da
"imperfeição", que tenta justificar racionalmente nossos equívocos perante a
vida. Todavia, quando olhamos para o outro, normalmente exigimos dele a
perfeição que não possuímos, avaliando-o em suas atitudes pela matriz do
erro, ou seja, o erro dos outros se destaca diante de nossos olhos. Os nossos
ganham o dom da invisibilidade.
A questão central é a forma como se dá essa dinâmica. Convivemos
com uma pessoa por longos anos, em uma relação harmoniosa até o momento
em que ela comete um deslize, um agravo qualquer. A partir deste momento,
todos os aspectos positivos daquela pessoa parecem ter se perdido e
passamos a percebê-la, tão somente, em seu erro.
A matriz do erro é reducionista, pois limita o indivíduo ao conjunto de
seus equívocos. E os aspectos positivos da pessoa? Será que os Espíritos
Benfeitores somente nos observam pelos erros? E o que dizer da Divindade?
Coerente pensarmos que Deus nos observa sobre um prisma globalizante. Nos
compreende dentro do processo evolutivo em que nos inserimos, identificando
nossos erros com as experiências vinculadas aos ritmos de cada um e, no
plano geral, associados ao processo de amadurecimento ético-espiritual.
Mesmo sabendo que um de seus seguidores lhe trairia, Jesus não o
afastou de sua companhia. O mesmo aconteceu com o discípulo que o negou
por três vezes! Jesus conhecia profundamente a personalidade humana, suas
fraquezas emocionais e éticas. Os seus ensinos nos remetem não há um olhar
conivente com os erros alheios, mas há um olhar de entendimento sobre a
incompletude humana.
O Espírita é alguém que se propõe ao estudo dos ensinamentos éticos,
filosóficos e científicos, ampliando seus horizontes conceituais. Citamos repetir
das vezes tais ensinos, com a convicção de que encontraremos elementos
para um melhoramento progressivo da humanidade. Todavia, no convívio em
nossas instituições, diante dos desacordos, dos conflitos de temperamentos e
opiniões, há os que passam a adotar, muitas vezes, julgamentos implacáveis
sobre a conduta alheia.
Allan Kardec teve o ensejo de afirmar, em discurso pronunciado em
reunião geral com espíritas de Lyon e Bordeaux, constante na Viagem Espírita
de 1862: " Minha medida de apreciação seria, pois a caridade, isto é, eu
observaria aquele que falasse menos mal de seu adversário, que fosse mais
moderado em suas recriminações" e, Kardec nos lembra o princípio da
caridade e fundamenta, no mesmo discurso, sua postura: "Aqui na Terra, onde
ninguém é infalível, a indulgência recíproca é uma consequência do princípio
de caridade que nos leva a agir para com os outros como gostaríamos que os
outros agissem para conosco".
O princípio é claro, e todos o conhecemos, até porque o ensinamos.
Ocorre que no cotidiano das relações, no Centro Espírita, muitas vezes esse
princípio fica esquecido ou ignorado. Dirigentes e trabalhadores tratam-se,
diante dos conflitos, quer doutrinários, administrativos ou mesmo pessoais,
como se espíritas não fossem. Permitem-se aos impulsos desagregadores,
exaltam-se ou fecham-se emocionalmente, distanciando-se psíquica e
afetivamente dos companheiros de grupo e, não raras vezes, do próprio grupo.
O estudo termina por ocupar somente um espaço teórico, distante da
vida prática do estudante. Senão a relação entre teoria e prática, para que
serve a doutrina?
A fragilidade dos vínculos humanos está de alguma forma, relacionada
aos desejos conflitantes, estimulados por sentimentos desagradáveis,
associados ou não, a um olhar intolerante sobre o outro. O exercício da
tolerância, obviamente, está relacionado a um nível de compreensão sobre a
condição humana. Compreensão esta que o Espiritismo faculta através do
conjunto de seus ensinos. Certamente por isso, Kardec escreve um capítulo de
O Evangelho Segundo o Espiritismo referindo-se aos bons espíritas, isto é,
aqueles que procuram ser, a cada dia, um pouco melhor do que foram no dia
anterior. De forma geral, poderíamos dizer: aqueles que se esforçam para viver
efetivamente uma vida com mais espiritualidade.
Mas a própria condição humana impõe os seus limites, para o qual é
necessário o exercício da tolerância dinâmica e da caridade no sentido Espírita.
O espiritismo nos apresentou uma nova filosofia para a convivência: perceber o
outro pela matriz de seus qualificativos positivos. Não se trata de postura
ingênua ou passiva, mas de enfatizar o que é mais importante para o
fortalecimento das relações.
Vivemos na cultura do instantâneo, tem um descuido com a perenidade
dos relacionamentos. Conectar, no momento, é mais simples e envolve menos
compromisso, pois as relações se dão de forma líquida, sem maiores
envolvimentos. Há, por parte de certos grupos sociais, uma crescente
descrença nos relacionamentos e nos vínculos, sempre marcada pelo
individualismo, expressão patológica do orgulho e do egoísmo.
Ao ceder ao princípio da paixão, na linguagem freudiana, muitos
indivíduos terminam se tornando instrumentos de conflito e perturbação nas
instituições espíritas. Não se trata de depositarmos a culpa nos desafios da
convivência nos Espíritos obsessores, interessados em gerar desavenças nos
Centros Espíritas. Sem desconsiderarmos esse fator, desejamos ressaltar o
papel relevante dos sujeitos encarnadas.
Convivências líquidas podem ser percebidas em certas reuniões quando
uma discussão ou um conflito se estabelece. Quando os vínculos entre os
participantes são líquidos, torna-se difícil que um consenso possa se definir,
viabilizando um confronto fraterno de ideias. Nesses casos, há um impositivo
do Eu sobre o Nós, determinando palavras e gestos fortes, desprovidos de
fraternidade.
Ideias e projetos podem ser naturalmente discutidos sem que isso
comprometa os vínculos afetivos e relacionais dos envolvidos. Uma reunião
pode ser iniciada pelos elementos consensuais, ou seja, pelas questões que a
maioria possa concordar. A partir disso, sem perdermos a diretriz da
fraternidade podemos abrir outros assuntos mais polêmicos para apreciação
geral. Quando não é possível, após a exposição de ideias e argumentos, se
chegar a um consenso, a maioria vota e decide o caminho a seguir.
Por vezes, alguém sai desses encontros frustrado ou mesmo magoado
com outro alguém ou com os demais. Percebe-se que a matriz do erro está
ativa. Enquanto as pessoas permanecerem nesse padrão de afinidade, sem
administrar seus próprios impulsos, as portas estarão abertas para novos e
duradouros desentendimentos fugazes e improdutivos.
Edificar veículos mais resistentes às intempéries da convivência e do
tempo é obra de sujeitos que, amadureceram seus olhares sobre si mesmos.
Podemos afirmar que nos Centros Espíritas, somente os bons espíritas,
conforme preconizou Kardec, se darão a esse trabalho de cunho pessoal,
conscientes de que toda melhoria deverá iniciar, antes de tudo, onde ela é mais
importante: no coração do próprio indivíduo. Mas tal tarefa não é simplista, nem
tão pouco impossível, pois obedece ao princípio do melhoramento pessoal. A
questão 909 de O Livro dos Espíritos é bastante oportuna para nossa
constante meditação.

Poderia sempre o homem, pelos seus esforços,


vencer as suas más inclinações?
Sim, e, frequentemente, fazendo esforços muito
insignificantes. O que lhes falta é a vontade. Ah! Quão
poucos entre vós fazem esforços.
Críticas de críticos

Para criticar é necessário poder opor raciocínio a


raciocínio, prova a prova. Será isto possível, sem
conhecimento aprofundado do assunto de que se trata?
Que pensaríeis de quem pretendesse criticar um quadro,
sem possuir, pelo menos em teoria, as regras do desenho
e da pintura? (...) Quanto mais elevado a posição do crítico,
quanto mais ele se põe em evidência, tanto mais seu
interesse lhe exige circunspecção, a fim de não vir a
receber desmentidos, sempre fáceis de dar a quem quer
que fale daquilo que não conhece.
Allan Kardec - O Espiritismo em 1860.
Revista Espírita, Janeiro de 1860.

A palavra "crítica" vem do grego kritikê: arte de julgar. Muitas vezes se


associa a crítica com uma atitude negativa que procura denegrir
sistematicamente as opiniões ou as ações de outras pessoas. Na filosofia, no
entanto, possui um sentido de "exame de valor". Quando um crítico literário
expressa seu juízo sobre um determinado livro, ele não faz com base em suas
emoções, simplesmente, mas a partir de um exame mais profundo dos vários
aspectos técnicos e estéticos, subjetivos e objetivos que compõem aquela
obra.
A boa crítica não é fácil de ser feita. Exige fundamentos razoáveis e
certa isenção emocional em relação ao seu objeto. Em O Que é o Espiritismo,
em seu capítulo 1, Kardec dialoga exatamente com um crítico. Ao longo de
dezesseis questões, temos uma relação dialética de ideias onde o crítico
indaga Kardec sobre assuntos como persuasão, crença, mistificação,
evidências do Espiritismo e proselitismo.
Qualquer crítica deve basear-se em dois aspectos: Conhecimento de
causa e argumentos. No diálogo referido, o crítico não conhecia
adequadamente o Espiritismo, tornando seus argumentos facilmente refutados
por Kardec. Há, no entanto, um momento em que o crítico indaga: "Então, no
vosso entender, a crítica para nada serve, a opinião pública nada vale?" A
resposta de Kardec é longa, mas nos cabe destacar o seguinte:

Não considero a crítica como expressão da opinião


pública, mas como juízo individual, que bem pode enganar-
se. (...) é de lógica elementar que o crítico conheça, não
superficialmente, mas, a fundo, aquilo de que fala, sem o
que, sua opinião não tem valor.
Vejamos que Kardec não combate a crítica em si, mas a forma
superficial, ou mesmo maldosa, como ela é, em alguns casos, realizada. Nos
grupos espíritas, as críticas e os críticos são comuns. Criticar por criticar não
tem valor algum. É necessário que a crítica, quando feita, se revista de
elementos que lhe deem credibilidade e sustentação.
Como o ser humano tem seu livre-arbítrio e sua opinião sobre as coisas,
compreende-se que a crítica faça parte do cotidiano das pessoas. A prudência
e a conveniência tornam-se aliados importantes para que a crítica não atinja a
severidade, gerando desconforto e desunião. Quando bem fundamentadas,
serve de questionamento e alavanca para o progresso, encontrando pela frente
e numeradas resistências.
Vejamos que Kardec foi um crítico, com conhecimento de causa, das
estruturas de pensamento materialista e do dogmatismo religioso vigente. E,
por isso, encontrou muitas resistências, de diversos setores da sociedade, por
mexer em certas zonas de conforto já cristalizadas.
Nas Casas Espíritas, encontramos companheiros que se movem ao
sabor das críticas. Vivem identificando falhas nos trabalhos, na organização e
no comportamento alheio. Possuem dificuldades de relacionamentos com o
grupo, muitas vezes afastando-se dele. Notamos que esse crítico contumaz é,
com regularidade, a pessoa que menos se envolve nos trabalhos do Centro. Há
uma expressão popular que os identifica bem: "engenheiros de obra pronta".
Depois que a obra está pronta é fácil identificar seus erros. Desafiador é
participar do processo de construção.
Para poder ser um bom crítico é indispensável, portanto, estar envolvido
e participando ativamente do grupo. É também necessário, saber administrar
suas pulsões de orgulho e vaidade, para que elas não se tornem frutos de um
personalismo desagregador. A crítica, portanto, possui duas vertentes básicas
alicerçadas na objetividade (fundamentos e argumentos) e na subjetividade
(gostos, prazer, sintonia, sentimentos de atração ou repulsão), associadas ou
não a um assunto, a um fato, a pessoas e coisas.
Há pessoas que se comprazem em manter uma crítica nociva sobre a
conduta ou o trabalho dos outros. Com isso, buscam se autoafirmar
psicologicamente. No cerne desses comportamentos, não raras vezes, em
encontramos também distúrbios e conflitos do passado, presente ou remoto,
dessa ou de outras reencarnações, que exigem trabalho de libertação. Muitos
desses "críticos contumazes" possuem dificuldade na aceitação de sua própria
problemática existencial e, por isso, tornam-se especialista em julgar e resolver
os problemas alheios.
Em nossas Casas Espíritas, como em qualquer outro setor, é
fundamental sabermos lidar com as críticas, sejam aquelas decorrentes de um
julgamento equilibrado das coisas, ou aquelas, frutos do personalismo humano.
Assim como existe a crítica mal direcionada, existe também aquela mal aceita.
Não raras vezes, ouve-se críticas ao presidente da Casa: por sua falta
de empenho, por não tomar certas atitudes ou mesmo por tomá-las
erradamente. Mas é preciso, antes de ajuizarmos precipitadamente nosso
pensamento, olhar o todo! Há companheiros valorosos ocupando lides de
direção, mas com os seus limites naturais, no entanto, muitas vezes estão
buscando fazer o seu melhor. Neste caso, as possíveis críticas deveriam ser
feitas para mostrar o que está faltando, seja ao conjunto da instituição ou a
uma parte dela.
A partir dessa análise, aquilo que podemos definir por uma "crítica bem
construída" é, justamente, aquela que possui a capacidade de perceber a
limitação das coisas, sem se tornar depreciativa e personalista. Cada ser
humano possui, no patamar evolutivo em que se encontra, certas limitações
temporais e potencialidades crescentes. Da mesma forma, poderemos, assim
também, enquadrar os trabalhos das nossas Casas Espíritas.
A assimilação do conteúdo doutrinário deve nos permitir uma
convivência permeada de cordialidade e fraternidade, mesmo nos momentos
de divergência de pensamento. Por isso, ah "forma de fazer uma crítica" e a
"forma de se receber uma crítica" deve estar alicerçada nos valores espirituais
que norteiam nossa vida. Abdicar disto é - simplesmente - viver no mundo da
teoria vazia.
Um sentimento, especialmente no terreno da crítica, deve ser valorizado:
a humildade. Lembremos que um conjunto de sentimentos e atitudes nos
caracteriza enquanto sujeitos humanos. Alguns são afirmativos de saúde
emocional, produzindo impactos positivos na convivência: humildade,
modéstia, compreensão, resignação, brandura. Enquanto outros fazem parte
de uma estrutura psíquica mais antiga, com efeitos, muitas vezes
desagregadores e conflitivos: orgulho, vaidade, presunção, melindre, raiva.
Essas estruturas estão "arquivadas", com intensidade variada de pessoa
para pessoa, em nosso psiquismo. Por um efeito que poderíamos aqui chamar
de "ressonância magnética", cada vez que abrimos um desses "arquivos", ele
irá, por sintonia, ativar os outros que lhe estejam na mesma faixa vibratória,
semelhante a um efeito dominó. Assim, a pessoa que cede aos impulsos do
orgulho seguidamente abre as comportas de seu mundo íntimo também para a
vaidade negativa e para a presunção que se traduz numa "onipotência
imaginária". Quando esse sentimento de superioridade é desequilibrado por
alguém ou algum fato, a pessoa se melindra, se ressente ou se magoa,
caminhando, em alguns casos, para o território da raiva.
O nosso processo de educação, conforme ensina o Espiritismo, deve
nos conduzir, permanentemente e de forma natural ao trabalho dessas
estruturas internas de sentimentos. Isso exige certa maturidade psicológica.
Precisamos perceber nossos próprios impulsos, para ir mudando, com o
tempo, a sintonia de nossos sentimentos.
A opção pela humildade irá abrir outros "arquivos internos": modéstia,
compreensão, resignação, brandura... As críticas continuaram existindo,
porque são naturais, mas certamente a forma de fazê-las e de recebê-las
sofrerá significativa melhora, colaborando para o crescimento das pessoas e
das instituições.
As Intrigas

Mas pouco a pouco tudo isso se extingue, a febre se


acalma, os homens passam e as ideias novas ficam.
Espíritas, elevai-vos pelo pensamento, olhai vinte anos
para a frente e o presente não vos inquietará.
Allan Kardec - falsos irmãos e amigos inabeis –
Revista Espírita, março de 1863.

Kardec, ao tratar dos Cismas, em Obras Póstumas, foi claro ao afirmar.


"É, portanto, dever de todos os espíritas sinceros anular as manobras da intriga
que se possam urdir, assim nos pequenos, como nos grandes centros".
As intrigas refletem questões pendentes, não suficientemente resolvidas,
abrindo horizontes para discussões nos corredores das instituições.
Representam uma forma de não enfrentar diretamente determinado problema,
caminhando pela transversal, de forma a instigar novos conflitos e aversões.
Kardec, respondeu que os espíritas sinceros anulam as manobras de intriga,
buscando-se caminhos éticos para a questão dos problemas.
A intriga, portanto, não é ética. Por ética, entendemos princípios de valor
universal, afirmativos da vida, e com forte Impacto positivo sobre as relações
sociais. No dizer do filósofo contemporâneo: " A compaixão, a benevolência e a
solicitude para com os outros, até mesmo para com todas as formas de vida
deve ser a regra ética de nosso comportamento". Disso, no entanto, não se
deve presumir que as pessoas ficarão caladas e passivas diante de certas
circunstâncias que julgam equivocadas. Em O Evangelho Segundo o
Espiritismo, em seu Capítulo X, item 20, lemos:

O erro está no fazer-se que a observação redunde


em detrimento do próximo, desacreditando, sem
necessidade, na opinião geral. Igualmente repreensível
seria fazê-lo alguém apenas para dar expressão a um
sentimento de malevolência e à satisfação de apanhar os
outros sem falta.

No plano de fundo das intrigas, há um possível sentimento de


malevolência. Quando se discute a problemática das intrigas, se está
abarcando um universo de relações que envolvem indivíduos que já possuem
uma boa dose de esclarecimentos sobre a vida e as Leis Naturais.
Jogar uns contra os outros, aproveitando um vácuo para se autoafirmar,
é como o indivíduo de baixa estatura que pretende serrar as pernas dos outros
para se sentir maior. Quando condutas como essa começam a se manifestar
no Centro Espírita, abre-se espaço na psicosfera da instituição, para fragilizar
suas defesas espirituais. A partir disto, muitas outras influências podem se
manifestar com o propósito de espalhar perturbação e desarmonia no grupo.
O clima das relações pessoais fica bastante denso e vulnerável. Há
sempre uma suspeita no ar. As pessoas sentem-se num ambiente de
desconfiança. Os trabalhos no Centro já não são mais os mesmos. O silêncio,
a omissão, ou a inoperância dos dirigentes, diante de tal fato, contribui ainda
mais para aumentar o estado angustiante das relações. Intrigas representam
redes mentais com poder perturbador que se espalham, até o momento em
que alguns indivíduos mais conscientes resolvam, por princípio ético, acabar
com esses elos.
E a tolerância? Qual o seu limite? De forma geral, podemos considerar
que a tolerância encontra o seu limite no momento em que as atividades do
Centro Espírita começam a ser afetadas pela conduta de seus companheiros.
Somos de opinião que o problema deve ser enfrentado, de preferência, logo
que surge. Como já dizia um antigo ditado popular: "Deve-se cortar o mal pela
raiz." Mas isso, em nenhum momento, implica na adoção de posturas
agressivas. Pelo contrário, compreendemos que é justamente nessas
circunstâncias que devemos aproximar ainda mais a ética cristã de nossas
reflexões e atitudes.
Companheiros valiosos, em determinado momento, sedem aos impulsos
das paixões, permitem se influenciar pelas intrigas. Em Mateus, Capítulo XVIII,
VV. 15, 21 e 22, há interessante orientação: "Se contra vós [ou contra a
Instituição] errou vosso irmão, ide fazer-lhe sentir a falta em particular a sós
com ele; se vos atender, tereis ganhado o vosso irmão".
O fracasso dos relacionamentos é, em boa parte, o vazio da
comunicação. O diálogo fraterno, sem bloqueios, com ideias claras, num tom
de voz segura, faz muita diferença.
Como nos comportamos quando alguém nos vem falar negativamente
de outra pessoa? Percebemos que tal crítica possui um fundo de verdade e
nos associamos a ela? Contrapomos a crítica, buscando atenuar a situação?
Endossamos as críticas e, na primeira oportunidade, repassamos para outras
pessoas?
Não devemos temer, desprezar ou mesmo tencionar excluir as críticas
que surjam no grupamento espírita. As críticas podem ser muito úteis e servir
para o melhoramento do grupo, dos trabalhos e das pessoas. Mas critica tem
hora e lugar! Não adianta o sujeito se manter calado numa reunião, e - ao
longo da semana - criticar destrutivamente as decisões ali tomadas.
Críticas devem ser feitas de forma ética, de modo compatível com a
ideia de justiça, associada ao princípio da fraternidade. Criar uma rede de
intrigas, sobre o argumento de estar defendendo uma verdade, é andar pela
contramão ética e doutrinária. Por que ir tão longe, na defesa de uma "verdade
corrosiva"? Insistir nesse comportamento é afirmar o perigoso argumento que:
"os meios justificam os fins".

A síndrome dos melindres

Convidamos todos os adeptos sinceros a se porem


em guarda, evitando as armadilhas que lhes poderiam
estender.
Allan Kardec - Falsos irmãos e amigos inábeis.
Revista Espírita, março de 1863.

Os melindres são os verdadeiros fantasmas de um Centro Espírita.


Associados às mágoas e ressentimentos, contribuem para fragilizar os laços
humanos. Kardec nos falou, em dois momentos, sobre esse fantasma.
Destacamos, primeiramente, o escrito em Obras Póstumas (1ª.Parte - O
Egoísmo e o Orgulho): "A exaltação da personalidade leva o homem a
considerar-se acima dos outros. Julgando-se com direitos superiores, e com o
que quer que, a seu ver, constitua ofensa a seus direitos".
Obviamente, Kardec relaciona o melindre como decorrência do orgulho
ferido associado a um sentimento de inflação do ego. Num segundo momento,
em discursos pronunciados nas Reuniões Gerais dos Espíritas de Lyon e
Bordeaux, a firma: "Há, ainda, aqueles cuja susceptibilidade é levada ao
excesso, e se melindram com as mínimas coisas, mesmo com olhar que lhes é
destinado nas reuniões, se não os põe em evidência (...)".
Pode-se compreender o melindre, pelo viés psicológico, como um
artifício usado pelo ego para preservar sua própria identidade. De tal forma,
que quando o ego se sente "ameaçado" (ou desestabilizado por algo ou
alguém), reage através de um "fechamento psíquico", de um retraimento
emocional, visando preservar, numa atitude defensiva e imatura, as estruturas
"orgulho, vaidade ...) do próprio Eu.
Em certa sociedade Espírita, um trabalhador tinha por hábito, no
momento em que transmite o passe, apertar a cabeça dos atendidos com as
mãos. Imagine! Sendo alertado (educadamente) por um dirigente da instituição,
que tal prática não se coaduna com os ensinos espíritas, ficou... "melindrado".
Em outro caso, era um palestrante cujos enfoques, sistematicamente, fugiam
do contexto doutrinário. Ficou muito "melindrado" após o presidente lhe chamar
a atenção. Em um grupo de estudos, alguém, ao fazer a leitura de O Livro dos
Espíritos, leu errado uma palavra. Um dos integrantes lhe corrigiu,
naturalmente. A pessoa se melindrou e quase abandonou o estudo.
Poderíamos ficar, exaustivamente, citando inúmeros exemplos.
Quando a pessoa se sente melindrada, deve se questionar sobre isso. O
certo é que o melindre está associado, no mínimo, a três elementos básicos: o
orgulho ferido, insegurança pessoal e baixa autoestima. Dessa forma, seria um
primeiro estágio de outros sentimentos que poderão se seguir, como a mágoa,
o ressentimento, a raiva e até a agressividade.
Allan Kardec enfatiza, também, a "suscetibilidade levada ao excesso". A
susceptibilidade é o nível da capacidade do sujeito em se sentir ofendido. Há
determinadas contingências que podem tornar a pessoa mais propícia ao
melindre, como o estresse, separação conjugal, problemas familiares,
desemprego, a experiência de uma frustração, etc.
O fortalecimento emocional e espiritual é imperativo para o
enfrentamento de Tais desafios. O melindre e seus derivados, quando não
administrados, significam a negação do próprio sujeito, enquanto ser que
possui responsabilidades por sua evolução.
Mas Allan Kardec, também nos fala da "indulgência recíproca" que
deveria mover os seres humanos, situados num patamar de incompletude
espiritual. Indulgência para com as imperfeições dos outros não é sinônimo de
inoperância diante do erro, ou seja, no grupo espírita não é razoável, diante de
algo que esteja errado, fazer-se silêncio simplesmente, para não "melindrar"
este ou aquele. O compromisso maior de todos é com a Doutrina Espírita em
primeira instância, e com a instituição em seguida.
A forma de abordagem é que deve estar fundamentada na indulgência,
não o erro. A grande questão é que necessitamos dissipar essas relações
melindrosas e inócuas, que em nada contribuem para a vida de relação,
substituindo-as por atitudes, verdadeiramente, cristãs. O Espiritismo é uma
doutrina de vida para "uso diário".
Quando percebermos que é forte o impulso para melindrar-nos ou
magoar-nos, busquemos o recurso da oração, imediatamente, a fim de
administrarmos mentalmente esses corrosivos sentimentos, adversários da
paz. A oração é valioso recurso para a manutenção do equilíbrio da alma, pois
potencializa o pensamento para os ângulos positivos da vida, buscando a
serenidade das emoções.
Portanto, há duas questões fundamentais: a responsabilidade de
administrarmos esses sentimentos em nós; e como agirmos diante dos
militares alheios. Somos de opinião que não devemos ter, na Casa Espírita,
uma preocupação exagerada com os melindres e os melindrosos para não nos
tornarmos reféns deles. Exige-se, como é natural em qualquer outra instituição
em que se discuta fraternalmente projetos, metas, trabalhos, questões
doutrinárias, etc., que se busque dar cumprimento aos normativos da
instituição, tais como o Estatuto e o Regimento Interno. As atividades de
qualquer Centro Espírita necessitam obedecer a certas disciplinas, e os
trabalhadores e estudantes necessitam estar inseridos nesse contexto para o
bom funcionamento da instituição. Tudo isso sem dogmatismos, sem
autocracia ou fundamentalismos. Jamais, sob qualquer pretexto, poderá se
cercear a liberdade de pensamento e expressão de quem quer que seja.
Todavia, deixar de cumprir os normativos, sob o pretexto de "não
melindrar" este ou aquele indivíduo é, no mínimo, um despropósito associado a
irresponsabilidade daqueles que possuem a função de administração. Tornar-
se omisso para não se "indispor" com alguém, é uma postura totalmente
equivocada, fundada numa lógica perversa, que contribui para aumentar os
problemas da Instituição. Arrolam-se desculpas do tipo: "necessitamos ser
“tolerantes", "caridosos", "pacientes"... E, enquanto demonstramos nossas
"virtudes" (desvirtuados), para não ser irmos as " almas frágeis" de nosso
Centro, a indisciplina, os desvios doutrinários, as inoperâncias, os desvios
monetários, assolam livres.
Torna-se necessário pensarmos sobre os limites da "tolerância" no
âmbito das Casas Espíritas. Não se trata, obviamente, da doação por parte dos
dirigentes, como já observamos, de posturas fundamentalistas ou
verticalizadas. A tolerância com quem não está seriamente comprometido com
a Causa em seus limites naturais. Não se deve comprometer a Causa,
simplesmente para atender aos caprichos de alguém. Uma orquestra
necessita, para o grande concerto, estar o mais bem afinada possível. Aquele
candidato a músico que não aprendeu a tocar para estar em sintonia com o
conjunto não poderá participar diretamente do conserto.
Por isso, trabalhadores e estudantes que não estejam afinados com o
grupo e com a orientação doutrinária e/ou administrativa, melindrando-se com
facilidade diante dos mínimos eventos, terminam por afastar-se dos labores
assumidos. É necessário respeitar a decisão de cada um.
A filosofia da convivência implica numa ética do cuidado. Assim como a
permissividade ou a indiferença projetam seus frutos negativos para instituição,
da mesma forma deve-se cuidar com a síndrome da intolerância. Em tudo na
vida o bom senso é imperativo para uma performance positiva. Constata-se
atualmente uma cultura dos extremos, dos "oito ou oitenta", tudo em nome de
uma busca por afirmação, muitas vezes, teu próprio narcisismo.
Associado, por extensão, aos melindres e mágoas, encontra-se o
ressentimento. A psicanalista Maria Rita Kehl, em seu livro sobre o assunto,
analisa o que denomina de "ganhos subjetivos do ressentimento". Para ela, o
ressentido é um vingativo não declarado. Mas também é alguém que atribui
sempre a um Outro a culpa por seus agravos. O ressentido assume o papel de
vítima e, com isso, foge das responsabilidades que lhe cabem no processo. Aí
estão os ganhos do ressentimento! Revestir-se da vitimização, criar a figura de
um culpado exclusivo para manter-se numa postura cômoda de alguém livre de
responsabilidades. É, Sem dúvida, um mecanismo perverso do Eu
(conscientemente ou não) que denota um nível de imaturidade psicológica
associado a uma morbidez da alma.
Ensaio sobre a tolerância

O verdadeiro caráter da caridade é a modéstia e a


humildade, e consiste em não se ver superficialmente os
defeitos alheios, mas em se procurar salientar o que há de
bom e virtuoso no próximo. Porque, se o coração humano é
um abismo de corrupção, existem sempre, nos seus mais
ocultos refolhos, os germes de alguns bons sentimentos,
centelha viva da essência espiritual.
Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Capítulo X, item 18.

A palavra tolerância provém do latim toleratia, que por sua vez procede
de tolero, e significa suportar um peso ou a constância em suportar algo. Ao
longo do tempo, acabou ganhando uma conotação negativa circula por
designar as atitudes permissivas diante do erro. Atualmente, no entanto, ganha
espaço como um valor positivo diante das múltiplas manifestações da
intolerância.
Existe um limite para a tolerância? Poderemos estabelecer uma relação
de proximidade entre tolerância e indulgência? Como administrar a tolerância
com o dever? Tais são as questões que pretendemos refletir neste capítulo.
Na sessão de 30 de abril de 1869 na Sociedade Parisiense, temos uma
comunicação de Allan Kardec, ocorrida após a sua desencarnação
(31/03/1869), sobre o título: "O exemplo é o mais poderoso agente de
propagação". Seu propósito era oferecer orientação sobre a continuidade da
obra a que ele havia derrotado grande parte de seu tempo. Ele, então, enfatiza:
"O que vos aconselho antes de mais nada e sobretudo, é a tolerância, a
afeição, a simpatia de uns para com os outros e também para com os
incrédulos. "(Revista Espírita, junho, 1869).
Pois bem, temos referência direta ao princípio da tolerância na
convivência. Este princípio, no entanto, decorre de uma compreensão mais
ampla sobre a incompletude humana e sua evolução espiritual. Desta forma,
cada indivíduo transita dentro de uma faixa de experiência que lhe é própria,
com suas conquistas e seus limites. Como vivemos numa cultura pendular de
extremos, enfrentamos, também, o problema da intolerância.
O fundamentalismo, por exemplo, é uma atitude de intolerância e
inflexibilidade na defesa de uma "verdade única" e absoluta. Diante disto,
irrompem conflitos graves, principalmente, no âmbito religioso, com guerras
insidiosas que têm gerado milhares de vítimas.
A ideia de possuir a verdade absoluta fecha o indivíduo para o diálogo,
ensejando-lhe posturas autocráticas e combativas. Mas o fundamentalismo não
se restringe a dimensão religiosa. Abrange outras dimensões, como racial,
política e ideológica... Há também os fundamentalismos do comportamento
individual que se radicalizam na convivência familiar e social.
Posturas intransigentes, ideias impostas, autoritarismo, entre outros, vão
permeando os relacionamentos e produzindo crises na convivência. É
necessário, pois, construirmos uma convivência inter-humana regada de maior
grandeza. A intolerância não vence a intolerância. Atitude de amorosidade
vence a intransigência e respeita a coexistência das diferentes opiniões,
crenças e saberes.
Mas, qual o limite entre a tolerância e a permissividade? Na Casa
Espírita, por exemplo, onde a disciplina é condição fundamental para o bom
andamento das atividades, como lidar com o trabalhador que não cumpre com
os seus compromissos? Com o irmão de ideal que, sob o argumento de
aprofundar novos conhecimentos, propõe mudanças que descaracterizam os
objetivos do Centro Espírita? Onde situar a tolerância diante daquele servidor
que, por qualquer desagrado, explode em críticas corrosivas?
Uma atitude de passividade diante do erro sob o pretexto de tolerância,
é uma visão distorcida que em nada contribui para o melhoramento dos
indivíduos e, ainda, perverte as instituições. O erro pode ser "tolerado" no
sentido de que é compreendido dentro dos quadros da ignorância e dos limites
evolutivos do Espírito. Partindo-se dessa premissa, deve-se buscar o caminho
educativo da reparação. A tolerância assume uma atitude dinâmica associada
ao nosso processo evolutivo. Mas, em nenhum momento, aproximar-se do
conceito de permissividade. É o eminente professor J. Herculano Pires, em seu
livro Na Hora do Testemunho, que nos oferece um valioso exemplo, no texto
"Antes do cantar do galo":

Em 1925, quando se reuniu em Paris o Congresso


Espiritualista Internacional, o próprio Kardec, através de
comunicações mediúnicas, teve de forçar Léon Denis, já
velho e cego, a sair de Tours, na província, para defender o
Espiritismo dos enxertos que lhe pretendiam fazer os
representantes de várias tendências, com a aceitação
ingênua de ilustres mas desprevenidos militantes espíritas.
Todos eles professavam inabalável fidelidade à Doutrina,
mas concordavam com a tese de que esta devia avançar
dos limites kardecianos. Denis foi o baluarte da resistência
e venceu a batalha, mas sozinho, também ele solitário.

Nas instituições espíritas o comprometimento com os objetivos do


Espiritismo deverá estar em primeiro lugar. Logo após, vem o cumprimento dos
preceitos estatutários e regimentais que normatizam os objetivos da instituição.
Mas tudo isso não implica na adoção de uma disciplina militar e opressora, que
institui forte tensão no grupo, perdendo-se com isso o brilho das relações
afetivas. Disciplina fraterna exige um olhar profundo sobre o sentido da palavra
tolerância. De tal forma, que não venhamos associá-la ao "tudo pode" em
nome da caridade.
A rigor, tolerância não é um ato de passividade contemplativa. Tolerar
não significa assumir uma postura de neutralidade, encobrindo a verdade, pois
esta deve estar presente em todos os momentos. Mas a verdade nunca deve
ser agressiva, sob pena de desvirtuamento. Ela deve ser revelada com
fraternidade e, para isso, o revelador necessita revestir-se de autoridade moral.
Somente assim o erro pode ser refutado.
Dessa forma, podemos definir a tolerância como a capacidade, ou
sensibilidade de perceber a incompletude do outro, sua humanidade, seus
limites e possibilidades evolutivas, no tempo e no espaço, respeitando o seu
modo de ser e agir. Não implica na conivência com o erro, pois sabemos que
tolerar o crime, o roubo, a corrupção, as drogas, entre outros, seria a própria
degradação da vida social. A vida seria impossível numa sociedade que
"tolerasse tudo". Mas não existe aí um conflito moral?
Quando dizemos que certas atitudes não são dignas de tolerância, na
verdade, estamos aplicando, nesse caso, um valor moral e universal. Não
tolerar o crime é, pois, defender o direito inalienável do ser humano à vida. Se
aceitássemos o relativismo dos valores, estaríamos considerando que cada
pessoa teria o direito a sua verdade, definindo critérios próprios para o bom e o
mau. Neste caso, entram os sensores sociais, morais e éticos, que buscam,
não pela "intolerância", mas pelas normas, leis e sanções aceitas e definidas
historicamente, a garantia dos direitos humanos.
E dentro do Centro Espírita? Vejamos o que afirmou o Kardec no
discurso pronunciado nas reuniões com espíritas de Lyon e Bordeaux,
constante na Viagem Espírita de 1862:

Aqui na Terra, onde ninguém é infalível, indulgência


recíproca é uma consequência do princípio de caridade que
nos leva a agir para com os outros como gostaríamos que
os outros agissem para conosco.

Allan Kardec é bastante claro em sua assertiva. Convoca-nos para esse


sentimento de humanização, onde é possível realizarmos a experiência da
fraternidade e da caridade, no sentido entendido por Jesus. Tal é o caminho
para o homem de bem, explicado no Evangelho Segundo o Espiritismo. A
indulgência é esse olhar mais profundo para o outro. Para isso é relevante, em
qualquer circunstância de nossa convivência na Casa Espírita, manter o
coração enternecido nos ensinamentos de Jesus e de Kardec.
Nas Casas Espíritas, poderemos encontrar inúmeros desafios:
estudantes faltosos contumazes, trabalhadores indisciplinados em seus
compromissos, médiuns melindrosos, dirigentes excessivamente autoritários ou
permissivos, evangelizadores cuja inovação pedagógica colidem com os
fundamentos do Espiritismo, entre outros. Mas, nesses casos citados, qual o
limite da tolerância? E a indulgência e a caridade citadas por Kardec?
Entramos novamente um dilema moral.
Nesse momento entra outro elemento na discussão: o dever. Sabemos
que a responsabilidade é relativa ao conhecimento que possuímos e a função
que ocupamos. Léon Denis, em seu livro Depois da Morte (Parte Quinta - O
Caminho reto) considera que: "O dever é o conjunto das prescrições da lei
moral, a regra pela qual o homem deve conduzir-se nas relações com seus
semelhantes e com o Universo inteiro". Pois bem, a regra moral que deve
pautar nossa condução é aquela que indica o bem proceder.
Onde está o dever do Espírita? Está em silenciar diante da indisciplina?
Assumir postura de neutralidade diante dos desvirtuamentos doutrinários?
Quais os deveres de um presidente de Centro Espírita? E dos trabalhadores?
Normalmente esses deveres estão formulados nos normativos da instituição:
Estatuto e Regimento Interno. Quando esses documentos não estão sendo
cumpridos, em algum aspecto em particular ou no geral, não seria um dever
moral o alertamento?
Quando companheiros valiosos, em dado momento, assumem
comportamentos estranhos, passam a alimentar ideias e propostas que
desfiguram o ensinado por Kardec, não é dever alguém levantar-se na defesa
dos postulados espíritas? Quando um companheiro assume a direção de um
departamento na Casa Espírita, mas se mantém inoperante, não se envolve na
sua organização e dinamização, fica - simplesmente - ocupando o cargo, não
seria dever do presidente uma atitude de providência?
Um falso olhar sobre o tema da tolerância implica na negligência dos
nossos deveres. Mas alguém poderia complicar mais indagando: "mas a
tolerância não é um dever?" Para resolvermos essa questão, sem sofismas,
temos que definir uma hierarquização dos deveres. Quais os deveres que, num
primeiro plano, necessitamos atender na Casa Espírita? Os deveres para com
o Espiritismo e para com a própria instituição. Sem extremismos, mas com
responsabilidade e fraternidade. Atendendo judiciosamente esses deveres,
estaremos, também, primando pela cordialidade no contato com os recursos
humanos.
Dessa forma, os problemas da convivência, da indisciplina, da
inoperância, dos desvios de conduta e de rota doutrinária, serão examinados
quer na sua generalidade ou especificidade, visando cumprir, fielmente, com
nossos deveres. Isto posto, fica claro que não devemos usar o discurso da
"tolerância" para acomodarmos situações que exigem enfrentamento. Sem
dúvida, nesse momento, é necessário lembrar e seguir os conselhos da
"prudência", evitando-se atitudes irrefletidas e imaturas.
Kardec não vacilava em desaprovar e de esclarecer sobre posturas
irrefletidas de certos adeptos, como está claro na Revista Espírita, março de
1873, sobre o título: "Falsos irmãos e Amigos inábeis". O dever moral implica
em assumir atitudes com prudência, firmeza de argumentos, respeito e uma
boa dose de fraternidade. Somente assim, o dever, a tolerância e a indulgência
se associam dinamicamente num todo harmonioso e produtivo.
O papel dos dirigentes

Os que não se creem infalíveis e não depositam


confiança absoluta em suas próprias luzes, se sentem
necessitados e um ponto de apoio, de um guia, ainda que
apenas para ajudá-los a caminhada com segurança.
Allan Kardec - Obras Póstumas - o chefe do espiritismo.

Os dirigentes de uma Casa Espírita ocupam papéis muito além dos


geralmente definidos pelos documentos normativos. Em Obras Póstumas,
quando escreve sobre "O chefe do Espiritismo", Allan Kardec caracteriza o
dirigente espírita nos seguintes aspectos:

I- Autoridade moral
II- Dar a impulsão
III- Estimular os zelos
IV- Sustentar os ânimos vacilantes
V- Ajudar com os conselhos da experiência
VI- Fixar opinião sobre os pontos incertos
VII- Não se crer infalível

No livro Nosso Lar, André Luiz descreve o perfil de um abnegado


dirigente daquela cidade espiritual. Sem pretendermos criar um modelo
exclusivo para os dirigentes espíritas, seria, pelo menos, interessante
atentarmos para alguns qualificativos no exemplo apresentado.

Ali vive o nosso abnegado orientador. Nos trabalhos


administrativos, utiliza ele a colaboração de três mil
funcionários; entretanto, é ele o trabalhador mais infatigável
e mais fiel que todos nós reunidos. Os ministros costumam
excursionar noutras esferas, renovando energias e
valorizando os conhecimentos; nós outros gozamos
entretenimentos habituais, mas o Governador nunca dispõe
de tempo para isso. Faz questão que descansemos,
obriga-nos a férias periódicas, ao passo que, ele mesmo,
quase nunca repousa, mesmo no que concerne as horas
de sono. Parece-me que a glória dele é o serviço perene.
Francisco ser ponto Xavier (André Luiz). Nosso Lar. Cap. 8
- Organização de serviços.

Trata-se de uma pessoa extremamente dedicada e fiel aos encargos


assumidos. Obviamente, o dirigente Espírita é um ser humano como qualquer
outro. Devemos atentar, no entanto, para a observação final feita sobre o
orientador, onde fica evidente que ele ama o que faz. Quando se está na
função certa se rende mais. Dirigir um grupamento Espírita exige da pessoa
alguns qualificativos fundamentais além dos já mencionados.
Há três imperativos para os quais os dirigentes devem atentar.
Comecemos pelos aspectos legais. Chamamos atenção para o
acompanhamento efetivo que o dirigente deve manter sobre a tesouraria e o
tesoureiro. Ser espírita não é, e nunca será, sinônimo de ingenuidade. A função
do dirigente é fiscalizar o todo da instituição para o bom andamento dos
trabalhos e dos serviços prestados. A confiança ingênua de certos presidentes
de Centros Espíritas abriu, em alguns casos que temos conhecimento, brecha
para a instalação de graves problemas financeiros na Casa.
Em certas instituições, por ocasião da mudança de diretoria, descobriu-
se uma dívida absurda no setor de venda de livros. A investigação, por parte
dos novos dirigentes, apurou a participação do antigo tesoureiro no desvio de
recursos da Casa para seu uso pessoal. Esse tesoureiro coordenava grupos de
estudos da Doutrina e fazia palestras públicas. Integrava o grupo fazia dez
anos. Quando realizava suas "prestações de conta" em reuniões de diretoria,
apresentava somente um demonstrativo geral, ocultando as notas e demais
documentos. Nem o presidente, nem qualquer outro membro da diretoria
solicitaram a prestação dos comprovantes. Apenas confiavam! Esqueceram
que o "espírita" é um ser humano, portador de certas vulnerabilidades morais
desconhecidas do grupo e, portanto, sujeito às fraquezas do ser incompleto.
A sucessão de erros não parou nem no Conselho Fiscal, órgão que
deve, em última instância, examinar a administração financeira. Também os
conselheiros, por excesso de confiança, não solicitavam os documentos que
comprovariam os pagamentos. Por sua vez, a distribuidora de livros, com um
controle deficitário de seus estoques e de sua contabilidade, não identificou,
por quase três anos, o não recebimento dos pagamentos devidos por essa
instituição. Foi nesse vácuo que o tesoureiro alimentava sua desonestidade.
Allan Kardec, foi muito claro em O Livro dos Médiuns, capítulo 29, item
340, ao asseverar que: "Não se deve, portanto, esperar que o mal se haja
tornando incurável, para remediá-lo; não se deve, sequer, esperar os primeiros
sintomas se manifestem; o que se deve cuidar acima de tudo, é de preveni-lo".
Há dirigentes espíritas que, não querendo "desagradar" determinado
trabalhador, não lhe fazem as devidas exigências. Não querem se "indispor",
mesmo porque o trabalhador poderá ficar ofendido. Tal postura, equivocada,
abre espaços para que o "mal" se instale.
O segundo imperativo para o qual os dirigentes espíritas devem estar
sempre atentos é relativo à questão doutrinária. O estudo do Espiritismo e a
vigilância responsável devem fazer parte da vivência de todo espírita e, muito
mais, daqueles que ocupam lides de direção. Não se trata de dogmatizar ideias
ou conhecimentos, mas zelar para que os estudos e trabalhos não se afastem
da diretriz kardequiana consubstanciada nas Obras Básicas e suplementares
do Espiritismo.
Finalmente, o terceiro imperativo é a filosofia da convivência quem dirige
qualquer coisa nunca agrada a todos. Pois bem, observando-se o exemplo de
Allan Kardec, podemos afirmar que energia e ponderação devem ser aliar ao
amor produtivo. Na prática isto significa civilidade, Fraternidade e respeito no
trato com as pessoas, mesmo no momento de cobrança, de advertência ou
numa ocorrência mais grave. Quanto mais equilibrado for o dirigente, tanto
mais autoridade moral e ética projetará no grupo, recebendo o respeito deste.
Ser enérgico não significa ser ríspido, grosseiro ou deseducado.
No Centro Espírita, naturalmente, há indivíduos de temperamentos
variados. Desde os que se revestem com "pele de ovelha" e, até "lobos"
assumidos. Tudo isso faz parte do Universo da convivência humana e das
contingências da evolução espiritual. Allan Kardec, revela que nos momentos
em que era atacado em sua integridade moral, criticado maldosamente e
ofendido, muitas vezes pelos próprios companheiros da Sociedade Parisiense
de Estudos Espíritas, buscava pelo recolhimento mental, colocar-se acima das
contingências terrenas, compreendendo os limites humanos e, com isso, sem
mágoas ou ressentimentos, dava prosseguimento as suas tarefas doutrinárias.
Desafio de todos nós! Kardec também lembrou em discursos pronunciados nas
reuniões gerais dos espíritas em Lyon e Bordeaux que "o homem não chega a
nada sem esforço."
Nas lides espíritas, não raro nos defrontamos com companheiros que
jamais estão contentes, criticam tudo e a todos, reprovam qualquer ideia que
não esteja de acordo com as suas, tornando-se, quase sempre, pedras no
caminho dos trabalhadores sinceros. Muitos dirigentes espíritas ainda hoje se
perguntam: o que fazer diante de tais pessoas? Que comportamento adotar?
Alguns adotam uma espécie de "política conciliatória", enquanto outros optam
por atitudes mais contundentes. Qual seria, no entanto, a posição de Kardec?
Teria ele nos dito algo sobre isso? Sim. Vejamos suas considerações:

Esse desgosto, a maior parte dos chefes de grupos


ou de sociedades, como eu, tem esperimentado, e os
consito a fazer como eu, isto é, a dispensarem os médios
que antes constitui um entrave que um recurso. Com eles
estamos sempre pouco à vontade, temerosos de feri-los
com as mais insignificantes ações. (I- Discursos
Pronunciados nas Reuniões Gerais dos Espíritas de Lyon e
Bordeaux. Op.cit. p.61.)
Aparentemente a posição de Kardec, parecerá, para alguns, muito
contundente. Estaria sendo Kardec desumano e intolerante? Estaria ele
preocupado em agradar a gregos e troianos? Certamente não. Aliás, o
psicólogo William James dizia: "Quando você precisa tomar uma decisão e não
a toma, está tomando a decisão de nada fazer ". Kardec, tomava suas
decisões com base numa escala de valores, sem a pretensão de agradar a
todos. Nutria uma "coerência doutrinária", ou seja, construía o seu julgamento
através da reflexão ética, preocupando-se com os destinos do Movimento
Espírita nascente. Com isto, certamente, não deixou de ser sensível e fraterno,
apenas não se permitia ceder aos caprichos alheios, colocando a
responsabilidade com a Doutrina em primeira Instância.
O dirigente, tanto quanto possível, deve estar presente na instituição,
acompanhando o desenvolvimento dos trabalhos e se comunicando com os
trabalhadores e frequentadores. A presença do dirigente inspira segurança e
minimiza conflitos fugazes. Em situações em que o dirigente necessite
conversar mais diretamente com um trabalhador, deve-se ter o cuidado para
que tal conversa ocorra em um lugar reservado, principalmente para não expor
questões individuais diante do grupo. O Evangelho Segundo o Espiritismo em
seu capítulo 10, itens 19,20 e 21, traz oportunas orientações sobre essa
questão. Afirma São Luís que o ato de repreender alguém, que esteja sobre
nossa tutela é um "dever" e mesmo uma "caridade", desde que com
"moderação" e para "um fim útil", jamais pelo simples prazer de denegrir.
Os dirigentes espíritas não devem ignorar os problemas que possam
surgir nos pequenos como nos grandes Centros. Muitas vezes, sim, é
necessário ter uma conversa franca com determinado trabalhador que vive
faltando ao passe, por exemplo. Quando justificativas plausíveis não são
apresentadas e o servidor continua negligenciando seus compromissos
espontaneamente assumidos, caberá aos responsáveis tomarem as atitudes
certas.
E quando o dirigente não está consciente desse papel, permitindo
muitas vezes que os problemas se instalem sem nada fazer? Pois bem, nesse
caso é necessário que o grupo da diretoria, pelo menos os mais atentos,
alertem-no construtivamente. Sobre isso Kardec advertiu no item 337 de O
Livro dos Médiuns:

(...) terão as pessoas sensatas e bem intencionadas


(...) o direito de crítica, deverão deixar que o mal passe,
sem dizerem palavra, e aprovar tudo pelo silêncio? Sem
nenhuma dúvida, esse direito lhes assiste; é mesmo um
dever que lhes corre. Mas, se boa intenção os anima, eles
emitirão suas opiniões (...) com cordialidade, francamente e
sem subterfúgios.
Expressar opiniões com fraternidade, manifestar-se com equilíbrio e
conversar sem "subterfúgios", ouvir com serenidade e filtrar impulsos e
sentimentos perturbadores, apoiando-se na humildade é o caminho eficaz para
administrarmos os problemas decorrentes da convivência diária.
O verbo doce ou enérgico

Não podem os homens ser felizes, se não viverem


em paz, isto é, senão os animar um sentimento de
benevolência, de indulgência e de condescendência
recíproca...
Allan Kardec - Obras Póstumas -1ª Parte.

Narra o Espírito Humberto de Campos no livro Boa Nova, Capítulo XV,


psicografado por Francisco C. Xavier, que certo dia Joana de Cusa foi procurar
Jesus na casa de Simão Pedro. Acompanhando as pregações do Mestre, que
não se cansava de discutir os valores da alma, ela que era casada com um
homem problemático, alto funcionário de Herodes, desejava obter um lenitivo
para seus dissabores conjugais. Após ouvir suas queixas, Jesus
amorosamente asseverava: " Não percas tempo em discutir o que não seja
razoável. (...) Esforça-te também no silencio e, quando convocada ao
esclarecimento, fala o verbo doce ou enérgico (...) segundo as circunstâncias."
Em primeiro lugar, Jesus adverte que não devemos perder tempo em
discutir o que não seja razoável. Mas o que é algo razoável? O sentimento que
melhor se aproxima da essência do texto, está na definição do próprio
dicionário Aurélio: "O que age segundo a consciência (e não os impulsos e
paixões); sensato, prudente, equilibrado, o que não é exagerado."
Temos, nesse caso, um chamamento à moderação e ao bom senso. O
ensino nos alerta para a perda de tempo na discussão de assuntos e
improdutivos. Se nada temos de bom para dizer, o que devemos falar? Por
isso, outro aspecto fundamental da assertiva: "Esforça-te também no
silêncio...". A convivência requer valiosos momentos de silêncio. O silêncio,
muitas vezes, diante de um agravo, de uma contenda, é recurso para a
reflexão, evitando-se palavras e atos impulsivos.
Também poderemos colocar o "silêncio" no patamar dos recursos
necessários à meditação para nos tornarmos receptivos à intuição dos bons
Espíritos. No silêncio da prece: pedimos. No silêncio da medicação: ouvimos a
resposta.
E Jesus conclui: "... quando convocada ao esclarecimento, fala o verbo
doce ou enérgico segundo as circunstâncias." É necessário, em certas
situações, falarmos "energicamente" com um filho, um amigo, um paciente, um
aluno, um parente, um trabalhador espírita. Todavia, deve-se cuidar com as
palavras, pensar bem no conteúdo e na forma de colocá-las. Nesse sentido,
Kardec, na Revista Espírita, março de 1863, escrevendo sobre os "falsos
irmãos e amigos inábeis", advertiu: "Nunca seria demais recomendar aos
espíritas que refletissem maduramente antes de agir."
O termo "energico" vem de "energia", "vigor". Significa, portanto, falar
com firmeza e determinação, baseado numa força moral. Imaginemos um
dirigente que não cumpre com seus horários cobrar quando um trabalhador se
atrasa! O pai que proíbe ao filho adolescente o uso de cigarros, sendo ele um
fumante! Poderíamos criar muitos outros exemplos. No entanto, resta-nos
lembrar que o verbo enérgico pressupõe autoridade moral, liderança no
exemplo de quem o manifesta.
O "verbo doce" é afetuoso, impondo-se para evitar que a convivência se
torne fria e desmotivadora. Traduz os códigos dos sentimentos, definindo-se na
sinceridade, no respeito, na afetividade, na sensibilidade que levanta e
incentiva o outro a seguir confiante, pelas veredas da vida.
Quantas vezes a ausência de um servidor espírita nem mesmo desperta
a atenção dos dirigentes para o que possa ter-lhe ocorrido! Quem sabe os
desafios que esteja vivendo na solidão dos seus dias? Um hiato de caridade se
faz visível toda vez que a indiferença abarca em nossas instituições.
Em nossas lides espíritas, "verbo amar", doce ou enérgico, deve ser a
expressão de uma vivência mais profunda e completa. Clareados pelo ideal
espírita, nos tornamos cientes da renovação própria, sem culpas nem
desculpas. O verbo doce ou enérgico deve ser aplicado, em primeiro lugar, a
nós mesmos. Será dessa experiência pessoal que lograremos os recursos
indispensáveis para aplicá-los no curso da convivência.
Conflitos doutrinários

É imprescindível o direito de exame e de crítica e o


Espiritismo não alimenta a pretensão de subtrair-se ao
exame e à crítica, como não tem a de satisfazer a toda
gente. Cada um é, pois, livre de aprovar ou rejeitar; mas
para isso, necessário se faz discuti-lo com conhecimento
de causa.
Allan Kardec, Ligeira Resposta aos Detratores do Espiritismo.
Obras Póstumas, 1ª Parte.

Não são poucos os conflitos envolvendo o problema das interpretações


sobre aspectos. Sabemos que o Espiritismo não foi editado completo, nem
imposto à crença cega. Cabe ao ser humano a observação dos fatos, o
trabalho de estudar, comentar e comparar a fim de tirar suas próprias ilações e
aplicações. No entanto, um dos primeiros problemas que se apresenta é o das
interpretações dos textos da codificação. Mas o que é interpretar?
A rigor podemos definir dois sentidos para o ato de interpretar um texto:

a) a interpretação como desenvolvimento do seu sentido original;


b) a interpretação como construção de significados pessoais.

O primeiro consiste na ideia de que interpretar é buscar o sentido


atribuído ao texto pelo próprio autor. Desta forma, a boa interpretação seria
aquela que busca descobrir o que o autor (ou autores, no caso dos Espíritos)
queria dizer quando escreveu sobre determinado assunto. É o esforço em
buscar o seu sentido original.
No segundo caso, busca-se admitir que quem dá o significado para o
texto é quem o lê, e não quem o escreveu. Nesse caso, toda interpretação
termina sendo um processo essencialmente subjetivo, muito vinculado ao que
os gregos chamavam de "doxologia", ou seja, a livre opinião. E toda
interpretação, em tese, poderia ser aceita.
Entretanto, ao estudarmos os livros da Doutrina Espírita, será que toda e
qualquer interpretação será válida? Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns,
quando trata dos Sistemas analisando os fenômenos mediúnicos que
originaram o Espiritismo, assim se pronunciou:

Quando foram averiguados por testemunhos


irrecusáveis e através de experiências que todos puderam
fazer, aconteceu que cada qual os interpretou a seu modo,
de acordo com as suas ideias pessoais, suas crenças e
seus preconceitos. Daí o aparecimento dos numerosos
sistemas que uma observação mais atenta deveria reduzir
ao seu justo valor.
Allan Kardec O Livro dos Médiuns. Cap. 4, item 36.

Quando cada um interpreta do seu modo, como observou o Kardec,


abrem brechas para as ideias pessoais prevalecerem sobre o conteúdo
Original das obras isso representa sempre uma temeridade, pois abre espaço
para que os interesses individuais se destaquem ponto surgem então erros de
interpretação, ideias que agregam ao Espiritismo elementos de outras
doutrinas espiritualistas, descaracterizando o seu ensino e sua prática.
Já em sua época, Kardec se preocupava com o que seria publicado em
termos de Espiritismo. Mais ainda, quando se tratava de livros mediúnicos. Os
critérios utilizados por ele para analisar esses textos eram bastante rígidos.
Não é demais lembrarmos que aceitar tudo o que venha dos Espíritos, ou de
qualquer outra fonte, sem o devido exame e cautela, é enveredar por um
caminho perigoso e cheio de armadilhas. Analisando as chamadas
comunicações apócrifas, o Codificador assim se expressou:

De fato, a facilidade com que algumas pessoas


aceitam tudo o que vem do mundo invisível, sob o pálio de
um grande nome, é que anima os Espíritos embusteiros. A
lhes frustrar os embustes e que todos devem consagrar a
máxima atenção; mas, a tanto ninguém pode chegar,
senão com ajuda da experiência adquirida por meio de um
estudo sério. Daí o repetirmos incessantemente: Estudai,
antes de praticardes, por quanto é esse o único meio de
não adquirir experiência à vossa própria custa.
Allan Kardec. O Livro dos Médiuns. Cap. 31,
Comunicações apócrifas, XXXIII.

Kardec enfatiza o estudo como forma de discernimento do que o


Espiritismo aceita e daquilo que ele se distancia. Assim, o conhecimento das
Obras Básicas, nunca será demais salientar, representa a base segura para o
entendimento da Doutrina, todavia, mesmo assim é necessário ter cautela com
interpretações, muitas vezes apressadas, que se fazem também sobre elas.
Já abordamos em outros capítulos, a imperiosa necessidade de
administrarmos conflitos e divergências com moderação e fraternidade. Na
defesa de determinada tese, deverá se destacar a dialética das ideias, dos
argumentos e dos fundamentos. Muitos conflitos se prolongam em torno de
assuntos vazios e estéreis, simplesmente, para destacarem o ego dos
debatedores.
Allan Kardec teve a grandeza intelectual de jamais "fechar" o
pensamento espírita em torno de uma "verdade única" e dogmática. O caráter
intrínseco do discurso filosófico é a liberdade de pensamento, aberto à reflexão
e ao progresso das ideias. Todavia, o Espiritismo não traduz uma simples
reflexão intelectual para criar sentidos ou significados, ao contrário, é um saber
que se justifica com base nos fatos. Ao analisar o conjunto de sua obra,
veremos que Kardec não partiu da "crença", mas da sólida pesquisa científica,
no campo da mediunidade, para, num segundo momento, pelos caminhos da
interpretação dos fatos, com base no crivo da razão.
Um estudo atento de O Livro dos Espíritos evidencia a busca constante
de Kardec por explicações plausíveis, que possam atender à coerência e ao
bom senso. Ele Interroga os Espíritos com firmeza, cercado de boa
argumentação, mas - ao mesmo tempo - buscando libertar-se de preconceitos
e atavismos culturais de sua época.
Há, naturalmente, uma "busca incessante" de conhecimentos e
reflexões, iniciadas em O Livro dos Espíritos e que, evidentemente, não para
com ele, nem mesmo o esgota e em todo o seu potencial doutrinário. Isso
oferece, ao conjunto das Obras Básicas, um dinamismo inesgotável, uma vez
que a experiência da evolução espiritual vai oportunizando ao ser humano uma
ampliação de seus horizontes intelectuais.
Interpretar não significa modificar os fundamentos da Doutrina Espírita.
Na verdade, a interpretação é um esforço da Inteligência por "encontrar um
sentido escondido", que não está necessariamente claro. Ora, em nossa
condição de Espíritos em evolução, não podemos depreender que já esteja
tudo resolvido, em termos de entendimento sobre a vida e seus mecanismos.
Logo, a capacidade de interpretação é inerente ao ser humano. Deveremos
usá-la de forma responsável, coerente e compromissada, em primeiro lugar,
com a própria Doutrina.
Essa relação dialética se processa também, no diálogo crítico do leitor
com a obra. Mas é preciso que esse diálogo se distancie das leituras
simplistas, onde, muitas vezes, se busca afirmar o conteúdo doutrinário através
de posturas acríticas, influenciadas pela teologia tradicional. Através de sua
metodologia, Kardec nos ensinou a dialogar com a fonte das informações sem,
no entanto, perder o viés dos sentimentos. A racionalidade empregada aos
estudos deve servir para que os seus conteúdos nos levem a um
encantamento pela vida.
O dever dos verdadeiros espíritas, dos que compreendem o fim
providencial da doutrina é, antes de tudo, fazer prevalecer pelo exemplo o
sentimento de fraternidade que é uma das bases de seus ensinamentos. Nas
discussões doutrinárias, quando se perde esse norte, não é de se admirar
predominarem as paixões e o orgulho. Surgem práticas, daí decorrentes, que
se distanciam dos postulados kardecianos, provocando inúmeros dilemas no
Movimento Espírita.
O próprio Kardec advertiu o Movimento Espírita sobre as questões de
"fundo" e as questões de "forma":

As questões de fundo devem passar à frente das


questões de forma. Ora, as questões de fundo são as que
tem por objetivo tornar melhores os homens, considerando-
se que todo o progresso social ou outro não pode ser
senão consequência do melhoramento das massas; é para
isso que tende o Espiritismo e por aí prepara os caminhos
a todos os gêneros de progressos morais. Querer agir de
outra forma é começar o edifício pela cumeeira, antes de
lhe assentar os alicerces; é semear em terreno que não foi
arroteado.
Allan Kardec. Revista Espírita, março de 1863. Sobre a decisão
tomada pela Sociedade Espírita de Paris a respeito da questão religiosa.

Por isso, no mesmo texto da Revista Espírita, de março de 1863,


desaprovava toda e qualquer publicação própria a falsear a opinião sobre o fim
e as tendências do Espiritismo. Os conhecimentos bem alicerçados são
aqueles que se mantém ao longo do tempo. As questões de forma passam, as
de fundo permanecem. É relevante não abandonar-se a simplicidade e a
profundidade do horizonte doutrinário, consubstanciado nas Obras Básicas.
Diante dos conflitos doutrinários, no entanto, jamais abdicar de uma
postura de respeito com aqueles que pensam diferentemente. Torna-se
imperativo que essas divergências se mantenham no plano das ideias, jamais
transitando para o campo pessoal. O espaço dos argumentos é um espaço
privilegiado para o embate do pensamento, podendo se tornar rico no
aprofundamento das ideias.
Quando os argumentos já não mais se ajustarem, quando nenhum
acordo sobre os aspectos divergentes passível de manutenção, o diálogo e o
bom senso não mais vigorarem, então é comum que ocorra um afastamento,
posto que cada um possui liberdade de agir e pensar. Aqueles que seguirem
por outra direção, afastando-se do contexto doutrinário do Espiritismo, quer
assumidamente ou não, devem ser respeitados em suas deliberações
pessoais.
Muitos desejam, ingênua ou orgulhosamente, reformular o Espiritismo,
esquecendo-se que sua fonte não é uma concepção pessoal, nem o resultado
de um sistema preconcebido. É, como disse Kardec, resultante de milhares de
observações feitas sobre todos os pontos do planeta e que convergiram para
um centro que os coligou e coordenou. Todos os seus princípios constitutivos,
sem exceção, são deduzidos da experimentação, que precedeu à formulação
da teoria.
O estudo das obras de Kardec, contudo, representa a construção do
alicerce fundamental para o efetivo conhecimento Espírita. A maior parte dos
conflitos doutrinários deve-se ao frágil conhecimento sobre estes textos. Logo,
os melhores resultados como aludiu Kardec em sua viagem de 1862, poderão
ser atingidos com os investimentos nos grupos de estudo.

Há algum tempo constituíram-se alguns grupos, de


especial caráter, e cuja multiplicação entusiasticamente
desejamos encorajar. São os denominados grupos de
ensino. Neles ocupam se pouco ou nada das
manifestações. Toda a atenção se volta para a leitura e
explicação de 'O Livro dos Espíritos', 'O Livro dos Médiuns',
e artigos da 'Revista Espírita'. (...) Aplaudimos de todo o
coração essa iniciativa que, esperamos, terá imitadores e
não poderá, em se desenvolvendo, deixar de produzir os
melhores resultados.
Allan Kardec - Viagem Espírita de 1862.
Vou me afastar da Sociedade!

Crer em sua própria infalibilidade, recusar o


conselho da maioria e persistir no caminho que se
demonstrar mal e comprometedor, não é atitude de um
verdadeiro espírita.
Allan Kardec - Falsos irmãos e amigos inábeis.
Revista Espírita, março de 1863.

Sempre que se fala das "dissidências" nas Casas Espíritas, estamos


diante de um problema que tem seu foco principal nos conflitos da convivência.
Sim, ninguém é obrigado a permanecer em um local com o qual não mais se
afine. As antipatias, no entanto, surgem dos desajustes crescentes que não
foram trabalhados pela ética Cristã.
Quando escreveu sobre a Constituição do Espiritismo, Kardec expostos
os motivos que conduziam ao fracasso certos grupamentos espíritas. A falta de
programas claramente traçados ensejaria, entre outras coisas, a "causa
fundamental da débil coesão e de instabilidade dos grupos e sociedades ...".
(Obras Póstumas. Constituição do Espiritismo, I. Considerações Preliminares)
A preocupação de Kardec, no entanto, vai mais longe. Logo percebe
uma questão que se apresentava no seio do movimento Espírita: "os cismas".
Percebia, na verdade, que o Espiritismo, enquanto movimento organizado por
pessoas, não poderia escapar às fraquezas do próprio ser humano.
As divergências surgidas entre os adeptos da doutrina poderiam ocorrer
no que tange às interpretações subjetivas dos princípios doutrinários da mesma
forma ocorreu com os Evangelhos, sofrendo múltiplas interpretações e, por fim,
originando concepções diversas do Cristianismo vejamos:

Uma questão que desde logo se apresenta é a dos


cismas que poderão nascer no seio da Doutrina. Estará
preservado deles o Espiritismo? Não, certamente, porque
terá, sobre tudo no começo de lutar contra as ideias
pessoais, sempre absolutas, tenazes, refratárias a se
amalgamarem com as ideias dos demais; contra a ambição
dos que, a despeito de tudo, se empenham por ligar seus
nomes a uma inovação qualquer; dos que criam novidades
só para poderem dizer que não pensam ou agem como os
outros, pois sofre o amor próprio por ocuparem uma
posição secundária. (Obras Póstumas. Constituição do
Espiritismo II - Dos cismas.)
Kardec examinava, nesse linear do Movimento Espírita, as fraquezas
dos espíritas na busca dos exclusivismos de natureza orgulhosa, gerando
desagregações desnecessárias e improdutivas entre aqueles que, seguindo a
advertência Cristã, deveriam "muito se amar". Não raro, as divergências
quiméricas no interior das instituições espíritas, renovam - no início do século
XXI - as preocupações manifestadas por Kardec. A falta de pragmatismo
evangélico, principalmente ao exercício do "perdão", entre os "irmãos de ideal"
converge para imperiosas reflexões sobre a "nossa forma de ser espírita".
As divergências deveriam ser instrumentos úteis de reflexão e
aprendizado convivencial, jamais de pretextos para dissidência ou deserção. O
que ocorre, é que o ferimento de suscetibilidades de companheiros
inconstantes, termina por estimular os temperamentos mais imaturos. A rigor, é
bom pensarmos que qualquer trabalhador espírita, independente do grau de
conhecimento que possua, está sujeito a cair nas armadilhas.
Mesmo Kardec, que era um homem preparado, em dado momento
sentiu vontade de afastar-se da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.
Em seu discurso na S.P.E.E. durante abertura do ano social em junho de 1862,
o codificador narra que, diante das vicissitudes enfrentadas naquela instituição,
haja vista que em seu seio havia adeptos frágil e perturbadores que
comprometiam suas atividades, lançou em sem retirar fatigado pelas
adversidades. Imaginava que seu afastamento da sociedade parisiense e
permitiria dedicar-se mais a seus estudos e pesquisas sobre o mundo espiritual
entretanto, foi do próprio mundo espiritual que veio a advertência:

Quanto a ti, não podes nem deve te retirar. Com


tudo, não pretendemos subjugar o teu livre arbítrio apenas
dizemos que a tua retirada seria um erro que um dia
lamentarias... (Discurso do Sr. Alan Kardec na Abertura do
ano social. A 1º Júnho 1862. In. Revista Espírita - junho de
1862.)

Dois anos depois dessa comunicação, anotou Kardec que a Sociedade


Parisiense havia saído daquela crise passageira provocada por indivíduos, que
segundo o próprio codificador, tinham sido aceitos no grupo muito rapidamente.
Mas também alertou para as experiências que esse fato causou:

Então dois anos se passaram e, como vêdes, a


Sociedade felizmente saiu daquela crise passageira, cujas
as peripécias todas me foram assinaladas, e dos quais um
dos resultados foi dar-nos uma lição de experiência, que
aproveitamos, e que provocou medidas de que nos
felicitamos. (Idem)
A experiência vivida por Kardec pode servir de exemplo a todos nós. As
instituições passam por suas crises, por períodos de instabilidade. A
precipitação, aliada muitas vezes, a um temperamento impulsivo - que não era
o caso de Kardec -, poderá fazer com que o indivíduo, mesmo bem-
intencionado, tome atitude de afastamento. A cautela e a reflexão nesse
momento são indispensáveis para se evitar decisões equivocadas. Uma
postura de humildade e desejo de servir à Doutrina e aos seus semelhantes,
mesmo em momentos "supostamente" adversos, são os tônicos revigorantes
do servidor.
Em dezembro de 1868, portanto seis anos após, Kardec ao escrever a
"Constituição Transitória do Espiritismo", no Capítulo V, adverte:

A causa mais comum de separatividade entre


cointeressados é o conflito de interesses e a possibilidade
de uns suplantarem os outros, em proveito próprio. Esta
causa não pode existir, no momento em que o prejuízo de
um em nada aproveitará aos outros; desde que todos são
solidários e somente podem perder, em vez de ganhar,
com a desunião. (Revista Espírita/Dezembro de 1868).

As divergências que culminam em dissidência atestam a falência do


entendimento, que deveria caracterizar as relações amadurecidos
espiritualmente. Significa dizer que devemos nos empenhar para evitar mágoas
e ressentimentos, a fim de manter-se o equilíbrio do grupo. Cabe ao
trabalhador espírita colaborar com suas preces para reduzir a atmosfera de
instabilidade na Instituição, sem jamais esquecer que o exercício do perdão é
tarefa diária.
Mas, além dos que se afastam de uma Casa Espírita, e fundam ou
transferem-se para outra, existem os que terminam por abandonar o
espiritismo. Kardec aludiu que muitos se afastam por que recuam ante a
proposta de se reformarem, buscando outros grupos com os quais
verdadeiramente se afeiçoem. Outros, ainda, se afastam acreditando poderem
fazer, com mais liberdade, outras práticas de auxílio ao ser humano. Pois bem,
se realmente fizerem algo melhor, ótimo! Cada indivíduo é livre devido a sua
própria consciência, e sua decisão deve ser respeitada. Na Casa Espírita,
quando uns abandonam os seus encargos, outros passam a assumi-los.
Escreveu Kardec, no item 337 de O Livro dos Médiuns que:

Pode ser pois estabelecer em princípio que todo


aquele que numa reunião espírita provoca desordem, ou
desunião, ostensivamente ou por meios escusos, é um
agente provocador, ou pelo menos um mau espírita de que
se deve desembaraçar o quanto antes.
Allan Kardec. (Tradução de J.de Herculano Pires)
O Livro dos Médiuns. São Paulo; Lake, 2007.

Todavia, diante dessas "desordens provocadas" e do "agente


provocador", caberá aos dirigentes do Centro, pelas responsabilidades das
funções que ocupam, agirem de forma equilibrada, com fraternidade, mas com
a devida energia que o contexto exige. Evitando-se posturas impulsivas, os
dirigentes colherão nos momentos de meditação e oração, a necessária
intuição para tratar esse tipo de problema.
A experiência tem mostrado que, nesses casos, a própria
espiritualidade, em grande parte das vezes termina criando mecanismos para o
afastamento dessas pessoas de uma forma muito natural, sem maiores danos.
Para além do ressentimento

Que importa crer na existência dos Espíritos, se


essa crença não faz que aquele que a tem se torna melhor,
mais benigno e indulgente para com os seus semelhantes,
mais humilde e paciente na adversidade?
Allan Kardec - O Livro dos Médiuns, item 349.

O ressentimento é reflexo dos conflitos que abarcam o homem


contemporâneo, diante das exigências imaginárias do individualismo. Na
Língua Portuguesa, o prefixo "re" indica o retorno da mágoa, expressando uma
constelação de sentimentos perturbadores num processo denominado por
Freud de "envenenamento psíquico". Em espanhol, segundo a psicóloga Gisela
Haddad, a palavra correspondente é remordimento e define-se como a amarga
e arraigada lembrança de uma injúria particular, da qual se deseja tirar
satisfações. Pode-se dizer que seu sinônimo é a palavra rancor, palavra esta
que vem do latim e que quer dizer queixa, querela, demanda.
Muitas vezes, o ressentido é um vingativo que não se reconhece como
tal. A psicanalista Maria Rita Kehl, afirma que "o ressentido não é alguém
incapaz de se esquecer ou de perdoar; é alguém que não quer se esquecer, ou
que quer não se esquecer, não perdoar, não deixar barato o mal que o
vitimou". Não existe uma impossibilidade para o perdão, mas o desejo ou não
dê praticá-lo. Não podemos dizer que perdoar seja a conduta de,
simplesmente, esquecer de uma hora para outra um agravo, pois o ato de
"lembrar" pertence a memória.
Mas a memória é, constantemente, estimulada pelos sentimentos, pela
importância que damos a um fato, por exemplo. Não dar tanta importância a
um evento é decretá-lo, com o tempo, ao esquecimento. Por isso, o perdão não
funciona através de imposição religiosa, mas pela conquista da consciência
maturada na reflexão e na experiência. A religião, claro, tem nos alertado sobre
a sua importância.
Quando existe um ato e uma vontade que sustentam o ressentimento, a
repetição de uma queixa vira um gozo para o sujeito. A pessoa aparece
satisfazer-se com aquilo que lhe machuca. No ressentimento, o sujeito, diz a
psicanálise, parece querer expulsar de si toda a responsabilidade pelo seu
próprio sofrimento, por isso transfere-a a outro. O ressentimento só se volta
para o perdão quando percebe que o "gozo da vitimização", virou um terrível
sofrimento da alma. Nesse caso, o ressentimento deixa de ser um ganho
subjetivo para transformar-se em desconforto e infelicidade.
O rancor alimenta indignações e acusações, mobilizando conteúdos
perturbadores da alma, da saúde de quem os nutre e das Instituições. Lidar
com situações adversas mantendo o estado de jovialidade e alegria diante da
vida é, como todos sabemos, um grande recurso para minimizarmos os
problemas da convivência. Quando isso acontece não há necessidade do
perdão. Somente se recomenda o perdão para quem deseja libertar-se das
mágoas e ressentimentos acumulados no coração.
O espiritismo nos convida naturalmente, a cada momento, a um novo
olhar sobre as relações. Somos todos companheiros de jornada na Terra e
temos caminhos a percorrer para o aproveitamento de nossa reencarnação.
Por isso, podemos aproveitar cada nova situação no cotidiano da Casa
Espírita, para avaliar o teor de nossos sentimentos e comportamentos.
Kardec chamou nossa atenção para a o seguinte aspecto:

A caridade e a fraternidade - enfatiza o mestre - são


reconhecidas por suas obras e não por palavras. (...) é a
pedra de toque com a qual identificamos a sinceridade dos
sentimentos. E quando, em Espiritismo, se fala de
caridade, sabemos que não se trata apenas daquela dá,
mas também, e sobretudo, dá que esquece e perdoa, o que
é benevolente e indulgente que repudia todo sentimento de
inveja e de rancor. Toda reunião Espírita que não for
fundada no princípio da verdadeira caridade, será mais
nociva que a útil à causa, porque tenderá a dividir em vez
de reunir. (Citado por: WANTUIL, Zêus. Allan Kardec vol. II,
3ª Edição, Ed. FEB. p. 195)

Nós espíritas, temos o compromisso ético com a caridade que perdoa e


repudia todo e qualquer sentimento de rancor. A oração tem um papel
importante nesse processo, pois eleva o pensamento a níveis de serenidade,
permitindo sintonia com as frequências nobres da vida, abastecendo o
consciente e o inconsciente com conteúdos saudáveis.
Só podemos mudar, com naturalidade, aquilo que conseguimos ver
claramente nós. Todos, em maior ou menor grau, temos a predisposição para o
ressentimento. São estruturas antigas que habitam em nós. Reconhecê-las é o
primeiro passo. Quando nos sentimos "ofendidos", "injuriados",
"desestabilizadas na relação de poder", "menosprezados", "contrariados",
"diminuídas", etc., eis que essas estruturas emergem, carregando sentimentos
que, de alguma forma, pretendem a proteção do próprio ego.
Pode ser numa reunião de diretoria, num grupo de estudo da Doutrina,
durante um trabalho de passe ou na avaliação da reunião mediúnica, enfim,
nossas susceptibilidades não tem hora nem lugar para se mostrarem. O melhor
mesmo é evitar que elas criem raízes mais fortes. Existem técnicas que
podemos utilizar individualmente, em nossos momentos de oração.
Em lugar tranquilo de sua residência, inicie fazendo uma prece breve.
Logo após, mantendo um clima mental de serenidade, Imagine-se às margens
de um lago de águas cristalinas, emoldurado por majestoso jardim. Próximo ao
lago, uma árvore frondosa torna a paisagem ainda mais notável e acolhedora.
Sinta-se nessa paisagem. Visualize aquela pessoa com quem você tem algum
desafeto ou dificuldade de relacionamento. Alguém que você magoou, ou que o
tenha magoado. Aproxime-se dela, tente tocá-la fraternalmente. Diga-lhe que
não teve a intenção de magoá-la; peça-lhe perdão e perdoe-a por qualquer
atitude que lhe tenha desagradado. Perceba o rancor como uma algema, da
qual - agora - você se liberta. Sinta-se leve em paz! Viver é oportunidade de
conquistar-se a si mesmo. Somos responsáveis pelos sentimentos de mágoa
ou ressentimentos que vitalizamos em nosso mundo emocional.
Divergências produtivas

Com a fraternidade, filha da caridade, os homens


viverão em paz e se pouparão males inumeráveis que
nascem da discórdia, por sua vez, filha do orgulho, do
egoísmo, da ambição, da inveja e de todas as imperfeições
da humanidade.
Allan Kardec - Revista Espírita, dezembro de 1868.

Vivendo socialmente, não poderemos evitar os conflitos. Somos seres


que pensamos, temos vontade própria, temperamento, virtudes e vícios. Sim
somos seres humanos! O conflito é como uma Encruzilhada onde diversos
caminhos se cruzam, cada cal conduzindo a um determinado lugar. Ao chegar
nesse cruzamento, os viajantes precisam tomar decisões, escolher o melhor
caminho, etc.
Quantas vezes ouvimos, presenciamos ou fomos protagonistas num
conflito qualquer, um desentendimento sobre assuntos doutrinários ou
administrativos do Centro Espírita. Quantas vezes vamos à uma reunião
"armados" de argumentos e justificativas para defender uma determinada ideia.
Já assistimos discussões verdadeiramente acaloradas, muito agressivas, na
defesa do que se estava tratando, nos levando ao questionamento: estamos
realmente em um Centro Espírita?
Divergências são necessárias, porque representam as muitas formas de
se ver uma determinada questão. Mas as divergências devem estar sob o
controle da fraternidade. Quando isso não ocorre, abre-se o caminho para a
agressividade negativa. Esse é um contexto desfavorável para a Casa Espírita.
Os entrechoques de ideias não sinalizam, necessariamente, um conflito.
A dialética é fundamental em qualquer processo de conhecimento, onde
também haja espaço para se problematizaram o próprio objeto de estudo. É
nessa dinâmica, não dogmática, que se constrói a fé raciocinada.
Obviamente que esse processo lida, não só com ideias, mas também
com múltiplos sentimentos e disposições internas de cada um. Podemos inferir
que os condicionamentos milenares no egoísmo sedimentaram, no ser
humano, comportamentos de oposição e sectarismo, onde as divergências
passam a se manifestar como se as pessoas estivessem numa arena romana
e, necessariamente, tenha que existir vitoriosos e derrotados.
É prudente que, nos grupos espíritas, divergência seja sinônimo de
dinamismo na dilatação da criatividade, no aprofundamento de conhecimentos
e na melhoria dos trabalhos. Contudo, a força mediadora dessas divergências
será a força da fraternidade, para que o embate de ideias não tome o caminho
negativo. Allan Kardec, na Revista Espírita, novembro de 1858, quando aborda
a "Policlínica Espírita", tem o ensejo de afirmar: "Podemos pensar de modo
diverso sem, por isso, deixar de nos estimarmos. Afinal de contas, o que
buscamos todos nessa tão palpitante e fecunda questão do Espiritismo?"
Os grupos espíritas necessitam, com certa urgência, desenvolver
habilidades para transportar terreno negativo dos conflitos, divergência
saudáveis e produtivas por essa razão é imperativo a adoção de uma filosofia
de convivência à luz do Espiritismo. Tal filosofia deve levar em consideração a
necessidade do cultivo da amizade entre o grupo, pautada sobre os princípios
da disciplina emocional. Em muitos centros espíritas, os trabalhadores pouco
ou nada se conhecem. Transformam suas atividades numa rotina, entram
rápido e sai mais rápido ainda, sem dedicarem algum momento que seja para a
convivência mais informal com o grupo.
Foi possivelmente, pensando nisso que Kardec, no capítulo 20 de O
Livro dos Médiuns alertou: "As grandes assembleias excluem a intimidade, pela
variedade dos elementos de que se compõe". Há uma tendência de que grupos
grandes tenham dificuldades para manter essa intimidade da qual nos fala
Kardec. As amizades seriam reflexos dessa proximidade entre os
trabalhadores, onde possam compartilhar sentimentos, aspirações, dúvidas,
num ambiente de cordialidade e fraternidade.
Desenvolver habilidades para transformar conflitos em divergências
saudáveis exige, de cada servidor, humildade e empenho efetivo na vigilância
sobre si mesmo. Mas algumas atitudes também podem ajudar. Nunca permita
com que as divergências, sejam quais forem, passem para a esfera meramente
pessoal. Divergências devem permanecer no patamar dos argumentos, na
dialética das ideias. Nesse aspecto, argumentos bem fundamentados tendem a
receber anuência do grupo. Quem não tem argumentos, reage agressivamente,
defendendo suas posições no grito ou mantendo-se calado para depois criar
uma rede de intrigas.
Ao iniciarmos uma reunião em que as questões a serem tratadas
ensejarão possíveis divergências no grupo, uma dica interessante e começar
pelos aspectos conscienciais ou concordantes, para então tratar-se dos temas
conflitantes. Em um grupo onde se busca cultivar o amor, qualquer divergência
ou conflito deve adquirir sentido de crescimento espiritual para seus membros.
Apesar da divergência em grupo, o desafio será sempre individual, inerente à
consciência e ao grau de esforço que cada sujeito faça em "domar suas mas
inclinações".
A oração realizada nas Casas Espíritas não tem conotação de rito ou
mesmo de condicionamento. Trata-se de, pela prece, criar um maior nível de
sintonia tanto com os colaboradores invisíveis da instituição, como também
com os demais servidores encarnados, numa verdadeira associação da mente
e dos sentimentos, nutridos verdadeiramente para o bem.
Grupos com conflito podem crescer significativamente. A unidade de
pensamentos, nutrida por longo tempo, poderá abrir espaço para o radicalismo,
para o pensamento único, para as "verdades fechadas" e absolutas. A
divergência implica no dinamismo de pensamento, em novos olhares e
recortes, em franca oposição ao dogmatismo.
Quando os desacertos da convivência estão sobre a diligência do afeto,
da cordialidade e do respeito, tornam-se experiências produtivas, "saber
operante", conduta afetiva de alto valor ético-moral. Vive-se no grupo conforme
a essência do Espiritismo. Nenhum grupamento humano está tão capacitado
para tornar divergências produtivas, como o grupo dos que, na Terra, trabalho
para o florescimento de uma sociedade mais humana e fraterna sob a égide do
Cristo.
Portanto, o problema jamais será a divergência ou mesmo o conflito,
mas a forma como nós vivenciamos essas situações. Torna-se necessário em
nosso meio espírita, uma educação afetiva para a vida de relação no grupo
doutrinário. Muito investiu o Movimento Espírita no estudo e conhecimento da
Doutrina, e no seu aprofundamento teórico-metodológico. Sem jamais
abdicarmos dessa proposta, chegou a hora de investirmos profundamente,
também, na humanização das relações.
Cargos e funções

Agora que minha tarefa está terminada e que o


impulso foi dado, devo comunicar-vos a resolução que
tomei, de futuramente renunciar a qualquer tipo de função
na sociedade.
Allan Kardec - Discurso de encerramento do ano social
da S.P.E.E. de 1858 - 1859. - Revista Espírita, julho de 1859.

Não raro, nos defrontamos com servidores espíritas que se mantém


muito "presos" aos cargos que ocupam na sociedade, sejam na direção de
grupos, setores ou departamentos. O fato de ocupar um cargo qualquer,
deveria sempre ser visto como uma condição temporária, em face das
contingências do momento. Quando a diretoria do Centro Espírita muda, é justo
que os trabalhadores que ocupavam a direção de setores e departamentos,
coloque em seus "cargos" à disposição, sem mágoas. Tal procedimento faz
parte das agremiações.
Em O Livro dos Médiuns, capítulo 29, item 335, Allan Kardec afirma:
"Alguns julgam que o título de sócio lhes dá o direito de impor suas maneiras
de ver, daí, (...) uma causa de mal-estar que acarreta, cedo ou tarde, a
desunião e, depois, a dissolução". Percebe-se, nesse apontamento, dois
grandes adversários do servidor: o orgulho e a possessividade.
Outras vezes, no entanto, é o velho problema do personalismo,
vitalizado pelo orgulho, que determina posturas de "comando" ou "destaque"
como forma de projeção do Ego. Como o campo do aprendizado na doutrina
espírita é amplo, "testes dos cargos" é uma espécie de Termômetro da
humildade do servidor. No fundo, percebe-se o problema da imaturidade
psicológica do ser, que serve servindo-se, sem desejar compreender que, na
Seara do Bem, todos os postos de serviços são igualmente significantes.
E encargos fazem parte das Sociedades e, em si mesmos, não são o
problema. Representam formas de organização, disciplina e dinamização das
atividades. O problema está em águas mais profundas; na essência
temperamental de cada indivíduo ao aderir a seu posto temporário de serviço.
O diálogo fraterno e sincero, permeado de afeto mas sem as preocupações
neuróticas dos melindres, deve permitir aos servidores do bem a busca do
entendimento para essas questões, sem medos nem receios. Auxiliar os
companheiros de posição difícil é buscar, com cortesia e indulgência, o
caminho coerente do crescimento ético-espiritual do próprio grupo onde se
serve.
Se, no entanto, o trabalhador do bem se sentir ofendido, afastando-se
das demais atividades e, às vezes da própria instituição, sigamos em frente
sem crises emocionais ou sentimentos desnecessários de culpa. Cedo ou
tarde, a verdade sempre assume seu lugar! O Espiritismo orienta quem deseja
ser orientado, assim como a vivência no grupo espírita cria condições
educativas para as almas que já deliberam pelo aprendizado da humildade.
Torna-se imperativo, nos Centros Espíritas, um programa permanente
de revitalização do afeto no grupo, onde possamos verdadeiramente realizar,
juntos aos irmãos de ideal, a experiência de uma nova sociedade. Está na hora
de criarmos relações sem "máscaras", longe das idealizações de uma
onipotência imaginária. Para isso, certamente necessitamos reconhecer a
nossa humanidade, abandonando o pedestal da fortaleza interior, mas sem
deixar de perceber nossas capacidades divinas, nossas potencialidades e
possibilidades.
O aprendizado verdadeiro da Doutrina Espírita é garantia de novas
relações. O grande desafio do servidor espírita, nos tempos atuais, é
desenvolver efetivamente, o mais que puder, a humildade para perceber seus
limites e fraquezas, e a autodisciplina para identificar e fortalecer suas
capacidades. Humildade e autoestima são, portanto, investimentos na saúde
emocional e relacional, determinando uma postura de equilíbrio interior e bom
senso na convivência.
Ao ocupar funções na Casa Espírita, em qualquer posto de trabalho,
será sempre conveniente a troca de ideias com o grupo, o intercâmbio de
experiências, a tomada de decisões em conjunto, cultivando a responsabilidade
pessoal e dedicação diante das funções assumidas.
Evidentemente, há setores de trabalho com os quais melhor
sintonizamos e temos mais afinidades. Ninguém é obrigado estar onde não
deseja, a realizar o que não gosta. As aptidões individuais responderão pelo
tipo de serviço assumido. Como exigir que alguém, porque possua bom
conhecimento doutrinário, tenha que ser obrigatoriamente um expositor
espírita, se tal função não lhe agrada? Devemos respeitar as aptidões
individuais de cada servidor.
Allan Kardec, em Obras Póstumas, quando fala da Constituição do
Espiritismo, item III, refere-se ao cuidado que o grupo deve ter na escolha de
seus dirigentes.

É também de prever que, sob falsas aparências,


indivíduos haja que tentem apoderar-se do leme, com a
ideia preconcebida de fazerem soçobrar o navio,
desviando-o da sua rota. O navio não soçobrará, mas
poderia sofrer prejudiciais atrasos que se devem evitar.
São esses, sem contestação, os maiores escolhos de que
o Espiritismo precisa preservar se.
Muitos grupamentos espíritas, sob o pretexto de simples renovação,
"entregam" para verdadeiros neófitos o "leme" da instituição. É necessária
muita cautela! Não adianta renovar por renovar. Pessoas, às vezes bem
intencionadas, mas que não preenchem os qualificativos mínimos para a
função, podem conduzir, como inspiradamente advertiu Kardec, a Casa ao
"atraso", à inoperância ou, muitas vezes, ao "desvio de rumo".
Há ocorrências menos graves que, sob inspiração do momento, serão
dissolvidas com o concurso do tempo, evitando-se confrontos desnecessários.
Dessa forma, o trabalho na seara espírita representará, por seus diversos
matizes, oportunidade de crescimento para os indivíduos, sobretudo, quando o
trabalhador amadurece sua dinâmica relacional, tornando-a produtiva.
Mas, enquanto uns se apegam os cargos, outros "fogem" deles! Temos
em nossos grupos pessoas que se mantém alheias ao trabalho. Alguns se
acham incapazes de assumir tarefas, permanecendo somente nos estudos
doutrinários. Quem disse, no entanto, que todos tenham que ser
trabalhadores? Claro, muitas instituições convivem com a limitação no número
de seus voluntários gostariam de aumentar o quadro de seus trabalhadores
para melhor qualificar ou expandir suas atividades.
Enquanto isso, há pessoas que gostariam de trabalhar, mas falta-lhes
preparo para certas funções. Para outras, falta motivação. Outras, ainda, que
fizeram sua opção somente pelo estudo, em determinado momento poderão
mudar, sentindo naturalmente a necessidade de tornar-se um voluntário.
Os imperativos da vida contemporânea exigem, também dos Centros
Espíritas, adequação para melhorar sua funcionalidade. A falta de
trabalhadores, ou de servidores melhor preparados, torna necessária a
preocupação constante com os recursos humanos. Seja através de um
departamento específico ou de setores especializados nessa área, envolvidos
em motivar, incentivar, recrutar e oferecer cursos específicos para os novos
voluntários.
Mas isso requer o planejamento e a elaboração de um programa de
atuação bem definido, com ações claras e específicas, investimento no estudo
da doutrina e preparo dos monitores de grupos para identificar os estudantes
que demonstrem certas aptidões como boa vontade, responsabilidade,
equilíbrio pessoal e uma base de conhecimento doutrinário. A partir daí,
conversas periódicas com esses estudantes, motivando-os, sem imposição
nem constrangimento, para cursos específicos, operacionais, conforme
preconiza os instrumentos normativos da instituição.
Mas não basta simplesmente oferecer om curso e colocar o estudante
no trabalho. É fundamental um acompanhamento dos responsáveis pelos
setores onde esses novos trabalhadores passam a atuar; um acompanhamento
amigo e afetuoso dos responsáveis pelos recursos humanos do Centro, a fim
de demonstrar em apoio e acolhimento, de forma muito individualizada, aos
novos servidores.
Os cursos ou encontros para dar suportes aos novos voluntários
deverão contar com o conteúdo sobre relacionamento e convivência, de tal
forma que o sujeito perceba - desde o início - a importância do diálogo sincero
e cordial, empenhando-se por trabalhar em si os eventuais desencontros da
convivência. Deve estar claro para os iniciantes que a humildade será sua
principal ferramenta de trabalho, pois haverá situações em que o trabalhador
necessite ser alertado sobre algum procedimento equivocado. Tudo isso sem
"traumas" nem "neuroses". Quem não compreender isso desde o início já
demonstra não possuir o fundamental requisito para o trabalho na seara
espírita.
O espelho que nos reflete

A sinceridade todavia, mesmo em seus erros, tem


atitudes de franqueza com as quais não é possível
equivocar-se, e que a falsidade jamais simulará
completamente, por quanto, mais cedo ou mais tarde, deixa
cair a máscara.
Allan Kardec - Nova tática dos adversários do
Espiritismo - Revista Espírita, junho de 1865.

Tornam-se comuns em nosso meio encontros e palestras tratando sobre


a denominada "consciência espírita". Mas o que entendemos por "consciência"
é um estado de "lucidez psicológica", que se estrutura e se dilata, no geral,
muito gradativamente. Frases do tipo: "Queremos despertar uma consciência
maior no trabalhador espírita" são comuns entre dirigentes. Cada um, é certo,
possui um ritmo próprio de crescimento pessoal, sob os estímulos dos embates
íntimos mesmo com os avanços de uma "consciência espírita", não haverá
uma homogeneidade entre as criaturas. Cada sujeito é um "indivíduo",
portanto, é um ser "uno", "indivisível", portador de especialidades e
singularidades que lhe tipificam evolutivamente.
A rigor, pressupõe-se que os espíritas estudiosos e trabalhadores da
causa tenham adquirido o nível de lucidez ecológica mais ampla, diante das
questões da vida. Tal fato, no entanto, necessita ser relativizado, uma vez que
dependerá de cada pessoa, definir ou redefinir suas rotas comportamentais.
Nem todos os espíritos entendem a Doutrina da mesma forma, ou farão
dela o mesmo instrumento uniforme de rápida modificação de seus hábitos de
pensar e de viver. Allan Kardec compreendendo a complexidade doce
processo, em O Livro dos Espíritos, Conclusão VII, afirmou:

Fora presumir demais da natureza humana supor


que ela possa transformar-se de súbito, por efeito das
ideias espíritas. A ação que estas exercem não é
certamente idêntica, nem do mesmo grau, em todos os que
as professa. Mas, o resultado dessa ação, qualquer que
seja, ainda que extremamente fraco, representa sempre
uma melhora.

Na Viagem Espírita de 1862, quando trata das "Instruções particulares


dadas aos grupos em resposta a algumas das questões propostas", Kardec
volta ao assunto explicando: "De fato o Espiritismo tem realizado numerosos
milagres de reformas morais, mas apensar que essa transformação pudesse
ser súbita e universal seria desconhecer a Humanidade".
Se o conhecimento espírita oferece valiosas informações para auxiliar o
aperfeiçoamento dos indivíduos também é verdade que esse é um processo
pessoal, e que cada um possui seu ritmo próprio.
A alteridade consiste em respeitar a realidade do outro, buscando
compreender que cada um possui o direito de ser como lhe apraz. Daí fica a
pergunta: quem necessita desenvolver mais a "consciência espírita"? Os que
necessitam respeitar a realidade do outro? Ou, os que são vistos e analisados
por seus comportamentos, diferentes da maioria do grupo? Possivelmente
ambos.
Quando lidamos com essas questões, pensamos nos trabalhadores
espíritas que têm "pouca consciência", os que tem "mais", e assim por diante.
Mas, na maioria das vezes, não temos alcance para fazer um diagnóstico
preciso desta questão. Ficamos no campo das "representações". Nem sempre
os companheiros que representam possuírem mais consciência e lucidez
realmente, em sua intimidade, as têm.
Humanizar as relações no Centro Espírita é olhar para a incompletude
do outro, mantendo a fragrância da fraternidade. É a base para uma nova ética
da convivência, do respeito inter-humano. Usar padrões de avaliações
reducionista é, no mínimo, desconhecer o amplo universo mental e potencial do
Espírito.
Allan Kardec, na terceira parte de O Livro dos Espíritos, na questão 768,
ao tratar da Lei de Sociedade fez o seguinte comentário: "Homem nenhum
possui faculdades completas. Mediante a união social é que elas umas às
outras se completam, para lhe assegurar hein o bem-estar e o progresso".
Ninguém possui faculdades completas, pois estamos nas veredas do
progresso. A claridade ou lucidez da mente é a capacidade de se perceber
uma determinada realidade a partir de diversos ângulos, sem rigidez mental. A
conquista da lucidez é a conquista de nós próprios, através dos caminhos
sinuosos da evolução. Mas essa evolução é, também, compartilhada,
socializada. Cada um oferece somente o que possui, isso jamais deverá servir,
no entanto, de argumento para o trabalhador espírita fugir de melhoramento
interior.
Diríamos que a alteridade é uma extensão da relação que a pessoa tem
consigo. Quando convivemos bem conosco, nos relacionamos bem com os
outros. Quando trazemos conflitos na alma, e não desejamos vê-los ou aceitá-
los, movimentamos o mecanismo da projeção. Passamos a ver no outro o que
desejamos esconder em nós.
Em seu admirável poema intitulado: "Eu não sou você, Você não é eu",
educadora Madalena Freire nos conduz a uma valiosa incursão sobre nós
mesmos:
Eu não sou você
Você não é eu
Não sei muito de mim
Vivendo com você
E você, sabe muito de você vivendo comigo?

Eu não sou você


Você não é eu
Mas encontrei comigo e me vi
Enquanto olhava para você;

Na sua, minha insegurança


Na sua, minha desconfiança
Na sua, minha competição
Na sua, minha birra infantil
Na sua, minha omissão
Na sua, minha firmeza
Na sua, minha impaciência
Na sua, minha prepotência
Na sua, minha nudez aterrorizada

E você se encontrou e se viu, enquanto


Olhava para mim?

Eu não sou você


Você não é eu
Mas foi vivendo minha solidão
Que encontrei com você
E você, conversou comigo na sua solidão?
Ou fugiu dela, de mim e de você?

Eu não sou você


E você não é eu
Mas sou mais eu quando consigo
Lhe ver, porque você me reflete
No que eu ainda sou
No que já fui e
No que quero virar ser,

Eu não sou você


Você não é eu
Mas somos um grupo, em quanto
Somos capazes de, Diferentemente,
Eu ser eu, vivendo com você e
E você ser você, vivendo comigo.
Os outros são os "espelhos" que refletem a nossa "imagem psíquica".
Mas nem sempre temos coragem para reconhecer isso. O autoconhecimento é,
para nos servimos de uma analogia, um "parto psíquico", com seus sofrimentos
naturais, para que a vida interior possa florescer. O Espiritismo nos convida a
abandonarmos as máscaras das representações que internalizamos sobre nós,
das idealizações equivocadas que absorvemos como verdades.
Unificando sentimentos

Sem homogeneidade, não há reunião simpática


entre os sócios, não há relações afetuosas; sem união, não
há estabilidade; sem estabilidade, não há calma; sem
calma, não há trabalho sério. De onde concluímos que a
homogeneidade é o princípio vital de toda a sociedade ou
reunião espírita.
Allan Kardec - Sociedade Espírita, dita da caridade de Viana –
Áustria - Revista Espírita , Junho/1862.

Os ingentes esforços para a Unificação do Movimento Espírita são


louváveis e necessários. O espiritismo, apesar da universalidade dos assuntos
que aborda, possui identidade própria e bem definida. A convivência entre as
instituições espíritas, num intercâmbio de ideias, conhecimentos e práticas,
contribui, desde Kardec, para o aperfeiçoamento da difusão doutrinária.
Sabemos, no entanto, que nem sempre esse processo de Unificação entre os
espíritas, no que tange ao entendimento sobre as Obras Básicas, ou sobre as
práticas adotadas pelas instituições, é algo harmônico.
A observação de Allan Kardec, na epígrafe deste capítulo associa
obviamente os grupos aos indivíduos. Logo, as instituições são reflexos dos
seus dirigentes e trabalhadores, de sua visão doutrinária, de suas experiências
de vida, e de sua interação no movimento ou do isolacionismo alguns pensam
em "reformar o Espiritismo", enquanto outros buscam salvaguardar seus
princípios; há grupamentos que defendem uma ação mais assistencialista,
focando suas atividades no atendimento aos carentes, enquanto outros
compreendem que a proposta do Espiritismo é essencialmente educativa,
focando seus esforços nos estudos. Alguns "acham" que para "dar passes" é
necessário mil e uma gesticulação, todavia, outros entendem que o processo é
de fundo, e não de forma.
Como unificar o Movimento desse jeito? Ora, não devemos jamais
esquecer que o Espiritismo não propõe uma "uniformização" das atividades.
Estamos discutindo, isso sim, o problema da unificação, que é diferente.
Também o Espiritismo não trabalha com questões fechadas, dogmáticas, pois
permite aos seus adeptos o livre pensamento, a análise e a tomada de postura.
Os desentendimentos de interpretação sobre os pontos doutrinários
devem-se, na maioria dos casos, ao fato de uma das partes desconhecer o
assunto mais profundamente, agindo com temperamento forte. Acirram-se as
discussões que ultrapassam as fronteiras do conhecimento e do bom senso,
partindo-se para um desconforto pessoal.
Os grupos se dividem, e muitos se isolam, na tentativa de perseverarem
suas ideias e práticas. Criam-se ressentimentos entre Sociedades, tendo por
"pano de fundo" o desentendimento entre os próprios espíritas. Se o
conhecimento não os une, será que o amor poderá fazê-lo? No "Projeto de
Regulamento para uso dos Grupos e Pequenas Sociedades Espíritas", Allan
Kardec escreveu:

Os diversos Grupos ou Sociedades de uma mesma


cidade, constituídos espontaneamente ou nascidos de uma
fonte comum, tendo os mesmos princípios e caminhando
para o mesmo objetivo, devem manter laços de simpatia e
de fraternidade entre si.

Vejamos que Kardec, chama atenção para os "laços de simpatia e de


fraternidade" entre as instituições espíritas, ou seja, poderíamos dizer que
Kardec enfatiza uma Unificação dos Sentimentos. A rigor a, não basta possuir
amplos conhecimentos doutrinários se isso em nada serve para orientar o
processo da convivência entre os grupos.
A fraternidade, destacada inúmeras vezes por Kardec, é um princípio de
civilidade que, associada ao contexto doutrinário do Espiritismo, torna-se um
novo paradigma para a convivência inter-humana. Ora, já não basta
simplesmente nos respeitarmos; é imperioso construirmos relacionamentos
repletos de fraternidade. Com fraternidade, as diferenças e divergências entre
os grupos serão conduzidas de forma pacífica e natural, sem os terríveis
embates emotivos permeados de personalismos.
Portanto, o grande desafio do Movimento Espírita, no século XXI, é a
unificação em torno dos sentimentos afirmativos do Bem. A frase de Jesus
ressalta que seus seguidores se tornariam conhecidos, justamente, por "muito
se amarem" inaugura uma nova filosofia da convivência, muito mais pragmática
e necessária.
Em sua viagem de 1860, quando Kardec é acolhido pelos espíritas em
Lyon, tem o ensejo de afirmar:

Cabe a nós, aos verdadeiros espíritas, aos que


veem no espiritismo algo além de experiências mais ou
menos curiosas, fazê-lo compreendido e espalhado, tanto
pregando pelo exemplo, quanto pela palavra.

Note-se que Kardec refere-se à divulgação do Espiritismo,


primeiramente pelo "exemplo" e, em seguida, acrescenta também "pela
palavra". Ocorre que estamos vivendo, em termos de sociedade humana, um
esvaziar de sentimentos. O mundo das relações se debate com: o culto da
autoimagem, a busca por satisfações imediatas como um único ideal, a ruptura
com os valores mais profundos da vida, o culto da intolerância, a fragilização
do afeto, o consumismo como filosofia de vida.
Tudo isso, é algo que estamos vivendo coletivamente, mesmo muitas
vezes sem o perceber. Vive-se, portanto, um esvaziamento do sujeito, uma
nadificação que faz surgir um sentimento de angústia e de impotência que, aos
poucos, vai permeando e envolvendo a sociedade humana. Isso é resultado,
em boa parte de um processo histórico-espiritual de artificialismo religioso.
Nossos problemas coletivos manifestam, também, nossos dramas pessoais,
não suficientemente resolvidos ao longo de nossa jornada evolutiva: a nossa
ânsia por auto-afirmação através da manifestação do orgulho, e das demais
representações limitadas que construímos sobre a vida.
Esses problemas evidenciam a necessidade de um "renascer do
sujeito", imprimindo uma nova dinâmica nas relações institucionais. O
Movimento Espírita possui as ferramentas necessárias para assumir a
vanguarda desse processo. Basta que cada um de nós se empenhe, com
vontade e perseverança, nessa espiritualização das relações, trabalhando
nossas diferenças individuais e institucionais com base na cosmovisão espírita.
Evasão dos estudos

Entre os adeptos convictos, não há deserções, na


lídima acepção do termo, visto como aquele que
desertasse por motivo de interesse ou qualquer outro,
nunca teria sido sinceramente espírita.
Allan Kardec - Os desertores - Obras Póstumas, 1ª parte.

Um problema que também faz parte das Sociedades Espíritas é evasão


dos estudos. Muitas pessoas inscrevem-se para os estudos doutrinários,
passam a frequentar os grupos que iniciam repletos de participantes, mas, com
o tempo já começam as desistências, o esvaziamento. Não há uma única
causa para explicar tal ocorrência. Existem múltiplas possibilidades que podem
ser analisadas, isoladas ou conjuntamente. Identificamos algumas:

A. Falta de perseverança do participante, como reflexo de seu insipiente


contato com a doutrina;
B. Falta de informação sobre os propósitos e finalidades do estudo;
C. Excesso de entusiasmo do Estudante;
D. Conflitos intragrupais como reflexo dos problemas da convivência;
E. Fragilidade da disciplina e determinação do Estudante;
F. Carência de uma dinâmica Operativa, que permita mais motivação e
produtividade nos estudos;
G. Falta de preparo do facilitador;
H. Falta de organização da estrutura de estudo na sociedade;
I. Outras...

Kardec esclareceu na Revista Espírita de janeiro/1860, no texto: "O


Espiritismo em 1860", que:

... a principal fonte do progresso dos ideais espíritas


está na satisfação que proporcionam a todos que as
aprofundam, e que nelas veem algo mais do que um
simples passatempo. Ora, como antes de tudo todos
querem a felicidade, não é de admirar que se liguem a uma
ideia que os torna felizes. Dissemos em algum lugar que,
em se tratando de Espiritismo, o período da curiosidade
passou, dando lugar ao da razão e ao da filosofia. A
curiosidade tem tempo certo: uma vez satisfeita, muda-se o
objetivo por um outro. Já não se dá a mesma coisa com
quem se dirige ao pensamento sério e à razão.

No texto acima, percebemos a diferença feita por Kardec entre aqueles


que buscam o Espiritismo motivados pela superficialidade e curiosidade,
acreditando que num breve contato conquistarão sem maiores esforços a
felicidade, e aqueles que veem nele realmente algo mais profundo, sobretudo,
sobre o aspecto do conhecimento renovador. Esses últimos, normalmente, são
os que permanecem.
Portanto, o estudo espírita é uma proposta pessoal que exige disciplina
aliada a uma boa dose de vontade e dedicação. É através dele que a
convicção é cuidadosamente construída, sendo talhada e moldada na reflexão
e na leitura dos textos clássicos. Mas o estudo em grupo se diferencia,
justamente, por oportunizar esse intercâmbio de ideias, de leitura e
experiências entre as pessoas.
Allan Kardec, alertou para um aspecto que está no núcleo das
deserções, ou seja, o indivíduo que se interessa seriamente pelos estudos, e
permanece no grupo, é alguém que intrinsecamente já possui o Espiritismo no
foro íntimo. O Espiritismo já havia adentrado nele antes mesmo de começar a
estudá-lo. Normalmente, são pessoas discretas, sem serem exageradamente
entusiastas. Kardec asseverou ainda que: "Por princípio deve-se desconfiar
dos entusiasmos demasiados febris, são quase sempre fogo de palha ou
simulacros, ardores ocasionais...". Esta observação está em Obras Póstumas,
1ª Parte, quando trata dos Desertores.
Nada deve ser exagerado, nem mesmo o entusiasmo pela Doutrina. O
excessivo entusiasmo encobre, no fundo, uma insegurança quanto ao que se
está defendendo. Uma atitude de equilíbrio sempre caracterizará o estudante
com mais chances de permanência. Todavia, não podemos ignorar que muitas
pessoas chegam aos grupos de estudo com visíveis desequilíbrios na área
emocional, e outras, ainda, agregando componentes mediúnicos e obsessivos.
Muitas pessoas, com perspectivas pouco realistas, imaginam encontrar
no estudo sistematizado uma formula inexorável para, rapidamente,
transformar suas vidas, resolver seus sofrimentos, apegadas - atavicamente - a
um imaginário salvacionista. Quando percebem que o Espiritismo percorre
caminhos mais profundos, e nem sempre tão imediatos, ficam desoladas.
Obviamente, nossos grupos de estudos iniciais, e mesmo os
sistematizados, estão passíveis a isso. O ideal seria que a pessoa com
problemas emocionais mais sérios e desequilíbrios mediúnicos, ou de outra
natureza, passasse antes por uma fase de assistência espiritual com o devido
acompanhamento para, numa outra etapa, se ela assim desejar, iniciar seus
estudos.
Mas, como existem pessoas que trazem para o grupo as chamadas
"forças positivas", conhecimentos, atitudes agregadoras, motivação, etc.,
também existem pessoas que trazem elementos perturbadores. Veja o caso
daquela pessoa que "fala demais": quer ter voz ativa sempre, normalmente,
através de posicionamentos fortes e, às vezes, intransigentes. Pessoas assim,
não se abrem para as contribuições do grupo, pois estão enclausuradas em si
mesmas. Muitas carregam uma verdadeira compulsão por falar.
O problema é que essas pessoas podem tolher a expressão e a
paciência dos demais integrantes do grupo. São assim? E o grupo, não deve
ter paciência com elas? Ora, nem todos os participantes de um grupo de
estudo, principalmente no início, estão assim tão evangelizados. Mas devemos
considerar, também, que não há estudo que resista com uma ou mais pessoas
inconvenientemente interrompendo. A convivência entre os membros de um
grupo de estudo exige uma coordenação eficaz.
Um estudo democrático não implica, em nenhum momento,
desorganização ou falta de civilidade. Por isso, a atuação do facilitador ou
coordenador do grupo, não está restrita somente ao conhecimento doutrinário
ou ao preparo pedagógico, mas deverá abranger o delicado campo das
relações humanas. Se o coordenador permitir que alguém do grupo se
delongue em observações, interrompendo a cada momento, estará
negligenciando sua função. Dentro em breve perderá autoridade funcional.
O grupo de estudo é uma microssociedade inserida na dimensão mais
ampla da Sociedade Espírita. Ao facilitador cabe o exercício de administrar
conflitos que possam surgir nos encontros, empenhando esforços na união dos
participantes, na integração de ideias e na orientação para a vivência de uma
filosofia espírita da convivência.
Por outro lado, o estudante espírita necessita vivenciar situações onde
possa experimentar a aplicabilidade dos princípios éticos da Doutrina. Nada
melhor do que um grupo de estudos, onde o clima espiritual é bastante
favorável à experiência da convivialidade superior, onde os elementos nobres
possam ser ressaltados diante dos eventuais conflitos e desentendimentos.
O grupo de facilitadores da Sociedade deve se reunir com certa
periodicidade para compartilhar experiências, trocar ideias e refletir sobre
eventuais problemas que possam estar surgindo em um outro grupo, para isso,
no entanto, espera-se que os próprios facilitadores cultivem entre si um clima
de fraternidade e entendimento que facilite a integração de todos.
Há fatores, identificados, relacionados à evasão de estudantes que
fogem ao controle da Instituição. Todavia, os responsáveis diretos pelo estudo
da Casa deverão se empenhar para que os aspectos doutrinários, operacionais
e relacionais possam ser o mais qualificados possível. De outro lado, o
Espiritismo não faz proselitismo, e, portanto, o ato de permanecer no estudo
deve ser sempre algo voluntário, individual, de foro íntimo. De tal forma que,
quando alguém decide por abandonar os estudos, compreendamos que cada
um tem o direito de fazer naturalmente suas opções.
A grande sabedoria é buscar viver bem. Por isso, julgamos oportuno que
os dirigentes espíritas se preocupem mais com a qualidade dos ensinos
ministrados no Centro do que com a quantidade dos estudantes.
Construindo convicção

... quando prescrevemos o estudo e a meditação,


pedimos o concurso da razão, assim aprovando que a
ciência espírita não teme exame, uma vez que, antes de
crer, há necessidade de compreender.
Allan Kardec.
Discurso na S.P.E.E. por Ocasião da Renovação do
Ano Social de 1861. Revista Espírita - maio de 1861.

O estudo do Espiritismo, diferentemente de alguns anos atrás, é hoje


uma realidade significativamente consolidada no Movimento Espírita Brasileiro.
Todavia, ainda necessitamos prospectar seus ensinos, de tal forma, que a fé
raciocinada seja realmente um elemento estruturador da convicção e da
vivência. Certo, a Doutrina é uma religião (1), mas também é uma filosofia e
uma ciência. O diálogo permanente entre essas áreas do conhecimento jamais
deverá ser negligenciado nos estudos que se propõe, realmente, ao
entendimento das leis da vida, no âmbito de nosso limite epistemológico.
O Espiritismo não é uma suposição metafísica de Kardec. A cada dia,
avolumam-se pesquisas, inclusive no meio acadêmico, que evidenciam a tese
Espírita da imortalidade e comunicabilidade dos espíritos. O Espiritismo possui
base teórica sustentável academicamente, portanto, o que nos resta é
realmente o estudo adequado da doutrina, com lógica e racionalidade, como
bem observou o Kardec.
Muitas divergências doutrinárias, saudáveis quando permanecem no
campo das ideias e da construção do conhecimento, tornam-se negativas
quando viram - inadvertidamente, conflitos improdutivos. Grande parte destes
conflitos ocorre pelo desconhecimento, de uma ou ambas as partes, do objeto
em questão, neste caso, o próprio Espiritismo.
Desvendar os intrigantes mistérios da origem e destinação, da morte,
das contingências da vida e do sofrimento, mas também do caminho para a
felicidade, sempre foram as grandes inquietações do Espírito. Passamos
milênios até desenvolvermos condições psicológicas e intelectuais que nos
permitisse um aprofundamento sobre essas tantas questões.
Por sua vez, Allan Kardec articulou de forma inteligente o conhecimento
entre áreas, tantas vezes conflitantes, como: religião, ciência e filosofia. Para
Dora Incontri, em seu livro Para Entender Allan Kardec: "A revolução mais
original que Kardec promoveu foi no conhecimento humano - ou seja, uma
revolução gnosseológica" (p. 108). Detalhando ainda que:
Kardec propôs uma forma de conhecer integrada de
todas as áreas, sem o conflito entre ciência e religião, sem
o subjugação da filosofia, sem a exclusão de nenhum
instrumental possível que se debruça sobre o homem e o
universo (p.109)

Essa é uma questão fundamental, pois evidencia o caráter progressista


do conhecimento espírita, sem dogmatismo, mas comprometido com a
estruturação racional do conhecimento, sem torná-lo frio ou insensível ao
sentimento. Tudo isso passa a ter impacto na convivência humana, na medida
em que situa o sujeito não mais como "vítima da vida", mas como responsável
direto pela qualidade de suas vivências.
O conhecimento que a Doutrina nos apresenta, portanto, é passível de
pesquisa, análise, reflexão, comparação... São esses instrumentais que irão
construir, com o tempo, a chamada "fé raciocinada". Esse é um caminho que
exige, no mínimo, dedicação, paciência, esforço e perseverança Como a
cultura brasileira, historicamente, está muito voltada para um imaginário
paternalista, de obter as coisas com facilidade, pouco esforço, etc, há uma
forma natural das pessoas verem, na Doutrina Espírita, mais uma religião que,
obviamente tem a missão de resolver seus problemas. "Que os espíritos
resolvam os meus problemas, enquanto eu sigo minha rotina de vida". Muitas
vezes, certas instituições espíritas terminam contribuindo para fixar ou
alimentar esse imaginário.
Com isso, algumas pessoas terminam não compreendendo ou
absorvendo adequadamente o Espiritismo, mesmo quando se tornam adeptas
e trabalhadoras de alguma Sociedade. O Espírita não é aquele que acredita na
reencarnação e na existência do Espírito, mas aquele que se reconhece um ser
antigo, imortal e comprometido com sua evolução ética diante dos contingentes
da vida. O conhecimento espírita distante do imaginário místico, deve, quando
bem elaborado, conduzir o indivíduo a isso.
Cada espírita deve possuir uma autocrítica, sem enveredar para os
caminhos da culpa corrosiva ou da baixa autoestima. Que cada um busque
compreender a si mesmo, exercendo o perdão e o autoperdão com a devida
responsabilidade pessoal. O conhecimento espírita não é para que nos
tornemos "juízes dos outros", nem intolerantes com nossos próprios limites.
No centro de toda essa problemática, desejamos situar o processo de
estruturação da "convicção", suporte indispensável do trabalhador espírita.
Quando o sujeito desenvolve convicção no Espiritismo dificilmente irá
abandoná-lo. Kardec considerou em Obras Póstumas, 1ª Parte, sobre os
desertores: "Entre os adeptos convictos, não há deserção, na lidima acepção
do termo, visto como aquele que desertasse por motivo de interesse ou
qualquer outro, nunca teria sido sinceramente espírita".
Allan Kardec, em seu discurso na Sociedade Parisiense de Estudos
Espíritas, por ocasião da renovação do ano social de 1861, constante na
Revista Espírita de maio de 1861, assim se pronunciou: "... A verdadeira
convicção só se adquire pelo estudo, pela reflexão e por uma absorção
continua, e não assistindo a uma e outra sessão, por mais interessante que
sejam".
Vejamos, então, os pontos destacados por Kardec na construção da
convicção:

a) Estudo
b) Reflexão
c) Observação continua

A construção da convicção está associada às operações intelectivas


pertinentes ao estudo, reflexão e análise dos ensinamentos espíritas em
associação com os fatos da vida. Portanto, está vinculada ao trabalho que o
sujeito faça para se aproximar daquilo que chamamos de "verdade". Essas
operações psíquicas são mais elaboradas e suplantam os processos
simplificados de aceitação, como o caso da "crença". Por outro lado, não
podemos dissociar a "convicção espírita" de certo nível mais dilatado da
consciência individual.
A convicção é um suporte teórico para as gradativas mudanças
comportamentais. Ninguém muda se não estiver convicto de que essas
mudanças são realmente necessárias. Diante disso, o estudo Espírita não deve
se restringir a um mero agente informativo. Deve criar, a partir da informação,
elementos ativos de reflexão e análise que provoquem no estudante essas
elaborações mais complexas.

Nota
(1) Sobre o sentido de religiosidade espírita, diz Kardec:

"[...] o espiritismo é, assim, uma religião? Sim, sem dúvida, senhores: no sentido
filosófico o Espiritismo é uma religião, e disso nos honramos, pois que é a
doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos
não em uma simples convenção, mas sobre a mais sólida das bases: as próprias
leis da Natureza". (Revista Espírita, dezembro de 1868)

"o Espiritismo é uma doutrina filosófica de efeitos religiosos, como qualquer


filosofia espiritualista, pelo que forçosamente vai ter às bases fundamentais de
todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas, não é uma religião
constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos e que, entre seus
adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote ou de sumo-
sacerdote. Estes qualificativos são de pura invenção da crítica". (Ligeira
Resposta aos Detratores do Espiritismo - Obras Póstumas, 318)
A espiritualidade dos espíritas

O homem, que trabalha seriamente em seu


melhoramento, assegura sua felicidade desde esta vida;
além da satisfação da sua consciência, está livre das
misérias materiais e morais que são as consequências
forçadas de suas imperfeições. Terá calma, porque as
vicissitudes não o afetarão senão de leve; terá saúde,
porque não esgotará o corpo com excessos; terá a paz da
alma, porque não terá necessidades impossíveis; não será
atormentado pela sede de honras e do supérfluo, pela febre
de ambição e da inveja e do ciúme.
Allan Kardec - Credo Espírita. Obras Póstumas. 14ª Ed. São
Paulo: LAKE, 2007. Pág. 309.

O que é espiritualidade?
Para muitos, "espiritualidade" é a vida no mundo espiritual. Todavia, não
é esse o sentido que desejamos atribuir à palavra. Diante da incompletude
humana o termo "espiritualidade" refere-se a um processo de mudança interior.
Mas não é qualquer mudança! Trata-se de um melhoramento dos sentimentos
humanos, um alargamento dos potenciais capazes de tornar os indivíduos mais
sensíveis ao bem e ao amor.
O tema está associado à forma como o ser humano poderá administrar
seus estados mentais, na intenção do equilíbrio psicológico e emocional,
decorrentes de uma convicção de que podemos ser melhores. A mudança é
fruto dessa convicção pessoal. Espiritualidade é, portanto, tudo aquilo que
desenvolvemos internamente, e nos completam o Espírito e nos permite paz na
alma. Significa, portanto, afirmar que espiritualidade se refere a um
aprimoramento dos conteúdos de natureza subjetiva do sujeito.
A piedade, ao invés da cólera, a indulgência, ao invés da intemperança,
pois o progresso individual, como alertou Kardec, não consiste somente no
desenvolvimento da inteligência, na aquisição de alguns conhecimentos sobre
a vida no mundo espiritual. Para o Espiritismo, progresso consiste,
principalmente, no melhoramento moral, no progresso que nos conduz sempre
ao bem.
Pessoas espiritualizadas são aquelas que, entre outras coisas,
aprendem a administrar a sede de consumo, a febre da ambição, a inveja, o
ciúme, orgulho, o egoísmo e a intolerância, tornando-se referenciais de
benevolência e de equilíbrio espiritual. A conquista da espiritualidade, indica
Kardec, é também a conquista da calma.
A espiritualidade é construída não no isolamento pessoal, mas no
intercâmbio da vida relacional. Não devemos ignorar que estamos em contato
com o Espiritismo, justamente, para esse fim precípuo. O homem elevado
intelectualmente, poderá ainda fazer muito mal, mas o que é elevado
moralmente, apesar de não ter atingido as culminâncias evolutivas estará
compromissado com a prática do bem. O progresso pessoal tem um fim, uma
utilidade efetiva, com reflexos na vida social. Por isso, asseverou Kardec, em
Obras Póstumas, ao escrever sobre o Credo Espírita: "Vivam os homens
animados destes sentimentos e serão tão felizes quanto você pode na Terra".
E nós, espíritas, estamos compromissados com nossa espiritualidade?
Vivemos dentro das instituições, trabalhamos doando um pouco de nosso
tempo para transmitir consolo e esclarecimentos aos outros. Mas estamos nós,
nos abastecendo de tudo isso que levamos aos outros? Estamos
administrando evangelicamente, nossas mágoas? Estamos perdoando
possíveis ofensas e ofensores? Transmitimos paz e segurança com nossa
presença, ou geramos discórdia e instabilidade no grupo?
Certo, somos espíritas, mas antes de tudo somos humanos! Todavia,
qual a aplicação segura que temos feito do Espiritismo em nossas vidas? Por
exemplo: quando nos indispomos com alguém no grupamento espírita, como
administramos isto em nós? O que a Doutrina nos orienta nessa situação, nós
aplicamos na prática ou assumimos outras atitudes já convencionados pelo
mundo?
Na questão 905 de O Livro dos Espíritos, estudamos que a moral sem
as ações é o mesmo que a semente sem o trabalho. De que serve a semente,
se não a fazemos dar frutos? A convivência na Casa Espírita deve se nutrir dos
frutos da Doutrina, e isso somente é possível com a espiritualização dos
dirigentes e trabalhadores espíritas. O princípio é simples, cumpre-nos o
esforço por praticarmos o que oferecemos aos outros. Por isso, a qualidade da
convivência, entre nós, deve poutar-se num clima de muita fraternidade e
respeito. Mas, para isso, a chave do progresso moral é o conhecimento de si
mesmo. A base desse raciocínio foi apresentada por Santo Agostinho, na
questão 919 de O Livro dos Espíritos. E nos orienta sobre o princípio do
melhoramento pessoal: "Quando estiver indeciso sobre o valor de uma de
vossas ações, inquiri como a qualificaríeis, se praticada por outra pessoa".
Créditos da imagem: Hostílio Ferreira

A calma e a serenidade são atitudes que denotam equilíbrio da alma,


principalmente, diante de situações tumultuados, diante dos desacordos, dos
conflitos de opiniões e das animosidades que surgem no cotidiano das
instituições. Comportamentos irritadiços, apego ao poder, malquerenças,
congelam a fraternidade, distanciam os corações e promovem insensatez. O
cultivo da calma e da serenidade amplifica o potencial da paz em nossas
mentes e ações.
Com o esquema a seguir, buscamos evidenciar a relação entre
Espiritismo e espiritualidade.
Apesar de não estar diretamente relacionado com o tema da convivência
na Casa Espírita, desejamos narrar um exemplo de relação entre Espiritismo e
espiritualidade. Uma querida amiga, estudante e trabalhadora de uma
Instituição Espírita, viajou para visitar seu filho em Porto Alegre. Preparava-se
para comemorar, no dia seguinte, seu aniversário, pois ele completaria 18
anos. Era um jovem maravilhoso, dedicado aos estudos, havia passado no
vestibular na Universidade. Um filho carinhoso, saudável e com um forte laço
familiar. O que mais os pais poderiam desejar? Ao chegar ao apartamento,
mãe e filhos decidiram ir ao mercado fazer compras. Ele morava no 6º andar
do prédio e, como também era atleta, costumava subir pelas escadas sem usar
o elevador. Naquele dia, como elevador não estava funcionando, tiveram que
obrigatoriamente usar a escada. Quando chegou ao meio do caminho o jovem
começou a sentir-se mal, a mãe subiu até o apartamento, trouxe um copo de
água, chamou os paramédicos, mas ao retornar o filho querido já estava em
situação bastante crítica. Descansou praticamente em seus braços. No dia
seguinte, dia em que o jovem completaria 18 anos, foi o seu velório. Alguém
poderia imaginar a dor desses pais?
Apesar do sofrimento emocional, havia no íntimo dessa mãe uma força
extraordinária, robusta, que lhe permitiu manter-se equilibrada. Ela nos
informou que essa força provinha do esclarecimento haurido, durante anos, no
estudo do Espiritismo. O exemplo de sua postura, numa situação tão
desafiadora, não deixa dúvidas sobre a sinceridade de suas convicções.
Espiritualidade é essa capacidade de desenvolver amplitude sobre a
vida e, ao mesmo tempo, mergulhar para dentro de si mesmo. Na convivência,
por exemplo, o reconciliar-se com os adversários externos deve partir da
reconciliação com os adversários internos. Precisamos reconhecer os nossos
limites, próprios de nossa incompletude, e, ao mesmo tempo, identificar nossas
possibilidades de crescimento. Com isso, buscamos um equilíbrio entre nossas
estruturas internas, entre o "tubarão" e o "golfinho". O "tubarão",
simbolicamente, representa as estruturas ancestrais, instintivas, agressivas e o
impulso das paixões, enquanto o "golfinho" traduz as conquistas nobres do
"eu": as virtudes.
A relação de equilíbrio que podemos ter com essas estruturas internas,
refletirá na relação de equilíbrio que teremos no campo da convivência. Esse
"equilíbrio" representará o princípio da coerência, isto é, nem prepotência, nem
baixa autoestima. Uma atitude saudável perante nós mesmos reduzirá os
conflitos e os transtornos no campo social.
Allan Kardec, em Obras Póstumas, quando trata sobre os desertores,
nos oferece um roteiro valioso para pensarmos o caminho da espiritualidade:

Quando nos enganamos, não temos obstinado


amor-próprio de sustentar o que verificamos ser falso; mas
há princípios, sobre os quais não podem haver engano: o
amor do bem, a abnegação, a renúncia aos sentimentos de
inveja e ciúme. Estes princípios são os nossos, porque
neles vemos o laço que deve unir todos os homens de
bem, qualquer que seja a divergência das suas opiniões.

Temos no Espiritismo um verdadeiro tratado para o melhoramento


espiritual do ser. Entretanto, expositores que, com seu verbo iluminado,
sensibilizam o público para a vivência do amor, deslizam na impaciência em
sua vida cotidiana. Trabalhadores que dedicam-se aos passes, transmitindo
energia renovadoras aos enfraquecidos do corpo e da alma, tombam nos
ataques verbais, quando, por um simples olhar, sentem-se ofendidos.
Dirigentes espíritas, valorosos e dedicados administradores do patrimônio
doutrinário e material, deixam-se seduzir pela invigilância pessoal, assumindo
atitudes de prepotência e arrogância. Médiuns, valiosos canais de consolação,
dedicados ao trabalho anônimo, perdem-se no pântano dos ressentimentos,
dentro e fora da instituição espírita.
Nesse momento grave, na vida de todos nós, necessitamos da oração e
da vigilância redobrada, pois vivemos horas de testemunhos daquilo que já
conquistamos no plano dos valores, e de estímulos ao melhoramento continuo,
dinâmica inexorável do progresso.
Promoção da convivência

Os bons espíritos que vos assistem vos dizem todos


os dias as mesmas coisas, mas julguei um dever
apresentá-los em conjunto, para melhor ressaltar as suas
consequências. Venho, pois, em nome deles, lembrar-vos a
prática da grande lei de amor e de fraternidade que em
breve deverá reger o mundo e nele fazer reinarem a paz e
a concordância sob o estandarte da caridade para com
todos...
Allan Kardec.
I - Discursos Pronunciados nas
Reuniões Gerais dos Espíritas de Lyon
e Bordeaux. Viagem Espírita de 1862.

Todos almejam uma revolução na convivência humana. Já não podemos


mais assistir, rotineiramente, cenas de agressividade e intolerância envolvendo
os diversos setores da sociedade. O novo milênio aponta para uma crescente
complexidade das relações humanas. Obcecados pelo pragmatismo da vida
contemporânea o ser humano vive a vulnerabilidade dos sentimentos éticos,
formadores de uma cultura da paz. A vida moderna exige com que tudo seja
rápido, instantâneo, condicionando os indivíduos à impaciência e à angústia
diante das situações cotidianas.
Em uma notável reflexão sobre a vida atual, Dalai Lama, em seu livro
Uma ética para o novo milênio, assim se expressou:

A meu ver, criamos uma sociedade em que as


pessoas acham cada vez mais difícil demonstrar um
mínimo de afeto aos outros. Em vez da noção de
comunidade e da sensação de fazer parte de um grupo,
(...) encontramos um alto grau de solidão e perda de laços
afetivos.

A complexidade do mundo moderno, inexoravelmente, tem contribuindo,


com sua racionalidade e técnica, para aumentar a frieza da convivência. Isso é
quase automático, assim nos permitimos conduzir, desqualificando a
fraternidade, a paciência e a compreensão na família e no entorno social.
Convivências mal conduzidas, insatisfações psicológicas e emocionais,
determinam uma fuga para os medicamentos, na expectativa de neles
encontrar o elixir milagroso para uma nova vida.
Em uma de suas primeiras viagens ao ocidente, Dalai Lama conta que
ficou hospedados na residência de uma família muito abastada, que
gentilmente o acolheu. Havia muitos empregados na casa, todos atendiam com
gentileza, e isso, por um determinado tempo, com que ele pensasse que a
felicidade poderia estar, realmente, naquela condição de abastança material.
Ali poderia estar a "prova". Entretanto para sua surpresa, ao passar por um
banheiro, percebeu através da porta entreaberta do armário, uma quantidade
expressiva de medicamentos, tranquilizantes e remédios para dormir. Ele conta
que, a partir daí, passou a pensar que existe uma grande diferença entre os
sinais exteriores e a realidade interior.
Vivemos nesse paradoxo. Sabemos que o caminho para um nível de
completude civilizatória e espiritual passa pela experiência de construirmos
uma sociedade mais humana. O próprio Freud, em seu escrito sobre O Mal-
estar da Civilização admitiu que é um dos maiores preceitos de nossa
civilização é a assertiva cristã : "amar ao próximo como a si mesmo". Mas
esse, também tem sido um dos grandes dilemas humanos. O sociólogo
Zygmunt Bauman em seu livro intitulado Amor Líquido, chegou a refletir sobre a
"dificuldade de amar ao próximo". Ora, se esse é um preceito fundamental
onde está a sua dificuldade?
A grande indagação do ser humano, a partir do cristianismo, foi: "por que
devo fazer isso?" As religiões ortodoxas formadoras de nossa mentalidade,
instituíram o "amor ao próximo" como um princípio moralista de subserviência a
Deus, para atrair sua atenção para nós, míseros humanos. Amar ao próximo
tornou-se um bom argumento para barganharmos com Deus uma
compensação, afinal, tudo isso é muito difícil. Mas, no geral, como Deus não
faz barganha, nos decepcionamos e percebemos a inutilidade de amar ao
outro. A civilização chegou, com sua técnica, e nos prometeu que, com a
ciência, nossos sofrimentos seriam atenuados, teríamos mais conforto, quem
sabe até, a juventude permanente.
O desconcerto religioso e o pragmatismo humano, no eclodir da
modernidade, afastaram de nós o interesse por "amar ao próximo". Passamos
a viver em sociedade mais por necessidade do que por prazer. A busca do
prazer nos levou, significa ativamente, para uma vida individualizada,
permeada de preocupações egoísticas. A pergunta passou a ser: "o que eu
ganho em amar o próximo?". A resposta, bem formulada, para esta indagação
poderia ter nos ajudado a mudar o rumo de nossa sociedade.
O preceito do amor ao próximo também foi visto como algo bastante
inviável para a natureza humana, por seu instinto agressivo, por sua ancestral
brutalidade. Mas, mesmo ignorado pela grande maioria dos habitantes do
planeta, o afastamento do amor em nada contribuiu para o melhoramento das
relações humanas. Sem o imperativo do amor, a vida tornou-se vazia, mesmo
quando cercada por riquezas materiais. A violência aumentou e, com ela, a
insegurança nos leva ao velho dilema sobre a vida e o viver.
A indisposição humana para o "amar ao próximo como a si mesmo" não
criou um mundo melhor, pelo contrário, deixou um vácuo, uma lacuna
insubstituível. Ainda hoje, ideias não faltam quando se discute os problemas da
convivência, da intolerância e dos preconceitos. Todavia, as alternativas
oferecidas por pensadores e autoridades, são sempre pelo viés intelectual.
Enquanto isso, milenarmente, o pensamento religioso e filosófico do oriente
buscou na espiritualidade caminhos mais coerentes para a não violência e para
a convivência pacífica.
Mas para muitas criaturas, ainda hoje, o amor é uma idealização, muito
vinculada ao mistério, ao romance, à paixão, quando não é um mero roteiro
literário. Enquanto isso, o instinto, a violência, o desrespeito, avançam em
todos os meios. Colocamos o amor no patamar do discurso, numa espécie de
redoma de vidro, sendo tirado dali apenas para uso no meio familiar, quando se
é correspondido, naturalmente. O resto deixou-se para os "religiosos" de
profissão.
Muitos no mundo sentem a necessidade de amar, mas não sabem
exatamente o que fazer, como e quando proceder. Esse é um notável começo,
ou seja, perceber, naturalmente, lá no fundo da alma, a necessidade de amar.
Nessa proposta está o foco de uma verdadeira revolução na convivência. Isso
ocorre na essência do próprio ser humano que passa a modificar impulsos e
sentimentos, não para a conquista do céu ou da elevação espiritual mas para
viver melhor a vida com mais plenitude e felicidade.
O Espiritismo chamou-nos a atenção para essa postura tão simples, e
tão necessária. Revisitou os ensinamentos de Jesus sob uma ótica inovadora,
demonstrando que o amor, sim, faz parte do potencial humano. Retirou, assim,
o amor do patamar dos sentimentos inatingíveis, para aproximá-lo da vida
cotidiana, da convivência diária.
A revolução da convivência, para nós espíritas, poderia bem ser
exercitado no espaço da Sociedade Espírita. Entre os irmãos de ideal. Não
deixaremos de ter conflitos, divergências, desentendimentos, posições
diferentes sobre determinados assuntos, etc. Entretanto, quando o amor está,
verdadeiramente, no leme, conduzindo as rotas de nossas vidas, os desafios
são enfrentados de outra forma. Mesmo as "brigas", quando sustentados no
amor, não se tornam agressivas.
Por isso, a "boa nova" trazida pelo cristianismo, o "amor", representou,
desde o início, uma proposta revolucionária, capaz de grandes transformações
no relacionamento humano. Logo, a proposta revolucionária do "amar ao
próximo" não se relaciona com a conquista da salvação após a morte física, ou
coisa do gênero, mas com a conquista da harmonia na convivência diária.
Alguém, mais pessimista, dirá que isso não depende de uma única
pessoa, mais da própria coletividade. Porém o exemplo dessa natureza é
altamente contagiante benéfico, pois fala à nossa própria essência, aos
recantos mais profundos de nosso ser. É aquele sentido do "Deus em nós" que
pede passagem.
É nessa convivência rotineira, no meio Espírita, por exemplo, que o amor
deve deixar de ser um mero discurso, para dar sentido as nossas convicções
doutrinárias. Uma boa dose de paciência com o companheiro que pensa
diferente de nós, a compreensão sobre os limites dos outros, o saber divergir
com respeito ao opositor, o perdão ao ofensor, a fraternidade nas palavras, a
caridade que assiste o necessitado da alma e do corpo, são apenas alguns
pontos diferenciais no exercício do "amor ao próximo".
O Espiritismo, em termos de comportamento, nada impõe ou obriga.
Deixa que cada um delibere sobre seus atos, com base em sua própria
consciência. Todavia, todo o conjunto de ensinamentos teóricos da Doutrina
objetiva um fim prático e inovador, para sustentar mudanças no indivíduo e, por
extensão na sociedade. Essas mudanças, obviamente, são gradativas e
ocorrem a partir do nível mental para o comportamental permeando as várias
fases desse processo está a educação dos sentidos, instintos e sentimentos.
Mas a questão levantada no início permanece. Por que devemos amar
ao próximo, ou nos esforçar para isto? Deveremos afastar dessa resposta toda
e qualquer perspectiva moralista, dogmática ou paternalista. As respostas,
nessa perspectiva, levariam para resultados equivocados e superficiais.
Vejamos possíveis respostas nesse sentido: moralismo: devemos amar
para sermos vistos como pessoas boas; dogmática: devemos amar porque
Deus assim o quer e as religiões ensinam; paternalista: devemos amar para
que Deus nos veja como bons filhos e nos conceda seus benefícios.
Essas concepções, se no passado de alguma forma refrearam os
instintos humanos, atualmente não mais o fazem. Isso pelo fato de estarmos
num contexto mental diferente. O desenvolvimento da ciência atualmente tem
focado muito nas questões pertinentes à qualidade de vida humana. Parece ser
este o ponto central e determinante, para o qual o Espiritismo já, desde o
século XIX, chamava a atenção. O enfoque é completamente distinto daquele
pensamento ortodoxo que ainda permeia influenciando multidões.
Amar ao próximo é imperativo para a qualidade da vida humana, tanto
emocional quanto relacional. Jesus tratou dessa questão com a notável
profundidade que lhe era peculiar. Mas a imaturidade do Espírito ainda não
possuía os instrumentos mentais para abarcá-la. Seria obra do tempo e do
amadurecimento espiritual. O amor, na essência, não deveria ser visto como
uma simples solução religiosa para o problema humano.
Allan Kardec, analisando com bom senso, os ensinamentos espíritas,
concorda que o amor é uma "lei natural", pois está na natureza e, através dele,
poderemos operar, "naturalmente", uma verdadeira revolução na vida social,
tornando-a mais fraterna e pacífica. Onde estaria, então, o laboratório
totalmente equipado, no qual poderíamos fazer essas experiências, mostrando
ao mundo os resultados disso? A sociedade Espírita.
Por isso, sabiamente, Kardec observou:

Que os espíritas sejam, pois os primeiros a


aproveitar os benefícios que ele [ o Espiritismo] traz, e que
inaugurem entre si o reino da harmonia, que resplandecerá
nas gerações futuras.
Allan Kardec - o espiritismo é uma religião?
Revista Espírita, dezembro de 1868.

Vidas construtivas, satisfatórias, e convivências produtivas são frutos da


adoção prática e comprometida, não com comportamentos de "santidade", mas
com valores básicos, pois está relacionado com aquelas qualidades do Espírito
que trazem felicidade tanto para própria pessoa como para os outros. Amar é
investir, positivamente, na qualidade de vida. Para o Espiritismo, no entanto,
essa lógica está associada a um processo ontológico, onde o ser vai
expandindo suas potencialidades na vida social como a semente ao germinar.
O homem novo

Que o vosso grupo seja o primeiro a dar exemplos


das virtudes cristãs, porque neste tempo de egoísmo é nas
sociedades espíritas que a verdadeira caridade deve
encontrar refúgio assim deve ser, meus amigos, um grupo
de verdadeiros espíritas.
FENELON - O Livro dos Médiuns, Segunda Parte. Cap. 31, item XXII.

Escrever sobre convivência é tarefa espinhosa. Em primeiro lugar,


porque estamos sujeitos a simplificar, com regras gerais ou específicas, os
caminhos para uma convivência desejada. Em segundo, porque conviver é,
realmente, um dos grandes desafios da evolução espiritual. Ao tratarmos da
convivência na Casa Espírita, buscamos provocar e ao mesmo tempo dividir
com o leitor, algumas reflexões que consideramos pertinentes.
Os problemas da convivência devem ser estudados e administrados com
maturidade e bom-senso. Cremos que as observações de Kardec, estudados
ao longo deste trabalho, devem merecer atenção especial por parte de
trabalhadores e dirigentes espíritas. O seu equilíbrio pessoal é um exemplo
valioso para todos nós.
O homem é um ser relacional, e jamais poderemos nos afastar disto. Em
nossos grupamentos espíritas, é urgente que possamos, a partir dessa
premissa básica, exercitarmos os horizontes de uma nova sociedade. O
eminente prof. Herculano Pires em seu livro O Homem Novo, oportunamente
escreveu: "enquanto o homem não melhora, o mundo não se transforma. Inútil,
pois, apelar para modificações superficiais temos de insistir na mudança
essencial de nós mesmos ". Parece-nos ser essa a grande verdade.
Quando convivemos bem conosco, convivemos bem com os outros,
contornando com jovialidade as intempéries dos relacionamentos. Mesmo os
conflitos e antipatia que tenham raízes mais profundas no passado
reencarnatório dos envolvidos podem ser, se não totalmente resolvidos nessa
existência, pelo menos amenizados. Para isso bastará a vontade e
determinação das pessoas, mesmo para a busca de recursos externos, como
em alguns casos, de terapias psicológicas.
Allan Kardec, na epígrafe dessa conclusão, usa uma metáfora muito
oportuna, para nos alertar sobre o cultivo, com paciência e perseverança, das
plantas férteis que pedem para germinar. Que plantas seriam estas? As plantas
renovadoras do bem. Somos , nós, espíritas, os agricultores desta gleba
notável. Ela é, no dizer do codificador, bastante numerosa e, portanto, com ela
devemos ocupar todos os nossos instantes. Logo, não devemos consumir
nossas forças e preocupações com os rochedos que o tempo se encarregará
de remover. Semear e cultivar o Bem, eis a tarefa imperiosa que nos cabe
neste momento.
É necessário, para isso, vencermos a aspiral do desencanto, tornando-
nos sujeitos legítimos de uma nova lógica social. Para Bauman, em Amor
Líquido, o ensino cristão que propõe o amor ao próximo traduz o valor de
nossas diferenças, pois são as singularidades de cada um que enriquecem o
mundo que habitamos.
Essas diferenças estão presentes na casa Espírita. As mais
insignificantes diferenciações entre os indivíduos, as divergências de opiniões,
as interpretações doutrinárias, as ações administrativas, os debates nos grupos
de estudo, jamais devem ser fontes de mágoas e ressentimentos. É importante
admitirmos que o semelhante possa ser portador de algo que nós não
dispomos ou concordamos.
A Doutrina Espírita nos oferece parâmetros novos para lidar com o
hiperindividualismo contemporâneo. Aquele individualismo que brota,
silenciosamente, nas entranhas de nosso ser, ganhando contornos de
invisibilidade em nossos grupamentos espíritas. Estar invisível não significa
estar ausente. Na prática, há uma tentativa de se ocultar esses sentimentos
humanos, sob o manto de uma pseudoelevação espiritual. Foi percebendo a
necessidade de nos "desnudarmos", para nós mesmos, que Santo Agostinho,
na questão 919 de O Livro dos Espíritos, recomenda analisarmos nossa
conduta diária, os nossos mais recônditos pensamentos, na busca de um
melhoramento natural, gradativo e possível de nós mesmos.
Kardec nos concita a abandonar os "rochedos internos" do orgulho
perturbador, nos distanciando da semeadura intempestiva da impaciência.
Cultivemos o Homem Novo, conforme nos concita o ínclito codificador, na
mensagem que selecionamos para concluir esse trabalho, contando com
nossas rogativas de agradecimento a Deus pela oportunidade de serviço e
aprendizado nas lutas da convivência.

Olhai, pois, as coisas do mais alto; não as vejais do


ponto de vista acanhado do presente, mas deitar o olhar
para o futuro e dizei: o futuro é nosso; que me importa o
presente? Que são as questões pessoais? As pessoas
passam, mas as instituições permanecem. Pensai que
estamos num momento de transição, que assistimos à luta
entre o passado, que se debate e puxa para trás, e o
futuro, que nasce e empurra para frente. Quem vencerá? O
passado é o velho e caduco - falamos das ideias -
enquanto o futuro é jovem e marcha para a conquista do
progresso, que está nas leis de Deus. Vão-se os homens
do passado, chegam os do futuro. Saibamos, pois, esperar
com confiança e nos congratulemos por sermos os
pioneiros encarregados de desbravar o terreno. (...)
Trabalhamos (...) com a paciência e a perseverança do
trabalhador que sabe o tempo que lhe falta para aguardar a
ceifa. Semeemos a ideia, mas não comprometamos a
colheita por uma semeadura intempestiva...
Allan Kardec - a luta contra o passado e o futuro.
Revista Espírita, março/1863.
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Na internet
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