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, fiJSTóRJA E LINGOiSTICA

Régine Robín

A leitura dos textos nunca deixou de suscitar problemas


para os historiadores ou, o que é ainda mais grave, de náo sus-
citá-los. Numerosos sáo os que se empenham nela juZgando-a
urna panacéia universal, capaz de subverter os dados episte-
mológicos da História. Este livro busca arruinar os entusias-
mos prematuros e incitar a reflexáo. Ao escreve-lo, Regine
Robín, historiadora e docente da Universidade de París
(N anterre), preocupou-se em manter-se eqUidistante de uma
pan-metodología paralisante e. de urna utiliza~áo ingenua da
Lingüística. De qual lingüística pode o historiador de men-
talidades servir-se e de que maneira? Em que medida a Lin-
güística safa-se das armadilhas e que é uma lingüística do
discurso? A História só sairá de seu empirismo ambiente
quando deixar de ocultar a psicanálise e. o marxismo. Cons-
tituirá a I.ingüistica um primeiro passo nesse sentido? Régine
Rohin vropóe. em HTWóiUA E LING0'1STICA, uma abordagem
das práticas discursivas no seio das forma~óes locais. Após
confrontar as duas disciplinas no quadro de uma história dos
movimentos, dos comportamentos e das ideologías, e de fazer
uma apresenta{:iío dos métodos atualmente usados pelos. histo-
riadores, oferece ela ao leitor, particularmente aos estudantes
de História e Ciencias Sociais, alguns estudos específicos, que
mostram o con tributo pc:sitivo da Lingüística para a H istória.

EDITORA CULTRIX
1

J
l. RÉGINE ROBIN ~

, .. ,
HISTORIA E LINGUISTICA

Tradu~ao de
AnÉLIA BoLLE ·

com a colabora~ao de
MARILDA PEREIRA

~~
~
EDITORA CULTRIX
SAO. PAÚLO .

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Título do original:
!
HISTOIRE ET LINGUISTIQUE
© Librairie Armand Colin, París, 1973 1

SUMARIO

PREFÁCIO 11

O PROBLEMA DAS RELA<;OES illSTúRIA/LIN'GOtSTICn. 15

CAPÍTULO l. o EQUÍVOCO 17
1.1 Advert~ncia 17
1.2 Teorías, técnicas e· pressupostos 22
l. 3 Língua e discurso 24
Notas do capítulo 1 35

CAPÍTULO 2. As AltMADILHAS DA AUSENCIA DE UMA TEORIA DA ARTICULA~O 40


2.1 A lexicología reduzida a sociología 41
2. 2 A palavra como índice de comportamento político e como quantifica~ao 42
2.3 A Sociolingüística 51
2.4 A análise interna 55
Notas do eapítulo 2 1 58

CAPÍTULO 3. 0s HISTORIADORES E O CAMPO LI~GÜÍSTICO 61


3 .1 Análises temáticas e análises de conteúdo 61
3 . 2 Do vocabulário institucional ao vocabulário ideológico 69
3. 3 De Luden Febvre a Alphonse Dupront 71
Notas do capítulo 3 85
MCMLXXVII
CAPÍTULO 4. fORMAc;AO SOCIAL, PRÁTICA DISCURSIVA E IDEOLOGIA 88
Direitos de tradu~ao para o B(llsil adquiridos 4 .1 As insuf~ci~cias da Lingüística d~ discurso 88
ci:>m exdusividade pela 4. 2 Michel Foucault e a constitui~o do objeto discursivo 92
EDITORA CULTRIX LTDA. 4. 2 .1 As condifoes de possibilidade do discurso 92
Rua Conselheiro Furtado, 648, fone 278-4811, 01511 Sao Paulo, SP, · 4. 2 ~2 O objeto discursivo em "L'Ordre du dzscours" 96
4. 3 Alguns trabalhos recentes de historiac:lotes e a ·constitui~io do objeto
que se reserva a' propriedade literária. desta tradu~iio. discursivo · 99
4.3.1 A pobreza e a morte . 100
lmpresso no Brasil 4.3.2 Michel Vovelle e as f6rmulas testamentárias 103
Printed in Brazil
4. 4 Lingüística como "receita" 105 8.2.1 Inimigos 216
4. 5 Da Lingüística como receita a constituic;iio do objeto discursivo 106 8.2.2 Ricos 217
4. 6 Esboc;o de alguns conceitos do materialismo histórico 108 8. 2. J Contra-Revolufilo 219
4 .7 Prática discursiva e formac;iio ideológica 115 8.2.4 Nobres 219
4. 8 Discurso e ideologías na formac;iio social francesa do fim do 8. 2. 5 Os oponentes no seio da ConvenfiiO 221
século XVIII 119 8. 3 Feudo e senhorio no século XVIII 224
Notas do capítulo 4 130 8. 4 "Negros" no Dicionário de Comércio de Savary des Brulons ( 1723) 226
Notas do capítulo 8 229
ALGUNS MÉTODOS DE ABORDAGEM DOS TEXTOS 135 LÉXICO 230

CAPÍTULO 5. ESBOVO DOS MÉTODOS ESTATÍSTICOS: O EXEMPLO DO LABORATÓRIO


BIBLIOGRAFIA GERAL 236
DE LEXICOMETRIA DA E. N.S. DE SAINT-CLOUD 137
5 .1 O inventário dos textos 137 COMUNICA<;:óES 245
5 . 2 A freqüencia 139
5 . 3 A distribuic;iio 144 GÉRARD GAYOT: DISCURSO AMISTOSO E DISCURSO POLEMICO 247
5. 4 As co-ocorrencias 146
Notas do estudo de G. Gayot 263
Notas do capítulo 5 151
M. PECHEUX e J. WESSELIUS: A RESPEITO DO MOVIMENTO ESTUDANTIL E DAS
CAPÍTULO 6. ABORDAGENS DOS CAMPOS SEMÁNTICOS: AS EXPERIENCIAS DO LUTAS DA CLASSE OPERÁRIA: 3 ORGANIZA<;:ÓES ESTUDANTIS EM 1968 265
CENTRO DE LEXICOLOGIA PoLÍTICA DE SAINT-CLOuD 153
153 Notas do estudo de M. Pecheux e J. Wesselius 281
6 .1 Generalidades
6.2 "O Rei" em Saint-}ust . 159
MAURICE TOURNIER: 0 VOCABULÁRIO DAS PETI<;:ÓES OPERÁRIAS DE 1948:
6. 3 A polissemia da palavra "povo" em Saint-Just 163 ESTUDO DOS PARENTESCOS ESTATÍSTICOS 283
6.4 A polissemia de sans-culottes em "Le Pere Duchesne" de Hébert 166 Notas do estudo de M. Tournier 322
6. 5 Os limites desses métodos 170
Notas do capítulo 6 171

CAPÍTULO 7. 0 MÉTODO DE. ANÁLISE DOS ENUNCIADOS 173


7 .1 Generalidades 173
7. 2 Alguns exemplos de transformac;óes 176
7. J. Exemplo de reduc;iio de frases complexas 182
7 .4 As transformac;óes e a análise do discurso 186
7.4 .1 Análise lingüística do vocabulário da guerra da Argélia 187
7.4. 2 As palavras "socialismo" e "socialista" em ] aures 193 .¡
7.4. J Os ~elatórios de agregafilo e do C.A. P. E. S. de letras 195
7.404 "Feudal, feudalismo e direitos feudais" nos 'cahiers de
doléances' de 1789 da burguesi4 e nos da nobreza 197 1
7. 5 Problemas e limites da análise harrissiana aplicada a um corpus
histórico 199 1

7. 6 O tratamento automático A. A. D. 200


Notas do capítulo 7 211 1

CAPÍTULo 8. NoTA SOBRE A ANÁLISE sE.MICA 213


8 . 1 Generalidades 213
8. 2 As forc;as oponentes em "Le Pere Duchesne" 215

1
Oamaremos, portanto, contra o assassínio da História cada vez que, numa análise
histórica - sobretudo quando se trata do pensamento, das idéias ou. dos conhe-
cimentos - se constatar o uso, de modo· muito manifesto, das categorías da
descontinuidade e da diferen~a, das n~óes de limiar, de ruptura e de transfor-
ma~iio, da descri~ao de séries e de limites. Denunciaremos nisso um atentado
contra os direitos im¡>rescritíveis da História e contra o fundamento de toda bis-
toricidade possívd. Contudo, nao nos devemos enganar: o que lamentamos tio
profundamente nao é o desaparecimento da História, mas a destrui~o dessa
forma de História que era oculta mas .que se referia toda inteira a atividade do
sujeito ...
MICHEL FoucAULT
,,
•.

~


•~ PREFÁCIO

1
~ Esta obra pretende ser apenas uma iniciafao a novas problemas.
Dirige-se essencialmente aos historiadores, um ouco aos lingüistas,
ainda menos aos semiólo s. O descompasso conceitual entre essas uas
tsctp mas e ta que convém, de início, precisar o público para o qual
foi escrita. Que eu se;a bem compreendida: nao se trata de uma obra
de bistÓrÍa da LingÜÍstica, OU de iniciafaO a Lingüística para historia-
dores, mas de uma interro afao sobre os pontos de encontro possíveis
entre "História" e ' zngütstica , so re as encruzt as concettuats que
. --rrma e outra tmpltcam: Trata-se de mostrar aos historiadores que a
"leitura" de um texto e de um con;unto de textos traza baila problemas
tais como a produfao do sentido, que certas regióes da Lingüística
podem ser-lhes de grande auxílio, contanto que nao se tornem super-
posifao, aplicafao pouco razoável ou falsa interdisciplinaridade. Pois
aquí também a miragem da novidade pode provocar muitas armadilhas.
Náo é o caso de,· utilizando uma linguagem técnica, colocando problemas
ainda pouco levantados, formalizando as vezes, nos instalarmos numa
aparente cientificidade. Todos sabemos que estatísticas, quantifica{áo,
formaliz.afáO lógica e linguagem técnica podem recobrir domínios ver-
dadeiramente científicos tao bem como falsas construfóes, que só tem
a aparencia da prática científica. Este livro quer assim apresentar aos
historiadores tentativas de aproximafáo, métodos, interrogafÓes que
constituiráo um instrumento precioso, sob a condifáO de que adquiram
uma formafáo lingüística. Eu náo posso, nem quero colocar-me no
lugar dos lingüistas. Náo tenho a pretensáo de me imiscuir em seus
problemas teóricos, em suas querelas de escala, em suas disputas ter-
minológicas.
Além do mais, o ob¡eto des te livro náo é um enfoque das teorías
lingüísticas, nem uma apresentafáo dos problemas lingüísticos, nem
uma iniciQfáo pedagógica. Assim, náo se encontrará aquí nenhuma expo-
sifáo didática sobre Saussure ou sobre Chomsky . . Em outros domínios,

11

-----------------------~m---- ----- '-~~~-""'~"'


precisei fazer escolhas, e contribuifoes importantes tais como as de G. céias, as súmulas te6ricas, os empréstimos metafóricos, que s6 poderiam
G. Granger e]. Derrida /oram deliberadamente negligenciadas, dado o 1evar a impasses, decepfoes ou, o que é pior, a demonstrar qualquer
quadro ·desta colefao. Tampouco há aquí nenhuma exposifáo -sistemá- coisa enquanto artefato. 'Assim se ;ustifica o ponto de equilibrio em
tica sobre Katz e Fodor, Weinreich, Bierwich ou Fillmore. Tudo isso que eu me quis situar: a igual distáncia de uma metodología paralisante
me pareceu nao fazer parte diretamente do meu obieto. · de toda pesquisa e de uma utilizafáo ingenua e nao rigorosa da Lin-
Tal como se apresenta, esta obra descontentará a uns e corre o güística por parte do historiador. •
risco de desanimar a outros; Aos lingüistas, parecerá insuficiente, face Duas solicit(Jfoes de desigual importáncia levaram-me, nos anos
as renOVIlfOes e a~ colocafoes atuais. Aos historiadores, em compen- 1960-196L a me preocupar com a Lingüística. Eram - é preciso re-
safáo, corre o risco de parecer áspera, cheia de gíria profissional, por cordá-lo - os tempos triunfantes· do estruturalismo. Uma espécie de.
vezes longe de suas preocupllfoes. Tal vez até irrite alguns, eternos terrorismo intelectual panlingüístico era de· bom-tom. Todos aqueles
defensores e zeladores do bom senso e da evidencia. Ainda uma vez, que, 'a títulos diversos, preocupavam-se com problemas epistemowgicos,
minha ambifáo limitou-se a propor problemas, interrogafoes, métodos viam-se cercados, quisessem ou nao, pelos .trabalhos de Lévi-Strauss ou
e, grafas a contribuifáo de historiadores e de lingüistas, algumas abor- de ]. Lacan, pela redescoberta de Saussure. Parecía-me forfoso .espiar
dagens concretas e alguns resultados. Ninguém mais do que eu tem do lado da Lingüística (se me permitem a expressao), como todo .o
aguda consciencia de que este livro é, de alguma maneira, prematuro . . mundo! De outro lado~ eu estava participando de uma pesquisa re/e-·
No entanto, sob certos aspectos, ele vem a prop6sito. Com efeito, estan- rente a 130 cahiers de doléances ~ de um bailiado" borgúinhao ( ou se;a,
do os fogos do estruturalismo' um pouco extintos, a hora é antes de um corpus de mais de 600 páginas). Era difícil dominar esta documen-
interrogafoes que de euforias precipitadas, de balanfos. Nem falsa lafáo com os métodos temáticos em uso .entre ·os historiadores. Poi
interdisciplinaridade, nem pressáo de uma moda, atualmente em grande
. parte. revolucionada! '
a
entáo que se ofereceram duas possibilidades: utilizQfáo do computador
e de estatísticas de um lado, a procura de métodos lingüísticos que me
Além do mais, este livro res permitiÚem ler, ordenar, normalizar, comparar os dados de minha do-
). De uma parte ele · a
cumenlafáo. Num primeiro tempo, eu nao pedía Lingüística senao
um con;unto de processos de análise visando facilitar meu trabalho de
esma a- os so ro s metodol6 icos insu eráveis. Lembramo-nos _ historiador. Ess~s ·processos, entretanto, náo se adquirem num dia.
deste parágrafo .de R. Barthes: "Alguns f am o meto o com gula, com Foi-me necessário "voltar a escota". Que me se;a permitido agradecer'
exigencia . ... ele nunca lhes parece suficientemente rigoroso, suficiente- aquí a todos aqueles que, em Vincennes como em Nanterre, aceitaram
mente formal. O método torna-se uma Lei, mas como esta Leí é pri- receber-me em unidades de valor iá muito sobrecarregadas. Entretanto,
vada de todo efeito que lhe seia heterogéneo ( ninguém pode dizer o uma dúvida me impos novas interrogafoes. Interessar-se pela Lingüís-
que é, em "Ciéncias Humanas", um "resultado"), ela é infinitamente tica somente quanto ao plano técnico, náo pedir a ela senao processos
frustrada ... Assim, é invariável que um trabalho que proclama sem de leitura, náo seria correr um grande risco? Se era bom lutar contra
cessar sua vontade de método acabe sendo estéril: tudo se passou no o positivismo em Hist6ria, náo mais o positivismo aantiga, que a escala
método, nada sobrou para. a escrita; o pesquisador repete que seu texto dos primeiros Anais com L. Febvre e M. Bloch tinha definitivamente
será meto4ol6gico, mas esse texto nunca aparece: nada mais seguro desmitificado, mas o novo positivismo, o do. crescimento, o das falsas
para matar uma pesquisa e /aze-la aumentar o grande lixo dos trabalhos formalizafoes .quantitativas - se era bom entáo opor-se aopositivismo
abandonados,· nada mais seguro do que o método. . . [ é preciso] a um em História, eu náo correría o risco de reencontrá-lo, contra a vontade,
. · dado ·mornento voltar-se contra o método . .. " Se se verificasse que utiliiando técnicas das quais eu ignorava tudo quanto as teorías que
minha obra, por sua vigilancia metodol6gica, fosse, como diz R. implicavam? Ficou entáo evidente ara mim ue a a ' · sémica tao .
Barthes, matar a pesquisa, por um estranho equívoco, ela iria contra \ comoda, postulizva_ uma concepfao atomística do_ s~ntido e ue. ~s .aná-·
seu dese¡o, que é, ao · contrário, naquilo ·que se refere a Hist6ria, o de _zses arzsstanas nao satam o qua ro o e avtortsmo. O postttvtsmo
estimulá-la e de abri-la a novos horizontes. Por outro lado meu ·uvro
retenderia, . · or um e eito si étri · e;,;a verttr
. * ·Cahiers de doléances = pedidos ou representac;óes consÍgnadas por ca-
- .;ontra os entusiasmos precipitado¡. as falsas q,uestoes. as falsas. pana- .. dernos dos Estados Gerais [N. T.].

< 12
'
O PROBLEMA DAS RELAQóES

AD HISTóRIA / LINGÜÍSTICA

14
CAPÍTULO 1

O EQUIVOCO

1 .l. Advertencia

A rela~io da Lingüística e da História con:e o risco de ser hoje


fonte de equívocos. Gostaríamos de elucidar este equívoco, ou mesmo
de díssipá-lo: nao é outra a ambi~io desta obra. ·

17
parecía nunca dever pretender a situa~ao de Ciencia. De mais a mais, Nao será o caso de darmos fim a esta disputa ao mesmo tempo
muito freqüentementé, os conceitos da Sociología, que permitiam fazer terminológica e epistemológica. É possível que, assim formulada, a
a economía do materialismo histórico em matéria de ciencias da socie- pergunta esteja mal colocada e seja passível de discussao. O problema
dade, eram mais bem acolhidos e bastavam. ·As advertencias concer- para nós, no quadro da pesquisa histórica, apresenta-se de urna maneira
nentes a exporta~ao do modelo lingüístico, entretanto, nao faltaram. totalmente diferente, urna vez que nao se trata. da exporta~ao de um
Em 1967, G. Mounin inquietava-se: "Hoje em día aLingüística bene- modelo, nem de conceitos tomados de empréstimo a ciencia das línguas

~ ficia-se, por sua vez, deste papel de ciencia vedete. Mas é possível que naturais enquanto sistema de regras. Dele queremos no entanto con-
o balan~o que se deva fazer assemelhe-se um pouco ao que se fez do servar, além do que é colocado em causa, a li~ao de prudencia, as
uso precipitado dos conceitos biológicos no século XIX, depois do uso advertencias contra todo uso metafórico dos conceitos da Lingüística,
~ nao menos precipitado que ·se fez também .pelos fins do século XIX toda analogía nao rigorosa, toda decalcomania terminológica, toda sú-

••
dos conceitos da Psicología, para resolver problemas lingüísticos. É mula conceitual. Es tes conselhos de rudencia' sao tanto mais urgentes
nisso que eu vejo urna parte de moda, urna parte de voga, que nao nos quanto se ve sur ·Ír no ortzonte urna a1xao sú lta e m enua a arte
é benéfica, pois preferiríamos que se utilizasse profunda mas solida- os 1storiadores pela Lingüística. Estes últimos acabaram, finalmente,
~ ·. mente a Lingüística e que se reduzissem e se precisassem bem as zonas por mtenorizar as crit1cas que a gera~ao estruturalista forfuulou em
em que ela se aplica." 5 Ainda mais recentemente, 6 ele criticava o ue sentido contrário ao da História. Daí a miragem daquilo que, a pri-
'• se chamava os "empregos metafóricos" dos conceitos mgütsticos. To-
mando um exemplo na obra de Roland Barthes, ele se colocava o pro-
meira vista, parecía como incontestavelmente científico, porque forma-
lizado. O autor das presentes linhas contribuiu, com repugnancia, para
• blema da validade dos conceitos lingüísticos a propósito de um éspe-
táculo de luta livre. 7 Trata-se de um sistema de comunica~ao? O
a generaliza~ao desta paixao súbita e destes novos tipos de preocupa~ao .
No entanto, ele sempre se preocupara em balizar sua pesquisa, ainda
espetáculo é feíto de comunica~ao, e em que sentido? Em caso afir-
-• mativo, nós nos ocuparemos de urna comunica~ao de tipo lingüístico,
embrionária neste dominio, com marcos teóricos, que urna leitura apres-
sada ou mal informada nao reteve. Que lhe seja permitido retomar o
n isto é, explícita e consciente? Se se trata verdadeiramente de um que, nos trabalhos antigos, acentuava antes os problemas que as so-
sistema de signos, isso implica que se tenham determinado unidades lu~óes. "O historiador nao considera a Lingüística como urna moda,

.
••
~
segffieñtáveis e a ras de suas combina óes o ue constituí a base
a an' ise lingüística. É preciso ain a estabelecer em seguida que estas
umdades e estas regras de combina~ao sao isomodas as da Lingüística.
E - diz- ounin - as· fontes da confusao residem no estatuto
um fim em si, um modelo exportável, com vistas a analogías nao rigo-
rosas. lsto implica que um tal campo de aplica~ao deva ser precisado
cuidadosamente, bem como seus limites. .A Lingüística permite subs-
tituir o dado do texto por urna lógica do texto. Serve apenas ara

~~.
. que se dá a n ao de si no. nge e ser em re a o no sentí o saus- ·revelar a economía interna de urna 1deolo ia em cáso a m para esta-
surtano o termo o si no es1 na n o ra e . Bart es ora o m 1ce e ecer sua fun~ao socia. Daí a prudencia, as apa p e as com as qua1s
ora o s1m o o ora o síntoma ra mente o si no. si no assim, todo o historiador deve articular estes dois dominios heterogeneos. mais li-
ato .que tem urna significa~ao. A partir desta de ini~ao, e uz-se que gados (o conteúdo de urna ideología, bem como suas contradi~óes: sua
to a co e~ao e s1gnos e um sistema de signos, todo sistema de signos fun~ao no campo das lutas de classe de urna forma~o social); daí, os
urna linguagem que está portanto na dependencia dos conceitos da resultados parciais, a serem sempre retomados ... 'C) Era, em termos
Lingüística. . Mounin insiste no fato de que os empréstimos termi- rmuitas vezes equívocos e rápidos, mostrar. os limites do campo de apli-
nológicos feítos a Lin ··tstlca sao na rea 1 a e sumu as conceituais ca~ao lingüística e a necessidade de procurar urna teoría deste campo
. . X1ma~oes an ógtcas muitas vezes m un ament as. as nem' de aplica~ao. Num outro artigo, estas precisóes foram retomadas e
po: 1~so ele mmtmiza _a obra de R. Barthes. Mostra que o verdadeiro mais distintamente formuladas, embora ainda ambíguas. "O que o
obJetivo de ·Barthes é colocar em evidencia o conteúdo latente de certas historiador pede ao lingüista é muito circunscrito, e por isso mesmo
mensagens, .·mitos, atitudes, comportamentos; que, na realidade,. o corre o risco de ser levado a sério. Ele nao lhe pede, de maneira
objeto de suas pesquisas é antes urna sintomatologia do mundo hurgues nenhuma, a fun~ao de urna ideología, que sornen te ·poderia ser eluci~
·que urna semiología, e antes urna revela~ao da mentira social do que dada pelo estabelecimento de urna rela~ao da ideología a forma~ao social
da mensagem social. · · · no seu conjunto e ao papel-que· essa ideología desempenha quanto a
18 @ 19
1

tica; que a Lingüística é o único modo de acesso aos comportamentos;


que, gra~s a esta ciencia, o historiador vai poder trocar suas pobres
n~óes por conceitos verdadeiros. Os perigos de tal posi~io devem ser
explicitados com rigor e for~a, pois pensamos que o empirismo ingenuo
e. o empirismo formalizado nao passam de duas vertentes' do positi~
yismo; que eles se solicitam mutuamente e se implicam. 9 que espreita
a Lingüística em História é _a oossibilidade de lhe ser atribuido o_
· mesmo a 1 e a mesma fuil~io ue a Estatística em Economi . Na
aparencta, isso signi ica um apare o ormalizado de cienf "cidade incon-
testável, um imenso progresso relativamente aos estudos simplesmente _
descritivos e monográficos, resultados ao abrigo desta "coloca~ao em
perspectiva" a qual o historiador nao poderla escapar, segundo R.
Aron. Na realidade, pode-se fazer o aparelho estatístico dizer qualquer
coisa, segundo os quadtos teóricos nos quais ele entre, segundo o sis. .
tema de hipóteses que a ele subjaz, segundo o efeito procurado. A -
introdu~io ·de estatístkas na Economía teve muitas vezes urna fun~-ro-
- recrsa~ embóra velada: re ar urna a aos concettos do materi8lismo
·stórico, opondo-lhe a "ciencia" incortte 11
,, vez o caso a mgüística. Ela poderla, se se descuidar, servir para
Se insistimos néssas advertencias, é que atualmente uma tendencia dem.onstrar "qualquer coisa", e esta "qualquer coisa" poderá, como
se desenvolve numa espécie de euforia ingenua, cujos pressupostos im- os resultados da Estatfstica, ser apresentado no quadro da ideología
plícitos e asse~s explícitas poderiam ser resumidos assim: , ' dominante como séria, irrecusável, científica. Que nos compreendam
- A Lingüística é urna ciencia estabelecida. ,É formalizada ( ao menos bem. Nao se trata, de maneira alguma, em nosso espirito, como o faria
no sentido em que o entendem os historiadores), utiliza urna termi- e como o faz ainda urna crítica tradicional, de declarar guerra a Esta-
nología técnica, e seus resultados sao incontestáveis. tfstica em geral, privilegiando os métodos descritivos de outrora e
, - Se os lingüistas fornecem técnicas aos historiadores, gra~as a este défendendo as análises exaustivas que ocupam urna vida inteira, onde
protocolo metodológico, ele vai poder ler de urna nova maneira e, inter- urna amostra reprc:sentativa solicitaría alguns meses. Também niio será
pretar textos. É bem o caso: ler e: interpretar tc:xtos. O que significa o caso- ao evocarmos mais adiante os perigos dos métodos quantita-
que, tomando consciencia embora confusamente, do em irismo domi- . tivos em Lingüística - de nos colocarmos contra a quantifica~iio, tanto
nante nas ciencias históricas, ,de urna certa vacui a e conceitua , pensa- quanto, ao contrário, nio é o caso de denunciar a utiliza~ao da Lin-
-se oder atenuar essas falhas essas ausencias lo recurso a técmcas güística em História em proveito de algum intuicionismo, de algum
•."' evidamente experimenta as, cujo caráter forma iza o o erece t as as "diálogo" entre o leitor e a obra, de algum ·vai-y_em de consciencias .
:&aran tias. Trata-se de denunciar o positivismo ambiente que prevaléee nessas
utiliza~óes, de mostrar que sem um quadro teórico preciso que hierar-
Esta tenta~ao parece-nos muito bem expressa · nesta frase: "E o quize os fenomenos, sem um corpo "de conceitos articulados, sem uma
historiador trocarla de -bom grado as incertezas metodológicas de uma explicita~ao teórica das hipóteses, o uso da Lingüística pode muito bem
psicología social dos comportamentos e das mentalidades por uma aná- revelar-se apenas como mistifica~o, um reduplicado empirismo, até
lise de amostra de língua .considerada representativa." lo Essa afir- mesmo um artefato. J.onge de pensarmos que a Lingüística é urna pa-
ma~ao equivale a dizer que está prestes a abandonar todo saber nacéia universal, ·gostarfamos de precisar q.uais relacóes ela pode entre-
historiográfico que diga .- respeito ao acesso -ao mental coletivo; que ter coma História e ulis outras nao levam senao a u · sse t rico.
anos de esf~r~os, _de pesquisas dem~rcadas pelos trabalhos de L. Febvte · ue no im da análise nao vale tanto pelas técnicas utilizadas.
e de R. Mandrou niíó poderiam equivaler ·as certezas da análise lingüís- quari to pelas hi 'teses elll.Íti s

20 21
no início: Quanto as hipóteses, nao valem o que vale a teoría que as "É preciso considerar os marcadores semanticos como elementos teó-
mforma e autoriza sua formula~ao. Assim, nao é possível, contraria- ricos introduzidos ém teoría .semantica para designar os componentes,
mente ao que desejariam alguns, fazer a economía de um corpo de invariáveis de uma .língua a outra, mas estreitamente ligados a língua,
conceitos, mesmo se for para aproximar-se de textos considerados muito de um si~tema conceitual que faz parte da estrutura cognitiva do espí-
tempo como sem opacidade. É necessario resignar-se¡ é esta a condi~ao rito humano." 16 A partir do momento ero que somos remetidos a
do historiador do nível discursivo. estrutura do espírito humano, a natureza humana, pode haver um rá-
pido deslize para um espa~o metafísico difícilmente controlável. Este
exemplo mostra a que ponto uro método de abordagem, seja qual for,
1 . 2. Teorias, técnicas e pressupostos é carregado filosoficamente. ~A análise de discurso, em que Harris repre-
sentou um papel preponderante, também. nao está isenta de ressu-
As técnicas os métodos re ados estadio ao abrí o de res- ·postos. A anahse nao deve levar ein consi era~ao o sentí o. 1 7 " o a
supostos i osó icos am íguos? Toda técnica imp 'ca uma teoría so re análise que tendesse a descobrir a presen~a ou a ausencia, em um texto,
a _linguag~m, mesmo sobre sua natureza e sua origem, e pode, através de _certas palavras particulares, escolhidas pelo lingüista, seria urna pes-
~ss~? rehgar-se a !al ou qual corrente filosófica e epistemológica. Os : ·quisa sobre o conteúdo do texto, que repousaria finalmente sobre o
SENTIDo das palavras escolhidas. Se n6s nao n-os apoiarmos no sentido
hnguistas sabe~ disso muito bem¡ eles que nao ouvem sem irrita~ao :
~S eternos elogios relativos a. cientificidade. sem problemas da Lingills- ~~ 1
em nossa análise, os únicos morfemas- ou as únicas classes- de que
poderíamos tratar separadamente sao aqueles que apresentam particula-
tir:a. Quan:os problemas surgem! Tomemos por exemplo a análise se- ()(M.O
~ 12 e
Nao negamos absolutamente sua fecundidade, mas claro que " 'a<J ridades de distribui~io estabelecidas gramaticalmente." 18 Por isso a
nosso ver, subsistem os postulados positivistas da. escola bloomflel-
estao e~pregados nos processos técnicos, e na teoría que lhes subjaz, ,
certo num<:ro de postulados que estao longe de satisfazer inteiramente. ! diana. o extralingüístico nao jntervém de manejra nenhuma na análise.
Esta pesquisa parte da palavra e, no interior dela, de unidades mínimas 1 Eis por'"que a rela~ao entre o universo lingüístico e o universo cultural
de signific~~ao, ~u sernas. Cada unidade léxica é assim constituída por· ,1,
só pode ser feíta em termos de correla~óes, o que remete a sócio-
urna co,m_bmatoria de elementos mínimos, que produz o sentido da uni- -lingüística, que mais tarde evocaremos. A análise permanece assim
dade lexxca. .O sentido de uma frase é produzido pelo conjuntQ dos i . interna. fundada na sintaxe, na distribui~ao. Além disso, a n~io de
compon~n~es seman~cos das unidades léxicas que, para certos teóri:cos ~ transforma~ao como nao modificando o sigruficado levanta alguns pro-
blemas. É o que acontece na fase de redu~io dos enunciados no que
da gramatica generativa, estao.em rela~ao, segundo "regras de proje~ao",
com a estrutura profunda do enunciado. 13 Trata-se. na expressjio de concerne as liga~óes lógicas entre proposi~óes que, afinal, desaparecem
M. Pecheux, de urna "conce -o at mística" da si nifica~ao, 14 que na constitui~ao das classes deequivalencia. E também, como o observam
co oca tantos pro lemas quanto aqueles que reso ve. ssim também os autores de uro artigo recente, "a defini~ao da equivalencia entre
acontece com a compatibilidade semantica, definida como a necessi- dois elementos, sobretudo a significa~ao desta equivalencia, levantam
d?de, para "os componentes semanticos pertinentes dos elementos lé- · cert?s pro?lemas". 19 Com efeito, é preciso distinguir, segundo eles,
XICOS na combina~ao sintagmática gerada pela sintaxe (de nao) serem
equivalencias que sao identidades, equivalencias simétricas do tipo "a
contraditórios". 15 metade do outono", isto é, "o fim do mes de outubro" 20 e equiva-
lencias nao-simétricas, que repousam .numa rela~ao semantica diferente
da identidade, do tipo "chegam os primeiros fríos", por conseguinte
O?tro pro~lema diz respeito a universalidade dos componentes 1 "cóme~amos a ligar o aquecimento". Ainda uma
A
' 'do sobre.:
:emantl~: Mmtas vezes levantou-se a hipótese {do século XVI aos
nossos dias) segundo a qual todo vocabulario humano seria constituido voo dos ressu stos a base de uma teoría e de técnicas utilizadas nao
' eve desacreditar a uti za~io estes mét os, mas ten e a· mostrar
,por elementos mínimos, os sernas ou com onentes semanticos ou mar-
•1
.. , e. ores mita o, in epen entes a estrutura as que a cientificidade da Lmgüfstica. nao deve ser absotvida numa e iste-

.. ,
A • '
moo ngenua .
versas línguas, e cuja combina~ao seria suscetível de atribuir sentido
as diversas uni_?ad~s lexicais das línguas particulares. Remete-se aquí, O mesmo ocorre com o chomskysmo. É certo que nunca se reco-
querendo ou nao, a natureza humana, a estrutura do espírito humano: nhecerá suficientemente a contribuif;io de Chomsky a nova orienta~ao
. .1

t,~--22~~-~-~..~--·~
23

-----~·=
da Lingüística. Rompendo com o que Bach 21 chama uma conce~ao
tmnomica da Ciencia, ele reintroduz o primado da teoría, do desafio
teórico. ·22 Entretanto, além da bem sucedida reformula~ao dos conceitos ·
sa~ssurianos, além do modelo generativo e da criatividade da linguagem,
certo número de stulados ue esti base do chomskysmo niio
l
etxam e provocar dúvidas. Encontra-se aí, em primeiro ugar, a
tdéla da uruversatidade ·das estruturas profundas, uma visada para a
consti~iio de uma espécie de semintica universal, ao menos naquilo
que C()ncerne certas das teorías pós-chomskyanas. O cora~iio do pro-
blemll, além do mais, é precisamente o lugar do homem cartesiano na
teoría de Chomsky. Sua rela~io constante com a gramática de· Port-
-Royal, sua filosofía da idéia inata podem, por vezes, a contragosto,
resultar numa metafísica da natureza humana pouco apta a clarificar os
' debates. Niio que a rea~io de Chomsky contra a linguagem considerada
como condicionamento niio tenha sido fecunda e que o acento colocado
no aspecto criador da linguagem nao tenha tido resultados felizes, mas
convém sublinharmos ainda aquí' que a tese da idéia inata levanta· mais
problemas do ·que resolve, e corre o risco de produzir discípulos pós-
-chomskyanos que, longe de terem o rigor do mestre, descambario pura
e simplesmente no idealismo das esséncias.
Assim, nenhum dos métodos, nenhuma das teorías e técnicas lin-
güísticas, de Harris a Chomsky, de Katz a Fodor e a Greimas, poderia
apresentar-se como pura positividade na transparencia de seus conceitos.
1! for~oso afirmar, pastichando o poeta, que nao existe historiador-lin-
güista, ol.t lingüista-historiador feliz ...

l. 3. Línqua e discurso

ALingüística constituiu-se, enguanto ciencia, a partir de Saussure ·


- tudo isto é bem conhecido. 2 3 Para cercar estreitamente o objeto (f
· da Lingüística aussure ·roduziu dóís conceitos: a língua e a fala. "Se- )
an o a língua da f a, separa-se no mesmo go pe -· . , o que e
""soctat do que é tndivzdufil; 2.6 , o . ue é essencüll do ue é ace~6rio e
· mats ou menos.aci enta. 'ngua niio é urna fun~íio do sujeito falante:
<'eo ptóduto que o indivíduo registra passivamente; nunca supóe pre-
medita~io, e a reflexao só intervém ·aí para a atividade de classifica-
~io. . . A fala, pelo contrário; é um ato individual· de vontade e de .
inteligencia, no qual convém distinguir as combina~óes pelas quais o
sujeito falante utiliza o código da língua em vista de exprimir seu pen-
samento pessoal- 3.0 , o mecanismo psicofísico, que lhe permite exte-
. riorizar estas combina~oes." 24 Tal apresenta~iio do problema estabelece

25
1
Como definir o discurso?· Neste moménto de nossa reflexao ~~ (- ~(ll,V~~ 0 que M. Foucault instituí em A Arqueología do Saber. Ele nao
levando em conta que nao examinamos ainda os conceitos próprios a~ v¡ entende por prática a atividade livre de um sujeito, mas o conjunto
historiador e, em particular, o de "forma~ao social" e suas implica~5es, de regras que envolvem e submetem o sujeito, desde que ele toma parte
só se pode tratar de urna defini~ao de ponto de partida, imprecisa no no discurso. Por isso, o discurso supoe o conjunto de rela~5es extra-
plano ter~inológico, insatisfatória no plano teórico; urna abor4agem · lingüísticas que o constituem. Nossa insistencia a esse respeito corre
que devera ser refeita posteriormente.
o risco de suscitar numerosas interpreta~oes erradas e assim solicita
algumas precis5es. Fixar-se na liga~ao do discurso com o conjunto d~
rela~oes materiais que o estruturam nao significa que, a exem lo de ~
Marr, na U . R. S. S . dos anos 1950, fa~a-se da língua um uperestru-
'tura. Fazemos questao de precisar que as forma~oes discursivas, quanto
a elas, fazem parte integrante da instancia da ideología; portanto estao
fundamentalmente ligadas as superestruturas. Assim também, nao se
trata para nós de negar o nível lingüístico (no sentido, que se terá
adivinhado, de urna lingüística do discurso), reduzindo a análise do
discurso a urna sociología do discurso. De maneira nenhuma. Procura-
mos constituir no cam da História o nível discursivo· como novo
o jeto e estudo, e ao mesmo tem o contra um certo os1t1v1smo
stular os im asses e insu iciencias de urna aná ise mterna
a qua se uereria deduzir a ínter reta ao o 1scurso me us1ve sua
un~ao, sua e icácia 31 e seus rocessos de inser~ao na arma ao socia .
• sta necessi a e e azer apeo ao "extra "ngüístico", a certas instancias
C<.e11Y1 de urna forma~ao social foi recentemen te exposta com clareza por D. t/íbí,
Slakta, quando ele introduz no próprio nível da competencia lingüís- .5/a, ·fq
tica a instancia da ideología: "Urna prática discursiva só pode se explicar k,
em fun~ao de urna dupla competencia - 1.0 uma competéncia especí-
fica, sistema interiorizado de regras específicamente lingüísticas e que
garantem a produ~io e a compreensao de frases sempre novas - o indi-
víduo eu, utilizando estas regras de maneira específica (performance),
- 2.0 uma competéncia ideológica, ou geral, que torna implicitamente
possível a totalidade das a~5es e das significa~;óes novas." 32 !,?troduzir
ao nível da competencia a instancia da ideología é necessanamente

~~~;;,;-;e:~~~~:::=::-~~~~~~~~~~~?~~¡:~~~~~E~ª~~~~ª~~~~~
u mostrar ue a análise interna nao oderia esgotar a si nifica~;ao do dis-.
'e ~l[;{. .;'\ 'curso; é acenar a urna teoría das forma OeS SOCÍaÍs e no cam O esta
eona, e insistir no u ar da instancia i eo ógica e no efeito desta ins-
tancia no pano "scursivoi. é pois, em ora 1m "citamente, orientar-se
para urna prohlemfztica da artÍCU afáO as prattcas iscursivas _J re
fJ.rJticas nao-discursivas ao seio de uma /ormacáo social. Esta neces-
sfciade de incluir a ideología no conceito de discurso, portanto, de nao
..reduzir o discurso a língua 33 t-m sua neutralidade ideológica, f01 cons"
tatada e preconizada por certos pós-formalistas russos, em particular
l
por Medvedev que, segundo Kñsteva, "propoe-se a formular CJ ·con-
ceito de linguagem de maneira que possa ser ao mesmo tempo lingüís"
26
27
ti.~?~ ideoló · ; que co~cilie a? mesmo tempo o sentido: como a Lin-·
gU1st1ca esta lece, e a 1deolog1a, como se exigirá de urna teoría que
1
• enfase, o passivo facultativo, as interdependencias de mve1s; c~.mo a
utiliza~io dos relatórioo de língua familiar, popular, literária; modali-
leve em co sidera~ao a História'.'. 34. za~óes da atitude do sujeito, como a oposi~iio rea!Wtdo/niio-realizado
A .B tir de urna dezena de anos elabora-se urna Lingüística do das formas verbais; modaliza~óes dos tipos de enunciados: enunciados
Discurs 35 - :üguns elementos da qu:U estiio na 'aependenoa daquilo de diversas naturezas, desde o "eu penso que", até os performativos. 30
q~e se convenoono'? chamar. de enunciafáo, como atitude do locutor O conceito de tensáo concerne as rela~s entre o sujeito falante e o
d1ante de se~ próprio enunciado, como ins~iio do sujeito no interior interlocutor. O sistema dos tempos e dos aspectos é o mais próprio ·a
de ~ua própna fala, como tomada de posi~o do sujeito em rela~o ao ábranger este tipo de marca enunciativa, pois o verbo aparece enquanto
• 1
¡ conJunto de representa~óes, do quadro ideológico que o governa e de verdadeiro operador da frase. Além disso, os artigos, os determinantes
que ele é o suporte, como o ato de produ~io do discurso. Nao foi sem representam oeste nível um papel essencial; este é também o caso do
hesita~ao nem sem · retic~ncias que os lingüistas admitiram que estes
;
':! mecarusmos estavam na dependencia do seu campo, pois ele arrastava 1 sistema dos pronomes. Entretanto, segundo L. Irigaray, o domínio
, de predil~io da tensiio manifesta-se n/a oposi~iio ser e haver, de um
'i em torno deles como que um odor de mentalismo sempre suspeito. T. lado, e dos auxiliares, como querer, poder, fazer, dever, de outro
¡
Jodoro~: apresent~ndo o estado das questóes sobre a enunda~iio, cons'- lado. Enquanto que, no primeiro caso, trata-se de um realizado que
tatav~:. S: se ac<:ttar no momento que a enuncia~ao é o ato individual
da utiliza~ao da língua, enquanto que o enunciado é o resultado deste
p()stula um estado, urna ausencia de tensao, no segundo caso, pelo
contrário, manifesta-se um assumir, uma tensao do sujeito em face
ato, podemps dizer que o objeto da Lingüística atual é o enunciado de seu interlocutor.
e nao a enuncia~ao." 38 Gompreende-se a partir daí o imenso trabalh~
q';le resta rea~ar na ordem da constitui~iio de urna Lingüística do O conceito de trans arencia ou de o acidade aborda a marca de enun-
Dtscurso e, alem dela, da história das forma~óes discursivas. Eis a cia~o o ponto de vista do receptor. A o acidade máxima aparece na
título de e~emplos sumários, seguindo as pegadas do estudo de' L. ~sia lírica. O enunciado é moaaliiado e maneira específica, original
Courdesses, 37 algumas marcas de enuncia~ao. e o sujeito de enuncia<;io está entio "a disposi<;iio de cada leitor, trans-
formado também num sujeito de enuncia~io, para assumir um enun-
L.~u~~es~~ mostra que, co~trariamente ao que se passava no quadro ciado cujas modaliza~óes lhe escapam". 40 Pelo contrário, o enunciado
da linglllsttca estrut~ral, em que o processo. de enuncia~io tendía a
desaparecer no ~nu~crado, o cam transformacional nao es uiva o pro-
blema da enunoa~ao antes re teorizá- a.
mi em e uct ar o rocesso da enun · -
uatro conceitos r- l¡ de tipo "máxima" faz o leitor aderir fortemente aos textos, criando
uma identificaciio entre o receptor e o sujeito da enunciaciio.
Há aí a máxima transparencia, uma vez que ó sujeito de enun-
da~io é como que apagado. O ele substituí o eu. Assim, opacidade e
.

_ O conceito de distancia: trata-se da . distancia relativa, colocada pelo transparencia sao constitutivos dos níveis de ambigüidade da mensagem
-". SUJelt~ entre e e próprto e ~ste enunciado. p su jeito falante ~ode . segundo as análises de T. T odorov.
¡¡ssum~r totalmente se~ ~nunciado. Neste caso, há como que ...uma i en-
- tthca~ao entre o eu SUJetto do enunciado e o eu sujeito da enuncia~io. Es tes conceitos de base permitem que· L. Courdesses estude, do
· 1t' distancia, pelo contrário, pod<: ser máxima. Ocupamo-nos .entao ponto de vista da enuncia~ao, dois discursos que Blum e Thorez pro-
com a~ normas de um discurso didático. ..Isto repousa na idéia de nu,nciaram em maio de 1936. H Trata-se dé dois tipos de discursos
q~e exts~e algo .de comum, de universal ou de quase universal nas pro- completamente difer~ntes do ponto de vista do universo enunciativo.
\
pnedades do discurso. O eu tende eritio a se tornar o ele formal do O sistema dos referentes e substitutivos essoais (ver quadro) situa
enunciado." 38 ·
. ogo a primetra vista as di eren~as. Enquanto que o eu é empregado
[Q conceito de modalizafáo) segundo V.· W einreich, define-se como a maci~amente por Blum, ele o é mais raramente em Thorez, e~ que,
marca que o sujeito por distancia máxima, o su jeito de enuncil:l~io mostra tendencia .para
- . . nao
_,, cessa de dar. a seu enunciado
. ' isto é ' como~-
a
.adesa~ gye o smetto .na aa sen djscurm.:_ Por isto~ podem~se distingllit ser apagado. Pelo contrário, enquanto a utiliza~io do. nós em Blum
m~eliz~do;es formalizados, como os advérbios de opiniio ( talyez, sem. cría urna terisio no grupo, em Thorez o eu toma-se nós. Estamos aquí
duvtda, .evidentemente, etc.); transforma~óes modalizadoras, como a no quadro de um discurso essencialmente didático.
28
29
Os verbos enunciativos, "Eu digo", "Eu creio", "Eu quero dizer", "Eu
penso que", etc., acentuam a diferen~a. Sao muito freqüentes em Blum,
introduzindo constantemente o "olhar reflexivo do sujeito falando sobre
seu próprio enunciado". 42 Inversamente, estes verbos sao raros em
Thorez. Em Blum, além disso, estes verbos estao associados a shi/ters 4 3
de tempo (agora, hoje, na hora atual).
O sistema de advérbios é importante de ser abordado pois permite a ¡ E• '
~> 5
..
, i
;¡e j
modaliia~ao do discurso. Aqui ainda aparece a oposi~ao entre Blum 1¡~
t~~
e a H
e ·Thorez. Os advérbios em mente, muito numerosos no discurso de ~ff. !3 ;¡~~

Blum, estao quase ausentes no de Thorez.
O sistema das transformafóes modaliza igualmente o enunciado.
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h 1;¡
....-.
1 11 1
ea· ¡e e¡¡e !j. , ,e
-.- As negativas implicam um enunciado inverso, implícito ou
.expresso. Implicam um certo modo de presen~a do enunciado adverso. .1
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Enquanto Blum utiliza muito freqüentemente a transforma~ao negativa, .e
e ¡¡ !f~ Íh 11 • !1, =gJ a3Jc~
Thorez a utiliza mais raramente, e suas transforma~<>es negativas sao
essencialmente didáticas.
S
3-
ee
;~~i;
!an~
• il~ 11 11
:¡il~
'
~~u 3 i a au
- As passivas suprimem, na maior parte do tempo, o agente da
a~ao, sujeito do verbo em forma ativa. Enquanto que em Blum a
1
'ij:
;:;11

3• .
,
1 1
d
¡
metade das passivas nao suprimem o agente, em Thorez as passivas ' .J
~t
~
i i •
elidem o agente e se fazem acompanhar de nominaliza~<>es, de subor- ::-o
.~ II.S!
a 'l1

j i J
;•
t.
il
dinadas passivas de finalidade introduzidas por um verbo injuntivo; .!
.il'•ji ~~
B

u
=J.g S
daf o didatismo da análise. ·
1!~;,
o.
.¡s
.:=
K
<. !
-· As modalidades exprimem pedormativos (querer, dever,
poder, ser preciso), repartem-se diferentemente nos dois discursos, ~
B
•'
·- !1 •::
~H~~
1

1
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8 •
fi·
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corroborando as clivagens reveladas pelas marcas enunciativas já assi- h =·
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1 r~2~ j
~- S
so~ so 1 e"
1

s e exemp o, concernindo entre outros ao estudo dos processos


de enuncia~ao, permite que se estabele~am balizas na constitui~ao de
30
~~
r j .¡;u,
uma Lin ""ística do Discurso, que interessa em priroeiro lugar ao his-.
toriador. . . Esta Lin ·· sttca o scurso, que reco oca comp etamente
,lAIIOWVlÚ em uestao a sun~o o ·aa¡ r Saussure entre lin a e tiíla, com
\
do que as armas, o equilíbrio do terror, etc._?" No prim~i:o ~aso, .P
interlocutor partilha meu pressuposto, meu sistema de evtdenc1a; nao
0 coloca absolutamente em questao. Apenas discute meus argumentos.
Estamos no quadro da implica~ao. 41 Outro interlocutor, por sua ·vez,
a ·con ·~o que a se rte um m e o individu ·sta, centr o nao considerará legítima ou ilegítima minha proposta, mas se aterá
(

'lniJiia ptdt:m!miitlca do suJetto, ·pode, como veremos, engrenar num.i a meu pressuposto, a suas evidencia~, ao que, ~u coloquei fora d7 causa
teoria das tdeologtas. Oütros elementos, que, sem se coñfundirem totaT-' em meu discurso, a saber, que ser1a necessar10 defender ~ Ocidente;
mente com a enunaa~io, sio amplamente postas em funcionamento portanto que o Ocidente estava amea~ado. Se o segundo mterlocutor
por estes mecanismos, interessam-nos sobremaneira. Outra baliza de diz "ma~ por que defender o Ocidente?", das duas uma: ou ~ anta-
D . ~ _j_ uma Lingüística do Di~rso, e a qual deveremos voltar: as pesquisas . gonismo de nossos dois sistemas ideológicos toma todo. di~ogo l~pos­
, ¡)JJ(J LVI de O. Ducrot concernindo aos pressu~B§._as implica~s, os subenten- sívd e estabelece o que o bom senso chama comumente .um diálogo
,~~ didos. "A linguagem natural, aii O. crot, nao tem por úñica füñ~ao de s~rdos", ou nao tenho outra solu~iio a nao ser replicar-lhe cernas
•· \ 1 • , -;tt;"nsmissio das informa~óes [ ... ] queremos dizer que, indepen- vejamos, é evidente", pos rulando assim a universalidade de m7u pr?-
~~dentemente de toda informa~iio, o simples ¡ogo da linguagem instaura cedimento, de meu pensamento e abrigando-me, por detrás da filosof1a.
\ ¡, . J.•J,..., entre os ilulividuos certas relitfóes decolaborafáO, de luta, de dominio, do bom senso para melhor aprisioná-lo, "todo o m~d~. sabe", ·.:todo
· ~J de depend~ncia.""' A este respeito, o pressuposto é fundamental. mundo ve", etc. ceA recusa dos pressupostos const1tu1 uma at1tude
Trata-se de uma representa~iio requerida do auditot: para que o enun~ muito diferente da crítica do que é colocado. Comporta sempre. nota-
ciad6 se integre numa comunica~iio normal, diz em substAncia O. damente urna forte dose de agressividade, que transforma o ~ogo
Ducrot. Ele implica o conjunto de condi~óes que devem ser preen- em um afrontamento pessoal. Reje.\tando os pressupostos de meu mter~­
chidas para que um enunciado seja lingüísticamente normal e para que locutor eu desqualifico nao só o pró río enun · · de
a comunica~o possa se estabelecer. Apresenta-se como uma evidencia, enunct;~ao o qu e e ~roce e. ~ d~~,tudo do fupcionamento dos
"como um quadro incontestável, em que a conversa~iio deve necessa- pressupostos com a con-.~ao de nao sÍtuá-los unicam~te na 1ín a, 49
riamente inscrever-se, como um elemento do universo do discurso. In- mas como co r xtmo o r onstru o o e
troduzindo uma idéia sob forma de pressuposto, fa~o como se meu como a enunc1a~ao, engrenar numa teona as orma óes discursivas
interlocutor e eu próprio nao pudéssemos deixar de aceitá-la. Se o es e .orma~oes 1 eo og¡cas.
col~do é o que eu afirmo enquanto locutor, se o subentendido é o
· Outro demento fundamentál de u~a Lingüística do DisC?rso é a~
que deixo meu auditor concluir, o pressuposto é o que apresento como conota,ao Por certo essa n~ao nao é stmples de. ser ap~eendida; ~eu aW\ -
oomum is· duas onagens dO dialogo, como o ob eto de uma cum- 1ñargem a múltiplos trabalhos e a todas as espéaes de mterpreta~oes
tct e fundament que ga entre s1 os artici antes do ato e co- complexas e contraditórias. 111 Retenhamos, com Hjelmslev, que urna
mu~ sta cump tct a e un amental, de que a a . · crot, linguagem é conotativa quando o significante é já urna linguagem, quan-
.1ii:Z"Com que as informa~óes implícitas do pressuposto estejam fora de do ele próprio comporta urna expressao (o signific!nte), .e um co~-
causa, evide.-,tes, incontestáveis. Por isso, o pressuposto for~a o ínter~ teúdo (o significado). R. Barthes retoma esta no~ao, obnga-a a s~u
locutor, cerca-o, coloca-o de um só golpe, muitas vezes contra a von- do domínio estritamente lingüístico para torná-la o ·centro da semto-
tade, num sistema de pensamento, num universo ideológico preciso; logia. Um primeiro nível é constituido pelo signo (significante e signi-
aprisiona-o. · Vemos entao bem sua fun~iio polemica uando o com- ficado) do termo da língua objeto; é o nível da. denota~ao, da ~e~-
paramos a implica~ao og1ca. · a e esa do Ocidente neces- sagem explícita. Para além disso, este signo functona como um s~gn~-
"S1ta grandes .teCürsos. Jñdttares", podem ser formulados dois tipos de ficante e, desligado em rela~ao ao primeiro nívd,_ produz-se um stgru-
resposta. Num caso, o interlocutor ~entará refutar meus argumentos ficado o de conata~ao. Significante. e significado .deste segundo ffi.vel
por urna argumenlafáo lógica, e estabelecer-se-á o diálogo. Este inter- produ~em o signo mítico, ou ideólógico. "Dir-se-á entao que o. sistema
locutor poderá dizer que nao está de aco.rdo com a proposi~iio expressa, conotado é um sistema cujo pl;¡no de expressao é ele próprto cons-
com.meu julgamento. Ele se aterá ao conteúdo, dirá "no entanto", tituído por um sistema de significa~ao." 112 .
"entretanto", etc., 46 por exemplo aquí: "nao valeria mais, para de-
fender o Ocidente, o prestígio, o exemplo, a discussio, a negocia~io,
33
Significante 1 Significado 1 denota~o

Significante Significado conota~ao

Signo mítico

· Dois exemplos, um tomado de empréstimo de O. Ducrot, o se-


gundo de R. Barthes, permitem ilustrar o funcionamento das ·cono-
. Notas do capítulo 1
ta~óes.

"Se para desaconselhar a alguém de deixar seu carro num lugar


proibido e severamente vigiado eu lhe digo que aí' o estacionamento
é Verboten, supóe-se que o emprego do alemao exprima, visto urna 1. O. DucROT, "Greimas, sémantique structurale", notícia em L'Homme, out.·
-dez. 1966, p. 121.
certa imagem convencional da Alemanha, a vigilancia da polícia/' 5 3 2. Cf. Oaude LÉVI-STRAUSS, Anthropologie Structurale, París, Plon, 1958,
Este exemplo fornece-nos urna das marcas de conota~óes possíveis: o "Introdu~ao", pp. 24-25: "~ pois as rda~óes entre a História e a Etnología,
uso de urna língua estrangeira. Hjelmslev indicava outras: o uso de no sentido estrito, que se reconduz o debate. Nós nos propomos a mostrar
regionalismos, do jargao profissional, ou ainda a imita~ao do estilo de que a diferen~a fundamental entre os dois nao é nem de o~jeto, nem, de
um indivíduo conhecido, processos todos cujo significado é "desligado" finalidade, nem de método; mas que, tendo o mesmo ob¡eto, que e a
vida social, a mesma finalidade, que· é uma melhor intelig~ncia do hom:m,
no tcx;:ante a simples denota~ao. O segundo exemplo diz respeito a e um método onde varia somente a dosagem dos processos de pesquisa,
urna. fotografia, urna capa de París-Match. Representa um jovem negro, elas se distinguem sobretudo pela escolha de perspectivas comple~entares:
vestido com o uniforme frances, fazendo a sauda~ao militar, com os a História organizando seus dados em rela~ao as expressóes conscientes; a
olhos .levantados, fixados sem dúvida na bandeira tricolor, diz R. Etnología 'em rela~ao as condi~óes inc~nscientes da vida social."
Barthes. O nível da denota~ao é simples, literal, manifesto. Trata-se 3. Utilizamos a n~o de nao-consciente para evitar a analogía com o conceito
central da psicanálise. Em Les Dossiers ·Pédagogiques de la Radio-television
de um soldado negro que saúda a bandeira francesa. Entretanto, este Scolaire 1966-1967 num curso sobre a linguagem, em resposta a uma
signo na realidade significa coisa bem diferente ao nível da conota~ao: pergunt~ do Dr. Laplanche, P. Bourdieu responde: "Penso, com efeito, que
"que a Fran~a é um grande império, que todos os seus filhos, sem dis- . é importante distinguir precisamente dois níveis:. es.~~ inconscient; impe~soal,
de que falam os sociólogos, os etnólogos e os linguistas, e este mconscrente
. tin~ao de cor, servem fielmente sob sua bandeira, e que nao há melhor · pessoal de que o senhor fala como psicanalista" (p. 27). Por várias vezes, na
resposta· aos detratores de um pretenso colonialismo do que o zelo deste mesma conversa, P. Bourdieu, no mesmo espirito, diferencia o "isto fala".
negro em servir seus pretensos opressores." 54 O primeiro sentido dos psicanalistas do "fala-se" dos sociólogos. ~ evidente que nao se trata
está apagado; é tomado como o significante do segundo sentido cono- aí da recusa da psicanálise, mas de uma posi~ao metodológica.
tado, que diz respeito ao imperialismo frances e a tranqüilidade de 4. A respeito desta forma de crítica dirigida a História, ver as pri~eiras
sua consciencia. A conota~ao que faz apelo ao código cultural e ideo- páginas de R. RoBIN, "Por uma História das Ideologías", A. H. R. F., ¡ulho
lógico de um país ou de urna classe, de um grupo, pode ser urna das de 1971.
5. G. MoUNIN, em Dossíers pedagógicos da R. T. S., .número consagrado a ,lin~
balizas certamente mais aventurosas e menos formalizadas mas certa- guagem, sob o título: "Da extensao da n~ao de linguagem e dos conce1tos
mente a mais frutuosa possível de urna Lingüística do Discu'rso. Muitos lingüísticos", 1967, pp. 1.5-16. · .
outros elementos deveriam ser considerados aqui, tais como a modu- 6. G. MoUNIN, IntrodufáO a Semiología, París, ~dition Minuit, 1970, capítulo
a~ao retórica e a modula~ao estilística, as quais ~ teremos ocasiao de intitulado: "A semiología de R. Barthes", pp. 189-197.
voltar. Nao tínhamos outra ambi~ao neste capítulo;' a nao ser abordar 7. R. BARTHES, Mythologies, 1954. ·~Le monde ou l'on catche", pp. 11-21
da nova edi~ao.
sumariamente certos e ementos e urna In suca o iscurso que,
mia assica ngua a a autoriz o @ R. RoBIN, "Histoire et linguistique: premiers jalons", Langue franfaise, n.o
9, fev. 1971, pp. 47-57.
ca, engrenan o numa teoría· das forma:~óes. discur- 9. R. RoBIN, artigo citado em A.H.R.F., pp. 306-307.
das forma~óes ideoló icas. · · - --~~ ·-
10. ·F. FURET e A. FoNTANA, "Histoire et Linguistique", em Livre et société, t.
2, París, Mouton, 1970, p. 95.
34 35
11. Um bom ·ex~pl? de descontrufáo das estatísticas oficiais ou quase oficiais
pode s~ aqut :eudo em LiNIN, Le Dlveloppement Ju capitalisme en Russie. stvas, que permitem ao locutor, pela associa~ao de um cetto som a um certo
Ele crtttca multas vezes a maneira pela qual sio estabelecidas as estatísticas sentido, formar enunciados - e isto, em principio, ao infinito. :e a com-
de que: dispóe para estudar a penetra~o do capitalismo na Rússia: "Basta petencia que dá conta da criatividade da linguagem. Assim, o estudo da
uma Vlsta d'olhos a este quadro .para nos certificarmos a que ponto sio competencia é objeto da gramática. Esta deve ser capaz de enumerar explí-
ficticios os 'números médios' que tanto se gosta de manipular entre n6s citamente, isto é, de engendrar as frases gramaticais ·da ·Ungua, de onde seu
quando se fala da 'Burguesía' ", ou ainda, a prop6sito dos tipos de compa~ nome de gramática genetativa. Pode-se dizer que, muito esquematicamente,
ra~ estabdecidas: "Há necessidade de comparar o número das explo~ a gramática compreende a componente sintáxica que engendra ·seqüencias de
que empregam ~dos com a totalidade das explora~ 'cam~nesas', elementos mínimos, o par abstrato, estrutura profunda, estrutura superficial.
quando estas últtmas compreendem as explora~s dos pr6prios assalariados Ao nível sintagmático, ela fomece a descri~ao .estrutural da estrutura pro-
~grl~~s. Pr~endo assim, podet-se-ia negar também o capitalismo na funda, frases-núcleos, das quais sao derivadas as estruturas superficiais. Ao
tndustna russa· ... nivel transformacional, ela descreve as transforma~óes pelas quais se passa
Out:o. exemplo intetessante, num livro em outros pontos contestável: da estrutura profunda a estrutura superficial. A gramática .generativa com-
Chrtsttan BAUDELOT et Roget EsT.tBLET, L'Ecole capitaliste en France, París, preende, além disso, a componente fonológica, que traduz numa cadeia so-
Maspero, 1971. Se, a partir dos "quadros da edu~ nacional", edi~o de nora fonética a seqüencia de elementos. depois da transforma~o. A com-
1968, as págs. 222-22.3, le-se a reparti~ao da popula~iio escolar por idade, ponente semintica, enfim, permite a interpreta~ao semintica da frase.
por nível, no ano 1966-1967 (acrescentando os dados relativos ao ensino 23. Ver em particular Claudine NORMAND, "Propositions et notes en vue d'une
particula_:),fica claro qu~, segundo estas es~tísticas, 63,7% dos jovens de 17 lecture de F. de Saussure", La Pensée, n.• 154, dez. 1970.
anos estao no segundo ctclo longo. De fato, como o sublinham os autores,
falta a esses quadros uma coluna; aquela em que figurariam os jovens de 24. F. de SAUSSURE, Cours de linguistique générale, París, Payot, 1966, pp.
17 anos que nio estio mais escolarizados em 1966-1967. Se se reintroduz 30-.31.
este elemento, vC-se entiio que em 1966-1967, tres quartos das crian~s de 17
anos estio fora do ensino longo.
12. Ver mais adiante nossas breves observa~ sobre a análise semica.
® Quanto ·ao problema do corpus, ver Qaudine NoRMAND, "De quelques no-
tions fondamentales sur un enseignement d'initiation
set publicado em Langue Franfaise. •
a
la linguistique", a

13. Vet a este propósito J. Katz e J. Fodor, "Structure d'une théorie sémanti- 26. J. DuBOIS, Le Vocabulaire politique et social en France de 1869 a 1872,
que", tradu~ao em eLes Cahiers de lexicologie, n.• 9 e 10, 1956-1957, e París, Larousse, 1962, p. 189.
Langages n.• 1, 1966, consagrado as "Pesquisas Seminticas".
27. G. MoUNIN, "Un champ sémantique: ~la dénomination des animaux domes-
14. M. PEcHEUX, Analyse automatique Ju discours, París, Dunod,. 1969, 152 tiques", La Linguistique, 1965; n.• l.
pp., p. 29 (Cole~ao "Sciences du comportement"). ..
15. J. LYONS, Linguistique glnérale: introduction a la linguístique théorique, tra- 28. L. GuESPIN, "Problématique des travaux sur le disc~rs politique'', Lan-
~ gages, n.• 23, p. 10. De urna maneira mais habitual, distingue-se a frase
¡ du~o de F. Dubois-Charliet e D. Robinson, Paris, Larousse, 1970, p . .36.3.
que se estuda essencialmente no quadro da língua; o enunciado que pode
16. Frase de KATZ, citada por J. LYONS (obra citada). ·p. 361. a
f '17. Ao !llenos no que concerne ao Z. S. HAnxs do Discourse analysts de 1952,
ser transfrástico, mas que se pode reduzir frase, se ela nao for mais
l encarada do ponto de vista exclusivo do sistema, mas como elemento de
verttdo para o frances, sob o título L'Analyse du discours por F. Dubois- discurso; enfim, o discurso.
-Charlier em Langages, n.• 13, mar~o de 1969. Depois, o problema parece
ter-se tornado um pouco mais complexq em Harris; ver mais adiante nosso 29. M. PECHEUX, obra citada, p. 16. Num artigo escrito em colabora~lio com
capítulo sobre "O método da análise dos enunciados". G. GAYOT, "Recherches sur le discours illuministe au XVIII" Siecle. Claude
18. HARRIS, obra citada, p. 13. . . de Saint-Martin et les 'circonstances' ", Annales E. S. C. maio/agosto de
1971. M. Pecheux diz de novo (sublinhado em parte por n6s): "Pensamos,,.
19. Cl. .HAROCHE, P. HENRY, M: PECHEUX, "La sémantique et la coupure saus- de nosso lado, que o ponto decisivo que comanda .todas' as respostas a per- .
sunenne: Langue, Langage, Discours", Langages, n.• 24, pp. ·93-106. gunta "qual é o objeto da semintica e sob qual forma se pode aplicar esta
20. Estes exemplos sio de HAnxs, obra citada. disciplina a outra (por exemplo a Hist6ria)?" passa antes pelo exame
21. E. BACH, "Linguistique structurellc:: et philosophie des sciences", em "Pro- crítico da rela~iio entre Lingüística e Semintica ... para apreender o objeto
designado pela expressio de 'análise semintica de um material histórico' é
blemes du langage", Diogene, París, 1966. . · 'indispensável considerar este material como processo resultante de um con-
22. . Nao é possível apresentar numa nota, mesmo de uma maneria simplificada junto de condi~s que determinam sua realiza~iio. Introduz-se deste entáo
ao .extremo, o ~odelo chomskyano. N6s nos contentaremos em apresentar o termo do discurso para designar este material enquantQ religado as suas
mwt~ · esque~attcamen~e algUn5 dados de base. Chomsky. distingue compe- condifóes de· prodUfáo. Dir-se-á que, sendo fixadas as condi~óes de pro-
. tencta ou apttdao ~o locutor a.. emitir e a conipreendet frases, que ele no du~lio de um discurso, correspondo-lhes um processo de produ~iío deste
e_?ta~to . nU;?-ca. ouVlu, e ~erformance, que é a maneira pela qual a compe- discurso, ou processo discursivo. Efetuar a 'análise semintica de um ma-
tencia lingüfsnca é atualizada nos fatos de fala precisos. A competencia, terial histórico' significará, pois, no . que nos concerne, descrever metodi-
objeto da Lingü{stica, pode ser concebida éomo. um sistema de reg,ras recur- camente o processo discursivo do qua! · este material é a realiza~io."
{pp. 685, 686-687).
36
37
~-

30. Usamos de propósito este termo vago; veremos em seguida a que corres- institucionais, estatutárias dos dois partidos: partido com tendencias, em um
.~ ponde exatamente o campo do "extralingüístico". caso, partido sem tendencias, de orienta.;ao coletiva, em outro, o que acar-
<. reta urna impossibilidade para M. Thorez de falar em seu nome pessoal
Para a explica~;ao destes conceitos, ver mais adiante.
Cl 31.
32. D. SLAKTA, "Esquisse d'une théorie lexico-sémantique: pour une analyse d'un
( daí o desaparecimento do su jeito da enuncia.;ao, o didatismo), e a impos-
sibilidade para L. Blum de falar em nome de urna dir~ao coletiva. Poder-se-
~i. texte politique (cabiers de doléances)", Langages, n.• 23, p. 110. -ia enfim perguntar, como faz M. Foucault em L'Ordre du discours, se, além
das condi.;6es de produ~;ao, nao existe um discurso de grupo, urna forma
33. A propósito da distancia entre -língua e discurso, Julia }OYAUX-KRISTEVA
escreve: "A psicanálise torna impossível o hábito comumente admitido pela enunciativa de grupo. De fato, o estudo dos mecanismos e das marcas de
Lingüfstica atual. de considerar a língua fora de sua realiza~;ao no discurso, enuncia.;ao é dos mais complexos. Convencer-nos-emes disso com a leitura
isto é, esquecendo que a linguagem nao existe fora do discurso de um de Langages 17 consagrado a enuncia.;ao.
sujeito, ou considerando o sujeito como implícito, igual a si próprio, uni- 42. L. CouRDESSES, artigo citado, p. 25.
dade fixa que coincide com seu discurso. Este postulado cartesiano, que 43. Ver o léxico.
subjaz ao procedimento da Lingüística moderna e que Chomsky revela, é
abalado pela descoberta freudiana do inconsciente e de sua lógica." J.
44. O. DucROT, "Le Roí de France est sage: implication logique et présupposition
linguistique", E.tudes de linguistique appliquée, n.• 4, 1966, p. 41.
}OYAUX, Le Langage, cet inconnu, pp. 263-264 ( Cole~;ao "Le point de la
question"). Assim, também, pode-se dizer que o marxismo. e, em particular, 45. O. DucRoT, "Présupposés et sous-entendus", Langue Franfaise, n.• 4, feve-
o conceito da ideología e o estatuto que ele toma ao seio do materialismo reiro de 1969, p. 36.
histórico, impede da mesma maneira que se postule um sujeito livre, trans- 46. Ver a demonstra.;ao da diferen.;a entre pressuposto e implica.;ao em "Le
parente a seu discurso, suporte da própria língua pensada em sua neutrali- Roí de France est sage ... ", artigo citado.
dade ideológica. 47. Numa primeira abordagem, as implica.;6es (termo de Lógica) sao propo-
34. J. KRISTEV A, intervenl;iío por ocasiao do colóquio de O uny II sobre "Lite- si.;6es que devem ser verdadeiras para que este enunciado seja verdadeiro.
ratura e ideología", publicada em La Nouvelle Critique, número especial 39 48. O. DucROT, "La description sémantique des énoncés fran~;ais et la notion

r5. bis, p. 25.


Os precursores sao BAILLY, HJEUvi.SLEV e os fundadores do círculo de Praga,
em particular }AKOBSON. Neste dominio, como em muitos outros, é preciso
] de présupposition", L'Homme, 1968, p. 52.
49. Para o. DucROT, com efeito, os pressupostos sao fatos da língua. Ele insiste
neste ponto em numerosos artigos. Em "La description sémantique .... ",
~6. dar um lugar a parte a E. BENVENISTE, verdadeiro pioneiro na matéria.
T. ToooROV, "Problemer"de l'énonciation", em Langages, n.• 17, p. 3.
escreve: "0 afrontamento das subjetividades aparece, assim, como urna lei
fundamental da linguagem, ·nao somente por rootivos psicológicos ou socio-
lógicos, mas por urna necessidade inscrita no sistema da língua". Mais re-
37. L. CouRDESSES, "Blum et Thorez en mai 1936: analyse d'énoncés", em Langue
Franfaise, n.• 9, fevereiro de 1971. centemente ainda em "Présupposés et sous-entendus": "Se agora o pressu-
38. posto, diferentemente do subentendido, nao é um fato de retórica, ligado
J. Dullois, "Énoncé et énonciation", Langages n.• 13, maio de 1969, p. 104. a enuncia~;ao, mas se ele se inscreve na própria língua, é necessário concluir
39. J~ DuBOIS, ídem, p. 105. que a língua, independentemente das utiliza.;óes que se podem fazer dela,
40. J. DuBOIS, ídem, p. 106. apresenta-se fundamentalmente como lugar de debate e da confronta~;ao das
41. subjetividades." Para nós, o pressuposto nao é somente, nem principalmente,
O discurso de Léon Blum foi proferido no congresso do partido socialista,
no día, 31 de maio de 1936; o de Maurice Thorez, diante da assembléia um fato de língua, mas está na dependencia das forma.;óes ideológicas.
dos comunistas de París, no día 14 de maio. L. COURDESSES admite que, 50. Sobre essas no.;6es, ver mais adiante "Form:a.;ao social, práticas discursivas
grosseiramente, as condi.;oes de produ.;ao dos dois discursos sejam as mes- e ideología".
mas. O que coloca um problema, pois a situa.;ao de comunica.;ao nao é a 51. Nao se trata aqui de retomar a história complexa do termo "conota~;ao"
mesma. É o que observou muito bem L. GuESPIN ( artigo citado, p. 16), e seus avatares; desde a escolástica até Hjelmslev e Barthes. Sobre este
quando escreve: "Aliás, urna reserva necessária sobre este excelente artigo ponto, ver Jean MoLINO, "La connotation", La Linguistique, n.• 7, 1971/1.
leva a evocar o problema das condi~;6es de produ~;ao e, portanto, a assinalar Nao se trata também de saber se Barthes é fiel a Hjelmslev ou nao. Tal
o perigo de assimila.;ao abusiva: os dois textos nao sao emitidos nas mesmas qual se apresenta, a pesquisa barthesiana pareceu-nos fecunda para a pes-
condi~;6es, urna ·vez que o de L. Blum é um discurso de congresso, enquanto quisa histórica. Os problemas epistemológicos da rela~;ao entre o que
que o de M. Thorez foi proferido diante de urna assembléia de militantes. é da al.;ada exclusiva da Lingüística e o que dela extravasa nao nos ocupou
Um destes textos visa, pois, influenciar a orienta.;ao futura de um partido, aqui. . Para a no.;ao de conotal;iío, de sua utiliza~;ao em estudo literário, ver
enquanto que o .outro repercute urna orienta.;ao decidida. . Será necessário, Marie-Noelle GARY-PRIEUR, "La notion de connotation(s)", Littérature, n.•
assim, evitar atribuir ao sujeito da enuncia~;ao (o socialista Blum; o comu- 4, dezembro de 1971.
nista Thorez) o que é devido a um outro aspecto das condi.;óes de produ.;ao 52. R. BARTHES, "Éléments de sémiologie", Communications, n.• 4, p. 130.
(enunciado contra enunciado em um caso, enunciado sobre enunciado em
outro). A diferen.;a nas condi~;6es de produ.;ao está exatamente na fonte das 53. O. DucROT, "Le Roí de France est sage ... ", artigo citado, p. 43. ·
- diferen~;as no processo de produ.;ao destes dois discursos." Pode-se per- 54. R. BARTHES, Mythologies, obra citada, p. 223.
guntar, além disso, se nao intervem no processo de produ~;ao as diferen.;as

.38 39
· ~m~ ex~..;~ 1r~/t4¡ /:flx!(LM. ~~ wAv~ Pd f/vUM~./1/CVJ
~ (l//JJ ctr tv.r l. .
sociológica? Dir-se-á que, no primeiro caso, acentua-se o aspecto sm-
.
cronico do problema, que se aplicam métodos sociológicos a um dado
período, escolhido a título de corte sincronice; que, no segundo, acen-
tua-se o aspecto diacronico do problema, por que "História" .tomou-se
substantivo e "social" ou "sociológico" adjetivo? Na verdade, parece
que em numerosos es~dos podemos substituir o que G. Mato~ cha:~a
"Sociología". por. "História" e pensar que, ·para ele, a Lextcologta,
quando · tem por objeto o vocabulário das sociedades passadas · do sé-
CAPÍTULO 2 culo XVIII ou XIX, confunde-se com o objeto da História. Se se
trata de dizer, em outros termos, que tudo passa pela linguagem, ,que
AS, ARMADILHAS DA AUSENCIA DE UMA · um edito urna lei, um decreto sao palavras; que uma declara~ao de
TEORIA DA ARTICULA<;.AO guerra, ~a carta de administrador, uma corres~nd~ncia, um diár~o
íntimo sao também palavras, acabar-se-á por des1gnat urna tautolog1a
( tudo é linguagem) ou um impasse teórico fundamental. Nem a ~s­
tória nem nenhuma "ci~cia humana" terao a este pr~o um obJeto
próprlo, urna vez ·que estaríio nas ~as de um panlingüismo uni-
2 .l. A Lexicoloqia reduzida a socioloqia versal. Nao é a este impasse que nos conduz G. Matoré. Seu pro-
cedimento é inverso. Consiste em eliminar o próprio objeto da Lexi-
Uma primeira solm;ao consiste em integrar a Lingüística, ou uma cología, a fazer dela apenas um "ponto de vista". O nível discursivo
regiiío da Lingüística, a Sociología ou a. Histó~a. Neste caso, nao ( admitindo, por pura hipótese, que a Lexicología dá acesso ao processo
haverá mais problema de articula~iío do nível discursivo sobre o con- discursivo) é apagado, fundido no objeto da história social. Reto-
junto da forma~ao social: o nível discursivo, em sua relativa autono- memos uma das frases de G. Matoré, a que demos realce: "É partindo
ínia, desaparece. Parece-nos ser esse o procedimento de G. Matoré do estudo do vocabulário que tentaremos explicar urna sociedade."
..em sua obra. La Méthode en lexicologie. 1 Pois eis o que aí se 1~: A sociedade é aqui um termo vago, de .contornos imprecisos, global,
"A Lexicología (que) é, como veremos, uma disciplina sociológica, e impreciso porque global. Se as palavras diio ·assim acesso ao "social",
encara grupos de palavras consideradas estatisticamente do .Ponto de pode-se temer que o historiador, com repugnancia mas ·co~ ~o;a cc:ns-
vista nacional. . . A lexicología tem pois por objeto, como a Socio- ciencia, tome o discurso dos homens do passado, suas J-qstlftca~s,
. logia, o estudo dos fatos sociais. . . É partindo do estudo do vocahu- · como chave de seus comportamentos e de suas maneiras de agir e de
. lário que tentaremos explicar uma sociedade. Assim poderemos definir pensar: Agui, ainda, o que está em causa é o postulado da transpa..:_
a Lexicología como uma disciplina sociológica que utiliza o material rencia das estruturas sociais aos agentes que sao seus suportes. E
lingüístico constituido pelas palavras. . . A Lexicología social pode ~mpre o sujeito cartesiano, sem inconsciente, sem pertencer a urna
efetivamente ser considerada como aquela que ofer~e, nao um objeto classe, sem 1cleolo 1a, ue faia . ue se fala, ·e, através dele, se atribuí ·
novo ( é o mesmo que o da Sociología) 1 mas um ponto de vista parti- a estrutura o etiva as rela -es sociais. . e os omens do século XVII,
. cuhtr .. ~" 2 . Observemos desde já que o termo sociología na termino-
no ruve s asses 'rigentes, justificam. sua posi~o na hierarquiua
logia. de G. Matoré nao é precisado. G. Matoré, efetivamente, leva social pelo sentimento de honra e pela n~íio de honra, será que o ·
em · conta, nos anexos ou. ap~dices de sua obra, o campO nocional
"de arte e de artista" entre 1827 e 1834, e o campo nocional "de arte estudo do campo nocional da palavra horira nos revelatá a verdadeira ..
organiza~iío social e sua hjerarquia? Afirmamos ,que ela apenas reve-
e de técnica", por volta de 1765. 3 Evoca a tese de A. J. Greimas, •
a de B. ·Quemada; 11 como nao ser tentado a substituir o termo Socio~ lará a organiza~ao discursiva das classes dirigentes, como. efeito da
logia pelo termo História? Qual a diferen~, entiío, entre urna Socio- ideologia nobiliária, como efeito do sistema de representa~¡¡~ próprio
logia histórica, urna Sociplogia de uma sOciedade passada e· ·1..1ma His- da classe dominante. Nao sao palavras que revelarao a vet:~dena estro- ·
tória social, ou,. se se preferir um tomeio espirituoso, uma História tura social,. mas .sim, com a ajuda de conceitos articulados,. o estudo .
das rela~óes de· explora~ao do ou dos modos de produ~ao desta for-
40
41
2. 2. A palavra como índice de comportamento políüco e como
quanüfica~áo ·

Muitos historiadores que se interessam pelas possíveis rela~óes


da Lingüística ( com todas as ambigüidades precedentemente evocadas,
urna vez que nunca se explicita se essas rela~óes se depreendem de um
estudo do sistema, da língua ou de urna Lingüística do discurso) e da
História tomam, para tanto, um caminho teórico e metodológico encur-
tado, e que corre o risco ora de levar a dissabores, ora de faze-los de-
monstrar absolutamente· aquilo que eles procuram demonstrar - o
que vale dizer que, neste domínio, o risco de artefato é grande. É O CAMPO NOCIONAL DA ARTE E DO ARTISTA DE 1827 a 1834
que os historiadores, desde sempre, mantero certo tipo de relaciona-
mento com a linguagem. Se nao trabalham essencialmente a partir
de textos, estes permanecem, no entanto, a mais clara de sua matéria-
prima. Por isso, eles empenham em seu trabalho toda urna filosofía
da linguagem: "se é necessário levantar questóes relativas a significa~ao
de um texto, as mesmas que sao· abordadas na explica~ao tradicional
de texto, simultaneamente: o dizer e o querer dizer, o como e o por
que do texto, mas também do autor, do leitor, da sociedade; portanto,
de urna certa cultura e de suas tradi~óes, isto é, da Histrória- entao
a Lingüística se retira. Mas nao sem ter inscrito 'no vaziq', por esta
recusa, todas as dificuldades da empresa das ciencias humanas quando,
como a História ou a Sociología, fazem dos textos seus dados, postu-
lando implícitamente certa imediatez do sentido (do lado do pólo
receptor), ·ao mesmo tem o ue .a trans arencia das u alavras" (dos
discursos) . . . ou, em outras pa avras, tOda aná ·se e um mater1
vetbal, seja qmd for, empenha de urna maneira ou de outra hip6teses
e .or em tngut tea, mats . reqüentemente nao reconhecidas como
taiS... " 6 · A rela~ao que o historiador mantém com a liriguagem passa,
como efeito, como sublinha G. Prevost, pelo postulado da transpa-
rencia da palavra. É o que chamávamos há poüco de "caminho teórico
enctirtado", ao qual recorrem os historiadores. Nao possuindo urna
. forma~o específica. quanto ao que concerne aos problemas. da sintaxe O CAMPO NOCIONAL DA ARTE E DA TtCNICA EM 1765

42
ou da semintica, eles dirigem sua aten~io para o léxico. É atfavés sejam quais forem os caminhos: o candidato é capaz de manter dife.

i dele que pensam escapar dos postulados da imediatez do sentido e da


transparencia das palavras. Para tanto, formulam uma nova hipótese;
a de um isomorfismo entre os grupos sociopolíticos e o léxico. Cada
rentes discursos." 9 ,.

Acrescentemos que estas considera~óes nao· sao indiferentes ao


1 grupo político seria assinalado pelo uso específico que faria de certas historiador. Se o lingüista concluí que, de todas as maneiras, o candidato
pode tornar efetivo um outro léxico que nao o seu, o historiador· nao ·
palavras. Colocadas e conhecidas as atitudes políticas, espera-se, d~ja-
que lhes correspondam clivagens lingüísticas - mais exatamente, poderá deduzir diretamente o comportamento. político a partir· das pa-
léxicas - pertinentes. O vocabulário seria assim uma espécie de lavras utilizadas. As conclusóes da análise nao serio as mesmas do
etiqueta fixada sobre cada grupo político, na qual se desdobraria uma ponto de vista da posi~io política do candidato, dependendo de se sua
visio do mundo coerente, uma linguagem específica. Allás, nio seria fala se insere num discurso de conteúdo de direita, ou num discurso
necessário conhecer a posi~io política deste ou daquele; seu vocabu- de conteúdo de esquerda, mesmo que formulado numa forma de direite..
lário bastaría para defini-lo, para designar-lhe um lugar específico no As razóes destas distor~óes ·serio procuradas na c~njuntura, na base
tabuleiro político. É assim que se faz da palavra o índice de um com- sociológica da circunscri~io, etc. Inversamente, poderá ser o caso de
portamento político. Longe de negar o lugar estratégico do léxico, um discurso de conteúdo de direita numa forma de esquerda. V ai-se
longe de negar a "magia das palavras", queríamos mostrar, entretanto, concluir daí que, porque as palavras deste discurso sao etiquetadas
que a considera~io dada ao léxico só pode ser feita depois de muitas de esquerda, que o discurso é de esquerda? O perigo que espreita o
voltas, através de muitas media~; tao complexo é o estatuto da pa- pesquisador - contra a sua vontade - é postular um se8undo iso-
lavra .tio discurso. morfismo que duplique o primeiro, o da prática política, e o da prática
discursiva, isomorfismo pensado em termos de transparencia. Com
A hipótese acima explicitada implica certo número de conclusóes.
O isomorfismo postulado entre os grupos sociopolíticos e o léxico efeito, se o assinalamento de termos de esquerda basta para classificar
redunda, como vimos, em encerrar os grupos num léxico que lhes é o discurso conio de esquerda, vai-se acabar postulando que o uso do
termo paz implica um comportamento político pacifista, que o uso
próprio. ;Equivale se do as oh si 1 e.
atribuir ao locutor urna up a ingenuidade: lingüística e política. do termo socialismo conota um partidário do socialismo, que o uso
do termo revolucionário acarreta l,lffi comportamento político revolu-
.Urna ingeriuidade lingüística, uma vez que se postula que deter- cionário, e assim por diante, até apagar o jogo das opacidades, que fez
minado locutor é mcapaz de utiliZar por conta própria as palavras deste com que Mane dissesse que n~o se julgam os homens pelo que eles
ou daquele grupo que nao seja o seu, que é incapaz de manter um dizem de si próprios, mas pelo que eles sao. Volta-se assim,: quando
discurso diferente, que o conjunto de seus discursos apresenta uma acreditávamos que nos tínhamos afastado disso, a uma problemática do
lógica e urna· coerencia unívocas, tanto no plano do conteúdo quanto primado de um sujeito indiyidual, a um "eu falo", que se dá na trans-
no do léxico. É assim que J. B. Marcellesi, interrogando-se a respeito parencia de seu discurso unívoco.
de certas observa~óes de A. Prost a propósito do estudo das profissóes
de fé eleitorais dos candidatos de 1881, publicadas em anexo do Diário Uma ingenuidade política, enfim, uma vez que se atribui ao lo-
Oficial, sobo nome de um de seus colegas, Barodet, 8 escreve: "Cons- cutor· a incapactdatle de utilizar o modelo de performance dos outros.
tatou-se que, em circunscri~óes de direita, um candidato de esquerda o locutor, numa dada conjuntura, pode ter interesse e~ utilizar o mo-
usava palavras utilizadas geralmente por candidatos de direita. O fato delo adverso. É que um discurso pOlítico, sempre polemico, acarreta
basta ao historiador para classificar índices, mas o lingüista deve saber certo jogo de contráda.n:~as léxicas, que se podem conceitualizar sob os
entao se se trata da tradu~ao de um discurso de "forma esquerdista" termos de simula~iio, de mascaramento, de conivencia: ''Pela simul(Jfáo,
para um discurso de "forma direitista", mantendo-se invariável o con- o locutor toma de empréstimo o vocabulário de um grupo que nao é o
. teúdo; se se trata de um discurso de conteúdo de direita, oposto ao seu para sustentar um discurso de seu grupo, fazendo-o. aparecer como
discurso de co~teúdo de esquerda pronunciado em outro lugar; ou o discurso de outrem. · Pelo mascaramento, ·o locutor faz desaparecer
se s~ trata de um discurso de conteúdo de esquerda sobre problemas de seu discurso as: unidades que o designant como de um grupo. Pela
que nao preocupam os eleitores das circunscri~óes de esquerda. De coniv¿ncia, ó locutor utiliza tim vocabulário que o faria classificar-se
todo jeito, a conclusio pa.ra o lingüista será patcialmente a mesma, como de um grupo, se os .próprios destinatários ~io soubessem que

44 4.5
ele nao . pertence a este grupo e, por este motivo, este vocabulário
tura política, da análise, que é feíta, embora intuitivamente, da rela~ao
aparece ~mo rejeitado, embora empregado." lo
das for~as, do jogo das alian~as, dos efeitos procurados e visados, etc.
Um claro exemplo de mascaramento é fornecido pelo estatuto Convém concluir rovisoriamente ue, no discurso o locutor se dá tal
do ín~ "proptiedade", em suas distribui~óes específicas, nos cahiers cómo. guer aparecer. ou tal como se ve em uns;ao de seu sistema de
de o éances da nobreza. Sabe-se que repugna a nobreza, nos cahiers representa~óes, e nao diretamente tal como sua prática lítica e como
de dolédnces, o uso do termo "feudalidade". Este termo funciona como a s1 · ica ao a n - 1 e sua rat1ca o 1t1ca o efine. Convém,
puro signo de reconhecimento ideológico, como puro significante. sem e 1m, concluir que o estudo das práticas discursivas engrena num
significado, como forma disponível a toda matriz de tra~os Jortemente estudo das forma~óes ideológicas e, por este motivo, nao dá &reta-
negativizados. Por este motivo, a nobreza vai utilizar, para falar da mente a:cesso a prática política em sua objetividade. Entre o dizer
feudalida:de, dos direitos feudais e senhoriais, um termo nao marcado, e a rela~ao das for~as, intercala-se todo um jogo de opacidade, e o
que nao a designa enquanto nobreza, que, pelo contrário, afunda numa problema essencial poderla· ser enunciado como se segue: dada urna
aparente unanimidade nacional, o de "propriedade", termo genérico tal conjuntura, por que acontece que tal grupo possui tal discurso,
que se presta a. todas as ambigüidades. Somente a distribui~ao, isto enquanto que em outra conjuntura ele possuía outro; qual o desnível
é, o contexto, as liga~óes lógicas entre proposi~óes virao tirar a ambi- entre os dois discursos? Mas estamos muito'longe, aquí, do postulado
güidade da no~ao de propriedade no discurso nobiliário. Jaures sentiu do isomorfismo. ·
perfeitamente este fenómeno de mascaramento: "mas, como afirmar
o dir!!ito superior da propriedade, para liberar e consolidar a proprie- Na realidade, a palavra encontra-se implicada numa proposi~ao,
dade burguesa, sem confirmar ao }llesmo tempo a propriedade dos e é esta propos1~ao que 1mporta sobremaueira. Sfto estas propos1~oes
monges e dos nobres, os direitos feudais e os bens da Igreja? Justa- que subJazem a um mOdelo 1deolog1co. :Estudando o vocabulário da
mente nos seus 'cadernos', a nobreza e o clero, sobretudo a nobreza, guerra da Argélia através dos seguintes jornais: L'Aurore, Le Fígaro,
afirmavam exatamente o respeito absoluto das propriedades, de todas Le Parisien libéré, Le Populaire, Le Monde e L'Humanité, D. Mal-
as propriedades e, em nome do direito de propriedade, pretendiam nao didier mostra que a maior parte das palavras constitutivas desse voca-
só manter seus privilégios contra toda tentativa de expropria~ao, mas bulário apenas toma verdadeiramente um estatuto político pela propo-
ainda opor-se mesmo a remissao obrigatória das servidóes feudais. si~ao que formam e~ estrutura profunda, isto é, pela rela~ao que ins-
Assim, tomavam de empréstimo sua fórmula mágica a revolu~ao bur- tituem entre "Argélia" e "Fran~a". Todos os jornais utilizam "na~ao"
guesa, para perseverar nos abusos do passado. Ia assim a burguesía ou "pátria", os. sintagmas "unidade da na~ao", "independencia da
deixar-se enganar por seus próprios princípios, e poderia o inimigo na~io". Eles podem ser utilizados seja em referencia a Fran~a, seja
apoderar-se, para for~ar o campo, de urna palavra de ordem da própria .em referenciaa Argélia.. A palavra "na~ao", comum a todos os jornais,
classe burguesa?" 11 O que Jaures mostra muito bem é precisamente pode remeter a "a Argélia faz parte da na~ao francesa" ou a "a Argélia
a impossibilidade do isomorfismo entre léxico e posi~ao política. é urna na~ao". O autor insiste no fato de que a atitude que consiste
Com Hébert, em Le Pere Duchesne, é com ulna simula~ao que em tomar as palavras como índices do comportamento político nao
nos ocuparemos. Se principalmente o léxico, mas também a forma ·leva· absolutamente em conta o que evocamos precedentemente, os fe-
geral das imagens, das metáforas, da própria sintaxe, se querem "sans- nómenos de mascaramento, de simula~ao e de conivencia, fundamentais
-culottes"' populares ( empréstimos constantes ao teatro de feii:a, as ao plano de um discurso político. Ela escreve: "Se é verdade .que a·
pragas, a linguagem familiar, etc.)' o disrurso e a ideología política palavra se situa ao nível do que a gramática gerativa chama de per-
veiculada nao s.iío menos jacobinos. 1 2. Assim, existem todas as espécies formance, e que, no texto, representa urna proposi~ao, parece impos-
de distor~óes, de desníveis entre o léxico utilizado, a mensagem polí- . sível nao levar em conta o enunciado inteiro. O que se postula entao
tica veiculada e a posi~ao dos locutores. É que é preciso contar com é urna rela~a<? entre urna estrutura sintática é um comportaÍnento polí-
o. domínio da linguagem por parte dos locutores e, inconsciente ou tico. Nao sao as palavras, é 'a reparti~ao das palavras no texto que
conscientemente ( com a condi~ao de que este último vocábtilo nao imJ:?lica um modelo ideológico subjacente'." 1 3 Veremos, allás, ue
seja conceitualizado numa problemática da liberdade do sujeito que mrus do ue da alavra na ro si~ao trata-se da palavra numa asse
pensa e fala), com urna estratégia do discurso em fun~ao da conjun- e proposi~óes. 14 e tudo isto res ta que o estu o a p avra, sem ao
menos seu contexto em estrutura superficial, é ilusória;· Com ,efeito,
46
47
. . '"1
a palavra é, por defini~io, polissemica; ela é o que a economia da ftura superficial, nao poderia ficar ao nív·el· da palavra, pois esta tem /
língua permite que seja. Pode, como se diz comumente, ter vários 1 ~ estatuto de polissemica. 111 Empregada por grupos diferentes, ela r·
sentidos; diremos mais: pode implicar urna estrutura profunda das muda de sentido, de valor, confornie seja utiliZada por um ou por 1

proposi~óes contradit6rias, pode conotar esquemas ideológicos opostos. ( outro. Digamos com M. Pecheux que "as palavras mudam de sentido 1
.
A desambigüiza~io, a triagem da polissemia se faz pelo contexto, pela 1 '-
segundo as posi~óes daqueles que as empregam". 16
1 • •
·
••
_.J•
pr6pria estrutura do ·discurso; pelo sistema de paráftases sinorúmicas, Outra dificuldade, quando nos atemos a palavra, provém do fato
pelos substitutos escolhidos e os valores positivos, negativos, neutros de que certos tipos de análise sao impossíveis. Quando M.-R. Guyard
que os ·afetam; pelo sistema dos antonimos, que elucidam o estatuto com~ou seu estudo sobre O Vocabulário Político de P. Eluard 17
da palavra, e o tornam unívoco, onde reiriava o equívoco. Tomemos em sua poesía, constituiu um índice de palavras por ordem de fre-
o exemplo mais simples que existe: a palavra democracia, usada por qüendas decrescentes. Palavras propriamente políticas, identificáveis ·
todos os grupos políticos, excetuada- a extrema Cfueita te ainda, em im~atamente como políticas, havia muito poucas. Em contrapartida,
certas conjunturas, ela pr6pria é levada a utilizá-la). Tomada como podía-se notar a freqüencia de palavras pertencentes ao ambito de
índice do comportamento político, a palavra nao nos levará muito campos semanticos nao-políticos, dos elementos naturais (sol, noite),
longe. Polissemica, ela pode designar ideais, progr::tmas, v.alores opostos. da vegeta~ao ( árvore, botao, grao, ramo, espinho, fruto, ramo, co-
O que lhe vai conferir seu ~tatuto político preciso é a proposi~io que lheita). O vocabulário dos elementos naturais, da vegeta~ao, coloca
a implica: sempre em obra, entretanto, um serna ( + humano) que interessa ao
salvar a democracia amea~ada pelo comunismo homem e ao jogo dos predeterminantes, dos caracterizantes, assim como
o\. jogo do Nós.
e
salvar a democracia amea~ada pelas torpezas do capitalismo S~mos os frutos semelhantes de uma árvore
Estamos num só ramo
(tomamos de propósito estruturas sintáticas formalmente semelhantes). Folhas e frutos para servir a árvore
Estas frases dio conta de dois esquemas político~ opostos. Além disso, Como se fOssemos as folhas de uma mesma árvore
o sistema dos substitutivos da palavra democracia reduzirá ainda a
polissemia. No primeiro caso, o substitutivo será o mundo livre; no Há aí nítidamente urna rela~io de inclusao dos elementos fruto ou flor
ségundo, as liberdades individuais ou, em outro discurso, o povo; Os no conjunto, seja ele ramo ou árvore. A idéia da identidade dos ele-
adjetivos liberal, ocidental ou burguesa, formal contribuem para a de- mentos e de sua unidade é expressa por
sambigüiza~io, assim como os antonimos e seus substitutivos: comu-
nismo, totalitarismo- em face de capitalismo, sistema de explora~áo, etc. .uma
A polissemia pode ainda ser revogada pelos fenomenos de enuncia~io, um só
as marcas formais de rejei~ao, como· as aspas, ou outros. "Estes" uma mesma
democratas, "se· os escutamos", implica que aqueles de quem se fala ou pelo caracterizante
nao sao considerados comó deniocratas. A palavra é empregada, mas
rejeitada. · Inversamente, em' "alguns dizem que n6s nao somos demo- semelhantes.
cra~as, mas quem sao esses que ousam caluniar-nos. assim?" - as
Diarcas de enuncia~ao sao importantes:~ alguns remete aos. adversários Estes ele~ntos remetem a·um referente humano, plural, forado campo
polític()s que negam aos loc\:ttores a qualidade de ·de.moáatas; o verbo ·· semantico. ~ vegetac;ao. O signifiCado nao deve, pois,. ser procurado
· qaluniar indica que o epíteto demdcratas é assumido, reivindicado pelo no vocabulário ·da vegeta~io, mas num referente humano; o que é
locutor que remete pela forma interrogativa a nega~ao aos adversários. indicado pelas combínac;óes de palavras, pelas rela~óes sintáxicas. O
e, assim, por sua vez lhes interdiz o epíteto democrata. É que a pa~ caráter político deste vocabulário nao remete as palavras.
lavra democrata, nos dois .modelos de performance implica proposi~ ·
. que remetem a modelos ideológiCos adversários. . Este rápido exame
mostr·a que, e~todos os casos, mesmo se a análise se limitassé a estru-

49
cad~, o que nao é o caso, ~omo o mostramos, insistindo sobre a polis- 2. 3. A Sociolingüística
j
semia das palavras. Além disso, eliminaram-se as combina~óes nas quais
entramas pala~r~s, .s~as rela~~s. Mas este é um perigo, sobre o qual .Para quem le a imensa produ~ao consagrada a Sociolingüística,
J.-B. Marcellesi mststtu por diversas vezes. O discurso político en- a impressao de mal-estar é inevitável. . A busca do objeto específico
quanto discurso polemico, reserva a "injúria" um lugar especial.' Ela passa ao segundo plano, por detrás de considera~óes metodológicas
aparece como urna reformula~ao que implica urna nega~ao. Diz-se 0 que retomam, seja para criticá-las, seja para utilizá-las, as "análises de
que seus a~versários sa~ e o que nao sao: "O processo corresponde a conteúdo", ou reflexóes e observa~óes teóricas gerais sobre as rela~óes
reformula~ao por nega~ao de nega~ao: ao discurso 'somos socialistas' de conjunto do que se chama, no quadro da escola culturalista, a "cul-
resp¡;:mde a injúria 'voces nao sao socialistas'· voces sao de um lado' tura" e a linguagem. Trata-se da hipótese comumente chamada Sapir-
'blumistas, reformistas, traidores da socied~de, confusionistas'· d~ -Whorf, segundó- a qual "os ~ndos nos uais vivero as diferentes
outr~ lado, 'loucos, criminosos, extremistas'. Sendo a injúria 'reas- sao mun os Istmtos e nao a enas o mesmo mun o so
~u~?a, chega-se ao processo inverso: 'dizem que nós somos - mais erentes"? 19 Neste caso, cada língua é urna v1sao o mun-
InJ~rta - , mas somos socialistas': Assiste-se assim, de urna maneira ...ld~o-=,~,....,.,u~m=a:::-cu=:-rl-;::tu::r:::a-r:ia:r:e::ológica" total ou parcialmente irredutível aos
curtosa, a urna verdadeira inversao das. freqüencias esperadas ... " 1s outros. De fato, Sapir (e sua escala), como está mostrado num artigo
~ ·. as~im que Robespierre coloca muito freqüentemente em cena recente, 20 sempre colocou a tonica na íntima liga~ao entre a linguagem
seus tmmtgos e os faz falar. O vocabulário que lhes é. atrib~ído está e o contexto cultural e social. Ele insistiu no "sistema expressivo"
entretanto no níve~ estatísti~o;. ~ problema é distinguir que con junturas da língua: "Toda atividade lingüística supóe a imbrica~ao surpreenden-
s: prestam a, ~ste J~go d7 s~gmh~antes ou, .ao contrário, analisar se no temente complexa de dois sistemas isoláveis que se designará de ma-
discurso político ~a? se msmuana algo ma1s. Assim também se passa neira um pouco esquemática como uro sistema referencial e um sis-
com ~s termos r~Jeltados por outros processos além das aspas e que tema expressivo." 21 Se o sistema referencial é o domínio da Lin-
P,o?eriam ser obJeto de urna contagem a ·parte. Seriam en tao neces- güística atual, da lingüística da língua, o sistema expressivo compreende
s~rt.os progra~as extre~amente refinados para dar canta, ao nível esta- todas as manifesta~óes ligadas a linguagem. Tem por objeto "o dis-
tis~co, dos diferentes níveis do discurso, dos jogos complexos das simu- curso enquanto aspecto do comportamento". Além do mais, Sapir
l~~oes, mascaramentos e reformula~óes. Todas estas observa~óes nao advertiu contra as interpreta~óes que visam a estabelecer urna simples
vts~m a recolocar em questao nem o bem fundado dos estudos e~ta­ homologia entre cultura e linguagem: "A tendencia de certos sociólogos
tísticos ~em a fecundidade das análises lexicológicas. Elas só tendero e etnólogos a ver nas categorías lingüísticas urna expressao direta de
a a~vertir contra possíveis simplifica~óes, que podem conduzir, por alguns dos aspectos mais manifestos de urna cultura deve ser comba-
aq~tlo q~e chamamos de "resumo teórico", a más interpreta~óes, tanto tida como contrária ao que os fatos encobrem: as mudanfas culturais
mrus pertgosas quanto se apresentam como informadas por técnicas e as mudanfas lingüísticas náo seguem um ritmo semelhante. . . nao
experimentadas. Dito isto, a importancia do léxico enquanto tal nao se deve, por conseguinte, procurar rela~ao causal unindo-as estreita-
n;>s .poderia escapar. Por várias vezes, R. Barthes insistiu na impor- mente." 22 Se estas preocupa~óes teóricas estao como pano de fundo
tancia das palavras que, numa dada conjuntura, bast~m~se a si próprias: dos métodos e dos campos de aplicae;ao dos sociolingüistas, elas nao
palavras que, urna vez pronunciadas, transformam o que enundam em constituem concretamente o eixo de suas pesquisas; Trata-se sempre
valor ?U ~ontr.avalor. É que elas nao SaO apreensÍveis na lógica da do relacionamento de uro dominio definido como sociológico ou etno-
~omuruca~ao diret~, ou denotativa, mas numa lógka própria, numa lógico e de um domínio lingüístico, mas a terminología é pouco nítida,
linguagem conotatzva, ero redes complexas, em que se enla~am e se de- imprecisa, a.ssim como a conce~ao dos campos de aplic~ao. Basta-nos
s~nla~am.lem~r~~as coletivas, ressonancias afetivas, signos de reconhe- · como prova a introdu~ao. que B. Pottier consagra a etnolingüística. 23
ctm~nto ~deologtco, c<;>rnplexos de imagens e de sonhos, etc. Pronunciá- "'Língua e cultura', 'Lingüística antropológica', 'Sociolingüística', 'lfn-
-las Implica. ~m ato liberatório, por vezes lúdico, sempre carregado de gua, pensamento e realidade' sao todas formula~óes que exprimem as
~alares. Fili~rana-o um outro discurso, que . tiraría· sua for~a e seu relafoes entre as línguas e as culturas no sentido mais amplo do termo.
Impacto daqutlo que escapa a lógica da denota~ao. A Etnolingüística será o estudo da rnensagem lingüística em liga~ao
coro o conjunto das circunstancias da comunica~ao. Os lingüistas de

50 51
ga~inete preocupam-se com, a língua. enqua~to código ou esqueleto. Nao se trata assim de relacionar dois universos, urna vez que eles
De prezaif os produtos da língua (textos orats ou escritos) e os la~os estao estreitamente enredados, moldados juntos. As expressóes "con-
dntre ~ ?gua e os elementos paralingüísticos que muitas vezes - juntos .de circunstancias da comunica~ao" e "elementos paralingüísticos"
;:rh¡nantes. O 'terreno' pode ser assim tanto 0 boulevard Sai~~~ fazem apelo a referentes menos globais que o termo "cultura", mas
- tc e como a Terra do Fogo." u Este texto merece um ex sao imprecisos. Se é preciso conservar o conjunto das circunstancias
acurado. A Wace é colocada antes de tudo numa rela~ao. . ame da comunica~ao, e se estas .circunstancias sao múltiplas, nao se correrá
o risco de privilegiar certas circunstancias em detrimento de tal outra
, Etnolingüística, a Sociolingüística, é o estud~ das relaróes
l.o A
A 1tngua ,. entre..
em fun~ao de seus próprios pressupostos, na ausencia de urna teoría
1 · ·
a cu tura no senttdo mats largo do estruturada destas "circunstancias"? Limitar-se-á entao a uma justa-
termo posi~ao de fatores, como nas análises de conteúdo: situa~ao de comu-
e nica~ao ( sondagem, entrevista, discurso, etc.), contexto sociocultural
(estado social do emiten te, estado social do destinatário), psicología
A mensagem Iúigüística individual, etc. Estes fatores serio agrupados como importando a
compreensao da mensagem lingüística, mas teremos dificuldade em
depreender. ( ainda urna vez, na áuse:ncia de toda teoría) uma hierarquia
de /atores, uma ordem. No total, das asser~oes de B. Pottier depreende-
se um objetivo claro: a Etnolingüística ou Sociolingüística é um estudo
de relafóes, um relacionamento; e vagas propostas quanto a natureza
do conjunto correligado com a mensagem lingüística; extralingüístico
certillllente, mas ou global demais (a cultura no sentido mais largo
do termo) ou disperso demais (todas as circunstancias de comuni-
ca~io).
Um dos fundadores da Sociolingüística nos Estados Unidos, J.
Fischman, oscila ·entre o nome de Sociolingüística e o de "Sociología
da Linguagem". 27 Em 1968, ele constata: "The expression 'Sociology
of l~nguage' is more an indication of future oríented perspectives than
a currently feasible or desirable differentiation and delimitation." 28
É afirmar o caráter ainda embrionário, inconstituído de uma Socio-
lingüística. Fischman limita-se essencialmente a solicitar que os lin-
güistas cessem de operar uma abordagem ingenua dos fatos sociais, das
categorías, da terminología sociológica, e que os sociólogos ultrapassem
sua concep{áo ingenua dos fatos lingüísticos, de maneira que, em face .
de uma dupla terminología rigorosa, constitua-se um campo particular,
a definir. Todas as tent~ttivas de defini~ao fazein apelo a necio · de
covaria áo "The sociolo of lan resents one of several recent
approaches to the study of patterned co-variation of language an .ses
..ctety." 18 A def~lb que J.-B. Marcellesi prop()e, tomada de em:.
· -préstimo a Bright, é mais precisa: "A Sociolingüística tem por objetivo
colocar em evidencia o caráter sistemático da covariafáo das estruturas
lingüísticas e sociais e eventualmente estabelecer uma rela~ao de causa
e efeitó." 30 Defini~io-ponto de partida, excessiva, que J.-B. Mar"
cellesi esfor~a-se por nuan~ar e precisar em seus trabalhos .. O número
52
53
de La_ngue f;an~ai~e que ele dirigiu e que tem por título "Lingüística
e Soctedade termma por urna grande li~ao de prudencia metodológica da sociología americana, e se reduzem a um empirismo, formalizado ou
e por algumas propostas: "Em todo caso, ao nível dos elementos lin- nao a urna justaposic;ao de fatores sem hierarquia, aliás de desigual im-
güís~icos controláveis (léxicos, por exemplo), as estruturas sociocul- por~ancia, e muitas vezes extremamente dispares. "Far-se-á intervir o
tu~at~ ~ as estruturas lingüísticas estao longe de ser isomorfas, de estado social do emitente, o estado social do destinatário, as condic;oes
cotncr?ir, e_ deve-s~ provar cada vez que as invariantes sociológicas sociais da situac;ao de comunicac;ao (genero de discurso), os objetivos do
escolhidas s~o pertmentes, do ponto de vista lingüístico, correndo a pesquisador ( explicac;oes históricas, por exemplo), a diferenc;a entre as
cada vez o rtsco de ~he_?ar a um artefato." 31 J.-B. Marcellesi prop6e-se maneiras com que se utiliza a língua e o que se pensa do comporta-
dar ao t.=rmo covarta~ao seu pleno valor, só depreender a posteriori mento verbal, o estudo da variac;ao geográfica, enfim, em Sociolingüís-
.as, .rela~e~ entre fenomenos sociolingüísticos e socioculturais. No tica aplicada, os problemas do "planificador lingüístico" (lingüista! e~u­
lnlcto,. pre~t~amos de duas descri~oes paralelas, de maneira a nao pos- cador, legislador) que se ocupa de frear ou de controlar as va~1a?oes
:~ar tmplictt~mente a dependencia do lingüístico face ao social ( pois da língua." 3 2 Além da surpresa de constatar, aquí, _que os obJetlv~s
e Justamente tsso .que ,se tra.ta .de .~,er~icar) ." 39 Marcellesi prop6e como do pesquisador sao levados em conta (o que corre o rtsco de cot;fundir
campo de pesqwsa a Soctolingwsttca o estabelecimento de modelos a forma~ao social considerada e o pesquisador), nao se poderá detxar de
de grupo,. c_olocados em evidencia no quadro da análise dos enunciados pensar que os termos "estado social", "condi_~~es sociafs" sao vag_os,
P.o~ descrt~oes orde?ad~: ~squisa de proposi~oes teóricas, ou propo- globais, podendo tanto conotar urna problemat1ca marXIsta subvertida
st~oes, d~ base, ;vtdencra~ao de enunciados comparáveis em rela~ao ( pois há grande distancia entre o conceito de classe e o de "estado
parafrasttc~, medida dos afastamentos entre grupos. No total, ao nível social"), como qualquer outra problemática que de conta do discurso
~et~ológtco, ele. prop6e duas descri~oes paralelas: a descri~ao sócio- em termos de "conduta social", isto é, em termos de problemática do
hi~tortca, a descrt~ao lingüística, e em seguida o relacionamento dos primado do sujeito individual. Além do mais, constata-se que os fatores
dots modelos.
sao justapostos e nao hierarquizados, urna vez que é nítidamente sen-
.Este relacionamento se efetua numa problemática de homologia. sível a falta de urna teoría capaz de hierarquizar o~ diversos fatores
Encontramo-~os na presenc;a. de dois universos específicos, e procura- _levados em considera~ao, ou de conceitualizá-los de outra maneira, d~
mos as ~e!a~oes de homologta ou de nao-homologia entre os dois. A
P;~blemat:ca da ho~ol~gia im~lica a descric;ao, o processo comproba-
tort~, e nao a e:cplica~ao. Asstm, escapa a dois perigos. Mantém a
.l
\ 'urna teoría capaz de marcar um lugar ao nível discursivo. Digamos que, /
a hora atual, a Soci_olingüística, ta! como está c<?nce_bida, dá ,a~esso. a 1'
urna descri~áo do dtscurso, mas nao a uma expltcafao da pratzca dts-
rela~v_a auton~mta do nível discursivo face as problemáticas redutoras cúrsiva. ·-
...-
.

. que nao, questtonam o problema do texto ou que o consideram como


~do u~tvoco, t.ranspar~nte, monossemico. Escapa igualmente ao meca-
msmo,, a. causalidade direta ou transitiva. Nao diz que o nível do dis- 2. 4. A análise interna
:rso e diret~met;te determinado pelo extralingüístico. Estas vant~gens,
entanto, tmplicam certo ~~mero de inconvenientes, que constituem Gastaríamos de acentuar urna última armadilha, a qual demos o
outros tantos problemas teonco~. Os dois universos a descrever per- 1 nome de "análise interna". Trata-se da tenta~ao _de. analisar o texto,
manecem paralelos, sem que SeJa pensado o estatuto de seu relacio- /
namento, o esta~to de suas rc:lac;oes, de sua causalidade; sem que seja
~ensado, em parttcula:, o .lugar do nível discursivo político. Para tomar_
j de interpretá-lo, permanecendo explicitameate ao nível lingüístico, sem
sair do terreno lingüístico. A forma~ao social considerada só será levada
em conta para determinar as condi~6es de produ~ao do texto; a inter-
m_exemplo do~ :ffiat~ stmples, numa formac;ao social, .suas determi- preta~ao político-ideológica poderá operar-se em seguida, permanecendo
nac;oes, suas modiftcac;oes, sua relac;ao com as práticas e mais p.articular- ao nível da análise lingüística. Por todós os moti~os, os lingüistas per-
mente
. 1 com . .a prática · " · e, mais específicamente,
, . polít'tea, as tnstancras ' com manecem surpreendentemente ligados a estes princípios e difícilmente
demstancta tdeo~ogtca, a co~juntura, etc. O que impede o pensamento admitem a necessidade de "mudar de terreno". A propósito da Socio-
1. st.~, e~tatt:r dis~o os concett<?s, as categorías postas em jogo na Socio- lingüística, J. Sumpf, por diversas vezes, recusa as análises que deixam
tngutsttca o scurso para ctrcunscrever o extralingüístico, que sao o.; separadas Lingüística e Sociología ou Lingüística e História: "A preo-
54 • cupa~ao de rigor igualmente partilhado nao une as duas ciencias. Elas

55 .
--~-~-----
- ---- - --
o risco nao somente ·de cortar a análise destes sisteQtas significantes
· permanecem separadas. Cada urna delas utiliza .a outra num sentido de sua rela~iio com a história e com o suieito, mas também de nunca
que niio é o seu . . . Para o lingüista, só pode tratar-se de uma socio- poder elucidar a produfáo e a transformafáO internas ou externas destes
logia lingüística,· isto é, de urna sociología dada antes da investiga¡;ao sistemas ... " 42 É mostrar explícitamente a necessidade de ultrapassar
lingüística (grupos-sistemas). Se a Sodolingüística tem um sentido, é o o quadro da análise interna.
de um acesso radicalmente intralingüístico as mediafóes da vida
sodal." 34 Esta necessidade de dar acesso a vida social, permanecendo
rigorosamente no interior do campo lingüístico, é formulada· de novo
por J. Sumpf, a propósito dos estudos de P. Bourdieu e Cl. Passeron.
O 'qUe distingue, fundamentalmente, aos seus olhos, a tipología dos
discursos e a tipología sociológica é que, nesta última, "o implícito nao
está nos dados, nio resulta de urna análise imanente, deles: é um sen-
tido escondido, só apreensível por urna coloca~ao crítica da questiio
a partir da no¡;iio de classe". 311 Encontramos o mesmo prindpio de
base em L. Guespin: "Se o que a ideología significa socialmente estava
fora do campo da Lingüística, seria necessário admitir de uma vez por
todas que a análise do discurso é impossível." 36 O que implica, urna
vez que a análise do discurso é possível, que a análise lingüística pode
tirar conclusóes sobre a fun~io discursiva e, em última análise, sobre
a fun~iio da ideología numa dada fornia¡;iio social. Enfim, encontramos
a mesma hipótese em Fontana, 37 que procura métodos capazes de
abordar um corpus histórico. Tudo se passa- mesmo quando se tem
as condi¡;óes de produ¡;ao na mais alta conta (encaradas, allás, muitas
vezes. na problemática da comunica~iio interindividual emissoHeceptor)
- coino se se pensasse que o discurso nao é determinado, nem gover-
.nado por. outra coisa que nao ele próprio, que ele é seu próprio fim
e, sobr~tudo, que ele próprio é a chave de sua inteligibilidade. Aqui
se situa todo o proolema da análise interna, como protótipo das anális~s
estrut,urais em geral, de causalidade homológica, sem hierarquia, sem
determina~ao, ~~m dominancia. Deste ponto de vista, a expressao de ·
relativa autonomía do nível disct.Irsivo é ambígua, pois, segundo se
insista na autonomía ou na relatividade, as .conclusóes teóricas podem
ser muito diferentes .. Essas observa~oes nao tero a finalidade de des-
valorizar as análises lingüísticas, as pes.quisas do agenciamento interno
do diseurso, da lógica específica do texto; ainda menos a de reduzir
o discurso a ideología ou a fun~iio da ideología, ou a de procurar iden-
tifiCar funcionamento significante e ideología. 38 As análises estru-
turais tiverap¡ o imenso mérito de colocar a luz mecarusmos o
~~~ni.? §o· 'scu;.;o 6u do significante· lógica do si.stema de paren-
o, . ogtca do ststema da moda, 40 etc. Mas, prectsamente, ·nume-
rosas anilises internas e análises estruturais identificani .ideología e
lógica interna, 41 ide9logia e sistema significante, cómo o observa ] . .
Kristeva: "Substituir a ideología por utn siHema significante comporta
57
·56
13. D. MALDIDIER, "Discours politique et guerre d'Algérie", La Pensée, n.o 157,
junho de 1971, pp. 87-88.
14. Ver o capítulo sobre a análise do discurso em Langages 13.
15. ~ assim que M. LAUNA Y_ e J.-N. GouLEMOT escrevem em "Tenants et abou-
tissants d'une recherche sur le vocabulaire de Rousseau et l'histoire des idées
au XVIII• siecle" in Langages 11, p. 108: "Embota haja, como para todas
as coisas, um bom e um mau uso dos índices. As nossas custas, aprendemos
que era ilusao acreditar, por exemplo, que, no século XVIII, os usos da
Notas do capítulo 2 palavra "revolu~ao" abrangiam exatamente todas as análises do conceito de
revolu~ao política, e logo nos pareceu que nao apenas a idéia de revolu~ao
era freqüentemente expressa por meio de outras palavras, mas também que
a própria palavra revolu~ao- nao implicava necessariamente a idéia de revo-
l. G. MATORÉ, La Méthode en lexicologie, París, Didier, 1953. lu~ao política. Neste sentido, os índices podem constituir fonte de erro. E,
entretanto, se apresentamos urna primeira discrimin~ao entre os usos políticos
2. G. MATORÉ, op. cit., pp. 13, 49, 50, 92.
e os nao-políticos, recorrendo ao contexto da palavra revolu~ao, e se estuda-
3. Esses quadros estao reproduzidos nesta mesma obra, p. 37. mos as correla,óes dos primeiros e, procedendo por constela,oes, as corre-
4. A. J. GREIMAS, La Mode en 1830: essai de description du vocabulaire la,oes de seus correlatos essenciais, conseguimos urna análise perfeitamente
d'apres les iournaux de mode de l'époque, 1948. rigorosa da idéia de revolu~ao nos textos que nos propúnhamos a estudar."
5. B. QuEMADA, Le Commerce amoureux dans les romans mondains (1640- (Grifo nosso.) Apelar para o contexto, para as correla~óes e depois para as
-1670), París, 1949. correla~óes dos correlatos mostra claramente a necessidade de nao se limitar
6. G. PROVOST, "Problemes théoriques et méthodologiques en analyse du dis- as palavras, mesmo e principalmente quando se estabelece como objetivo o
estudo de urna "palavra".
cours", Langue fran,aise, n.• 9, fevereiro de 1971, pp. 8-9.
7. ].-B. MARCELLESI, "Problemes de socio-linguistique: le congres de Tours", 16. Cl. HAROCHE, P. lliRNY, M. PE.cHEUX, artigo citado.
La Pensée, outubro de 1970, pp. 68 e s. . 17. M.-R. GUYARD, Le Vocabulaire politique de Paul Eluard, tese de 3.• ciclo,
8. A. PROST, "Vocabulaire et typologie des familles politiques", Cahiers de Nice, 1971, inédito.
lexicologie, 1969, I (II), pp. 115-126. 18. J.-B. MARCELLESI, "~lements ... " artigo citado, p. 46 e ressaltado por nós.
A. Prost tenta, estatisticamente ( análise fatorial das correspondencias), rela- 19. E. SAPIR, Unguistique, París, 1968, p. 134.
cionar as famílias políticas da Assembléia Nacional em agosto de 1881, e 20. M.-P. FERRY, "Sapir et l'ethnolinguistique" in Langages n.o 18, pp. 12-19.
seu comportamento lexical. Encontra resultados muito interessantes e uní-
vocos. Acreditamos, porém, que é difícil generalizar esse tipo de método, 21. E. SAPIR, obra citada, p. 37.
pois os textos políticos sao geralmente mais complexos que as profissóes 22. E. SAPIR, idem, p. 87.
de fé eleitorais do Barodet. Além disso, esses estudos precisam ser apoiados 23. B. PoTTIER, "Le domaine de l'ethnolinguistique" in Langages n.o 18.
por outras pesquisas. A. Prost escreve: "Em primeiro lugar, é evidente 24. B. PoTTIER, ídem.
que, no estágio atual, devemos reintroduzir o sentido das palavras em nosso
estudo ... " Além do mais, quando A. Prost tenta relacionar o nível lexical 25. R. EsTABLET, "Culture et idéologie", Démocratie nouvelle, junho de 1966,
e o conjunto da prática política legislativa (os 13 escrutínios da legisla~ao p. 54.
1881-1884), a disposi~ao nao é mais aquela que o nível lexical mostrava, 26. SAPIR, citado por B. L. WHORF, Unguistique et anthropologie, París,
donde seus limites como índice. . DeiJoel, 1969.
9. J.-B. MARCELLESI, "~lements pour une analyse contras ti ve du discours poli- 27. M. CoHEN escreve a respeito: "Em 1966, J. Fischman, depois de publicar
tique", Langage 23, p. 55. várias obras, sozinho ou .como diretor de antologías coletivas, propunha um
10. J.-B. MARCELLEsr, "Problemes de socio-linguistique ... ", p. 69. día especial dedicado a linguagem, após o congresso de sociología que se rea-
lizava em Evian. Durante esse dia, foi organizado um agrupamento que
11. ]. JAURES, "Histoire socialiste de la Révolution fran~aise", La ·Constituante, tinha explícitamente o nome ingles "sociolinguistics", em frances "socio-
nova edi~ao, París, ~ditions sociales, 1969, p. 284. ~linguistique"; essa é a certidao de nascimento de urna nova ciencia, ao
Encontra-se um estudo mais minucioso desse ·problema em R. RoBrN "Le mesmo tempo oriunda da Lingüística geral, e que estuda o fi.mcionamento da
champ sémantique de 'féodalité' dans les cahiers de doléances généraux de linguagem em seu conjunto, e da Sociología. Ela se encontra em pleno desen-
1789", a ser publicado em A.H.R.F. volvimento, com o nome de Sociolingüística, que, paradoxalmente, Fischman
12. J. GurLHAUMOU, "L'idéologie du Pere Duchesne: 14 juillet 1793-6 sep- acaba de repudiar, retornando a "Sociología da Linguagem"." .
tembre 1793", tese de mestrado. Nanterre, 1971, inédito (ver adiante: 28. J. FrscHMAN, Readings sociology of langage, Haia, Mouton, 1968, "Intro-
"ApproChes de champ sémantique: les expériences du centre de lexicologie ' duction", p. 7. ·
politique de l'E.N.S. de Saint-Cloud", p. 139).
29. J. FrscHMAN, obra citada, p. 5.
58
59

"
~~.::i.i&:::---~----
.30. Citado por J.-B. MAitCELLESI, "Présentation", in Úlngue franfaise, n.• 9,
fevereiro de 1971, p. 3.
31. J.-B. MAitCELLESI, "Linguistique et groupes sociaux", in Langue Franfaise,
n.• 9, p. 119.
32. ].-B. MARCELLESI, obra citada.
33. J.-B. MARCELLESI, "Présentation", artigo citado, pp. 3 e 4.
34.· J. SuMPP, "Linguistique et sociologie", in Langages, n.• 11, p. 26.
35. a
J. SuMPF, "Introduction une recherche linguistique en pédagogie", in CAPÍTULO 3
. Langue /ranfaiie; n.• 5, p. 22.
36. L. GUESPIN, "Problematique des travaux sur le discours poli tique", in Lan-
. gages, n.• 23, p. 21. OS HISTORIADORES E O CAMPO LINGülSTICO
37. FoNTANA, obra citada, em colabora~o coro F. FuRET.
38. Ver a respeito as notas de J. KRISTEVA in Cinétbique, 9/10.
39. :e a parte mais clara da obra de LÉVI-STJtAUSS e, particularmente, de sua tese
Les Structures élémentaires de la parenté, París, Mouton, 1949.
40. B. BARTHES, Le Systeme de la mode; París, Le Seuil, 1967. 3. 1 . Análises temáticas e análises de conteúdo
41. J. KRISTEVA escreve a propósito: "A Lingüística, a Antropología Estr_utural,
a Semiótica cons~ruíram sist~a~ significantes a.Par?t' do que d~omt.t?a~o.s Os historiadores, como já observamos, mantiveram sempre certa
'ideologías'. Abrmdo a posstbilidade de urna crencta das form~oes st~ift·
cantes~ essa tentativa é cheia de conseqüencias que limitam seu alcance cien- rela~io com a língua e a linguagem, que foi por muito tempo a da
tífico" (Cinétbique 9/10, p. 73). transparencia. Assim também ocorreu, muito freqüentemente, com
42. J. KusTEVA, Cinétbique 9/10, p. 73. sociólogos e especialistas da literatura. Daí o método de abordagem
dos textos ser essencialmente temático. Define-se um domínio explo-
ratório que é subdividido em categorias temáticas sugeridas pela lei-
tura instrumentada e aprofundada do material de que se dispóe. Nio
se escapa, deste modo, da cita~io ilustrativa que depende, antes de
tudo, da escolha pessoal do pesquisador. O mesmo se passa com as
categorias que balizam o recorte do texto: por que estas e nio outras?
Um exemplo tomado de empréstimo a um "literato", é verdade - .
mas que trabalhando em pleno domínio histÓrico - , vai-nos servir para
precisar sucintamente os limites da abordagem temática. O livro de
P. Viallaneix intitula-se La Voie royale: essai sur l'idée de peuple dans
l'oeuvre de Michelet. 1 O autor esfor~a-se por circunscrever a no~ao
de povo, distinguindo-a de outras n~óes ditas ·~vizinhas, com as quais
ele ( Michelet) julga que ela é confundida a· volta dele". O mesmo
autor assinala os pares povo/~a~a, povo/pátria, povo/na~io, povo/plebe,
povo/burguesia. Nao noz d.iz, entretanto, como chega a esses. pares,
e qual é a natureza das rela~óes nodonais; se elas sao, em alguns
contextos, substitutíveis ou nao, em rela~ao de inclusio ou antoní-
mieas. · "É ·que ele ( Michelet) ·participa do embara~o em que se
encontraram, em junho de 1789, os deputados dos Estados Gerais,
quando se perguntara!I). se deviam assumir o título de 'representantes
do ,povo'. Evocando na história da. Revolu~ao um debate de consciencia
que é também o seu, Michelet, se nio revela a solu~ao que lhe dá,

61
;1 60
ao menos expóe os termos nos quais ele próprio o formula. [ ... ] diversa~, a ~nálise ~e conteúdo, aperfei~oada por especialistas ameri-
"Mounier, refere ele, e os imitadores Clo governo ingles _propunham c~nos,. e mmto p;at1cada na Fran~a, sobretudo pelos sociólogos e pelos
'representantes da maioria da na~ao' na ausencia da minoría [ ... ] historiadores da 1mprensa. Ela póe ero a~ao categorías complexas que
Mirabeau prefería a fórmula "representantes do povo frances". Esta segundo M: G:awitz, 4 deve~ ser: exaustivas, a saber: o conjunto dev~
expressao, dizia, era elástica, podia ao mesmo tempo dizer muito e po~er se: lnteuam~nte ana~1sado; exclu~ivas: nao deve haver rela~óes
dizer pouco. É esta precisamente a censura que lhe fizeram dois emi- de mclusao .~u de mtersec~ao entre as d1versas categorías. Os mesmos
nentes juristas, Target, de París, e Thouret, de Rouen. Eles lhe elementos nao devem pertencer a categorías diferentes;
perguntaram se povo significava plebs ou populus. O equívoco estava - objetivas: os diferentes codificadores devem poder classificar os
·pesto a nu. Sob a mesma forma, o equívoco persiste na obra de mesmo~ elementos nas mesmas categorías, ou melhor, a escolha da
Michelet. Quando ele cede a seu instinto, consulta sua experiencia de categona nao deve depender muito estreitamente da personalidade e
menino de rua, revive a atmosfera das jornadas revolucionárias, pensa da escolha subjetiva do codificador;
"plebe" quando escreve "povo". Mas quando acontece de ele cair em - pertinentes: isto é, em estreita rela~ao com o conteúdo a ser anali-
si, seja para respeitar a verdade histórica, seja para nao comprometer .sado, o que excluí os visores preestabelecidos, antes de urna leitura
o futuro da democracia, en tao traduz mentalmente povo por populus." 2 mstrumentada e meditada do texto a ser analisado.
É inútil debru~ar-se sobre termos que sao apresentados como evidencias
semanticas e que na realidade criam problema: "instinto", "cair em . Tomadas estas precau~óes, a análise de conteúdo pode assumir
si", "verdade histórica", "debate de consciencia". Nao é sobre isso d1versas formas. Ela se propóe principalmente o estudo quantificado
que queremos insistir. Para nós, é precisamente o próprio equívoco dos temas de urna obra, de um diário ou de um periódico a fim de
da no~ao de povo que coloca o problema e que cumpre explicar sem tra~er a luz os centros de interesse do jornal e a evolu~áo des~es centros
recorrer a urna causalidade psicológica. É o funcionamento polissemico de. mteresse: ela pode preocupar-se coro imagens, metáforas e metoní-
da no~ao que ternos de levar ero conta, e, para além dela, a ideología mias que balizam o texto. Muitos estudos se interessam pelos valores
política de Michelet. Ora, esta polissemia nao é fortuita. De um lado, explícit~ o~ implic~tamente expressos. Um exemplo dos mais felizes
ela permite postular a alian~a e a harmonía do antigo Terceiro Estado, concretizara es~e. tipo de abordagem. V. Isambert-Jamati propóe-se
cuja desuniao política Michelet nao pode admitir; de outro lado, designa o estudo qu~ntiftcado, de 1860 a nossos días, dos valores veiculados
mais especialmente os pobres, considerados ero termos afetivos, ao mes- pelos textos Impressos e disc~usos de distribui~áo de premios; a partir
roo tempo sociais e morais. Como circunscrever de perta essa polis- de urna am~stra representativa, ela constrói cinco grandes categorías
semia, sem o levantamento de todos os empregos da no~ao? Sem a e ~ubcategortas que lhe vio permitir analisar ·o sistema de valores im-
considera~ao de seus substitutivos, de seus antónimos? Sem a deter- plicados por esses textos.
mina~ao das constela~óes semanticas que ela organiza? É tocar com
o dedo os limites do método temático, ainda que nao estejam em As mudan~as a produzir no aluno pelo ensino das disciplinas
causa a erudi~ao, o talento de escrita do pesquisador. A. J. Greimas escolares:
observa, por sua vez, os limites deste método. A propósito do livro
magistral de Huizinga sobre o declínio da Idade Média, ele indica que, - participa~íio nos valores supremos,
para tra~ar uro quadro da sensibilidade coletiva da época, o autor o refinamento individual procurado por si próprio,
ecorreu a textos abundantemente citados. Mas por que esses textos,~ - exercício dos mecanismos operatórios.
e nao outros? "Para fazer isso, ele recorre freqüentemente aos textos,
dá numerosos exemplos: textos característicos, atitudes individuais, . Os objetos a conl:tecer:
julg-adas típicas. A erudi~ao do autor, sua faculdade de identifica~ao 1
humana guiaram essas· escolhas; em última análise, nao permanecem elas -~· - os homens do passado e suas obras,
subjetivas?" 3
.
Mais rigorosa que urna simples temática, colocando em jogo mé-
.
- -.
-
os homens contemporaneos,
a natureza humana eterna e . universal ,
a natureza.
todos estatísticos, pesquisa de amostras representativas, quantifica~óes

62 63
Os meios da educ~áo moral:
- lealdade com rela~io a universidade nacional e leiga,
- lealdade com rela~io a institui~io.
--- exilio do mundo como condi~ao e vantagem da educa~o,
- valor educativo da disciplina,
-·· a~iio dos companheiros na {orma~io do caráter, J1RE. POLITIZA<;A.O ORIENTA<;A.O
ENGA]A·
QmN-
-.-. considera~io das diferen~as individuais entre os alunos, UNIDADES DE
INFORMA(:AO CIA absoluta ,ponderada absoluta ponderada MENTO
9f¡ (0/00) 9& (0/00) 9&
- utiliza~o das tendencias lúdicas, 9&
· -·- ·exemplo moral dos professores,
2,84 26,2 6,69 {1,91 2,89
- ascendencia voluntária dos professores.
l.
Midias
Prosram• 8.05 5,6 4.5 JJ....; 2,64-
" '.

2. Ccnúio 4,01 1.4 0,5 '0,8 + +


A de~áo instllucional: J. K., o bomcm 3,7 24,8 9,1 13,6 +
0)4
5.03 + 54+
4. Acolhida no
é bom ·que a defini~io central do ensmo secundário mude para , interior 3,6 48,7 17.5 1) + 0,55 + 3 +
5. Acolhida
adaptar-se as mudan~as sociais, parisiense 3,6 19,8 + + +
a escolaridade de nível secundário deve ser langa, 6.
7.
K. feliz
Gutronomla
3.5
3,2
"6,2
0,3
2,1
0,1
8.5
4,8 +
OJ +
·3,08
1,70 +
0,1 +
15

-.- o ensino secundário deve bastar aos alunos, nao há necessidade de · 8. Nina 3,2 15 4,8 13.5 + 4J2 + 90+
continua~ao, 9. Os comunistas
franceses 3,08 22,8 7 18,2- . 5,60- 79-
- as escalas nao devem preparar o futuro profissional, 10. O dcsamwncnto e
• ·paz J,Oi 22,4 6,7 11.5 + 3.47+ 51 +
- o públicovisado é a elite social. 11. Os partidoa e os
sindicatos franceses 2,6 53,9 14 10 - 2,60- 18-
12, K. con¡unista 2,6 43 11,1 J3J- 8,65- 78-
Os valores de referencia: 13 . K. chefc da
U.R.S.S. 2.5 23,1 5,7 . 7,4 + 1,84 +
14. Krutchcv-Dc
.- moral individual de perfei~ao ou de imperativo categórico, Gaulle 2J 5,9 lJ 1.9 + 0,43 +
- moral individual de tendencia hedonista ou de tipo "higiene U. A Alemanha
16. Os ptescntes
2J
2,2
43,6 10 31J- 7,19 ;_
. 0,55 +
71-
' 2.5 0,.5- ' 2,5 +
mental", 17. A polftica
moral de solidariedade, . fi:IUICO-fUISII 2,2 55,7 12,2 8,7 + 1,91+ . U+
18. lu personalidades
exorta~ao ao trabalho, pol.{ticas e
econ&nicu 2,2 5,2 1,1 3,1 + 0,68 +
exalta~ao do progresso, 19. lu tnedidas de
exalta~io da juventude, seguran~ 2.~. 1,1 0,2 o o
20. A amizaáe
- exalta~iio da família, franco-russa 2 12,2 2.4 8,8 + 1,77 +
- exalta~ao da pátria, 21. Os jornalistas 2 15,4 3 11,9 + 2)9 + 27 +
22. O comunismo
- exalta~iio da paz e da compreensiio internacional. 5 rus so 2 70,7 14 19,2 + 3,84 + 27 +
23. Kir 1,9 29,4 5.5 17,6 + 3J4 + • 59+
24. A indústria e a
Sao estas categorías quantificadas que vao permitir a V. Isambert- economía francesa 1,9 . 30 ,:'1 20,1 + 3,81 + 66. +
25. A U.R~S.S. cm
·Jamati mostrar, contrariamente a urna idéia feita, as grandes varia~óes . ~lFra~ 1,8 60,9 10,9 43,9 + . 7,9 + 71 +
do tipo ideal de ensino secundário proposto ao longo de um século; 26. A Fra~ cm ·
dir~o l U.RS.S. 1,4 22.5 3,1 10,;5 + 1,4 + 44+
· os únicos· temas que permaneceram quase invariáveis sao o da neces-
sidade de estudar os homens do passado ·e o da existencia · de urna
natureza humana. ·
Em L'Escriture de presse, 6 que constituí um modelo metodoló-
gico~ y, Morin estuda a viagem de Krutchev a Fran~a, em 7 diários

64
rl'f

•• panstenses ( L'Humanité, Le Monde, L'Aurore, Le Figaro, Le Parisien
libéré, Paris-jour, France-soir) e em nove semanários (Carrefour,
L'Express, France-Observateur, Paris-Match, France-Dimanche, Point
2.G tema: Krutcbev-De Gaulle
Diários Semanários

. de vue,]ours de France, Noir et Blanc, Elle). Ela recorta a informa~ao


recolhida em "unidade de informa~ao": "Quando a multidao é 'densa
Unidades
K. feliz 258 45
70
• e agita bandeiras' diante de K em um jornal, e 'dispersa e silenciosa'
K., o homem
K. comunista
252
187 46

• em outro, na mesma hora, no mesmo lugar, as duas informa~óes, por


distintas que sejam em seus predicados, subordinam-se a um mesmo
K.
K.
chefe de governo
De Gaulle
175
164
41
39

• tema que podemos designar pelo termo 'acolhida parisiense'." 6 Assim, K.


K.
liberal
dirige-se a De Gaulle
85
83
11
16

•• segundo seus próprios termos, "a unidade de informa~ao é pois extraída


da escrita para designar os elementos persistentes de urna informa~ao
a outra e objetivar a enumera~ao daquilo que se repete através daquilo
K. sério ·
K. campones e astucioso
De Gaulle dirige-se a K.
78
68
60
35
22
23
26
6
K. descontente
• que muda". 6 Assim isoladas, as unidades de informa~ao sao confron- De Gaulle 33
1 478 dos quais
18
363 dos quais

l
táveis, quantificáveis. Elas sao determinadas pelo índice de freqüencia, TOTAL 53 + e 53-
167 + e 117-
pelo índice de politiza~ao absoluta, pelo índice de politiza~ao ponde-
rada, pelo índice de orienta~ao absoluta, pelo índice de orienta~ao pon- !ndice de freqüencia 20% 28%
~ derada, pelo índice de engajamento. Estes seis índices constituem o dia-
grama inicial de cada unidade. As 8 532 unidade de informa~ao obtidas
~ foram, após descodifica~ao, reagrupadas em 69 categorías, das quais
J.• tema: Problemas" políticos
·Unidades
~ as 26 primeiras sao essenciais.
O desarmamento e a paz 241 17
1 As categorías foram posteriormente reagrupadas para constituir Os partidos e os sindicatos fran-
27
201
6 grandes temas de informa~ao, "cuja composi~ao repousa na afinidade ceses
l entre eles. Tema de tema, ou unidade de várias unidades .de infor- A Alemanha
A política franco-russa
179
167
18
27
ma~ao, nenhum deles se destina a introduzir urna análise temática dos O comunismo russo 120 51
109 7
conteúdos, mas somente a facilitar, como as unidades que eles agrupam, A política atómica .
o
Atitude dos países estrange1ros 66
a .situa~ao da análise de suas diversas reparti~óes". 6 53 18
A lgreja
A Argélia e os problemas africanos 53 5
A coexistencia pacífica 49 11
O capitalismo frances 38 17
Atrás da cortina de ferro 23 10
Diários Hebdomadários 18 6
1." tema: o "Tour de France" Os exilados na C6rsega
11 8
Unidades A censura soviética · 222 dos quais
TOTAL 1 334 dos quais
308- e 298 + 45 .:.__ e 60 ~
O programa 645 42
O cenário 320 32 · índice de freqüencia 18% 17%
A acolhida no interior 298 16
A acolhida parisiense 266 47
A acolhida dos comunistas fran-
ceses 234 29 . Resta agora comparar os diários e os hebdomadários entre si, em
As medidas de seguran~a 160 21 fun~ao de seus diagramas indiciais. . . . .
Os costumes soviéticos 56 2 A freqüencia de aparecimento dos temas e dos su)ettos constttm
TOTAL 2 010, dos quais 191, dos quais
185 + e 197.- 31 + e 39- o centro do estudo que J. Ehrard e J. Roger :on~agraram a~ Journ~l
des savants e as Mémoires de Trévoux. 7 As pnmetras cate~onas ~rtl­
. !ndice de freqüencia 28% 15%
nentes sao as da nacionalidad~ do livro analisado ( Provínctas Urudas,

. 66 67
Diários Semanários
4.• temll: O meio Diários Semanários
Unidades 6.• temll: Os relés
Unidades
· Nina 206 68
Os jomalistas 170 12 A gastronomía 257 18
Políticos e economistas 161 29 Os presentes 191 5
Kir · 156 23 'Üs castelos 40 2
· Os filhos . de K. 84 .U A costura 37 26
K. e Nina 38 23 As escolas 37 ·o
Os policiais 36 1 A Ópera 30 O.
A familia K. 3.5 14 As Galerías. Lafayette 29 6
Nina e a Sra. De Gaulle 32 3 O milho 22 4
Os artistas 20 43 Os museus 20 2
Os sábios 13 o As catedrais 13 2
Os intérpretes 10 1 O carneiro 13 2
TOTAL 961 dos· quais 230 dos quais
120 +e 21- 40 + e 4 Os hospitais 7 o
TOTAL 696 dos quais 67 dos quais
!ndice de freqüencia 13% 18% 5 +e 2 - 5 +e 1 -
índice de freqüencia 9% 5%
5.• tema: Afinidades "naturais" 7 256 dos quais 1 276 dos quais
dos dois paises TOTAL 992 +e 672- 223 + e 178-
·unidades
A amizade franco-russa 167 15 científica permanece constante ao longo do século XVIII. A análise de
A U. R. S . S . vol ta-se para a conteúdo permite, assim, confirmar ou infirmar os dados da intui~ao,
Fran~ . 140 21
Indústria e economía francesa sobretudo quando combina o jogo das categorías com urna análise quan-
137 26
Trocas comerciais 99 12 titativa. 8
Trocas rulturais 68
A F~ volta-se para a U.R.S.S. 60
5 Tod.os estes estudos, além de seu ~igor. de seus méritos. que sao
91
Agricultura e pecuária 44 1 imensos, repousam, apesar de tudo, no postulado da imediatez do sen-"'
A Fra~ 20 13 tido, e sua univocidade. Quer se procure centros de interesse, temas,
A U.R.S.S. 18 17 -valores, palavras, o sentido é dado na leitura; deve-se entao encontrar
Os fundos russos 15 17
O sputnik , 9 o os principios pertinentes de classifica~ao, de hierarquiza~iio destes dados.
TOTAL 777 dos quais 203 dos quais Em todos os casos, trata-se, segundo a expressao de ·M. Pecheux, de
217 + e 27- 48 + e 21 "ter acesso ao sentido, atravess~ndo a estrutura lingüística do texto". 9
índice ·de freqüencia Além do mais, esses estudos negligenciam o nível discursivo enquanto ·
10% 16%
tal, como se as ideologías nao se revelassem também enquanto sistemas
de representa~óes nos discursos e como se a ordem do discurso, sua
Fran~a. etc.). As categorías dos relatórios sao as que o século XVIII estrutura, nao comportasse implica~óes ideológicas.
usa~~-para ~a~sificar as bibliotecas, fazer seu inventário: Teología e
Religtao; Diretto
'áli e Jurisprudencia·• História·• Ciencias e Arte·• Belas
. Letras. Esta an ·'se quantitat~va permite confirmar outras ·abordagens, 1
dando-Ihes um estatuto de rtgor suplementar, em particular no que · 3. 2. Do vocabulário institucional ao vocabulário ideológico
~oncerne ao declínio do interesse dirigido a Teología, ao longo do
século ~III. · Em compensa~ao, J. Ehrard e J. Roger descobrem que,
cóntranamente a uma hipótese. correnteménte admitida, .a curiosidade l Há um domínio em que desde muito tempo os historiadores ultra-
passaram a simples. abordagem temática, para ~e entregarem a uro ver-
. dadeiro estudo da polissemia dos termos: é o do vocabulário jurídico ·
. 68 J
69
e institucional. Os mestres do positivismo hist.órico distinguiram-se lógica: segundo as expressóes de L. Febvre, ele apresentará César ou
nis~o ~mtrora. É o que refere Marc Bloch em sua Apologie pour Luís XIV em Dupont Durand, de 1938, com as preocupa~óes dos
l'hzstozre, que protesta contra os historiadores que ignoram "as aqui- pequenos burgueses de 1938; mostrar-se-á incapaz de assinalar um lugar
si~óes· fundamentais da Lingüística". Seu estudo sobre a "sociedade e urna história próprias as estruturas, muta~óes e transforma~óes ideo-
feudal" abre-se a urna· verdadeira investiga~ao lexicográfica e lexicó- lógicas. Tal abordagem implica urna filosofía, urna problemática da
lógica _rel?tiva ~-"feudo" e a "feudalidade". De Richelet que, em 1630, natureza humana identica a si própria através dos séculos, e da perma-
conferia a no~ao de feudo apenas um sentido exclusivamente jurídico nencia das sensibilidades. Por isto, ela permanece prisioneira de urna
"termo de palácio", até ao Dictionnaire de l'Académie, Marc Bloch problemática do primado do sujeito individual, soberano e transparente
. mostra. qu;. espessura. de tempo foi necessário atravessar para que o a si. Leitura a-histórica da História, que se desenvolve na boa cons-
termo generico feudalidade se tornasse ambíguo, polissemico; prinieiro ciencia, como se Marx e Freud nao tivessem existido, e estabelecido,
com · Boulainvilliers, em seguida com a Revolu~ao, Marc Bloch percebe em seus campos, rupturas fundamentais. Outro perigo se segue: o da
o funcionamento significante do termo urna vez que escreve "feuda- reduplica~ao da evidencia ideológica. Se as no~óes sao dadas na trans-
lidade" acaba po~ recobrir "um conj~nto criticado' de ima~ens, em parencia de seus sentidos, nao será possível explicá-las, levá-las em con-
que o feud~ proprtamente dito cessou de figurar em primeiro plano". to sidera~ao. Só restará nos enrolarmos no interior do sistema ideológico
Tendo partido do estudo de urna n~ao antes de tudo jurídica e insti- que se deve supostamente explicar, e reduplicá-lo no plano da pará-
~cional, ele ~heg~ a ·circunscrever urna n~ao complexa, mais ideoló- frase.- este silencio tagarela . - aceitando sem questionamento nem
gica do que Jurídica, que acaba por se identificar a um sistema de interroga~ao o jogo de suas evidencias e de suas representa~óes.
valores e de representa~óes.
O mesmo esfor~o, ao mesmo tempo lexicográfico e lexicológico,
.
3. 3. De Lucien Febvre a Alphonse Dupront
pode ser encontrado em Ch. Petit-Dutaillis. Num primeiro capítulo
"como definir a comuna", 11 ele evoca a possibilidade de reunir todo~ L. Febvre fez .muito para que no campo histórico entrassem as
os contextos da palavra "comuna", reencontradas nos textos do século aquisi~óes de outras disciplinas: Geografía, Psicología, Sociología, Dia-
XI e do XII. Daí resultaría urna defini~ao possível, urna vez que letologia. Da importancia do folclore a da sensibilidade coletiva e a
este trabalho "nos asseguraria mais ou menos diretamente, mas quase alimenta~ao, nada escapa a sua curiosidade, a sua paixao. Renovar a
constantemente, que. o termo se refere aos esfor~os de urna coletivi- História criar outra História em rea~ao a escola ositivista, encarnada
. dade com vistas a melhor proteger seus interesses morais ou mate- simbolicamente por Seignobos. Reagir contra o ositivismo si n· icava
riais". 12 Des tes múltiplos esfor~os, alguns dos quais sao seculares ue o tex o nao ser1a mais ue um ocumento entre outros e nao esta
res'!lta':l obras de defini~óes, dicionários de termos jurídicos ·e insti~ o sa er histórico, este camm o rea ue até entao ti a-se
tucionais. Para tanto, o mesmo tipo de trabalho nao foi mais reali- 1 ent1 1ca o com a istória. Era necessário promover a Arqueo og1a,
zado ao nível jurídico-político, mas ao nível ideológico. Existem dicio- ' o estudo da paisagem agrária, dos sítios, das rela~óes geogr~ficas; a
nários nocionais, por período ou por grupos sociais, ou ainda por autor, história do trabalho, da moeda, da renda, do. salário, em suma, a histó-
par~ 9uem qu~r procurar a significa~ao ou as significa~óes virtuais, po- ria dos mecanismos economicos; a das técnicas, das estatísticas demográ-
tenclals ou reats da honra no século XVII, de filósofo no século XVIII ficas, da iconografía. Isto significava igualmente a história das massas,
de liberc:lade e igualdade, sob a Revolu~ao Francesa? Existe. um dicio~ dos anonimos, e nao mais somente a dos "grandes homens" e dos
nário do sentido de "ser supremo" em Robespierre? etc. A tarefa nao príncipes. Defensor desta nova História, L. Febvre devia naturalmente
é fácil, e tudo está por fazer. A ausencia de preocupa~óes de tal ordem reencontrar a· Lingüística de seu tempo. "Linguagem, esta outra via
ao longo de decenios, apresenta um grande perigo, que riao foi aind~ cardinal de acesso ao social no individuo? Urge a coopera~ao dos filó-
C?IJ?-Pleta~ente ~fastado: o anacronismo psicológico, em seguida ideo- logos, construindo inventários de línguas que nao sao feítos para os bis-
logico, primordialmente, o pior de todos, como gostava de dizer L. . toriadores, mas dos quais estc;:s podem tirar grande partido: nao os
Febvre. Este anacronismo conferirá o mesmo sentido ao termo liber- inventários globais destas grandes línguas de Civiliza~ao, que fundem
dade ~o ,sécu~o XIII e no século XX, sem distin~ao de grupos sociais as rela~óes de muitos grupos locais ou sociais, diferentes, e no-los
. ou de Ideologta, como se a linguagem implicasse urna neutralidade ideo- transmitem em desordem, mas os inventários de dialetos que, interpre-
70 71
i
;: ¡
--~~--
tados pelos historiadores das sociedades rurais, nos revelam tantas infor- ficaisso, senao que a n~ao de civilizac;ao só aparece quando suas con-
ma~s preciosas, que só eles podem revelar. Nao por menos, é neces- di~óes de possibilidade se fixaram e quando ela exprime como que
sária a colabora~ao destes "semantistas" que, restituindo-nos a his- a síntese de urna sincronía sociocultural precisa; que ela se articula
tória de palavras particularmente carregadas de sentido, escrevem ao numa estrutura mental e social precisa ou, em outros termos, que ela
mesmo tempo capítulos precisos de história das idéias. É necessária pertence a urna "episteme" e nao a urna outra. Assim também ocorre
a colabora~ao destes historiadores de línguas, como Meillet, que escre- com a n~ao de "aparelhagem .mental" e com o problema do· ateísmo
veu a história da língua grega~ como Ferdinand Brunot, que seguiu no tempo de Rabelais. É em termos de sincronía e de estrutura que L.
passo a passo os destinos da língua francesa, historiadores que assi- Febvre pensa; tanto é ásstm ue nos encontramos em pleno paradoxo. L.
nalam o aparecimento, em certas datas, de todo um contingente de e vre nao se inspua, e mo o ne um na m sttca estrutur en-
termos novas ou de novas sentidos dados a velhas palavras." 12 a o m e o ano o tco, menos ainda na sua ex rta ao e to
No conjunto dos artigos re~nidos para formar em 1953 os Com- mo o epistemológico no campo as outras ciencias humanas. Só
bats pour l'histoire, a Lingiíística figura, com a Psicología, na rubrica mantéífi contacto coma Lingiíística Histórica e pré-estrutural. Em com-
das ccAlian~s e apoios" da História. u Estes artigos tem todos um pensac;ao, em História, nos novas domínios que trac;a, sensibilidade cole-
tra~o comum: .é que a Lingüística, a qua! fazem alusio ou referencia, de tiva . esttuturas mentais, psicologías coletivas ou individuais, sensibili-
Meillet a Brunot, passando pelos dialetólogos, é urna lingüística pré- dad~s biopsicológicas- introduz urna espécie de. estudo estrutural nao-
-estruiural, urna lingüística hist6rica. Nada de surpreendente que L. formalizado sincrónico, das inter-relac;óes entre· os diversos elementos
Febvre nao tenha conhecido os trabalhos de Saussure. Sabe-se· que do todo s~ial: o estudo das rupturas ao lado do das continuidades e
estes foram introduzidos bem tardiainente no meio dos lingüistas, com permanencias. Ninguém era mais bem qualificado que ele para de~rar.
maior razao entre o público nao lingüista. Que ele nao tenha ouvido uma nova Lingüística, o que nao fez, mas nada perdemos com tsso,
falar, ele que est'ava incansavelmente a espreita de renova~óes nao uma vez que, quase sozinho, sem grandes apoios, ele permitiu urna
factícias, da escala de Praga, de Copenhague, de Jakobson e de Ben- verdadeira renova~áo do campo histórico.
veniste, é mais surpreendente~ que os trabalhos dos fonólogos, em par- Entre os continuadores de L. Febvre, fixaremos, com vistas . a
ticular de Troubetzkoy, lhe tenham ficado estranhos, é mais delicado nosso. propósito, a obra de G. Duby e a de R. Mandrou. Hi~toria­
a interpretar. Há aquí qualquer coisa de perturbador, tanto quanto dores das mentalidades, eles esforc;aram-se por prosseguir ·o esfo~o
seu desprezo por Marx e Freud. Pois, enfim, as Structures élémentaires · de L. Febvre na via do alargamento do campo histórico, em particular
de la parenté de Lévi-Strauss datam de 1949, e o artigo de Lévi-Strauss naquilo que concerne a tudo o que L. Febvre colocava sob a n~ao de [
intitulado "Histoire et ethnologie" é também de 1949. L'Analyse "aparelhagem mental" de urna época .. G. Duby sempre estabeleceu
structurale en linguistique et anthropologie, é de 1945, e Linguistique como princípio fundamental o .perigo. do anacronismo em. mat~ria de;
et Anthropotogie, de 1952, e L. Febvre só morreu em 1956. Por estudo das ideologías. "O matar pengo que ameac;a o historiador e'
esta data, .o estruturalismo lingüístico, se nao era ainda ·urna evidentemente nao se libertar o suficiente de suas próprias atitudes
moda, come~ava a triunfar e a se impar como modelo as diversas cien- mentais e de sua própria ideología, para abordar períodos em que as
cias humanas. Ora, o. que L. Febvre procura antes de tuda .na Lin- ideologías, as atitudes mentais e o comportamen_to social era~ c~m-
güística pré-estrutural é a origem das noc;óes, sua evolu~io semantica . pletamente diferentes." tes Um de seus grandes etxos de pesqutsa e o
em diacronía, o relacionamento desta evolu~ao com a. História Geral. estudo das represeritac;óes que uma sociedade faz de si própria· -.- o
Todos conhecem seu estudo sobre a n~io de civiliza~ao que, de 1765 que o leva a colocar o acento nas lingua~ens,. em. tod?s os sist~mas. de
a 1789, acabou por impor-se; esta no~ao que, dizia ele, "nasceu na signos que estao no ambito de uma semtologta: tttuats das cenmomas,
hora certa [ ... ] , no momento em que termina o grande esfor~o liturgias, iconografía, representac;óes figuradas, conteúdos e temas de ·
da Encyclopédie, come~ada em 1751 [ ... ], depois que o Essai sur obras expressivas, representa~óes religiosas, artísticas, tem,as romanescos,
les moeurs des 1757, inundando a Europa culta coin seus 7 000 exem- 'folclore e, no seu. tempo certo, a evolu~ao, as ftansforma~óes. O que
plares de primeira tiragem,. relacionou e integrou na História, por um o leva ainda a evidenciar a .evoluc;io específica de c~rtas formac;óes dis-
primeiro esfor~o de sírttese, alguns dos principais modos· de atividade cursivas, tais como as biografías, as "vidas" de personagens históricas .
. humana, política, religiosa, social, literária e artística ... " 14 Que signi- · ."É · seguindo a evolu~ao de todos es tes sistemas significantes .··que se ·
72
73
r#f/"

•• chegará, talvez, a determinar certas mudanc;as que se operam no com-
portamento dos homens frente ao social e a vida real." 1 6 Estas repre-
"comportamento", em seguida; "toda psicología coletiva é também
urna psicología do comportamento. . . os atos. . . na falta de palavras,
fornecem-nos urna parte válida destas representac;óes mentais estru-
•. sentac;óes. revestem-se de urna materialidade que lhes é própria: a de
suas práttcas e dos aparelhos ideológicos que os implicam. Daí, um
novo domínio de estudos em História Medieval e, mais particular-
turais que queremos delimitar". 19 Visao do mundo e comportamentos
ou, mais exatamente, visóes do mundo materializadas nos compor-
tamentos constituem a trama tanto dos Fuggers 20 como de Magistrats
•• mente, no. '!ue concerne as sociedades feudais, o das relac;óes de paren-
tesco, famthares no sentido largo do termo, as formas da sexualidade
os quadros mentais dos "jovens", celibatários da classe aristocrática'
. et sorciers en France au XVII siecle. 21 Les Fuggers propriétaires
fonciers en Souabe é um estudo de comportamento. Numa outra lin-
guagem e numa outra conceitualizac;ao diríamos· que é um estudo da
por oposic;ao aos "senhores" casados e providos de bens imóveis; ~
•~ pesqu}sa da evoluc;~o. da idéia de nobreza, do nascimento a solidificac;ao,
atraves de suas múltiplas desagregac;óes ou transformac;óes e dos novos
ideología na prática económica: "Assim se pode definir o objetivo deste
trabalho: tentar apreender, coma ajuda das relac;óes feítas pelos Fuggers
de seus bens imóveis na Suábia, a realidade de seus comportamentos
~ rituais 9-ue se foija~ ~urna classe dominante ameac;ada'; finalmente, neste domínio." 22 A especulac;ao imobiliária nao deve ser considerada
a pesqutsa da transmtssao dos modelos culturais, dos processos de edu-
como um ornamento, um simples jogo de prestígio social. É muito
cac;ao, que transmitem complexos de noc;óes, de imagens, de mitos; a
rendosa e permite a essa dinastía de grandes comerciantes e banqueiros
atenc;ao dada, enfim, a linguagem, a contribuic;ao possível da Lingüís-
enraizar-se profun~amente no sistema senhoriaL Magistrats et sorciers
tica. "Entr~ e~tes 'instrumentos', cujo estudo se impóe efetivamente,
inscreve-se no mesmo campo de pesquisas que L'Histoire de la olie
vem em prtmeuo lugar a linguagem - entendida como os diversos
~eios de expressao que o indivíduo recebe do grupo social em que
de M. Foucault. Trata-se de estudar como s sso ve urna estrutura
·mental colet1va, tenaz, vinda aparentemente do fundo das idades, per-
vtve, e q!:e s~rvem de quadro a toda a sua vida mental. Como penetrar
na consctencta dos homens de tal meio, como explicar sua conduta, as manente e estável; como nasce urna nova estrutura mental, com seu
relac;~es que -eles mantem, tentar ver o mundo e o outro por seus
sistema pr6prio de relac;óes internocionais, sua própria coerencia, e como
próprtos olhos, sem conhecer o vocabulário que empregam - ou antes a instituic;ao judiciária repercute, registra ou provoca estas mutac;óes
os vocabulários, pois muitos hámens utilizam vários, adaptados aos dife- e transformac;óes. A instituic;ao judiciária nao é vista aquí do exclu-
rentes grupos em que se inserem - sem dispor de um inventário sis- sivo ponto de vista do seu caráter precisamente institucional ( juris-
temático e cronológico das palavras? De maneira que a história das prudencia da bruxaria, aparelho repressivo, etc.), mas como um apa-
mentalidades nao. pode. progredir sem o concurso dos lexicólogos. Ela relho ideológico, no qual os magistrados assumem papéis, e que cons-
espera deles - tmpactentemente, forc;ando-os a utilizar todos os re- tituí como que o revelador das mutac;óes ment~s. "Na Franc;a do séc.
cursos novos da mecanografía - as listas, os recenseamentos de vocá- XVII ( onde, allás, as relac;óes sociais e económicas permanecem funda-
bulos. Ela deve. tirar partido destes dados fundamentais e, utilizando mentalmente imóveis), a história desta mutac;ao jurídica, -intelectual, até
os p;o~ressos recentes da Lingüística, em particular a noc;ao de campo mesmo espiritual,· coloca em causa alguns elementos essenciais de urna
semantlc~, ater-s:_ nao aos termos isolados, mas aos agrupamentos, assi- visao do mundo: um conjunto de relac;óes bel.ll definidas - cuja lógica
nala~ as expr~ss?es-cha_ve e o que as circunda, para realc;ar as cons- interna é patente - é substituído por urna outra série de relac;óes
telac;oes verbats as quats estao ligadas as grandes articulac;óes da psi- coerentes." 23 Em suma, para retomar urna expressao de M. Foucault,
cología coletiva." 17 G. Duby desenhava assim um vasto programa trata-se de esclarecer as novas partilhas, as novas formas de exdusao,
cujo ponto estratégico é a atenc;ao a linguagem e a Lingüística contem~ urna vez desenredada a meada das_ antigas visóes do mundo. ·
poranea. É outra a direc;ao tomada por R. Mandrou, que, por nao Mais ambiciosa, fundadora de um novo domínio do objeto, é a
estar centrada nas formac;óes discursivas, nem por isso é menos funda- busca apaixonada de A. Dupront, com vistas a constituir em História
~ental, pois coloca em primeiro plano de sua pesquisa as práticas e a urna nova disciplina, em relac;íio a qual confessa que tudo deve ainda
t~eologia nas práticas. Daí, duas noc;óes ·-_complementares que dao ser feito: a semantica histórica. A importancia fundamental da lin-
. ritmo a obra. A de "visáo do mundo", "conjunto de quadros conceituais guagem nao lhe escapa. "A linguagem, entre os sistemas de signos
a~~itos po: ?m indivíduo ou um grupo e utilizados por eles no exer- ~elos quais se exprime urna psique coletiva ou o mental de um dado
ctcto quottdiano de seus pensamentos e de suas atividades"; 1 8 a de
75
74
coletivo, é urna das matérias mais oferecidas e, assim, a presa natural A resposta a esta História teleológica, continuísta, História das
e necessária do historiador." 24 No entanto, a linguagem, esta via real superficialidades, virá da Lingüística. Há em A. Dupront uma euforia
"do sentido", pouco tem preocupado os historiadores. Por várias vezes, panlingüistica, que nao deixa de apresentar perigo sob alguns aspectos.
A. Dupront constata esta !acuna incalculável, esta fenda no flanco da A l4lgüística impóe-se como verdadeiro modelo no sentido forte do
História. "No plano coletivo, a evid~ncia das . escolhas é urna das termo (a Lingüística da língua em seu quadro fonológico, numa palavra;
mais seguras manifesta~s do g!nio comum. Ainda muito mal com- a Lingüística estrutural). Desta Lingüística veio "o choque libera-
preendida, uma vez que os historiadores de todas as ordens deram até dor•• 81 com Saussure, quando, definindo o- objeto desta ciencia, ele
aquí pouca atenfáo a linguagem . .. " 25 Ou ainda, de . modo muito postula com fo~a á autonomía da língua: "A Lingüística tem ~como
mais crítico: "Em todos os casos, até aquí, a Historiografía tratou a único e verdadeiro objeto a língua, encarada nda mesma e por s1 me.s"
linguagem quase como todos os outros signos, da maneira mais bruta ma." 82 Esta' autonomía da língua será vigorosamente postulada pelo
\ e mais exterior, visándo apenas o que ela dizia (interpretado do modo historiador da semantica histórica. É um primeiro elemento que impóe
mais cursivo e mais superficial), e nao o que ela quería dizer."2 8 :g o modelo resolutamente estruturalisia, como nio deixa de· fazer ctér
que, para A. Dupront, a semantica histórica tem necessidade, para se a coerencia das referencias: Saussure, Troubetzkoy, sem esquecer Lévi-
constituir e se definir, de proceder a urna critica radical e sem compla- Strauss. Outro elemento decisivo derivado do modelo, a libera~i"
cencia da Historiografía, desde a mais tradicional, a dos acontecimentos, "das· certezas do original", 83 a rela~ao e o sistema das inter-rela~óet'
até a mais modernista, estrutural, económico-social, quantitativa, mesmo

r
substituídas pela problemática da origem, de um lado, e pela causali-
a total. A Hístória é essencialmente continwsta ·stória n dade, de outro lado. 'É ainda para A. Dupront o lugar e a ocasiao
sonoro, sem ausencia . 'Como a Natureza, o historiador de .criticar a Historiografía por suas· leituras causais da História, por.
a orror do vazio; suprimía-o com presteza. . . deste descontínuo seus esquemas demasiado simples e lineares, inteiramente inscritos na
orginico,. dado primitivo e fundante da matéria, fazíamos, tranqüila- trilogía causas/acontecimentqs/conseqüericias .. :g necessário substituir
mente pela narra~ao dos acontecimentos e dos fatos, um contínuo ... resolutamente a procura da causali~de pe~a dinimica própria das. re-
nesta obsessio do contínuo- espécie de impostura escrita de um tempo la~óes, o que significa que importam antes de tudo a análise interna
pleno.- 11 traifáo do vivido é constante." 27 Esta História do pleno, de um texto e sua rede complexa de rda~óes nocionais. Trata-se de
que trai o vivido . · stituir por urna História descon- _ • reencontrar para cada palavra seu lugar e_ seu sentido. Enfim, o ter-
t úa, elta este pleno, inas também de ausen a e e s encro, uma. ceiro elemento ain:da mais pregnante, que deriva do modelo fono-
1Iísf6na das profüñdezas ·da sub ac~nc1a. "Sabemos a ora ue o sí- , lógioo, a procu~a do sistema que implic_a a do elemento de base, cuja
encro a, mesmo .,. destru1 o ; combina~io específica produz o resultado atual. "Que a unidade de
.or conse · te ara nos obri ar a di base se chame lexema, morfema ou fonema, s6 o processo importa aqui
1m e atingir o vivido de um tempo." 28 A História trai ainda o ao historiador.'' 84 A. Dupront reconliece que, neste domínio, ·o estudo
vivido pelos mOdelos exphcatlvos, pelos esquemas de causalidade que é · trabalhoso e ainda muito obséuro. · Entretanto, é possível, . pensa,
fornece, elabora e de. que se alimenta. "Mórbida racionalista", mol- ''determinar· a hierarquia das partes significantes e, de outro la,do, · ao
dada na matriz do logos ocidental, formada na racionalidade e na nível do vocal:>Ulário, tratar seletivamente unidades separadas na· ocor~
· lógica, muito freqüentemente ela expurga do seu objeto o irracional, o ·tencia .·de palavras ou de .lodl~óes · sintagmáticas expressivas". 35 · O
panico, o extraordinário, o sublime, o marginal. Daí, para '&'historiador, que significa dizer-que, provisoriamente, a unidade .de base que se
a necessidade da semantica histórica, de "perscrutar o marginal", pois levará em canta será a palavra ....·o modelo lingüístico assim fielmente
nele "está vivo o .sentido oculto". 2 9 Além do mais, esta História seguido -··. seriamos .~entados a dizer, traduzido. ou transposto -· per-
continu1sta, racionalista, trai o vivido por seu caráter · resolutamente . mitirá um ~·mergulho rias profundezas", 86 ao qual conduz o elemento
teleol6gico: "típica, neste sentido, a História do século XVIII na de base no "jog0 da compasiiao do· conjunto". 87 N este ponto,. faz-se
Fran~a, quase que inteiramente orientada, em ·detrimento do vivido· referencia explícita a Troubet;zkoy e, através del~. a fonología, que tem
do tempo, pará a crise final da Revolu~ao, e o brilhante e vulgar para- por· objeto. passar-:do "estudo dos fenóm~nos lingüísticos consci~htes
doxo de. uma sociedade da 'd~ra de viver' autodestruindo-se, por ao de sua lnfra"esfrutura inconsciente". 88 A,transposi~ao do modelo
· inconsciencia ou .por quaisquer outras premoni~es justiceiras". 80 · 'fqnológico :levará .ao ·. desnudamento da evidencia. das subconsciencias
76 77

-- -- ;
e da pluralidade dos sentidos. A língua é enfim pensada em sua neu- permitía revelar, ou apenas ~~ impre~sao .mais o';l ~e?os funda?a". 41
tralidade ideológica, o que autoriza a se refugiar por detrás do rigor, A semantica histórica const1tu1-se assim como disciplina-encruzilhada,
da objetividade da Lingüística; "criar um material" objetivo. A cau~ao dependente de numerosas outras disciplinas,. da pes9uisa lin~s~i:_a,
da Lingüística é aqui todo-poderosa e pioneira para obrigar a um apto- da Antropología, da Filología Histórica e da Dialetologia. Sua defimc;ao
fundamento da História. . . "Esta referencia fundamental a Lingüística mais imediata -· ·provisória, mas qu!lnto evocad~ra pelo .caráter vago,
inaugura o campo novo da semantica histórica como busca do s~ntido global, hermeneutico de sua decla~ac;.ao, - po~eria resumir-se,c~;no se
através da linguagem"; a linguagem e, na.linguagem,. o vocabulário, segue: urna "investigac;ao do comercio do sentido no passado . .
sao vías do sentido. 39 Todo documento, todo texto, é portador de
urna ordem do mundo que lhe é específica, de uma ordem a ser deci- Além destes dados iniciais, a semantica histórica encontra~se no
frada. Daí. um tratamento particular da linguagem que permite ficar momento centrada na palavra e na uantt tea - . Centrada na palavr~,
1
a espreita "do sentido. Nao se trata mais, a imagem da Historiografía · . em consciencia e que aí se situa urna "limit~c;ao evi-
tradicional, de considerar a língua simplesmente como um meio, mas dente e provisória"' 4 3 que falta a investigac;ao todo. u~ conjunto de
de tratá-la "em sua organicidade própria". 40 Tres opera~óes indispen- estruturas nao menos significativas, a gramática, a estilística, as formas
sáveis. desenham o lugar da semantica histórica. Em primeiro lugar, retóricas estruturas e disposi~óc;s lógicas, as ligac;óes de todas as
a extra~ao ou abstra~ao. Nela se funda a necessidade de desestrururar o espécies,' os ritmos, os cortes e os silencios. ,Todos el~me.ntos reve!a-
texto, de romper a ordem e a arquitetura do discurso, para extrair pa- dores de escolha e, portanto, de implícito. 'Urna pnmetra .pes~msa
lavras e n~óes. Tomados fora da cadeia falada, estas palavras e n~óes do sentido se acrisolou na palavra. Pode ser seguro come~ar Imediata-
devem ser mantidas "em situa~ao". Com efeito, todo corpus consti- mente.por ela." 44 A semantica hist?ric~ nos seus primeiros . assos,
tuido por no~óes extraídas da cadeia falada em que funcionam está no é pois urna história o szgno em sua vida lmear. -~rscrt\_ta o nascimento
entanto situado no tempo, emana de autores engajados em meios sociais aa palavra, seu desaparecimento, as etapas de seu percurso, a contmUl-
precisos. Além disso, este corpus pertence a urna dada língua, dade de seu uso. Assim, "civtliZac;ao", nasctda por volta de 1756 e que
a um momento preciso de sua evolu~ao. Tanto que palavras e n~óes levou ao menos tres decenios para se propagar num meio cultural ainda
do corpus nao devem em nada assemelhar-se a entidades erráticas que muito restrito. Ela nao se proíbe a pesquisa junto as inovac;óes, as
autorizem todos os delírios imaginativos da interpreta~ao. Tem um palavras natimortas, aos acidentes. Nesse assina~amento da hi.st.óri~ ?os
contexto,· no duplo sentido do termo. Contexto intratextual, em pri- signos, tres pistas marcam sua evoluc;ao. tprim:uamente os dicionartos,
· com a tonditao de nao se pedíi a eles o que nao possam dar. B. Que-
meiro lugar sintagmático, pelo qual a palavra faz sentido; contexto
mada mostrou em sua obra Les Dictionnaires. du. franfais moderne
extratextual, ein seguida, que funda o funcionamento social do· sentido ..
1539-1863 4 5 que os critérios das escolhas de dicionários .sao. muit9
A confront(Jfáo vem fechar este ciclo metodológico. Confronta~ao entre
objetos da mesma natureza, entre corpus comparáveis. O que fun- variáveis. Em seguida, as son?agens, que ~testam os mais d1~7;sos
empregos destas palavras. Eñftm as traduc;oes, reveladoras da hbe-
dará a singularidade, a especificidade de um corpus será sua similitude,
- rac;ao SOCial do sentido". 46 A semmttca ?ist~rica nao P.assa, ~o en tanto,
sua identidade (da nuan~a ao estereótipo) com outros ou, ao contrá-
.. de ama htstótia dos signos. Ela se atnbm como objeto, Igualmen~e,
rio, sua diferen~a, sua oposic;ao. Nisto se incluem todas as espécies de
a abordagem · sincrónica do signo, pelo estudo dos contextos que ctr-
confrontac;oes quantificadas possíveis que · manifestam escolhas, e a
cunscrevem o sentido do signo, que desenham " gane hos assooattvos
. . " , 47
materialidade da escolha é testemunho do ato; ao exame do historiador
pela· coloca~ao em evidencia das equivalencias, das op~si~óes, das con-
da semantica histórica oferecem-se desde os vocabulários próprios de
·cordancias; pela for~a dos lugares-comuns e dos estereóttpos, pelo poder
diferentes autores até as compara~es entre vocabulários de épocas ou
das conota~óes, fortalezas da subjacencia. E o que t~s~emunham. as
de meios sociais variados. Des te tipo· de confronta~~s, possibilitadas pesquisas de A. Dupront e de sua equipe sobre o vocabulario dos cahzers
pela desestrutura~ao da cadeia falada, isolam~se o~óes subjacentes, por- de doléances de 1789. O instrumento de análise apresenta-se como um
tadoras de sentido,· que ·a superficialidade. de uma leitura subseqüente,
visor de leitura constituído de 67 palavras-tronco, com todas as. suas
simplesmente sintagmática,. deixava escapar totalmente, assim :como a ocorrencias e de 7 outras palavras em vista de ace~s particulares,
, definic;io de universo, tanto individual como coletiva,. Aqui se afirmam
· mecanismos que a linearidade do discurso, inclusa nos ·materiais, mal
privilegiad~s; "este teclado de 74 t~cl~~ permit.e .compor as ?armonías
mestras do universo mental dos cahters ; 48 bahzagem a parttr do qual
78
79
org~izam:se ao mesmo tempo os esquemas recorrenciais, "as palavras- mental e subjacente une, além de seus combates ideol6gicos, os voca-
ohsessao" tais como abuso ou reformas, e as especificidades; os diversos bulários da_ escrita mística da primeira metade do século XVIII e__ a
níveis de cultura e sua interpenetra~o, desde a queixa falada, transcri- dos "mais ferventes escritos, os mais dispensadores de luzes, da se-
~ao escrita direta do oral, desde o "oral resmungado", até &estile dos gunda metade do século XVIII". 113 Proximidade devida nao ao con--
oficiais de província, caso que con~ tui a maioria, relativamente· afas- teúdo, mas as imagens. "Sem falar de influencia, se tivesse havido
tado das grandes n~s das luzes. "No visor de nossa pros~ao, transferencia? ou prova preliminar, rara, antes que uma outra igreja,
palavras-n~oes, tais como felicidade, civiliza~ao, educa~ao, instru~ao, leiga, dela se tivesse _apoderado." 114 Magistral demonstra~ao. Con-
moral, progresso, revolu~io, sensibilidade, sociabilidade, pernianecem, teúdos contraditórios, opostos, notadamente contrastados, podem, na
ao nível dos "cahiers" de paróquia, perfeitamente esporádicas ... Abun- realidade, ao nível "das profundezas" - para retomar um termo que
dariam exemplos para atestar que, maci~amente, o vocahulário das A. Dupront estima especialmente - ao nível do que nao é exatamente
luzes, em plena fermenta~io desde uma trintena de anos, em nada um inconsciente coletivo, mas onde se forjam esquemas de muita for~a
atingiu o mundo dos pequenos oficiais ... " 49 Centrada na palavra, a que escapam ao vivido consciente dos homens, neste nível, em que
semantica histórica, aquí mais exatamente a lexicología histórica, cons- trabalha a semantica histórica, estes conteúdos podem revelar uma
trói-se um vasto programa de investiga~ao:. especificidade do vocabu- ordem do discurso comum, uma mesma problemática que se atribuí,
lário de um autor, rela~s deste vocabulário como meio social con- através de imagens comuns, "cachos associativos" que tem a aparencia
temporaneo e, além disso, o lugar deste vocabulário no corpus verbal disso. O que pode haver de .mais heurístico que evidenciar, além d.as
da língua vernácula, 110 rece~áo de vocahulários técnicos, etc. Já em oposi~es lógicas da superfície discursiva, estas redes secretas e mis-
1964, A. Dupront tra~va um vasto projeto de constitui~io de índice: teriosas, a primeira vista, em que age e se agita o que A. Dupront
"a fim de dar, ao considerável trabalho representado pelo exame metó- chama "o sentido"!
~ . . . . -
dico da 'forma' dos cahiers o máximo de eficácia para os estudos his- Há enfim, em A. Dupront, senao urna "euforia quantitativista",
tóricos posteriores, convém prever ao menos tres índices. O primeiro ao menos um bino ao bem fundado do método estatístico. Nenhum
será nocional, comportando as palavras dominantes, seja dos vocabu- \ artigo onde nao seja afirmada, sem dúvida para pregar urna p~a. na
lários pol{tico e social, como 'povo', 'na~áo', 'estado', 'sujeitos', 'cida- historiografía tradicional, a fecundidade da abordagem quantttattva.
dao', 'liberdade', 'igualdade', seja do vocabulários das luzes, como 'hu- "Toda quantidade comparada, ou, melhor dizendo, proporcionada, inte-
manidade', 'natureza', 'felicidade', 'instru~áo', 'economía', 'agricultura'. gra-se numa figuia de ordem. Tanto a codifica~ao do corpus verbal de
Cada emprego será assinalado, com sua 'concordancia' específica. O uma determinada época, como as rela~s no interior do corpus de
segundo deve ser um índice das imagens e. mesmo d<>s clicMs para deter- _ n~óes-mestras, ou somente as propor~óes de uso de substantivos,
minar, pela enumertlfáo das freqüencias, se;a o valor de hábitos estabe- epítetos, advérbios ou verbos, uns em rela~o aos outros, cir~scre­
lecidos, se¡a a forfa de certas cargas emotivo-afetivas. Seráo igualmente vem urna dramática de expressao além da qual podem-se perfilar_ po-
assinaladas as imagens de reverencia ou de afetividade face a pessoa breza, crispa~es ou recusa da palavra profunda ou, ao contrário, equi-
do soberano, as imagens denunciadoras de abusos, as que evidencíam Jíbrio, justeza, até mesmo verbalismo desencarnado." u _A. Dupront,
pobreza ou miséria . .. " 111 Empresa fundamental pois, além. das pa- no entanto, tem consciencia dos limites do método estatís.tico, de seu
lavras, ou. a partir das palavras, constrói uma constela~áo-imagem que, delicado manejo, da vigilancia, da prudencia a guardar em face deste
como em Ch. Mauron, no quadro da psieocrítica, ou em J.~P. Richard,· material: ''O corpus estatístico, objeto em si morto, só se anima pela
.ccim a n~o renovada de "tema", revela a obsessáo principal, a regu- interroga~ao de uma problemática. A orienta~ao da pe5quisa provoca a
laridade discursiva fundadora de uma ordem ideológica e afetiva que · resposta, sem nunca oondicioná-la ... " 116 Posi~ao que relembra que
na. maior parte do tempo escapa aos contemporaneos e ao pesquisador
que proeura falsas transparencias da superficialidade do discurso. ··Assim
aorienta~ao. estatística vale .apenas· o que valem as hipóteses, interro- .
ga~óes e a problemá~ca do pesquisador. A freqüencia, como fundadora
em Bossuet, o vocabulário exprime urna obsessao com a gl6ria, -suficien- de ordem, pode aplicar-se a tudo, Q todos os níveis da linguagem, a
temente lfmbivalente para "atestar um processo mental de dessacrali- fisionomía da língua de base, aos lexemas de fundos antigos, aos .neolo-
. za~ao, em que a consagra~ao dos homens tende a se tomar tao impor- gismos, as palavras de etimología diferente, aos lexemas de origem po-
-·tante quanto a- recompensa eterna ... " 112 Urna proximidade funda- pUlar, aos fen6menos de acultura~ao, aos · vocabulários especializados,
80 81
tlf':r
.. ,
a codifica~ao das inter-reJa~óes. Entao anima-se encontra-se em ato istó é, as raízes do sentido ... " 60 - e aí está o ponto estratégico de
~ "um misterioso e real anonimo coletivo". n A ~uantifica~ao ensina sua rela~ao com Freud e com a psicanálise, no estatuto ambíguo, opaco

•4 por sua .mas~a, pelo evidenciamento das escolhas que produz. "Disse~
~os ma_ts acima que esta pondera~ao por grandes massas era urna das
vias mais seguras para urna análise bruta das escolhas da alma coletiva.
no limite mistificador da palavra "sentido" que A. Dupront coloca no
cora~ao da semantica histórica. Este sentido é construído ou é a mani-
festafáo de um sentido? A psicanálise de A. Dupront toma todas as
Q~em p~eria assim pens~r que tratar do livro com métodos quanti- aparencias de urna hermeneutica. Sua referencia a P. Ricoeur fornece-
• ta~Ivos. e degrad?r gr?ss~uan;ente sua virtude?" 58 A quantifica~ao, -lhe a chave. "Contestando a análise estrutural o poder de esgotar o

'~
~
ale~ disso, permite atmgu tres estratos fundamentais da linguagem: o
~aci~<?· o comum, o único. O maci~o, que circunscreve as zonas de
mtensidade, do conformismo social, do cliche e do estereótipo· o
con;mm, base m~dia_ sobre a 9-ual se estabelece, para um dado g~po
sentido destes símbolos, ela (a reflexao de P. Ricoeur) introduz a nofáo
de 'mais valía inicial de sentido', esta mais valüz 'que motiva tradifáo
e interpretafáo'. Náo uma volta ao original, mas consciencia de. uma
forfa criadora inicial que, na diacronía, di.ttribui-se e explicita-se [ ... ]
~<><:Ial, ~. comu~ca~ao e o uruverso mental que ela implica; enfim, o Desde entáo, a Hist6ria seria descrifáo, a partir de seu material sem-
• uruco, o mrus carregado de informa~óes, de esperas de desven-
turas:•. ~~~ Nao há ci~ncia. senao do comensurável, pega:nos o hábito
pre fragmentário, desta explicitafáo e, por conseguinte, remontada para
o original, ao mesmo tempo que atest~áo da forfa da criafáo humana,
1 de afirmar. Desde ha mmto este adágio encontra-se no horizonte das
pesquisas de história economica e de história social. Os fatos de men-
virtualmente inesgotável. Duplo movimento que é o único verdadeiro
'sentido da hist6ria' .- .. " 61 Nao poderia aproximar-se melhor deste
ta~~ade e ~rincipalmente os de linguagem, por sua vez, entram no do- sentido criado, dado, original, a ser revelado I>ela linguagem na História.
mmio qu~ Ja tem suas cartas de nobreza, da história quantitativa. "Todo Mas, é preciso dize-lo claramente, Freud, como Nietszche e Marx, nos
fato da língua pode definir-se por sua freqüencia no discurso." Esta diversos domínios, foram os destruidores deste sentido e substituíram-
frase de P. ~uiraud, ~itada pertinentemente por A. Dupront, justifica no por um. sentido construído e constru'indo-se - por urna produ~ao.
no plano epistemológi~O a preeminencia atribuída a quantifica~ao, por Tanto que nos parece que a psicanálise sai daí subvertida, mistificada e
A. Dupront e sua eqmpe. mística ao mesmo tempo, ao contrário da obra de Freud. 62 Há em
Dupront como que urna tensao, UllJa contradi~ao nao resolvida entre
·, . Por esta procura das "profundezas", por esta fina e aberta aten~ao
a análise estrutural, mesmo estruturalista e hermeneuticá, entre o sen-
a linguagem, A. Dupront devia encontrar Freud e a psicanálise. Ao
tido construido e o sentido decifrado, revelado, entre urna problemá-
menos! pel;>. que nos parece, urna certa visao de Freud e da psicanálise.
tica que, se nao é materialista, ao menos em aparencia apresenta-se como
J?a psicanálise, A.. Dupront retém tres aspectos, n~óes ou li~óes: a
tal, e urna problemática criacionista, quase religiosa, da linguagem e do
lin~agem como. v~a do inconsciente, a n~ao de inconsciente coletivo,
~ssim c~mo as. li~oes de técnicas de análise. Nada mais banal que o
inconsciente as~imilado a um invisível, aoimplícito, ao nao-dito. Sendo
Inconsciente seJa ;struturado como urna linguagem; nada de mais banal, assim, o lugar que consagramos a Dupront mostra que, no nosso espí-
desde que esta formula de J. Lacan saiu dos cenáculos da rue d'Ulm rito, a subversao da psicanálise, o empréstimo metafórico de seus con-
para tomar conta, senao da rua, ao menos de todas as ciencias humanas. ceitos em nada poderia arruinar a fecundidade de urna abordagem do
A. Dupront nos lem~ra .qu~ .nao há linguagem inocente ou neutra; que textual, ainda muito rara e solitária na historiografía atual. Sem dú-
tudo fala, que tudo e sigruficante, o pleno como o vazio e sobretudo vida, podemo_s subscrever-nos a semantica histórica, tal como ela se
o silencio inconsciente ou voluritário. Refere-se explicitam~nte a Freud, desenvolve atualmente, demasiado centrada na palavra e na quantifi-
a_Laca~, mas também, como veremos, a P. Ricoeur, e a Jung, o que ca~ao, demasiado incerta em seus conceitos, demasiado incerta sobre-
nao deixa de causar problema. Retorriam constantemente um certo tuda no que concerne a sua rela~ao, a sua articula~ao com o extra-
~úmero. de fórmulas, metaforicamente referidas a dicotomia consciente/ ~ textual - apesar de tudo ela existe, construiu para si um novo lugar
mconsciente. Trata-se de "profundezas", de "emergencia da vida silen- no campo zelosamente guardado da historiografía contemporanea; con-
ciosa e pr?f~n.da", de "além do discurso", "urna é a distin~ao dos 'pro- trariamente as análises de conteúdo e as análises temáticas, ela nao
cessos primarios' e dos 'processos secundários' coexistencia em suma procura fazer a economía da estrutura lingüística dos textos, ela nao
de ~oís universos, ,o do m~ndo e o da alma pr~funda. Logo, em todo a atravessa, toma-a audaciosamente pelo meio do corpo e faz dela seu
o discurso, .um alem do discurso, e, neste além, as pulsóes criadoras, objeto. É ainda cedo demais para saber se o perde. No entanto, existe

82 83

---~--- -----~---------
urna certeza: o panlingüistismo pode constituir para ela apenas um obs-
táculo epistemológico. Adotar o modelo fonológico, transpó-lo, abrigar-
se atrás. o~. so? a b~ndeira da Lingüística Estrutural, numa época em
J
que a LI.ngüísuca, nao s6 recolocou em questíio alguns postulados fun-
dame~tals do saussurismo, como a dicotomia .língua-palavra, mas se
propoe a ultrapassar o chomskysmo e seus pressupostos; num momento
de prof:mda renova~ao e de questionamento, nao deixa de representar~­
um per1go. Co_?I dir~ao. ainda pouco segura, titubeante, tro~ante, Notas do capítulo 3
mas fecun?a, nao é ela v1s~vel num certo número de pesquisas, aitida
pouc~ balizada~ mas. em Vla de constitui~íio, sobre as rela~oes entre:
marxts~o e P.slcanálise, 63• entre funcionamento significante da lingua- 1. P. VIALLANEIX, La voie royale, essai sur l'idée de peuple dans l'oeuvre de
gem e 1deolog¡a, 64 entre lingüística do discurso, formacé>es discursivas e Michelet, París, 1959.
formacaes sociais? 2. P. VIALLANEIX, obra citada, p. 251.
3. A. J. GREIMAS, "Histoire et linguistique", in Annales E. S. C., janeiro-
-mar~ de 1958, pp. 110-114.
4. M. GRAWITZ, Méthodes des sciences sociales, Paris, P.U.F., 1%1.
5. V, lsAMBERT-JAMATI, Crises de la société, crise de l'enseignement, París,
P. U. F., 1970, ( Bibliotheque de sociologie contempora4te). .
6 ...Violette MoRIN, L'Ecriture de presse, Paris, Mouton, 1969, ci~ das
pp. 26-27, .31, 61. . ' . • .
7. J, EHRARD e J. ROGER, Dois peri6dicos franc~ no século XVIII, Le
]ournal des savants e Les Mémoires de Trévoux, tentativa_ de estudo qu~­
titativo in Livre et sodété dans la France du XVIII• stecle, t. 1, Pans,
Mouton, 1965. . . ·
8. Outro exemplo entre muitos: F. BATAILLER, "Étude comparative de París-
-Match et de ]ours de France, péríode de mai 1958 a avril 1959",
publicado em Analyse de. presse. Trabalhos e pesquisas da Faculdade de
Direito e Ciéncias Económicas de París, P.U.F., 1963. -
Para analisar e comparar esses dois semanários, F. BATAILLER emprega amplas
rubricas ou categorías: ·
Política Príncipes e Grandes
Artes e literatura Rel.igiio
Aventuras Esporte
Conhecimento do mundo Ciencias e descobertas
Acontecimentos. Estrelas
Jogos Vida judiciária
todas
''Assim, diz ela, conseguimos classificar, nesse quádro, as informa~,
e todas as reportagens que .as revistas continham" (p. 10). Podecl~os
cOntestar a validade de categorías que, se permitem efetivamente classiftcar
a temática desses dois . semanários, ·impedem, praticamente, a análise ideo-
l6gica e política. Na verdade, a ideologia desses dois semanários permeia
·as diversas rubricas e F. Batailler percebe isso claramente. O "star-system",
o fato de apresentar grandes e príncipes, constituí um •preconceito ideoló-
gico. Quanto ao anticomunismo, ele nio se explicita apenas ao nível da
categoría· "Política". 2. ·um dos eixos essenciais da rubrica "Conhe?mento
do inundo", dissimula-se sempre no nivel conotativo, no plano das unagens
apresentadas, etc. Sobre a análise de conteúdo, ver a bibliografía getál,
nos seguintes nomes:
84
85
B. BERELSON, G. BoLLEME, P. BouRDIEU e M. de SAINT-MARTIN, M. Du-
32. F. de SAUSSURE, citado por -A. DuPRONT, p. 21 de "Langage et histoire".
VERGER, R. EsTIVALS, J. EHRARD e J. RoGER, A. GuEDJ e J. GxRAULT, J.
GRITTI; H. D. LAsswELL, P. HENRY e S. Moscovxcx, V. \.lsAMBERT-JAMATI, 33. A. DuPRONT, "Langage et histoire", p. 20.
A. KxENTZ, S. MoLLO, V. MoRIN, J. OzoUF, R. PINTO e M. GRAWITZ, S. 34. A. DuPRONT, ídem, p. 25.
PRUNIERES, L. QUESNEL. 35. A. DuPRONT, ídem, p. 26.
9. M. PECHEUX, Analyse automatique du discours, París, Dunod, 1969, p .. 4. 36. A. DuPRONT, ídem, p. 27.
10. M. BLOCH, La Société féodale, París, A. Michel, 1939, reed. em 1968, 37. A. DuPRONT, idem, p. 27.
p. 13 da última edi\;iio.
38. Citado por A. DuPRONT, idem, p. 27.
11. Ch. PETIT-DuTAILLIS, Les Communes fran,aises, París, A. Michel, 1947,
reed. em 1970. 39. A. DuPRONT, idem, p. 48.
11. Ch. PETIT-DuTAILLIS, obra citada, p. 21 da nova edi\;iiO. 40. A. DuPRONT, idem, p. 49.
41. A. DuPRONT, idem, pp. 51-52.
12. LCo. ~EBVRE, "Histoire et psychologie" in Combats pour l'histoire, París, A.
lin, 1953, p. 219 da nova edi\;iiO de 1965. 42. A. DuPRONT, ídem, p. 52.
13. L. FEBVRE, Combats pour l'Histoire, "Aliances et appuis", pp. 147-244. 43. A. DUPRONT, idem, p. 55.
14. L. FEBVRE, Civilisation, le mot et l'idée, Centre international de Synthese 44. A. DuPRONT, idem, p. 56, sobre a palavra, ver nossa análise acima.
París, La Renaissance du livre, 1930. · ' 45. B. QuÉMADA, Les Dictionnaires du fran,aís moderne 1539-1863. Étude sur
Sobre L. FEBVRE, ver Hans-Díeter MANN Lucien Febvre la pensée vivante leur histoíre, leurs types et leurs méthodes, París, 1967, p. 684.
d'un historien, París, A. Colín; 1971 (co~tém uma impo;tante bibliografía) 46. A. DuPRONT, "Langage et histoire", p. 61.
( Cahiers des Annales). ·· '
47. A. DuPRONT, ídem, pp. 63-64.
15. G. DuBY, "Histoire socíale et lústoire des mentalités" in Nouvelle Critique
48. A. DuPRONT, "Formes de la culture des masses: de la doléance politique
n.• 34, maio de 1970, p. 13. · ' ' au pélerinage panique (XVIII•-XX• siecle)", colóquio na E.N .S. da rua
16. G. DUBY, artigo citado, p. 16. de Ulm, sessiio de 8 de maio de 1966, publicado in Níveaux de culture et
17. G. DuBY, "Histoire des mentalités" in L'Histoire et ses méthodes, Enc'y- groupes sociaux, París, Mouton, 1967, p. 156.
clopédie de la Pléiade, p. 953. 49. A. DuPRONT, idem, p. 158.
18. R. MANDROU, Introduction a la France moderne essai de psychologie his- 50. A. DuPRONT, Sémantique hístoríque et histoire, p. 17.
torique (1500-1640), París, A. Michel, 1961, p.' 358. A. DuPRONT, Cabíers de doléances et mentalités collectives, Atas do Con-
51.
19. R. MANDROU, obra citada, p. 355. gresso das Sociedades Eruditas, Liiio, 1964, t. I, pp. 375-377.
-40. R. MANDROU, Les Fuggers propriétaires fonciers en Souabe 1560-1618. Étude 52. A. DuPRONT, "Langage et histoire", p. 73.
1969.
a
de comportements socio-économiques la fin du XVI• siecle1 París Plon
. ' • 53. A. DuPRONT, ídem, p. 74.
21. 54. A. DuPRONT, ídem, p. 74.
R. MANDROU, Magistrats et sorciers en France au XVII¡ siecle: une analyse
de psychologie bistorique, París, Plon, 1968. 55. A. DuPRONT, L'Histoire apres Freud, p. 53.
22. R. MANDROU, Les Fuggers .. . , p. 15. 56. A. DuPRONT, "Langage et histoire", p. 31.
23. R. MANDROU, Magistrats et sorciers . .. , p. 540. 57. A. DuPRONT, idem, p. 30.
24. A. }?uPRONT, "Sémantiqu~ historique et histoire", colóquio de lexicología 58. A. DuPRONT, "Livre et culture dans la société du XVIII• siecle", in Lívre
políttca na E.N.S. de Samt Cloud, abril de 1968, Cahiers de lexicologie, et société dans la France du XVIII• síecle, t. 1, París, Mouton, 1965, pp.
1969, 1, II p. 15. 196-197.
25. A.. DuPRONT, "L'histoire ·apres Freud" in Revue de l'enseignement supé- 59. A. DuPRONT, "Langage et histoire", p. 69.
rieur l'histoire auiourd'hui, n.• 44/45, 1969, p. 53. 60. A. DUPRONT, ídem, pp. 43-44.
26. A. DuPRONT, Sémantique et bistoire .. . , p. 16. 61. A. DuPRONT, idem, p. 37.
27., A. DuPRONT, "L'histoire apr~s Freud", pp. 29 e s. 62. Sobre uma crítica da psicanálise interpretada como uma hermeneutica, ver
28. A. DuPRONT, ídem, p. 29. M. ToRT, "De l'interprétation de la machine herméneutique", Temps mo-
dérnes, n.• 237 e 238, 1966.
29. A. DuPRON, id~m, p. 48.
63. Sobre esse problema, ver M. ToRT, "La psychanalyse dans le matérialisme
30. A. DuPRONT, idem, .p. 30. . . historique", Nouvelle Revue de la psychanalyse, 1, 1970, pp. 146-166. ·
31. A. DuPRONT, "i.angage et histoire", comunica\;iio no XIII Congresso Inter- 64. Ver a respeito desses problemas complexos, J. KRxsTEVA, "Pratique analy-
nacional das Ciencias Históricas, Moscou 16/23 agosto de 1970 Moscou tique, pratique révolutionnaire" in Cínéthique n.• 9-10, pp. 71-79.
edi\;iio Naouka, 1970, p. 20. ' '

86 87
j língua/fala. Nao é o caso de deixar de·sublinhar a aquisi~ao, o caráter
'fjósttlvo que essas no~s representam. Escapando ao positivismo, elas
l
constituem um esfor~o sem precedentes para estabelecer ·uma rela~ao ·
com o contexto extralingüístico~ para reintroduzir a rela~ao entre o Ú:
locutor e o destinatário, e o quadro institucional no qual se produz o 'j
discurso. É assim· que um enunciado como "culpado" nao terá o mes-
me valor ilocucionário se pronunciado por um júri nos tribunais ·cri-
CAPiTULO 4 minais, ou numa coi:wersa~ao mundana, ou ainda se figurar num edi-
torial de jornal. Essas n~óes constituem o si no de ue a dicotomia
FORMAQA.O SOCIAL, PRATICA DISCURSIVA E língua/fala arece ve ser u tra assada e tentam
an~ar uma ponte entre estes dois universos, para preencher a a
IDEOLOGIA ~constatada. No entanto, as dificuldades nao dexxam de surgir. A enun-
Cia~ao .é pensada como emergencia de marcas, referencias da maneira
pela qual o su jeito falante intervém .no discurso ( engrenadores: pa-
lavras indiciais, pronomes pessoais, advérbios, tempo ou modaliza~ao,
4 .1 . As insuficiencias da LinqWsüca do discurso adjetivos avaliativos) no quadro da Lingüística estrutural. A Lingüís-
tica transformacional tenta pensá-la como processo, consignando certas
Vimos que, ultrapassando a dicotomia tradicional, desde Saussure ·transforma~óes ditas facultativas. 1 Há sempre uma flutua~ao que con-
(língua/fala), estava em processo de elabora~io uma lingüística· do . siste em colocar o problema da enuncia~io ora em termos de processo,
discurso. Vimos que os lingüistas estabeleciam uma diferen~a entre um ora em termos de marcas numa enuncia~o já enunciada, segundo a for-
enunciado e um discurso. O discurso é sempre relacionado a suas con- mula~áo de T. Todorov. Outra dificuldade: onde come~a, onde acaba
dt~oes de produ~ao - o qúé, aliás, autoriza toda escolha de corpus a enunda~ao? Aquí ainda o pesquisador hesita constantemente entre
a anaiisar. Esta Lingüística do discurso integra ao seu objeto tudo o uma concep~ao ampla e uma conce~ao restririva da enuncia~ao. O.
que ultrapassa a Simples lógica aa comunic~ denota ti!!. Pretendé Ducrot situa assim o· problema: "E preciso. distinguir os fenómenos
est~r a tema ao umverso conotativo da linguagem, ao jogo das impli- ligados a enuncia~o, e a interven~iio do sujeito da enunda~io na cons-
ca~oes e das pressuposi~óes, .a tudo eñfim que está no campo da ·enun- titui~o da significa~io." 2 Propóe, entao, que nos atenhamos a pre-
Cia~ao. Ela assmala xguíilmente cquío seu objeto o campo ret6rico-esti- sen~a codificada no interior do entinciado, do locutor, e que separemos
'llsttcd';"""a estratégia dos argumentos do discurso sua estrufura enfim. rigorosamente enuncia~ao e significa~ao: "Como o que é dito tem
Todos estes. ?pos de estudo, ·dos quais alguns' estao mal esbo~ados, sempre alguma razao para se-lo, toma-se evidente que o sujeito da
devem permitir ultrapassar a análise de enunciados e fazer estourar o enuncia~ao está sempre em toda parte." 2 É que, com efeito, nao
espartilho que apertava o objeto lingüístico. A Lingüística vive, allás, a é fácil separar rigorosamente os mecanismos de enuncia~ao e a cons- , ~
hora das revisóes fundamentais. Os conceitos saussurianos de língua tru~iio ~a sig~ifica~íío. Se, como ~firma Austin, 3 todo en~ncia~o, ~~s-A f\
. e fala nao parecem mais válidos; já osintroduzidos por. Chomsky ( com- moa afxrma~ao aparentemente maxs neutra, tem um valor ilocucxonano,
petencia e performance) parecem insuficientes. As n~óes de aceita- se ela remete a uma inten~íío, pode-se perguntar se é possível a cons-
bilidade, de gramaticalidade, de. norma sintática e fonólogia vacilam. titui~íío de um~...!.~m.an~i~_ajn_!!:.~Jingij!s!!<:a,_Q\1 ~.e,_PeJo.._~Q~~ráño, a sxgnx-
Daí a urgblcia de uma teoría do discurso que no entanto ainda falta. fiéa~io nao -Cleve sempre ligar-se as condi~óes de produ~ao .do~Sc'UrSO
Malgrado tantos esfor~os, <;liversas dire~es e orienta~óes, a Lingüística e-as-fottríás-cle -íii.ti!~ven~aó-::-dol~tot,lnCillslve até as .escollias-ae-
do c!iscurso etn vía ~e constitui~ao nao nos dá plena satisfa~ao no plano -compaiihilicfaéle-~ .ele. _incompatibilidad~- en.tre.: ás.~Wíiélades-léi:icais~- ·se
te6nco. · iCéminda~íío ·está em toda· arte, nao é um conceito ·mas o si nocre-
um pro ema. o e-se e im perguntar se o termo enuncia ao ue =1
[esta como se vm, preenc a t!_mvazxq_I.la_ªrtJc.u a a.o _ .:a a nao es1gna
e manexra ei:npmca; Intuitiva e par e a_,~_);lg~f.._ql;l~QQ.IP-ª;xa._~.E~~~~~--- · ~Q

~88
vernam este ou aquele tipo de retórica. A questao pode ser circuns-
crita esquematicamente da seguinte maneira: urna análise do discurso
poderá permanecer intralingüística? ,...,.~
Numerosos estudos lingüísticos que tentam escapar, como vimos,
a análise interna buscam um tipo específico de articula~ao com o
extralingüístico no quadro da Sociolingüística do discurso. 6 É neces-
sário sublinhar o caráter pOsitivo destas novas pesquisas, em particular
como o faz J. Kristeva a propósito de um objeto totalmente diferente,
É o que sugere M. Pecheux, parece-nos, quando escreve: "É neces- porque elas suscitam novas problemáticas, dando enfase as suas insufi-
sário enfim precisar que a rela~ao de articula~ao dos processos sobre ciencias: "0 recurso a teorías paralingüísticas ou as funda~óes de campos
base lingüística tornou-se possível pela existencia, no interior desta base, especializados da Lingüística ( Sociolingüística, Psicolingüística, etc.),
de mecanismos resumidos pelo termo "enuncia~ao", pelo qual se efetua cuja destina~ao é tomar compactos os vazios da (das) teoría( s), po-
a tomada de posifáo do 'sujeito falante', em rela~ao as representa~óes dem, no entanto, nao levar senao a sublinhar os vaiios, se se cultivarem
de que é o suporte." 4 M. Pecheux utiliza precisamente a palavra su- esses campos unicamente como subconjuntos da (das) teoría( s) e coro
porte, termo que Marx. emprega constantemente - "Trager" -·-, -~ o único objetivo de confirmá-la. No entanto, é em tais campos que a
que indica urna mudan~a de problemática. Coro efeito, os lingüistaL descompactifica~ao da teoría se mostra e que aparece a necessidade de
falam de "sujeito falante"; mas uem é este su'eito falante? Parece _ novos conceitos e encadeamentos ." 7 Ambivalente, a Sociolingüística
· remeter es e o princípio a um su jeito individual, livre de suas ·escolhas faz avan~ar as pesquisas de articula~óes entre "língua" e "estruturas
· enunciativas. A enunda~ao, como a palavra ou, num outro nível, a sociais" e, no mesmo momento, parece-nos insuficiente, movendo-se
performance, seria· ássim o último refúgio do acaso, da espontaneidade, no quadro da homologia ou da nao-homologia, nos universos paralelos
da liberdadé, por oposi~ao aos sistemas de regras, ao código da língua. do lingüístico e_ do social, sem que seja pensadoo·es"tatütoda.-·rda~ao··~
·se a enuncia~ao rompe coro o positivismo da lingüística da língua, éla ·entre a ordem do discurso e a ordem socio-histórica. Postula-se, além
o reconstituí ao nível da maneira pela qual estabelece o sujeito do dis- disso, que o progresso.Jt-ser_r~~ado neste domínio deve ser procurado
curso, sujeito cartesiano, psicológico. Se estes propósitos nao forero-
do lado d~~ri-d~d~ _ _ _____ _ __ _ ____
exagerados, a lingüística do discurso nao teria conseguido operar o
descentramento do sujeito do discurso, pois nao teria conseguido rein-
tegrar a sua teoría do sujeito (se for o caso de ela ter constituído urna) Estando feíta a descri~ao lingüística, vai-se procurar um ·tipo de
\ /nem o sujeito ideológico no quadro do materialismo histórico, nem o covariancia com o nível social e, para tanto, modelar-se nas concei-
:sujeito no sentido psicanalítico. 5 Além disso, mesmo se a lingüística tualiza~óes da Sociología e da Historiografía presente, sem poder esta-
/
'do discurso postula a reintrodu~ao do contexto institucional e situa- belecer a validade destas conceitualiza~óes. Interrogando-se sobre o
cional, muito freqüentemente as análises permanecem no quadro do estatuto da psicanálise aplicada, M. Tort observa com enfase: "Nao
estruturalismo, da análise interna. Elas ·tero dificuldade em mudar de se pode esperar que a prática da confronta~ao interdisciplinar traga
terreno, a levar em conta, no sentido rigoroso, o extralingüístico.~ Corre- urna resposta a esta questao. Est~ deve ser, antes, tomada coro o
se entao o risco de constituir urna ti olo ia dos discursos de maneira que comporta de reconhecimento - desprezo imaginário, como urna
estrttamente interna. Dir-se-á, assim, que um iscurso didático visa espécie de índice de insistencia nova de urna questao bem mais radical.
·persuadtr, apresenta seus argumentos, como asser~óes com valor de Com efeito, de certa maneira, a problematiza~ao combina_da da psica-
verdades universais; que um discurso polemico é constituído de duas nálise aplicada repousa na cumplicidade de um destacamento. Consiste
proposi~óes: urna proposi~ao adversa e sua nega~ao. Estas pesquisas em supor que os problemas come ariam n~sciplinas, _/'
sugeridas sao extremamente preciosas, ~ ~ condi~ao d~~~m._
nas exóticas zo~a~__ sp~ta_as por .s~~-~~.?~~~~~~,_,:_~~~-~r~~a~_f rl'/
constantemente ligadas .. as condi~óes de prO<lü~ao dos_~rsos, ao_qua: ~oles teoncas:··-Convtdar o soctologo , o antropologo , if
o institucional no qual o ·discursó é pr6auziCio;-¡s rela~óes de for~a
- ue p"E_~!~~!ll· ao --ato ilocudonário~··as "forma~óes ideológicas-·que-·g:o:--·-··--
o 'Crítico literário' só pode ser feíto na base da seguran~a tácita ·de que
- ~-------~·-------··~--------~----------------------·--·-
o essencial nao será colocado em questao." 8
90 91
l._·

..r Sem subestimar tudo o que os pesquisadores estio no direito r as escansóes de um campo semantico: nao se interroga o sentido atri-
• c. !de esperar das confronta~óes interdisciplinares,~:COQyé.m_c:lizer_ ql1~ _elª~- buído em certa época as palavras 'melancolía' ou 'loucura sem delírio',
·: ! nio poderiam esgotar o problema, pois passar-do nível da __cJ.~ªcrj~ao nem a oposi~ao de conteúdo entre 'psicose' e 'neurose'." 10 E mais
'~ : lingüística ao nível da análise sociol6gica é deiiar uin --vazio episte~ · 1 adiante: "Ve-se em particular que a análise dos enunciados nao pre-
;· ¡-iñologico-·que nao pode ser preenchido senio pela constru~ao de· urii- tende ser uma descri~ao total, exaustiva, da 'linguagem' ... nao toma
' obje!9_4~~~r~~v~!P9rprocéssos lingüísticos, mas que se integre a uma o lugar de uma análise l6gica de proposi~óes, .de uma análise grama-
tical das frases." 11 Também nao é da banda da estrutura formal que
~ria ge.r.al ?as soc.iedáde. s, com conc.eitos cie~tíficos, -e nao simp.le.s-.~~~ urge procurar a constitui~ao deste objeto. O tipo de unidade discur-
~:f!t~__ r~ebtdos co_t:!!_o_!ais pelo consenso geral das disciplinas, ~~!s_·
.como elas sao atualmente "recortadas". 1! colocar de novo o problema siva procurada nao é ne_!n formal nem ret6rico; nao residindo nem
da oculta~ao geral dos conceitos do materialismo hist6ríco na maior nas coisas, nem nas palavras, nem na forma e na ret6rica; esse tipo
parte das ciencias humanas, oculta~ao cuja teoria deverá ser feíta também nao reside no recorte do universo científico ou pseudocien-
um dia. tífico em disciplinas, tampouco na figura do tema ou na do autor.
:gste objeto nao é constituido pelo discurso, mas pelas condifÓes
qe. possibilid__q_d.e_dos.. discursos, JL~~aíripo- problemático- que lhes assi-
4. 2. Michel Foucault e a constitui~áo do obJeto discursivo nala um certo modo de existencia e quefai-com "que-;-¿m. ·aetemuna'dá
~poca, em~'!.cterminatf<>l~ga~;--~ao.. ~e-- dig~!·nao-_s_t: diga_jtbs~lu_ta!Jlent~ -
qualquer cotsa. Basta abnl L Htstotre de la folie para percebermos que,
4. 2 .l. As condífoes de possibilidade do discurso quando o· -autor sustenta um metadiscurso sobre seu objeto, fala de
Pode parecer estranho relacionar a obra de M. Foucault a cons"
·titui~ao de um objeto discursivo, pois, como tentaremos mostrar, nao - estruturas que dao conta do discurso,
é o discurso que está no centro das preocupa~óes de M. Foucault. Sua - condi~es de possibilidades da psicología,
pesquisa, explica ele sobretudo em A Arqueología do Saber, nao é a - espa~o, horizonte,
do referente. "No exemplo escolhido, nao se procura saber quem - coerencia implícita de urna perce~ao .
estava louco em determinada época, em que consistía sua loucura, nem - delimita~ao de um novo espa~,
se suas perturba~óes eram identicas aquelas que nos sao familiares ho]e. - condi~óes de possibilidade, de um novo campo perceptivo,
Nao se questiona se os bruxos eram l01.icos ignorados e perseguidos - reorganiza~io do espa~o.
ou se, num outro momento, uma experiencia mística ou estética nao
foi indevidamente medicada. Nao se procura reconstituir o que podía Em La Naissance de la clinique o autor fala de "mutacóes dos
ser a loucura, tal como ela .se teria entregue, de início, a alguma expe- discursos", de "passagem de urna forma enunciativa a outra", de "con-
riencia primitiva, fundamental, surda, mal-articulada, e tal como ela di~óes de possibilidade da experiencia médica". As condi~óes de pos-
teri~ sido em .seguida organizada ( traduzida, deformada, travestida, sibilidade estao inscritas no pr6prio discurso, "mas nao sao no entanto
tal vez reprimida) pelos discursos e pelo jogo oblíquo, muitas vezes rela~óes exteriores ao discurso, que o limitariam, ou lhe imporiam
manhoso, de suas opera~óes. Sem dúvida é possível uma tal hist6ria certas formas, ou o for~ariam, em certas circunstancias, a enunciar
do referente ... " 9 Assim, nao sao as coisas que constituem o domínio certas coisas. Elas estao de algum jeito no limite do discurso, oferecem-
de pesquisas de M. Foucault. Os historiadores que procuram recons- lhe objetos de que ele pode falar, ou melhor ( pois esta imagem da.
tituir os fenomenos objetivos ·antes de circunscrever seu vivido nao oferta supóe que os objeto.s estejam formados de um lado e o discurso
se shuam na visada foucaultiana. O que. é a morte real; objetiva, em do outro), elas determinam o feixe de rela~óes_q~--º-~§f!Jtso ~e-~c:_ __
Anjou, pergunta F. Lebrun? O que é a pobreza do século XVI ao efe. tu~.r12p.ara._ P<?._der Jratá·-.lo···s, o_·m· e.a-l~.~~alisá~Io·s· • . cl.as. sif. ic. ~~~Q!,_~xp. Jfcá- ¿-.
11. ,f¡
século XVIII, pergunta J.-P. Gutton? Para M. Foucault, seu objeto ~1os". _Como _se ve,_s_e as condi~óes de possibilidade estao inscritás---{ Y
nao está desta banda. Tanto quanto .nao está nas coisas, este ·objeto no discurso, sao antes elas, dó- que- o diseurso,.qtÍe- hi.téressam a~· Fou- .
nao está nas palavras, na análise interna do discurso, em sua estru- cault. Este campo de configura~ao resulta naquilo que o autor chama
tura intralingüística. "Nao se determina uma organiza~ao léxica, nem de formát;oes discursivas. _Quando se tiverem empreendido longas pes-

92 93
tituíam (crítica das fundac;óes de hospício, novo quadro institucional, ·
quisas sobre os sistemas de emergencia dos objet?s•. sobre as formas papel da ideología política, da tecnología médica, reorganiza~ao do
de aparecimento e de distribui~ao dos modos enunciativos, sobre as for- campo hospitalar, nova definic;ao do estatuto do doente na sociedad~,
mas de coloca~ao e de dispersao dos conceitos, sobre as que regulam o abertura da linguagem a todo um campo novo, etc.). Esta reorgam-
desdobramentó das escolhas estratégicas, ter-se-á entao construído urna zac;ao do espac;o perceptivo dá canta da passagem da linguagem de
unidade abstrata, a forma~ao discursiva. Na realidade, · se em Pomme que, em seu Traité des affectio~s vaporeuses des deuxs sexes,
L'Histoire de la folie, em La Naissance de la clinique, em Les Mo!s veicula ainda os velhos mitos da patologta nervosa, a de A. L. J. Bayle
et l~s choses urgía, como escreve M. Foucault, descrever urna forma~ao que em sua Nouvelle Doctrine des maladies mentales, cem anos mais
discursiva em toda sua dimensao, isto é, definir para. cada empreen- tarde, expressa-se de urna maneira totalmente diferente, num novo
dimento "as regras de forma~ao. dos objetos, das modalidades en.un- . .~ce espac;o perceptivo. Assim, a busca de M. Foucaul_t é o Ql,lLtQmª_~t_~
ciativas. dos conceitos e das escólhas teóricas", 13 de fato, as análises h( _()u_aquele discurso ·· ssível e o discurso ~erll? conjunto dos enunciados
precede~tes seriam antes centradas em tal ou qual aspecto, neste ou na- \· enquanto no am ito da mesma formac;ao. scursiva. ma tal a or-
quele modo de emergencia. "Em L'Histoire de la folie, eu m~ ocupava Ciagem obnga M. Foucault a se colocar o roblema da emer éncia das
com urna formac;ao discursiva, cujos pontos de escolha teóncos eram praticas nao- scursivas no róprio discurso sendo este conce 1 o como
muito fáceis de serem assinalados, cujos sistemas conceituais eram rela- · urna pratica. uais sao _pot~a-~~tica.§_!!ªo-di_~~rsivas_qq~_daQ__CQ.Dta
tivamente pouco numerosos e sem complexidade, cujo regime en~mcia­ ·aapráticadiscursiva? Duas citac;óes nos permttuao ao mesmo tem~o
tivo . enfim era bastante homogen<;o e monótono; em contrapartida, o ádriútii ·a dívida incomensurável que todo historiador do campo dts-
que' criava problema era a emergencia de_ todo um conjunto de objetos cursivó tem com M. Foucault e, numa complexa ambivalencia, os li-
extremamente imbricados e complexos. Tratava-se de descrever, antes mites próprios de sua análise. "O que a tornou possíyel (a disciplina
de tudo, a formac;ao destes objetos." 14 psiquiátrica) na época em que apareceu, o que determmou esta grande
Com efeito, quando se opera no curso do século XVIII, o que mudanc;a na economía dos conceitos, das análises e das demonstrac;óes,
M. Foucault chama "a segunda partilha", desfaz-se entao todo um é todo um jogo de relac;óes entre hospitalizafao, interr.amento, condifoes
espac;o social e perceptivo, especifica-se a loucura, a _re~lusao é mui~as e procedimentos de exclusao social, as regras da jurisprudencia, as nor-
vezes reservada unicamente aos loucos. Numerosissimas categortas mas do trabalho industrial e da moral burguesa." E mais adiante:
varrem agora o campo da loucura. Delimita-se entao um novo espa~o "Estas relafoes se estabeleceram entre instituifoes, processos econo-
em ligac;ao com novas acontecimentos e mudan~as institucion~s; em li- micos e sociais, formas de comportamento, sistemas de normas, técnicas,
gac;ao com urna reorganizac;ao do discurso sobre a Academta, sobre tipos de classificafao, modos de caracterizafao." 18
os pobres, em relac;ao com os ataques políticos contra o internamente. Dívida imensa, dissemos, porque M. Foucault estabelece explíci-
Assim criam-se as condic;óes de possibilidade de um novo campo per- tamente as relac;óes das práticas discursivas e das práticas nao-discur-
ceptivo. A loucura vai receber o estatuto de objeto. "Em La Naissance sivas. Por isso, escapa ao perigo da análise interna como tipo das aná-
de la clinique, o ponto essencial da pesquisa era a maneira pela qual lises estruturais, cuja leí de funcionamento é intradiscursiva. Ele sai do
·se tinham modificado, no fim do século XVIII e comec;o do XIX, as discurso para dar canta do discurso, mqda_de-terreno-e-postULULnao--
formas. de enunciac;ao do discurso médico; a análise tinha-se detido, -=autonorniaaas práticas discursivas. Contri~~~c;_a_o_l!~-~nt~g~g_gmitada 1_
pois, menos na formac;ao dos sistemas conceituais ou na das escolhas pois_-estas-_duas ·citac;óes;··enfre.-oütras,-_mQ5iram _que .. a _relac;a9 __ da~!~:-__
teóricas do que J10 estatuto, no espac;o institucional, na situac;ao e
nos modos de inserc;ao do sujeito que fala." 15 · La Naissance de la
tícas discursivas 85 práticas nao-diS9JfSÍVaS__ ~_}deac4t em_ t~J;ffi()S_~~-¡US-.
clinique. centraliza sua investigac;ao nas formas enunciativas, _nas modi-
tapoSÍfaO, sem hierarquÍa, sem dominancia, sem que O nível discursi_vo__
Jamaisesteja relacionaclo_.ao:-_conjlintoafticutadó-de um~-- formac;!lo
ficac;óes da linguagem: "Quanto a própria linguagem, a partir de qual SoPal, a seu jogo compl~:l_CO de..instanctas _e de dominanCÍ!J.~:· --~OS OOÍS --
modificac;ao semantica ou sintáticá pode-se reconhecer que passou a exemplos aoma -est~o iustapostos elementos da . infra~estrutura (pro-
discurso racional?" 1 6 O autor analisa como se desfaz urna figura enun- cesso economice: trabalho industrial), elementos que colocam em jogo a
ciativa, a da velha teoría das simpatías que se movía Iium v~bulário estrutura de dasse ( processos sociais), elementos da superest~tura
de correspondencias, de vizinhanc;as, de homologias, de analogias. Ela jurídica ( regras da jurisprudencia), elementos da superestrutura tdeo-
se esclarece a partir de urna reorganizac;ao d~:; elementos q.ue a cons~
95
94
-:;.. lógica ( condi~óes e processos de exclusio social, .sistemas de norm.as a fogueira). Apareceu assim urna importante escansio, ao nível da
¡ \/f.~r~as de co.m~rtamen. tos), e~c. Co .. m.o·~ hierarquizam estes diverso~
\ ~vets para functonarem na práuca discursiva? O problema é esquivado.
série discursiva judiciária, a qual corresponde urna escanslio do discurso
; moral. Confundiram-se duas experiencias que estavam separadas: as
1
. .Em conjunto, através de L'Histoire áe la folie, La Naissance de la sagradas proibi~óes da sodomía e os equívocos amorosos do homossexua-
Cltmque, Les Mots et les Chos'es, L'Archéologie áu savoir é menos \ lismo. Urna nova forma de condenat;;io envolve a ambos, e tra~a urna
o. ~scurso em ~i ,q_ue constitui o. objeto de M. ·Foucault ~o que as con- linha divisória inteiramente nova no dominio do sentimento. Forma-se
dt~oes de posstbllidade deste discurso e da prática discursiva, como assim urna unidade moral liberada dos antigos castigos, nivelada na
lugar de rela~óes entre estas práticas e as práticas nao-discursivas sendo internat;;ao, e já próxima das formas modernas de culpabilidade." 20
essas rela~óes ideadas em termos de justaposi~íio e nio de hie;arquia · Assim, o relacionamento das séries religiosas ( sacrilégios da sodomía),
e de determina~io. · das séries judiciárias e morais, suas rela~es, suas respectivas escansóes,
desenham um campo novo, no qual se podem apreender ao mesmo
4.2.2. O obieto discursivo em "L'Oráre áu áiscours" tempo a prática discursiva, suas transforma~óes e, talvez, o porque /!
\ destes deslocamentos de dominancia discursiva. Por que as séries reli-
O discurso enquanto tal aparece entretanto reintroduzido na aula giosas, no fim do século XVIII, deixam lugar a urna dominante ética?
inaugural do College de France do dia 2 de dezembro de 1970. A or que, quando se trata de blasfemia, esta me.sma série religiosa deixa
a
Arqueologia ~ cede lugar urna genealogía. A propósito .do discurso ugar a urna dominante ético-económica? Nao seria necessário procurar,]
s~bre a .~~d.ade, ~· .Foucaul~ se propóe a analisar os conjuntos de . m primeira análise, a razao destes deslocamentos de tónica, no lugar
. discursos literanos, religtosos, éucos, biológicos, médicos, jurídicos, evo- !¡ que ocupa ou nao mais ocupa a Igreja enquanto aparelho ideológico
c~_do o _proble~a da sexualidade, para neles investigar como as inter- 1 de Estado, 21 na forma~ao social francesa do século XVIII? Volta-
di~s nao functonam da mesma maneira no discurso médico no dis- L_:emos a isso. . . .....
curso literário ou no discurso da confissio. De onde a idéia, já .antiga Outro discurso: o discurso sobre a pobreza, desenvolvido no capí-
em M. Foucault, de descontinuidade, e a idéia da análise das plurali- tulo intitulado "A Nova Divisao". A pobreza, nas séries religiosas, nao
dades de séries. · · se superpóe a pobreza no discurso do pensamento económico: "Havia
. Outra proposta é c~nstituída pelas séries discursivas que ~oncemem existido toda a tradi~io cristi, para a qual o que tinha urna existencia
a rtqueza, a· pobreza, a moeda, a produ~io, ao comércio dos ·séculos real e concreta, urna presen~a de carne, era o pobre. Rosto sempre indi-
:xyr ~ xyn,_ enl;IDciados het~rogeneos, que emanam de grupos sociais vidual da necessidade, passagem simbólica do Deus feíto homem ..• " 22
e mstttuaonats diverso,s: os neos, os pobres, os sábios, os ignorantes, Mais adiante: "O pobre é reintroduzido na comunidade, da qual tinha
. os _protestantes, os catolicos, os oficiais reais, os comerciantes, os mo- sido expulso pela interna~ao, mas tem urna nova face. Nao;é mais
ralistas, etc. · a justificat;;ao da riqueza, sua forma espiritual. Nao é senao a sua pre-
· Outro exemplo, enfim, Ós discursos sobre a hereditariedade. ciosa matéria. Tinha sido sua razao de ser, agora é sua condi~ao de
"!ratar-se:ia entao de mostrar por qual jogo de articula~óes estas séries existencia. · Pelo pobre, o rico nao se transcende mais: ele sub-
sao por ftm recompostas na figura· epistemologicamente coerente · e siste ... " 23 Aqui ainda, a dominancia torna-se ético-económica, quan-
reconhecida pela institui~io da genética." u M. Foucault nao titilia do ainda no século XVI era nao unicamente, mas essencialmente reli-
esperado· sua conferencia inaugur~ no College de ·France pará propor giosa .. · Assim, em filigrana em suas rimeiras obras e de ma · a
este estudo pas regularidades seríais ·e· dos desligamentos interseriais; mais ex c1ta nas ' timas á inas de L'Ordre du discours, M. Foucault
Nos poros .de L'Histoire de la folie¡ dois discursos inauguram esta ati- · · propoe outro ti o e estu o ue nao o as orma oes . scurs1vas, os
tude. O discurso sobre a sodomía e a homossexualidade, e o discUrso scursos plurisseriais, dos quais se analisam as 're láridades róprias,
so~re a. pobreza. Em 1726, parece que, pela· última vez, tim sodomita as escansoes, os es gamentos, os es ocamentos. · e ominanciá. . sta
.· f?1 ~uetmado na Pra~ de Greve. Conseqüentemente, o discurso judi- "'ibordagem é mais nitidame~te centrada no diseurso, mas coloca de .
aárto se transforma, as penas inflingidas nao· sao mais da mesma ·ordem maneira nienos central a rela~ao da prática dis~ursiva as práticas nao-
( desterro na provincia, interna~ao ou casa de deten~ao, mas nao mais discursivas. · ·

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. Em suma, destas múltiplas pesquisas, da abundancia das abor- quis mostrar. . . De fato, semelhante análise suporia a persistencia
dagens foucaultianas, o que reter em primeira análise para nosso objeto? imutável de uma loucura armada já com seu eterno equipamento psi-
. Reter-se-á, em primeiro lu~r, o discUJ:so _considerado como _prá- cológico, mas cuja verdade tardaría muito a ser demonstrada. Ignorada
~ Em seg!-u~doJ~gar, -ª-l!ec:~ssiqaJe de pensar as rela~s entre prá- desde séculas, ou pelo menos mal conhecida, a idade clássica teria
tlcas~Cliscumvas e práttcas n~;~i~rsi~s. Em- tercdro lugar, as pro- comefado a apreender obscuramente como desorganiza~ao da f~míl~a,
post~oes metOdoló icas _:__ d_r·d)· dzscours. Reter-se-a, desordem social, perigo para o Estado. E, pouco a pouco, esta pnmetra
,er;r Isso, os anáte~.as de M. Foucault contra certo número de prin- percep~ao se teria organizado e aperfeifoado, finalmente, numa c?ns-
ctptos ; .de problematlcas. É o caso de ú'm "sentido oculto" que seria ciencia médica, que teria formulado como doen~a natural o que amda
necessario encontrar na espessura do discurso: "Nao resolver o discurso nao passava de doen~a da sociedade." 27
num jo~o de signifíca~,Oes prévias; nao imaginar que o mundo volta Reter-se-á, enfim, sua tomada de posi~ao face a toda antropología
?ar~ no~ urna face legtvel que teríamos apenas que decifrar; ele nao do sujeito: "0 que se deplora tanto nao é o desaparecimento da His-
e cumphce do nosso conhecimento· nao há providéncia pré-discur- tória: é a dilui~ao desta forma de História que estava, em segredo,
· szva• - ·--M ,_ FQ!J.S!!UJ_
· · · .-" 24 1 pap
- cessa ' de lutar contra os demonios da mas inteiramente referida a atividade sintética do su jeito . .. ; o que se
·\__ ~ermeneuti7a . .'Como também na histórili~·das idéias. Ein todos-os seiis deplora é o uso ideológico da História, pelo qual se tenta restituir ao
livros, e prmctpalmente em L'Archéologie 4u.savoir, M. Foucault nao homem tudo o que desde há mais de um século nao cessou de lhe
/,cessou_ de atacar as categorías de genese d~r filiariO'- de parentesco de
"" infl;xe~~Ia, de espírito de época, de sujeito
~ ,
A • ·' ~ilO;\ '
a or, de experiencia
escapar." 28
Numa palavra, M. Foucault, no que diz respeito ao horizonte epis-
ordina~Ia, etc. "A história das idéias é entao a disciplina dos come~os
temológico da constitui~ao no campo da História do objeto discursivo,
e dos fms, a descri~ao das continuidades obscuras e das voltas a recons- nos trazuma grande contribui~ao quando declara guerra a Antropología
titui~ao dos desenvolvimentos na forma linear da história."' 2:s Eis 0 do sujeito, ao continuísmo em História, a História das idéias, a her-
termo-mor, aquilo contra o que toda a obra de M. Foucault se inscreve meneutica do sentido; quando coloca no núcleo de sua reflexao a obses-
"a forma .linear-da História" 0?-continuísmo, o desenvolvimento ero~ sao das rela~óes da prática discursiva e das práticas nao-discursivas.
n~ o tecido cronológlcQ_~em desc0ñiliiü1dade da Hisi6ri"!i.:-:N"i~
épo-racas_oque-elese-confessa cauáaililo;-explidtamente, -da ob~a de ,~D-ei.xa-~.s
' pela elísao.im
___ PQ!_ten.
que s., entret":"to~
fazte.dos par_~-----~~~-!t_~!~os ~~h,!_~a_E_~~a5_!()~
C00~~-~~9S_QO-~a.!er!álismOñístorlCO, . por_ seu
l'.
G. Can,guilhe~. É que .o conceito da bistória das ciencias deve ser iscursoparalelo -~9 ~-a!ij~m.o, _segundo-a feliz expressao de D. Leco;xrt. ·
construido e nao se marufesta nunca na evidencia da continuidade do 1Deixa~nos· i1llpatentes para refletir sobre o objeto discursivo pela elisao
ter;rpo do calen~io. G_._~ngu.Hhe.~_?lostrou que a produ~ao dos con- que faz também da estrutura lingüística do discurso. De onde o lugar
. cettos e das teort~s n.ao se efetuava a pariii: de iuiia origem, no- quadi:o que lhe é devido oeste capítulo, central e marginal ao mesmo tempo,
.a~_u~a· progressao linear._. Ela nao deve ser lidá: nos termos de urna] ponto de apoio e de impasse, ao mesmo tempo e no mesmo momento,
htstóri.a retrospectiva e apologética; a este respeito, m. uitas su.rpresas aquilo a partir de que tentaremos construir o objeto discursivo "séries
aguardam os representantes do continuísmo. Assim o cohceito de re-
discursivas" e aquilo a partir de que será necessário formular de novo
. ~exo, n~o nasce~. a partir da filosofía mecanicista,' como a evidencia
o problema da inser~ao da prática discursiva no conjunto das práticas
Ideolo~t.ca permttla pensar, mas a partir de urna filosofía vitalista. 26
· Po; varias vezes, M. Foucault, inscrevendo-se na linhagem de G. Can- sociais.
guilhe~, ~en,d~ com seu sarcasmo a ideología continuísta no que con- .
cerne. a historia das forma~oes culturais. 1 .

·.. "A in_,te~na~ao .seria enta? a elimina~ao espontanea dos 'a-sociais'; 4. 3. Alguns trabalhos recentes de historiadores e a constitui~áo
a Idade cla~stca ter1a neutralizado com uma eficácia muito segura -·- · do objeto disc~ivo
e t~nto_ mais segur~ qu~to ~~s cega - aqueles mesmos que, nao sem
. hes:ta~ao nem. ~r1g~, d_i~tr!bwmos ~ntre as prisoes, as casas .de cor- O exame sucinto de alguns trabalhos recentes poderá colocar-nos
r~ao, os hospitats pstquiatricos, ou os consultórios de psicanalistas. É na via da reconstitui~ao de nosso objeto?
em suma, o que, no início do século, todo um grupo de historiadore~

98 99
4. 3. l. A pobreza e a morte
mas unicamente por motivos de sa~ubriáaáe e de higiene pú~lica, como
Grande número des tes trabalhos abrangem longos períodos. se se visse nos mortos apenas cadaveres embara~osos e pertgosos, que
Assim, J.-P. Gutton estuda a pobreza e a visao da pobreza de 1534 a convinha pór o mais longe possível dos vivos." 33 F. Lebrun cita ?
1789; 8 ° F. Lebrun, a morte e as atitudes diante da morte em Anjou, exemplo de múltiplos processos que colocam e?l contenda asA c':mum-
nos séculas XVII e XVIII; 81 M. Vovelle, as atitudes diante da morte dades de habitantes e os parlamentos, a propósito da transferencia _dos
na Provence do fim do século XVII ao fim do século XVIII. 82 Os
cemitérios p!lra fora da cidade. Os únicos. argum~ntos trocad':s , ~e
métodos de abordagem sao no entanto diversos. As duas primeiras parte a parte concernem a salubri.dad: ou a msalub~tdade do cemtterto
obras inscrevem-se nas séries temáticas. Recorrem a urna multiplici-
intramuros: "Assim acaba provisonamente esta aspera batalha, em
dade de fontes ue - .- t rno do mesmo tema (pobreza,
que os únicos argumehtos trocados foram exatamente os mesmos, com?
morte . ara circunscrever o vivido dos angevinos rente a morte, F.
se se tratasse da transferencia de "matadouros" ou de cortu~es, pert-
Lebrun foi levado a estudar ao mesmo tempo os sermóes, os manda-
mentas do hispo, os sínodos, as conferencias eclesiásticas da diocese gosos a saúde da P?Pula~ao." 34 .Sem qu~ F . Lebrun te~a fetto ~esta
oonstata~ao seu obJeto de pesqUisa, ele mdica que no Ílffi do seculo
d' Angers, os catecismos, os "livros de Razao", * os testamentos, os
XVIII desenvolve-se urna estrutura mental, cuja atitude diante da morte
rituais, os estatutos das confrarias dos moribundos, as cole~óes de
ora~óes, a literatura culta, a literatura dos vendedores ambulantes, os é um revelador. Enquanto a morte real nao se modifica (nada de nov?
manuais de ensino elementar, etc. J.-P. Gutton, por sua vez, utiliza regime demográfico em Anjou), as atitudes diant~ da morte se .modt-
séries temáticas sobre a pobreza: compila~ao de leis, regras de polícia, ficam. F. Lebrun assinala assim urna ruptura mator das mentalidades
estatutos de hospitais, de institui~óes de assistencia, testamentos, coletivas. De maneira muito complexa, J.-P. Gutton mostra, po~ sua
arquivos de confrarias, almanaques, tratados teológicos, memórias, vez como idéias tradicionais e novas visóes sobre os pobres coextstell_l
"livros de Razao", fontes romanescas, literárias, etc. F. Lebrun mostra no'fim da Idade Média e no século XVI; como a segunda m:tade do
que a sociedade angevina ficou muito marcada pela religiao. As atitudes século XVIII, se é hostil aos mendigos e aos vaga?undos, ~ao. o faz
diante da doen~ e da morte permaneceram por longo tempo muito por motivos de costumes ou moral, mas por motivos _econom1cos e
tradicionais: a doen~a é querida por Deus, é um castigo e urna adver- de ordem pública. Aquí, ainda, é o tra~o de urna n~va estr.utura men-
tencia, um sinal de Deus. E o que se deve temer acima de tudo é a tal que se desenha, reincorporando elementos mUlto anttgo~, como
morte súbita, pois é necessário preparar-se para morrer bem. As armas a necessidade de fazer os pobres trabalharem. O livro termma pela
do doente sao antes de tudo a ora~ao e a penitencia, a invoc~ao a necessidade de levar em conta as descontinuidades hist?ricas. "Quan~o
Virgem e aos santos intercessores. F. Lebrun observa no entanto signos estudamos a evolt.:i~ao das atitudes, as grandes referencras da, ~ronologta
de muta~ao no fim do século XVIII, urna nova atitude diante da morte geral tem um sentido e, chegados a 1789, pode-se legttimamente
das crian~as de ber~o, diante da doen~a, da epidemia: urna áessacrali- parar. Coisa inteiramente dif~rente acon~ece com _o estudo dos P?bres.
ZIJfáo da áoenr;a e áa morte. A este respeito, o edito de 1776 que As transforma~óes da economta e da soctedade, tao claras a part1r dos
proíbe, salvo exce~ao, a inuma~ao nas igrejas e que estabelece a neces- anos 1730 nao nos parecem ter modificado a composi~ao do mundo
sidade de inumar em cemitérios extramuros pode ser coasiderado como dos mendi~os e dos vagabundos. O período revolucionário. também nao·
índice desta muta~ao mental, desta considerável mudan~a da sensibili- o terá alterado. Encontram-se no século XIX os mesmos ~tpos de m:n-
dade religiosa. o autor nota, a este respeito: "Certamente, a prática digos ( ... ] Tentamos mostrar através de quais mecamsmos alguem
das inuma~óes, seja nas igrejas, seja mesmo nos cernitérios intramuros, se torna pobre, do século XVI ao XVIII; será pre~iso mostrar ·como
. apresentava múltiplos inconvenientes, mas correspondía ao mesmo estes mecanismos se desregulam pouco a pouco nos seculos XIX e XX,
tempo a urna certa forma de sentimento religioso ( embora se pudesse a ponto de fazerem desaparecer ou quase, os últimos vagabundos do
denunciar aí um bafio de supersti~ao) e a urna inconteste fidelidade Antigo Regime nas campanhas francesas dos ~~~s 1930 ou 1940." ~ 5
a memória dos desaparecidos. No entanto, se atualmente se condena É recisamente aí que se estabelece certa ambiguidade comum .. . ~s
esta dupla prática, nao é em nome de urna religiao ·mais esclarecida, 0 ras. Com e eito, ca a urna e as e coml'osta e duas partes dts-_
1iñt'i5: urna consa rada a reahdade oh etlva do fenomeno. estudado
* Espécie de diário escrito outrora pelos chefes de familia (N. T.). · reza ~conomtco-social, a !norte em sua .· .... - · e~o rá ~ca e
100
diante da pobreza: sentimentos, atitudes, doutrinas", no que concerne a explica estas muta~óes. Constatando que a morte real nao muda em
J.-P. Gutton, e "os homens diante -da morte", na obra de F. Lebrun. Anjou no fim do século XVIII, F. Lebrun mostra que, ao contrário,
Com efeito, se se trata de diferen<;ar explícitamente a morte ou a a atitude diante da morte se dessacraliza, se transforma. A nao-coin-
pobreza como-fenómeno social objetivo e as ideolo ias ue as ensam cidencia entre esses dois fenómenos é flagrante e, arrisquemos a expres-
e a vivem, este proce Imento é a melhor conveniencia e rompe com sao, salutar. Ela nos conforta em nosso discurso sobre o conceito de
urna tradi~ao que tende a misturar ·a face das rela óes sociais com a descontinuidade em História. Torna caducas todas as interpreta~óes--'
. azem
mens e as. Este méto o, n~· -~~·t;iito:- n~o. simplistas, mecanicistas, de causa e efeito. Impede que se acredite que
urna modifica~ao demográfica induziria a urna modifica~ao ideológica.
¡
-nos _sausfaz. Osar tal ex ressao nao imphca de modo nenhum (cürl--
"trartamente a aparencia que urna eitura cursiva este capi u o· daría) Fixado este ponto, deve haver mecanismos complexos que expliquem-
urna crítica explícita ou implícita frente a estes dois grandes livros. estas rupturas consideráveis de mentalidade. Elas nao sao frutos do
~o se trata de crtttcá-los por nao terem constituido um objeto qu~ acaso, de algum capricho da História. Sao provavelmente determinadas
nao era o seu. É o caso, a propósito destes livros, de colocarmos o de maneira complexa, asseguram urna fun~ao na forma~ao social consi-
problema da prática discursiva. Eles nao nos satisfazem por duas razóes derada e até talvez constituam um índice de mudan~as infra-estruturais
essenciais. Quando analisam certas fontes ( sermóes, "livros de razao" que postulam novas formas de combina~óes superestruturais para que
literatura de mendigos ou tratados teóricos), as categorías temática; a forma~ao social, em sua totalidade organica, se reproduza. Conve-
colocada em jogo nao nos parecem esgotar a riqueza de tais fontes. nhamos que tuda isto é muito obscuro, e nao é o caso, repitamos ainda
\ É.. 9u~ o método_temático, co~~ já disse~~s, ~essa ~- C!_~t~tura lin- urna vez, de censurar a estes dois belos livros o fato de nao terem
guistl_~a_fl_o~~_!_!:_q, -~U..-ª_ !!!!!~-ª~Jj-~de_p_!opria, queetetta ae palavraS- enfrentado aquilo que, tal como é constituído o campo historiográfico,
'f'!:_s_co das e _combinadas. Senda assim, -sao--negligenciaclifs a- estrutura- nao existe. Estabele~amos semente neste nível de nossa análise que tal
.. ;' sintática do texto, o léxico específico, a rede semantica que se tece pesquisa de causalidade complexa nao pode ser feíta senao num quadro
,, ., ¡·e~~~e.<>s vo~ábulos. Sao eludidos, da mesma -maneira~ o· iúvel próprio conceitual preciso e através da coloca~ao e aprofundamento dos con-
\)' ¡! do discu~so, suda estrutura, sua estratégia de raciocínio, sua retórica,
ceitos do materialismo histórico numa articula~ao específica, apta a
. os mecamsmos e enuncia~ao pelos quais o sujeito falante intervém no dar canta da sociedade do Antigo Regime e do jogo específico de defa-
discurso. Em suma, os textos só sao utilizados por seu conteúdo com o sagens, de rupturas, entre as diferentes instancias desta forma~ao social.
p~stulad~·· inicial e implícito de que o conteúdo é unívocO, qué -a·~imples
1 l:_ltura da conta dele e~ sua !'lenitude. As~im, ~s rupturas ~onstatadas 4. 3. 2. Michel Vovelle e as fórmulas testamentárias
.' sao r~pturas de conteudo, nao _rupturas .discursivas, formais --ou ret6-
Cómo J.-P. Gutton- e F. Lebrun, M. Vovelle filia-se a linhagem dos
lr~ca_s~--- -~~~vé.s d~~~rso;. urna coisa -~~-qa prática langas períodos, nesta história serial das me.ntalidades, preconizada há
discursiva. _O discurso e·;contraditonamente, esta transparencia que a1guns anos em particular por P. Chaunu. 36 Sua mten~ao e quan-
~a perconer para ver surgir um sentido, e esta opacidade que é pre- _t1Í1car, ao nfvel social, as atltudes diante da morte, assim como a
ciso atravessar para se encontrar outra coisa, que se chamará "estruturas evolu~ao destas atitudes, suas rupturas mais importantes. A diferen~a
ment~is" ou "mentalidades coletivas". Como gastaríamos, no entanto, entre a obra compreendida e aquelas de que se tratou acima é tripla.
atraves de urna fonte como a literatura de mendigos, do inventário A_obra pretende ser em primeiro lugar busca das atitudes e nao é
l:xicoló?ico do termo )o?re" e de seus substitutivos! Como espera- preced1da por urna demografía proven~al. A procura da sens1btlídade
riamos Igualmente um mdice da palavra "morte" nos sermóes, e dados. e da prática rehgwsa constlfm seu únicoobjeto. Isto permite circuns-
obre a. evolu~ao de seu campo semantico! É que o discurso enquanto creve-lo e aprofundá-lo melhor. Em segundo lugar, o aparelho das
1, a ~nguage~ n~ ~ua m~te,ri~l-idade pr.ópria, nao se constituiu ainda fontes nao é mais constituido por séries ·temáticas heterogeneas, mas por
m o?Je.to da di~ciplina historica; toda a nossa _obra tende apenas a urna. fonte privilegiada, digamos tipológica: no caso, os testamentos
nst!t_titr u.m gu~a que possa deixar penetrar no campo historiográfico submetidos asugestao judiciária, testamentos "místicos e solenes"' assim
a pratlca discursiva. A segunda. razao é mais complexa. Diz respeito como testamentos "nuncupativos"* que comportam cláusulas de substi-
•ao problema da causalidade específica que poderia explicar o porque
· destas mutacóes. Nenhum dos· dois livros coloca o problema do que * Feitos de viva voz [N. T.].

102 103
tui~ao em favor de um ou de vários, em caso de morte do herdeiro
designado. É a evolu~ao desta série que se atém o pesquisador. Assim,
ele analisa de maneira muito fina e minuciosa. Em terceiro lugar,
enfim, mesmo nao assumindo um caráter sistemático, técnico e completo,
r
j

1
barrocas, a escolha da sepultura nada mais é, ~ue urna preocupa~ao
exterior, os pedidos de missa entra~ em d:chn1~. Em toda parte a
individualiza~iio e a laiciza~iio d~s autudes sao assmaladas. n? c:!iscu!so;
"Produziu-se urna mudan~a ma1s ampla, da qual a descr1suamza~ao e
a estrutura lingüística do texto é levada em considera~ao. Ela aparece apenas um dos aspectos. .
até como fundamental, urna vez que é pela mudan~a do tipo de dis- Para os proven~ais do século XVIII, a imagem da morte mudou.
curso constituído pelo testamento que o autor vai poder inferir as A rede de gestos de ritos pelos quais esta passagem encontrava·se asse-
grandes rupturas da sensibilidade religiosa. O ponto de referencia, no gurada como vi~oes as quais respondiam, modificou-se profundamente.
início, é constituído pelo testamento "barroco" da regiao de Nice, com Nao s; sabe se o homem parte mais sozinho, menos seguro d? alé~
um formulário muito rico, que implica na profusiio do religioso em em 1870 do que em 1710, mas ele decidiu nao ~ais fazer. c~nf1d~~c1a
todos os atos da vida, e principalmente a soleira da morte, no ato de disto. Esta modifica~ao essencial de um gesto vital constttm talvez a
fazer o testamento. mais importante contribui~ao desta investiga~ao." 88
Este come~a pela constata~iio da necessidade da morte e da "incer- Estas análises introduzem-nos nas possibilidades de utiliza~ao dos
teza da sua hora". Dito isto, como "cristiio e católico, apostólico e métodos lingüísticos pelo historiador.
romano", "preferindo a alma ao corpo", ele se mune do sinal da cruz.
Em seguida, vem as irivoca~óes pelas quais o suplicante se dirige a
Deus, a Trindade, "pelos méritos da morte e da paixao de N. S. 4. 4. A Linqüística com "receita"
Jesus Cristo". Os intercessores sao, em primeiro lugar, a Virg_em "glo-
risissima", "beata", "immaccolata", "a sempre vergine", ou "muito glo- Num primeiro estágio, que já menciona~os em nosso prólogo,_o
riosa", "santíssima". Seguem-se os santos patronos, o patrono patro- historiador nao traz a baila o pmblema do dtscurso, nem o da rela~ao
nímico, os diversos patronos de devo~óes privadas (S. Miguel, S. das práticas discursivas com as práti~as. nao discursivas. O que ele
José), depois a corte celeste "suplicando-lhe por sua divina miseri- pede ao lingüista é um protocolo de tecmcas, de métodos que lhe per-
córdia. . . que se digne colocá-lo no número dos eleitos". mitam organizar de maneira racional o dado br~to do text:>· Ele teas-
O testamento compreende, além disso: sumirá todos os seus direitos no momento da mterpreta~ao, em que,
em fun~ao de suas hipóteses, de suas pesquisas e dos resultados for-
o dispositivo dos funerais necidos pela análise lingüística, proporá resultados, urna tese: Os. :es~l­
a escolha da sepultura tados obtidos por este procedimento nao sa? em nada neglig~nctavels.
os pedidos de missa O historiador conseguirá assim demonstrar rtgorosamente, mmtas vezes
doa~óes piedosas, etc., de modo formal, o que sua intui~ao, a leitura inst;~mentada do ~exto
Ihe havia sugerido. É assim que o método de anah~e dos _en.~n~ta~os
e tudo numa linguagem própria. O autor' nao se contenta em analisar permite mostrar em pouco tempo como funciona ~ dicotomia. d1re1~os \
as fórmulas testamentárias acima abordadas, mas ainda um certo número feudais pessoais" /"direitos feudais reais" em Merhn de Doua1; perm;te
de cláusulas: "ser enterrado segundo seu estado e condi~ao", as invo- ) . demonstrar o caráter ultranobilifrio das pro~o~tas ?~ rer~esenta~oe_s \ .
ca~oes a Virgem, aos santos, etc. Assim, situam-se as rupturas decisivas ':jO
par.lamenta.res e o caráter hurgues ~as prol?os~~~~ f1s~raucas, pa~.u-~J':f
ao nível desta série discursiva: "contra todas as aparencias, as fórmulas ""f! cularmente as de Turgot. Neste senudo, a Ltngw.suca nao é, no senttdo .
de escrivao, longe de serem inertes, revelam-se móveis, aptas a traduzir ~..) ~tito,__um~-s~~d~._c!~sc~~erta. Ela-regulariza, normaliza, forma- ·
um movimento e, através dele, a refletir as muta~Oes de sensibilidade liza ordena o grosso Clos textos. . / ./ .
coletiva da clientela notarial". 37 . Desta confronta~iio, em que a parte ~.tomada de consc1énc1a dest~iríomenos terna· os histor~adores
da linguagem permanece central, resulta que, depois de 1760, opera-se perplexos e eles nao colocam o .P:~blema do custo da opera~ao sem
urna muda~a. que o discurso testamentário assinala. O testamento .segunda inten~ao. "Vale a pena nnclar.mo-nos nos.métodos com~lexos,
laicizou todas suas fórmulas iniciais, despovoou-se o panteiio dos inter- difíceis, estranhos ao nosso campo teónco, se, no f1m de cantas, uemos
cessores. Resta apenas urna referencia a Deus, acabaram-se as pompas encontrar apenas, por óutros meios e por outros processos, o que urna
. 104
105
!eitura paciente e in,formada ?os teria revelado?" - ouve-se repetir
mcansa;relmente. E e necessár10 confessar que, a primeira vista, a per-
r
.
en;onttava-se limitada ~r -ceno número deobstáculos (o do estatuto
do sujeito da enuncia~ao, o do formalismo, 39 o da covariancia, da
gunta e bem fundada. Como! por em movimento todo um comple ' interdisciplinaridade, etc.); vimos, igualmente, que em suas últimas
aparelho lingüístic~ para chegar a este resultado,. que as representa~~~ obras M. Foucault colocava explícitamente o problema da articula~ao
parl~mentar:s mamfestam, na sua maior pureza, a ideología nobiliária das práticas discursivas com as práticas nao-discursivas. É que, efeti- . \\
no f~m do seculoxyrn, na Fran~a, e que os fisiocratas, como Turgot, ~amente, c_glocaLo_prohl5!Jila do disC\l!'~c;Lcomo prática numa forma~ao /~ '-
ex~rim~m. de mane1ra ambígua a ideología burguesa! O problema é soc.ial. ·é.\lh.rl".aapo.. ~ . ~-sar a problemáti·c·a·· da L.in···gu.}~tica. ·.c?mo '_'receita" puraJ..--3\/
ma1s simples do que parece, urna vez que no momento atual toda II?-~rite_té~ica, para a~ordar o ~ugar das_ EE~!~~~s discursivas num:: for- /:/
urna escala torna a pOr em questao a idéia da luta de classes do fim ·do ma~ao soctal. Isso nao quer dizer, no entanto, que, nesta acep~ao, o L.--
século XVIII, do combate das ideologías de classe, para substituí-las discurso será confundido com a ideología que o governa, ou ainda coro \\
por .1,1ma probl~mática da "elite". Em outras palavras: urna vez que sua fun~ao. Ternos pedeita consciencia da necessidade de salvaguardar f\ J
aqmlo que pod1a _aparecer como urna aquisi\ao da Historiografía, como 0 nível discursivo em sua r-elativa autonomía, em sua materialidade,
urna dem~nst:a~ao transformada ero evidencia, é totalmente reposto até mesmo em seu funcionamento significante. Quando R. Barthes
e~ 9u~~tao, e o .caso, . des te ponto de vista, de redemonstrar "evi- escreve: "Urna das possibilidades da semiología, enquanto disciplina
den~las ; e, em, v1sta desta demonstra~ao, os métodos lingüísticos, ero ou discurso sobre o sentido, é precisamente dar instrumentos de análise
/ partlcular_ps meto d~ análise dos enunciados, sao compensador . que permitam circunscrever a ideología nas formas, isto é, ande ela, ero
/ Acrescentemo.s a ;conom1a de tempo e e me1os, es e que 0 corpus geral, é menos procurada. O alcance ideológico dos conteúdos é algo
< se torne con.slde:a;rel. Como, coro efeito, com métodos fundados uní- percebido desde há muito tempo, !!!_~__Q.fonteúdo ideológico_~~s- forma_~!
·. camente ?a. mtm~ao, com métodos temáticos, dar canta de um corpus se quiserem, constituí, de certo modo, u~~_da~_gra11des po_s~tl)ili~~a:es
'¡de, 600 pagm~s? · Como comparar entre si, desse modo, diversas n~óes, dé trabalho do século" 40 ...::. ele e·sfa.be1ece a necessidade de distinguir
¡ ate ~e.s~~ diversos ;emas? Por ma~s complexos que se mostrem para- o nível do alcance ideológico dos conteúdos, e a ideología nas formas,
1 o ,n~o-1mc1ado os m~todos de redu~ao d.os enunciados em proposi~óes 1
1 . m1mmas, eles permttem, urna vez dommados seus mecanismos, urna
ou melhor, a materialidade na qual a ideología se dá. É o que, por sua
vez, J. Kristevasuohnha quanC!o-Observa que ein-Altl:iüsser "A materia-
J cj, grande ~cono~1a de tempo, e de meios.. _1 lidade da ideología é pensada como exterior ao domínio específico~

w 1
:-e) ¡ Alem. c!isso, estes metodos autor1zam a compara{áo de diversos
text?s, emitidos nas mesm~~ c?n~i~óes de produ~ao. Os enunciados
r ~ímmos, as classes de eqUivalencia podem-se comparar entre si e as
?lfe~en~as constat~d31s sao entao diferenfas significativas, contrariamente
materialidade específica, na qual s~.PtQch!Z_.a.ldeolQgi~.2_aber a li!l.:_
--guagein e; mais gerálmen.'t~-¡- significa~ao". ~~ Ela critica Althusser
por ele nao considerar-a··ideologia -senaó-pélo aspecto de sua funfáo
social e nao como funcionamento significante. A propósito do cinema,
L as di~e~en~as emp1r1cas das análises temáticas. Por todas estas razóes, escreve~-···A distin~~o Ctialética sígñ.ificante7iCleologia é tanto mais impor-
1o, o~¡ettvo- dos historiadores que solicitam a Lingüí-stica procedimentos tante quanto se trata de fazer a teoría de urna prática significante

1·.ttca uma
tecmcos nao. ,nos J?arece nem vao, nem secundário, com a condifáo. de
q.ue (como Ja o,?lsse~os no início desta obra) náo fafam da Lingüís~
panacez~ umversal, um udeus ex machina", uma espécie de
concreta - por exemplo, o cinema. Substituir a ideología pelo signi-
ficante é, neste caso, nao somente um erro. teórico, mas leva a um
bloqueio do trabalho propriamente cinematográfico, que se ve substi-
1 modelo f?rmal umversal, um sésamo, que revela ao historiador busca a tuído por discursos sobre sua fun~ao ideológica. O recente desenvolví-
\ de conceztos os arcanos do ((sentido". mento das ciencias da significa~ao: a Lingüística, a Psicanálise, a Semió-
\ . .
\ tica, "ciencias humanas" em geral, se pode ter sua ideología criticada,
teve o mérito de expor certos "mecanismos" do funcionamento signi-
· 4.5. Da Lingüística como receita a constitui~~o do objeto ficante, aos quais a teoría das ideologías permanece ainda fechada". 42
discursivo A necessidade de distinguir a ideolo ia da significa~ao im lica que nao
-se possa a:ssinalar diretamente o discurso a i eo o ia. Em contra art1 a
.. Yimo~ ~ais ~cima que estava em vías de constitui~ao urna Lin- sta · e amos e 1mc1o ue os ·scursos sao governados or forma~óés
guística do discurso que dera preciosl)s resuh.ados, mas que, no entanto, ~ eológicas. Voltaremos a isso. ·

106.. 107

J
Procurar o lugar das práticas discursivas numa forma~ao social
é tentar teorizar estas práticas no campo geral das sociedades. Daí, a sagem coloca o princípio da deter~ina~ao em ~lt.ima .inst!nc.ia p:ia
economía e mostra que esta determma~ao, em ulttma mstanaa, nao
nossos olhos, a necessidade de recorrer aos conceitos do materialismo
funciona diretamente no quadro ·de uma causalidade mecaruca, uma vez
histórico, sem os quais nao nos parece possível, nao só resolver, como
colocar de urna forma precisa este problema. que, segundo a dominancia deste. ou daquel~ modo de pr~u~áo n~
seio de urna forma~ao social, aqU1 a domma~ao (o papel prmctpal) e
religiosa, ali, política, lá, económica. Digamos de maneira mais clara
que, para que a determ4la~ao económica em última instancia possa
4. 6. Esb~o de alquns conceitos do materialismo histórico representar seu papel, é ~reciso que, se~ndo ~ .modo ~e pro~u~ao
dominante de que se esteJa tratando, aqU1 o religtoso, ali o pohttco,
1-.!j~~ forma~ao social, ou forma~ao económica e social concreta (a . lá o económico assuma o papel principal. Quando em O Capital, Marx
Fran~a do séCüiOXVI:r,a- nglaterra do século XVI, a Rússia de 1917, : evoca as forma~óes sociais dominadas por modos de produ~áo pré-
a Fran~a de 1972, etc.), é constituida pela imbrica~ao de diversos modos ele
-capitalistas, diz, em. substancia, q~e onde o tr.abalhador continua
~~-Pt:odu~ao, ~~-- cQ_e~tencia··de-·formas;· proveniéntes-dediveisos- como possuidor dos me10s de produ~ao e dos metos de trabalho (o
JE:Qgos de produ~ao. e reestruturadas em fun~ao da domináncia de· um:-- que é o contrário do modo de ~rodu~ao capi:alista, e?I que o tr.aba-
dQs modos de produ~ao. , É o que Marx exprime pelas seguintes lhador é desprovido de todo me10 de produ~ao e obngado, por 1sso,
asser~óes: "Em tod¡¡s as formas de sociedade, é uma determinada pro- a vender sua for~a de trabalho), é preciso, diz, razóes extra-economi~as
du~ao e as rela~óes por ela engendradas que assinalam, a todas as que obriguem o trabalhador a efetuar o trabalho por canta do propne-
outras produ~óes. e as rela~óes que elas engendram, sua preferencia e tário. Sao necessárias rela~óes pessoais de dep~f!º-~!!_CÍ.~.· _Neste último
importancia. É como urna ilumina~ao geral, em que es~ao mergulhadas caso, Q~_tetJrufii~aa-eñi:._úl~iifá-:·mst~d~--p~1ª-~~no~i~ .<?J'~r_ar~- po~­
todas as cores e que modifica suas tonalidades particulares. É como um intermédio do domínio combmado do ¡urtdtco e do reltgtoso que regu-
éter particular que determina o peso específico de todas as formas lamenta as rela~6es pes~orus de dependencia,· é as articulá sobre a ?rderxi -
divina. · · - ··
de ex:t::~~:aen;:b::s::m~:~o produ~aode numa forma~ao
[ portanto o primado da vida material, que assinala seu lugar, sua fun~ao
social, --A~-r;la~oes sociais, as formas de explora~ao, diferenciam classes
dominantes exploradoras. e classes exploradas, como efei_:o ~as rel~~o:s
e sua forma as diferentes instancias ou esferas da referida forma~ao. de produ~ao sobre os agentes da produ~ao, e estas, .sao 1_nse~arave1s
Marx zamba de seus detratores que criticam sua concep~ao: "Minha de suas !utas, tanto que é possível ~er que a analise histónca das
classes sociais nada mais é que a análise das !utas de classes e de seus
opiniáo, segundo a qua! o modo' de produ~áo da vida material domina,
efeitos. Com efeito, urna dasse só_ é completa qu_a11~o s~~}l.lgar. espe~.
em geral, o desenvolvimento da vida social, política, intelectual [ ... ]
cífico no nível das rela~óeS ·de.produ~ao repercute, por sua luta eco-
é justa para o mundo moderno, dominado pelos interesses materiais,
mas nao para a Idade Média, ande reinava o catolicismo, nem para
nómica e política, no nível das lutas e do impacto polftieo .de .suas
lutas. É nesse sentido que convém compreender a célebre passagem
Atenas e Roma, onde reinava a política. De início, é estranho que · de Marx relativa ao campesinato parcelar frances dos anos 1850: "A
agrade a certas pessoas supor que alguém ignore estas maneiras de falar medida que milhóes de famílias camponesas ':_ivem em ~ondi~óes ~co- \
envelhecidas e usadas pela Idade Média sobre a Antiguidade. O que nómicas que as separam uma das outras e opoem seu gen~ro de vtda,
é claro é que nem a primeira podía viver do catolicismo, nem a segunda, seus interesses e sua cultura aos de outl1ls classes da soctedade, elas
da política. As condi~óes económicas de entao explicam, pelo contrário, constituem uma classe; mas nao·constituem urna dasse na medida que

a or que lá o catolicismo e, aquí, a política, representavam o papel prin-


. ipal. O menor conhecimento da história da · República romana, por
xemplo, faz ver que. o segredo desta hist.ória é. a história da propriedade
undiária. De outro lado, ninguém ignora que já Dom Quixote teve que
se arrepender por ter acreditado que a cavalaria errante era compatível
nao existe entre ·os caniponeses parcelários senao urna liga~ao local, e
que a semelhan~a de seus interesses nao cría entre eles . ne~uma
comunidade, nenhuma liga~ao nacional, nem nenhQma orgamza~ao po-
lítica." 45 ·

com todas as formas económicas· da sociedade." 44 · Esta notável pas- Se o Estado é pensado em termos de expressao de classe domi-
nante, de condensado económico, de expressao oficial. da sociedade, é
108
109

J
--- - - -- ~ ~ -- - -

entretanto analisado igualmente de maneira complexa pelos clássicos as formas políticas da luta de classes e seus resultados - as consti-
do marxismo, com toda a espécie de defasagens e de desligameritos em tui~oes estabelecidas, uma vez ganha a batalha pela classe vitoriosa,
rela~ao ao domínio de dasse e ao domínio de um modo de produ~ao. 46 etc., as formas jurídicas, e mesmo os reflexos de todas essas lutas
Assim, em O Capital, Marx mostra que "a burguesía nascente nao po_~_ reais no cérebro dos participantes, teorías políticas, jurídicas, filosó-
deria dispensar a interven~ao constante do Estado: ela- se servé dele -- ficas, conce~oes religiosas, e seu ulterior ~esenvolvimento em sistemas
pa!a-"regulamentar" o salário~--isto-é;páta-aeprimi~lo-ao Iiível conve- - dogmáticos, exercem igualmente sua a~ao no curso das lutas históricas
-riiente; para prolongar o dia de trabalho e manter o próprio trabalhador e, em muitos casos, determinam de maneira preponderante sua
'no. grau de- dependencia desejado. Aquí está um momento essericial forma." 50 Passagem fundamental que mostra nao só o contrachoque
da aeumula~ao primitiva". 47 Este Estado que acelera o processo da sobre a economía da superestrutura e seus complexos mecanismos, mas
acumula~íio primitiva, tanto na Fran~a, como na Inglaterra, como no ainda que as ideologÍas tem urna determina~ao mais complexa em sua
Santo Império Romano-Germanice, nao. é, no entanto, o Estado da forma que em sua fun~ao. 111 Em outros termos, ~ ~ez _g~e_r1osso
burguesía, mas um Estado aristocrático. Eis urna primeira distor~ao objeto é a prática discursiva, dizemos que os discursos ooedecem a, urna (.'¡

que Marx nos oferece para teorizarmos. Engels indica outras: "A re- ·complexa determina~ao, soeioideológica,- na qual seria necessário c()locar \-..Z...,.
percussao do poder do Estado sobre o desenvolvimento economico pode a parte a determina~ao textual, que deve ser pensada ero campo cul- 1
ser de tres espécies: pode agir no mesmo rumo, e entao tudo caminha tural, retórico, procediinentos de forma de escritura, que sao da al~ada \
mais rápido; pode agir em sentido inverso ao do desenvolvimento eco- aa manipula~ao consciente, de um lado; e em conjunto de discursos jua-· ,_, '·.
--articulados, cristalizados, cujas· conpi~ües de produ~ao foram elididas, ;·~ •
nomico, e prescrever-lhe outros ... " 48 • Se estivesse em a~ao a cau-
e que constituem os representant-es textu.ais de fatos ideológicos, efeitos -~.'·<~;
salidade transitiva, mecanica, nao seria peñsável neñhuma disto«ao:-' "involuntários", no sentido em que Marx utiliza o termo no prefácio ·:;
Isso é mostrar suficientemente que os clássicos do mamsmo uiseram
e um golpe teorizar ora o mecarus ora o mecarusmo nao signi-
a Contribui~áo aEconomía Política, de outro lado.
fica que eles se s1tuem, por um torneio de argumenta~ao, ao nível. Estas rela~ües de classe, as !utas de classe, exprimem-se através
metafísico das essencias. Os clássicos do marxismo nunca transigiram de um conjunto hierarquizado de práticas. É assim que os sistemas de
a respeito da determina~ao, em última instancia, pela economía, do representa~ües, os mecanismos de sujei~ao ideológicos sao exigidos pelo
primado da vida material. Assim, quando Engels, espirituosamente, modo de produ~ao dominante no seio de uma forma~ao social coro todas
escrevia: "Se Ricardo Cora~ao de Leao e Felipe Augusto tivessem as espécies de desligamentos e de defasagens. Nós nos propomos exa-
instaurado o comércio livre, em lugar de partir para as cruzadas, eles minar demoradamente o conceito de ide9logia( s), pois_é_por uma _teoría
· nos teriam poupado quinhentos anos de misérias e de tolices", 49 zom- das ideologías, em sua;-romprexa~ ~ela~oes coro a base economic~, que
/ bava daqueles que nao levam em conta as condi~oes de produ~ao ( em · urna teoría materialista ·do discurso · poderá · eventualmente nascer.
r fun~áo da dominancia de um modo de produ~áo)' escolhas políticas e A -primeira página do -18 Brumário de Luís Napoleáo é, sob este
' ideológicas, como se Felipe Augusto e Ricardo Cora~ao de Leap pudes- aspecto, um modelo, urna vez que Marx distingue e analisa aí o
\. sem fazer outra coisa que se determinarem em fun~ao de sua época; da discurso em sua fun~íio ideológica e, parcialmente, o discurso em sua
dominancia religiosa, e· dos aspectos particulares é específicos das lutas materialidade, suas imagens, suas metáforas, seus fantasmas. "É assim
feudais e monárquicas. Consciente dos- perigos do mecanismo, Engels que Lutero tomou a máscara do apóstolo Paulo, que a Revolu~ao de
1789 a 1814 se enroupou com as vestimentas da República Romana,
explicitou muitas vezes o que Marx e ele entendiam por determina~ao
depciis com as do Império Romano, e que a revolu~ao- de 1848 nada
e, em última instancia, por economía: "Segundo a conce~ao materia- soube fazer melhor que parodiar, st;ja 1789, seja a tradi~ao revolu-
lista da História, o fator determinante na História é, em última Íl!~­ cionária de 179 3 a 179 5 [ ... ] . Camille Desmoulins, Dan ton, Robes-
tancia, a produ~áo e a reprodu)áo da vidalñatenaLNem --Ma-rx, nem. . . . pierre, Saint-Just, Napoleao, os heróis, assim como ·ós partidos e a
etuillncaaflr"mamos mais do que isso. Se depois alguém torturar esta massa da primeira Revolu~ao Francesa realizaram, com traios romanos
proposi~ao para faze-la declarar que. o fator economico é o único deter- e servindo-se de urna fraseología romana, a tarefa de sua étx:>Ca, a
minante, _transforma-a ~uma frase vazia, abstrata, absurda. A situa~ao · saber, -a eclosao e a instaura~ao da sodedade burguesa moderna -[ ... ] .
econotnica é a base, mas os diversos elementos da superestrutura E seus gladiadores encontraram nas tradi~oes estritamente clássicas ·da
110 111
f
República Romana os ideais e as formas de arte, as ilusóes de que ralidades fundamentais, sem analisar, em cada caso, ·o funcionamento
necessitavam para se dissimularem a si próprios o conteúdo estreita- preciso concreto, empírico, condenar-se-ia a um perigoso esquematismo,
mente hurgues de suas lutas e para manter seu entusiasmo no nível da a ver a~enas na História (urna História desencarnada) "os antagonismos
grande tragédia histórica. Foi assim que, numa outra etapa de desen- polares, metafísicos", para retomarmos a expressao de Engels.
v.olvimento, um século mais cedo, Cromwell e o povo ingles tinham
tomado de empréstimo ao Antigo Testamento a linguagem, as paixóes ,j Urna ideología nao~. _p<)_rtal_lto,_ UJ!la pura consciencia falsa, mas,
e as ilusóes oecessárias a sua revolu~ao burguesa." 52 Este texto merece ~ segündo- Alth~~ei;-a~mane~ra ..I>e!a qual os. ho~ens_ vivern ~uas rela~ó~~
que nos detenhamos nele. · \ tom ·suas condi~oes de existencia. Is~o Implica que, assim como os
. ·'··borneos, numa Jorma~io social, tem. u~ lugar ~ue lhes marc.a. o papel
Sobressai claramente a fun~ao dos discursos, das práticas, das que desempenham no process~ .produtlvo, asstm, ~omo p~r~IClpam. de
forma~óes ideológicas - a revolu~ao burguesa, a instaura~ao da socie- práticas políticas, part~cipa~ .¡gualmente de pratlcas" relig1osas,. ~~1_?­
dade burguesa moderna - a fun~ao das forma~óes ideológicas nao é sóficas, numa palavra: Jq~qJ~tcas. L. Althusser propos urna defmt~ao
senao um aspecto disso, pois esta ideo~~funciona; é mesmo através

.X de~diz !vfarx, que os homens tomam consciencia de seus.proolemas;----.


@_é s~~_lutas_e as levam a ·termo. ·Ela funciona em discursos, em prá-_,
¡ucas, numa materialidaqe que lhe é própria, a linguagem articulada,
provisó_ria dasf~~eologias ~ráti~. '1~~~~óe~ ~omplexas de mootagens, _
de n~oes, de reptesenta~oes, de Imagens, áe um lado, ~ de mootagens
de comportameotos, atitudes-gestos, de outro lado, func10nando o con-_
junto como normas práticas que governa~ a atit~de e a to~a~ ~e
•gestual, os rituais etc., e cuja disposi~ao interna constituí a signifi- consciencia concreta dos homens face a obJetos reats de sua ex1stenc1a
1~-\ ca~ao. No exemplo escolhido, "a máscara", "a vestimenta" sao como e-
social iñélividual e de sua História". 114 Há, no entanto, urna ambi-
,-;<.:J a matriz material deste funcionamento; as ilusóes, os ideais, as formas güidade, dependendo de que se aborde a sistematiz~ao ?as id~ologias
j · de arte,~sjo.:_'!_~__<!!:ste_ funciooameQtg. Quanto a razao da pregoAncia ao nivel de seu conteúdo ou ao nível de suas problemáticas (sistemas
da fraseofogia romana, a importAncia dos Gracos, de Brutus, no dis- de referencias, sistemas das perguntas que dirigem as respostas e, em
\,:' ·- curso robespierrista, no discurso de Saint-Just, quanto a arte davidiana, certos casos, respostas que dirigem as perguntas). O problema nao ti
etc., urge fazer entrar aqui a determina~io textual e cultural de que foi solucionado, e o termo ideología é usado ao mesmo tempo para )
falávamos p~ecedentemente. 53 Como nao evocar, a este propósito, o visar o conteúdo, t;_.c9, ~-~~JO problemático. . . \
ensinamento e a retórica dos colégios de jesuítas ou de oratorianos, a . T,_Herbertl-distfrígue, por sua vez, numa hipótese também provl-
cultura greco-latina deste meio. de intelectuais, de advogados, de ju-
sóri; ainda em discussáo-duas formas da ideología: a forma empirista
ristas, de borneos de letras do século XVIII que desempenharao um
papel decisivo no seio da Constituinte, da Legislativa e da Conve~áo, e a dspeculativa. No pri~eiro caso, ,a ideol~gia en~~ntra-se refe~da ao
a tradi~io filosófica e cultural que, de· Mably a Montesquieu e a Rous- processo de produ~ao; no segundo, as rela~oes soe1a1s de produ~~o. A_
seau, fez da Roma antiga o reservatório das reflexóes, das medita~óes primeira reorganiza os elementos do pr~eS~9_q~- trabalho. ~ fascmada~
sobre o homem e a coisa pública, etc.? Assim também, uma interro- diz T. Herbert, .e~!<?...Er<?~<;n;a __ ~a(~~~lidade_ ':">_d~. maneua -~ue_ ha
ga~io sobre a pregnáncia do Antigo Testamento nas visóes de Cromwell ajustamento entre urna stgmftca~ao e a reahdade que lhe corres- .
ponde. --A ideología empirista reflete-se nos fatos, no dado.-. "assim __
e no pensamento político dos puritanos, de toda obediencia, só poderia
-é-colocadó-em a~áo o sistema percep~ao/consciencia que garante q1le ..
desembocar no que Engels chamava "as conce~es religiosas e seu
desenvolvimento ulterior em sistemas dogmáticos", isto é, oeste caso
·se" o
veja éxataménte o. que se ve". 5 ~- . segundo constituí-se em meca-
'ñismo em sis-temas de opera~óes, e naq em reorganiza~áo dos elementos
preciso, na especificidade da Reforma na Inglaterra e seus prolonga· do pr~cesso prod~tivo. Trata-se da forma especulativa, fraseológica, da
rmentos. Este texto, no entanto, ~ao nos deve fazer acreditar que há, ideología que visa a coerenda das rela~óes sociais. "As rel.a~óes de
\ \ ~. d(e _u~ !~do, ~. ~.ssel:_!_.~.i!l.-~s. c.o.nd.id.. o. .--ln,c~nsClente:::ca:funcao da 1deologia) _-.. produ~a<> permitem assinalar a ideología a fun~ao de um mecamsmo que
\, / Cf~-0~íE~J~~~._Q_ s~~rfll!Q_ sc;c:un4lir:19_Cll1~-~~() teria nenhuma impor- produz e conserva as diferen~as necessárias ao funci.onamento das re-
\"f"·!ancla e q~e serta apen~s, d~ alguma maneira, a forma einpmcª asst}_í:p[C!Q
j¡.YI pelo l!lO:V.:'::fllento da Htstórta · (o funcionamento .da ideología). Fun~áo la~ó.es sociais de produ~ao nas sociedade.s de da.sse e, an. tes de tu.do. ~. aK
?ifere~.a" ~dam~ntal traba!hadorfn~o-trabalhador. Pode-se ass1m1
~:.;pt ·e funcionamel]._to~~i!9 intim~mente ligado~·-Í!DPlicando-·um:-n.o·outro e dizer que a 1deolog1a tem aqUl a fun~ao de mostrar aos agentes da
-ecoanao Uro. ao 0~!?...:-0 historiador que SÓ se COlltenl:asse-cotilgene=--- produ~ao seti lugar no interior dela." 1111 . . · -~
---...-· <··~--·--- ~·----- . .
112
113

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Estas duas formas de ideología remetem a duas fun~óes distintas. - Enfim, ªjdeolqgia tem urna existencia material. Sistemas e sub-
A fun~ao semantico-metafórica, dominante na forma empírica, consiste sistemas informam· Pt-aticas--ri~hii'ssér;-segui11ao
em deslocar as significa~óes ao nível da base economica. A posi~ao dos Gramsci, sugeriu que se chamasse de aparelho ideológico de Estado. 58
agentes no processo produtivo é "recalcada", "disfar~ada ... em outras :É sobre a base destes conceitos fundamentais, muito sumariamente
cadeias ~ignificarites, que tem o efeito de, ao mesmo tempo, significar apresentados, que se poderá apoiar urna reflexao sobre a prática dis- V
essa pos1~ao. . . e dissimular essa posi~ao que lhe é assinalada". 55 A cursiva no seio de urna forma~ao social. (1
ideología especulativa correspond~ a fun~ao sintática ou metonímica,
origem de urna "racionaliza~ao" que permite que o sujeito se identi-
fique com as estruturas políticas e ideológicas e, sobretudo, que lhe de 4. 7. Prática discursiva e forma~áo ideológica
a ilusao de que ele é a origem de suas idéias, de sua subjetividade.
Assim, os mecanismos de sujei~ao ideológica respondem a urna .dupla Urna longa cita~ao nos introduzirá nestes problemas complexos
, garantia: urna empírica, li ada a '.'realidade" e um·a a lVa ue que apenas podemos evocar, de tal maneira faltam-nos hoje nao só urna
' o suporte da outra, enguanto discurso refletido, teste- teoría das ideologías como urna teoría do discurso. Em seu artigo
munha, prava, mito, que identifica as subjetividades com o.s discursos coletivo, Ch. Haroche, P. Henry e M. Pecheux escrevem:
que e as onunctam 1sto e ue se ronunctam ne as .
er ert, a ominancia metafórica empírica po e ser escrita como um Nao é pois inútil rememorar de forma muito breve que, dada urna formafiao
social num determinado momento de sua história, ela se caracteriza, através
sistema de marcas. Trata-se do conjunto de sinais que balizam os com- do modo de produfiao que a domina, por um determinado estado da relafiaO
~rta~entos, os gestos, as palavras. Em contrapartida, a dominancia entre as classes que a compóem; essas rela~Wóes exprimem-se através da hie-
smtáttco-metonímica determina o nível dos discursos e das racionali- rarquia das práticas que este modo de produ~WaO necessita, levando em conta~
za~óes. Enfim; T. Herbert insiste no fato de que "nunca encontramos
os aparelhos através dos quais se realizam estas práticas; a essas rela~Wóes
correspondem posifióes políticas e ideológicas, que nao sao obra de indi-
o ideológico como tal, mas forma~óes ideológicas específicas que di- viduos, mas que se organizam em forma~Wóes que mantem entre si relafióes_
ferem segundo seu lugar na forma~ao social". 5 5 No total, quatro de antagonismo, de alian'ia ou de .domínio.
tra~os parecem caracterizar urna ideología: ·•..,.. Falar-se-á de (!orma'iao ideológic~ pj¡r¡¡ caracterizar um elemento sus-
: ,cetívél ·ae -inteivír ·como urna for~a que se confronta com outras forfias,
-~~e~l~gias na()___saQ__arbitrárias, mas, segundo as análises de . na eonjuntura ideológica característica de urna forma..ao social, num dado
Gramsct, orgarucas, historicamente necessárias. Elas organizam· diz
5"6 1- momento; cada f~rma~Wao ideológica constituí assim um complexo conjunt?
~famsd,- as- massas humanas; formam o terreno-em que~·os holiieriS'-, 1- de atitudes'"é' ae representa..óes que nao sao nem 'individuais', nem 'um-
1 versais', maS Se reportam mais OU menOS diretamente a poSi!WóeS de classes
s~ movem e adquirem consciencia de sua posi~ao. · 1 em conflito, urnas em rela~WaO a outras.

- As ideologías tem urna fun~ao específica numa forma~ao social. i .. · Adiantaremos apoiando-nos num grande número de observa~Wóes con-
""' tidas nos chamad~s 'clássicos do marxismo', que -ª~_f~_!P.a~9es_jge_ológicas_
De-,urna maneira 'geral nas sociedades de classe, e,- salvo o problema assim definidas comportam necessariamente, como um de seus c?mponen~~:s,,
das ideologías científicas, elas ocultam, deslocam as contradi~óes reais · úma ou várias formafióes discursivas, interligadas, que determmam o que
~_oci_~q!t~ks~-~egundo N. Poulantzas, "reconstttuem nuni plá.iioTmagi- · -pode ·e deve ser dito (articulado sob a forma de urna arenga, de um se~-
mao-;-de- um panfleto, de um relatório, . de um programa, etc.) .a paru:
~~~?. :':m__c#s,~~r~~ rela,tiva111ente _c~rehte que .s~rvé· de ho_rizonte ao -de urna dada posi~Wlío numa dada con¡untura: o ponto essenoal aqut
"vtvú:lo dos agentes", 57 tem um lugar na estrutura de dasse e na luta "é 'que nao se trata somente da natureza dos termos empregados, mas
-de classés. - ,__ . .· . fambém (e sobretudo) das constru~Wóes nas quais estas palavras se com-
binam, a medida eni que determinam o__ _l;elltido que esta_s palavras tomam:
-:- Urna ideología é inconsciente de suas próprias determina~óes, de seu ~omo- indicávainos ·no com~o, as palavras mudam . de sentido_ segundo as
lugar no campo da luta de classes. Além do mais é inconsciente de 'posi¿-&5 · assumidas por aqueles . que as . empregam; pode-se. precisar ago~a: _
·. ' ,~ua própri.a siste~aticidade, da unidade, da coeren~ia que a organiza. as ··¡;afayras 'mudam de sentido' .. ao passar de uma·· forma~Wao--distútstva-
-para outra. 59 --- ..
-' :É que as tdeologtas se apresentam na realidade (mas a coerencia per-
Jnanece _opac~~-~_Q&_:agenfes) -como-coi:ijúntos- de-· sistemase de. sub-
Este texto tem o mé¡ito de sublinhar um certo número de obser-
sistemas mais ou menos' -coerentes, mais- ou "nienos- contraé:litóí:ios e ------
'ñioventes;------'----~-.-. -------.- ,..______ ,_- -- · · · ' · .va~óes fundamentais:
~-----'------

114
115

J!
- .<?ue as i.deolog~as nao constituem elementos "neutros", ~as for~as
sociais das tdeologtas de classe. ----- -- o oca o num s1stema de
:-- Qu~_os ~isc':rsos nao ~ao redutíveis as ideologías, tanto quanto as Jetlvl a e .. Neste níve n
~deolog1as nao sao passívets de serem superpostas aos discursos. Indi- Cla enuncia~ao e as condi¡;óes de produ~ao. Por outro lado, e é sem
ca-se ~e ~ fo:ID:a~óes discursivas constituem urna componente das auvtda O maiS Importante, é necessáno considerar OS discurs-OS, as
~~rma~oes tdeologtcas, ou melhor, que as forma~s ideológicas go- forma~óes discursivas enquanto componentes de forma¡;óes ideológicas,
vernam as forma~óes discursivas. como um certo tra~o de sistemas de representa~óes. A este respeito,
-_.Que _as forma~óe~ _discursivas nao podem ser apreendidas senao n~óes muito pouco conhecidas, tais _como. "inasserido", "pré-cons~
e~ fun~ao das condt~oes de produ~ao, das institui~óes que as im- truído", parecem-nos particularmente fecundas. É assim que, criticanC:lo
plicam, e d~s regr~s constitutivas do discurso: como o sublinhava M. as rela¡;óes comumente admitidas entre semantica e sintaxe, A. Culioli
Foucault, nao se diz urna coisa qualquer, num momento qualquer, em propóe urna nova teoría que, sob certos aspectos, pode resultar numa
qualquer lugar. teoría da produ~ao do sentido por urna série de opera~óes, cujo suporte
é o sujeito. Falta-nos espa¡;o aquí para expormos este problema de
. -:- _9~e as forma~óes discursivas devem ser relacionadas com as po- maneira satisfatória. 61 Digamos apenas que, classicamente, a lexis,
S~foes dos agentes no campo das lutas sociais e ideológicas. · ·- segundo Lalande, é um "enunciado suscetível de ser considerado ver-
- Que as ~alavras só . sao analisáveis em fun~ao das combina~óes, dadeiro ou falso, mas que é apenas considerado em seu conteúdo e
~as constru~oes nas qua1s sao empregadas. . semafirma¡;ao nem nega¡;ao atual"; que, no uso que dele faz A. Culioli,
este termo designa os resultados de opera~óes ditas de "instancia~ao".
Parte-se de um objeto primitivo, chamada esquema da lexis: forma
vazia < f O, f 1, '1t > composta de tres lugares, sendo que '1t é o lugar
de urna rela~ao entre f O, termo de partida, e f 1, termo de chegada.
A "instancia¡;io" consiste em assinalar a cada um dos lugares do
. esquema um elemento léxico, ou um metatermo, que remete a urna
dasse de elementos léxicos ou, ainda, a urna lexis. Com efeito, este
processo de marcar é recorrente no sentido em que a própria lexís pode
funcionar como um termo complexo susceptível de ser marcado num
dos dois lugares de argumento do esquema vazio.
A propósito destes tres termos, /colher/crian~a/flor/, a opera¡;ao
de marcar consiste em poder tomar "colher" como predicado, atri-
buindo-lhe a propriedade do processo, e em ordenar os argumentos
de maneira que "crian~a" venha em primeiro lugar, e "flor" em se-
gundo. Esta ordena¡;ao faz-se em fun~ao de "rela~óes primitivas" que
determinam as compatibilidades e incompatibilidades entre as unidades
léxicas. Do ponto de vista que nos interessa, nada impede que sex
conside-re que est.as rela~óes primitivas remetam as condi~óes de pro- ·
du~ao do discurso, em particular ao sistema de representa~óes.
O resultado das opera~óes de instancia~ao é urna lexis da forma
· <X, Y, R>, porexemplo, <crian~a, flor, colher>. É neste objeto
que se efetuarao as opera~óes de asser¡;ao, ·isto é, a assun~ao da lexis
pelo sujeito da enuncia~ao; estas opera~óes póem em a~ao a escolha
. dos determinantes referentes aos argumentos, e as marcas de voz,
aspectos, modalidades referentes ao predicado.

. 117
O que nos interessa aqui é o fato de -~Js ser pré-asserida, de
comandar a asser~ao, e de implicar, ao nível do -sístema de represen-
0 que funciona como pré-construído "passe" sem discussao como urna
base sobre a qua! repousa o consenso.
'ta~óes, que o inasserido governa sempre o asserido. ·
- O pré-construído)remete ·ao que todos sabem, aos conteúdos do Na frase "os números densos sao inteiros", densos funciona como
pensam~fot:lo-...'sureíto universal", ao que cada um, numa dada situa- um pré-construído, e inteiros como um construido. Em algumas re-
~ao, pode ver e ouvir, aos conteúdos do "contexto situacional" pres- la~óes de lugar ( cf. a institui~ao escolar), posso, através dessa frase,
suposto pela comunica~ao. O pré-construído remete as representa~óes levar um sujeito a acreditar que o conceire de número denso é cons-
e, em particular, a imagem da "realidade", a evidencia empírica. É truido no discurso científico.
assim que urna mesma frase será constituida por dais elementos hete- Os elementos lingüísticos portadores do pré-construído e ~nali- \ '
rogeneos urri ao outro: o discurso pré-construído e, encaixando-o,_um sáveis sao, principalmente, !_~e!_tetiza~ao,a relat_iviza~ao, em pa_:t~cular ¡
o_u tro discurso' sendo a liga~ao . realizada pela imagem da realidade:-· a. relativa determinativa, e o complemento nommal. Este domm10 do 1
Na proposi~ao, p~é-construído deve ser relacióriado-coÍn a· que T. Her~eArt, _nun:a ?~pó- '
tese que ainda deve ser verificada, chamava a dommancta smtatlco-
o homem racional é livre metonímica que implica um esquecimento do "lugar'' do locutor, das
\--- o homem é livre é urna asser~áo submetida a discussao, enquanto condi~óes de produ~ao de um discurso anterior sedimentado. Deve ser
i que o homem. racional é um pré-construído, considerado urna evidencia elaborado todo um trabalho sobre os tra~os lingüísticos no discurso,
que implica um discurso prévio, sedimentado sob a forma de urna repre- os sistemas de representa~óes, e só a esse pre~o poderá surgir urna
1 senta~ao que corresponde ao referente de que se trata e do qNal se teoría materialista do discurso. 6 ..
1 elidiram as condi~óes de produ~ao, para poder colocar no lugar o sujei!o
L universal.
·- - -
. .
CI. Haroche, P. Henry e M. Pecheux, reformulando a no~ao de 4. 8. Discursos e ideoloqias na formagáo social francesa do fim
enuncia~ao, escrevem que se trata de processos pelos quais o "sujeito do século xvm
falante" toma posi~ao no que toca as representa~óes de que é o suporte,
representa~óes estas que se encontram realizadas como aquilo que é
"pré-construído", "lingüísticamente analisável". 62 Este pré-construído, Vimos que M. Foucault propunha, em L'Ordre du discours, o
sublinhado como lingüísticamente analisável, constituí o centro dos estudo de séries documentais sobre a sexualidade, a 'pobreza, etc.; que
trabalhos de P. Henry. 63 trabalhos recentes de historiadores permitiam comprovar, com algumas
nuan~as, a existencia de rupturas maiores de conteúdo .no nível d~s
Na frase, "infelizmente ela chegou", ela chegou funciona como a
discursos sobre morte, sobre a blasfemia, sobre a pobreza. Urna prt-
um pré-construído, enquanto que infelizmente funciona em rela~ao a meira dire~ao de pesquisas seria a que permitisse dizer se estas rup-
ela chegou como um construido. Com efeito, a primeira seqüencia nao
turas sao decisivas apenas ao nivel do conteúdo, ou se corre_spo~den:,
depende de outtos elementos da frase. Pelo contrário, a informa~ao
··veirulada por infelizmente depende do resto da frase. Infelizmente só com alguns desligamentos, _a__~UP.'-':!!as _djsc~~s_iv_as .. 0--~~-e _tmpli:a~a
poderá ser introduzido se a escolha for feíta entre as diferentes formas urna análise lingüística e retórica des tes. _dts01;rsos, u~a. ev1~en~a~ao
dos mecanismos de sele<;aó-combina~ao das umdadeslextcas em Jogo,
que se teria podido por no lugar de ela chegou. Na frase pronunciada
pelo presidente Johnson diante do Congresso Americano: "Nao é o
·uro estudo. da e~u~cia~ao, assim como, em fun~ao das COJ?di~óes de
desenvolvimento regular dos cargos administrativos que solicita um . produ~ao dos discursos, tra~os do pré-construído. Além de. ruptl;lras
aumento dos impostas, mas a guerra do Vietna", o uso de urna relativa ·discursivas gerais, seria necessário analisar as 'rupturas di~cur~tvas
iriduz um efeito de pré~construído no conteúdo da relativa, enquanto particulares, em fun~ao dos grupos sociais em presen~a. ~etto_ tss~,
que "nao é [ ... ] mas" constituí a constru~ao. seria entao possível colocar em rela~ao, no quadro da· ~o~c:ltua~za~a,o
~ / Assim (e percebe-se os pontos comuns entre o pré-construído, marxista, as forma~óes discursivas governadas .Por forma<;oes 1?-eo~o­
gicas; com o conjunto da forma<;ao social. Coloquemos provtsona-
l~omo discurso que se construiu albures, e o pressuposto que reativa mente, como primeira hipótese, grosseira, a ser ret~mada e refor~u­
/tum conhecimento "implícito. que se impóe), a constru~ao permite que lada, .o esquema da p. 120. 65 Este esquema nao deve ser hdo
118
119
f no quadro da causalidade mecamca. Todas as espécies de descon-
tinuidades, de desligamentos podem existir (e neste caso tem neces- ·
sidade de ser teorizados) entre o nível da base económica e o poder
do Estado, os aparelhos ideológicos do Estado (A.I.E.) e a base
económica, na medida em que, tendo os A. I. E. urna temporalidad~
própria, A. I. E. herdados parcial ou quase totalmente podem ser rein-
vestidos por outras práticas e outros discursos. Pode haver desconti-
nuidade, igualmente, entre o nivel dos A. I. E. e o lugar do sujeitq-
-suporte na forma~ao social. É porque nos pareceu mais claro mostrar,
a partir de um esquema ainda muito grosseiro e provisório, como
se poderia colocar o problema do lugar das forma~óes discursivas numa
forma~ao social, e isto no caso mais simples, isto é, sem estabelecer,
lago de inicio, desligamentos e descontinuidades a serem em seguida
reintroduzidos, quando as forma~óes sociais concretas forem levadas
em considera~ao. A base económica do modo de produ~ao dominante
( for~as produtivas e rela~óes sociais) situa os su jeitos-suportes no
processo produtivo e, portanto, as classes sociais fundamentais da for-
ma~ao social. Através disso, a real divisao do processo produtivo entre
detentares dos meios de produ~ao e nao-detentares reproduz-se de
modo ampliado. As contradi~óes de classes necessitam um poder de
Estado que represente os interesses fundamentais da classe dominante
no sentido em que os clássicos do marxismo dizem que o Estado é
como que o condensado da vida económica, a unidade da forma~ao
social. Este Estado a resenta-se { articularmente o Estado ré-c · ·
talista e- o sta o ca italista como acima das e asses. Sua existencia
pos a processos ideológicos de racionaliza~ao-autonomtza~ao que o
ar a tn ua em o umversal. Esta guagem
o umvers e un 1 a os A.I.E. e em ·
~ ominante de urna forma~ao socia , ue sao os meios pe os quats as
...... asses. con tguram, para si, as re a~óes que tem entre st n eo o-
·v
<:"O gtco. · sses metas repro uzem a rea tvtsao as rela~óes de pr.odu~ao,
"'~
o._ líroao nível produtivo, mas no discurso e geralmente na ideología. A
............
V «1
O.."' este propósito, colocam-se numerosos problemas, que convém expor,
o o embora rapidamente. 66
"'v .....8
«1
...... «1

o ...o.. o..
;::l
Dizer que os A. I. E., em particular o A. I. E. dominante,
"tt
ts ~"' reproduzem a real divisao do modo de produ~ao ao nível do discurso,
1ii .S w sob as formas do universal, de maneira nenhuma significa que o poder
~ V 8
.g o ;::l do Estado da classe dominante tenha conseguido instituir, consciente
..
Gl
>
"'o
o~"'
e:;::l ou inconscientemente, urna espécie de maquinaria automática que lhe
permitisse reproduzir infalível e indefinidamente a ideología domi-
c: Vb.O
"tt

,
o O
llt
UC/)

... nante, fa~am o que fizerem os sujeitos-suportes que ai estao compro-


metidos, simples molas, por vezes contra a vontade, de urna máquina

121
infernal. Tal ace~ao, que nao é, de nossa parte, urna inven~ao devida ' seu lugar de A. I. E. dominante (típica das forma~óes sociais- em
a algum delírio da imagina~ao, muitas vezes contaminou o conceito que o modo de produ~ao feudal é dominante), lugar que a Reforma
de A. I. E. e pode . torná-lo suspeito de mecanismo e de esquema- ' tinha amea~ado por algum tempo na Europa e na Fran~a, que a
tismo. Tal acep~ao ainda faz economía das múltiplas contradi~óes de Contra-Reforma e a política galicana da Monarquía lhe tinha permi-
urna f?rma~ao _social, da luta de classes ~s A. I. E. que vem travar, .tido reconquistar no século XVII? Se um A.I.E. dominante oscilar,
extraviar, desvtar, transformar a fun~ao dos A . I. E . ; da temporali- o historiador confronta-se com sérios problemas de interpreta~ao que,
dade que lhes é própria ·(particularmente tradi~óes herdadas) que no atual estado da pesquisa, nao podem ser unívocos. Primeiro tipo
fazem coro que, em nenhum'.l forma~ao social, o poder do Estado de interpreta~ao: por ausencia de defasagem entre o rrlvel do poder
fa~a exatamente "o que quer".
-ae-Estado e o A. I. E. dominante, a passagem de um A. I. E. a
Nao nos parece inútil relembrar que os antagonismos polares só outro deve relacionar-se com um poder de Estado, tendo ele próprio
excepcionalmente se encontram em estado puro na realidade. É que mudado de natureza. Segundo tipo· de interpreta~ao que nos parece
os A. I. E., que convocam e interpelam o su jeito, assinalam-lhe um mais dialético: o nívefoo A . I . E . encont.ra-se deslígaoo em rela~ao ao
lugar numa dupla modalidade. De um lado, asseguram a coloca~ao do poder estatal em crise que nao mudou de· natureza, que procura rea-
sujeíto em rela~ao a outros sujeitos, o que constituí, sob certos justamentos para elidir este desligamento; Estado tomado pelas' múl-
aspectos, urna "lembran~a" das reais rela~óes de classe; de outro lado, tiplas contradi~óes que aceleram ou bloqueiam o~ mecanismo~ de rea-
tendero a elimina~ao da coloca~ao do. sujeito-suporte nas rela~óes justamento de que esta reviravolta d? A.I.E. dom~nante ?~cesslta. Es_:a
... sociais, elimina~ao de natureza ideológica que se faz na linguagem crise, aliás, pode ser assinalada ao mvel das rel~~oes sociais em fun~ao

l
r do universal. _É assim que as forma~óes discursivas veiculadas pelos da evolu~ao ou do bloqueio das for~as produtrvas.
sujeitos-su artes, em fun·ao e re resenta oes eo o teas so re
Ora, precisamente o Estado da segunda metade e do último ter~o
ase mgütsttca precisa, manifestam a interven ao das re resenta~óes
do século XVIII é umEstaoo em cnse, um Estaoo que, para salr do
o ue e amamos o ré-construí o. Im "caro i a- Impasse - o que se aeu muito cedo, com Luís Xv e seus miniStros
mente e ettos e constru~ao sobre a base lingüística, a saber. o uncio-
renta Tazer com que os privilegiados, principais proprietários de
Jlamento da asser~ao, da enuncra~~o em rela~ao ao pré-construído. Daí,
um funcwnamento através do qua! o sujeito esquece ( dissimula-se · a ímóveis do remo, paguem Impostas. Estado em crise, urna vez que
SI prÓprlo e. aos outros) a poszr;ao ue OCU a· a asser ao é en tao O· sua base de classe é a aristocracia contra quem ele se ve abrigado a
verna a zre amen e e os conteu os inasseridos, pré-construídos que entrar constantemente em luta, em particular contra a aristocracia
.e a tem por simples funcao atua Izar a retomada espontanea, no dis- parlamentar, a ir ao encontro das "leis fundamentais do' reino" e a
curso, da sabedoria das na~óes; do boro senso das evidencias, etc.); quebrar ou tentar quebrar ·a principal instancia política segura ~as
e um funcionamento pelo qual a posÍfáO ( assinalada ao sujeito pelo maos da aristocracia, os parlamentos, em 1771. &te estado em cnse
modo de produ~ao através de um jogo complexo de determina~óes) tende inconsciente e ex lícitamente, para a realiza~ao de um com-
é revoc4da, seja para reafirmar o caráter natural de distribuir;ao dos promisso socia ue ermitlsse que a urguesia, mais exatamente as
lugares ("cada um no seu lugar e todos terao seu quinhao") seja · guesias o ossem ao mesmo tempo e asses ex ora or e e asses
para denunciar a universalidade aparente do discurso, o esquecime~to ommantes do mesmo modo ue a no reza. sta tendencia para o
da coloca~ao ou o caráter natural da distribui~ao. 67 compromisso maní esta-se em m tlp os setores: incentivos ao lib~ra­
lismo economice; tentativas para que os privilegiados pagassem '~~­
O exem lo da Fran a do século XVIII nos permitirá avan~ar na
postas; tentativas para quebrar a resistencia dos parlamento~; J?Olítlca
elucida~ao de nosso propósito. s rupturas discursivas assinaladas ao
favorável . a fisiocracia por parte dos inte~dentes de provinCia, etc.
nível do conteúdo pelos historiadores a propósito da morte, da po-
breza, etc., na segunda metade do século, caminham todas na mesma Bem compreendido este com romisso . teria feito da n?~r;z_a a classe
dire~ao (seria o mesmo caso para as confrarias de penitentes que se
egemomca o Estado. Em nada· tena toca o os rtvile os ~da~
municipalizam, se "laicizam"). 68 mentais as 'situa óes e osi óes". Teria tendido a igual acle JUri-
dica por outros meios: resgates de direitos sen or1a1s organtza os
. Esta tendencia a dessacraliza~ao, mesmo _a descristianiza~ao, nao a o ao mves r oe a óia. 7 e-se que este
será o índice, o tra~o, o efetfo de que a Igreja esteja em vías de perder o em crise está enredado numa trama de contradi~óes de difícil
122
123
i
L:;..---------~~~---~------
solu~io. Paralelamente, generalizam-se e multiplicam-se, em liga~ao culdade em mostrar que se trata precisamente dos lugares em que se
com a crise da antiga sociabilidade, lugares, institui~óes portadoras eliminam as contradifóes reais que, ao nível da realidade, nio se de-
de urna nova sociabilidade: as lojas ma~onicas, as academias, entre cidem entre burguesía e nobreza. Enquanto que, na realidade, a "igual-
/N outros, nos quais seríamos tentados a ver um A. I. E. cultural de dade" trope~a no privilégio, na essencia da sociedade do Antigo Re-
transi~ao (votado, allás, ao fracasso), na medida em que, no seio gime, na imagina~io,. nestes lugares fechados e protegidos: as lojas, os r
destas institui~oes ( em regra geral, malgrado notáveis exc~oes) de- salces, as academias, a igualdade pode constituir-se ludicamente. Estas
senvolvem-se práticas e discursos ·que tendem, de maneira confusa, práticas e estes discursos tem assim urna funfáo de ocultafáo e urna
inconsciente e por vezes contraditória, a urna identificafáo de situafáo eficácia que consiste em servir de laboratório para a burguesía que aí
entre burguesía e nobreza: estatutos de academias que aceitam que pode exercer sem pressio seus "talentos", identificando-os com o "nas-
as sess5es sejam presididas por esta ou aquela pessoa, seja qual for cimento". Na realidade, os subsistemas ideológicos, pseudo-igualitários
sua posi~o e sua condi~io; discurso ma~oníco sobre a igualdade na nio impedem o desenvolvimento de ideologías nobiliárias e de sub-
loja e sobre a equivalencia entre nascimento e talento; discursos aca· sistemas ideológicos burgueses sem compromisso possível; pelo con-
démicos, a propósito dos quais um trabalho que trata das ocorréncias,
trário, contribuem para isso.
do uso e sele~oes-combina~óes ( em condi~oes de produ~ao definidas
e precisadas} dos termos "Talento" e "Nascimento" permitida con- A ideología nobiliária está perfeitamente desenvolvida no discurso
firmar ou infirmar nossa hipótese de urna tendencia a identifica~ao parlamentar do fim do século XVIII. Com efeito, convém nao cair
das situa~oes entre nobreza e burguesía. 70 Entendamos bem. Nao na armadilha da quantificac;io e do léxico. Os parlamentares, finos
se trata, de nossa parte, de maneira nenhuma, de afirmar que se desen-
volverla uina ideología do liberalismo economice e da igualdade· jurí-
dica no seio das lojas e das academias. O problema nao é assim tao
simples. A tendencia a identifica~io de situa~ao é .feíta de maneira FORMAc;OES DISCURSIVAS NUMA FORMACAO SOCIAL
inconsciente, contraditória, assim como o Estado "empurra" ao com- DOMINADA PELO MODO DE PRODUCAO FEUDAL
promisso de maneira inconsciente e contraditória. Esta identifica~ao (ESQUEMA TEORICO)
é realizada em lugares fechados, de maneira lúdica e ambígua, mos-
trando nítidamente que as hegemonías da nobreza e da sociedade de Base economica
privilégios nao sao tocados de forma vital. Essa identifica~io nao modo de produ~o feudal
oculta em nada a luta ideológica e a luta das classes que, no plano dominante
ideológico, exacerba a ideo logia nobiliária e a ideología burguesa.
E é aqui que a problemática da elite, que evacua fundamentalmente
as classes sociais, mostra-se insuficiente. 72 . Estado " - - - - - - - - - 4 A. I. E. domfr::~r.!;;
Estado da A lgreja
Segundo os defensores da problemática das elites, 73 o fim do aristocracia
século XVIII teria assistido a constituic;ao de urna ideología das luzes,
[ comum a burguesía e a nobreza, urna cultura das luzes que teria
aproximado as classes antagonistas e te-las-ia constituído numa classe
proprietária, mergulhada no mesmo quadro ideológico. Com efeito,
constata-se que burgueses e nobres vao. aos mesmos colégios, leem
r
SuJelto-suporte -------------+1•¡ Format;óes discursivas
que tem como tra~o do-
as mesmas obras, freqüentam os mesmos sal~s e até as mesmas lajas; minante a elimina~iío do
constata-se ajnda que, em certas condi~óes de produ~ao, eles apresentam estabelecimento das rela-
a mesma linguagem. Deduz-se que sua ideología é comum. Sem poder ~oes de classe (discurso
. religioso ou de dominante
entrar detalhadamente no problema, parece-nos que a primeira questao é religiosa)
precisamente interrogar-se a respeito de urna das fun~óes destes lugares .
privilegiados de encontro entre nobreza e burguesía. Nao se terá difi-

124 125

-.-..... ~ ............. - --- -


letrados, utilizam freqüentemente o vocabulário das luzes ( "Razao",
"Natureza", "Liberdade"), mas o conjunto de seus discursos, as com-
bina~oes, nas· quais entram estas unidades léxicas, sao unívocas. Trata-
se sempre da reafirma~ao da validade da sociedade amea~ada pelos
enciclopedistas, pelos filósofos em geral, ou pelos partidários da liber-
dade económica. A sociedade tradicional é pensada em termos orga-
nicistas, com a metáfora da cadeia, em que todos os anéis se sustentam,
e que conota a harmonía do sistema social. A sociedade do Antigo
Regime, com seus direitos senhoriais, suas preeminencias, suas dis-
tin~oes, é vigilantemente defendida. Um estudo lingüístico das repre-
senta~oes feítas no parlamento de París ( 1776) 74 mostra que o con-
junto do discurso parlamentar funciona em duas grandes classes opostas,
urna positiva, a segunda inteiramente depreciada. A primeira classe de
equivalencia reagrupa tudo o que diz respeito a estrutura fundamental
do Antigo Regime.
Regulamentos
Urna liberdade mais bem entendida
Administra~ao
Polícia
Leis
Jurados
Corvéia

A segunda, todas as inova~oes filosóficas ou sociais que tendam a rece-


1 locar em questao a sociedade do Antigo Regime.
o
....
.... Sistema
o
o.
::::1 lnova~ao
"'
6 A liberdade
-----------~-~"5'
V)
A nova leí
Estes princípios
Esta concorrencia
Este projeto
O jugo uniforme
O imposto territorial

A título de exemplo, e sem mais tardan~a, indiquemos urna das


frases de base fundamentais do conjunto depreciado:
a igualdade (jurídica)
a liberdade ( economica ) faz que ( há ) a confusao das ca tegorias.
Indicar que a liberdade economica acarreta, implica, . solicita a
igualdade jurídica e que liberdade economica e igualdade jurídica sao

127
[ encontram-se assim combinados com outros conjuntos, mais ou menos
coerentes e mais ou menos contraditóri06, mas cuja unidade nao é pen-
sada precisamente como confusa e contraditória. Assim, a "elite" que
comunga no léxico das luzes deve ser apreendida, confrontando as múl-
tiplas posi~óes discursivas que sustenta, hierarquizando-a5, dando a co-
nhecer ·os diferentes subsistemas ideológicos que atualiza, por vezes de
maneira contraditória. Ver-se-á entio que ideología nobiliária e ideo-
logia burguesa nao sio fenomenos inventados pelos marxistas, mas rea-
lidades atualizadas em práticas discursivas que ocupam um lugar estra-
tégico na forma~io social do século XVIII. Se as ideologías pseudo-
-igualitárias das academias, lajas e salóes estio votadas ao fracasso, se
o Estado nio pode constituir esta classe dominante única, de hegemonía
nobiliária, e nao pode, assim, sair de urna grave cri.se, é que precisa-
mente o verdadeiro compromisso é impossível; sio fortes demais as
incompatibilidades entre a ideología nobiliária dos parlamentos e os
subsistemas burgueses, senda que a nobreza liberal constituí apena~
urna pequena minoría.
Afa.stamo-nos só em aparencia de nosso objeto. Da Lingüística
como "receita" a análise do lugar das práticas discursivas numa for-
ma~ao social, o caminho, por complexo que seja, pareceu-nos funda-
mental embora áínda tenhamos apenas rudimentos, apenas as duas
pontas 'da cadeia, como gostavam d~ dizer .os clássicos do ~smo;
cmbora ainda nos faltem urna teona do discurso e urna teona mar-
xista do lugar das práticas discursivas numa forma~ao social. Estas
·páginas pretendem ser ,apenas urna reflexio. sobre este tema, e nada
mais. Nao tinham outra. ambi~io senio designar o lugar· de um pro-
blema - o que, afina!, está feíto. Será preciso agora encontrar
solu~.

"Se o clero esclarece a na~ao quanto a seus deveres, se a nobreza


afronta a morte e prodigaliza seu sangue para defende-la, se a agri-
cultura a nutre, resta apenas o comércio que pode enriquece-la."
Quanto ao que diz respeito a organiza~ao economica, entretanto,
seu donúnio, e principalmente a organiza~ao do comércio, eles nao
querem aceitar nenhum tutor: "Mas, Senhor, nao sao nem eclesiás-
ticos, nem gentis-homens, nem oficiais municipais das cidades, nem
pr-oprietários que vivam de seus bens, que, nesta brilhante assembléia
que ides convocar, poderao esclarecer Vossa Majestade quanto aos de-
feítos, inconvenientes e omissóes das leis ·que governam atualmente o
comércio." 75 Numerosos subsistemas burgueses no plano economico

128
:·129
","·
~
~:
..
'
6. Ver acima, capítulo 2.
7. J. KRISTEVA, "Les épistémologies de la linguistique",tangages 24, p. 9.
~ 8. M. ToRT, artigo citado, p. 146.

•~ : Notas do capitulo 4
9.
10.
11.
12.
M. FoucAULT, L'Archéologie du savoír, París, N.R.F., 1969, p. 64 .
M. FoucAULT, fdem, p. 65.
M. FoucAULT, ídem, p. 142.
M. FoucAULT, ídem, p. 63.
13. M. FoucAuLT, idem, p. 86.
14. M. FoucAULT, ídem, p. 86.
Note-se que essa n~ao de "transforma~óes facultativas" refere-se a um
l. 15. M. FoucAuLT, ídem, p. 86.
estágio já ultrapassado da Lingüística. 16. M. FoucAULT, Naíssance de la clíníque, París, P.U.F., 1963, p. VII.
2. O. DucRoT, "Les indéfinis et l'énonciation" in "L'Énonciation", Langage 17. 17. M. FoucAULT, Archéologíe du savoír, p. 233.
3. Ver J.-L. AusTRIN, Quand dire c'est faire, trad. francesa de G. LANE, París, 18. M. FoucAULT, Archéologie du savoír, p. 61.
Le Seuil, 1970.
19. M. FoucAULT, L'Ordre du discours, París, Gallimard, 1971, p. 71.
4. M. PtcHEUX, "Langue", "Langages", "Discours", página "Idées" de
L'Humanité de 15 de outubro de 1971. . 20. M. FoucAULT, L'Histoíre de la folie, París, Plon, 1961, p. 109.
Essa n~ao de sujeito é das mais complexas e ainda está para ser estabe- 21. N~o complexa introduzida numa nota de pesquisa por. L. ALTHUSSER
"ldéologie et appareils idéologiques d'État", La Pensée, )Unho de ;910.
1 lecida. Parece-nos que, numa primeira abordagem, M. Tort coloca alguns N~ao que deve ser usada com prudencia ~ _que ainda ~rCC!sa ser teortzada
· ~ ( pontos iniciais, quando em "La psychanalyse dans le matérialisme historique", para niio ser utilizada num sentido mecantctsta e reduc1on1sta. Voltaremos
~ Nouvelle Revue de psychanalyse, Primavera de 1970, distingue, na p. 154:
a este ponto.
" "a) Pelo termo (su jeito )-suporte, designaremos a individualidade biológica
1 dos individuos ( individualidade que é um conceito biológico), na medida em 22 . M. FouCAULT, L'Histoire de la folie, p. 493.
¡ que se trata de base material a partir da qual eles sao intimados a funcionar 23. . M. FoucAULT, L'Histoíre de la folie, p. 499.
1 através das rela~óes 5ociais. É evidente que o conceito de ( sujeito)-suporte 24. M. FouCAULT, L'Ordre du diséours, p. 55.
· nao é um conceito biológico.
· b) Por sujeito ideológico, compreenderemos urna posi~ao no processo dos 25. M. FoucAULT, L'Archéologie du savoir, p. 180.
discursos e das práticas ideológicas, posi~ao, na verdade, específicamente 26. G. CANGUILHEM, La Formation. du co'!cept de r~flexe, Paris, P. U-~.; v~.r
também P. MACHEREY, "La phllosoph1e de la sctence de G. Cangullhem ,
const~tutiva destes, a qual teril por fun~o assegurar a entrada dos (su jeitos)-
La Pensée, fevereiro de 1964.
1
' J.; -, _ -suportes nos diferentes processos sociais. Ternos um exemplo simples de
fun~iio de sujeito ideológico no caso do etnocentrismo: o ponto cego a partir 27. M. FoucAULT, L'Histoire de la folie, pp. 97-99.
do qual urna cultura exterior é apreendida e que é a posi~iio espontinea que 28. M. FouCAULT, L'Archéologíe du savoir, p. 24: ·
os individuos ocupam em seus discursos é urna posi~iio de sujeito id~lógico.
É intuitivo o fato de que as propriedades precisas desse. ponto cego: 29. 0 problema é particularm~nte bem colocado por ~minique L;couRT, "Sur
l'archéologie du savoir, a propos de M. Foucault , La Pensee, agosto de
1) Siio enunciáveis (no caso enfocado, o sujeito ideológico poderá com-
1970. · . . · , L
preender predicados tais como branco, adulto, etc.).
b). Resultam de urna aplica~ao, na ideología, das regras impostas pelas 30. J.-P. GuTTON, La Société et les pauvres: l'exemple de la générqlite de yon_
estruturas sociais as quais está ligado o ideológico. 1534-1789, París, Les Belles Lettres, 1970.
e) Denominar-se-á sujeito da ideología urna variante teórica, urna racionali- 31. F. LEBRUN; Les Hommes et la mort en Aniou aux XVII• et XVIII• siecles,
za~iio ideológica do sujeito ideológico, elaborada pela ideología do sujeito. París, Mouton, 1971. ·
O sujeito ideológico é um operador do ideológico que niio é dado cerno tal, 32. M. VovELLE, "Piété baroque et .,déchri~tianisation: attitudes proven~al~,s
ao passo que o sujeito da ideología é o enunciado explícito de certo número devant la mort au siecle des lumteres d apres les clauses des testaments ,
de predicados desse sujeito ideológico (por exemplo unidade, unicidade, inédito, exemplar roneotipado.
permanencia, etc., no caso da filosofía clássica ocidental, na qual a ideología
do sujeito desempenha um papel muito importante). · 33. F~ LEBRUN, op. cit., pp. 481482.
d) . O .sujeito no sentido psicanalítico será provisoriamente definido, de 34. . F. LEBRUN, idem, p. 483.
acordo com a teoría de J. Lacan, como urna posi~iio no lugar do significante, 35. J.-P. GuTTON, · op. cit., pp. 491492.
induzida no sujeito-suporte, efeito de sua estrutura~iio pelos significantes." 36. P. CHAUNU, "Une histoire religieuse sérielle", Revue d'hist. mod. et cont.,
Nao há dúvida de que a teoría da enuncia~iio fica claramente presa a ideo- janeiro de 1965. ·
logia do· suieito. . M. VovELLE, o p.· cit., t. 1, p. 38. .
37.

130 131
fl
}8. M. VovELLE, op~ cit., conclusio do tomo Il.
39. Sobre esse problema, ver: D. MALDmiEK, Cl. NoaMAND, R. RoBIN, "Discours París, Maspero, 1965. Nio enf~am~>S, aq,?i, o .conceito, de ideología ?e~~t:
sua cria~áo devida a escola dos tdeologos do f1m do seculo XVIII e mtcto
et Idéologies: quelques bases pour une recherche" a ser publicado em Langue do XIX ~ as suas metamorfoses fora do marxismo, de K. MANNHEIM a
Franfaise. Nós nos basearemos, em parte, nesse artigo coletivo em todo o
final deste capítulo. K. ]ASP~RS. Sobre urna história do conceito, há algumas indica~óes in D.
VmAL, Essai sur l'idéologie, París, Éd. Anthropos, 1971.
40. R. BARTHES, "Structuralisme et sémiologie: entretien avec P. Daix", Les
úttres /ranfaíses, 31 de julho de 1968, p. 13. 55. Th. HEKBERT, "Remarques pour une théorie générale des idéologies",
41. Cahiers pous l'analyse, verio de 1968, n.o 9.
J. IúiSTEVA, resposta a Cinéthique no quadro de: "Cinéma: pratique analy-
a
tique révolutionnaire, question Julia Kristeva", Cinéthique, n."" 9-10. 56. A. GKAMSCI, Oeuvres choisies, ·Paris, ~d. sociales, p. 74.
42. J. IúiSTEVA, idem, p. 72. N. PouLANTZAS, Pouvoir politique et classes sociales, Paris, Maspero, 1969,
57.
43. a
K. Mux, Contribution la critique de l'économie politique, Paris, :&litions ~~ . .
sociales, p. 170. Quer o modo de produ~io seja considerado como termo 58. Os dássicos do marxismo sempre distinguiram o Estado, o poder do Estado,
abstrato real, de tipo geral, ou como termo de combina~io específica de 0 aparelho do Estado e o que L .. ALTHUSSER convenciona chamar ~s apa-
fatores (ver os elementos dessa discussio em La Pensée, out. de 1971, relhos ideológicos do Estado. O poder do Estado c~)ll?-pree!lde orP.nlsmos ~
sobre a categoría de "form~ económica e social", e nos trabalhos do instancias diversas: o poder central, o aparelho admmtstrauvo, mtlitar, ~lt­
C.E.R.M. "Lénine et la pratique scientifique" a ser publicado), o que tico, os tribunais, as prisóes, institui~óes distintas: espec~alizad31s ( ~ IgreJa,
importa é entender que um modo de produ~o, ao nível da base econ&nica, a escota a informa~lio, etc.) que nao atuam atraves da vtolencta fístca, mas
nio pode absolutamente ser com~;>reendido em termos puramente quantita- da ideol~gia. Desde que foi proposta, essa observa~lio de pesquisas fez co~r~r
tivos, em termos de puro tecnicismo, sem que intervenham rela~óes sociais. muita tinta. Rápida, as vezes ambígua em certos pontos, ela permlt!u
Don~e .a inad~o, para um marxista, de todas as problemáticas exclusivas sérios usos inadequados, como os de C. BAUDELOT e R. EsTABLET. A ~~o
e pnnctpalmente baseadas no crescimento e na quantifica{áo pura. parece-nos válid~; c~m~~to que exp~idte. ~aramente que ~:1·1·~·--ll~e
44. K. MARx, nota 32 do capítulo I do livro I do Capital, p. 590, da edi~lio constituem urna msutuJ~ao onde se d1fundma sem problemas e fa~c:nte
Garnier-Flammarion. · a idéologia dominante, mas urna institu~? de l~ta de c~sses, po1S a tdeo-.
45. K. MAn:, Le 18 Brumaire de L. N. Bonaparte, &litions sociales, p. 258; logia dominante defronta-se com outras 1deolog¡.~ (e nao apenas ~m o
essa problemática nio deve ser confundida cQm. aquela que postula que, para belo antagonismo polar fundamental classe domlnante/classe antagonista),
que baja classe, é preciso "associar", em vez da classe na produ~o. a cons- contanto que pense que eles podem ser ','desligados" em. ~ela~io. ao. ~er
ciencia de classe. A liga~o da classe e de suas lutas implica numa outra de Estado relativamente autónomos, ponto de contrad1~oes prmcrpa1s e
problemática. secundária~ que permeiam toda a ·forma~ao . social. . Em resumo, a n~o
46. -piiréce-no5 ·válida e fecunda, contanto que seJa considerada em toda a sua
O problema do Estado merecería urna obra inteira; nesta, apenas fazemos complexidade.
urna breve alusio ao problema, que nos permite fundamentalmente mostrar
que o marxismo nio se insere no quadro de urna causalidade mecanicista. 59. Cl. HAROCHE, P. HENRY, M. PE.cHEUX, "La sémantique et la coupure saus-
47. K. MAax, Le Capital, I, III, París, Éditions sociales, pp. 178-179. surienne; langlle, langage, discours", Langages 24, dezembro de 1971, p. 102.
48. ENGELS a Conrad SCHMIDT, carta de 27 de outubro de 1890, in K. MARx, 60. M. PtcHEUX, Analyse automatique du discours, París, Dunod, 1969, p. 111.
F. ENGELS, Studes philosophiques, Paris, Éd. sociales, pp. 157-158. O termo papd .di~ivo é .ambíguo. Arrisca-nos a e~tr&f, no .t:rren? do ~u~;
49. cionalismo soctol6g.tco. Sena melhor usar a expressao pos1~ao discurstva
ENGELS a F. MEHRING, 14 de julho de 1893 in K. MARX e F. ENGELS, Études que implica na problemática marxista das ideologías.
philosophiques, Paris, Éd. sociales, p. 166.
50. 61. Sobre este problema, ver A. ·Cuuou, "La formalisation en linguistique",
ENGELS a J. BLOCH, 21 de setembro de 1890, in K. MARX e F. ENGELS, Cahiers pour l'analyse,· verio de 1968, n.o 9.
Études. philosophiques, París, Éd. sociales, p. 154.
C. FucHs, M. PECHEUX, "Lexis et meta-Iexis: applications au probleme de
51. Denominaremos fu.~ de urna ideología, seu papel de classe, o lugar que déterminants", ·in Considérations théoriques a
propos du traitement formel
ela ocupa no campo da luta de classes. . du Langage (Documents de linguistique quantiiátive, 1971, n.o 7).
52. K. MAn:, Le 18 Brumaire de Louis-Napoléon Bonaparte, Paris, &1. sociales, R. STKICK, "Quelques problemes posés par une description de surface des
pp. 173-174. . modalités en fran~is", Langue /ranfaise, n.o 12, 1971.
53. Sobre es~ problemas, ver trabalhos em andamento, de Oaudine Normand 62. Cl. HAllOCHE, P. HENRY, M. PEcHEUX, artigo citado, p. 106.
especialmente. Referir-se-á as propostas de pesquisa. em D .. MALDIDIEll, Cl.
NoRMAND, R. RoBIN, "Disc:Ours et idéologies: quelques bases pour une 63. P. HENRY, "On processing of message reference in contexts", in Social
rechet-che", a ser publicado em Langue Franfaise. . contexts · o/ messages, Londres, Nova Iorque, Org. por E. A. CARSWELL,
Ragnar Rommetweit, Academic Press, 1971. Os exemplos que seguem sio
L. ÁI.THUSSEII., Cours pour .re~entifique, inédito, citado por C. GLUKSMANN tirados desse artigo traduzido. P. HENRY utilizava, na época, as n~óes de
"A propos d'Althusser", La Nouvelle Critique, abril de 1969, p. 45. En- informa~ao livre ( pré-construfdo) e de informa~io ligada ( constru~lio).
contram-se também preciosas 1 indica~óes em L. ALTHUSSER, Pour Marx,
64. É nessa dir~io que trabalham particularmente P .. HENRY e M. PECHEUX.
132
133
65. Obviamente, trata-se de urna primeira abordagem, na qual só consideramos
o discurso político e niio o discurso literário, poético ou qualquer outro,
para os quais as outras determina~ (particularmente a determina~iio ana-
. lítica) siio mais difíceis de compreender e teorizar.
66. O conceito de A. I. E., repetimos, precisa ser reformulado. :e. provável
que oiio seja possível conservá-lo sem modifica~óes e sem levantar certas
ambigüidades que ele aioda possa conter. Entretanto, parece-nos importante,
para· a conceitua~iio marxista, na medida em que permite sair da proble-
mática funcionalista da institui~iio e dos papéis. Mesmo se somos levados
a dizer que um A. I. E. abrange instituí~, a conceitua~iio niio é a mesma.
O conceito relaciona o poder de Estado enquanto instancia política com
a instancia ideológica e com o lugar do sujeito-suporte numa forma~o social.
Permite evitar que se pense nas rela~iíes sociais superestruturais como um
éter, um elemento natural, no qual se desenvolveriam modos de produ~iio
económica; permite, finalmente, evitar as armadilhas das ideologías que, a
títulos diversos, "desmarxizam" as superestruturas apelando para as "socie-
dades industriais", ou; numa outra dir~iio, para o "arbitrio cultural".
67. A respeito das n~iíes de "coloca~iio" dos sujeitos-suportes numa forma~iio
social e do "esquecimento da coloca~iio", ver os trabalhos de M. PLON, espe- ALGUNS M~TODOS
cialmente: · DE ABORDAGEM DOS TEXTOS .
"Quelques aspects des processus d'identification daos une situation expéri-
mentale", Bulletin du C .E .R.P., 1969 e "Psychologie sociale et théorie
des jeux", La Pensée, fevereiro de 1972.
67. M. AGULHON, La Sociabilité méridionale; ( confréries et associfl!iQns dans
la vie collective en Provence orientale a la fin du XVIII• siecle), 2 vol.,
Publications des Annales de la faculté des lettres d'Aix-en-Provence, 1966.
68. Sobre este complexo problema, ver R. RoBIN, La Société {ran,aise en 1789:
Semur-en-Auxois, París, Plon, · 1970, essencialmente o prefácio.
69. Referimo-nos, aquí, aos trabalhos de J. NxcoLAs sobre a burguesía e a nobreza
ria Savóia, no século XVIII.
. 70. Esperamos a tese· de D. ROCHE sobre as academias.
71. Sobre esse problema permitimo-nos retomar em parte nossas argumenta~iíes
de "La Révolution fran~aise a-t-elle eu lieu?", mesa-redonda com A. CASA-
NOVA, Cl. MAZAURIC e R. ROBIN, in La Nouvelle Critique, abril de 1972
e as de nossa comunica~iio no col6quio sobre "Ideologies et société a l'époque
des lumieres", organizado pelo Círculo de estudos marxistas da Universidade
Paul-Valéry de Montpellier, mar~o de 1972, inédito.
72. Particularmente F. FuRET, "Le catéchisme révolutionnaire", Annales, E.S.C.,
mar~abril de 1971. D. RICHET, "Autour des origines idéologiques loin-
taines de la Révolution fran~aise: élite et despotisme", Annales, E.S.C:,
1969, n.• l.
73. D. MALDIDIER, R. RoBIN e urna equipe de estudantes de Lingüística de
Nanterre, trabalhos em andamento sobre as representa~óes do parlamento
de Paris, 1776, inédito.
74. Lettre au roí de la part des ¡uges et consuls des marchands 4e. Valenciennes,·
6 de nov. de 1788, comunicado por J.-P. HIRSCH de Lille III que fez urna
tese de 3.• ciclo sobre as cartas e requerimentos das camaras de comércio
para serem específicamente representadas nos Estados Gerais.

134
r
CAPÍTULO 5

ESBOQO DOS M~TODOS ESTATlSTICOS:


O EXEMPLO DO LABORATORIO
LEXICOM~TRICO DA E.N.S.
DE SAINT-CLOUD 1

Quando P. Guiraud escreveu que "a palavra criada por um indi-


viduo s6 tem valor na medida em que é aceita, retomada, repetida,
sendo entao finalmente definida pela soma de seus empregos", 2 erigía
um objeto novo, "os caracteres estatísticos do vocabulário". 3 Tal abor-
dagem fundamenta-se na freqüencia, atributo estatístico essencial da
palavra, na delimita~ao dos "caracteres arritmo-semanticos do vocabu-
lário". 4 Desde entao ela tem sido aprofundada, precisada e diversifi-
cada. A propósito, é preciso mencionar· os.. trápalhos de Charles Muller
sobre a estatística lexical. 11 O laborat6rio de lexicometria da E. N.S.
de Saint-Cloud, inspirando-se nas pesquisas de Charles Muller, tentou,
em seus trabalhos, particularmente sobre os panfletos de maio de 1968,
· aperfei~oar instrumentos estatísticos capazes de possibilitar o estudo
quantitativo de um texto, urna análise o mais completa possível. "Pre-
tendendo estudar prioritariamente as rela~óes numéricas e probabilís-
ticas estabelecidas pelos itens mínimos de um texto, optamos por urna
estatística dos empregos: a lexicometria." 6 Há muitos outros trabalhos
e dire~óes. 1 Se optamos pela apresenta~ao dos métodos desenvolvidos
por esse laborat6rio, fazemo-lo porque os resultados obtidos dao aos
historiadores as maiores esperan~as.

S: 1 . O inventário dos textos

O primeiro passo exige ·o inventário exaustivo do cor us .. "Para


nós, lexicólogos, é primordia. o n Ice exaustivo as ormas com a

137
indicat;ao de suas referencias: programa primário." 9 Será preciso
lembrar o tempo em que, magninimos, os pesquisadores faziam manual-
mente o índice de seu corpus? Assim ocorreu com os índices dos dis-
cursos de Robespierre e de Saint-Just, feitos pela equipe "Revolut;ao
r 5. 2. A freqüencia

P. Guiraud, após estabelecer a lista de freqüencia das "palavras


de significat;ao ou palavras fortes" de um corpus, distingue tres zonas
Francesa" do centro de lexicología de Saint-Cloud. Esse tipo de levan- "arri tmo-seminticas".
tamento, que permitiu chegar a trabalhos precisos, revelou-se, contudo, 1 ) As palavras-tema: cerca de cinqüenta palavras. (pode-se, se se
muito insuficiente. Recorreu-se, entao, ao computador e abandonou-se quiser, tomar as primeiras 100 palavras, em vez das cinqüenta primeiras;
a indexat;ao m!lnual. Por que abandonar o trabalho manual? "Che- a determinat;ao das 100 é relativamente arbitrária). As palavras-tema
gamos a esse ponto, após a experimentat;ao de dois métodos comple- representam 9% do discurso. Geralmente sao encontradas em todas
mentares: os índices das palavras completas (Rousseau, Montesquieu,
Voltaire, Saint-Just e Robespierre) foram em parte feítos assim, reve-
lando-se úteis como tábua de referencia e como desconto das aparit;óes. As PALAVRAs-TEMA DE }EAN-}ACQUES RousSEAU:
As PRIMEIRAS 50 PALAVRAS DO Contrato Social
Mas eles também sao pobres em informat;ao. A difusao de cartóes per~
furados para levantamentos de contextos, que era o nosso segundo ( l.a versao )
objetivo, foi um sucesso; a tentativa de transformá-la num fichário de
citat;óes políticas é que fracassou. . . A partir de certa amplitude, a SUBSTAN· FRE- ADJE· FRE- VERBOS
consulta aos índices e principalmente a triagem das fichas só podem TI VOS Qü:E:NCIA TI VOS Qü:E:NCIA
ser manipuladas lentamente. O computador surgiu, pois, como o único ter
meio eficaz para sistematizar e objetivar o inventário." 10 Além do mais poder
o inventário manual nao permite determinar os caracteres estatísticos leí 168 fazer

~
complexos do texto em questao. Tal experiencia levou o centro lexi- ; homem
Estado
132
130
dever
precisar
cométrico de Saint-Cloud a elaborar um método de tratamento auto- 1 direito 104 querer
mático dos textos. } povo 102 ver
for~;a 66 geral 65 dizer
A primeira etapa consiste em editar o corpus em cartóes perfu- natureza 64 · grande 50 dar
rados em funt;ao dé um código apropriado. A segunda etapa consiste sociedade 51 particular 49 saber
em colocar esses cartóes no computador, o qual interroga o texto assim corpo 50 social 43. devolver
inventariado grat;as a um programa de indexat;ao. 11 Na base deste cidadao 41 natural 40 tornar-se
bem 39 público 39 estabelecer
programa encontra-se a distint;ao entre as formas funcionais: as pa- governo 38 civil 34
lavras-instrumento ou palavras gramaticais, e as formas lexicais. O razao 36 comum 34
computador fornece: religiao 36 humano 34
interesse 35
_:_ Dois índices alfabéticos (<:om a freqüencia das formas ) : o das for- Deus 34
mas lexicais com referencias, por um lado, e o das formas funcionais, objeto 34
por outro. guerra 32
soberano 32
- Dois índices hierárquicos, que fazem o recenseamento das formas ato 30
funcionais· e das formas lexicais, por ordem de freqüencias decrescentes. liberdade 30
membro . 30
Acrescentam-se também estatísticas globais do texto. Os coefi- chefe 29
cientes ora· sao ligados a cada urna das formas ( freqüencia absoluta, coisa 29
freqüencia relativa, freqüencia relativa específica _ou "proposit;ao de urna efeito 27
rela~;ao 26
forma calculada na sua categoría") 13 ora coeficientes gerais no con- sujeito 24
junto do texto·. (coeficientes de funcionalidade, de lexicalidade, de justi~;a 23
redundancia geral,'>de variedade). 14

138 139
As PALAVRAS-TEMA DE RoBESPIERRE
r
1 As PALAVRAS-TEMA DE SAINT-JusT

SUBSTAN-
AD- . TIVOS
FRE SUBSTAN- ADJE- VERBOS
QO:E:NCIA • TIVOS TIVOS V~RBIOS
povo 243
Iiberdade 138 fazer 136
209 povo 12.5
181 poder. lei
república 10.5
131 liberdade
governo 104
fazer
mais homem 96
116 cidadáo inimigo 8.5
assembléia dizer 70 público 66 poder 70
público querer Estado
homem cidadao .56 dever 66
77 París crime 56 ~

leí reí 55 querer 6.5


direito príncipe 53 precisar
causa justi~ 51 ter 51
príncipe dever 47
precisar pátria
na~o
revolu~ao 47
revolu~áo 46
direitos
república comércio 45
inimigo crer 38 devolver 39
vontade
Luís 37 julgar 38
bem
crime comite 36
projeto 36
frances devolver menos fa~iio
39 nome 36
meio
opiniáo
sistema
nacional
primeiro
geral
ser
saber
dar
ainda
também
bem
virtude
representa~iio
natureza
3.5
34
r:al
nces
35
34
tirano único fa lar hoje espirito 33
departamento estrangeiro pedir guerra 33
calúnia novo apresentar exército 32
pátria bom vir coisa 32
representante civil julgar interesse 31
conven~ao inteiro ouvir rela~ao 31
tiranía necessário ir tirano 31
intriga pequeno chamar ordem 31
idéia 30 dar 30
di a sagrado responder 30
autoridade 29 estabelecer
reí eterno acusar 30
membro ·armado comba ter estrangeiro 29. perder
comuna político educar mal 29
despotismo verdadeiro ousar
fa~áo pérfido parecer
guerra certo· temer
patriota · covarde tomar as frases; quer dizer que é quase impossível exprimir urna idéia sem
corpo constituinte carregar recorrer a elas. É em torno delas que se organiza o pensamento donde
justi~a . culpado . procurar seu nome de " pa1avras-tema". . ' ·
Luís XVI popular calúniar
27 sociedade 2) As pala_vras de base, ou seja, as 4 000 palavras que vem em se-
guida, e que constituem a substancia do discurso.

140 141

---------- ---- ..-........- ----


LISTA DE FREQÜENCIA SEGUNDO ·As CATEGORIAS GRAMATICAIS
(HÉBERT) SUBSTANTIVOS VERBOS ADJETIVOS
cachorro 25
SUBSTANTIVOS VERBOS ADJETIVOS dois 25
olhos 25
desgra~ado 243 fazer 298 alegria 24 expulsar 24
sans-culottes 107 ver 133 Dumoiriez 23 cessar 23
república 100 querer 123 mal 23 provar 23
"homens 92 ir 120 bom 100 patife 22 existir 22
París 82 dizer 104 grande 96 soldados 22 público 22
su jeito 73 precisar 100 revolu~o 21 ficar 21
povo 72 poder 83 subsistencia 21
mao 57 pür 71 lei 21
di a 56 dar 64
inimigos 55
traidores 54 3) Finalmente, 20 000 palavras de baixa freqüencia, de gr~nde res-
liberdade 52
Pere Duchesne 52 tri~ao de sentido, e portanto muito precisas. Sao denominadas "pa-
Conven~ao 52 lavras de cara<;teriza~ao". 1 5
constitui~ao 51
exército 51 vir 51 Assim, é possível, a partir de um índice hierárquico das formas
cidadaos 48 lexicais, agrupar to4as as formas que pertencem a um mesmo lexema.
amigos 46 saber 46 Tal opera~ao denomina-se lematizafáo. Agrupa-se. num mesmo conjunto
Custine 46 sans-culotte, sans-culottes, sans-culotterie. A partir daí, o pesquisador
ca~a 46
departamento 41 bravo 42 . poderá determinar as palavras-tema correspondentes as palavras lemati-
Fran~a 41 zadas de altas freqüencias. Assim é que, a partir de índices manuais,
-~-~_t __ 40 d.exer _4º fll.lderªtll set d~termi11adas as ¡¿alavras-terna d~ Sai11.tdl..ist e de_ Ro_bes-
vez 39 salvar 39 pierre, de acordo com os períodos e os corpus considerados, fazendo-se
criminosos 38 devolver 39 o ·mesmo, posteriotmente, com as palavras-tema de Hébert .
morte 37 deixar 39 pequeno 38
covardes 36 tomar 37 Além do mais, o lingüista foi levado a distinguir, além das pa-
guerra 36 lavras-tema "mais empregadas por um autor, aquelas que justíficam o
sangue 36
corte_.. 35
pensamento"; 16 pafavras-chave, "palavras cuja freqüencia afasta-se da
general 35 normal". 17 Tal defini~ao coloca problemas. Como medir realmente
tempo 35 o afastamento com rela~ao a normal? A lista Van der Berke, estabe-
a~ambarcadores 34 perder 33 lecida para o século XIX, só pode ser considerada provisória. Essa
lugar . 33 chegar 33
entregar 31 lista é contestável até para o século XIX. O que dizer, entao, dos
comerciantes 32 único 32 outros períodos! Foi necessário· propor outra defini~ao das palavras-
Marat 31 velho 30 -chave. Entende-s·e por palavra-chave qualquer .. pal~J,vra que, num
cidades 31 corpus composto de subconjuntos, é característica de um ou de vários
irmaos 29 ouvir 29 novo 29 subcoQjuntos. Tal palavra .tem um _lugar estatístico no subconjunto
sans-culotterie 28 comer 27 pobre 28
sim 27 andar 27 primeiro 26 considerado, nítidamente superior ¡¡o seu _lugar estatístico na lista de
nobres 27 conhecer 26 republicano 26 freqüencia do conjunto do corpus: · · · ·
pao 25 falar 26 último 26
26 frances 26 Todos os pesquisadores que trabalharam apenas a partir do critério
aristocratas 25 pedir
bandidos 25 jogar. 26 de .freqüencia pe(ceberam a importancia dessa n~ao, mas igualmente
a sua insuficiencia. Cada vez mais contestado, quando considerado
142 . 143
sozinho, o estudo da freqüencia encontrou a sua necessária comple-
mentariedade sem o estudo da distribui~íio.

5. 3. A distribui~áo
.,

Pesquisando a distribui~íio das palavras num determinado corpus,


j
11"1
G. Gougenheim estabelece o que ele chama de índice de distribuifáo.
Seja um corpus composto de x subconjuntos. Urna dada palavra tem
como índice de distribui~íio o número x de subconjuntos nos quais ela
se atualiza. Interessante, por poder ser feíta manualmente, essa ope-
ra~iio, contudo, cría problemas. Qual o valor desse índice com rela~ao
a freqüencia absoluta? A propósito, é particularmente precioso o aper-
fei~oamento de um instrumento estatístico que permite hierarquizar
as formas de um corpus da mais particular a mais geral, e que foi feito
pelos pesquisadores do laboratório de lexicometria de Saint-Cloud com
o auxílio do computador. O ponto de partida desse trabalho é a neces-
sária crítica da freqüencia considerada isoladamente .
. "Há vários anos, os lingüistas concordam em dizer que e tmpos-
sível tirar conclusües lingüísticas da freqüencia considerada isolada-
mente. Que tal palavra seja tanto ou tantas vezes empregada em ter-
mos absolutos, isso nao quer dizer nada. Há duas razües para tal afir- A\
ma~ao:

1 ) O emprego das formas lingüísticas depende da amplitude do


corpus considerado, do sistema de escrita, das bases de que dispóem
o locutor e o receptor, etc. e, portanto, a freqüencia só pode ser apre-
ciada em sua rela~ao com os principais quadros da enuncia~íio.
j
2) Esse emprego é resultante de dois tipos de motiva~ao: a generali-
dade de um termo, se este é extraído do repertório fundamental dos
usuários da época ( vocabulário de um estado de língua) ou do de urna .."'
E
situa\íio, de comunica~ao ( vocabulário de um estado de fala); a parti-
cularidade, se caracteriza um acontecimento, um tema ou genero preciso -2
(vocabulário de um registro) ou se é produto de um locutor individual ""
ou coletivo que ele permite distinguir em sua originalidade expressiva
( votabulário de um ideoleto)." 1 7
"'
Tentando, por umlado, determinar as palavras gerais e, por outro,
as palavras particulares, os · lexicólogos da equipe de lexicometria de
j
,.
Saint-Cloud, tomando como amostra experimental urna lista composta ....
por formas de altas e baixas freqüencias, tiradas da lista de freqüencia
do corpus de panfletos de maio de 1968, estabelecidos sob seus cui-
dados, mostram que na lista que hierarquiza essas formas segundo o

144
ou precedido ou enquadrado por outros". 25 A pesquisa das co-ocor-
índice de distribui~áo "as duas dasses (altas freqüencias e freqüencias J
mínimas) nao se misturam. . . A freqüencia absoluta desempenha por- rencias de urna forma qualificada de "palavra-pólo" consiste numa lei-
tanto, um grande papel". 18 Orientando-se em dire~ao a outros 'hori- tura mecanica- de acordo com um coeficiente denominado coeficiente
de co-ocorrencia - de todos os circundantes, das ocorrencias dessa
zontes estatísticos, esses pesquisadores recorrem ao qui 2, ou ao teste de
forma. As rela~óes que a forma considerada mantém com as que a
Pearson, o in~trumento e.statístico aparentemente. mais apto para esta-
precedem ou seguem sao de tres tipos:
belecer .?Ama. hsta ~o part~cular ~o geral, eliminando ao máximo o peso
da frequencta. Nao nos e posstvel entrar nos detalhes técnicos dessas "1 ) Freqüencia de aparecimento de um termo nas proximidades de
-
opera~oes. 19 Coloquemos stmp . 1esmente, como escrevem os autores outro (que denominaremos índice de co-freqüencia).
que, "nesses estudos, o método consiste em aplicar a cada forma u~ 2) ·Distancia dessa proximidade que pode ser, ou contigüidade ime-
coeficiente estatístico, o qui 2. Ele nos permite distinguir as formas diata, ou afastamento maior ou menor para além de outros termos inter-
me~os regu~arn;ten~e distribuídas, denominadas específicas, das formas
mediários (que denominaremos índice de proximidade).
mats bem dtstrtbmdas, que constituem o vocabulário geral". 20
3) Diferen~a ( fator essencial) entre a ocorrencia esperada do termo
Assim, o grupo de lexicometria estudou um corpus constituído por que corresponde a sua esperan~a matemática no enunciado, e sua ocor-
u~a. a~ostra de pa~fletos de 9 grupos e partidos políticos, panfletos
rencia observa~a (que denominaremos índice de afastamento) ." 26
distrtbutdos em Parts e periferia, de 1.0 de maio a 16 de junho de
1968., ~ 1 O estud? é complexo, pois temo objetivo de "mostrar tra~os o computador fornece as listas hierárquicas das co-ocorrentes a
espectftcos dos dtferentes locutores e da evolu~ao de seu vocabulário direita e a esquerda da palavra-pólo.
de acordo,c?m as variáveis tempo e grupo", 22 assim como determinar
o vocabulano geral do período. Quanto ao conjunto do estudo, indi- palavra-pólo
camos "Quelques groupes politiques en mai 1968: Recherches lexico-
~étriques", texto publicado pelo mesmo editor. Queremos apenas men-
c~o_?ar o quadr~ da~ e~pec~f~cidades de grupo e medir seu grau de pre-
ctsao e as cons1derave1s dtftculdades de interpreta~ao. 2a 3 4 5
Verificar a freqüencia, assim como a distribui~ao das formas dos
lexemas de um corpus, é antes' de mais nada fazer "estatística fo;a de lb conjunto vazio
contexto". Ela se mostra insuficiente ao nível da interpreta~ao. Na fecha mento
verdad:, "lemb:emo-nos, contudo, que essas curvas ( especificidade e
generalidade) nao refletem de forma alguma o conteúdo semantico do
vocabulário que só se poderia apreciar considerando as formas em seus 4 3 2 2 3 4
contextos". 24 ·

Um exemplo permitirá mostrar todas as possibilidades de aplica~ao


das co-ocorrencias. ·Consideremos a forma "povo" em RQbespierre e
5 . 4. As co-ocorrencias Hébert, no ano II.
. 1 . · O -texto de Robespierre intitula-se: "Sobre as rela~óes das idéias
Numerosas tentativas foram feítas· no quadro de urna estatística religiosas e morais com os principios republicanos ... ". Contém 4 212
sintagmática a fim de obter, com o auxilio de instrumentos estatísticos iteris. A palavra-pólo é "povo" e o contexto considerado, 5 itens antes
as co:rela~óe~ de um dado termo no contexto. Daí a importancia d~ e 5 itens depois do pólo, salvo se o computador encontra urna pon-
. ex~ert~enta~ao atualm~nte feíta pelo centro de lexicometria da E. N.S. tua~ao forte. ·
de Samt-Cloud, em suas pesquisas sobre ·as co-ocorrencias de deter-
mina~a form11. A co;x:~~encia será definida como ~·o fato puramente
. matertal de que os stgntftcantes se sucedem; sendo cada um seguido
147
. 146
r ·
1
Paris
departam~nlos
2
3 aoberanla 3
2 julaar
dirtitos :realeza 4 4
4 3 S geral impedir 5
5 grande eonven~;_lio 4
¡:¡obres riquezas
revolu~lo nadonal

Quando consideramos a palavra sans-culotte como palavra-pólo,


· Este gráfico permite a compreensao imediata dos estereótipos, das encontramos certo número de lexias fixas "os bons conselhos ( ... )
lexias fixas: "grande povo", "direitos, soberanía, representantes do dos bravos sans-culottes", "ós sans-culottes de París e dos departa-
povo", "povo frances". O gráfico das co-ocorrencias deve, sem dúvida, mentos", a polissemia do termo aparece, por um lado, da oposi~ao
ser interpretado com infinitas precau~s. Ele nada mais é que o ponto ricos/pobres, e por outro, de fun~óes "políticas" atribuidas aos sans-
de partida da pesquisa. Isto posto, esse gráfico es~a um "espectro -culottes. Isso é muito claro quanto ao termo "julgar".
estatfstico das frases que contem a forma "povo", sendo este inteira-
mente abstrato e unicamente político". 27 O termo "povo" é eminente-
mente polissemico rio período da Revolu~ao. _Pode significar os pobres
ou os cidadaos. Neste discurso é privilegiada a dimensao política, e
: ( '. J
1
2 sans-culottes
tribunais
1
eolUipiradores 2
erimlnosos
nao a social. Nesse texto, o povo é o "grande povo frances, encarnado 3 3
em seus "representantes" na "conven~ao nacional", definido por seus compostos traidores
"direitos", sua soberanía ... ", 28 ligado a "Revolu~ao" e antagonico Um dos atributos essenciais dos sans-culottes, para Hébert, nao
a "Realeza".
é a leí, atribuída a Conven~ao, mas o fato de eles julgarem os traidores.
Em Hébert 20 o gráfico apresenta-se da seguinte maneira: Para aprofundar mais a análise, é preciso unir aos métodos de estatís-
ticas no contexto outros métodos lingüísticos. Ao nível da co-ocor-
rencia, os problemas de interpreta~io sao infinitamente delicados. Como
conclusao de seu estudo estatístico sobre os panfletos de maio, os
autores temo grande cuidado de escrever: "Entenda-se bem- o objeto
do estudo é lingüístico; suas conclusóes só podem ser lingüísticas. Cons-
queremos !orca ver amigo trances guerra tatamos, por exemplo, com rela~ao a certos índices lexicais, um paren-
tesco estatístico entre o P.C. F. e a U. J.C. M. L. Cabe ao leitor dar
a esse fato a interpreta~ao que esteja mais de acordo com sua ideología
O estereótipo, neste caso, é o "povo frances", comum as duas pessoal. -Dois comentários radicalmente opostos (ambos reivindicando
árvores. Encontramos igualmente- a lexia fixa "amigo do povo"- na evidencia) nao foram acaso propostos por Chris Marker para urna
. qualidade de referencia a Marat. Quanto ao resto, o espectro estatís- mesma seqüencia filmada de sua Lettre de Sibérie?" 31
tico de "povo" em Héhert é concreto: "for~a", "querer". Além do Por aí se ve a dificuldade de manipula~ao do instrumento estatís-
mais, o segundo co-ocorrente da direita, como o da esquerda, remete a tico. A tendencia atual denota freqüentemente muita reserva no que ·
palavra-pólo, o que quer dizer que Hébert emprega a forma "povo" _ diz respeito a estatística lexical. De fato, sumariamente utilizada, ela
m blocos, e nao isoladamente. ·Como em Robespierre, nao encontra~ pare;e muito ~or;ttestáv.el. Alguns autores .?!et~ndera:f =~meate -a,

Omos aquí a segunda dimensao social de "povo". Isto porque todas as


conota~óes sociais de "povo" foram tr~nsferidas para ·a palavra ¡ans~
culotte. _ -
art1r da estatlstlca lextcal baseada na frequencra, das J
lí · do o isomo ismo segun o o ual cada
ligado a um vocabulário esped ico. at certos exageros e más ínter-
ru os
taria

148 149
preta~6es de que já falamos. Contudo, nao podemos concluir por uma
ausencia de validade dos métodos estatísticos, na medida em que,
ultrapassando o simples critério da freqüencia, eles se afirmam a cada
dia que passa, e tentam, através das co-ocorrencias, estabelecer urna
estatística no contexto. O historiador, numa primeira abordagem, deve
utilizar os instrumentos que podem permitir que ele construa suas
primeiras hipóteses de trabalho, determine as palavras-tema e as pa- Notas do capítulo 5
lavras-chave do corpus, para as quais atentará mais particularmente e
que tratará por outros métodos. Estatísticas lexicais e métodos de aná-
lise do discurso sao, freqüentemente, complementares e, muitas vezes, l. Este capítulo nao poderia ter sido escrito sem a ajuda e a solicitude do
um -.- que mais nao fosse pelas insuficiencias e questoes suscitadas - Centro de Lexicometria da E. N.S. de Saint-Cloud e, partiCularmente, sem
abre caminho para o outro. É o que sugere G. Provost quando, a a contribui~iío de }. GUILHAUMOU que teve a gentileza de reunir os ma-
teriais necessários para este estudo, reler e melhorar, com seus conselhos,
partir da tese de M. Launay, escreve: estas poucas notas. Somos gratos a ele.
• "No quadro do Centro de Pesquisa de Lexicología Política de 2. P. GUIRAUD, Problemes et méthodes de la statistique lirtguistique, París,
Saint-Cloud, os estudos de M. Launay sobre o Vocabulário político nas Larousse, 1960, p. 19.
obras de ].-]. Rousseau refletem muito bem a evolu~ao, por afina~6es 3. Título de sua primeira obra de estatística lingüística, publicada em 1954.
sucessivas, do método de análise e a novidade de certas dire~6es. Pas- 4. P. GUIRAUD, op. cit., capítulo V.
sando do levantamento da unidade lexical ao estudo das co-ocorrencias, 5. Ch. MuLLER, Initiation a la St(JtÍstique linguistique, Paris, 1968, cf. também
M. Launay aborda definitivamente questoes relativas aanálise dos enun- seus estudos sobre o vocabulário das ~as de P. CoRNEILLE.
ciados." 32 6. A. GEFFROY, M. TouRNIER, P. LAFON, Analyse lexicométrique des co-occur-
rences et formalisation, policópia da E. N.S. de Saint-Cloud, p. 2.
7. ~ evidente que, no ambito deste artigo, baseamo-nos unicamente no tra-
balho desenvolvido pelo Centro de Lexicología Política de Saint-Cloud.
Muitas outras pesquisas estatísticas e informáticas. foram feitas. Em res-
posta aos detratores desse tipo de pesquisa, A. GEFFROY, P. LAFON, G. tv1uc,
M. TouRNIER, em seu manual de perfura~o, escrevem: '"Significa nao dar
importancia a numerosas e compensadoras experiencias, como a da equipe
do padre Busa, do centro de Gallarate, sobre os Manuscrits de la mer
Marte; a dos latinistas de Liege e dos foneticistas de Grenoble; a da
documenta~ao automática (J.-C. CARDIN, F. LEVERY); a da Universidade de
Pisa sobre as versóes da Divina Comédia; as do fundo de pesquisa da I.B.M.-
-Fran~ sobre a estrutura das frases, silaba~ao ou estatísticas do vocabulário;
a do exame das pesquisas sobre a imprensa no século XVIII (J. SARD, M.
DuCHET) e, principalmente, para chegar a lexicología, a do C.E. V. F. de
Besan~on'~ (p. 12). Muitos nomes teriam que ser acrescentados, desde as
pesquisas pioneiras de B. QUEMADA até as de}. LAUNAY; desde os trabalhos
do centro de pesquisas e de aplica~óes lingüísticas de Nancy (C.R.A.L.)
até. as de M. CouTURIER. Na bibliografia geral pode ser encontrado certo
número de referencias. ·
8. Cf. trabalho de M. TouRNIER sobre 1848, nesta mesma obra (parte III). ·
9. M. ToURNIER, "Vocabulaire politique et inventaires sur machine", Cahiers de
lexicologie, 1967-1. . ,
10. Annie GEFFROY, P. LAFON, G. Mue, M. TomdnER, Traitement automatique
des textes, 1.: Perforation, polic6pia da E.N.S. de Saint.Cloud, mar~ de
1970, p. 7. .
11. . P. LAFON, "Un programme d'indexation pour mini-ordinateur",Informatique
en sciences humaines, outubro de 1970. ·

150 151
12. Trata-se de urna lista de formas funcionalizadas que pode ser encontrada
no manual de perfura~o, publicado em ma~ de 1970, na E. N.S. de
Saint-Cloud. Abarca um compromisso entre diversas exigencias. P. LAFON,
no artigo acima citado, precisa: "Ela contém as formas dos verbos ser e
ter, mas nao as de fazer e poder, que sao, contudo, freqüentes; caso con-
trário, a lista seria muito grande; exceto e muita, pouco empregados por
serem formas muito freqüentes de mesma natureza gramatical, fazem parte da
lista. Tal como está, apesar das criticas que podem ser feítas, da nao
só é preciosa para adiantar a execucao dos programas, como constituí um
instrumento de medida, urna norma que permite o cálculo de um coefi- CAPÍTULO 6
ciente de funcionalidade que, se nao tem grande valor em si, permite, .con-
todo, a compara~o do instrumental gramatical de dois textos."
13. P. LAFON, artigo citado, p. 38. ABORDAGENS DOS CAMPOS SEMÁNTICOS:
14. Ver definicio desses termos no léxico geral, pp. 000 a 000. AS EXPERI~NCIAS DO CENTRO DE
15. P. GtJIRAUD, Les Caracteres statisques du vo"cabulaire, París, 1954, p. 62.
16. P. GtJIRAtJD, obra citada, p. 64.
LEXICOLOGIA POLlTICA DE
17. A la recherche du particulier au général dans le vocabulaire des tracts de SAINT-CLOUD
mai 1968, publicacao do Laboratório de Lexicología Política da E. N.S.
de Saint-Cloud, policópia p. 2.
18. Idem, p. 6.
19. Ver mais detalhes na brochura completa acima mencionada.
20. A. GEFFitOY, P. LAPON, G. Mue, M. TouRNIER, "Qudques groupes poli- 6. l. Generalidades
tiques en mai 1968: recherches lexicométriques", in Jean CHARLOT, Les partir
politiques, París, A. Colin, 1971, p. 69.
21. Ver o detalhe do corpus no artigo acima mencionado.
Os métodos desenvolvidos pelo Centro de Lexicologia Política de
22. "Qudques groupes politiques ... ", p. 66. Saint-Cloud, antes de ser tomada uma odenta~ao decididamente quanti-
23. Quadro anexo ao estudo, inédito, A la recherche du particulier au général . .. , tativa, 1 oferecem, apesar de sua imprecisao e de seus limites, inapre-
ver acima. ciáveis servi~os ao historiador. Todos os trabalhos desse centro apóiam-
24. "Quelques groupes poli tiques ... ", p. 75. ·se nos seguintes postulados de base:
25. R. L. WAGNER, Les Vocabulaires franr;ais, París, Didier, 1970, t. 1, p. 99. - O texto nao é transparente. Pesquisar. o sentido de um texto, de
26. "Quelques groupes politiques ... ", p. 75. urna frase, de urna palavra exige certo trabalho com o texto, uma apa-
27. A. GEFFROY, P. LAFON, M. TouRNIER, "Analyse lexicométrique des co- rente desestrutura~ao da cadeia falada e da ordem do discurso, para
-occurrences et formalisation", E. N.S. de Saint-Cloud. Comunicacao apre- recompó-lo segundo urna legibilidade significativa.
sentada nas jornadas de informacao sobre Les tApplications de l'infor.matique
aux textes philosophiques, C.N.R.S., 16-17 de nov. de 1970. - o recurso ao intuicionismo, a cita~ao ilustrativa, a categoría temá-
28. Idem, p. 16. tica sao, por isso, condenados. Pesquisar o sentido de urna palavra
29. "A comparacao desse gráfico ("povo" em Robespierre) com o da mesma significa analisá-la em todos os empregos ou contextos: "O sentido
forma em outro texto, formado por 23 números do jornal Le Pere Duchesne de urna forma lingüística define-se pela totalidade de seus empregos,
de Hébert, acarreta algumas reservas:· a situa~o de comunicacao é total-
mente diferente (jornal versus discurso numa tribuna), o período também pela sua distribui~;ao e pelos tipos de liga~ao resultantes." 2
(julho-setembro de 1793, no caso do jornal, e.maio de 1794, no caso do rela- -·· O léxico nao é considerado uma justaposi~ao de termos sem rela~ao .
tório, pronunciado após a liquida~o dos Enraivecidos e dos Indulgentes)." entre si: "O léxico nao é um simples aglomerado de uma quantidade
(Idem, p. 16.) .
30 .. Gráficos de co-ocorrencias extraídas da tese de mestrado de J. GtJILHAUMOU,
de palavras isoladas, mas um sistema onde todas as unidades se coor-
L'Idéologie du Pere Duchesne, Nanterre, 1971, pp. 39 e 45. denam entre si ou se opóem entre si." 3 A pesquisa do conjunto das
31. "Quelques groupes politiques en mai 1968 ... ", p. 79. rela~óes da palavra escolhida • apóia-se grandemente·· na tese. de J.
Ji. G. PaovosT-CHAUVEAU, "Problemes théoriques et méthodologiques en ana- Dubois. 11 J. Dubois toma como objeto de estudo um campo lexical, o
lyse du discours", Langue franr;aise, n.o 9, p. 10. léxico das estruturas sociais e economicas na Fran~a de 1869 a 1872.
152· 153
Ele demonstra que esse campo lexical se estrutura segundo redes de rela~oes

---
Sequndo tipo de
rela~óes.
As associafóes

Primeiro tipo de rela~óes As associa¡;óes sao rela~óes sintagmáticas, contextuais. No campo


lexical considerado, "trabalhador" associa-se a "pobres", a "trab_alho".
"Revolu~ao" é associada a "progresso", a "socialismo".
As oposü;óes: de naturezas diversas:
oposifóes formais, marcadas pelos prefixos
anti · Terceiro tipo de rela~oes
in
nao As identidades
pares antonímicos Identidades, que devem ser diferenciadas dos sinónimos dos dicio-
Revolu~ao /Rea~ao nários, sao "substitutos semanticos" .. Sao palavras ou sintagmas que
Liberdade/Rea~ao podem, em contextos precisos, ser intercambiáveis.

J. Dubois lembra a observa~ao de HenH Wallon, que precisa a Assim os sintagmas advento das m,ªssas
importancia da antonímia: "É preciso supor que, mesmo quando reali- advento dos proletários
zado auditivamente e individualizada, urna palavra, como qualquer ter- advento dos trabalhadores
mo, nao p<>4e ficar isolada, mas tem sempre tendencia a se especificar
sao equivalentes, nesse campo lexical. O mesmo se dá com os sintagmas
através da ajuda de um termo complementar que forma par com ela." 6
"emancipa¡;ao das massas, do proletariado, da classe operária dos traba-
pares morfologicamente motivados lhadores". 7
Ordem/Désordem Os trabalhos realizados no Centro de Lexicología Política de Saint-
- constelafóes em torno de uma mesma palavra -Cloud baseiam-se nessa abordagem. Procuram ordenar os textos em
redes de rela¡;óes, cuja terminología é, grosso modo, a seguinte:
Revolu~ao /Reformas
Revolu~ao/ Aristocrata -A rede de liga\óeS temáticas ou nocionais que "na língua-padrao só
Revolu~ao / Ordem podem ter liga~óes muito frouxas com a palavra, mas que, na obra
ou entao considerada, surgem regularmente em seu círculo quase imediato". 8
Povo/Burgues Essas liga¡;óes sao subdivididas em dois conjuntos: as associafÓes ou
Povo/Nobres liga~óes positivas; as oposifóes ou liga~óes negativas.
Pavo/Capitalistas - A rede das qualificafóes define urna fun~ao semantica q~e agrupa
oposifóes paralelas tanto os atributos do sintagma nominal, adjetivos, complementos no-
minais, quanto os atributos do sintagma verbal, tuda aquilo que indica
Classes ricas/Classes pobres o ser ou a maneira de ser de um sujeito ou agente. 9
oposi¡;óes, afina!, ande os contextos introduzem um uso antonímico por - As outras fun¡;óes semanticas ligam-se a rede verbal da a¡;ao, ao
rela¡;óes lógico-grama ticais. fazer do sujeito ou agente. Essa mesma rede é subdividida em dois
"Repudiar tanto a rea¡;ao como as teorias revolucionárías.'' - conjuntos: "a fun¡;íio de" ou a¡;ao efetuada pelo sujeito, e "a fun\ao
sobre" ou a¡;íio exercida sobre o sujeito por outras for~as, por um
Nesta frase, "rea~ao" e "teorias revolucionárias" sao antonímicas terceiro. Neste caso, o sujeito sofre a a¡;ao mais do que age; é passivo
com rela¡;ao ao que, para o locutor, constituí o valor positivo. e conduzido. · ·

154 155
- Duas palavras que .tem as mesmas liga~es nocionais ou temáticas
( associa~oes e oposi~6es) constituem "equivalentes aproximados", subs-
tituíveis entre si no texto ou no corpus considerado. Essa n~ao de
r ~ ...
·¡;¡¡
"equivalencia aproximada" foi formulada por J. Belin-Milleron. 10 ~
ti) ..
·É
........
~
1
Depois de estudar a r~de nocional de "pátria" e de "lei" nos vo- o
cabulários das peti~s revolucionárias, ele concluí: "É interessante con- 1<(
c.>
..... .....
·~
!;·a;"'
~e
~
tl
>
frontarmos as duas séries: "pátria" e "lei". Com efeito, encontramos
na série "lei" quase todas as determina~s que figuravam na série
< .g
,..!!!1
.a ~·~ .e..
"pátria". Assim,_ na classe das principais idéias gerais, vemos que fi-
guram, nos dois quadros, as idéias de Bem geral, Unidade ou Uniao,
Assembléia Nacional, Povo, Constitui~io, Liberdade, Igualdade, Na~io, o
Soberanía ou Vontade geral, Felicidade, Virtude, Sacrificio, Interpre-
ta~io através do sagrado, quando sao consideradas liga~oes complemen"
1.2. 1

tares relativas a "pátria em perigo" ( ... ) . O método concreto-com-


plexo mostrou, portante, como o pensamento coletivo consegue alcan~ar,
de liga~io em liga~ao, a identifica~io de duas n~6es principais ou
especiais, entre as quais a lógica tradicional nao pode estabelecer qual-
quer liga~ao. A pátria nao implica, a priori, a n~io técnica de leí; e a V

n~ao técnica de lei nao implica, a priori, a idéia geral de pátria. Por
conseguinte, para que os dois termos fossem emparelhados, como aca-
bamos de ver nos textos, foi preciso que um processo de pensamento
nao ligado a lógica canonica fosse empregado pelas mensagens, cujos
~ o"' ..
rimeiros contornos estamos vendo agora." 10
o ..
~V
"";
"tl ...
·-o
Assim, pelas liga~es temáticas ou nocionais, pelas fun~6es de qua- V S

lific~io e de a~ao, a palavra está ligada as outras ao longo da cadeia o"' ..


falada, no plano sintagmático, e ligada as outras pelos equivalentes ou
substitutos, no plano paradigmático. Estabelece-se, entao, o que se
pode chamar um campo semantico.
Chegaremos a um quadro deste tipo:

Referencias Quali- As so- Opo- A~ao A~ao


1Equivalencias
linhas, página fica~~o cia~ao
1
si~ao de 1 sobre

1
A explora~ao do quadro cría problemas delicados. Um rápido
exame. de alguns resultados nos permitirá tornar perceptíveis a fecun-
didade e os limites deste método.

·156

----- --- --~ - - - - - ---


6.2. · "O Rei" em Saint-Just

L. KOHLER, Étude quantitative et sémantique de quelques aspects


...
-~ .-.. 2!
·¡:¡
du vocabulaire de Saint-Just. 22 octobre 1792-27 juillet 1794, E. N.S.
Fontenay, D.E.S., 1969, inédito. ·
...... 1 ...
....... u ... o.
... "§o ...rJ ... - A rede mais explícita é, de imediato, a das oposifóes. Pode dividir-
"'
..!!11
- "'O'-'
e::"' .!!!lE
... "'
..s..O
o
~"'
-se em animados e inanimados.
.a o.~ o
u ..... ·::S- U '"'e:: "' Os cidadaos
As bocas que o acusam
o o o Os membros da cidade
"'O ""O "'O Um povo generoso e republicano
"' "'
.!f..!l "'
.2...2.. ~ Os animados sao
Brutus
...u ...u ...u Vós
"'"' Eu
...u ...u ..."'u ...u Todos os cidadaos
](; (;
O. "'O "'O ·¡;:> O comite
O povo
"'o Vossos defensores
~J
... Todos esses animados constituem, a títulos diversos, /orfas adjuvantes
N
Q
u-
"'o
'"' ...e::"'
::S
u
...uo da Revolu~ao, for~as positivas. Encontramos:
~ g.
ao ......
Vl
op..
o
"'O
·o
...
...uu
......"'
.~ ~
o
tútt
o
e::
"'tg "'O...
.B"'u - Brutus, na qualidade de referencia hi~~órica romana, metafórica, que
nao está tao ligada ao gesto de assassinar César quanto ao de libertar,
~;1
8 ~ ~
salvaguardar as liberdades romanas.
e::-~ ~... 8. ;s5l
. o~ ~j
18
l
0 ... .2..
,¡s "8 E
>w,:Q
"' 1 o o > - O conjunto do corpo político Cidadaos
... Membros da Cidade
"'o "'
"O ... O povo
o
>< u .-..u
:~
... o ·ao - Os eleitos pelo povo Vós
"'O ..-..·o ...u ,!!
~
......
C)
"'O ~"' .......I·E
o. l·!::
._."O "O
Vossos defensores. O comite
g ;g"' :E u 8
"'O u ::::o
... "'
u o As bocas que .o acusam
:E ]"' ~"' >""O "'o
"'"' .§... 'B. - O locutor
Vl
Vl
... "' > ....e::"'"' ·o U)
·fl·B u ..."'::S Eu ( num jogo de identifica¡;ao
< o ::se ·- "'e:: .......e:: o~
.....u ·v
..."' ·¡;: .S ..... S
"' ... ·¡:¡- "'::S u... com a Assembléia)
S':s ~ "'
o. ~
'U
u .S '"'> ......... ..S ..SO.
u u
...
"' 8 ~~ Eu/Vós
Os inanimados agrupam, por um lado
1
.......
- Todos os grandes princípios morais revolucionários
...o .~
A moral
·¡:¡ ~
"'O A natureza
0.0
e::
"' .......1 ·o"'
"'O
A justi~a eterna
!::: o "'0 ~ >
'U
A justi~a natural
"'
]'"'
u «>o.o '«1
o .....
u '"'
~ a<g ...
e::·-
o
e por outro lado
"'rJ "'O s ....
·o .... e::
c.o~- .5 8..5
159
- Um conjunto ético-institucional fortemente valorizado
A República
A pátria
A vontade geral
ANIMADOS Os prindpios das institui~óes sociais
Os prindpios da soberanía .
O soberano
Portanto, o rei se opóe ao conjunto dos franceses
ao conjunto da Assembléia
aos grandes princípios de justi~a e de
natureza
a um conjunto ético-institucional cujo
centro é a "Vontade Geral"
A rede das opos1~oes situa nítidamente o reí como o centro de urna
ampla constelafáo negativa, que se opóe a Revolu~áo, como a sombra
aluz.
- A rede das qualificafóes é de interpreta~ao mais delicada. Encon-
tramos nela qualifica~óes contrastantes. Assim, "simples cidadao",
"cidadáo" entram em contradi~ao com "esse estrangeiro", "esse ini-
migo". Estas unidades lexicais sao conformes a homogeneidade da
¡upos odio;, rede de oposi~óes ( rei, oposto ao conjunto dos franceses, o que remete
ao mesmo tempo a "estrangeiro" e "inimigo"). Este é o ponto em
que se coloca um grave problema quanto ao método. Operando ao
nível da palavra e nao ao nível do discurso, este método nao tem
instrumento para analisar os efeitos retóricos do discurso, os sinais de
repúdio ao raciocínio do adversário que ·se deseja combater. Liliane
Kohler escreve, a. respeito das qualifica~óes contraditórias de "invio-
lável" e "nao inviolável": "Esse emprego é exemplo' de um procedí-
. mento que Saint-}ust utiliza com muita freqüencia no discurso sobre~
o julgamento de Luís XVI. Ao nível das próprias palavras, o adjetivo 1
'inviolável' é .adequadamente aplicado a Luís, mas, no pensamento do (
orador, essa qualidade lhe é recusada por meio de um torneio hipo-
tético. 'Assim, a inviolabilidade de Luís nao foi além de seu crime · \
e da insurrei~ao, ou, se fosse julgádo inviolável, se fosse questionado, 1
resultaría, cidadaos, que ele nao poderia ser deposto, e que teria a ¡'

possibilidade de nos oprimir sob a responsabilidade do povo.' Donde 1


SOCIVWINVNI
se concluí que o reí nao poderia ser inviolável. Esse procedimento retó- \
rico da rejei~ao de urna rela~ao existente ao nível dos termos se dá
d; ,divers~s maneir~s, seja, como neste _caso, ~a~as a u~ torneio hipo-. j
tetlco, seJa por me10 de urna exclama~ao ou mterroga~ao.'' 12 · c..--

. 161
O mesmo procedimento vale para "cidadao" e "simples cidadao".
A explora~ao do quadro nao é imediata. Alguns termos que, pela rigi-
dez do método, se encontram nessa coluna devem, na realidade, ser
colocados em outra. Daí a extrema prudencia com a qual convém
·operar. . REDE DAS AssociAc;óES DE "O REx" EM SAINT-JusT

- A rede das assoCÍafóes apresenta-se como um vasto conjunto do qual ASSOCIA<;OES


podem ser levantadas as seguintes categorias semanticas: ~
· As Ii~óes de "Mestre", "César" e a de "Atributos da ·pessoa ~
~
real" que, no plano do passado, engloba "inviolabilidade" e "impuni- ABSOLUTISMO
.g
dade ... as

A essas categorías, que tem conota~ao de passado acabado, opóem-se "'"'lt


o presente ou o passado próximo que ainda atua:
crip1es
tentativas
perniciosos desígnios
conjura~ao
1 as
.5
a categoría trai{áo abuso ~
guerra :! INIMIGO O ACUSADO DA
crimes de sua administra~ao .lt DA REVOLU<;.AO REVOLU<;AO
usurpa-;ao
5 TRAI<;AO

justo castigo
va inviolabilidade
julgamento
e a de acusafáo contrato
lei do direito das pessoas
lei civil outrora déspota, nao poderla de modo algum ser associ~do a "Justi~a"
e "a Natureza". Assim circunscrevem-se por constelafoes afettvas,. de
O rei com seus atributos passados (absolutismo,. inviolabilidade, deprecia-;óes e aprecia-;&$, as )inhas da ideología republicana de 1793.
impunidade); seu papel presente ( trai-;ao) passa a ser o acusado da
Revolufáo.
- A rede uafóes sobre o reí" denota a Revolu-;ao enquanto a~ao coer-
citiva com rela~ao ao rei. Opostamente, a rede "a~ao do rei", exceto 6. 3. A polissemia da palavra "povo" em Saint-Just
uma ocorrencia, é passiva. O rei nao é dono de nenhuma a~ao. Será
julgado ·e o aspecto polemico do discurso é bastante marcado pelas Annie GEFFROY: Vocabulaire politique: Saint-]u~t, discou~s et.
,..__modalidades poder e dever. ·
a
rapports la Convention ( 1792-179~) ', é~ude statistique et sémanttque,
Assim, o campo semantico de "rei", pelo conjunto de suas quali- .~ E.N.S. Fontenay; D.E.S. 1966, medito. .
fica~óes, associa-;óes, rede verbal, mostra o caráter político e mesmo Constatando que a rede mais rica é a das oposi~óes, A. Geffroy
dicotomico do pehsainento de_Saint-Just. Tudo o que diz respeito ao
propóe-se a analisar essas diferentes oposic;óes. 13
reí é depreciado, ao passo que tudo o que se opóe ao rei conota os
grandes principios republicanos políticos e morais. O reí, repelido do ·;¡ -. U ma primeira série de .ocorren~ias opóe '.'P?vo" a "Tirano". Esta

!'
corpo social global e dos representantes do povo; o rei, estrangeiro e oposi-;ao é feíta pelas segumtes umdades lextcats: ·

162 163
i
Tirano
Reí( s) Cla~oes que tendero a identifica~ao. Trata-se da identifica~ao da Con-
Inimigos do povo frances ven~ao com o povo, do povo coro o próprio governo e do povo corn
Estrangeiro a pátria. Portanto, existe ambigüidade na n~ao de povo. Ela pode
Povo oposto a Bárbaros designar:
Conspiradores A na~ao francesa
Aristocracia A na~io ero sua fra~ao republicana
Partidários dos realistas.· A na~ao ero seus elementos virtuosos
Partidários da tiranía
Os inimigos conforme os empregos, encontram-se ao nível do estran-
Os inimigos do povo sao animados, tendo como fun~ao essencial. geiro, da Contra-Revolu~ao interna e externa, e até no interior da
a ~ntra-R~~olu~ao .interna e externa. Neste caso, "Povo" tem um Converi~ao e do poder.
senttdo políttco p~ectso. Trata-se de um conjunto de cidadaos que nio Outra série de usos dá a "Povo" um sentido diferente.
traíram a República. Desnecessário dizer que, inversamente o reí os
nobres, os realistas,, os inimigos da Revolu~ao nao fazem ~ais p~rte
do p~vo. _O povo .e urna no~ao positiva qtie está ligada ao conjunto Equivalencias Qualifica~aes Oposi~
dos qdadaos consctentes e revolucionários.
- Outra .série de usos é mais complexa. O povo nao se opi5e mais os infeljzes indigente homens opulentos
a estrangetro, a Contra-Revolu~ao, mas a poder. dependente os que tinham capital
que trabalha opulencia·
Magistrados os inimigos do máximo
Administra~ao pública os rit:os
Governo
Pessoas no poder
Povo oposto a Poderes intermediários Nessa ace~ao, o povo corresponde a urna por~ao da na~ao definida
Funcionários socialmente corno constituída pelos mais pobres, e o termo poderia, ern
O Estado rnuitos ·casos, ser sinonimo de sans-culotte, no sentido social da palavra.
Os poderes
O exército Oposta a tiranos e oposta a ricos, termo político ou termo social,
Pessoal da guerra a unidade lexical povo é polissemica. Lembrarno-nos de Mirabeau,
replicando que prefería a palavra povo a todas as outras, devido a sua
"Povo", em suas ocorrencias, opóe-se a todos os que se infiltraram própria imprecisao, porque, dizia ele, essa palavra "presta-se para tudo".
nas esferas do poder1 J';Or oportunismo: especuladores, a~ambarcadores, Isso irnplicava ern atribuir a imprecisao, ou a polisseriüa, urna fun~ao
fo~necedores dos exerclt~s, reJ?resentantes em rnissao, muito zelosos, e ideológica e urna eficácia social específica. A ideología jacobina ( Saint-
CUJO excesso apenas, r~ca1 sobre ?s mais valerosos dirigentes, políticos ·Just principalmente) faz uso dessa polissemia que preenche várias
astutos que, por habtto, co:rardta e habilidade, encontram-se, apesar fun~óes.
de tu.do, na esfera do poder. O povo, n~ao política, assume valores Primeirarnente, urna fun~ao de mobiliza~ao nacional face ao ini-
morats.. Trata-se do povo bom e virtuoso. Annie Geffroy concluí migo. Neste caso, da conota, enquanto ideología burguesa, valores de
a respelto dess~ série de empregos: "Esta rede é particularmente im~ universalidade e de unanimidade nacional. Pace ao reí, e depois aos
portante em Samt-Just e. revela sua excepcional lU<:;idez face aos pro- reís, a aristocracia, aos realistas, aos moderados repelidos de todos os
blemas ~o poder. Ele fot urn dos que rnelhor. percebeu os perigos da lados do conjunto nacional, ela permite as identifica~óes do conjunto
b~rocra~t~, mesmo q?e fosse republicana." u Esses empregos, contudo, dos cidadaos republicanos e revolucionários que constituí o povo, coro
sao equilibrados, ate rnesmo contrabalan~ados por- urna série de asso- a Conven~ao, coro o governo do bem-estar público, corn a Revolu~io.
Esse sistema de inclusóes confere a "povo" o seu grande valor político-
164
165
-afetivo. Em seguida, urna fun~io de mobiliza~ao social, quando se sentido político que nao possuía antes - . A rede de opc)si~óes pode
trata de reunir em torno do governo revolucionário os sans-culottes, os ser sintetizada pela n~io de "inimigos", tao fundamental no vocabu-
pobres, essa.parte da na~io em luta que impóe o máximo, os impostas e lário de Hébert. Trata-se tanto dos inimigos externos ( prussianos,
a requisi~io. Essa polissemia revela, além do mais, um vocabulário austríacos) quanto dos inimigos internos e com f1_1n~óes diversas: o
social .mal estabelecido, mas o disfarce assim veiculado permite que rei ( 0 infame, Capeto, déspota ) , os nobrc:s e realistas ( expulsos da
Saint-Just fa~a uso dessas duas fun~es conforme a conjuntura e man- Vendéia, refugiados de Coblentz, nobres d1sfar~ados L o clero e seus
tenha ao nível da língua, pela passagem do sentido de povo ( na~ao) a emulos (beatos ) .
povo (pobres), a uniio das massas populares com o governo revolu-
O termo "sans-culottes" pode, ¡ortanto, servir para designar u?I
cionário. Assim, vemos que, se a polissemia é para os lingüistas um
grupo social como exigía Pétion: " preciso usar_um termo que seJa
dado fundamental da linguagem, para os historiadores certas polis-
inteligível; pois, quando se fala em sans-~ulottes, nao se entende todos
semias tem uma fun~io ideológica precisa que o método lexicológico
permite atualizar. os cidadaos, exceto os nobres e os anstocratas, mas entende-se os
homens que nao tem, para distinguí-los dos que ,t~m" 16 , ou, enqua?to
n~ao mais fluida, mais ambígua, um grupo político de contornos liD-
precisos. Na verdade, a polissemia do te,rmo nao é ca.s1_1al, ?las te~
urna fun~ao ideológica fundamental, que e a de transmltu a 1deolog1a
6. 4. A pollssemia de "scms-culottes" em '"Le Pere Duchesne" jacobina através de um léxico, formas de linguagem, processos retó-
de Hébert ricos populares e sans-culottes.
A rede verbal de "sans-culottes" destaca as fun~óes específicas dos
Jacques GurLHAMOU, L'Idéologie du "Pere Duchesne": 14 iuillet sans-culottes. ·
1793-6 septembre 1793, tese de mestrado, Nanterre, 1971. A rede "afáo dos sans-culottes" mostra que o ato dos sans-culottes
A nofáo de u sans-culottes", em Hébert, parece absolutamente simétrica (ato específico) é a RevolufáO. Os sans-culottes, segu~do ,o. Pere Du-
ao emprego de "povo" em Saint-Just. A polissemia é a mesma, mas chesne, sempre estiveram a frente do combate revoluc10n.ar10 .. Outro
nao atua no mesmo sentido. · atributo da sans-culotterie é a iusti{a, a reivindica~ao de tnbunals com-
postos exclusivamente por sans-culottes para julgar os traidores; mas
Numerosos empregos de '!sans-culottes'~ indicam estes últimos os sans-culottes desses tribunais serao, por acaso, os pobres ou os bons
·como pobres. As qualifica~es mais numerosas sao: pobre, esfarrapado, cidadios? Mais urna vez nos deparamos com a polissemia do termo
miserável, desgra~ado, faminto, que depende do seu trabalho para e suas implica~óes ideológicas.
subsistir, que trabalha. Todas as oposi~s ligam-se a categoría dos
A rede verbal "a{áo sobre os 'sans-culottes'" ·mostra-os numa
ricos: riquezas, grandes, a~ambarcadores, ricos fabricantes, ricos cobra-
rela~ao de passividade face ao Pere Duchesne. Este, em enunciados
dores de impostas ilegais, grandes fazendeiros, grandes comerciantes.
performativos "dá seus bons conse lh os .. , "d"lZ , , " prevme
. , , etc., mc1
. "ta
Este sentido social, duplicado pelos substitutos semánticos de sans-
culottes (operários, gente trabalhadora), assume, contudo, outro sen- a a~ao todo o povo sans-culotte. A rela~ao dessas duas .re?es é c~.m­
tido, o político. · plexa, pois o autor da tese de mestrado. chega a co~luu. q,ue os
· sans-culottes só desempenham um papel atlvo com. rela~ao a Pere Du-
Nesta outra série de empregos, os equivalentes de "sans-culottes" chesne na medida em que este se assemelha · ao agente". 11 Polissemia
sáo "bons cidadáos". Esses "bons cidadios" sao, prinieiramente, os de sans-culottes ambigüidade ao nível das redes verbais, jogo complexo
sans-culottes parisienses, sempre mobilizáveis, e mobilizados, armados. de enuncia~ao ~ntre o locutor e os sans-culottes, fenomenos que per-
Os "bons ddadaos" sao também os jacobinos qualificados de "fina flor mitem determinar uma forma~ao discursiva. .
da sans-culotterie"; ou ainda Pache, Hanriot e principalmente Marat,
"guia dos sans-culottes", e Jesus. · Assim, a no~ao de jacobinos está
incluída no termo sans-culottes, ou ei:n intersec~io com ele. Se os· jaco-
.· binos, ou pelo ·menos alguns deles, fazem parte da sáns-culotterie, esta
\¡ Esse rápido exame demonstra claramente como os historiadores,
ab.ahdonando o critério. implícito da tra_ns~arencia do. se~tid~. dos t.extos,
podem tirar partido desses métodos lige~ramente distnbutlvos e, por-
tanto nao-satisfatórios para os lingüistas, mas contrários a cita~ao ilus-
nao mais designa apenas os pobres - a unidade lexical, assume· um \ trati~a. a intui~ao e a sutileza do pesquisador, elevadas ao nível de
J • • •

166 167
·--- -. . ::· ·-- -- · ·ccc. e·· · . - -· - .
-~1.,.,
' .

QUADRO DAS REDES DE "SANS.CULOTTE"


A referencia c;:orresponde ao número do jornal, a página e a linha da palavra considerada
REF. QUALIFICACAO ASSOCIACAO OPOSICAO ACAO DE ACAO SOBRE EQUIVALENTE
260 bravos Pére Duche•ne expulsas da Vendéla dever de.conflar dar bona conaelhos
1-5 bons cldadios fem ParisJ
----
260 nAo ter llberdade verdadelros aml110s dever pensar
7-1 bons ddadlos
do J>OVO YÓI
Marat
Robesplerre
llberdade
----
262 traidores nada POder fazer Jlobre
2-4 sem ... estar rapado
ser servO face aos
aans-evloUea
----
263 JIO bres tipos Revolu~áo sofrer
6-19 mootrar a llnrua
fazer a Revo1U1;áo
querer ser mals feliz
-.--- ter a tristeza estam-
264 lmortel do Amigo refualados de J>lllrlotaa
2-3 pada no roslo do pavo Coblentz
faees de papieT
maché
&leerla
----
265 ter farrapos Pruulanos nii.o cobl~ar
2-16 Austriacos
----
268 amlaos do Pen Du- lojlstas dever afiar lan~as e parisienses
5-9 cherna sabrea
ter lan~aa e sabres
----
269 a fina flor da sans- liberdade o Infame Capeta
-
3"7 -culottene désPOta
jacobinos AnillO Reglme
---
270 bravos Pire Ducllesne dever apossar-se da
-
dar bona . conselhos
1-5 guarda-comida chave do auarda-
operárlos -comida
homens úteis
----
270 lmbecll eiPiáO faJar de certo modo operArlo
4-2 republicano nós lfuturo)
----
270 pobres lnlmlaos nao ver u m palmo nós
..
5-26 ' manobras adlante do nariz
-
!!!••· -- -------~------~---- ---------~---~------ ........

zn
----
2-3 .J>Obreo tiJ>os velhos exauatos
bravos operArio•
oUJ>Qrtar aem se
quelxar
273 felicidad e riquezas nao lnvejar &1
2-1 trabalho deuses da terra riquezu
virtud e ninharial IÓ eonheeer, só de-
páo annde oejar felicidad e no
pequenos trabalho e na virtude
precisar ter · pao
----
273 Revolu~li.o re~iltlr cldadioa
3-2 llberdade fuer a Revolu~lio
lgualdade
----
273 traldoreo dever marchar praJ>Or republicanos
5-12 eoDSPiradores contra nóa
atambarcadores
----
273 um ll'UJIO de 10000 República a~mbarcadores dever ser :paao patriota&
8-2 aam-culottea
----
277 o bom sam-cv.lotte Evanaelho fazer um llvro melhor jacobino
11-t ser modelo de per- llvro divino divino ase bravo Jeaua
fel~io
----
278 mlaer6veb mlsérla perdio faltar com o dever, VÓI
4-UI os aenhoJ"es fome por um momento PObres
estar em farrapos cometer alaum crlme
ter a mloérla como (condicional)
qulnhio nlio ter i>erdio
----27t bravo.s lndúa\rla riquezas nio lamentar u ri- vóa
2-2 ter riquezas pelo peda~o de pio rleoa fabricante. quezu cldacláos laboriosos
fruto de seú auor e trabalho paléelos nio retirar
d8 aeu sangue, :pro-
dula de aeu. trabalho
depender · de suaa
mios para subsiltlr
----
278 c:analha deaarat;ada oprimir patriota&
3-24
----
278 infeliz es rico cobrador de im- de.frutar dos mes-
6-17 J>Ootos Uegais moa dlreitoo
----
292 J>Obre. patlfe. nAo ver u m palmo nós, aente do
3-5 beatoo adiante · do nariz trabalho
nobres dlsfar~ados l&norar
----
292 gratifica~io "muscadins"' • fazer asslstir as suas operArios
7-5 assernbléla de set;io se~6es. perseautr 01
''muscadlns''

( 0 ) "Musc:adin", n9me dado, em 1793, aos realistas elepntes (N. T.).

',;
-r
.!
• um princípio, e que, mesmo podendo parecer ultrapassados e ingenuos

• face as recentes pesquisas de análise do discurso, permitem, pelo menos


urna primeira abordagern de um corpus, e autorizam a constru¡;ao d~
• dicionário específico de tal ou qua! orador revolucionário, ou de .tal
ou qual grupo socio-político. 18 .. .


• 6. 5. Os limites desses métodos
Notas do capítulo 6

• Método ligeiramente distributivo, a lexicología opera essencial-
l. Ver a esse respeito o capítulo anterior.
• mente ao nível do vocabulário e nao do discurso. Por isso, quando se
considera abordagem de urna forma¡;ao ideológica,· fantasía um pouco 2. E. BENVENISTE, "Les problemes sémantiques de la reconsttiition" in Pro-
• o seu objeto. Certo número de mecanispJ.os escapam a sua análise, 3.
blemes de linguistique générale, N. R. F., 1966.
J. DuBors, Le Vocabulaire politique et social en France, de 1869 a 1872,
1 mecanismos que constituem vestigios da ideología, efeitos da ideología París, 1962, p. 188.
1 sobre o discurso. Primeiramente, o aparelho retórico: estratégia de 4. Todo o problema éstá ero escolher as palavras importantes ero fun~íio das
argumenta¡;ao, referencias, enunciados relatados, cita¡;óes históricas, questóes que se fazem ao texto, ·e nao ero encontrar no fim da pesquisa exata-
1 empréstimos da mitología greco-latina; o jogo complexo do aparelho mente o que se colocou no início. O problema da escolha das unidades
a serem tratadas é dos mais complexos.

'
enunciativo:· prono.mes -pessoais ( freqüentes passagens do "vós" ao
"nós", etc.), sistema dos tempos, formas interrogativas, interrogativo- 5. J. DuBors, op. cit.
~ negativas, que implicam em dúvida, enfase; formas passivas que per- 6. J. DuBors, op. cit.
Encontraremos urna análise dessas rela~ ero J. PiriARD e E. GE.NUVRmR,
~ mitem o desaparecimento do agente e podem, portanto, produzir ambi- 7.
Linguistique et enseignement du franfais, Paris, Larousse, 1970, p. 213, in
güidades semanticas; frases do tipo "máxima", cujos pressupostos pos- Linguistique, n.• 1, 1965, onde G. MoUNIN, p. 131 e seguintes, resume a
tulam a evidencia do sujeito universal, etc.; formas de rejei¡;ao que tese de]. DUBOIS, e in G. MouNIN, Clefs pour la sémantique, París, Seghers,
mostram que o discurso dos inimigos nao é assumido. Vemos que, no 1972, pp. 65-77.
limite, fenomenos es§enciais poderiam escapar ao método. Além do 8. M. MITTERAND e J. PETIT, "lndex et concordances dans l'étude des textes
mais, as condi¡;óes• de produ¡;ao podem variar de um discurso para littéraires", Cahiers de lexicologie, n.• 3, 1962.
outro quando se trata de Robespierre e de Saint-Just, o que traz a 9. Categoría mais .semantica que gramatical, como se ve.
baila o delicado problema da escolha do corpus. 10. J. BELIN-MILLE.RON, La Réforme de la connaissance, t. 3: Réalités sociales
et logiques, París, Arrault e Cia., 1943, PP• 27-28.
Tal crítica, como podem perceber, nao tem o objetivo c;le depreciar 11. L. KoHLE.R, Etude quantitative et sémantique de quelques aspects du voca-
esses métodos, pois afirmamos, ao contrário, que, numa primeira abor- bulaire de.Saint-]ust, 22 octobre 1792-27 iuillet 1794, D.E.S. Fontenay-
dagem, sua fecundidade parecía certa para o historiador. Trata-se ape- -atiX-Roses, inédito, pp. 57-58:
nas de estabelecer os· seus limites, precisar os perigos, a fim de que 12. L. KoHLER, ídem, pp. 81~82.
os eventuais usuários, conscientes desses problemas, tentem enfrentá-los. 13. Ver também A. GEFFROY, "Le peuple selon Saint-Just", in A.H.R.F.,
janeiro-mar~o de 1968, pp. 138 e s.
14. A. GE.FFROY, •artigo citado, p. 139.
15. J. GUILHAUMOU, Idéologie du "Pere Duchesne", 14 iuillet 1793-6 septembre ·
1793, tese de mestrad~, Nanterre, inédito, 1971, pp. 133-136. · .
16. Otlidó por J. Gurí.H.AUMOU, D.E.S. ·
17. J. GUILHAUMOU, D.E.S., p. 46. . . . . .. . .· .
18. . Um pouco aproximados dos métodos lexicológicos, mas, para nós, mais fracos, .
menos livres da temática, os métodos .de · semantica. histórica, como ~ .· ·
encontrare ero uro recente estudo de Anc;lré GoniN, Spiritualité franciscaine ·
i en Flandre au XVI• siecle, I}homéliaire de ]ean Vitrier, Genebra, Droz, 1971.
"
:;'íj'

170 171
Allás, o subtítulo da obra é T exte, étude thématique et sémantique. A pes-
quisa é certamente a das múltiplas associa~s de um termo, mas sem que
o método esteja explícito: "O genero literário da obra exigía por certo uma
análise de conteúdo centrada sobre certo número de temas doutrinários
que englobam o conjunto do mistério cristio. Mas da perspectiva de uma
das mentalidades e da psicología coletiva, essa metodologÍa experimentada
é inadequada. Assim, atribuímos uma posi~io privilegiada a leitura semin-
tica, cujo visor foi estabelecido praticamente a partir dela própria. Por uma
espécie de calma reflexio, análoga ao exerdcio monástico da lectio divina
e mesmo a "aten~io instável" do analista, tratava-se de fazer surgir, e depois CAPÍTULO 7
exaustivQlente localizar, palavras, a tal ponto arraigadas na alma do pre-
gador que reaparecessem regularmente, isoladas ou em cachos, mas sempre
ricas em coerencia. Esses quarenta vocábulos "significantes" servem para O MÉTODO DE ANALISE DOS ENUNCIADOS
explorar a paisagem mental de um cenáculo místico, impregnado de evan-
gelismo humanista e de profetismo espiritual". O autor estuda certo nú-
mero de campos seminticos: "O enraizamento cósmico", centrado em tomo
dos vocábulos polissemicos "terra e mundo", "ar e céu", "água", "fogo ·e
luz", o sentido do carpo e da alma em torno das palavras que indicam o
. olfato-o tato-a audi~o-a visio-o cora~o do homem, ·em torno da palavra O método de análise dos. enunciados perrÍúte ultrapassar as incer-
cora~io que aparece uma centena de vezes no manuscrito. Esses métodos, tezas, as ambigüidades dos métodos lexicológicos, em particular da-
ao mesmo tempo quantitativos (baseados no número de ocorrencias) e se- queles que se fundamentam num isomorfismo simples entre compOrta-
minticos, constituem fundamentalmente uma espécie de temática valorizada, mento político e comportamento lingüístico. Certamente, compreender
na medida em que as redes seminticas constatadas nao sao elaboradas, na
medida em que a metodologia permanece secreta. Contudo, este trabalho ao mesmo tempo seu alcance e seus limites necessitaria antes de· tudo
pareceu-nos apaixonante a leitura e de certo modo semelhante as abordagens que se recolocasse Harris na hist6ria da lingüística, precisamente na
lexicológicas. Por isso lhe dedicamos esta nota. do distribucionalismo americano. Seria necessário que o leitor pudesse
a todo momento estabelecer a diferen91 entre o estatuto da transfor-
ma~ao em Harris e em Chomsky. Tudo isso solicita urna forma9ao ao
mesmo tempo lingüístico-técnica e lingüístico-teórica que o leitor-histo-
riador nao está apto a dominar. Se, tnalgrado este obstáculo, fizemos
questio de apresentar, embora sucintamente, o--método de :análise dos
enunciados, é que ele nos parece fecundo, numa primeira abordagem, e
suscetível de interessar ao historiador, com certas reservas e em certos
limites que deverao ser precisados no momento oportuno. TeNe-á
compreendido que nao pretendemos fornecer receitas que, ma~ utili-
zadas, nao poderiam prestar os servi~os que se exigirla delas, nías sim
Informar o leitor-historiador sobre novos métodos e fornecer-lhe, através
deles, o quadro metodQlógico e bibliográfico que, dominado, permitiría
tipos .de abordagem em ruptura com os métodos intuicionistas ou temá-
ticos que manipulam, a diversos títulos, a economía da estrutura lin-
güística dos textos e de sua estrutura discursiva. ·

7. l. Generalidades

O ponto de partida de Harris no quadro do distrib~cionalismo


amencano fot a frase. Tratava-se de estudar, sem recorrer ao sentido,

172 173
..tr
. r. ~ementos
•• todas as possibilidades combinat6rias dos elementos, no interior dos
. enunciados. Posteriormente, este método foi estendido a um nivel
Um ponto essencial que deve ser observado é que os
/ constitutivos ~e ~ma d~sse ~e equiv~ler_t~a n~o constit~e~ _a, priori

• superior da frase, ao discurso seguido. Este último encontra-se, deste conjuntos semanucos. Nao eXIste a przort tdentldade de stgruftcado no


4
modo, recortado em elementos agrupados em classes de equivalencia.
Trata-se, repetimos, de classificar os elementos de mOdo a revelar os
esquemas recorrentes de morfemas que representem uma mesma estru-
tura sintática. Dois element
encontram
- · · · ·
U n. t.erior da.s classes .de equivalencia; s6 o. esquema de frase e, neste
esquema, o contexto é determinante. O problema será justamente de-
terminar num texto a rela~ao das correla~es sintáticas e semanticas
ou as possíveis distor~óes.
As classes de equivalencia sao, pois, paradigmas dos elementos
que aparecem num mesmo contexto no interior de uma mesma estru-
~ Tomemos o seguinte exemplo, proveniente de um discurso se- tura de frase. A estrutura de um texto, no entanto, raramente é
•• guido:
o
o
vento sopra, e faz as folhas caírem
vento sopra, é o fim do outono
recorrente, ao ponto de permitir classificar, de início, as unidades em
classes de equivalencia. Daí uina n~ao central em Harris, a de tran:s-
forma~ao, simples proces'so operacional, complementar, .da análise dis-
~ ~ a chuva oblíqua e fria faz as folf!gs caírem tribucional: Para mostrar que ·a transforma~ao é uma regra de· equi-
~ o céu está cinza e baixo, é o fim do outono. valencia entre duas frases, tomemos de empréstimo a N. Ruwet 1 o
seguinte exemplo. Nas frases:

l As seqüé'ncias ''e faz as folhas caírem" e "é o fim do outono" encon-


tram-se num contexto identico a "o vento sopra". Sao equivalentes,
isto é, pertencem ¡ mesma classe-de eqmvalencia:-'As outras seqüencias,
"a chuva oblíqua e fria" e "o céu está cinza e baixo" nao se encontram
1 ) a direfáo dispensou duzentos mineiros
2) os sindicatos protestam contra a dispensa dos operários,
nao posso afirmar de imediato que dispensou 200 mineiros e a dispensa
num contexto identico, mas num ·contexto equivaleffie, urna vez gue _ "dos operários pertencem a uma mesma classe de e utvaléncta. 2 neces-.
~ "é o·fim do outono'' ertencem áuma mesma r mterme o e trans arma óes. m primeiro lugar,
uma trans orma~ao passiva: duzentos mineiros foram dispensados pela
·direfÓo;· depois urna .nommaliza~ao desta frase passiva: a dispensa de
duzentos 'mineiros pela dtrefaO. Obtenho assim:
a dispensa de duzentos mineiros pela direfáo
os sindicatos protestam contra
o vento sopra (e) Fl faz as folhas caírem a dispensa dos operários~ ·
El o vento sopra F2 é o fim do outono
: E2 a chuva oblíqua e fria Fl faz as folhas caírem \ Na realidade, se restituoa frase 2) o agente que dela foi eliminado,
j E3 o céu está cinza e baixo F2 é o fim do o~tono .-- obtenho duas classes de equivalencia:
EO os sindicatos protestam contra Fl a dispensa de duzentos mineiros
~-elemento de coordena~ao (e) nao entra nas classes de equivalencia. pela direfáo
Pode-se posteriormente construir um quadro com dupla entrada, em · El os sindicatos protestam contra F2 a dispensa dos operários pela
que a ordem horizontal representa as rela~óes entre classes de equiva- direfáo,
lencia ·e a ordem vertical os elementos no interior de uma mesma
classe de equivalencia, segundo a ordem do texto. Assim, quanto ao a transforma~ao, percebe-se, é assim uma rela~ao de certo tipo entre
nosso exemplo, este quadro se apresentará da seguinte maneira: duas frases.· O que é central, aqui, é a n~ao de co-ocorré'ncia. Dizer.
que A e B sao ·co-ocorrentes numa fiase · P vale dizer ·. que A e B
El (e) Fl sé encontram em P. A transforma~ao · é pois uma rela~ao de equiva~
El F2 Iencia .entre duas estiuturas que t~m as mesmas co-ocorrenctas mdi-
E2 Fl ·vmuals ( mesmas un1dades léxicas) e nao as mesmas co-ocorrencias de
E3 F2 c1asse. Asstm, em -

174 175
1) a direfáo dispensa os operários co].lfSe analysis reprints" e "Structures mathématiques du langage".
2) OS operários foram dispensados pela direfáO Distinguiremos com Harris as transformafoes, das quase-transformOfoes.
há as mesmas co-ocorrencias individuai~, enquanto que em
1) os operários foram dispensados pela direfáo A transforma~áo passiva
2) a flor foi colhida pela- crianfa SNl +V+ SN2 ~ SN2 + ser + V + PP + por + SNl.
há co-ocorrencia de classe ( estrutura passiva), mas nao co-ocorrencia Exemplo:
ind1vtduai; nao há transforma~ao. Numa transforma~ao, as rela~es a direfáo dispensa duzentos mineiros ~
entre elementos sao identicos, só muda a forma gramatical. Daí, re-
SNl V SN2
sulta que, para Harris, as transforma~óes sao rela~óes simétricas, ·rever-
síveis, o que autoriza o pesquisador a operar esta "manipula~ao trans- duzentos mineiros sáo dispensados pela direfáo
formacional" em qualquer sentido. O corolário de tais defini~óes é SN2 ser V PP por SNl ·
que a ttansforma~ao nao poderla modificar o significado. Pelo menos
Harris leva em conta a transforma~ao enfática, as transforma~óes
é o que afirmava Harris em seu artigo fundamental, "Discourse Ana-
negativa, interrogativa, imperativa, as transforma~óes de modaliza~ao,
lysis". 2 Num artigo mais recente, "Co-occurrence and Transforma-
agrupando-as com a transforma~ao passiva, como rela~ao entre urna
don", 3 ele insistía nas diferen~as estilísticas acarretadas pelas trans-
forma de frase e urna outra forma de frase, em proposi~óes indepen-
forma~óes. Indicava, além disso, que havia modifica~ao do sentido
pelo acréscimo de morfemas de nega~io, de interroga~ao. Em Struc-] den tes nao-encaixadas.
tures Mathé'!'_atiques, ~ ~a;ris distingue dois tipos de transforma~óes:
[ as que mod1f1cam o sigruftcado, as transforma~óes nao-parafrásticas e A transforma~áo relativa
as transforma~óes parafrásticas que nao modificam o significado. _
Recortando um texto em classes de equivalencia, récorrendo piua do tipo:
tanto a manipula~ao transformacional segundo regras formalizadas, SNl + QU + Vl + V2 ~ SNl Vl . SNl V2
pode-se "normalizar" um texto complexo e tornar os procedimentos Exemplo:
d.e compara~ao rigorósos. O. Ducrot e T. Todorov escrevem a propó-
sito deste método: "Assim, a Lingüística torna-s.e utilizável para a Os senhores que maltratam seus /oreiros seráo condenados ~
análise do conteúdo. Esta visa, com efeito, definir processos meca- SNl QU Vl V2
nices ou mecanizáveis que permitam descobrir a organiza~ao de textos os senhores maltratam seus foreiros
relativamente extensos, o que exige que se saiba reconhecer as diversas SNl Vl
ocorrencias de uma mesma idéia sob diferentes formas. Permitindo
ao ling~iista ultrapassar a aparencia literal do texto, á no~ao de trans- os senhores seráo condenados
forma~ao torna-o menos desarmado diante desta tarefa." 5 SNl V2
Pode-se vincular a este tipo as transforma~óes que estao a raíz
1 da oposi~ao e do epíteto: estas supóem uma relativiza~ao, depois urna_
7. 2. .AJ.c¡wu exemplos de transforma~oes elisao do relativo e da cópula. ·
j'1 SNl Adj V~ SNl é Adj.
· Nao se trata, de maneira nenhuma -. o quadro. da col~ao desta SNl V
obra nao o permitiría - de fornecer uma lista exaustivá, mas ·de pro-
por algumas transforma~óes formuladas por Harris, fundamentais ,em Exemplo:
fr~nces. Para .tanto, apoiamo~nos. em "Discourse ·analysis'', artigo de Os senhores ávidos oprimem seus camponeses
referencia, mas também em "Co-occurrence and Transformation" "Dis- SNl adj. V
'
176 177
.,
os senhores sáo ávidos
SNl ser adj.
os-senhores oprimem seus camponeses
SNl V
r
1
Exemplo:
Ele veio porque a chuva havia cessado
Ele veio
(porque) a ehu va havia cessado.
~

Transforma~éi:o de coordena~éi:o Seria necessário acrescentar, além disso, as transforma~óes de pro-


posi~óes comparativas, em que o conector toma a forma de mais que,
Se Co) , co~o ~í~bolo, remete ao conector de coordena~ao (e, mas, ou, tanto quanto, tal como, etc. Harris, em seus últimos artigos, distingue
etc. , o prmctplo da transforma~ao é o seguinte: as transforma~óes acima (relativa, coordena~ao, subordina~ao, compa-
rativas) das precedentes, na medida em que as transforma~óes do tipo
X Co Y ~ X. Y. com uma equivalencia entre X e Y da relativa referem-se, nao a frases independentes, mas a seqüencias
Os Brissotins e a Corte desejavam a gu~rra entre as quais os conectores intervem.
SNl Co SN'l V · ..-+
os Brissotins desejavam a guerra As transforma~óes de nominaliza~éi:o
SNl V
Sao transforma~óes pelas quais uma frase inteira pode ser .trans-
a Corte desejava a guerra formada em sintagma nominal, em seguida encaixada numa outra frase,
SN'l V chamada frase matriz. A frase transformada em sintagma nominal
Exemplo: pode tomar o lugar do sintagma nominal sujeito ou do sintagma nominal
objeto. Esta transforma~ao reveste várias formas. Tomemos um exem-
Os principais constituintes queriam o voto censitário e plo simples:
SNl Vl O patráo quer a dispensa dos operários.
e lutavam para obte-lo Esta frase é oriunda de uma transforma~ao de nominallza.;ao a
V2 partir de duas frases: 1) o patráo quer algo
SNl Vl. Co V2 ~ SNl Vl sáo
SN'l V2 2) os operários dispensados
seráo
os.principais constituintes queriam o voto censitário
os principais constituintes lutavam para obte-lo. A frase 2) foi transformada em sintagma nominal, ou seja: a dispensa
dos operários e encontra-se encaixada, enquanto sintagma nominal
Seria. ne:essário acrescentar a estes tipos de transforma~óes as objeto, na frase matriz o patráo quer e o termo posti~o algo ( diz-se
de s~bordi~a~ao, ?e que ~arris nao fala em "Discourse analysis", mas ainda a pro forma) foi elidido e substituído pelo sintagma nominali-
que mtervem mUlto frequente111ente em frances. Elas concernem aos zado.
cabsos .. t;m 9ue .o conect~r que une duas frases é uma conju~ao d/ A completiva nao passa de um caso particular desta transforma~ao.
su. ordina~ao cucunsta~ctal (porque, depois que, se, quando, de ma-
neua que, antes que, etc. ) . ·
Transforma~éi:o completiva
Exemplo:
do tipo:
O parlamento fez uma advertencia quando náo teve mais esperam;a ~
o parlamento fez uma advertencia SNl Vl QUE SN'l V2 ~ SNl Vl . SN'l V2
(-quando) o parlamento náo teve mais esperanfa. eu digo que deves vir .~ eu digo (algo)
~ tu deves vir
178
1 179
l
4
A frase Penso que virás origina-se do mesmo processo. Decompóe- A transforma~áo adjetiva
-se em duas frases
Penso isto do tipo:
·tu virás SNl Prep SN3 ~ SNl Adj. 3
Virás está encaixado pelo que na frase matriz penso. Exemplo:
A transforma~ao infinitiva entra igualmente neste tipo de trans- A afao do proletariado ~ a afao proletária
forma~ao. · · · SNl prep. SNJ SNl Adj. 3
Para um estudo completo e detalhado das transforma~é5es nomi- A transforma~iio age sobre o SNJ transformado em adjetivo, com
naís, consultar os trabalhos de J. Dubois. e elisio da preposi~iio. É preciso no entanto notar que nao existe rela~iio
unívoca entre o adjetivo e o torneío preposicional. lsto pode acarretar
As quase-transforma~óes diversas formas de ambigüidade, pois um mesmo adjetivo pode cor-
responder a duas estruturas preposicionais diferentes, de e para, por
S~o transforma~é5es que criam problema, cujo manejo é delicado exemplo.
e prectsa de certas precau~óes. J. B. Marcellesi, estudando o adjetivo cegetista, 1 mostra que ele
Seja a transforma~iio do tipo pode ser colocado em rela~iio com de ou com para. A este propósito,
escreve: "As rela~óes entre o nome e o adjetivo, sobretudo o adjetivo
SNl é SN2 ~ SNl equivalente a SN2 o
político por excelencia, o adjetivo em "ista", sao ambíguas, já obser-
Esta equivalencia deve logicamente implicar a reversíbilidade absoluta vamos por várias vezes. Mas o próprio sentido do adjetivo deve ser
de S~l e de SN2. Devo poder dizer tanto que SNl é SN2 como que colocado em rela~iio com a polivalencia de "de". Assim, cegetista =
SN2 e S~l. A:contece que esta reversíbilidade está longe de ser válida ( da e. G. T. ) , (pela e. G. T. ) e aquí, também, o contexto deverá
de .manetra uruversal. guiar-nos. Quando se tem N + cegetista, poder-se-á colocar cei,etista
= da e.G. T., se (N e e.G. T.), cegetista = pela C.G. T., se
O seguinte exemplo: ( Neg. N e e. G. T. ) . Falar-se-á entiio de tendencia cegetista numa
o ob;etivo do pesquisador é o conhecimento organiza~iio que niio pertence a e.G. T. Ao menos no primeiro caso,
é reversível em rela~ao a a análise lingüística é totalmente inoperante, e o que é verdadeiro para
cegetista o é para todos os adjetivos em "ista", para todos os adje-
o conhecimento é o objetivo do pesquisador. tivos como nacional [ (de + a + na~iio), (por + a + na~iio) ] ,
revolucionário, etc." 7 É este tipo de ambigüidade que faz da trans-
. ~este caso, a t~ans!orma~ao acima citada leva a urna rela~iio de . forma~io adjetiva urna quase-transforma~iio.
tdenudade_ entre a /tn~lidade do pesquisador e o conhecimento. Em
contraparuda, na segutnte frase:
os direitos /eudais sao resquicios tiranicos A transforma~áo textual
é irnpossível dizer
Esta transforma~iio faz intervir o que, no entanto, está excluido
resquicios tiranicos sao os direitos feudais . . no esquema harrissiano: as rela~óes semanticas entre os diferentes ele-
mentos.
J: relasao. aquí nao é de identidade, mas de inclusiio. Os direitos
Exemplo:
feudats. estao. tneluídos em tudo o que constituí os restos tiranicos.
É_ p~ects~, pots, fazer as rela~óes lógicas intervirem para dar conta da Ana é maior que Luis
nao-tdenttdade dos dois sintagmas. Luís é menor que Ana

181
·É o caso de verbos chamados inversos lexicais As leis particulares nas sucessoes dos antigos bens feudais tornam-se
comprar - vender sem objeto.
ganhar - perder As leis particulares nas sucessoes dos antigos bens feudais tornam-se
dar - receher sem aplicafáo.
5 ) Aparecimento do sintagma náo há e transformat;ao de coordenat;ao
7. 3. Exemplo de redu~áo de frases complexas náo há mais direito de morgadio para os feudos .
náo há mais direito de masculinidade para os feudos.
Para ilustrar de maneira concreta a utiliza~ao das principais trans- O conjunto de proposit;óes originárias da 1.a frase realizada é o seguinte
forma~6es enunciadas no sumário acima, retomaremos o anexo de nosso náo há mais feudo
artigo "Feudo e senhorio no direito e na ideología jurídica do fim do leis particulares nas sucessoes regiam os antigos bens feudais
século XVIII", 8 a propósito de algumas frases do discurso de Merlin leis particulares nas sucessoes dos antigos bens feudais tornam-se
de Douai, de 8 de fevereiro de 1790. A este respeito, impóe-se urna sem objeto
observat;ao. A manipula~ao transformacional foi elaborada pela língua leis particulares nas sucessoes de antigos bens feudais tornam-se
contemporanea. Nao se poderia aplicá-la sem precau~Oes a textos que sem aplicafáo
provem d!! outras sincronias. Ela nao poderia, por exemplo.. ser meca- náo há mais direito de morgadio para os feudos
nicamente aplicada a língua do século XVII. Quanto ao que concerne náo há mais direito de masculinidade para os feudos
ao fim do século XVIII, dá resultados apreciáveis, com a condi~ao de
se levar em conta certos torneios sintáticos, certos latinismos, etc.
2.a frase de Merlin de Douai
l.a frase de Merlin de Douai Náo há mair feudos, devemos acrescentar: náo há mais rendas do feudo,
e portanto a superioridade feudal e censual desapareceu; assim, o di-
Náo existe mais feudo, entáo as leis particulares, que nas sucessoes reito de reivindicafáo feudal e censual que náo passavam de atributos
regiam os antigos bens feuáais, tornam-se sem objeto e sem aplicafáo,· desta superioridade - como estabeleceremos em seguida, por detalhes
portanto náo há mais direito de morgadio, nem de masculinidade para
os feudos. particulares - náo podem mais_ existir.
1 ) Náo há mais feudos.
Esta frase complexa. vai ser decomposta em tantas proposi~óes
simples quantas ela contém: 2) Devemos acrescentar algo.
1) Náo existe mais feudo: l.a proposi~ao 3) Transformat;ao da coordenat;ao:
2) Eliminat;ao da conjun~ao entáo náo há mais feudos
3) Transforma~ao da relativiza~ao SN1 QU1 V1 V2 ~ SN1 V1 . náo há mais rendas do feudo.·
SN1 V2. 4) Eliminat;ao do conector portanto/assitn
Umas leis particulares nas sucessoes regiam os .antigos bens feudais 5) Transforma~ao de coordena~ao:
( pressóes gramaticais acarretam o artigo indefinido "urnas") a superioridade feudal desapareceu
as leis. particulares na· sucessáo dos antigos bens feudais tornam-se sem a superioridade censual desapareceu.
objeto. · ·
6) Transformat;ao. de coordenat;ao e de rdativizat;ao
4) Transformat;ao de coordenat;ao do tipo a)· o direito de reivindicafáo feudal que ... náo pode mais existir
SN1 V SP1 e SP2 ~ o direito de reivindicafáo censual que. . . náo pode mais existir
SN1 V SP1 b) o direito de reivindicafáO feudal náo passava de um atributo da
SNl V SP2 r superioridade feudal ·

182 183
o direito censual náo passava de um atributo da superioridade
censual
o direito de reivindicafáo feudal náo pode mais existir
o direito de reivindicQfáo censual náo pode mais existir.
f 1 ) O direito de reivindicafáO feudal náo pode -mais existir
2) 0 direito de reivindicafáo censual náo pode mais existir
.3 ) a lei e a vassalagem náo podem mais existir

7) Náo ptissava de eliminado e substituído por um advérbio de res- Obtemos urna frase de base que comanda as duas classes de equi-
tri~ao somente: valencia obtidas:
o direito feudal era somente um atributo da superioridade feudal
. o direito censual era somente um atributo da superioridade censual IX 1é abolido.

O conjunto das proposi~óes originárias da frase realizada n. 0 2 é o


seguinte: 1, 2, .3 sao equivalentes, urna vez que se encontram em contextos
identicos ..
náo há mais feudo :..--'=.

náo há mais rendas do feudo 1 ) os cargos honoríficos. . . devem ser encarados como abolidos .
a· superioridade feudal desapareceu 2) a formalidade de reconhecimento do novo vassalo da proprie-
a superioridade censual desapareceu dade do senhor feudal e de recenseamento. . . deve ser enca-
o direito de reivindicafáo feudal era somente um atributo da supe- rada como abolida
rioridade feudal
3 ) a formalidade censual. . . deve ser encarada como abolida
o direito de reivindicafáo censual era somente um ·atributo da supe-
rioridade censual 1, 2, 3 sao equivalentes.
o direito feudal náo pode mais existir
A redu~ao da frase deixa igualmente surgir um outro esquema de
o direito censual náo pode mais existir
frase do tipo X, Y, Z J eram defini~ao
Assim decompostas as frases, constroem-se classes de equivalencia. sáo
No entanto, é necessário fazer intervir aquí algumas sinonímias con- Daí a constru~ao de urna nova classe de equivalencia. Para tanto,
textuais para poder estabelece-las. Encontramos, com efeito, as se-
guintes seqüencias. é necessário ainda recorrer a certas transforma~óes, a nominaliza~ao, a
transforma~ao passiva.
A .............. sáo abolidos
B. . . . . . . . . . . . . . tornam"se sem objeto Exemplo:
C. . . . . . . . . . . . . . tornam-se sem aplicafáo Leis particulares nas sucessóes regiam os antigos bens feudais -
D. . . . . . . . . . . . . . desaparecem os antigos bens feudais eram regidos por leis. particul~res na~
E. . . . . . . . . . . . . . sáo destruídos sucessoes - os antigos bens feudais erarn o remo de lets partt-
F. . . . . . . . . . . . . . náo podem mais subsistir culares nas sucessoes:
G. . . . . . . . . . . . . . náo pode m mais existir
Obtém-se assim:
Nós os consideramos como pertencentes a urna mesma classe de equi- SNl era SN2 prep. SN3 _ .
. valencia. Elas sao, allás, equivalentes duas a duas, no rigoroso método SNl pertence a classe de e·quivalencia precedentemente estudada (X,
harrissianO. .. · .
Y, 2)
A. As leis nas sucessoes dos antigos bens feudais tornam-se sem objeto as leis de sucessóes dos antigos bens feudais
.B. As leis nas sucessoes dos antigo bens feudais tornam-se sem apli- o direito de morgad1o
cafáo, a masculinidade dos feudos
tornam-se sem objeto e tornam-se sem aplicafáo sao equivalentes, um atributo da superioridade feudal
urna vez que tem identico contextc- o direito de reivindica~ao feudal

184 185

~---------------------- - - - - - -
o direito de reivindica~o censual que se dá como invariante um dos termos das proposi~óes", escreve
a fidelidade e a vassalagem J. Dubois.
os cargos honoríficos Todos os exemplos_que se seguem apelam para esses mesmos pro-
cessos, a saber, que o corpus foi constituído a partir de urna invariante.
Os elementos da classe SN2 prep. SN3, que se encontram em contextos
nao mais identicos, mas equivalentes, sao equivalentes. Esta análise
faz aparecer a importancia do núcleo verbal, urna vez que tudo gira em 7 .4.1. Análise lingüística do vocabulário da guerra da Argélia 9
torno de tres esquemas de frase:
A tese de III ciclo de D. Maldidier inscreve-se nas pesquisas de
X era ... sociolingüística. Sua finalidade é encontrar as complexas rela~óes que
X é abolido
colocam em conexao os comportamentos lingüísticos e os comporta-
X nao deve ser abolido
mentas extralingüísticas. O material de base é um conjunto fomecido
O _conjunto do discurso de Merlín. de Douai pode resumir-se nos se- por seis .diários franceses, L'Aurore, Le Fígaro, Le Parisien libéré, Le
gumtes esquemas: MotZde, Le Populaire, L'Humanité. Trata-se de colocar em rela~ao, num
uadro sin " · · iados ue nos seis ·omais dao conta
1) X é originário de um contrato
e um discurso acontecimento, oficial, e que o comentam. A inva-
2) X é um direito feudal
3 ) X deve ser mantido iiante de sttua~iio é asstm o discurso ohcrai, as vartávets, os comen-
tálios · deste discurso ohciil pelos sets Jornais. Para determinar as
4 ) Y nao é originário de um contrato 1rases de base que subJazem ao discurso politice da guerra da Argélia,
5) Y era ...
reter-se-ao as frases construídas em torno de palavras-pivo, tais como
6 ) Y nao é um direito feudal " " . o· ob..Jettvo
"Arge'lia" , "Fran~a " , " argelino " , "frances. . constste,
. de
7) Y nao deve ser mantido
um lado, em isolar um modelo de competencia comum a todós os lo-
Levando em conta o fato de que 4) ·é a transforma~ao negativa de 1 cutores, e suas varia~óes, a serem relacionadas com os comportamentos
que 6) é a transforma~ao negativa de 2 políticos. ·
que 7 ) é a transforma~ao negativa de 3 A análise é feíta em dois tempos:
- Primeiramente, a constru~ao do modelo lingüístico- o que exige
pod:-se red~ um discurso complexo a alguns esquemas de base, a
a redu~ao dos enunciados para evidenciar as regularidades do texto,
partu dos quats deve ser possível fazer derivar o conjunto das frases
realizadas. e as frases de base do texto.
- depois, o estudo das reformula~óes destas frases de base, seja no
seio de urna mesma sincronía (as variáveis) constituídas pelos jorriais,
seja de urna sincronía a outra, seja ao nível do discurso oficial, seja ao
7. 4. As· transforma!róes e a análise do discurso nível dos diferentes jornais.
As sincronías levantadas sao as seguintes:
Certo número de estndos níio ptocedem a reducao da totalidade
do discurso, mas a redu ao das a invariante, 1) novembro-dezembro de 1954:
torno a qu vai operar a análise. O corpus será constituído pelo Discurso na Assembléia Nacional de
conJunto das frases realizadas, ·comportando a invariante escolhida. . F. Mitterand e de P. Mendes France.
"De ~ato, o .corpus asstm constituído, do ponto de vista lingüístico, 2) fevereiro de 1956:
possut proprtedades muito particulares. Assim, .a ordem das propo- Disctirso de G. Mollet.
si~óes, que num discurso é considerada como essencial para constituir 3) · maio-junho de 1958:
o mod~lo lógico subjacente, é transformada, quartdo nao suprimida: Discurso de De Gaulle.
c<;>nstrutu-s.e um discurso novo, •feíto de urna série de proposi~óes nao 4) setembro-outubro de 1969:
dispostas ~earmente, mas que formam urna classe de proposi~óes, em Conferencia de imprensa de De Gaulle.

186 187
2.a sincronia: fevereiro de 1956
1.a sincronia
A Argélia é a Franfa e sua variante: As duas fórmulas recorrentes do discurso oficial sao os lQfOS entre
A Argélia é parte (integrante) da Franfa. a Argélia e a Franfa e a personalidade argelina. Elas estao em estreito
relacionamento com as frases básicas do discurso. D. Maldidier escreve
Se se reduzir a enfase, obtém-se como esquema de frase essencial a este respeito: "As duas proposit;óes de base, A é F e A depende de
A Argélia é a Franfa. _ F dao ·conta, ao mesmo tempo, das fórmulas do discurso oficial que
Nos cinco jornais citados, salvo L'Humanité, este esquema de base representa suas transformat;óes ambíguas, e da maior parte dos desem-
está reproduzido, seja diretamente, seja sob várias formas, sendo a mais penhos dos diários. Pode-se, entao, considerar estas duas proposit;óes
correnú~ a do tipo como_ um modelo de competencia que permanece invariável e, na pas-
SNl é SN2 de SN2 sagem de urna sincronía a outra, encarar a varia~áo ao nível dos desem-
Adj. penhos realizados no discurso." 9
A Argélia é uma província da Franfa A seqüéncia os lafOS entre a Argélia e a Franfa liga-se a muitas
um território frances variantes, tais como a uniáo indissolúvel entre a Argélia e a Franfa.
os tres departamentos franceses da Argélia. Tal seqüéncia remete as duas frases de base fundamentais.
Obtém~se este último sintagma nominal pela transforma~ao de Pode-se efetivamente obter
nominaliza~ao, a partir de A Argélia tem tr§s departamentos A é (parte de) F ~A e F sao urna urna
Estes departamentos sáo da Franfa unidas
ligadas
Há,- primeiramente: relativiza~áo.
a Argélia tem trés departamentos que sáo da Franfa A depende de F ~ A é ligada a F
unida a F.
depois, nominalizat;áo
os trés departamentos franceses da Argélia. Estas transforma~óes da frase ou das frases básicas tém urna fun-
t;ao de máscara. Visam ocultar a verdaddra natureza da rela~áo entre
Encontram-se freqüentemente nos mesmos jornais os sin~agmas a Argélia e a Fran~a.
nominalizados: O sintagma a personalidade argelina niostra · com evidencia o me-
a província francesa da Argélia canismo de ambigüizat;íío das transforma~óes das frases de base. Este
o território francés da Argélia sintagma provém da transformat;ao negativa da frase de base:
provenientes da nominalizat;ao do enunciado predicativo A é F ~ A nao é F,
a Argélia é a Franfa
a Argélia é uma província francesa. mas a transformat;ao negativa torna-se muito ambígua pela passagem de
A e F a seres animados, numa espécie de transformat;íío de personi-
Urna segunda frase de base em 1954 é A Argélia depende da ficat;áo.
Franfa. Nunca realizada como tal, esta frase dá conta de um grande
A pessoa da Argélia náo é a pessoa da Franfa.
número de desempenhos, realizados em jornais, salvo L'Humanité.
L'Humanité tem um comportamento lingüístico totalmente diferente. A Argélia é uma pessoa que náo é a pessoa da Franfa, transfor-
Estabelece urna clara distancia entre seus enunciados e o enunciado mat;áo nominal:
oficial. Isto é assinalado de diversas maneiras, por um sistema de aspas A· personalidade. da Argélia ~ a personalidade argelina.
que mostra que o jornal nao se responsabiliza pelo enunciado refe- Assiste-se aí a um mascaramento da transforma~áo negativa.
rido, .por orat;óes hipotéticas, como se a Argélia fosse a Franfa, ou
pela pura transformat;íío negativa da frase oficial, a Argélia é a Argélia, A realizat;áo ao nível dos jornais reflete esta ambigüidade. U Au~
náo uma província francesa. · rore, por exemplo, hesita em empregar este sintagma. Se o utiliza, é

189
188-
de maneira a eliminar o fato de que ela provém de urna transforma,.ao .t.a sjncronia: setembro-outubro de 1959
negativa de A é F. Le Monde, pelo contrário, dá contada .ambigüidade.
Quando L'Humanité produz o sintagma, é sempre tomando certa dis- É a fórmula "a autodetermina,.ao" que· vai suscitar numerosos co-
tancia em rela,.ao a ele, e opondo a ambigüidade de "personalidade arge- mentários nos seis jornais analisados. O sintagma admite um comple-
lina" a univocidade de "fato nacional argelino". · L'Humanité opóe, mento "da Argélia" ou "dos argelinos" que foi afastado segundo o
processo da abrevia~ao sintagmática. Corresponde a urna transforma,.ao
pórtanto, "personalidade argelina" ao mesmo tempo a "A é F" ·e ao da frase de base: "A Argélia depende da Fran,.a", bastante complexa.
"fato nacional argelino". O ponto de partida é pois esta frase de base "A depende de F". É
preciso fazer com que intervenham aqui as transforma,.óes textuais de
s.a sincronia: maio-junbo de 1958 Harris, os inversos lexicais, inversos di~tribucionais e semanticos do tipo
comprar/vender, ganhar/perder, etc. · .
Os discursos de De Gaulle sao marcados pela recorréncia de um
A Argélia depende da Franfa será assim o equivalente semantico
enunciado da seguinte forma: Náo há mais na Argélia senáo franceses
da distribui~ao inversa A Franfa determina a Argélia. Urna transfor-
integrais · - ou, o que é urna variante: os dez milhóes de. franceses
ma,.ao de nominaliza~ao produz posteriormente:
da Argélia. Pode-se pensar que estes enunciados sao o equivalente de:
Todos os N da Argélia serao N que sáo franceses integrais. Assim, o a determinafao da Argélia pela Frat:fa.
enunciado de De Gaulle representa um tipo de transforma,.ao da pro- Entretanto, a utiliza,.ao por De Gaulle do prefixo auto implica
posi~ao de base A é F, caracterizada pelo futuro. O que cria a ambi- previamente na transforma~ao nominal, urna transforma,.ao reflexiva.
güidade da transforma~ao é que este. enunciado solicita duas leituras Esta s6 é possível se houver urna identidade entre SNl e SN2.
possíveis. De um lado, pode-se ler: os. N da Argélia sao franceses
e os N da Argélia náo sáo ( ainda) franceses. Este enunciado postula X determina X
, a realiza,.ao concreta da igualdade entre europeus e mu~lmanos, todos A Argélia determi!Ja a Argélia
cidadaos franceses da Argélia. De outro lado, pode-se ler os N da transforma~ao reflexiva ~ a Argélia se determina
Argélia seráo franceses (e náo argelinos). O problema trazido a baila transforma,.ao nominal ~ a autodeterminafáo da Argélia
pelos diários que tem que comentar estas fórmuias é a rela,.ao de equi- ~ a autodetermina{áo da Argélia
valencia que estabelecem entre estes enunciados de De Gaulle e sin- elisao do complemento ~ a autodeterminafáO.
tagmas como A Argélia Francesa, a integrafáo que repr~sentam va- . A .fórm~la a autodeterminafáo implica, pois, numa modifica,.ao
riantes da proposi,.ao de base A é F, que De· Gaulle nao emprega, mutto zmportante da frase de base "A depende de F" que consiste
mas que lhe é atribuida. Quanto a L'Humanité, interpreta de maneira em substituir A por F ~A depende de A.
unívoca o discurso de De Gaulle, para rebát~-lo. Depois da redu,.ao
de frases, percebe-se que L'Humanité faz De Gaulle dizer que De Na realidade, o sujeito da proposi,.ao em estrutura profunda é
Gaulle quer que os argelinos se;am franceses, ao qual opóe: os argelinos a Argélia ou os argelinos. Aí reside a ambigüidade da fórmula.gaullista
querem que os argelinos se;am argelinos, As outras fórmulas reite- conf~rme os a~gelinos signifique os N que sao da Argélia ou o pov~
radas do ·discurso gaullista em 1958 sao a associafáo, fazer o resto. Do argeltno. No, '!iscur~o ?~ De Gau_lle, a referencia aos argelinos é pura-
exame dos diversos desempenhos destes sintagmas, nos seis )ornais me~te geograftca e tndtvtdual. Nao se trata da identidade política que
citados, D. Maldidier concluí que os enunciados de De Gaulle repre- serta a nafáo argelina. Cada jornal toma posi~ao aqui frente a ambi-
seritam a frase de base A é F, mas de maneira muito ambígua. "Em güidade da n~ao.
1958~ o enunciado gaullista dissimula a asser,.ao de principio "A é F",
sob o performativo. A a,.ao faz passar para o segundo plano as decla- Primeira conclusáo
ra~óes de princípio. O enunciado assume um duplo valor: enunciado
"mágico", promete que a realidade vai coincidir com o direito; enun- Tal estudo, que utiliza como método de base as transforma,.óes
ciado polémico, opóe urna vontade aquela que subjaz ao combate arge- harrissianas, permite que se coloque em conclusao certo número de
lino." 10 problemas.

190 191
A primeira conclusao coloca em relevo as clivagens sócio-políticas
Ve-se aí todo o proveito que o historiador pode tirar da utiliza~ao
dos jornais em rela~ao. a frase de base A é F: do método de análise dos enunciados que em nenhum momento faz
a economía da estrutura lingüística dos textos.
1954 1956 19.58 19.59
7. 4. 2. As palavras "socialismo" e "socialista" em ]aures
AU + + + + G. Provost estuda os termos "socialismo", "socialista", no dis-
FIG
PL
+ + + + curso de Jaures. 13 Segundo os métodos de Harris, G. Provost primei-
+ + + + . ramente reagrupa os enunciados de maneira a estabelecer classes de
LM + + ± +
POP + ± ± + equivalencia dadas pelo texto, isto é, a partir de frases de estruturas
H - - - - muito simples. Operado este ponto de partida, a manipula~ao transfor-
macional permite-lhe reduzir os enunciados e reduzi-los as estruturas
+ significa a adequa~o a "A é F" simples assinaladas precedentemente. As transforma~5es e a redu~ao
- sua recusa. dos enunciados daí resultantes colocam em evidencia esquemas de frase
e suas variantes. Observam-se nítidamente duas dir~5es. Quando o
sintagma verbal nao admite senao um sintagma nominal sujeito nome
Sequnda conclusao animado/ abstrato, "socialismo", "socialista" vio entrar em enunciados
Trata-se do papel da ambigüidade no discurso político e principal- de grande valor de generalidade, ou enunciados definidores. Neste caso,
mente no discurso da guerra da Argélia. D. Maldidier dá conta disso trata-se de um enunciado didático, cujo operador verbal é "ser" e os
da seguinte maneira: "A ambigüidade de certos desempenhos do dis- verbos que com ele sao permutáveis.
curso oficial pertence em geral a al~ada dos fenómenos de mascara- O esquema de base é o seguinte . j o N socialista- é o NX 1
mento. Tal fórmula pode dissimular a natureza da rela~ao entre A e
F (os la~os entre A e F); urna outra pode implicar a transforma~ao
negativa da proposi~ao A é F, recusando-se a assumir seu conteúdo polí-
tico (a personalidade argelina); urna outra, ainda, pode representar
duas proposi~oes contraditórias ( a associa~io). É a concilia~ao de mo-
delos diferentes que aparece como o tra~ essencial da ambigüidade
do discurso político da guerra da Argélia." 11 Entretanto, esta ambi-
güidade, situada em seu quadro diacrónico, tem · urna fun~áo político-
-social precisa. Busca a possibilidade de evoluir segundo a rela~ao de
for~as, ao mesmo tempo que assegura urna continuidade ideológica.
Aparece como um meio para ultrapassar as contradi~oes. ··

Terceira conclusao

A natureza deste discurso é ser pol¿mico.

Quarta conclusao ·
Relativa ao vocabulário: "Os grupos políticos nao se diferenciam tanto
pelas próprias palavras, quanto pelas proposi~5es que representam e/ou
nas quais estio implicados." 12

192 193
As duas classes de equivalencia N e X podem ser representadas O socialismo quer fazer existir a reuniáo de todos os Estados da
como se segue: Europa.
X O socialismo ( modalidade. Fazer existir) X
liberadora Exemplo:
esperan~osa
O socialismo esforfa-se por abolir todas as fronteiras, por estabe-
humanitária lecer uma certa maneira de viver "internacional".
moral
religiosa O socialismo esforfa-se para que sejam abolidas todas as fronteiras,
materialista para que seja estabelecida uma certa maneira de viver "internacional".
N solidária O socialismo quer fazer existir a ~bolifáo de todas as fronteiras.
doutrina sublime O socialismo quer fazer existir o estabelecimento de uma certa ...
sistema verdadeira O socialismo ( Mod. fazer existir)
tendencia apaixonada
o espontanea Exemplo:
o conce~ao
socialista é N revolucionária
(a) ideal a É preciso que o socialismo empreenda . .. a educafáo das massas.
pensamento universal
os socialistas devem empreender
filosofía profunda
alta os socialistas devem fazer existir a educafáo das massas.
obra
forma íntegra os socialistas ( Mod. fazer existir) X
justa
nobre G. Provost concluí que "o estudo do discurso de Jaures no campo
completa semantico de socialismo/socialista coloca em evidencia a importancia
coerente de dois fatores fundamentais: de um lado, o papel operador do sintagma
compreensiva verbal como distribuidor semantico ( semantic calculator de W einreich)
ampla e, de outro lado, no interior do enunciado, o jogo constante animado/
poderosa /nao animado. Estes dois fatores determinam um duplo esquema de
forte frase característica de dois tipos de discurso". 14

Quando o SN sujeito é animado/concreto, trata-se de um esquema


completamente diferente, de base 7. 4. 3. Os relatórios de agregafáo e do C.A. P. E. S. de letras

x é realizado pelos socialistas J. Sumpf e J. Dubois procuraram um modelo de competencia


ideológica, originário dos relatórios de agregac;ao e do C.A. P. E. S. de
ou letras. Foi-lhe necessário aquí ainda determinar as frases de base, "as
os socialistas ( fazer ser) X asserc;óes fundamentai.s, em que se definem as escolhas lingüísticas.
Estas frases de base subjazem ao conjunto do discurso". 15 O corpus
A maior parte do tempo, o factitivo é modalizado em querer, poder é constituído pelo conjunto das frases que comportam os termos-pivo,
e dever. Exemplo: · tais como candidato¡- obra, cultura, emocionar. Aquí, ainda, a manipu-
O socialismo quer reunir todos os Estados da Europa. lac;ao transformacional vai permitir que se reduzam os enunciados em
frases mínimas, a fim de obter conjuntos homogeneos, a fim de isolar
Se se passar para a proposic;ao completiva, obtém-se: classes de equivalencia como sujeito ou como predicado. Nao sao as
O socialismo quer que sejam reunidos todos os Estados da Europa; palavras, mas classes de palavras que permitem constituir "o modelo
depois, pela riominalizac;ao: de competencia ideológica".

194 195
A primeira frase básica apresenta-se como se segue:
tico, humanista, no sentido tradicional do termo, retórico. Tudo passa
o ~gregado se comove por uma obra por uma espécie de comunhao entre o locutor e a obra que comanda,
Pl o bom candidato é o homem que é sensível a um texto primeiro, a instancia do gosto, depois, a· do julgamento. As frases de
o pro/essor base definem um quadro de pressupostos que devem ser comuns aos
o pedagogo ama um autor candidatos e ao júri, o que se pode definir por uma cultura ( gosto +
A segunda frase básica é a seguinte: julgamento + retórica) comum que se revela no discurso do sujeito
universal.

-
o professor ser todos
P2 (Que) o bom dever ser homens
candidato julga sensíveis a 7. 4. 4. "Feudal, feudalismo e direitos feudais"
os doutos crianfaS nos 'cahiers de doléances' de 1789 da burguesía
poder ser e nos da nobreza 16
alguém
A análise dos enunciados pretende ser resolutamente· comparativa.
Seja, pois ( escrevem J. Sumpf e J. Dubois, de quem copiamos aquí Procurar as frases básicas da burguesía e da nobreza sobre o feudalismo
textualmente a formula<;ao): significa verificar se os dois grupos sociais operam com um modelo
1 ) O bom candidato é aquele que saboreia este texto ideológico comum ou se, além do léxico, que pode ser em parte comum,
Nl N2 Vl N2 encontram-se em a~;ao dois modelos antitéticos.
2) O bom candidato é .aquele que julga que todos· amam este texto A nobreza nao utiliza o termo feudalidade, raramente direitos
Nl Nl V2 Nl Vl N feudais. Seus desempenhos fazem-se ao nível das especifica~oes dos
direitos feudais, ou de uma fórmula de inclusao, os direitos da nobreza.
L(Nl é Nl que Vl N2) + (Nl é Nl que V2 que Nl Vl N2) O discurso da nobreza sobre a feudalidade passa pela unidade léxica
O que é fundamental aquí é o pivo constituído pela classe obra, pro priedade.
autor, texto. O bom candidato encontra-se assim definido por dois pre- Uma primeira frase básica, de nível muito abstrato, é um genérico.
dicados diferentes. :É preciso, ao mesmo tempo, que ele goste desse Implica a total supressao do sujeito da enuncia~ao e a referencia ao
texto e que julgue que todos gostam dele. :É o discurso de base dos sujeito universal
rdatórios de agrega<;ao. Isso fica ainda mais claro se se examinar em
os predicados dos maus candidatos. Percebe-se entao que uma das duas A prapriedade é sagrada
Toda deve ser inviolada
frases de base nao se aplica ao seu caso, ou, o que é mais grave ainda,
ficará respeitada
as duas frases. Se o bom candidato tem ao mesmo tempo gosto e
permanecerá mantida
julgamento, o mau candidato se define por
ausencia de sensibi- ausencia de estudo ausencia de retórica Outra frase básica situa-se num nível mais restrito de generalidade, o
lidade ausencia de julgamento mas que é marcado pela mudan~a de determinantes ( umas) que foi extraído
ausencia de gosto somente memória, pesquisa da classe de a, toda.
ausencia de prazer necessitado erudifáo U mas [ propriedades 1devem ser l respeitadas
do texto história Estas
ausencia de comércio literária
intimo com a obra análise A passagem da segunda frase para a terceira opera-se por uma classe
ausencia de cultura estrutural de operadores de dependencia funcional do tipo:
jargáo É porque
Pois
A partir das frases de base e de suas' pressóes, pode-se por em Em conseqüencia
evidencia um verdadeiro modelo ideológico. O modelo de base é esté- Por isto
196 197
.. terceira frase, enfim, obedece a seguinte forma:
os X da nobreza devem ser conservados
É possível chegar ao terceiro esquema de frase fundamental através de
1 -
-
os direitos feudais Y sao uma propriedade
os direitos feudais Y devem ser resgatados.
A primeira frase de base f~ aparecer a classe de equivalencia
outra relac;ao lógica.
Os direitos feudais X sao ridículos
1) a propriedade deve ser sagrada insólitos
2) a nobreza consente na igualdade fiscal indecentes
mas usurpados, etc.
1 em compensa{áo

3) os X da nobreza devem ser conservados


ou, conforme a estrutura: X SNl + ser + Adj. + SP . 1

A classe dos X incluída na propriedade é a seguinte os direitos feudais sao contrários a liberdade geral dos cidadiíos
contrários a liberdade natural
Os direitos ligados as terras contrários a liberdade
Os direitos ligados aos feudos contrários ao direito natural, etc.
Os direitos ligados as altas magistraturas
Os direitos ligados as médias magistraturas A classe de equivalencia X reúne os elementos de um domínio
Os direitos ligados as baixas magistraturas semantiCo homogeneo, o dos trac;os negativizados, animados ou nao
As ordens animados, dos direitos feudais.
As ;usiÍfaS patrimoniais
As honrarías de direito e Propriedade
As preeminencias 7. 5. Problemas e limites da análise harrissiana
As distinfoes aplicada a um. corpus histórico
As prerrogativas
Os direitos úteis
Por fecunda que seja a análise que se funda nos métodos distri-
Os direitos pessoais
buciortais e transformacionais, ela nao deixa de criar para o historiador,
Os direitos pertencentes as propriedades da nobreza
em sua própria utilizac;ao, certo número de problemas. Já evocamos
Os- direitos inerentes as propriedades da nobreza
o da sincronía considerada. As transformac;óes, tais como foram esta-
Ve-se de forma muito clara, ao nível desta classe de equivalencia, belecidas, nao poderiam convir a síntaxe da língua clássica do meio
e da relac;ao de inclusao que ela mantém com "propriedade", que a do século XVII, ainda menos a do século XVI. Os historiadores
nobreza faz com que a totalidade dos direitos feudais entre na classe tem tuda a esperar, a este respeito, dos lingüistas que trabalham na
dos X. De ande se pode concluir: "todos os direitos ( feudais) sao linha do uso e da especificac;ao da gramática transformacional para a
urna propriedade". língua dos séculas XVI e XVII. No estado atual de falta de acaba-
A este respeito, o discurso da burguesía poderia ser considerado mento dos trabalhos, muitos dos corpus nao poderao ser utilizados a
como urna transformac;ao negativa deste enunciado implícito: luz dos métodos evocados.
Nobreza ~ Todos os direitos (feudais) sao uma propriedade. - As classes de equivalencia obtidas sao classes sintáticas e em nada
Burguesía,~ Todos os direitos feudais nao sao uma propriedade.
semanticas. Por isto, "tuda está por fazer, tuda está no comec;o, urna
vez que se obteve esta colocac;ao em classes de equivalencia. É preciso
A burguesía, com efeito, articula seus enunciados sobre o sintagma procurar reagrupar os diversos elementos, seja seguindo grandes cate-
direitos feudais em 4 esquemas de frase fundamentais: gorías classemáticas (humano, nao humano/animado, nao animado,
os direitos feudais X nao sao uma propriedade etc.), seja em domínios semanticos precisos. De qualquer maneira, o
os direitos feudais X devem ser suprimidos método harrissiano nao constituí senao um ponto de partida e nao um
ponto de chegada. .
198
- O limite fundamental, enfim, foi muito claramente expresso por
J. Dubois, quando escreve: "mesmo apedei~oada pela contribui~ao da
Lingüística transformacional, afinada pelas precau~óes metodológicas
r salaires, on est tenté de trouver dam le fait que la météorologie natio-
nale est en greve et que les employés se plaignent dans la météorologie
nationale de la modicité des salaires, l' explication des insuffisances cli-
matiques ( tout le monde a souffert au cours des derniers mois des
para constituir invariantes de situa~ao, a análise de discurso fica na insuffisances climatiques en questions). *
perspectiva behaviorista e sua eficácia n¡io deve fazer-nos esquecer que,
sendo o texto ao mesmo tempo seu objeto e seu fim, ela deixa escapar 2.0 A frase é decomposta conforme os processos tradicionais de análise
o essencial; as estruturas subjacentes da enuncia~ao podem ser identifi- lógica, a fim de conservar intacta a ordem hierárquica do encadeamento
cadas com as estruturas manifestas do enunciado?" 17 Encontra-se das ora~óes.
assim levantado o problema de enriquecer a análise do discurso por A) Ora~ao principal Somos tentados a ver. . . a expli-
uma análise dos fenómenos enunciativos. Com efeito, todo texto é mo- cafáo das insuficiencias climáticas
dulado de maneira muito variável. Esta modula~ao é expressa por de que a meteorología no fato
certas indica~óes, o sistema de pronomes, advérbios, verbos de opiniao,
os tipos de modaliza~ao, "sem dúvida", "felizmente", "creio", etc. B) Ora~ao subordinada subjetiva está em greve
Qualquer texto perde assim su a · transparencia e torna-se ambíguo; completiva nominal
apressemo-nos em abandonar o postulado da transparencia do se1;1tido. e
C) Ora~ao subordinada subjetiva de que os empregados se queixam
· completiva nominal na meteorología naciónal da modi-
7. 6. O tratamento automático A. A. D. cidade dos salários
D) Ora~ao subordinada adjetiva Todos sofreram no decorrer dos
O método de tratamento automático A. A. D. baseia-se em parte últimos meses com insuficiéncias
na abordagem harrissiana, com a ressalva de que nao se encerra no climáticas
pansintaxismo que prevalece na Lingüística atual e a de que se consi-
dera centrada no papel primordial dos conectores. Esse método decom- E) Ora~ao subordinada adverbial Quando a meteorología está em
póe-se em oito fases complexas. Nós nos basearemos amplamente nos temporal greve
exemplos explicados no Manual para o uso do método de anáUse auto- e
mática do discurso, criado por Claudine Haroche e Michel Pecheux. 18 F) Ora~ao subordinada adverbial Quando os empregados se quei-
Consideremos a frase: uQuand la météorologie nationale est en temporal xam na meteorología nacional, da
greve et que les employés s'y plaignent de la modidté des salaires, on modicidade dos salários
est tenté de trouver la, l'explication des insuffisances climatiques dont As rela~óes de dependencias entre ora~óes sao as seguintes:
tout le monde a souffert au cours des derniers mois." *
(A + D) pelo fato de que (B + C) quando (E e F).
1.0 A primeira opera~ao consiste em restabelecer os termos que se
Qcham representados na frase por anáforas que tiram seu sentido de 3.0 As ora~óes sao divididas em enunciados dementares. Trata-se. de
outros termos que representam. É o caso de y, la, dont. unidades mínimas de asser~ao. Essa divisao em unidades mínimas
· A frase reconstituida fica assim: baseia-se nos métodos harrissianos.
Quand la météorologie nationale est en greve ,et 4uand les em-
. ployés se plaignent dans la météorologie nationale de la modicité des * Quando a meteorología nacional está em greve e quando os empregados
se quei.xam na meteorologia nacional da modicidade dos salários, somos tentados
a ver no fato de que a meteorología nacional está em greve e de· que os empre-
* "Quando a meteorología nacional está em greve e quando os empregados gados se queixam, na meteorologia nacional, da modicidade dos salários, a expli- ·
se queixam da modicidade dos salários, somos tentados a ver no fato a explica~o ca~iio das insuficiencias climáticas (todo mundo sofreu, no decorrer dos últimos
das insuficiencias climáticas com ·que todos sofreram no decorrer dos últimos meses, com as insuficiencias climáticas em questiio) ·[N. T.].
meses" [N. T.]. ·
201
200

"-------------------- - - - - - -- - - -
Quanto as
A
2
1 -
ora~oes acima, ternos:
somos tentados
vemos a explicafao
r ...
o
1111
.,111
"¡j
e 111
e;
111
·¡;¡,
..9o
.. e;
ü
::1
e

....
3 vemos em X "'111 :!! ~ :!!
":3 ..,
:z; '$. 1/l
co 1/l o c
'§"
.!:!
4 a explicafáo das insuficiencias "¡:( ~
É ü111 ...
41
> :a-o" ....241 .ll

z"as ....¡g ::a"'
1-~

5 - a insuficiencia é climática &1 ...."'c ü o :z; ::a ::a


B 6 - a meteorología está em greve
7 - a meteorología é nacional ...
A
1/l
g¡ 1/l
,.:¡ ,.:¡ ,.:¡ ,.:¡ ,.:¡
e 8 - os empregados se queixam
'$. '$. '$. '$. '$. '$. '$. '$. '$.

9 - os salários sáo módicos


....
10 - os empregados estáo na meteorología
. .
41

.
11 - a meteorología é nacional ~ '$. • • .."o
D 12 - todos sofreram com insuficiencias S
101 A
11> S
101
S
101 Q
.. 'ti
o
c
13 - todos sofreram nestes meses
14 - estes meses sáo os últimos
E- B >
~
'$. '$. '$. '0- '$. '$. '$. '0. '0. '0. '0. '$. '$. "0.
F =
e
Esses enunciados mínimos sao apresentados assim:
..
.. .
lll

.... ........
1
: F D1 N1 V ADV P D2 N2 :
.....
1
> ~
. .. 101 101 rol "'.. .
~
101 rol 101

..... >.. > ...,


e ....o
13"'
:3 o
F forma do enunciado, isto é, a voz ( ativa, estado passivo ou (J 1/l 1/l

agente passivo), o sistema das modalidades ( afirma~ao, nega-


~ao interroga~ao, imperativo), o modo e o lempo do enun-
----
ciado. o ü
01
"'
"fió "' u..9"'
"fió o o
.... ....c o 'ti
i .. . ... ..,_g.. g¡,... .
1111 'ti
él o g¡,
D1 e D2, determinantes do termo em SN1 ou SN2, nos casos em :z; "'u
;:::"'
ü .,o
que esse termo é um substantivo . . :z;..
-o -o -o A
'§. ~
o
~
o o
.. .. .. ~ e; ~ ~
~ o
'ti 'ti ...::a.
N1
:z; z &1 ....c ::a ::a ::a lil 1/l rol ~
substantivo ou pronome suJelto do enunciado
V verbo do enunciado no infinitivo ...A "0. "0. '$. p:: p:: ..:l p:: ~
1/l
,.:¡ p:: p:: '$. '$. p::
em se tratando do emprego da cópula ser/estar, emprega-se E.
ADV advérbio
p : preposi~ao ou locu~ao prepositiva. Quando o verbo é tran-
sitivo, o lugar da preposi~ao nao será marcado pelo sinal r..
vazio </>, mas por *
,.¡¡
N2 substantivo ou pronome em SN2
g•o
zo~~tl
202


OOIIii5i8liiü . c ' ' i ! r ; ; I T a r - - - t = - - - - - - - - - -
1) 1000 significa estado passivo, afirma~ao, indicativo presente

2)
0000 significa ativo,
0003 significa ativo,
afirma~ao, indicativo presente
afirma~ao, indicativo pretérito
R na coluna Dl significa que um substantivo munido do
r Os sinais das
ól
rela~oes utilizadas sao:
dados dois enunciados El e El tais que E2 determina El, uti-
liza-se ol quando o termo na posi~ao Nl no enunciado El é
determinado por E2.
mesmo determinante já foi encontrado.
Assim, entre a meteorología está em greve e a meteorología é
3) rl> significa ausente, conjunto vazio. nacional, o Nl de El a meteorología· é determinado por E2
4) E uso da cópula no caso de adjetiva~io e de complemento é nacional.
nominal. ó2 quando o termo na posi~Yio N2 no enunciado El é determinado
SER/ESTAR, quando o verbo ser/estar ocorre nas ora~5es por E2.
antes de redu~ao em enunciados mínimos. .Exemplo: entre vemos a explícafáO e a explicafáO é das insu-
5) * asterisco, marca a ausencia de preposi~Yio. ficiencias, é o termo explícafáo que se encontra em N2 e que é
determinado por E2 insuficiencias. ·
6) S sinal da ora~io objetiva que se .vai encaixar na frase matriz,
também dita proforma. QUE, QUANDO, E
4. 0 Constrói-se o grafo das ora~5es. PRG 1: modalidade pragmática. É usada quando o su jeito do enun-
ciado implica nele próprio, como é o caso entre "n6s somos
Os centros serio constituidos pelos enunciados e os arcos repre- tentados" e "n6s vemos a explica~io" .
sentario as rela~óes entre os enunciados.
SPE conector especial para ligar os enunciados incompletos que ·
resulta da decomposi~YÍÍO das Ota~óes.
Pode-se, entio, construir o grafo geral da frase
12 CIRC 13~14 (0)
Grafo da oras:áo A .

4
;/"-
62 5

ll2l SPE

,~'~\
~\UE
6~7
¡:
j'
!
/-
61/s~E
1
f 204
r, .
11
/ . 9

IC.F)
205
~~ - --

O grafo pode ser completado pelo acréscimo de certas conex5es que


ligam vários enunciados. Assim, que e quando referem-se ao mesmo
tempo a B e C, e portanto a 6 e 8. Decorre, entao, o seguinte grafo,
T 1
2
2
06
02
08
2
4
3
06 = PRG1
02
08
82
SPE
após a operac;ao de saturat;áo: 3 11 6 11 QUE
4 02 5
4 02 12
CIRC
;/12----13----+14
li2 12 09 13 09 CIRC
13 02 14
6 01 7 01 = 81
4~2 6 20 8 20 E
&2/ ~5
PRGl /1 6 40 8 40 E
8 11 9
1~ .~~E 1 22 6 22 quando
QUAND:U~ANDO 3"QUE
1
8
22
01 10
8

10 02 11
QUE '-.......'\.. lil
~6 7 Esse quadro prepara o tratamento automático dos dados .

.¡~.
5. 0 Tratamento automático
O conjunto dos enunciados elementares e o conjunto das relac;oes biná-
rias sao pastos em cartoes perfurados.
10 O programa principal compara as relac;oes binárias de cada seqüencia
1 com as de todas as seqüencias do conjunto do corpus.
lli2 Quando duas relac;oes binárias tem o mesmo conector, sao submetidas
a um subprograma que deve avaHar a proximidade entre duas relac;óes
11
do ponto de vista do conteúdo dos enunciados.
Consideremos os enunciados A 51 B e
e 51 n
5.o As relac;oes .binárias sao depois classificadas e reproduzidas em O subprograma compara o conteúdo dos 8 elementos morfo-sintáticos
quadro, segundo um código previamente estabelecido dos dais enunciados, a esquerda, A e C, e os 8 elementos morfo-sintá-
ticos dos dois enunciados, a direita, B e D. .
F Dl Nl V ADV P D2 N2 51 F Dl Nl V ADV P D2 N2
i
1
1; A B
1 F D1 Nl V ADV P D2 N2 51 F Dl Nl V ADV P D2 N2
e D
lntroduz-se um sistema de ponderac;ao que atribuí um valor diferente
.a co-ocorrencia, confd'rme
sua categ_oria morfo-sintática. Obtém-se um
valor global que traduz a proximidade das relac;óes consideradas. Con-

~
206 207

=---··
sideremos o valor 28. Retomemos o exemplo escolhido por G. Gayot e Desta vez, o par de rela~oes binárias é mantido.
M. Pecheux num recente artigo: 1 !l .
a
o programa principal reúne, terminada opera~ao de compara~ao das
0288 0000 R HOMM . SOLL p • LS EMPL 0289 0000 R' EMPLE E p • 11 PUBL rela~oes binárias, todos os pares assim mantidos e os transforma em
~----------~----------~ 51 ~--------~r---------~ domínios semanticos.
A B
"Duas rda~oes binárias R1 e R2 pertencem a um mesmo dominio, se
_0320 0000 - NOUS A VOR 11 • DS MAIN 0321 0000 R MAIN E 11 • 11 DEUX a proximidade entre R1 e R2 satisfaz a condi~ao imposta (valor igual
51 ~----------~~------~ ou superior ao valor fixado previamente), ou se existe urna rela~ao
e o R3 tal que as proximidades entre R1 e R3, por um lado, e R2 e R3, por
Os dois enunciados foram reunidos pelo programa porque tem o mesmo outro, satisfazem essa condi~ao." 2
con~tor (51). O subprograma compara o conteúdo de A e· de e, e A respeito do exemplo apresentado em seu artigo, G. Gayot e M. Pe-
depo1s de B e de D, em fun~iio de coeficientes, conforme sejam encon- cheux apresentam o seguinte dominio:
trados ou nao os mesmos elementos nas mesmas categorías.
Quanto a F, vemos que os 2 enunciados a esquerda sao identicos os homens solicitam os empregos públicos
( 0000 ) , .a tribuiremos 5. Na coluna D 1 atribuiremos O ( R ;E!: q, ), O todos os homens tém um fundo secreto
1
para os N1 (HOMM ;E!: Nous), O para os verbos, 5 para a coluna Ptep nós temos duas máos
(* = *. O para D2 e O para o N2. todos os seres tém um fundo secreto
Os enunciados a esquerda, quanto a sua rela~ao de proximidade, tem
um total de Em outro artigo, M. Pecheux, el. Haroche e P. Henry consideram o
5 + 5 = 10 seguinte dominio:
A mesma opera~ao referente aos enunciados B e D dá um total de a luta pela defesa das liberdades
12 ( 5 para a forma do ·enunciado 0000, 2 para a cópula ser/estar, e a luta pela defesa da U .N .E .F.
5 para a coluna PREP) . .
a luta pela defesa do marxismo
Donde 10 + 12 22 = 2
a luta pela realizafáo da uniáo ( operários-estudantes)
22 < 28. Lembremos que 28 foi escolhido comó entrada a partir da a luta pela vitória do proletariado
qual o subprograma mantém ou nao os enunciados que podem pertencer ·
a um mesmo domínio semantico. a luta por Uf1'Z~ internacional da juventude
No exemplo anterior, o par de rela~oes binárias correspondente a 7.° Finalmente, pesquisam-se as rela~Cíes do dominio, as substitui~oes
A 51 B nao é mantido simétricas e as substitui~oes nao-simétricas. As substitui~Cíes simétricas
e 51 n sao pares comutativos ou substitutos semanticos. Serao indicados por
O segundo exernplo: tra~os verticais nao-orientados. As substitui~oes nao-simétricas sao
0288 0000 R HOMM SOLL q, * LS EMPL 51 A sintagmatizáveis passíveis de liga~ao por um conector de causa ·ou de
0367 0000 TS HOMM AVOR q, * U FOND 51 e conseqüencia.
5 o 6 .o o5 o o Serao indicadas por flechas verticais orientadas para baixo. Assim,
B quanto ao domínio n. 0 l, vemos que homens e seres ~ao absolutamen~e
B 0289 0000 R EMPL E q, * q, PUBL comutáveis. Por outro lado, há entre todos os homens solicitam os
D 0366 0000 R FOND E q, * q, SEeR. . empregos públicos e nós temos duas máos urna ruptura de simetría.
5 o o 2 o5 o o Poderíamos sintagmatizar esses dois enunciados dizendo "porque" nós
Ou 5 + 6 + 5 16 = temas duas máos, nós (os homens) solicitamos(am) os empregos
5 + 2 + 5 = 12 públicos.
Total 16 + 12 28 = Donde a seguinte apresenta~ao:
208
209
nós temas duas maos
os homens solicitam os empregos públicos
todos os ¡
homens
seres
1
tém um fundo secreto
r
Falta apenas interpretar esses domínios semanticos e suas substi-
tui~5es de equivaléncias (simétricas) ou de implicafoes (nao-simétricas)
para caracterizar a configura\ao semantica de um discurso. Notas do capítulo 7
No total, o método ainda tem que ser aperfei\oado em dois planos
principais. Por um lado, precisa desenvolver urna teoría dos substi-
tutos dos conectores e, por outro, precisa encontrar um meio de deter- l. N. RuwET, Introduction a la grammaire générative, París, Plon, 1967, pp.
minar quase automaticamente as substitui~óes simétricas e as substi- 233-240.
tui~óes nao-simétricas. Contudo, do modo que está, parece-nos ir muito
2. S.
z. HA.RRIS, "Discourse analysis", trad. de F. DuBOIS-CHARLIER, in Lan-
gages n.• 13, mar~o de 1969.
mais longe que as pesquisas de co-ocorrencias na abordagem dos meca- 3. z. S. HARRIS, "Co-occurence and Transformatíon in linguistíc structure",
nismos discursivos. Langage n.• 33, 1957.
"Para concluir, levantaremos rapidamente duas questóes que, ao 4. z. S. HARRIS, Structures mathématiques du langage, trad. de C. FucHS,
París, Dunod, 1971. ·
nosso ver, comandam diretamente o desenvolvimento. dessa orienta~ao
5. O. DucRoT e T. ToooROV, Dictionnaire encyclopédique des sciences du lan-
de pesquisa. O primeiro ponto diz respeito a urgente necessidade de gage, París, Le Seuil, 1972, p. 309.
definir que semantica o lingüista pode legítimamente empregar em 6. J. DuBOIS, Grammaíre structurale du fran(aís: la phrase et ses transforma-
sua prática lingüística (de análise fonológica, morfológica e sintática); tíons, París, Larousse, 1969.
a questao da identidade de sentido, particularmente em sua rela~ao com 7. J.-B. MARCELLESI, "Éléments pour une analyse contrastive du discours poli-
o estudo lingüístico das transforma\OeS, é decisiva, e supóe que o tique", Langage n.• 23, setembro de 1971, p. 48. . .
uso espontaneo da no\aO) de aceitabilidade ( semantica e gramatical) 8. a
R. ROBIN, "Fief et Seigneurie dans le droit et l'idéologie juridique la fm
seja precisado pelos lingüistas, no campo específico de sua prática. O du XVIII• siecle", A.H.R.F., n.• 4, 1971.
segundo ponto consiste em ressaltar a importancia dos estudos lin- 9. D. MALDIDIER, Analyse linguístíque du vocabudlaíre poJitiquNe de la guerre
d'Algérie ·d'apres 6 quotídíens parisíens, tese e 3.• c1c1o, anterre, 197 1
güísticos sobre a rela\ao enunciado/enuncia~ao, através da qual o "su- inédito exemplar datilografado, pp. 83-84.
jeito que fala'' toma posi~aono que toca as representa~óes que ele apóia, 10. D. MA~DIDIER, "Lecture des discours de DefGau~e pdar 6 q uotidi'ens pari-
sendo estas realizadas pelo "pré-construído" lingüísticamente analisável. siens: 13 mai 1958", Langue fran(aise, n.• 9, evere1ro e 197 1 , p. 44 ·
É, sem dúvida, por meio dessa questao, ligada a da sintagmatÍZafaO das U. D. MALDIDIER, tese de 3.• ciclo, acima citada, pp. 228-229 ..
substituÍfoes características de urna forma\aO discursiva,. que a contri- 12. D. MALDIDIER, ídem, p. 249. ·
bui\aO da teoría do discurso para o estudo das forma\Óes ideológicas 13. G. PRovosT, "Approche du discours poli tique 'socialisme' et 'socialiste' chez
(e para a teoría das ideologías) pode atualmente desenvolver-se de Jaures", Langages n.• 13, marco de 1969.
forma mais produtiva." 21 14. G. PRovosT, ídem, p. 63.
15. J. DuBOIS e J. SuMPF, "Un modele d'enseignement du Lafrancais: analyse
linguistique des rapports d'agrégation e du C.A.P.E .5. ", ngue 1ran(atse,
n.• 5, fevereiro. de 1970. . .
16. R. ROBIN, "Le champ sémantique de 'féodalité' dans les cahiers de doléances
généraux de 1789", a ser publicado pela A.H .R.F.
·17. ]. DuBOIS, "L'analyse de discours", prt;fácio do, ~vr? de. J:·B. MARC~LLESI,
Le Congres de Tours (déc. 1920): etudes saczo-lzngurstzques, Parts, Le
Pavillon, 1971, p. 18.
18. Cl. HAROCHE e M. PEcHEUX, Manuel pour l'utílization. ded lap"!éth o~e
1
d'analyse automatique du discours (A.A.D.), _Laboratórto. e~ s1coog1a
Social da Sorbonne, exemplar roneotipado em vtas de publicacao.

210 211
19 · q. GAYOT e M. PECHEUX, "Recherches sur le discours illuministe au XVIII•
. sxecle: Oaude de Saint-Martin et les circonstances ", Annales E. S. C. maio.
-agosto de 1971. '
19. IJem, p. 692.
20. a. HA!!'OCHE, P. HENav, M. PEqrwx, "La sémantique et la coupure
saussurnenne, langue, langage, discours", Langages n.o 24, dez. de 1971.
21. Idem, pp. 10.5-106.
CAPÍTULO 8

NOTA SOBRE A ANALISE S~MICA

8. 1 . Generalidades

A n~ao de análise semica ou componenda! é ambígua, na medida


em que pode remeter a lfngua, ao sistema de regras e ao léxico em sua
virtualidade, ou a um corpus preciso, a análise de textos determinados, •
ao vocabulário. Trata-se de urna tentativa para analisar o. conteúdo das
unidades léxicas em tra~os. distintivos, segundo o modelo fonol6gico.
Sabe-se, com efeito, que o fenomeno define-se como um feixe de tra~os
pertinentes. Da mesma maneira, postula-se que a invariante semantica
das unidades léxicas seria composta de um conjunto de tra~os seman-
ticos, de unidades mínimas de significa~o, ou semas.
Este método, quando visa o problema da língua, levanta mais pro-
blemas do que os resolve.
- Exporta, ao nível do léxico, o modelo foriol6gico; postúla que .as
leis de composi~ao das unidades léxicas sejam isomorfas as leis de
composi-;iio Jos fonemas, o que, no mínimo, é imprudente.
- A estrutura~ao do léxico é na realidade nao tanto lingüística como
referencial. Quando B. Pottier 1 define a cadeira como o conjunto de
sernas ''para se sentar", "sobre pés", "para urna pessoa", "com
espaldar", na realidade ele recorta, nao o universo lingüístico, mas
"coisas". Se eu acrescentar aos sernas precedentes "com bra~os", é a
poltrona que defino no plano semantico. Que acontecerá entao, no
caso de as poltronas nao apresentarem mais pés? É o que T odorov
exprime quando escreve: "Imaginemos que se invente hoje urna nova
forma de assento, por exemplo aquele que ergue a pessoa sentada
a cada tres minutos; seriamos· obrigados a introduzir este semá na
estrutura semantica do frances. Ao mesmo tempo, dando enfase a
referencia e nao ao funcionamento da linguagem, omitem-se certos escla-
recimentos necessários, para que riio se produzam frases como "a ca-
212 213

--- _ __ _.... ---------


deira. se levantou sozinha", o u "a cadeira tem febre", ou ainda "a
cadeira tem 49 de pressao"; ou ao menos para se chocar, como tinha
sido o objetivo de B. Vian quando ele as escrevia." 2
f O problema se coloca de urna maneira totalmente diferente quan-
do a análise semica se aplica a textos realizados .. Nao lhe atribuímos
ainda um lugar primordial, pois nao parece que ela possa ser utilizada
como ponto de partida. Em compensa~ao, associada a outros métodos,
- A análise semica esbarra no problema da metalinguagem. Com ao estudo da enuncia~ao, a análise dos enunciados, em complemento
efeito, se digo que um dos sernas de poltrona é "com bra~os", é neces- de métodos lexicológicos e estatísticos, seus resultados estao longe de
sário encontrar um sistema que distinga "com bra~os", enquanto serna, ser negligenciáveis. Alguns exemplos permitirao definir melh9r seus
de "com bra~os" enquanto unidade lexical constituída, ela própria, de
contornos.
sernas formulados por unidades léxicas, e isto até o infinito. Na
ausencia de urna linguagem formalizada distinta das línguas naturais,
o problema da metalinguagem da análise semica permanece.
- A análise semica choca-se ainda com o problema das fronteiras, dos 8. 2. As for!fas oponentes em "Le Pere Duchesne" G
limiares entre os "sernas genéricos" e os "sernas específicos". Dis-
tinguem-se, com efeito, sernas com valor de generalidade, ex.: animado/ O estudo das for¡;as oponentes foi conduzido em fun¡;ao de um
/nao animado, animal/humano, etc., e sernas específicos, mais direta- modelo actancial muito próximo, sob certos aspectos, da análise semica,
mente em liga~ao com o conteúdo da unidade léxica considerada. Entre- "surgindo a análise actancial como um dos princípios possíveis de orga-
tanto, as distin~óes nem sempre sao muito claras. Se se tomar a uni-
niza¡;ao do universo semantico ... " 1
dade léxica "camelo", dir-se-á que "animado, animal" sao seus sernas
genéricos, mas onde colocar o serna "de quatro patas", se por outro - O actante designa urna entidade semantica, unidade de narrativa,
lado se afirma que o serna específico de camelo é o número de bossas urna classe de atores.
- aquí, "duas bossas"? Certos sernas parecem, pois, poder classificar- - O atar é urna unidade léxica do discurso. Seu conteúdo semantico
-~e indiferentemente ao nível dos sernas genéricos e ao nível dos sernas mínimo é definido pela presen¡;a dos sernas:
específicos. "a) entidade figurativa (antropomórfica, zoomórfica ou outra)
Além do mais, os sernas específicos podem variar em fun~ao da re- b) animado,
ferencia e da situa~ao. Se digo que o- serna específico de cadeira é e) suscetível de individualiza¡;ao." 8
"com espaldar", é que a oponho a tamborete, que conteria os sernas - O papel: "Ao nível do discurso, manifesta-se de um lado como
" sobre pes
, ,, , " para se sentar , , " para urna pessoa, , mas nao
- o serna qualificafáo, como um atributo do ator, e de outro lado esta qualifi-
"com ·espaldar". Em compensa~ao, se comparo a cadeira a mesa, o ca¡;ao, do ponto de vista semantico, nada mais é que a denomina~ao
serna específico de cadeira será "para se ~entar", e assim por diante. que engloba um campo de funfóes ( isto é, de comportamentos real-
- Sernas específicos e sernas genéricos sao construídos sem levar em mente notados na narrativa ou simplesmente subentendidos ... 19 •
conta o eixo sintagmático e as distribui~oes, numa palavra, a sintaxe. O papel define assim as qualifica~oes do ator, mas também suas
Isso vale tanto para Bottier como para A. J. Greimas, cujo objeto é fun~oes. E o que V. Propp chama "as esferas de a~ao". 10 Esta dupla
mais complexo, mas igualmente afastado de toda sintaxe. 3 accep~ao de "papel" está claramente valorizada pelos trabalhos de G.
Neste sentido, a análise semica opoe-se as pesquisas distribucio- Dumezil que, segundo Greimas, optou por definir um Deus por sua
nalistas na perspectiva de Apresjan, 4 ao chomskysmo e aos trabalhos esfera de atividade, a partir do inventário das mensagens funcionais
de Katz e Fodor, e as pesquisas sintático-semanticas (Fillmore). 5 de um corpus de proposi¡;óes no qual o Deus entre como actante,
e pela totalidade das qualificafÓes desse Deus, seus atributos, seus
- A análise semica, enfim,. implica urna teoría geral que postula urna
concep~ao atomística do sentido, e urna estrutura universal dos sernas
nomes, etc.
(capítulo 1 ) . As for~as oponentes em Le Pere Duchesne repartem-se entre ini-
Por todas as razoes acima enumeradas sucintamente, a manipu- migos externos e inimigos internos ( sendo a segunda rede, de longe,
l~~ao da análise semica deve ser feíta com prudencia quando se opera a mais rica). J. Guilhaumou apresenta da seguinte maneira os atores
ao nível da língua. (inimigos, ricos, nobres, oponentes no seio da Conve:n~ao) do actante

214 215
for~as oponentes) e seus papéis ( qualifica~óes e fun~óes). Ver-se-á
que qualifica~óes e fun~óes nio passam de tra~os semanticos ou sernas. u urna nova cambada de patifes e de intrigantes·
nobres, juízes do tribunal revolucionário
Custine, Dumouriez, Estado-Maior,
8. 2.1. Inimigos soldados dados a excessos
qualifica~óes e fun~óes fazer cachorradas
preparar armadilhas
¡' Inimiqos de fora ligar-se aos inimigos do povo
r' - estrangeiros
trair-nos, entregar-nos a nossos inimigos
entregar « Fran~a aos nossos inimigos-
austríacos entregar o Norte aos nossos inimigos
prussianos acabar de entregar nossas mais fortes cidadelas a nossos inimigos
ingleses entender-se com os inimigos do povo
- escravos querer recorrer a trai~ao
- fracasso (no futuro) querer perder o povo
fugir diante de nós querer entregar a Fran~a a nossos inimigos
estar cercado por todos os lados querer negociar a rendi~ao de Mogúncia a nossos inimigos
querer entregar Condé e Valenciennes a nossos inimigos
hünúgos de dentto - ar;ambarcamento ·
a~ambarcadores
- inimigo principal querer a~ambarcar todas as subsistencias, todos os gene~os
ser mil vezes mais temível do que ·os inimigos de fora subtrair as subsistencias aos pobres sans-culottes
- pequeno número - moderar;áo
um punhado o maior inimigo da unanimidade: aquele que quer poupar os traidores
um contra mil - federalismo e divisáo
nao poder reduzir os sans-culottes pela for~a federalistas
-· unidade querer que os parlSlenses se entredevorem
reunir-se. colocar-nos como cio e gato
-. r!queza - volta a realeza, ao Antigo Regime
ricos homens do Antigo Regime
financista, banqueiros aristocratas
serem todos ricos realistas
- concentrar;áo em París querer provocar a volta do Antigo Regime
serem reunidos no be~o .da liberdade querer colocar no lugar da árvore da liberdade o cipreste da realeza

Contta-Revolu~áo
8.2.2. Ricos
um punhado de <:ontra-revolucionários
querer combinar a Contra-Revolu~ao qualifica~óes e fun~óes
- trair;áo - riqueza, avaret.a, egoísmo, corrupr;áo
traidores, conspiradores argentários
falsos patriotas, intrigantes egoístas infames
ter um interesse
216
217
só pensar em seu interesse. 8. 2. 3. Contra-Revolufáo
ter propriedades, urna fortuna, milhoes a seu servic;o um punhado de contra-revolucionários
prezar suas propriedades
amontoar .soldo sobre soldo - afambarcamento
construir palácios agiotas
ser de urna avareza sórdida ac;ambarcar o trigo e os víveres, todos os víveres
ter um primeiro talento: corromper enterrar seu numerário em suas adegas
- explorafáo ter em suas maos todos os meios de subsistencia
impedir a drculac;ao dos meios de subsistencia
enriquecer-se com a Corte e os nobres ( no passado)
ceder o trigo apodrecido de seus celeiros e a prec;o de ouro
construir sua fortuna sobre a ruína pública querer deixar o povo com fome
comedores de carne humana ·
insultar a miséria pública
- autoridade
- federalismo
ter autoridade, autoridade rebeldes
homens poderosos revoltados
querer fazer a lei zombar da República
- inimigo dominante detestar a República
os maiores inimigos da República zombar dos decretos da Convenc;ao
nossos mais cruéis inimigos fornecer provisoes aos bandidos da Vendéia
- pequeno número querer lanc;ar abaixo o templo da liberdade
um punhado - volta a realeza
- re11egados da sans-culotterie querer um rei
renegados da sans-culotterie querer um reí na constituic;ao
dar a mao aos sans-culottes para destruir a nobreza e os parlamentos querer o restabelecimento da realeza
( no passado )
separar-se da sam-culotterie (no presente)
8.2.4. Nobres
estar cansado da Revoluc;ao
virar casaca qualificac;óes e func;óes
declararem-se todos inimigos da República - parte do conjunto "pessoas de qualidades" ( oficiais + banqueiros
- inimigo nao irredutível + nobres) ·
opinii:ío do Pere Duchesne nobreza, aristocracia
dever: ser um aristocrata (antes de 1789)
consultar o simples bom senso e seu próprio interesse nobres
unir-se a sans-culotterie - primeiros os inimigos no tempo
expulsar •o inimigo comum
raciocinar . 1
- nova aristocracia con_tra nós, desde os primeiros días da revoluc;ao
agir
aristocracia dos ricos
colocar-se no lugar dos aristocratas - inimigo irredutível
suceder a aristocracia dos nobres naó" poder se tornar um bom cidadao
querer colocar-se no lugar dos grandes nao poder mudar imediatamente de caráter
nao poder ,atirar-se as cegas a Revoluc;ao

218 219
nao poder amar de boa-fé a liberdade e a igualdade covarde do Antigo Regime
querer reestabelecer a realeza e a nobreza
- pequeno número querer proclamar o pequeno Capeto rei
um contra mil
- fraqueza
nao serem os mais fortes 8.2.5. Os oponentes no seio da Convenfáo
- concentrafáo em Paris qualifica~oes e func;oes
ser vinte mil em París
esco.nder~se em París No passado
- explorafáo
cevar-se com o sangue dos sans-culottes brissotinos *
homens de Estado
patifes da Gironda
Contra-Revoluc;áo répteis, víboras do pantano
Brissot, Vergniaud
fazer, querer fazer a Contra-Revolu~ao
dividir os papéis No presente
• no exterior
- Coblentz - membros da Montanha
Patife de Coblentz patetas da Montanha
percorrer toda a Europa para recrutar inimigos "montanheses" de duas caras
• no interior Danton, Barrere, o saltimbanco Lacroix, o bisbilhoteiro Thuriot
- Vendéia - últimos inimigos em data, inimigos novos, renegados da sans·
- os mais espertos -culotterie
tentar ser os mais fin.os nova súcia de trapaceiros e de intrigantes . \

ficar na Fran~a entre nós novos homens de Estado


- traifáo novos brissotinos
traidores chegar a Conven~ao como verdadeiros s{lns-culottes (passado)
conspiradores virar casaca a sans-culotterie (presente)
acabar sempre por trair a pátria querer substituir os brissotinos
• a frente dos exércitos querer formar ao lado dos federalistas
Custine - riqueza
Dumouriez estar abarrotado de ouro
Estado-Maior ter magníficos carros, tetras e castelos
viver a frente dos nossos exércitos
- talento
perpetuar a guerra por suas trai~s
• disfar~ado em sans-culottes '
monte
, . de tagarelas
.
espl!ltos sentenc1osos
- divisáo
grandes palradores
usurpar a confian~a dos sans-culottes
querer enganar-nos
querer trair os sans-culottes em particularidades . * Partidários de Brissot, um dos chefes dos girondinos,' decapitado em 1793
[N. T.].
- volta a realeza
221
220
- -- - - -- - - -- -
.
¡(T

~ pregadores de moral a perder de vista


aqueles que pretendem ter mais espírito, talento de político ~
~ advogados, jornalistas ~
>-<
<:
.....
(.) u
~ ser ouvido pela convem;ao ~ <:
ser o senhor de tudo na conven~ao !X: <:
N
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u
conduzir os "montanheses" pelo cabresto o(.) ~
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.....
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<:
Contra-Revolu~áo <
estar-se preparando para a Contra-Revolu~ao o
- trai{áo •<
u-
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pérfidos acobertados com a máscara do patriotismo ,._:¡
falsos patriotas o::>
serpentes insinuadas na "Montanha" .¡:.t.¡
~
"montanheses" de dupla cara <:
!X:
traidores da "Montanha" E-<
amigos de Custine z
protetores de Custine o
u
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o día 31 de maio: os mais covardes, os mais desprezíveis dos intrigantes
trair •. adular os sans-culottes
querer entregar a Fran~a a nossos inimigos
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querer levar a Conven~ao ao fim <
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deixar arrastar-se o processo de Custine tn~v
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trapaceiros, moderados ......


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enganar a Conven~ao 4)

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frear os passos da Conven\ÍÍO <:
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-o 4) (/)

impedir a Conven~ao de fazer o bem o>L. z


opor-se a todas as grandes medidas
Cl .S .!:: ::>Q.J uo-
·- J,..j
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tratar com d~ra os rebeldes de Liao Cl Cl 1 1 1
querer pedir anistia para os deputados brissotinos
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querer dar ampla liberdade ao lobinho .....
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querer reinar com o nome de urna filha de Luís z o
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222
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8.3. Feudo e senhorio no século XVDI FEUDO E SENHORIO NO SÉCULO XVIII 12

Estudando, nos manuais dos práticos do direito feudal, as defi- Agentes dessa rela~áo:
ni~óes e os comentários dados a prop6sito de "feudo" e de "senhorio"
senhor1vassalo
no século XVIII, tentamos reduzir a informa~io recebida em unidades S.C.1
semanticas mínimas. Para tanto, distinguimos o núcleo sémico da defi-
ni~io, correspondendo, ao emprego suposto essencial, fundamental, ne- Propriedade
. cessário ao entendimento da defini~io, e os semas contextuais que Rela~iio
correspondem a redu~io dos exemplos, ilustra~óes, complementos for-
necidos pelos manuais de direito, · ao nível da defini~io dos termos.
jurídica
de dependencia
H Legisla~ao dessa rela~ao
S.C.2
Ex.: a a
o feudo é uma terriz obrigada fidelidad e e vassalagem N.S.
o vassalo tem o domínio útil do feudo, o senhor, o domínío
eminente Categorías superiores da sociedade
os feudos estao subordinados a leis particulares: recensea- S.C.3
mento, comisso, resgate, laudémio, direito de reivindiéaflzo, Sernena de feudo
etc. N.S. : Núcleo sernico
vassalo e senhor sao pessoas de dignidade. As pessoas vis que S. C. 1: Serna con textual n.0 1
possuem um feudo devem ao rei o franco-feudo. S.C.2: Serna contextua! n.o 2
S. C. 3: Serna con textual n.o 3
. "Terra obrigada a fidelidade e a vassalagem" corresponde ao co-
ra~io da defini~io daquilo que é absolutamente necessário para com- Agentes da rela~iio
·Agentes dessa rela~ao · -..--- de nivel 2
preender em que consiste um feudo. Propusemos o serna 'propriedade- senhor / vass~lo senhor/ arrendatário
-rela~io jurídica de dependencia" para dar conta dele: a terra que re-
-mete a um tipo específico de propriedade, mas que s6 é propriedade S.C.1 S.G.1·
porque existe urna rela~ao de dependencia jurídica entre o senhor e o
vassalo. Legisla~ao Propriedade Legisla~ao da
Ao núcleo semico assim .isolado, acrescentam-se tres sernas contextuais dessa - rela~ao - rela~iio de nivel 2
que dio contadas adjun~óes definicionais. O primeiro serna contextua!
coloca em a~íio os atores da relafáo ( senhor/vassalo )~·o segundo, a
legislafáo desta rela~íio ( comisso, direito de reivindica~íio, resgate,
S.C.2
rela~ao
-- Superioridade·
N.S. S.C.2

etc.), o· terceiro, enfim, situa os atores ao nível da nobreza, sendo o Categorías


feudo urna terra nobre, de di~nidade. Categoría sup. da
superiores
s,ociedade/ cat. inf.
O núcleo semico de senhorio compreende, numa rela~íio de inclu- da sociedade
sao, o núcleo semico de "feudo", mais um serna específico, que é "supe- S.C.3 . S.C.3
rioridade", implicando a domina~io, o privilégio, o poderío, a autori- Semema de 'senhorio
dade. N.S. Núcleo sernico
S. C. 1 Serna con textual n.0 1
Os sernas contextuais escalonam-se em dois · níveis. Um níyel 1, S. C. 2 Serna con textual n.o 2
que é o mesmo que o dos sernas contextuais de "feudo" (atores, legis- S. C. 3 Serna con textual n.0 3
la~io da rela~io, atores situados no plano superior da sociedade), e S. C .1 Serna con textual n.o 1
•.. um nível 2, que coloca em a~io novos atores ( senhor/foreiros); a S. G. 2 Serna con textual n.0 2
S. C. 3 Serna con textual n.o 3
legisla~io desta nova rela~io que nao concerne mais a.os feudos, mas a
Rela~ao de nível 1 = S. C de feudo.
Rela~iio de nível 2 =. sernas diferentes de feudo.
224
renda anual dos feudos, aos direitos do senhor sobre a plebe, a situa~ao A defini~ao por povos /geografía/ nao tem nenhuma posteridade
dos atores, um dos quais fica na categoría dominante da sociedade, no verbete; só escravo é desenvo~vido ao mesmo tempo como objeto
enquanto que o outro (o foreiro) nao pode mais, salvo por assimila~ao de comércio e produto do comérc1o.
fraudulenta, ser considerado vassalo. A estrutut:a do artigo nao é polissemica, o que implicaría frases
A compara~ao dos sememas (conjunto de sernas) de "feudo" e de do tipo: ''Há povos. Os europeus arrebatam homens do seio de certos
"senhorio" permite concluir que, no pensamento um pouco petrificado povos e os transformam em escravos." O texto é sino~ím~co (os negr~s
dos juristas, feudo e senhorio nao se confundem, enquanto que, ao sao povos e escravos. Aquí, negros, escravos, povos, sao stmples substi-
mesmo tempo, o pensamento político e polemico íntroduz os dois ter- tutivos, o que é claramente indicado pelas re~oma,da~ p~r "estes" .. ~s~a
mos na "feudalidade". oculta~iio do problema da escravatura pela smommia situa-se no tmcto
Dir-se-á que nossos sernas nao correspondem a unidades mínimas e no fim do texto (/mercadoria/, /produto do comércio/).
de significa~ao, que sao complexos e ainda suscetíveis de redu~ao. Ela é completada por urna outra poli~semia sintagm~ti:a 9-ue m.as-
Nao discordamos. O historiador trabalha essencialmente com rela~óes, cara a transforma~ao de povo a escravo: ststema de opos11;ao mveruda
até mesmo com rela~óes de rela~óes. Daí, a complexidade das no~óes
e das realidades que manipula. Deste modo, o que procuramos fazer é A) Negro/mercadoria/vs povo/mercador/.
decompor as defini~óes em unidades reduzidas que carregam, num B) Negro/vendedores/vs escravos/vendidos/.
'
mínimo de unidades léxicas, o máximo de informa~ao. Estas unidades Esta segunda oposi~ao se refor~a pela divisiio em dois do con-
reduzidas sao chamadas semas OU trafOS semanticos, tendo viva cons- . junto escravos ( passivo, refletido): "Uns sao vendidos, outros vende~­
ciencia de que nao podemos atingir o nível da unidade mínima de signi- -se", a divisiio de um subconjunto de negros que se vendem entre Sl.
fica~ao. Tais como se apresentam, estas unidades reduzidas parecem- Assim, os negros-escravbs estao s~zinhos .em c~na: Os c,o;nprad~res
-nos dever esclarecer os problemas, autorizam a compara~ao das defi- europeus desapareceram. Neste artlgo, polissem1a smtagm~tlca e smo-
ni~óes entre si, e é gra~as a este instrumento conceitual, ainda que um nímia ( um termo para vários sernas e um serna para vános te:mos)
pouco em estado artesanal, que pudemos estabelecer o que para os refor~am-se em suas próprias contradi~óes, para mostrar que nao há
juristas do século XVIII diferenciava o feudo do senhorio. u m signo que remeta a conteúdos ligados (problemática da escrava-
Acrescentemos que os lingüistas, tanto quanto os historiadores, tura), mas a um único conteúdo ( início e fim do texto}. Quando esta
nao chegam, na maior parte das vezes, a estas tao desejadas unidades posi~ao é insustentável (no momento da transforma~ao de povo em
mínimas de significa~ao. Num artigo recente, J. Peytard 13 faz de "via escravo) serve-se sucessivamente dos mesmos termos nos usos con-
de circula~ao" um serna. Ora, "vía de circula~ao" é urna unidade trários, ~ que assegura completamentarmente a coincidencia semica e a
reduzida complexa, provavelmente suscetível de novas redu~óes. Po- unidade do conteúdo.
deriam multiplicar-se exemplos similares. No estado atual da pesquisa,
estabele~amos que a constru~ao das unidades reduzidas, chamadas sernas
ou tra~os semanticos, longe de estar formalizada, depende ainda muito
da intui~ao do pesquisador e de seu objetivo.

8. 4. "Negros" no "Dicionário de Comércio" de Savary des


Brulons (1723)

No esquema abaixo, os sernas es tao entre / /, enquanto que as


unidades léxicas realizadas no texto apresentam-se sem barras nem
colchetes. Os sernas deste quadro estao estabelecidos em fun~ao do
uso da palavra negro( s) e de seus substitutos no verbete "negro" do
Dicionário de Comércio de Savary des Brulons ( 1723). 14

226 227
Notas do capítulo 8

·a'a.. ~- B. ;J?oTTIEit, "Vers une sémantique moderne", Trizvaux de linguiftique el


....... o· l.
e
·¡¡; .s·o de lillbature, 11-1, Estrasburgo, 1964.
"' 2. T. Tooottov, "Présentation" a "Recherches sémantiques", Langages 4, n.• 1,
m~ de 1966~ _ ·
CJ
3. A~ J. GttEIMAS, Sémantique structurale, Paris, Larousse, 1966.
"'
J. APttESJAN; "Analyse distributionnelle des significations et champs séman-
..e
E 4.
tiques structurés", Lan,gages 1, mar~ de 1966.
~ 5. Sobre Fillmore, na Fran~a. ver os trabalhos de S. SLAKTA (ver bibliografía).
5 6. J. GuiLHAUMOU, L'idéologie du phe Duchesne: 14 iuillet 1793-6 ieptembre
u
::S "'
o 1793, tese de tnestrado, Nanterre 1971, inédita.
u C"t: 7. A. J. GREIMAS, Sémantique structurale, Paris, Larousse, 1966, p. 174.
"'

rl
. "'
o"' o::S
~o
z•
8. A. ]. GniMAS, "La strucrure des actants du rédt", in Du sens, París,
Le Seuil, 1970, pp. 225-256. ·
9. A. J. GREIMAS, ídem, p. 256.
"'"'
u •..s e"'
,.J::::S 10. V. PROPP, Morphologie du. conte, París, Gallimard, 1970, p. 97.
11. J. GurLi:IAUMOU, obra citada, pp. 76, 77, 80, 81, 84, 85, 88-90.
12. . R. ROBIN, "Fief et seigneurie dans le droit et l'idéologie juridique a la fin

-l
du XVIII• siecle", A.H.R.F., n.• 4, 1971.

r----.
-~
....
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~
u
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~
t 14---.t 'E
-o·
'"O
5.... ..
8.
u
'"O
13.
14.
J. PEYTAID, "De l'ambiguité .sémantique dans les lexies préfixées par auto",
Langue franfaÍse, n.• 4, dezembro de 1969.

em Langue fram;aise, n.• 15, set. 1972.


·
S. DELESALLE e L. VALENSI, "Histoire et lexicographie", a ser publicado

·-· e ~
1 1
e
- "'e j
1 1

-
1 1
1
1 .,.,
o 1
1 - u
f!
.....
:1 'U
·~ :
•e
: o
¡u,
:-:
..___ ...
1
1 1
1

229
. (
Coeficiente de lexicalidade
Se N I T o número de itens do total do texto
N I F = o número de itens funcionais do texto
NI L = o número de itens léxicos do texto
L~XICO NIT
- - - esta relac;ao é tanto maior quanto N I F é menor e, por-
NIF
A maior parte dos termos utilizados foram explicitados no texto. Entre- tanto, N I L é grande, urna vez que
tanto, para facilitar a leitura, apresentamos um léxico sucinto, que
se baseia em numerosas obras, particularmente em O. DucROT e T.
NIT-NIF+NIL
ToooRov, Dictiotmaire encyclopédique des sciences du langage (París, Esta relac;ao é chamada coeficiente de lexicalidade. Tende para
Le Seuil, 1972}, no léxico que figura no fim do artigo de L. GUILBERT, 1 quando a proporc;ao de itens funcionais aumenta, e para o infinito
"A forma~ao do nome 'a comuna de París' no discurso de Marx", La quando a dos termos léxicos é a mais importante.
Nouvelle Critique, número especial, 1971, e em J. PEYTARD e E.
GENOUVRIER, Unguis tique et enseignement du franfais (París, La- Coeficiente de redundancia funcional
rousse, 1970). Este léxico, é necessárío assinalar, nao tem nenhuma
pretensao científica. Visa somente a facilitar a leitura da obra. NIF
NFF
Campo léxico. campo semantico
Coeficiente de redundancia geral
Segundo ]. PEYTARD e E. GENOUVRIER. NIT
O campo léxico: é o conjunto de palavras que a língua reagrupa
ou inventa para designar os diferentes aspectos ( ou os diferentes tra~os NFT
semicos) de urna técnica, de um objeto, de urna n~ao: campo léxico
de "o automóvel", de "a aviac;ao", de "a álgebra" de "a moda" de Coeficiente de redundancia léxica
"a idéia de Deus", etc. ' · . '
O campo semántico: é o conjunto dos usos de urna p~lavra ( ou R = coeficiente de redundancia léxica
sintagma ou lexía), nos quais esta palavra adquire urna carga seman- número de itens léxicos
tica específica. Para delimitar estes usos, faz-se o levantamento de R =
todos os contextos que a palavra conhece num texto dado. número de . formas léxicas
R = 1 quando todas a palavras do texto sao diferentes e aumentam
Coeficiente de funcionalidade a medida em que o número das formas distintas diminui. .

NIT Competencia/performance
Este coeficiente é tanto mais alto quanto N I L é pe-
NIL a
Em Chomsky, a competencia é aptidao do sujeito falante para emi.tir
quena e, portanto, N I T grande. ·Segundo L. Lafon: "Representa a e para compreender frases nunca ouvidas; a performance é a manetra
· proporc;ao de itens funcionalizados no texto e, conseqüentemente, dá pela qual a competencia lingüística é colocada em ac;ao nos atos da
urna indicac;ao sobre o estilo." · /ala. Apesar de grandes semelhanc;as, a oposic;ao chomskyana pode ser

230 231
considerada, segundo os termos de D. Slakta, como urna reformula~io Enunciado. Enuncia~áo
por língua/fala de Saussure, urna vez que a competencia dá conta da
"criatividade da linguagem", que Saussure remetia a fala. ~ preciso O enunciado designa urna seqüencia de frases entre dois blocos seman-
sublinhar a novidade do método chomskyano, que consiste em partir ticos.' O enuncia<lo pode ser apreendido em sua oposi~io com a enun-
da frase, enquanto que~ com Saussure, estava essendalmente no ambito ciafáO. Remete entio ao funcionamento da língua, isto é, a uma com-
das realiza~óes individuais, portanto da palavra. binatória de elementos lingüísticos. A enuncia~io apreende os tra~os
do ato de produ~io do enunciado em condi~s de produ~io ddinidas
Corpus e específicas (ver modalidades, .performativo). ·
Conjunto de textos sobre os quais se aplicou um método definido.
Língua ·
Dlstribul~áo. DistribucioD.alismo Na perspectiva suassuriana, é a parte social da linguagem, um sistema
·de signos que corresponde a idéias distintas, "existindo o sistema gra-
Chamam-se distribucionalistas os lingüistas que praticam o método dis- matical virtualmente no cérebro". Por oposi~io, a /ala será a realiza~io
tribucional - que consiste em definir com rigor um método formal de individual da língua e nao constituirá, contrariamente a língua, objeto
segmenta~io da cadeia falada · em unidades distintivas, definidás unica- da Lingüística. ·
mente pelas rela~óes que i:nantem nesta cadeia, isto é, por seu contexto.
Ele se aplica em níveis diversos (fonológico, morfemático) e define·
as possibilidades de combina~óes das unidades. Lexema
Segundo Ch. Muller, "destinar-se-á o termo lexema as unidades que
!~contr
Ex.: inencontrável é constituido pela combina~io de
3 morfemas compóem o léxico; quando estas unidades virtuais sio atualizadas no
1ável discurso, chamar-se-á cada urna delas vocábulo, designando o termo
palavra toda ocorrencia de qualquer vocábulo". Na realidade, a maior
Ex.: "o menino acaricia o cachorro"¡ as restri¡yóes próprias do frances parte do tempo, utiliza-se indiferentemente lexema, vocábulo ou uni-
tornam impossível a combina¡yao dade léxica.
''o * menino o cachorro acaricia"
(O asterisco significa: frase ou estrutura mal formada.) Modalidades. Modaliza~áo·

Designam os elementos lingüísticos que definem a marca que o sujeito


Enqrenadores ou "shifters" falante dá a seu enunciado. Uns pertencem aos verbos: modos (opta-
tivo; subjuntivo)' outros a fraseología (talvez, sem dúvida, provavel-
O termo é empregado por R. Jakobson. E. Benveniste designa a mesma mente, etc.), que indicam a incerteza ou a indecisao. Na ótica trans-
realidade sob o termo de elementos indiciais. formacional, serio integrados na n~io de modaliza~ao, transforma~es
Designa urna classe de elementos lingüísticos da esfera de classes gra- modalizadoras (enfase, passivo facultativo, nega~io, interroga¡yio), os
maticais diferentes: pronomes, advérbios, marcas de tempos verbais, en,unciados. referidos, etc. (ver cap. 1 ) .
verbos de fala, performativos. Termos vazios, nao-referenciais, tomam
sua significa~ao em cada instancia da mensagem. Escreve R. Jakobson: Morfema
"Todo código lingüístico contéin urna classe especial de unidades gra-
maticais, que se podem chamar engrenadores: a significa~ao geral de Unidade lingüística mínima significativa. .Esta unidade .pode ser urna
um engrenador nao pode ser definida fora de urna referencia a men- palavra - irmi, cabe~a •. cria~io - ou um elementQ combinado riuma
sagem." palavra de sentido pleno. . . .
Ex.: em inencontrá~el há tres morfemas in-encontr-ável.
232.
Performativo Diz-se ainda que é urna unidade de discurso que se isola no · etxo
sintagmático, ao longo da cadeia falada.
1) Num sentido rigoroso: originário do filósofo ingles Austin, o per-
formativo designa verbos de fala, na primeira pessoa do singular do
Transforma-;áo (sentido harrissiClll
presente, cuja enuncia~ao constituí urna a~ao e modifica urna situa~ao.
Ex.: Declaro aberta a sessao, Rela~ao de equivalencia gramatical entre 2 frases ou 2 estruturas lin-
por oposi~ao ao enunciado constativo: o presidente declara aberta a güísticas que comportam os mesmos morfemas.
sessao. Ex.: o gato comeu o rato
2) Num sentido mais amplo, encontrar-se-á o termo pedormativo para o rato foi comido pelo gato
designar os verbos que tendero a provocar no destinatário certa a~ao Ex.: o a:r é doce
ou certa atitude. Ex.: o imperativo, o futuro, o subjuntivo, assim como a dofura do ar
os modais: dever, poder, ser preciso, querer.
Ex.: o aviao aterrissou
a aterrissagem do aviao
Fonema
Estas transforma~óes implicam que nao haja, fundamentalmente, modi-
Unidade mínima distintiva, nao provida de sentido. Os fonemas con- fica~ao do significado. E necessário nao confundir o sentido harrissiano
tribuem sornen te para a. significa~ao. da palavra transforma~ao com aquele que se encontra em Chomsky,
Ex.: no contexto ampe a presen~a do fonema /L/ ou do fonema /R/ ande designa opera~óes abstratas que permitem passar de urna estru-
acarreta urna diferen~a de significa~ao, em frances: tura .profunda, ela própria abstrata, a estrutura de supedície.
Lampe (lampada)
Rampe (rampa) Vocab~ário

Sema Por oposi~ao ao léxico, que compreende todas as unidades que se .


podem utilizar, que é um conjunto virtual, entender-se-á por vocabulário
Sentido geral: por postulado de isomorfismo entre significante e signi- as unidades léxicas efetivamente utilizadas.
ficado, unidade mínima de significa~ao, como o fonema é urna unidade
mínima do sistema da língua: De onde:
1) Teorías puramente semanticas, como as de Greimas, que querem
explicar toda língua ao nível do conteúdo pelas combina~óes de sernas.
2 ) T eorias léxicas ( Pottier), nas quais se combinam análises semicas
e': ~ampos semantjcos. .
3) Nas perspectivas da gramática transformacional, podem-se chamar
serna, ou tra~o, certas características contextuais ou inerentes as uni-
dades léxicas, em liga~ao com a sintaxe ( Chomsky, Katz e Fodor).
4 ) Sobre um corpus de textos realizados, e nao na língua, os sernas
sao construídos em fun~ao dos usos do termo, de seus contextos e de
suas substitui~óes ..

Sintaqma
Chama-se sintagma urna combina~ao de morfemas ordenados em torno
de um nome ( sintagma nominal) ou de um verbo ( sintagma verbal).

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mai 1968, publica~ do laboratório de lexicología política da E. N.S. de
Saint..Cloud, policopiado, 1971.

Mar~o-abril 1972.

Numerosas comunica~ nao puderam aparecer no c;¡uadro li~Jta?o ~esta obr~.


Remetemos ao número especial do Mouvement soctal sobre Htst6rt~ e Lext-
cologia", em preparo. Remetemos em particul.ar a co~~ca~o de J. Gutlhaumou:
"L'idéologie du Pere Duchesne; les forces adJuvantes. ·

1
'

244

J
GÉRARD GAYOT

DISCURSO AMISTOSO E DISCURSO POL~MICO

Os franco-ma~óes do interior
e o Grand~_Oriente da Fran~a no século xvm
Os historiadores, há cerca de um século, apresentaram balan~os
da franco-ma~onaria no século XVIII, onde o estudo dos "empregos"
foi privilegiado em rela~ao ao dos "recursos". E ainda mais: parece
que, na maioria dos trabalhos publicados, os diferentes cargos do
"ativo" ma~onico - beneficencia, temas de reflexao, prepara~ao da
Revolu~áo, participa~áo na difusao das idéias - tendo constituído
objeto de urna avalia~áo, o balan~o foi exposto equilibradamente gra~as
a um ¡ogo de escrita que consistía em fazer corresponder ao total dos ,
"empregos", um conjunto de "recursos" pouco ou mal inventariados
- recrutamento das lojas dentro de determinada categoría social, par-
ticipa~ao ma~onica de determinada pessoa, partilha de determinado
comportamento. Contabilidade perigosa, onde o uso das riquezas con-
sideradas tinha prioridade, aos olhos do historiador-contador, sobre sua
avalia-;ao. Urna boa gestao histórica tornava necessária a reconstitui~ao
do "passivo" da franco-ma-;onaria.
O trabalho come~ou recenteinente e, logo, em duas dire-;óes com-
plementares. Aprimeira foi indicada e notavelmente seguida por Mau~
· rice ·Agulhon: consiste em analisar a franco-ma-;onaria como forma
particular de sociabilidade na sociedade do Antigo Regime, demonstrar
minuciosamente o mecanismo de seu funcionamento, comparar cadauma
das p~as as. que fazem parte de outro sistema -. agrupamento de peni-
tentes, por exemplo. 1 A segunda vía, hoje apenas es~ada, leva ao
.questionamento. da ideología singular que atravessa a associa~áo ma~O­
nica¡ até agora, o encaminhamento mais coerente faZ parte da seguinte
· constata~áo: por freqüentarem as lojas ma~onicas, burgueses e nobres
usaram o mesmo léxico, · sendo que uma parte importante deste tem ·

247
i _______ , - - = """~--------,--------------~'"·-~--"""'-="'"'~
origem no "vocabulário das Luzes"; compartilharam das mesmas ati- a expressao "ter fiscal"! Por outro lado, as Luzes nao permitem a
tudes - porte de espada, por exemplo--; participaram das mesmas produ~ao de um discurso ideologicamente homogeneo, porque os ele-
práticas de inicia~io. Essa participa~io no mesmo grupo de referencia mentos do comportamento léxico comum sao incorporados em discursos
estaría no mesmo nível de identidade da cultura livresca ou escolar em que as "palavras mudam de sentido conforme as posi~óes estabele-
índice de participa~io de certos burgueses e de certos nobres na~ cidas pelos que as empregam", 7 isto é, conforme seus interesses diver-
"elites" das Luzes. 2 gentes. Mal a concordancia sobre o léxico se faz e já as elites se de-
Nao vam~s. aquí iniciar um debate sobre a problemática das elites, frontam no discurso.
embora esta seJa enfocada cada vez mais freqüentemente nas pesquisas Se retomamos a distin~ao entre comportamento e discurso a pro-
históricas empreendidas, há alguns anos, sobre o Antigo Regime. a pósito da ma~onaria, parece, também nesse caso, que o historiador
Convém, contudo, fazer algumas observa~ a respeito de sua apli- nao pode se ater a simples freqüencia as lojas por diferentes categorías
ca~io a franco-ma~onaria. De acordo com o esquema inspirado na teoría sodais, nem ao uso por todos os irmaos de termos como progresso,
das elites, a comunidade cultural das Luzes - donde se originam as fraternidade ou liberdade, comunidade de vocabulário que, oeste caso,
atividades ma~onicas - agruparía a nobreza e a fra~ao superior do é acompanhada pela comunhao de práticas gestuais. Essas palavras-
Terceiro-Estado, !'um amplo movimento unificador, controlado pelos -sinais, essas atitudes corporais sao integradas num discurso de tipo
detentares do pnvilégio, e estendido "a riqueza, a propriedade e ao variável: estatutos ou regulamentos das reunióes, ata de sessao, dis-
talento". 4 Evidentemente, essa tese implica a assimilafáo das Luzes curso de inaugura~ao ou de inicia~ao, cartas, etc. O interesse da análise
a uma ideología, isto é, a um conjunto coerente de representa~óes e de é menos ·o de verificar a presen~ ou a ausencia de tal termo do que
comportamentos que regem as atitudes e as tomadas de posi~io dos o de mostrar os mecanismos de sele~ao e de combina~o desencadeados
homens com rela~ao aos objetos e problemas reais de sua existencia pelo aparecimento desse termo; em resumo, demonstrar o funciona-
no final do século XVIII. Essa conseqüencia, voluntariamente assumida mento do discurso ma~onico. Pois várias questóes ficam sem resposta
pel?s partidários desse modelo de interpreta~iio, merece aten~ao; com satisfatória: de que se fala nas reunióes? Como se fala? Que fun~ao
efeno, ou a assun~iio das Luzes pelas elites é um modo de sua ·exis- desempenha, no século XVIII, o discurso ma~onico? Reproduz as sepa-
tencia e de seu comportamento e, nesse caso, nao é um elemento deci- ra~óes ideológicas do tempo ou, ignorando-as, refere-se a outros temas
sivo na constitui~iio das elites, pois estas nao sao as únicas a se utili- que as transformam e ultrapassam? Esse trabalho pretendía, pois,
zarem das Luz~s; assim, torna-se necessário buscar suas ~ens em · contribuir para a análise do discurso ma~onico, particularmente do
ca~pos - político ou económico - menos tranqüilos que o da cultura, discurso dos franco-ma~óes do interior dirigido ao Grande Oriente da
arnscando-se a nao encontrar nada. . . a nao ser a ausencia das elites. Fran~a.
Ou as Luzes constituem a ideología que fundamenta e unifica elites
guardias de sua coerencia, depositárias de seu programa e desempe~
nhan~o o papel de sua difusio pelo discurso. ti A resposta a essa A constitui~áo do corpus
questao exige, antes de mais nada, múltiplas análises dos discursos
inspirados pelas Luzes, análises conduzidas segundo métodos forne- O método de análise que utilizamos exige urna apresenta~ao pre-
cidos pelo lingüista, que evitam que o historiador caía na armadilha cisa das circunstancias de reda~ao dos textos que constituem nosso
do léxico das Luzes. Para nós, na verdade, a funfáo essencial das corpus. Para definir esse estado dominante e estável das condi~óes em
Luzes foi a de fornecer, aos que se perguntavam sobre o seu século, que o discurso é feíto, responderemos sucessivamente a várias perguntas.
os elementos de um compQrtamento ideol6gico novo e náo de um dis- A primeira é: quem· é essa loja de Charleville que fala desse modo ao
curso novo. 8 Em outras palavras, as Luzes deram ao usuário um con- Grande Oriente da Franfa?
junto de. sinais - . unidades léxicas essencialmente -· no qual ele se Aloja de Saint-Jean dos irmaos discretos de Charleville, que havia
. reconhecia como. homet;n que fala e que le; seu emprego permitia-lhe recebido suas constitui~óes da Grande Loja de Fran~a em 1762, 8 pa-
aparentement: diferenctar-se dos outros que o ignoravam ou dos .que rece sem dúvida enfraquecer-se pelo contragolpe dos confrontos entre
recusavam abertamente o seu uso. Identidade de comportamento léxico fac~óes parisienses rivais. 0 Seu ressurgimento é tardío: assim, enquanto
.. referente ao emprego do termo liberdade, por exemplo? Sim, mas no . a reconstru~áo ma~onica, coroada pelo estabelecimento do Grande
mesmo nível. da acolhida unanime recentemente dada pelos· jornalistas Oriente da Fran~a, é efetivamente realizada em 1773, 10 .os irmiios
248 249

J
discretos enviam sua primeira carta de solicita~ao de reconstitui~ao ao
Centro comum (termo que designa o Grande Oriente), a 24 de julho
de 1774. 11 Analisaremos em outro trabalho as causas desse atraso;
provisoriamente, o que importa é insistir na presen~a permanente, den-
r hipótese de que o aparecimento dessa expressao desencadeia um pro-
cesso particular de sel~iio e de combina~ao de outros termos, "Grande
Oriente da Fran~a" desempenhando o papel de invariante com rela~iio
a um sistema de varia~óes específico do discurso ma~ónico.
tro da loja, a partir dessa data, de urna equipe diretora, responsável
pelas rela~óes epistolares, constituída pelo venerável Dauzas, major da
Apresenta~áo dos resultados
cidade e cidadela de Mézieres, e pelo secretário De Chappes, submajor.
no regimento provinciano de Lille; do primeiro depende a orienta~ao
espiritual da oficina e dos trabalhos, 1! o segundo é encarregado da re- Os resultados obtidos pela análise automática estao reunidos na
da~ao das atas e das cartas enviadas pela oficina ao Centro Comum. 12 . forma de domínios (D1, D2, etc.) que apresentam entre si rela~óes
O destino de De Chappes é ter prestígio, do ponto de vista ma~O­ de dependencia que náo constituem ligafóes de sentido mas rela~óes
nico: será um dos deputados franceses no congresso internacional da estabelecidas pela compara~iio dos enunciados-origem de cada um dos
franco-ma~onaria templária, reunido em Wilhelmsbad em 1782. 13 domínios. Remetemos, neste aspecto, a explana~iio do método. 16
Assim, os emissores do discurso dirigido ao Grande Oriente da Fran~a Para facilitar a leitura dos quadros que viío ser comentados, lem-
sao os mesmos durante cerca de tres anos. Além do mais, a compo- bramos que as barras colocadas entre dois termos ou duas partes de
si~iío social da oficina onde é feíto esse discurso permanece estável enunciados ( Exemplo: D2 ou D19) indicam urna comuta~iío com rela-
durante esse período, com amplo predomínio dos representantes do ~iío ao contexto, isto é, urna rela~ao de equivalencia semantica, um
exército, dos membros da nobreza e do aparelho de Estado. fenómeno de substitui~iio. Por outro lado, as flechas, ao unir duas
Segunda pergunta: quem é esse Grande Oriente de Franfa para subseqüencias, designam urna rela~ao de implic'<l~iio, caracterizando
que a sede dos irmaos discretos !he Jale desse modo? Essa interroga~ao um efeito de sentido, em tal domínio ( Exemplo: D12, onde se observam
refere-se evidentemente a imagem que os franco-ma~óes ardenenses ao mesmo tempo esses fenómenos de comuta~iio e de encadeamento).
fazem do destinatário de suas cartas: Nao se trata de analisar a repre- Talvez seja necessário insistir no fato de que a proximidade entre as
senta~ao do Grade Oriente da Fran~a para os irmaos do interior, pois
subseqüencias é real: elas sao colocadas no mesmo domínio em con-
di~óes controladas; contudo, a rela~iio que as associa é provisoriamente
ela será reconstituída a partir dos nossos resultados. Mas queremos
ressaltar que o reconhecimento, pelos franco-ma~óes de Charleville, da estabelecida pelo historiador, como que subentendida no corpus estu-
autoridade parisiense desde 1773, o acordo sobre o "novo empreendi- dado.
mento" de reforma da ordem inaugurado pelo seu estabelecimento, 14
é urna das condi~óes estáveis em que os textos sao feítos. Assim, a
unanimidade compartilhada pelos irmaos discretos sobre a oportuni-
dade da cria~ao do Centro comum é um pon_to de apoio do discurso
e de sua organiza~ao. Estabelecido esse elemento fixo, resta evidente-
mente pesquisar as combina~óes de enunciados que, para os franco-
-ma~óes do interior, demonstram o exercício do poder parisiense.
última pergunta: do que Jala essa sede de Charleville ao Grande
Oriente da Franfa? O discurso dos irmaos discretos dirigido a auto-
ridade parisiense refere-se essencialmente ao Grande Oriente da Fran~a.
Entretanto, com o objetivo de afastar um sistema de leitura que rein-
troduziria referencias implícitas, mantivemos apenas· dezessete seqüen-
cias, que efetivamente contero o termo Grande Oriente, ou Grande
Oriente da Fran~a, no·conjunto das cartas enviadas ao Centro comum de
24 de julho de 1774 a 24 de outubro de 1777, isto é, nas circunstancias
que expusemos anteriormente. 111 Em outros. termos, levantamos a

250 251
AGRUPAMENTO I AGRUPAMENTO I
D18
D13

l
D14
•os lrmlos dlseretoe solldtam 1 que se ill oa lrmloa cn.eretoe
solldtam
ao deputado do

171
110

__tad
.L-d_epu __ o_·----~----~-------·::~~~~=·=-0~--J~r- GOF
- oa lrmioa
deaejam dlseretos
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1 tomar eonhedmento da clr-'
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oa lrmloa CU.Cretoe·
ao deputado que 1aeelere o tTabalho ·

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GOF do 1fez enviar ci.i eStatutos
obrlgaria lnfln.ltamente ¡1 1 o voto uninl.me
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