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Unidade 1 RELAÇÕES E NEGÓCIOS INTERNACIONAIS

1 Unidade 1 – RELAÇÕES E NEGÓCIOS INTERNACIONAIS 1.1 O QUE SÃO RELAÇÕES INTERNACIONAIS? R elações

1.1 O QUE SÃO RELAÇÕES INTERNACIONAIS?

Relações Internacionais, conforme se pode depreender do próprio termo, são as relações que se desenvolvem entre as nações. Muito embora o significado de nação varie ao longo da história da humanidade, com o advento da Idade Moderna e do Capitalismo, observa-se uma identificação entre nação e Estado. Isso ocorre porque o Estado, preenchendo os requisitos necessários à circunscrição da realidade nacional, entendida como o conjunto das aspirações e dos desejos compartilhados por um grupo de mesma história e geografia e, acima de tudo, de uma identidade definida por uma série variada de elementos, como idioma, etnia e cultura comuns, aparelha a nação na defesa de seus interesses, que naturalmente se excluem dos interesses de outras nações. É por essa razão que muitas vezes se confundem relações internacionais e política internacional. Tal confusão não parece totalmente descabida, pois a política é o campo do conhecimento que procura compreender o fenômeno do poder e as relações internacionais são a esfera da realidade em que se manifestam relações de poder, basicamente entre Estados. As relações internacionais, contudo, estão manifestas em diferentes campos da realidade, podendo-se resumi-los para efeito de análise em: diplomático, militar, econômico, psicossocial e político propriamente dito, e são desenvolvidas por autores que não exclusivamente o Estado. Nesse sentido, a compreensão das relações internacionais passa necessariamente pelo estudo das relações sociais em suas diferentes dimensões compreendidas por áreas especifica de conhecimento, como Política, Sociologia, Economia, Direito, História, Geografia e Psicologia entre outras, mas com um aporte interdisciplinar. Por esse motivo, as teorias sobre as relações internacionais desenvolvem-se com o próprio desenrolar dessas relações, assumindo, por conseguinte, caráter dinâmico e novas conformações, pois invariavelmente incorporam novos elementos de análise, de acordo com o desenvolvimento histórico da sociedade humana.

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1.2 AS CONCEPÇÕES DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Com base no que se disse anteriormente, pode-se pensar que as teorias sobre as relações internacionais se desenvolvem sem maior fundamentação e como resposta às ocorrências do sistema de relações internacionais. É, contudo, fundamental, salientar que o estudo das relações internacionais vem de longa data e manifesta-se de forma clara no pensamento de Thomas Hobbes (1588-1679). No entanto, o estudo das relações internacionais, como campo de conhecimento autônomo, só começou a atingir tal status a partir da década de 1950 e, não por acaso, como resultado do maior conflito de toda a história da humanidade que, dividindo o mundo em dois blocos, configuraria a era do terror nuclear, levando a comunidade dos cientistas sociais a concentrar esforços na compreensão da realidade externa às sociedades nacionais. A partir daí vem se observando uma profusão de teorias, com características identificadas com os diferentes quadros apresentados na realidade das relações internacionais, cuja compreensão é dificultada para aqueles que pretendem iniciar-se nesse estudo. Assim, adota-se para efeito didático deste livro o critério de Marcel Merle, autor de obra consagrada sobre a Introdução ao estudo das relações internacionais, Sociologia das relações internacionais, para definir o escopo do conhecimento nas relações internacionais segundo três concepções dessas relações, amparadas fundamentalmente nas grandes correntes metodológicas consagradas no campo das ciências sociais.

1.2.1 A concepção “Clássica” das Relações internacionais

Thomas Hobbes é a principal referência dessa escola por ser o primeiro grande pensador de uma teoria que encontra sustentação na realidade das relações internacionais. É considerada sua grande obra o Leviatã (1651), produzida no auge das Revoluções Sociais e, portanto, em um momento de afirmação do Estado moderno inglês. Segundo Hobbes, o poder soberano é absoluto, isto é, não há bem nem mal no exercício do poder, sendo este pura e simplesmente a manifestação das razões de Estado. Para esse pensador, o homem vive em “estado de natureza”, ou seja, sua necessidade de possuir ou de defender sua propriedade leva a um estado de permanente beligerância. O que o impede, no entanto, de permanecer nesse estado de permanente conflito é a percepção de que isso implica riscos muitos sérios à sua sobrevivência, o que o obriga, por força da razão ou pela imposição da vontade de um homem mais forte possibilidade mais forte para Hobbes -, a assumir um “contrato” que define seus direitos e deveres. A prerrogativa desse “contrato” é a base do poder do “soberano” ou do “Estado”. A superação do “estado de natureza” se faz pela instituição do “estado de sociedade”. Ainda segundo o pensamento de Hobbes, tal situação pode ser estendida à esfera das relações entre as nações, isto é, à esfera das relações internacionais. Contudo, neste caso, o “estado de

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sociedade” não pode ser estabelecido com clareza. O “estado de natureza” é uma característica do sistema internacional.

O pensamento de Hobbes está vivo ainda nos dias de hoje e é responsável pelo

desenvolvimento de importantes escolas de pensamento sobre as relações internacionais, destacando-

se entre elas as de Clausewitz e Aron, que diferenciam de acordo com a perspectiva antagônica que assumem diante das questões colocadas por Hobbes em relação ao sistema internacional. Essas podem ser descritas como: idealistas – que crêem que o “estado de natureza” pode ser superado pelo estabelecimento de um “pacto” – e realistas que julgam que um equilíbrio e certa estabilidade no sistema internacional só podem ser alcançados pelo equilíbrio de forças. A concepção “clássica” é, em conclusão, uma teoria que destaca a guerra como um fenômeno fundamental e característico das relações internacionais ou do sistema internacional.

1.2.2 A concepção marxista das Relações internacionais

A principal referencia das relações internacionais é Karl Marx. Seus trabalhos bastante

conhecidos, por si só, considerando a verdadeira revolução que suscitaram no campo do conhecimento cientifico, justificam uma incursão relativa à questão das relações internacionais. Marx não construiu uma teoria de relações internacionais, mas seu pensamento ensejou o desenvolvimento de uma concepção dessas relações. Para Marx, a história das sociedades é determinada pelas relações sociais de produção que nelas se estabeleçam e que, no caso do capitalismo, caracterizam-se pelos antagonismos de classes (o controle da propriedade dos meios de produção determina as classes capitalista e trabalhadora assalariada). Esse pensamento guarda uma relação com o pensamento de Hobbes, mas, na medida em que estabelece um vínculo entre a economia e a política, anuncia a natureza diversa dos conflitos que se podem estabelecer nas relações entre os homens. Como o Estado nacional, que interage com o sistema internacional, é para Marx o estado burguês, isto é, o aparelho governamental que representa os interesses do grupo dominante das sociedades capitalistas, as relações que se estabelecem no sistema internacional são relações que tendem a se perpetuar. Os conflitos entre tais Estados são temporários. O verdadeiro conflito que pode ser visualizado no sistema internacional diz respeito à própria essência do capitalismo que se refere à luta entre classes. Para Marx, enquanto houver capitalismo haverá Estados nacionais, mas tal sistema tende a se extinguir, pois a história revela que todos os sistemas anteriores, ao atingirem o completo esgotamento de suas relações sociais de produção, entraram em colapso e foram superados pela instituição de novos sistemas. A concepção marxista de relações internacionais revela, portanto, um aspecto interessante, que diz respeito à manifestação das relações conflitivas do sistema internacional. Distinta da concepção

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clássica e marcada pela economia, essa concepção se preocupa com a possibilidade de extinção ou modificação da figura do Estado nacional como ator privilegiado do sistema, antecipando algumas situações vivenciadas nos dias atuais e conferindo maior flexibilidade à análise da realidade das relações internacionais na medida em que concebe a guerra como uma questão não exclusiva do Estado.

1.2.3 A concepção “moderna”, sociológica ou de inspiração anglo-saxônica

A concepção moderna das relações internacionais tem como principais referências Hans Morgenthau, George Kennan, Henri Kissinger e Stanley Hoffmann. É uma concepção que se pretende mais científica e, por isso, recusa o apriorismo da teoria clássica e o determinismo marxista. Por ser herdeira do positivismo, é mais pragmática e pretende analisar a realidade de acordo com sua configuração e necessidades. Coloca-se na perspectiva descritiva, e suas possibilidades em termos perspectivos se realizam sobre uma metodologia estatística bastante refinada. Pela herança positivista, a concepção “moderna” também carrega uma visão orgânica, ou sistêmica, da realidade. Assim, essa escola imagina que todas as coisas, assim como as pessoas, têm seu comportamento definido a partir de leis da natureza, constituindo organismos ou sistemas cujo funcionamento deve ser observado pela ciência. É por isso que essa escola também é chamada de “funcionalista” ou “behaviorista”. Dessa forma, o conhecimento do funcionamento das coisas deve assegurar o conhecimento das leis que o regem e, por conseguinte, dos organismos ou sistemas que constituem a realidade. A atividade fundamental do cientista é, portanto, a observação, pois, além de ser uma atitude neutra, ela garante a existência real de um fenômeno. Transplantando tal idéia para o campo das relações internacionais, tem-se que, como organismo, esse sistema está sujeito a uma série de leis definidas por sua própria natureza, que podem ser conhecidas pela observação incessante e aguda de seu funcionamento. Começa-se, portanto, com uma observação dos atores que compõem esse sistema e dos fatores que influenciam sua ação, para, a partir daí se construir um quadro de relações que caracterizam, ou são, o próprio sistema. Lança-se mão, para tanto, dos recursos estatísticos de descrição da realidade (por exemplo, na comparação entre o poder das nações, leva-se em consideração dados relativos a PIB Produto Interno Bruto capacidade militar, território, população etc.). Contudo, há aí uma dificuldade, que se refere à impossibilidade de se mensurar todos os tipos de relações e interações que ocorrem na realidade e sua freqüência, o que obriga os adeptos dessa concepção, ou escola, a um esforço de desenvolvimento de métodos estatísticos cada vez mais sofisticados, mas que, no limitado, significam sempre uma redução dos problemas reais que implicam as relações entre seres humanos. A concepção “moderna”, a despeito de alguns problemas metodológicos (para alguns ideológicos), significa um avanço para o conhecimento das relações internacionais e revela a

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necessidade de constante avaliação das perspectivas teóricas perante os movimentos reais que ocorrem na esfera dessas relações. Essa concepção, portanto, leva ao extremo as características de mobilidade e mutabilidade de sistema, já anunciadas na concepção marxista, assumindo ela mesma um caráter plenamente dinâmico. Além disso, as técnicas descritivas da realidade desenvolvidas por essa escola mostram-se perfeitamente adequadas às necessidades de desenho de um sistema a partir do qual se possam programar interpretações e análises resultantes.

1.3 EVOLUÇÃO DO SISTEMA MUNDIAL NO PÓS-GUERRA

Para o mais fácil entendimento da realidade internacional é importante que se realize um recorte histórico a partir do qual possa se aprender a lógica que tem caracterizado as relações internacionais. Para tanto é destacado a seguir o desenvolvimento de dois aspectos inter-relacionados da realidade internacional a partir do término da Segunda Guerra Mundial, de maneira a se reconstruir a dinâmica que daria conformação ao sistema internacional e seus desdobramentos atuais. Esses aspectos referem- se à economia e á política e estratégia mundiais.

1.3.1 O reordenamento econômico mundial no Pós-Guerra

No final da Segunda Guerra mundial, os Estados Unidos e os países aliados estavam preocupados com o futuro das relações políticas e econômicas internacionais. A necessidade do estabelecimento de uma economia mundial aberta, sem obstruções aos fluxos comerciais e financeiros internacionais no pós-guerra ensejou, em 1944, a Inglaterra na figura de Lord Keynes e os Estados Unidos na figura de Dexter White - a envolverem-se em longos debates realizados naquela que se convencionou chamar Conferência de Bretton Woods. Os assim denominados acordos de Bretton Woods, que resultaram dessas reuniões, objetivaram proporcionar o clima monetário estável necessário à retomada do comércio internacional. Nesse sentido, estabeleceu-se que a aplicação e fiscalização das regras para a convivência comercial deviam ser confiadas a uma agência internacional (Fundo Monetário Internacional FMI), que, a partir do término da guerra, se responsabilizaria pela gestão dos instrumentos financeiros que possibilitariam a realização dos objetivos pretendidos. Como complemento do processo foi criado posteriormente novo organismo (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio GATT) com o objetivo especifico de regular as transações comerciais internacionais. A criação desse organismo sugere a existência de uma falha congênita no sistema idealizado para a reativação da economia mundial, de forma que sua ativação estaria condicionada aos recursos financeiros disponíveis exclusivamente na economia norte-americana. Assim, os EUA, como única economia em condições de fornecer o capital necessário à consubstanciação dos propósitos estipulados em Bretton Woods, se responsabilizariam pela

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constituição dos fundos indispensáveis à materialização das instituições internacionais encarregadas do reordenamento mundial, uma vez que, como contrapartida, tivessem sua autoridade reconhecida sobre a determinação dos termos sobre os quais se processaria esse reordenamento.

A estabilidade monetária do sistema estaria assegurada pela determinação de taxas fixas de

cambio entre as diferentes moedas nacionais, de forma a evitar-se as guerras monetárias, respaldando- se essa medida na promessa de o Tesouro norte-americano trocar ouro por saldos de dólares em poder dos países estrangeiros.

Obviamente, portanto, a criação de instituições internacionais destinadas a reorganizar a economia mundial no pós-guerra acenava com a perspectiva de acesso automático e ilimitado aos créditos desses mesmos organismos a todos os países em dificuldades, garantindo, dessa forma a recuperação dessas economias e a estabilização econômica global.

Contudo, na prática, o Tesouro norte-americano, com poder de determinação das regras de funcionamento do sistema, jamais concordou com a simples distribuição de dinheiro, condicionando-a

à participação dos países tomadores de recursos como membros do FMI e, consequentemente, como

signatários de suas políticas ortodoxas de ajustamento por ele preconizadas para economias em

dificuldade.

Dessa maneira, como os Estados unidos detinham parcela muito grande da capacidade produtiva mundial e quase nenhuma dependência de importações, foi impressionante o desequilíbrio nas relações comerciais com os países envolvidos no conflito mundial em favor daquele país em 1946

e 1947, e, portanto, os problemas desses países agravaram-se.

A única maneira de alterar esse quadro seria o financiamento direto da reconstrução dessas

economias, o que aconteceu com a adoção, por parte dos Estados unidos, do plano Marsahall e de plano similar pelo Japão a partir de 1948, que transferiam recursos da ordem de US$ 150 bilhões (valores atuais) para os países envolvidos. Com isso, efetivamente o dólar passou a funcionar como moeda-chave do mundo, mas a

disponibilidade de dólares para a recuperação da Europa e do Japão, e para o crescimento do comércio mundial, dependia fundamentalmente da expansão da oferta dessa moeda por meio da geração de déficits no balanço de pagamentos norte-americano.

O sistema apresenta, assim, sua deficiência crônica, pois uma vez que ocorresse incremento

muito grande na oferta de dólares na economia internacional, seu valor tenderia a baixar, fazendo com que aqueles que dispusessem dessa moeda procurassem trocá-la pelo ouro disponível do Tesouro

norte-americano, caracterizando-se, dessa maneira o “dilema de Triffin” Naturalmente, o desenvolvimento da bipolaridade no sistema internacional viria a facilitar o aprofundamento desse problema, pois os crescentes déficits norte-americanos forçaram o Tesouro norte-americano a impor medidas restritivas ao câmbio por ouro e a emitir moeda, sancionando a inflação, que se generalizaria pela economia internacional, levando ao fim, na década de 1980, o sistema econômico instalado ao término da Segunda Guerra Mundial.

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1.3.2 Aspectos políticos do ordenamento econômico mundial no Pós-Guerra

Genericamente, pode-se afirmar que, com o término da Segunda Guerra Mundial, o mundo

dividiu-se em dois grandes blocos, Ocidental e Oriental, despontando como seus lideres os Estados

Unidos e a União Soviética, respectivamente.

As relações políticas e econômicas mundiais a partir de 1945 se encontrariam envoltas em

novo clima de guerra, e a justificativa para esse fato se basearia para os Estados Unidos na idéia de

que a riqueza gerada pelas Instituições livres ocidentais seria mais do que suficiente para enfraquecer

o crescente poder soviético ou oriental. Mas isso não descartava a necessidade de prontas respostas

militares às “agressões soviéticas”, consolidando a assim denominada Política de Contenção.

A recuperação européia e japonesa, além da ausência de desenvolvimento significativo das

regiões pobres, contudo, frustrou as perspectivas norte-americanas, instalando a possibilidade de um

jogo político “pendular” entre os países pertencentes ao sistema ocidental.

A resposta a essa situação, em um primeiro momento, adquiriu um caráter mais radical,

implicando um aprofundamento das tensões no campo militar e gerando o chamado “terror nuclear”.

A partir da década de 1970, contudo, seria desenvolvida a “consciência” da necessidade de redução de

tais tensões, começando-se a promover a noção de interdependência que viria a assentar o movimento

da globalização.

1.4 NOVAS PERSPECTIVAS NO DESENVOLVIMENTO DO ESTUDO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

O desenvolvimento do sistema mundial no pós-guerra, configurando nova ordem de relacionamentos e

culminando na Globalização, foi motivo para o desenvolvimento de perspectivas de análise das

relações internacionais, que incorporariam a observação de novos e importantes atores e papéis na

determinação dessas relações.

Assim, as teorias explicativas da globalização podem ser definidas a partir de duas

perspectivas fundamentais, dividindo-se uma delas de forma a privilegiar esses novos elementos na

compreensão da realidade internacional:

1. A primeira vertente teórica da globalização refere-se à Teoria do Imperialismo elaborado

por Lenin e que supõe ser o fenômeno de internacionalização do capital o produto das

necessidades da classe capitalista para reproduzir e ampliar o processo de acumulação. Em

outras palavras, significa que o desenho do sistema internacional se define pela ação de

subordinação da maior parte das economias nacionais às determinações das sociedades

mais avançadas, gerando uma situação funcional em que a riqueza de uns corresponde

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necessariamente à pobreza de outros. Essa situação pode ser descrita como jogo de soma zero.

2. A segunda vertente refere-se à Teoria da Interdependência. Essa teoria, contudo, pode ser resumidamente dividida, segundo duas diferentes perspectivas, em: Interdependência Simétrica (ou pura) e Interdependência Assimétrica. No primeiro caso, a teoria baseia-se nas idéias de David Ricardo e em sua Teoria das Vantagens Comparativas, fundamentando-se na especialização econômica das nações e nas vantagens resultantes das trocas obrigatórias entre os países, repartindo-se de forma igualitária os ganhos desse processo. Já no segundo caso, Roberto Keohane observa que as trocas que ocorrem obrigatoriamente entre as nações, como resultado do desenvolvimento histórico do sistema internacional, apresentam ganhos, de fato, mas que repartem de forma diferente da apresentada pela teoria clássica de Interdependência (Simétrica) e, portanto, não igualitária, caracterizando uma situação para o sistema internacional que pode ser descrita como jogo de forma variável.

Quadro 1 - Evolução do Sistema Internacional

Período

 

Características

Centros de poder

Expressão dos Conflitos

Sécs.

XV

a

Multipolar Includente

Inglaterra/Portugal/Espanha

Militar e econômica (Guerras localizadas e piratarias)

XVIII

França/Holanda

Sec. XIX

 

Bipolar Includente

Inglaterra e França

Política/Psicossocial Econômica/militar (Guerras por independência)

Séc XX

Multipolar

Inglaterra/França/Alemanha Estados Unidos/Japão

Econômica e militar (Primeira

 

1ª metade

 

Exludente/Includente

Guerra

   

Mundial/Segunda Guerra Mundial)

2ª metade

 

Bipolar

Estados Unidos/URSS

Econômica e militar Militar e econômica

 
 

Excludente/Includente

Séc. XXI

 

Unimultipolar

Estados

Unidos/União

Econômica e política

 

Européia/Ásia

Fonte: Racy, Joaquim Carlos. Introdução à gestão de negócios internacionais. 2006

VÍDEO GLOBALIZAÇÃO DINÃMICA DE GRUPO ARGUMENTAÇÃO

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1.5 RELAÇÕES INTERNACIONAIS E POLÍTICA EXTERNA

Muitas vezes há uma confusão entre relações internacionais e política externa. A relação entre as duas é necessária e natural, uma vez que as relações internacionais podem ser consideradas o produto das ações externas dos Estados nacionais. Contudo, a diferenciação entre esses dois elementos é fundamental para que se compreenda a natureza das situações e os constantes conflitos estabelecidos no cenário internacional. Este item tem por objetivo explicar o significado de política externa e seu desenvolvimento no caso brasileiro.

1.5.1 O que é política externa?

A política externa é a forma como os Estados, visando a satisfação de suas necessidades e a defesa de seus interesses e a defesa de seus interesses, organizam suas ações no campo externo de suas relações, isto é, forma como determinam suas relações com outros Estados. Conforme assinalado anteriormente, as relações internacionais se realizam basicamente entre nações e, nesse sentido, como as nações se encontram identificadas pelo Estado uma vez que ele assume o papel central nas relações internacionais -, suas ações podem e devem estar assentadas em um processo racional de construção de uma política que represente os interesses da nação.

1.5.2 Elaboração e implementação de política externa

A elaboração de uma política externa pelos Estados deve considerar, portanto, duas condições fundamentais: internas e externas. As motivações políticas internas de uma sociedade são extremamente importantes para a condução dos negócios de Estado, de tal forma que as relações com outros Estados com a concordância da sociedade nacional. Entretanto, por mais legitimadas internamente que estejam ações de um Estado, elas somente encontram possibilidade de implementação se as relações internacionais como um todo se apresentarem receptivas a elas. Nesse sentido, o processo racional de implementação da política externa deve considerar os seguintes passos:

- Diagnóstico. Análise dos ambientes políticos nacional e internacional, com todas as variantes possíveis.

- Levantamento de alternativas. Elaboração de alternativas de curso de ação.

- Tomada de decisão. Escolha do melhor curso de ação e forma de implementação.

- Implementação. Disponibilização e acionamento dos meios para a implementação.

- Acompanhamento. Avaliação do curso de ação.

- Correção. Em caso de necessidade, aplicação dos recursos e adoção das medidas necessárias à mudança de curso de ação.

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- Avaliação. Análise de resultados da política implementada e avaliação de possibilidades de continuidade ou transformação da política externa.

1.5.3 A política Externa brasileira

LINK COM A DISCIPLINA DE ECONOMIA BRASILEIRA APRESENTAÇÃO I ou G

1. DO IMPÉRIO A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL ANTECEDENTES HISTÓRICOS P. 13 A 15;

2. DE VARGAS A KUBITSCHEK A FORMAÇÃO DA DIPLOMACIA BRASILEIRA P. 15 A 18;

3. A POLÍTICA EXTERNA INDEPENDENTE: UMA DOUTRINA DE POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA - P.

18 A 19;

4. A POLITICA EXTERNA BRASILEIRA DE CASTELO A MÉDICI P. 19 A 20;

5. A POLITICA EXTERNA DE GEISEL: O PRAGMATISMO RESPONSÁVEL UMA NOVA DOUTRINA DE

POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA - P. 20 A 27;

6. A DÉCADA (PERDIDA) DE 1980 E O TERCEIRO-MUNDISMO ISOLACIONISTA - P. 27 A 28;

7. A POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA A PARTIR DA DÉCADA DE 1990: A REINSERÇÃO DO BRASIL NO

SISTEMA INTERNACIONAL - P. 28 A 29.

1.6 RELAÇÕES INTERNACIONAIS E NEGÓCIOS INTERNACIONAIS

As relações sociais com a identificação assinalada anteriormente podem ser observadas, sobretudo no campo das organizações, de maneira que, do ponto de vista econômico, somente com sua internacionalização é que o país de internacionaliza, buscando, naturalmente, maior capacidade de interação com o mundo externo ao espaço nacional. A internacionalização das ações organizacionais é uma realidade no mundo atual e depende de uma série de fatores, nem sempre sob controle dos responsáveis por esse processo na empresa. Uma dose de sorte, como os chamados acasos fortuitos, bastante comuns no mundo dos negócios, é muito importante. É certo, contudo, que uma conjuntura favorável proporcionada por políticas consequentes empreendidas pelos governos propicia possibilidades de otimização dessas ações. No entanto, não se deve excluir o fato de que as crises também podem ser traduzidas como momentos apropriados para mudanças de atitudes em direção à internacionalização das ações organizacionais, pois os recursos se restringem, indicando como alternativa para a sobrevivência das organizações a busca de recursos externos. É desnecessário dizer, nesse sentido, que a consecução desse objetivo exige acuidade das organizações, quanto à definição dos potenciais beneficiários e de suas necessidades em relação às ações a serem empreendidas. Assim também as organizações devem ter total segurança quanto à qualidade do que estão oferecendo, o que significa que devem apresentar um padrão relevante de competência.

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Entretanto, em muitos casos e por uma série de razões entre as quais, o desenvolvimento de métodos precisos para desenvolver ações semelhantes -, as organizações nem sempre conseguem alcançar o sucesso desejado. É por isso que a elaboração de projetos para o desenvolvimento de ações internacionais assume fundamental importância, configurando-se como alternativa para o levantamento de recursos necessários ao desenvolvimento de projetos de relevância para um país.

1.6.1 O que é internacionalização

Em sentido estrito, internacionalização é a atuação de organizações, empresariais ou não, em realidades externas. Segundo o conhecimento econômico estabelecido sobre organizações empresariais, a internacionalização ocorre basicamente por meio de duas atividades que podem, inclusive, suceder-se, constituindo um processo vertical: exportação e entrada (constituição de base física) em outros países. Em ambos os casos, a internacionalização tem sua origem na busca de oportunidades e, quando generalizada, significa a internacionalização da própria economia de um país. Fundamentalmente, o que diferencia uma atividade da outra (exportação e entrada) é a estratégia da empresa, definida pela decisão de gastar ou investir. Uma organização econômica que decide se internacionalizar sem gastar procura explorar atividades, como acordos de licença, exportação, franchise ou contrato de gestão. Já a empresa que opta pelo investimento, que significa exportação de capital, procura fazê-lo pela existência de subsídios comerciais, ou projetos especiais, ou pela possibilidade de desenvolvimento de joint ventures. De qualquer forma, segundo essa ótica, a internacionalização deve ser realizada praticamente sem intervenção de governos, isto é, “ao sabor do mercado”. Todavia, a importação dos países subdesenvolvidos, seja de produtos, conhecimentos, tecnologias, serviços, seja de recursos financeiros, deve ser considerada, portanto, uma forma a partir da qual as organizações podem conquistar padrões de qualidade que as coloquem em condições de competitividade internacional. É nesse sentido que a internacionalização das organizações fora do mundo empresarial pode assumir um papel fundamental e, nessa perspectiva, a cooperação internacional assume importância crucial, pois, como figura do direito internacional, pode proporcionar os meios, em condições favoráveis, para o desenvolvimento de ações que venham a garantir o acesso dos países subdesenvolvidos à situação de bem-estar e competitividade necessários ao seu ingresso no rol das nações desenvolvidas.

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1.6.2 O que é cooperação internacional

Até meados do século XX, ou mais exatamente até a Segunda Guerra Mundial, o sistema internacional esteve marcado pelas relações interestatais e individuais (interempresariais). A partir daí, as mudanças dos cenários político, econômico e social mundiais, imprimindo novo perfil a sociedade internacional, muito influenciado por uma nova categoria de atores: as organizações supra, multi ou transnacionais. Mais do que por uma questão de fato, o direito internacional passou a ter novas atribuições, ampliando sua esfera de atuação. Com isso, evidentemente, se quer dizer que, a partir da Segunda Guerra mundial, passou a se desenvolver uma concepção ética das relações internacionais que, mesmo que ainda não hegemônica, revela uma nítida consciência dos problemas relativos à assimetria que preside os relacionamentos entre os países que compõem o sistema. Essa, inclusive, foi à tônica que engendrou a figura da cooperação internacional na Carta das Nações unidas, em seu artigo 56. Naquele momento, contudo, a cooperação internacional assumia um caráter assistencialista. As atividades de cooperação recebiam mesmo a denominação de assistência técnica, prevendo-se sempre situações em que um país seria exclusivamente recebedor de conhecimentos e outro exclusivamente fornecedor deles. Ainda, é bom que se frise, os conhecimentos ministrados estavam restritos às técnicas, nunca à ciência e à tecnologia. É obvio que, em vez de ajudar a superar as condições de subdesenvolvimento de grande parte dos países, muitas vezes as atividades de cooperação aprofundavam essas condições, pois reforçavam laços de dependência. Todavia, com o prenúncio do colapso da ordem estabelecida no pós-guerra, o conceito de cooperação passaria a ser objeto de reformulação, alcançando hoje o significado de operação conjunta entre países ou entre os diversos sujeitos do direito internacional. Dessa maneira, ainda que conservando a condição básica de uma relação de doação e recepção de conhecimento, a cooperação internacional incorporaria a noção de reciprocidade. Da mesma forma, a concepção de conhecimento passaria por um processo de ampliação no campo da cooperação internacional, estendendo-se às áreas da ciência e da tecnologia. Na realidade, partia-se da hipótese de que nenhuma atividade de cooperação pode ser situada em um quadro no qual existam fornecedores ou recebedores exclusivos, pois o conhecimento devia ser considerado o fruto de uma operação de construção em parceria. Promovida por organismos internacionais de caráter oficial, a cooperação passou a ser, portanto, uma importante via para o desenvolvimento de processos de internacionalização de um sem-número de organizações. Consequentemente, esse processo hoje se estende por uma gama variada de organizações não-estatais.

1.6.3 O sistema de cooperação técnica internacional (organismos oficiais)

Há, tradicionalmente, dois tipos de cooperação internacional definidos pelos agentes envolvidos:

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a) Cooperação bilateral entre governos e entre governos e entidades privadas;

b) Cooperação multilateral entre governos ou entidades privadas e organizações internacionais.

No entanto, é importante salientar que entre os países do terceiro mundo tem se destacado outra modalidade de cooperação denominada Cooperação entre Países em Desenvolvimento. No caso brasileiro, no que se refere ao primeiro tipo de cooperação, tem sido desenvolvidas atividades mais intensas com Japão, Alemanha, França, Canadá, Reino Unido, Espanha e Itália. É importante que se destaque que os maiores exportadores e, por conseguinte, potenciais

cooperadores por tipo de “bem” do mundo são: Alemanha, em tecnologia de processo; Japão, em tecnologia de produto; e Estados Unidos, em produto.

No que se refere à cooperação multilateral, pode-se dizer que ela se realiza de 4 formas, divididas segundo os sistemas de atividade dos organismos internacionais:

- sistema da Organização das Nações Unidas;

- sistema das Organizações de cooperação monetária, financeira e comercial;

- sistema das Organizações regionais;

- sistema das Organizações de fomento.

Interessam às organizações privadas, em primeiro lugar, o sistema da Organização das Nações Unidas e, em menor escala, o sistema das organizações regionais, já que os demais sistemas são acionados quase que exclusivamente por Estados nacionais. A titulo de informação, as atividades desenvolvidas pelo Brasil na modalidade de Cooperação entre Países em Desenvolvimento referem-se atualmente muito mais a “fornecimento” do que “recebimento”, e essas ações estão direcionadas, basicamente, para a America Latina, com destaque para Cuba e África.

EXERCÍCIOS E QUESTÕES RECOMENDADAS

1. DIFERENCIE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DE POLITICA EXTERNA

2. EXPLIQUE A RECENTE GUERRA DO GOLFO SEGUNDO AS 3 CONCEPÇÕES DE RELAÇÕES

INTERNACIONAIS

3. ANALISE A ATUAL POLITICA EXTERNA BRASILEIRA