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Universidade da Região da Campanha

Campus Universitário de São Gabriel


CCEI – Centro de Ciências da Economia e Informática
Curso de Administração

Gestão de Negócios
Internacionais

São Gabriel
2011

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O PODER DA VALIDAÇÃO
Todo mundo é inseguro, sem exceção. Os super-confiantes
simplesmente disfarçam melhor. Não escapam pais, professores,
chefes nem colegas de trabalho.
Afinal, ninguém é de ferro. Paulo Autran treme nas bases nos
primeiros minutos de cada apresentação, mesmo que a peça que já
tenha sido encenada 500 vezes. Só depois da primeira risada, da
primeira reação do público, é que o ator se relaxa e parte tranqüilo
para o resto do espetáculo. Eu, para ser absolutamente sincero, fico
inseguro a cada novo artigo que escrevo, e corro desesperado para ver os primeiros e-mails
que chegam.
Insegurança é o problema humano número 1. O mundo seria muito menos neurótico,
louco e agitado se fôssemos todos um pouco menos inseguros. Trabalharíamos menos,
curtiríamos mais a vida, levaríamos a vida mais na esportiva. Mas como reduzir esta
insegurança?
Alguns acreditam que estudando mais, ganhando mais, trabalhando mais resolveriam o
problema. Ledo engano, por uma simples razão: segurança não depende da gente, depende
dos outros. Está totalmente fora do nosso controle. Por isso segurança nunca é conquistada
definitivamente, ela é sempre temporária, efêmera.
Segurança depende de um processo que chamo de "validação", embora para os
estatísticos o significado seja outro. Validação estatística significa certificar-se de que um dado
ou informação é verdadeiro, mas eu uso esse termo para seres humanos. Validar alguém seria
confirmar que essa pessoa existe, que ela é real, verdadeira, que ela tem valor.
Todos nós precisamos ser validados pelos outros, constantemente. Alguém tem de dizer
que você é bonito ou bonita, por mais bonito ou bonita que você seja. O autoconhecimento,
tão decantado por filósofos, não resolve o problema. Ninguém pode autovalidar-se, por
definição.
Você sempre será um ninguém, a não ser que outros o validem como alguém. Validar o
outro significa confirmá-lo, como dizer: "Você tem significado para mim". Validar é o que um
namorado ou namorada faz quando lhe diz: "Gosto de você pelo que você é". Quem cunhou a
frase "Por trás de um grande homem existe uma grande mulher" (e vice-versa) provavelmente
estava pensando nesse poder de validação que só uma companheira amorosa e presente no
dia-a-dia poderá dar.
Um simples olhar, um sorriso, um singelo elogio são suficientes para você validar todo
mundo. Estamos tão preocupados com a nossa própria insegurança, que não temos tempo
para sair validando os outros. Estamos tão preocupados em mostrar que somos o "máximo",
que esquecemos de dizer aos nossos amigos, filhos e cônjuges que o "máximo" são eles.
Puxamos o saco de quem não gostamos, esquecemos de validar aqueles que admiramos.
Por falta de validação, criamos um mundo consumista, onde se valoriza o ter e não o
ser. Por falta de validação, criamos um mundo onde todos querem mostrar-se, ou dominar os
outros em busca de poder. Validação permite que pessoas sejam aceitas pelo que realmente
são, e não pelo que gostaríamos que fossem. Mas, justamente graças à validação, elas
começarão a acreditar em si mesmas e crescerão para ser o que queremos.
Se quisermos tornar o mundo menos inseguro e melhor, precisaremos treinar e
exercitar uma nova competência: validar alguém todo dia. Um elogio certo, um sorriso, os
parabéns na hora certa, uma salva de palmas, um beijo, um dedão para cima, um "valeu,
cara, valeu".
Você já validou alguém hoje? Então comece já, por mais inseguro que você esteja.

Stephen Kanitz

Artigo publicado na Revista Veja, edição 1705, ano 34, nº 24, 20 de junho de 2001, pág.22

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“Nós devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”
Mahatma Gandhi

Mahatma significa “grande alma”. Líder pacifista indiano (1869-1948), seu nome verdadeiro é
Mohandas Karamchand Gandhi. Principal ativista da independência da Índia e pelos direitos dos
hindus, por meio da resistência passiva e da não-violência. Com a independência da Índia, em 1947,
é estabelecida a divisão entre Índia (hindus) e Paquistão (muçulmanos). Gandhi tenta evitar a luta
entre hindus e muçulmanos; e aceita a divisão do país, atraindo o ódio dos nacionalistas hindus,
sendo assassinado no ano seguinte. Desde 15/06/2007, como incentivo à cultura da paz, à tolerância
e à compreensão entre os povos, a ONU - Organização das Nações Unidas instituiu o dia 02 de
outubro, data do nascimento de Gandhi, para ser celebrado anualmente como o Dia Internacional da
Não-violência.

APRESENTAÇÃO
Sejam bem vindos à disciplina de Gestão de Negócios Internacionais!
O impulso sem precedentes do desenvolvimento tecnológico e da economia mundial
eliminou significativamente as fronteiras políticas, sociais, culturais e econômicas que
circundavam as relações internacionais.
O conjunto das internacionais vem passando por significativas transformações. O impacto
mais expressivo desse processo é a elevação sustentada do comercio internacional percebida a
partir da última metade do século XX até os dias de hoje, manifestado por meio de um progressivo
crescimento do comércio entre os países, seguido nas mesmas proporções de grandeza por um
fluxo de capital, informações e pessoas.
Contudo, é evidente que os resultados desse movimento não são percebidos de forma
equitativa entre os países. No Brasil as transformações foram muitas e se há poucos anos ainda
éramos uma economia extremamente fechada, com poucos produtos cruzando nossas fronteiras,
hoje tal quadro é completamente diferente, e nossa pauta de exportações e importações ampliou-se
enormemente. Exportávamos café; hoje, exportamos aviões. Agora qualquer empresa pode
negociar com o mundo; mesmo particulares compram seus objetos de desejo de empresas situadas
do outro lado do mundo e os pagam usando cartões de crédito internacional. Nem tudo são flores;
aliás, no mais das vezes, são espinhos: os custos internos são altíssimos – o denominado ―custo
Brasil‖ – e nossas exportações dependem de uma taxa de câmbio com nossa moeda depreciada.
Bem, esses são alguns tópicos que serão vistos na disciplina de GNI com carga horária de
60 horas e objetivo geral que visa oferecer um embasamento conceitual sobre as teorias de comercio
internacional e as principais práticas de comércio exterior no Brasil e que possui ainda os seguintes
objetivos específicos: 1) Apresentar as teorias que explicam atualmente o processo de
internacionalização de empresas; 2) Entender o funcionamento Mercado de câmbio: O conceito de
câmbio; O conceito de taxa de câmbio; Moedas conversíveis e não conversíveis; Definição de divisas; 3)
Conhecer os acordos preferenciais de comércio: União Européia, NAFTA, Mercosul, ASEAN, APEC, ALCA,
Acordos Bilaterais, etc.; Mídia e política comercial; formulação da política comercial; Economias
emergentes e comércio; 4) Estudar e analisar comércio e negociações comerciais tais como fundamentos de
política comercial: Sistema Multilateral de Comércio GATT-OMC e 5) Estudar e analisar o processo de
exportação e importação de mercadorias: tópicos de logística e transporte; INCOTERMS 2000, noções de
contratos no comércio exterior; principais documentos no processo de exportação e importação e
SISCOMEX.

Prof. José Larri de Freitas Pinto

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Ementa da disciplina:

Relações e Negócios Internacionais, Economia, Direito Internacional, Marketing


Internacional, Comunicação, Cultura e Técnicas de Comunicação no Comércio Internacional.

CONTEÚDO DO CADERNO DIDÁTICO DA DISCIPLINA:


UNIDADE 1 – RELAÇÕES E NEGÓCIOS INTERNACIONAIS
UNIDADE 2 – ECONOMIA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS
UNIDADE 3 – MARKETING INTERNACIONAL
UNIDADE 4 – DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO
UNIDADE 5 – COMO CONSTRUIR UM NEGÓCIO INTERNACIONAL
UNIDADE 6 – INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS BRASILEIRAS

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Unidade 1 – RELAÇÕES E NEGÓCIOS INTERNACIONAIS

1.1 O QUE SÃO RELAÇÕES INTERNACIONAIS?

Relações Internacionais, conforme se pode depreender do próprio termo, são as relações que se
desenvolvem entre as nações. Muito embora o significado de nação varie ao longo da história da
humanidade, com o advento da Idade Moderna e do Capitalismo, observa-se uma identificação entre nação e
Estado. Isso ocorre porque o Estado, preenchendo os requisitos necessários à circunscrição da realidade
nacional, entendida como o conjunto das aspirações e dos desejos compartilhados por um grupo de mesma
história e geografia e, acima de tudo, de uma identidade definida por uma série variada de elementos, como
idioma, etnia e cultura comuns, aparelha a nação na defesa de seus interesses, que naturalmente se excluem
dos interesses de outras nações.
É por essa razão que muitas vezes se confundem relações internacionais e política internacional. Tal
confusão não parece totalmente descabida, pois a política é o campo do conhecimento que procura
compreender o fenômeno do poder e as relações internacionais são a esfera da realidade em que se
manifestam relações de poder, basicamente entre Estados.
As relações internacionais, contudo, estão manifestas em diferentes campos da realidade, podendo-se
resumi-los para efeito de análise em: diplomático, militar, econômico, psicossocial e político propriamente
dito, e são desenvolvidas por autores que não exclusivamente o Estado.
Nesse sentido, a compreensão das relações internacionais passa necessariamente pelo estudo das
relações sociais em suas diferentes dimensões compreendidas por áreas especifica de conhecimento, como
Política, Sociologia, Economia, Direito, História, Geografia e Psicologia entre outras, mas com um aporte
interdisciplinar. Por esse motivo, as teorias sobre as relações internacionais desenvolvem-se com o próprio
desenrolar dessas relações, assumindo, por conseguinte, caráter dinâmico e novas conformações, pois

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invariavelmente incorporam novos elementos de análise, de acordo com o desenvolvimento histórico da
sociedade humana.

1.2 AS CONCEPÇÕES DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Com base no que se disse anteriormente, pode-se pensar que as teorias sobre as relações
internacionais se desenvolvem sem maior fundamentação e como resposta às ocorrências do sistema de
relações internacionais.
É, contudo, fundamental, salientar que o estudo das relações internacionais vem de longa data e
manifesta-se de forma clara no pensamento de Thomas Hobbes (1588-1679). No entanto, o estudo das
relações internacionais, como campo de conhecimento autônomo, só começou a atingir tal status a partir da
década de 1950 e, não por acaso, como resultado do maior conflito de toda a história da humanidade que,
dividindo o mundo em dois blocos, configuraria a era do terror nuclear, levando a comunidade dos cientistas
sociais a concentrar esforços na compreensão da realidade externa às sociedades nacionais.
A partir daí vem se observando uma profusão de teorias, com características identificadas com os
diferentes quadros apresentados na realidade das relações internacionais, cuja compreensão é dificultada para
aqueles que pretendem iniciar-se nesse estudo.
Assim, adota-se para efeito didático deste livro o critério de Marcel Merle, autor de obra consagrada
sobre a Introdução ao estudo das relações internacionais, Sociologia das relações internacionais, para
definir o escopo do conhecimento nas relações internacionais segundo três concepções dessas relações,
amparadas fundamentalmente nas grandes correntes metodológicas consagradas no campo das ciências
sociais.

1.2.1 A concepção “Clássica” das Relações internacionais

Thomas Hobbes é a principal referência dessa escola por ser o primeiro grande pensador de uma
teoria que encontra sustentação na realidade das relações internacionais. É considerada sua grande obra o
Leviatã (1651), produzida no auge das Revoluções Sociais e, portanto, em um momento de afirmação do
Estado moderno inglês.
Segundo Hobbes, o poder soberano é absoluto, isto é, não há bem nem mal no exercício do poder,
sendo este pura e simplesmente a manifestação das razões de Estado. Para esse pensador, o homem vive em
“estado de natureza”, ou seja, sua necessidade de possuir ou de defender sua propriedade leva a um estado de
permanente beligerância. O que o impede, no entanto, de permanecer nesse estado de permanente conflito é a
percepção de que isso implica riscos muitos sérios à sua sobrevivência, o que o obriga, por força da razão ou
pela imposição da vontade de um homem mais forte – possibilidade mais forte para Hobbes -, a assumir um
“contrato” que define seus direitos e deveres. A prerrogativa desse “contrato” é a base do poder do

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“soberano” ou do “Estado”. A superação do “estado de natureza” se faz pela instituição do “estado de
sociedade”.
Ainda segundo o pensamento de Hobbes, tal situação pode ser estendida à esfera das relações entre
as nações, isto é, à esfera das relações internacionais. Contudo, neste caso, o “estado de sociedade” não pode
ser estabelecido com clareza. O “estado de natureza” é uma característica do sistema internacional.
O pensamento de Hobbes está vivo ainda nos dias de hoje e é responsável pelo desenvolvimento de
importantes escolas de pensamento sobre as relações internacionais, destacando-se entre elas as de
Clausewitz e Aron, que diferenciam de acordo com a perspectiva antagônica que assumem diante das
questões colocadas por Hobbes em relação ao sistema internacional. Essas podem ser descritas como:
idealistas – que crêem que o “estado de natureza” pode ser superado pelo estabelecimento de um “pacto” – e
realistas – que julgam que um equilíbrio e certa estabilidade no sistema internacional só podem ser
alcançados pelo equilíbrio de forças.
A concepção “clássica” é, em conclusão, uma teoria que destaca a guerra como um fenômeno
fundamental e característico das relações internacionais ou do sistema internacional.

1.2.2 A concepção marxista das Relações internacionais

A principal referencia das relações internacionais é Karl Marx. Seus trabalhos bastante conhecidos,
por si só, considerando a verdadeira revolução que suscitaram no campo do conhecimento cientifico,
justificam uma incursão relativa à questão das relações internacionais.
Marx não construiu uma teoria de relações internacionais, mas seu pensamento ensejou o
desenvolvimento de uma concepção dessas relações. Para Marx, a história das sociedades é determinada
pelas relações sociais de produção que nelas se estabeleçam e que, no caso do capitalismo, caracterizam-se
pelos antagonismos de classes (o controle da propriedade dos meios de produção determina as classes
capitalista e trabalhadora assalariada). Esse pensamento guarda uma relação com o pensamento de Hobbes,
mas, na medida em que estabelece um vínculo entre a economia e a política, anuncia a natureza diversa dos
conflitos que se podem estabelecer nas relações entre os homens.
Como o Estado nacional, que interage com o sistema internacional, é para Marx o estado burguês,
isto é, o aparelho governamental que representa os interesses do grupo dominante das sociedades capitalistas,
as relações que se estabelecem no sistema internacional são relações que tendem a se perpetuar. Os conflitos
entre tais Estados são temporários. O verdadeiro conflito que pode ser visualizado no sistema internacional
diz respeito à própria essência do capitalismo que se refere à luta entre classes.
Para Marx, enquanto houver capitalismo haverá Estados nacionais, mas tal sistema tende a se
extinguir, pois a história revela que todos os sistemas anteriores, ao atingirem o completo esgotamento de
suas relações sociais de produção, entraram em colapso e foram superados pela instituição de novos
sistemas.

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A concepção marxista de relações internacionais revela, portanto, um aspecto interessante, que diz
respeito à manifestação das relações conflitivas do sistema internacional. Distinta da concepção clássica e
marcada pela economia, essa concepção se preocupa com a possibilidade de extinção ou modificação da
figura do Estado nacional como ator privilegiado do sistema, antecipando algumas situações vivenciadas nos
dias atuais e conferindo maior flexibilidade à análise da realidade das relações internacionais na medida em
que concebe a guerra como uma questão não exclusiva do Estado.

1.2.3 A concepção “moderna”, sociológica ou de inspiração anglo-saxônica

A concepção moderna das relações internacionais tem como principais referências Hans
Morgenthau, George Kennan, Henri Kissinger e Stanley Hoffmann. É uma concepção que se pretende mais
científica e, por isso, recusa o apriorismo da teoria clássica e o determinismo marxista. Por ser herdeira do
positivismo, é mais pragmática e pretende analisar a realidade de acordo com sua configuração e
necessidades. Coloca-se na perspectiva descritiva, e suas possibilidades em termos perspectivos se realizam
sobre uma metodologia estatística bastante refinada.
Pela herança positivista, a concepção “moderna” também carrega uma visão orgânica, ou sistêmica,
da realidade. Assim, essa escola imagina que todas as coisas, assim como as pessoas, têm seu
comportamento definido a partir de leis da natureza, constituindo organismos ou sistemas cujo
funcionamento deve ser observado pela ciência. É por isso que essa escola também é chamada de
“funcionalista” ou “behaviorista”. Dessa forma, o conhecimento do funcionamento das coisas deve assegurar
o conhecimento das leis que o regem e, por conseguinte, dos organismos ou sistemas que constituem a
realidade. A atividade fundamental do cientista é, portanto, a observação, pois, além de ser uma atitude
neutra, ela garante a existência real de um fenômeno.
Transplantando tal idéia para o campo das relações internacionais, tem-se que, como organismo, esse
sistema está sujeito a uma série de leis definidas por sua própria natureza, que podem ser conhecidas pela
observação incessante e aguda de seu funcionamento.
Começa-se, portanto, com uma observação dos atores que compõem esse sistema e dos fatores que
influenciam sua ação, para, a partir daí se construir um quadro de relações que caracterizam, ou são, o
próprio sistema. Lança-se mão, para tanto, dos recursos estatísticos de descrição da realidade (por exemplo,
na comparação entre o poder das nações, leva-se em consideração dados relativos a PIB – Produto Interno
Bruto – capacidade militar, território, população etc.).
Contudo, há aí uma dificuldade, que se refere à impossibilidade de se mensurar todos os tipos de
relações e interações que ocorrem na realidade e sua freqüência, o que obriga os adeptos dessa concepção, ou
escola, a um esforço de desenvolvimento de métodos estatísticos cada vez mais sofisticados, mas que, no
limitado, significam sempre uma redução dos problemas reais que implicam as relações entre seres humanos.

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A concepção “moderna”, a despeito de alguns problemas metodológicos (para alguns ideológicos),
significa um avanço para o conhecimento das relações internacionais e revela a necessidade de constante
avaliação das perspectivas teóricas perante os movimentos reais que ocorrem na esfera dessas relações. Essa
concepção, portanto, leva ao extremo as características de mobilidade e mutabilidade de sistema, já
anunciadas na concepção marxista, assumindo ela mesma um caráter plenamente dinâmico. Além disso, as
técnicas descritivas da realidade desenvolvidas por essa escola mostram-se perfeitamente adequadas às
necessidades de desenho de um sistema a partir do qual se possam programar interpretações e análises
resultantes.

1.3 EVOLUÇÃO DO SISTEMA MUNDIAL NO PÓS-GUERRA

Para o mais fácil entendimento da realidade internacional é importante que se realize um recorte
histórico a partir do qual possa se aprender a lógica que tem caracterizado as relações internacionais. Para
tanto é destacado a seguir o desenvolvimento de dois aspectos inter-relacionados da realidade internacional a
partir do término da Segunda Guerra Mundial, de maneira a se reconstruir a dinâmica que daria conformação
ao sistema internacional e seus desdobramentos atuais. Esses aspectos referem-se à economia e á política e
estratégia mundiais.

1.3.1 O reordenamento econômico mundial no Pós-Guerra

No final da Segunda Guerra mundial, os Estados Unidos e os países aliados estavam preocupados
com o futuro das relações políticas e econômicas internacionais. A necessidade do estabelecimento de uma
economia mundial aberta, sem obstruções aos fluxos comerciais e financeiros internacionais no pós-guerra
ensejou, em 1944, a Inglaterra – na figura de Lord Keynes – e os Estados Unidos – na figura de Dexter
White - a envolverem-se em longos debates realizados naquela que se convencionou chamar Conferência de
Bretton Woods.
Os assim denominados acordos de Bretton Woods, que resultaram dessas reuniões, objetivaram
proporcionar o clima monetário estável necessário à retomada do comércio internacional. Nesse sentido,
estabeleceu-se que a aplicação e fiscalização das regras para a convivência comercial deviam ser confiadas a
uma agência internacional (Fundo Monetário Internacional – FMI), que, a partir do término da guerra, se
responsabilizaria pela gestão dos instrumentos financeiros que possibilitariam a realização dos objetivos
pretendidos. Como complemento do processo foi criado posteriormente novo organismo (Acordo Geral
sobre Tarifas e Comércio – GATT) com o objetivo especifico de regular as transações comerciais
internacionais.
A criação desse organismo sugere a existência de uma falha congênita no sistema idealizado para a
reativação da economia mundial, de forma que sua ativação estaria condicionada aos recursos financeiros
disponíveis exclusivamente na economia norte-americana.

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Assim, os EUA, como única economia em condições de fornecer o capital necessário à
consubstanciação dos propósitos estipulados em Bretton Woods, se responsabilizariam pela constituição dos
fundos indispensáveis à materialização das instituições internacionais encarregadas do reordenamento
mundial, uma vez que, como contrapartida, tivessem sua autoridade reconhecida sobre a determinação dos
termos sobre os quais se processaria esse reordenamento.
A estabilidade monetária do sistema estaria assegurada pela determinação de taxas fixas de cambio
entre as diferentes moedas nacionais, de forma a evitar-se as guerras monetárias, respaldando-se essa medida
na promessa de o Tesouro norte-americano trocar ouro por saldos de dólares em poder dos países
estrangeiros.
Obviamente, portanto, a criação de instituições internacionais destinadas a reorganizar a economia
mundial no pós-guerra acenava com a perspectiva de acesso automático e ilimitado aos créditos desses
mesmos organismos a todos os países em dificuldades, garantindo, dessa forma a recuperação dessas
economias e a estabilização econômica global.
Contudo, na prática, o Tesouro norte-americano, com poder de determinação das regras de
funcionamento do sistema, jamais concordou com a simples distribuição de dinheiro, condicionando-a à
participação dos países tomadores de recursos como membros do FMI e, consequentemente, como
signatários de suas políticas ortodoxas de ajustamento por ele preconizadas para economias em dificuldade.
Dessa maneira, como os Estados unidos detinham parcela muito grande da capacidade produtiva
mundial e quase nenhuma dependência de importações, foi impressionante o desequilíbrio nas relações
comerciais com os países envolvidos no conflito mundial em favor daquele país em 1946 e 1947, e, portanto,
os problemas desses países agravaram-se.
A única maneira de alterar esse quadro seria o financiamento direto da reconstrução dessas
economias, o que aconteceu com a adoção, por parte dos Estados unidos, do plano Marsahall e de plano
similar pelo Japão a partir de 1948, que transferiam recursos da ordem de US$ 150 bilhões (valores atuais)
para os países envolvidos.
Com isso, efetivamente o dólar passou a funcionar como moeda-chave do mundo, mas a
disponibilidade de dólares para a recuperação da Europa e do Japão, e para o crescimento do comércio
mundial, dependia fundamentalmente da expansão da oferta dessa moeda por meio da geração de déficits no
balanço de pagamentos norte-americano.
O sistema apresenta, assim, sua deficiência crônica, pois uma vez que ocorresse incremento muito
grande na oferta de dólares na economia internacional, seu valor tenderia a baixar, fazendo com que aqueles
que dispusessem dessa moeda procurassem trocá-la pelo ouro disponível do Tesouro norte-americano,
caracterizando-se, dessa maneira o “dilema de Triffin”
Naturalmente, o desenvolvimento da bipolaridade no sistema internacional viria a facilitar o
aprofundamento desse problema, pois os crescentes déficits norte-americanos forçaram o Tesouro norte-
americano a impor medidas restritivas ao câmbio por ouro e a emitir moeda, sancionando a inflação, que se

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generalizaria pela economia internacional, levando ao fim, na década de 1980, o sistema econômico
instalado ao término da Segunda Guerra Mundial.

1.3.2 Aspectos políticos do ordenamento econômico mundial no Pós-Guerra

Genericamente, pode-se afirmar que, com o término da Segunda Guerra Mundial, o mundo dividiu-
se em dois grandes blocos, Ocidental e Oriental, despontando como seus lideres os Estados Unidos e a União
Soviética, respectivamente.
As relações políticas e econômicas mundiais a partir de 1945 se encontrariam envoltas em novo
clima de guerra, e a justificativa para esse fato se basearia para os Estados Unidos na idéia de que a riqueza
gerada pelas Instituições livres ocidentais seria mais do que suficiente para enfraquecer o crescente poder
soviético ou oriental. Mas isso não descartava a necessidade de prontas respostas militares às “agressões
soviéticas”, consolidando a assim denominada Política de Contenção.
A recuperação européia e japonesa, além da ausência de desenvolvimento significativo das regiões
pobres, contudo, frustrou as perspectivas norte-americanas, instalando a possibilidade de um jogo político
“pendular” entre os países pertencentes ao sistema ocidental.
A resposta a essa situação, em um primeiro momento, adquiriu um caráter mais radical, implicando
um aprofundamento das tensões no campo militar e gerando o chamado “terror nuclear”. A partir da década
de 1970, contudo, seria desenvolvida a “consciência” da necessidade de redução de tais tensões, começando-
se a promover a noção de interdependência que viria a assentar o movimento da globalização.

1.4 NOVAS PERSPECTIVAS NO DESENVOLVIMENTO DO ESTUDO DAS RELAÇÕES


INTERNACIONAIS

O desenvolvimento do sistema mundial no pós-guerra, configurando nova ordem de relacionamentos


e culminando na Globalização, foi motivo para o desenvolvimento de perspectivas de análise das relações
internacionais, que incorporariam a observação de novos e importantes atores e papéis na determinação
dessas relações.
Assim, as teorias explicativas da globalização podem ser definidas a partir de duas perspectivas
fundamentais, dividindo-se uma delas de forma a privilegiar esses novos elementos na compreensão da
realidade internacional:
1. A primeira vertente teórica da globalização refere-se à Teoria do Imperialismo elaborado por
Lenin e que supõe ser o fenômeno de internacionalização do capital o produto das necessidades
da classe capitalista para reproduzir e ampliar o processo de acumulação. Em outras palavras,
significa que o desenho do sistema internacional se define pela ação de subordinação da maior
parte das economias nacionais às determinações das sociedades mais avançadas, gerando uma

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situação funcional em que a riqueza de uns corresponde necessariamente à pobreza de outros.
Essa situação pode ser descrita como jogo de soma zero.
2. A segunda vertente refere-se à Teoria da Interdependência. Essa teoria, contudo, pode ser
resumidamente dividida, segundo duas diferentes perspectivas, em: Interdependência Simétrica
(ou pura) e Interdependência Assimétrica. No primeiro caso, a teoria baseia-se nas idéias de
David Ricardo e em sua Teoria das Vantagens Comparativas, fundamentando-se na
especialização econômica das nações e nas vantagens resultantes das trocas obrigatórias entre os
países, repartindo-se de forma igualitária os ganhos desse processo. Já no segundo caso, Roberto
Keohane observa que as trocas que ocorrem obrigatoriamente entre as nações, como resultado do
desenvolvimento histórico do sistema internacional, apresentam ganhos, de fato, mas que
repartem de forma diferente da apresentada pela teoria clássica de Interdependência (Simétrica)
e, portanto, não igualitária, caracterizando uma situação para o sistema internacional que pode
ser descrita como jogo de forma variável.

Quadro 1 Evolução do Sistema Internacional


Período Características Centros de poder Expressão dos Conflitos
Sécs. XV a XVIII Multipolar Includente Inglaterra/Portugal/Espanha Militar e econômica
França/Holanda (Guerras localizadas e piratarias)
Sec. XIX Bipolar Includente Inglaterra e França Política/Psicossocial
Econômica/militar
(Guerras por independência)
Séc XX Multipolar Inglaterra/França/Alemanha Econômica e militar
1ª metade Exludente/Includente Estados Unidos/Japão (Primeira Guerra Mundial/Segunda
Guerra Mundial)
2ª metade Bipolar Estados Unidos/URSS Econômica e militar
Excludente/Includente Militar e econômica
Séc. XXI Unimultipolar Estados Unidos/União Econômica e política
Européia/Ásia
Fonte: Racy, Joaquim Carlos. Introdução à gestão de negócios internacionais. 2006

VÍDEO GLOBALIZAÇÃO – DINÃMICA DE GRUPO ARGUMENTAÇÃO

1.5 RELAÇÕES INTERNACIONAIS E POLÍTICA EXTERNA

Muitas vezes há uma confusão entre relações internacionais e política externa. A relação entre as
duas é necessária e natural, uma vez que as relações internacionais podem ser consideradas o produto das

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ações externas dos Estados nacionais. Contudo, a diferenciação entre esses dois elementos é fundamental
para que se compreenda a natureza das situações e os constantes conflitos estabelecidos no cenário
internacional. Este item tem por objetivo explicar o significado de política externa e seu desenvolvimento no
caso brasileiro.

1.5.1 O que é política externa?

A política externa é a forma como os Estados, visando a satisfação de suas necessidades e a defesa
de seus interesses e a defesa de seus interesses, organizam suas ações no campo externo de suas relações, isto
é, forma como determinam suas relações com outros Estados.
Conforme assinalado anteriormente, as relações internacionais se realizam basicamente entre nações
e, nesse sentido, como as nações se encontram identificadas pelo Estado – uma vez que ele assume o papel
central nas relações internacionais -, suas ações podem e devem estar assentadas em um processo racional de
construção de uma política que represente os interesses da nação.

1.5.2 Elaboração e implementação de política externa

A elaboração de uma política externa pelos Estados deve considerar, portanto, duas condições
fundamentais: internas e externas. As motivações políticas internas de uma sociedade são extremamente
importantes para a condução dos negócios de Estado, de tal forma que as relações com outros Estados com a
concordância da sociedade nacional. Entretanto, por mais legitimadas internamente que estejam ações de um
Estado, elas somente encontram possibilidade de implementação se as relações internacionais como um todo
se apresentarem receptivas a elas.
Nesse sentido, o processo racional de implementação da política externa deve considerar os
seguintes passos:
- Diagnóstico. Análise dos ambientes políticos nacional e internacional, com todas as variantes
possíveis.
- Levantamento de alternativas. Elaboração de alternativas de curso de ação.
- Tomada de decisão. Escolha do melhor curso de ação e forma de implementação.
- Implementação. Disponibilização e acionamento dos meios para a implementação.
- Acompanhamento. Avaliação do curso de ação.
- Correção. Em caso de necessidade, aplicação dos recursos e adoção das medidas necessárias à
mudança de curso de ação.
- Avaliação. Análise de resultados da política implementada e avaliação de possibilidades de
continuidade ou transformação da política externa.

1.5.3 A política Externa brasileira

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LINK COM A DISCIPLINA DE ECONOMIA BRASILEIRA – APRESENTAÇÃO I ou G

1. DO IMPÉRIO A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – ANTECEDENTES HISTÓRICOS – P. 13 A 15;


2. DE VARGAS A KUBITSCHEK – A FORMAÇÃO DA DIPLOMACIA BRASILEIRA – P. 15 A 18;
3. A POLÍTICA EXTERNA INDEPENDENTE: UMA DOUTRINA DE POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA
- P. 18 A 19;
4. A POLITICA EXTERNA BRASILEIRA DE CASTELO A MÉDICI – P. 19 A 20;
5. A POLITICA EXTERNA DE GEISEL: O PRAGMATISMO RESPONSÁVEL – UMA NOVA DOUTRINA
DE POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA - P. 20 A 27;
6. A DÉCADA (PERDIDA) DE 1980 E O TERCEIRO-MUNDISMO ISOLACIONISTA - P. 27 A 28;
7. A POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA A PARTIR DA DÉCADA DE 1990: A REINSERÇÃO DO BRASIL
NO SISTEMA INTERNACIONAL - P. 28 A 29.

1.6 RELAÇÕES INTERNACIONAIS E NEGÓCIOS INTERNACIONAIS

As relações sociais com a identificação assinalada anteriormente podem ser observadas, sobretudo
no campo das organizações, de maneira que, do ponto de vista econômico, somente com sua
internacionalização é que o país de internacionaliza, buscando, naturalmente, maior capacidade de interação
com o mundo externo ao espaço nacional.
A internacionalização das ações organizacionais é uma realidade no mundo atual e depende de uma
série de fatores, nem sempre sob controle dos responsáveis por esse processo na empresa. Uma dose de sorte,
como os chamados acasos fortuitos, bastante comuns no mundo dos negócios, é muito importante. É certo,
contudo, que uma conjuntura favorável proporcionada por políticas consequentes empreendidas pelos
governos propicia possibilidades de otimização dessas ações.
No entanto, não se deve excluir o fato de que as crises também podem ser traduzidas como
momentos apropriados para mudanças de atitudes em direção à internacionalização das ações
organizacionais, pois os recursos se restringem, indicando como alternativa para a sobrevivência das
organizações a busca de recursos externos.
É desnecessário dizer, nesse sentido, que a consecução desse objetivo exige acuidade das
organizações, quanto à definição dos potenciais beneficiários e de suas necessidades em relação às ações a
serem empreendidas. Assim também as organizações devem ter total segurança quanto à qualidade do que
estão oferecendo, o que significa que devem apresentar um padrão relevante de competência.
Entretanto, em muitos casos e por uma série de razões – entre as quais, o desenvolvimento de
métodos precisos para desenvolver ações semelhantes -, as organizações nem sempre conseguem alcançar o
sucesso desejado.

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É por isso que a elaboração de projetos para o desenvolvimento de ações internacionais assume
fundamental importância, configurando-se como alternativa para o levantamento de recursos necessários ao
desenvolvimento de projetos de relevância para um país.

1.6.1 O que é internacionalização

Em sentido estrito, internacionalização é a atuação de organizações, empresariais ou não, em realidades


externas. Segundo o conhecimento econômico estabelecido sobre organizações empresariais, a
internacionalização ocorre basicamente por meio de duas atividades que podem, inclusive, suceder-se,
constituindo um processo vertical: exportação e entrada (constituição de base física) em outros países. Em
ambos os casos, a internacionalização tem sua origem na busca de oportunidades e, quando generalizada,
significa a internacionalização da própria economia de um país. Fundamentalmente, o que diferencia uma
atividade da outra (exportação e entrada) é a estratégia da empresa, definida pela decisão de gastar ou
investir.

Uma organização econômica que decide se internacionalizar sem gastar procura explorar atividades,
como acordos de licença, exportação, franchise ou contrato de gestão. Já a empresa que opta pelo
investimento, que significa exportação de capital, procura fazê-lo pela existência de subsídios comerciais, ou
projetos especiais, ou pela possibilidade de desenvolvimento de joint ventures. De qualquer forma, segundo
essa ótica, a internacionalização deve ser realizada praticamente sem intervenção de governos, isto é, “ao
sabor do mercado”.
Todavia, a importação dos países subdesenvolvidos, seja de produtos, conhecimentos, tecnologias,
serviços, seja de recursos financeiros, deve ser considerada, portanto, uma forma a partir da qual as
organizações podem conquistar padrões de qualidade que as coloquem em condições de competitividade
internacional.
É nesse sentido que a internacionalização das organizações fora do mundo empresarial pode assumir
um papel fundamental e, nessa perspectiva, a cooperação internacional assume importância crucial, pois,
como figura do direito internacional, pode proporcionar os meios, em condições favoráveis, para o
desenvolvimento de ações que venham a garantir o acesso dos países subdesenvolvidos à situação de bem-
estar e competitividade necessários ao seu ingresso no rol das nações desenvolvidas.

1.6.2 O que é cooperação internacional

Até meados do século XX, ou mais exatamente até a Segunda Guerra Mundial, o sistema internacional
esteve marcado pelas relações interestatais e individuais (interempresariais). A partir daí, as mudanças dos
cenários político, econômico e social mundiais, imprimindo novo perfil a sociedade internacional, muito
influenciado por uma nova categoria de atores: as organizações supra, multi ou transnacionais.

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Mais do que por uma questão de fato, o direito internacional passou a ter novas atribuições,
ampliando sua esfera de atuação. Com isso, evidentemente, se quer dizer que, a partir da Segunda Guerra
mundial, passou a se desenvolver uma concepção ética das relações internacionais que, mesmo que ainda não
hegemônica, revela uma nítida consciência dos problemas relativos à assimetria que preside os
relacionamentos entre os países que compõem o sistema. Essa, inclusive, foi à tônica que engendrou a figura
da cooperação internacional na Carta das Nações unidas, em seu artigo 56. Naquele momento, contudo, a
cooperação internacional assumia um caráter assistencialista. As atividades de cooperação recebiam mesmo
a denominação de assistência técnica, prevendo-se sempre situações em que um país seria exclusivamente
recebedor de conhecimentos e outro exclusivamente fornecedor deles. Ainda, é bom que se frise, os
conhecimentos ministrados estavam restritos às técnicas, nunca à ciência e à tecnologia.
É obvio que, em vez de ajudar a superar as condições de subdesenvolvimento de grande parte dos
países, muitas vezes as atividades de cooperação aprofundavam essas condições, pois reforçavam laços de
dependência. Todavia, com o prenúncio do colapso da ordem estabelecida no pós-guerra, o conceito de
cooperação passaria a ser objeto de reformulação, alcançando hoje o significado de operação conjunta entre
países ou entre os diversos sujeitos do direito internacional.
Dessa maneira, ainda que conservando a condição básica de uma relação de doação e recepção de
conhecimento, a cooperação internacional incorporaria a noção de reciprocidade. Da mesma forma, a
concepção de conhecimento passaria por um processo de ampliação no campo da cooperação internacional,
estendendo-se às áreas da ciência e da tecnologia.
Na realidade, partia-se da hipótese de que nenhuma atividade de cooperação pode ser situada em um
quadro no qual existam fornecedores ou recebedores exclusivos, pois o conhecimento devia ser considerado
o fruto de uma operação de construção em parceria. Promovida por organismos internacionais de caráter
oficial, a cooperação passou a ser, portanto, uma importante via para o desenvolvimento de processos de
internacionalização de um sem-número de organizações. Consequentemente, esse processo hoje se estende
por uma gama variada de organizações não-estatais.

1.6.3 O sistema de cooperação técnica internacional (organismos oficiais)

Há, tradicionalmente, dois tipos de cooperação internacional definidos pelos agentes envolvidos:
a) Cooperação bilateral – entre governos e entre governos e entidades privadas;
b) Cooperação multilateral – entre governos ou entidades privadas e organizações internacionais.
No entanto, é importante salientar que entre os países do terceiro mundo tem se destacado outra
modalidade de cooperação denominada Cooperação entre Países em Desenvolvimento.
No caso brasileiro, no que se refere ao primeiro tipo de cooperação, tem sido desenvolvidas atividades
mais intensas com Japão, Alemanha, França, Canadá, Reino Unido, Espanha e Itália.

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É importante que se destaque que os maiores exportadores e, por conseguinte, potenciais cooperadores
por tipo de “bem” do mundo são: Alemanha, em tecnologia de processo; Japão, em tecnologia de produto; e
Estados Unidos, em produto.
No que se refere à cooperação multilateral, pode-se dizer que ela se realiza de 4 formas, divididas
segundo os sistemas de atividade dos organismos internacionais:
- sistema da Organização das Nações Unidas;
- sistema das Organizações de cooperação monetária, financeira e comercial;
- sistema das Organizações regionais;
- sistema das Organizações de fomento.
Interessam às organizações privadas, em primeiro lugar, o sistema da Organização das Nações Unidas e,
em menor escala, o sistema das organizações regionais, já que os demais sistemas são acionados quase que
exclusivamente por Estados nacionais.
A titulo de informação, as atividades desenvolvidas pelo Brasil na modalidade de Cooperação entre
Países em Desenvolvimento referem-se atualmente muito mais a “fornecimento” do que “recebimento”, e
essas ações estão direcionadas, basicamente, para a America Latina, com destaque para Cuba e África.

EXERCÍCIOS E QUESTÕES RECOMENDADAS

1. DIFERENCIE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DE POLITICA EXTERNA


2. EXPLIQUE A RECENTE GUERRA DO GOLFO SEGUNDO AS 3 CONCEPÇÕES DE RELAÇÕES
INTERNACIONAIS
3. ANALISE A ATUAL POLITICA EXTERNA BRASILEIRA

Unidade 2 – ECONOMIA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

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2.1 O COMÉRCIO INTERNACIONAL

O Comércio internacional consiste no intercâmbio de bens, serviços e capitais entre os diferentes


países.
Há muitos e muitos anos, os países têm mantido relações comerciais por um motivo simples:
nenhum país pode produzir todos os bens de que necessita!
• Alguns países têm pouca matéria-prima, como é o caso do Japão. Então, como o Japão não tem
reservas de bauxita, a única maneira de ele produzir alumínio é importando esta matéria-prima.
• Já em alguns países, devido ao clima e a qualidade da terra, somente alguns tipos de produtos
podem ser cultiváveis. Por exemplo, a Suíça não é capaz de produzir bananas, logo, se os suíços quiserem
este produto, terão que importá-lo.
Hoje em dia, praticamente todos os países do mundo têm algum tipo de relacionamento comercial ou
econômico. Isto porque cada país tem fatores de produção e capacidade tecnológicas diferentes. Essas
diferenças podem ser resumidas nos seguintes itens:
1. Condições climáticas: os países tem clima muito diferente e produzem bens e serviços
compatíveis com esse clima.
- Por exemplo, a Argentina é grande produtora de maça e trigo devido ao seu clima;
2. Riqueza mineral: os paises também dispõem de diferentes minerais no subsolo.
- Por exemplo, os EUA tem que importar parte do petróleo que consome por não ser auto-
suficiente na produção deste mineral;
3. Disponibilidade de mão-de-obra: há paises que dispõem de grande quantidade deste fator de
produção, logo, podem se dedicar a produção de bens que utilizem grande quantidade deste fator.

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- por exemplo, na agricultura ou na produção de bens industriais que requeiram grande número de
trabalhadores;
4. Disponibilidade de capital: países com abundância deste fator podem investir na produção de
bens que exijam mais tecnologia e/ou fábricas computadorizadas;
5. Disponibilidade de terra cultivável: países com grande extensão de terra cultivável, como o
Brasil, são grandes exportadores de produtos agrícolas. Já o Japão, que dispõem de pouco espaço cultivável
tem que importar muitos produtos.
Devido aos fatores mencionados, você pode então entender que devido às diferentes dotações de
fatores de produção, cada país tende a se especializar na produção de bens que consiga produzir ao menor
custo possível.
Em outras palavras, o comercio internacional facilita a especialização, pois permite que cada país
produza os bens em que tem maior facilidade e, consequentemente, menor custo, devido àqueles fatores
mencionados anteriormente.

2.1.1 As principais teorias em Comércio Internacional

Desde a segunda metade do século XVIII, quando o desenvolvimento do pensamento econômico se


inicia e passa a ser estruturado como ciência, o comercio entre uma economia e o restante do mundo estava
presente, desde a Teoria das vantagens Comparativas Absolutas, desenvolvidas por Adam Smith (1776),
passando pela Teoria das Vantagens comparativas relativas, de David Ricardo (1817), até a concepção mais
recente de Heckdcher-Ohlin. As principais teorias podem ser assim resumidas:

DESCREVA SUCINTAMENTE A TEORIA – APRESENTAÇÃO EM GRUPOS


2.1.1 TEORIA DAS VANTAGENS COMPARATIVAS ABSOLUTAS;
2.1.2 TEORIA DAS VANTAGENS COMPARATIVAS ABSOLUTAS;
2.1.3 TEORIA DE HECKSCHER-OHLIN.

2.1.2 Restrições ao Comércio Internacional

Geralmente o livre-comércio permite a cada país alcançar um nível de bem-estar social superior
aquele auferido se permanecesse fechado. No entanto, muitas vezes, o ganho de bem-estar pode ser obtido à
custa de outros países, isto é, aceita-se a existência de falha de mercado que pode ser corrigida pela
intervenção governamental, exigindo para isso que sejam estabelecidas restrições ao comércio.
As restrições podem ser tarifárias, como os impostos ad valorem, ou não-tarifárias, como as cotas de
importação. As restrições tarifárias foram bastante utilizadas pelos países durante a grande depressão dos
anos 1930, mas muito reduzidas após a Segunda Guerra Mundial.

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Atualmente, apesar de muito criticadas, encontram-se algumas justificativas para a existência de
restrições tarifárias. Entre elas, destacam-se os seguintes argumentos:
• incentivar a criação de empregos, mediante o processo de substituição de importações, no qual
produtos que anteriormente eram importados passariam a ser fabricados internamente;
• proteção a uma indústria estratégica, por exemplo, a indústria de armamentos;
• possibilitar o surgimento de novas empresas e indústrias, ao decidir não importar um
determinado bem, um país estará estimulando a produção doméstica (interna) deste mesmo bem. Foi o que
aconteceu com o Brasil na década de 1950, quando, ao parar de importar automóveis, estimulou o
surgimento aqui de montadoras de carros, que trouxeram mais emprego e criaram renda.

2.1.3 Promoção do Comércio Internacional

O fim da Segunda Guerra Mundial impôs a necessidade de reconstrução do modelo de sociedade


capitalista como elemento fundamental para assegurar uma evolução política e econômica mais estável,
inclusive, como forma de combater o avanço do socialismo, bastante fortalecido (Guerra Fria). Para tanto,
algumas instituições foram criadas, com objetivo próprio, mas complementar:
O Fundo Monetário Internacional (FMI) foi criado com o intuito de possibilitar um sistema
multilateral de comércio e pagamentos que fosse compatível com elevados números desejados de emprego e
renda e, ao mesmo tempo, restringisse práticas de depreciação competitivas (como as observadas no período
entre guerras).
O Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), mais conhecido como Banco
Mundial, tinha por razão inicial de existência proporcionar financiamento para a reconstrução das economias
destruídas pela guerra (crescimento, emprego e infra-estrutura). Essa tarefa, no entanto, acabou sendo
atribuída ao Plano Marshall. Apesar disso, sua função acabou sendo mantida, mas com uma mudança de foco
de atenção, direcionando-se ao financiamento de projetos para criação de infra-estrutura produtiva e
desenvolvimento social econômico.
A Organização Internacional do Comércio (OIC), objetivava construir um sistema de comércio
mundial com regras definidas, redução das restrições ao comércio pelo mercado e subordinado à necessidade
de estabilidade. A OIC, que seria ratificada pela Carta de Havana de 1948, mas não ratificada pelo
Congresso dos Estados Unidos, deu lugar ao Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT) – provisoriamente
acordado em Genebra, em 1947. Em 1994, durante a Rodada do Uruguai (8ª rodada de negociações
multilaterais de comércio), foi criada a Organização Mundial do Comércio (OMC), com os mesmos
objetivos, mas com mais poderes que a organização anterior.

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2.2 INTEGRAÇÃO ECONÔMICA

Apesar de o comércio mundial ter evoluído rapidamente após a Segunda Guerra Mundial, percebe-se
que essa evolução se deu de forma desigual, concentrando-se entre os países entre os países da Europa, os
Estados Unidos e o Japão. Fora desse circuito, chama a atenção a política de Promoção às Exportações,
levada a cabo por alguns países do Leste Asiático, denominados Tigres Asiáticos ou New Industrial
Countries (NICs).
Mais recentemente, tem-se observado a crescente tendência à integração econômica. Trata-se de um
processo de criação de um mercado integrado, a partir da progressiva eliminação de barreiras ao comércio,
ao movimento de fatores de produção e da criação de instituições que permitam a coordenação, ou
unificação, de políticas econômicas entre países.
A integração econômica entre países pode assumir diversas formas:

 ÁREAS DE LIVRE COMÉRCIO – observa-se a eliminação de tarifas entre os participantes, mas cada
um mantém suas tarifas originais para os não-participantes. São exemplos de áreas de livre-comércio:
Tratado Norte Americano de Livre Comércio (Nafta), Associação Européia de Livre-Comércio (EFTA),
Associação Latino-Americana de Livre Comércio (Alalc).

 UNIÃO ADUANEIRA – assemelha-se às anteriores, mas a tarifa aos não-participantes é a mesma de


todos os países participantes. O Mercosul constitui atulamente um exemplo desse tipo de integração.

 MERCADO COMUM – tem as mesmas características da União Aduaneira, mas permite livre
circulação do trabalho e capital entre os países membros. Exemplo: União Européia.

 UNIÃO ECONÔMICA – São mercados comuns com homogeneização de políticas fiscais, monetárias e
tributárias entre eles. A União Européia, entre os países participantes do euro, é o caso mais próximo da
união econômica conhecido atualmente.

2.2.1 O Mercosul

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USE A FERRAMENTA DO GOOGLE PARA TRADUZIR AS RESPOSTAS ABAIXO.

O que é o Mercosul?
El Mercado Común del Sur - MERCOSUR - es un proceso de integración entre Brasil, Argentina,
Paraguay y Uruguay, creado con la firma del Tratado de Asunción, el 26 de marzo de 1991. El
Mercosur es hoy una Unión Aduanera y su objetivo final es evolucionar para la condición de
Mercado Común.

Qual é o objetivo final do Mercosul?


La meta estipulada por el Tratado de Asunción es el establecimiento de un Mercado Común entre
los Estados Partes del Mercosur.

Todos os Estados têm os mesmos direitos e obrigações?


El Tratado de Asunción y el Protocolo de Ouro Preto no establecen ningún tipo de diferencia entre
los Estados Partes.

Algum país membro pode abandonar o Mercosul?


No existe ningún impedimento, ya que el propio Tratado de Asunción prevé que un Estado Parte
puede desvincularse del proceso mediante la denuncia del Tratado (artículo 21).

Como se tomam as decisões no Mercosul?


Las decisiones en el Mercosur son tomadas por consenso y con la presencia de todos los Estados
Partes. Las decisiones son de naturaleza obligatoria, aunque no tengan aplicación directa (necesitan
ser “internalizadas”).

Como será possível conhecer as normas que elaboradas pelos órgãos do Mercosul?
Serán publicadas en el Boletín Oficial del Mercosur, editado por la Secretaría Administrativa del
Mercosur, las versiones en español y portugués de todos los actos normativos del Mercosur
(decisiones, resoluciones y directrices).

Que representa o Mercosul na Amercica do Sul?


El Mercosur representa cerca del 70% del territorio, el 64% de la población y el 60% del PIB de
América del Sur.

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Que órgãaos formam a estrutura institucional do Mercosul?
El Protocolo de Ouro Preto definió la estructura del Mercosur de la siguiente forma: Consejo del
Mercado Común (CMC): es el órgano máximo del Mercosur, al cual le corresponde la conducción
política del proceso de integración. El CMC es formado por los ministros de Relaciones Exteriores
y de Economía de los países miembros; Grupo Mercado Común (GMC): es el órgano ejecutivo del
Mercosur, coordinado por los Ministerios de Relaciones Exteriores de cada país; Comisión de
Comercio del Mercosur (CCM): es el órgano encargado de dar asistencia al Grupo Mercado Común
en la aplicación de los instrumentos de política comercial común; Comisión Parlamentaria Conjunta
del Mercosur: es el órgano representativo de los Parlamentos de los Países del Mercosur; Foro
Consultivo Económico y Social del Mercosur: es el órgano de representación de los sectores
económicos y sociales. Tiene función consultiva elevando recomendaciones al GMC. Secretaría
Administrativa del Mercosur (SAM): es el órgano de apoyo operativo, responsable por la prestación
de servicios a los demás órganos del Mercosur. Tiene su sede permanente en la ciudad de
Montevideo.

Como serão solucionados os conflitos que possam ocorrer entre o Mercosul e outros países?
Cualquier controversia surgida entre un país del Mercosur y un tercer país será solucionada en el
ámbito de la Organización Mundial del Comercio (OMC).

Qual a diferença entre Zona de Livre Comércio, Unión Aduaneira e Mercado Comum?
Una zona de Libre Comercio es la etapa o tipo de integración donde son eliminadas todas las
barreras al comercio entre los miembros del grupo. La Unión Aduanera es la etapa o tipo de
integración donde, además del libre comercio entre los miembros del grupo, existe la aplicación de
un Arancel Exterior Común (AEC) al comercio con terceros países. En el Mercado Común, además
del AEC y del libre comercio de bienes, existe la libre circulación de factores de producción (capital
y trabajo).

Que são subsidios?


Son beneficios económicos que un gobierno concede a los productores de bienes, muchas veces
para fortalecer su posición competitiva. El subsidio puede ser directo (subvención en dinero) o
indirecto (créditos a la exportación con intereses bajos, por ejemplo).

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Quais são os principais instrumentos de defesa comercial?
Los principales mecanismos disponibles para enfrentar las prácticas desleales de comercio son: el
derecho antidumping, el derecho compensatorio y la salvaguardia.

O Mercosul terá algum dia uma moeda única?


El objetivo de establecer una moneda única para el Mercosur aún es remoto. Sin embargo, se há
avanzado bastante en el ejercicio de coordinación macroeconómica entre los cuatro países
miembros, que es una condición indispensable para cualquier política de unificación monetaria.

2.3 MERCADO DE CÂMBIO

Agora que você já começou a entender o comércio internacional é importante voltar sua atenção para
um dos principais determinantes do comércio entre os países, que é a taxa de câmbio.
A principal diferença entre o comércio doméstico e o comércio internacional é o fato de que
domesticamente (nacionalmente) o comércio é feito com a mesma moeda e internacionalmente cada país tem
sua própria moeda.

EXEMPLO:
Uma empresa brasileira que exporta sapatos para os Estados Unidos deseja receber seu pagamento em
reais. Enquanto isso, o importador americano deseja pagar em dólar. Consequentemente, o
importador americano deverá buscar em um mercado a moeda corrente do país de onde ele está
importando, ou seja, reais do Brasil. Assim, pode-se dizer que ele deve comprar moedas no mercado
de divisas.

2.3.1 Você sabe o que é o mercado de divisas?

Mercado de divisas é o mercado no qual se compram e vendem moedas dos diferentes países.
É neste mercado que se faz a troca da moeda nacional pela moeda dos países com quem mantemos
relações comerciais para atender a pagamentos no exterior. É no mercado de divisas que os brasileiros
adquirem moedas estrangeiras para, por exemplo, passar férias no exterior.
Bom, um mercado de divisas opera como qualquer outro mercado. Há demanda (pessoas que querem
comprar moedas estrangeiras) e oferta (pessoas que desejam vender moedas estrangeiras). Portanto, você
pode notar que se há demanda e oferta há também um preço. A esse preço dá-se o nome de taxa de câmbio.
A taxa de cambio é o preço de uma moeda expressa em outra. A taxa de câmbio mostra quantas
unidades de moeda nacional temos que gastar para comprar uma unidade de moeda estrangeira.

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Por exemplo:
No dia 07/03/2011, a taxa de câmbio entre o real e o dólar americano mostrava a seguinte relação:
US$ 1 = R$ 1,61160
Ou seja, para comprar um dólar nesta data era preciso R$ 1,61160. Neste ponto, é importante você entender
o conceito de depreciação e valorização cambial.

2.3.2 Depreciação e valorização cambial

Devido às mudanças nos cenários econômicos, podem ocorrer mudanças nos preços das moedas
estrangeiras. Quando tais mudanças ocorrem, é dito que houve uma flutuação cambial. Esta flutuação pode
aumentar ou diminuir o valor da moeda estrangeira.
Analise acompanhando os exemplos a seguir.

EXEMPLO:
Suponha que o preço do dólar aumente de R$ 1,61160 para R$ 2,00. Quando isso ocorre, note que você
precisará mais reais para comprar a mesma unidade de dólar. Então, neste caso, se diz que o real se
desvalorizou.

Já se o dólar passasse de R$ 1,61160 para R$ 1,50, você notará que ficou mais barato comprar uma
unidade de dólar. Então, neste caso, o real se valorizou.

Não apenas se deve estar atento às modificações na taxa de câmbio, mas também na repercussão
destas variações nas organizações.
1. Quando há uma desvalorização do real perante o dólar, por exemplo, isso significa que nossos
produtos se tornam mais baratos no exterior. Em contrapartida, os produtos estrangeiros ficam mais caros
internamente. Portanto, isso leva a um aumento das nossas exportações (estimulando as empresas que
dispõem de produtos para exportações) e leva a uma redução nas importações (o que é bom para empresas
nacionais que podem passar a produzir aqui produtos que antes eram importados).
2. Já quando há uma valorização da moeda nacional, quando o dólar se torna mais barato para nós,
ocorre o efeito inverso, ou seja, nossos produtos se tornam mais caros no exterior e os produtos importados
ficam mais acessíveis para nós. Isto faz com que as nossas empresas exportadoras sejam prejudicadas, já que
irão vender menos. Por outro lado, as empresas importadoras terão condições de aumentar a oferta de seus
produtos a preços mais acessíveis.

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2.3.3 O sistema de taxas de câmbio flutuantes

O sistema de determinação do câmbio utilizado atualmente na maioria dos países capitalistas, entre
eles o Brasil, é o sistema de câmbio flutuante. Ou seja, a taxa de câmbio será determinada pelas forças de
oferta e demanda. Também se chama esta situação de câmbio flexível.
Ou seja, a oferta e a demanda por moedas estrangeiras é que vão determinar o preço desta moeda.

Unidade 3 – MARKETING INTERNACIONAL

Atualmente, as implicações políticas, econômicas e sociais sobre o resultado das ações comerciais de
uma nação no âmbito internacional são extremamente importantes no contexto da globalização. Da mesma
forma, as ações comerciais das empresas na arena internacional devem ser precedidas de uma cuidadosa
estratégia de marketing. A ciência que estuda estas ações e suas implicações é o Marketing Internacional,
que segundo a definição de Keegan, (KEEGAN, W. J.; GREEN, M. C. Princípios de marketing global. São
Paulo: Saraiva, 1999) é um processo que visa otimizar os recursos e orientar os objetivos de uma
organização através das oportunidades de um mercado global.
Segundo Philip kotler, reconhecido como uma das maiores autoridades mundiais em marketing
atualmente, o marketing é “um processo social e gerencial pelo qual indivíduos e grupos obtêm o que
necessitam e desejam através da criação, oferta e troca de produtos de valor com outros”. Esta é uma
definição genérica, e sabemos que a partir deste conceito, a administração do marketing envolve:
- planejamento;
- pesquisa;
- identificação;
- conhecimento;

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- segmentação de mercado;
- estudo sobre o comportamento de compra do consumidor;
- decisões de produto;
- preço;
- canais de distribuição;
- comunicação de marketing.

3.1 Diferenças entre marketing Internacional e Local

Para entendermos o marketing internacional devemos partir do marketing genérico e em seguida


distinguir as particularidades do marketing na sua versão internacional. Pode-se afirmar que do ponto de
vista internacional o marketing se diferencia do marketing local em relação ao mercado-alvo a ser atendido,
que passa a ser em um outro país, pois a maioria dos demais componentes do marketing é equivalente. No
entanto, existe a necessidade de adaptação, pois as estratégias deverão ser adequadas às características de
cada nação em particular, em seus aspectos econômicos, sócio-culturais, políticos/legais, financeiros e
tecnológicos.

3.2 Função do marketing internacional

A principal função do marketing internacional é realizar atividades mercadológicas e gerenciar o


fluxo de bens ou de serviços desde uma empresa até aos seus consumidores ou usuários, em mais de um país,
levando-se em conta a diversidade cultural, racial e social de cada região ou pais. Esta função teve início nos
primórdios da era mercantilista, quando começou a haver movimentos comerciais entre nações. Claro que
nesta época não havia uma ciência organizada para orientar esta atividade.
Como exemplo do início da expansão do mercado além das fronteiras nacionais, podemos citar a
época das grandes navegações, quando os navegadores marítimos exploravam as rotas para as Índias.

3.3 Detalhes da Globalização

Com o fim da guerra fria, ocorreu o acirramento do movimento denominado Globalização. Este
movimento ocorreu a partir da queda do muro de Berlim, em novembro de 1989, e após a dissolução da ex-
URSS, em dezembro de 1991, a globalização dos mercados teve um grande impulso. Estes acontecimentos
históricos geraram o crescimento do mercado entre nações e consequentemente o desenvolvimento das
atividades de marketing que pudessem atender estes novos clientes oriundos de outros países, e de culturas e
costumes diferentes.
No caso do comércio exterior, uma das conseqüências foi o estabelecimento de blocos econômicos, e
áreas de livre comercio como a União Européia, o Nafta, e Mercosul. Todos estes fatores interferem

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fortemente no marketing internacional, e criam algumas nuances nas relações entre nações e empresas que
disputam espaço no mercado internacional.
É preciso fazer um estudo sobre cada país individualmente, sua cultura, economia, política, leis e
normativos, regras de marcas, patentes, licenciamento e câmbio. Cada variável destas pode facilitar ou
dificultar o processo de marketing internacional. Analisando cada ambiente, para que a cultura de um país
possa ser respeitada pelos profissionais de marketing e para que se possa obter sucesso nos negócios.

3.4 Exemplo de equivoco no marketing internacional

Após o grande sucesso da “A China in Box”, no Brasil, esta empresa resolveu expandir suas
operações para a Argentina, realizando as mesmas estratégias de mercado utilizadas no Brasil. Resultado:
obteve um grande prejuízo, pois o comportamento do consumidor argentino provou-se bastante diferente do
brasileiro e exigia adaptação, o que não foi feito à época desta operação.

3.5 Exemplo de uma estratégia de marketing internacional criativa e eficaz

O Google empresa extremamente criativa e bem posicionada no mercado internacional, dona de um


posicionamento invejável no setor de sites de buscas, capaz de superar com larga vantagem empresas
bilionárias como a Microsoft e Yahoo, neste mercado, é um exemplo clássico de uma corporação que sabe
pensar “globalmente e agir regionalmente”. Para quem observa atentamente o site do Google, pode-se
perceber que sua logomarca sofre frequentemente alterações para se adaptar as particularidades culturais de
cada país ou região. Por exemplo, aqui no Brasil, no dia sete de setembro, dia da independência brasileira, o
google modifica sua logomarca para representar este importante acontecimento nacional. O mesmo ocorre
em outras datas como São João, dia das Mães e Natal.
Sua estratégia e simples: ela se adapta à cultura do país, não apenas respeitando cada povo, mas
aproveitando para homenageá-lo nas datas comemorativas. Este sim é um exemplo de uma estratégia criativa
e eficaz.

3.6 Respeito à cultura e à religião

É fundamental entender a língua, comportamentos, valores e crenças de cada povo com quem se vai
lidar. Por exemplo, nos países asiáticos, a cor branca está associada à morte, e nos países do Oriente Médio,
é necessário se preocupar com os trajes, respeitar valores religiosos, como se reportar à cidade sagrada para
os muçulmanos – Meca – nas práticas comerciais.

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3.7 Riscos para o Marketing Internacional

Em relação à economia, o marketing internacional deve avaliar cada país, sob o ponto de vista
econômico, o PIB, a taxa de crescimento, a inflação, a renda do país, sua capacidade de pagamento e se sua
economia é predominantemente industrial, de serviços, comercial ou agropecuária.
Também o ambiente governamental é importante nas estratégias de marketing internacional. Há
países com forte instabilidade política como o Haiti, o Líbano, o Iraque e o Afeganistão, que não inspiram
confiança no mercado, por isto muita empresas evitam investir ou negociar com os mesmos, a menos que os
riscos sejam calculados, os retornos financeiros sejam altos e as margens de riscos sejam previstas
minuciosamente.
Existem outras questões legais que envolvem marcas, patentes e licenciamento, e são intensamente
fiscalizadas pelos governos dos países, especialmente os mais ricos, que buscam proteger seus produtos da
pirataria, contrabando e outros crimes.
Outras recomendações para os profissionais de marketing é que avaliem o papel de órgãos como a
OMC (Organização Mundial do Comércio) nas relações comerciais entre países, e busquem saber se estes
órgãos são respeitados naquele pais onde for comercializar.
Um exemplo de negligencia sobre estes aspectos levantados anteriormente foi o conflito recente
entre Brasil e Bolívia. Houve um grande prejuízo da PETROBRÁS em função do desrespeito dos acordos
comerciais por parte da Bolívia, em relação ao grande investimento que a empresa brasileira havia realizado
naquele país. Aparentemente, os “rapazes”, que cuidam das estratégias de marketing da Petrobrás,
esqueceram desta lição elementar do marketing internacional que é o estudo profundo das implicações
políticas e sociais de uma economia com forte instabilidade política e social, para a elaboração de um plano
de marketing seguro e que implique em investimento pesados à longo prazo.

3.8 A importância do Câmbio no mercado Internacional


Finalmente é preciso levar em conta a análise da variável financeira e de câmbio dos países. O valor
da moeda nacional em relação à de outro país tem forte influencia em um dos elementos do composto de
marketing, o Preço. Desta maneira, ao fixar preços é fundamental que a empresa acompanhe o câmbio e a
situação financeira do país no qual faz negócio.

3.9 Vantagens do Marketing Global

Todo plano de marketing dirigido ao mercado externo deve ser exaustivamente investigativo quanto
aos impactos causados por estes ambientes, e analisados anteriormente à definição da estratégia de marketing
a ser utilizada, para que se coloquem em prática ferramentas de marketing como: lançamentos de produtos,
campanhas de comunicação integrada de marketing, escolha de pontos-de-venda, etc.

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Algumas das principais vantagens do marketing global para empresas e países:
- Redução das ineficiências de custo e da duplicidade de esforços entre subsidiárias nacionais e
regionais;
- Oportunidades para a transferência de produtos, marcas e outras idéias para as subsidiárias;
- Surgimento de clientes globais;

- Melhoria de vínculos entre infra-estruturas nacionais que levam ao desenvolvimento de uma infra-

estrutura de marketing global.

Conclusões

É preciso “pensar globalmente e agir regionalmente”, ou seja, já que o marketing internacional tem
todos os componentes do marketing tradicional, desde a necessidade de planejamento, estudo de mercado e
de tendências, definição de produtos, e estratégias de comunicação, mas exige uma adaptação às distinções
com relação a aspectos como: diferenças sociais, raciais, regionais, situação política, econômica, respeito às
regras internacionais e cambio, é necessário realizar uma profunda pesquisa em relação ao país em que irá
comercializar para prever todas as situações e elaborar o plano de marketing mais adequado àquela situação.

Unidade 4 – DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO

Por: Silvana Aparecida Wierzchón.

Conceito: O Direito Internacional privado é representado por normas que definem qual o direito a
ser aplicado a uma relação jurídica com conexão internacional, indicando o direito aplicável. Como
fundamentos podem ser destacados: conflito de leis; intercâmbio universal ou comércio
internacional; extraterritorialidade das leis. É importante observar que sob ótica das ordens jurídicas
elas podem ser de dois modos: uma só ordem (quando para solução de um problema independe de

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outro ordenamento jurídico senão o próprio do país); duas ou mais ordens jurídicas (quando para
solução de um problema é preciso se levar em conta o ordenamento jurídico de um outro país). Em
linhas gerais, como exposto anteriormente, o direito internacional privado seria um conjunto de
princípios e regras sobre qual legislação aplicável à solução de relações jurídicas privadas quando
envolvidos nas relações mais de um país, ou seja, a nível internacional. Objeto: O direito
internacional privado resolve conflitos de leis no espaço referentes ao direito privado; indica qual
direito, dentre aqueles que tenham conexão com a lide sub judice, deverá ser aplicado. O objeto da
disciplina é internacional, sempre se refere às relações jurídicas com conexão que transcende as
fronteiras nacionais. Desta forma, alguns pontos são analisados pelo direito internacional privado,
que são a questão da uniformização das leis, a nacionalidade, a condição jurídica do estrangeiro, o
conflito de leis como já citado e o reconhecimento internacional dos direitos adquiridos pelos
países. Objetivo: O direito internacional privado visa à realização da justiça material meramente de
forma indireta, e isso, mediante elementos de conexão alternativos favorecendo a validade jurídica
de um negócio jurídico. Outro objetivo do direito internacional privado importante de ser lembrado
é a harmonização das decisões judiciais proferidas pela justiça doméstica com o direito dos países
com os quais a relação jurídica tem conexão internacional. Normas jusprivatistas internacionais: A
norma do direito internacional privado delimita a eficácia das normas de ordem interna e indica a lei
estrangeira que deve reger uma determinação relação jurídica internacional. Pode se dizer que trata
de questões “contaminadas” por, pelo menos, um elemento estrangeiro (casamento, nacionalidade,
local da morte, local dos bens etc). Esse elemento estrangeiro é fundamental; é ele que diferencia o
direito internacional privado do direito privado comum. As normas podem se classificar quanto à
fonte, quanto a natureza e quanto a estrutura. a) Quanto a fonte: pode ser legislativa, doutrinária e
jurisprudencial, pode ainda ser interna ou internacional (tratados e convenções). b) Quanto a
natureza: geralmente é conflitual, indireta ou seja, não solucionam a questão em si mais indicam
qual direito deve ser aplicado. Art. 263 do Código de Bustamente; artigo 7º da LICC é direta
quando dotam regras materiais uniformes, que dão solução a questão. Há ainda as normas
qualificadoras, que não são conflituais, nem substanciais, mas conceituais. c) Quanto a estrutura:
são unilaterais, bilaterais ou justapostas. Unilaterais ou incompletas são aquelas que se preocupam
apenas com a aplicação da regra do direito internacional privado aos nacionais, ou seja, a regra de
direito interno, independentemente do direito estrangeiro. O caput diz a lei do domicílio da pessoa
natural, ou seja, se aplica tanto a brasileiros como a estrangeiros. Essas normas se direcionam ou
aos seus nacionais ou exclui os nacionais e afeta só os estrangeiros. As bilaterais ou completas, são
as que se destinam a todos os nacionais, tem um aspecto universal, multilateral, ocupando-se de
todo o mundo. Elementos de conexão: O problema fundamental do direito internacional privado é a
determinação e utilização das regras solucionadoras de conflitos interespaciais, isto é, a utilização
dos elementos de conexão. As regras jurídicas em geral possuem a estrutura de uma hipótese e um
dispositivo que regulamenta esse fato. Por exemplo, fato: a pessoa quando alcança 18 anos. Fato –
alcançar 18 anos. Conseqüência - tornar-se capaz. Os elementos de conexão, como a própria
expressão dispõe, nada mais são do que vínculos que relacionam um fato qualquer a um sistema
jurídico. Segundo Dolinger, sua enumeração leva em conta o “sujeito” (sua capacidade)
determinando o local onde está situado ali também será a sede da relação jurídica, o “objeto”
(imóvel ou móvel) e o “ato jurídico” (considerando a localização do ato). Existem várias regras de
conexão, e apenas para citar como exemplos: lex patriae (lei da nacionalidade da pessoa física), lex
domicilli (lei do domicílio), lex loci actus (lei do local do ato jurídico), entre outras. No sistema
brasileiro de direito internacional privado os principais elementos de conexão que podem ser
analisados, apenas a título de exemplificação: art. 7º, caput, da Lei de Introdução do Código Civil
que trata do domicílio; art. 7º, §1º da mesma Lei que trata das formalidades do casamento, etc.
Qualificação: “Qualificar é classificar, é definir, para alguns. Se tivermos uma questão de direito
internacional privado, é preciso determinar a forma pela qual ela se enquadra no sistema jurídico de

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determinado país. [...] se resume em identificar como a questão que se põe ao julgador, ao
doutrinador, é conceituada no sistema jurídico alienígena” . Existem diferentes métodos de se
classificar a qualificação, por exemplo: 1 – Lex fori: a maioria dos internacionalistas indicam que
para melhor solução deve-se aplicar a lei do fori. Aqui no Brasil quase sempre se opta pela Lex fori,
com duas exceções a do artigo 8º e 9º da LICC. 2 – Lex Cusae: a lei do ordenamento jurídico que
potencialmente seria aplicado a causa. 3 – Conceitos autônomos e universais: para saber como se
classifica um determinado fato, eu vou investigar todos os sistemas jurídicos e vou ver qual é a
maioria seguida em relação aquele fato, daí sigo aquele ordenamento. - Aplicação do direito
estrangeiro: Não se faz por ato arbitrário do juiz, mas em decorrência de mandamento legal da
legislação interna. Reputa-se a norma estrangeira com força coativa igual à brasileira. As partes, em
princípio, não podem renunciar ao seu império. Sua obrigatoriedade é de tal natureza que o julgador
tem o dever de aplicá-la mesmo quando não invocada pelas partes. Embora se diga, em meio a
divergências doutrinárias, que o direito estrangeiro competente se integra na ordem brasileira, não
decorre da afirmativa a conclusão de que se aplica o princípio jura novit curia. O juiz pode
dispensar a prova do direito estrangeiro, se o conhecer, embora daí possa decorrer o inconveniente
de, no julgamento coletivo, haver necessidade de se provar sua existência. Os tratados e convenções
internacionais celebrados pelo Brasil se equiparam ao direito federal, dispensada a parte do ônus da
prova do texto e da vigência. Aquele que alegar direito estrangeiro deverá provar-lhe o teor e a
vigência, salvo se o juiz dispensar a prova. O meio mais próprio de prova é o da certidão passada
pela autoridade consular estrangeira, contendo o texto legal e sua vigência, ou uma certidão de
autoridade estrangeira autenticada pelo cônsul. Para certos autores, no caso de dificuldades
decorrentes da ausência de relações diplomáticas, é lícito recorrer a pareceres de doutos e à
doutrina. O ônus da prova do direito estrangeiro cabe a quem o alega. Se nenhuma das partes
postular a aplicação de norma que possa resultar em solução segundo o direito alienígena, ao autor
compete o ônus da prova. Algumas regras para a aplicação do direito estrangeiro são a recepção
formal (posso fazer uma recepção meramente formal), a recepção material e a aplicação sem
incorporação (aplicação da norma jurídica não possui qualquer incorporação ou integração com
regime jurídico do foro). Assim como existem regras para aplicação em tela, também existem
limites, que devem ser observados como o princípio de ordem pública (princípios estruturantes do
direito privado; estão na Constituição Federal, logo, todos eles são princípios de ordem pública.
Então, direito estrangeiro que fere a ordem pública pode até ser válido, mas é ineficaz no Brasil -
LICC art. 17. Por exemplo: Divórcio islâmico - Dá-se pela repudia. O STF não homologa esse tipo
de sentença, pois fere a ordem pública; Casamento poligâmico - Vale o primeiro casamento, e os
demais são ineficazes para o ordenamento jurídico brasileiro, etc.). Outra limitação diz respeito à
fraude à Lei: por exemplo, troca de domicílio (para fugir da aplicação da lei tributária), alteração de
nacionalidade. A fraude à lei implica em ineficácia do ato. Observar os recursos cabíveis por força
do art. 105, III, “a” e “c” da Constituição Federal. Direito Internacional Privado – Parte Especial:
Nacionalidade e Naturalização: Nacionalidade é um vinculo jurídico político estabelecido entre
um Estado e uma pessoa. Existe uma diferença entre nacionalidade e cidadania, na cidadania existe
um plus que são os direitos políticos, tais como os de votar. A cidadania pressupõe sempre a
aquisição de nacionalidade. Cidadão é aquele que exerce seus direitos políticos. Artigo 12 da CF
trata da aquisição e perda da nacionalidade. É pressuposto para o exercício da cidadania, que a
pessoa seja brasileira, mais não necessariamente nato. São brasileiros natos aqueles nascidos no
Brasil. Se uma embaixadora estiver aqui no Brasil fazendo algum serviço e estiver grávida e o filho
nascer aqui, esse filho não vai ser brasileiro. Se porventura a Diretora presidente da Embraer for
para uma feira na Alemanha e estiver grávida, esse filho não vai ser brasileiro, porque ela não está
exercendo função de Estado. Aqueles que exercem função do Estado se tiverem seus filhos fora do
Brasil serão brasileiros. Aquisição de nacionalidade no Brasil: Ius solis, Ius sanguines. Regra geral
só se tem uma e apenas nacionalidade. Aquisição de nacionalidade – originário e secundaria – art.

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12 da CF II. Naturalização: a naturalização é um meio derivado de aquisição de nacionalidade e
consiste na equiparação do estrangeiro, no que se refere aos direitos e deveres. Naturalização para
portugueses ou originários de países de língua portuguesa, os requisitos são residência por um ano e
idoneidade moral. A regra geral de concessão de naturalização originária é o ius sanguines. As
condições essenciais para que um estrangeiro se naturalize brasileiro são: 1.º prova de que possui
capacidade civil, segundo a lei brasileira; 2.º residência continua no território nacional, pelo prazo
mínimo de cinco anos; 3.º saber ler e escrever a língua portuguesa; 4.º exercício de profissão ou
posse de bens suficientes à manutenção própria e da família; 5.º bom procedimento; 6.º ausência de
pronuncia ou condenação no Brasil; prova de sanidade física. A naturalização é requerida ao
Presidente da Republica, com declaração, por extenso, do nome do naturalizando, sua
nacionalidade, naturalidade, filiação, estado civil, data do nascimento, profissão, lugares onde
residiu antes, devendo ser por ele assinada. São exigidos como complemento à petição: carteira de
identidade para estrangeiro, atestado policial de residência contínua no Brasil, atestado policial de
bons antecedentes e folha corrida, passados pelos serviços competentes dos lugares do Brasil onde o
naturalizante tiver residido, carteira profissional, diplomas, atestados de associações, sindicatos ou
empresas empregadoras; atestado de sanidade física e mental, certidões ou atestados que provem as
condições já citadas anteriormente como essenciais à naturalização. O requerimento e os
documentos que o completam são apresentados ao orago competente do Ministério da Justiça, no
Distrito Federal, ou à Prefeitura Municipal da localidade em que residir o requerente. Após o exame
da documentação, realizam-se sindicâncias sobre a vida pregressa do naturalizando, devendo o
processo ultimar-se em cento e vinte dias, contados a partir do protocolo do requerimento.
Condição jurídica do estrangeiro: O Estado que acolhe estrangeiros em seu território deve
reconhecer-lhes certos direitos e deve exigir deles certas obrigações. Exemplo de direito do Estado:
o de vigilância e policia sobre o estrangeiro, embora se deva conduzir tal pratica com a brandura
possível. O Estado deve regular a condição do estrangeiro, protegendo suas pessoas e seus bens, e
reconhecer a todos o menino de direitos admitidos pelo direito internacional. Os direitos que devem
ser reconhecidos aos estrangeiros são: 1) o direito à liberdade individual e a inviolabilidade da
pessoa humana, liberdade de consciência, de culto, inviolabilidade de domicilio, direito de
propriedade; 2) direitos civis e de família. Os direitos e liberdades supracitados não são absolutos,
pois não impedem que os estrangeiros sejam presos ou punidos com a pena ultima. É também licito
e recomendável que se recuse ao estrangeiro a faculdade de exercer, país de residência, os direitos
políticos que tenham no país de origem. É importante comentar, sobretudo que traz a Lei de
Introdução ao CC os limites à aplicação do direito estrangeiro, enunciando que as leis, os atos e as
sentenças de outro país, bem como quaisquer declarações de vontade, não terão eficácia no Brasil
quando ofenderem a soberania nacional, a ordem pública e os bons costumes. Esses limites são
chamados de salvaguarda imunológica. A ordem pública é o princípio mais usado para limitar a
aplicação da lei estrangeira. Ordem pública é a soma dos valores morais e políticos de um povo.
Vê-se que se trata de um conceito fluido, variável no tempo e no espaço. Um exemplo de aplicação
da ordem pública como fator de limitação à aplicação da legislação estrangeira: uma sentença
argelina condenou uma mulher ao divórcio e à perda da guarda do filho por não querer acompanhar
o marido para fora do país, o que foi tido, na França, como ofensivo à ordem pública; uma lei
tunisina não admite fixação de filiação não decorrente de casamento (filho natural não pode nem
mesmo pedir alimentos); mas o mais marcante exemplo temos nos casamentos polígamos dos
árabes. Acima de tudo, é muito importante lembrar que de acordo com a CF, no art. 95, o
estrangeiro residente no Brasil goza de todos os direitos reconhecidos aos brasileiros, nos termos da
Constituição e das leis.

Perfil do autor:

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Bacharel em Economia pela Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão no ano de
2000 e em Direito pela Faculdade Integrado de Campo Mourão. Assessora parlamentar do Poder
Legislativo de Campo Mourão desde o ano de 2004.

Fonte: http://Artigonal.com

APÓS A LEITURA DO ARTIGO ACIMA, CONTINUE A LEITURA DO MATERIAL


ABAIXO:

INTRODUÇÃO

Direito internacional privado (DIPr) é o conjunto de normas jurídicas, criado por uma autoridade política
autônoma (um Estado nacional ou uma sua província que disponha de uma ordem jurídica autônoma), com o
propósito de resolver os conflitos de leis no espaço. Em termos simples, o DIPr é um conjunto de regras de
direito interno que indica ao juiz local que lei – se a do foro ou a estrangeira; ou dentre duas estrangeiras -
deverá ser aplicada a um caso (geralmente privado) que tenha relação com mais de um país.
A possibilidade de o juiz de um país (“juiz do foro”) aplicar lei estrangeira decorre da necessidade de
se reconhecer fatos e atos jurídicos constituídos em outros países e cuja negação pelo juiz do foro causaria
uma injustiça. Por exemplo, o DIPr brasileiro dispõe que a lei do país em que for domiciliada a pessoa
determina as regras sobre a capacidade: esta regra específica foi estabelecida pelo direito brasileiro para
evitar, dentre outros problemas, que uma pessoa domiciliada num país estrangeiro e reconhecida ali como
maior de idade venha a ser considerada menor de idade no Brasil (caso a lei brasileira e a estrangeira
divirjam nesse particular – um “conflito de leis”), o que seria inconveniente e injusto. Este é apenas um
exemplo do conjunto de regras que o Brasil criou para evitar conflitos semelhantes.
Da mesma maneira que o Brasil, cada Estado nacional possui o seu DIPr, com regras não
necessariamente uniformes. Ao estudo dos conflitos de leis no espaço, muitos juristas acrescentam no escopo
do DIPr as normas de direito interno referentes ao conflito de jurisdições, à nacionalidade e à condição
jurídica do estrangeiro.

INCURSÃO HISTÓRICA

Nas sociedades antigas, o estrangeiro, como regra, não gozava de direitos e, como consequência, não
havia conflitos entre ordens jurídicas diversas, razão de ser do DIPr. A eventual necessidade de julgar os
estrangeiros levou à criação de tribunais excepcionais, como o do Pretor Peregrino, em Roma, e o do
Polemarca, em Atenas. Por outro lado, o Pentateuco continha normas sobre o tratamento equânime do
estrangeiro entre o povo judeu.

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Com as invasões bárbaras do século V e o fim do Império Romano, surgiu o sistema da
personalidade da lei, segundo o qual cada indivíduo, em território estrangeiro, gozava do direito de reger sua
vida pelas leis da sua origem. Como cada grupo conservava os seus próprios costumes, conviviam, portanto,
no mesmo território, o direito romano (para reger os antigos cidadãos romanos) e o de diferentes povos
bárbaros. De modo a procurar resolver os conflitos de leis naturalmente provocados por este estado de
coisas, criaram-se certas regras de conflito de leis, como as que aplicavam a lei do vendedor à compra e
venda, a da origem nacional do falecido à sucessão, e a da origem nacional do marido à mulher.
Posteriormente, a fixação do homem na terra, a organização dos feudos e a autonomia do senhor
feudal marcaram o fim da fase da personalidade da lei e o início da aplicação do princípio oposto, o da
territorialidade da lei. As populações passaram a submeter-se exclusivamente à lei em vigor em seus
territórios, o que impedia o aparecimento de conflitos de leis.
A partir do século XI, as cidades-Estado do norte da Itália, que se haviam tornado grandes centros
comerciais começaram a transformar o seu direito consuetudinário em estatutos escritos, voltados
principalmente para o direito privado e com diferenças entre si. A intensificação do comércio na região
levava a contatos frequentes entre mercadores de diversas cidades, cujos eventuais diferendos, levados a
tribunais locais, impunham a necessidade de definir qual o estatuto aplicável ao caso. As primeiras tentativas
de estabelecimento de regras para resolver tais conflitos de leis marcam, segundo alguns, o início da ciência
do DIPr.

FONTES DE DIREITO

Entende-se por fontes de direito os mecanismos, instrumentos ou mesmo circunstâncias que


constituam, criem ou determinem o reconhecimento de normas jurídicas aplicáveis a situações fáticas
concretas. Nesse sentido, as fontes admitidas como principais para o Direito Internacional privado são a lei, a
doutrina, a jurisprudência e os tratados e convenções internacionais.

LEI

No estado atual da Ciência Jurídica, o Direito Internacional Privado é Direito Privado, é Direito
Nacional de cada pais. Suas normas, seus princípios estão formulados na legislação positiva de cada Estado.
Portanto, a lei interna é a grande fonte do Direito Internacional Privado.
Portanto, as normas de Direito Internacional Privado são normas locais, são regras de Direito
Interno, e constituem por assim dizer, verdadeiros sistemas nacionais de Direito Internacional Privado.
A codificação das regras do Direito Internacional Privado teve início no século XIX, destacando-se o
Código de Napoleão (1804), o qual estabeleceu regras sobre a aplicação das leis no espaço.

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Seguindo o Código de Napoleão, surgiram vários outros como o Código Civil do Chile, o Código
Civil da Itália, o Código Civil do Canadá, o Código Civil da Espanha, entre outros. Dentre eles, o que mais
se destacou foi o italiano, por sua forma mais sistemática dos dispositivos de Direito Internacional Privado.
Nos seus arts. 6º ao 12 das "Disposições Gerais", relativas à publicação, interpretação e aplicação das
leis, encontramos normas interessantes sobre leis pessoais; situação dos bens móveis e imóveis; contratos,
competência e formas do processo; execução de sentença estrangeira e as limitações de ordem pública e bons
costumes.
No Brasil, o panorama jurídico não é diverso. Antes do Código Civil tínhamos regras dispersas.
Em 1916, foi promulgado o Código Civil, em cuja "Introdução", nos arts. 8º a 21, foram
determinadas regras de direito interno sobre o Direito Internacional Privado. E, finalmente, na última "Lei
de Introdução", de 04 de setembro de 1942, consagrou-se o nosso sistema local, pelo qual devemos resolver
os conflitos de leis entre a lei brasileira e a lei estrangeira.
Todos esses fatos, portanto, são demonstradores de que no estado atual da Ciência Jurídica, a grande
fonte de nossa disciplina é a lei interna de cada país. Os Estados prescrevem suas regras de solução de
conflitos de leis da maneira que lhes parece melhor, independentemente das regras adotadas por outros
povos. Daí podemos concluir que a lei interna é a grande fonte de Direito, pela qual suas regras se
manifestam no corpo da ciência jurídica.

DOUTRINA
A doutrina é outra fonte reconhecida de Direito Internacional Privado, tendo muito influenciado a
evolução da nossa disciplina em todas as partes do mundo. Veja-se que os princípios fundamentais do
Direito Internacional Privado moderno repousam nas teorias doutrinárias desenvolvidas desde o século XIX.
É o campo do direito em que a doutrina tem mais desenvoltura, maior aplicabilidade. Ela interpreta
as decisões judiciais a respeito do Direito Internacional Privado e com base nas mesmas desenvolve os
princípios da matéria. Entretanto, a doutrina também serve de orientação para os tribunais, os quais muitas
vezes recorrem a ela para decidir questões deste Direito.
O grande mérito da doutrina é o de ter elaborado um sistema de regras jurídicas constitutivas da parte
geral do Direito Internacional Privado. Estas regras, raras vezes, incorporam-se diretamente à legislação dos
Estados. Em sua grande maioria são compostas por regras não escritas, e sua aplicação, pelos tribunais,
baseia-se de imediato, nas fontes doutrinárias.
Uma característica própria da doutrina é a sua visão global. Embora o Direito Internacional Privado
seja basicamente Direito Interno, eventualmente uniformizado, em algumas das suas partes, o objeto da
disciplina que trata de relações jurídicas de Direito Privado com conexão internacional é estritamente
internacional. Por esse motivo, a doutrina que leva em consideração tal aspecto é indispensável para o juiz,
já que, para este, não é possível um estudo mais abrangente, pela falta de tempo.

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Nesse campo, a fonte doutrinária de grande repercussão é representada pelos trabalhos dos institutos
especializados na pesquisa do Direito Internacional Privado e pelas convenções elaboradas nas conferências
internacionais, mesmo quando não vigentes pela falta do número necessário de ratificações. Como essas
convenções foram preparadas por especialistas de alto nível, o valor doutrinário dos documentos é elevado,
devendo ser aproveitado pelos tribunais na aplicação do Direito Internacional Privado.

JURISPRUDÊNCIA

A jurisprudência é empregada com dupla significação. JURISPRUDÊNCIA EST DIVINARUM


ATQUE HUMANARUM RERUM NOTITIA, IUSTI ATQUE INIUSTI SCIENTIA, já dizia Ulpianus; e neste
sentido é a própria ciência jurídica: é o conhecimento das coisas divinas e humanas, a ciência do justo e do
injusto. A outro propósito, Calhistratus fazia referência à RERUM PERPETUO ET SIMILITER
IUDICATORUM AUCTORITAS, e com este sentido é que a palavra jurisprudência é empregada: autoridade
das coisas semelhantes, julgadas constantemente do mesmo modo.
Dado o caráter permanentemente aproximativo da lei ao disciplinar o fato social, jamais a alcançaria
nesse seu disciplinamento um perfeito envolvimento do fato social. Teria a regulamentação do fato
exclusivamente pelas normas dos códigos que se tornariam demasiadamente volumosos. O fato social é
disciplinado de maneira genérica pelo Direito Positivo. Lacunas e espaços vazios formam-se dentro desse
envolvimento jurídico. É justamente nessas lacunas e hiatos que penetra a jurisprudência para conseguir o
que a norma escrita não o pode fazer.
A jurisprudência - salienta Amilcar de Castro - enquanto entre nós não tenha força obrigatória,
valendo apenas como doutrina, é importantíssima fonte de Direito Internacional Privado, cujas normas
legisladas, em geral, são poucas. E note-se que, como a lei, é resultante de atos oficiais de um poder público,
presumidamente imparcial, pelo que, se não tem força de obrigar os juízes a segui-la, não deixa de ter o
prestígio dos atos oficiais.
Haroldo Valladão enuncia o seu ponto de vista mostrando que a jurisprudência dos tribunais torna-se
cada vez mais uma verdadeira tábua de logaritmos do jurista, fornecendo cada dia soluções não previstas ou
mal e incompletamente previstas pelo legislador. Ela é particularmente necessária ao Direito Internacional
Privado - acentua o grande internacionalista brasileiro - um Direito cuja legislação é fortemente reduzida.
E continua: “Ao lado da lei forma-se um direito jurisprudencial, mais plástico, possível de ser
modificado pelos próprios tribunais, mais vivo, particularizado: o direito positivo corrente. O direito
jurisprudencial une o direito positivo corrente. O direito jurisprudencial une o direito atual ao direito futuro:
ele é a fonte entre o JUS CONSTITUTO e o JUS CONSTITUENDO”.
A autoridade e o valor positivo da jurisprudência variam em cada Estado. Os países do Common
law, como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos lhe dão maior categoria de fonte que os direitos escrito e
codificado.

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TRATADOS E CONVENÇÕES INTERNACIONAIS

Além das fontes internas, o Direito Internacional Privado é baseado também em fontes
internacionais, como os Tratados e Convenções e a Jurisprudência Internacional, e também - como no
Direito Internacional Público - pelos princípios gerais de Direito aceitos pelas nações civilizadas.
Os tratados, em matéria de nacionalidade estão voltados para os conflitos de nacionalidade, tendo
como objetivo evitar os inconvenientes da dupla nacionalidade, entre outros.
A respeito das convenções, faz-se importante destacar a Convenção de Haia, que estabelece soluções
para conflitos de leis no campo do Direito Civil e Comercial.
O tratado internacional é o instrumento para o Direito Internacional Privado uniforme e para o
Direito Uniforme substantivo ou material. A expressão "tratado Internacional" significa um acordo
internacional, celebrado por escrito entre os Estados, regido pelo Direito Internacional, quer conste de um
instrumento único, quer conste de dois ou mais instrumentos conexos, qualquer que seja sua denominação
específica. Cada país regula, individualmente, a incorporação do tratado internacional ao sistema jurídico
interno e a sua ordem hierárquica dentro do sistema.
É em relação aos conflitos de leis que se tem o maior número e mais importante acervo de diplomas
legais internacionais nesta matéria, os quais se dividem em:
Convenções contendo regras de solução de conflitos de leis, isto é, o Direito Internacional Privado
Uniformizado.
Convenções que aprovam Lei Uniforme para atividades de caráter internacional.
Quanto aos tratados, vale mencionar o "Tratado de Lima", que garante a igualdade dos estrangeiros
aos direitos civis de que gozam os nacionais e estabelece o critério da lei da nacionalidade das pessoas para
decidir as questões de estado e de capacidade jurídica; e o "Tratado de Montevidéu", voltado para o sistema
de domicílio.
Além dos tratados vale frisar o “Código Bustamante”, que trata principalmente da lei que rege o
estado e a capacidade das pessoas.
No Brasil, um tratado internacional não pode ferir a Constituição e, inclusive, está sujeito ao controle
de constitucionalidade. O que se discute, sobretudo na doutrina, de particular interesse para nossa disciplina,
é a relação do direito infraconstitucional com o tratado internacional.
A possibilidade de trazer mais segurança às relações jurídicas, diante das dúvidas existentes, e a do
próprio legislador estabelecer os critérios para definir relação entre tratado internacional e legislação
doméstica conflitante. Em parte, isso já ocorre no Brasil, no nível da legislação ordinária.
O legislador brasileiro teve a chance de implementar o princípio da primazia do tratado internacional
sobre a legislação ordinária de origem interna do Direito Internacional Privado por ocasião da revisão da Lei
de Introdução do Código Civil de 1942, podendo isso ser sido feito diretamente no texto revisado. Essa

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manifestação expressa por parte de legislador, evitaria discussões futuras sobre o tema dentro da nossa
disciplina.
O tratado internacional, no Brasil, depende de promulgação e publicação para a sua vigência. Para
que todos os tratados de Direito Internacional Privado passem a ter força de lei, é indispensável a aprovação
do Congresso Nacional e os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem
aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos
membros, serão equivalentes às emendas constitucionais. (Art.5º § 3º - Incluído pela Emenda Constitucional
nº 45, de 2004). O mesmo procedimento abrange as emendas e a revisão ou reforma de tratado em vigor no
país. O Brasil pode excluir ou modificar o efeito jurídico de certas disposições mediante uma declaração
unilateral, que é a reserva, se o próprio tratado a tolerar. Reservas, no entanto, só são possíveis em tratados
multilaterais ou convenções, podendo ser feitos por ocasião do término das negociações de um tratado,
quando o texto já é definitivo e está assinado pelos negociadores ou, ainda, durante o processo de aprovação
legislativa.
Certos acordos internacionais, via de regra, não estão submetidos à aprovação do Congresso
Nacional. São os chamados acordos executivos, possíveis quando o próprio Congresso Nacional autoriza
acordos de especificação, de detalhamento, de suplementação, previstos no próprio texto de um tratado e
deixados ao arbítrio dos países pactuantes. A doutrina admite, ainda, o acordo executivo, entre outras
hipóteses, quando se trata meramente de interpretar cláusulas de um tratado vigente. Acordos internacionais
com reflexos sobre a nossa disciplina são imagináveis dentro desse âmbito restrito.
O tratado internacional não é, ainda, uma fonte jurídica muito significativa no Direito Internacional
Privado brasileiro. O país ratificou, até a presente data, por exemplo, apenas cinco das convenções
elaboradas pela Conferência Especializada Interamericana de Direito Internacional Privado.
O tratado mais importante da espécie, ratificado pelo Brasil, foi o Código Bustamante, de 20 de
Fevereiro de 1928, promulgado pelo Decreto nº 18.871, de 13 de Agosto de 1929.
O Código Bustamante foi ratificado por quinze países sul-americanos. Vários países, entretanto,
declararam reservas quanto à aplicação da convenção. Ademais, o art. 7º do Código permite aos países
contratantes determinarem o estatuto pessoal da pessoa física com autonomia própria. Isso significa que aos
países contratantes é facultado aderir livremente ao elemento de conexão do domicílio ou ao da
nacionalidade. Bustamante declarou-se a favor do último, defendeu uma posição minoritária da América
Latina; prevaleceu, porém, na maioria dos Estados a adoção do elemento de conexão do domicílio nas suas
legislações.
O Código de Bustamante, contudo, não tem quase nenhuma aplicação na prática. Quais seriam as
razões para tanto?
O tratado é muito abrangente, refere-se, inclusive, a matérias que não pertencem ao Direito
Internacional Privado propriamente, como o Direito Penal Internacional e a Extradição. Seu conteúdo é

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muitas vezes vago, e por isso vários países declararam reservas quanto à sua aplicação, como já mencionado.
As regras contidas no tratado, em parte, não correspondem mais às tendências modernas deste Direito.
O Código Bustamante tem limitado, consideravelmente, o seu campo de aplicação, em virtude do
reduzido número de causas de Direito Privado com conexão internacional nos países vinculados
juridicamente ao Código.
As normas do Direito Internacional Privado brasileiro encontram-se, basicamente, na Lei de
Introdução ao Código Civil. Essa lei é posterior à promulgação do Código de Bustamante, e uma parte da
doutrina e a jurisprudência dominante entendem que a lei posterior derroga o tratado anterior quando em
conflito com este. Por fim, os juizes não conhecem o Código Bustamante ou não querem aplicá-lo.
Não faltaram tentativas para revisar o Código Bustamante, levando em consideração,
particularmente, o fato de o Brasil, em 1942, com a nova Lei de Introdução ao Código Civil ter abandonado
a sua posição anterior de adotar o princípio da nacionalidade, dando preferência àquele do domicílio quanto
ao estatuto pessoal da pessoa física. A guinada do Brasil a favor do elemento de conexão do domicílio
significava que todo continente americano, inclusive os Estados Unidos, aplicaria o mesmo elemento de
conexão, o que poderia ter facilitado uma reformulação do Código. Todos os esforços nesse sentido,
contudo, não foram coroados de êxito. Atualmente, as Conferências Especializadas Interamericanas de
Direito Internacional Privado são os motores da evolução do Direito Internacional Privado no continente,
limitando-se, porém, a uniformizar determinadas matérias específicas da nossa disciplina.

REGRAS DE CONEXÃO

São as normas estatuídas pelo DIP que indicam o direito aplicável as diversas situações jurídicas conectadas
a mais de um sistema legal.
1)Lex Patriae - lei da nacionalidade da pessoa física que rege seu estatuto pessoal e capacidade.
2)Lex domicili – lei do domicílio que rege o estatuto pessoal e a capacidade.
3)Lex Loci Actus – lei do local da realização do ato jurídico para reger sua substância.
4)Lex Locus Regit Actun – lei do local da realização do ato jurídico para reger suas formalidades.
5)Lex Loci Contractus – lei do local onde o contrato foi firmado para reger sua interpretação e seu
cumprimento.
6)Lex Loci solutionis – lei do local onde as obrigações ou a obrigação principal do contrato deve ser
cumprida.
7)Lex Loci Delicti – lei do lugar onde o ato ilícito foi cometido rege a obrigação de indenizar.
8)Lex Damni – lei do local onde se manifestaram as conseqüências do ato ilícito para reger a obrigação de
indenizar.
9)Lex Rei Sitae – a coisa é regida pela lei do local em que está situada.

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10)Mobilia Squuntur Personan – o bem móvel é regido pela lei do local em que seu proprietário está
domiciliado.
11)Lex loci Celebrationis – o casmento é regido no que tange as suas formalidades pela lei do local de sua
celebração.
12)Lex Monetae – a lei do país em que cuja moeda a dívida ou outra obrigação legal é expressa.
13)Lex Loci Executions – lei da jurisdição em que se afeta a execução forçada de uma obrigação, via de
regra, se confundindo com a Lex Fori.
14)Lex Fori – lei do foro no qual se trava a demanda judicial. “a minha lei se aplica” / a lei do foro (país) /
aplicação da lei local.
15)Lex Causae – fala-se em lex causae em sentido genérico, como referência a lei determinada por uma das
várias regras de conexão em contraposição a lex fori.

Unidade 5 – COMO CONSTRUIR UM NEGÓCIO


INTERNACIONAL

Nesta unidade, você conhecerá como as empresas fazem para implementar suas estratégias internacionais.
Para isso, esta unidade desenvolverá quatro aspectos dos negócios internacionais: a estrutura das
organizações; os seus processos de gerenciamento; as pessoas; a cultura organizacional.

5.1 ESTRUTURA DOS NEGÓCIOS INTERNACIONAIS

Um dos aspectos mais importantes para um negócio internacional consiste em como criar uma
estrutura organizacional capaz de implementar eficazmente a estratégia de internacionalização a que a
empresa se propôs. No entanto, cabe a você considerar os seguintes questionamentos:

- Qual o desenho organizacional mais adequado para que exista um equilíbrio entre a autonomia e a
integração entre as unidades dispersas pelo mundo?
- Caso a empresa não seja global, como deve ser a estrutura da empresa? Multinacional ou
transnacional?

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Geralmente, esse é um dos problemas principais com que se deparam os gerentes de empresas
internacionalizadas. As unidades exigem autonomia; ao mesmo tempo, a organização como um todo
necessita de integração.

- Mas como a integração pode ser desenvolvida?

- Como você poderá transferir o conhecimento de uma unidade para outra?

A definição de uma estrutura organizacional adequada deve começar pela identificação da estratégia.
Veja o que ocorre para a estrutura multinacional. No caso da empresa exportadora, a estrutura organizacional
tende a apresentar divisões internacionais para as atividades domésticas e para as internacionais. O controle
sobre as operações internacionais tende a ficar centralizado no país de origem. E, como a integração não é
enfocada nesta estratégia, a estrutura pode ter forte dimensão funcional (YIP, 1996).

Para a estratégia multidoméstica, as decisões estratégicas e operacionais são descentralizadas para as


unidades de negócios de cada país, não necessitando, portanto, de uma integração significativa entre as
unidades. Porém, a autoridade fica dispersa de acordo com o número de países em que a empresa atua. Cada
unidade local trabalhará o seu produto e o seu mercado com grande autonomia. Considerando estes aspectos,
a estrutura organizacional de um negócio multidoméstico deve enfatizar os interesses nacionais e facilitar a
atuação dos gerentes para atender as diferenças locais, como é o caso da cultura de cada país.

Haverá um escritório central da multinacional e as unidades de cada país tendem a ser totalmente
separadas. Nesse caso, não há mais a divisão do negócio doméstico e do negócio internacional, como tende a
ocorrer na empresa exportadora. A formalização da empresa multinacional tende a ser baixa, ou seja, a
coordenação ocorre informalmente, já que não existe nela uma exigência formal para a coordenação. As
relações entre as unidades são pequenas, e a comunicação tende a ocorrer somente no sentido das unidades
para o escritório central e vice-versa, não horizontalmente (entre unidades).

Como as próprias características da estrutura multinacional sugerem, a sua desvantagem é a busca da


efi ciência global. Se a empresa desejar alcançar economias de escala ou escopo internacionalmente, terá que
integrar as atividades das cadeias de valores nacionais e, conseqüentemente, desenvolver mudanças nessa
estrutura organizacional.

Observe, na figura a seguir, a estrutura organizacional de uma empresa multinacional sugerida por
Hitt et al (2001):

Ásia
Estados
Unidos
America
Latina
Escritório Europa
Central

Austrália Oriente
Médio

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Figura – Estrutura de Área Geográfica de uma empresa Multinacional.
Fonte: Hitt et al (2001)

Os círculos externos representam as unidades nacionais dispersas pelo globo e mostram como as
operações são descentralizadas. A função do escritório central corporativo consiste em coordenar os recursos
financeiros entre cada unidade. O funcionamento dessa estrutura é como o de uma federação descentralizada
(HITT et al, 2001).

Esse tipo de estrutura era muito adotado quando as comunicações e as viagens eram dispendiosas.
Como resultado, o gerente ou diretor de cada país ficava responsável por aquele grande “feudo”, totalmente
independente do resto da corporação.

— Você sabe como é a estrutura da empresa global?


Observe a seguir.

5.2 ESTRUTURA GLOBAL

Na estratégia global, a ênfase está na coordenação entre as unidades que operam nos diferentes
países. Produtos padronizados são oferecidos entre os mercados nacionais. Isso implica que o escritório
central tem que centralizar a tomada de decisão.

A estrutura sugerida para uma empresa com a estratégia global é a estrutura divisional internacional
de produtos, como mostra a Figura abaixo. A autoridade fica centralizada na sede da divisão internacional
para coordenar e integrar decisões e ações entre as unidades de negócios. A coordenação é estimulada
através de contatos diretos entre os gerentes, ligações entre departamentos, forças de trabalho temporárias ou
equipes permanentes que têm como objetivo desenvolver a integração.

Divisão
internacional
de produtos Divisão
Divisão
internacional internacional
de produtos de produtos

Escritório Central
Corporativo Global

Divisão Divisão
internacional internacional
de produtos de produtos

Figura – Estrutura divisional internacional de produtos para uma empresa global.

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Fonte: Hitt et al (2001)

O escritório central coordena o fluxo de informações entre os produtos internacionais. O objetivo


dessa estrutura é proporcionar economias de escala e escopo e, portanto, o escritório central também deverá
alocar os recursos de forma cooperativa, já que todos adotam a mesma estratégia global. A organização
estrutura-se como uma federação centralizada.

À medida que os gerentes participam de transferências entre países, eles se tornam socializados
quanto à filosofia de administrar uma estratégia integrada através de uma estrutura divisional internacional
de produtos. Uma visão compartilhada da estratégia e estrutura da firma é desenvolvida por políticas e
procedimentos padronizados (formalização) que facilitam a implementação dessa forma organizacional
(HITT et al, 2001, p. 468).

A dificuldade de implementar a estrutura divisional internacional é a coordenação das decisões entre


as fronteiras dos países. Na medida em que se busca a coordenação, pode-se prejudicar a rapidez com que a
organização gera respostas rápidas às necessidades locais.

Quando uma empresa adota a estrutura geográfica da multinacional, a alocação de recursos para o
desenvolvimento de um determinado produto em um país concorre com os recursos que são alocados para o
seu país. No caso da estrutura por produto da empresa global, isso não ocorre. O produto do país “X”
concorrerá pela alocação de recursos com outras linhas de produtos que são vendidos pelo mundo todo.

Hitt et al (2001) mostra que a Procter e Gamble é uma empresa que adota uma estrutura divisional
internacional de produtos. A P&G possui sete divisões internacionais de produtos (cuidado de bebês,
tratamento de beleza, cuidado de roupas e do lar, proteção feminina, alimentos, bebidas, tecidos e toalhas) e
oito organizações de desenvolvimento de mercado que trabalham regionalmente para ajudar a preparar e a
comercializar produtos que cada unidade de negócios global cria e administra.

Existirá, no caso da empresa global, um diretor para cada divisão internacional de produtos que
responderá por determinada linha de produtos no mundo todo.

Cabem a esses diretores globais (YIP, 1996): tornar as linhas de produtos globais rentáveis;
coordenar as funções necessárias para o desenvolvimento e comercialização dos produtos; desenvolver um
planejamento estratégico e orçamentos financeiros em cooperação com as funções (marketing, finanças,
produção, etc.) e regiões geográficas e desenvolver a implementação desses planos de forma coordenada
com as funções e regiões; fazer com que o desempenho da sua linha de produtos contribua para a estratégia
global.

De acordo com Yip (1996), a empresa global poderá gerar centralização através das áreas funcionais
(ao invés dos produtos), gerando, assim, diretores globais funcionais, como, por exemplo, diretor corporativo
de marketing global, diretor corporativo de operações global, etc.

A vantagem desse caso é que o responsável pela área funcional global terá uma visão do que ocorre
com os produtos da empresa em todos os países. Ele poderá mostrar para o diretor de marketing de um
determinado país onde a estratégia sugerida por ele está dando certo ou dando errado.

No entanto, de acordo com Yip (1996), esse tipo de estrutura, que centraliza a autoridade
funcionalmente, geralmente falha em desenvolver a coordenação entre os países. Geralmente, esses
executivos não possuem um real controle e contribuem muito pouco para a estratégia global da empresa.

Na seqüência, você poderá conhecer a estrutura da empresa transnacional.

44
5.3 ESTRUTURA TRANSNACIONAL

Uma empresa que adota a estratégia transnacional é aquela que oferece responsividade local (atende
as necessidades locais, como a adaptação de produtos), mas possui eficiência global.

Como as empresas transnacionais combinam o local e o global, a estrutura dessas organizações


também necessita ser do tipo combinatória entre as regiões geográficas e os produtos. Essa integração deve
ocorrer em termos de corporação, mas também dentro de cada país.

Nesse caso, deverá haver a coordenação entre as atividades de negócios diferentes. Quanto mais
ocorrer uma forte integração dentro de cada país, mais se poderá apresentar uma frente comum aos governos,
fornecedores, canais de distribuição, clientes e grupos comunitários. Yip (1996) comenta que, na prática, a
integração nessas duas dimensões (de negócio e de país) é geralmente conflitante.

Hitt et al (2001) mostram que a Ford adota esse tipo de estrutura. Os autores relatam que o presidente
da empresa afirma que existe uma nova fase da Ford “na qual a descentralização do capital, comunicações,
política econômica, política comercial, recursos humanos, marketing, propaganda e marcas estão se
formando em torno de mercados ou sistemas globalmente orientados” (pág. 472).

Isso exige que todos os empregados sejam encorajados a entender os efeitos da diversidade cultural
nas operações da empresa. Nessa concepção, cabe a um escritório central corporativo ter uma forte liderança
e habilidade para conseguir fomentar uma visão compartilhada com vistas a criar uma identidade empresarial
forte.

Nas seções seguintes, você poderá entender um pouco mais como ocorre o processo de integração
nas estruturas globais e transnacionais, por meio do estudo dos demais elementos que formam os negócios
internacionais. O próximo elemento a ser estudado são os processos de gerenciamento.

5.4 PROCESSOS DE GERENCIAMENTO

Os processos de gerenciamento envolvem os sistemas de informação adotados pela empresa ou


outras formas de coordenação utilizadas para integrar os países, o planejamento estratégico global, o
orçamento global, a análise de desempenho e os sistemas de remuneração globais (YIP, 1996). Os sistemas
de informações compreendem os dados que são coletados, analisados, armazenados e comunicados, além dos
métodos utilizados para avaliar essas atividades.

Para as empresas globais, as informações geradas pelos sistemas de informação devem incluir
informações sobre o mercado global, assim como de cada mercado nacional. De acordo com Yip (1996), um
bom teste sobre o sistema de informações de uma empresa é perguntar se tem informações sobre a parcela
global da empresa no negócio de um determinado cliente.

Os sistemas de informação são atualmente um dos instrumentos mais efi cazes para a obtenção de
coordenação entre as unidades empresariais dispersas pelo mundo. A tecnologia da informação permite
atualmente que os sistemas fiquem on-line, trazendo dados atualizados para todos os gerentes e diretores,
com posições de cada empresa.

Para as empresas estruturadas por produto, relatórios podem ser gerados inclusive com o
desempenho por produto, por país, por canal de venda. As áreas funcionais, mesmo que centralizadas no
escritório central, podem dispor desses dados e, com base neles, orientar os diretores das linhas de produtos
sobre como conduzir e melhorar o desempenho de cada linha para cada mercado.

É através dos sistemas de informação que o controle do escritório central pode ser exercido e, com
ele, pode-se ter os dados necessários para que o planejamento estratégico seja alimentado.

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Um sistema de informação eficaz poderá (YIP, 1996): gerar o compartilhamento de informações
entre as unidades estabelecidas nos países sobre os planos estratégicos e de suas operações. Desse
compartilhamento podem surgir oportunidades e ameaças à consecução do plano corporativo; possibilitar
que as diversas unidades negociem seus planos com o escritório central e com outros países; fazer com que a
matriz oriente cada unidade estrangeira a adotar certas ações. Um exemplo: com base dos dados do sistema,
a matriz pode solicitar que os países promovam conjuntamente um determinado produto.

Foram os sistemas de informação e outras formas de comunicação que possibilitaram às empresas


agir globalmente. A queda do custo da comunicação faz com as empresas consigam agir de forma
coordenada, dado que a interação agora é possível, mesmo sem que os gerentes ou diretores tenham que sair
do local onde trabalham. E os sistemas de informação favorecem o conhecimento do local, mostram as
especificidades e possibilitam que ocorra o desenvolvimento comum de produtos.

Outra forma de estímulo à coordenação ocorre via planejamento estratégico global. Os planos
estratégicos que são desenvolvidos em cada país separadamente, para depois serem agrupados, devem ser
evitados. Neste caso, comenta YIP (1996), não se pode dizer que houve um planejamento real de integração
de estratégias. “Quando não se planeja pensando em todos os países, fica difícil entender a posição
competitiva do negócio no mundo todo e mais difícil ainda desenvolver respostas estratégicas integradas aos
concorrentes que planejam em bases globais. Esse fato dificulta a criação e a implementação de programas
globais que precisam de coordenação entre países. O ideal seria um processo de planejamento estratégico
global que envolvesse a alta gerência dos países e regiões mais importantes. Esse processo se adequaria aos
ciclos de planejamento nacional e corporativo” (YIP, 1996, p. 196).

Ter um planejamento estratégico global significa que se tem um orçamento global. Para que se
tenha um orçamento global, as empresas devem (YIP, 1996): somar os orçamentos nacionais de forma que
resultem em um total global para cada linha de produtos; transferir os recursos de um país para o outro, a fim
de subsidiar outros países. Para isso, a empresa global deve ter um sistema de contabilidade que permita essa
transferência; os custos devem ser definidos de uma forma neutra, independente geograficamente da
localização das unidades. Não são os custos de produção que determinarão os preços praticados, mas as
questões estratégicas que devem responder pelos diferentes preços praticados pela empresa ao redor do
mundo; disponibilizar os orçamentos globais para os programas globais, que visem a posicionar a empresa
como um grande competidor mundial; outro ponto de destaque nos sistemas de gerenciamento das empresas
globais é em relação ao seu sistema de remuneração e avaliação de desempenho.

Os sistemas de remuneração dos executivos devem ser desenvolvidos como forma de compensar o
alcance dos objetivos globais da empresa. Os gerentes nacionais devem ser recompensados com base no seu
desempenho nacional, mas também com base no desempenho regional ou global. Dessa forma, o gerente ou
diretor de um país deve receber incentivos se ajudar e cooperar com outro gerente ou diretor de outro país.
Logo, as remunerações são atreladas a um desempenho corporativo, o que facilita o reconhecimento do
desempenho dos diretores nacionais e regionais em projetos, como a introdução de certos produtos, a
implantação de sistemas de informações globais, etc.

No próximo tópico, o tema gerenciamento continuará; no entanto, seu foco agora serão as pessoas.

5.5 PESSOAS E CULTURA

A política ideal de recursos humanos para a estratégia global é aquela que prevê uma combinação de
diferentes experiências nacionais representadas no gerenciamento do negócio de cada país. Os gerentes
estrangeiros devem adquirir experiência não apenas em seu país, mas na matriz e em outros países. De
acordo com YIP (1996), essa prática traz três benefícios: amplia o número de executivos capazes de assumir
posições de comando da corporação; mostra o comprometimento da alta gerência com a internacionalização;
dá aos indivíduos de talento uma oportunidade única de desenvolvimento.

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As empresas devem encarar a experiência profissional internacional como uma necessidade para o
progresso profissional e para o alcance das estratégias globais. Isso pode implicar em custos salariais mais
altos, assim como em deslocamentos de executivos que também custam. Mas, geralmente, esses custos são
compensados por uma visão global.

YIP (1996) sugere algumas regras:


- não deve haver avanço além de um certo nível sem que o gerente nacional tenha passado dois anos fora do
seu país;
- as transferências devem ocorrer no início da carreira do gerente;
- a parcela em que todos os cargos de um determinado nível acima são ocupados por gerentes não nacionais
deve ser de 10%;
- aqueles que apresentarem os melhores desempenhos deverão ser transferidos para outros países;
- os transferidos deverão ter um cargo garantido ao voltarem para seus países, mas o nível desse cargo
dependerá do desempenho que tiveram enquanto estiveram em outro país;
- os veteranos de transferências estrangeiras devem ter preferência nos cargos;
- o departamento de recursos humanos deve acompanhar e tomar a responsabilidade pelas carreiras dos
transferidos para outros países.

O gerente internacional é, antes de mais nada, um gerente intercultural, que é capaz de se tornar
internacional ou de operar bem em outra cultura. Cabe, a esse gerente, ter a capacidade de ser flexível para
administrar de forma eficaz em uma situação internacional, uma vez que é inerente às pessoas um certo grau
de etnocentrismo (LUZ, 1999).

De acordo com Hickson e Pugh (1995), apud Luz (1999), há duas características que se adaptam
com sucesso a outras culturas: -o gerente deve querer operar em outra cultura e se mostrar interessado pelo
desafio; - o gerente deve estar preparado para vivenciar outras culturas e aprender outras línguas.

É importante ressaltar que um gerente internacional não se restringe àquele que está no estrangeiro,
mas também ao que fi ca em seu país, que possui parceiros e mercados estrangeiros e que participa de uma
equipe multinacional. Esse tipo de gerente também tem que vivenciar outras culturas e estar preparado para
isto.
São competências do executivo internacional:

- Gerir a competitividade - É a capacidade de coletar informações relativas a pessoal, capital, tecnologia,


fornecedores, processos ou oportunidades de mercado, numa base global, e de saber utilizá-las. Consiste em
saber atuar além das fronteiras organizacionais, antecipando-se a fatos e tendências e revelando orientação
efetiva para o equilíbrio de resultados a curto e longo prazos.

- Gerir a complexidade e a incerteza - Significa apreender o todo, ter visão sistêmica e capacidade para lidar
com contradições e conflitos. Os parceiros (funcionários, clientes, fornecedores, distribuidores, governo,
etc.) muitas vezes possuem interesses múltiplos que precisam ser gerenciados. Deve também ter a
capacidade de lidar com a mudança, com a transição, como no caso de mudanças tecnológicas ou mudanças
em habilidades e conhecimentos necessários para o desenvolvimento das atividades.

- Gerir a adaptabilidade - Flexibilidade, disposição para mudança, o que significa dispor de uma dimensão
cognitiva e também equilíbrio emocional, tolerância ao estresse, energia e maturidade.

- Gerir equipes - O executivo deve ser um facilitador, incentivador dos esforços da equipe, devendo ter uma
formação humanística e também habilidades específicas.

- Gerir o aprendizado - Significa aprender sobre si mesmo e treinar e desenvolver os demais, facilitando a
constante aprendizagem organizacional. O gerente deve ser um educador.
Fonte: Vergara e Branco (1995) apud Luz (1999).

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Essas competências devem ser desenvolvidas, mas também contempladas, no processo de recrutamento e
seleção.
Luz (1999) relata como quatro empresas recrutam seus gerentes: A Shell recruta globalmente
aqueles interessados em carreira internacional. O critério de seleção é a capacidade de mudança, ou seja,
como o executivo se adapta à mudança. Procura fazer com que todos os membros da equipe tenham
experiência internacional. Os empregados das sedes locais que desejam seguir uma carreira internacional
podem ter essa oportunidade recorrendo à sede global. A Philips recruta candidatos nos países em que opera
por meio de suas divisões de produtos, usando como critérios a personalidade, capacidades acima da média,
autoconfiança, experiência variada e internacional, compreensão da cultura organizacional e o
estabelecimento de uma rede de relações empresariais. A Fiat recruta os executivos no exterior e analisa a
proficiência em línguas, a competência técnica e as experiências relevantes. A empresa busca incentivar as
pessoas mais jovens, desenvolvendo a educação e a formação internacional. A Unilever conta com uma
rotação de expatriados em âmbito mundial. Os gerentes com alto potencial participam do sistema de rotação
funcional, geográfica ou por divisão de produtos em períodos de dois a três anos. A empresa adota ainda a
política de trazer regularmente à sede na Inglaterra os gerentes que atuam em outros países, a fim de
freqüentarem programas de formação e exercerem cargos de curta e de longa duração, com a finalidade de
reforçar sua identificação com os objetivos e valores da empresa. Após enfrentar processos de recrutamento
exigentes, cabe ao executivo internacional passar pelas fases da experiência no estrangeiro.

Joly (1992) mostra que existem três fases do executivo no estrangeiro. Observe: Primeiro, existe o
encantamento: a colocação no exterior, que representa uma oportunidade de desafio profissional, de
desenvolvimento. Em seguida vem a segunda fase, na qual surge o negativismo: nesta fase o executivo, que
vivencia uma experiência cultural de longa duração, passa a se confrontar com valores, hábitos e costumes
da comunidade local que, quando se chocam com os seus de origem, tornam difícil o processo de adaptação.
Na terceira fase, cabe ao executivo tentar inserir-se, integrar-se ou guardar distância: rejeitar uma cultura
é dar-se conta de que não se tornará um dos seus membros e regozijar-se deste fato. Se a opção é a volta, o
executivo deve preparar-se para o retorno. Na volta, o executivo não é mais o mesmo, nem a sua família. Se
o retorno envolve adaptações de crianças, uma nova fase de adaptação torna-se necessária. Um dos choques
do retorno é constatar que a vida no exterior era mais estimulante, ou que terá que se adaptar novamente a
outra cultura, ou por encontrar uma situação profissional que subvaloriza as competências desenvolvidas no
exterior, etc. Não cabe aqui realizar um relato exaustivo das fases que caracterizam a inserção em novas
culturas por parte do executivo internacional, no entanto, caso você queira saber mais sobre este assunto, leia
Joly (1992).

Em temos organizacionais, a empresa global deve estimular que não exista uma identidade nacional
forte. Isso pode impedir a disposição e a capacidade de criar produtos e programas globais. Lembre-se que
uma verdadeira cultura global deve transcender a nacionalidade do país de origem e dos demais! Ao mesmo
tempo, ressalta Yip (1996), é preciso que cada um dos negócios nacionais ainda tenha suas raízes na cultura
local, pois os membros da equipe de cada país precisam dessas raízes.

Formar uma identidade global significa:


- Evitar demonstrações de identidade nacional. Por exemplo, deve-se evitar que as reuniões sejam sempre no
país de origem.

- Montar uma equipe executiva verdadeiramente global.

- Estimular o pensamento global. Fazer com que os funcionários pensem em produtos que podem ser
introduzidos em vários países, por exemplo.

- Criar uma cultura que valorize a interdependência.

- Deve-se desestimular a cultura da autonomia local do negócio.

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Agora que você já conhece os principais aspectos da gestão dos negócios internacionais, conhecerá casos de
internacionalização de empresas brasileiras, na unidade 5.

Esta Unidade foi extraída de RODRIGUES, S. B. Competitividade, Alianças Estratégicas e Gerência


Internacional. São Paulo: Atlas, 1999.

Unidade 6 – INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS


BRASILEIRAS

Existe um alto grau de insatisfação em relação ao nível de internacionalização das empresas brasileiras. Esta
insatisfação compreende não só as exportações e o nível de diversificação da pauta exportadora brasileira,
mas também inclui os investimentos diretos no exterior.

É reconhecido que a economia brasileira tem uma baixa relação exportações/PIB, um baixo coeficiente
médio de exportação na indústria, e uma alta concentração das exportações em um número pequeno de
empresas e de produtos. Os investimentos no exterior das empresas brasileiras são relativamente baixos,
especialmente quando comparados com empresas coreanas ou de outros países do Sudeste asiático ou ainda
com alguns países latino- americanos (IGLESIAS e VEIGA, 2004).

Vários estudos têm sido conduzidos com o objetivo de identificar o porquê da internacionalização das
empresas brasileiras não assumir um caráter mais dinâmico. Nesta unidade, você conhecerá alguns desses
estudos que buscam explicar a internacionalização brasileira e também conhecerá relatos de empresas que se
internacionalizaram.

6.1 – POR QUE AS EMPRESAS BRASILEIRAS NÃO SE INTERNACIONALIZAM?

Buscando responder a esta questão, Rocha (2003) relata fatores que, combinados, explicam por que as
empresas brasileiras são tão pouco internacionalizadas.

Fator geográfico

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De acordo com Rocha (2003), o Brasil, apesar do extenso território e das grandes fronteiras, é demarcado por
intransponíveis obstáculos naturais. Ao norte, existe a floresta tropical; a oeste, o Pantanal e, além dele, a
Cordilheira dos Andes, que atravessa o continente. Apenas ao sul não existem obstáculos naturais, local onde
se estabeleceu o Mercosul. São essas fronteiras que explicam o pequeno contato que o Brasil tem com os
países do norte e do oeste. Esse distanciamento não se limita ao plano físico, referindo-se também a aspectos
mais subjetivos, que expressam desinteresse, desconhecimento e ausência de sintonia cultural, conforme
relata Rocha (2003). Além da localização geográfica, há que se ressaltar a questão do idioma. Poucos são os
países que falam português. No entanto, como lembra Rocha (2003), se isso fosse um problema, o Japão
seria isolado, o que não ocorreu, não é mesmo? O inglês passou a ser a língua dos negócios e facilitou a
comunicação internacional. Mas, mesmo assim, no Brasil são poucos os executivos que dominam
perfeitamente o idioma.

Ressalta-se também que o espanhol (língua dos nossos vizinhos) não


é uma língua bem conhecida pela população brasileira. Ë mais
comum os jovens conhecerem o inglês do que o espanhol.

Rocha (2003) afirma que tais fatores indicam uma individualidade cultural. E esse isolamento geográfico e
lingüístico dificulta a internacionalização.

Fator ambiental

Toda vez que o ambiente brasileiro estimula a internacionalização, os empresários reagem positivamente.
Existe, segundo Rocha (2003), uma clara associação entre fatores do macroambiente e a internacionalização.
Na década de 70, as empresas foram levadas a exportar, já na década de 90, passaram a realizar investimento
externo direto. Logo, a internacionalização das empresas brasileiras é, em determinados momentos,
impedida, em outros, facilitada por fatores ambientais.

Fator motivacional

Existem vários estudos brasileiros que buscaram identificar os fatores motivacionais que levaram as
empresas a se internacionalizarem. Segundo Rocha (2003), as empresas raramente escolheram a
internacionalização, mas reagiram a estímulos externos que levavam à internacionalização, como é o caso do
mercado interno saturado, a existência de incentivos governamentais ou a necessidade de atender pedidos
inesperados vindos do exterior.

a existência de incentivos governamentais, ou a necessidade de atender pedidos inesperados vindos do


exterior.

— Mas por que as empresas abandonam a exportação?

Por dois fatores fundamentais, quais sejam:


* falta de interesse em exportar em função da preferência pelo mercado interno, que é mais fácil de
ser atendido, mais familiar e, em alguns casos, mais lucrativo;
* falta de competitividade, dado que a empresa não estava habituada ao nível de exigência do cliente
externo.

Quando as empresas pesquisadas foram questionadas sobre os motivos que levaram à realização de
investimento direto externo na década de 90, os motivos indicados foram os seguintes:
* busca de crescimento pela conquista de mercados externos;
* consolidação de posição junto a clientes no exterior;
* sobrevivência da empresa;
* aparecimento de oportunidade a ser explorada e intenção estratégica.

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As empresas que não realizam investimentos externos diretos indicam que a atratividade de um amplo
mercado interno é uma causa para não se internacionalizar.

Fator cultural

Rocha (2003) descreve que, segundo as teorias de distância cultural, os brasileiros, de uma forma geral,
tendem a se ver como distantes da maioria dos povos, com exceção daqueles que habitam as fronteiras do
Sul e de Portugal, o qual compartilha conosco o mesmo idioma.

Um estudo realizado pela autora com 153 executivos brasileiros responsáveis pela atividade de exportação
das suas empresas indicou que nenhum país foi percebido como muito semelhante ao Brasil, e apenas três
foram percebidos como semelhantes: Portugal, Uruguai e Argentina.

Como um pouco semelhantes aparecem Venezuela, Colômbia, Espanha, México, Paraguai, Bolívia, Peru e
Chile.

Como um pouco diferente aparece a França.

Como diferentes estão o Canadá, Estados Unidos, Bélgica, Israel, Nigéria, África do Sul, dentre outros.
Como muito diferentes aparecem: Síria, Hong Kong, Índia, Japão e Kuwait.

Os estudos de internacionalização também indicam uma relação do executivo cosmopolita e a sua orientação
global, que tende a olhar para fora do “local”. Em relação ao Brasil, Rocha (2003) mostra que:

- O mundo externo tem pouco significado. Não se vê o brasileiro inserido em


um mundo de vizinhos, mas, isolado dos mesmos, voltado para si mesmo.
As preferências do brasileiro são auto-centradas, como no caso da música e
do esporte. Daí também o noticiário predominantemente local e a pouca
referência, a eventos econômicos e políticos de países vizinhos. Uma
exceção, nesse contexto, é a Argentina, cuja presença nas notícias se explica
pela integração comercial através do Mercosul como pela proximidade física
e psicológica, derivada dos contatos de fronteira (p. 25).

Outro aspecto ressaltado pela autora é a importância que o brasileiro atribui à confiança. Para que o
brasileiro seja capaz de aceitar o estrangeiro, tem que transformá-lo em amigo. Para que as empresas se
multinacionalizem, têm que achar um “homem de confiança”. Esses fatores também contribuem para que o
brasileiro tenha dificuldade para cooperar e compartilhar o controle de um empreendimento com
estrangeiros.

A importância que o brasileiro atribui à família certamente é a origem deste comportamento. “O brasileiro vê
a família como a única instituição em que pode efetivamente confiar [...]” (ROCHA, 2003, pág 26).

— O que fazer então diante de tantos motivos para não internacionalizar?

Rocha (2003) aponta que:

 o isolamento geográfico e lingüístico pode ser moderado pela forte exposição de empresários e gerentes
a contatos com estrangeiros, através de participação em feiras, missões, viagens culturais e cursos no
exterior;
 é necessário ampliar a formação de executivos internacionais, mais capacitados para a atuação no
exterior;
 adotar políticas governamentais que estimulem a internacionalização, reduzindo as dificuldades
ambientais, principalmente as de ordem econômica.

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Apesar das dificuldades para a internacionalização, existem vários casos de empresas que obtiveram sucesso
no mercado externo. Na seção seguinte, você poderá conhecer relatos de várias empresas e poderá identificar
como estas organizações fizeram para ser referências em internacionalização no Brasil.

6.2 CASOS DE INTERNACIONALIZAÇÃO

A Revista Fórum de Líderes, publicada em novembro de 2005, dedicou uma edição completa ao tema
internacionalização de empresas brasileiras. O objetivo foi mostrar descrições de empresários explicando
como as empresas que dirigem desenvolveram-se no mercado internacional.

A seguir, apresentam-se algumas destas descrições. A primeira delas é a da empresa Marcopolo.

Marcopolo

Com sede em Caxias do Sul, a Marcopolo fabrica carrocerias de ônibus. Iniciou suas exportações em 1961,
sem interrupções, e atualmente sua exportação anual supera US$ 1 bilhão.

A principal desvantagem para o posicionamento competitivo no exterior via exportações da Marcopolo é o


frete. Essa desvantagem a empresa busca compensar:

 via custos competitivos;


 ampla linha de produtos;
 flexibilidade produtiva que proporcione capacidade para adaptação dos produtos às especificidades de
cada país;
 rede de vendas e assistência técnica;
 marca reconhecida e que seja sinônimo de qualidade e assegure um bom valor de revenda (BELLINI,
2005, pág. 15).

Em 1990, a Marcopolo realizou Investimento Externo Direto. A primeira fábrica foi construída em Portugal,
depois Argentina, México, África do Sul e Colômbia. Para a China, a empresa transferiu tecnologia.

Realizar investimento direto exigiu que a empresa desenvolvesse as seguintes competências:

 habilidade de gestão à distância;


 habilidade em identifi car e selecionar executivos e técnicos brasileiros que pudessem trabalhar no
exterior;
 capacidade de transferir o jeito Marcopolo de trabalhar e produzir;
 fazer funcionar a cultura da Marcopolo em outros países (BELLINI, 2005, p.15).

A atuação da Marcopolo concentra-se em países emergentes, dadas as barreiras impostas pelos países
desenvolvidos.

Segundo Bellini (2005), os principais riscos da internacionalização estão centrados na identificação do


mercado-alvo. Dúvidas quanto à capacidade do mercado para suportar as exportações ou absorver uma
fábrica ou, ainda, quanto à estabilidade econômica desses países, são presentes nos processos de decisão
relativos à internacionalização.

Como superar a questão do crédito de cada país? Como instalar a rede de


vendas e assistência técnica? Como reagir ao enfrentamento dos locais?
Como manejar preços, mantendo o mercado viável? Como financiar os

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investimentos em ativo e capital de giro necessários, eis que operações
internacionais são grandes consumidoras de caixa? (BELLINI, 2006, p.15).

Essas são perguntas descritas pelo presidente da Marcopolo para descrever o processo de internacionalização
da empresa. Observase que as questões descritas são relativas a marketing e finanças, dado o domínio
tecnológico de que a empresa desfruta.

Com relação aos obstáculos externos à internacionalização, Bellini (2006) cita a gestão tributária
governamental, que retém os impostos que devem ser restituídos ao exportador (PIS/COFINS), a infra-
estrutura do país (encarece fretes) e o câmbio (valorizado).

A seguir, você poderá conhecer a internacionalização da Embraer.

Embraer

A Embraer encontra-se no território norte-americano desde 1978 e na Europa desde 1983, através de
escritórios de vendas e marketing e de unidades de apoio ao cliente (peças e serviços).

A partir de 1997, passou a implantar ou expandir os escritórios de vendas e marketing e os centros de


distribuição de peças de reposição. Passou ainda a realizar joint-ventures com outras empresas e adquirir
empresas especializadas em serviços aeronáuticos tradicionais.

A unidade da Embraer em Fort Lauderdale emprega 219 pessoas e gerencia um estoque de peças de mais de
50 mil itens. A unidade de Paris emprega 176 pessoas, responsáveis pela gestão de 172 milhões de euros em
ativos e atende 37 clientes localizados em 32 países.

Em maio de 2000, a Embraer abriu escritório de vendas e marketing em Pequim, seguido da abertura de um
centro de distribuição de peças de reposição. Nos anos de 2001 e 2002, a Embraer negociou com o governo
chinês a abertura de uma fábrica destinada à produção do ERJ 145. Em dezembro de 2002, realizou acordo
de joint-venture com a Aviation Industry of China II, onde a Embraer detém 51% das ações com direito a
voto, da Harbin Embraer Aircraft Industry (BOTELHO, 2006, pág. 28).

Ainda em relação ao mercado asiático, a Embraer possui escritório em Cingapura, responsável pelo
desenvolvimento da estratégia comercial para os mercados Ásia-Pacífico (Índia inclusive). O mercado
indiano, que passa por processo de desregulamentação, é um mercado que a Embraer está penetrando através
de leasing operacional de aeronaves, além da venda de aeronaves para o governo indiano.

Maurício Novis Botelho (2005), diretor-presidente da Embraer, descreve que os cinco pilares que
fundamentam o negócio da empresa são (pág. 25):

 Tecnologia avançada – tanto em produto quanto em processo de fabricação, além de utilizar as


melhores práticas de gestão financeira e de pessoas.
 Força de trabalho de elevada qualificação – pessoas capacitadas estão presentes em todas as
atividades da empresa, tanto no projeto do produto apoiado por computador, quanto no relacionamento
com fornecedores e clientes que estão espalhados nos cinco continentes, na manufatura de controle
numérico e na construção de soluções financeiras com instituições internacionais.
 Flexibilidade – capacidade de ser flexível frente às rupturas ambientais, como a gerada pelos ataques
terroristas de 2001.
 Intensidade de capital - grandes investimentos são necessários para o desenvolvimento de novos
produtos e para melhoria da qualidade e da produtividade;
 Indústria Global – os custos elevados e o baixo volume de produção fazem da indústria aeronáutica
uma indústria global. Possui clientes e fornecedores globais, assim como relacionamento com

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instituições financeiras globais. As implicações disso são: estar presente em diversos locais do globo,
proporcionando assistência técnica e fornecendo peças, atendendo as especificidades de cada cliente. A
presença em diversos mercados faz com que a empresa tenha agilidade de resposta às mudanças que
surgem.

A internacionalização é um dos grandes desafios da empresa brasileira. Através das teorias e dos casos
apresentados, sabe-se que esta é uma tarefa que o Brasil só cumprirá por meio do esforço conjunto entre
empresas e governo. Fazer do Brasil uma sede de empresas bem-sucedidas internacionalmente fará com que
o país encontre seu espaço na economia internacional do século XXI.

SAIBA MAIS...

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