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O PATRIMÔNIO CULTURAL

E SEUS USOS:
A DIMENSÃO URBANA

ANTONIO A. ARANTES*

Resumo: o artigo refere-se ao aumento do interesse dos cientistas sociais


pelo patrimônio e pelas políticas concernentes. Trata especificamente da
noção de sustentabilidade econômica e socioambiental da preservação e da
necessidade de sua aplicação ao patrimônio ambiental urbano.

Palavras-chave: patrimônio cultural urbano, políticas públicas, sustenta-


bilidade

U m número crescente de cientistas sociais vem participando

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das ações governamentais de preservação do patrimônio cul-
tural e um número significativo de profissionais – em sua
maioria antropólogos – tem apoiado populações tradicionais
na defesa de direitos de posse e uso de recursos patrimoniais.
O que na década de 1980 eram indícios isolados de interesse
acadêmico ou político por essa temática tornou-se hoje ma-
nifestação de um campo de atividade intelectual em franco
processo de consolidação. Um indício eloqüente dessa ten-
dência é o aumento significativo de comunicações de pes-
quisa, nessa área, nas Reuniões Brasileiras de Antropologia,
como ocorre nesta sua vigésima quinta edição.
Encontra-se em formação, a meu ver, uma agenda
de questões e assuntos de relevância sociológica prioritários
sobre o patrimônio, e ela não se refere exclusivamente à ex-
periência urbana ou à gestão das cidades. Sem abandonar as
425 questões conceituais, mas também sem se satisfazer com ge-
neralizações abstratas, as contribuições mais críticas e, por-
tanto, mais produtivas têm se referido a marcos espaço-tem-
porais concretos, bem como a grupos sociais específicos. Mesmo
estas notas que, conforme foi solicitado pela mesa, preten-
dem abrir o debate apontando para algumas das principais
balizas desse campo derivam de uma convivência prolongada
no terreno.
Eis, então, desde logo, um primeiro aspecto da agenda
a que me referi. O ponto de partida tácito é que o patrimônio
é construção social e, assim sendo, torna-se necessário considerá-
lo no contexto das práticas sociais que o geram e lhe confe-
rem sentido. A preservação, como toda prática, consiste em
ações simbólicas1, desenvolvidas em arenas ou situações soci-
ais por sujeitos (indivíduos e instituições) estruturalmente
posicionados a partir de motivações e estratégias referidas a
sistemas de forças sociais (SHALINS, 1981; GIDDENS, 1984;
ARCHER, 1988; BERNSTEIN, 1988). Cabe indagar, por-
tanto, qual é o objeto dessa prática, quais são os sujeitos que
a põem em marcha, em que condições e quadro institucional
isso ocorre, e que valores ela, por sua vez, mobiliza. Essas
questões exigem obviamente que a reflexão seja fortemente
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referenciada pela pesquisa empírica.


Diferentemente dos fatos de memória, que é ela-
borada, transmitida e realimentada diretamente pelos ato-
res sociais, em redes de relações sociais, o patrimônio é uma
realidade instituída pelo Estado. A preservação é definida
pela Constituição Federal como responsabilidade concor-
rente da União, dos Estados e dos Municípios, e comparti-
lhada com a sociedade civil. Ela resulta, portanto, de práticas
que, por definição, são desenvolvidas na interface entre
agências governamentais e segmentos específicos e especia-
lizados da sociedade.
A identificação de itens culturais a serem protegi-
dos e a implementação de procedimentos de proteção resul-
tam de um processo de negociação complexo, e freqüentemente
conflituoso, que envolve mediadores culturais, ou seja, agentes
de políticas públicas (técnicos e burocratas) e agentes profis- 426
sionais, políticos e empresariais. Esta é, portanto, uma ativi-
dade especializada - e não parte da cultura comum – que
coloca em cena o Estado como representante do interesse
público nos processos de construção de representações sim-
bólicas da nação e da identidade dos grupos que a formam.
As motivações que justificam e fundamentam a apli-
cação dos institutos jurídicos do tombamento de artefatos e
do registro de bens imateriais pelo poder público agregam a
esses bens novos valores e sentidos, inclusive legitimando-os
(e, por implicação, preterindo outros) ao proclamá-los como
pertencentes à esfera da cultura pública oficial. Esse fato apre-
senta implicações diretas para os inventários e para a identi-
ficação dos bens patrimoniais, no que diz respeito à definição
de critérios, procedimentos de identificação e de registro.
Na realidade, a prática da preservação não legitima
simplesmente sentidos socialmente atribuídos pela cultura
comum e cotidiana a determinados aspectos da cultura, mas
põe em prática os critérios, as concepções e os valores que
são defendidos por técnicos e especialistas (arquitetos, urba-
nistas, historiadores, arqueólogos, antropólogos e geógrafos,
entre outros). Conseqüentemente as decisões das instituições

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de preservação podem estar em desacordo – e não raramente
estão – com os valores vigentes locais.
Dessa forma, sentidos envolvendo coletividades mais
abrangentes são sobrepostos a outros localmente atribuídos
aos bens selecionados (religiosos, práticos, afetivos), pondo
em contato e tensionando realidades de diferentes escalas:
local, regional, nacional e, até, mundial. Essa tensão entre os
sentidos enraizados nas práticas devolvidas pelos grupos so-
ciais detentores dos bens selecionados e aqueles atribuídos
por instâncias sociais mais inclusivas, mediada pela ação das
agências e agentes institucionais, torna-se dessa forma cons-
titutiva do bem patrimonial.
A tensão/negociação entre agencies sociais internas
e externas aos grupos afetados por essas práticas faz parte,
por assim dizer, de sua natureza, e sua compreensão remete,
427 necessariamente, às arenas políticas que abrigam os posicio-
namentos estratégicos dos diversos sujeitos envolvidos (ARAN-
TES, 1989).
Os pressupostos de externalidade e intencionalidade
do patrimônio em relação à cultura comum, que a burocra-
cia de Estado tende a aceitar tacitamente, devem ser trazidos
à tona por terem conseqüências muito relevantes para o de-
senho das políticas públicas da área.
Destaco implicações em dois níveis:

• A exigência de monitoramento, avaliação, mitigação ou


reparação, e crítica permanente dessas práticas: questões
de economia e de mercado (gentryfication), políticas (cons-
trução de hegemonias), éticas (aspectos de acesso restrito
da cultura), jurídicas (direitos costumeiros e propriedade
material e intelectual), religiosas (transformação das cren-
ças e dos padrões estéticos associados).

• O questionamento da responsabilidade social e ética dos


agentes promotores e executores dessa política, uma vez
que ela está ancorada na ação de indivíduos posicionados
institucionalmente.
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A implementação de condições especiais de uso dos


bens patrimoniados, visando à sua salvaguarda, acarreta, no
processo de incorporação desses bens na vida cotidiana das
cidades, a apropriação, por parte dos agentes sociais, do valor
que é agregado aos bens selecionados pelos institutos jurídicos
do tombamento, do registro de bens intangíveis e pelas demais
formas de acautelamento implementadas pelo Estado.
Articula-se, desse modo, aos aspectos já focalizados
do problema a sustentabilidade das políticas de proteção do
patrimônio cultural, e ganha visibilidade a dimensão jurídi-
ca das modalidades de apropriação do patrimônio, que são
os direitos a ele associados.
Lembrando Foucault, vale ressalvar, neste contex-
to, que o exercício do poder gera contrapoderes e que, por
meio das práticas culturais costumeiras, os agentes sociais 428
tendem a atribuir novos sentidos aos itens culturais
patrimoniados ao reincorporá-los à vida cotidiana. Estes sen-
tidos podem reiterar ou modificar os pré-existentes, mesmo
no que diz respeito à legitimidade que lhes é conferida pela
proteção oficial.
Porém, como todos sabemos,

as culturas são sempre práticas interpelantes [...]. A construção


de novos sentidos simbólicos é um processo análogo ao da tradu-
ção, prática que reproduz de ‘modo traiçoeiro e deslocante’, como
diria Hommi Bhabba, um texto original e que, ao fazê-lo trans-
forma o ponto de partida em algo que nunca se completa
(ARANTES, 2000, p. 142).

Assim, inúmeros problemas enfrentados no dia-a-dia


da preservação dizem respeito ao fato de os bens preservados –
tangíveis ou intangíveis – serem interpretados e utilizados pela
população de forma nem sempre compatível com as restrições
legais decorrentes do reconhecimento do seu interesse e senti-
do para coletividades nacionais ou regionais.
A concepção do patrimônio como recurso (prático

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e simbólico), que é tão problemática para os órgãos de pre-
servação quanto difundida nas diversas camadas sociais,
encontra-se na base do aspecto talvez mais enfatizado do
patrimônio em seu uso corrente. Tendo sido institucional-
mente legitimado pela história e pela estética desde os pri-
mórdios de sua instituição como prática oficial que data,
no Brasil, do final da década de 1930, o patrimônio ga-
nhou, nos anos 1970 e 1980, uma clara inflexão política
(enquanto emblema de identidades diferenciadas) e ambi-
ental (à medida em que foi associado à qualidade de vida).
Agora, ele é reivindicado por amplos setores sociais, por
seu valor econômico ou como recurso simbólico na cons-
trução de sentidos de lugar e desenvolvimento de produtos
com valor cultural agregado, em um riquíssimo e freqüen-
temente conflituoso processo cultural de formação de tra-
429 dições reinventadas (ARANTES, 2000b).
Tendo repassado as questões mais gerais da esfera
do patrimônio, focalizemos agora mais de perto o tema espe-
cífico desta mesa-redonda, que são as questões urbanas a ele
associadas. Passarei a me referir ao patrimônio ambiental
urbano, conceito que destaca três aspectos importantes das
cidades: sua condição de artefato, de campo de forças sociais
e de agregado de representações simbólicas, conforme sinte-
tiza Bezerra de Meneses ([200_])em recente estudo. A reto-
mada, na conjuntura atual, de uma compreensão totalizante
do patrimônio é bastante oportuna. Associando a noção de
ambiente à de patrimônio urbano, ela induz a reflexão e a
prática patrimonial a se abrirem para os valores pelos quais
os habitantes das cidades reconhecem nelas, mais do que um
simples pano de fundo, um cenário morto em relação ao qual
suas vidas seriam indiferentes. Esta ótica permite trabalhar
com os sentidos de lugar associados às estruturas materiais
preservadas (naturais ou edificadas), que emergem dos pro-
jetos socialmente compartilhados e dos conflitos que nutrem
o constante refazer das identidades (ARANTES, 2000a).
É oportuno incluir neste quadro geral os sentidos de
lugar construídos nas cidades pela experiência de habitá-la, uma
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vez que não se vive em abstrato, mas em determinado tempo-


espaço. E é nesse marco territorial, cultural e histórico – a cida-
de artefato – que os sentidos de localização e de pertencimento,
assim como a consciência de si, são constantemente refeitos e
acumulados ao longo do tempo.
A construção de sentidos de lugar no espaço pú-
blico é um processo de grande importância para entender
as questões atuais do patrimônio que, em geral, se concen-
tra nas áreas centrais das cidades. A experiência social tem
sido profundamente marcada na atualidade por migrações
e deslocamentos forçados, pela ampliação do acesso e maior
eficiência dos meios de comunicação e de informação à dis-
tância, tecnologicamente mediados. Nesse contexto, o sen-
timento de pertencer a coletividades nacionais, regionais
ou locais assim como de ocupar posição reconhecível no
mapa social ganham nova significação e importância, que 430
se manifestam na construção de sentidos de lugar e inclu-
em demandas de natureza patrimonial.
É visível a revalorização pela economia da diversida-
de cultural, assim como das camadas históricas sobrepostas e
amalgamadas no espaço urbano, pela economia. Iniciativas de
apropriação, reinterpretação, reabilitação e mesmo reinvenção
de tradições são postas em prática por um número crescente
de atores e grupos sociais e, ao mesmo tempo, tornam-se
alvo de atenção de especialistas de publicidade e marketing
em seus projetos visando à produção de mercadorias e negócios
de inflexão cultural ou de valor cultural agregado. Esses pro-
cessos tornam ainda mais tensa a já complexa realidade da pre-
servação e requerem mais atenção dos pesquisadores.
Os bens culturais encontram-se necessariamente si-
tuados – inseridos em contextos espaço-temporais específi-
cos: localizam-se em determinado tempo-espaço, integram
atividades de determinados grupos sociais e não de outros, e
são suportes de significados e de sentidos que são construídos
e transformados tanto por essas mesmas atividades, quanto
pelas estruturas de relacionamento social que as ordenam.
Nessas circunstâncias, a inserção do patrimônio no mercado

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reforça a compreensão de que, sendo ele um recurso material
e simbólico, o balizamento de seu valor, para efeito de sua
inclusão em programas sociais, de maneira geral, e de reabi-
litação urbana em particular, situa-se num divisor de águas
de posturas éticas e políticas. De um lado, há a alternativa de
explorar as potencialidades de mercado do patrimônio edificado
(seu valor de troca) e, de outro, a de facilitar os meios de sua
apropriação pelos habitantes da cidade, em razão de sua uti-
lidade e valor simbólico (seu valor de uso).
O que se observa é que tende a prevalecer, nas cida-
des reais – e não só no Brasil, mas nos mais diversos países e
regiões – o foco na dimensão dos bens patrimoniais enquan-
to capital imobiliário e, em termos estéticos, a estilização que
reforça os sentidos alegóricos e torna descartáveis estes bens
que seriam relevantes em sua singularidade. Essa é a lógica
431 que pretende justificar a remoção das populações instaladas
há longo tempo – por vezes tempos imemoriais – nas áreas a
serem protegidas ou requalificadas, assim como a substitui-
ção dessas populações por agentes de investidores, atraídos
por novas oportunidades de negócio.
É preciso enfatizar que o patrimônio como recurso
não se encontra necessariamente vinculado ao mundo dos
grandes negócios e à especulação. É certo que grandes-em-
preendimentos imobiliários, urbanísticos e turísticos se va-
lem dessa tendência e a estimulam. Mas é também verdade
que programas de geração de renda, de consolidação da cul-
tura pública e da cidadania buscam eficácia no fortalecimen-
to de tudo aquilo que a população pode fazer, com os recursos
de que dispõe e que tradicionalmente acumulou, nos lugares
onde vive e em seus modos de vida diferenciados. O patrimônio
serve também para desenvolver a cultura pública e por isso
deve ser valorizado: o patrimônio urbano é bom para o de-
senvolvimento sustentável, para as festas, para a civilidade e
também, porque não, para os negócios. O desafio que se apre-
senta ao sistema como um todo é encontrar o ponto de equi-
líbrio entre essas forças, ou seja, construir a sustentabilidade
econômica e socioambiental da preservação.
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A noção de sustentabilidade foi incorporada ao dis-


curso e à prática dos ambientalistas, pelo menos desde 1987,
com o relatório de Brundland que o derivou de um princípio
ético claro e simples: desenvolvimento sustentável é aquele
“que satisfaz necessidades básicas humanas contemporâneas,
sem causar prejuízo para as gerações futuras”. A exigência de
sustentabilidade implica a responsabilidade social dos agen-
tes (indivíduos e instituições) da preservação, e deve, com
urgência, ser convidada à mesa de discussão sobre o patrimônio
cultural. Como afirmou Hans-Jacob Road

Os dois movimentos [desenvolvimento sustentável e preservação


do patrimônio] encontram-se na cidade, e devem ser integrados.
A cidade representa a escala menor na qual se identificam gran-
des mudanças ambientais. Ela é também a escala menor em que
esses problemas básicos podem ser resolvidos. 432
Nesse sentido, torna-se oportuno fortalecer – no caso
específico do patrimônio ambiental urbano – a perspectiva
da integração entre a “conservação” e o “planejamento urba-
no”, com base no reconhecimento da singularidade das áreas
preservadas (como artefatos e repositório de sentidos e práti-
cas) no contexto mais amplo da cidade. Além disso, é urgen-
te desenvolver formas de gestão compartilhada desse patrimônio,
valorizando sua inserção na vida cotidiana e equacionando,
em termos práticos e de modo efetivo, o preceito constituci-
onal de responsabilidades concorrentes [entre sociedade civil
e as esferas federal, estadual e municipal do poder público].
É o “modo de gestão” do patrimônio que torna ou não
viável habitar os sítios históricos preservados e desenvolver mo-
dos sustentados de apropriação das estruturas urbanas e
arquitetônicas nas cidades, para melhorar as condições de mora-
dia e de vida dos seus habitantes. Acredito que os antropólogos
e demais cientistas sociais têm contribuições importantes a ofe-
recer nesse sentido. Não só por que se trata da gestão de bens
que participam diretamente da formação de modos de vida e da
construção de sentidos de identidade e de pertencimento, como
também porque o terreno real em que essas políticas e progra-

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mas são postos em marcha – quando o são – não é obviamente
homogêneo e, tampouco, apresenta formas de estruturação que
sejam sociológica e políticamente compatíveis com as demanda-
das pelas negociações com o Estado.
Por tudo isso, é urgente intensificar a aproximação
dessas duas modalidades de práticas profissionais, a de refle-
xão e a de participação direta nos processos sociais estuda-
dos. São faces da mesma moeda, freqüentemente desenvolvidas
pelos mesmos sujeitos, que podem fertilizar-se mutuamente,
produzindo benefícios sociais muito relevantes.
A conservação integrada é definida na Carta Euro-
péia do Patrimônio Arquitetônico, adotada pelo Comitê dos
Ministros do Conselho da Europa, em 26 de setembro de
1975, e promulgada no Congresso sobre o Patrimônio
Arquitetônico Europeu, realizado em Amsterdã, de 21 a 25
433 de outubro de 1975. Essa Carta considera que o patrimônio
arquitetônico é um capital espiritual, cultural, econômico e
social de valores insubstituíveis.
A estrutura dos conjuntos históricos favorece o equi-
líbrio harmonioso das sociedades.
Ele possui um valor educativo determinante e está
ameaçado pelo abandono, por restaurações abusivas e, espe-
cialmente, pela especulação financeira e imobiliária.
A conservação integrada é o resultado da ação conju-
gada das técnicas da restauração e da pesquisa de funções apro-
priadas. Deve ser conduzida por um espírito de justiça social e
não deve ser acompanhada pelo êxodo de todos os habitantes
de condição modesta.
Deve ser um dos pressupostos do planejamento ur-
bano e regional.

Nota

1
Este conceito, formulado pelo crítico Keneth Burke e extensamente
utilizado por Clifford Geertz, aponta para a articulação necessária entre
os aspectos pragmáticos e poéticos do real, permitindo compreender os
mecanismos pelos quais os significados se tornam parte das práticas
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que constituem a experiência humana.

Referências

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Princeton University Press, 1980.
GEETZ, C. Local knowledge. Nova York: Basic Books, 1983.
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GIDDENS, A. The constitution of society: an outline of a theory of
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Cambridge University Press, 1988.
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ARANTES, A. Projeto História: sentidos da comemoração. São Paulo:
Ed. da PUC, 2000b, p. 63-96.
BEZERRA DE MENEZES, U. A cidade como bem cultural. [S.l.:s.n.], [200_].

Abstract: this article refers to the increasing interest of social scientists


regarding cultural heritage and the public policies involving this issue.
More specifically, it discusses the notion of the economical and
socioenvironmental sustainability of preservation, as well as the need of its
application in the urban environmental heritage.

Key words: urban cultural heritage, public policies, sustainability

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* PhD pela Universidade de Cambridge. e Mestre pela USP. Bacharel


em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP). Antropólogo.
Consultor de políticas culturais e professor de antropologia na
Universidade de Campinas desde 1968. Foi Presidente da Associação
Brasileira de Antropologia, Secretário Municipal de Cultura de Campinas,
onde criou o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural, Presidente
435 do Condephaat e do Iphan.