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Crônica: fronteiras da narrativa

histórica

Sandra Jatahy Pesavento*

Resumo:
O texto procura analisar a crônica como um gêne-
ro literário de fronteira, entre literatura e história, e que
se caracteriza por realizar uma leitura sensível do tempo,
seja para inventar o passado, explicar o presente ou cons-
truir o futuro.

Palavras-chave: crônica, narrativa histórica, ficção, imaginá-


rio, sensibilidades.

Resumé:
Le texte analyse la chronique comme un genre
littéraire frontalier, entre la litteráture et l’histoire, et qui se
caracterise comme une lecture sensible du temps, soit pour
inventer le passé, expliquer le présent ou construire le futur.
61
Mots-clé: chronique, narrative historique, ficción, imaginaire,
sensibilités.

*
Professora do curso de Graduação e do Programa de Pós-Graduação em Histó-
ria pela UFRGS. Mestre em História da Cultura pela PUCRS e doutora em
História Social pela USP. E-mail: sandrajp@terra.com.br

HISTÓRIA
HISTÓRIAUNISINOS
UNISINOS Vol. 8 Nº 10 JUL/DEZ p.2004
61-80
Principiemos pelo grande desafio com que se de-
frontam os investigadores dos domínios de Clio: como se
constrói a narrativa histórica?
Uma idéia na cabeça, uma pergunta nos lábios, con-
cebidas à luz daqueles instrumentos para interrogar o
mundo a que chamamos conceitos; uma escolha e um re-
corte da realidade, construído como objeto de pesquisa,
onde se divisa uma trama; um olhar sobre o passado, em
busca de sinais emitidos por um outro tempo, erigidos como
marcas de historicidade e como pistas para o desvendar
daquela questão, antes formulada, e com vistas a respon-
der àquela pergunta feita; a mise en récit, esforço retórico e
de escrita, de molde a fornecer uma explicação convin-
cente e plausível, onde se realize a reconfiguração de um
tempo, com vistas a dar a ver e ler uma versão, o mais
próxima possível, daquilo que teria sido um dia; uma meta
e um desejo de veracidade e, como resultado, uma narra-
tiva verossímil, que explica e revela a solução encontrada
para a decifração do enigma proposto.
Não seria esta, não tem sido esta, a performance da
escrita da História, ao longo do tempo?
Partamos do princípio de que esta seja uma receita
para o fazer História, ou seja, para a construção de uma
narrativa que representa o passado. Mas, deste processo,
queremos nos deter em um certo elemento, aquele sem o
qual não há trabalho de História possível de ser feito:
referimo-nos às tais marcas de historicidade, os tais regis-
tros que objetivam a existência de algo e que assinalam a
passagem do tempo.
Nesta medida, poderíamos dizer que, de uma cer-
62 ta forma, frente ao desafio de enfrentar a decifração do
passado, o historiador o mundo à sua disposição, sob a
forma dos mais diversos traços que restaram de um ou-
tro tempo.
O olhar do historiador constrói alguns destes regis-
tros como fontes, ou seja, como indícios e possibilidades
de resgate daquilo que ele busca encontrar no passado.
Detenhamo-nos em uma marca de historicidade muito
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específica, a qual tem sido cada vez mais trabalhada pelos
historiadores. Referimo-nos à crônica, este registro privi-
legiado para o acesso a um tempo passado e que, no caso,
tratamos como uma fonte para a História.
A realidade, bem o sabemos, é complexa, e as for-
mas de dizê-la e representá-la também o são. A História,
no caso, é mestra em se valer de várias e distintas narrati-
vas. A História as usa como recursos para criar, ela pró-
pria, a sua representação sobre o passado, que é o seu
campo de ação.
No caso em pauta, tratamos a História como o lu-
gar de onde se formula a questão e se elabora um discur-
so, o qual se vale da crônica como uma fonte narrativa.
Não se trata de estabelecer uma hierarquia entre narrati-
vas, mas de estabelecer o lugar da fala, ou do estabeleci-
mento de uma interrogação sobre o mundo.
Antes de tudo, cabe esclarecer que trataremos a
crônica na sua acepção contemporânea, ou seja, aquela
narrativa curta, difundida pelos jornais, frente a um mun-
do transformado pela modernidade urbana e pelos meios
de comunicação de massa, tal como se processou na civi-
lização ocidental a partir do século XIX. Nesta instância,
a crônica é aquele artigo de consumo diário, rápido e pre-
ciso, que se apresenta como produto a ser consumido por
um público leitor de jornal.
Em estudo seminal, Antonio Candido (1992) cha-
mou a crônica de relato da vida ao rés-do-chão, e, em
determinado ensaio, nós a analisamos como uma leitura
sensível do tempo (Pesavento, 1997). Tais reflexões so-
bre a crônica nos remetem, imediatamente, à sua capa-
cidade de registro do cotidiano e das sensibilidades, o 63
que a tornaria, por assim dizer, uma fonte muito rica e
especial para o historiador, sobretudo se este estiver in-
teressado em acessar as formas pelas quais os homens,
em um outro tempo, construíam representações sobre si
próprios e o mundo.
A análise da crônica poderia se dar a partir da sua
inserção como gênero literário de fronteira, entre a Lite-
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ratura e a História, estabelecendo uma reflexão sobre se o
autor, ao escrever a crônica, está a fazer uma história de
seu tempo. Ou então se poderia ainda discutir se, como
Literatura, a crônica se enquadraria como um gênero maior
ou menor, diante de outros gêneros consagrados, como o
romance ou a poesia. Tais questões, a rigor, já se acham
abordadas nos estudos citados, assim como em muitos
outros trabalhos críticos.
Já adiantamos, contudo, que pretendemos tratá-la
como fonte, ou seja, como meio ou instrumento para o
historiador atingir o passado, e, sob esta condição, busca-
mos analisar o seu potencial de revelação para o conheci-
mento de um outro tempo. A fonte é mediação entre o
que teria sido e a representação que deste ter sido se cons-
truiu. A fonte, como diz seu nome, é manancial de onde
brotam possibilidades para desvendar uma trama que foi
urdida.
Mas a fonte já é, em si mesma, uma representação
do passado e se coloca como base para a representação
que, por sua vez, o historiador construirá sobre aquele
passado.
Neste sentido, nossa abordagem da crônica se reali-
za sob um plano epistemológico – a natureza da sua escri-
ta – e sob o seu potencial de uso para o fazer História, que
é o da reconfiguração do tempo.
Ora, entendemos que a primeira consideração a ser
feita é a de que a crônica é uma narrativa de fronteira,
mas fronteira enquanto modalidade ficcional na
reconfiguração de um tempo.
Como premissa desta abordagem, talvez até dispen-
64 sável no debate acadêmico contemporâneo, nos defini-
mos pela concepção que admite, para a escrita da Histó-
ria, o uso de recursos fictivos, pelo que esta abordagem
não pretende opor, de maneira antitética, uma história-
verdade-ciência a uma crônica-arte-ficção.
Principiemos pelo ato da escrita, que põe em cena
o cronista, aquele que faz do tempo presente, tempo do
vivido, a sua fonte de inspiração. Sob uma ótica realista,
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o cronista mostraria, para o historiador, a temporalidade
da escrita com a vida tal como era neste momento, ou,
pelo menos, aquilo que nela chamava a atenção ou preo-
cupava os homens da época. Em certa medida, a tradu-
ção do presente pela escrita, que pode girar em torno do
cotidiano ou do fato excepcional e, sobretudo, das sensi-
bilidades e sociabilidades de um determinado contexto,
atribui à crônica um certo valor, digamos assim, docu-
mental.
Como diria o cronista do jornal porto-alegrense, a
falar sobre um dos mais famosos redutos da sociabilidade
masculina da cidade, o café América, em crônica que nos
permite visualizar espaços e práticas sociais urbanas na
virada do século:

O América, o ponto melhor da Rua dos Andradas e onde se


reúnem advogados, médicos, comerciantes, poetas literatos,
noticiaristas, boêmios inteligentes e extravagantes e do melhor
que possui o nosso meio social, aos domingos é visitado pela
simpática rapaziada caixeiral, sempre correta e unida, que,
elegantemente vestida, provoca olhares etéreos e cristalinos de
criaturas meigas e tentadoras, felizes e sedutoras.1

Por outras, é uma prática do cotidiano dos habitan-


tes que é criticada pelo cronista, a fornecer flashes do viver
em cidade da época, marcando o cotidiano da cidade:

Oh! Mas este hábito de parar no meio da calçada e aí fazer ponto


de rendez-vous, é simplesmente intolerável! Nós não quere-
mos, é claro, que se ponha em prática o civilizadíssimo “circulez,
messieurs!” das metrópoles. Os que andam a negócio, que têm
urgência de chegar a qualquer lugar, não podem estar a toda a
hora a desviar-se dos pequenos grupos e “meetings” pacíficos 65
que obstruem o trânsito.2

Esta espécie de crônica social ligeira, que registra o

1
O Independente, 06.10.1895.
2
Kodak, 08.09.1917.

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cotidiano da cidade insere, no presente, uma tempora-
lidade desejada; o futuro já chegou, Porto Alegre é já uma
metrópole, com gente apressada, com um grande movi-
mento nas ruas, onde se registra a presença deste novo
personagem que faz entrada na modernidade urbana: a
multidão. Tal crônica se realiza retratando um sentimen-
to, por assim dizer, progressista do viver urbano. A crôni-
ca é, no caso, registro sensível de um presente que já se
inscreve no futuro, onde o que conta é a percepção do
tempo que se vive, que, no caso, é um tempo acelerado.
Assim, a crônica, tal como a literatura, a pintura, a
fotografia, é testemunho de si próprio, ou seja, do tempo
presente de sua feitura, que faz perceber e qualificar o real
desta ou daquela forma.
Tal valor referencial não pode, contudo, ser en-
tendido como transparência, pois retiraria do ato da
escrita todo o seu potencial criador. Mesmo registran-
do o observável no tempo do presente, o que cabe dis-
cutir é o caráter alegórico da escrita – este dizer de outra
forma, dizendo além – que faz da crônica uma narrati-
va que enuncia outras realidades do presente, sugeridas
pela escrita.
Não podemos esquecer que é próprio da crônica o
registro do banal, daquilo que não chama a atenção e que
passa desapercebido, mas que, pela mise en récit, recebe
um destaque. Nesta medida, o banal ou o corriqueiro tor-
na-se traço ou sintoma para que se pense em outra coisa,
para além daquilo que é dito ou sugerido pelo autor.
Tomemos o exemplo de uma crônica cotidiana
de um jornal da década de 1880, em Porto Alegre, O
66 Século. Se o cronista d’O Século registra o que chama
de uma degradante cena – a passagem pelas ruas da
cidade de um miserável homem de cor preta, um des-
graçado escravo que fugira da casa de seu algoz, amar-
rado por cordas e conduzido, à maneira dos animais,
por policiais e capitães de mato até a cadeia civil, onde
seria, naturalmente, surrado por aqueles agentes da lei
–, seu comentário era de que tais cenas eram, em tudo,
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repugnantes, depondo contra a civilização da socieda-
de em que tinham lugar.3
Levando em conta a conjuntura do momento, vê-
se que a narrativa deste incidente do cotidiano da cidade
– cotidiano para a desgraça da capital que se queria civi-
lizada – assumia os tons críticos e próprios da postura
abolicionista, onde o escravo fugido era chamado de Cristo
preto e os que o acompanhavam de fariseus. O registro do
tempo do presente explicita a crítica do contexto políti-
co-social, dando a ver uma postura que aspirava clara-
mente a uma modificação da ordem instituída.
Por vezes, o cronista se encarrega de apontar as re-
lações a serem feitas entre a situação cotidiana explícita e
a questão implícita. Por outras, o cronista fornece as pis-
tas, mas a revelação se dará pela sagacidade do leitor de
recriar a realidade que se entrevê no texto. Há, pois, um
desvelamento de sentidos que se espera obter com a lei-
tura, face a esta narrativa que mais sugere do que afirma e
que, no mais das vezes, se reveste da ironia para realizar
sua crítica.
É o caso específico de Germano Hasslocher, reda-
tor do jornal A Gazeta da Tarde, que criava verdadeiras
páginas literárias para desnudar as mazelas do seu tempo
presente. Em uma de suas crônicas da coluna Dia a dia,
Hasslocher conta a história de uma entrevista ocorrida,
presumivelmente, entre sua esposa e uma candidata a
empregada doméstica. Finda a entrevista – impagável
pelas exigências de pernóstica crioula –, ele, o dono da
casa, que fumava seu charuto à parte, sem se imiscuir
nas tratativas da mulher com a aspirante a criada, resol-
ve chamá-la para uma análise que estava a realizar sobre 67
um problema do cotidiano da cidade: aquele do serviço
doméstico. E, neste sentido, passa a entrevistar a tal cri-
oula, que lhe dá contas do comportamento dos patrões
naquele novo mundo sem escravos, mas que se pautava

3
Degradante cena, 17.07.1881.

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ainda pelas antigas regras e vícios da senzala e também
da sem-vergonhice dos negros, fruto daquele mesmo ter-
rível sistema.
Filosoficamente, o cronista acabava por dar razão
aos negros, restaurando para o presente um passado ainda
recente que comprometia o futuro:

E só então compreendi a resolução do problema do serviço


doméstico. Enquanto os anos não passarem muitos, sob a recor-
dação do relho do senhor de escravos, negro não pode ser bom
criado. E, coisa singular: na confissão tão positiva e terminante
daquela crioula, que dizia que o outro vício da escravidão era a
falta de vergonha do negro, eu vi exatamente o contrário do que
ela afirmava, uma inconsciente ironia de quem não percebe o
sentimento de pundonor brotando silencioso num terreno antes
árido, safaro (sic) como era a alma do negro, durante tantos
anos explorado pela infâmia humana, dourada com o nome de
um direito. Dançai, pulai, diverti-vos bem e dormi a sesta à
vontade fazei sofrer esta sociedade, vós que sois um genuíno
produto seu! (Hasslocher, 1896).

Sob tal aspecto, a crônica, tal como a literatura,


partilha desta capacidade ou potencialidade ficcional de
expressar o invisível, o implícito, o imperceptível, de re-
velar o não dito, de descobrir novas verdades da vida, de
expor/escondendo o que não encontraria expressão escri-
ta de outra forma. Sob tal viés, a crônica é escrita de fron-
teira do próprio presente que se dispõe a narrar, como
escrita capaz de transcender a sua temporalidade e de des-
locar um sintoma do cotidiano para o plano do universal.
A crônica, enquanto fronteira do tempo presente,
partilha desta capacidade imaginária de reconstrução do
68 mundo, revelando uma outra realidade. A crônica possui
uma capacidade de recriação da realidade por um mundo
paralelo de palavras e imagens, processo este que se esta-
belece no âmbito da escrita e se complementa naquele da
leitura.
Este potencial é tão amplo que até a ausência de
registros – a terrível falta de assunto – dá margem a uma
narrativa sobre o vazio do acontecimento, ou sobre a ba-
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nalidade da vida, ou ainda sobre o próprio ato da escrita,
operando como porta, janela ou soleira para o ingresso
em outras dimensões do mesmo presente.
Veja-se, a propósito, um trecho da crônica de um
certo Chevalier de la Lune, a escrever, em 1913, na revis-
ta Kodak, e a parodiar conhecida poesia, falando sobre o
tempo que passa e a própria escrita da crônica, mas tam-
bém sobre o marasmo da cidade:

Mais uma semana... mais outra... E que elas voam assim


como as pombas do poeta, e não voltam mais. De sorte que o
cronista é como um ponteiro no relógio do tempo. Um ponteiro
– mas rombo e irregular: rombo, porque deforma os fatos ao
crivo de uma impressão, irregular, porque a alma é que faz a
duração do tempo (Lune, 1913).

Sob a alegação de que é segunda-feira e, como tal,


nada acontece, ao que se somam a fadiga deixada pelo
domingo e o dado de que os fatos escasseiam, o cronista
deixa entrever uma cidade com um tempo imóvel, frus-
trando-se o cronista à sua missão de narrar algo sobre a
vida, que é sempre movimento. Terminando por falar do
absolutamente irrelevante para o leitor – a sua dor de
dentes... – ,ele deixa implícita a repetição fastidiosa de
um cotidiano banal!
Uma espécie de escrita do nada, construída no va-
zio da notícia, revela uma mesquinha vida urbana. Na
mesma linha se inserem os comentários do conhecido cro-
nista Paulino Azurenha, quando, irônico, constrói, como
assunto de sua narrativa, a passagem de uma nuvem de
gafanhotos pela cidade:
69
Quebrando a suave monotonia do delicioso viver dos habitantes
de uma cidade assim, em que habitualmente reina uma placi-
dez edênica, é claro não haver, senão lá de espaço a tempo, fatos
de alta monta. De costume, é esta invejável pasmaceira, a que
até a passagem de uma nuvem... de gafanhotos abre ensejo para
o comentário e a distração pública (Azurenha, 1926, p. 127).

Paulino Azurenha, no caso, utiliza em sua narrativa


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a metáfora dos gafanhotos que vão e vêm, retornando à
cidade, para discutir o olhar desde fora sobre Porto Ale-
gre e mesmo as possibilidades de reconhecimento ou
estranhamento que estariam presentes na apreciação da-
quele que retornasse à cidade após um período de longo
afastamento. A postura de Azurenha, o festejado cronista
Leo Pardo, aparece como sintoma de uma sensibilidade
diante da cidade. Os cronistas, escritores do presente, nos
sugerem um tipo de atitude de expectativa e frustração
diante de um urbano sem emoções, como que paralisado
no tempo. Esta postura é oposta àqueles que viam, na
cidade de então, a realização de um futuro desejado.
Mas as crônicas podem, também, referir-se a um
outro tempo, no passado. São elas as narrativas
memorialísticas, quase sempre baseadas, na maioria dos
casos, na experiência e nas recordações de alguém que
viveu, viu e ouviu um outro tempo. Tais crônicas são es-
pecialistas em assinalar a diferença entre o tema/objeto
da recordação tal como era no passado e o tempo da nar-
rativa, o presente onde se realiza o ato de rememorar. Não
raro, esta diferença no tempo é qualificada e, muito
freqüentemente, é julgada como uma perda.
Achylles Porto Alegre foi, no caso, um cronista que
deixou inúmeras narrativas deste tipo sobre a capital gaú-
cha. Lamentando as transformações da cidade, que a dei-
xavam, por vezes, irreconhecível para aqueles que havi-
am vivido um outro tempo, o tom nostálgico do cronista
confere ao passado uma valorização positiva, face às per-
das trazidas pelo presente:

70 Volvendo, de vez em vez, os olhos da memória para estes tem-


pos [...] vemos então que o progresso, no fim de contas, não é
senão uma esponja, apagando páginas e páginas de história,
com a destruição e o desaparecimento de sítios que, fotografan-
do aspectos, deveriam conservar-se intactos e inteiros no seu
magnífico brilho tradicional (Carnioli (Achylles Porto Ale-
gre), 1920).

Acusado de ser um saudosista, que desejava a volta


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de um tempo do passado, irrecuperável, o cronista se de-
fendia:

Quer queiram, quer não queiram, eu revivo, porque recordar é


viver, trechos e lances de vida já vivida. Recordar é retornar ao
que se foi, é voltar ao passado e ficar nele por instantes, vendo
com os olhos da memória as coisas como eram então, embora já
não existam ou estejam transformadas [...] É verdade que o
progresso, na sua faina transformadora, muda o aspecto aos
seres e às coisas, mas eu, quando quero, vejo tudo como era ao
tempo em que, moços, com a alma e o coração cheios de poesia,
olhavam a vida através de uma opala risonha (Porto Alegre,
1923, p. 7-8).

Perdas no desgaste físico das materialidades ou for-


mas do espaço construído que são erigidos em objeto da
rememoração, perda das experiências passadas em face
da irremediabilidade do seu retorno, perdas dos valores e
normas que orientavam as ações e que caíram em desuso,
perda dos atores que encarnaram certas idéias e que fo-
ram ultrapassados pelo tempo... Na grande parte das ve-
zes, estas perdas assinaladas dão margem a um caráter sau-
dosista, que assume a forma de um lamento e mesmo uma
avaliação: o passado era melhor... Neste caso, ver, no pre-
sente, o passado se converte em uma atitude de um dese-
jo impraticável: a volta do que passou.
Ora, esta diferença assinalada, diferença que intro-
duz uma alteridade a ser percebida, dada pela passagem
do tempo físico, instaura um outro tempo, construído pelo
ato de representar o passado no presente.
Nesta medida, a crônica memorialística partilha, com
a História, esta propriedade de reconstrução do passado
pela narrativa, dando a ver uma temporalidade que só 71
pode existir pelo esforço da imaginação. Há uma constru-
ção imaginária de uma temporalidade passada, que se
apresenta como verossímil pela autoridade da fala/narra-
tiva daquele que rememora e se apresenta como testemu-
nha de seu próprio relato. A enunciação – eu vi, foi as-
sim, foi então, eu estava lá – atesta a certeza do reencon-
tro do passado ou da correspondência da realidade com o
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discurso, produzindo, senão a veracidade da narrativa, pelo
menos um efeito de verdade.
Como bem afirmou Paul Ricoeur (2000), a Histó-
ria não dispõe deste dispositivo de confirmação testemu-
nhal da memória consubstanciado na credibilidade da re-
cordação e no reconhecimento da lembrança. A História
se resigna a perseguir uma meta de veracidade, a pôr em
ação todo um dispositivo retórico e argumentativo e toda
uma estratégia metodológica de organização documental
para chegar o mais perto possível deste real do passado,
sem nunca poder alcançá-la in totum.
Mas trazer um outro tempo, nem passado nem pre-
sente, e sim uma outra temporalidade, é um esforço
ficcional dos mais árduos. A começar pelo fato de que
aquele que escreve a crônica memorialística enxerga com
os olhos do passado, vendo, no hoje, o ontem, na nova
materialidade erguida através do tempo, as outras, já
destruídas, que ali existiram um dia. Ver o que não mais é
possível ver, eis a tarefa narrativa que ultrapassa as fron-
teiras do próprio tempo do passado, reconstruindo-o pelo
imaginário da narrativa.
Por outro lado, este retorno ao passado pela memó-
ria é, também, uma forma metafórica de expressar o mun-
do, na qual a invenção do passado, além de tentar dizer
como teria sido, fala, sobretudo, do presente. Falar do
presente construindo o passado é uma maneira alegórica
de referir-se ao real de outra forma.
Por exemplo, a ameaça da mudança ou a iminência
de ser colocada em prática uma nova ordem torna explí-
cito o temor ou o pressentimento de que algo está preste
72 a desaparecer. A ameaça da perda gera uma busca pelo
passado, reforçando raízes, consagrando mitos de origens
e produzindo o esforço de lembrar. Estamos, neste ponto,
diante do processo da anamnese, deste trabalho voluntá-
rio de memória, que busca lutar contra o esquecimento.
O receio do futuro faz o presente agarrar-se ao passado,
apagando fronteiras de tempo e inventando uma nova
dimensão.
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É diante da ameaça da perda, da chegada da mu-
dança, da subversão de uma ordem ou de um projeto de
instalação de um novo tempo, o do futuro – como no
caso da formação dos estados nacionais –, que se processa
uma volta para o passado, inventando uma História ou
fazendo surgir a crônica memorialística, ambas construídas
como formas narrativas de reconfigurar o que passou.
E, neste ponto, chegamos à fronteira de uma outra
temporalidade, onde mais uma vez a crônica comparece
como lugar de ultrapassagem e criação imaginária. A crô-
nica é ainda fronteira no tempo do futuro, modalidade na
qual talvez seja mais perceptível o seu caráter ficcional.
Este tempo não realizado se configura na narrativa
como um tempo de sonho e desejo, fruto da imaginação
de quem, no presente, coloca suas expectativas e espe-
culações. A crônica que trabalha com o futuro é tam-
bém alegórica enquanto modalidade narrativa, na qual,
inclusive, se estabelece um jogo de cumplicidade com o
leitor. Este é, desde o início, esclarecido de que o cronis-
ta sonha ou devaneia, ou mesmo inventa um mundo in-
teiramente outro.
O leitor segue esta ficção sobre o futuro, que, em
tudo, contradiz a realidade do presente, narrativa esta
que quase sempre acaba por um acordar do cronista, com
o seu retorno ao cotidiano, contato com a realidade que,
não raro, se faz acompanhar de um sentimento de de-
cepção.
A crônica futurista introduz uma narrativa que, de
forma fantasiosa, com a qual o leitor é cúmplice, diz ver-
dades sobre o presente, sob a forma de um outro tempo.
O fato de estabelecer a instituição de um mundo de men- 73
tira não invalida a verdade do simbólico que esta narrati-
va contém. Situações irrealizáveis ou improváveis podem
ser lidas pelo seu reverso, e a ironia e a blague permitem
acessar sentimentos vividos e profundos.
Mesmo que algo seja irrealizável, isto não implica
que, uma vez, tenha sido concebido como forma de ex-
pressar um desiderato. Se assim não fosse, como analisar
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as utopias, que não se medem pelo seu grau de realização,
mas pelo seu potencial de desejo e expectativa de que,
um dia, foram portadoras?
E, para confirmar a idéia de que a temporalidade
do presente é aquela que preside a composição da narra-
tiva, todos os elementos da situação imaginária do futuro
lá estão, retirados da contemporaneidade do cronista.
Poderão, sem dúvida, se apresentar com os sinais troca-
dos, em combinações absurdas, ou mesmo com um signi-
ficado hipertrofiado em termos de positividade ou
negatividade, mas seu arranjo, aparentemente inverossímil,
porta uma coerência de significado e uma ancoragem bem
concreta nos dados do presente. A crônica futurista, nes-
te aspecto, é tão cifrada ou inventiva na sua configuração
quanto os filmes de ficção científica, que dão a ver como
em um tempo dado se pensa o futuro.
Tome-se o caso da série de crônicas intituladas
Cousas Municipais, escritas por Felicíssimo de Azevedo e
publicadas no jornal A Federação, de janeiro a setembro
de 1884. Felicíssimo de Azevedo, este nosso cronista da
capital gaúcha, foi republicano de primeira hora e se apre-
sentara diante da Câmara Municipal de Porto Alegre para
prestar seus serviços como fiscal honorário da cidade. Já
aposentado e não precisando de remuneração alguma da
municipalidade, para viver, Felicíssimo de Azevedo se
propunha, voluntariamente, a zelar pela eficácia da admi-
nistração e dos serviços urbanos prestados à cidade. Deste
cargo, advertia aos vereadores, ele não poderia ser dis-
pensado, pois não fora nomeado, não recebia salário e
desempenhava suas funções como um direito seu, na sua
74 qualidade de cidadão.
Felicíssimo de Azevedo é talvez o mais acabado
exemplo de vivência e militância cidadã, entendida
como um direito seu e um dever diante da comunidade.
Não só entregava, duas vezes por semana, as suas obser-
vações e comentários sobre a cidade aos vereadores, como
dava esta crônica para ser publicada nas páginas d’A Fe-
deração, com o que estabelecia uma relação de cumpli-
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cidade e expectativa com o seu público leitor, também
de cidadão.
Pois bem, Felicíssimo de Azevedo fixa o presente
do que vê, anota, critica, denuncia e torna público. Sua
crônica oscila entre o registro do banal e corriqueiro do
cotidiano de uma cidade – um buraco em uma rua que
perturba o trânsito e os passantes, uma medida levada a
efeito pela Câmara Municipal naquele momento e que
ele considera errada e prejudicial à comunidade – e o co-
mentário de acontecimentos excepcionais para a vida da
cidade, como as preparações para a libertação antecipada
dos escravos que se daria em 7 de setembro de 1884.
Entre tais acontecimentos do tempo presente, o
fiscal honorário introduz um outro tempo: como fiscal-
cidadão, ele propõe e projeta uma outra cidade, ideali-
zando medidas, sugerindo o que fazer e – sobretudo –
dando a ver ao leitor, pela sua narrativa, como seria a
cidade do futuro!

Fechai os olhos, cidadãos vereadores e sonhai com o vosso belo


Porto Alegre daqui a 40 anos. O que vedes? Nada? Pois o vosso
fiscal honorário enxerga muita coisa bonita, apesar de tantos
horrores, deixados pela incúria da câmara. Não vedes aquela
Várzea, tão descurada no passado, rodeada de palácios magní-
ficos; aqueles soberbos hotéis, aquelas casas de comércio tão
luxuosas, aquela imensa onda de povo a correr apressado e a
desviar-se dos veículos de toda a espécie que cruzam em todas
as direções? (Azevedo, 1884).

Na mesma linha de antecipação do tempo que há de


vir, mas sob a forma do relato de um sonho, que de ante-
mão o leitor sabe que não ocorreu e que se trata de uma 75
narrativa, alegórica e crítica, sobre a situação da cidade de
Porto Alegre, se tem com Germano Hasslocher, quando
este relata que sonhara ser o intendente da cidade!

Extravagante o sonho que tive esta noite. Ouvi uma gritaria


enorme, atroadora, reclamações entusiásticas, foguetada es-
tourando no espaço, músicas vibrando hinos triunfais. Enfiei-
me num par de calças, enrolei-me num capote e cheguei à

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janela para ver o que era aquilo. Mal a minha cabeça com os
cabelos emaranhados assomou à janela, redobraram as aclama-
ções, a foguetada estrugiu numa tempestade e os metais da
música abriram-se com a força dos hinos. Era comigo aquilo
[...] Vinham trazer-me felicitações por ter sido eu eleito –
intendente municipal.4

Germano Hasslocher se destacava por ser um críti-


co feroz e moralista no seu tempo, indo dos hábitos da
população aos procedimentos abusados dos libertos, para
chegar até a certas ineficácias da administração republi-
cana, apesar de ser um republicano feroz. A crônica em
questão é uma página de ardilosa ficção para mostrar o
quanto a cidade estava abandonada, mas que se inscreve
no reverso da posição de Felicíssimo de Azevedo: se este
critica o regime monárquico no seu ardoroso proselitismo
da causa republicana, Germano Hasslocher, ele mesmo
republicano ferrenho, lança uma denúncia sobre o que
considera a enorme tarefa a ser feita na remodelação da
cidade pelo novo regime instalado, tal como expõe ao
leitor a necessidade urgente de reformas para instalar a
modernidade urbana.
Neste sentido, ele é também um fiscal das necessi-
dades cidadãs, mas de dentro do regime. Busca mesmo
coagir os novos detentores do poder a agirem, para o que
busca, pela crônica-denúncia, relato de um sonho onde
se dizem verdades políticas, a cumplicidade do público
leitor. Ou, pelo menos, tenta convencê-los do que é pre-
ciso fazer... Sua conduta é a de apontar o mal – pela reve-
lação do sonho, no caso – para que uma nova conduta
política se instale. Mas tal processo implica uma
76 reconfiguração do que seja a cidadania, tal como anun-
cia, em seu sonho, o novo suposto e sonhado intendente:

Ides ter agora uma tirania municipal. [...] Sim uma tirania,
coisa de que necessitais para a vossa felicidade. Eu não cortejo
o povo, falo-lhe a dura verdade que há muito ele devera ter

4
Gazeta da Tarde,08.06.1895.

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ouvido. Sim, meus concidadãos, a cidadania que pretendes tem
sido a vossa desgraça. Firmados nela criais porcos nos vossos
quintais, construís casas que são o peristilo do cemitério,
amontoais o cisco no fundo dos vossos porões, despejais a imun-
dície na sarjeta das ruas, fazeis enfim o que quereis. Tudo isto
vai acabar. A soberania passa a residir exclusivamente em mim.
Os meus códigos aí estão: tratados de higiene, compêndios de
construções, etc., etc., etc. O meu olhar há de penetrar na
consciência de vossas habitações para fulminar os pecados que
lá encontrar. [...] Ah! Eu sou assim. Povo não tem juízos, não
tem critério; povo não foi feito para governar e sim para ser
governado e governo é o domínio de uma só cabeça.5

O despertar do cronista o leva a sentir um grande


alívio, tal a enormidade da tarefa que lhe fora apresen-
tada, de molde a fazer a capital gaúcha resolver seus
problemas... Germano Hasslocher se posiciona como
arauto do novo autoritarismo republicano? Parece que,
quer pela graça do estilo, quer pelo recurso literário do
sonho ou pela maneira alegórica de se referir ao real
sob uma outra forma, o cronista prepara o futuro de
uma nova administração republicana, demonstrando
que o progresso e a modernidade urbana implicavam
um autoritarismo ilustrado que reverteria em benefício
do povo, fulcro, portanto, de uma nova concepção de
cidadania.
Há ainda uma outra linha de cruzamento temporal
que se apresenta nas crônicas e que, mesmo jogando com
as dimensões da permanência e da mudança, confirma o
seu estatuto de serem narrativas do presente.
Tomemos o caso da crônica urbana mobilizada pela
idéia da modernidade. A modernidade urbana, enquan-
to processo que se desencadeia com a renovação capita- 77
lista do mundo e que tem o seu epicentro na cidade, é
renovação material e social do mundo, mas é também
uma nova expressão imaginária do real. Ela desperta
novas sensibilidades e expectativas, sendo uma delas a
da idéia da metrópole.

5
Ibid.

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Ora, o que é uma metrópole? Enquanto construção
imaginária de sentido, a metrópole é a cidade grande, onde
as coisas acontecem, onde se dá a produção do novo, onde
a vida se agita e as decisões são tomadas, espécie de espe-
lho do mundo onde tudo se reflete e concentra. Os soció-
logos tentam definir e classificar ou mesmo mensurar a
metrópole apresentando índices para a sua população,
território urbanizado, espaço edificado, prestação de ser-
viços e rede de comunicações, centro político de decisões
e vida cultural, etc.
Mas, para as pessoas que vivenciam este processo,
quando ele ocorre de forma lenta, mínima, e é, mesmo
assim, sentido por aqueles que o vivenciam de forma qua-
se revolucionária, o que seria a metrópole? As crônicas
urbanas são, nesta medida, muito interessantes, porque
registram impressões da vida, sensibilidades de uma épo-
ca que não são mais as nossas.
Tomemos o caso de Porto Alegre, mas acompanhe-
mos as crônicas que relatam as mudanças da cidade ao
longo do tempo. A cada sintoma de inovação urbana, a
modernidade é invocada e a condição de metrópole é lem-
brada. Do bonde puxado a burro para o elétrico, da en-
trada em cena da iluminação noturna à expansão dos ci-
nemas no centro da cidade, da inauguração do primeiro
viaduto à destruição dos becos, a constatação do
maravilhamento confirma: a modernidade chegou! Já so-
mos uma metrópole, enfim!
Dos anos setenta do século XIX a fin de siècle, dos
anos vinte às cirurgias urbanas das décadas de trinta e
quarenta do século XX, para chegar ao advento dos
78 shoppings centers dos anos oitenta, a cidade passou in-
gressando em modernidades sucessivas, a suspirar conti-
nuamente: enfim... A constatação pode, no caso, se re-
velar banal, pois na lógica da modernidade o novo é
sempre desbancado pelo mais novo. O que, contudo,
cabe registrar é o registro narrativo desta sensibilidade
no tempo: a percepção de que o futuro se antecipa e se
instala, ou mesmo atropela o tempo do presente. Há o
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aspecto metonímico da supervalorização do elemento in-
dividualizado e icônico da mudança, fazendo ver, no todo,
a parte.
Tempos que se superpõem, que despertam novas
sensações, que constroem e mesmo deformam o olhar so-
bre o real são, desta forma, objeto de um registro narrati-
vo deste cotidiano sensível, experimentado na cidade. A
crônica opera, como narrativa do real, revelando as ditas
verdades do simbólico, ou seja, a veracidade do sentimento
e da experiência que faz com que, em cada época, seja
possível ser vivenciada como verdadeira a experiência da
modernidade ou da sensação de ser metrópole.
Fronteiras do tempo, as crônicas são, para o histori-
ador, narrativas que se constroem para além do verdadei-
ro e do falso, servindo para mostrar a capacidade imagi-
nária de construção social da realidade, para a qual as
convenções temporais não têm limites.
Se o historiador buscar encontrar nelas a confirma-
ção do real, dada a observação direta do cronista e a sua
tradução em narrativa, com certeza vai encontrar nelas
pistas, guardadas as injunções – ficcionais... – do seu tem-
po e de sua subjetividade ao retratar o mundo.
Se buscar na crônica os valores e o clima de uma
época, os conceitos produzidos pela experiência da reali-
dade sensível em um momento dado da história, sem dú-
vida ele encontrará neste tipo de narrativa todo um ma-
nancial de emoções, sentimentos, razões que um dia or-
denaram o mundo.
Se for à cata das formas pelas quais os homens fo-
ram capazes de realizar uma transfiguração fantasmática e
onírica da realidade, sem sombra de dúvida a crônica lhe 79
será uma fonte especial.
E se, principalmente, este historiador estiver inte-
ressado em ver como os homens, ao longo da sua história,
foram capazes de inventar o passado e imaginar o futuro,
sempre para explicar o presente, rompendo as fronteiras
do tempo, a crônica será, sobretudo, uma fonte exemplar,
quase inesgotável, para o seu trabalho.
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Referências

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A crônica. O gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas,
Editora da UNICAMP.
CARNIOLI (Achylles Porto Alegre). 1920. O Teatro Apolo. Correio do Povo,
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RICOEUR, P. 2000. L’écriture de l’histoire et la représentation du passé. Annales
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