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Não Tenhais Medo

Ou

Como salvar sua próxima ceia


de Natal, o Brasil e talvez até
sua alma

Gatão do Brasileirinhos
A TEMÍVEL HORA DA DR

E aí, quer salvar sua próxima ceia de Natal e quem sabe o Brasil e a sua
alma? Tem uma hora e meia sobrando aí? Excelente . É o seguinte:

Recentemente, amigos e conhecidos de esquerda revelaram nutrir


sentimentos para comigo que vão de “tristeza!” e “vergonha!” à incompreensão
horrorizada de um protagonista lovecraftiano diante de alguma abominação, e
embora eu não costume me explicar, achei que dessa vez a ocasião fazia por
merecer alguns comentários que talvez se revelem úteis no contexto maior do
acirramento das tensões sociais que agora enfrentamos.

Era apenas inevitável. À medida que a situação política se encaminhava


para o afundamento do PT, a hostilidade tácita ou declarada entre amigos e
familiares se intensificou até culminar, nos dias entre a votação pelo afastamento
da d. Dilma e a posse do s. Temer, em um espasmo de almoços arruinados, perfis
bloqueados, amizades desfeitas, matches cancelados etc. Imagino que alguma
variação disso tenha acontecido com você:

A vida na cidade grande.

Desagradável como seja, esse atrito apenas sinaliza o retorno à


normalidade do confronto de opiniões realmente antagônicas, algo comum há até
algumas décadas e uma das muitas coisas de que tínhamos nos esquecido.
Finalmente despertamos, e ao abrir os olhos, vamos nos livrando das ilusões que
se acumularam como sujeira nas pálpebras, como a ilusão de um tecido social
infinitamente complacente, imune à fadiga de material a que as cagadas
continentais dos nossos excelentíssimos têm submetido o sistema.

Vendo as TL’s de amigos esquerdistas, noto uma palavra que se repete com
a insistência de um tique neurótico: “medo”. Estão todos com medo e
angustiados com o futuro próximo. Muitos relatam sintomas psíquicos (insônia e
pesadelos) dignos de sobreviventes de bombardeio. Outros, sentindo o arrocho
do momento histórico e sem um circuito real de ação, tentam disfarçar o medo,
que não passa de um sintoma de impotência, com comportamento agonístico
meramente pro forma : tumultos anêmicos, peidinhos de birra enjoada e farsesca,
cusparadas ou apoio a elas, promessas de luta, “não passarão!”, cuzaços etc.,
mera encenação de um passado em que a esquerda realmente executava ações
relevantes e determinava o curso da política no Brasil, o que me faz pensar que
em algum lugar deve haver um gráfico mostrando a taxa de decaimento da
História para a farsa: mal ou bem a d. Dilma deve ter aprendido a desmontar um
rifle, trocar um pneu, fazer uma tocaia. Já os progressistas da nova geração
moram com a mãe, fazem oficina de masturbação, simpósios sobre “autoestima
vaginal” e encontros de tecnoxamanismo (“o verdadeiro acelerador de
partículas é o chocalho” ). Vocês também notaram certo desnível de intenções e
aptidões? “Inverno em chamas” [1] isso aqui não é.

No fim, o único efeito dessas ações é aumentar o nível de irascibilidade


geral: nas TL’s dos amigos direitistas, a maioria está num gradiente que vai da
paciência esgotada, mas resignada, a um ódio franco, despreocupado e feliz.
Medo de um lado, ódio do outro. Essa combinação não é legal.
O começo de uma relação de interdependência tóxica, de caráter
sádico/masoquista. (Quadrinhos de Alejandro Jodorowsky)
Assim, por mais que eu odeie o que estou prestes a fazer, as circunstâncias
me obrigam. Sim, eu chamei vocês aqui pra gente discutir a relação .
STREETS OF RAGE
Terapeutas de casal usam a expressão “playing the tape” para designar
as discussões entre casais que, de tanto se repetir, automatizam-se, sem que
haja troca real de informação. O que se considera discussão séria nos meios de
comunicação hoje em dia não passa de uma briga de casal em que um lado
tenta forçar o outro a adotar suas conclusões sem que tenham se preocupado em
conferir se partiam da mesma premissa (não partem).

Pra piorar, trata-se de um casal cuja confiança mútua está nas últimas, já
que o Brasil é notoriamente uma sociedade de baixa confiança [2] , uma
condição que destrói as relações pessoais, de transações financeiras até
discussões em mesa de bar.

As leis e instituições que possibilitam as transações em sociedade


funcionam por causa da confiança que as pessoas têm umas nas outras, a crença
compartilhada de que as regras funcionam porque a maioria irá segui-las e de
que ninguém está tentando levar vantagem o tempo inteiro em cima dos outros.
Vira e mexe vemos algum brasileiro surpreso com o ambiente de confiança de
países mais desenvolvidos. O exemplo clássico fala de balcões de venda de que
ninguém toma conta, e que não só não são roubados mas as pessoas “deixam o
dinheiro certinho, acredita??”

É uma situação bem diferente do Brasil, que começou sua história como
destino de degredo de mazombos e aventureiros, que é visto até hoje com a
mistura de frustração e ódio que se dedica a um bilhete de loteria que não sai
nunca, uma pátria que trata os filhos como aquele pai “amigo” que tem de
permissivo o que tem de irresponsável, onde a sensação de desamparo dos
cidadãos diante do governo faz com que toda a Constituição não valha a lei de
Gérson e cuja bandeira teria um lema muito mais adequado se estampasse a
frase “farinha pouca, meu pirão primeiro”.
Continua votando. Vota mais que resolve sim.

Em um ambiente de alta confiança as pessoas entrariam em uma


discussão com boa-vontade e boa-fé, mais interessadas em aprender—e se for
o caso, ensinar—do que em “vencer a discussão”. Mas discussões que partem
de premissas opostas em um ambiente de baixa confiança só servem para
disparar o “sequestro da amígdala” [3] , uma resposta emocional avassaladora
que impede a capacidade de argumentação racional e transforma qualquer
interlocutor em uma namorada furiosa , já que em um ambiente de baixa
confiança as pessoas tendem a imaginar que todo argumento é um pretexto para
imposição de pontos de vista e obtenção de vantagens.

Já estamos tão acostumados com reações de sequestro da amígdala que


achamos que isso é o normal e nem lembramos de que antigamente havia um
negócio chamado “serenidade das convicções”: um adulto que sabe que está
certo não perde a calma ao ser confrontado com informação de má-qualidade,
desinformação, ignorância etc. Ele pode até engrossar o tom, mas será uma
escolha (que pode ter vários motivos, da pedagogia ao tédio).

Se você é esquerdista/progressista, existe um teste rápido para medir seu


nível de convicção real e saber o quanto você está predisposto a sofrer
sequestro da amígdala. Veja a foto abaixo:

Se você sentiu a pressão subindo, eu tenho más notícias.

Fugir da tirania amigdalar é um esforço consciente e demanda tempo e


disciplina, mas se você conseguir, vai ganhar dois super-poderes: não só
ninguém mais vai conseguir apertar os seus botões emocionais, como você vai
conseguir apertar os botões emocionais de todo mundo, se quiser (não
recomendamos).

Para conseguir isso, você precisa se acostumar a assumir uma atitude que
pode parecer loucura à primeira vista. Já vou avisando, é bem bizarro. É o
seguinte: você deve se acostumar a não tratar as opiniões antagônicas como
um ataque a ser rechaçado imediatamente a qualquer custo, mas sim como…lá
vai… como uma informação que você terá que… tratar como se fosse
verdade!, para então poder avaliá-la com calma e ver se o
argumento realmente se sustenta, independente do que você acha . Eu sei,
parece loucura! Eu sei! Fingir por algum tempo que o argumento que você
ouviu e fez sua pressão subir é mesmo verdade, para então daí derivar as
consequências, implicações, possíveis contradições etc., para só no final poder
dizer se aquilo se sustenta ou não? Eu avisei que parece loucura. Mas discutir
sem esquecer de que sempre é possível estarmos errados é a única maneira de
garantir que a discussão trará algum benefício: ou a correção do seu erro (o que
é sempre bom… não é? ), ou a constatação satisfeita de que você estava
certo, uma sensação melhor que sexo (dizem ). Essa adoção momentânea do
ponto de vista oposto é o que chamamos de “boa-vontade e boa-fé”. Fora disso
só há “play the tape” .

“Um país com baixíssima taxa


de confiança e um país com altíssima taxa de confiança entram num bar…”
Aumentar o nível de confiança geral é o único objetivo sensato a ser
perseguido em termos de organização da sociedade. O progressista Lênin
costumava dizer que “confiança é bom, mas controle é melhor” . Faz sentido:
confiança implica boa-vontade e boa-fé, harmonia e cooperação, um equilíbrio
complexo, demorado e difícil de atingir, que depende de as pessoas
reconhecerem os pontos comuns que têm umas com as outras (em vez de se
verem como classes diferentes envolvidas em uma luta ferrenha por
dominação). Já o controle é mais simples, direto e brutal, e pode ser imposto à
força, na base da canetada (que em última instância quer dizer, “a bala”).

Tentar criar uma sociedade “mais justa” usando o Legislativo, como


fazem os progressistas, é estúpido feito começar a construir uma casa pelo
telhado, já que as leis dependem de que as pessoas as protejam para que
possam proteger as pessoas. Se houver confiança e cooperação (os alicerces de
uma sociedade harmônica), todos os demais processos se seguirão daí,
enquanto que nenhum sistema de leis fará funcionar uma nação de patifes.

Imagem meramente ilustrativa.

Quando falamos de organização da sociedade, falamos de cibernética. A


sociedade é um sistema com componentes dinâmicos que utilizam feedback
para se orientar e agir. Por exemplo, o pâncreas produz insulina ao detectar que
o nível de glucose no sangue está muito alto, e glicagina quando detecta que o
nível está muito baixo. É o equilíbrio (homeostase) entre as diversas forças
atuantes que permite ao sistema continuar trabalhando em níveis aceitáveis de
desempenho. Já em um sistema defeituoso, uma das forças atuantes acaba
predominando, até o colapso geral.

Em um sistema defeituoso os parâmetros aceleram para valores extremos, que podem danificar ou
destruir o sistema.

Assim, para que os dois lados possam cooperar (“co”+”operar”, “operar


em conjunto” ), eles precisam antes concordar com os termos da operação,
como dois cirurgiões trabalhando para salvar o mesmo paciente, e isso só é
possível se eles passarem a se ver como colaboradores em um processo maior,
e não como inimigos.
ESQUERDA E DIREITA: UM CASO DE FAMÍLIA

É sério.

Uma vez pedi a um amigo, senhor de uns 60 anos e comunista


encruado, que ele definisse o que é a “direita”. Ele me respondeu que a
direita é “a ignorância, a truculência, a ganância, a hipocrisia, o ódio”,
seguindo sem perceber o roteirinho do cartum epistemológico de que falei
no último artigo, em que a esquerda é associada automaticamente ao bem, e
a direita, ao mal.

Para esse meu amigo era natural desejar a eliminação da direita, como
é natural desejarmos a eliminação do mal. Mas esquerda e direita não são
lados envolvidos em uma luta entre o bem e o mal, e sim tendências
complementares, existentes na natureza e no ser humano, que por si só não
são boas ou ruins, mas que se tornam danosas quando saem de seus limites.
Imaginar uma existência sem a direita ou sem a esquerda é tão possível
quanto imaginar um pássaro voando com uma só asa.

Podemos definir o Universo como um sistema onde energia potencial


é convertida em trabalho. Existe um crédito em energia na existência, que é
gasto nas interações químicas e humanas (escrevendo um texto como este,
argumentando com um amigo, explodindo uma bomba em uma embaixada
etc), e é nessa dialética do uso de energia para efetuar mudanças ou impedi-
las que a esquerda e a direita têm se engalfinhado ao longo dos milênios.

A 2ª lei da termodinâmica nos diz que a energia tende a se dissipar e


que os sistemas se desagregam no tempo. Se você não injetar energia em
um sistema constantemente, ele se desintegrará. Por exemplo, a tinta da
parede irá se descascar e esmaecer e a parede irá se sujar à medida que o
tempo passa. É necessário investir energia, aplicando ocasionalmente uma
demão de tinta, para reverter esse processo e deixar a pintura como nova. Se
você não investir energia arrumando o seu quarto, ele tenderá a ficar vez
mais desorganizado. Usamos energia para manter um músculo flexionado, e
à medida que o tempo passa e as reservas de energia se gastam, vai ficando
mais difícil manter a tensão e o músculo retorna ao relaxamento que é sua
tendência natural etc.

Nesse esquema, a direita identifica-se com a “ordem”, controle,


coesão ou tensão do sistema. A esquerda, com a “desordem”, descontrole,
fracionamento ou relaxamento do sistema ao longo do tempo.
A) Mondrian: “ordem”, controle, coesão. B) Pollock, “desordem”, descontrole, fracionamento. Os
dois extremos são tóxicos para a vida humana, que deve buscar o equilíbrio entre as duas tendências
sem ceder completamente a nenhuma.

Essas são as duas tendências ou atitudes que uma sociedade pode


apresentar ao longo do tempo: coesão/união ou separação/fragmentação.
Trata-se então de saber qual das atitudes adotar diante de determinadas
circunstâncias (e não de atribuir características morais a uma ou outra,
como no caso do meu amigo comunista de 60 anos). A reconciliação é
possível e desejável para certos casais em crise, enquanto que a única
solução para outros casais é a separação definitiva.

Esse aspecto da realidade foi compreendido há muito tempo, bem


antes da ciência como a conhecemos hoje existir, e foi codificado em
linguagem religiosa, ou seja, simbólica. “Símbolo” vem do grego “syn”
(“junto”)+ “bole” (“lançar, arremessar”)” , com o sentido primitivo de
“reunir coisas, elementos”. O conceito oposto, (“dividir, desagregar,
espalhar”) é designado pelo termo “dia” (“separado”) + “bole” (“lançar,
arremessar”)”, e é essa a origem da palavra “diabo”. O diabo é a
representação simbólica de um fato real: a tendência à divisão, relaxamento
ou desagregação dos sistemas, processos, sociedades, famílias etc.
“E, se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não pode subsistir” — Mc 3,24
“Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha.” — Lc 11,23
A esquerda é tradicionalmente associada à rebeldia e à revolução. São
os progressistas que, partindo da insatisfação (justificada ou não), procuram
efetuar mudanças ou abolir o status quo , que rejeitam por não se
identificarem com ele.

Já a direita é tradicionalmente associada com a obediência e a


preservação. “Conservar” vem do latim “con +servare ”, “manter intacto ”).
Conservadores, identificando-se com o status quo , procuram preservá-lo de
mudanças cujo benefício é incerto. Progressistas apontam para o futuro,
para o que pode vir a ser, compensando a pouca experiência com uma
energia que não admite contestação. Seu lema é “por que não?” .
Conservadores apontam para o passado, para a experiência compartilhada
da comunidade, e seu lema é “porque não.”

O modo como as casas de apostas distribuem os prêmios demonstra a


dura realidade que idealismo juvenil nenhum jamais vai alterar: apostas
conservadoras (comprovadas pela experiência compartilhada) pagam bem
pouco, mas as chances de se perder tudo o que foi apostado são bem baixas.
Já nas apostas arriscadas (equivalentes ao espírito progressista de abraçar
causas que a experiência compartilhada não corrobora, a serem realizadas
em algum ponto indefinido do futuro), a probabilidade mais alta é que o
apostador perca tudo o que apostou.
“Na hora pareceu uma boa idéia”. (“Satanás”, Gustave Doré)

Durante a maior parte da história o ímpeto conservador nem tinha


nome, porque era considerado apenas a atitude normal diante de uma
existência que todos sabiam ser difícil e precária. Mas essa percepção veio
mudando até se transformar em seu oposto (falarei sobre isso mais adiante),
e então os progressistas e rebeldes ganharam a vantagem nas relações
públicas (como a experiência comunista no século XX demonstrou, perdoa-
se muito a quem erra quando pressupomos que a intenção era causar o bem,
mesmo quando o resultado é catastrófico. Alegar intenções nobres já
conseguiu tempo de sobrevida para muito canalha).
Muito canalha.

Do outro lado, qualquer pai ou mãe sabe que muitas catástrofes


evitadas não chegam a ser percebidas, e por isso o normal é que todos os
sacrifícios feitos e perrengues enfrentados não recebam o reconhecimento
devido dos filhos, que lembram da influência paterna apenas em termos de
chatices, limites e proibições (eu sei porque eu também fui um filho ingrato,
que achava muito natural a comida chegar ao prato todo dia e só pensava
em termos do que eu queria, sem me preocupar com implicações,
consequências etc).
“Piedade, senhor piedade, pra essa gente careta e covarde” (no final do desenho o bebê
morre por deficiência imunológica adquirida e a Veja faz uma capa melodramática). (Tom &
Jerry - “Tot Watchers”, 1958)

Nenhuma das duas inclinações humanas (o “por que não? ” do


progressismo e o “porque não. ” do conservadorismo) pode dar conta da
multiplicidade das experiências sozinha, e algo que tente ser tudo para
todos acaba não sendo nada para ninguém. Cada abordagem, a progressista
e a conservadora, têm a sua hora e o seu lugar. Até o diabo, quando
colocado em seu lugar, também trabalha para Deus (no fim, todo mundo
trabalha para Deus).

A) A direita: continuidade, ordem, “opressão”, inflexibilidade, coerção; B) A esquerda: energia


potencial que, sem limites estabelecidos, se dissipa na não-identidade; C) Obra realizada, definida
em contraste/resposta ao entorno. Ex.: A) Ditadura militar anos 60/Era Reagan; B) Talento dos
compositores da MPB nos anos 60 e rappers americanos na Era Reagan; C) MPB anos 60 e
70/Rap americano nos anos 80.

É o entorno restritivo que, oferecendo resistência, permite aos


músculos da rebeldia terem algo para ir contra e se fortalecerem no
processo. As uvas usadas na produção do vinho vêm de terras áridas, pois é
na luta pelo desenvolvimento em condições adversas que elas adquirem as
características que as tornam desejáveis (é por isso que qualquer dentista
fazia álbuns fodas nos anos 70 enquanto hoje só tem moleque de prédio
fazendo, ahm, canções de apartamento ). Esse é um dos temas constantes
em Nietzsche: a aceitação feliz da oposição como parte integral do
desenvolvimento (desagradável ou doloroso quanto isso possa ser), pois é
desse atrito que saltam as faíscas da inovação artística, técnica etc. Um
exemplo da natureza é o fenômeno do “querido inimigo” [4] , em que
animais territorialistas da mesma espécie passam a conviver de forma
menos hostil uma vez que os limites de cada um são estabelecidos. Além
disso, há o fato de que o problema se agrava enquanto os dois lados se
engalfinham, até o ponto de ruptura irreversível. E finalmente, a oposição
em bons termos é mais desejável que a mera supressão do lado oposto, uma
vez que na ausência de resistência, o lado restante se atrofia, como podemos
ver pela última leva de representantes da esquerda.
“Me debate”.

A Bíblia é, entre outras coisas, um diagrama da organização humana e


do fluxo de energia na sociedade, e alude inúmeras vezes ao equilíbrio entre
as duas inclinações humanas quando fala de bons indivíduos e governos, os
que não mudam de direção “nem à esquerda e nem à direita”:
“Não te desvies nem para a direita nem para a esquerda, e retira teu pé do mal.” Pr 4,27
“‘Deixa-me atravessar a tua terra. Seguirei pela estrada comum, e não me desviarei nem para
a direita nem para a esquerda.’” Dt 2,27
“Esforçai-vos, pois, em pôr em prática tudo o que está escrito no livro da Lei de Moisés, e
não vos desvieis dela nem para a direita nem para a esquerda.” Js 23,6
“Pôs-se a perseguir Abner, sem se desviar nem para a direita, nem para a esquerda.” 2
Sm 2,19

Há também a idéia de que as correções para um lado e para o outro


sejam as melhores possíveis. Trata-se da capacidade de julgar cada situação
independente de recortes pré-estabelecidos, adotando a melhor solução para
o problema independente da solução ser percebida como
progressista/inovadora ou conservadora/tradicional:
“Ouvirás com teus ouvidos estas palavras retumbarem atrás de ti: ‘É aqui o
caminho, andai por ele’, quando te desviares quer para a direita, quer para a
esquerda.”
— Is 30,21

Isso nos dá a imagem de algo em movimento, capaz de ir se


corrigindo e mantendo um funcionamento satisfatório a partir de toques
sutis de mecanismos de compensação (a esquerda e a direita), sem mudar de
direção para os extremos do controle ou da dissolução, que significariam
sua destruição. Esse processo pode ser pensado como uma dança, em que
um lado colabora com o outro para o fim comum, ou como uma luta (como
querem as zelebridades irresponsáveis, com seus chavões tipo “a senzala
pira quando a favela compra um aparelho de DVD a prestação” ).

“A escravidão foi mesmo um fardo / Mas não tão pesado quanto esse meu retardo”.
ASSEPSIA BÁSICA
Não espero debates formais virando febre pelos bares, mas para tratar
de uma questão é necessário estabelecer a natureza do problema nos termos
precisos para só então tratar da sua resolução. Como diz Thomas Pynchon
em “O Arco-Íris da Gravidade” (estou parafraseando): “se você fizer as
perguntas erradas, jamais chegará às respostas certas” .

Só começaremos a fazer as perguntas certas se isolarmos desde já os


vetores de desinformação e ressentimento — jornalistas, acadêmicos e
artistas — que vem usando a linguagem contra nós, tentando manietar nosso
pensamento das maneiras mais canhestras, para que não vejamos o óbvio.
No artigo anterior eu falei que as palavras tinham se gastado até não
valerem mais nada, e isso não aconteceu apenas no campo da política. O
jornalismo quebrou. Acabou jornalismo.

Dica: Ao rezar, peça a Deus mais passaralhos e empastelamentos de redações.


Filhos da puta. Filhos da puta .

Ser pago para mentir, a segunda profissão mais velha do mundo.

A formação rala e o comprometimento ideológico dos profissionais


de comunicação transformaram os canais de informação em meros
difusores de neurose, condicionamento pavloviano e propaganda mal
escrita, e a mentalidade “P.T. Barnum” da mídia (“a cada segundo nasce um
trouxa”) agora possui tanto os meios técnicos de prevalecer quanto a
matéria-prima perfeita de clickbait : as neuroses nacionais, que por sua
própria natureza de coceira psíquica garantem pageviews fáceis.
O jornalismo está MORTO ! Não quero FATOS . Só quero PAGEVIEWS . Achas que tens o que é
necessário para acreditares na minha pauta? CLICA AQUI !

Esse discursinho informado por bom-mocismo histriônico e jeca


remete a uma idéia manufaturada de povo, uma média do que seria o
cidadão consciente, dubem, que não comete gafes, não fala nada impróprio,
preocupado com as questões com as quais todos se preocupam e
concordando com o que todos concordam no momento. Alguém cordato,
gentil, que nunca perde a paciência nem cede a caprichos e apetites, uma
pessoa humana assim maravilhosa, o tipo de idealização simplista que só
costumávamos ver em mural de pré-escola ou na mente assustadora de
publicitários (que como sabemos, não são humanos).
É bacana ser legal.

É um discurso morto, de plástico, facilmente reconhecível por não


causar nenhuma alteração na mente do receptor. Quando o Gregório
Duvivier fala “precisamos aumentar o protagonismo dos garis”, mesmo
quem concorda com ele não recebe nenhuma informação nova: trata-se
apenas de uma confirmação de algo em que se acredita. O tempo passa,
tirando a força da novidade, e o discursinho revolucionário que era
instigante no passado é apenas mais do mesmo, trinta anos depois. Nova
informação necessariamente causa alterações no sistema, enquanto
informação repetida deixa o sistema indiferente:
Ninguém gosta de vocês.

Hoje em dia, quando vemos o Jean sendo (mais) arrombado por um


coletivo de mulheres negras, o Gregório Duvivier recebendo mijada (sem
ser durante o sexo) das feminóias por algum artigo de procedência duvidosa
(entre tantos exemplos das cabeças [5] da hidra [6] progressista [7] se atacando
[8]
), fica fácil perceber que uma vida patrulhada assim é o inferno na Terra .

Trolhas feito o Gregório Duvivier, a Márcia Tiburi, o Emicida etc. são


como cães doentes que, ao coçar compulsivamente uma ferida, impedem-na
de sarar. Seus textos combativos de butique recheados de clichês agem
como gasolina em incêndio, insuflando o clima de revanchismo e vitimismo
em que todos desconfiam de todos, onde tudo é qualquer coisa e o placar
não importa contanto que seja possível dar uma lacradinha na internet. Essa
situação grotesca foi expressada no mais alto grau artístico na foto abaixo,
que não deverá ganhar nenhum prêmio, talvez porque revele mais sobre nós
do que gostaríamos de saber:
Mídia, política e sociedade.
O ESTADO GERAL DA NAÇÃO
A cultura do país está em ruínas, se é que um dia chegou a existir. O ambiente psíquico está
saturado de vozes discordantes que disputam a atenção do público e silenciam, ignoram ou
cooptam o pensamento individual, impedindo o amadurecimento da nação, frustrando as
esperanças de autodeterminação de um país que nunca passou de uma província cultural.
Uma paralisia mórbida se apodera das esferas públicas — religiosas, econômicas, políticas,
artísticas, jornalísticas — , que se tornam meras cascas desprovidas de significado,
carcomidas pelos vermes invisíveis da preguiça moral e espiritual.

Parece o Brasil, não é? Mas é a Irlanda do começo do século XX, ao


menos na perspectiva de James Joyce. O parágrafo acima abria a primeira
versão do texto que escrevi para a orelha da minha tradução do “Um retrato
do artista quando jovem” (Hedra, 2013). Era para ser uma brincadeira boba,
embora feita com sinceridade. Começando o texto dessa maneira eu
induziria o leitor a pensar primeiro no Brasil atual, “engano” que eu
desfaria logo em seguida, mencionando a Irlanda.

A reação (perfeitamente compreensível) da editora foi pedir que eu


reescrevesse o primeiro parágrafo, o resto estava bom. Fiz-me de sonso
(“vocês acharam que é sobre o Brasil? Não, é sobre a Irlanda rs não é que
parece mesmo?”), tentei outra versão que também não passou e por fim
cortei tudo. Não fiquei aborrecido: era só uma gaiatice inconsequente e
nada de importante se perdeu. Mas achei curioso e sintomático.

Uma comparação fortuita não precisa ser nada mais que isso, mas
pessoas que mexem com escrita tornam-se especialmente sensíveis a
indiretas. É por meio de indiretas (que os do ramo chamam de “metáforas”)
que o autor imbui sua obra de camadas extras de significado. Se é possível
ver o mundo no jardim mal-cuidado de Shakespeare, também é possível ver
o Brasil no primeiro gol contra a inaugurar um placar de Copa do Mundo
em casa; no espinhaço quebrado da esperança do país; na idiotia e apatia
mórbida do Mineiraço; na enxurrada de lama tóxica represada que
finalmente rompe o dique, soterrando a vida e a esperança em Mariana; nos
brasileiros nascendo com o crânio reduzido; na mulher que, depois de
esperar 13 horas por atendimento, deu à luz no chão do hospital.
Vai piorar.

Joyce percebera uma paralisia debilitante no panorama psíquico da


Irlanda e a retratou em grande parte de sua obra, particularmente nos contos
de “Dublinenses”. Não à toa o livro foi hostilizado, quando não ignorado:
são contos cruéis onde os irlandeses aparecem como personagens incapazes
do gesto crucial no momento decisivo, vítimas de uma inércia que frustra
qualquer tentativa de ação ou reação, um torpor letal como o de um animal
silvestre surpreendido pelos faróis de um carro.

Imagem meramente ilustrativa.

No caso da Irlanda, essa paralisia provavelmente pode ser debitada à


pura fadiga psíquica. O país vinha de uma longa e violenta história de
invasões, privações e maus-tratos nas mãos dos conquistadores, era uma
periferia cujos habitantes, cidadãos de segunda classe em seu próprio país,
há séculos suportavam a presença de estranhos e a proximidade impositiva
do império, e Joyce, ao partir para o exílio no continente, parecia ir de
encontro à vontade de Stephen Dedalus, que dizia querer acordar “do
pesadelo da História”.
No Brasil, essa “disposição para a inação”, traço nacional confirmado
em expressões como “empurrar com a barriga” e “trancar a casa depois de
ser roubado”, tem uma origem mais simples, embora não menos perversa.

A história do Brasil é basicamente o desenvolvimento de três


temas: 1) sorte imerecida (os sucessivos ciclos: do pau-brasil, açúcar,
borracha, café, algodão etc., que mantiveram o país como projeto viável e
impulsionaram a colonização), a que se seguem 2) corrupção e desperdício
de quem não sabe o quanto custa o prato chegar na mesa, que geram 3)
problemas crônicos, nunca resolvidos, apenas maquiados pelo “para inglês
ver” e gambiarras.

O item 3 refere-se aos problemas de infraestrutura e desenvolvimento


psicológico típico das periferias. De periferia eu entendo, tendo vindo do
Nordeste, que sempre foi o Brasil do Brasil, que, por sua vez, sempre foi
um dos Nordestes do mundo. É isso que o Brasil é: uma periferia cultural,
intelectual e espiritual que no máximo pode aspirar ao papel de capanga
e/ou prostituta no mundo. Somos um personagem terciário, um caipirinha
deslumbrado com a Netflix, chegando na cidade grande e jogando fora as
economias da vida inteira em algum conto do vigário com nome vistoso
(guerra de classes, questão de gênero, empoderamento, protagonismo),
repetindo abobados as perguntas erradas que nos chegam da capitar feito
índios fascinados com miçangas, imaginando algum dia chegar às respostas
certas.

Uma característica comum em ambientes provincianos ou primitivos


é a sensação de que estamos lidando com crianças. Todos os americanos
que conheci aqui no Rio tinham essa mesma atitude condescendente para
com os brasileiros. Alguns só faltavam sapatear de emoção quando
percebiam que meu inglês era bom. Não por acaso a “carta aberta do
gringo” [9] foi escrita naquele tom paternal, didático, de quem passa a mão
na cabeça de uma criança ou retardado. É assim que nós falamos com
aqueles que estão divorciados da realidade, no tom calmo aliciante de quem
tenta administrar um remédio amargo ou tratamento doloroso. Pois muito
bem: chegou a hora do tratamento doloroso.

As respostas pavlovianas da esquerda a tudo que é percebido como


“ódio” e “preconceito”, a repetição automática de fetiches verbais, o
sequestro da amígdala, tudo aponta para um estado obsessivo que em
épocas mais divertidas já foi chamado de “possessão demoníaca”, mas que
hoje chamamos de “conscientização política”. Como se sabe, as vítimas de
possessão — perdão, conscientização — não podem ser “convencidas” a se
libertar. Em vez disso, o encosto tem que ser humilhado e expulso, já que
opiniões políticas são apenas a manifestação externa de toda uma
predisposição de espírito diante do mundo, calcificada ao longo dos anos,
que informa todo o comportamento do indivíduo e que não é modificada
por argumentos.

Assim, na falta de exorcismo, e já que argumentos não convencem


ninguém, imaginei este texto como o keisaku dos monges zen, a vara de
madeira usada para trazer a mente errante na base da pancada a um ponto
de atenção concentrada no momento. Como na anedota da xícara
transbordante, que não pode receber mais nada até ser esvaziada, o objetivo
é atingir um estado mental desimpedido que permita a introdução dos
conceitos sem atitudes pré-concebidas. Neste estado, talvez seja possível —
não convencer, lol — mas estabelecer uma tábula rasa que permita aos
progressistas/esquerdistas que me lêem finalmente entender qual é o ponto
de vista do outro lado.

Fica este texto então como uma amostra da tal boa-vontade e boa-fé,
uma tentativa de estabelecer uma ponte sincera entre os lados litigantes.
Não espero que meus amigos esquerdistas revejam as opiniões de uma vida
inteira depois de ler isto, mas esta ponte lhes permitirá uma visita rápida
aqui ao meu lado, na qual pelo menos saberão de fato quem é o “inimigo”,
em vez do querido espantalho segundo o qual o pessoal aqui “é uma gente
careta e preconceituosa que tem medo de mulher negra pobre andando de
avião” etc.

Todo mundo pronto então?


Eu sei o que estou fazendo.

Lá vai:

Já não há mais tantos humanos assim por aí, se você prestar


atenção.

Já não há mais tantos humanos por aí . Os humanos estão acabando.


É sério . Por favor interprete isso literalmente: Os humanos estão acabando
. Eu nunca falei tão sério na vida.

Eu sei que você não imaginava que a descrição do problema pareceria


a chamada de um filme de terror, mas os sinais são óbvios e estão por toda
parte: gore (canibalismo em Pedrinhas), maldição ancestral (custo Brasil),
body horror (bebês microcefálicos), contaminação (índices da AIDS e
sífilis), fantasmas vingativos (Celso Daniel), sacrifícios (número de PMs
mortos por ano), desastre (represa de Mariana), trauma (7x1), possessão
demoníaca (http://militanciasocialista.org cfe. “Os Demônios”, de
Dostoiévski), crianças sinistras (dos meninos do tráfico à MC Melody),
vampirismo (CPMFs e afins), delírios (fanfics de esquerda), loucura
(garantismo penal) e até a reviravolta telegrafada desde o início: a utopia
progressista da esquerda finalmente se concretiza, revelando-se como o
“não-lugar” que o termo sempre indicou, uma terra de ninguém onde
metade da população não tem coleta de esgoto, com estados falidos,
imprensa e governo desacreditados, escolas depredadas, sem infra-estrutura,
sem identidade, memória ou esperança, que não sabe o que fazer com suas
crianças e seus velhos, com uma taxa de homicídios/ano maior que a da
Libéria na época das guerras civis e que é impossível chamar de “nação” a
não ser como chacota.
O estado geral da nação. (Mapa do Brasil sobre “Tiradentes”, de Pedro Américo)
Reduzindo aos termos mais simples, essa é a raiz de todos os nossos
problemas: já não há mais tantos humanos por aí como costumava haver
antes.

Mas o que aconteceu com os humanos?


THE LAST OF US
“A função da literatura é acender uma luz na escuridão.”
— William Faulkner

Em um outro texto [10] , falei do estranhamento do Gregório Duvivier


com a “alta literatura” e mostrei como a imaginação afastada da cultura
acaba por definhar, tornando-se incapaz de gerar qualquer coisa além de
clichês e argumentação viciada. Bom, a imaginação não é a única que sofre.
Outro resultado desse afastamento é a perda da memória, um lento
crepúsculo mental que se intensifica à medida que nos afastamos da luz da
tradição compartilhada na religião e na arte. Aos poucos, sem nos darmos
conta, os arredores vão ficando mais indistintos e nós
simplesmente esquecemos quem somos e as coisas que já fizemos (mais ou
menos o tipo de esquecimento de quem vai embora de uma cidade do
interior para a capital e retorna anos depois, irreconhecível nos hábitos e
atitudes, por causa da falta de contato com os antigos costumes da
cidadezinha, aliada à exposição aos novos costumes na cidade grande).
Exatamente assim.
Ignorar o que aconteceu antes do nascimento torna o indivíduo uma criança para sempre.
Pois de que vale a vida humana se esta não for entretecida na vida dos ancestrais por meio
dos registros históricos?
— Marco Túlio Cícero.

Esquerdistas/progressistas não se referem à tradição a não ser para


atacá-la. Eles a consideram mero discurso de poder de uma classe
dominante e desconfiam e buscam se desassociar dela a todo custo, num
esforço constante de “desconstrução”. Ao fazer isso, se condenam à
amnésia voluntária, como um indivíduo de 40 anos que de repente decidisse
viver apenas com as memórias dos últimos 3. Essa é a situação em que o
Ocidente se encontra ao ignorar milênios de história formativa e se
concentrar apenas no que aconteceu da Revolução Francesa pra cá,
um reset da memória que teve o mesmo efeito desastroso na sociedade que
teria se fosse feito em um indivíduo.
“Apenas ao ser cultivado pela cultura o indivíduo se realiza como humano, permeado de
humanidade.”
— Friedrich Schlegel

Se a cultura de massa difundida por jornas e zelebridades fala para


um babaca hipotético, a cultura real de um povo fala a cada humano
individualmente. Sem um contato constante com a tradição, os humanos
começam a sumir e os babacas se materializam e multiplicam, a imaginação
empobrece e a memória se apaga até chegarmos na situação atual, onde
somos considerados monstros quando notamos que os sexos são apenas
dois, que eles não são opostos e sim complementares, ou que imigrantes
ilegais são… bom, ilegais, que bandidos são… bandidos e que enfim, a lei
é legal . Que é legal , ter leis , assim. A amnésia é particularmente cruel
porque quem não lembra de sua situação anterior não tem como notar sua
situação debilitada atual. Ao nos afastarmos da luz, vamos nos perdendo em
meio às sombras, os limites e demarcações vão ficando borrados e torna-se
impossível fazer distinções básicas.
Exemplo de distinção básica importante que descobrimos recentemente que já não sabemos fazer.

A capacidade de fazer distinções é a principal ferramenta do


raciocínio, e é graças a ela que a espécie conseguiu sobreviver até hoje (um
caçador-coletor que não conseguisse fazer a distinção entre um cogumelo
comestível e um venenoso não duraria muito, por exemplo). Nas tradições
herméticas, a espada representa a inteligência, pois a inteligência afiada é
como uma lâmina capaz de decompor (dividir, cortar) um problema em suas
partes constituintes para então resolvê-lo. Essa divisão implica a capacidade
de fazer comparações e escolhas . Desde a hora que acordamos até a hora
de dormir somos apresentados a pequenas e grandes escolhas que
dependem da nossa capacidade de discernimento.

O pensamento, como qualquer habilidade humana, pode ser treinado e


melhorado com exercícios, e atrofiado pela falta deles. A existência de
escolas milenares de treinamento mental, via meditação ou treinamento
lógico-dialético, é prova de que é possível pensar bem e pensar mal,
pensar pior e melhor. Alguém que nunca faz exercícios físicos e só se
alimenta de fast-food e doces logo sofrerá no corpo as consequências desse
estilo de via destrutivo, e o mesmo vale para o nosso cérebro se nós não o
exercitarmos e consumirmos apenas lixo.

Se humanos são definidos pelo raciocínio, segue-se que o afastamento


da cultura, debilitando a capacidade de discernimento, resulta em humanos
cada vez mais deficientes, até o ponto de ruptura total, que é quando
menininhas de 16 anos tornam-se obcecadas por fantasias de castração e o
Gregório Duvivier vai escrever pra Folha.

Vou cortar sua mesada.

Um exemplo de falência da capacidade de discernimento (e


consequente desaparecimento dos humanos) é o Grande Argumento do
Progressismo, de que “X é apenas uma construção social ” (e que portanto
não existe um critério fixo de valores ao qual possamos nos referir). Esse
argumento não significa nada , é puro ruído diversionário, já que as
sociedades primitivas também têm as suas regras e suas construções
sociais. Por exemplo, elas têm parâmetros de beleza diferentes dos nossos
— mas elas têm padrões de beleza , e é isso que importa. Os critérios dessas
sociedades funcionam para elas, e os nossos funcionam para os nossos. A
família tradicional, desprezada e atacada pelos progressistas como apenas
uma “construção social”, é uma tecnologia , um conceito aplicado a um
problema (definir quem cuida do filho de quem, quem herda os bens de
quem, quem tem obrigação para com qual grupo etc). Toda tecnologia é
uma criação humana, assim como os meridianos do globo terrestre ou a
divisão do dia em 24 horas, que não são entidades do mundo concreto, mas
sim convenções que funcionam.

Nós não somos meros conceitos soltos no ar, que podem ser mudados
indefinidamente por filósofos pretensamente dotados de objetividade
cartesiana sem que isso gere consequências imprevistas. Nós não nascemos
em uma placa de Petri asséptica e a sociedade não é um laboratório, mas
sim um sistema complexo de causas e efeitos, pesos e contrapesos que
resultam de um longo processo de desenvolvimento histórico, imperfeito
(como tudo mais que existe, já que a imperfeição é o preço que as coisas
pagam para poder existir), mas cujo funcionamento foi testado e
considerado aceitável pela maioria por séculos — e isso vale tanto para a
civilização nos moldes europeus quanto para as sociedades primitivas de
algum arquipélago selvagem.

Não deixa de ser curioso que os costumes das sociedades primitivas


sejam intocáveis para a sociologia, que preconiza sua preservação a todo
custo mesmo quando isso inclui infanticídio, mas quando se trata dos
costumes da sociedade ocidental, está liberado o bundalelê. Imagine um
sociólogo chegando para os Korubo [11] e dizendo: “Pessoal, as tradições de
vocês são só construções sociais, esse negócio de ‘rito de passagem’ pros
meninos é um costume arcaico que só perpetua os estereótipos de gênero.
Em vez disso por que vocês não inscrevem eles numa oficina de descoberta
sexual e exercícios de alteridade?”. Provavelmente esse sociólogo receberia
o tratamento usual que os Korubo dão a visitantes: uma porretada tão forte
na cabeça que faz os olhos saltarem das órbitas (o que mostra que realmente
temos muito que aprender com os povos da floresta).

Ser humano é existir dentro de uma sociedade, o que implica acatar


determinadas construções sociais e não outras . Não faz sentido atacar os
parâmetros pelos quais uma sociedade se regula como “irreais”, pois eles
derivam de conceitos que não podem ser “provados cientificamente”, mas
apenas à luz da experiência compartilhada por diferentes grupos humanos
ao longo da História. A fraqueza fatal do argumento de que “tudo é uma
construção social” é que, se tudo é uma construção social, então o conceito
de que tudo é uma construção social também é uma construção social , e
portanto pode ser rejeitado junto com todos os outros. O relativismo
cultural se contradiz e cancela a si mesmo e não serve nem pra descascar
um ovo cozido, que dirá organizar uma sociedade.

Uma das características mais tristes do modernismo é a confusão


instaurada entre autoridade e autoritarismo . Ora, quando rejeitamos a
existência de um critério único para julgar os problemas, o efeito prático é
que se torna impossível concordar quanto a qualquer coisa . Se a verdade
não existe, torna-se impossível convencer alguém de qualquer coisa,
porque… a verdade não existe . Se não existe um parâmetro comum, só
resta a vontade pessoal (que na maioria dos casos degenera em birrinha e
bateção de pé: “eu quero o que quero porque quero e pronto”). Toda a
conversa moderna sobre “narrativa” é decorrência direta desse fato, já que,
se não existe verdade, apenas “narrativas”, ganha a discussão aquele que
puder impor a sua pelos meios que forem (é por isso que sempre que você
vir alguém preocupado com “narrativas”, pode ter certeza de que se
encontra diante de um patife). Assim, o relativismo cultural é demoníaco
porque muda a chave social da autoridade (quando obedecemos felizes
porque concordamos e sabemos que é o certo) para o autoritarismo
(quando obedecemos sem concordar para não levar uma bala na nuca).
Está oficialmente cancelado o argumento de que “Tal coisa é só uma construção cultural”, beleza?
Acabou. Quem usou, usou, quem não usou não usa mais.

Ter contato com a cultura nos desbasta e refina nosso espírito, como
uma ponta de lápis tosca que vai se afinando com o tempo, tornando-se
capaz de desenhar uma linha mais segura, clara e precisa, e nesse processo
vamos nos tornando mais humanos. Nesse sentido, os autores clássicos
literalmente “mandaram a real” , pois nos colocaram em contato com o
que há de mais real na existência. Progressistas, ao se afastar da influência
humanizante da tradição, se afastam do real e passam a recorrer a recortes
grosseiros para lidar com a realidade (o que explica a surpresa que sentem
diante de “pobres de direita”).

Um exemplo: progressistas são a favor do aborto em caso de estupro


porque crêem que a única reação possível de uma mulher que passou pela
experiência atroz do estupro é rejeitar o filho. Mas a vida é mais estranha e
o ser humano é mais imprevisível do que essa fórmula simplista. Uma
conhecida que presta assistência a mães carentes, em situação de risco,
vítimas de estupro etc. relata que é comum haver mães cuja saúde mental é
salva pela chegada do bebê, justamente porque encontram em si mesmas
uma força que nem julgavam que tinham: o poder de transformar o
acontecimento horrendo do estupro numa coisa bela, o amor pelo filho.
Sem dúvida uma surpresa incômoda para progressistas afastados da cultura
— mas não para um leitor de Nelson Rodrigues ou de Dostoievski, autores
que em suas obras nos mostram os gestos mais sublimes, grotescos e
surpreendentes de que o coração humano é capaz. Esse também é um dos
temas da obra de Viktor Frankl: pessoas que encontraram um sentido para a
vida justamente em momentos traumáticos, porque se percebem donas de
uma força quase sobrenatural para se doar e transformar o que antes era
apenas fonte de sofrimento em um ato de amor capaz de mudar a vida de
outras pessoas para o bem. Isso é o que a gente chamava de “milagre”, em
épocas mais esclarecidas.

Outro exemplo de recorte grosseiro da realidade é o modo como as


feministas lidam com o patriarcado, como se este fosse uma instituição
repressora onde as mulheres não teriam liberdade de ação etc. Isso denota
uma cabacice tremenda quanto ao modo como as dinâmicas de poder
funcionam no mundo real. O poder nominal masculino, que se expressa
pela força bruta e coerção direta, não elimina o poder feminino, que no
Brasil seria chamado de “jeitinho” e que a sabedoria perene considera como
a força verdadeira (como expressada da carta da Força do tarô): o controle
suave que doma a fera. Se você tem contato verdadeiro, íntimo , com a
cultura e a tradição, então sabe que a mulher não é uma coitadinha indefesa,
e tem seus meios de conseguir o que quer.

Um dos exemplos mais fortes é o da mulher que consegue quebrar o


próprio Jesus na idéia em Mateus 15, 21–28, demostrando sua sagacidade
ao desenvolver, sob pressão, a metáfora dos cachorrinhos que Ele havia
empregado e conseguindo que Ele salvasse seu filho. Se ela tivesse
respondido algo no nível de: “Aff, revê tua atitude machista, tu apenas
reforças o paradigma ~cisgênero~ da estrutura ~patriarcal~ /o/” acho que
Ele a teria transformado num pacote de maisena. As histórias de Rebeca, de
Tamar e das filhas de Noé, entre outras, e a evidente força cultural que as
mulheres têm em sociedades patriarcais como as mammas italianas ou as
mães judias, expõem a triste ironia de que as feministas, ao lutar contra o
patriarcado, acabam lutando contra a possibilidade da mulher fazer uma das
coisas que melhor sabe fazer: dobrar o patriarca .

Força: controle suave

O contato com a cultura, a tradição e os ritos comunais nos humaniza


ao nos possibilitar o contato com as impressões e idéias de alguns dos
humanos de inteligência mais sutil e sensibilidade mais aguçada que já
viveram. O homem refina sua humanidade no convívio com os outros, e é a
essa convivência de séculos, codificada pela cultura, plasmada em histórias,
canções, ritos, que nos referimos quando falamos do que consideramos
“humano”. Mas talvez eu ainda não esteja conseguindo passar exatamente o
que quero dizer com “humano”. Vou dar uns exemplos:
1 - Quando 242 jovens morrem carbonizados em uma boate e um dos
maiores jornais do país convida um poeta de moças para cagar prosa
poética em um texto derramado e narcisista, é porque estamos esquecendo o
que é reagir como humanos diante de uma tragédia:

“Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa”.

2 - Quando o candidato a prefeito da maior cidade da América Latina


usa um slogan de campanha com o nível semântico-cognitivo da imagem A
, ou quando o maior partido do país lança uma campanha séria, sobre uma
questão de vida ou morte, usando um slogan com nível semântico-cognitivo
da imagem B , isso significa que já não somos mais tão humanos (ou pelo
menos, adultos):
A festa da lobotomia.

3 - Quando as manchetes começam a soar como se estivéssemos


sendo invadidos por alienígenas disfarçados que estivessem estudando
nossos hábitos, é porque já não há mais tantos humanos por aí.

“Interessante… fale-me mais sobre esse ritual rítmico de acasalamento, quer dizer, sobre a ‘balada’.”

4 — Quando não temos mais crianças como categoria social, é porque


os humanos estão no fim.
Crianças: tinha, mas acabou.

5 — Quando um acidente de avião mata 45 pessoas e logo em seguida


famosinhos e sites conhecidos e importantes se manifestam da seguinte
maneira, é porque já não sabemos o que é ser humano:
Humanidade: se você sabe o que é isso, é sinal de que está ficando velho!

6 — Quando as pessoas se esquecem do mecanismo mais básico do


desejo, e que só estão vivas porque um dia um dos seus pais lançou para o
outro um olhar com intenção sexual, é porque essas pessoas já não são
humanas.
Não tem piadinha. Isso é só triste mesmo.

A informação também se desagrega no tempo. Nós tomamos por


certas e garantidas as estruturas que nos rodeiam, esquecendo que tudo que
existe está em fluxo, em lenta mas inexorável mudança.

Implícito no conceito de “civilização” está o conceito de


“continuidade”. Apenas no contexto da estabilidade que a civilização
proporciona é possível fazer planos de longo prazo, estabelecer famílias ou
negócios, e isso por sua vez implica a capacidade de lembrar , sem a qual
tudo estaria sempre recomeçando do zero a cada geração. Para poder dar
continuidade a alguma coisa, temos que tê-la presente na
memória. Civilização é memória , e não faz sentido que progressistas
afirmem defender a “civilização contra a barbárie”, já que eles por
definição não prezam a memória de seus antepassados, suas crenças e
valores, que consideram tacanhas, repressoras, preconceituosas etc.
“O homem bem formado é um compêndio do passado”.
— Ortega y Gasset

Se não houver um esforço contínuo de preservação, transmissão e


recepção da cultura e da tradição (como na imagem clássica da chama do
templo, que representa a comunidade e deve ser mantida e protegida para
nunca se apagar), o mundo que consideramos sólido e eterno logo se
revelará como de fato é: frágil e efêmero. Como George Orwell notou, uma
geração basta para apagar da memória os fatos essenciais para que um povo
compreenda a realidade. “Quem controla o passado controla o futuro” etc.

“Heterossexual”? Como assim, “heterossexual”?

Isso é um assunto urgente, e não uma reclamaçãozinha inconsequente


a respeito de valores elevados e diáfanos sem conexão real com os
problemas que enfrentamos. A preservação da memória e da experiência
tradicional é algo central em nossas vidas, e não me refiro ao nível
subjetivo e pessoal — falo do nível pragmático e cotidiano da vida em
sociedade:
“A maneira mais eficaz de destruir um povo é negar a ele a compreensão de sua própria
história”
— George Orwell

A amnésia progressista também se revela na linguagem que, afastada


da cultura, barateia-se, torna-se pouco mais que slogans de batalha, sem
maiores preocupações com as implicações dos termos usados.

Como a pulseira “NÃO TRANSE COM GOLPISTAS”


demonstra, “Fora Temer” não passa de sinalização fática de pré-seleção
sexual entre os jovens, e quando um Gregório Duvivier fala “precisamos
aumentar o protagonismo dos michês”, “protagonismo” é apenas uma “feel-
good word” , um botãozinho que se aperta e evoca sensações agradáveis e
difusas, sem que ninguém se lembre de que o protagonista de uma história
sempre encontra uma série de dificuldades e obstáculos a ser superados.
“Protagonismo” vem de “proto” (“primeiro” , “mais importante” )
+ “agonista” (“competidor” , “o que sofre na luta pela vitória” , “o que
combate/desempenha na primeira fila” ). Essa é a base de todo o drama, e
um filme em que o protagonista não encontrasse obstáculos e tristezas a
superar não teria interesse nenhum. Protagonismo implica sofrimento, como
bem sabem aqueles que abriram mão de algum prazer pelo dever, pelo papel
que tinham a cumprir, já que as necessidades de muitos devem ser atendidas
antes da necessidade de um só. O maior exemplo é o de Jesus Cristo,
protagonista de todo o drama da História humana, que representou seu
papel e cumpriu seu amargo dever até o fim.
Protagonismo. Não é pra quem quer, é pra quem pode.

Progressistas querem um protagonismo de papel machê onde o


protagonista não sofra, querem a parte boa sem a parte ruim, algo
impossível, uma vez que esta vida imperfeita é um jogo de compensações
onde é necessário perder em certos aspectos para ganhar em outros, e o
discurso do progressismo é infantil por ignorar isso, concentrando-se em
vender as vantagens do seu ponto de vista sem falar realisticamente sobre as
desvantagens.

Essa característica de lidar com as coisas na camada mais superficial,


sem se importar com consequências e contradições, é uma característica
comum do espírito imaturo, burrão ou desonesto, e está presente em todas
as sociedades, como vemos pela quantidade de expressões ao redor do
mundo [12] que exprimem esse comportamento. Em português dizemos que a
pessoa quer “assobiar e chupar cana ao mesmo tempo”. Em inglês a
expressão é “to have the cake and eat it, too” (minhas preferidas são a
versão húngara, “você não pode montar em dois cavalos com uma só
bunda” e a versão tâmil: “você não pode ter um puta bigodão e querer
tomar sopa”).
“You can’t have everything. Where would you put it?”
— Steven Wright

A frase “não se pode ter/ser tudo” diz respeito ao essencialismo [13] ,


que em termos práticos significa que algo que tente ser tudo acaba não
sendo nada, já que nada conseguirá atender perfeitamente os nossos
desejos.

Todas as moças que (ouvi dizer ) colocam “quem se define se limita”


na bio do Tinder demonstram a atitude geral do modernismo, em que
limites são imediatamente associados a algo ruim. Mas é o estabelecimento
de limites que possibilita qualquer ato — é só ao escolher uma perspectiva,
um ponto de apoio, que alguma ação pode ser tomada, alguma escolha feita.
Arte abstrata é ok enquanto nossa única preocupação é a apreciação
estética, mas quando passamos para áreas pragmáticas (o desenho de uma
ponte, um retrato-falado), o desenho precisa ter linhas ou limites claros
definidos para poder ser utilizado.

O progressismo — que diz que o homem não precisa ser homem, a


mulher não precisa ser mulher, um pimto é uma buseta de trás pra frente etc
— se fez em cima da oposição feroz ao essencialismo, mas tudo o que a
humanidade conquistou em termos sociais, científicos etc. se deve ao fato
de sempre termos tratado as coisas pelo que elas são na essência (aquilo
que não pode ser retirado sem descaracterizar o objeto), de
termos delineado os contornos dos conceitos, de forma a separá-los.
Como mencionei antes, a capacidade de discernimento é a característica
principal do pensamento, simbolizada pela espada, que corta e separa (a
etimologia de “discernir” é “separar” ). Obviamente, é possível refutar o
essencialismo em termos puramente filosóficos, mas o mundo da filosofia
pertence a um plano abstrato que não tem que prestar contas das
consequências práticas das suas abstrações.
“Uma hora, querendo ou não, todos têm que se sentar para um banquete de
Consequências”.
— Robert Louis Stevenson
Banquete de consequências.

Recentemente, a filha de dezesseis anos de um amigo esquerdista, ao


saber que eu seria “didireita”, me olhou com uma expressão entre o espanto
e o nojo, como se tivesse acabado de descobrir que eu ateio fogo a
mendigos.

Eu evito discutir essas coisas a não ser que tenha certeza de estar
falando com um adulto (e já é difícil encontrar adultos adultos …), mas eu
poderia ter respondido que eu sou “didireita” porque no mundo em que eu
vivo mocinhas de dezesseis anos não se manifestam sobre política . O
mundo é bem velho, bem grande, com milênios de história, vivência em
família, tradições, conquistas sangrentas, ideais defendidos e traídos, vidas
sacrificadas, e tudo isso tem um peso acumulado que não pode ser
ignorado. “Se você é jovem” , eu poderia ter dito, “as suas tentativas de
mudar o status quo são como uma sardinha tentando empurrar uma baleia.
A única maneira de você conseguir efetuar alguma mudança no mundo
sendo tão jovem seria se você fosse uma pessoa bem especial. Só que por
definição existem poucas pessoas bem especiais, senão elas não seriam
especiais, e além disso, para ser uma delas é necessário sofrer bastante,
estar disposto a grandes sacrifícios e ser bem sozinho, algo de que as
pessoas jovens se pélam de medo” .

Chesterton disse que chegaria o dia em que haveria discussões para


provar que a grama é verde. Como deve ter dado para perceber, esse dia
chegou. Por isso é que agora um tradutor de videogames vai usar jogos de
RPG para mostrar porque o essencialismo é fundamental para a vida
humana (é sério, volta aqui!):

Em RPGs, você recebe um número limitado de pontos para construir


o seu personagem, e esses pontos são alocados para diferentes atributos:
Força, Agilidade, Destreza, Inteligência etc. Na maioria dos RPGs, o
máximo de pontos que se pode ter em um atributo é 18. Obviamente todos
gostaríamos de criar um personagem que fosse excelente em tudo (que
tivesse Força 18, Agilidade 18, Destreza 18 etc), mas isso estragaria o jogo,
e por isso os pontos são limitados. Assim, os personagens acabam sendo
muito bons em certas áreas, e não tão bons em outras. RPGs demonstram
que não se pode ser/ter tudo, já que a vida é um jogo de compensações
onde é necessário perder em certos aspectos para ganhar em outros. A dura
realidade dos atributos essenciais do personagem não pode ser
desconstruída com discurso social porque isso quebraria o jogo (como vem
quebrando aqui fora [14] ).

Além disso, tanto em RPGs quanto em videogames existe uma


medida da capacidade que o personagem tem de causar mudanças no meio.
Essa medida se chama XP, e quer dizer “Experiência” ;). Todo
personagem de RPG ou videogame começa a aventura fraco e sem
influência, para refletir sua falta de experiência no mundo, decorrente do
fato de ele ter acabado de chegar ali. Cada monstro derrotado, cada desafio
de inteligência ou força vencido rende pontos de XP ao personagem, que
vai passando de fase e tornando-se capaz de feitos mais impressionantes à
medida que o jogo avança. Esse mecanismo é decalcado da vida. A vida é
assim . Quantos estagiários você já viu dando pitaco sobre a direção que a
firma deve seguir? Uma sardinha não empurra uma baleia, um Gregório
Duvivier não derruba uma catedral e quem chegou agora não senta na
janela.

Teoria de jogos: “A vida é difícil. É mais difícil se você for burro”.

Há uma mecânica de certos RPGs e videogames que reforça esse


ponto: são os livros que, ao serem “lidos”, concedem bônus de Experiência
ao personagem sem que ele tenha que passar pessoalmente por algum risco,
desafio etc. Essa mecânica é a representação estilizada do que na vida real
são os benefícios de pertencer a uma cultura. Se você pode contar com a
experiência acumulada nos livros de sabedoria da sua cultura, você tem aí
uma vantagem para lidar com os desafios do mundo.
“Tolos aprendem com a própria experiência. Sábios aprendem com a experiência dos
outros.”
— Otto Von Bismarck

Obviamente Bismarck não está descartando o valor da experiência


pessoal, mas enfatizando a vantagem que existe em se conhecer a história
da sua cultura, com seus erros e acertos, suas glórias e vergonhas, medos e
aspirações. O progressista não tem essa experiência, pois abdicou dela por
vontade própria ao voltar as costas para a tradição (ignorando-a ou
combatendo-a).

Há poucas décadas, a idéia de pedir a opinião justamente dos


membros da sociedade com menor experiência de vida seria ridicularizada
sem dó. Mas em 2016 as crianças subiram, literalmente, no palanque.

Se o Ocidente não botar a menina opiniática de 15 anos de castigo, a menina opiniática de 15 anos
vai (terminar de) cortar o pinto do Ocidente.

Hoje em dia, menininhas opinam em política, estudantes fazem


“greve”, o Itaú faz comerciais em que pirralhos irritantes ensinam o avô a
usar um bong e repórteres dizem “vamos aqui perguntar a opinião deste
jovem” . Essa situação ridícula é o resultado natural da mudança ocorrida
na percepção que a sociedade tinha dos jovens. Até os anos 50, os jovens
serviam apenas de alvo para balas e morteiros, e se voltassem vivos das
guerras, provavam que tinham o necessário para aguentar uma família e
ingressavam na vida adulta. Dos anos 50 em diante, com a revolução dos
costumes, os jovens passaram a servir de alvo (e munição) para as
campanhas de publicidade. Ainda era o sacrifício do corpo, mas agora em
outro sentido:

A) Propaganda dos anos 40; B) Propaganda do final dos anos 70

Essa mudança de percepção causou uma série de distorções nas


prioridades e aspirações das sociedades, que passaram a olhar com
desconfiança para a experiência acumulada dos mais velhos, que por sua
vez passaram a se esforçar para continuar se enturmando com os jovens.
Isso não é nenhum segredo esotérico, e mesmo comediantes progressistas
[15]
aludem ao fato.
É possível explicar o panorama cultural moderno como um campo de batalha entre dois grupos de
adultos: A) os adultos que querem ficar comendo cu de/dando cu pra criança e B) os adultos que
querem trazer de volta a categoria ontológica “crianças” e preservá-las da vampirização sexual dos
mais velhos. Aprenda a diferença. As pregas da nação estão em jogo.

Assim, finalmente, se os progressistas voltaram as costas à


experiência humana comum expressada na cultura, e se é o contato com a
cultura que nos torna humanos, a resposta para o mistério do
desaparecimento dos humanos aparece clara e inquestionável:
“É urgente resssssignificar os espaços públicossss e combater o racisssmo ambientaaallll…”.
(Ilustração: “The Last of Us” - Naughty Dog / Sony Computer Entertainment)

Progressistas são divorciados da tradição, não lhe dão valor e dela


desconfiam, hostilizando-a sempre que podem. Isso faz com que tudo o que
vem dos lábios da tradição (ou seja, dos lábios de quem lembra ) soe aos
progressistas como o BLOBLOBLO dos adultos nos desenhos do Charlie
Brown. Assim, ao fazer referência a noções como “nação”, “verdade”,
“Deus”, “família tradicional”, “gordice”, o ponto de vista de quem lembra
se torna inacessível para quem não lembra .

Torna-se evidente que a reaproximação entre os lados que agora se


hostilizam envolve relembrar, explicar aos progressistas qual é a
importância da sabedoria dos antepassados, da cultura, da tradição — e da
religião. Assim como no já mencionado texto sobre o Gregório Duvivier eu
falei sobre o daltonismo da alma dele diante da cultura e expliquei afinal
por que a literatura importa, da mesma maneira agora vou falar sobre o
daltonismo da alma dos progressistas diante da religião, e por que o
Cristianismo importa. Esse é o ponto incontornável da querela entre
progressistas e gente normal — perdão, “conservadores”. Todas as
discussões sobre o aborto, o papel dos sexos, a organização da sociedade,
são apenas os ramos aparentes de um único argumento cuja raiz é a
existência ou não de uma realidade moral objetiva exterior — Deus.

Já passa da hora de acabar com a impermeabilidade moderna ao


Cristianismo, que mais de uma vez testemunhei quando algum conhecido
ou amigo ficava sabendo que eu havia retornado à Igreja Católica. A reação
geral era de incredulidade, à qual se seguiam perguntas do tipo: “Mas por
que o Catolicismo, e não o budismo?” “Mas por que Catolicismo? Você viu
outras opções?” “Já viu estoicismo como é?”

O nome disso é oikophobia [16] . É uma aversão a tudo que é familiar


e próximo, é o mesmo sentimento que faz com que o jovem rejeite as
tradições familiares, por julgá-las breguinhas, chatas, caretas, e abrace os
cosgtumes da turma de amigos descolados [17] . Eu sei porque sofri disso
quando era moleque, tendo vindo do Nordeste pro Rio: tudo o que pudesse
lembrar minha origem era rejeitado ou escamoteado pra que eu não
passasse por jeca diante dos amigos da capitar. Muitos progressistas não
vêem problema nenhum em práticas como Vipassana, Luz Violeta (?),
ayahuasca, banho de pipoca (lol), é até chique quando alguém se diz
budista, mas basta mencionar o Cristianismo para que a atitude de interesse
educado e bonomia cosmopolita mude para desconfiança, desconforto
visível e às vezes até hostilidade.

Ora, os orientais têm as suas religiões e se arranjam lá com elas e está


tudo muito bem. Pois então: nós ocidentais também temos a nossa — por
que não teríamos? — , e ela nos serve muito bem.
Não adianta desviar os olhos.

Lá em cima eu comparei a situação do Brasil com um filme de terror,


mas no que se refere à solução do problema, a melhor comparação seria
com uma daquelas novelas em que um herdeiro milionário perde a
memória, se separa da família e passa por várias peripécias entre decepções
e dificuldades, sem desconfiar da herança que espera por ele, até que um
incidente o faz recobrar a memória e a fortuna. Ao contrário do que o
progressismo materialista quer fazer crer, nós não somos bastardos nem
despossuídos , nós somos herdeiros de uma tradição e de uma história rica e
complexa, nós pertencemos a uma família muito especial e não só temos
uma casa como nessa casa há um tesouro esperando por nós, se fizermos o
esforço de lembrar .

Antes de começar, um aviso: obviamente não espero que o


progressista/esquerdista que me lê passe a acreditar em Deus por causa dos
meus argumentos. Isso é impossível. Seria como eu conseguir fazer você
amar alguém apenas apontando e dizendo “ame aquela pessoa ali agora
por causa disso, disso e disso” . A relação que o cristão tem com Deus,
antes de ser uma relação de crença e confiança, começa sendo uma relação
de amor, e o amor não pode ser forçado nem causado por
argumentação. Novamente: estou só explicando (muito porcamente, porque
senão esse livro ficaria dez vezes maior) qual é o ponto de vista cristão. No
começo deste livro, mencionei uma tática absurda que consistia em aceitar
determinado argumento como se ele pudesse ser verdadeiro, para então
analisá-lo devidamente em todas as suas implicações. Para entender alguma
coisa, é necessário entendê-la nos seus termos — para então aceitá-los ou
rejeitá-los. O progressista que me lê, se quiser entender o que vai adiante,
terá que fazer esse exercício e seguir a argumentação com as tais boa-
vontade e boa-fé. Não se preocupe, no final pode voltar a achar tudo
bobagem — mas durante a leitura você terá que entender esse argumento
como uma realidade vivida diariamente por um bilhão de pessoas que não
vão sumir de uma hora pra outra do planeta.

Não espero que toda a Z. Sul descolada do Rio de Janeiro vá sair


correndo pra igreja mais próxima, mas depois de ler este texto, não haverá
mais desculpa para não entender o fenômeno religioso e sua importância na
vida das pessoas. Esta será a maior seção desse livro, mas ela é inevitável
como Deus é inevitável, porque tudo o que eu falei sobre reconciliação e
cooperação entre as partes jamais acontecerá se os progressistas não
entenderem o que vai logo abaixo. Sem isso, simplesmente não será
possível sanar o Grande Cisma Brasileiro™.
GOD MODE

Ateus acreditam que os cristãos acreditam em um Deus que seria


pouco mais que um office boy cósmico, o tal “velho barbudo numa nuvem”
com quem teríamos um contrato em que Ele ficaria comprometido a nos
ajudar, nos proteger e fazer milagres por nós em troca de nossa crença,
obediência e orações. É daí que vêm provocações bestas como a foto de
uma igreja com um para-raios instalado (“ué, não confiam em Deus??”), ou
relinchos macabros como os comentários da ATEA sobre a fé dos jogadores
quando caiu o avião do Chapecoense. É uma interpretação simplista,
beirando o retardo, que denota a mesma insensibilidade que o Gregório
Duvivier tem para a literatura que mencionei no outro artigo.

Pretender que a relação do cristão com Deus é estabelecida nesses


termos toma-lá-dá-cá de balcão de padaria diz muito sobre o espírito
mesquinho de quem acredita nisso, e é apenas uma maneira marota de fugir
da seriedade e da complexidade real do sentimento religioso, que tem
origem em uma combinação de fatores sociais, psicológicos, emocionais e
filosóficos — neste último caso, especificamente a questão crucial da
filosofia, a partir da qual todas as outras se desdobram: por que existe algo
em vez de coisa nenhuma? Deus, como entendido dentro da tradição
filosófica Católica, é a resposta a essa pergunta.

Atenção, hein: quem diz “Deus existe” está dizendo na verdade “as
coisas fazem sentido ; as coisas não surgiram do acaso; existe um sentido
último para o Universo” . Quem diz “Deus não existe” está dizendo na
verdade “as coisas não fazem sentido ; as coisas surgiram do acaso; não
existe um sentido último para o Universo” .

Não é uma questão trivial. “Sentido” equivale a “Deus”, e como Ele,


é inescapável, já que no centro da nossa experiência da realidade está o
nosso cérebro, que é uma máquina de construção e detecção de sentido .
Todo o esforço filosófico do ocidente até a época de Nietzsche foi motivado
pela busca de sentido — ou melhor, pela crença de que era possível falar em
termos de um sentido apreensível pelo intelecto. Todos os filósofos, antes
de Nietzsche e depois, sabiam que essa é uma questão literalmente de vida
ou morte: tanto no registro coloquial quanto no registro filosófico, as
pessoas se matam quando suas vidas perdem o sentido [18] . Nietzsche sabia
que uma vida sem sentido resultaria num inferno na Terra, que a morte do
Criador decretaria inevitavelmente a morte da criatura, e passou a vida
tentando provar que era possível superar o niilismo, seja pela arte ou pela
paixão pessoal e autodeterminação diante do destino.

Saindo da filosofia e da psicologia moral e indo para a biologia,


vemos uma série de processos controlados acontecendo à nossa volta. Uma
aranha tece uma teia com determinadas propriedades tênseis usando uma
substância dotada de determinadas características de aderência, resistência
etc. As microestruturas nas asas de uma borboleta decompõem a luz do sol
de determinada maneira, absorvendo certas frequências e refletindo outras,
de forma a adotar uma cor que é utilizada para se comunicar com outras
borboletas da mesma espécie. Um espermatozóide (vivo) contendo
informação genética, fecunda um óvulo (vivo) que também contém
informação genética, disparando um processo contínuo em que há
conversão de energia (ou seja, vida desde o começo ) que em 24 horas
causará a primeira divisão celular e o começo do complexo e delicado
processo de organogênese (dois micro-vasos sanguíneos se unirão para
formar o coração, que antes do final da terceira semana já estará
bombeando sangue; no final da quarta semana já há um cérebro rudimentar
na cabeça do embrião; depois de dois meses, todos os órgãos estão
presentes e diferenciados em um corpo de no máximo 4 cm).
A asa da borboleta não apresenta pigmentação. A cor azul é resultado da interação da luz do Sol
com as microestruturas da asa. Houve aí uma espécie de “entendimento” visando atingir
determinado resultado: essa é uma definição possível de “informação”.
O que isso tem a ver com “sentido”? Esses exemplos constituem
processos controlados, e processos controlados precisam de informação
para acontecer. Sem informação, não existiria um código genético, sem o
qual não existiria nem vida — mas só pelo paralelismo do argumento, a
“aranha” produziria uma estrutura caótica e ineficiente a partir de uma
substância inadequada, as asas da “borboleta” não apresentariam um padrão
de cor definido e a diferenciação de células e órgãos do embrião se daria de
forma caótica, gerando não um feto, mas sim um tumor, que é um
mero aglomerado de células ;)

Informação é sentido, e o Universo está repleto de sentido. Podemos


localizar a origem da informação para processos artificiais: as instruções de
construção e operação de um carro, por exemplo, tiveram origem na mente
de inúmeros engenheiros, cientistas, químicos etc. Mas quando passamos
para processos biológicos, a questão fica mais arisca, já que uma das
características da informação é que informação pressupõe um a) emissor
dotado de vontade — uma mente que teve a intenção de obter determinados
efeitos, b) um sentido , acordado previamente e c) a expectativa de que a
informação transmitida esteja prevista dentre um número finito de
possibilidades.

Claude Shannon desenvolveu a teoria da informação em bases


puramente estatísticas nos anos 40, deixando de fora considerações sobre
intenção e sentido, mas muitos teóricos da informação (como Karl
Steinbuch e Warren Weaver) notaram que esses dois fatores não podem ser
ignorados em uma teoria mais abrangente. Apesar de ter uma base física, a
informação realiza seu propósito a partir de um plano conceitual (intenção,
sentido, expectativa), o que é um problema para materialistas, obviamente,
já que intenção, sentido e expectativa não são propriedades da matéria e não
podem ser identificados em testes de laboratório. Matéria e energia são pré-
requisitos para a vida, mas apenas esses dois elementos não bastam para
diferenciar sistemas vivos de sistemas inanimados. O que diferencia um
sistema vivo é a informação nele contida, que regula os processos de
manutenção e procriação, a transferência de informação genética que
possibilita uma nova vida.
Essa é a mesma situação incômoda com que os materialistas se
deparam ao tratar de entidades como “alma”, “Deus”, “consciência” ou
“amor”. Nenhuma delas pode ser isolada em laboratório, e o paradigma
científico atual pretende que todas podem ser reduzidas a processos físicos
básicos. Mas um paradigma científico é pouco mais que um preconceito
(olá, aquecimento global antropogênico!), e a própria ciência avança ao
destronar paradigmas obsoletos. Informação (assim como “alma”, “Deus”,
“consciência” e “amor”) é um fenômeno que se manifesta no mundo físico,
mas não é redutível ao mundo físico que lhe serve de suporte. A mecânica
quântica diz que, assim como matéria e energia, a informação não pode ser
destruída, apenas transformada. Talvez a relação da informação com seu
suporte (assim como da alma com seu corpo) seja melhor comparada à
relação entre uma transmissão de rádio e a antena que a recebe: a
transmissão não é encerrada quando a antena do rádio quebra. A
informação é uma ordenação de elementos dentro de um código pré-
estabelecido, e não os próprios elementos:

PARVO
PAVOR
PROVA
VAPOR

No exemplo acima, temos 4 valores de informação diferentes que


usam os exatos mesmos elementos. Foi a mudança da ordem , percebida por
um aparato cognitivo e relacionada a um código conhecido de antemão (que
implica concordância prévia e expectativa), que determinou a mudança do
valor informacional. Informação não surge por acaso e na perspectiva da
mecânica quântica, o Universo pode ser comparado a um processo
computacional que usa todos os dados de todos os eventos que ocorreram
desde o Big Bang mais as leis da natureza, e computa constantemente como
deve ser o aqui e agora.

“Portanto, até os fios de cabelo da vossa cabeça estão todos


contados.”
— Lc 12, 7
Forçando a barra dos contra-factuais, o sentido existiria mesmo se nós
não existíssemos: os peixes coloridos em uma colônia de corais
continuariam sinalizando diversas informações uns para os outros por meio
de seus padrões de cor, os pássaros continuariam transmitindo várias
informações por meio do seu canto, mesmo se nós não estivéssemos aqui
para dar testemunho. O Universo conversa consigo mesmo o tempo inteiro,
em interações via processos controlados que geram resultados repetíveis:

“Os céus revelam a glória de Deus, o firmamento proclama a obra de suas mãos. Um dia
discursa sobre isso a outro dia, e uma noite compartilha conhecimento com outra noite. Não
há termos, não há palavras, nenhuma voz que deles se ouça; entretanto, sua linguagem é
transmitida por toda a terra, e sua mensagem, até aos confins do mundo.”
— Sl 18 1–4

Se o sentido existe imbricado na própria estrutura do Universo, e se


informação implica mente volitiva, então a resposta para “por que existe
algo em vez de coisa nenhuma?” pode muito bem ser “porque existe uma
mente criadora que é a origem da informação no Universo, já que
informação não pode surgir de interações e processos caóticos”. Se o
sentido existe, é razoável supor que Deus exista. Note que, para os
propósitos desse livro, eu não disse que Deus existe, disse que é razoável
acreditar em Deus. A existência de Deus não pode ser provada a não ser
individualmente, no coração e na mente de cada um, por meio da fé — que,
assim como o gosto estético, pertence a uma área epistemológica sobre a
qual a ciência não pode dizer nada. Mas acreditar em Deus é razoável,
sempre foi razoável, sempre será razoável, e o Cristianismo em seus
aspectos intelectuais sempre foi assunto para gigantes, como por exemplo
Pascal, que não era exatamente o idiota do vilarejo e durante muito tempo
se debateu justamente com o fato de que sim, é razoável acreditar em Deus
— mas não é o bastante .

A ciência e a filosofia levaram Pascal por assim dizer ao batente de


Deus, à posição intelectual em que o indivíduo percebe que é perfeitamente
possível que esse negócio de Deus seja verdade mesmo. Mas apenas a
ciência e a lógica não são suficientes para que atravessemos o batente e
entremos na morada de Deus. O passo final é um salto na direção do
desconhecido, é um ato de fé , que assim como o amor, não é irracional, e
sim a-racional, encontrando-se fora dos domínios que podem ser
esquadrinhados pela razão.

No final o problema é que ateu é um povo pouco sutil, e a questão é


sutil como a boa arte é sutil, de forma que esperar um Deus domesticado,
presente para além de qualquer dúvida e com o comportamento previsível
de uma máquina caça-níqueis, como eles querem, é mais ou menos como
exigir saber se Capitu traiu ou não. É simplesmente não perceber que se
está em outro campo epistemológico, com regras diferentes (Deus veio para
os simples de coração, mas parece que não para os tapados).

Ao exigir provas científicas da existência de Deus, progressistas agem


como alguém que procurasse localizar a sequência de boot inicial de um
computador dentro do sistema operacional. A sequência de boot inicial do
computador tem esse nome por causa da expressão “pull oneself up by one’s
bootstraps” , “erguer-se puxando os próprios cadarços dos sapatos”, algo
obviamente impossível. Essa impossibilidade de um sistema de estado
binário passar do estado desligado para ligado foi contornada pelos
engenheiros colocando o sistema de boot à parte . Diz a wiki [19] :
“(…) se a maior parte dos softwares é carregada no computador por outro software já
rodando no computador, algum mecanismo deve existir para carregar o software inicial no
computador”.
O termo “boot” faz referência ao fato de que máquinas de estado finito não podem mudar seu estado
desligado inicial, assim com alguém não pode se erguer pelos cadarços.

Nossa experiência e a lógica concordam que nada pode sair do nada,


no entanto estamos todos aqui. A origem do Universo ainda é um enigma, e
continuará assim pelo simples motivo de que o cérebro mais brilhante ainda
está dentro da criação, e portanto não pode ver “fora” dela. Se pressupomos
uma cadeia causal, pressupomos um “antes”, e por isso a noção de um
Universo que “sempre esteve lá” é tão cara aos ateus (como era para
Bertrand Russell, por exemplo). Mas o Big Bang implica que houve um
começo definido para o Universo — o passado não se estende para trás para
sempre, o passado tem um fim — , o que nos leva imediatamente a pensar
nas condições anteriores ao estado inicial, o que nos leva a pensar nas
condições anteriores das condições anteriores, numa recursividade infinita.
A possibilidade de ver de “fora” implicaria um salto de nível do ser
que está vedado à nossa arquitetura cerebral. A experiência de “passar de
nível” pode ser aproximada ou simulada com o uso de substâncias
enteógenas/despersonalizantes, mas ainda assim não pode ser comunicada a
não ser na forma decaída de fábulas, mitos e piadas de standup , como pode
confirmar quem já tentou comunicar suas experiências com essas
substâncias ou assistiu a um show do Bill Hicks. Estamos limitados pela
configuração estrutural do nosso cérebro, que só pode interpretar as coisas
em termos de posição espacial/temporal. Por definição, a realidade última
transcendente precisa… bom, transcender o espaço-tempo.

A linguagem se esfacela quando tenta dar conta dessa realidade


transcendente. Temos que usar aspas ao falar do que havia “antes” do Big
Bang, já que o tempo e o espaço foram criados nesse evento, e portanto
“antes” só faz sentido dentro do contexto espaço-temporal. As aspas são o
indício de que nossas estruturas de percepção e comunicação não têm como
dar conta da totalidade da existência. Assim, no que se refere à criação do
Universo, a única posição possível para a Ciência é dizer: “me dá um
milagre, chefia, que o resto eu explico” .

A singularidade no centro de um buraco negro, onde as leis da física


são canceladas numa hemorragia de dízimas periódicas, é uma pista do
mesmo tipo de barreira à apreensão completa da realidade, em um nível tal
que a possibilidade de compreensão forçosamente teria que trazer consigo
uma nova concepção de física, ainda mais estranha e inquietante que a atual
(não escapará aos mais sutis a percepção de que tanto a ciência quanto a
religião, em suas áreas mais abstratas e pesadamente teóricas, costumam
fazer exigências extremamente difíceis ao que chamamos de senso comum).

O sentimento religioso tem origem no espanto com o milagre da


existência, a mesma reação de perplexidade a que Platão atribuía o começo
da atividade filosófica. Não é banal a geometria altamente organizada de
uma teia de aranha, que otimiza seu funcionamento e resistência. Não é
algo banal que as estruturas microscópicas das asas de uma borboleta
“conversem” com a luz do Sol de forma a decompô-la em determinadas
frequências para possibilitar a comunicação visual com outras borboletas.
Só alguém ignorante da complexidade assombrosa do processo de
desenvolvimento de um feto pode usar o argumento de que “o embrião/feto
ainda não é um bebê” para justificar o aborto, como se o embrião ou o feto
fossem realidades triviais, descartáveis como um dente. Um cientista de
gênio (algo tão raro quanto um santo na Religião) não se deslumbra menos
por conhecer as minúcias do processo que estuda, muito pelo contrário, e a
frase de Francis Bacon sobre filosofia (“um pouco de filosofia afasta o
homem de Deus; muita, o reaproxima”), também serve para a Ciência.

Assim chegamos ao paradoxo aparente de que o estranhamento dos


materialistas com a religião poderia ser sanado com mais ciência, e não
com menos. Dei alguns exemplos de processos biológicos que são fonte de
espanto perene para almas não petrificadas pela atitude blasé diante da
existência, e me pergunto o quanto os materialistas persistiriam em sua fé
cega se realmente conhecessem e internalizassem a estranheza fundamental
da realidade como aparece num nível ainda mais básico — na mecânica
quântica, com seus conceitos esotéricos inquietantes como a dualidade
onda-partícula ou o emaranhamento quântico. Em uma palestra sobre o
experimento das duas fendas, Richard Feynman passou um bom pedaço da
introdução avisando ao público que o que ele ia mostrar era estranho,
desorientador, e pedindo a mesma coisa que eu mencionei aqui: uma
aceitação momentânea do que seria exposto, sem tentar forçar a nova
informação a caber em moldes prévios, e também “bastante imaginação”
(em um ambiente de baixa cultura como o nosso, a imaginação fica
atrofiada, e isso é um problema, pois a imaginação — que está na origem de
todos os momentos “eureka!” da ciência, filosofia, arte — é o “órgão” usado
para perceber a hipótese de Deus). Mesmo noções básicas assumem feições
novas e abstrusas ao ponto de não podermos nem dizer ao certo se
ou como a noção de “tempo” pode se aplicar aos instantes iniciais do Big
Bang.

Existem restrições óbvias e inerentes à nossa situação de criaturas


dentro da criação, como o postulado da “censura cósmica” [20] ;) parece
indicar. E assim chegamos a uma situação curiosa, em que alguém que se
apresenta como cientista e usa jaleco consegue convencer um progressista
de que existe um gato vivo e morto ao mesmo tempo dentro de uma caixa
selada (sim, é apenas um thought experiment , mas sabemos que o efeito
real da popularização dessa imagem foi fazer com que todo leitor da Super
passasse a aceitar isso como um fato do mundo físico), mas alguém que se
apresenta como sacerdote e usa batina não consegue convencer o mesmo
progressista do simples fato científico de que a vida começa na concepção,
já que a partir da fecundação começam a ocorrer processos biológicos
ininterruptos com conversão de energia que resultam, 24 horas depois, na
primeira divisão celular e no começo da organogênese.

Em algum momento vai ter que cair a ficha de que o materialismo


empiricista é manco e não tem autoridade nem os meios para lidar com o
fenômeno religioso, e de que, portanto, a religião tem, sim , o direito de
participar das discussões sobre política pública, pois inteligência
sem sabedoria é como uma pistola nas patas de um macaco. Religião, arte,
moralidade, axiomas lógico-matemáticos e postulados metafísicos são
inacessíveis à ciência, que tem tantas chances de arbitrar questões religiosas
quanto tem de provar que um Van Gogh é melhor que um Henri Rousseau,
e isso não vai mudar “quando novas descobertas científicas forem feitas”,
como um amigo de exatas (que evidentemente nunca estudou filosofia da
ciência) uma vez me disse.

“Um mundo essencialmente mecanicista seria um mundo sem sentido! Suponha que alguém
julgasse o valor de uma peça musical de acordo com o que pudesse ser contado, calculado e
expressado em fórmulas — quão absurda seria essa avaliação científica seria! O que nós
compreenderíamos, reconheceríamos como aquilo que chamamos de “música” ali?
— Friedrich Nietzsche

Exigir provas empíricas de Deus é como querer abarcar a totalidade


da experiência musical em termos científicos: é sinal de daltonismo cultural
e espiritual, é como tentar vencer no 21 com um royal street flush. Tentar
capturar Deus (o Criador) em um experimento científico (parte da criação)
seria como tentar fazer um vasilhame grande caber em um menor: não há
vaselina que dê jeito.

Por definição o conceito de “Deus” abarca todos os outros e não é


abarcado por nenhum. Se você retira o maior conceito possível do centro da
vida em sociedade, terá que encontrar alguma coisa tão grande quanto para
preencher o buraco. E se não há nenhum conceito tão abrangente e total
quanto “Deus”, o buraco terá que ser tapado na base da gambiarra, com os
esforços combinados da psicanálise, da tarja preta e da Black Friday. Sinto
informar que não é o suficiente.

A insistência moderna para que a religião apresente provas da


existência de Deus é resultado da percepção errônea de um antagonismo
entre a ciência e a religião, quando o que há realmente é uma
complementaridade entre os campos epistemológicos, em que cada um
abarca determinado aspecto da realidade sem invadir os limites do outro
(não por acaso essa visão moderna é a mesma percepção que o antagonismo
entre os sexos e as classes, pobres e ricos, brancos e negros etc., quando o
desejável seria enfatizar a complementaridade em que cada lado abarca
determinado aspecto da realidade sem invadir os limites do outro.)

Literalmente graças a Deus não preciso me estender muito mais nesse


ponto. Basta mencionar o número de crateras lunares batizadas com nomes
de padres astrônomos, a importância para a astrofísica do padre Georges
Lemaître, que propôs a teoria de expansão do universo, o trabalho de
Robert Grosseteste no desenvolvimento do próprio método científico, ou de
Gregor Mendel na genética (sem contar a lista de cientistas que, não sendo
Católicos, criam em alguma forma de transcendência, como Pasteur, Max
Planck — um longo etc. se segue). De uma vez por todas: algumas das
mentes mais brilhantes nas artes, ciências e filosofia eram cristãs, muitas
Católicas, e não vão ser 20 anos de “Superinteressanteen” que vão mudar
isso.

A revista do jovem achista.


O obscurantismo é qualquer ação que tenta restringir o campo de
pensamento e da investigação humana, e nada mais obscurantista que a
visão progressista da modernidade, que imputa à religião uma
incompatibilidade com a ciência que mesmo um conhecimento superficial
da História já desmente, e que tenta a todo custo fazer as pessoas pensarem
que o ponto de vista religioso é ultrapassado, não importa e não deve ser
considerado na discussão pública.

Então, acabou esse negócio de que Religião é incompatível com Ciência, tá bom? Acabou esse
negócio de que Religião é incompatível com Ciência, ok? Posso contar com vocês, né?
Valeeeu ferinha!

Se a religião hoje inspira repulsa aos progressistas, essa repulsa


também deveria se estender à ciência e à política, que se encontram em
situação igualmente desalentadora e em cujo nome toda sorte de atrocidade
já foi cometida.

A ciência enfrenta a grave crise de replicação [21] e os obstáculos à


pesquisa séria criados pelo modelo fordista de pesquisa, publicação e
obtenção de fundos, um fenômeno radicalmente diferente do modo como a
ciência era pensada e vivida desde seus primeiros passos até o final do
século XIX.

A atividade científica já foi compreendida e vivida como um processo


lento e orgânico, motivado pela genuína curiosidade intelectual dos
indivíduos, amadores cujo ganha-pão não estava atrelado às descobertas
que faziam, que tinham tempo para refletir, pesquisar e, principalmente,
cometer erros. Hoje, os cientistas se vêem assoberbados por um novo
modelo de trabalho competitivo e acelerado [22] em que as pesquisas se
vêem atreladas a interesses governamentais, de relações públicas, obtenção
de prestígio e networking acadêmico [23] .

Um excelente exemplo é o caso do escândalo do vazamento de e-


mails da Unidade de Pesquisa Climática da University of East Anglia, em
que pesquisadores foram surpreendidos admitindo manipular resultados que
não saíam como o esperado, agindo para impedir que estudos com
conclusões diferentes fossem publicados, admitindo que os métodos de
observação usados eram inadequados etc etc. Se isso tivesse acontecido
mais recentemente, quando a internet já era a caixa de ressonância
onipresente que é hoje, estaríamos dando ao aquecimento global a mesma
importância que damos ao pessoal da teoria da Terra Oca. Vou fazer uma
comparação que tornará o problema claro (principalmente para meus
amigos cariocas de esquerda):

A) A Ciência como era pensada e praticada até o século XIX; B) A Ciência agora. Saúde!

Estou explicando o ponto de vista cristão a partir de alguns problemas


filosóficos e científicos para dissipar de uma vez por todas esse ponto de
vista ginasiano segundo o qual a crença em Deus implica burrice,
ingenuidade, superstição etc. Como (espero) deve ter dado pra perceber no
que vai acima, é possível conduzir investigações profundas, densas e
complexas, em várias áreas do saber humano, partindo da questão sobre a
origem do Universo. Já deu de caipirice, já deu de professorzinho de
biologia se achando o crânio porque decorou a função da mitocôndria.

I fucking love being perceived as smart!

Tendo falado do problema de Deus pelo enfoque científico, vamos


tratar da cultura:

Progressistas acham que religião é fruto de uma época menos


esclarecida [24] em que pessoas mais simples, menos intelectualmente
desenvolvidas, recorriam ao pensamento mágico para lidar com os
mistérios da vida. Assim, partindo de um monte de perguntas erradas, a
religião se torna um artefato incompreensível, associado ao atraso,
preconceito, burrice etc.

Observem-me acabar com esse mal-entendido usando uma analogia


com vijogueime:

Olhando para um Atari hoje, mal podemos acreditar que alguém


ficaria horas conduzindo aquelas manchas geométricas que só com muita
boa-vontade podiam ser vistas como o Lex Luthor num helicóptero. No
entanto, em sua época, o Atari cumpriu perfeitamente seu papel. Não havia
nada de inerentemente errado com ele na época. À medida que o tempo
passa, a técnica se refina e os modelos de videogame vão incorporando
sutilezas e melhorias de controle e reprodução, mas em essência eles
continuam a mesma coisa: uma caixa de Skinner [25] em que determinadas
ações repetitivas são recompensadas com dopamina e o esquecimento
momentâneo da mortalidade.

Super-homem voando em um videogame da Atari: uma questão de fide .

A humanidade começou sua longa jornada rumo à civilização a partir


de uma situação ainda inferior ao barbarismo — a pura selvageria animal — ,
e encontramos o mesmo processo de refinamento em toda empreitada
humana: arte, política, ciência, filosofia etc. O edifício da medicina
moderna se ergue sobre a cabana humilde do curandeiro, mas a medicina de
todas as épocas, sendo o reflexo da técnica e do ambiente cultural, sempre
cumpriu seu papel na medida do que era possível e sabido. Muito do que
era normal na prática médica ao longo dos milênios hoje em dia seria
considerado insano, como podemos ver em “Medicine and Society in
Ptolemaic Egypt” , de Philippa Lang:

“Sessenta e sete remédios em papiros do período faraônico incluíam fezes de dezenove


animais diferentes, incluindo humanos (…) Três receitas prescreviam ingestão oral
de fezes.”

Apesar de um histórico assustador de erros médicos, não ocorre a


ninguém abolir a medicina como um todo, porque partimos do princípio de
que o objetivo final é bom , apesar dos percalços do caminho.

De forma similar, a arte reflete a realidade psicológica de cada época,


em um processo comparável a uma câmera dando zoom : do semi-deus
Gilgamesh representando a humanidade diante da morte até o indivíduo
Leopold Bloom sentindo o cheiro das próprias fezes (ainda a morte) na
casinha, em “Ulisses”. E, como em qualquer processo de aproximação,
existe uma distância ideal para a apreciação do conjunto. Aproxime-se
demais e você perderá os pontos de referência e não poderá mais entender o
que tem diante de si. A arte muda ao acompanhar o refinamento (ou, em
casos de desintegração social, a estupidificação) do pensamento e da
sensibilidade ao longo do tempo. É possível falar em termos de feiúra e
beleza, de sofisticação e crueza, mas não em termos de inadequação, uma
vez que a arte continua sendo um espelho que reflete, para o mal ou para o
bem, aquilo que somos ao longo do tempo.

A) A rigidez de uma sociedade monolítica milenar; B) O relaxamento da descoberta e domínio


confiante das potencialidades; C) O movimento de uma época de ousadia e aventura global; D) A
fadiga psicológica de uma época de convulsão, incerteza e niilismo; E) Um exemplo de outra
disciplina artística: a desintegração psíquica de selvagens entre os escombros.

Obviamente, uma discrepância crucial entre a religião e áreas como a


medicina ou a ciência é que estas se baseiam no conhecimento sobre o
mundo natural — conhecimento esse que, pela própria natureza das
limitações epistemológicas humanas, está sempre sendo atualizado e
melhorado à medida que novas descobertas vão sendo feitas, e por isso a
taxa de atualização nessas áreas é mais acelerada. Já o campo de ação da
religião é nosso velho conhecido e não apresenta nenhuma novidade: é o
coração humano, afligido hoje da mesma forma que há milênios pelas
mesmas emoções: ira, inveja, tristeza, paixão, insegurança, angústia etc.
Esse é um dos motivos de não fazer sentido falar coisas como “a Igreja
precisa se modernizar”.

Jamais ocorre a um progressista dizer “não precisamos de ciência” ou


“não precisamos de política”, pois há uma compreensão tácita que a ciência
e a política visam o bem comum. Infelizmente a mesma consideração não é
estendida à religião, em parte porque os efeitos da ciência e da política são
mais evidentes, enquanto que os da religião, justamente por causa dos
ataques sofridos no campo cultural, têm ficado mais difíceis de
compreender e discernir. Também em parte por interesse próprio, já que
uns achievements no Steam e o último iPhone dão e bastam para que nos
esqueçamos de Kolyma, Holodomor, das duas grandes guerras, da
contaminação de mercúrio em Minamata, dos bebês da talidomida, da ilha
de lixo do Pacífico, dos desastres de Bhopal e Chernobyl etc. E finalmente
porque isso implicaria que o projeto humano não está dando certo e que
seria melhor todos voltarmos para a selva, algo evidentemente impossível,
já que perderíamos os episódios de final de temporada de nossas séries
preferidas. Como disse o ministro presbiteriano Chris Hedges:

“Vivemos agora em uma época em que médicos destróem a saúde, advogados destróem a
justiça, universidades destróem o conhecimento,governos destróem a liberdade, a imprensa
destrói a informação e nossos bancos destróem a economia”

Para ser honesto, eu também teria que acrescentar “e os religiosos


destróem a fé”, pois é impossível ignorar que parte do desencanto com a
religião se deve ao mau exemplo dado por muitos de seus representantes.
Mas a própria Bíblia aborda esse problema, e sem meias palavras:

“Instruidor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei;
Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve
furtar, furtas?
Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes
sacrilégio?
Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?
Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós.
— Rm 2, 20–24

Essa é uma boa hora para lembrar que, assim como a profissão
médica diz respeito a uma área da vida que não admite ilusões nem pruridos
de etiqueta na hora de falar dos problemas íntimos de saúde do paciente, da
mesma maneira a religião tem os seus médicos da alma , e eles também não
podem escamotear os aspectos mais desagradáveis da existência ou da
psique humana, sob pena de matar espiritualmente seus pacientes.

Por exemplo, Sto. Agostinho, ao mesmo tempo em que confirma a


prostituição como pecado contra a castidade, admite que uma sociedade
sem prostitutas cairia presa da luxúria desabrida, e S. Tomás de Aquino
expressou o mesmo sentimento, comparando prostíbulos aos esgotos de um
palácio, cuja remoção tornaria o palácio um antro de imundície. Essa
admissão franca das realidades sexuais e sociais pode parecer chocante para
o leigo, mas a religião só é religião porque destrói as ilusões sobre esta
vida — inclusive a ilusão de que os homens religiosos são necessariamente
santinhos ingênuos.

Por outro lado, também é impossível ignorar que grande parte da


hostilidade progressista para com a religião se deve à simples má vontade e
falta de informação de qualidade, como no caso da Inquisição, cuja versão
pop-mainstream deu a cada molequinho revoltado a satisfação de achar
conhecer e entender, lendo um único artigo de revista de popularização
“científica”, as minúcias e desdobramentos de um processo político,
teológico e jurídico que assumiu diversas formas e graus de intensidade ao
longo dos séculos em diferentes partes da Europa.

Seguem informações da Revista de História da Biblioteca Nacional


, Edição nº 73 , de outubro de 2011: a Inquisição em sua versão mais feroz
— a portuguesa — condenou… 6% do total de acusados, na maior parte
com confisco de bens (e não com a fogueira); instituiu o advogado gratuito
a quem não podia pagar; instituiu a promotoria pública; instituiu o direito
de recorrer da sentença; estipulou regras para o uso de tortura, entre outras
medidas mitigantes. Ou seja, a Inquisição acabou tendo um efeito benéfico
totalmente contrário à percepção pública moderna, e serviu para organizar e
humanizar os processos jurídicos incipientes na Europa. Como em várias
outras instâncias em que a Igreja teve uma influência positiva, progressistas
se atêm ao sabor amargo do remédio em vez de se concentrar nos efeitos
positivos, e quem é pai certamente se reconhecerá nessas repetidas amostras
de ingratidão progressista.

Então, acabou esse negócio de que a Inquisição matou milhões de injustiçados, belezinha? Acabou
esse negócio de que a Inquisição foi uma grande crueldade que matou as mulheres empoderadas,
tá? Cês não vão me decepcionar não né? Valeeeu!

Da mesma forma que a ciência e a arte, o Cristianismo é a forma final


de um processo de refinamento do instinto religioso, em que as religiões
antigas são como rascunhos aos quais sempre faltou um ajuste final de
perspectiva (“perspicere”, “ver através”), o equivalente teológico do ponto
de fuga estabelecido por Filippo Brunelleschi na Renascença.

As religiões dármicas conseguiram ver através da realidade ilusória


de Maya, mas o Cristianismo nos permitiu ver além da roda desesperadora
do eterno retorno, da qual só se escapa para a cessação de toda essência (o
“apagar da chama” que é uma das traduções de “nirvana” ). O Cristianismo
nos mostra um ponto de fuga para a vida eterna no ponto de contato da
cruz com a terra: na morte e ressurreição de Cristo.

Santíssima Trindade, Masacchio, 1425


Todas as religiões partem do princípio de uma separação entre o
homem e Deus ou a Eternidade, e seus ritos e mitos são um modo de
remediar essa separação. É natural que a humanidade, exilada para este vale
de lágrimas imperfeito, não acertasse imediatamente com a verdade intuída,
mas fosse se aproximando dela ao longo dos milênios. Como tudo o mais
na natureza (cujos processos nos dão a impressão de avançar tateando no
escuro), o despertar para a consciência religiosa foi um processo heurístico
de força bruta ao longo do qual várias civilizações chegaram a concepções
variadas sobre a relação do homem, criatura finita e temporal, com o
sagrado infinito e atemporal — concepções das mais obscuras à mais
luminosas, das mais distantes e difusas à mais próximas e definidas — até a
definitiva. Nós também guardamos marcas vestigiais de pertencimento a
uma mesma árvore filogenética sem que isso mude o fato de nós sermos o
ápice do desenvolvimento animal da Terra (se você acha que não somos, vai
lá pedir cinquentinha emprestado a um pinguim).

O mesmo tubérculo de Darwin em uma humana e um macaco rhesus. A humana tem crédito
no banco.

Um dos ataques mais manjados dos progressistas ao cristianismo diz


respeito às religiões naturais da antiguidade, em que os ritmos da natureza
vegetativa eram simbolizados no deus que morre e ressuscita. Assim, Cristo
seria apenas uma versão dos mitos de Balder, Osíris etc. No entanto,
nenhuma religião pode reivindicar para si o diferencial do Cristianismo, que
o torna especial e definitivo. C. S. Lewis chama atenção para o fato de
que a) o Cristianismo é a única religião cujo mito do deus que morre e
ressuscita pode ser confirmado satisfatoriamente [26] na história [27] da
humanidade [28] , e b) isso se deu no seio justamente do povo que não tinha
uma tradição de religião natural, como se as outras civilizações tivessem
intuído de muitas formas imperfeitas o mecanismo da salvação e plasmado
essa verdade em termos mitopoéticos que se concretizariam em verdade
histórica, em carne e osso, em Belém. Ao contrário de todas as divindades
pagãs cuja origem evemerista se perde nas brumas do mito, Jesus Cristo
viveu por assim dizer em nosso batente, e temos mais documentação das
épocas próximas ao período em que Ele viveu e pregou do que temos sobre
Alexandre, o Grande, por exemplo.

Quem se escandaliza com a origem pagã de vários aspectos do


Cristianismo são os leigos que não sabem que, bom, o próprio Abraão era
pagão, e isso em nada anula o longo processo de desenvolvimento espiritual
que resultou no Catolicismo — isso quando o escândalo não é causado por
calúnias flagrantes, como no caso do filme “Zeitgeist”, essa isca de patetas
iletrados repleta de inexatidões e falsificações gritantes [29] .

A necessidade — a inevitabilidade — da religião fica evidente neste


trecho de “A Short History of Man: Progress and Decline” , de Hans-
Hermann Hoppe, quando ele fala dos primeiros agrupamentos de
caçadores-coletores:
“Para permitir uma vida relativamente confortável, a densidade populacional tinha que
permanecer bem baixa. Estima-se que 2,5km² de território eram necessários para sustentar
confortavelmente uma a duas pessoas, e em regiões menos férteis, territórios ainda maiores
eram necessários. Então o que se fazia quando o tamanho da população excedia esses
limites estreitos?”
Todo dia ele faz tudo sempre igual. (“2001: A Space Odyssey. Stanley Kubrick, 1968)
“As pessoas, é claro, tentavam impedir que essa pressão populacional eclodisse, e de
fato as sociedades de caçadores-coletores faziam o possível para isso. Eles induziam
o aborto, praticavam o infanticídio, especialmente de mulheres. (…) Além disso, bastante
evidência de prática arraigada de canibalismo tem se acumulado recentemente. De fato,
parece que o canibalismo já foi uma prática quase universal.”

A religião surge da percepção de uma deficiência intrínseca da


realidade, e por extensão, da espécie humana: a percepção de que a vida
precisa se alimentar da vida, tornando-nos todos em algum grau parasitas
inter e intraespécies. Não é preciso muita imaginação para perceber o
impacto psicológico de viver em um mundo onde ocasionalmente era
necessário matar bebês quando o número de bocas excedia a quantidade de
recursos (ou para entender por que foi preciso surgir um corpo de
conhecimentos e ritos que interpretasse e regulasse o sexo).

É para isso que surge o sacrifício, instaurado em todas as religiões


(mas destituído de toda violência literal apenas no Cristianismo): por meio
desse mecanismo regulador, a angústia e o medo são aliviados, à medida
que a dívida, impossível de ser quitada totalmente, é amortizada
periodicamente. Essa não é uma questão ultrapassada, uma interpretação
arcaica da existência que o nosso modo de vida evoluído e esclarecido
aboliu. Sites como este [30] demonstram que, enquanto vivermos em
sociedade, é impossível escaparmos do que se chama “culpa de
sobrevivente”.
Progressistas atacam o Cristianismo a partir do conforto do mundo
moderno, que tomam por garantido, ignorando que esse conforto é apenas
um colchão que, estendido sobre paus e pedras pontiagudas, protege nosso
corpo da hostilidade do terreno e nos faz esquecer da precariedade de nossa
existência. No entanto os paus e pedras continuam lá, à espera. Os
progressistas não compraram nem montaram esse sofazinho gostoso onde
se refestelam para dar pitaco no modo como a sociedade deve se organizar.
Permeia a discussão uma noção falsa de progresso, como se fôssemos todos
automaticamente mais inteligentes e melhores pessoas que aquele pessoal
esquisitão e crente do passado, prescindindo das muletas que elas usavam,
tadinhas, por viverem em tempos menos esclarecidos. Mas eu moro no Rio
de Janeiro e sei que, se a cidade passar três dias sem eletricidade,
reverteremos ao canibalismo sem maiores neuras.

Ao atacar os dogmas Católicos, progressistas demonstram ignorância


(entre outras coisas) do “efeito Lindy”, em que a expectativa de vida de
uma idéia ou tecnologia é proporcional ao tempo passado desde sua criação:
“Isso nos explica o porquê das idéias que já existem há muito tempo não estarem
“envelhecendo”, e sim ganhando mais tempo de vida. Cada ano que se passa sem extinção
dobra a expectativa de vida. Isso é um indicador de robustez. A robustez de um item é
proporcional à sua vida!”
— Nassim Nicholas Taleb (2012), “Antifragile”

Ao contrário da vida humana, que se aproxima do fim à medida que o


tempo passa, idéias e tecnologias confirmam sua longevidade em proporção
direta ao tempo passado desde sua criação. No caso dos dogmas Católicos,
não só porque eles estão certos, sendo verdade divina, mas porque em seus
primeiros anos sobreviveram a ferozes críticas e debates levantados pelas
mentes mais brilhantes do seu tempo, um banho ácido do qual apenas as
idéias mais fortes poderiam sair intactas. Quanto mais tempo se passa, mais
essas verdades se confirmam. Ninguém olha para uma roda hoje e
pensa “hmm, acho que dá pra melhorar isso” , mas é isso que progressistas
tentam fazer quando insistem na “modernização da Igreja”. Segundo o
efeito Lindy, a teologia da libertação, a ideologia de gênero ou outras
bobagens do tipo, criadas há algumas décadas, são bem mais frágeis que o
ancestral mandamento de não pecar contra a castidade — que vale para
homossexuais e heterossexuais (Mt 15,19; Mt 19,18).
A castidade é uma virtude por um motivo simples: ou o sexo é algo
importante e perigoso se sair do controle (e portanto deve ser entendido e
vivido dentro de uma tradição que o interprete e regule, para que coisas
como a atual “explosão” de sífilis— para usar o encantador termo
empregado pelo Ministro da Saúde — não aconteçam), ou o sexo não é algo
importante e perigoso se sair do controle (e portanto meninas de onze anos
podem dar para quem e quantas vezes quiserem, e os altos números de
gravidez precoce não são motivo de preocupação).

As personalidades públicas que hoje chamamos de “artistas” sofrem


de uma deformação de perspectiva que faz com que imaginem que todos
desejam as mesmas coisas que elas. No entanto, por definição, o artista tem
que ser especial, diferente — raro , e o que vale para ele não
necessariamente valerá para o cidadão mediano simples (“o pessoal que
trabalha”, como falou o Lobão) que não tem aspirações artísticas nem
obsessão com jornadas de descoberta, expressão pessoal etc.

Ao ficar no ramerrame da crítica social (o feijão com arroz da maioria


de nossos “artistas”), o assunto terá que ser obviamente as “barreiras da
sociedade à liberdade de expressão”, a “libertação da opressão burguesa e
de todos os preconceitos” etc. Daí para passar a se enxergar como o
portador do modo ideal de vida é um pulo, como notamos nas
manifestações de pena, desdém e hostilidade para com “a [família de]
classe média” (53% da população, segundo o IBGE). Eu toquei numa banda
aqui no Rio, conheço esse contexto psíquico, a eterna Cazuzice do porra-
louca vs. caretas, e sei do que falo. O bom senso talvez pudesse sussurrar a
esses “artistas” que todas as coisas têm seu lugar, inclusive o pai careta
linha-dura que irá lhes inspirar tantas imagens legais pras letras etc. Não
ocorre a eles imaginar que o tipo de vida que levam pode não ser atraente
para um grande número de pessoas que só querem contar com uma
sociedade estável o suficiente para permitir a continuação da vida familiar,
da criação de filhos etc., com todas as golas pólo, prestações, carro de
passeio e fraldas sujas que isso implica.

Além disso, a atitude “livre, leve e solta” dos artistinhas, expressa em


clichês do tipo “viver sem culpa”, é irresponsável e danosa. Ao tratar a
liberdade sexual como um ideal supremo, artistinhas obcecados com o
clichê da “destruição dos tabus” apenas evidenciam o pensamento narcisista
que confunde interesse pessoal com interesse coletivo, e que sempre
termina por prejudicar as classes mais pobres, que sofrem com o
relaxamento dos costumes pois não têm a quem recorrer quando fatalmente
chega a conta da festa (como provam a epidemia de sífilis, de aids, de
crack, a delinquência infantil, o número de lares desfeitos e mães solteiras e
a existência do termo “novinha do funk”).

“A vida é pra ser vivida”.

Essa história de “viver sem culpa” é uma das deformações de


perspectiva mais danosas da modernidade. Em qualquer conversa em que
surja a Igreja Católica, a resposta-clichê sempre é “ah, a Igreja fica
incutindo culpa nas pessoas”. Sinto ter que estourar essa bolha de ilusão
confortável, mas não é bem assim não .

Se você aceita a ressaca como consequência inevitável de encher o


pote, por que não aceitaria a culpa como consequência de um mal feito?
Assim como uma inflamação, que incomoda e dói, mas é um sinal de que
seu corpo está combatendo um organismo invasor, sentir culpa é um bom
sinal, pois significa que você ainda é humano, que em algum lugar da sua
consciência você tem um controle de qualidade avaliando suas ações. A
consciência é porta-voz de Deus. Apenas psicopatas contemplam realmente
uma vida sem culpa e se gabam disso, com desprezo pelas pessoas normais,
que consideram fracas, defeituosas.

A culpa tem um poder regulador na sociedade. Um exemplo aparece


na Bíblia, quando os fariseus se reuniram para matar uma mulher acusada
de adultério e foram perguntar o que Jesus recomendava. Jesus disse que
aquele dentre eles que não tivesse pecado (ou seja, que não tivesse alguma
culpa), poderia arremessar a primeira pedra. Isso salvou a mulher de uma
morte horrível, mas o que teria acontecido se algum carioca moderno
adepto do “viver sem culpa” estivesse presente à cena (ou a Marilena
Chauí, que, nos seus delírios pagos vive falando contra o “sentimento de
culpa incutido pela moral burguesa”)?

“Taca pedra nessa desgraçada!”

É por isso que os pais e a escola costumavam ser chatos, na época em


que ainda havia pais e escolas — porque alguém tem que ser . A Igreja não
ameaça, a Igreja avisa. As instruções de orientação em um mapa não são
imposições tirânicas de um sistema opressor, mas sim uma ajuda, assim
como o strap de tornozelo da prancha de surf não é um instrumento
cerceador de liberdade, mas sim um item de segurança que permite voltar
facilmente à praia e impede que outros banhistas levem com uma prancha
de surfe na testa. Como diz a Tia Nastácia, do Sítio do Pica-pau Amarelo,
que representa a sabedoria popular (ou seja, a voz de Deus): “o que arde,
cura; o que aperta, segura ”.

A atitude de cautela e reverência que a Igreja cultiva para com o sexo


também se justifica por outro motivo simples: o tédio. Pessoas apresentadas
ao sexo e todas as suas variações ainda na infância chegarão à idade adulta
compreensivelmente desencantados com esse aspecto da existência.
Removido do seu lugar como uma das experiências limítrofes da vida
humana (algo tão importante que requeria a anuência do próprio criador do
Universo para poder acontecer), o sexo se torna só mais uma coisa que se
faz para afastar o tédio, só mais uma entre tantas coceirinhas que coçamos
sem nem pensar no que fazemos. Períodos de satisfação cada vez mais
curtos exigirão emoções cada vez mais extremas e, como falei no post
anterior, daí para a morte por asfixia autoerótica (ou pior) é só uma questão
de tempo.

“Na hora pareceu uma boa idéia.”

Vemos em Machado de Assis o poder de desestabilização emocional


que a visão de um par de braços bem torneados, de um pescoço ou de um
pezinho descalço podiam causar na vida de um homem. Hoje em dia, com o
fácil acesso à pornografia (que já foi a representação de duas pessoas
fazendo sexo mas hoje é uma mistura de olimpíadas do Faustão com
colonoscopia), quando a internet traz os fetiches mais esdrúxulos para
dentro dos quartos das novinhas—perdão!— das crianças, e com letras de
funk tipo “até dou meu cu de cabeça pra baixo” (obrigatórios em festas de
aniversário de debutantes de alta classe), vai ficando compreensivelmente
mais difícil manter o espanto e o assombro que dão ao sexo a aura de
mistério que instiga a curiosidade e a excitação. Correndo o risco de ser
leviano: como sabem os mais velhos, o proibido não só é bem mais
gostoso, como calha de durar bem mais tempo.
“Ah, sei lá. Já não é mais a mesma coisa, sabe?”

A atitude da Igreja Católica diante da felicidade fugaz que resulta da


satisfação dos prazeres imediatos não é um delírio moralista mórbido de
gente azeda que não sabe curtir, é apenas a aceitação estoica de um fato
psicológico conhecido há milênios mas que a modernidade tem se
esforçado por minimizar: nós nunca estamos satisfeitos por muito tempo.
Nem precisa ir em tratados de psicologia ou nas obras dos pais da Igreja,
qualquer seriadinho fala disso.
“Mad Men” (Lionsgate/AMC)

No nosso ambiente cultural, esse problema é tratado sempre em


termos materialistas/paganizados, obviamente, já que o mundo moderno
não vai dar a satisfação de admitir que está errado: em vários livros, filmes
e séries modernos, vemos a percepção clara dessa falta que carregamos
conosco. Mas os protagonistas dessas histórias vivem em mundos fictícios
em que Deus não existe, e por isso as soluções que encontram para seus
problemas são sempre tergiversações, subterfúgios que os livram de ter que
admitir que a única fonte de sentido possível é Deus.

“A Luz”. Sei muito bem de que “Luz” você está falando, Beemo. (“Adventure Time”, Cartoon
Network)

Essa realidade pode ser ignorada por algum tempo com mais diversão
(ao custo do tempo gasto, que não volta, e da dissipação das energias
nervosas). Ou pode ser encarada de frente, sem papinho de autoajuda, sem
bobajada rasa feelgood de “luz”, sem “curte aí teu lance, oras” . É aí que
entra o Cristianismo.

De qualquer maneira, a renúncia ou mesmo apenas a noção de que


não devemos ceder a todos os nossos desejos o tempo inteiro é o obstáculo
principal para que o progressista compreenda a visão de mundo cristã.
Afinal, nós somos adultos, sabemos o que é melhor pra nós mesmos, somos
independentes, o gostosinho é gostoso etc. Mas é fácil explicar a motivação
e a justificação por trás da ascese , o processo no qual os cristãos se
esforçam para controlar seus apetites diante dos prazeres do mundo:

Quando você entra numa academia, o instrutor irá lhe dizer que você
terá que abdicar ou regular severamente a ingestão de determinadas
comidas, e também terá que fazer uma série de exercícios dolorosos e
cansativos. Você seria considerado um lunático se reagisse a isso
dizendo: “Quem você acha que é pra me proibir de comer sobremesa, ou
pra me obrigar a passar uma hora por dia nessas máquinas que fazem o
meu corpo ficar todo dolorido?” Mas essa é a reação do progressista diante
da disciplina que a religião cristã impõe.

Quem procura a academia o faz porque quer mudar de vida, de


hábitos, tornar-se uma pessoa fisicamente diferente, sabendo que isso
implica fazer vários sacrifícios. Quem procura o Cristianismo o faz porque
quer mudar de vida, de hábitos, tornar-se uma pessoa espiritualmente
diferente, sabendo que isso implica fazer vários sacrifícios. “Ascese” vem
do grego e significa justamente isso: “exercício” . Só que não é um
exercício físico, é um exercício espiritual, já que na visão de mundo cristã
nós não somos apenas animais, mas temos uma alma, uma psique . Da
mesma maneira que o brasileiro frequenta, ahm, religiosamente a academia
e segue direitinho os preceitos alimentares porque espera uma recompensa
maior mais adiante (exibir a barriga tanquinho na praia), assim também o
cristão se comporta (ou tenta se comportar) diante dos preceitos da Igreja,
pois espera a recompensa da vida eterna no paraíso. É o mesmo princípio
aplicado a áreas diferentes.

Isso também responde a outra objeção que se faz ao Cristianismo, a


de que “não se precisa do Cristianismo para ser bom”. Sem dúvida você
pode malhar em casa, improvisar uns pesos, criar umas séries, mas
certamente não terá um rendimento tão bom quanto se confiasse em um
profissional treinado, no ambiente adequado para esse tipo de atividade, e
também é capaz de você fazer um monte de merda sem perceber. A
Religião é também uma área de atividade profissional e estudo, e o
Cristianismo tem dois mil anos de experiência acumulada que você até pode
preferir ignorar — só não é possível acreditar que você terá os mesmos
resultados em termos espirituais sozinho (e ainda tem chance de você, sei
lá, luxar a alma).

Se sua área de formação não é engenharia de motores, jamais passaria


pela sua cabeça desenhar um diagrama de motor todo tosco a lápis de cor,
esperando — exigindo — ser levado a sério por um profissional da área. E,
no entanto, é isso que um progressista faz quando se manifesta sobre algum
pormenor do cristianismo, esquecendo que padres e bispos também são
profissionais de uma determinada área.

“É um diagrama funcional de uma locomotiva sim!” — Kauã, 30 anos.

É por isso que a conversinha mole de “a Igreja precisa se modernizar”


ou “esse Papa é muito conservador” não faz o menor sentido, é puro ruído.
De todas as empreitadas humanas, a religião é a que se volta para a
Eternidade, e existe justamente para tirar as pessoas do fluxo do agora, do
atual, e lembrá-las do universal e do eterno. Você não espera que uma
âncora flutue. A âncora deve ser pesada e difícil de mover, para que o navio
não fique à deriva. Da mesma maneira, se a religião serve para dar um
ponto fixo (a Eternidade) ao homem em meio ao fluxo do tempo, esperar
que a religião mude com o tempo é uma contradição em termos, e como já
deve ter dado pra perceber — contradição: a gente não curt e. Todos
conhecemos a história de que “religião” vem de “religare” , porque busca
reunir o homem com Deus, o eterno, o infinito etc. Certamente essa
religação com o eterno não vai acontecer indo perguntar a opinião da
Fátima Bernardes no “Encontro”.

“A vida Cristã não é nada se não for a luta contra o espírito de cada época em nome da
eternidade.”
— Pe. Seraphim Rose

A Igreja não é “do seu tempo”, ela é de todos os tempos . Depois de


muita (muita, muita. Muita .) deliberação, a Igreja eventualmente pode
mudar um ou outro preceito acessório, mas esperar que a religião mais
explicadinha que existe vá contra sua própria essência é se comportar como
aquele querido personagem infantil que queria muito uma bola quadrada.

Como eu disse, não quero convencer ninguém de nada, e sim mostrar


como as coisas são aqui deste lado. Você pode não acreditar, pode não
concordar… mas tem que entender . Por favor, faça um esforço
pra entender . Sem esse entendimento inicial, não vai ser possível sanar a
fratura psíquica entre a esquerda e a direita no Brasil. Meus amigos
progressistas têm que aceitar o fato de que o ponto de vista cristão não vai
sumir de uma hora pra outra (quando não porque os grandes intelectuais da
esquerda já aceitaram isso há muitas décadas, o que explica coisas como a
Teologia da Libertação, que tenta transformar Jesus em um revolucionário
nos moldes da dialética histórica, e todas as infiltrações que a Igreja
Católica sofreu e ainda sofre, como no caso da CNBB, sem cujo apoio o
Lula não teria sido eleito).

Rapaziada, já deu desse espernear histérico sobre “Estado laico de


mentirinha”. De uma vez por todas, Estado laico não é estado ateu
— “laicismo” quer dizer que todas as manifestações religiosas têm direito
de existir sem perseguição ou ingerência estatal. Segue uma comparação
para esclarecer: um Estado oficialmente ateu (como Cuba ou a Coreia do
Norte) suprime as manifestações religiosas. Já o Brasil é uma
sociedade majoritariamente cristã , e já que o Estado deve refletir as
características e crenças da maioria da população (quem poderia defender o
contrário?), então é natural que o Estado se paute pela ética cristã. Você
pode não gostar, mas ninguém mandou ser ateu . Bem-vindo à vida de uma
minoria em uma democracia.

Então, acabou esse negócio de que a esquerda fala em nome do povo, ok? Acabou essa história
de “estado laico de mentirinha”, beleza? Posso contar com vocês? Cês ajuda o tio e não fala mais
besteira? Valeeeu fera.

Se fosse o caso de uma divisão mais equilibrada entre ateus e


religiosos, aí sim, faria sentido insistir na campanha pelo ateísmo, mas
pensem por um instante no que significa 86% de vantagem em uma nação
de quase 200 milhões de pessoas. Mesmo que a campanha pelo ateísmo e
materialismo avance com sucesso e o número de cristãos comece a diminuir
de forma constante (o que está longe de ser o caso, como os recentes
avanços evangélicos têm demonstrado), uma total inversão do quadro atual
só ocorreria muito adiante no futuro e nenhum de vocês estaria vivo pra ver
essa linda e cheirosa sociedade atéia. Mas certamente as discussões e
disputas entre ateus e cristãos nas esferas pessoal, cultural, jurídica etc. terá
azedado a vida de muita gente, estragado muitos relacionamentos e
transformando a vida de todos num inferno na Terra— como vem
acontecendo.

Em um texto anterior que escrevi e que mencionei com link aqui


algumas vezes, falei sobre como o desconhecimento da cultura nos torna
cegos para as questões mais sutis da existência. Vou colar aqui o trecho
específico, trocando os termos relevantes e acrescentando algumas coisas,
porque tudo o que eu falei ali também serve para a Religião:

“Minha casa mental era a de uma criança porque eu tinha vivido


pouco, lido menos e refletido menos ainda. Esses são requisitos essenciais
para o amadurecimento, que implica uma reavaliação dos fatos e eventos
que nós não compreendemos da primeira vez. É quando nos damos conta de
repente de que, todo aquele tempo… havia uma conversa acontecendo , e
nós não estávamos ouvindo (pelo mesmo motivo que, quando crianças, não
compreendemos as conversas dos adultos).

Um problema de perspectiva: Indy se dá conta de que havia algo ali, afinal. — INDIANA JONES E A
ÚLTIMA CRUZADA (1989).

O Cristianismo deixa de parecer algo remoto, desprovido de interesse


e assume seu caráter real, íntimo , quando pensamos no cenário desolado
em que essa atividade floresceu contra todas as probabilidades. Nem precisa
chegar no exemplo extremo dos mártires ou do celibato vitalício, basta
pensar em um padre novato sendo enviado para uma paróquia lá em Jabour
(fica depois de Bangu) no verão do Rio de Janeiro com o dinheiro do
ônibus contadinho, com uma vida inteira de sacrifício e abnegação pela
frente para levar conforto aos mais necessitados.

Uma das obras de misericórdia espiritual da Igreja manda “suportar


com paciência as pessoas incômodas”, e só de pensar nisso eu já
quero morrer —e, no entanto, é isso que a Igreja pede de nós: fazer a
escolha mais difícil por amor ao próximo, ir contra a corrente fácil do que o
mundo espera e nossos sentidos exigem. É isso o que torna o Cristianismo
importante. Ele é uma tentativa sincera de contato com o divino E com o
humano (“ama o próximo como a ti mesmo” ) contra todas as
possibilidades, nada menos que um milagre. Ao nos pedir que vamos contra
a tirania do desejo, a Igreja não nos pede nada menos que caminhemos
sobre a água diariamente. Enxergar nela superstição, caretice e fórmulas
rígidas de ritual é apenas sinal de falta de cultivo da alma”.

A ciência, a arte, a política, a filosofia e a religião são epifenômenos


da existência humana nas quais é possível mandar bem e mandar mal. Se
você manda bem, o resultado é a agricultura, o D. Quixote, a isonomia da
justiça, a maiêutica, a confiança de que nossas tristezas têm um significado
e um propósito mais alto. Se manda mal, o resultado são os experimentos
clandestinos em humanos, a performance macaquinhos, os campos de
trabalho forçado na Sibéria, o existencialismo e o desespero. Assim como
não é o caso de “desistir da ciência e da política” por causa dos erros e
problemas que apontei, muito menos é o caso de “desistir da religião”. Cada
uma dessas áreas só depende de indivíduos comprometidos com a verdade e
dispostos a fazer sacrifícios para que cada uma se revele em sua essência:
um esforço imperfeito, mas nobre, rumo à nossa melhor natureza, longe do
pesadelo do início dos tempos.
“O mundo hoje está rasgando as fotografias de uma boa sociedade, uma boa família, uma
vida individual feliz e responsável. Mas a Igreja está guardando os negativos. E quando
chegar o momento de o mundo necessitar dessas fotografias, nós estaremos com os
negativos prontos, à espera.”
—Arcebispo Fulton Sheen
Um pouco acima falei que a fuga da tradição é mera oikophobia , só
um sinal do provincianismo terminal do Brasil, acostumado a sempre
chegar vinte anos atrasado no banquete cultural do mundo. Então é hora de
uma pequena atualização para o pessoal ficar a par do que anda
acontecendo no grande lá fora:

A internet acelerou o tempo e diminuiu o espaço (um vídeo feito na


Mongólia chega até nós quase instantaneamente), de forma que um ano de
internet é mais ou menos como uns 4 anos normais: as coisas que antes
demoravam uns 4 anos para enjoar, hoje demoram um ano, por aí. Músicos
já notaram que a velocidade de consumo de sua arte aumentou bastante, de
forma que agora estão tendo que se virar para permanecer relevantes diante
de um público acostumado a ter sempre novidades disputando sua cada vez
mais escassa capacidade de atenção.

O interessante é que, embora a internet seja um ácido para a cultura


pop, ela acabou se revelando uma preservadora e amplificadora da cultura,
tradição e sabedoria tradicionais. Basta ver o status de gênio concedido ao
Kanye West há uns cinco anos e seu status atual de macaquinho de branco,
e comparar, por exemplo, com a influência desmesurada que o fórum /pol/
(hoje em dia um enclave improvável de tradicionalismo e Catolicismo) e
seu desdobramento, a alt-right (informada por Evola, Carl Schmitt,
Guénon, Girard, Spengler, Maritain etc.) tiveram na eleição de Donald
Trump para presidente. Por meio da internet, uma nova geração de
intelectuais está difundindo as ideias de pensadores tradicionalistas perto de
quem o Bolsonaro é um hippie de coração mole, e muitos desses
intelectuais agora têm acesso aos círculos próximos do presidente de um
dos países mais poderosos do mundo.

É possível identificar movimentos pendulares na cultura, em que


crenças e pontos de vista periféricos assumem o centro da cultura durante
algum tempo, para em seguida serem deslocados de volta para a periferia,
até uma próxima inversão. A julgar pelos sinais na política e nas redes
sociais, estamos passando por um desses momentos de mudança, em que os
valores de rebeldia e coolness antes associados com a esquerda estão vindo
para a direita, que hoje em dia é o único movimento cultural realmente
contestador. É na direita que estão todos os bad boys contestadores que
as gatinhas adoram (ouvi dizer ), enquanto a esquerda, como eu vi no
twitter outro dia, acabou se transformando no equivalente das Senhoras de
Santana. É isso que a gente chama de “envelhecer mal”.

Nietzsche não era cristão, e por isso não levou em consideração um


detalhe crucial quando declarou a morte de Deus: o Deus cuja morte ele
lamentava já havia morrido uma vez, e a morte não foi para Ele nada além
de um empecilho resolvido em três dias. Nietzsche se esqueceu de que
lidava com o Deus que é conhecido justamente por ressuscitar na História.

A má notícia para o pessoal ateu é que o Cristianismo não vai a lugar


algum. Até o ídolo adolescente Richard Dawkins já deu o braço a torcer
dizendo que só o Cristianismo pode servir de defesa contra o Islã. Então é
melhor vocês se atualizarem aí, pararem de bater o pezinho, de fazer
biquinho por causa do “estado laico de mentirinha” e aprenderem a
respeitar e, quem sabe, a ouvir a maioria cristã do seu país. A implosão do
PT, o Brexit, a eleição do Trump, o fracasso do PSOL nas eleições, tudo
isso foi a gente pedindo com educação . Como dizia minha santa mãezinha
quando eu ficava fazendo manha: “Pára de chorar por manha, senão eu vou
te dar um motivo pra chorar de verdade”.
NÃO TENHAIS MEDO!
E finalmente, o argumento principal deste artigo:

O medo é o outro responsável pela diminuição no número de


humanos. Como falei no começo, a esquerda está se borrando por esses
dias. Essa reação era de se esperar, sendo apenas a forma final da
desconfiança que a esquerda nutre com relação às noções de hierarquia,
ordenação e obediência, pois elas pressupõem uma autoridade no topo da
cadeia. Isso gera uma atitude combativa que, reforçada pelo entorno social,
torna-se um reflexo pavloviano que não deixa o progressista distinguir
entre autoridade e autoritarismo.

O sequestro da amígdala é disparado pelo medo — quem tem medo


não pensa direito e age por impulso, preso entre duas opções, lutar ou fugir.

Quando se trata de assuntos com alta carga emocional, entra em jogo


todo o estilo de vida do interlocutor e as premissas nas quais se assenta sua
visão de mundo. É o medo de simplesmente estar enganado e perceber que
o mundo em que você vive está povoado por fantasmas como a “cultura do
estupro” (a única cultura do estupro que existe é aquela que faz uma
pesquisa por “linchamento ” + “estuprador ” retornar mais de 100.000
resultados, muitos com vídeo. O homem não é um estuprador em potencial,
é um linchador em potencial. O que existe é o estupro, que sempre existiu
e sempre vai existir, como sempre existirão o assassinato e o roubo, e que é
tão mal visto por todos os estratos da sociedade que é punido com pena de
morte sem apelação nos tribunais das prisões.

Metodologia da famosa pesquisa segundo a qual “ocorre 1 estupro a cada 11 minutos”. Imagina o
quanto de ruído essa metodologia porca não acrescentou à discussão sobre violência.

Os pais, quando não zelam pela assepsia mental de suas filhas,


quando não se preocupam com o material cultural que elas consomem,
abrem uma brecha para que elas sejam contaminadas por miasmas
psíquicos feito “cultura do estupro”, e tornem-se pessoas neuróticas,
amedrontadas, escravas espirituais, que só contribuem para o aumento do
ruído na discussão pública).

Então, acabou esse negócio de “cultura do estupro”, tá? Acabou esse negócio de “cultura do
estupro”, ok? Posso contar com vocês pra ninguém mais mencionar “cultura do estupro”,
né? Valeeeu!

É o medo de um comunista de 60 anos que investiu seus melhores


anos em um sonho que só rendeu rombos na previdência e metade do país
sem saneamento básico; o medo de uma menininha de axilas coloridas que
teme o ostracismo do grupo social ao qual aspira; o medo de passar por
burro e mal informado em uma mesa de bar; o medo de não comer alguém
por emitir alguma opinião impopular.
A Bíblia, sendo entre outras coisas um compêndio de psicologia,
alude ao medo, frequentemente como parte inevitável do processo de
aprendizado e amadurecimento humano: a expressão “não tenhais medo”
aparece frequentemente nos diversos livros da Bíblia, geralmente dita por
anjos ou Deus. A primeira coisa que a Verdade diz ao fazer contato com um
humano (especialmente se for uma verdade que vá contra as emoções da
pessoa, do que ela pensa que pensa ou dos seus desejos) é: “Não tenhais
medo” . E e também é na Bíblia que encontramos a cura para esse
sentimento:
“No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve
castigo, e quem teme não é perfeito no amor. Mas amamos, porque Deus nos amou primeiro.
Se alguém disser: “Amo a Deus”, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não
ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este
mandamento: o que amar a Deus, ame também seu irmão.”
— 1Jo 4,18

Quem ama não teme. A luz do amor explica o mundo, dissipa as


trevas onde o medo (incerteza, desconhecimento do que virá) viceja, de
forma que, quanto mais amor, mais confiança, e quanto mais confiança,
menos medo. Se somos uma sociedade de baixa confiança é porque
amamos pouco, e amamos pouco porque somos uma sociedade de baixa
confiança. O amor é o princípio básico de identificação, e por isso as coisas
que afligem o objeto do nosso amor nos afligem como se estivessem
acontecendo conosco. Se você não se identifica com alguma coisa em
algum nível, você não consegue amá-la. Se o diabo representa a divisão ou
desagregação dos sistemas, processos, sociedades, famílias etc., Jesus é o
seu oposto, como Ele mesmo nos diz nesse trecho extremamente fofinho:
Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos
debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram.
— Mt 23,37

Quando o povo se vê diante de alguma situação bem ruim, já sem


esperança, uma expressão comum que se diz é: “Só Jesus” , geralmente
com um suspiro e um menear triste da cabeça. É melhor começar a
interpretar isso literalmente, porque é verdade. “Só o amor constrói”, porra.
Sem amor, só resta o controle estéril que Lênin disse preferir à confiança —
o autoritarismo que os progressistas tanto temem, mas em cujos braços
inevitavelmente sempre caem — como sempre caíram, da Rússia à
Alemanha Ocidental à Coréia do Norte a Cuba — quando negam o princípio
de moralidade objetiva, sem o qual as coisas passam a ser implementadas
na base da força.

A oposição incontornável entre o amor verdadeiramente humano


representado pelo Cristianismo e os “sentimentos humanitários” do
progressismo reformador (que acabam sempre criando sociedades infernais
e desumanas) aparece em muitas obras de arte:

A) “Execução de Cristo”; B) Prisão da Prostituta — Irmãos Gao

Lembro especialmente de um diálogo de “Os Relógios”, um livro da


Agatha Christie que traduzi, porque nele fica clara a oposição entre o
espírito revolucionário e o sentimento de identificação humana de que tanto
falei nesse artigo.

Nesse trecho, uma espiã comunista que abandonou a família pela


causa (olá, Zé Dirceu!), zomba de um espião inglês que está se aposentando
por não aguentar mais a desumanidade desse tipo de trabalho. Reproduzo
abaixo a fala dela e a resposta que o espião inglês lhe dá:
— Acho que o senhor faz bem. O senhor não tem o que é preciso para esse ramo de
trabalho. O senhor é como o pai de Rosemary. Ele nunca pôde entender o que Lênin disse:
“Chega de corações moles” .
— Eu estou satisfeito em ser humano .”

Os humanos estão acabando. A água do discurso público foi poluída a


ponto de não conseguirmos nos reconhecer mais, e ao não nos
identificarmos uns com os outros, perdemos a capacidade de nos amar
(sentir as dores do outro como se fossem nossas). No começo do artigo eu
mencionei que o discurso progressista só consegue enquadrar as coisas em
termos de guerra (de classes, raças, sexos etc.) , e que artistinhas, jornas e
acadêmicos não têm como oferecer saída para o problema, pois se
comportam como cães doentes coçando uma ferida.

A boa notícia é que, embora não haja uma cura para essa ferida, existe
uma pomadinha que ajuda. Não vou surpreender ninguém ao dizer que essa
pomadinha é o Cristianismo, conhecido há séculos como bálsamo das
relações humanas. É o bálsamo da companhia humana, a única coisa que
pode nos confortar em um momento de dor, como representada em
incontáveis atos de amor, sacrifício e compaixão através da história e nas
inúmeras instituições de caridade, orfanatos, hospitais, escolas e
universidades ao redor do mundo (nenhuma surpresa considerando-se que é
a instituição cujo fundador disse: “Em verdade eu vos digo, que todas as
vezes que fizestes isso [alimentar, matar a sede, hospedar, vestir, visitar na
prisão] a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” )

No artigo anterior eu mencionei que o contato com a literatura nos dá


a noção de que estamos todos juntos nesse barco. Pois bem, o contato com
o Cristianismo tem o mesmo efeito (e tudo o que eu falei sobre “tradição” e
“cultura” neste artigo também vale para o Cristianismo). Diante das
vicissitudes e dilemas da existência, o Cristianismo nos dá a perfeita noção
de que, a não ser que estejamos de fato pensando em colocar todos os que
discordam de nós em campos de concentração, então é melhor começarmos
a pensar em alguma maneira de continuarmos convivendo, porque estamos
todos juntos nisso, (e “nisso”, no caso, é a sepultura). Sem essa percepção
básica, qualquer tipo de associação duradoura torna-se impossível, seja um
negócio, uma família ou uma nação.

Obviamente, mencionar a palavra “nação” a sério depois de décadas


de estudos pós-colonialistas é hoje no melhor dos casos uma gafe, no pior,
uma ofensa entre a claque cheirosa. “Nação” é uma palavra problemática
para o progressismo — assim como “Deus”, “família”, “verdade” ou
“gorda” (o número tende a aumentar) — porque se refere a uma noção
irredutível, inescapável enquanto humanos viverem em sociedade.

Para pelo menos três gerações de infelizes que tiveram seus


horizontes imaginativos amputados nas escolas e universidades, a idéia de
nação evoca imediatamente os pecados seculares do capitalismo,
machismo, opressão, xenofobia. Mas uma nação pode ser muitas coisas
para muitas pessoas. Etimologicamente, é o “lugar onde se nasce”, com a
idéia implícita de um vínculo orgânico com um pedaço do planeta (o solo
que gerou/sustentou a comida que seus pais comeram e virou você).
Em “Um retrato do artista quando jovem” , Joyce faz Stephen Dedalus
dizer que a Irlanda é “a porca que devora a ninhada”, uma imagem amarga
e rancorosa que exprime perfeitamente a dor de um filho negligenciado.
Para o teórico marxista Louis Althusser, que estrangulou a esposa, quem diz
“nação” diz “família”, e é disso que se trata, finalmente: um assunto de
família.

Além de estrangular a esposa, Althusser criou um corpo de estudos


segundo o qual a família é vista como um “aparato ideológico estatal” (ele
também estrangulou a esposa). Althusser foi apenas mais um intelectual de
esquerda a confirmar a interpretação clássica da família tradicional como
célula básica da perpetuação do estado-nação, e seu trabalho forneceu o
tacape retórico que os progressistas (artistas, mídia e academia) passaram a
usar desde então, com os resultados que hoje assistimos. Não à toa as
menções à família feitas por políticos abrem estigmas sangrentos na bunda
da esquerda nacional; não à toa a sacaneada-padrão em feminista no twitter
faz referência a um pai que saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou.

A família é desprezada e atacada pela esquerda porque os teóricos de


esquerda perceberam que o Cristianismo se reflete na estrutura familiar
tradicional, elevando-a para o plano transcendente e tornando-a quase
divina. A família, semi-divinizada por essa conexão com o Cristianismo, é
nossa única defesa contra o totalitarismo do Estado que, como vimos, é o
único objetivo dos progressistas como Lênin, que preferem o controle de
estranhos por estranhos, e não a confiança, que é o comum entre pais, filhos
e demais membros da mesma família.

Como comparação, o Buda era um príncipe solitário encarando o


abismo da existência. Já a hierarquia cristã reflete a nossa estrutura familiar
e a nossa experiência comum, com um Pai que provê e dá as regras, uma
Mãe que consola e intercede em nome do filho, e um Filho mais velho que
ama tanto o irmão mais jovem a ponto de se oferecer em sacrifício para
salvá-lo, mas que dá esporro quando é o caso (a imagem de um Jesus dócil
e gentil que a Igreja Católica divulga nem de longe corresponde ao Jesus do
texto dos Evangelhos, que sabia instruir e aconselhar, mas que não se fazia
de rogado na hora de distribuir patadas verbais e, em uma ocasião, físicas).
O amor educa. O amor disciplina.

O Cristianismo nos mostra que a única dinâmica possível para tratar


dos inevitáveis conflitos inerentes à convivência em sociedade é a dinâmica
familiar cristã, quando não porque famílias quebram o pau, mas ninguém
manda ninguém para o paredão.

Isso é especialmente importante agora que a internet permite a


propagação de boatos e notícias de forma rápida e indiscriminada, o que
vem aumentando a frequência e a intensidade dos linchamentos:

No ano passado, Sir Tim Hunt, bioquímico ganhador do


prêmio Nobel, fez uma piada de nerd sobre como mulheres
cientistas em laboratórios atrapalham a pesquisa ao causar
paixonites. Foi uma piada boba de nerd, que mereceria no máximo
uma viradinha de olhos. Em vez disso, quase destruiu sua carreira.

Em 2014, o cientista Matt Taylor achou de dar uma coletiva


de imprensa usando uma camisa com desenhos de mulheres em
roupas provocantes. O que era apenas uma demonstração de mau
gosto acabou causando uma caça às bruxas em que ele foi
assediado por coletivos feministas, foi alvo de petições pedindo
sua demissão e só não perdeu a carreira porque foi esperto o
bastante para se desculpar imediatamente, se humilhando,
chorando e babando diante das câmeras como se tivesse matado
alguém.

No ano passado, um dentista matou um leão e houve uma


complicação legal, pois o leão que estava protegido pelas leis do
país. O que deveria ter sido resolvido de forma cordata pelos meios
jurídicos de praxe tornou-se um linchamento virtual e real em que
o dentista teve a casa vandalizada, sofreu assédio na internet e fora
dela, seu barco foi roubado e destruído e chegaram a sugerir que
ele tivesse os dentes arrancados em público, sem anestesia.

Esse é o resultado de duas décadas de discurso progressista “de


combate”: uma multidão de potenciais linchadores andando por aí com as
molas emocionais tensionadas, imaginando-se cercadas de perigos e
aproveitadores, prontos para se ofender. O próprio tom mecanicista do
termo “triggering” (o momento em que a reação de sequestro da amígdala
é ativada) indica o quanto o discurso progressista nos desumaniza ao
enfraquecer nossa capacidade de nos identificarmos com o outro,
transformando-nos em pula-piratas ambulantes.

Não é que não fôssemos potenciais linchadores antes do


progressismo. Toda a obra de René Girard trata de nossa capacidade inata
para a violência grupal, e obviamente há cristãos cujo maior prazer
infelizmente parece ser apontar o dedo para as falhas dos outros, mas
mesmo a tia carola mais empedernida recuaria ao ouvir “somos todos
pecadores, e vis pecadores” .

O Cristianismo, ao partir do ponto de vista de que todos nós somos


pecadores, de que a vacilação é universal, cria uma reação automática que é
o inverso do “triggering” — um freio ao instinto agressivo, quando
nos lembramos que somos bem capazes de fazer uma merda parecida ou
pior à que estamos denunciando. O progressismo não tem esse freio , pois
parte do princípio de que somos todos bem-informados, cheirosos,
civilizados etc. Esse é o mecanismo ilustrado no caso da adúltera que ia ser
apedrejada. Nem que seja apenas pelo temor da opinião alheia, nenhum
cristão vai querer ser conhecido como o gostosão que acha não ter
pecados. Fora do Cristianismo, só há sinalização de virtude, roubo de
protagonismo, apropriação cultural mansplaining etc.

Claro que essa história de nos vermos todos no mesmo barco é mais
fácil falar do que fazer. Amor implica confiança, algo que já vimos ser
escasso no Brasil. O problema então consiste em de alguma forma mudar a
chave de relacionamento atual da desconfiança para a confiança . Creio
que a Bíblia fornece um modelo para tratar o problema a partir da
abordagem familiar. É a parábola do filho pródigo:
11 Disse também: Um homem tinha dois filhos. 12 O mais moço disse a seu pai:
Meu pai, dá-me a parte da herança que me toca. O pai então repartiu entre eles os
haveres. 13 Poucos dias depois ajuntando tudo o que lhe pertencia, partiu o filho
mais moço para um país muito distante, e lá dissipou sua fortuna, vivendo
dissolutamente. 14 Depois de ter esbanjado tudo, sobreveio àquela região uma
grande fome e ele começou a passar penúria. 15 Foi pôr-se a serviço de um dos
habitantes daquela região, que o andou para os seus campos guardar os porcos. 16
Desejava ele fartar-se das vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.
17 Entrou então em si e refletiu: Quantos servos há na casa de meu pai que têm pão
em abundância… e eu, aqui, estou a morrer de fome! 18 Vou me levantar e irei a
meu pai, e lhe direi: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; 19 já não sou digno
de ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados. 20 Levantou-
se, pois, e foi ter com seu pai. Estava ainda longe, quando seu pai o viu e, movido
de compaixão, correu-lhe ao encontro, o braçou e o beijou. 21 O filho lhe disse,
então: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado
teu filho. 22 Mas o pai falou aos servos: Trazei-me depressa a melhor veste e vesti-
lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés. 23 Trazei também um novilho
gordo e matai-o; comamos e façamos uma festa. 24 Este meu filho estava morto, e
reviveu; tinha se perdido, e foi achado. E começaram a festa.
— Lc 15 11,24

O filho pródigo é o irmão mais novo, um símbolo da impaciência e


egoísmo naturais da juventude: ele exige sua herança adiantada e parte para
longe, para gastá-la como lhe aprouver, sem precisar prestar contas ao pai.
Nesse esquema, o irmão mais novo é a esquerda .

Essa parábola ensina, entre outras coisas, que a reconciliação é um


objetivo belo e desejável, e que ela é possível, uma vez que as partes
envolvidas cheguem a determinadas disposições de espírito . Da parte que
representa a tradição e a sabedoria, é necessário haver a vontade de perdoar:
o pai, impaciente, sai de casa e vai para a estrada, para encontrar o filho no
meio do caminho e abraçá-lo.
A primeira lição prática a tirar dessa parábola vai para a direita, para
o pessoal que oprime muito no twitter, galerinha do loen etc: o trabalho que
eles realizam é crucial, e eu seria a última pessoa a desprezar o poder
pedagógico da porrada. Como o bastão keisaku de que falei no começo do
texto atesta — e o próprio Che Guevara, que dizia que “hay que endurecer
pero sin perder la ternura jamás!” — , severidade e rispidez não
necessariamente implicam ódio. Assim como Che Guevara, eu também
acredito que a ternura ainda é possível. O importante é não perder de vista o
objetivo final de uma reconciliação futura, de forma que devemos tentar
enquadrar nossas interações com os progressistas em um padrão mental de
ajuda e esclarecimento, tanto quanto possível. O que eu tento fazer é
sempre sinalizar que estou preocupado com a pessoa com quem estou
conversando, que eu a vejo como um humano, que eu não lhe desejo
nenhum mal.

Não estou me referindo a táticas de argumentação, mas a uma


mentalidade que devemos tentar emular até que a internalizemos
totalmente: a mentalidade do pai que pode até dar esporro mas que
não odeia o filho.

Não custa lembrar que, se a esquerda chegou a tornar-se o viés


dominante na cultura, isso só aconteceu porque a direita — a situação —
cometeu seu quinhão de vacilos e abriu um vácuo de autoridade, como os
exemplos das revoluções francesa e russa nos mostram, com uma classe
aristocrática completamente distanciada dos problemas e sofrimentos do
povo, alienada e arrogante, que só foi se dar conta da seriedade do problema
quando já era tarde demais até para se salvar. Usando a já mencionada
comparação do Estado com a família, foi como se os pais (monarcas e
aristocratas) dessem o mau exemplo, eximindo-se de suas responsabilidades
e do seu chamado ao sacrifício pelos filhos (o povo). E, como sabemos, os
filhos que não encontram atenção em casa irão buscá-la na rua, onde, como
dizia minha mãe, “só se aprende o que não presta”. Assim, parte de nossa
tarefa compreenderá assumir o papel dos familiares mais velhos com nossas
palavras e ações, dando o exemplo do amor, conciliação, compreensão e até
sacrifício (como na imagem clássica do pelicano na iconografia cristã, que
fura o próprio peito para alimentar os filhotes com seu sangue), de forma a
mitigar a desconfiança e o antagonismo (também não é pra ser trouxa, se
liga).

Ninguém disse que seria fácil.

Já os amigos progressistas farão bem em notar que todo o processo


que levou à reconciliação só foi colocado em movimento quando o filho,
segundo o texto, “entrou então em si e refletiu” . Ou seja, segundo o
modelo fornecido pelo livro que é o alicerce de sabedoria do Ocidente há
mais de dois mil anos, o caminho da reconciliação começa com o irmão
mais novo refletindo sobre sua atitude inexperiente e imprevidente,
colocando-se dentro de um contexto mais abrangente em que seus desejos
já não são a coisa mais importante. É a introspecção sincera de um exame
de consciência, o único estado de espírito que possibilita a interação
informada por boa-vontade e boa-fé.
“Irmãos? Sim. Iguais? Não. Porque há irmãos mais novos e irmãos mais velhos.”
— Nicolás Gómez Dávila

O filho pródigo sempre existirá. Sempre haverá briga entre gerações,


já que o conflito com a experiência dos mais velhos também faz parte do
processo de amadurecimento. O irmão mais novo tem que se lembrar de
que é um recém-chegado no mundo — se não literalmente, figurativamente,
no caso de progressistas mais velhos que estiveram afastados da tradição
por toda a vida e só agora estão percebendo que o modo de vida tradicional
não vai sumir.

A parábola do filho pródigo nos mostra, em linhas gerais, as três


atitudes possíveis diante da existência, de acordo com a idade tradicional: o
irmão mais novo é a esquerda, o rebelde, contestador, o que pergunta “por
que não?” . O irmão mais velho é a direita, o obediente, o que impõe as
regras e diz “porque não” , pois sua experiência (lembre-se, ele também já
foi o irmão mais novo) lhe diz o que acontece quando elas não são
seguidas; por último, temos o pai, em cujo amor e misericórdia as
diferenças se dissolvem em um abraço compreensivo — contanto que o filho
mais novo entre em si, reflita e procure a reconciliação.

O começo da sabedoria. (http://webcomicname.com)

O ponto de referência do Cristianismo é a Eternidade diante da qual


todas as coisas passam em fluxo — e acabam por se repetir. A Bíblia
nos lembra de que “não há nada de novo sob o Sol”, de que nossos dramas
já foram vividos antes, por pessoas melhores e provavelmente com um
texto mais bem escrito. Sem essa percepção, o irmão mais novo julga que
tudo é uma questão de vida ou morte . Tudo passa a ser visto pela lente
intransigente dos 8 ou 80, do “ou vai ou racha”, e aí qualquer ocasião de
discórdia será motivo para rompimentos e bateção de porta, como
demonstram termos como “PEC DO FIM DO MUNDO”, “GENOCÍDIO
DE NEGROS” e as comparações de Trump e Bolsonaro com Hitler (o que
acaba jogando contra os próprios progressistas, já que, se o mundo está
sempre acabando, o mundo não está nunca acabando, se todo mundo é
Hitler, ninguém é Hitler).

“Formosa, não faz assim / Carinho não é ruim”.

O que estou tentando dizer para progressistas, jovens e esquerdistas,


é “não tenhais medo” , ou, no linguajar das ruas, “sossega essa piriquita
um pouco”, baixa essa bolinha aê por favor. Parem de ficar
extraindo frisson e importância pessoal dessa sensação de medinho, de
estar “lutando contra um grande mal” fazendo parte da “Aliança Rebelde”
(pensam que eu não notei?). Eu sei que vocês não acreditam em Deus, mas
aceitem a palavra de alguém que acredita: Ele certamente não colocou
vocês no mundo para vocês ficarem tremendo diante de qualquer
contrariedade, isso é indigno, é ridículo. Percam esse cabaço cognitivo, por
favor. Nós temos uma renca de problemas para resolver e essa desconfiança
e esse medo não só estão atrapalhando como estão privando vocês de uma
das melhores experiências que podemos ter: a súbita percepção de que não
somos tão isolados como achamos.

Todos nós já tivemos alguma interação com alguém com quem


achávamos não ter nada em comum, até o momento em que a pessoa disse
algo ou se comportou de uma maneira que reconhecemos imediatamente
como algo que poderíamos ter feito ou dito. Esse pequeno instante de
reconhecimento, que é tão bom de sentir, é o alicerce no qual se baseia toda
a convivência humana.

Isso não é conversinha clichê de apaziguamento e panos quentes, isso


é questão de sobrevivência , porque à medida que a decomposição do Brasil
for acelerando, nós só poderemos contar uns com os outros. Aconteceu na
Venezuela, como aconteceu em todos os países em que o vírus do
socialismo se instalou, e muito embora a gente tenha a sorte do processo ser
mais lento aqui por causa do tamanho do país, nossa sorte está acabando.
As instituições (lol) estão num mexican standoff há meses, e, Sérgio Moro
à parte, daí eu não espero nenhum milagre. Se é pra ter um milagre, ele vai
ter de vir de nós mesmos, de nossa capacidade de nos reconhecermos como
humanos. Sem isso, só haverá caos e mais confrontamento.

À medida que a sociedade se fragmenta e afunda na areia movediça


de equivalências do pós-modernismo, vai ficando cada vez mais difícil
acharmos pontos de identificação uns nos outros, e é natural que, em um
ambiente de baixa confiança, ao nos vermos cercados de estranhos cujas
intenções não conhecemos mas das quais estamos predispostos a desconfiar,
fique cada vez mais difícil sentirmos amor pelo próximo.

Antigamente nós podíamos contar com uma rede de segurança que


permitia esses momentos de reconhecimento. Um exemplo famoso é o da
Trégua de Natal de 1914:

Durante a Primeira Guerra Mundial, no dia de Natal, os soldados


alemães, ingleses e franceses entrincheirados reconheceram as canções
natalinas que cada lado cantava, pois elas eram as mesmas, só com
mudança de idioma. O cenário cultural compartilhado do Cristianismo
deu confiança para que os soldados se aventurassem para fora das
trincheiras sem levar um balaço entre os olhos. Eles se lembraram de que
eram diferentes, mas não tão diferentes assim . Em pouco tempo uma
trégua foi estabelecida em que os soldados trocaram lembranças, cantaram e
beberam juntos, jogaram futebol etc.

Infelizmente nós já não podemos contar com o panorama cultural


compartilhado do Cristianismo, a pomadinha de que antes dispúnhamos
para aliviar um pouco a dor da existência humana.

Mas quem sabe se fizermos um esforço para lembrar …?


“AOS HOMENS DE BOA-VONTADE”
Enfim. O que eu tinha pra dizer era isso, rapaziada.

Vamos aproveitar aí que é Natal, a tal época de perdão e


reconciliação, e fazer um esforço no sentido de preservar nossos vínculos
com as pessoas que, à parte posicionamento político, estão dispostas a fazer
sacrifícios por nós e que nos amam incondicionalmente. Como bem sabem
os pais, não interessa saber “quem começou”, o que interessa é o cessar das
hostilidades.

Sempre é possível.
No final, a diferença não é entre “esquerda” e “direita”. É entre quem
acha que a política é o mais alto nível de ação humana, que a política pode
nos fazer finalmente felizes, e os que acham que não, que existe um nível
mais alto, onde nem o empirismo cientificista nem as teorias políticas têm
vez: o âmbito do coração humano. A saída não será pela política (que em
última instância quer dizer “pelo Estado”): ou será pelo amor (“pela
Família”), ou simplesmente não será.
“O homem amadurece quando pára de acreditar que a política pode resolver todos
os seus problemas”
— Nicolás Goméz Dávila

Eu fiz a minha parte. Estou sempre disposto à reconciliação, mas não


passo a mão na cabeça de criança mimada. Escrevi esse troço disforme e
gigantesco como mostra evidente de minha boa-vontade e boa-fé, para que
meus amigos e conhecidos progressistas conheçam o ponto de vista de
alguém que acredita em Deus, e quem sabe aceitem a complexidade e a
estranheza maior da vida, onde não existem recortes fáceis de bem contra o
mal que guiem uma pessoa vida afora com a certeza de estar fazendo
sempre o bem só porque aprendeu a chamar os outros de “racista” ou
“homofóbico”. Se só um milagre conseguiria isso, não vejo época melhor
para torcer por um [31] .

Lembrem-se de que “no amor não há temor. E quem ama a Deus


deve também amar a seu irmão.”
“Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens de boa-
vontade”.
— Lc 2,14

Boa sorte a todos vocês, irmãos mais jovens e mais velhos que irão se
reencontrar à mesa da reconciliação e do perdão no fim do ano. Estou aqui
torcendo por todos nós para que possamos realmente superar as diferenças,
encontrar um contexto maior em que possamos nos reconhecer, para
sairmos dessa encrenca com nossos vínculos fortalecidos.

De qualquer maneira, em janeiro eu tô entrando no krav magá.


“O Filho Pródigo”, Rembrandt.
[1]
Documentário sobre a Revolução Ucraniana (2013-2014).
[2]
https://ourworldindata.org/trust
[3]
https://en.wikipedia.org/wiki/Amygdala_hijack
[4]
https://en.wikipedia.org/wiki/Dear_enemy_effect
[5]
http://www.msnbc.com/msnbc/bernie-sanders-event-shut-down-black-lives-matter-activists
[6]
http://www.newnownext.com/jk-rowling-twitter-mob-homophobic/09/2016/
[7]
http://www.folhapolitica.org/2016/09/jean-wyllys-ataca-jandira-feghali-que.html
[8]
http://www.dailymail.co.uk/tvshowbiz/article-3769269/Mark-Ruffalo-responds-outrage-Matt-
Bomer-s-casting-trans-woman-new-film-says-learning.html
[9]
https://markmanson.net/brazil_pt
[10]
Ver nota de rodapé 4
[11]
http://www.amazon-tribes.com/korubos.html
[12]
https://en.wikipedia.org/wiki/You_can%27t_have_your_cake_and_eat_it#Other_languages
[13]

[14]
https://www.youtube.com/watch?v=gGpZSefYvwM
[15]
https://youtu.be/UKUZ42T9diU
[16]
https://en.wikipedia.org/wiki/Oikophobia
[17]
http://www.olavodecarvalho.org/textos/juvenil.htm
[18]
https://thefloatinglibrary.com/2009/04/20/suicide-the-one-truly-serious-philosophical-problem-
camus/
[19]
https://en.wikipedia.org/wiki/Booting
[20]
https://en.wikipedia.org/wiki/Cosmic_censorship_hypothesis
[21]
https://en.wikipedia.org/wiki/Replication_crisis
[22]
http://slow-science.org/
[23]
https://en.wikipedia.org/wiki/Publish_or_perish
[24]
https://youtu.be/AJu0oYvi-cY
[25]
https://en.wikipedia.org/wiki/Operant_conditioning_chamber
[26]

https://en.wikipedia.org/wiki/Biblical_criticism#New_Testament_authenticity_and_the_historical_Je
sus
[27]
https://en.wikipedia.org/wiki/Criterion_of_multiple_attestation
[28]
https://en.wikipedia.org/wiki/Criterion_of_embarrassment
[29]
https://www.quora.com/Are-the-Egyptian-god-Horus-and-Jesus-the-same-person
[30]
http://slaveryfootprint.org/
[31]
Esse texto foi escrito no Natal de 2016