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Desafios das Mulheres Presas

Esta resenha resume um livro sobre as experiências de mulheres presas no sistema penitenciário brasileiro. O livro conta histórias de sete mulheres presas em diferentes regiões do país e destaca os desafios únicos enfrentados por mulheres encarceradas, incluindo falta de acesso a cuidados de saúde, violência e separação de seus filhos. Além disso, critica a falta de políticas públicas que reconheçam os direitos e necessidades específicas das mulheres presas.

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Desafios das Mulheres Presas

Esta resenha resume um livro sobre as experiências de mulheres presas no sistema penitenciário brasileiro. O livro conta histórias de sete mulheres presas em diferentes regiões do país e destaca os desafios únicos enfrentados por mulheres encarceradas, incluindo falta de acesso a cuidados de saúde, violência e separação de seus filhos. Além disso, critica a falta de políticas públicas que reconheçam os direitos e necessidades específicas das mulheres presas.

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FCJP - FACULDADE CIDADE DE JOÃO PINHEIRO

CURSO DE DIREITO - 10º PERÍODO


PROFESSOR:FABIANA APARECIDA LIMA MACIEL

RESENHA

PRESOS QUE MENSTRUAM


Anderson José de Abreu Braga

Queiroz, Nana
Presos que menstruam [recurso eletrônico] / Nana Queiroz. - 1. ed. - Rio de Janeiro:
Record, 2015.

As mulheres nas prisões possuem um tratamento similar ao dos homens, sem


acesso à saúde e cuidados com higiene. São ignoradas a menstruação, a
maternidade, os cuidados específicos de saúde, entre outras especificidades
femininas. A autora do livro é ativista pelos direitos das mulheres e fundadora do
Movimento Eu Não Mereço Ser Estuprada. A obra trata-se, a meu ver, de uma
grande reportagem jornalística, muito influenciada pelo jornalismo literário, algo hoje
muito difícil de se ver e tem boa qualidade e com estilo. No livro foram entrevistadas
presas de cinco regiões brasileiras. Assim, por exemplo, “quando um homem é
preso, normalmente a sua família fica à espera de regressar a casa. Ao ser presa, a
mulher perde o marido e a casa, os filhos são divididos entre familiares e abrigos.
Quando um homem retorna ao mundo que já o espera, ele parte e tem que
reconstruir o seu mundo.
A autora escolheu um estado por região, na região Norte entrevistou
paraenses, na região Sul foi para o Rio Grande do Sul, na região Centro-Oeste
escolheu Brasília, no Nordeste encontrou-se com presas da Bahia e no Sudeste em
seu estado na cidade de São Paulo. As histórias são focadas em sete mulheres:
Safira, Gardênia, Júlia, Vera, Camila, Glicéria e Marcela, todas personagens
possuem nomes fictícios. Um fato bastante interessante é que os relatos são feitos
por presidiárias, ex presidiárias, mães de presas e mulheres que trabalham ou
convivem diariamente com as detentas o que na narrativa traz uma visão ampla
sobre o assunto.
A autora na sua obra aborda em todo o livro, questões sociais que muitas
vezes não são percebidas pela sociedade chamando a atenção para a precariedade
a que as prisioneiras estão sujeitas. Ela aborda os problemas como falta de acessos
a serviços de saúde, agressões, más condições de higiene, torturas, falta de apoio
às gestantes e distribuição de medicamentos sem prescrição médica para conter as
detentas.
São tantos os crimes cometidos contra detentas neste país que se a situação
da mulher em liberdade é de frequente discriminação, opressão e descaso por parte
do Estado, quando o assunto é prisão feminina, ou mulheres presas, os problemas
são ainda mais graves.
O primeiro dos relatos é de Safira onde é explorado o relacionamento que as
detentas possuem com seus filhos seja durante a detenção e/ou após cumprirem os
anos de pena. Onde ela diz que se arrepende de ter passado três anos consecutivos
na prisão sem nunca ter visto os filhos por conta dos sete anos de prisão. E quando
finalmente saiu da prisão e pôde estar com eles, ela gostaria de preparar o café da
manhã para seus dois filhos. Então naquele dia ela:

“despejou o leite devagarinho no copo de café, curtindo cada gota que caía,
com aquela satisfação que as pessoas sentem quando veem o mar pela
primeira vez, conhecem o amor de suas vidas ou descobrem que se
curaram de uma doença grave.” Após, “sorridente”, colocar os copos na
mesa, um dos filhos perguntou-lhe com “estranheza”: _ “Mas você não sabe,
mãe, que a gente não toma café, só toma Toddy?” Ela não lembrava, ou
talvez nunca soubera, “e a frase caiu sobre ela com o peso dos anos
perdidos.”Safira, então, lamentava não conhecer os filhos: “eles sabem que
eu sou a mãe deles, mas praticamente sou uma desconhecida.”

Seu destino começou a tomar forma quando, acreditando no que os


hipócritas neoliberais hoje chamam de meritocracia, “largou a escola aos 14 anos e
se convenceu de que as pessoas batalhadoras, com esforço suficiente, sempre
chegariam aonde quisessem, e com ela não seria diferente”; mas isso porque a
meritocracia não é bem assim, especialmente num país tão desigual como o nosso,
onde uma criança de classe média pode se dar ao luxo de não trabalhar e apenas
estudar durante a infância, juventude . Ainda adolescente, Safira casou-se com um
homem violento e rude que a tratava de todas as maneiras, assim como sua mãe e
seu pai. Safira sofreu todo tipo de humilhações; após o divórcio, começou a
trabalhar como empacotadora em um supermercado. Foi então que um dia, quando
chegou em casa exausta e com fome, depois de um dia difícil, não tinha nada no
armário para cozinhar; não havia fraldas nem leite para as crianças a panela vazia
ela entrou para o crime então foi presa; então anos mais tarde, Safira encontrou a
paz na liberdade graças ao apoio da sua família: “o apoio é muito importante, as
pessoas não têm consciência disso”, disse ela.
Gardênia foi uma outra presa entrevistada; ela era viciada em drogas, ainda
jovem já tinha “os dentes judiados, a pele marcada por anos que não vivera e não
tinha muito claro na cabeça de que delitos era culpada e de quais a haviam acusado
injustamente. Afinal, aquilo era o que havia sido narrado pelo promotor…”. Uma
coisa que não lhes falta são ansiolíticos e antidepressivos. Segundo as detentas, a
administração dos presídios e os médicos responsáveis receitam remédios
controlados para mantê-las "dóceis”.
Esta presa na primeira vez em que foi detida e encarcerada, estava grávida, o
que não impediu os maus tratos logo quando foi jogada na viatura. Quando gritou de
dor, ouviu do policial: “Tá reclamando do quê? Isso é só outro vagabundinho que
vem vindo no mundo aí.”Assim quando seu bebe veio ao mundo ela não pode fazer
um carinho e só foi permitido que ela a amamentasse uma vez ao dia apenas o bebe.
Mulheres, grávidas ou não, chegam às penitenciárias com um histórico bem
lamentável de cuidados médicos. Algumas são dependentes químicas, outras
grávidas que nunca fizeram o pré-natal, outras se sujeitaram a doenças sexualmente
transmissíveis - [Link] personagem do livro escreve um lindo poema depois de
um castigo de muitos dias na prisão.
Outra personagem é a Júlia era uma estudante de Direito quando foi presa.
Havia ganho uma bolsa de estudos da faculdade onde a mãe trabalhava como
faxineira. O irmão também estudava por lá. Nem sequer deu tempo suficiente para
lhes avisar. Aguardava na fila da “xerox” quando foi abordada por um policial e
levada presa. As mulheres encarceradas têm sido submetidas a maus tratos, tortura
e tratamentos cruéis e degradantes.
Outra personagem é a Vera, ela também foi muito maltratada na infância. A
sua mãe, “uma mulher suave, mas submissa, quando os filhos aprontavam, não
fazia nada para impedir que o marido os amarrasse em uma tora ou móvel da casa
para bater com o que estivesse à mãe. ” A mulher detida no sistema prisional
brasileiro, nas condições descritas a seguir, sofre violações decorrentes das
características inerentes à qualidade de pessoa do sexo feminino, quais sejam
violência física, sexual e sofrimento psicológico.
Camila, outra entrevistada, contou um diálogo que seu filho caçula tivera com
uma assistente social que havia ido à sua casa para avaliar a possibilidade dos seus
dois filhos serem confiados à guarda dos avós paternos, e não maternos, como
estavam. Os meninos não queriam sair de onde estavam. Desejavam continuar
morando com a mãe e com o pai da mãe deles. Quando a mãe de Camila morreu
ela estava presa e se desesperou, parou de comer.
Por fim, reconto a história de Glicéria, Glicéria Tupinambá, uma índia que
morava na Terra Indígena Tupinambá de Olivença, no sul da Bahia. Quando ela foi
presa pela Polícia Federal, o avião onde estava acabara de pousar no aeroporto de
Ilhéus, vindo de Brasília, onde ela havia se encontrado com o Presidente da
República de então, quando denunciou “que seu povo estava sendo torturado,
desaparecido, preso injustamente e cravado de balas.” Nos braços, ela segurava o
seu filho, Erúthawã, com apenas um mês e meio de vida, que nascera “guerreiro
como o Encantado de mesmo nome, e iria lutar junto dela desde o ventre.” Daquela
vez, dentro de uma aeronave, “não havia mato para o qual fugir e se esconder”,
como acontecera tantas outras vezes.
São sete mulheres entrevistadas na obra, bem como conversas rápidas com
muitas outras. Cada um deles representa um drama familiar e uma história de vida
única. Uma vida de sofrimento, culpa, desespero, dor, desamparo, desprezo,
violência, falta de carinho, afeto, amor, vínculo familiar, companheirismo,
compreensão, ajuda. São tantas as carências expostas nesta obra. Onde na
verdade a vida é retratada como ela é.
Mas a verdade é que todos ainda ficam chocados ao ouvir as histórias destes
prisioneiros. Mulheres trans, pobres, ricas, heterossexuais, gays e bissexuais.
Mulheres com um punhado de histórias e realidades diferentes que conhecemos. As
mulheres em particular são potencializadas nos cárceres para as mulheres em
situação de maior vulnerabilidade como grávidas, doentes, idosas, pessoas com
deficiência mental, indígenas e vítimas de violência sexual.
O livro que revela essas histórias com sensibilidade. As personagens
principais do livro são as mulheres e os caminhos que as levaram a uma vida sem
liberdade. A principal tarefa do livro é alertar sobre a crise carcerária feminina, que,
mesmo divulgada na mídia, não permite compreender a real dimensão da questão.
Porque quando se trata de roubo a realidade é muito mais cruel.
Completa é a ausência de quaisquer políticas públicas que considerem a
mulher encarcerada como sujeito de direitos inerentes à sua condição de pessoa
humana e, muito particularmente, às suas especificidades advindas das questões de
gênero. Isso porque, há toda uma ordem de direitos das mulheres presas que são
violados de modo acentuado pelo Estado brasileiro, que vão desde a desatenção a
direitos essenciais como à saúde e à vida, até aqueles implicados numa política de
reintegração social, como a educação, o trabalho e a preservação de vínculos e
relações familiares.

REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 6028: resumo,
resenha e recensão: apresentação. 2. ed. Rio de Janeiro, 2021.

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