Euler Clayton Gomes da silva

Exegese
Mateus 13.44

Exegese apresentada ao Presbitério de Nova Iguaçu como requisito parcial para a licenciatura. Conforme artigo 120, alínea “a”, do capítulo VII da CI/IPB

Nova Iguaçu Outubro de 2010

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SUMÁRIO
Exegese no texto de Mateus 13.44..................................................................................5 1. Introdução....................................................................................................................5 2. Texto Grego..................................................................................................................6 2.1 Texto grego e análise morfológica..........................................................................6 2.2.1 Tradução Idiomática.............................................................................................7 2.2.2 Tradução literal.....................................................................................................7 2.2.3 Tradução própria...................................................................................................7 2.3 Avaliação das modernas versões em português do Novo Testamento ...................8 2.3.1 Bíblia Almeida Revista e Atualizada ...............................................................8 2.3.2 Avaliação da Tradução de Almeida Revista e Atualizada...............................8 2.3.3 Bíblia TEB (Tradução Ecumênica Bíblica)......................................................8 2.3.4 Avaliação da Tradução da Bíblia TEB (Tradução Ecumênica Bíblica)...........8 2.3.5 A Bíblia de Jerusalém.......................................................................................9 3. Panorama do Evangelho de Mateus........................................................................10 3.1 A questão Sinóptica...............................................................................................10 3.2 O Evangelho de Mateus.........................................................................................11 3.2.1 Autoria................................................................................................................11 3.2.2 Data e Lugar.......................................................................................................13 3.3 Conteúdo e contexto maior e menor......................................................................15 3.3.1 Conteúdo.........................................................................................................15 3.3.2 contexto maior................................................................................................17 3.3.3 Contexto Menor..............................................................................................19 3.4 Modelos de estruturação do capítulo 13................................................................19 3.5 O ensinamento de Jesus: a recorrência de um esquema tripartido........................20 3.5.1 Os destinatários: em esquema bipartido:............................................................21 4. Análise literária.........................................................................................................22 4.1 Delimitação do texto .............................................................................................22 4.2 Estrutura do Texto.................................................................................................24 4.2.1 Subdivisão do texto e diagramação do conteúdo............................................24 4.2.2 Esquematização da estrutura do texto:...........................................................24 5. Nossa perícope Mt 13.44...........................................................................................24 5.1 Análise do gênero literário....................................................................................24 5.2 O tesouro escondido (13.44)..................................................................................27 5.2.1 A imagem do tesouro......................................................................................27 5.3 Análise do lugar vivencial (“sitz im leben)...........................................................28 6. Análise de conteúdo...................................................................................................29 6.1 O Reino dos céus...................................................................................................29 6.1.1 Tesouro escondido no campo, o homem acha e esconde...................................30 6.1.2 Alegria, atitude e valor.......................................................................................30 6.1.3 O elemento surpresa da parábola........................................................................31 6.2 Do símbolo à realidade..........................................................................................31 7. Análise teológica........................................................................................................32 7.1 Reino dos Céus: uma análise do termo..................................................................33 7.2 O Reino no Antigo Testamento.............................................................................34 7.3 O Reino no Novo Testamento...............................................................................34 Conclusão:......................................................................................................................36

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Tabela de Siglas e Abreviaturas

IPB CI/IPB Ed. Org. PNIG Preb. Rev. AT

Igreja Presbiteriana do Brasil Constituição Interna/Igreja Presbiteriana do Brasil Editor Organizador Presbitério de Nova Iguaçu Presbítero Reverendo Antigo Testamento

* Todas as abreviações de livros bíblicos seguem o padrão da versão de Almeida Revista e Atualizada, 2ª Edição, da Sociedade Bíblica do Brasil.

se suas fontes foram o chamado proto-marcos. Artigo 120. a dita fonte Q (Quelle = fonte em alemão)1 e ainda para o material peculiar de Mateus a fonte M com 1 N. Ex: Essa teoria busca entender as diferenças de material entre Mateus e Lucas que não estão em Marcos. Mas. apesar da vasta gama de textos relacionados a ele. os dito de Jesus sobre o Reino sua compreensão não é fácil. Esperamos ao término deste trabalho compreender não apenas o texto sagrado escolhido. nem tão pouco absolutizar a opinião do autor desta exegese. sua grata irrupção em Jesus. O texto de Mateus é rico em conteúdo e simbolismo. De fato é tarefa complexa buscar o entendimento do tema. Como Marcos é tido como base dos outros dois evangelhos. mas é isso que tentaremos fazer neste trabalho exegético. Nosso desejo é o de um aprendiz. desta forma desempenhá-la com mais eficácia. Não fará parte desta exegese uma análise aprofundada da composição do Evangelho de Mateus. Não é o intuito deste trabalho entrar em pormenores relativos a crítica literária alta e baixa. alínea “a” para a ordenação de candidato ao Sagrado Ministério. A perícope escolhida traz-nos informações essenciais para essa compreensão.5 Exegese no texto de Mateus 13. Introdução . mas a realidade do Reino de Deus contido nele e sua aplicação a vida cristã diária. Tendo sempre em vista que nosso propósito não é o de esgotar a questão. O presente trabalho exegético elaborado sob o texto de Mateus capítulo 13 versículo 44. mesmo entre os estudiosos do assunto há divergências sobre vários pontos. formulou-se a hipótese de uma fonte tradicional não conhecida chamada Q. que busca aprofundar seu conhecimento para entender melhor sua tarefa e. visa atender uma das exigências da Igreja Presbiteriana do Brasil [IPB] em sua Constituição Interna [CI/IPB] conforme se verifica no capítulo VII. ele é tema central da mensagem de Cristo e está permeado por todos os Evangelhos sinópticos.44 1. O Reino de Deus é assunto deveras importante para o cristão. a misericórdia e o beneplácito divino ao dá-lo a quem ele quer e a contrapartida humana nas exigências do Reino que são feitas ao discípulo. . deixando entrever desta forma a realidade do Reino dos Céus.

tal. Texto Grego 2. terceira pessoa do singular: oculto. βασιλεια – substantivo nominativo feminino singular: Reino. dativo. realeza. θησαυρω – substantivo dativo masculino singular: coisas preciosas acumuladas. mas com respostas suficientes para estes mesmos homens conheceram a vontade de Deus para suas vidas. ον – adjetivo pronominal relativo acusativo masculino singular: o qual ευρων – verbo particípio aoristo ativo nominativo masculino singular de ευρ ι σ κ ω : achar. εκρυψεν – verbo indicativo aoristo ativo terceira pessoa do singular: esconder και – conjunção coordenativa: e 2 Texto do Novum Testamentum Graece – Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft. ουρανων – substantivo genitivo masculino plural: do céu. 2. Oμοíα – adjetivo nominativo feminino singular: Semelhante. em última análise Deus é o autor e nos fez chegar o texto sagrado desta forma complexa e sem respostas a todos os questionamentos levantados pelos homens. no interior de. descobrir. 27ª edição. dentro de. masculino. τω – artigo definido dativo masculino singular: o. η – artigo definido nominativo feminino singular: o. εστιν – verbo ser ou estar na terceira pessoa do singular do presente do indicativo: é. tesouro. celeste.1 Texto grego e análise morfológica Oμοι α εστιν η βασιλεια των ουρανων θησαυρω κεκρυμμενω εν τω αγρω. . και απο της χαρας αυτου υπαγει και πωλει παντα οσα εχει και αγοραζει τον αγρον εκεινον2. a. αγρω – substantivo dativo masculino singular de αγρος: campo. ανθρωπος – substantivo nominativo masculino singular: ser humano. Entendemos que essa questão não é essencial por sabermos que. das. no texto tem a tradução por: dos. κεκρυμμενω – verbo particípio perfeito. de fato. pessoa. 1993. investidura real. da voz passiva. των – artigo definido genitivo masculino plural. a. ον ευρων ανθρωπος εκρυψεν. escondido. εν – preposição dativa: em.6 a inclusão dos logia.

2. tudo οσα – pronome relativo acusativo neutro plural: que εχει – verbo presente do indicativo ativo terceira pessoa do singular: ter και – conjunção coordenativa: e αγοραζει .verbo presente do indicativo ativo terceira pessoa do singular de αγοραζω : comprar τον – artigo definido acusativo masculino singular: o. o qual achar pessoa e de alegria ela partir e vender tudo que ter e Comprar o. αυτου – pronome genitivo masculino terceira pessoa singular: ele.campo aquele”.2.2 Tradução literal “Semelhante é o Reino dos céus. υπαγει – verbo indicativo presente ativo terceira pessoa do singular: partir. 2. και – conjunção coordenativa: e πωλει – verbo presente do indicativo ativo terceira pessoa do singular de π ο λ ε ω vender παντα . χαρας – substantivo genitivo feminino singular: alegria. : 2. ir embora.1 Tradução Idiomática Semelhante é o Reino dos céus [a um] tesouro escondido no campo. aquilo.7 απο – preposição genitiva: de της – artigo definido genitivo feminino singular: a. regozijo.pronome acusativo neutro plural: completamente. αγρον – substantivo acusativo masculino singular de αγρος: campo. εκεινον – adjetivo demonstrativo masculino singular εκεινος: aquele.2. aquela.2. e da [imensa] alegria ele vai e vende tudo o que tem e compra aquele campo. o qual [certo] homem achou [e novamente o] escondeu. ir.3 Tradução própria . coisas preciosas oculto dentro do campo.

4 Avaliação da Tradução da Bíblia TEB (Tradução Ecumênica Bíblica) • • A versão da TEB acrescenta ‘a um’ tesouro no texto traduzido para o português. vende tudo o que tem e compra aquele campo.8 “Semelhante é o Reino dos Céus a coisas preciosas ocultas num campo.3. põe à venda tudo o que tem e compra aquele campo. vai. Acrescenta o artigo definido ‘o’ antes do verbo ter. Acrescenta ‘transbordante’ antes de alegria.3.3 Bíblia TEB (Tradução Ecumênica Bíblica) O Reino dos céus é comparável a um tesouro que estava escondido num campo e que um homem descobriu: ele o esconde novamente. transbordante de alegria. o qual alguém acha e alegrando-se vai e vende tudo o que tem e compra aquele campo. . Acrescenta também ‘certo’ antes da palavra homem.3. e. E omite o artigo definido ‘o’antes do substantivo campo. E. em sua alegria. Acrescenta ‘um’ antes da palavra homem. Acrescenta ‘tendo-o’ antes do verbo achar. tendo-o achado.1 Bíblia Almeida Revista e Atualizada O Reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo.” 2. o qual certo homem. 2.3.3 Avaliação das modernas versões em português do Novo Testamento 2. 2. 2. escondeu.2 Avaliação da Tradução de Almeida Revista e Atualizada • • • • • • A versão de Almeida acrescenta ‘a um’ tesouro no texto traduzido para o português. vai.

• • Faz a inversão do pronome masculino ‘ele’ e acrescenta em sua tradução o advérbio de intensidade. Realiza uma substituição da preposição ‘em. • • Acrescenta o verbo do presente do indicativo ‘por’ e o artigo definido ‘a’ mais a preposição ‘a’ que resulta no a craseado. 2. Para a crítica textual3. . Bíblia TEB e Bíblia de Jerusalém são boas traduções. Elas acrescentam e omitem alguns termos porque realmente o texto em grego é um pouco truncado.3. no interior de’ mais artigo definido ‘o’. 33. As traduções de Almeida Revista e Atualizada. vai. Faz a substituição da preposição genitiva ‘de’ mais artigo definido genitivo feminino singular ‘a’ para a preposição ‘em’ mais o artigo definido feminino ‘a’ e acrescenta o pronome possessivo feminino ‘sua’.5 A Bíblia de Jerusalém O Reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido no campo. • Faz a inversão do artigo definido ‘o’ o colocando à frente do pronome relativo ‘que’. vende tudo o que possui e compra aquele campo. especificamente nesta perícope. dentro de. • • • • A versão da TEB acrescenta ‘a um’ tesouro no texto traduzido para o português. p. fazendo a tradução para ‘num’ campo. 3 Conforme Uwe Wegner em seu livro exegese do Novo Testamento.9 • • Acrescenta ‘que estava’ antes do verbo escondido. Faz a inversão do artigo definido ‘o’ o colocando à frente do pronome relativo ‘que’. Acrescenta ‘e torna a’ antes do verbo esconder. para a preposição ‘em’ mais artigo indefinido ‘um’. Faz a substituição da preposição genitiva ‘de’ mais artigo definido genitivo feminino singular ‘a’ para a preposição ‘em’ e acrescenta o pronome possessivo feminino ‘sua’. um homem o acha e torna a esconder e. na sua alegria. as presentes traduções fazem bem o papel de versar o texto grego para o português. Acrescenta ‘um’ antes da palavra homem.

p. A ida de Jesus a Jerusalém. não alteram. 6 Idem. . como também seu processo. consiste numa série de unidades distintas de narrativas e discursos. há secções homogêneas. visão de conjunto). independentemente de qualquer ligação espacial ou temporal. como também sua aparição em público. 3.5 Uma comparação entre os sinópticos é surpreendente principalmente por sua ampla semelhança no que diz respeito ao material. Mesmo assim. Portanto. Até a época de sua paixão.60. A exposição sinóptica. 1982. p. p. nem prejudicam o conteúdo do Texto Sagrado. Jesus exerce sua atividade quase que somente na Galiléia.6 4 5 KÜMMEL. por exemplo.1 A questão Sinóptica Não podemos falar do Evangelho de Mateus sem tratar mesmo que superficialmente da questão sinóptica (são derivados do grego σύνοψις / συνοπτικός.42. completas em si mesmas e freqüentemente colocadas uma após a outra. os três discursos polêmicos (relativos ao perdão dos pecados. São acréscimos explicativos que procuram tornar melhor compreensível o que estava implícito no texto. Vemos que os evangelhos sinópticos apresentam quase sempre a mesma seqüência de aparecimentos de Jesus: O aparecimento de João Batista estão unidos ao batismo e a tentação de Jesus. Mas. A semelhança se estende até a pormenores de estilo e de linguagem. 17ª edição: SP. O conteúdo e a disposição do material dos sinópticos estão intimamente relacionados. são narrados com muita semelhança. Idem. Introdução ao Novo Testamento. ligação com pecadores e também sobre o jejum). nas quais um material de conteúdo semelhante é reunido. Panorama do Evangelho de Mateus 3.41. Ed. como. seu aparecimento lá. porque aproximam o texto sagrado do leitor sem danificar sua mensagem. os três coincidem na descrição da atividade de Jesus. entre Mateus-Marcos e Lucas-Marcos. As atividades de Jesus são apresentadas de maneira semelhante. Werner. Paulinas.4 Mateus e Lucas têm material mais rico do que Marcos. Todos os três relatos terminam com a crucifixão e a ressurreição.10 concernente a este texto.

KÜMMEL. p. 16. enquanto Pedro e Paulo pregavam em Roma. Merrill C. 151 op cit Eusébio. Introdução ao Novo Testamento. p.16). Werner. Em sua redação os Evangelhos não trazem a sua autoria. i. e também faz referência a Irineu13 que afirma que Mateus escreveu um Evangelho entre os hebreus no seu próprio dialeto. Werner apud (Eusébio de Cesaréia. Tenney.10 O mais antigo testemunho. Adv. 1982. Tenney diz que a autoria de Mateus era incontroversa sobre os seguintes argumentos: 1 Mateus era membro relativamente obscuro do grupo dos apóstolos. 9 TENNEY. Um falsificador para ganhar fama teria publicado em nome de um apóstolo de mais renome. p. no caso. p.”11 Reforçando o argumento da tradição Tenney faz referência a Eusébio12 que cita Papias dizendo que o escrito de Mateus teria sido originalmente em aramaico. 13 TENNEY. . Introdução ao Novo Testamento. Sendo assim teremos que fazer uma análise de como o Evangelho da presente pesquisa recebeu o nome de Evangelho Segundo Mateus. 151 op cit Irineu.1 Autoria Os Evangelhos (to euangélion. ou na forma plural tà euangélia) esta palavra significa em grego “recompensa pela transmissão de boas novas8. Uma vez que o livro não traz nenhuma indicação de seu autor recorremos à tradição externa para identificação do autor. Merrill C. 151.2. Haer. 39. xxxix.146. III.11 No entanto. herméneusen d’autà hos en dynatòs hécastos. a perícope em estudo neste trabalho só é apresentada em Mateus. em seu livro O Novo Testamento – sua origem e análise. 10 KÜMMEL. 2 Há um consenso geral do conhecido caráter de Mateus. 1. diz que este Evangelho é tradicionalmente atribuído a Mateus Levi. Como publicano era letrado e estava 7 8 KÜMMEL.Hebraídi dialécto ta lógia synetácsato.. é a famosa passagem de Papias: “Matthaîos. – O Novo Testamento – sua origem e análise. cobrador de impostos ou publicano. Ele é uma das peculiaridades de Mateus cujos estudiosos atribuem a uma fonte chamada “M”. – O Novo Testamento – sua origem e análise. Introdução ao Novo Testamento. Werner.. op cit.146. História Eclesiástica III. – O Novo Testamento – sua origem e análise.7 3. Werner. 11 KÜMMEL. Historia Eclesiae.33. por isso não há boa razão para o tornar autor de uma obra espúria. Merrill C. 12 TENNEY. Paulinas. Segundo Merrill C.. p. o que faz dela uma passagem especial por sua singularidade.2 O Evangelho de Mateus 3. chamado por Jesus para fazer parte dos doze discípulos 9. Ed. 17ª edição: SP. III. p.

e. . o título “segundo Mateus” foi acrescentado por volta da segunda metade do século II 15. tampouco como as testemunhas mais tardias da igreja primitiva. o apóstolo. BROWN. 16 Idem..17 No entanto. A pergunta que é pertinente ao estudo é: estaria Papias falando de um original semítico de Mateus do qual o texto grego foi traduzido? Da tradição onde hauriu Papias suas informações. que é muito difícil responder com toda certeza à pergunta sobre a autoria de um Evangelho que não traz registrado em si. “o melhor é aceitar a opinião comum de que o Mateus canônico foi escrito originalmente em grego por uma testemunha não-ocular. Werner op cit. Já segundo Raymond E. p. Merrill C. Este título foi afirmado por Papias por volta do ano 125 quando escreveu: “Mateus dispôs ordenadamente os ditos em língua hebraica (= aramaico). parte de sua atividade profissional. 20 Idem. – O Novo Testamento – sua origem e análise. p. Robert H.. 307. cujo nome nos é desconhecido e que dependeu de fontes como de Marcos e Q” 20. 151-152. e cada um interpretava/traduzia conforme era capaz” 16. Brown. “[. ao mesmo tempo em que depende do Marcos grego. sendo essa afirmação apenas uma hipótese embasada na tradição18.Introdução ao Novo Testamento.. embora. A resposta mais razoável é que Mateus. Entretanto. 19 Idem. mas. apenas se pode provar a correção do nome “Mateus”. Raymond E. sem sombra de dúvida se refere ao Mateus que conhecemos. não há comprovação de que Mateus tenha escrito em língua semítica. em seu livro Introdução ao Novo Testamento. que dele dependem. em seu livro Mateus / Novo Comentário Contemporâneo diz que o forte argumento dos primitivos pais da igreja favorece a autoria do Evangelho. Mounce.] o Mateus que possuímos não é tradução de nenhuma língua semítica.12 acostumado a tomar notas. 306. Papias. Mounce se posiciona da seguinte maneira: “. mas. 309. Pode-se presumir que se trata do mesmo Matthaîos encontrado em todas as listas dos doze.. 18 Idem. foi escrito em língua grega. aliás. p. 3 A tradição de que este Evangelho fora escrito em aramaico não exclui mais tarde o fato de ter-se escrito uma edição em grego que substituiu a aramaica rapidamente14. p. jamais conhecera um Mateus em língua semítica. .”19 Brown responde que a maioria dos estudiosos acredita que o texto de Mateus foi escrito em grego. foi o responsável pelo 14 15 TENNEY. 17 KÜMMEL.

Robert H.Novo Comentário Contemporâneo. p. BROWN. . 311. – O Novo Testamento – sua origem e análise. Robert H. – Mateus . Raymond E. Merrill C. – Mateus / Novo Comentário Contemporâneo. p. o publicano. Precisase entender que não se podem descartar as pesquisas de aproximadamente 1900 anos antes da presente era. e. Raymond E. MOUNCE.2 Data e Lugar Quanto ao seu lugar os escritores eclesiásticos situavam Mateus na Palestina. 153. p. Mesmo o testemunho dos antigos não é suficiente para comprovar a autoria do Evangelho.C. 3. 23 Para esse argumento de lugar os autores pesquisados entram em concordância.Introdução ao Novo Testamento. .2. Contudo. Werner. 316. p. . 10 e TENNEY. vê-se que há uma discordância de pensamento quanto à autoria. p. 311. e que por trás do Evangelho jaz a autoria de Mateus. o que se pode acrescentar em conhecimento. em sua forma primitiva. Portanto. Introdução ao Novo Testamento. cobrador de impostos. é que os manuscritos dos Evangelhos não traziam o nome do autor. O fato é que sabemos quem quer que tenha escrito esse livro foi inspirado por Deus. Os que dizem que Mateus foi o escritor do Evangelho tendem a uma datação 21 22 MOUNCE. A opinião majoritária é de que o Evangelho de Mateus foi redigido na Síria. e o autor desta pesquisa prefere pensar desta maneira. visto que Mateus estava à vontade num ambiente de fala grega. na controvérsia interna com os judeus22. como a de Papias e outros autores. poderia ser Mateus ou outro autor de confiança da Igreja Primitiva. e escreveu para cristãos de língua grega em sua maioria de origem judaica. provavelmente em Antioquia23. p. Introdução ao Novo Testamento.Introdução ao Novo Testamento. Os estudiosos concordam quanto ao nome de Mateus que aparece nas listas mais antigas dos doze.24 Segundo Brown a opinião majoritária data Mateus no período entre 70 e 100 d. O que se sabe é o que a própria Bíblia nos diz: “homens santos inspirados pelo Espírito Santo”. e.13 Evangelho.145. um dos Doze” 21. 24 KÜMMEL. visto que a tradição mais antiga supunha que Mateus havia escrito em hebraico/aramaico. A composição na Palestina é dificilmente admissível. tais como: BROWN.25. que dissertaram sobre o assunto. p. 25 BROWN. no demais há teorias mil para se tratar da autoria deste livro. Raymond E. e hoje este livro nos serve como revelação e Palavra de Deus para todos os que ouvem o Espírito do Senhor soprar em seus ouvidos as Sagradas Escrituras do Evangelho de Mateus. 10.

C. 31 KÜMMEL.. p. 30 BROWN. devido ao uso que Inácio fez de Mateus. “Admitamos que Marcos e Mateus se tenham originado em regiões diferentes..8.C. C.Introdução ao Novo Testamento. p.C. deve-se atentar para a redação de Mateus que possivelmente contraria essa datação anterior a 70 d. quando se fala que o templo de Jerusalém seria chamado de casa de oração e a referência em Mateus 22. Mateus mostra em sua revisão de Marcos uma tão clara evolução de situação geral da igreja e da reflexão teológica (basta ver 18. 28 Esses argumentos são tirados do BROWN. . p. 29 KÜMMEL.”31 26 27 BROWN. do Filho e do Espírito Santo” em Mateus 28. 153.C. Mesmo assim.C. da tradição.C. Segundo Kümmel. datado no período entre 68 e 73 d. Raymond E.13.7) certamente aponta em direção a uma data posterior ao ano 70 d. baseado nos testemunhos de Papias e outros escritores antigos. O Novo Testamento – sua origem e análise.17. Para ele a adição da parábola das festas (22.27. 2 a formulação “em nome do Pai.144.C.146.19 é uma teologia trinitária desenvolvida no final do período neo-testamentário. 28. porém.7 ao rei que incendeia a cidade podem espelhar a destruição de Jerusalém pelos exércitos de Roma em 70 d. Contudo. Uma data situada depois do ano 100 d.15 observa-se que o dito “até o dia de hoje” revela que muito tempo havia se passado entre tais acontecimentos e a época em que o Evangelho foi redigido. Tenney.19) que uma data de composição logo depois de Marcos é menos provável do que o período de tempo situado entre 80 e 100 d. 316. Introdução ao Novo Testamento. Introdução ao Novo Testamento.26.29 Fato é que não se tem uma data exata com relação ao escrito do Evangelho segundo Mateus.15ss e 28.Introdução ao Novo Testamento. 317. Raymond E. o melhor argumento para uma data pós-70 seja a dependência de Mateus em relação a Marcos. p. 317.30.14 anterior a 70 d. p. estando fora de cogitação uma data anterior a cerca do ano 70 d. por exemplo. Raymond E. Werner. TENNEY. 4 provavelmente. C está excluída. no que respeita ao tempo de composição. há argumentos que condizem que a data mais plausível seria entre 80 e 100 d. Brown diz que existem bons argumentos contra uma datação tão antiga28: 1 em Mateus 21. 3 na narrativa de Mateus 27.C. data o Evangelho de Mateus entre 50 e 70 d. há uma omissão de “todos os povos ou nações” redigido por Marcos 11. Werner. . Merrill C. Introdução ao Novo Testamento. . p. o ponto de partida só pode ser a dependência em relação a Marcos.

27 (sepulcros caiados). então. não pode ser isenta de ambigüidades (pré-história e preparação para a atividade de Jesus: 1. segunda parte: Jesus a caminho de Jerusalém e predição da Paixão (16. primeira parte: Proclamação do Reino de Deus (4. Mateus não explica os usos e costumes. quem sabe por entender que este esquema lhe serviria melhor ao que tinha em mente. A estrutura acima é baseada numa fórmula de que apò tóte hercsato ho Iesûs ou Iesoûs Christós. Werner. ao invés da questão mais geral.3 Conteúdo e contexto maior e menor 3.21. Introdução ao Novo Testamento.33 No entanto. Introdução ao Novo Testamento. o que não seria viável nem honesto.11. um exemplo é o capítulo 23 que ficaria fora da divisão e sem encaixe no livro.1-4-4.35 Apesar de utilizar como fonte o material marcano.20 deve ser considerada.1-10).2 (ablução.5 (philactéria e franjas). Uns preferem a divisão que trás consigo a idéia de que os discursos de Jesus marcam a estrutura em cinco livros fazendo alusão à Toráh. das mãos).15 3. os preceitos e as expressões judaicos: 15.24 (coar mosquito). fora outras questões com os capítulos 1-2 e 26-28. 34 Para maiores informações sobre a questão ver KÜMMEL. a seguir enumeraremos algumas delas: 1. mas a perícope 26. 23.1-28.46 com exceção de 18.1 Conteúdo Podemos dividir o evangelho desta forma: Prólogo (1. como a baseada na divisão de Marcos. tomando-o como base de seu trabalho. 35 KÜMMEL. não traduz expressões hebraicas. Dispõe narrativas orientado-as para uma formulação especificamente rabínica de uma questão.20)32. . mais extenso. 23.16. Entretanto. essa estrutura. Werner.31-46) e conclusão: narrativa da Paixão e relato da Ressurreição (26. trazendo em Jesus a imagem de um “novo Moisés” seria forçar o texto em diversos ângulos. 23. Por exemplo.16).127.24.126.126. indica com clareza o começo de uma nova atividade de Jesus. Mateus tem muitas peculiaridades. Introdução ao Novo Testamento. Werner. Idem. p. essa divisão tem muitos problemas que devem ser considerados. De maneira geral Mateus usou o material de Marcos.20 e do 18. p. “se 32 33 KÜMMEL. p.4.3.17. predição do julgamento do Filho do homem sobre o mundo (25.34 A idéia de que Mateus quer inculcar em seus leitores uma atualização de Moisés. Ele aproveitou o esquema marcano das narrações. uma seção conclusiva independente.1-10).1-28. 2.1.

24ss cf. Traz toda uma série de ditos em apoio da validez incondicional da Lei mosaica: “Aquele. Loyola.] será chamado o menor no Reino dos Céus” 5. que violar um só destes menores mandamentos [. Mateus traz de preferência os “logia” de Jesus que circunscrevem expressamente a atividade de Jesus a Israel: “ Não tomeis o caminho dos gentios.12. 21. mediante seu endereçamento. Mateus teria sido proveniente do judaísmo com conhecimentos rabínicos a sua disposição. A conduta exigida dos discípulos é designada como dicaiosyne apenas por Mateus. 31. Mateus sempre usa a expressão peculiar sua he Basiléia tôn ouranon ao invés de he Basiléia toû theoû que se encontra exclusivamente em marcos e Lucas. Mateus apresenta Jesus como um intérprete preciso da Lei. interpretando a Lei de maneira judaica. trad. Cecília C.24. 10.2) Mateus 19. com algumas exceções. 5. teria retocado Marcos a partir de um ponto de vista judeu-cristão. a saber: 12. isso pode ser observado nas chamadas controvérsias ou. “Portanto. na medida em que prova o caráter messiânico de Jesus..85.23. Tendo como finalidade defender o cristianismo. 19.31. “Em verdade vos digo que não acabarei de percorrer as cidades de Israel até que venha o Filho do Homem” 10. Ele fala a uma comunidade ainda muito ligada ao judaísmo. Bartalotti: SP. nem entreis em cidade de samaritanos”.3. p. as sete petições e a formulação do pedido de perdão das ofensas 6.43.5. A oração do Senhor é colocada de forma a se aproximar do uso litúrgico judaico. fazei e observai tudo quanto (os fariseus e escribas) vos disserem”. 10. concluiu-se que Mateus. portanto.19. Nesses conflitos os fariseus se 36 OVERMAN.6. .16 é lícito repudiar a própria mulher” (Mc 10. O Evangelho de Mateus e o judaísmo formativo – o mundo social da comunidade de Mateus. Mateus adapta a maneira de se exprimir de Jesus às expressões próprias dos judeus.4. Baseando-se nestas considerações. histórias de conflito36. 4. Ed.3 traz a pergunta dos fariseus “É lícito repudiar a própria mulher por qualquer motivo que seja?” 3. J. com auxílio da tradição por ele usada.28. 23. usa opheilémata ao invés de hamartías Lc 11. 1997.. “Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” 15. tornando-o palatável para os leitores judeu-cristãos. Andrew.

o Filho do Deus vivo.143. e. onde Jesus dá instruções. A idéia é de que toda a vida de Jesus. Cecília C. trad. Mateus em ponto algum crê que o Evangelho seja uma boa nova de exclusividade judaica. onde Jesus instrui os seus discípulos quanto ao comportamento piedoso. Werner. O capítulo 13 é o terceiro grande sermão de Jesus. O Evangelho de Mateus e o judaísmo formativo – o mundo social da comunidade de Mateus.17 colocam no primeiro plano como opositores a Jesus. o interesse de Mateus não está nas questões judaicas.37 Mas. Loyola. do uso da bíblia hebraica e de suas profecias.” Mt 28.. portanto.39 3. fazei discípulos de todas as nações. e do Espírito Santo. ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. os escribas. batizando-os em nome do Pai. . Ed. O segundo grande sermão está registrado no capítulo 10. J. p 119. Em Mateus. apesar de todo seu aparato quanto a Lei. pelo contrário. O primeiro grande sermão é o chamado Sermão da Montanha registrado nos capítulos 5-7. a mensagem de Jesus é válida para todos os povos. Eles são mencionados junto com os fariseus em algumas passagens no que parece ser uma fórmula fixa. até nos pormenores estava no plano predeterminado de Deus.81. Introdução ao Novo Testamento. Bartalotti: SP. “Ide.38 Obviamente. admoestações e estímulos. Fazse a nomeação dos Doze. Há pelo menos 14 citações de cumprimento em Mateus. Ele está interessado em provar que Jesus é o Messias. Essas citações são notas explicativas do autor para esclarecer que algo aconteceu na vida e no ministério de Jesus e que dessa maneira cumpriu algo escrito e previsto por um dos antigos profetas. e do Filho. mais da metade dessas citações de cumprimento vem do livro do profeta Isaías. Andrew. do conhecimento das tradições judaicas. 1997.19-20 Uma das características do Evangelho de Mateus são as chamadas “citações de cumprimento”.3. prometido por Ele desde tempos imemoriais. 37 38 Idem. esse termo refere-se especificamente à utilização de uma profecia da bíblia hebraica com a afirmação de que um determinado evento acontece “para cumprir” algo que foi previsto por um profeta. Há também outro partido judaico envolvido na oposição. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século. p.2 contexto maior O contexto maior abrange todo o Evangelho de Mateus. OVERMAN. enfatizando que esta salvação é obtida através de Jesus na sua igreja frutificando bons frutos para o Reino de Deus. p. e que salvará seu povo. 39 KÜMMEL.

jejum (6. A natureza do Reino (capítulos 11-13) A.18-25) 2. o senhor do sábado O capítulo 13 é uma continuidade do discurso de Jesus quanto ao Reino dos céus. Prólogo (capítulos 1-2) A.23) 1.13-48) 3-A piedade no Reino: caridade. .1-12) 3.Resposta às obras de Jesus e de João (capítulo 11) 2.1-11) B. O anúncio do Reino (4.Jesus é batizado por João (capítulo 3) 2. Cura de enfermos e o chamado dos discípulos (capítulo 8-9) B.1-12) 2-Interpretando a lei para o Reino (5. E o terceiro grande sermão registrado no capítulo 13 é uma instrução quanto ao Reino dos céus.13-23) II.Anúncio a José e nascimento de Jesus (1. O nascimento do Rei (1. A genealogia do Rei (1. Portanto.18-2.1-4. O segundo discurso: a missão do Reino (capítulo 10) IV. O primeiro discurso: o sermão do monte (capítulos 5-7) 1-As bem-aventuranças (5. As obras do Reino (capítulos 8-10) A. oração.“Do Egito chamei o meu filho” (2.Jesus.A tentação no deserto (4. Proclamação do Reino (capítulos 3-7) A.Adoração dos magos (2. A identidade de João e de Jesus (capítulos 11-12) 1. O início do Reino de Jesus (3.13-48) 5-Os padrões de julgamento no Reino (capítulo 7) III.1-18) 4-Um coração para o Reino (5.11) 1.12-25) C.18 chamado de Sermão da Missão. a perícope é uma continuidade das obras do Reino relatadas nos capítulos 8-10 e é seguida por narrativas e discursos quanto à autoridade do Reino nos capítulos 14-18. 1-17) B. a estrutura do Evangelho segundo Mateus como se segue: I. No contexto do livro.

5. 2. 44 – A parábola do tesouro escondido. 14. Esquema Introdução ao discurso parabólico Parábola do semeador Por que Jesus fala em parábolas “Felizes vós que vedes” Explicação da parábola do semeador Como receber o ensinamento de Jesus Parábola da semente que cresce por si só Parábola do joio Parábola do grão de mostarda Parábola do fermento Conclusão sobre as parábolas Explicação da parábola do joio Parábola do tesouro Parábola da pérola Parábola da rede Conclusão do discurso parabólico Mateus Cap. 6. 10-23 – Depois passa-se à explicação da parábola do semeador. 31-32 – A parábola do grão de mostarda. Neste texto o Senhor Jesus ensina verdades acerca do Reino. 9. 45-46 – A parábola da pérola. 12. • • • • • • • • • • • • 1-9 – Inicia-se o discurso de Jesus com a parábola do semeador.3 Contexto Menor O contexto menor da perícope escolhida é o próprio capítulo de Mateus 13. 13 13. 3.4 Modelos de estruturação do capítulo 13 Perícope 1. 34-35 – Por que Jesus falou por parábolas. 11. 7.19 3. 36-43 – A explicação da parábola do joio. 4. 13. 15. 47-50 – A parábola da rede. 10. 24-30 – Jesus profere a parábola do joio.1-3a 3b -9 10-15 16-17 18-23 24-25/ Mc 21-25/ Lc 16-18 26-29/ 24-30 31-32 33 34-35 36-43 44 45-46 47-50 51-53 . 51-52 – Jesus proferindo acerca do escriba versado no Reino dos céus. 8.3. 33 – Parábola do fermento. 53-58 – O capítulo é concluído quando Jesus prega em Nazaré e é rejeitado. 16. 3.

apenas parábolas. De acordo com o esquema esboçado.10-17) deve então ser agrupada como C no ensinamento aos discípulos. . Enquanto B trata do motivo da pregação em parábolas.18-23 = perícope 5 II. o capítulo compreende catorze perícopes. Michel. tirando a introdução (1) e a conclusão (16) do discurso. Assim.Ed.30. enquanto a segunda (13. 10. mencionando correspondências reais. B’ considera esta como realização plena das Escrituras.4 e11) 40. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus. perícopes. 8. Loyola: SP.20 3.5 O ensinamento de Jesus: a recorrência de um esquema tripartido O capítulo 13 de Mateus como sobressai na tabela acima. sete (2. como o fazem as divisões A-A’ e C-C’.15) consistem em parábolas e duas (5 e 12) em explicação destas. sendo que as perícopes 6 e 7 só figuram nos paralelos de Marcos e de Lucas. 13. enumeradas de 1 a 5 e de 8 a 16.34-35 = perícope 11 C’ Interpretação reservada aos discípulos 13.1-23 A Parábola contada às multidões 13. Idem. contém estritamente. p.1-17 (B) e agrupá-lo na mesma rubrica – razão de ser das parábolas – levando em conta o desenvolvimento muito desigual das duas seções e do ângulo sob o qual as parábolas são abordadas tanto de um lado quanto de outro.10-17 = perícopes 3-4 C Interpretação reservada aos discípulos 13. Para o restante.34-35) entra de preferência com A’ no ensinamento às multidões. ele não aparece exato.1-9 = perícopes 1-2 do esquema B Razão de ser das parábolas 13. o capítulo relata um ensinamento de Jesus em relação às parábolas (3. Se quisermos podemos levar em conta o auditório de Jesus. I. A primeira (13.36-53 = perícopes 12-16 Se olharmos com atenção esse esquema.24-33 = perícopes 8-10 B’ Razão de ser das parábolas 13. Dessas catorze.24-53 A’ Parábolas contadas às multidões 13. Mateus 13. no fundo se trata apenas de categorias com a função de justificar o conteúdo das duas seções.41 40 41 GOUGUES. Mas. Mateus 13. seria perfeitamente indicado ver em 13. 14.34-35 (B’) o correspondente de 13. 9.

A-A’ A B-B’ A’ B-B’ A-A’ Semeador e explicação Joio Grão de mostarda-fermento Explicação do joio Tesouro e pérola Rede e explicação Podemos ainda encontrar estruturas quiásmicas (onde dois elementos A e A’ correspondem a um pólo central B) no capítulo como vemos no exemplo das parábolas de 13.21 3.B’) das quatro seções sendo providas de uma introdução própria e a seção A’ de uma sumário final (13.1-9 = perícopes 1-2 do esquema B Ensinamentos aos discípulos 13. Mateus 13. neste esquema. M exemplo é que se designarmos A e A’ as parábolas munidas de uma explicação e pó B e B’ as parábolas gêmeas. Idem. um esquema bastante harmonioso que responde sem dúvida a uma intenção do evangelista43.24-28ª e 13.42 Podemos chegar a mais estruturas de acordo com o critério usado. Por exemplo: I. sendo este. E essas indicações mostram uma ordem de alternância entre o esquema tripartido mostrado acima e outro surgido dos destinatários.36-53 = perícopes 12-16 Essa estrutura bipartida tem a vantagem de se apoiar sobre indicações explícitas de Mateus. Podemos observar que as seções A’ e B’ são três parábolas introduzidas da mesma maneira.33. Cena I: MT 13. um esquema bipartido.1-23 A Ensinamento às multidões 13.24-53 A’ Ensinamentos às multidões 13. seguindo a ordem dos elementos.34-35). . três (A. p.B.1 Os destinatários: em esquema bipartido: Neste capítulo o evangelista menciona por quatro vezes os destinatários do ensinamento de Jesus.24-28a = Situação A Semente do trigo (24)/ semente do joio (25) B Crescimento do trigo (26a)/ Crescimento do joio (26b) 42 43 Idem. Mateus 13.28b-30. desempenhando um papel equivalente. obtemos.5.32.24-35 = perícopes 8-11 B’ Ensinamentos aos discípulos 13. p.10-23 = perícopes 3-5 II.

trad. e a encontraremos novamente no v. transbordante de alegria. neste tipo de trama a questão do conhecimento é central. Odila A. todas bem divididas46. Análise literária 4. 47. Paulinas. Loyola. Loyola.. Horácio. p 136. p. op cit. Costa.. no início da parábola da rede. Portanto. Delimitar um texto.28b-30 = Solução A Afastada: Arrancar o joio (28b)/ semente do joio (29) B Conservada (agora): Deixar crescer juntos (30a) C Conservada (no fim): Arrancar o joio (30b) / Recolher o trigo (30c) Essas estruturas são apenas exemplos de formas encontradas no capítulo 13 de Mateus que servem como ajuda na compreensão do mesmo. Ed. de Queiroz: SP.56. por isso. três parábolas consecutivas. 4.45).”. 47 SILVA. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus – das origens à atualidade.22 C Semente do trigo (27) semente do joio (28ª) Cena II: MT 13. Há critérios de delimitação tanto superiores. 46 Gougues. Ed. vende tudo o que tem e compra aquele campo.: SP.).). ao conhecimento final (E. Elementos que indicam um novo início: 44 SILVA. 2000. trad.. não é nosso objetivo analisar todo o capítulo. portanto. apenas exemplificamos tipos de estruturas como maneira de tornar a análise de nossa perícope melhor compreensível. O resultado desta delimitação se chama perícope. vai. Michel. Cássio Murilo Dias da. para introduzir a parábola da pérola. 45 Simian-Yofre. 2004. A parábola do tesouro. 2ª edição 2003: SP.1 Delimitação do texto Um texto se caracteriza por ter começo. meio e fim. p. Parti-se da ignorância inicial (O Reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo. Ed. significa estabelecer os limites superiores e inferiores.69. João R. . que cabe apenas em um versículo. começa com uma fórmula típica: “O Reino dos Céus é semelhante.. ou seja. quanto inferiores47. onde ele começa e onde ele termina44. A mesma fórmula é repetida no versículo seguinte (13. Metodologia do Antigo Testamento. Cássio Murilo Dias da. Em termos de análise textual podemos classificar a perícope como uma “trama de revelação” 45. Metodologia de exegese bíblica.

p. e. o início de outro texto. 3 – O texto escolhido é um parágrafo completo. 74. marcando o início de outra mensagem através de parábola. No v. há uma mudança de personagem (critério de actantes e personagens). utilizando o critério de introdução ao discurso demonstrando assim. . há uma fórmula de término “quem tem ouvidos [para ouvir]. Por estas razões o texto deve ter como delimitação somente o versículo 44. ouça.23  Tempo e espaço  Actantes ou personagens  Argumento  Anúncio de tema  Título  Introdução ao discurso  Mudança de estilo Elementos que indicam o término:  Actantes ou personagens  Espaço  Tempo  Ação ou função do tipo partida  Ação ou função terminal  Ruptura de diálogo  Comentário  Sumário No caso de nossa perícope temos as seguintes características delimitatórias: 1 – A perícope anterior é uma explicação da parábola do joio e tem uma conclusão (versículo 43). tal). 48 KISTEMAKER. 44 Jesus compara o Reino a um tesouro e nos vv. – As Parábolas de Jesus. 2 – Apesar da parábola do tesouro não marcar uma delimitação natural ao iniciar como as outras parábolas do capítulo 13 – “outra parábola lhes propôs” – tem sua delimitação no uso de Oμοíα (‘omoía – semelhante. apesar da mensagem posterior (versículos 45-46) ter a mesma conotação. quando estes mudam indicam término da seção. 45-46 compara o Reino a um mercador que procura pérolas48. Simon J.

A. 44b A parte “b” do versículo 44 narra a alegria do homem ao encontrar o tesouro. 44a Jesus inicia seu discurso com o adjetivo Oμοíα. – Deus Conosco.9). comparando o Reino dos céus a um tesouro oculto no campo. Nossa perícope Mt 13.23). As parábolas remontam muitas vezes a um provérbio (Lucas 4.24 4.1 Subdivisão do texto e diagramação do conteúdo O texto pode ser subdividido em – partes. 4. D. .2 Estrutura do Texto 4.44 5. • • Segunda parte: v. O homem vende tudo e compra o campo. 109-110. a um ditado profundo ou obscuro (Mateus 13. Terceira parte: v.2 Esquematização da estrutura do texto: I – A comparação que Jesus faz do Reino a um tesouro (a) II – O tesouro encontrado produz alegria (b) III – E motiva o homem a desprender-se de tudo para possuir o tesouro (c) 5.35). 44c A parte “c” do versículo 44 mostra a atitude do homem que deseja ardentemente se apossar do tesouro. o qual certo homem acha e esconde novamente. Um dos fatores constitutivos de uma parábola consiste num elemento 49 CARSON. a um símbolo ou imagem não verbal (Hebreus 9. p. a algum tipo de comparação sem ornamentos de um enredo (Mateus 15)49.1 Análise do gênero literário A perícope é um discurso de Jesus a cerca do Reino dos céus no gênero literário chamado de parábola.2. que podem ser diferenciadas pela mudança de ação e atitude por parte do ator: • Primeira parte: v.2.

. do mesmo modo que a da rede. 44a O Reino dos Céus (η βασιλεια 45a O Reino dos Céus (η βασιλεια των ουρανων) 50 51 των ουρανων) GOUGUES. Diante disto podemos montar o seguinte quadro53: A-A’ (Joio e explicação) B-B’ (mostarda e fermento) B-B’ (tesouro e pérola) A-A’ (rede e explicação) O Reino escatológico O Reino presente O Reino presente O Reino escatológico Perspectiva ameaçadora Perspectiva consoladora Perspectiva consoladora Perspectiva ameaçadora Talvez as três parábolas tenham sido reunidas como parábolas do Reino hoje. podemos perceber nelas outro esquema.50 A parábola a qual estamos estudando tem o estilo de comparação. . Michel.47)”: o fato de nossas duas parábolas. e a última parábola ganha um aspecto escatológico. sejam introduzidas exatamente da mesma maneira já sugere uma aproximação arquitetada pelo evangelista. Há o mesmo aspecto nas parábolas do grão de mostarda e do fermento. 53 Idem.. até mesmo uma extravagância. p.44).. Podemos perceber que há um esquema de perspectiva ameaçadora e consoladora no que concerne ao Reino. “O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro (v. GOUGUES. Como já falamos em parábolas gêmeas. p.. Há uma estrutura comum que envolve dois pares antitéticos. 52 Idem. Outra estrutura vista nesta perícope diz respeito também com a parábola da pérola.. Esta ligação é ainda fortalecida pela presença da fórmula “O Reino dos céus é ainda semelhante. De um lado e de outro há a descoberta de um bem precioso que leva a vender tudo.. 65. a uma rede (v. fora dos padrões.25 inesperado. Compara o Reino dos céus a um tesouro. op cit.52 Elas são comumente chamadas de parábolas gêmeas. a um negociante (v. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus.45). As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus.. No nosso caso o fato de ter de vender tudo é a marca da extravagância.. Situada na seqüência a parábola do tesouro e da pérola uma face positiva e complementar do Reino. a fim de efetuarr sua aquisição. Em nossa perícope podemos ver que ela é uma atenuação do discurso duro da parábola anterior (joio) que termina com uma evocação ameaçadora do julgamento dos pecadores. Michel.57.” 51 de fato são tantas as similaridades entre as parábolas do tesouro e da pérola que é importante estudá-las juntas.

as afinidades se estendem até ao vocabulário e a formulação. veremos que elas se articulam em torno de um duplo par antitético.. ir-se. que narra a descoberta. comprar) são comuns aos dois. Particularmente em Mateus esse verbo (υπαγω ) marca regularmente. é completa em si mesma com verbo no passado. vender. Percebemos também que tanto o verbo que expressa descoberta (tendo achado) é seguido imediatamente pelo verbo ir-se (vai e vende). a passagem de uma etapa para outra ou. Podemos colocar dessa forma: primeiramente temos o par escondido-achado (13. principalmente na última parte das parábolas gêmeas (13. 46b).44b. depois de um lado e de outro. e vende. teremos cinco passos. Se observarmos mais de perto. E de outro lado o par procurar-encontrar (13..44a). . é semelhante (Oμοíα εστιν) no a um homem (ανθρωποi) que anda em busca de pérolas finas 46 ao achar (ευρων) uma perola de grande valor vai tendo-se ido (α π η λ θ ω ν ) vendeu tudo o que possuía possui (π η π ρ α κ η ν παντα οσα εiχειn) e a comprou (ε γ ο ρ α σ η ν ) 54 GOUGUES. Esse verbo vai marcar a mudança de lugar e sugere uma mudança de cena.44ª).. Muito mais.46).44b) do personagem em seguida descrita em três verbos no presente (“ele vai. A primeira parte do quadro acima descreve a descoberta (antíteses “escondido-encontrado” e “procurar-encontrar”). o alegria. na sua (υπαγει) E vende tudo o que (υπαγει και πωλει παντα οσα εχει) E compra (αγοραζει) aquele campo De um lado e de outro.45-46ª).e compra). e a segunda a reação suscitada por ela (mesma antítese “vender-comprar”)54.26 é semelhante (Oμοíα εστιν) a um tesouro escondido campo que um homem (ανθρωπος) ao achar (ευρων) o escondeu 44b e. op cit. Neste esquema temos a primeira frase da perícope (v.. Desses cinco. muito particular. Michel.13.. a mesma antítese vender-comprar (13.. Deste modo podemos dividir as ações em duas: descoberta e reação. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus. se contarmos os verbos que se referem aos dois personagens.44b. se quisermos. quatro (encontrar. a reação vem logo após (v. como os paralelos dos textos o ressalta bem.

de um passo fundamental (descoberta) a outro (reação). p. que na verdade são expressões equivalentes. podemos analisar a imagem do tesouro.2.1 A imagem do tesouro A imagem do tesouro. 58 GOUGUES. no episódio do apelo do jovem rico (Mc 10. Michel. Isto posto. substituindo Reino de Deus por Reino dos Céus. A imagem do tesouro volta ainda em outro lugar: “Não ajunteis para vós 55 56 Idem.27 passo inicial de um novo engajamento.44) Vimos que ambas começam com a mesma fórmula introdutória “O Reino dos Céus é semelhante.).. Portanto.1 (o contrato dos trabalhadores).2 O tesouro escondido (13.47 (a rede) e 20. nos Evangelhos. nos três sinópticos.44b) II: comprar-vender Antítese II: vender-comprar (13.55 Tesouro (13.44a Procura-encontrar 13. É assim que a encontramos .61. é bastante costumeira. .44) Pérola (13. vende tudo o que tem e compra aquele campo. em 13. O mais impressionante é que nesta parábola ela se apresenta como algo que motiva a renuncia de tudo em favor dele “vai vende tudo o que tens e terás um tesouro nos Céus” diz Jesus ao jovem. 5. 57 Elas são encontradas ainda no início de duas parábolas próprias de Mateus.. Idem. Crê-se que Mateus tenha recebido essa fórmula por tradição 57.” 58 Não há apenas ocorrência de palavras iguais. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus. mas também as idéias se correspondem.46b 5. Na parábola esse verbo garante a passagem de uma antítese à outra.45-46a Reação Transição: “ele vai” (υπαγει) Transição: “tendo-se ido” (α π η λ θ ω ν ) Antítese (13. a essa tradição ele teria colocado algo seu.21). em nossa perícope diz assim: “vai.45-46)56 Antítese I Descoberta Escondido-achado 13.

63 Esta interpretação é comum a HENDRIKSEN.. 104. op cit. na ausência de bancos. esta prática era tão usada naquele tempo. Devido às guerras. e. mais seguro. portanto.61 Na parábola do tesouro. Este lhe vem por pura graça. Mateus 6. Mt 6. sem que ele esperasse ou imaginasse algo semelhante. Flávio Josefo diz que: “uma quantidade considerável foi 59 60 Idem. a atenção é dirigida de imediato para o tesouro escondido.Novo Comentário Contemporâneo. no entanto.21. que ofereciam acesso fácil a ladrões – o próprio Jesus. Uma cultura onde. que nos dias de hoje estão sendo desenterrados objetos de valor na Palestina64. – Mateus . no Sermão da Montanha. Segundo Mounce.3 Análise do lugar vivencial (“sitz im leben) A parábola mostra que Jesus estava bem interado no contexto social de seu público. 61 Idem.” 59 Uma sentença de sabedoria nos ajuda a esclarecer a dimensão de nossa perícope. Robert H.62 5. Simon J. ele o encontra sem sequer precisar procurar. parecia aos homens da época. Portanto. enterrar suas riquezas no campo. vale a pena poder investir a fundo para possuí-lo.] mas ajunteis tesouros nos Céus. KISTEMAKER.. o Reino é comparado não aos personagens. onde está o seu tesouro. mas às realidades que fazem os personagens agir. o que faz viver e. 144. aí está o teu coração”. William – Mateus: Comentário do Novo Testamento. 64 MOUNCE.60 Aqui como em outras parábolas do mesmo capítulo.19) – os chefes de família recorriam a métodos de enterrar suas preciosidades63. a procurar. p. volume 2. era comum a prática de esconder-se na terra bens dos quais se queria garantir a segurança. Michel. – As Parábolas de Jesus. invasões e dificuldade de se achar um lugar seguro onde depositar valores. . 74.28 tesouros na terra [. a existência dele é ignorada por quem irá descobri-lo. p. 62 GOUGUES. Idem. por causa da fragilidade das casas. como fará o personagem da parábola. “Pois. O tesouro é que mobiliza o “coração”. o objeto das afeições. p. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus. Podemos sublinhar o caráter gratuito da descoberta e a sorte inaudita do descobridor. Nas parábolas do joio e da pérola mencionam primeiramente a ação humana: o semeador começou a semear e o negociante. ensinou que não se deve acumular tesouros onde ladrões possam roubar (cf.

Por isso o Jesus de Mateus é um excelente intérprete da Lei para marcar a posição do evangelista de que a Lei é bênção de Deus e Jesus seu maior cumpridor. Mateus tem preferência por Reino dos Céus. Ele usa o simbolismo do tesouro escondido para salientar a preciosidade do Reino e seu dom gratuito. O Evangelho de Mateus está intimamente ligado a comunidade com uma identidade judaica muito forte.1 O Reino dos céus Reino de Deus e Reino dos Céus são termos equivalentes. p. João o Batista também em sua mensagem apregoava que o Reino de Deus estava próximo. II. Ed. O Novo dicionário da Bíblia vol. trad.Comentário Esperança.29 encontrada (de tesouros. Fritz – Evangelho de Mateus . 65 66 GOUGUES. Este reino é o tema central da mensagem de Jesus. 6. 114-115). . é a partir de sua encarnação que a eclosão deste Reino acontece. p. um contexto social de judeucristãos às voltas com opositores de partidos judaicos (fariseus e escribas). 1383. e mostra os valores do Reino Deus. 1984. mensagem que o próprio Jesus deu continuidade.C. se há são bem poucos. Esta é a situação vivencial de Mateus. Guerra dos Judeus. Análise de conteúdo 6. prata e os outros bens preciosos que os judeus possuíam”. enterrada na cidade) pelos romanos. Vida Nova.D. Michel apud (Flávio Josefo.61. p.66 Esse Reino precisa ser pregado a toda a criatura. João Bentes: SP. Ouro. Fritz – Evangelho de Mateus . 59.65 Jesus entra na situação vivencial daquele povo através de uma parábola. É nesse contexto social de um povo em meio a colonização romana onde a religião serve como fator unificador e de definição de identidade que nasce este livro tão rico e tão peculiar nos mostrando um messias cheio de autoridade e fiel as tradições de seu povo sem contudo. 68 RIENECKER. forma usada por Mateus apenas 5 vezes68. por ocasião da tomada de Jerusalém em 70 d. não que se possa excluir que haja no meio gentios. DOUGLAS. 67 RIENECKER. abrir mão da obediência a seu Pai.Comentário Esperança. VII. 59. Este tema central da mensagem de Jesus nesta parábola só é relatado desta forma em Mateus e 37 vezes67. ou seja. Nos outros evangelhos sinóticos e em textos bíblicos vão tratar desta temática como “Reino de Deus”. p. J. significam a mesma coisa.

72 HENDRIKSEN. 73 Idem. Outros ainda acham que por ser um trabalhador modesto trapaceou ao esconder o tesouro para enriquecer e mudar sua condição de vida. transbordante de alegria. Trabalhava no campo pertencente a outrem. p. Robert H. Sua atitude é espontânea – não faz menção a nenhuma deliberação . p. 70 Idem. Este comportamento tem criado divergências entre os exegetas.30 Tecnicamente não há diferença entre um termo e outro. p.20. sem dúvida pobre. Ambos falam da mesma coisa. Sua intenção é garantir a manutenção e conservação de sua descoberta.. o de alegria (. Mateus utiliza a expressão “Reino dos céus” e evita a expressão “Reino de Deus” em reverência ao nome de Deus69. o homem apressa-se em escondê-lo. O que podemos dizer é que este homem não é proprietário desta terra. Na verdade. . 71 MOUNCE. – Mateus -Novo Comentário Contemporâneo. Uns tentaram inocentar nosso personagem ao reivindicar o direito rabínico que diz: “só o proprietário pode desbloquear o tesouro escondido”. e ela é identificada à do “homem que ouve a Palavra e a recebe imediatamente com alegria” Mt 13. Hendriksen diz que não se sabe com que direito o homem estava cavando no campo de 6. o homem acha e esconde Descoberto o tesouro. 6. 59. O Reino é comparado a este tesouro que o homem quer garantir pra si. vai. no entanto.age como se fosse normal agir assim. Segundo Hendriksen o homem da parábola poderia ser um arrendatário73. a parábola não nos fornece quaisquer informações que possam corroborar tais conjecturas. 71 . Fritz – Evangelho de Mateus / Comentário Esperança. – Mateus – Novo Comentário Contemporâneo. quando topou com um tesouro” outrem72. William – Mateus – Comentário do Novo Testamento volume 2. 69 Concordam com esta interpretação: RIENECKER. vende tudo o que tem e compra aquele campo). 144. MOUNCE.1. Mounce diz que “o homem em questão era aparentemente um peão de fazenda. tudo fará para sê-lo.1 Tesouro escondido no campo.. 104. Robert H. p. atitude e valor Em seguida podemos ver que a atitude de esconder é seguida de um sentimento.1.62. 144. Essa alegria havia sido mencionada antes na parábola do semeador.2 Alegria. Uns acham que seria ilegal ele esconder o tesouro que foi achado na terra de outrem70. p.

6. Podemos 74 Idem. e que destoa e causa admiração. Na parábola em questão vemos que o personagem precisa dispor de tudo o que tem. O tesouro poderia ser descoberto por alguém de posses.3 O elemento surpresa da parábola Temos também um elemento de surpresa na parábola. O texto coloca em relevo a atitude de vender tudo o que se possui. O que nos leva novamente a motivação do descobridor em dispor de seus bens. O investimento do sujeito é de acordo com o valor do objeto. O caráter único do tesouro faz com que o personagem faça tudo para adquiri-lo. por isso. toda sua fortuna. é a exigência de se vender tudo para adquirir o tesouro.74 Mas. . como vimos isso era o costume da época. mas esta não pode ser vista sem a motivação para tal. é preciso antes abrir mão do que se tem. O que nos chama a atenção. sua alegria decorre do sentimento de quem foi agraciado. que não precisasse dispor de sua fortuna.31 A parábola deixa claro que para se ter esse tesouro. nem a alegria da descoberta é algo fora do padrão. a motivação encontra eco na ação.66. tanto uma.1. A intervenção deste último sobrevém como sorte extraordinária que só se apresenta uma vez na vida de uma pessoa e por isso é preciso agarrar a oportunidade. isso seria algo normal. como outra querem sublinhar a ocasião única que a vinda do Reino de Deus representa.2 Do símbolo à realidade Como vimos Mateus usa de parábolas gêmeas como supracitado para evidenciar a realidade do Reino dos Céus. Esta realidade que une as duas parábolas. o evangelista quer salientar o sacrifício que se tem de fazer para adquirir o tesouro. Este não consiste no fato de ter de esconder ou enterrar seu achado. p. Seu valor é inestimável para quem o encontra (o homem) a ponto de se consentir em se despojar de tudo a fim de obter o tesouro. Por isso os personagens não hesitam e fazer tudo para agarra à chance que tiveram. 6. A amplidão da exigência decorre da amplidão do dom. O que ele encontrou não tem preço. vale o sacrifício. Uma apropriação que exige uma total desapropriação. para de fato obter o bem mais precioso.

Hendriksen comenta a respeito desta idéia da seguinte maneira: “A essência da parábola consiste em que o Reino do céu. e isto não vem de vós.. Segundo Mounce. convertei-vos e crede no evangelho” Mc 1. o alegre reconhecimento do governo de Deus no coração e vida. o Reino dos céus é a preciosidade da vida daquele que o encontra. inclusive a salvação para o presente e para o futuro.8-9.” Portanto. O texto analisado pode ser visto em conjunto com a parábola da pérola como outrora foi dito. Jeremias 29.15b. É a graça divina que providencia uma forma de chegar até o ser humano. tudo isso é um tesouro tão inestimavelmente precioso que aquele que o obtém se predispõe a entregar por ele tudo quanto possa interferir em sua obtenção. mediante a fé. para a alma e finalmente para o corpo. O Reino dos céus tem valor supremo.Novo Comentário Contemporâneo. para que ninguém se glorie. . à intervenção de Deus. em nossa vida.1114 diz que o Senhor tem pensamento de paz para com o seu povo para dar o que 75 Notemos que em Mateus a ordem do apelo e da proclamação está invertida: “Convertei-vos. abrimos mão com máxima alegria de tudo aquilo que faz concorrência com o Reino.. É o tesouro supremo. é dom de Deus. 76 MOUNCE. o grande privilégio de assim ser transformado em bênção para outros para a glória de Deus.32 observar que à oferta do tesouro segue-se a contrapartida humana. Robert H. depois de nos debruçar sobre a perícope podemos expor algo do pensamento de Mateus. Como diz São Paulo: “Porque pela graça sois salvos. Ef 2.75 7. “. Já a reação dos personagens. e desse Reino fazemos nossa maior possessão” 76.54-60). porque está próximo o Reino de Deus” Mt 4. E esse encontrar só é possível porque o próprio Deus se deixa ser encontrado. à iniciativa que ele manifestou no momento decisivo em que o tempo chegou a sua plenitude: “O tempo se cumpriu e o Reino de Deus está próximo” Mc 1. A descoberta do tesouro evidencia o caráter gratuito do tesouro. não de obras. apesar da descoberta ser um dom há exigências para a obtenção dele. – Mateus . ele foi encontrado sem se esperar.. Análise teológica A teologia deste texto está intimamente ligada ao valor do Reino. p. Isso é outro acento do texto. colocada em relevo pelas parábolas representam o segundo pólo: “. ou mesmo por acaso. 145. Ele produz paz e satisfação interior (Atos 7. Podemos ver em primeiro pólo: a descoberta do tesouro corresponde à boa nova vinda de Deus.17b. porque satisfaz plenamente as necessidades do coração. Quando nós o encontramos.15ª..

dos Santos: SP. congregar-vos-ei de todas as nações e de todos os lugares para onde vos lancei. Deus nos deu a conhecer o seu Reino e no-lo revelou através do Filho Unigênito.18-25. e tornarei a trazer-vos ao lugar donde vos mandei para o exílio” 77. . Então o texto passa a ter um paralelo com a interpretação da parábola quando diz na íntegra: “Serei achado de vós. p.33. por sua inefável graça. veio ser o mediador de toda a criação79. 81 NEUTZLING. Ed. Desta forma. de eternidade a eternidade80. 77 78 Jeremias 29. diz o Senhor.1 Reino dos Céus: uma análise do termo Este é um termo freqüentemente utilizado no Novo Testamento. e farei mudar a vossa sorte. pelo qual. 7. simplesmente. porque o Senhor reina por todo o tempo. E. revisão Jonas P. Reino remete a um território. Deste modo o conceito deve ser entendido sempre numa grandeza ao mesmo tempo espacial e dinâmica. principalmente nos Evangelhos. antes está se reportando ao Antigo Testamento. que “Deus é Rei”.33 desejarem. onde o termo foi amplamente utilizado.21: “O Reino de Deus está no meio de vós”.2. herdeiro de todas as coisas78. Hebreus 1. Deve-se notar que o termo hebraico pode ser traduzido por duas palavras na língua portuguesa: Reino e reinado. que não está presa ao espaço e tempo. enquanto reinado indica uma esfera superior. se buscassem de todo o coração. 1986.J. O termo trata-se sempre de exprimir fundamentalmente a idéia da atividade concreta de Deus como Rei. O Reino de Deus e os pobres. antigamente havia falado através dos profetas. não está se referindo a uma nova doutrina. Deus. ou. Inácio. O que se vê neste paralelo é que o homem só encontra a preciosidade do Reino dos céus porque o próprio Deus dá a oportunidade do homem encontrá-lo. Por isso é que o povo invocaria o nome do Senhor e o Senhor os ouviria. 79 Romanos 8.81 Portanto vejamos quais são as implicações do Reino no Antigo e Novo Testamento. 80 Salmo 90. mas agora se revelou pelo próprio Filho. Loyola.1-2. Conforme Jesus afirma em Lucas 17. S.14. Quando Jesus profere palavras acerca do Reino. sem início e sem fim. diz o Senhor.

descobre-se também a presença de uma teocrática ou hierocrática. O Reino de Deus e os pobres. O Reino de YHWH é universal e eterno (Dn 4. dos Santos: SP.33. Loyola.11-13)88. . O reinado de YHWH tem dimensão universal: “Toda a terra está cheira da sua glória” 84. M. no tempo em que se introduziu a monarquia. Idem. O termo no AT segundo a pesquisa é que a noção de Reinado de Deus não é frequente. p. O Reino de Deus e os pobres. ao contrário.3. L. 85 MONLOUBOU. F. 87 NEUTZLING. S. loc cit. O título de rei será dado a Deus publicamente por um profeta de Jerusalém. Este tema é trabalhado e afirmado pelos Salmos do Reino. O trono pertence a Deus (Dn 3.34 7. 89 NEUTZLING. Sl 103.2 O Reino no Antigo Testamento A teologia do Reino no Antigo Testamento é uma reflexão sobre o Deus amigo particular de Israel e guerreiro que entra em luta para salvá-lo. Ed. – Dicionário Bíblico Universal. 22. dos Santos: SP. revisão Jonas P. 1986. outra a se estabelecer aqui embaixo. p. 18. 677. e DU BUIT. Tal idéia se consolida na arca que é o trono de YHWH. Isaías 83. revisão Jonas P.89 7. ou “Senhor-Rei”85-86.J. Inácio. 97-99. 93. Pouco a pouco o uso do termo foi se aclimatando e sendo desenvolvido no culto público e penetrando a piedade privada87.J. e principalmente a monarquia davídica. e DU BUIT. e DU BUIT. L. Ed. M. 1986. 145. L. O tema de um Reino divino é desenvolvido mais tarde. 84 Isaías 6. O que se encontra. 86 Salmo 47. 88 MONLOUBOU.14.3 O Reino no Novo Testamento 82 83 MONLOUBOU. Inácio. loc cit. p. sobre uma terra radicalmente transformada. Isaías reveste o termo de um significado especial. Loyola. M. F.19. Ainda no AT podemos verificar duas visões de Reino de Deus: uma escatológica a se realizar finalmente no além celestial e. O tema parece ter as suas origens em Jerusalém.3. 27).35. uma concepção antiga do rei: “salvador”82. é a menção de Javé-Rei (Melek) e do exercício de seu reinado. F.54) e o Reino é dado aos “Santos do Altíssimo” (Dn 7. – Dicionário Bíblico Universal. Ao lado dessa compreensão escatológica do Reino de Deus no AT. S. – Dicionário Bíblico Universal.

1986. Inácio. p. Acentuando a diferença qualitativa de seu anúncio do Reino. . revisão Jonas P.47. No Evangelho segundo João aparece apenas 5 vezes. Ed.91 4. p.28.45.1. o Reino está aqui. A vinda de Jesus é manifestação da soberania de Deus no mundo. Loyola. O Reino de Deus é usado. dos Santos: SP. João Batista diz que virá alguém maior do que ele. E não se reduz a algo meramente interior. 92 NEUTZLING. Lucas 9. diante dele tudo fica relativizado como vimos em nossa perícope. Esse aspecto escatológico e não-escatológico fortalece a figura do profeta escatológico em Jesus. Portanto. em Jesus Deus entrou em ação92. trazendo desta forma a inauguração desta realidade do Reino. o que reflete o Reino de Deus no Novo testamento? 1.J. mas da realidade plenamente presente deste Reino. principalmente nos Evangelhos sinóticos quase sempre co uma conotação escatológica. as Epístolas repetem o termo 20 vezes e o Apocalipse 10 vezes. Reflete uma realidade escatológica: está marcado na história da humanidade e sua plenitude virá com a vinda do Filho do homem (Mateus 16. Marcos 9. Desta forma a realidade de um Reino que virá não está dissociada da novidade presente da βασ ι λ ε ι α que Jesus anuncia. Reflete uma realidade presente: Nos Evangelhos sinópticos encontramos um conjunto de afirmações sobre a irrupção deste Reino no presente preciso. Reflete que em Jesus o Reino é inaugurado: A vinda do Reino de Deus equivale a sua própria vinda. 2. O novo mundo prometido por Deus não é mais uma promessa. ou seja. nos Atos dos Apóstolos 8 vezes. já tornou-se realidade. ele é a presença do poder de Deus. e a presença do Reino em Jesus. nos lábios de Jesus. O Reino de Deus e os pobres. 90 91 Idem. p. S.35 A expressão “Reino de Deus” ou “Reino dos céus” é usada cerca de 120 vezes só nos Evangelhos sinóticos.90 3. 44. mais freqüentemente. Em Jesus o Reino irrompeu já agora.27). Reflete sua consumação na vida e obra de Jesus: Jesus não fala apenas de sinais que apontam para um Reino futuro. Idem. ao encanar Jesus tornou-se a presença de Deus no mundo.

C. A gratuidade da descoberta não anula a exigência. As meias . tanto do seu dinheiro e tanto do seu trabalho. ela poderia apenas enfatizar a questão da bênção do achado. Mas. Ter esse tesouro impele o personagem ao extremo. eu vim matá-lo. É necessário investir tudo o que se possui. ela vai adiante e nos mostra algo singular.36 Conclusão: A parábola que analisamos tem como tema central evocar a mente de quem a ouviu. ou mesmo insípido. é a você que eu quero. Entende que Cristo exige tudo de todos os que pertencem ao Reino. Se alguém descobre um tesouro é natural que queria adquiri-lo comprando o campo onde se encontra enterrado. a parábola não pára nessa questão. ou de quem a lê no nosso caso. Esse fato seria banal. “ele tem de vender tudo para ter o tesouro”. pelo menos duas lições: a da gratuidade (graça) e a da exigência (contrapartida humana). Não vim atormentar o seu ‘eu’ natural. ao radicalismo do investimento de todos os seus bens num só bem.S Lewis (1898-1963) diz assim da exigência de Cristo: “Dê-me tudo. Mateus quer clarificar a compreensão do Reino de Deus: o acolhimento do Reino de Deus não poderia se acomodar com meias medidas. Não quero tanto do seu tempo. Fala da radicalidade de pertencer ao Reino de Deus.

nem fazer obturação.com/textos/graca_irresistivel/graca-irresistivel_piper. A desistência total de tudo o que não leva ao tesouro é evidente na cabeça do descobridor. não deixe nada sem me ceder.. Ceda seu eu ‘natural’ por completo.93 Interessante é perceber que apesar da exigência tão expressiva. 95 http://www. não lutar por ele. vende tudo para obtê-lo. custoso. 96 BEEKE. John Piper diz assim sobre a graça irresistível: “A doutrina da graça irresistível significa que o Espírito Santo pode sobrepujar toda a resistência humana e tornar sua influência irresistível. o são seriamente.monergismo. Os cânones de Dort (1619) dirão no artigo 8 do capítulo III: “Tantos quantos são chamados pelo Evangelho. mesmo os mais custosos. acessado no dia 26/10/2010.] A doutrina da graça irresistível significa que Deus é soberano para sobrepujar toda resistência quando quiser.? Vale mesmo investir? Há. não é possível abrir mão desse tesouro. Dietrich Bonhoeffer corrobora tal entendimento: 93 94 LEWIS. os chamados devem mesmo passar a frente de suas afeições humanas mais caras. A parábola não dá margem para a reflexão: “O que vou fazer. a graça irresistível. não é possível lhe esquecer. Na verdade. É um investimento. Não quero tratar do dente. 112. posso barganhar? Não! A parábola passa direto da descoberta para a ação extrema do desapego aos bens.” 95 Por isso o descobridor não se importa com o custo do tesouro. Isso é uma exigência do chamado do Reino. a minha própria vontade tonar-se-á a sua”. ABU Editora . dar-lhe-ei a mim mesmo. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus.. Michel. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus.37 medidas não adiantam. e Ferguson. GOUGUES. o descobridor do tesouro não hesita em cumprir. ou seja. Harmonia das confissões reformadas – São Paulo: Cultura Cristã.. que aqueles que são chamados devem responder ao convite [. São Paulo.pdf. 1997. Cristianismo puro e simples. o preço é muito alto. p. nem por coroa. quer se refiram a bens ou a pessoas. com todos os desejos que você julga serem inocentes. O Reino de Deus torna-se para quem o acolhe. uma prioridade absoluta. Michel. C.84.96 Ao encontrar o tesouro a ação disposta na parábola é a de cumprir a exigência para obtê-lo. op cit. Não quero cortar o ramo aqui e acolá. 97 Ao aderir ao Reino através do chamado da graça. [. Sinclair B. op cit.]”. pois Deus revela séria e sinceramente na sua Palavra o que lhe é aceitável.94 Observamos que o que move o descobridor é a graça divina. 97 GOUGUES... quero abater a árvore toda.. quero extraí-lo. alto. 2006. Dar-lhe-ei em troca um outro eu.S. ninguém pode resisti-lo com sucesso. Quando Deus empreende cumprir seu propósito soberano. para ele é preciso estar pronto para todos os investimentos. p. e também os que você julga maus. .5ª edição. Joel R.

Sim. Ed. São Paulo. deveras considero tudo como perda100. por isso. Se compreendermos a proposta de Mateus para essa parábola chegaremos ao entendimento do dom que recebemos através de Jesus Cristo. Os discípulos perceberam as dimensões da intervenção divina ao ver eclodir o Reino de Deus em Cristo. 100 Algumas traduções usam a palavra “esterco”. Não é o discípulo que provoca esse rompimento. Descobrir o Evangelho é descobrir o tesouro da Boa Nova de salvação. portanto. carregar a cruz. mesmo sendo.”99 Tudo isso porque o encontrar tal tesouro deve ter como resposta a re-orientação da vida do descobridor. São Paulo diz assim em Fl 3. no caso de nosso texto. “O tempo está realizado e o Reino de Deus está próximo”. Cristo libertou o homem de sua relação com o mundo e o transportou para uma relação imediata consigo mesmo. 2008. Essa deve ser nossa meta suprema.7-8 “Mas o que. deixemos que cada parte de nossa existência seja dirigida por Ele. CALVINO.38 “No chamado de Jesus encontra-se já realizado o rompimento com as relações naturais em que o homem vive. 98 99 Idem. p. isto considerei perda por causa de Cristo. por conseguinte. A verdadeira vida cristã. tudo que caiba como resposta humana ao chamado da graça. Se pertencemos ao Senhor. perder a vida. à descoberta do tesouro do Evangelho.” 98 Calvino dirá: “Pertencemos a Deus. Tudo se deve à descoberta do Evangelho. cumpriremos as exigências feitas com alegria e disposição. e que por ele fomo feitos cidadãos do Reino dos Céus e. deixemos de lado nossa conveniência e vivamos para Ele. Nosso personagem o reconhece e por isso age de acordo com o valor do tesouro. investir tudo o que se possui é a atitude certa. O simbolismo do tesouro trás consigo a eminência da chegada do Reino. a saber: a cidadania celeste. Daniel Costa. João. mas o próprio Cristo já o concretizou ao pronunciar o chamado. Essa descoberta se esvai quando se tenta resistir à exigência do Reino: vender tudo. Disposição que nos coloca diante do abandono total de coisas que podem nos ser muito caras. Largar tudo pelo tesouro é compreender a intervenção divina na história da humanidade na encarnação de Jesus. . 31. mas que perdem seu valor em face do bem maior adquirido. para mim. um tanto quanto insólito para quem não reconhece o valor desse achado. permitindo que Sua sabedoria guie e domine todas as nossas ações. por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus. Fonte Editorial. Devemos a partir dele ter uma nova orientação de vida. era lucro. trad.

por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo. A descoberta da realidade do Reino relativiza todo o valor conhecido até então. Ed. O Evangelho de Mateus.. que o Reino exige. 101 CAMACHO. p. mas levado pela alegria de ter descoberto um valor incomparável e de que não se tinha suspeitado. 1993. portanto. Juan Mateos Fernando.]. para ganhar a Cristo [. A renúncia a tudo que se possui não é.” A parábola do tesouro contém o ensinamento do compromisso total. O bem que leva a reconciliação com Deus e a pertença a seu Reino.. Paulinas: SP. neles anuncia a eclosão desta realidade do Reino e quem o encontra entrega toda sua vida a Cristo e a sua mensagem entendendo pela graça que este é o maior bem que se pode possuir.39 meu Senhor. Não se faz por esforço de vontade. . um ato ascético. O Reino está contido em Cristo e em sua mensagem.160-161. e sim espontâneo101.

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