MED3 – AES8 – Problema 2
ALEITAMENTO MATERNO 10. Alta hospitalar
Encorajar o estabelecimento de grupos de
Amamentar vai além do ato de nutrir uma criança,
apoio ao aleitamento, para onde as mães
pois este ato engloba a relação entre mãe-bebê e
deverão ser encaminhadas por ocasião da
repercussões (em diversos níveis) para a saúde da
alta, no hospital ou ambulatório
mãe e de seu filho. Aleitamento materno é quando a
criança recebe leite materno (direto da mama ou
Diante disso, é importante conhecer as
ordenhado) independentemente de receber ou não
definições/classificações de aleitamento materno
outros alimentos.
adotadas pela OMS:
Aleitamento materno exclusivo: Quando a criança
Muitas mulheres sentirem-se desamparadas, com
recebe exclusivamente leite materno, seja ele
muitas dúvidas e incertezas durante o processo e não
ordenhado, diretamente da mama ou leite humano de
possuírem, por vezes, profissionais dispostos a dar um
outra fonte;
suporte ativo e informações precisas. Com isso,
Aleitamento materno predominante: Quando além do
considera-se a relevância do papel dos profissionais
leite materno a criança recebe água ou bebidas à
de saúde para o aumento da prevalência do
base de água (chás, sucos de frutas);
aleitamento materno.
Aleitamento materno complementado: Além do leite
Dez passos para o sucesso do aleitamento materno materno a criança recebe alimentos sólidos ou
Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das semissólidos com a finalidade de complementar e não
Nações Unidas para a Infância (UNICEF) de substituir o leite materno;
1. Políticas do Hospital Aleitamento materno misto ou parcial: Quando a
Ter uma norma escrita sobre aleitamento, criança recebe leite materno e outros tipos de leite.
que deveria ser rotineiramente transmitida
a toda a equipe de cuidados de saúde; FISIOLOGIA DA AMAMENTAÇÃO
2. Competência dos profissionais A glândula mamária tem como função principal a
Treinar toda a equipe de cuidados de saúde, lactação, que é a capacidade de produzir o alimento
capacitando-a para implementar esta ideal para o seu filho.
norma;
3. Cuidados pré-natais O hipotálamo, área pequena do cérebro, tem dentre
Informar todas as gestantes sobre as suas funções regular a liberação dos hormônios da
vantagens e o manejo do aleitamento; adenohipófise. A sucção do bebê no peito estimula as
4. Cuidados no momento do nascimento terminações nervosas do mamilo e aréola enviando
Ajudar as mães a iniciar o aleitamento na impulsos, via neuronal reflexa aferente, para o
primeira meia hora após o nascimento; hipotálamo estimulando a hipófise anterior a
5. Apoiar as mães na amamentação secretar o hormônio prolactina e a hipófise posterior
Mostrar às mães como amamentar e como o hormônio ocitocina.
manter a lactação, mesmo se vierem a ser
separadas de seus filhos; Durante a gravidez, a prolactina produzida pela
6. Suplementos placenta está presente na circulação e alcança níveis
Não dar a recém-nascidos nenhum outro altíssimos durante o parto, porém a sua ação na
alimento ou bebida além do leite materno, a produção de leite é inibida pela alta concentração de
não ser que tal procedimento seja indicado esteroides sexuais (estrogênios e principalmente
pelo médico; progesterona).
7. Alojamento conjunto
Praticar o alojamento conjunto – permitir Anatomia da mama
que mães e bebês permaneçam juntos – 24 A mama feminina é composta por glândulas túbulo-
por dia. alveolares chamadas de lobos mamários (cerca 15 a
8. Alimentação adequada 20 em cada mama), os quais são constituídos por
Encorajar o aleitamento sob livre demanda; lóbulos (entre 20-40). Cada lóbulo é composto por
9. Biberões, chupetas e tetinhas alvéolos envolvidos por células mioepiteliais. O leite
Não dar bicos artificiais ou chupetas a produzido nos alvéolos é conduzido até os seios
crianças amamentadas de seio; lactíferos por uma rede de ductos. Para cada lobo
mamário há um seio lactífero com saída independente
no mamilo.
MED3 – AES8 – Problema 2
Mamogênese Embora a atuação dos hormônios esteroides,
Ocorre durante todo o período gestacional e se refere estrogênio e progesterona, sejam essenciais para o
ao crescimento e desenvolvimento da glândula desenvolvimento físico das mamas, ambos exercem
mamária, que torna a mulher capaz de produzir leite. papel inibitório da ejeção do leite, ou seja, inibirão a
É importante ressaltar que o crescimento das produção de ocitocina. Fisiologicamente, durante o
glândulas mamárias também acontece durante a trabalho de parto, ocorrerá aumento da
puberdade pela ação de diversos hormônios, como o concentração de ocitocina, que é responsável pela
estrogênio, progesterona, GH e insulina, deixando de contração uterina, e concomitantemente há uma
ser uma mama imatura para se tornar uma mama queda brusca de estrogênio e progesterona (param
adulta não gestante. de ser secretados pela placenta e o corpo lúteo).
Durante a gestação, há o aumento do tecido adiposo, Após o parto, a produção de prolactina não se dá de
da vascularização das mamas, da rede de células forma continua, mas sim com picos a cada vez que a
mioepiteliais que envolvem os alvéolos e também dos criança mama. Ao soltar o peito, a prolactina
lóbulos (formado pelo aumento da rede de ductos e apresenta decaimento. Além disso, a criança não suga
alvéolos). o leite produzido naquele momento, mas sim o qual
está armazenado.
Principal atuação de cada hormônio nesse momento:
Lactogênese (Reflexo de Produção do Leite)
Estrogênio: desenvolvimento dos ductos A lactogênese se refere à síntese de leite pelas células
galactóforos. alveolares e sua secreção no lúmen do alvéolo. Sabe-
Progesterona: desenvolvimento dos alvéolos. se que a mama lactante é constituída por uma
Prolactina: produção de leite (síntese e camada única de células cuboidais alveolares
secreção). produtoras de leite, formando o alvéolo.
Ocitocina: ejeção de leite.
Esse alvéolo é envolto por células mioepiteliais
Deve-se lembrar que, devido a ação da prolactina, a (musculo liso) com função contrátil. Um alvéolo está
mulher pode produzir o colostro (secreção láctica) a dentro de um lóbulo, com outros alvéolos, e esses
partir da 16ª semana gestacional. lóbulos estão conectados por ductos lactíferos. Os
ductos se iniciam nos lóbulos com um calibre mais fino
MED3 – AES8 – Problema 2
e vão aumentando, formando ampolas – locais onde supressores e também uma contraordem à liberação
o leite fica armazenado. de prolactina. Prolactina é produzida principalmente
à noite o que nos faz orientar e estimular as mamadas
A queda abrupta de estrogênio e progesterona, a noturnas. Ela também confere à mãe sensação de
ação da prolactina permite o início da produção de relaxamento e sonolência.
leite nas próximas 48 horas pós-parto. Inicialmente,
nos primeiros dias, trata-se do colostro, uma secreção Lactopoese
amarelada e mais espessa, rica em proteínas, Diz respeito à manutenção da lactação já
vitaminas lipossolúveis e imunoglobulinas (IgG, estabelecida e depende da duração e frequência da
considerada como a primeira vacina devido à alta amamentação. Nessa fase, a sucção e a pega
carga dos fatores de defesa). adequada são essenciais, tendo em vista que, com o
aleitamento, as concentrações de prolactina se
À medida que os dias vão passando, o leite vai se manterão elevadas durante as primeiras 8 a 12
tornando mais gorduroso, com uma alta quantidade semanas.
de lactose, tornando-o mais calórico e com menor
valor imunológico do que o colostro. Com o passar do tempo, a concentração da prolactina
já não se mantém mais tão elevada, no entanto, ainda
Após essa transição, finalmente o leite se torna uma continua sendo essencial para a manutenção da
solução aquosa que contém água, lactose, gordura síntese de leite.
(como principal fonte energética), aminoácidos,
proteínas, vitaminas e minerais, essenciais para o Reflexo de Ejeção do Leite
pleno desenvolvimento do bebê. Passagem do leite do lúmen alveolar para o sistema
de ductos, até ductos maiores e ampola, culminando
Em um período aproximado de 30 minutos após o na liberação do leite pelos mamilos. Nesse momento,
início da mamada, há um pico de elevação na além da sucção induzir a produção de prolactina, ela
prolactina basal fazendo com que a mama produza também induz a ocitocina para a ejeção do leite.
leite para a próxima mamada. O estímulo na região
mamilo alveolar percorre as fibras nervosas, alcança A estimulação tátil do mamilo pela sucção do mesmo
a medula espinhal e se conecta com o hipotálamo pelo bebê estimula as terminações nervosas, que por
onde existem fatores estimulantes e inibidores da via aferente agem a nível de hipotálamo estimulando
produção de prolactina. a adenohipófise a liberar o hormônio ocitocina. Este
é transportado por via sanguínea e vai agir nas
A elevação da prolactina basal pode se manter por 3 células mioepiteliais, em torno dos alvéolos e ductos,
a 4 horas. A amamentação frequente mantém os fazendo-as se contraírem expulsando o leite para os
níveis sanguíneos do hormônio elevados assim como ductos mais largos até que ele possa ser removido
a redução na frequência diminui a quantidade de pelo bebê. Este mecanismo, em geral, ocorre em
prolactina. aproximadamente 1 minuto após o início da sucção,
mas, nas mulheres primíparas pode levar em torno de
Entre 24 a 48 horas após o parto a mama se 3 a 5 minutos.
apresenta intumescida devido a migração de água e
dilatação dos ductos e alvéolos levando ao fenômeno Existe uma sensibilidade aumentada principalmente
denominado de apojadura. A partir daí a regulação do mamilo no período peri-parto e este fato, induzido
passa a ser feita no próprio local da produção de leite pela sucção, vai ocasionar liberação de prolactina e
constituindo o controle autócrino. ocitocina, daí a importância do contato do recém-
nascido com a mama ainda na sala de parto.
O leite possui peptídeos (frações de proteína)
supressores da produção de leite e, portanto, se a A ocitocina também pode ser liberada mediante a
mama não for esvaziada há acúmulo destes peptídeos estímulos condicionados, tais como a visão, olfato e
fazendo com que a produção seja interrompida. O escutar o choro de uma criança; além disso, fatores
volume de leite passa a depender da demanda e é de ordem emocional podem ser fatores que estimulam
diretamente proporcional ao número de mamadas. (motivação, autoconfiança e tranquilidade) ou
desestimulam (estresse físico e psicológico,
Se o bebê não sugar ao seio ou não conseguir ansiedade, medo, insegurança) a liberação de
esvaziá-lo, haverá um acúmulo de peptídeos ocitocina – nesses casos, acontece a produção de
MED3 – AES8 – Problema 2
prolactina, portanto há a produção do leite, no e uma recuperação mais rápida da mulher no
entanto ele não consegue ser ejetado devido à puerpério.
inibição do hormônio responsável por esse processo.
A produção do leite, portanto, depende
Quando existe uma produção exagerada de leite, há primordialmente de dois controles principais: a
um aumento da pressão intra-alveolar e um sucção do bebê e o esvaziamento das mamas.
consequente bloqueio da ação da ocitocina sobre as
células mioepiteliais, ocorrendo uma dificuldade no Não se pode deixar de lembrar que os reflexos
reflexo de ejeção. Este fato acontece por uma falha primitivos de alimentação (reflexo de busca e
no mecanismo autócrino de regulação da lactação. procura, de extrusão, de sucção, de preensão reflexa
Nestes casos se faz necessário esvaziar as mamas por ou mordida fásica e de deglutição) tem papel
ordenha (manual ou mecânica). principal na alimentação no período neonatal e
precisam ocorrer de forma integrada e sequenciada.
A liberação de ocitocina também promove contração Distúrbios nestes reflexos podem atrapalhar a
das fibras musculares do útero durante a amamentação.
amamentação, contribuindo para a involução uterina
Reflexo neuroendócrino na lactação Projeção 2: nos neurônios dopaminérgicos do núcleo
Durante a sucção, os mecanorreceptores no mamilo arqueado, que inibem a liberação de dopamina na
sofrem uma deformação, de maneira que, assim que o eminência mediana, para que ocorra a síntese de
estimulo chega à medula (por meio dos nervos leite. É importante ressaltar o controle
torácicos IV, V e VI), esses sinais chegam ao neuroendócrino da prolactina, sintetizada e liberada
hipotálamo e apresentam três projeções neurais. na adeno-hipófise, e produzido exclusivamente
durante a amamentação.
Projeção 1: nos núcleos PVN e SON, acarretando a
secreção de ocitocina na corrente sanguínea para, Sabendo disso, existem hormônios que são capazes de
então, ligar-se à receptores de membrana das células inibir sua síntese e secreção pelos lactotrofos, PRH
mioepiteliais, que levam à contração muscular (hormônio inibidor da prolactina), como a dopamina.
involuntária e, assim sendo, ocorre a ejeção do leite. Durante a amamentação, quando ocorrem os picos de
prolactina, ocorre a ação do hormônio liberador de
prolactina, sendo assim, os hormônios inibitórios
MED3 – AES8 – Problema 2
param de agir para dar lugar aos hormônios Projeção 3: nos neurônios que produzem fatores
liberadores. liberadores de prolactina. Sem a dopamina, os
lactotrofos são capazes de produzir prolactina, que
tem sua ação nas células alveolares sintetizando e
secretando o leite.
TÉCNICA DE AMAMENTAÇÃO Uma pega inadequada dificulta o esvaziamento da
mama, o que tem repercussões para a nutrição da
A sucção do leite pelo bebê é um ato reflexo, mas
criança, bem como a redução da produção do leite e
ainda assim faz-se necessário que o bebê aprenda a
até mesmo fissuras e dor na mama. Para uma pega
retirar o leite do peito de forma eficiente, formando
adequada é preciso que mãe e bebê estejam em
um lacre perfeito entre a boca do mesmo e a mama,
posição confortável que não comprometa a
garantindo a formação do vácuo indispensável para
capacidade da criança: abocanhar 2 cm de tecido
que o mamilo e aréola se mantenham dentro da boca
mamário além do mamilo, respirar livremente, retirar
do bebê. A técnica de amamentação, ou seja, a forma
o leite efetivamente e deglutir; os lábios devem ficar
como a mãe e a criança devem se posicionar para
um pouco voltados para fora; mãe deve conseguir
amamentar/mamar e a pega/sucção são
segurar com firmeza o bebê que está completamente
fundamentais para aquela retirada eficiente dos
voltado para si, podendo segurar também a mama em
leites anterior e posterior.
formato de C com o dedo polegar na parte superior e
A amamentação deve ser iniciada logo após o parto, os outros dedos na parte inferior.
pois o quanto antes ocorra a sucção há uma redução
Já uma técnica inadequada de amamentação
do risco de hemorragia materna e de icterícia no
contribui para várias dificuldades do aleitamento
recém-nascido. Vale ressaltar que, mesmo que a
materno como ferimentos do mamilo, infecções
sucção espontânea do recém-nascido não ocorra
mamilares, mastite, diminuição da produção láctea e
imediatamente o contato pele-pele por si só traz
consequente ganho de peso inadequado do bebê.
benefícios.
No alojamento conjunto, é imprescindível a
monitoração da primeira mamada (do início ao final).
MED3 – AES8 – Problema 2
Ao mesmo tempo, alerta para sinais como mãe que se Já em relação à pega propriamente dita, deve sobrar
apresenta doente, tensa, desconfortável ou mais aréola acima que abaixo da boca do bebê, com
deprimida, com as mamas avermelhadas, inchadas ou o queixo tocando a mama, lábio inferior evertido,
doloridas como sinais de possível dificuldade. Avalia- boca bem aberta, a sucção lenta e profunda com
se, ainda, se o bebê parece saudável, calmo e pausas, o bebê solta a mama quando satisfeito,
relaxado, se há vínculo com a mãe e se busca e/ou reflexo da ocitocina presente e a mama parece mais
alcança a mama quando está com fome. Mas se o leve após a mamada são todos sinais de que a
bebê parece sonolento ou doente, inquieto ou amamentação está bem. Ao passo que, sinais como
chorando, com apoio frágil, sem contato visual com a bebê mal posicionado com pescoço e/ou cabeça
mãe, sem buscar ou sem alcançar a mama durante a girados, desalinhados com o corpo, não apoiado, com
fome, entende-se como sinais de que a amamentação o queixo longe da mama, mais aréola vista abaixo do
vai mal. Deve-se, também, avaliar o posicionamento lábio do bebê, lábios invertidos, boca não
do bebê, que, para estar correto, sua cabeça e corpo completamente aberta, sucções rápidas e
devem estar alinhados, o bebê deve estar próximo ao superficiais, mãe interrompe a mamada, ou ainda
corpo materno, com o nariz voltado para o mamilo e mamas duras e brilhantes após a mamada e sem sinal
bem apoiado. do reflexo da ocitocina apontam erro de técnica.
MED3 – AES8 – Problema 2
Posição para amamentar e pega da mama: ⁃ Menor custo financeiro: Para uma família
⁃ O bebê deve estar virado para a mãe, bem com pouca renda, não amamentar e comprar
junto de seu corpo, completamente apoiado fórmulas infantis pode representar grande
e com os braços livres; parte da renda dessa família. Em 2004, o
⁃ A cabeça do bebê deve ficar de frente para gasto médio mensal para alimentar um bebê
o peito e o nariz bem na frente do mamilo; nos primeiros 6 meses vários de 38-133% do
⁃ Só coloque o bebê para sugar quando ele salário mínimo dependendo da marca da
abrir bem a boca; fórmula infantil. Além de gastos com
⁃ Quando o bebê pega o peito, o queixo deve mamadeiras e gás de cozinha, acrescentam-
encostar na mama, os lábios ficam virados se os gastos com problemas de saúde que
para fora e o nariz fica livre; crianças não amamentadas costumam ter
⁃ Ele deve abocanhar, além do mamilo, o mais comumente.
máximo possível da parte escura da mama
(aréola); ⁃ Efeito positivo no desenvolvimento cognitivo:
⁃ Cada bebê tem seu próprio ritmo de mamar, O aleitamento materno contribui para o
o que deve ser respeitado. melhor desenvolvimento cognitivo. A maioria
dos estudos comprova que as crianças
amamentadas apresentam vantagem nesse
BENEFÍCIOS DA AMAMENTAÇÃO aspecto, sobretudo, quando comparadas
com não amamentadas de baixo peso ao
O aleitamento materno deve ocorrer em livre
nascimento. O mecanismo pelo qual isso se dá
demanda, de modo que um recém-nascido costuma
ainda não foi elucidado, havendo estudiosos
mamar de 8-12 vezes por dia, o que não significa que
que defendem que a presença de
o leite esteja “fraco” ou insuficiente. A amamentação
substâncias no leite são as responsáveis pelo
sem restrições possui diversos benefícios: reduz a
melhor desenvolvimento cerebral, enquanto
perda de peso inicial do recém-nascido, favorece a
outros acreditam que são fatores
recuperação mais rápida do peso, promove a “descida
comportamentais ligados ao ato de
do leite” mais rápida, aumenta a duração do
amamentar.
aleitamento, estabiliza os níveis de glicose do recém-
nascido, diminui a incidência de hiperbilirrubinemia e
⁃ Evita diarreia: Fortes evidências mostram
previne ingurgitamento mamário. Além disso, é
que o leite materno protege conta diarreia,
importante que, independentemente do tempo que
tal proteção diminui quando o aleitamento
durar, a criança esvazie toda a mama, pois o “leite
materno deixa de ser exclusivo, assim como
posterior” que contém mais calorias e sacia o bebê.
diminui com o avançar da idade da criança.
Devido aos diversos fatores existentes no leite Inclusive, crianças não amamentadas
materno este tem o impacto que mais nenhuma outra apresentam um risco 3 vezes maior de
estratégia possui na redução da mortalidade infantil desidratarem e virem a óbito em decorrência
em crianças menores de 5 anos, podendo evitar até da diarreia quando comparadas com
13% das mortes de causas evitáveis nessa faixa crianças amamentadas.
etária em todo o mundo. Além disso, estudos
demonstram que a amamentação na primeira hora de ⁃ Evita infecção respiratória: A proteção
vida pode ser um fator de proteção contra mortes contra infecções respiratórias se mantém
neonatais. constante nos primeiros 2 anos de vida,
sendo maior quando a amamentação é
⁃ Melhor nutrição: O leite humano possui todos exclusiva até os 6 meses, assim como diminui
os nutrientes essenciais para o completo a gravidade dos episódios de infecção
desenvolvimento e crescimento da criança, respiratória, sobretudo, pneumonia,
sendo melhor digerido pela mesma, sendo bronquiolite e otites.
capaz de suprir sozinho todas as
necessidades nutricionais nos primeiros 6 ⁃ Diminui o risco de alergias: A amamentação
meses e importante fonte de proteínas, exclusiva nos primeiros meses de vida diminui
gorduras e vitaminas nos meses seguintes o risco de alergia à proteína do leite de vaca,
dermatite atópica, asma e outras alergias. A
até o 2º ano de vida.
exposição a doses de leite de vaca nos
MED3 – AES8 – Problema 2
primeiros dias de vida parece aumentar o que as lesões transformem-se em
risco de alergia ao leite de vaca, por isso a crostas. Além disso, até 96h após o
importância de evitar o uso de fórmulas nascimento a criança deve receber
infantis. imunoglobulina antivaricela.
⁃ Doença de Chagas: Na fase aguda ou se
⁃ Diminui risco de hipertensão, colesterol alto sangramento mamilar ativo.
e diabetes: Segundo revisão publicada pela ⁃ Consumo de drogas de abuso: A OMS não
OMS, indivíduos amamentados apresentam contraindica amamentação para mulheres
pressão sistólica e diastólica mais baixas, em uso de anfetaminas, ecstasy, cocaína,
menores níveis de colesterol total e menor maconha e opioides, mas recomenda que as
risco (37% menos) de desenvolver diabetes mães que façam uso temporário de tais
tipo 2 (DM2). Esse último benefício estende- drogas suspendam temporariamente a
se também à mãe, pois foi descrita uma amamentação após o uso.
redução de 15% na incidência de DM2 para
cada ano de lactação devido a melhor Nesses casos em que a interrupção temporária é
homeostase da glicose em mulheres que recomendada, deve-se orientar a gestante a
amamentam. realizar ordenhas regulares para estimular a
produção do leite até que está possa amamentar
⁃ Proteção contra câncer de mama: A relação novamente seu filho.
entre aleitamento materno e redução da
prevalência de câncer de mama está bem Situações especiais
estabelecida na literatura, estimando-se que ⁃ Tuberculose: Mães não tratadas ou
a chance de desenvolver a doença caia 4,3% bacilíferas devem amamentar com o uso de
a cada 12 meses de duração da máscaras e restringir o contato próximo à
amamentação. Tal proteção independe de criança devido à transmissão potencial por
idade, etnia e presença ou não de gotículas respiratórias. Caso não tenha
menopausa. contraído a doença, a isoniazida deve ser
mantida por mais 3 meses. Caso o PPD não
⁃ Evita nova gestação: Nos primeiros 6 meses seja positivo, pode-se suspender a medi-
após o parto a amamentação é um método cação e a criança deve ser vacinada com
anticoncepcional com 98% de eficácia, desde BCG.
que a mãe esteja amamentando exclusiva ou ⁃ Hanseníase: Como a primeira dose da
predominantemente e esteja em amenorreia. rifampicina é suficiente para que a mãe não
seja mais bacilífera, a amamentação deve
CONTRAINDICAÇÕES ser mantida e o tratamento da mãe deve ser
iniciado.
A presença de algumas doenças maternas pode exigir ⁃ Hepatites: A vacina e imunoglobulina para o
cuidados especiais referentes à amamentação com o tipo B elimina o risco de transmissão; no caso
intuito de que está se mantenha, assim como outras do tipo C deve-se evitar fissuras na mama
situações o aleitamento materno deve ser para evitar contato da criança com sangue
contraindicado. Em se tratando deste último, as materno.
contraindicações absolutas são: mães infectadas pelo ⁃ Dengue: O leite materno possui um fato
HIV, HTLV 1 e 2, uso de medicamentos incompatíveis antidengue que protege a criança.
com amamentação como radiofármacos e
⁃ Cigarro e álcool: Deve-se desestimular o
antineoplásicos e criança com galactosemia (que não consumo de ambos, mas o uso destes não
pode ingerir qualquer leite com lactose, inclusive o
contraindica a amamentação. Quanto ao
humano).
cigarro, os benefícios do leite materno
superam os riscos do cigarro, mas é
Suspensão temporária da amamentação importante recomendar que a mãe evite
⁃ Infecção herpética: Quando vesícula situada fumar no mesmo espaço em que a criança
na mama, a amamentação deve ser mantida costuma ficar. No caso do álcool, doses ≥
na mama sadia. 0,3g/kg podem reduzir a produção do leite,
⁃ Varicela: Caso haja presença de vesículas 5 bem como o sabor e odor do mesmo podem
dias antes ou 2 dias depois do ser modificados por conta do álcool, o que
parto a mãe deve ficar em isolamento até pode acarretar na recusa pelo lactente.
MED3 – AES8 – Problema 2
TIPOS DE LEITE Colostro: (até 7 dias após o parto): fluido espesso,
amarelado (elevada concentração de caroteno),
volume de 2 a 20 ml/dia, menos rico em lipídeos e
LEITE MATERNO lactose e mais rico em proteínas (3x mais).
Com exceção do leite materno de mulheres Destaca-se a sua elevada concentração de IgA
desnutridas em que tanto qualidade e quantidade secretória, lactoferrian, linfócitos e macrófagos, que
são inferiores, o leite possui uma composição conferem ação protetora. O conteúdo de minerais
semelhante para todas as mulheres que amamentam também é alto, sendo mais rico em sódio, potássio e
no mundo. Além disso, o leite de mães de recém- cloretos que o leite maduro, contém mais vitaminas
nascidos pré-termo tem mais calorias, lipídios, lipossolúveis e menores quantidades de vitaminas do
proteínas e lactose. complexo B.
Nos primeiros 10 dias após o nascimento a secreção Leite de transição (5 e 15 dias): vai sofrendo
láctea é chamada colostro que contém mais modificações no aumento do volume e na composição
proteínas, menos gordura e mais IgA secretória do (rico em gorduras).
que o “leite maduro”. Outra peculiaridade é a
existente entre o leite que sai no início da mamada, Leite maduro (após 15 dias): tem volume e
chamado de “leite anterior” e o leite que sai ao final composição estáveis. Volume média de 700-900
da mamada ou “leite posterior”. Este possui mais ml/dia (primeiros 6 meses), cerca de 600 ml no
gordura, mais energia e, portanto, sacia mais a segundo semestre e 550 ml no segundo ano. Fornece
criança. Por esse motivo é importante esvaziar toda em média 70 kcal/dl (70 kcal/100ml).
a mama durante uma mamada, bem como é É composto por uma composição única de
importante explicar para as mães que não existe ingredientes diferindo a sua composição com a de
“leite fraco”, mas sim uma diferença de concentração outros mamíferos. Ele apresenta menos energia e
de gordura entre o leite que sai inicialmente e o que densidade energética e mais carboidratos, quando
sai no fim. Com isso, no início da mamada devido ao comparado a maioria dos mamíferos.
alto teor de água e componentes hidrossolúveis o
leite possui coloração de “água de coco”, no meio da Composição
mamada o leite tende a ter uma coloração branca Os componentes do leite são sintetizados na célula
opaca devido à caseína, enquanto que no final em epitelial dos alvéolos da glândula mamária ou são
virtude da concentração de pigmentos lipossolúveis o transportados do plasma sanguíneo para estas
leite fica mais amarelado. células. Durante a lactação há um aumento na
demanda metabólica materna para atender ao
O leite materno é facilmente digerido, bebês direcionamento de substratos (glicose,
amamentados mamam com mais frequência do que aminoácidos...) da circulação para a glândula
aqueles alimentados com fórmulas. Nas primeiras mamária para que ocorra produção de leite.
semanas, a criança mama em intervalos curtos de
tempo e o período de esvaziamento é de 1 hora e meia Para isso, ocorre hipertrofia da mucosa intestinal,
a 2, até os 4 meses de vida a criança mama em média aumento na ingestão de alimentos, hipertrofia na
12 vezes ao dia, ao redor do 3º ao 5º mês a criança glândula mamária e fígado (↑ glicose, proteínas e
vai largando as mamadas noturnas, passando para 8 ácidos graxos), aumento do aporte de sangue para
a 10 mamadas até os 6 meses glândula mamária, aumento do débito cardíaco e
aumento da taxa de lipólise no tecido adiposo que foi
A principal imunoglobulina é a IgA secretória que reservado durante a gestação, apesar da intensa
atua contra microrganismos que colonizam hiperfagia. A glândula mamária é considerada o
superfícies mucosas (E.coli, Salmonella, rotavírus, maior sítio lipogênico, onde o maior precursor é a
poliovírus etc.), tal IgA tem sua concentração glicose.
reduzida no 1º mês e se mantêm constante em
seguida. A composição é INDEPENDENTE do estado nutricional
da mãe, com EXCEÇÃO das VITAMINAS e alguns
Nomenclatura MINERAIS, os quais estão diretamente relacionados
O leite materno recebe diferentes nomenclaturas de com a ingestão diária materna. A menos que seja
acordo com as mudanças temporais na sua subnutrição grave que vai levar a redução do volume
composição: do leite.
MED3 – AES8 – Problema 2
A concentração dos principais minerais (Ca, P, Mg, Na enquanto no colostro é de 4g/100ml, sendo sua
e K) e de ácido fólico NÃO são afetados pela dieta absorção de 90%. Os oligossacarídeos estão em torno
materna. de 1,3 g/100ml.
As vitaminas B1, B2, B6, B12, vitamina A e iodo, podem Lactose: É o principal regulador do conteúdo
ter redução de até 50%, se houver baixo consumo de água e, portanto, do volume de leite; Facilita a
e/ou reserva materna. absorção de: cálcio e ferro, zinco e manganês e
proteínas; Mantém a pressão osmótica no leite.
Aumentar o consumo materno para quantidade
acima das recomendações não resulta em aumento Proteínas
dos níveis de nutrientes no leite, exceto para vitamina São fontes de aminoácidos essenciais e de nitrogênio
B6, D, iodo e Se. para síntese de proteínas e compostos nitrogenados
não proteicos. São fontes de proteínas com funções
Minerais específicas como as de defesa: imunoglobulinas.
O leite humano apresenta grande quantidade de
cálcio, fosfato, potássio, sódio, magnésio e cloreto e O leite materno possui diferentes quantidades de
possui pequenas quantidades de ferro, cobre e proteína, por exemplo, o leite de mães de prematuro
manganês, sendo que, os minerais relacionados a possui mais, cerca de, a 4,0 g/kg/dia, em mães a termo
problemas de deficiência em recém-nascidos, a quantidade vai reduzindo com o amadureciemtno
principalmente em prematuros são cálcio, fósforo, permanecendo cerca de 2 a 2,5 g/kg/dia.
zinco, ferro e cobre.
Atuam como fatores de crescimento, como certos
Vitaminas hormônios (somatomedina, fator de crescimento
O conteúdo de vitaminas no leite humano é epidérmico, fator de crescimento semelhante à
dependente da ingestão materna e de seus estoques, insulina, cortisol e tiroxina).
sua concentração é menor em mulheres que utilizam
dietas inadequadas crônicas. Lipídeos
Fornecem energia; Servem de veículo para vitaminas
As vitaminas A e do complexo B variam com a lipossolúveis e dos hormônios presentes no leite;
ingestão materna. A concentração das vitaminas Proveem ácidos graxos essenciais; São essenciais ao
hidrossolúveis sofre variação de acordo com o metabolismo cerebral.
estágio de lactação, sendo menor no colostro do que
no leite maduro. A concentração de lipídeos é cerca de 40 a 50% do
seu valor calórico. Quanto ao tipo de gordura o leite
Em relação às vitaminas lipossolúveis, o conteúdo alto materno contém quantidades significativas de AG de
de vitamina A é importante, pois o recém-nascido cadeia longa, como aracdônico e DHA, os quais são
nasce com baixa reserva hepática desta vitamina. O constituintes das membranas celulares do tecido
leite humano tem pouca vitamina D, mas altamente cerebral e dos eritrócitos. Esses ácidos graxos estão
biodisponível (forma hidrossolúvel). Todas as relacionados a cognição, crescimento e visão.
vitaminas estão em quantidade suficiente para
atender as necessidades do lactente com exceção da Composição do colostro e leite maduro de mães de
vitamina D; apesar de ele poder ser conseguido pelos crianças a termo e pré-termo
raios solares, trabalhos mostram que a lactose exerce A termo Pré-termo
um efeito sinérgico sobre o metabolismo de cálcio e
vitamina D. Bebês devem receber suplementos ou Colostr Madur Colostr Madur
serem expostos à luz solar. o o o o
Calorias 48 62 58 70
Carboidrato (kcal/dL)
O principal carboidrato é a lactose e tem pequenas Lipídios 1,8 3,0 3,0 4,1
quantidades de galactose, frutose e outros (g/dL)
oligossacarídeos. A síntese de lactose sofre alterações Proteína 1,9 1,3 2,1 1,4
ao longo do dia em função da ingestão de alimentos, s (g/dL)
entretanto sua concentração no leite não sofre Lactose 5,1 6,5 5,0 6,0
variação com a dieta da mãe. A concentração média (g/dL)
de lactose no leite maduro é de 6 a 7g/100ml,
MED3 – AES8 – Problema 2
Variações na composição do leite de soluto (sódio, cloro e potássio) renal (quantidade
De uma mãe para outra → Idade materna, paridade, de eliminação de nitrogênio e minerais que devem ser
saúde, classe social, idade gestacional. excretados pelos rins), devido a maiores níveis de
proteínas e solutos, isso associado à baixa filtração
A principal diferença ocorre durante a mamada: glomerular e baixa capacidade de concentração de
⁃ Leite que saiu no início (leite anterior): é solutos do recém-nascido, podendo ocasionar
mais aquoso, contém menos gordura e menos hipernatremia (alta concentração de sódio no
calorias. É rico em elementos imunológicos. sangue) e acidose.
⁃ Leite que sai no fim (leite posterior): tem
maior quantidade de gordura e, portanto, de O leite de vaca, contém quantidades inadequadas de
energia → importante para a saciedade do vitamina E, ferro e ácidos graxos essenciais; e excesso
bebê de proteínas, potássio e sódio, o que aumenta sua
carga de soluto renal (CSR) e eleva a concentração
Período do dia → alterações na lactose e na gordura da urina. A CSR é medida da concentração das
(+ concentração de manhã). partículas que o rim deve excretar e as principais
variáveis nesse processo são: Na, K, Cl e proteína.
Prematuridade → níveis elevados de proteínas,
representadas pelos fatores de defesa, Na, Cl e ac Assim, se uma dieta fornecer quantidades excessivas
graxos de cadeia curta e menor concentração de desses compostos e o consumo de fluidos for baixo
lactose no colostro de mães de prematuro. Essa e/ou se as perdas extrarrenais são altas, a habilidade
diferença na composição ocorre pois na gestação a de concentração renal pode ser insuficiente para
termo a transferência de nutrientes ocorre pela via manter o equilíbrio hidroeletrolítico, sendo utilizado
transcelular, já na prematuridade a via paracelular uma elevada quantidade de água para a excreção, o
vai estar mais atuante. que pode levar à desidratação.
Grau e tipo de desnutrição: a concentração de Complicações relacionadas ao consumo de fórmulas
macronutrientes não é alterada, porém há menor lácteas (vaca)
produção de volume diário e alteração nas vitaminas Alterações respiratórias: Consumo de leite de vaca
C, A, tiamina e B12, mas a suplementação pode aumenta em 17 vezes as chances de infecções
restabelecer as concentrações no leite. A manutenção respiratórias (ex. pneumonia).
da lactação é justificada por alterações fisiológicas
que ocorrem no organismo materno para sustentar a Alterações gastrintestinais: No aleitamento artificial
lactação: diminuição do gasto energético dos tecidos, existe maior risco de contaminação das fórmulas pelo
aumento da absorção intestinal, níveis mais altos de uso de água e utensílios contaminados, elevando a
prolactina, maior eficiência enzimática e economia no ocorrência de infecções do trato gastrointestinal
custo celular para produção e secreção de nutrientes (diarreia). Outro ponto importante é a formação de
no leite materno. A deficiência de alguns uma microbiota saudável. O intestino de lactentes
micronutrientes pode afetar seu teor no leite materno amamentados com fórmulas lactente tem predomínio
com subsequente depleção nutricional do lactente. de coliformes e enterococus em vez de ter
bifidobactérias como os lactentes exclusivamente
Adolescência: o leite tem menor concentração de amamentados. Além disso, o leite materno tem
cálcio se comparado ao leite da mulher adulta, por oligossacarídeos e glicoconjugados que previnem
isso sua recomendação é de 1300mg. adesão intestinal de enteropatógenos.
Alergias alimentares: As proteínas do leite de vaca
LEITE DE VACA
são potentes alérgenos, sendo a história familiar de
O aleitamento materno é capaz de satisfazer as
atopia (resposta imunitária exagerada mediada pela
necessidades nutricionais da maioria das crianças
IgE) e exposição precoce às proteínas do leite de
até o sexto mês de vida. A alimentação com fórmulas
vaca são fatores de risco para o aparecimento de
lácteas é utilizada em situações em que a
alergia. No leite em pó, devido ao processo de
amamentação é contraindicada e/ou quando todas
desidratação as proteínas sofrem desnaturação que
as alternativas para estimular o aleitamento materno
as torna menos alergizantes.
falharem.
Alterações no crescimento: Lactentes amamentados
O leite de vaca é o mais utilizado, pois tem o menor
exclusivamente ao seio têm ritmo de crescimento
custo e facilidade de acesso. Resulta em maior carga
MED3 – AES8 – Problema 2
inferior aos alimentados com fórmulas, devido a sua 2. Em substituição ao leite materno em casos
auto regulação de ingestão alimentar e ao menor em que a amamentação é contraindicada;
consumo energético. Mas não há consequências 3. Como suplemento, em crianças amamentadas
adversas associadas ao menor ganho de peso e menor ao seio com ganho ponderal insuficiente.
consumo dietético.
LEITE DE SOJA
Econômicos: Implica em maiores gastos domésticos
Recomendação
pelo custo de utensílios, mantimentos e gás e maior 1. Crianças de famílias vegetarianas;
ônus para a saúde.
2. Crianças com galactosemia ou deficiência de
lactase primária ou que esteja se
Desenvolvimento cognitivo: Crianças que recebem
recuperando de uma intolerância secundária
leite de vaca têm menor escore de função cognitiva.
à lactose;
Porém este fator pode ser influenciado pela educação
3. Para bebês que podem ser alérgicos ao leite
materna e situação socioeconômica.
de vaca, mas que ainda não manifestaram
sinais clínicos. NÃO são recomendados para
FÓRMULAS INFANTIS MODIFICADAS bebês com alergias conhecidas à proteína,
É a melhor opção de alimentação para criança que pois àqueles com alergia ao leite de vaca
não é amamentada. também podem desenvolver alergia a
proteína da soja;
Fórmula infantil de partida: alimentação no 1º 4. Crianças nascidas a termo cuja necessidade
semestre de vida. nutricional não é preenchida pelo leite
materno;
Fórmula infantil de seguimento: indicadas para 5. Parte da dieta vegetariana para crianças
alimentação no 2º semestre de vida. nascidas a termo.
As principais modificações consistem em: redução do Os bebês que ingerem esta fórmula crescem igual aos
teor de proteínas e eletrólitos, substituição de parte alimentados com fórmulas à base de leite de vaca,
de lipídeos por óleo vegetal, adição de outros mas há preocupação pela exposição deles aos
carboidratos (maltodextrina, sacarose) e adição de fitoestrógenos e isoflavonas, pois não se sabe seus
vitaminas e minerais. efeitos.
Óleos vegetais são adicionados para garantir níveis Além disso, a soja tem baixo teor de metionina, o que
de absorção de gordura similares àqueles do leite pode interferir no crescimento adequado da criança,
materno. Além de melhorar a digestibilidade, não sendo indicadas as fórmulas caseiras a base de
aumentam a concentração de ac graxos essenciais. soja. As industrializadas já têm adição de metionina,
mas tem alto custo e sabor desagradável.
Sua densidade calórica é a mesma que a do leite
materno (0,67kcal/kg), seu carboidrato principal A lactose não é utilizada nas fórmulas de soja, elas
também é a lactose, o teor proteico costuma ser 1 vez contêm sacarose e/ou hidrolisado de amido de milho.
e meia superior à do leite materno, sua principal
proteína é a β lactoalbumina, e a relação proteína do As fórmulas a base de proteína de soja não são
soro: caseína é de 60:40, e não costuma conter recomendadas para prematuros, pois pouco se sabe
colesterol. sobre a absorção e utilização ótima de carboidratos,
proteínas e minerais destas.
Pelo custo elevado das fórmulas infantis é frequente
o erro de diluição, que pode ocasionar desnutrição, e
acréscimo de açúcar ou cereais aumentando a FÓRMULAS PARA CRIANÇAS EM SITUAÇÕES
osmolaridade da fórmula, além de risco de infecção ESPECIAIS
digestiva pelo uso de água contaminada para Fórmulas para Prematuros
reconstituição da fórmula Alta densidade energética (capacidade gástrica do
RNPT é bastante limitada e suas necessidades
Indicação energéticas são elevadas); níveis aumentados de
1. Em substituição ou como suplemento do leite proteínas e minerais, menores teores de lactose e
materno em crianças cujas mães não diferenciado perfil lipídico com 50% de
amamentam ou não o fazem exclusivamente;
MED3 – AES8 – Problema 2
TCM(mecanismos fisiológicos imaturos para digestão CRIANÇA
e absorção da gordura). Ex: Pré-Nan e Aptamil Pré
A alimentação adequada do lactente consiste em
aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de vida
Fórmulas anti-regurgitação (AR)
e complementado até os 2 anos. Assim, a alimentação
O princípio dessas fórmulas é a substituição de parte
complementar deve ser introduzida a partir dos 6
da lactose (redução de 25% por amido de milho ou de
meses, não havendo qualquer indicação de retardar
arroz pré-gelatinizados ou por goma jataí - tem a
essa introdução alimentar.
função de deixar o leite mais espesso com a vantagem
de não ser digerido no trato digestório e não
Aleitamento materno predominante – aquele em que
influencia a composição da dieta, evitando a
além do leite materno são dados água, chás e/ou
sobrecarga de carboidratos). Esses açúcares
sucos ao bebê.
substitutos, ao entrarem em contato com o pH ácido
do estômago, sofrem um processo de gelatinização, Aleitamento materno complementado – aquele em
conferindo maior resistência ao conteúdo gástrico e que o leite materno é complementado por alimentos
dificultando o refluxo da fórmula ingerida. Indicação: sólidos ou semissólidos. Idealmente deve ser iniciado
Doença RGE e podem ser usadas do nascimento até aos 6 meses.
12 meses de idade. Ex: Nan AR e Aptamil AR.
Aleitamento materno parcial ou misto – quando além
Fórmulas isentas de lactose do leite materno, a criança recebe outros tipos de
Ao invés da lactose, utiliza-se a maltodextrina como leite.
fonte de carboidratos. Esses oligossacarídeos da
glicose sob a forma de maltodextrina têm a vantagem Essa transição alimentar é realizada por meio de
de fornecer energia com pouco efeito na papas:
osmolalidade, eliminando complicações como diarreia Papa principal (anteriormente denominado papa
e má absorção. Além disso, é menos suscetível à salgada) – consiste em cereais ou tubérculos,
fermentação das bactérias intestinais e auxiliam na leguminosas, proteína (carne branca/vermelha ou
absorção de Ca, Mg eZn. Ex: Nan sem lactose, Enfamil ovo) e hortaliças (legumes e verduras);
sem lactose Premium (Mead Johnson).
Papa de frutas (anteriormente denominado papa
Fórmulas de proteína isolada de soja doce) – consiste em frutas variadas, podendo
São fórmulas completas e poliméricas, produzido após priorizar as laxantes (abacate, ameixa, mamão,
refinado processo de extração da proteína isolada da laranja) ou as obstipantes (maçã, banana) de acordo
soja. São completamente isentas de proteínas de LV e com o ritmo intestinal da criança, ou até mesmo
de lactose. Embora sejam indicadas para crianças mesclá-las para obter o equilíbrio.
alérgicas à proteína do LV, não são consideradas
hipoalérgicas (reação cruzada). Ex: Nan Soy, Apatamil As denominações de papa doce e papa salgada
de soja (1 e 2), Enfamil ProSobee Premium, Isomil e entraram em desuso porque algumas mães
Nursoy. adicionavam açúcar ou sal nas respectivas papas.
Portanto, caso alguma mãe ainda aplique essa
Fórmulas hipoalergênicas parcialmente hidrolisadas denominação, se faz necessário explicar que não se
São fórmulas de partida completas, compostas por deve adicionar sal, nem açúcar à papinha. O bebê não
proteínas de soro de leite parcialmente hidrolisadas tem necessidade desses compostos nesta fase de vida
pela ação da tripsina, com posterior tratamento e seu uso só lhe traz prejuízos.
térmico, o que reduz sua alergenicidade. Ex: Nan HÁ.
A introdução alimentar deve ser uma transição
ALIMENTAÇÃO E NECESSIDADES gradual de quantidade e consistência dos alimentos.
NUTRICIONAIS Dessa forma, algumas fases devem ser obedecidas de
Durante a infância, a alimentação adequada acordo com a idade da criança.
(equilibrada e com os nutrientes necessários) é a
garantia de crescimento e desenvolvimento Por exemplo, ao completar 6 meses, além do leite
adequados, bem como de estar atuando sobre a materno sob livre demanda, a criança deve ser
prevenção de doenças. alimentada com duas papas de frutas e uma papa
principal. Com 7 meses, uma nova papa principal é
adicionada à rotina alimentar da criança.
MED3 – AES8 – Problema 2
A quantidade de alimentos ingeridos por refeição Introduzir outros alimentos gradualmente a
também deve ser aumentada gradativamente, assim partir dos 6 meses;
como a consistência, até chegar à consistência da
alimentação da família, a qual deve ser introduzida Alimentos complementares após 6 meses:
com 1 ano de idade. o 3 vezes/dia, se em aleitamento
materno (4 vezes/dia após 7 meses);
Quantidade (em Kcal) e consistência das refeições o 5 vezes/dia, se criança não estiver
durante introdução alimentar, de acordo com a sendo amamentada;
idade da criança o Oferecer todos os grupos
alimentares: cereais, tubérculos,
Idade Kcal/refeição Consistência carnes, leguminosas, frutas, legumes
e, inclusive, ovo (desde que seja
6a8 cozido).
200 Amassada
meses
Alimentação sem rigidez de horário:
9 a 11
300 Branda o Respeitando a vontade da criança;
meses
o De forma geral, orienta-se que haja
uma refeição regular a cada 2 a 3
Normal
12 a 24 (consistência da horas.
550
meses refeição da
família) Alimentação complementar espessa desde o
início:
o Os alimentos não devem ser
Esquema alimentar para os dois primeiros anos de liquidificados, apenas amassados,
vida para crianças amamentadas de forma que fiquem espessos, já
que quanto maior a espessura maior
Ao completar Ao completar Ao completar é o aporte calórico-energético;
6 meses 7 meses 12 meses o É importante evitar sucos! Se for
ofertar, que seja no máximo 100
Leite materno mL/dia. Isso porque a capacidade
Leite materno Leite materno gástrica da criança é pequena e o
+ fruta ou
sob livre sob livre suco, por ocupar grande volume,
tubérculo ou
demanda demanda leva a criança a rejeitar outros
cereal
alimentos, fazendo com que o
Papa de frutas Papa de frutas Fruta aporte calórico fique abaixo do
ideal;
Refeição da o A consistência deve ir aumentando
Papa principal Papa principal
família gradativamente, até que, ao chegar
aos 12 meses, a criança consiga
Fruta ou pão comer os alimentos da consistência
simples ou da comida da família;
Papa de frutas Papa de frutas
tubérculo ou o Os alimentos devem ser oferecidos
cereal em colher, para que a criança
comece a treinar a manipulação dos
Refeição da utensílios e do alimento.
Leite materno Papa principal
família
Oferecer alimentos diferentes todos os dias,
de forma que a alimentação seja diversa e
PASSOS A SEREM SEGUIDOS colorida;
Fornecer aleitamento materno exclusivo até
os 6 meses (sem oferta de água, nem chá e Estimular o consumo diário de frutas,
nem suco); verduras e legumes:
o A criança pode precisar de cerca 8
a 10 exposições para aceitar o
MED3 – AES8 – Problema 2
alimento, então é importante aconselhar os pais a estimularem o consumo
aconselhar as mães a persistirem. utilizando a fantasia, mas nunca forçar, ameaçar ou
premiar com comida.
Evitar: açúcar, café, enlatados, frituras,
refrigerantes, balas, salgadinhos: Outra recomendação é que as refeições devem ser
o Sal sempre com moderação e açúcar oferecidas em horários fixos. Se a criança não aceitar,
refinado, de preferência, só depois não deve haver substituição, deve-se esperar o
dos dois anos. O uso precoce de próximo horário para oferecer a refeição. É
açúcar está associado à presença fundamental também que não se oferte alimentos
de cárie. fora de hora, principalmente doces e alimentos
hipercalóricos.
Cuidar da higiene no preparo e manuseio dos
alimentos, de modo a evitar infecções O tamanho das porções deve ser compatível com a
gastrointestinais: idade e deve-se evitar líquidos durante as refeições
o Higienizar bem os utensílios (já que ocupa espaço no estômago e impede o aporte
utilizados para alimentar a criança, adequado de calorias), bem como o consumo de
bem como as mãos antes do guloseimas e refrigerantes. Outra recomendação
preparo; importante é eliminar a mamadeira noturna, uma vez
o Os alimentos devem estar bem que é muito calórica e, por vezes, a criança passa o
cozidos. dia seguinte inteiro sem comer. Deve-se ainda, ter
bastante cuidado com engasgo (principalmente com
uva, pipoca e balas).
Estimular a criança doente a se alimentar:
o Dar alimentos de preferência da
criança, oferecendo em poucas ESCOLAR
quantidades, mas várias vezes ao Nessa faixa etária, o ritmo de crescimento é
dia. constante, havendo maior ganho ponderal do que
ganho estatural, bem como necessidade de atividade
Quando o leite materno estiver sendo insuficiente física mais intensa. A despeito disso, na maioria das
para manter o crescimento e desenvolvimento vezes, há excesso de alimentos calóricos e pouco
adequados do bebê, há duas possibilidades: nutritivos e falta de incentivo à atividade física, além
de exposição excessiva às telas. Isso culmina no maior
Se a criança tem menos de 4 meses, deve ser risco de obesidade deste grupo. Portanto, é essencial
instituído o aleitamento por meio de fórmulas; que haja redução do tempo de tela, incentivo à
atividade física e restrição de alimentos ricos em
Se a criança tem 4 meses ou mais, a açúcar, sal e gorduras, entre eles: salgadinhos, fast
introdução alimentar é antecipada e o aleitamento foods, guloseimas e bolachas recheadas. Entretanto,
por fórmulas fica restrito a 600 mL/dia. deve-se ter cuidado na condução do controle de
peso, já que a preocupação excessiva ou mal
PRÉ-ESCOLAR conduzida com peso nessa idade pode desencadear
O pré-escolar sofre uma diminuição do ritmo de distúrbios alimentares, entre eles bulimia e anorexia.
crescimento e, nesta fase, há também
desenvolvimento dentário, sendo necessários Tanto a bulimia quanto a anorexia causam a perda
alimentos para auxiliar neste processo. acelerada de peso. Porém, na anorexia há uma
percepção inadequada da imagem corporal, de forma
É uma idade em que há preferência por doces e que o indivíduo vai gradativamente deixando de
alimentos mais calóricos, bem como comportamento comer, até que o organismo se adapte e não haja
alimentar imprevisível, comem bem em alguns dias, mais a sensação de fome. Já na bulimia, não há
enquanto em outros, não aceitam nada. Há ainda as distorção da imagem corporal, nem controle da fome,
crianças denominadas Pick/Fussy eater, ou seja, são o que leva ao hábito de comer e vomitar em seguida,
seletivas, só comem algumas coisas. na busca pelo “corpo ideal”.
Outro comportamento que também é bastante A alimentação dessa fase deve ser variada,
comum é a neofobia, ou seja, a recusa de alimentos consistindo em:
novos após os 2 anos de vida. É importante Peixe 2 vezes por semana;
MED3 – AES8 – Problema 2
Verduras, legumes e frutas; As crianças ficam mais suscetíveis a
Limitação do sal para < 6 g/dia; engasgos e asfixia, já que a consistência não
600 mL/dia de leite ou derivados, para é adaptada;
garantir o consumo adequado de cálcio; Como as crianças priorizam frutas e legumes
Evitar substituição das refeições por lanches; (que são menos calóricos), há a possibilidade
Evitar guloseimas e refrigerantes. de déficit energético e de nutrientes como o
ferro (presente principalmente na carne),
Ademais, é essencial reduzir o tempo gasto com levando ao comprometimento do seu
atividade sedentárias e aumentar aquele gasto com crescimento.
atividades físicas de intensidade.
BLISS (BABY-LED INTRODUCTION TO SOLIDS)
ADOLESCENTE O método de Introdução de sólidos guiado pelo bebê
No início da adolescência, há a puberdade, um foi desenvolvido tentando sanar os problemas
período de aceleração do crescimento, aumento da relacionados ao BLW. Dessa forma, nessa abordagem,
massa corporal e modificação da composição os alimentos são ofertados cortados em pedaços e
corporal. Nessa fase, a atividade física variável e o devem ser experimentados anteriormente pelo
alto consumo de energia e gordura têm algumas adulto, buscando verificar se estes são facilmente
consequências, entre elas: o aumento do risco amassados pela língua (prevenindo risco de engasgo
cardiovascular e o favorecimento do e asfixia).
desenvolvimento de resistência à insulina.
Além disso, em cada refeição deve-se garantir uma
Além disso, a ingestão inadequada de vitaminas, oferta adequada de ferro e calorias, estimulando que
minerais e cálcio leva ao maior risco de osteoporose a criança coma a carne e os tubérculos, que
no futuro, já que cerca de 50% da massa óssea adulta geralmente são rejeitados.
é adquirida nessa idade, ou seja, o pico de
mineralização óssea acontece neste momento. Assim, Essa abordagem ainda é fruto de muitas contradições
a ingestão de cálcio inadequada compromete a entre especialistas. Enquanto alguns defendem que
massa óssea do adulto. Outro fator que contribui essa é uma forma de respeitar o ritmo de aceitação
para essa maior propensão a osteoporose é o da criança, outros argumentam que o bebê não é
consumo de alimentos que interferem na absorção de capaz de comer sozinho a quantidade suficiente para
cálcio: cafeína, ftalatos, oxalatos. Assim, estes devem manter seu crescimento adequado.
ser evitados.
METABOLISMO DO FERRO
A necessidade diária estimada de cálcio para o O ferro da dieta existe sob duas formas químicas: o
adolescente é de 1.300 mg, o que equivale a 3-5 ferro heme, que é encontrado na hemoglobina,
porções de derivados lácteos, sendo 1 porção de leite mioglobina e nas enzimas (ferro em alimentos de
ou iogurte igual a 240 mL e 1 porção de queijo igual origem animal) e o ferro não heme, que é encontrado,
a 2 fatias, ou 40 g. principalmente, em alimentos de origem vegetal.
ABORDAGENS DE INTRODUÇÃO ALIMENTAR Em seres humanos o ferro pode ser encontrado:
Na hemoglobina, mioglobina e enzimas =
forma funcional;
BLW (BABY-LED WEANING) Ferritina, hemossiderina e transferrina =
Método de introdução alimentar baseado no forma de depósito;
desmame guiado pelo bebê, ou seja, essa abordagem
encoraja os pais a confiarem na capacidade do bebê A absorção intestinal do ferro heme e não heme
de se autorregular, deixando-o livre para consumir os acontece por meio de processos diferentes no
alimentos de sua preferência e na quantidade que enterócito. Quando há deficiência de ferro a sua
quiser. Este método defende ainda que os alimentos absorção é facilitada pela ação de mecanismos
sejam oferecidos in natura em pedaços, sem adaptar reguladores. Os enterócitos contém duas membranas
a consistência e sem uso de colher. que servem de passagem para moléculas e para o
transporte de micronutrientes como o ferro. A da
Vários especialistas questionam tal abordagem, borda em escova (contato com o lúmen intestinal) e
porque: a basolateral (transferência de nutrientes para o
MED3 – AES8 – Problema 2
sangue). O ferro precisa ultrapassar a borda em síntese da molécula de hemoglobina. A deficiência
escova, ser transportado dentro do enterócito e, deste mineral pode acontecer por vários fatores,
posteriormente, conforme a necessidade, ser como os fatores genéticos, infecções e deficiência na
disponibilizado na corrente sanguínea, chegando aos ingestão do mineral.
tecidos exercendo as suas diversas funções.
Há dois tipos de ferro nos alimentos: ferro heme
Recomenda-se, na mesma refeição, a ingestão de (origem animal, sendo mais bem absorvido) e ferro
alimentos ricos em vitamina C (encontrados em frutas não heme (encontrado nos vegetais). Seus alimentos
cítricas como laranja, acerola, limão), alimentos ricos fonte são: carnes vermelhas, principalmente vísceras
em ferro não heme para aumentar a fígado e miúdos, carnes de aves, carne suína, peixes
biodisponibilidade e alimentos ricos em vitamina A e mariscos, hortaliças folhosas verde-escuras e
(disponível em frutas como mamão e manga, e em leguminosas, como o feijão e a lentilha.
hortaliças como abóbora e cenoura).
ETIOLOGIA
A absorção de ferro é influenciada, por diversos
A causa mais comum de anemia é por sideropenia,
fatores, entre eles:
mais conhecido como deficiência de ferro. O ferro é
um dos principais constituintes da hemoglobina,
⁃ Pela dieta no caso do ferro não heme;
impactando na concentração e conformação das
⁃ Por um hormônio produzido no fígado
hemácias. Os eritrócitos costumam se apresentar
chamado hepcidina, que atua inibindo a
microcíticos e hipocrômicos devido à falta de ferro
absorção de ferro. Quando há deficiência de
sérico e ferritina, cursando com alta capacidade de
ferro sua concentração diminui, permitindo
fixação do ferro total.
uma maior absorção do ferro;
⁃ Pela saturação de transferrina ou
Anemia ferropriva é a redução na quantidade de
porcentagem de ferro ligado à transferrina,
hemoglobina sanguínea devido à carência de ferro e
que se estiver baixa estimula a saída de ferro
é considerada o principal tipo de anemia nutricional.
do enterócito para circulação pela
Ela acontece devido à manutenção de um quadro com
membrana basolateral.
maior demanda que oferta desse nutriente, levando
⁃ Pela presença de fatores dietéticos
ao esgotamento das reservas orgânicas.
estimuladores (ex. Vitamina C) ou inibidores
(ex. Taninos) de sua absorção.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a
anemia é um grave problema de saúde que leva,
ANEMIA FERROPRIVA
inclusive, a impactos sociais e econômicos, pois, além
Anemia ferropriva é a responsável pela maior parte de afetar o desenvolvimento cognitivo e motor de
das anemias encontradas e está associada a mais de crianças, também causa fadiga e redução na
60% dos casos de anemia no mundo. Trata-se de um produtividade. Além disso, quando ocorre durante a
processo patológico no qual a concentração de gravidez, pode se relacionar com baixo peso ao
hemoglobina (Hb) contida nos glóbulos vermelhos se nascer dos recém-nascidos, podendo aumentar a
encontra abaixo dos valores esperados (inferior a - mortalidade materna e perinatal.
2DP), tornando-se insuficiente para atender às
necessidades fisiológicas exigidas de acordo com Apesar de possuir ampla distribuição mundial, com
idade, sexo, gestação e altitude. cerca de um terço da população mundial atingida, a
anemia ainda é uma doença que acomete
Esta patologia afeta o crescimento e o principalmente países em desenvolvimento e de
desenvolvimento da criança, como, por exemplo, o menor renda.
desenvolvimento de habilidades cognitivas e
comportamentais, linguagem e capacidades motoras.
Ainda, predispõe a cáries dentárias, a alterações na DIAGNÓSTICO
imunidade, paladar e apetite, a uma resposta Alguns sinais clínicos da anemia podem passar
alterada ao estresse metabólico e alterações no despercebidos, dentre eles: palidez cutâneo-mucosa,
desenvolvimento audiovisual. queda na curva de peso, apatia, irritabilidade,
escleras azuladas, redução da capacidade de
O ferro é um mineral vital para a homeostase celular. atenção e déficits psicomotores. A SBP recomenda
É essencial para o transporte de oxigênio, para a que uma triagem seja feita aos 12 meses de idade em
síntese de DNA, metabolismo energético e para a
MED3 – AES8 – Problema 2
todos os pacientes, com o hemograma, contagem de TRATAMENTO
reticulócitos e ferritina.
O objetivo do tratamento da anemia ferropriva deve
ser o de corrigir o valor da hemoglobina circulante e
O primeiro estágio de deficiência é a diminuição dos
repor os depósitos de ferro nos tecidos onde ele é
depósitos de ferro no fígado, baço e medula óssea,
armazenado. Deve ser pautado na orientação
podendo ser diagnosticada pelos níveis séricos de
nutricional para o consumo de alimentos fonte e
ferritina, que possui forte relação com o
reposição de ferro – por via oral – com dose
armazenamento de ferro nos tecidos. Valores de
terapêutica de 3 a 5 mg/kg/dia de ferro elementar
ferritina menores que 12μg/L em crianças menores de
para crianças de, no mínimo, oito semanas.
5 anos indicam depleção da reserva corporal de ferro.
A suplementação deve ser continuada visando a
No segundo estágio, são utilizados para diagnóstico
reposição dos estoques de ferro, o que varia entre
a própria redução do ferro sérico, aumento da
dois a seis meses ou até obtenção de ferritina sérica
capacidade total de ligação da transferrina (>250-
maior que 15μg/dL (ressalvando a importância de
390μg/dl) e a diminuição da saturação da
alcançar os valores esperados entre 30 e 300μg/dL).
transferrina (<16%).
Dentre os diversos tipos de sais de ferro disponíveis
E o último estágio, o terceiro, ocorre quando há para a suplementação destacam-se o sulfato ferroso,
diminuição dos níveis séricos de hemoglobina, o fumarato ferroso e o gluconato ferroso.
hematócrito e alterações hematimétricas. Segundo a
Além da suplementação via oral, a reposição
OMS, o ponto de corte para anemia são níveis de
parenteral de ferro é recomendada em casos
hemoglobina menores que 11,0g/dl para crianças
excepcionais, como os de hospitalização por anemia
menores de seis anos e gestantes.
grave (após falha terapêutica do tratamento oral),
Classicamente, a anemia ferropriva se manifesta por necessidade de reposição por perdas sanguíneas,
hipocromia, com o HCM (Hemoglobina Corpuscular doenças inflamatórias intestinais, quimioterapia,
Média) abaixo de 25pg, associada na maioria das diálise ou após cirurgias gástricas com acometimento
vezes à microcitose, com VCM (Volume Corpuscular do intestino delgado, devendo sempre ser solicitada
Médio) menor que 75fl. O RDW avaliação de especialista experiente para uso prévio.
(RedCellDistributionWidth), que indica o grau de
A transfusão sanguínea somente está indicada em
anisocitose da amostra de sangue examinada, sugere
crianças com hemoglobina inferior a 5g/dl ou com
fortemente a anemia ferropriva quando seu valor é
sinais de descompensação cardíaca. Nessas situações,
superior a 20%.
é aconselhável a utilização de 10 ml/kg de
concentrado de hemácias, em venóclise lenta, e
PREVENÇÃO monitoramento dos sinais vitais.
Ações de educação alimentar e nutricional voltadas
para a prevenção da anemia ferropriva preveem o PROFILAXIA
estímulo ao acesso universal à alimentação
A suplementação de ferro de forma preventiva é
adequada, ao aleitamento materno exclusivo e
necessária durante a gestação e nos primeiros 2 anos
prolongado, de forma a aumentar o consumo de
de vida, pois, nessa fase, as necessidades do corpo
alimentos fontes de ferro, bem como de alimentos que
são muito elevadas. A quantidade diária necessária
aumentam a biodisponibilidade e a absorção do ferro
varia de acordo com a fase da vida.
na introdução de alimentos complementares.
A contraindicação de uso de leite de vaca in natura, De acordo com o Programa Nacional de
não processado, em pó ou fluido antes dos 12 meses Suplementação de Ferro do Ministério da Saúde,
(limitação de consumo de 500ml/dia após os 12 crianças entre 06 e 24 meses devem ser
meses) também é uma estratégia reconhecidamente suplementadas com sulfato ferroso na dosagem de
protetora contra a deficiência de ferro e o 1mg/kg peso/dia. Associado a isso, é orientada a
desenvolvimento de anemia ferropriva, devendo ser amamentação materna exclusiva até os 6 meses de
continuamente incentivada. idade e, a partir disso, deve ser implementada a
alimentação complementar saudável com adequada
quantidade e biodisponibilidade de Ferro.
MED3 – AES8 – Problema 2
No caso de lactentes nascidos pré-termo ou com
baixo peso (menor de 1500g), recomenda-se a
suplementação com 2mg/kg/dia de ferro a partir do
30º dia até os 12 meses. Para os prematuros com
baixo peso (entre 1000g e 1500g), recomenda-se a
suplementação de 3mg/kg/dia até os 12 meses. No
caso de recém-nascidos com menos de 1000g,
recomenda-se 4mg/kg/dia.
Após o 1º ano de vida, a suplementação em todos os
casos reduz-se para a dose de 1mg/kg/dia por mais
12 meses. Para crianças entre 2 e 12 anos residentes
em regiões com prevalência de anemia ferropriva
superior a 40%, recomenda-se suplementação
profilática com ferro elementar diferenciada (30mg/
dia).
É importante salientar que crianças em aleitamento
materno exclusivo só devem receber o suplemento a
partir do sexto mês de idade. Se o bebê não estiver
em aleitamento materno exclusivo, poderá ser
realizada a partir dos quatro meses de idade,
juntamente com a introdução dos alimentos
complementares.
Considera-se a complementação de ferro oral a essas
crianças, porque apresentam igual chance de
desenvolverem anemia ferropriva na fase de
crescimento. E as crianças menores de um ano que
recebem leite de vaca in natura ou fórmula
inadequada estão em situação de risco nutricional
para anemia ferropriva e devem ser avaliadas
precocemente quanto à necessidade de
suplementação.
MED3 – AES8 – Problema 2