A atuação de profissionais da psicologia em situações extremas tem ganhado destaque
no Brasil nos últimos tempos, mesmo que não existam tsunamis ou terremotos significativos
no nosso país, há enchentes, deslizamentos e secas cada vez mais frequentes. Apesar da
própria definição de “desastre” e “situações extremas” ser uma das dificuldades do estudo,
especialistas de diversas áreas apontam que tais acontecimentos se tornarão mais comuns “a
médio prazo”. Vasconcelos e Cury (2017), portanto, apontam a importância da psicologia se
debruçar sobre a sua presença nas equipes multidisciplinares de cuidado, tendo em vista
intervenções na preparação das comunidades para prevenir ou reduzir os impactos negativos
desses eventos. Nesse sentido, o presente trabalho tem por objetivo apontar a importância da
Psicologia e da atuação do psicólogo frente às comunidades que estão sujeitas a desastres e
delimitar a necessidade de intervenções e ações em prol do social.
Em primeiro momento, com o intuito de esclarecer alguns pontos importantes sobre a
temática vigente cabe apontarmos o conceito de desastres enfatizado pela Defesa Civil
brasileira, na qual menciona serem eventos ocasionados por fenômenos da natureza, já que os
que derivam da ação humana são denominados mistos (Trindade; Serpa, 2013). Embora essa
definição separe os desastres naturais dos mistos, sabemos que todos os desastres acometidos
por forças da natureza geralmente são agravados pelas ações humanas. Desse modo, é cabível
destacar que a ação dos fenômenos naturais é fortemente intensificada frente ao resultado da
urbanização crescente e da pobreza, sendo que a marginalidade social e econômica e a
inconsequente exploração dos recursos da natureza são os principais agravantes de um
desastre.
Além disso, ao se tratar do assunto, é imprescindível destacar o impacto gerado pelo
desastre na vida em comunidade. Sabe-se que além dos estragos físicos, os danos emocionais
são recorrentes, uma vez que o medo e pânico gerados pelo ocorrido imprevisível aumentam a
situação de crise. Conforme as autoras, quando a moradia é destruída ou danificada por um
desastre repentino, as repercussões sobre a rotina da família são complexas, ocasionando
modificação na vivência dessas pessoas. Diante disso, o papel do psicólogo é fundamental
nestas situações, visto que uma mudança repentina na vida de alguém pode ser um fator
agravante para um dano psicológico.
Outro ponto que merece destaque é sobre a magnitude dos desastres, sendo que o grau
de vulnerabilidade das comunidades é o principal fator agravante e de risco após um evento
repentino e de destruição. Em virtude disso, a prevenção de desastres se torna um fator de
extrema necessidade para que a capacidade de resistência da sociedade seja aumentada, uma
vez que essa prevenção corrobora para que a vulnerabilidade da população seja mitigada ou,
até mesmo, evitada. Nesse sentido, aponta-se a necessidade de intervenção na fase pré-
desastre, com o intuito de ajudar a população, sendo que uma comunidade bem informada é
capaz de agir prevenindo e minimizando a fase pós-evento, que é de reconstrução e/ou
compensação dos prejuízos ocasionados por desastres naturais (Trindade; Serpa, 2013).
A questão dos desastres envolve necessariamente a relação do homem com seu
ambiente, e, em face disso, o tema se torna relevante para a Psicologia. Por este fator, ambos
artigos estudados, apontam a contribuição da Psicologia para a construção de comunidades
mais seguras ao intervir nos fatores que as ameaçam. Outrossim, Trindade e Serpa (2013)
apud Paiva e Yamamoto (2010) argumentam que “como os psicólogos são profissionais que
se preocupam com o bem-estar, eles devem se ocupar das questões sociais. E que só há
compromisso social da Psicologia se esta estiver ligada a um plano de mudança, buscando as
causas do problema e medidas para solucioná-las, a partir de uma ação que vise à
emancipação do sujeito”.
Em casos como esses, a atuação do psicólogo transforma o atendido e o profissional
(segundo os relatos apresentados) no artigo de Vasconcelos e Cury (2017). No artigo, a
escolha pelo termo “situações extremas” demonstra que as autoras se inserem dentro de uma
linha interpretativa onde profissionais e atendido (vítimas) estão diante de uma situação de
elevado risco pessoal (próxima à compreensão estadunidense de psychology in extremis,
cunhada pelo serviço militar dos EUA). Tudo isso corrobora a ideia de que são múltiplas as
situações que podem ser compreendidas como “extremas” onde há a necessidade da atuação
da psicóloga.
Percebemos que ambos artigos trazem a possibilidade de pensar a atuação da
psicologia para além das delimitações tradicionais, demonstrando que o atuar da psicóloga
anda lado a lado com as necessidades de apoio humanitário básico e de atenção primária. Fora
dos consultórios e empresas, a psicologia precisa adentras as situações limítrofes da nossa
existência pessoal e social para ajudar a buscar respostas que nos ajudem a viver, da melhor
maneira possível, aquele momento. O acolhimento e a escuta qualificada da psicologia
tornam-se, portanto, um dos baluartes do cuidado humano, seja por vias tradicionais/típicas,
seja em situações extremas/calamidades.
Do ponto de vista dos profissionais que se colocam à disposição do trabalho em
“situações extremas”, os resultados da pesquisa nos pareceram muito interessantes. Segundo
as autoras, é possível elencar cinco questões relevantes. Seria importante apontar, e comentar
brevemente, cada uma delas (cf. VASCONCELOS; CURY, 2017, p.481-485)
a) percebe-se que a experiência de conviver com o risco torna-se parte inerente a esse tipo de
prática profissional; ou seja, que a própria dinâmica do atendimento e das situações nas quais
esses profissionais atuam representam um risco para si e para os demais seres humanos ali
presentes.
b) que pertencer a uma organização humanitária é vital para a atuação; ou seja, existe uma
rede de atenção e articulação na qual o profissional precisa estar inserido. Elas possuem a
expertise para oferecer o apoio e podem subsidiar a atuação da psicóloga.
c) que a atenção psicológica se desenvolve em sintonia com as especificidades e demandas
da situação, constituindo-se a partir de atitudes de empatia e aceitação em relação às
pessoas vitimadas, assim como de autenticidade em relação ao próprio psicólogo; ou seja, a
psicóloga não está isolada em sua prática profissional nem em sua reflexão teórica, mas é
parte de um organismo de atenção que se adequa às necessidades de cada evento/situação e às
dores e necessidades das pessoas atendidas.
d) que a prática em situações extremas constitui campo fértil e peculiar de aprendizagem; ou
seja, por ainda ser uma área que carece de estudos e uma necessidade que se apresenta de
maneira cada vez mais regular, os profissionais que atuam nessas situações podem se
desenvolver no âmbito da aprendizagem e da pesquisa. É um terreno pouco explorado para o
estudo e o desenvolvimento de respostas aos dilemas humanos enfrentados.
e) que os psicólogos revelaram sentimentos de autorrealização e gratificação em decorrência
de sua participação e o desejo por continuar atuando naqueles contextos, ou seja, por se
tratar de uma atuação que atende as pessoas em situação de extrema fragilidade, tanto física
quanto psicológica, a compreensão de si como agente de transformação e a realização
enquanto profissional e ser humano se apresenta de maneira muito significativa.
Sendo assim, com a atuação do psicólogo nessa temática podem ser desenvolvidas
ações favoráveis a comunidade, além de propiciar maior conhecimento e entendimento das
pessoas acerca da prática do profissional de Psicologia nessas situações e melhor capacitar o
psicólogo. Focar a atuação do psicólogo nas fases pré, durante e pós-evento é essencial para a
manutenção e melhoria da qualidade de vidas das comunidades afetadas pelos desastres. Na
etapa pré-evento as ações são voltadas para prevenir ou mitigar os futuros danos. Durante o
evento é possível realizar ações emergenciais; e a reconstrução das comunidades é realizada
na etapa pós-evento. Por fim, elaborar planos de ação diante das próximas emergências
também é um fator essencial de prevenção e de mitigação da vulnerabilidade, sendo de suma
necessidade a atenção multiprofissional diante destas situações.