FRÁGIL
DIANA NIXON
Copyright © 2019 by Diana Nixon
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qualquer forma ou quaisquer meios eletrônicos ou mecânicos, incluindo
fotocópia, gravação ou por qualquer sistema de armazenamento ou
recuperação, sem permissão escrita prévia da autora, exceto onde permitido
por lei.
Os personagens e eventos representados neste livro são fictícios.
Qualquer similaridade com pessoas reais, vivas ou mortas, é coincidência e
não intencional pela autora.
Traduzido/Revisado por: Maria Lidia Lima
Design de capa: Amina Black
FRÁGIL
(Sinopse)
Ela era fora dos limites por muitos motivos: jovem demais, inocente
demais e linda demais para se resistir. Mas acima de tudo – porque ela era a
irmãzinha do meu melhor amigo. Ela era como um tabu que nunca deveria
ser quebrado.
Mas passamos da linha juntos… Cedemos à tentação e cometemos
um erro que nos mudou para sempre.
Anos se passaram, mas, por algum motivo desconhecido, as memórias
que eu tinha dela nunca pararam de assombrar meus sonhos.
Estava ainda mais obcecado por ela do que anos atrás, enquanto ela
me odiava até os ossos. E ela tinha um bom motivo para se sentir assim…
“Eu te devo uma vida inteira de nós dois e não vou te decepcionar,
não de novo…”
PRÓLOGO
Pittsburgh
6 anos atrás
Liam
“Fique onde está, não se mexa, mãos para cima!” Uma voz feminina
advertiu atrás de mim.
Não era exatamente a forma como eu esperava começar a manhã. E,
considerando o quanto eu bebera na noite passada, não esperava começar tão
cedo, falando nisso.
“Calma aí, querida,” eu disse, ainda parado de costas, com as costas
completamente nuas, viradas para quem quer que estivesse no quarto comigo
agora. Não importa o quão exausto e destruído eu estava, nunca ia para a
cama com roupa. Não que minhas boxers de repente fossem me estrangular
no meio da noite, mas eu apenas era uma cara que amava liberdade, em tudo.
“Quem é você? E que inferno está fazendo no meu quarto?”
“Seu quarto?” As engrenagens da minha mente intoxicada por
cerveja-mais-vodka começaram a girar.
Noite passada, eu e meu amigo Stanley fomos ao Storm – nosso lugar
favorito na cidade – para comemorar o começo das nossas férias de verão.
Depois da festa, fomos comemorar mais na casa dele e, em algum momento,
devo ter desmaiado porque não lembro de nada sobre o que aconteceu depois
que abrimos a segunda garrafa de vodka e até alguns minutos atrás quando
acordei sentindo uma maldita sede, podia beber um galão de água se
conseguisse chegar à geladeira. Levantei da cama, peguei minhas roupas
jogadas no chão e ela entrou no quarto.
“Crystal?” eu disse, quando a compreensão me atingiu. Ela era a irmã
mais nova de Stanley. Devo ter desmaiado no quarto dela noite passada.
Sabia que ela estava fora da cidade, e ela definitivamente era a última pessoa
que meu traseiro nu esperava ver de manhã.
Estendi a mão para as roupas de novo.
“Fique de mãos pra cima!” Ela disse de novo.
“Calma. É apenas eu – Liam.”
As luzes acenderam e ela arfou. “Liam? Que porra?”
Lentamente, virei e comecei a rir. Ela estava segurando uma escova
de cabelo em uma mão e uma lixa de unha na outra.
“Não sabe que não é educado receber convidados armada até os
dentes, Sissy?” Sabia que ela odiava quando a chamava assim, mas amava o
nome que eu lhe dera uma vez, e nunca perdia a chance de usá-lo.
“Você me assustou pra caramba!” Ela soltou um suspiro de alívio e
colocou as ‘armas’ na sua penteadeira.
Eu ri. “Ainda se importa se eu baixar as mãos?” Não que estivesse
com vergonha de estar de pé em toda minha glória na frente de uma garota.
Mas ela não era apenas qualquer garota, era irmã do Stanley e eu tinha
certeza que ele cortaria minhas bolas pela mera ideia de ficar nu na frente
dela, não importando sua idade.
Os olhos chocolate dela deslizaram pelo meu torso e o caminho
inteiro até minha virilidade.
Ela cruzou os braços, os lábios curvados em um sorriso de gato. “Me
importo, sim, na verdade… Não respondeu minha pergunta, lembra? Então, o
que está fazendo no meu quarto?”
Eu ignorei sua pergunta. “Eu sempre soube que você me queria nu na
sua cama.” Pisquei para ela. Não sei porquê, mas Crystal e eu nunca fomos
melhores amigos. Nós ou falávamos algo ousado um para o outro ou
fingíamos que não nos conhecíamos. Mesmo quando crianças, sempre
brigávamos por coisas estúpidas, como um pedaço de torta de chocolate que
ela e eu amávamos mais do que qualquer coisa no mundo, ou um programa
de TV para assistir ou um assento no carrossel que era pequeno demais para
duas pessoas. Em suma, ela sempre fora uma chateação.
“Você se dá muito crédito,” ela disparou, de repente, ficando
vermelha.
Eu sempre amava fazê-la corar, fora das outras coisas que eu amava
fazer para chateá-la.
Em uma voz baixa, eu disse: “Então por que parece que você está
gostando da visão?”
Os olhos dela permaneceram presos nos meus. Havia algo no seu
olhar que eu não entendia. Sempre fora assim. Não importa quando ou onde
nos encontrávamos, nunca consegui ler os pensamentos que se passavam pela
mente inteligente dela. Mesmo sendo quatro anos mais velho, sempre sentia
que ela estava adiantada.
“Vá para o inferno, Liam,” ela assobiou, após uma curta pausa.
“Posso tomar banho primeiro? Não quero que o diabo pense que sou
um porco.”
Ela sorriu, os olhos deslizando para minha virilidade de novo.
“Certifique-se de que seja um banho frio.”
Meu olhar seguiu o dela Meu ‘levante-se e brilhe’ era óbvio demais
para se disfarçar. Mas Sissy não parecia constrangida em testemunhar isso.
Droga… Hora perfeita, cara.
“É tudo culpa sua,” eu disse, enquanto colocava as mãos nos quadris.
“Você surgiu quando eu menos esperava uma aparição feminina.”
“Seu instrumento reage da mesma forma a toda garota que o dono
coloca os olhos sem-vergonha?”
“Olhos sem-vergonha?” Eu ri. “Olha quem fala! Você não deixou eu
me vestir, lembra? O que me faz pensar que minha hipótese sobre seu desejo
em me ver nu na sua casa não estava longe da verdade, afinal.”
“Pegue suas coisas e caia fora do meu quarto. Agora!”
“Ou o quê?” Me aproximei. Ela não recuou.
“Ou vou contar ao Stan que você quis me seduzir.”
“Vá em frente, chame ele.” Sabia que ela nunca faria isso.
Ou talvez eu devesse ter pensado duas vezes antes de tirar
conclusões…
“Stanley!” Ela abriu a porta e gritou o mais alto que pôde.
“Ah, você vai pagar por isso.” Agarrei minhas boxers e jeans, e
comecei a vestir, o que não foi fácil devo dizer, considerando que meus
movimentos ainda estavam um pouco lentos para me vestir em dez segundos
ou algo assim.
Justo quando terminara de fechar os jeans, Stan entrou no quarto.
“Bom dia, flor do dia,” ele disse para a irmã, beijando-a nas duas
bochechas. “Não sabia que você ia voltar hoje. Achei que fosse ficar na casa
do lago até o baile de formatura.”
“O clima piorou. Além disso, queria que minha volta fosse surpresa.
Mas parece que uma surpresa estava me esperando.” Ela apontou para mim.
“Liam? O que está fazendo aqui?” Ele olhou com suspeita para meu
peito nu. “Não disse para você ficar no quarto de hóspedes?”
“Devo ter entrado no quarto errado. Sabe o quanto eu mal conseguia
ficar de pé ontem.”
“Verdade.” Ele olhou para Crystal. “Desculpe, mana. Devia ter
mostrado o quarto de hóspedes para ele.”
“Não se preocupe, Liam e eu tivemos uma ótima conversa matinal,
certo?” Ela me abençoou com seu melhor sorriso de sacana. “Mas da próxima
vez que estiver ficando bêbado, certifique-se de não ficar na minha cama para
curar a ressaca.”
Stan me lançou um olhar de reprovação.
“Vou lembrar disso,” eu disse. Então agarrei minha camisa do chão e
coloquei.
“Vou te esperar na cozinha,” Stan disse, saindo do quarto.
Parei na frente de Crystal e disse silenciosamente, para que o irmão
dela não ouvisse: “Da próxima vez que quiser me ver nu, é bem-vinda para
vir e me esperar na minha casa. Sabe onde moro, certo?”
“Saia, Liam.”
“Tenha um bom dia, Sissy.”
Ela me empurrou para fora do quarto e bateu a porta atrás de mim.
Eu ri e balancei a cabeça. Eu e ela éramos uma causa perdida.
Não via Crystal há quase um ano. Da última vez que nos
encontramos, ela estava prestes a começar o último ano de Ensino Médio e eu
estava começando o quarto ano da Universidade. Ela parecia uma nerd típica,
nunca deixava um livro fora do seu alcance. Quando estava por perto, ela me
tratava como se eu fosse a pior pessoa do mundo. Embora ainda não soubesse
o que fiz para merecer uma tal atitude especial dela. Nenhum dos amigos do
Stan recebia tantos ‘elogios’ dela quanto eu.
Mas esta manhã vi uma garota completamente diferente. Não era a
Crystal que eu conhecia. Esta nova Sissy era mais confiante e mais linda do
que nunca…
Devo admitir, Crystal era a nerd mais atraente que já conheci. E com
o tempo, sua atratividade se tornou ainda mais óbvia. O par de jeans surrados
que ela vestia hoje destacava cada curva. A parte inferior da camisa branca-
neve estava presa em um nó, logo acima da cintura. Os cabelos castanhos-
escuros estavam presos em um rabo de cavalo alto, fazendo-me querer
envolver minha mão nele e puxá-la para perto… Não importa o quanto o
pensamento fosse errado.
Ela era fora dos limites por tantos motivos. Mas todos desceram pelo
ralo no segundo em que mergulhei naqueles olhos magnéticos. Nunca
conheci nenhum namorado dela, nem ouvira falar que ela namorava, mas
tinha certeza que ela tinha uma longa lista de admiradores que não se
importariam em acordar na cama dela, acidentalmente ou não.
Quanto à minha escolha de cama noite passada, minha consciência
estava me dizendo que não fora acidental. Eu sabia exatamente onde estava,
só não tinha ideia de porquê de repente senti vontade de ir ao quarto dela em
vez do quarto de hóspedes. Lembro de parar na porta dela e hesitar. E então
me deixei entrar e provavelmente adormeci no momento em que minha
cabeça tocou os travesseiros que cheiravam a rosas. Eu queria a dona
daqueles travesseiros comigo naquele momento? Certeza que não… Ou
queria?
CAPÍTULO UM
Momento Presente
Crystal
“Pelo amor de Deus, gente! Podem ir mais devagar?”
Elizabeth riu atrás de mim. “Pare de gritar com eles. Ainda temos
cinco horas antes que o desfile comece.”
“Nós SÓ temos CINCO horas para preparar o estúdio para o maior
desfile de moda de Pittsburgh deste verão e fizemos apenas uma pequena
parte da minha lista de afazeres. Então, de jeito nenhum, eu vou sentar e
esperar que esses idiotas estraguem a noite que eu e você nos esforçamos
para organizar.” Olhei ao redor da sala cheia de garçons assustados pra
caramba que sabiam perfeitamente bem que mexer comigo seria o maior erro
das suas vidas. Não era o primeiro evento do estúdio The Riot Design que
eles serviam, e meu pânico e os gritos não eram mais novidades para eles.
“Respire fundo e tente se acalmar, Crys. Você não quer assustar todos
antes que eles terminem a sua lista de afazeres, certo?”
“Desculpe, Liz. Você me conhece – sou responsável por tudo que está
acontecendo aqui enquanto você está de folga para cuidar da bebê Olivia, e
não posso te decepcionar.”
“Estaria perdida sem você.”
Liz sorriu e me abraçou com força.
Eu e ela somos melhores amigas desde que me lembro. Crescemos
juntas, fomos para a mesma escola e até comemoramos aniversários no
mesmo dia. Mas depois que minha queridíssima amiga deu a luz à sua
filhinha, o trabalho do estúdio de design dela se tornou minha
responsabilidade vinte e quatro horas por dia. Na maior parte da semana, Liz
ficava em casa com minha preciosa afilhada Olivia, e trabalhava em desenhos
novos, enquanto eu fazia o resto. E o resto consistia em muito trabalho; não
conseguia lembrar da última vez que tirei folga ou passei o fim de semana em
casa. Nem lembrava da última vez que tive um encontro. Bem, para isso, eu
precisava primeiro encontrar um namorado, mas não estava na minha lista de
afazeres no momento, então minha vida pessoal tinha que esperar. Pelo
menos, até que o desfile de moda iminente tivesse terminado. Depois disso,
Liz insistira que eu saísse de férias. E agora, esperava que meus planos de
uma viagem de dez dias para as Bahamas não fossem arruinados. Ou então,
quem quer que me lançasse um olhar que eu não gostasse morreria.
Ouvi um barulho alto e virei para a direita para ver um dos caras
decorando a sala de exposição tentando levantar o banner que já deveria estar
na parede a esta altura.
“Você só pode estar de brincadeira.” Comecei a andar em direção ao
pobre sujeito.
“Pegue leve com ele!” Liz gritou atrás de mim.
“Claro. Claro.”
“Sinto muito, senhorita. Vou consertar agora mesmo.”
“Tem ideia do quanto custou essa coisa que você acabou de deixar
escorregar com seus dedos de manteiga?”
“Nenhum estrago foi feito. Viu?” O caro virou o banner para me
mostrar que estava são e salvo.
Senti um pouco de pena dele. Ele parecia com medo de que eu fosse o
engolir vivo se eu visse sequer um arranhãozinho no nosso banner brilhante
recém-desenhado.
“Tudo certo,” eu disse, calmamente. “Coloque na parede e garanta
que fique lá.”
“Sim, senhora.”
“Olha só você, mana,” ouvi Stanley dizer atrás de mim. “Mandona
como sempre.”
Desdenhei e virei para dar um braço no meu irmão mais velho. Ele
ajudou muito, enquanto Elizabeth e o marido Kameron estavam aproveitando
a vida deles como uma família recém-construída.
“O que está fazendo aqui?” perguntei ao meu irmão.
“Apenas passei para ver se seus empregados ainda estavam vivos. Sou
médico, lembra? Fico preocupado com as pessoas ao seu redor em um dia tão
importante quanto hoje.”
“Ha-ha, muito engraçado, Stan. Não sou uma vadia tão grande quanto
você e todo mundo acha.”
“Ah, é? Então por que o cara que você acabou de falar parecia um
coelho implorado pela vida na frente de um javali?”
Revirei os olhos pra ele. “Você está exagerando.”
“Quem me dera.” Stan sorriu. “De qualquer forma, o que me diz de eu
te levar para almoçar?”
“Desculpa, não posso. Liz precisa de mim aqui. Talvez da próxima
vez.”
“Tá bom.” Ele pareceu decepcionado.
“Está tudo bem?” perguntei um pouco preocupada. Meu irmão era
uma daquelas pessoas cujo rosto sempre dizia o que pensavam.
“Sim. É só que…” Ele hesitou. “Recebi uma oferta de emprego. Em
Washington.”
“O quê? Mas é uma ótima notícia, não é?”
“Acho que sim…”
“Não quer sair de Pittsburgh, quer? É por causa do papai?”
Cerca de dois meses atrás, nosso pai fez uma operação nas costas e
ainda estava se recuperando. Médicos diziam que ele nunca conseguiria andar
de novo, mas não perdemos a esperança.
“Não posso deixá-lo sozinho, Crystal.” Stan correu uma mão pelo
cabelo. Ser um médico neste caso em particular só dificultava ainda mais a
tomada de decisão. Ele sabia exatamente pelo que nosso pai estava passando.
Então naturalmente, estava preocupado em deixá-lo sem supervisão.
“Ele não está sozinho, Stanley.” Esfreguei as costas do meu irmão
gentilmente. “Mamãe, a enfermeira e eu vamos cuidar dele. Além disso,
existem vários médicos ótimos na cidade. Ele ficará bem supervisionado
mesmo se você decidir ir. Mas é uma escolha sua e não vou pressioná-lo.”
“O que faria se estivesse no meu lugar?”
“Sou uma garota tola, que grita com frequência e chora ainda mais. O
que acha que eu faria? Provavelmente choraria até morrer, antes de sequer
conseguir tomar uma decisão.”
Stan e eu rimos. Ele, de todas as pessoas, sabia o quanto era perto do
cenário possível.
“Eu provavelmente teria as mesmas dúvidas que você, mas no final –
é seu sonho. Ninguém pode tirar isso de você. Além disso, tenho certeza que
papai diria a mesma coisa. Ele nunca se perdoaria por ser um obstáculo no
seu caminho para o sucesso.”
“Eu sei. E por isso mesmo você foi a primeira pessoa que eu quis que
soubesse. Mamãe provavelmente faria minhas malas no momento em que
soubesse da oferta.”
“Ela sempre quis que você se tornasse um ótimo cirurgião plástico,
Stan. Ela apoiará qualquer decisão que tomar, mesmo que odeie a ideia de
deixar você sair do ninho.”
“Sou um garoto grande, sei me cuidar.”
“Suas camisas e calças sabem disso?” Eu sorri, ironicamente. Não é
como se meu irmão não soubesse usar um ferro de passar, mas mamãe nunca
o deixava passar as próprias roupas, com medo de que ele as queimasse.
“Minhas roupas terão que se costumar com uma vida nova só comigo.
Além disso, ainda tenho tempo para pensar no que fazer em seguida. Me
deram um mês para tomar a decisão final.”
“Tenho certeza de que você tomará a certa.”
“Obrigado, mana.” Ele beijou minha testa e então olhou ao redor do
estúdio. “Precisa de ajuda? Estou livre o resto do dia.”
“Precisamos, na verdade. Você pode cuidar da Olivia? Preciso que
Liz me ajuda com os assentos do desfile.”
“Quer que eu cuide da bebê?”
O olhar no rosto do Stan foi engraçado demais para segurar o sorriso.
“Você vai ficar bem. Ela é apenas uma garotinha.”
“Nunca fiquei sozinho com crianças.”
“Não se preocupe. Olivia é um puro tesouro.”
Stan me lançou um olhar de dúvida. Aparentemente, ele soube das
noites insones de Liz. Olivia apenas amava acordar todas as noites e ficar
acordada durante horas. Ela tinha quase oito meses agora, mas minha melhor
amiga não podia deixá-la sozinha com ninguém além de Kameron, que estava
em L.A. no momento e não ia voltar até o desfile de hoje à noite. Por isso, a
ajuda de Stan era exatamente do que precisávamos.
“Liz, achei um ajudante,” disse, abrindo a porta do escritório dela. Liz
segurava Olivia nos braços e a garota estava sorrindo. Juro, ela era a criança
mais linda que já vi.
“Stanley! Que boa surpresa.”
Ele foi beijar Liz nas bochechas.
“Ele está livre pelo resto do dia, e se ofereceu para ajudar, então pedi
que ele ficasse com Liv enquanto verificamos os assentos do desfile.”
“Sério? Muito obrigada, Stanley. Precisávamos desesperadamente de
mais um par de mãos aqui.” Ela deu a bebê para o meu irmão e ele
cuidadosamente envolveu os braços ao redor da garota.
“Bem, olá, princesa! Quer brincar de alguma coisa?”
Olivia riu em resposta e bateu as palminhas.
“Viu? Eu disse que vocês iam ficar bem aqui. Chame se precisar de
alguma coisa.”
“E se ela…”
“Você é um médico, Stan. Deveria saber o que fazer com as crianças.
Seus professores da universidade não contaram sobre crianças?”
Stan fez uma careta. “Eles provavelmente teriam contado, se eu fosse
ser um professor do ensino infantil. Infelizmente, tudo que sei sobre crianças
é como elas vieram ao mundo.”
Eu lhe desejei sorte e puxei Liz pela mão. Ela deu tchau para a filha e
nós duas saímos.
“Ele nunca mais vai oferecer ajuda,” Liz disse, enquanto andávamos
pelo salão.
“Relaxa. Stan me criou, ele nunca disse que me odiava. E comparada
a mim, Olivia é um anjo. Confie em mim, sei do que estou falando.”
Cinco horas passaram rápido demais. Mas apesar das minhas
preocupações, tudo estava pronto para o desfile bem na hora do começo.
“Onde está seu vestido?” Liz perguntou, assinando outra entrega. Eu
nunca vira tantas flores no estúdio. As clientes a adoravam e achavam que era
seu dever parabenizá-la pela nova coleção.
“Está no meu escritório,” respondi.
“Vá se trocar. Eu fico aqui para receber os convidados. E quando
Kameron chegar, pedirei para ele ajudar Stan com Olivia.
“Certo.” Passei pela minha lista de afazeres de novo e concordei
positivamente. Mesmo se tivesse que passar o desfile usando nada além de
roupas íntimas, não importava. Meu trabalho sempre vinha primeiro.
Entreguei à Liz a lista de convidados e fui para meu escritório. Eu ia
usar um dos vestidos da nova coleção da minha amiga. Era escarlate, sem
alça e ia até os joelhos; tinha um corselete seguida por uma saia de 360 graus
com pequenos cristais brilhosos espalhados.
Coloquei o vestido e olhei para meu reflexo no espelho que ia até o
chão.
Algo sobre minha aparência me assustou. Meu vestido, sapatos,
maquiagem e cabelo – tudo estava perfeito e exatamente como eu queria
parecer hoje. Mas o medo nos meus olhos não combinava bem com os itens
anteriores.
Engoli em seco e coloquei a mão na bariga, onde a seda do vestido
cobria uma cicatriz que uma vez mudara minha vida para sempre. Seis anos
atrás, perdi algo muito importante, algo que duvidava que sequer conseguiria
encontrar de novo… Perdi a mim mesma. E mesmo com o tempo, o medo
que senti naquela noite terrível ainda vivia dentro de mim. Uma memória que
nunca queria lembrar piscou atrás dos meus olhos; minhas palmas
começaram a suar, minha respiração aumentou. Rapidamente, balancei a
cabeça e respirei fundo. Não podia deixar as memórias estúpidas me
derrubarem, não hoje à noite.
Alguém bateu na porta.
“Apenas um minuto!” Gritei de volta. Olhei para meu reflexo de
novo, respirei fundo novamente e fui abrir a porta.
Apenas para ver a última pessoa que esperava parada atrás dela…
“Liam? O que está fazendo aqui?”
Ele não respondeu. Os olhos azuis-escuros, tão familiares e, ainda
assim, tão estranhos, passaram um tempo me estudando, da cabeça aos pés.
Centímetro por centímetro, meu corpo começou a formigar, como se
respondendo a toques invisíveis.
Alguns momentos silenciosos depois, os olhos dele encontraram os
meus de novo, ele limpou a garganta e disse: “Liz me pediu para te chamar.
Parece que alguém não está encontrando seu lugar.”
“Droga.” Passei por ele, tentando ignorar a batida selvagem do meu
estúpido coração. A coisa teimosa apenas não me dava uma folga, e quando o
assunto era o amigo antigo do meu irmão, virava um traidor e nunca ouvia o
que minha mente tentava fazê-lo acreditar. É como dizem: o coração tem uma
mente própria.
Liam sempre tivera esse efeito em mim. Primeiro como meu crush de
Ensino Médio, depois como a última pessoa no mundo pela qual queria sentir
algo. Pensamentos sobre ele nunca saíam da minha mente, nem quando eu
tinha dezesseis anos, nem quando fiz vinte e quatro.
Eu não o via há meses. Embora o karma achasse que ver ele
constantemente na minha casa como convidado do Stan não fosse suficiente,
Liz e Kameron decidiram que ele e eu seríamos o padrinho e a madrinha
perfeitos para Olivia. Parecia que estavam se esforçando para colocar eu e
Liam no mesmo lugar, quando mal podíamos esperar para sair e nunca ver
nos ver de novo. E havia um motivo muito bom para nos sentirmos assim…
“Liz, o que aconteceu?” perguntei, quando parei ao lado dela.
“Garanti que todos tivessem um lugar.” Peguei a lista de convidados das
mãos dela para ler de novo.
“Relaxa.” Ela sorriu, pegando de volta. “Está tudo bem. Apenas
queria que vocês se cumprimentassem. O coitado é louco por você.”
“Você está ficando louca? Eu e ele mal suportamos a ideia de respirar
o mesmo ar e andar sobre o mesmo planeta. Embora eu não negue que a
presença de loucura no nosso relacionamento. Toda vez que o vejo, me deixa
louca!”
Liz riu. “Queria que você pudesse se ver de uma outra perspectiva.
Durante anos, vocês brigam como cães e gatos. Não é motivo bom o
suficiente para acreditar que vocês são loucos um pelo outro?”
“Não seja ridícula. Liam e eu, juntos – nunca vai acontecer!”
“Nunca diga nunca. Além disso, você nunca me disse porque o odeia
tanto.”
“Eu não odeio. Ele apenas não tem ideia de como fechar a boca suja
quando me vê. Sério, por que eu? Tenho um adesivo na testa dizendo:
‘Morrendo de vontade de brigar com Liam!’?”
“Ele apenas não encontra as palavras certas para dizer que gosta de
você de verdade.” Ela piscou para mim.
Revirei os olhos para ela. “Ele tem garotas mais do que suficiente na
vida dele para ‘gostar’. Elas tiram a roupa para ele a cada hora mais ou
menos. Lembra do que ele faz para viver? Sem dúvida, se tornou cirurgião
plástico apenas como uma desculpa para tocar em seios regularmente.” Eu
sabia que não era verdade. Mas minha língua apenas não se mexia para dizer
nada de bom sobre ele.
“Se eu não soubesse, diria que você está com ciúmes.”
“Eu? Com ciúmes? Fala sério, Liz. Sabe o que penso dos homens, e
isso não vai mudar.”
“Ser uma feminista forte não muda o fato de que você é uma jovem
mulher atraente e que homens te querem, quer você tenha bolas para admitir
ou não.”
“Então? Eu disse que não preciso de homem para me fazer feliz. Tudo
que preciso é algumas gotas de esperma para fazer mágica com meu corpo e
me deixar grávida. O resto é preocupação minha.”
“E se o pai do seu bebê dos sonhos quiser fazer parte da sua vida
também?”
“Nunca! Ele pode fazer parte da vida do bebê, mas da minha vida está
fora dos limites.”
“E se você…”
“Se eu precisar de sexo, encontrarei um homem com quem fazer. E
Liam não é uma opção. Então, pro favor, pare de jogar ele para mim. E se eu
precisar que meus seios fiquem maiores, encontrarei outro cirurgião plástico.
Não há como no inferno de eu deixá-lo chegar perto das minhas garotas.
Ponto final.”
CAPÍTULO DOIS
6 anos atrás
Tinha que haver uma explicação lógica para a decisão da natureza de
tornar certos homens sobrenaturalmente lindos e babacas para caramba. E
para minha grande decepção, Liam apenas tinha que ser um desses. Mas o
que era ainda mais decepcionante – eu gostava. Não, risque isso – eu
AMAVA.
Eu me odiava por ser tão fraca perto dele, mas não conseguia evitar:
meu coração acelerava no meu peito e dava um salto-mortal quando
pronunciava meu nome; minhas pernas viravam gelatina. Eu tinha uma queda
secreta por ele desde a primeira vez que ele disse ‘oi’ para mim, anos atrás.
Na época, eu era apenas uma garota com duas fitas rosas no cabelo e com um
dente na frente a menos, mas ainda achava que ele era um daqueles príncipes
dos meus contos de fada favoritos que mamãe lia para mim todas as noites. O
cabelo cor de noz era levemente bagunçado, e combinando com os olhos
azuis-escuros e o sorriso mais charmoso que já vira, ele ganhara meu coração
à primeira vista. Eu costumava escrever o nome dele no meu diário e cercá-lo
de corações rosas, desejando que um dia ele me enviasse um cartão do Dia
dos Namorados, dizendo o quanto gostava de mim.
É, bem, isso foi antes de eu perceber que ele estava longe de ser um
príncipe encantado. Quando alguns anos depois, eu o vi beijando uma das
líderes de torcida da Springs, jurei que nunca mais olharia na direção dele.
Apenas para continuar olhando para ele toda vez que ele e Stanley entravam
na nossa casa… Já era a minha regra anti-Liam, droga.
Enquanto crescia, nada mudou Meu coração ainda se recusava a ouvir
os meus argumentos. E meu crush de infância só tinha ficado ainda mais
lindo. Aposto que agora ele tinha ainda menos tempo livre do que três anos
atrás, quando Stan pediu para ele ficar comigo, porque minha mão direita
tinha quebrado e não conseguia fazer nada sozinha, e, já que nossos pais
estavam viajando, não tinha mais ninguém para ajudar. Mas, em vez de me
ajudar, Liam trouxe uma tigela de pipoca e algumas latinhas de coca,
provavelmente achando que seria o suficiente para me manter viva pelas
próximas horas, e então desapareceu dizendo que tinha pouco tempo e uma
lista muito longa de coisas para fazer. Acontece que ele tinha uma lista muito
longa de namoradas para pegar em uma noite. Por isso, da outra vez que nos
encontramos a primeira coisa que eu disse foi: “Espero que seu instrumento
esteja bem? Depois de tantas coisas que vocês tiveram que fazer na outra
noite…”
Foi a segunda vez na vida que jurei que nunca mais olharia na direção
de Liam. Apenas para esbarrar na Sua Alteza Nua Gloriosa Que Deus-me-
ajude depois de quase um ano sem vê-lo. Simplesmente ótimo…
Sentei na minha cama e suspirei. Eu era incorrigível. E ele era um
babaca. Uma combinação perfeita, certo?
***
Momento Presente
“Parabéns, senhoras! Vocês fizeram um ótimo trabalho.” Kameron
sorriu para sua esposa e depois para mim.
O desfile de moda tinha acabado e julgando pela felicidade no rosto
das nossas clientes, Lizia teria outros meses movimentados pela frente.
“Eu nunca conseguiria fazer tudo isso sem minha maravilhosa
assistente,” ela disse para mim.
“Disponha, querida. Você sabe o quanto eu amo o que fazemos.”
Stanley falou: “Alguém viu Liam? Ele queria nos contar alguma
coisa, mas aí o desfile começou; ele disse que gostaria de falar com a gente
depois.”
“Você sabe o que ele queria contar?” Kameron perguntou.
“Não. Mas pela expressão ele, era algo importante.”
Olhei ao redor da sala, curiosa como sempre. “Ali está ele,” eu disse,
avistando Liam na companhia de uma das nossas modelos. Bem, é claro,
onde mais ele poderia estar se não flertando com outro par de lábios
volumosos?
Eu costumava achar que já tinha superado, que não me importava
com quantas garotas ele namorava ao mesmo tempo, que não sentia nada por
ele. Mas por algum motivo doentio, ainda sentia pequenas ramificações de
ciúmes se formando e me consumindo viva, embora não tivesse motivo para
ficar ciúmes de um cara que nunca pertenceu a mim.
Kameron acenou para Liam se aproximar, mas eu apenas não
suportava a ideia de ficar perto dele de novo, ou de falar com ele. O encontro
inesperado na porta do meu escritório foi mais do que o suficiente por uma
noite. Durante meses, vinha tentando evitá-lo. E fiz um trabalho muito bom.
Até quando alguém começava a falar dele, eu fingia que não estava ouvindo.
Mergulhava no trabalho e em algum ponto, percebia que minha doença
chamada ‘Crush no Liam’ não era mais tão insuportável quanto costumava
ser. Em então, ele apenas batia na minha porta e arruinava tudo.
Como sempre, não conseguia parar de olhar para ele. Seus olhos…
Deus, eu parecia nunca conseguir desviar o olhar quando me capturavam em
uma prisão encantada de profundeza azul escura.
Por que ele, pelo amor de Deus?
Eu nunca soube como responder essa pergunta. Havia muitos caras
que me chamaram para sair, me enviaram flores e toneladas de elogios, mas
nenhum deles era ele. Nem de perto. Alguma coisa devia estar terrivelmente
errada comigo se eu ainda tinha um fraco pelo que cara cujas imperfeições
eram maiores do que o bom que eu conseguia encontrar nele. Quanto mais
babaca ele era, mais eu me apaixonava por ele.
Simplesmente inacreditável…
“Preciso fazer uma coisa urgente,” sussurrei para Liz. “Vejo você
mais tarde.”
E antes que ela protestasse, deslizei pela multidão e me apressei para
me esconder na segurança do meu escritório acolhedor. Estive trabalhando
tanto esses dias; virara minha segunda casa. Às vezes, ficava no estúdio tanto
tempo que dormia no sofá, cansada demais para dirigir até em casa. Graças a
Deus, Liz nunca me pegou dormindo no trabalhou ou ela me demitiria apenas
para me fazer tirar uma folga.
Trabalhar era minha cura. Me ajudava a esquecer a merda que enchia
minha vida. Não era apenas sobre Liam e sua atratividade que fazia meus
joelhos tremerem, havia mais. Mas eu não queria deixar isso me derrubar. Eu
já estive para baixo uma vez, e não era divertido; nunca queria me sentir
assim de novo. Embora, recentemente, sentisse que estava me perdendo ainda
mais rápido do que a seis anos atrás.
Começou no dia que meu irmão me chamou e contou sobre os
problemas de saúde do papai. Ele precisava de uma operação e nós dois
sabíamos que depois a vida dele nunca mais seria a mesma. Nossas vidas
mudaram também. Delia, a enfermeira, ficava com ele durante a maior parte
do dia, e, nos fins de semana, Stan, mamãe e eu nos dividíamos para tomar
conta dele. Considerando o pouco que ele conseguia fazer sozinho, ver ele
assim fazia meu coração sangrar.
Na noite anterior à sua operação, não consegui dormir. Me vesti com
um par de jeans e um moletom, peguei as chaves do carro e fui para o único
lugar que eu sempre encontrava uma paz muito necessária – a casa do lago.
Quando eu e Stan éramos crianças, nossos pais nos levavam lá com
frequência nos fins de semana. Mas naquela noite, eu não era a única
visitante do local. Liam estava lá também… Não sabia que Stan tinha lhe
dado uma chave extra. Eu estava meio curiosa para saber para que ele
precisava. Algo me dizia que não era para apenas outro encontro amoroso.
Liam me encontrou no terraço. Nem preciso dizer que ficamos mais
do que surpresos por ver um ao outro ali.
“Não sabia que você viria aqui hoje à noite,” Liam disse, mudando
desconfortavelmente de um pé para o outro.
“Eu poderia dizer a mesma coisa sobre você. O que está fazendo
aqui?” Meus olhos viajaram para o copo de uísque que ele segurava em uma
mão. Vestindo jeans e uma camisa preta, ele parecia muito mais jovem do
que naqueles ternos sob medida que ele usava no trabalho. Mas algo parecia
errado.
“Eu precisava fugir…” Ele disse. “Espero que não se importe se eu
passar a noite aqui?”
Eu estava muito estressada para me importar.
“Não me importo,” eu disse. Andamos até a casa e fechei a porta atrás
de mim.
Eu nunca tinha visto Liam tão triste. Seus olhos sempre brilhantes e
sorridentes estavam cheios de algo que eu não conseguia entender.
“O que aconteceu com você?” Fui para a mesa de café onde estava
uma garrafa de líquido âmbar e servi um pouco no copo sobrando.
“Longa semana. E você?”
“Estou com medo…” Eu disse. Não havia porquê mentir. Sabia que
papai precisava de uma operação, mas ninguém podia garantir que seria bem-
sucedida.
Liam concordou e tomou um gole da sua bebida. “Stan me contou
sobre seu pai. Sinto muito…”
Me inclinei contra o sofá e suspirei. Silêncio preencheu o quarto. O
único som o quebrando vinha da lareira fumegante. Eu lancei a Liam mais
um olhar, cheguei perto da lareira e sentei no carpete, com meu rosto
recebendo o calor vindo das chamas.
“Se quiser, vou te deixar sozinha,” Liam disse.
“Não,” protestei com os olhos ainda focados nas chamas escarlates e
douradas. Fiquei meio surpresa em ouvir minha próxima palavra: “Fique.”
Apesar da minha droga de humor e do meu, digamos, passado ‘agitado’ com
Liam. Fiquei feliz em vê-lo hoje à noite.
Não me virei para ver se ele tinha ficado, mas alguns momentos
depois, ele veio para onde eu estava e sentou ao meu lado.
Eu engoli o conteúdo do meu copo em um gole e fiz uma careta
enquanto o líquido fumegante corria pela minha garganta e descansava no
topo do meu estômago vazio. Eu odiava uísque. Mas naquele momento,
recebi o amargor de bom grado e o calor que enviou pelas minhas veias.
Tudo que eu queria era esquecer de tudo que preenchia minha mente.
Liam ficou quieto. Então eu falei primeiro: “Lembra do aniversário de
catorze anos do Stan?”
Ele riu por sobre a respiração. “Difícil esquecer. Você me empurrou
no lago, no lago de fim de abril de congelar as bolas, e fiquei encharcado até
o osso. Tive febre por três dias depois disso. Graças a Deus, não peguei
pneumonia. O que fiz para merecer isso, a propósito?”
“Você me chamou de Leitão, porque eu estava usando uma camisa
rosa que te lembrava o Leitão do Ursinho Pooh.”
“Ah, é! Aquela camisa… Era muito engraçada. Mas, honestamente,
eu não quis ofender.”
“Mentiroso. Você sabia que eu ficaria irritada e você provocou.”
“Sinto muito. De verdade…”
Virei para olhar para ele, pronta para ver um escárnio no rosto dele,
mas não havia nada. Ele realmente parecia miserável.
Franzi o cenho. “Tem certeza que está bem? Quer dizer, você parece
um pouco diferente hoje. Como se não fosse você.”
Ele pensou por um momento. “Provavelmente é porque você nunca
tentou ver meu verdadeiro eu.”
Eu dei um meio sorriso. “Provavelmente porque o seu único eu que
lembro de ver é um babaca que sempre tentava me zoar desde que consigo
me lembrar.”
Um fantasma de sorriso tocou seus lábios. Seus lábios gloriosos,
perfeitamente moldados e cheios que imagino beijar há anos. Eu daria muita
coisa para beijá-los. Droga…
Olhamos um para o outro. Podia ouvir o relógio batendo na parede,
como se contando os segundos até o momento que eu baixaria a guarda. A
tensão entre nós ficando mais espessa a cada batida do coração. Quase podia
sentir o peso dela nos meus ombros. O olhar dele estava tão pesado quanto
uma nuvem carregada; a escuridão dos seus olhos fazia coisas estranhas com
meu corpo e minha mente. Ele sabia o que eu pensava assim como eu sabia o
que ele pensava… Porque nossos pensamentos eram os mesmos.
Sem querer, me inclinei para perto, perto o suficiente para sentir sua
respiração tocar meus lábios; borboletas na minha barriga faziam uma dança
selvagem. Eu sabia que não era o uísque mexendo com a minha cabeça, era a
dor… A dor que eu tentara reprimir por tanto tempo; às vezes parecia que
nunca iria embora.
O olhar dele segurou o meu, me secando como se eu fosse a única
água no deserto dos seus pensamentos e desejos secretos. Ele se inclinou para
frente até que senti seus lábios passarem contra os meus. Ele não estava me
beijando, não de verdade; era mais como se nossos lábios estivessem
conversando em palavras que só eles conseguiam entender.
Ele cheirava a uísque e eu me perguntava se seus lábios tinham um
gosto tão bom quanto eu me lembrava. Porque havia um beijo para recordar –
um beijo que marcou o começo de uma das noites mais aterrorizantes da
minha vida. A noite que dividiu minha vida em duas partes – antes e depois.
Mas a única coisa que ligava esses dois períodos da minha vida estava agora
aqui comigo, sentado perto de mim, me engolindo em um vórtex de calor,
empolgação e desejo de me perder nele, infinitamente e completamente.
Fiz o último movimento, coloquei minha palma na parte de trás do
seu pescoço e trouxe seus lábios aos meus, deixando a doce conexão me levar
para longe.
Nossas línguas deslizaram uma contra a outra em uma exploração
lenta, ateando um fogo nos nossos corpos que era muito difícil de controlar e
praticamente impossível de abafar. Um beijo que não deveria ser nada além
de um toque físico, de repente se tornou algo maior, instantaneamente nos
levando a uma realidade diferente, onde nenhuma dor ou arrependimento
existiam – só fusão celestial que tocava não somente nossa pele, mas também
nossos corações e nossas almas. Era uma completa sedução e
momentaneamente hesitação que levava a outra onda de puro prazer que
dávamos e recebíamos ao mesmo tempo.
Eu nunca tinha sido beijada assim antes. E com certeza nunca beijara
alguém como estava beijando Liam agora. Anos sonhando com ele nunca
fariam justiça à verdadeira sensação de estar com ele, lábio com lábio.
Os seus lábios se moveram suavemente contra os meus, e então foram
substituídos pela ponta da sua língua que começou a desenhar linhas
invisíveis pela minha boca de maneira provocante. Ele gentilmente capturou
meu lábio inferior e o chupou, e então o soltou dolorosamente lento.
Suas mãos deslizaram pelos meus quadris e ele me puxou para perto,
para que pudesse sentar no seu colo, de frente para ele.
Nossos olhos se encontraram. Conseguia ver o reflexo do fogo
dançando nos seus olhos, fazendo-os parecer ainda mais escuros do que
momentos atrás.
Não falamos. Mas nenhuma palavra era necessária. Era como se todos
aqueles anos o vendo trocar de namorada como troca de roupa, não tivessem
existido. Naquele momento, ele era meu e somente meu.
Ele me empurrou para o carpete e cobriu meu corpo com seus. Seus
lábios bateram nos meus.
Minhas mãos voaram para cima, meus dedos envolvendo seus
cabelos. A proximidade me deixou bêbada e eu gostei como nunca.
Estava ciente de cada pequena parte do corpo dele tocando o meu O
toque em uma parte em particular me fez perder a cabeça. E não só pelo
segredo que eu guardara dele e de todos durante anos, eu provavelmente
deixaria essa farsa se prolongar muito mais. Mas no momento em que a mão
dele deslizou por baixo do meu moletom e tocou a cicatriz na minha barriga,
entrei em pânico.
“O que é isso?” Ele perguntou, quebrando o beijo. Sem pedir
permissão, ele puxou meu moletom para cima até meu seio e vi sua
mandíbula se apertar.
Meu coração perdeu o ritmo.
“O que aconteceu com você?” Ele perguntou, ainda olhando para a
lembrança feia da noite que eu nunca queria lembrar que tinha acontecido.
“Nada.” Rapidamente, puxei o moletom para baixo e rolei para meu
lado esquerdo, morrendo de vontade de esconder em algum lugar onde
ninguém jamais conseguiria me encontrar.
“Crystal… Você pode me contar qualquer coisa. Sabe disso, certo?”
“Não, não posso.”
“Por que não?”
Me virei para encará-lo, mas em vez de deixar meus medos para lá e
contar a verdade, fiz a única coisa que parecia certa no momento. Levantei e
caminhei para fora da sala, então saí da casa, entrei no carro e acelerei para
longe da casa do lago e do homem que eu amava tanto que quase me
matava…
CAPÍTULO TRÊS
Momento Presente
Não contei ao Stanley que a notícia de sua possível partida me
chateava. Ele sempre esteve aqui para mim, não importava o quê. Eu podia
acordá-lo no meio da noite, porque eu precisava de conselho sobre algo
estúpido e ele nunca me mandaria para o inferno, e, sim, me ouviria,
abraçaria e me diria para voltar para a cama e tentar dormir. Ligações de
madrugada para Washington também eram uma alternativa, mas eu já sentia
falta dele, embora ele ainda estivesse em Pittsburgh. Por outro lado, eu amava
meu irmão demais para tirar o sonho dele, porque eu sabia que ele faria
qualquer coisa por mim, mesmo se isso significasse sacrificar a própria vida.
Ele merecia o novo trabalho e a oportunidade de se tornar o médico que ele
sempre quis ser.
Eu não tinha tempo para pensar na minha vida pessoal ou sonhar com
meu futuro. Quando Liz começava a fazer perguntas que eu não sabia
responder, eu mudava de assunto ou fingia que não tinha ouvido. Ela era
minha melhor amiga, ela sabia quase tudo sobre mim, mas havia uma coisa
que ninguém sabia além de mim e Stanley – um segredo terrível que
transformava cada sonho meu em pesadelo, porque cada vez que eu fechava
os olhos, voltava seis anos, para a noite que eu tentava muito esquecer. Ainda
não tinha ideia de como fazer minha nova vida dar certo.
Uma leve batida na porta me trouxe de volta ao presente. Verifiquei
meu próprio reflexo no espelho e fui abrir a porta. De alguma forma, não
fiquei surpresa em ver Liam parado no corredor, como se eu soubesse que ele
me seguiria até o escritório.
“Está tudo bem?” perguntei, esperando que ele estivesse aqui porque
alguém precisava de mim, e eu tivesse a chance de fugir de novo, e não
porque ele simplesmente queria testar minha paciência.
Ele esfregou a parte de trás do pescoço e disse: “É, é só que… Vi que
você saiu com pressa, achei que talvez não estivesse se sentindo bem.”
Eu dei um meio sorriso. “Um médico até os ossos.” Abri mais a porta
e o deixei entrar.
“Também queria parabenizar pelo desfile,” ele disse, entrando no
escritório. “Você fez um ótimo trabalho ajudando Liz a organizar.”
“Obrigada.” Me inclinei contra a mesa com os braços cruzados no
peito.
Depois do que aconteceu alguns meses atrás na casa do lago, sentia
que precisava me proteger dele. A vergonha estúpida pela cicatriz feia, cuja a
existência era um fardo com o qual eu teria que viver pelo resto da vida,
nunca saía da minha cabeça.
“Então… Como tem passado durante todo esse tempo?” Liam
perguntou, mudando de um pé para outro.
Algo me dizia que essa não era a pergunta que ele queria fazer.
“Eu não te vejo há alguns meses…” Ele disse com uma nota evidente
de acusação em sua voz.
Nunca expliquei porquê fugi da casa do lago, ou porquê não quis vê-
lo depois disso. Ele até foi à minha casa algumas vezes, mas eu sempre pedia
para mamãe dizer que eu não estava.
Dei de ombros. “Tenho tido muito trabalho para fazer.”
“Foi o que me disseram.”
Os olhos dele estavam fitando os meus, como se tentasse quebrar a
barreira invisível entre nós. Mas tudo que eu podia pensar era no quanto senti
saudades dele. Vê-lo de novo, tão perto, trouxe muitas lembranças que eu
tentara afastar da minha mente por tanto tempo. Tudo por nada…
“Escuta…” eu disse, tentando inventar uma explicação mais ou
menos crível para o meu comportamento. Eu sabia que devia isso a ele. Eu
também sabia que não podia ser completamente honesta com ele. “Sobre o
que aconteceu na casa do lago….”
“Está se referindo à noite que você fugiu depois que nos beijamos?”
É claro, me refiro a ESSA exata noite. Não precisava me lembrar da
parte do beijo. Era meio que difícil de esquecer.
“Nunca deveria ter acontecido.”
“O beijo?”
“Pelo amor de Deus, SIM! Me refiro ao beijo.”
Ele se aproximou. “Por quê? E apenas não me diga que você não
gostou, porque eu estava lá também, lembra? Vi seus olhos, senti seus lábios
nos meus, pude ouvir sua respiração acelerar e seu corpo estava respondendo
a cada pequeno movimento meu. Eu sei que você sentiu algo. A pergunta é:
por que você fugiu?” Ele deu mais alguns passos e parou bem na minha
frente, pairando sobre mim, seus olhos exigindo respostas que eu não podia
dar.
“Achei que tinha sido um erro, tá bom?” menti.
Os cantos da boca dele se viraram em um sorriso sabe-tudo. “Boa
tentativa, Sissy. Mas não acredito nessa merda.”
“Pense o que quiser, Liam. Tenho certeza que você já tem nomes
femininos o suficiente na sua lista de contatos para terminar o trabalho que eu
recusei na outra noite.”
Tentei dar um passo para o lado, mas ele não deixou.
Ele bloqueou meu caminho e sussurrou no meu ouvido: “Se eu não
soubesse, diria que você está com ciúmes.”
Deus, ele era impossível. E eu também. Era uma daquelas coisas que
não tinha mudado com o tempo.
Fingi um sorriso. “Não seja ridículo. Uma mulher deve estar
completamente louca para sentir ciúmes dos seus encontros amorosos, ou
acreditar na sua lealdade inexistente, ou se apaixonar por você em primeiro
lugar.”
“É isso que você pensa de mim, Crystal? Que sou apenas outro
bastardo que fode por aí e não se importa com nada além de empurrar o pau
em outra vagina?”
“Estou errada?”
“Sim, está,” ele assobiou.
“Que bom pra você.”
Ele segurou meu olhar como se houvesse algo mais que ele queria
dizer, mas por alguma razão desconhecida, ele não disse.
“Preciso trabalhar,” eu disse, quebrando o silêncio que fez arrepios
subirem e descerem pela minha espinha.
Eu, de repente, senti frio. Não sabia se era porque as palavras de Liam
se transformaram em gelo ou porque eu estava fraca demais para ficar na
presença dele e fingir que não me incomodava. Embora ele não estivesse me
tocando, o pequeno espaço entre nós fazia eu me sentir presa. Eu não gostava
disso.
Como se ele pudesse sentir o que eu estava sentindo no momento, ele
deu um passo para o lado e me observou dar a volta na mesa e sentar na
minha cadeira.
Será que ele iria embora? Ou essa conversa obviamente sem sentido
continuaria para sempre? Abri meu notebook e fingi que estava lendo algo
muito importante. Ele ficou quieto por alguns momentos, e então xingou alto
e saiu pela porta, murmurando algo tipo ‘foda-se essa merda’ no caminho.
Ele bateu a porta atrás de si, e meu corpo tremeu junto com as paredes do
escritório.
Por que na terra eu não podia ser honesta com ele? Do que eu tinha
medo? Escondi o rosto nas mãos e deixei as lágrimas fluírem.
***
6 anos atrás
Dois dias antes do meu baile de formatura e ainda não tenho o que
vestir. Simplesmente ótimo.
Tirei outra roupa que eu não gostei, coloquei minhas roupas e saí do
provador.
“Apenas não me diga que você não vai comprar,” Liz disse, com uma
reza silenciosa nos olhos.
Eu ri pelo seu rosto miserável. “Agora você sabe como Stanley se
sentiu quando foi fazer compras comigo semana passada.”
“Como inferno ele concordou em ir com você?”
“Prometi que limparia a casa pelo resto do mês.”
“Você não…”
Liz me conhecia bem demais para acreditar que eu manteria minha
promessa. Odiava a mera ideia de limpar a casa, sem mencionar passar mais
de três semanas com uma vassoura e um aspirador nas mãos.
“Não se preocupe, Liz, o acordo foi cancelado logo que voltamos para
casa, sem vestido para o baile.”
Ela riu. “Sabia que tinha uma pegadinha por trás da sua promessa.
Agora, diga, o que vai vestir no sábado? Você experimentou tipo cinquenta
vestidos até agora e odiou todos. Não está planejando aparecer nua, está?”
“Bem, seria um espetáculo. Certo?”
Ela balançou a cabeça e riu. “Sr. McMillan deixaria você sem
diploma de formatura. Tenho certeza que seus pais amariam.”
“Ha-ha, esperta. Não vi seu vestido também, a propósito. Você sequer
já tem um?”
“Tenho. Mas não vou mostrar pra você até sábado à noite.”
“Tudo bem. Tanto faz. Vamos para casa. Estou faminta.”
“E o vestido?”
“Escolho um amanhã.”
“Certo.”
Fomos para casa e a primeira coisa que vi foi uma caixa branca
imensa com um laço vermelho parada no corredor.
“O que é isso?” perguntei à mamãe.
Ela deu de ombros. “Não faço ideia. Um entregador trouxe. Disse que
era pra você. Ele disse também que o cara que fez o pedido disse que o
mataria se algo acontecesse com a caixa.”
Liz e eu nos olhamos com um olhar de surpresa.
“Não sabia que você tinha um admirador secreto,” ela disse.
“Nem eu.”
Mais animada do que nunca, rasguei o laço e o papel cobrindo a
caixa. Dentro da caixa grande, tinha uma menor com um recado preso no
topo.
“Espero que você aproveite o baile de formatura, L.”
Impacientemente, abri a caixa menor e arfei.
“Ah, meu Deus!” Liz disse, deslumbrada. “Veja só isso!”
Eu tirei um vestido longo de seda marfim, decorado de dourado,
caramelo e cristais marrons escuros – minhas cores favoritas, a propósito.
Quem quer que fosse o remetente do vestido me conhecia o suficiente para
não me enviar nada rosa, o que, sem dúvida, seria a principal cor dos trajes
no baile. Meu vestido era sem alça e seu brilho suave o tornava um pouco
mágico, como se tivesse sido retirado de um conto de fadas.
“Quem enviou?” Mamãe perguntou.
“Não sei.” Continuei olhando para o vestido, incapaz de acreditar que
alguém realmente podia ter me comprado um vestido pelo qual eu me
apaixonaria à primeira vista.
Liz pegou o cartão e leu em voz alta. “Quem é ‘L’?” Ela, então,
perguntou.
“Não sei, mas quem quer que seja, eu já amo.” Dei outra olhada no
vestido e subi as escadas correndo, louca para experimentar.
Liz e mamãe me seguiram até o quarto.
Rapidamente, me livrei das minhas roupas, espalhando-as pelo chão,
então coloquei o vestido e mamãe o fechou. Coube como uma luva.
Minhas mãos deslizaram pelo tecido brilhoso e sorri para mim
mesma, sentindo borboletas dançando na minha barriga.
“Me sinto uma sereia,” eu disse, girando na frente do espelho.
“É lindo,” mamãe comentou.
“Ainda quero saber quem é o secreto Sr. ‘L’,” Liz disse, olhando com
suspeita para mim. “Você realmente não sabe de ninguém que poderia ter
enviado este vestido?”
“Já disse que não tenho ideia de quem enviou. Mas vou beijá-lo, se
alguma vez o encontrar na vida real.”
Assim que as palavras saíram da minha boca, recebi uma mensagem
de texto de um número desconhecido.
“Você gostou do meu presente?”
“EU AMEI! Quem quer que seja, você é meu HERÓI.”
“Vou me lembrar disso da próxima vez que nos encontrarmos.”
Eu nem me preocupei em perguntar o nome do meu herói.
“Ele disse ‘da próxima vez que nos encontrarmos’,” Liz leu a
mensagem. “O que significa que você o conhece.”
Mamãe me lançou um olhar curioso.
“Não estou escondendo nada,” eu disse, antes que ela me
bombardeasse de perguntas.
“É claro que não.” Ela sorriu, misteriosamente. Então a campainha
tocou e ela foi abrir a porta.
Liz sentou na minha cama e cruzou os braços. “Não consigo acreditar
que você tem segredos de mim,” ela disse, ofendida.
Eu ri alto. “Você não acha que tenho um namorado do qual você não
sabe, não é?”
“A essa altura, não tenho certeza de nada.”
“Qual é, Liz, passamos quase todos os dias juntas. Quando na terra
você acha que eu teria tempo de encontrar um namorado?”
“Me diga você.”
“Tá bom, se é um admirador secreto ele definitivamente sabe muito
de mim. Quer dizer, olha esse vestido – é perfeito e combina com a cor do
meu cabelo e com meus olhos. Eu não conseguiria encontrar um vestido
melhor, se eu quisesse.”
“Verdade. O que me faz voltar para a primeira pergunta – quem é
ele?”
Olhei no espelho e sorri.
“Meu príncipe encantado.”
***
Liam
Momento Presente
Eu estava mais puto do que nunca.
Crystal… Nada parecia fazer as coisas darem certo entre nós. Mas
depois do que aconteceu na casa do lago, tudo foi de ruim a pior rápido
demais.
Não conseguia parar de pensar no beijo que compartilhamos. Era
como se toda vez que eu fechasse os olhos, pudesse sentir seus lábios suaves
se movendo sobre os meus, elevando-me a cada batida do coração.
Não foi nosso primeiro beijo e, apesar de quanto fosse errado ansiar
pela sua proximidade, estar com ela era como uma droga que eu não podia ter
o suficiente.
Ela era um tabu desde o primeiro dia. Mas quanto mais velha ela
ficava, mais claramente eu conseguia sentir algo que nunca sentira antes por
nenhuma garota. Ela era com uma linda manhã de Natal que só podia trazer
alegria de vez em quando. Ser quatro anos mais velho do que ela complicava
as coisas significantemente, sem falar de que ser amigo do irmão dela desde
sempre. Quando ela fez dezesseis anos, Stan disse que mataria quem ousasse
tocar nela. Quando um ano depois, ele viu o colega de sala dela a levar para
casa, pensei que ele quebraria o pescoço dele pela mera ideia dele lhe dar
carona. E se ele soubesse dos meus sentimentos por ela, sem dúvida, tentaria
me matar também. Eu ainda estava vivo porque ele nunca descobriu o que
aconteceu entre nós. E porque eu fingia que nunca tinha acontecido nada…
“Querido, onde você esteve?” Kimberly envolveu os dedos no meu
braço. “Estive te procurando por toda parte.”
“Eu…. Precisava falar com alguém.”
“Está pronto para ir para casa? Estou um pouco cansada.” Ela
esfregou a barriga e sorriu. “O bebê e eu precisamos descansar.”
“É claro.” Beijei a testa dela, dizendo para mim mesmo mentalmente
para me acalmar e mudar meus pensamentos de Crystal para outra pessoa.
“Apenas me dê um minuto para me despedir de Elizabeth.”
Ela concordou curtamente e me soltou.
Eu virei para o outro lado e suspirei. Minha vida estava virando algo
que eu nunca quis. Eu ia casar com uma garota que não amava, mas ela
estava esperando um filho meu e não importa o quanto Crystal me achasse
um bastardo, eu não podia deixá-los. Todo mundo deveria se responsabilizar
pelos seus atos. Ou no meu caso – por beber muito e depois fazer sexo sem
proteção, o que não deveria ser nada além de uma noite divertida, mas
terminou condenando minha vida.
Andei até meus amigos, e dei um tapa nas costas de Kameron,
dizendo: “Estamos saindo. Vejo vocês semana que vem.”
Liz e Stanley forçaram sorrisos. Eles ficaram meio chocados em saber
a notícia do casamento e do bebê a caminho. E talvez Liz e eu não fôssemos
muito próximos, mas Kameron e Stanley sabiam que casamento era a última
coisa que eu precisava agora. Minha carreira ainda estava incerta. Eu
trabalhava na clínica particular de cirurgias plásticas do meu pai, ajudando-o
durante operações, mas se eu quisesse me tornar um cirurgião plástico de
sucesso por mim mesmo, precisava focar no meu trabalho e não em trocar
fraudas. Stan de todas as pessoas sabia como eu me sentia no momento.
Fomos para a universidade juntos, e embora suas notas sempre tivessem sido
mais altas do que as minhas, ele sabia o quanto eu amava minha profissão. E,
apesar do que todo mundo dizia sobre minha escolha, não era apenas sobre
fazer as mulheres tirarem a roupa para mim. Havia muitas pessoas que
precisavam de cirurgia plástica para tornar suas vidas mais fáceis. E se eu
soubesse de um médico que poderia melhorar minha vida, eu definitivamente
faria uma visita.
“Liz, posso falar com você, em particular?” eu disse.
Kameron me lançou um olhar questionador.
Eu ri. “Relaxe. Não vou convencê-la a vir no meu escritório me
mostrar os seios.”
“Se ela precisar de uma operação, ela vai me ligar. Certo, boneca?”
Stan disse, piscando para Liz.
“Melhor vocês guardarem seus pensamentos sujos para si mesmos.”
Kameron avisou. “Ela é minha. E ponto final.”
Liz sorriu e beijou os lábios dele brevemente. Se um ano atrás alguém
tivesse me dito que eles estariam casados, com uma bebê e que me pediriam
para ser o padrinho da filha deles, eu teria dito que era loucura. Mas Liz e
Kameron foram feitos um para o outro e estava feliz em ver meu melhor
amigo feliz. Ele passara por uma merda e eu sabia o quanto ele se importava
com a esposa e filha.
“Sobre o que você queria conversar?” Liz perguntou depois que
entramos no seu escritório e fechei a porta atrás de mim.
Respirei fundo antes de dizer: “É sobre Crystal…”
Ela me lançou um olhar perturbado. “Ela está bem? Vocês brigaram
de novo?”
“Não mesmo. Na verdade, queria pedir um favor.”
“Tá bom. Que tipo de favor?”
“Não conte para ela sobre meu casamento. Pelo menos, não agora.”
Eu queria ser a pessoa a contar para ela; uma parte de mim sentia que casar
com outra garota era trair a ela e tudo que já tivemos. Mas depois da nossa
conversa no seu escritório, fiquei com tanta raiva que saí sem dizer uma
palavra. E agora, eu nem sabia porquê estava pedindo para Liz manter meu
casamento em segredo da amiga dela. Provavelmente porque eu ainda
esperava que Crystal e eu conversaríamos um dia e esclarecíamos tudo entre
nós.
“Alguém finalmente pode me dizer o que está acontecendo entre
vocês?”
“Ugh…” Balancei a cabeça. “É difícil de explicar.”
“Tem alguma coisa que eu não sei? Por que Crys sempre fica nervosa
quando você está por perto? E por que você nunca perde uma chance de botá-
la para correr?”
“Somos dois estranhos, sabe?”
“E?”
“E tem algo que eu realmente quero que ela saiba antes que descubra
sobre o casamento.”
“Tá bem. Não vou contar nada para ela.”
“Obrigado, Liz.”
Virei para ir embora, mas ela me impediu.
“Liam?”
“Hmm?”
“Tem certeza sobre o casamento? Não me entenda mal, mas Kimberly
é a pessoa certa?”
Eu sorri, tristemente. “É meio tarde para pensar nisso.”
Ela se aproximou, obviamente escolhendo as próximas palavras
cuidadosamente. “Um bebê é um milagre. Mas milagres não acontecem onde
não existe amor.”
Eu sabia do que ela estava falando. Eu também sabia que ela
provavelmente estava certa, mas…
“Sei o que estou fazendo, Liz.”
“Espero que sim.”
Eu hesitei em sair. Havia outra coisa me incomodando.
“Sabe se Crystal está saindo com alguém?”
Ela revirou os olhos. “Quem me dera. Mas parece que namoro é a
última coisa que ela quer que faça parte da vida dela.” Liz suspirou. “Pelo
menos, ela não vai morrer virgem…”
“O quê?”
“Não importa, esqueça. Apenas pensando alto.”
Não sei porquê, mas sentia como se a ausência de vida pessoal de
Crystal fosse minha culpa. Talvez ela nunca sequer pensasse na noite que
aconteceu seis anos atrás; talvez ela nunca tivesse visto ninguém, além do
amigo do irmão dela, em mim; talvez eu simplesmente estivesse imaginando
coisas, mas uma parte de mim queria acreditar que havia algo muito mais do
que apenas ódio entre nós. Eu disse a Liz que sabia o que estava fazendo ao
pedir Kimberly em casamento, quando, de fato, eu ainda não conseguia
acreditar que estava noivo. Sentia que minha história com Crystal não
acabara, não ainda.
Capítulo 4
6 anos atrás
Eu não conseguia tirar os olhos dela…
Crystal estava parada na entrada da sua casa, usando o vestido mais
lindo que eu já tinha visto. Sabia que se encaixaria nela perfeitamente. Tive
tempo suficiente para estudar cada curva para escolher o vestido certo para
ela. Stanley me contou sobre um passeio dos infernos ao shopping que os
dois tiveram alguns dias atrás, e eu de repente queria ver todos aqueles
vestidos que ela experimentara. Apenas para conseguir uma chance de passar
um pouco mais de tempo com ela.
“Legal,” eu disse, me aproximando.
Ela virou ao ouvir o som da minha voz e fez uma careta, como sempre
fazia ao me ver. “Não lembro de te convidar para meu baile de formatura.”
“Não preciso de convite. Além disso, você poderia pelo menos ser um
pouco mais educada com alguém que tornou esse dia ainda mais especial
para você.”
Ela franziu o cenho, tentando entender do que eu estava falando.
Quando entendeu, ela balançou a cabeça em descrença. “Você está
brincando, né?”
Com um sorriso sabe-tudo no rosto, me aproximei. O seu cheiro de
perfume de baunilha preencheu minhas narinas. Me inclinei para frente e me
permiti respirar fundo; meu nariz esfregou a curva do seu pescoço.
“Deliciosa como sempre.”
Ela deu um passo para trás, as bochechas coradas.
“Por que você compraria um vestido para mim?”
“Você não precisava de um vestido para o baile?”
“Sim, mas você não precisava comprar.”
“Eu quis…”
Ela engoliu em seco enquanto me olhava nos olhos, com vergonha
demais para repetir as palavras que ela escrevera na mensagem de texto no
dia em que recebeu o presente. Ela gostou, mas me agradecer era obviamente
demais para alguém que ela odiara desde sempre.
Eu precisava dizer algo, qualquer coisa, ou eu mandaria para o inferno
todas as regras que vinha seguindo por tanto tempo e a beijaria bem aqui, na
frente dos pais dela.
“Seu herói não merece um beijo por um presente tão lindo?”
perguntei.
Para minha surpresa, nenhuma resposta sagaz se seguiu. Em vez
disso, ela ficou na ponta dos pés e colocou um pequeno beijo na minha
bochecha. Senti o chão quebrar embaixo de mim. Foi a coisa mais inocente,
e, ainda assim, a mais excitante que já aconteceu entre uma garota e eu. Senti
como se tivesse dezesseis anos de novo, animado para ir a um primeiro
encontro. Só que eu não tinha mais dezesseis anos, e hoje não era uma noite
de encontro. Que pena.
“Obrigada,” ela disse, após uma curta pausa. Eu podia jurar que vi
lampejos de excitação nos olhos dela. O que ela fez a afetou tanto quanto a
mim?
De jeito nenhum…
“Disponha. Você está deslumbrante, a propósito.” Dei um passo para
trás e lhe dei outra olhada da cabeça aos pés. “Minha pequena Sissy cresceu
para se tornar uma mulher de tirar o fôlego.”
Não percebi que eu falara em voz alta até que meus olhos
encontraram os de Crystal. Um furacão de emoções preencheu seu olhar. Mas
o que mais me surpreendeu foi que não havia sinal de raiva. Na verdade, ela
pareceu gostar de eu tê-la chamado assim. Minha pequena Sissy…
“Pronta para ir?” Stanley perguntou, aparecendo de lugar nenhum.
“Liam? O que está fazendo aqui?”
Não que eu tivesse medo que ele descobrisse sobre o presente, mas
achei que uma mentirinha não machucaria ninguém. Engraçado, quando o
assunto era Crystal, mentirinhas estavam se tornando normais. Primeiro,
tentei me enganar e fingir que não sentia atração por ela. Então menti para
Stan, fingindo vir jantar na casa deles com mais frequência porque gostava do
bife que o pai dele era bom em cozinhar. E, finalmente, menti para Crystal,
agindo como um babaca, quando tudo que eu queria era dizer que era louco
por ela.
Ela falou antes que eu pudesse contar outra mentira: “Liam veio me
parabenizar pela formatura. Que legal da parte dele, né?”
“Com certeza,” Stan respondeu. “Quer assistir a parte oficial com a
gente?”
“Hm… Preciso ir pra outro lugar na verdade, mas espero que vocês se
divirtam.”
Traços de decepção tocaram as feições de Crystal. O que foi outra
coisa sobre esse pequeno encontro que me surpreendeu muito. Não podia ser
o que eu pensava, podia? Ela não podia se sentir atraída por mim, ou eu
estava ferrado em mais de um sentido…
***
Momento Presente
Gotas de água quente caíram contra minha pele, rolando pelos meus
ombros, pelas minhas costas e meu torso. Com as palmas pressionadas contra
a parede do chuveiro, baixei a cabeça e fechei os olhos, deixando a água lavar
meu dia dos infernos. Eu nunca esperava que meu karma pegasse leve
comigo, mas esperava ainda menos que ele virasse minha vida de cabeça para
baixo e me prendesse em um casamento que não significava nada para mim.
Uma coisa era me tornar pai, eu sempre amei crianças. Mas dormir e acordar
ao lado de uma mulher que eu não amava era algo completamente diferente.
As palavras de Liz me vieram à mente. Tomei a decisão certa ao
colocar um anel de noivado no dedo de Kim? E se eu tiver apressado as
coisas? E se havia uma forma de dar a volta e fazer o que realmente era a
coisa certa a se fazer? O problema era que eu não sabia o que era certo e o
que era errado. Eu era a última pessoa no mundo a definir ambos. Por mais
imprudente que tinha sido, nunca pensei que um dia minha vida ficaria
complicada a ponto de não pertencer mais a mim mesmo, incapaz de
controlar meu presente e futuro.
Kim voltou à minha vida dois dias antes da noite em que fui à casa do
lago da família de Stan. Costumávamos namorar algum tempo atrás, as coisas
eram fáceis entre nós. Nos encontrávamos algumas vezes por semana, nos
divertíamos, fazíamos um sexo incrível, e seguíamos caminhos opostos, cada
um vivendo sua própria vida. Então ela foi para Nova York para obter seu
diploma em Economia, e embora a única coisa que ela fosse boa em contar
era o dinheiro na sua carteira, isso não a impediu de conseguir um cargo de
gerência na empresa de mídia do pai dela. Ela sabia tudo sobre a vida social
de Pittsburgh e nunca perdia um único evento que envolvia jornalistas com
câmeras disparando nas mãos. Apesar de sua paixão por fotos glamourosas
em revistas, ela era uma das melhores pessoas que eu já conhecera:
incentivadora, compreensiva, fácil de lidar, linda, entre outras coisas. Aposto
que haviam muitos homens que matariam para estar no meu lugar agora – um
cara que ia chamá-la de ‘esposa’ em menos de dois meses. E se não fosse por
outra garota continuar assombrando meus sonhos, eu provavelmente me
consideraria um bastardo de muita sorte.
No dia que Kim voltou à cidade e veio bater na minha porta, percebi o
quanto sentia falta de me divertir. Fiquei preso no estudo e no trabalho, e não
importa quanto tempo eu passe observando os seios e outras partes dos
corpos das mulheres, não havia alguém com quem eu quisesse passar o resto
da vida. Ou pelo menos, assim eu pensava.
E então Crystal veio para a casa do lago…
Ela era a última pessoa que eu esperara ver lá naquela noite. Ela
também era a última pessoa com quem eu queria estar naquele momento. No
segundo em que percebi que ela estava prestes a me beijar, meu mundo
interno explodiu. Minha mente desligou e deixei meus instintos guiarem o
caminho.
Eu estava tão perdido nela; não pensei nas consequências do que
estávamos fazendo, do que eu estava fazendo. Eu soltei tudo que estava me
impedindo durante anos e me dizendo que eu não tinha direito de cruzar a
linha, que eu sabia que muito provavelmente perderia um dos meus melhores
amigos para sempre. A garota nos meus braços era tudo que eu queria e
precisava agora.
A cicatriz que senti sob meu toque me assustou.
Mesmo sem vê-la, sabia que era grande e nada bonita. Sem pensar,
empurrei seu moletom para cima e xinguei mentalmente, de repente, sentindo
vontade de escondê-la do mundo inteiro, prendê-la no meu abraço e nunca
deixar ninguém machucá-la de novo. Mas ela tinha uma ideia diferente sobre
nossos planos para a noite.
Ela fugiu.
Eu não tentei impedi-la. Primeiro, porque eu podia sentir que não era
o melhor momento para fazer perguntas, e, segundo, porque eu estava com
medo que ela nunca mais quisesse falar comigo.
O que foi exatamente o que aconteceu depois.
Nós não nos vimos até esta noite, quando minha futura esposa e eu
fomos ao desfile de moda. Não vi nada acontecendo na passarela, porque só
conseguia me concentrar em Crystal. Ela estava sentada no lado oposto da
passarela; nossos olhares se encontraram mais de uma vez, mas assim que
acontecia, ela rapidamente desviava o olhar e nunca deixava o olhar segurar o
meu um segundo a mais. Me perguntava se era porque ela tinha vergonha de
lembrar do beijo que ela iniciara, ou porque, assim como eu, ela não
conseguia parar de pensar em repeti-lo.
“Querido, você está bem?” Kimmy perguntou de trás da porta do
chuveiro.
“Estou. Vou sair em um minuto.”
Abri os olhos, incerto de quanto tempo passei no chuveiro, pensando
em tudo que acontecera comigo durante os últimos meses.
Peguei uma garrafa de gel de banho e coloquei sobre minha palma.
Algo me dizia que esta noite não seria a primeira que passaria perdido nos
meus pensamentos.
Cerca de dez minutos depois, entrei no quarto onde Kimberly estava
me esperando. Ela estava deitada na cama, usando uma das roupas sexys que
enchiam seu armário.
“Não acha melhor adiar os jogos no quarto até o bebê nascer?”
Ela sorriu sedutoramente. “O médico disse que o bebê está bem e não
há razão para eu adiar minha vida sexual para depois. Além disso, não gosta
da visão?”
Ela puxou o top transparente de volta para cima e o tirou por sobre a
cabeça, deixando nada além de um par de roupa íntima fio dental
combinando cobrindo seu corpo.
Eu estava obviamente fora de mim, mas a visão não me fazia sentir
nada.
“Venha aqui,” ela disse, silenciosamente. “Você pode até me tocar se
quiser.”
A barriga dela ainda estava plana e nada além do formato dos seios
entregava o fato dela estar grávida. Ela estava tão linda como sempre, e mais
uma vez questionei se estava fazendo a coisa certa prendendo minha vida à
dela. Talvez se conversasse com ela e contasse que não podia amá-la como
ela merecia, ela conseguisse encontrar um homem que apreciaria sua coleção
de camisolas e a faria verdadeiramente feliz. Mas, de novo, não conseguia
imaginar meu filho ou filha crescendo com outro pai, compartilhando
momentos da vida dele que eu queria fazer parte. Desliguei minhas batalhas
internas e fui para a cama, esperando que na manhã seguinte não me sentisse
a escória da terra.
***
Seis anos atrás
“Como vai a festa?” Enviei uma mensagem de texto quase três horas
depois que observei Crystal sair para seu baile de formatura e não conseguia
mais esperar para vê-la de novo. Fui para a Springs, estacionei não longe da
entrada e esperei pela resposta.
“Chata.”
“Quer se divertir de verdade?”
“Com você?”
Sorri, lendo sua mensagem.
Não era difícil imaginar seu rosto duvidoso. Eu já o vira várias vezes.
“Por que não?” digitei de volta.
“Não, obrigada. Sei que tipo de diversão que você ama e eu amo
demais o vestido que estou usando para o deixar arruiná-lo.”
Droga… Não era exatamente a diversão que eu ia oferecer a ela, mas
a ideia de tirar o maravilhoso vestido dela fazia meus pensamentos ficarem
selvagens.
“Eu deveria ter enviado uma caixa vazia…”
“Não seja babaca, Liam. Pelo menos, uma vez.”
“Na verdade, eu ia te pedir uma dança, se você não se importar…
Você me deve uma.”
“Eu não te devo nada. Eu já agradeci pelo vestido, lembra?”
“Difícil de esquecer… Mas ainda quero uma dança.”
Ela não respondeu por mais de cinco minutos, mas quando vi outra
mensagem dela brilhando na tela, soube que tinha vencido.
“Onde você gostaria de dançar?”
“Venha e descubra. Esperando você na entrada.”
Ela levou um tempo para juntar coragem e aparecer. De alguma
forma, eu sabia que ela estava hesitando. Pessoalmente, eu preferia não
pensar em quão egoísta era deixar minha curiosidade, ou o que fosse, vencer
e vir levá-la para longe do resto dos seus colegas de sala. Se o que eu sentia
que estava acontecendo entre nós fosse verdade, eu precisava de prova, o
quanto antes.
“Nunca pensei que você fosse covarde, Sissy,” eu disse, observando-a
andar até meu carro. O seu vestido dançava lindamente nas luzes da rua,
brilhando como ouro derretido no sol.
“Para sua informação, eu nunca fui covarde.” Ela parou na minha
frente, deixando uma distância decente entre nós. Os cabelos castanhos-
escuros caíam pelos seus ombros e costas e tudo que eu conseguia pensar era
sobre como ela ficaria incrível com eles espalhados nos meus travesseiros….
Eu sorri. “Então acho que está na hora de começar a festa de
verdade.”
“Não tenho certeza se gosto do som disso.”
Abri a porta do passageiro, andei para ficar de pé atrás dela e
sussurrei no seu ouvido: “Você vai amar o som E o gosto disso.”
Ela virou a cabeça para olhar para mim e encontrei seus lábios a
centímetros dos meus.
“Se você for me deixar bêbada, não vou a lugar algum.” As palavras
dela eram quietas e incertas. Seus olhos como se acidentalmente deslizaram
para os meus lábios, e, Deus, droga, eu precisei de todo meu autocontrole
inexistente para não puxar seus gloriosos lábios até os meus.
“Vamos ou não?” ela perguntou, agora me olhando nos olhos.
Esperei que ela entrasse no carro e fechasse a porta atrás de si, e então
entrei atrás do volante.
Dirigimos em silêncio, mas de canto do olho, eu continuei a
observando. Ela parecia um pouco tensa, e não importa quantas vezes ela
dissesse que não era covarde, eu sabia que naquele momento ela estava um
pouco assustada por sair da sua festa de formatura comigo. Não porque eu era
um cara mau, mas porque ela não era tão patricinha e arrogante quanto todo
mundo achava. Eu a conhecia bem o suficiente para não acreditar naquela
merda de look-elegante-da-Springs. Ela tinha um lado fofo de demoniozinho
vivendo dentro dela e eu não podia esperar para conhecer melhor.
Cerca de vinte minutos depois, estacionamos na porta dos fundos do
Storm e ela imediatamente reconheceu o lugar.
“Ah, não, não vou entrar aí.”
“Não vamos entrar no clube.”
“Então o que estamos fazendo aqui?”
“Espere e você vai ver.”
Saí do carro e esperei que ela fizesse o mesmo.
“Senhora,” oferecia a ela uma mão, sabendo que usar um vestido
como o dela durante horas não devia ser fácil para chegar até o lugar onde eu
planejava ter minha dança.
Ela aceitou minha mão e andamos até a porta de trás do clube. Bati e
cumprimentei o guarda, chamado Rob.
“Pode nos dar uma chave do terraço?”
Ele lançou um olhar curioso à Crystal. E acho que sabia porquê. O
terraço era como um santuário para Kameron, Jeffrey, Stanley e eu. Desde o
Ensino Médio, íamos lá comemorar algo importante, ou simplesmente
quando queríamos beber cerveja sem sermos pegos pelos adultos.
Formávamos um ótimo time de amigos. Às vezes, eu realmente sentia falta
dos nossos anos de escola, quando tudo parecia ser muito mais fácil e
despreocupado do que agora.
Quando Crystal e eu subimos as escadas que levavam ao terraço, ela
perguntou: “Por que esse lugar em particular?”
Abri a porta e segurei para ela entrar primeiro.
“É um dos melhores lugares no mundo. Apenas olhe essa vista!” O
clube ficava em um prédio de dois andares, todos os outros prédios ao redor
pareciam ser muito mais altos. Mas conseguíamos ouvir música vindo de
dentro do clube e às vezes conseguir cerveja grátis, enviadas pelo barman,
que também era um amigo próximo meu.
Sentamos em um banco, encarando a cidade noturna.
“Você está certo,” Crystal disse, sorrindo. “A vista daqui é incrível.”
Ela se inclinou no banco e adicionou: “Eu tenho um lugar favorito também.”
“Onde é?” perguntei, sentando ao lado dela.
“Você conhece. Já foi lá várias vezes.”
Pensei por um momento. “A casa do lago?”
Ela concordou. “Eu sempre amei ir lá.”
A noite estava ficando fria, então tirei meu suéter e entreguei a
Crystal. “Pegue.”
“E você?”
“Vou ficar bem.”
Ela pegou meu suéter e o colocou sobre o vestido.
“Posso perguntar uma coisa?” ela disse.
“Vá em frente.”
“Por que cirurgia plástica? Você simplesmente quis ser como seu
pai?”
“Foi um dos motivos…” Eu nunca contei a ninguém o que me fez
escolher essa formação. Nem meu pai sabia porque eu decidira seguir seus
passos. De alguma forma, ele tinha certeza que eu escolheria música; sempre
fui louco por guitarra e bateria. “Um dia, cerca de sete anos atrás, eu e minha
mãe fomos a um dos orfanatos para crianças com problemas de saúde. Como
um membro do conselho de caridade da cidade, ela deveria visitar lugares
assim para ver se havia algo com que o conselho poderia ajudar. Algumas das
crianças que encontrei naquele dia foram enviados ao orfanato, porque os
pais não conseguiam suportar a ideia de ter filhos que não eram perfeitos
fisicamente. Lá, conheci um garoto que o rosto fora deformado por um
incêndio. Os pais dele não tinham condições de pagar uma cirurgia plástica
para ele, então o enviaram ao orfanato.”
“Isso é horrível…”
“Sim, foi o que pensei também… Mas o garoto nunca disse uma
palavra ruim sobre os pais. Pelo contrário, disse que conseguia entender seus
motivos. O que não fazia sentido para mim. Eu perguntei se ele queria que
um médico operasse seu rosto e tentasse melhorá-lo. Ele disse que sim. Se ele
conseguisse ganhar dinheiro o suficiente para fazer a operação.”
“Quantos anos ele tinha?”
“Doze pelo que me lembro.”
“O que significa que ele deve ter minha idade agora. Você sabe algo
dele?”
“Eu sei tudo sobre ele. Meu pai o operou algumas semanas depois que
o conheci. Quando voltei para casa, contei ao meu pai sobre a criança e ele
disse que queria vê-lo. Ele ligou para o orfanato e agendou uma consulta para
Noel, que é o nome do garoto. Depois de examinar a sua pele, ele disse que
tentaria consertar o que o incêndio fez com seu rosto. E consertou. Ele fez
várias cirurgias, e agora a pele do Noel está muito melhor. Não está perfeita,
mas comparado com o estado original, está bem perto da perfeição.”
“Seu pai fez isso de graça, certo?”
Concordei. “Ele ainda faz cirurgias de graça às vezes. Eu o ajudo a
encontrar pacientes e casos que acho que merecem uma atenção especial e os
estudamos juntos. Então, se papai decide que um paciente é operável, oferece
ajuda profissional.”
Crystal me estudou por um longo minuto, talvez ainda mais tempo.
Eu não conseguia adivinhar o que ela estava pensando. Mas pude ver algo
mudando nos seus olhos. Conseguia sentir.
“Você é cheio de surpresas, futuro-médico,” finalmente, ela disse.
“Quem teria imaginado…”
Capítulo cinco
Crystal
Momento Presente
Às vezes, a pessoa que você menos espera que te surpreenda, faz
coisas que ficarão com você para sempre.
Outro dia de trabalho chegou ao fim. Eu saí para a rua e fechei os
olhos antes de respirar fundo e pela primeira vez em semanas, senti que não
havia necessidade de correr para lugar algum ou pensar em fazer dúzias de
outras coisas ao mesmo tempo. Era um baita alívio. Minhas férias tão
esperadas estavam prestes a começar em alguns dias, e embora eu não tivesse
preparado nada para a viagem, não poderia me importar menos. Podia apenas
abrir minha mala, jogar algumas roupas e uma escova de dentes lá, e estaria
completamente pronta para ir aonde quisesse.
Depois que o desfile de moda terminou, achei que era hora de me dar
uma folga. Liz insistiu em agendar uma excursão para mim, para eu não
precisar me preocupar com ingressos ou estadia de hotel. Ela fez tudo para
mim e agradeci sua ajuda como nunca.
Eu não sabia porquê, mas recentemente eu sentia que não era forte o
suficiente para manter o controle e continuar vivendo minha vida, que de
alguma forma não trazia prazer algum, só decepções infinitas. Se não fosse
pelo meu trabalho no estúdio, eu muito provavelmente me trancaria no quarto
e não sairia pelo resto da minha existência. Mas meu destino, que na maioria
dos casos amava ser um babaca, tinha outros planos para mim…
“Olá, linda.”
Abri os olhos, surpresa ao ouvir o som da voz que eu lembrava tão
bem.
“Trevor?” Meu ex era a última pessoa no mundo que eu esperava ver
essa noite ou qualquer outra noite para falar a verdade. “O que está fazendo
aqui?” Eu tinha cem porcento de certeza de que ele ainda estava na prisão,
ou, pelo menos, estava quando ouvi falar dele pela última vez.
Seu sorriso arrogante ainda era charmoso demais para se ignorar.
“Senti sua falta.”
Eu ri. “Fala sério?” Para minha surpresa, eu estava feliz em vê-lo. Nós
sempre nos divertimos juntos. Bem, até o momento em que ele achou que
invadir a casa dos seus vizinhos era mais divertido do que ir a um encontro
comigo. Fique longe de garotos-problema, mamãe sempre disse. Eu nunca
escutei.
“Espera ouvir que você sentiu minha falta também,” ele disse, um
pouco ofendido.
“Não sabia que você podia receber visita quando estava atrás das
barras ou eu teria visitado.”
Ele riu. “Mentirosa.”
“Certeza que sou.”
Ele balançou a cabeça e se empurrou do capô de um Lamborghini
amarelo vibrante. Eu o observei de longe enquanto se movia na minha
direção. Ele ainda era tão sexy quanto eu lembrava. Olhos azuis brilhantes,
cabelos areosos, sorriso charmoso que fazia duas covinhas fofas aparecerem
nas bochechas, e um conjunto de músculos perfeitamente construídos que
sempre me fazia suspirar, junto com as tatuagens na parte interna dos braços
que eu conseguia agora ver saindo por baixo da camisa azul enrolada até os
cotovelos.
“É tarde demais para retirar as palavras que eu disse anos atrás?”
Perguntei quando ele parou na minha frente.
“Depende de quais palavras você quer retirar. Se é algo sobre eu ser o
babaca dos babacas número um do mundo, então não, não é tarde demais
para dizer que você não falou sério.”
Rindo, eu disse: “Esquece, as pessoas não mudam, e você não é a
exceção.” Me aproximei e mergulhei no seu abraço aconchegante.
“Você está errada, linda, as pessoas mudam.”
Me afastei para conseguir ver seu rosto. “Hmm… Apenas não me
diga que você mudou.”
“Eu mudei. Muito.”
“Interessante….”
Ele ignorou a ironia na minha voz. “Terminou por hoje?”
“Sim.”
“Que bom. Porque vou te levar para sair.”
Ele pegou minhas mãos nas dele e me guiou até seu carro.
“Espera! E se eu tiver um marido e três crianças me esperando em
casa?”
Ele virou para mim e me lançou um daqueles olhares de ‘você é cheia
de história’.
“Tudo bem. Talvez eu não tenha um marido e filhos. Mas e se eu tiver
um namorado que pode não gostar do que você tem nessa sua mente suja?”
Paramos na porta do passageiro do carro dele, ele a abriu e disse:
“Mesmo se você tiver namorado, e sei com certeza que você não tem, não me
impediria de te levar para sair para comer tacos tarde da noite.”
“Que egoísta da sua parte, Sr. Armstrong. Achei que tinha dito que
estava mudado.”
“Não tanto assim.” Ele piscou para mim e me esperou entrar no carro.
“Quando se trata de você, nunca vou parar de ser egoísta. Sempre fui louco
por você, outra coisa sobre mim que não mudou, a propósito.”
Com um sorriso maroto no rosto, ele rodeou o carro, sentou do meu
lado, ligou o motor e acelerou na rua, adentrando o brilho noturno da cidade.
“Depois que você foi preso, jurei nunca mais namorar,” eu disse,
aproveitando a inesperada, mas muito bem vinda paz do momento. “Você fez
seu melhor para me fazer odiar a população masculina inteira do mundo.
Agora olhe para mim – estou indo em um encontro, com você. Quem teria
imaginado que eu seria tão incorrigivelmente louca por você?”
Ele riu sobre a respiração. Um momento depois, seu rosto ficou muito
sério. “Eu deveria ter dito isso muito tempo atrás…” Ele disse
silenciosamente. “Sinto muito, Crys, sinto mesmo. Da última vez que nos
encontramos, eu estava sendo um babaca. Não te ouvi e cometi o maior erro
da minha vida. A invasão foi um ponto de virada para tudo. Eu não pretendia
ficar tão bêbado assim e fazer algo que eu me arrependeria pelo resto da
vida.”
Paramos na encruzilhada, esperando que a luz do semáforo ficasse
verde.
Trevor virou a cabeça para me olhar. “Há tanta coisa que preciso te
contar…”
“Tacos combinam bem com qualquer coisa que você queira me
contar.” Eu sorri e esfreguei seu antebraço. Algo me dizia que essa noite seria
longa.
Fomos para o Papa Sancho – o lugar que costumava ser nossa
lanchonete vinte e quatro horas favorita.
“Não venho aqui há anos,” eu disse, saindo do carro.
“Eu também não. Mas espero que ainda tenham os melhores tacos na
cidade.”
Alguns caras parados na porta lançaram um olhar curioso para o carro
de Trevor.
“Nem pensem nisso,” Trevor disse com um aviso. “Esse bebê tem
rastreio. Então se não quiserem que seus traseiros acabem em uma
penitenciária, melhor ficarem longe dele.”
Eu ri. “Tem certeza de que é uma boa ideia vir aqui com um
Lamborghini novo em folha?” O lugar não era o mais seguro na cidade. Mas
conhecíamos o dono e ele nunca deixaria nada acontecer conosco. Embora
não tivesse tanta certeza sobre o carro do Trevor.
“Achei que seu pai tinha dito que você nunca mais receber um
centavo dele depois do que fez. Como na terra você o fez comprar esse
carro?”
O rosto de Trevor se tornou indecifrável. “O velho manteve a palavra.
Não recebi um centavo dele.”
Meus olhos se arregalaram. “Então onde você conseguiu tanto
dinheiro?” Me virei e dei mais uma olhada no ‘bebê’ dele.
Trevor sorriu. “Não se preocupe, não roubei a casa de ninguém.”
“Espero que não.”
Estamos na lanchonete e imediatamente senti a boca começar a
salivar. O cheiro de taco era um daqueles que poderia me convencer a fazer
absolutamente qualquer coisa no mundo, até ficar nua e dançar em uma das
mesas por perto. Hm, não, isso não é outra memória do meu passado. Bem,
não exatamente… Não importa. Namorar Trever consistia em fazer muita
coisa estúpida.
Nós éramos os únicos clientes no lugar, então ele foi até a bancada e
tocou a campainha. “Papa Sancho, sabemos que você está aí!”
O homem no final dos seus sessenta anos saiu da porta da cozinha e
xingou em espanhol.
“No puedo creer lo que ven mis ojos! Não posso acreditar nos meus
olhos – Garoto de Ouro e a Missy!” Aqueles eram os nomes que ele nos deu
na primeira vez que entramos na sua lanchonete. “Onde estiveram todo esse
tempo?” Ele veio abraçar Trevor e depois me abraçou também.
“É uma longa história,” eu disse. “Você ainda tem os melhores tacos
na cidade?”
“Pues claro que si! É claro! Peguem a mesa que quiserem, volto em
alguns minutos.” Ele voltou para a cozinha e sentamos em uma das mesas
perto da janela.
“Então, me conta, linda, como passou todo esse tempo?”
Tirei minha jaqueta e a coloquei na cadeira. “Bem, na verdade.
Você?”
“Nada bem… Mas vamos dar um passo de cada vez. Soube que você
e Liz estão trabalhando juntas.”
“Sim, ela abriu um estúdio de design e estou a ajudando a administrar.
Amo muito meu trabalho, apesar da quantidade de tempo que tira de mim.”
“Na verdade, eu tinha certeza que você estaria casada e com, pelo
menos, três filhos a essa altura.” Ele sorriu. “Mas estou feliz que meus
palpites não se provaram reais.”
“Não posso dizer que estou feliz de não ter casado, mas você sabe da
minha história… Eu sempre fui extremamente cuidadosa quando se trata de
homens.”
“Não quando se trata de mim.”
Eu ri. “Verdade. Mas sabe o que quero dizer.”
Trevor era a única pessoa no mundo que sabia toda a história, toda a
verdade sobre mim e as origens da cicatriz na minha barriga. Outro motivo
pelo qual era fácil ficar perto dele.
Ele me lançou um olhar perturbado. “Você não pensa mais naquela
noite, não é?”
Baixei meus olhos. Não queria mentir, mas dizer a verdade não era
uma opção também. “Eu tento não pensar.”
“Entendo.” A preocupação nos seus olhos ficou mais forte. “De
qualquer forma, estamos aqui para comemorar outro encontro e estou feliz de
ter te encontrado, Crystal. Senti sua falta como o inferno.”
“Senti sua falta também.”
Ele bateu as palmas contra a mesa. “Eu sabia!” Um sorriso vitorioso
se acendeu no seu rosto.
Com um sorriso nos lábios, eu disse: “Você me conhece bem demais
para acreditar nas minhas enrolações.”
Ele concordou; o rosto de repente endurecido. “Estava com medo de
você nem falar comigo…”
“Mas aqui estamos – falando e rindo e sabe de uma coisa? Nunca
fiquei com raiva de você. Bem, talvez só um pouco. Mas considerando o
quanto você me ajudou quando eu mais precisei, não consegui ficar com
raiva por muito tempo. Se você aparecesse na minha varanda um dia depois
de ter invadido aquela maldita casa, eu não teria dito nada. Quem sabe, talvez
não tivesse me tornado feminista e poderíamos ainda estar juntos?”
“Eu precisava fazer uma coisa antes de poder te ver de novo. E não
estou me referindo a ganhar dinheiro. A verdade é que eu nunca fui para a
prisão.”
“O quê? Mas achei que era onde você estava pelos últimos – quantos
– três anos?”
“Quatro, na verdade. Mas nunca estive na prisão. Meu pai pagou
minha fiança. E essa foi a última coisa que ele fez por mim.”
“O que aconteceu depois?”
“Ele quis que eu começasse a trabalhar para ele, de graça, a vida
inteira ou algo assim. Ele achou que era a punição que eu merecia por
humilhá-lo. Mas eu rejeitei sua oferta ‘generosa’, fiz as malas e saí de casa.”
“Para onde você foi?”
“Para o Canadá. Tenho primos lá e eles gentilmente me deixaram
ficar na casa deles. Consegui um emprego em um supermercado local,
guardei dinheiro o suficiente para continuar meus estudos e enviei meus
documentos para a Universidade de Colúmbia Britânica, que fica em
Vancouver. Depois que fui aceito, me mudei para a cidade e encontrei outro
emprego para me sustentar lá. Minhas notas eram altas o suficiente para me
permitir escolher onde trabalhar depois da formatura. Um dos meus
professores perguntou se eu queria ficar na universidade e ensinar alunos do
departamento de Economia Internacional. E eu disse sim.”
Minha boca caiu aberta até o chão. “De jeito nenhum… Você é
professor universitário agora?”
“Sim.”
“Você sabe que dormir com estudantes bonitas é proibido?”
Ele riu. “Estou ciente dessa regra. Na verdade, sou um professor
muito rígido. Os alunos têm medo de mim. Alguns conseguem passar meus
exames na terceira tentativa. Se tiverem sorte, é claro.”
“Tudo bem. Mas eu nunca vou acreditar que o salário de professor é o
suficiente para comprar uma Lamborghini.”
“Além de ensinar, eu comando uma empresa de seguros em
Vancouver.”
“Um professor universitário e chefe de uma empresa de seguros…
Preciso ver com meus próprios olhos!”
“Não vejo problema algum com isso. Venha para o Canadá comigo.”
“O quê?”
Uma olhada nos olhos de Trevor foi o suficiente para perceber que ele
não estava brincando.
“Você está falando sério, não é?”
“Estou sim, Crys. Venha para o Canadá comigo. Você vai amar lá.”
Balancei a cabeça. “Não posso. Minha vida está aqui.”
“Uma vida que continua te prendendo ao passado?”
Eu não respondi a isso.
“O que realmente está te impedindo de mudar tudo e começar do
zero?”
Eu ia dizer ‘meu trabalho’, mas as palavras apenas não saíram da
minha boca, porque eu sabia que seria outra mentira. Havia outra coisa que
me fazia adiar meus planos do futuro, ou para ser exata, havia alguém cuja
existência complicava minha vida em muitos níveis. Como se lendo minha
mente, Trevor disse: “Apenas não me diga que você ainda está babando por
aquele idiota.”
Bem, sim, ele sabia um pouco mais do que meus amigos e minha
família, incluindo Liz e Stanley.
“Não estou. Ou talvez esteja… Não sei. É… Complicado.”
“Sempre foi complicado, Crys. Mas você não acha que está na hora
de virar a página da história e seguir em frente?”
“É exatamente isso que estou tentando fazer.”
“E como está indo? Espere, não responda. Mal sucedido, certo? Eu
tenho olhos, sabe? Posso ver que a mera menção dele te deixa nervosa. Deus,
achei que tinha superado.” Ele correu uma mão pelos cabelos e se inclinou
contra o banco. Uma veia disparada no seu pescoço; a mandíbula apertada.
Me senti um pouco culpada, embora não soubesse porquê. Talvez
porque soubesse que Trevor estava certo e era hora de virar a página da
minha história. Mas eu apenas não sabia como me forçar começar um novo
capítulo.
Papa Sancho quebrou o silêncio entre nós. “Aqui está, crianças, seus
favoritos.” Ele colocou um prato com comida na frente de Trevor e outro na
minha frente. Então sentou na nossa mesa e começou a fazer perguntas que
foram como um sopro de ar fresco. Embora soubesse que a conversa que
Trevor e eu começamos ainda estava longe de terminar, uma curta pausa era
um alívio.
Parece que a tensão que começara a pairar sobre nossas cabeças,
como um machado que estava prestes a nos separar pela próxima vida ou
algo assim, começou a afrouxar. Eu continuava pegando seus olhos em mim;
e fingia ouvir as histórias do Papa, mas sabia que ele ainda pensava no que
conversávamos antes da comida ser servida. E por algum motivo
inexplicável, queria dizer tudo em voz alta – tudo que estivera me
incomodando durante anos. E Trevor parecia a pessoa certa para se tornar
meus ouvidos e um ombro no qual chorar. Talvez não naquele momento, mas
um dia.
“Foi um prazer ver vocês de novo, crianças,” Papa Sancho disse, nos
acompanhando até a porta.
“Igualmente.” Eu sorri, dando-lhe um abraço de despedida.
“Venham quando quiserem, as portas estão sempre abertas para
vocês, jovens.”
“Obrigada, Papa.”
Na hora que Trevor parou nos portões de casa, o relógio no painel
mostrava meia noite. Não falamos muito durante o percurso.
“Quer entrar?” perguntei.
“Acho que você teve um longo dia e precisa descansar. Te vejo
amanhã.”
“Vai ficar em Pittsburgh? Por quanto tempo?”
“Minha próxima aula é na segunda feira, então pelos próximos cinco
dias, sou todo seu.”
Fiquei feliz em ouvir que ele não partiria de manhã.
“Onde você está ficando, a propósito?”
“Em um hotel.”
“Sem vontade de ver seus pais?”
“Mamãe vai me visitar no Canadá a cada três meses mais ou menos.
Quanto ao papai… Não acho que meu retorno inesperado mude algo entre
nós. Embora não precise mais do dinheiro dele.”
“Mas vai tentar falar com ele, certo?”
Trevor suspirou. “Ainda não decidi.”
Eu não tinha direito de pressioná-lo, então parei com o
questionamento. “Tudo bem. Te vejo amanhã, então?”
“Claro. Que horas termina o trabalho?”
“Bem, se eu fingir que é apenas um dia normal para mim, estarei livre
por volta das seis.”
“Então estarei no estúdio às seis.” Ele se inclinou para perto e beijou
minha bochecha. “Foi bom te ver de novo, linda.”
“Nunca achei que admitiria, mas… foi bom te ver também.”
Rindo por baixo da respiração, ele saiu do carro e abriu a porta para
mim, oferecendo sua mão.
“Boa noite,” eu disse.
“Durma bem.”
“Ugh, queria que fosse tão fácil. No meu caso, está mais para ‘eu já
quero tirar um cochilo amanhã’.”
“Não sabia que as coisas estavam tão ruins.”
“Você nem imagina…”
Ele arranhou a mandíbula, me observando, com aqueles demônios
familiares nos olhos que prometiam problema.
“Nem pense nisso,” eu o avisei. “Não vou deixar que você fique no
meu quarto.”
“Por que não? Você é uma garota crescida agora, certo? Não que a
presença de adultos já tenha impedido você de abrir as portas dos fundos para
mim.”
Soquei seu braço. “Cala a boca, espertinho. Isso foi há muito tempo.
Agora só deixo homens entrarem pela porta da frente, e se eles encaixarem na
minha lista de expectativas, eles podem entrar e ficar no meu quarto.”
“Puta merda… Isso significa que você não faz sexo desde que
terminamos!”
“Ha-ha, muito engraçado. Não sou tão tapada, sabe?”
“Certo,” ele disse, com o máximo de dúvida que ele conseguia
colocar em uma palavra.
Uma coisa que com certeza não mudou entre nós com o tempo foi que
ele sempre soube tudo sobre mim. Ou mesmo que não, ele agia como se
soubesse, e eu – bem, eu sempre falhava em convencê-lo do contrário.
CAPÍTULO SEIS
“Você vai sair com Trevor, tipo o Trevor?” Liz olhou para mim do
outro lado da mesa.
“Sim.”
“Está brincando, certo?”
“Não.”
“Eu vou receber algo além de ‘sim’ e ‘não’ de você hoje?”
“Talvez.”
Liz urrou para mim, literalmente. “Ele não foi o mesmo cara que fez
você jurar não namorar pelo resto da vida?”
“E daí? Isso não significa que não posso jantar com ele. Não é como
se fosse um encontro amoroso. É apenas um jantar com um velho amigo.”
“Ahã.” Ela cruzou os braços e continuou me dissecando com olhos
atenciosos.
“Para de fazer isso. Sei o que está pensando e você está errada.”
“Se você está pensando o mesmo que eu, acho que não estou.”
Eu costumava ser meio que obcecada pelo Trevor e Liz sabia disso.
Não posso dizer que o amava, mas havia algo nele que eu não conseguia
resistir. Ou talvez fosse mais o fato do seu estilo de vida que era tão diferente
do meu que me fazia pular na sua bicicleta quando ele chamava. Eu era uma
boa menina, tanto quanto um diabo de saia poderia ser, e ele era um típico
garoto problema cujo corpo e motocicleta me faziam babar quando ele estava
por perto.
“Trevor e eu… Em um relacionamento… Não vai acontecer.”
“Okay.” Liz levantou e foi para a porta. “Posso perguntar uma coisa?”
“Mesmo se eu disser ‘não’ você ainda vai perguntar. Então vai em
frente.”
“Você e Liam já fizeram algo que eu não saiba?”
Uma onde de medo predatório passou por mim e então terminou
queimando minhas bochechas. “Não. Por que você diria isso?” Liz conseguia
ver a corada de você-é-a-maior-mentirosa nas minhas bochechas? Porque
naquele momento, sentia que meu rosto todo estava pegando fogo.
Ela deu de ombros. “Foi apenas uma ideia. Esquece.”
Mas eu a conhecia. Ela nunca fazia perguntas assim sem um bom
motivo. Liam contou alguma coisa para ela? Não, ele nunca faria isso. Além
disso, duvido que ele se importe com o que aconteceu entre nós na noite que
ele me arruinou até os ossos. Ele nunca levou nenhuma das namoradas a
sério. Elas eram como paradas de ônibus pelas quais ele passava rápido
demais. E por acaso, eu fui uma delas.
Liz saiu sem dizer outra palavra e suspirei de alívio. Era melhor que
minha história com Liam ficasse no passado. Não importa o quanto as
memórias fossem dolorosas…
***
6 anos atrás
Eu estava tão feliz quanto um daqueles vaga-lumes da história da
Tinker Bell que nunca paravam de voar e brilhar, irritando todos com seu
zumbido sem fim.
“Pelo visto você gostou da sua festa de formatura.” Stanley disse,
servindo-se de outro copo de café. “Que horas você voltou para casa?”
“Eu não lembro.” Eu não estava mentindo. Fiquei tão feliz por Liam
ter aparecido e me levado da escola, não consegui pensar direito. Falei sem
palar e minha boca doía do tempo que passei sorrindo como uma idiota,
porque o cara dos meus sonhos fez algo que eu sabia que lembraria pelo resto
da vida. Ele transformou minha noite de formatura em uma das melhores
noites.
É claro, ele não contou a ninguém sobre nosso passeio noturno ao
Storm. Conversamos e dançamos no terraço, comemos uma torta de
chocolate que ele trouxe especialmente para mim, sabendo o quanto eu
amava. Nós observamos o nascer do sol, o que foi a coisa mais romântica que
já aconteceu comigo. E embora não agíssemos como um casal, mais como
velhos amigos que sabiam quase tudo um do outro, eu ainda conseguia sentir
algo especial crescendo entre nós. Ele segurou minha mão e eu nunca tentei
afastá-la. Não sei se ele sabia que amigos não ficavam de mãos dadas como
nós. Mas naquele momento, preferia não pensar em nada além do prazer que
recebia ao estar com ele.
Ele me levou para casa e disse que voltaria mais tarde para me levar
para jantar. Meu universo começou e terminou com ele. Eu podia procurar
para sempre, sonhar para sempre, mas no final, eu ainda o veria como o
homem com quem eu sempre quis compartilhar minha vida.
Não conseguia parar de pensar no jantar que estava por vir e embora
não dormisse há quase vinte e quatro horas, estava animada demais para
fechar os olhos por um segundo sequer. Me sentia tão leve, como se não
houvesse gravidade capaz de me puxar para baixo. Era tão estranho, até
assustador, perceber que o maior dos meus sonhos estava prestes de se tornar
realidade. Ingenuidade, ainda assim, tão pura e sem limites, meus
sentimentos se tornaram traidores, nunca ouvindo minha mente, e sim,
preenchendo meu coração com tanta luz; me sentia como se eu fosse feita de
fogo – perigosa demais para confiar em suas lindas promessas, mas
tentadoras demais para se afastar.
Liam me enviou uma mensagem perto do meio dia e disse que me
buscaria em uma hora – o que acabou sendo a hora mais longa da minha vida.
Antecipação me preencheu com fagulhas elétricas, iluminando-me por
dentro. Sonhando de olhos arregalados, podia sentir um sorriso torcer meus
lábios. Não conseguia evitar e nunca quis que o tempo passasse mais rápido.
***
Momento Presente
Era quase cinco da tarde quando Liz empurrou uma arara cheia dos
seus looks recentemente desenhados para dentro do meu escritório.
“Preciso saber o que você acha deles,” ela disse, respirando
pesadamente. Eu sempre era a primeira pessoa a experimentar seus novos
designs.
Levantei da minha cadeira e fui até a arara. “Quer que eu
experimente? Agora?”
Ela sorriu. “Com medo de se atrasar para seu encontro com o Sr.
Armstrong?”
Fiz uma careta. “Ha-ha. Não, não estou. E como eu disse – não é um
encontro.”
“Tanto faz.” Ela virou para a arara e puxou um mini vestido feito de
veludo cor esmeralda. “Experimente esse primeiro. Uma das minhas clientes
viu o desenho e quer que o primeiro vestido seja dela. Mas preciso garantir
que esteja bom.”
“Tudo bem.”
O telefone dela tocou na mão, ela olhou para a tela e disse: “Preciso
atender. Coloque o vestido e me espere. Volto logo.”
Concordei e esperei que ela saísse do escritório. Então me virei para o
espelho que ia até o chão e comecei a tirar a roupa.
O vestido que Liz quis que eu experimentasse era apertado demais
para mim. Eu o coloquei pela cabeça e, é claro, que ficou preso logo quando
eu ia puxá-lo sobre meu peito. Minha cabeça ficou escondida embaixo do
tecido.
Ouvi a porta abrir atrás de mim.
“Sério, Liz, se você queria me matar com esse vestido, considere
missão cumprida.”
Ela ficou quieta.
“Quer me ajudar a tirar isso, por favor?”
Ouvi passos e alguns momentos depois, ela puxou a bainha do vestido
para cima e finalmente me libertou. Só que quando virei para contar o que eu
achei do vestido, não era minha melhor amiga que estava atrás de mim.
“Liam? Que inferno?” Olhei freneticamente ao redor, procurando algo
com que me cobrir. “Já ouviu falar em bater?”
“Desculpe.” Os olhos dele deslizaram pelo meu corpo, parando na
pequena parte que eu queria tanto esconder. Quando seu olhar passou pela
minha barriga de novo, entrei em pânico. Como naquela noite na casa do
lago.
“O que você quer?” Virei para longe dele e agarrei outro vestido da
arara para colocar.
“Precisava falar com Liz, e então ouvi vozes vindo daqui. Achei que
ela estivesse com você.”
Engoli o nervosismo e me virei. Os olhos dele imediatamente
encontraram os meus e não importa o quanto eu tentasse me convencer de
que seu olhar não me afetava mais, eu não conseguia fazer as malditas
borboletas pararem de dançar. Não importa a distração que usasse, meus
pensamentos continuavam voando de volta para as coisas que não deveriam
passar pela minha mente.
“Ela deve estar na sala de exposição,” eu disse, andando ao redor
dele. Ficar perto dele nunca fazia bem à minha sanidade.
Para meu alívio, Liz voltou alguns momentos depois.
“Por que está usando esse vestido? Achei que tinha dito para
experimentar o outro.”
“Sim, mas era apertado demais para mim.” Do canto dos olhos, vi
Liam me observando.
Por que inferno ele não podia me deixar em paz? Meses sem ele eram
muito mais fáceis do que cinco minutos em sua presença. Mesmo que fosse
apenas mais uma mentira, preferia acreditar nisso em vez de encarar a
verdade.
“Apertado demais? Ah, não… Vou precisar refazer do começo. Liam,
venha comigo, seu pedido está no meu escritório.” Ela levou o vestido
esmeralda e então adicionou: “Pode experimentar pelo menos alguns mais
antes de ir no seu encontro?”
Ao mencionar ‘encontro’ Liam parou de andar e se virou para me
olhar. Uma pergunta não-dita congelou seus olhos azuis escuros.
Coloquei meu melhor sorriso e disse: “Claro. Vamos ver quantos
consigo vestir antes que Trevor venha me buscar.”
As sobrancelhas de Liam dispararam para cima, os lábios
pressionados.
O quê? Acha que é a única pessoa na sala que tem direito a ter uma
vida pessoal? Bem, desculpa desapontar, cara, mas você está errado.
Ele me lançou um olhar puto da vida e seguiu Liz para fora do meu
escritório.
Sério, o homem tinha coragem. Quem inferno ele achava que era para
se sentir dono de mim? O beijo que compartilhamos alguns meses atrás não
lhe dava direito algum de me julgar ou o que eu fazia no meu tempo livre.
Afinal, nada jamais o impediu de levar outra garota para a cama.
Cerca de uma hora depois, alguém bateu na porta.
“Entre!” eu disse, fechando a bolsa.
“Pronta para se divertir comigo?” Trevor parou na entrada, o sorriso
brilhante como sempre. Deveriam tê-lo contratado como modelo de
comercial de pasta de dente.
“Me divertir com você?” eu zombei. “Não promete nada de bom.
Além disso, achei que íamos comer.”
“Vamos comer, conversar e nos divertir. Não parece melhor?”
“Muito.”
“Bom, vamos, então.”
Tranquei o escritório, disse adeus para Liz, e depois eu e Trevor e
saímos do estúdio.
A noite estava um pouco fria, então ele tirou a jaqueta e a passou ao
redor dos meus ombros, enquanto andávamos até o carro dele.
“Aonde vamos?” perguntei por curiosidade.
“Não vou contar nada. Vai ser surpresa.”
Parei na porta do passageiro e franzi a testa. “Espero que você não
faça eu me arrepender de sair com você.”
Ele se inclinou para baixo e disse em uma voz baixa: “Não que você
alguma vez tenha se arrependido.”
“Cala a boca. Eu era jovem e estúpida e essas duas coisas têm uma
tendência nada saudável de ver tudo por lentes cor de rosa.”
“Então vamos fingir que somos jovens e estúpidos de novo. Não
quero ser adulto hoje.”
Eu ri. “Não gosto nada disso.”
“Você vai gostar da minha surpresa, isso eu prometo.”
Eu devolvi sua jaqueta e entrei no carro.
‘Promessas são tão fortes quanto as pessoas que as fazem,’ lembrei
da minha mãe dizendo. Olhei para o homem sentado ao meu lado e pensei
que ele era o homem mais forte que já conheci na vida. E por sorte não me
refiro à sua forma física. A superfície externa não é sempre verdadeira, e no
caso de Trevor, era seguida por um mundo interno sem limites, cheio de
coisas que eu admirava nele. Ele era uma das poucas pessoas que eu sempre
podia contar, não importa o quanto eu confiasse pouco nele depois do que fez
anos atrás. Eu o admirava ainda mais, por tudo que ele conseguira na vida
apesar dos obstáculos que enfrentou no caminho.
Um movimento à direita capturou minha atenção. Virei a cabeça e
olhei pela janela bem na hora de ver o carro de Liam acelerar.
Achei que ele tinha saído há muito tempo. Ele ficou para ver com
quem eu ia sair?
“O que é, Crys?” Trevor perguntou.
“Achei que tinha visto alguém conhecido, mas me enganei. Vamos?”
Ele concordou e ligou o motor.
“Então, me conte por que ainda está solteiro?” perguntei, enfiando o
garfo em outro pedaço da carne mais deliciosa que já comi.
“Estou esperando você,” ele disse com um sorriso mal visível nos
lábios curvados.
“O que significa que vai morrer um solteirão juramentado.”
Estávamos sentados no terraço de um lugar que eu não conseguia
pronunciar o nome corretamente, mas era algo asiático e a comida era de
morrer.
“Acho que é cedo demais para desistir.” Ele piscou para mim.
“Melhor me contar, você ainda tem uma queda por aquele cara, Liam, certo?”
Suspirei. “Honestamente, não sei como responder sua pergunta. Em
um segundo acho que me ‘curei’ e que não me importo mais com ele. E então
o vejo, e tudo que eu acreditava fica de cabeça para baixo.”
“Então, ainda está apaixonada por ele…”
“Não vou rotular. Apenas sinto que há algo entre nós que não me
deixa seguir em frente. É isso.”
“Ele não sabe o que aconteceu na noite do seu aniversário de dezoito
anos, sabe?”
“Nunca contei nada.”
“Talvez esse seja seu problema com ele – você sente que não está
sendo honesta e isso está te consumindo. E se você tentar desabafar? Me
refiro a contar tudo para ele.”
Balancei a cabeça. “Não posso. Me sinto tão envergonhada por aquela
noite. Nunca tive coragem de contar para ninguém. Nem meu irmão sabe de
toda a verdade.”
“Mas você me contou, lembra?”
“É diferente. Você estava lá quando eu precisei de alguém para me
ouvir. Mas agora, depois de tantos anos, tenho menos vontade de falar sobre
isso do que no dia em que te contei.”
Ele hesitou alguns momentos antes de fazer a próxima pergunta.
“Você ainda tem pesadelos com aquela noite?”
Concordei lentamente. “Às vezes.”
“Por que não denunciou os caras? O que eles fizeram não foi o
suficiente para fazê-los pagar?”
Um arrepio passou por mim. Baixei o garfo e passei os braços ao meu
redor, como se fosse me proteger das memórias dolorosas. O medo familiar
viajou pelas minhas veias. Eu tentara suprimi-lo por anos. Eu, sem dúvida,
ganharia um Prêmio de Rosto de Indiferença Casual.
“O que eu contaria à política? Eu nem sei o nome deles.” Levei um
copo de água aos lábios e dei alguns goles.
“Mas viu o rosto deles. Podia ter descrito a aparência deles.”
“A polícia nunca os encontraria de qualquer jeito.”
Trevor ficou quieto por longos cinco minutos, nada menos. Fingi que
estava ocupada demais comendo minha salada. Coloquei uma máscara de
desafio e nunca a deixei cair do meu rosto, e ninguém conseguiria ver os
traços de fraqueza quebrando dentro de mim.
“Tudo bem, por que não falamos de outra coisa?” Ele finalmente
disse.
“Estou dentro.”
Ele passou um braço ao redor dos meus ombros e me puxou para
perto. Ele beijou minha cabeça e disse: “Se concordasse em casar comigo,
você nunca mais teria pesadelos. E sabe porquê?”
“Por quê?” Me afastei para conseguir ver seu rosto.
“Porque não deixaria você dormir.”
Eu ri por baixo da respiração. “Tipo nunca?”
“Bem, considerando seu desejo de ter, pelo menos, três filhos, acho
que teríamos muito trabalho a fazer.”
“Seu pervertido. Nunca parou de pensar em dormir comigo de novo,
não é?”
“Hmm… Deixe-me pensar.” Ele esfregou o queixo, fingindo que
estava pensando demais na pergunta. “Era meio difícil parar de pensar nisso.
Tenho boa memória, o que nesse caso em particular, não ajuda.” Sua risada
silenciosa vibrou na minha palma, descansando no seu peito. “Nos divertimos
muito juntos. Às vezes, sinto falta daquela época…” Ele esfregou minhas
costas gentilmente e então adicionou: “Não que não possamos repetir
algumas coisas daquele tempo.”
Soquei seu peito, brincando. “Não vai acontecer.”
“Que pena. Aprendi algumas coisas desde então.”
Rindo, eu disse: “Sem dúvida.”
“E sua paixão por crianças? Está planejando ter filhos, não é?”
“É claro que quero ter filhos.”
“Mas percebe que para isso você precisa de um marido primeiro.”
“Casamento não é a úncia forma de ter filhos.”
“Como assim?”
“Bem, tenho um plano… Mas promete que não vai rir.”
“Se você acha que vai me fazer rir, não posso prometer nada.”
Eu rolei os olhos para ele. “Tá bom. Aqui está meu plano quero
encontrar um homem disposto a doar seu esperma. Vou ter o bebê dele, mas
vou criar ele ou ela sozinha. É isso.”
Acho que os olhos do Trevor não poderiam ficar maiores do que
agora. Primeiro, ele me encarou, sem dizer uma palavra, e então ele franziu o
cenho e perguntou: “É algum tipo de piada?”
“Não. É o que eu quero.”
“Um bebê de laboratório?”
“Sim. Assim, vou poupar o pai do meu bebê de suas obrigações. Não
é isso que vocês – homens – querem afinal?”
“Definitivamente, eu não. Quero fazer parte da vida dos meus bebês,
se eu tiver bebês, é claro.”
“E casamento?”
“O que tem? Eu disse alguma vez que não quero me casar?”
“Não.”
“Não tenho medo de obrigações. Mesmo não acordando pensando em
ir ao altar, eu quero ter uma família: uma esposa para me trazer café na cama
e ficar lá por completamente outro motivo, e alguns encrenqueiros para
complicar minha existência.”
Eu o observei com apenas um pensamento na cabeça – Por que nunca
me apaixonei por ele?
“Tenho certeza que um dia, você encontrei uma mulher para
completar esse quadro perfeito no futuro.”
“Não quer que seu futuro seja perfeito?”
“Quero. Mas com meu passado, não haverá nenhum futuro perfeito
para mim.”
Ele deu outro gole de vinho e disse: “Se você mudar de ideia, sabe
onde me encontrar.”
“Mudar de ideia sobre o quê exatamente – dormir ou ter filhos com
você?”
“Os dois.”
“E se eu roncar à noite, acordar de mal humor e me recusar a te levar
café na cama? Tem certeza que consegue lidar com uma esposa assim?”
“Você não ronca. Passei noites suficientes com você para ter certeza
disso. Você nunca acordou mal humorada. Quanto ao café, não me importo
em fazer para você.”
Capítulo sete
Liam
6 anos atrás
Eu estava me apaixonando por Crystal…
Eu era indefeso contra sua beleza e seu jeito rebelde do qual eu nunca
sabia o que esperar. Mas mais do que isso, estava me apaixonando pelo que
ela me fazia sentir quando estava por perto. Era como se ela estivesse me
alimentando uma droga muito poderosa que eu continuava voltando para
experimentar, de novo e de novo. Quanto mais tempo eu passava com ela,
menos eu me importava com as consequências do que eu estava arriscando.
Ela preencheu um buraco que eu nunca soube que existia. Antes dela, achava
que estava bem com o que a vida consistia. Até que um dia percebi que
queria muito mais do que isso. Eu queria ela.
Sem saber, ela tinha o poder de me salvar e me destruir. Eu a sentia
no ar, ansiava pelos seus sorrisos e toques acidentais; cada dia sentia que
estava mais apaixonado do que no anterior. Ela roubou meu coração e eu
nunca o queria de volta, como se eu soubesse que com ela, ele estaria são e
salvo.
Em algum momento, parei de me preocupar com o que Stanley diria
sobre meus sentimentos pela sua irmã. Tentei evitá-lo o máximo possível,
incerto de como agir na sua presença. Mas já que não conseguia me manter
longe de Crystal, de tempo em tempo eu precisava inventar explicações
muito estúpidas para ir até a casa deles. Como no dia em que disse à Sra.
Burk que eu estava sem sal. Ela pareceu um pouco confusa, provavelmente
sabendo que eu morava na esquina do supermercado, e ela – do outro lado da
cidade. Ou no outro dia em que eu disse que meus pais estavam redecorando
meu quarto e eu não tinha onde ficar, então perguntei ao Stan se podia passar
a noite na casa deles. Ele pareceu tão confuso quanto a mãe quando falei do
sal, porque havia, pelo menos, três quartos livres na casa dos meus pais, mas
eu não queria usar nenhum. Desculpa esfarrapada, eu sei. Mas eu ia longe
apenas para vê-la de novo, mesmo que fosse um encontro de dez segundos.
Hoje era aniversário da Crystal, seu aniversário de dezoito anos. Eu
estava um amontoado de nervos. Depois da noite de formatura e da nossa
dança no terraço do Storm, a atitude dela a meu respeito mudou. Ela não se
importava mais com minha companhia, pelo contrário – toda vez que nos
encontrávamos, sabia que ela ficava feliz em me ver. E eu, em troca, ficava
feliz em vê-la.
Eu comprei uma corrente de ouro com as letras do nome dela
penduradas, coloquei em uma caixa de veludo, juntei toda coragem que
consegui e fui para sua festa de aniversário.
E, é claro, Stanley tinha que ser a pessoa que veio abrir a porta para
mim.
“Liam? Não esperava ver você hoje… Crystal te convidou para a
festa?” Consegui ouvir notas de dúvida em sua voz. Até dois meses atrás, a
irmã dele e eu tínhamos sido inimigos e agora eu viera para a festa de
aniversário dela, com um presente nas mãos e o sorriso mais idiota do mundo
no rosto.
“Hm, é… Ela achou que estava na hora de terminar essa guerra
estúpida entre nós. Espero que não se importe?”
“Não me importo. Fico feliz em saber que vocês chegaram a um
acordo. Bem na hora. Entre. Você vai me ajudar a vigiar as crianças. Me sinto
o único ‘vovó’ em uma festa de balões rosas.”
Coloquei outro sorriso no rosto e entrei na casa decorada com o que
parecia um milhão de bolões rosas. Eles estavam por toda parte: na escada
que levava ao segundo andar, por todo o carpete da sala de estar e no teto.
Por um momento, senti vontade de sair correndo. Não porque odiava balões
rosas, mas porque eu me sentia o segundo ‘vovó’ na casa.
Mas quando vi Crystal descendo as escadas, soube que não iria a
lugar algum nem se chamassem a polícia para me arrastar para fora. Ela
usava um vestido branco-neve até o joelho, preso em um laço sobre o ombro.
A saia do vestido dançava a cada passo que ela dava. Seus longos cabelos
estavam feitos em cachos e eu de repente queria enfiar meus dedos neles e
beijá-la até dizer chega.
Deus, sua beleza fazia coisas terríveis com meu autocontrole.
Ela me avistou no mar de outros convidados a cumprimentando e
nossos olhos se encontraram. Ela agradeceu a todos pelas felicitações, mas a
única pessoa que ela olhava no momento era eu. Os seus lábios vermelhos-
vibrantes se torceram em um sorriso misterioso, e me perguntava o que ela
estava pensando. Porque tudo que eu podia pensar no momento era em torná-
la minha…
Simultaneamente, começamos a andar na direção um do outro. Eu a
encontrei no meio da sala e disse: “Soube que teria bolo aqui hoje. Não
perderia por nada no mundo. Você sabe que sou fã de doces.”
“Então você só veio por causa do bolo?” ela perguntou, com um
sorriso dançando nos olhos.
“Na verdade, estava curioso para saber se teria coisas mais deliciosas
nesta festa…” Eu lhe lancei um olhar cuidadoso dos pés à cabeça e adicionei:
“Agora eu sei, com certeza, que escolhi a festa certa para vir.”
Ela riu. “Sinta-se em casa. Tenho certeza que Stan pode te oferecer
algo mais forte do que um ponche.”
Não tinha certeza se álcool poderia me deixar ainda mais bêbado do
que aqueles olhos chocolate dela, que prometiam uma confusão que eu mal
podia esperar para me meter, mas não me importaria com algo para aliviar a
tensão crescendo dentro de mim. Antes de me juntar a Stanley para tomar um
drink, entreguei a Crystal a caixa de veludo e disse: “Não é que eu pense que
você não vai se lembrar do seu nome depois da festa, mas queria que você
tivesse algo para se lembrar de mim…”
Ela pegou de caixa, abriu e arfou. “Meu Deus, Liam… É
maravilhoso!” Ela tirou a corrente da caixa. “Você me ajuda a colocar?”
Eu gentilmente movi seu cabelo para o lado e fechei a corrente na
parte de trás do seu pescoço. No ouvido dela, sussurrei: “Feliz aniversário,
linda. Mal posso esperar para dividir outra dança com você.”
Ela se virou e vi suas bochechas ficando rosadas. “Obrigada. Prometo
guarda uma dança para você.”
“Crystal, mais convidados chegaram!” Stan chamou do corredor.
Ela me lançou outro sorriso e se afastou para receber os convidados.
Corri uma mão pelo cabelo, pensando no quão rápido ela conseguiu
me fazer perder a cabeça. Alguns minutos em sua companhia tentadora e me
sentia como um garoto de quinze anos antes do seu primeiro encontro.
Minhas palmas começaram a suar, me sentia um pouco avoado e podia jurar
que havia algum movimento acontecendo nas minhas boxers… Não que
fosse a primeira vez que meu corpo reagia desse jeito à garota que eu não
conseguia tirar da cabeça, mas hoje era a pior noite para pensar em satisfazer
a curiosidade do meu instrumento.
“Liam!” Stan fez sinal para eu o seguir até a cozinha.
Soltei um longo suspiro e disse para mim mesmo se acalmar, ou
então, meu amigo que ia se tornar cirurgião plástico, como eu, praticaria suas
habilidades cirúrgicas com uma certa parte do meu corpo.
Uma vez na cozinha, Stanley pegou uma garrafa de Jack Daniels de
um dos armários e serviu dois copos.
“Eu nunca achei que essa casa fosse pequena até que Crystal decidiu
convidar a cidade inteira para sua festa de aniversário.” Ele deu um gole e
disse: “Acho que preciso encontrar a arma do papai. Não tenho ideia de como
fazê-los ir embora quando a festa acabar.”
Eu ri. “Tenho certeza que Crystal apreciará esse tipo de
hospitalidade.”
“Não é nada engraçado. Viu o vestido dela?”
Ah, inferno, com certeza que sim…
“Não acredito que mamãe a deixou usar isso para a festa.”
“O que há de errado com o vestido? Parece decente.” Não que
qualquer pensamento decente tivesse passado pela minha cabeça quando vi
Crys o usando.
“Pra você, talvez. Porque você não é um desses garotos excitados de
dezoito anos andando pela casa, esperando um momento para deslizar as
mãos por baixo da saia dela.”
Mal você sabe, cara…
Em voz alta, eu disse: “Mas estamos aqui para não deixar que
aconteça, certo?”
“Graças a Deus.”
Levantei meu copo. “Saúde?”
“Saúde.”
A festa se arrastou e nada prometia problema até que percebi que meu
‘método Jack Daniels’ para relaxar culminou em um zumbido na cabeça que
eu não conseguia parar.
“Eu passo,” eu disse a Stanley, observando-o servir outro copo do
líquido âmbar.
Levantei e fui dar uma olhada no corredor onde os convidados se
juntavam para a última rodada de parabéns. Me inclinei contra a moldura da
porta e observei Crystal de longe.
Ela parecia muito feliz. Jovem e linda, ela tinha a vida inteira para
aproveitar.
Comecei a me perguntar se tinha direito de fazer parte disso. Sabia
que a diferença de idade entre nós não era problema, não para mim de
qualquer forma. Nós nos conhecíamos desde a infância. Eu me importara
com ela como se ela fosse minha irmã mais nova, até o momento em que
percebi que meus sentimentos por ela estavam longe de fraternais.
Nunca sentira nada assim antes. E por isso sabia que estava
apaixonado por ela. Era como se eu estivesse perdido em um longo túnel de
algo que nunca tinha experienciado com nenhuma outra garota.
Crystal e eu não estávamos namorando, nem nada do tipo, e dar as
mãos ocasionalmente era a parte mais pecaminosa dos nossos encontros.
Mas, ainda assim, podia sentir a atração entre nós. Os olhares que ela me
lançava, o modo que agia ao meu redor, o modo que eu reagia à sua presença
– tudo entregava a atração evidente, que era a coisa mais forte que eu já
sentira me preencher por dentro.
O que quer que acontecesse comigo – bom ou ruim – eu queria
compartilhar com ela. Brincávamos e ríamos muito, mas quando parávamos e
nossos olhares se encontravam, como agora, nada mais importava, além dessa
única conexão que derrubava paredes de resistência e de vergonha; que podia
desfazer o chão em que andávamos e incendiar os corações batendo nos
nossos corpos.
Eu soube que estava apaixonado por ela quando percebi que sua
felicidade era muito mais importante do que a minha própria. Eu faria
qualquer coisa no meu poder para fazê-la sorrir, para ver aqueles lábios se
contorcendo e dizendo algo que faria meu coração acelerar no peito. Ela era
uma tentação coberta pelo mais surreal dos meus sonhos. Eu não queria
acordar, só queria sonhar com ela para sempre.
Esperei que os convidados fossem embora e ajudei Stan a verificar a
casa pelos que pudessem ter pensado em ficar até de manhã. Depois que
terminamos, Stan disse que estava cansado demais para limpar a bagunça
depois da festa, então foi para seu quarto, e eu e Crystal ficamos na sala.
Podia ver que ela estava um pouco desconfortável, ou talvez, até um
pouco tímida, o que não era do seu feitio.
“Ainda estou esperando pela minha dança com a aniversariante,” eu
disse.
Ela mordeu o lábio inferior, o que foi difícil de não encarar. Deus, eu
queria tanto beijar aquele lábio.
“Venha aqui,” eu disse, oferecendo minha mão.
Ela hesitou, como se soubesse que ao aceitá-la, cederia a algo que
vinha crescendo entre nós há muito tempo.
Lentamente, ela se aproximou e colocou as mãos nas minhas. Eu
passei um braço ao redor da sua cintura e a puxei para perto do meu peito.
Seus olhos focaram no botão de cima da minha camisa; ela não
ousava me olhar nos olhos.
“Eu disse o quanto você está deslumbrante hoje?”
Ela sorriu, embora eu ainda não conseguisse ver seus olhos. “Acho
que você esqueceu de mencionar,” ela disse silenciosamente.
“Erro meu.” Coloquei um dedo embaixo do seu queixo e a fiz olhar
para mim. “Quando você está tão perto, sinto que estou perdido para todos,
exceto você, Crys…”
Ela engoliu em seco; seu peito subiu e desceu contra o meu.
“Não consigo explicar, mas o que sinto quando você está por perto é
algo que não consigo parar…”
Ela não disse uma palavra.
“Você nem consegue imaginar o quanto quero te beijar agora.”
Ela fechou os olhos por um momento, mas quando os abriu de novo,
eu soube que a decisão foi tomada.
Ela se inclinou contra mim, seus lábios ficando perigosamente perto
dos meus.
“Vamos para o meu quarto,” ela respirou na minha boca.
Ah, santo Deus, quem poderia dizer ‘não’ a um convite tão tentador?
Eu… Nunca!
Ela me puxou pelas escadas, ocasionalmente virando para ver se eu
ainda estava querendo o que quer que ela tivesse naquela sua mente. Você
provavelmente quer saber se me preocupei com Stanley acordar e entrar no
quarto da irmã para chutar minha bunda, mas nem por um segundo pensei em
enfrentar sua raiva. Eu estava muito animado para pensar em qualquer coisa,
e a quantidade de JD no meu sangue não ajudava nada. Bem pelo contrário –
fazia cada desejo pecaminoso meu por Crystal ainda mais forte.
Chegamos ao quarto dela, que era na direção oposta da parte do
corredor do Stan e ela trancou a porta atrás de mim.
Ela se inclinou contra a porta fechada e olhou para mim com desejo
evidente brilhando nos seus olhos encantadores.
“Quero que você tire esse vestido de mim,” ela sussurrou, observando
minha hesitação.
Em qualquer outra situação, eu o tiraria dela antes mesmo de
chegarmos no seu quarto, mas hoje tudo estava diferente.
“Você tem certeza disso?”
Uma parte de mim, uma parte bem pequena, queria que ela dissesse
‘não’. Provavelmente porque bem no fundo eu sabia que seria um erro.
Quando a outra parte – a que estava dura e pronta para a melhor noite da
minha vida, estava disposto a qualquer coisa que a garota na minha frente
tinha para oferecer.
“Chegue mais perto,” ela disse, matando o que restava da minha
consciência com essas duas palavras simples.
Me aproximei. Ela estendeu a mão para minha camisa, agarrou o
tecido e me puxou ainda mais para perto.
“Apenas não me diga que você não quer ver o que está escondido
embaixo desse vestido,” ela disse com um desafio na voz.
Eu ri. “Não quero.”
“Mentiroso.” Foi a última palavra que ela disse antes dos seus lábios
se chocarem contra os meus, beijando cada pequena dúvida que ainda estava
enterrada dentro de mim.
Pare, Liam, pare isso agora mesmo! Você não pode… Não deveria…
Não com Crystal.
Mas eu não ouvi minha voz interna.
Eu me rendi ao beijo espontaneamente, tomando o que eu vinha
sonhado por tanto tempo e dando muito mais em troca. Eu entreguei meu
coração e não importava o que acontecesse no futuro, eu sabia que nunca
conseguiria pegá-lo de volta.
Eu a puxei para a cama e caímos nela, com ela deitada em cima de
mim. O fogo nos seus olhos e a intensidade do momento me deixando louco.
Com um braço em volta dela, alcancei o zíper nas suas costas e o puxei para
baixo. Desfiz o laço nos seus ombros e abaixei a parte de cima do vestido.
Ela se levantou para ficar de joelhos, agora os colocando nos meus lados e
sorriu, olhando para mim.
“Gosta do que vê?”
Ela estava certa sobre as coisas que o vestido escondia – o sutiã sem
alça de renda era, sem dúvida, lindo e eu queria tirá-lo. Como se lendo minha
mente, ela alcançou o feche e tirou a coisa, expondo dois seios perfeitos que
eu imediatamente quis cobrir de beijos.
E eu fiz…
Minha língua deslizou por um mamilo e, então, atravessou para o
outro; ela gemeu silenciosamente em resposta.
“Seu irmão vai me matar se me pegar na sua cama.”
Ela riu. “Sou uma garota grande agora, posso fazer o que eu quiser,
com quem eu quiser.”
Meus lábios pressionaram contra os dela em um beijo lento e
profundo. Nossas línguas se misturaram, tornando-se uma dança que nunca
conseguiríamos terminar naquela noite. As mãos dela começaram a desfazer
os botões da minha camisa. No terceiro botão, ela obviamente ficou cansada
e apenas partiu os demais.
“Paciência nunca foi sua melhor qualidade,” sussurrei entre beijos.
“Nem a sua.”
“Verdade.” Eu a rolei para que ficasse deitada de costas,
pressionando-a na cama com o peso do meu corpo; minha excitação
pressionada contra a parte inferior do seu corpo.
“Por quanto tempo exatamente você tem fantasiado em fazer isso?”
Ela perguntou com ironia na voz. Embora eu estivesse em cima dela, de
alguma forma, sentia que estava perdendo o controle rápido demais e que ela
estava em pleno controle da situação.
“Por uma vida inteira ou algo assim, por quê?”
“Foi o que pensei…”
Me inclinei para baixo e chupei um dos seus mamilos duros, fazendo
outro gemido sair dos seus lábios.
“Se você continuar fazendo sons assim, seu irmão vai fritar minhas
bolas no meio do parque da cidade, apenas para garantir que todos sabiam o
que aconteceu com o melhor amigo que ousou seduzir a irmãzinha dele.”
“Vou garantir que suas bolas fiquem sãs e salvas.”
“Por que isso não parece convincente?”
Sua risada vibrou embaixo dos meus lábios, agora trilhando um
caminho até a ponta do seu ouvido.
“Provavelmente porque estou meio curiosa para ver você explicando
para o meu irmão o que estava fazendo no meu quarto, no meio da noite, com
uma óbvia ereção nas calças.”
“Uh, eu sempre soube que você era encrenca.”
“Mas você ama encrencas assim, não é?”
Olhei nos olhos dela, pronto para dizer que eu amava tudo nela, que
amava ela. Mas algo me impediu de dizer as palavras.
“Sim,” eu disse, um pouco decepcionado comigo mesmo. Por que não
podia contar o que sentia por ela? Estava com vergonha dos meus
sentimentos por ela? Definitivamente, não. Então o que inferno estava me
impedindo?
Eu recebi a resposta dessa pergunta muito depois, quando era tarde
demais para dizer em voz alta…
Minhas mãos deslizaram pelos seus lados e então por baixo da saia do
seu vestido. Quando meus dedos tocaram na seda das suas calcinhas, minha
voz interna começou a gritar de novo.
Errado, errado, movimento errado…
E de novo, eu ignorei.
Eu puxei o pedaço de seda para o lado e avistei seu clitóris,
pressionando meu dedão contra ele.
Se apoiando nos cotovelos, Crystal pegou meu lábio inferior com os
dentes e mordeu suavemente. Minha mente explodiu, caralho…
Ela era uma provocadora, um brinquedo que eu, com certeza, nunca
me cansaria de brincar. Só que este jogo não era tão inocente quanto aqueles
que brincávamos quando crianças. Este jogo era perigoso e tão tentador. Ela
me empurrou longe demais; mal podia esperar para dar tudo de mim.
CAPÍTULO OITO
Crystal
Liam deixou seu peso cair sobre mim, mostrando-me o quanto ele me
queria. Eu sabia, mesmo sem a óbvia evidência. Eu podia ver nos seus olhos
e sentir em cada beijo que ele me dava. A tensão no meu corpo chegou ao
ponto em que eu não podia mais me controlar. Eu estava cansada de controle,
cansada de esperar. Deixei meus dedos dançarem pelas suas costas; seus
músculos começaram a tensionar sobre meu toque. Ele agarrou a bainha da
minha calcinha e a empurrou para baixo, apenas para dar mais espaço aos
seus dedos exploradores.
“Você está tão molhada aqui embaixo,” ele sussurrou nos meus
dedos. “Não consigo pensar em mais nada além de te fazer minha.”
Deus, suas palavras eram uma tortura, deliciosa e intoxicante.
Meu desejo por ele era forte, quase doloroso. Crescia e me queimava
por dentro, fazendo difícil pensar. Eu não queria pensar. Tudo que queria era
viver o aqui e agora, com ele.
Por algum tempo, ficamos assim, copiando o toque um do outro,
lábios testando lábios. Ele continuou a explorar meu corpo, com a boca
seguindo cada pequeno movimento que suas mãos faziam, tocando-me em
todos os lugares que conseguia alcançar, com meu vestido ainda cobrindo
uma parte de mim. Cada respirada estava cheia de desejo. Mas quanto mais
longe íamos nas nossas preliminares, mais forte eu podia sentir que algo o
estava incomodando, impedindo-o de se libertar pela noite.
“Qual o problema?” perguntei, observando uma cachoeira de emoções
caindo nos seus lindos olhos.
“Tudo,” ele disse em uma voz quase inaudível. “Não é como deveria
ser.”
“Do que você está falando?”
Tentei entender se as dúvidas dele eram causadas pela quantidade de
bebida que ele e Stan tiveram durante a festa. Ele estava pensando demais,
sentia isso.
“Você merece muto mais do que isso…”
Eu ainda não entendia.
“É sua primeira vez e eu quero que seja especial para você, para nós
dois.”
“Então faça com que seja,” eu disse, um pouco irritada. Era como se
eu o sentisse mudando de ideia.
“Eu vou, mas não hoje.”
“O que há de errado com hoje?”
“Eu estou errado. Este lugar está errado. E… Eu não tenho direito de
tirar sua inocência, saber que você pode não estar preparada para que
aconteça hoje.”
Agora isso era novidade para mim.
“Você não me quer mais?”
Ele bufou, como se eu tivesse dito a coisa mais estúpida do mundo.
“Você sabe que quero.”
“Então o que está te impedindo?”
“Você, Crystal. Você está me impedindo de ter o que eu tanto quero,
porque sei o quanto essa noite significa para você. Não quero que você se
arrenda das coisas de manhã.”
“Quem disse que vou me arrepender?”
“Eu sei que vai… Fazer dezoito anos não significa que você está
pronta.”
Eu o observei por um longo minuto, talvez mais. Não sei. Acho que
perdi noção do tempo quando ele disse que eu não estava pronta… Me senti
tão pequena. E humilhada como nunca.
“Saia,” eu disse, me sentindo a ponto de me desfazer em lágrimas. Eu
não queria vê-lo, nunca mais. Não importa o quanto eu quisesse ficar com
ele, ser dele.
“Crystal, por favor…”
“Fora!” eu repeti, puxando o topo do meu vestido para cima, para me
cobrir.
Lentamente, ele levantou da cama, colocou a camisa e saiu pela porta,
sem dizer uma palavra. Logo antes de sair, ele virou e me olhou mais uma
vez, mas minha mente não estava mais pensando direito para decifrar o
significado daquele olhar. Estava envergonhada demais para pedir que ele
ficasse e apenas dormisse na cama comigo, e então conversar de manhã e
talvez fazer planos para outra noite juntos.
Eu o deixei ir e fechei os olhos, me odiando por ser fraca demais para
resistir a ele, por deixá-lo ficar tão perto de mim, por mostrar a ele que ele
significava algo para mim, por deixá-lo fazer coisas que eu nunca deixara
outro fazer, por deixá-lo ter acesso total ao meu corpo e à minha alma que eu
já sabia que o odiaria enquanto vivesse.
Não me lembro de sair de casa. Tudo que sabia era que precisava
respirar ar fresco, esfriar a cabeça e talvez tomar algumas bebidas de verdade
que não eram coca ou suco. Tentei lembrar o nome do bar que sabia que
meus colegas de sala iam de vez em quando – o lugar que vendia bebida para
todos que entravam, não importava a idade.
Peguei um táxi e dei o nome do maldito bar. Em menos de quinze
minutos, eu estava lá, cercada de uma multidão de garotos e garotas que
também pareciam altos demais para acreditar que álcool era a coisa mais forte
na corrente sanguínea deles.
Tremi dos pés à cabeça, incerta se era por causa dos arredores que me
matava de medo ou porque eu estava quebrada demais para me importar.
Passei pela porta vermelha que parecia uma entrada para o inferno. E
para ser honesta, do lado de dentro o lugar parecia mesmo o inferno. O cheiro
de cigarro atingiu minhas narinas, fumaça queimando meus olhos. Algo
dentro de mim me dizia para sair do maldito bar, assim que possível, e nunca
mais voltar. Mas ignorei minha voz interna e continuei me espremendo pela
multidão, até onde ficava o bar.
Senti em um dos bancos e acenei para o barman tomar meu pedido.
Uma garota à direita chorava. O rímel escorria pelas suas bochechas em feias
linhas pretas. Ela virou para me olhar e vi o reflexo da minha própria dor em
seus olhos.
“Caras são uns babacas,” ela murmurou entre os soluços. E então
engoliu outra bebida e pulou do banco, caindo de bunda.
“Você está bem?” perguntei, esperando que ela não tivesse quebrado
nada.
“Nunca estive melhor,” ela arrastou. Eu a ajudei a ficar de pé e ela
saiu do bar.
“O que posso te servir, boneca?” O barman perguntou.
Me virei e pedi uma dose de tequila. E então, outra e outra…
Tentar afogar minha tristeza em doses não era a melhor forma de
comemorar meu aniversário, mas eu não me importava. Cheguei ao ponto em
que cada dose fazia eu me sentir mais alta e me importando menos. Pessoas e
vozes ao meu redor se fundiam em uma ilusão embaçada. Não conseguia
distinguir um único rosto. Elas mudavam diante dos meus olhos, como se eu
estivesse em uma casa de horrores, indo de um espelho falso ao outro.
“Ei, fofa, quer dançar?” Alguém perguntou atrás de mim.
Me virei, lembrando da minha dança fracassada com o cara dos meus
sonhos e sorri. “Quero.”
Ele me ajudou a descer do banco; senti minhas pernas bambas, como
se o chão começasse a se mexer embaixo dos meus pés. Era estranho e
errado, mas como eu disse – não me importava.
O cara de cabelos escuros e eu fomos para a pista de dança, cheia de
casais suados, se pegando e rindo incontrolavelmente. Fiquei um pouco com
inveja pelo quanto pareciam felizes, não importa o quanto esse lugar e as
pessoas ao redor fossem ruins.
O estranho passou os braços ao meu redor, deixando-os subir e descer
pelas minhas costas e, então, até minha bunda.
“Você tem cheiro de Céu,” ele disse no meu ouvido.
Seus lábios molhados começaram a trilhar beijos desleixados pelo
meu pescoço. Nossos movimentos eram descompassados, mas continuamos
dançando, altos demais para prestar atenção no ritmo da música.
Nunca me considerei uma pessoa descuidada e imprudente, mas esta
noite o perigo me atraía. Eu sabia que me arrependeria assim que
amanhecesse, mas naquele momento, eu queria que o cheiro do absurdo
acontecendo ao redor me levasse para longe.
Minhas mãos agarraram os ombros do cara, procurando o muito
necessitado apoio, ambos físico e emocional. Em troca, seus braços se
apertaram ao meu redor, prendendo-me em um círculo firme de músculos.
Minha cabeça descansou no seu peito. Fechei os olhos e meus pensamentos
foram para a imagem do cara que eu queria comigo agora. Por um segundo,
imaginei que o estranho era ele. Mas seria apenas bom demais para ser
verdade. Meu mundo entrou em colapso, e com ele, meu desejo de sentir
coisas.
Eu queria morrer.
Com esforço, abri os olhos e olhei para o casal dançando por perto. O
cara tinha um cigarro na mão e a outra mão estava ao redor da cintura da
garota. Ele deu uma tragada e deixou a fumaça flutuar para fora da sua boca,
revirando de uma forma artística e formando círculos que sumiram no ar,
iluminados pela luz azul do bar. A garota virou a cabeça para a direita e olhou
para meu parceiro de dança. Reconhecimento passou pelo seu rosto. Ela
rapidamente se virou e disse algo no ouvido do namorado. Ele nos olhos
pensativamente, mas não disse nada.
Não sei quantas danças tivemos. Assim como não me lembro de sair
para a rua e me esconder em um beco escuro atrás do bar, com meu parceiro
de dança do inferno esmagando os lábios exigentes contra os meus.
Nos beijamos como se não houvesse amanhã. Fiquei surpresa em
saber que suas habilidades de beijo melhoraram surpreendentemente quando
saímos. Seus movimentos não eram tão incontroláveis quanto na pista de
dança, o cara sabia exatamente o que estava fazendo; isso devia ter servido de
aviso para mim. Mas de novo, ignorei minha voz interna, fora de mim demais
para impedir que suas mãos deslizassem por baixo do meu suéter e subissem
até meu sutiã.
Não senti excitação, ou qualquer coisa que me lembrasse das coisas
que senti quando Liam me tocou nos mesmos lugares. Era como se todos os
meus sentidos estivessem desligados. Percebi que isso não ia acabar bem e
eu, com certeza, me sentiria uma droga de manhã. Mas minha mente confusa
e meu coração partido eram incapazes de controlar a situação que estava
ficando muito errada, rápido demais.
O cara cujo nome eu nem sabia, e para ser honesta, não queria saber,
puxou o zíper dos meus jeans e enfiou uma mão na minha calcinha.
“Droga, quero entrar em você, boneca. Você é gostosa pra caralho.”
Esse foi outro momento em que eu deveria ter dito para ele cair fora,
mas eu não disse.
Em vez disso, puxei seus lábios de volta aos meus, e o beijei
profundamente. Mesmo através dos meus olhos nublados pela tristeza e pela
tequila, eu podia ver que o cara era bonito e bem construído. Podia sentir seus
bíceps apertarem sob a camisa. Isso fazia eu me sentir ainda mais fraca contra
ele.
Ele me virou e, com uma mão, prendeu minhas mãos na parede na
minha frente. Sua outra mão desceu pelo meu lado até o cós do meu jeans.
Seus lábios chuparam meu pescoço. Ele empurrou minha calça jeans para
baixo, deixando-a pendurada embaixo da minha bunda. Sua mão deslizou por
baixo do tecido da minha calcinha e, em seguida, senti um dedo empurrando
para dentro de mim, asperamente.
Choraminguei de dor. Não era forte demais, mas fez eu me sentir
desconfortável.
“Shh… Não vou te machucar,” ele disse no meu ouvido. “Quero fazer
você se sentir bem. Quer se sentir bem?”
Sentir bem? Eu duvidava que ele nem ninguém nesse planeta pudesse
fazer eu me sentir bem. Mas eu disse: “Sim. Faça eu me sentir bem.”
Minha voz interna começou a gritar de novo: “Corra, corra, corra!”
Eu devia ter ouvido…
“Que partido,” alguém de repente disse na escuridão, quebrando
nosso jogo quente e pesado. Era uma voz masculina, mas eu não vi o dono.
“Não é sempre que vemos princesas assim por aqui,” disse outra voz
que eu sabia que não pertencia ao cara parado atrás de mim.
Engoli em seco.
“Parece que vamos nos divertir muito hoje. Certo, baby?”
Só agora tive a chance de ver o rosto de um dos caras conversando na
escuridão do beco. Ele se aproximou e tocou meu queixo com a ponta dos
dedos. Sem aviso, seus lábios se chocaram contra os meus.
Eu virei o rosto para longe dele e cuspi, muito enojada com o terrível
sabor de cigarro nos seus lábios.
“Me deixe ir”, eu disse para o cara de cabelos escuros que ainda
segurava minhas mãos presas na parede de tijolos.
“Mais tarde”, ele respondeu com uma ironia evidente na sua voz. Meu
coração começou a bater mais rápido. Só agora eu comecei a perceber o que
estava acontecendo e não sabia o que fazer.
Outro cara saiu da escuridão. Ele era o mais alto dos três. Ele chegou
mais perto e tomou o lugar do meu parceiro de dança atrás de mim,
envolvendo um braço ao meu redor, enquanto outra mão desceu até minha
calcinha.
“Boa renda,” ele sussurrou. Os outros dois caras riram.
Engoli em seco, sentindo que estava presa e sem forma de fugir.
Lágrimas encheram meus olhos.
“Por favor,” eu disse, silenciosamente. “Me deixem ir.”
“Eu vou te fazer um favor, boneca, isso é certo. Todos nós vamos.”
Ele me virou e vi uma cicatriz feia correndo da sua têmpora direita até
seu pescoço.
“Você vai ser uma boa menina, não vai?” Ele perguntou com uma
fome selvagem obscurecendo seus olhos.
“Me deixe ir,” repeti, assustada demais para fazer minha voz soar
mais alta.
“Você não conhece a história da Chapeuzinho Vermelho? Os lobos
amam brincar com garotas como você. Você nunca deveria ir à floresta
sozinha. Mas para nossa sorte, você escolheu dar aos lobos o que eles
queriam.”
Deus, me ajude. Por favor, me ajude…
Lágrimas rolaram pelas minhas bochechas. Eu sabia que quanto mais
lutasse e gritasse, pior as coisas ficariam.
“O que você quer?” Fiz a pergunta que eu já sabia a resposta.
“Fazer você se sentir bem,” repetiu o cara com quem fui ao beco.
“Não é o que você quer também?”
Ele ficou atrás de mim de novo, me capturando entre seu corpo e o
cara com cicatriz.
“Vou pagar o quanto você quiser, apenas me deixe ir,” eu disse,
usando a única desculpa que pensei no momento para me salvar do que sentia
que seria o pior dos meus pesadelos se realizando.
Surpreendentemente, o álcool no meu sangue começou a dissipar,
trazendo de volta meus sentidos, um por um, justo quando eu menos queria
sentir o que quer que fosse acontecer.
Como pude ser tão estúpida? Como pude deixar minha raiva me levar
ao maldito bar e, então, me fazer concordar com uma dança que estava
prestes a tornar minha vida um inferno?
O que eles dizem sobre a estupidez da juventude? Bem, agora eu
sabia exatamente o quão estúpido um coração jovem podia ser, porque o meu
era o mais estúpido de todos.
“Vamos para outro lugar”, disse o cara assustado. “Alguém pode nos
ouvir aqui.”
“Não!” Eu protestei.
Mas claro que ele não escutou. Ele me levantou e me levou para a
escuridão.
Eu gritei.
Ele me abaixou e a próxima coisa que eu senti foi seu punho batendo
no meu maxilar, com força. Eu me senti tonta, vi estrelas.
Ele me levantou de novo e caminhou para mais dentro do beco.
Quando ele parou, os outros dois caras o ajudaram a me abaixar.
Alguém começou a puxar meu jeans. Eu quis protestar, mas todo o
meu rosto estava em chamas. Eu não conseguia mexer a boca. A tontura não
me deixava ir. Eu sentia que o papelão, ou onde quer que eu estivesse
deitada, estava se mexendo embaixo de mim.
Eu precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa para impedir o que
estava acontecendo, antes que fosse tarde demais.
Abri os olhos e vi o rosto do cara pairando sobre mim. Foi a primeira
vez que o vi tão perto, era aquele que cheirava a cinzeiro. O assustado e o que
eu dancei estavam de pé à minha direita, desfazendo as calças.
O som da minha calcinha rasgando fez o meu medo atingir o pico.
Aqui está – o fim da dança…
Os lábios do cara capturaram minha boca. Sua língua deslizou por
entre meus lábios de forma possessiva.
Comecei a tremer.
Com as mãos, ele tirou meu suéter; um dos outros dois bastardos se
certificou de que eu não o chutasse enquanto ele fazia isso; segurou minhas
pernas para que ficassem paradas.
Somente quando meu suéter se foi e o cara que o tirou tentou alcançar
o cós da calça jeans para tirá-las, foi notei algo pendurado em uma corrente
presa ao bolso dos jeans.
Uma faca…
Sua lâmina prateada brilhava à luz de uma lâmpada meio quebrada.
“Me beije de novo”, eu disse, pensando rapidamente em como eu
poderia usar a faca para me proteger.
Ele sorriu, um pouco surpreso ao ouvir minhas palavras.
Os outros caras comemoraram meu pedido.
Ele parou de se despir e se abaixou novamente para me dar outro
beijo molhado. Deixei que ele se perdesse, fingindo que estava gostando
tanto quanto ele. E então, fiz a única coisa que eu podia fazer naquele
momento…
Lentamente, estendi a mão entre nós e passei os dedos ao redor da
faca. Fechando os olhos com força, eu rezei… E então, cortei meu peito o
mais forte que pude.
Só quando chorei de dor, o idiota percebeu que algo estava errado.
Ele se levantou e os outros dois filhos da puta xingaram em voz alta.
“Puta do caralho!” Um deles disse, rapidamente colocando o jeans de
volta.
“Vamos sair daqui. Agora!” O cara com quem dancei disse.
Aquele cuja arma pôs fim à sua “diversão” me lançou um olhar
assassino. E então os três dispararam e correram pelo beco, de volta para
onde eu podia ouvir as vozes dos frequentadores do bar.
Me apoiando em um cotovelo, olhei para o meu peito sangrando.
Havia muito sangue…
Eu sentia que estava prestes a desmaiar, mas não podia desmaiar sem
fazer uma ligação antes.
Apertando os dentes, alcancei meu jeans jogado por perto, peguei
meu telefone e liguei para a única pessoa que podia ajudar agora.
“Stan, preciso de você”, eu disse no aparelho.
“Crystal?” Ele respondeu com uma voz sonolenta. “O que aconteceu?
Que horas são?”
“Pegue seu kit médico e venha para o endereço que vou te dar.”
“O que diabos está acontecendo?”
“Não tenho tempo para explicar, apenas faça o que eu disse.
Depressa!” Terminei a ligação, fraca demais para continuar a conversa.
A ferida ainda sangrava muito, mas eu precisava me vestir antes que
meu irmão chegasse. Com lágrimas rolando pelo rosto, coloquei meu jeans e
meu suéter de volta e esperei, esperei e esperei um pouco mais.
Eu não sei quanto tempo passou antes de ver as luzes do carro de
Stanley iluminando o beco. Ele desligou o motor, saiu do carro e correu até
mim.
“Ah, meu Deus… Crys… Quem fez isso com você?”
Ele gentilmente tocou meu lábio inchado.
“Meu peito”, eu sussurrei, mal respirando.
Eu senti que ia adormecer, cansada demais para manter meu corpo e
minha mente acordados. Mais tarde, percebi que fora a perda de sangue que
me deixara tão cansada.
“O quê?” Seus olhos viajaram pelo meu corpo até onde minha mão
cobria o ferimento sangrando. Ele removeu minha mão e arfou. Medo e
choque se misturavam nos seus olhos.
“Não conte para ninguém”, eu disse, assustada demais ao imaginar
meus pais sabendo o que aconteceu no beco.
“Precisamos te levar ao hospital.”
“Não!”
“Mas você perdeu muito sangue!”
“Desinfecte a ferida e me leve para a casa do lago.”
“Isso é loucura… Um médico precisa examinar o ferimento!”
“Você é um médico. Lembra?”
Amaldiçoando, ele me levantou do papelão que eu estava deitada e se
apressou até o carro.
“Vai ficar tudo bem, mana.” Cuidadosamente, ele me colocou no
banco de trás, pegou seu kit de primeiros socorros do banco do passageiro,
abriu e tirou uma pequena garrafa de plástico. E então ele derramou um
pouco de líquido na minha ferida.
Eu chorei.
“Tenha paciência, preciso desinfectar a ferida.” Ele pegou outra
garrafa e derrubou o conteúdo em uma bola de algodão, aplicando
cuidadosamente ao redor da ferida. “Vai me contar o que aconteceu?”
“Depois.” Engoli outro impulso de chorar. A ferida começou a arder.
“Foi algo que deveria ser comunicado à polícia?”
“Não.”
Stan grunhiu pela minha resposta curta.
“Você não está cooperando, mana.”
“Apenas faça seu trabalho, Stanley. Conversamos mais tarde.”
Mas nunca conversamos. Por causa de todas as coisas estúpidas eu
nunca tive que confessar, terminar meu aniversário em um inferno de lugar e
quase ser estuprada era a última coisa no mundo sobre a qual eu queria falar,
ou lembrar de forma alguma. Eu cometi um erro e seria a única a pagar por
ele.
Capítulo nove
Liam
Momento presente
Eu estava puto da vida. Não sabia porquê ver Crystal com outro cara
ainda me perturbava, mas o fato permanecia. Ela estava bem feliz em ver o
encontro – Trevor Armstrong – o último cara no mundo com quem eu
esperara vê-la saindo.
Eu conhecia a história deles, todo mundo conhecia, e, por mais
lamentável que pareça – eu nunca parei de cuidar dela. Tentei parar de
espioná-la, tentei não pensar nela e até faltei alguns eventos da família deles
que eu nunca faltara antes da noite que arruinou tudo. Eu arruinei tudo. Eu
sabia que provavelmente deveria ter falado com Stan e contado a ele sobre
meus sentimentos pela sua irmã, mas por alguma razão doentia preferi agir
como um covarde e tive o que mereci no final. Ela me odiava e não havia
nada que eu pudesse fazer para mudar isso.
Mas havia uma coisa que não me deixava. Sua cicatriz.
Esta foi a segunda vez que eu vi e eu simplesmente não conseguia
parar de pensar nisso. A coisa parecia terrível. Sem dúvida, o corte foi
profundo. Pelo que pude ver, os pontos foram feitos com pressa e eu me
perguntava o porquê tendo um cirurgião plástico muito talentoso como irmão,
ela nunca tentara consertá-la.
Eu não sabia onde eu estava indo até o momento em que toquei a
campainha da casa de Stanley. Ele e Crystal moravam com os pais, e
considerando a hora tardia, esperava que minha visita não acordasse a casa
inteira.
“Liam?” Stan abriu a porta e franziu a testa. “O que aconteceu? Você
está bem?” Ele olhou para a rua com cautela.
“Posso entrar? Nós precisamos conversar.”
“Claro.” Ele me lançou um olhar perplexo. “Posso te oferecer uma
bebida?”
“Nada muito forte.”
“Café então?”
Eu concordei com a cabeça e segui Stanley até a cozinha.
“Então, o que te trouxe aqui essa noite?”
Sentei em uma das cadeiras à mesa e suspirei. “Na verdade, eu queria
te perguntar uma coisa.”
“Continue.”
“Como Crystal conseguiu a cicatriz no peito?”
A xícara que Stan segurava nas mãos começou a tremer. Ele engoliu
em seco e colocou no balcão da cozinha. Ele respirou fundo e disse:
“Aconteceu há muito tempo. Por quê?”
“Eu vi a cicatriz acidentalmente. Mas não lembro dela ter se
machucado. Só isso. Mas… A coisa parece muito ruim. Ela já pediu pra você
ou qualquer outro médico consertar?”
Stan passou a mão pelos cabelos e sentou em uma cadeira ao lado da
minha. Com os olhos grudados nas mãos, ele disse: “Você não lembra dela
ter se machucado, porque eu sou a única pessoa que sabe o que aconteceu
naquela noite…”
“Que noite?”
Stan balançou a cabeça, como se ele não pudesse decidir se ele tinha o
direito de me dizer mais ou não. Mas algo estava me dizendo que eu não ia
gostar do que quer que fosse que ele parecia não ter coragem de me dizer.
Finalmente, ele disse: “Aconteceu na noite do aniversário dela de
dezoito anos.”
Meu coração pulou uma batida.
“Pensei que ela tivesse ido para o quarto dela… Ela não me disse que
queria sair…” Ele se levantou e andou até um dos armários, pegou uma
garrafa de uísque e despejou um pouco em um copo. Depois que tomou um
gole, ele prosseguiu: “Ela me ligou mais tarde naquela noite e disse para eu
levar meu kit médico no endereço que ela me enviou. Ela não explicou
nada… Mas quando cheguei lá, vi o pior dos meus pesadelos se
concretizando bem diante dos meus olhos.” Stan engoliu o resto da bebida e
serviu outro copo.
“Acho que preciso de um também, afinal”, eu disse, apontando para a
garrafa.
Ele assentiu e fez uma bebida para mim também.
“O que aconteceu com ela?”
Stan sorriu sem graça. “Eu gostaria de saber.”
Eu fiz uma careta. “O que você quer dizer? Ela não te contou nada?”
“Ela disse que me contaria tudo depois. Mas isso nunca aconteceu.”
Ele olhou para mim com os olhos cheios de lágrimas. Foi a primeira vez que
vi meu amigo prestes a chorar. “Eu tenho meus palpites, mas ela nunca
confirmou ou negou qualquer nenhum deles.”
“Você acha que ela tenha sido…” Deus, eu não poderia nem começar
a imaginar dizer em voz alta o que eu estava pensando.
Mas Stanley não precisou que eu terminasse a frase. Ele sabia o que
eu estava pensando.
“Havia alguns hematomas nas suas mãos e pernas e um na bochecha
também.”
Meus dedos se apertaram ao redor do copo de vidro. Por um segundo,
pensei que a coisa iria quebrar.
“O que aconteceu depois que você a encontrou?” Eu perguntei.
Agitando a bebida em seu copo, Stan disse: “Eu a ajudei o máximo
que pude, considerando que o conteúdo do meu kit médico não chegava nem
perto do suficiente para operar a ferida.”
“Por que você não a levou para o hospital?”
“Ela não queria que ninguém soubesse o que tinha acontecido. Ela
sabia que ir ao hospital imediatamente faria com que polícia a se envolvesse.
Os médicos nunca deixam coisas assim sem notificação.”
“Então o que você fez?”
“Desinfetei a ferida e a costurei. A única agulha que eu tinha no meu
estojo médico era muito grossa, mas não tive escolha.” Stan colocou o copo
sobre a mesa e escondeu o rosto nas mãos.
Deixei escapar um longo suspiro, tentando juntar tudo o que ele havia
me dito. Eu fui a última pessoa que a viu em casa. A que horas ela foi
embora? Onde ela foi? Por que ela decidiu sair?
“Nós nunca conversamos sobre aquela noite”, disse Stanley. “Ela me
pediu para levá-la para a casa do lago e dizer aos nossos pais que ela ficaria lá
mais uma semana. Eu fiz o que ela disse, mas eu nunca parei de me culpar
por não levá-la ao hospital, por ouvi-la e deixar os bastardos responsáveis
pelo que aconteceu com ela impunes.” Raiva preenchia cada palavra de Stan.
Eu não podia culpá-lo, porque se eu fosse ele, me sentiria da mesma maneira.
“Então nem ela nem você contou a seus pais sobre aquela noite?”
Ele balançou a cabeça negativamente.
“Mas a cicatriz é enorme. Algum deles já viu?”
“A partir daquele ano, Crystal nunca mais saiu de férias conosco. Ela
ia sozinha ou ficava em casa. Ela nunca usava nada que mostrasse a cicatriz.
Ela jogou fora todos os seus biquínis e disse que não queria que eu nem
qualquer outra pessoa operasse a cicatriz, porque era sua punição por ser
imprudente e estúpida. Eu nunca tentei convencê-la. Mas eu sei que ela ainda
vive com essa dor. Ela odeia seus aniversários e nunca convida ninguém fora
nossa família e Liz para comemorar com ela. E não importa quantas vezes eu
quisesse conversar com ela sobre a noite que aconteceu seis anos atrás, nunca
me atrevi a fazer essas perguntas. Você acha que eu estou fazendo a coisa
certa, ficando de boca fechada?” Ele virou para olhar para mim,
provavelmente buscando apoio, mas, infelizmente, eu era a última pessoa no
mundo com quem discutir os eventos daquela noite.
Porque mesmo sem falar com Crystal, de alguma forma eu sabia que
era o motivo do que tinha acontecido com ela naquela época. Assim como eu
sabia que lhe devia desculpas. Apenas palavras não mudam nada.
“Eu tenho que ir”, eu disse, depois de engolir o resto da bebida.
“Você não vai contar pra ninguém, não é?” Stan perguntou, me vendo
sair da cozinha.
“Não se preocupe com isso.”
Saí da casa com pressa, sentindo-me doente como sempre. Nem
mesmo o ar fresco conseguiria me fazer sentir melhor. E para piorar as
coisas, Crystal e seu companheiro tinham que aparecer do nada.
Eu andei até meu carro, observando o bastardo estacionar na porta da
frente da casa dela. Ele beijou sua bochecha e disse algo que a fez rir. Ela
então saiu do carro e acenou para ele.
“Teve uma boa noite?” Eu não pude retirar minhas palavras, uma vez
que elas voaram para fora da minha boca. Eu estava com tanta raiva que
provavelmente daria um soco no seu companheiro sorridente se ele ousasse
falar comigo.
Ela se virou ao ouvir o som da minha voz e seu rosto se transformou
em um iceberg. “O que você está fazendo aqui?” Ela perguntou com uma voz
fria.
Por um momento, senti vontade de mandar para o inferno todos
aqueles anos que passei tentando me convencer que ela não significava nada
para mim, me aproximar e beijá-la do jeito que eu vinha sonhando há muito
tempo. Mas então eu vi o olhar nos seus olhos e meu plano sonhador se
desfez naquele momento, se partindo em um milhão de pedaços minúsculos,
cada um cheio de agonia.
“Eu precisava falar com seu irmão,” eu disse. “Mas não se preocupe,
estou indo embora.”
“Bom.” Ela me abençoou com outro olhar de ódio e andou até a porta.
“Crystal?” Eu chamei atrás dela.
Ela parou e disse sem se virar: “O quê?”
“Eu sinto muito…” Eu disse, muito incerto de pelo que eu estava me
desculpando, por: não satisfazer suas expectativas, ser uma covarde ou
arruiná-la a um nível além da compreensão. Provavelmente por todas as
alternativas anteriores. Ela virou a cabeça e pela primeira vez em anos, eu a
vi amolecer. Não havia ódio em seus olhos; eles estavam cheios de tristeza e
dor que eu sabia que nunca seria capaz de tirar.
Incapaz de suportar o olhar que ela me deu, entrei no meu carro,
liguei o motor e pisei o acelerador, sentindo-me o maior babaca do mundo.
Mesmo agora, eu agia como um maldito covarde. E, em vez de falar com ela,
eu estava fugindo de novo. Assim como fiz naquela noite, seis anos atrás,
quando pensei que não a merecia. Eu ainda não merecia…
Quando voltei para casa, estava mais bêbado do que nunca. Não
lembrava onde tinha estacionado, nem como cheguei em casa ou qual era
meu sobrenome. A única coisa que eu sabia, com certeza, era que tinha
arruinado a vida de Crystal e ela nunca me perdoaria pelo que fiz.
Eu tinha sido um idiota a deixando se aproximar tanto de mim e
depois a afastando, quando eu sabia que ela estava pronta para fazer qualquer
coisa por mim, até mesmo perder a virgindade comigo, simplesmente porque
ela achava que eu valia a pena. Mas eu não estava. E agora eu sabia mais do
que nunca.
Eu tropecei em algo no chão e caí, batendo no vaso favorito de
Kimmy.
Amaldiçoando, levantei e acendi as luzes.
“Droga,” murmurei, tirando um pedaço de vidro da minha palma.
Sangue começou a gotejar no chão de mármore.
“Liam, é você?” Kimmy chamou do corredor. Alguns momentos
depois, ela andou até a entrada. “Ai meu Deus! Sua mão!” Ela correu até mim
e pegou minha mão sangrando na dela.
“Não é nada,” eu arrastei. “É apenas um pequeno arranhão.”
“Você está bêbado.” Ela concluiu.
“Acho que estou.” Eu dei alguns passos para frente e esbarrei na
parede.
“Droga dupla.” Balancei minha mão ferida; a ferida começou a fazer
cócegas. Eu odiava a maldita sensação. Ser médico não mudava o fato de que
eu odiava me ferir. “Me traga algo para cobrir isso,” eu disse.
“Venha comigo.” Kimmy me ajudou a chegar à cozinha e limpou a
ferida sem dizer uma palavra. Ela provavelmente estava com medo, nunca
tinha me visto assim antes, e nem eu. Não importa quantas vezes já tenha
ficado bêbado, eu nunca me senti tão mal quanto hoje à noite.
“Quer uma xícara de chá?” Ela perguntou cuidadosamente.
“Não, obrigado. Eu quero ir para a cama.” Tudo o que eu queria agora
era morrer, mas ela não precisava saber disso.
Eu sabia que Kimmy não faria perguntas até que eu mesmo contasse
tudo. Ela apenas era educada demais, nunca fazia perguntas desnecessárias,
sempre compreensiva e solidária, e provavelmente a melhor esposa que eu
poderia querer, se não fosse pelo fato de que ela iria se comigo porque foi o
que achamos que seria melhor para o nosso filho. Presumia que ela tinha
sentimentos por mim, mas duvidava que algum dia fosse capaz de sentir
qualquer coisa além de simpatia por ela.
“Vou dormir aqui,” eu disse, entrando na sala de estar. O sofá parecia
o lugar perfeito para curar minha ressaca.
“Eu vou trazer um cobertor para você.” Kimmy me ajudou a tirar os
sapatos e jaqueta.
Me deitei no sofá e meu mundo começou a girar. Mesmo de os olhos
fechados, sentia como se estivesse em um carrossel, girando cada vez mais
rápido a cada segundo que passava. Eu esperava não vomitar.
Desmaiei antes mesmo que Kimmy voltasse para me cobrir com um
cobertor. Pela primeira vez na vida, recebi de bom grado a tontura que eu
sabia que me tiraria da minha realidade, mesmo que meu transe feliz não
durasse para sempre.
A próxima coisa que eu dei conta já era manhã, com os primeiros
raios do sol me acordando e meu celular vibrando em algum lugar próximo.
Com os olhos ainda fechados, tentei encontrar a maldita coisa.
“Alô?” Eu falei no telefone.
“Liam, graças a Deus!” Stanley disse. “Onde diabos você estava? Eu
te liguei a manhã toda!”
“Que horas são?” Eu rolei para ficar de costas e imediatamente senti a
náusea passar por mim. Droga, o dia seguinte seria um inferno.
“Quase meio-dia. Você está bem? Você não parece bem.”
“Eu também não me sinto bem.”
Houve uma pausa do outro lado da linha. “Você esteve bebendo?”
“Bingo!”
Outra pausa se seguiu.
“O que você quer, Stan? Acho que estou prestes a vomitar, então diga,
ou me ligue mais tarde.”
“Hum… Ok, é melhor eu ligar para você mais tarde.”
“Bom.” Eu desliguei o telefone e sentei; minha cabeça zumbiu como
louca.
“Acordou finalmente,” disse Kimmy, entrando na sala. Ela ainda
estava usando pijama e o cabelo estava um pouco bagunçado. “Quer um
pouco de café?”
“Um Bloody Mary seria muito melhor.” Me levantei e xinguei em voz
alta. Aquela última dose foi demais… Ah, inferno, aquelas dez foram demais.
“Aqui,” Kimmy voltou com uma bebida vermelha nas mãos. “Eu
sabia que você precisaria disso de manhã.”
Peguei o copo de suas mãos e o esvaziei. “Eu também preciso de uma
aspirina.”
“Acho que um Bloody Mary não se dá bem com aspirina.”
“Hoje as duas coisas não têm escolha a não ser se tornarem melhores
amigas, caso contrário eu estou ferrado.”
“Não acho que você possa ficar mais ferrado do que já está.” Suas
palavras estavam cheias de julgamento, mas eu não me importei. Me dar uma
lição não era boa ideia; eu nunca fui bom em ouvir lições de moral. Na
maioria dos casos, sentia que não tinha nenhuma.
“Onde estão as chaves do carro?” Eu perguntei, ignorando o olhar que
ela lançou.
“No mesmo lugar em que está seu carro, suponho.”
“E onde é isso exatamente?”
“Poderia te fazer a mesma pergunta.”
“Você não está ajudando, Kim.”
“Eu gostaria de poder te ajudar. Mas eu não sei como. Você voltou
para casa, morto de bêbado; você não explica nada, e mal consegue se
lembrar do seu nome. Então me diga, como vou te ajudar?”
“Me traga roupas limpas, por favor. Vou tomar banho.”
Eu sabia que lhe devia uma explicação, mas eu simplesmente não
sentia vontade de dar uma, não agora, de qualquer maneira.
Eu estava sendo um noivo terrível que também se tornaria pai em
breve? Acho que sim. Mas, diabos, eu não conseguia evitar. Eu não sabia
como construir minha vida, sabendo que tinha arruinado a de alguém.
Tomei um banho rápido; ainda me sentia uma porcaria, mas tinha
uma coisa que eu precisava fazer hoje, e eu ia fazer, não importava o custo.
Eu precisava falar com a Liz. Ela devia saber de alguma coisa, qualquer
coisa, sobre a noite terrível que Stan me contou e eu precisava saber tudo.
Pegando meu telefone, liguei para Liz: “Você pode me encontrar para
almoçar no café em frente ao seu estúdio?”
“Claro… Está tudo bem?”
“Eu vou te dizer mais tarde.”
“OK. Até logo.”
“Você vai almoçar com Elizabeth?” Kimmy estava parada na entrada.
“Sim.”
“Liam, o que está acontecendo?” Ela cruzou os braços, me
observando com intensidade.
“Não posso te contar. É algo pessoal.”
“Pessoal?” Ela deu um sorriso amarelo. “Vamos nos casar, lembra?
Não pode haver nada ‘pessoal’ na nossa família.”
“Mas não estamos casados ainda, certo?”
Os lábios dela começaram a tremer. Xinguei de novo.
“Desculpe, Kim.” Andei até ela e a beijei gentilmente. “Tem sido uns
dias difíceis.”
“Fale comigo. Me diga o que está te incomodando. É pedir muito?”
“Desculpe, baby. Não posso. Não é minha história para contar.”
Forcei um sorriso e ela pareceu relaxar um pouco.
“Quando você vai voltar?”
“Em algumas horas.”
“Tá.”
Eu lhe dei outro beijo curto e saí, esperando que depois de falar com
Liz as coisas melhorassem. Não importa o quanto eu tivesse pouca confiança
nesse pensamento.
Capítulo dez
Crystal
Algo estava errado com o meu dia. Ou talvez fosse só eu e minha
incapacidade em parar de pensar no pedido de desculpas de Liam da noite
anterior. Por que ele estava se desculpando? E por que agora? Se era sobre o
que aconteceu entre nós seis anos atrás, era um pouco tarde demais para
desculpas. Mas ainda assim, suas palavras me pegaram desprevenida. Havia
algo na maneira que foi dito… Eu não consegui definir.
O telefone vibrou na minha mesa, indicando uma nova mensagem
entregue.
“Obrigado por encomendar da nossa sex shop. O item que você pediu
na nossa vitrine não é um Brinquedo Grande e Vermelho, é um extintor de
incêndio. Podemos lhe oferecer outra coisa no lugar?”
Eu comecei a rir. A mensagem era de Trevor.
Eu rapidamente digitei de volta: “Infelizmente, eu só preciso do
Brinquedo Grande e Vermelho. O resto das suas mercadorias já estão
embaixo da minha cama.”
“Oh, ok então… Você também precisa de um bombeiro para ajudá-la
com qualquer que seja o jogo que você tenha nessa sua mente suja?”
“Sim, por favor. Usando uma fita vermelha grande.”
“Notado!”
Eu ri ainda mais e estava prestes a enviar outra mensagem, quando vi
o nome de Trevor piscando na tela.
“Só não me diga que você ficou sem bombeiros,” eu disse, atendendo
a ligação.
“Pelo contrário, tivemos um novo grupo de bombeiros com tesão
entregues esta manhã e estão esperando novos donos.”
“Parece bom. Escolha um que seja o melhor na sua opinião e o envie
para mim.”
“Se você quis dizer o mais excêntrico, então você está falando com
ele agora. Você ainda quer que eu vá embrulhado com uma fita?”
Era meio difícil não imaginar a imagem.
“Definitivamente, faria o meu dia.”
“E atrairia mais clientes para o seu estúdio também.”
“Acho que preciso discutir essa nova estratégia promocional com
minha chefe. Liz pode querer ver os bombeiros primeiro.”
Rindo, Trevor disse: “Que tal uma reunião pessoal com o nosso
representante primeiro?”
“O mais excitado?”
“Isso mesmo.”
“Diga a ele para me pegar depois do trabalho. Verei se o que ele tem a
oferecer satisfaz nossas necessidades.”
“Ah, você ficará surpresa.”
“Vamos ver.”
“Combinado.”
Eu desliguei o telefone, ainda sorrindo como uma idiota. Assim era
Trevor Armstrong – um cara que conseguia transformar cada dia ruim no
melhor dia da sua vida.
“Nossa… Basta olhar para você!” Liz disse, entrando no meu
escritório. “Eu acho que não lembro de nenhuma vez que te vi sorrindo
assim. Não, espera! Na verdade, na quinta série, David Bown, cartão do Dia
dos Namorados com o urso mais ridículo que eu já vi. Você quase teve um
ataque cardíaco quando recebeu o cartão do garoto dos sonhos de todas as
garotas. Que pena, o garoto que entregou o cartão, confundiu seu nome com a
Christa Ames. Depois que ela veio pegar o cartão, você passou a semana
seguinte chorando como se o namorado dela tivesse terminado com você.
Depois de receber a carta mais terrível do mundo, sério, Crys?”
Eu ri. “David era tão fofo e o urso não era tão terrível quanto você
está dizendo.”
“Ele parecia um daqueles brinquedos de um filme de terror. Eu ia
surtar se eu recebesse um cartão assim. Mas hoje, eu acho que não é apenas
por causa de outro urso pardo e um cartão. O que seu ex sexy fez desta vez?”
Ela sentou na cadeira oposta à minha e me observou,
impacientemente tamborilando na mesa com os dedos.
“Ele me enviou uma mensagem engraçada. Algum problema?”
“Não. A menos que esse problema traga mais problemas para sua
vida.”
“Não, ele mudou. Eu te disse, ele não há mais problemas com a lei,
bebidas ou corridas de moto.”
“Uh-huh.” Ela me lançou um olhar duvidoso.
“De qualquer forma, o que você ainda está fazendo aqui? Pensei que
você tinha uma reunião com um repórter.”
“Eu remarquei para mais tarde.”
“Por quê?”
“Eu precisava te perguntar uma coisa primeiro…”
“A julgar pela sua hesitação, não é sobre trabalho nem meu ex sexy.”
Liz sacudiu a cabeça. “É sobre algo pessoal.”
“Ok… Apenas fale.”
“O que aconteceu na noite dos seus dezoito anos?”
Senti como se tivesse sido esfaqueada no coração.
“Stan te disse alguma coisa?” Minha voz tremeu na última palavra;
minhas palmas começaram a suar.
“Não.”
“Então, como você sabe que algo aconteceu naquela noite?”
“Não importa. Mas o que importa é por que você nunca me contou
nada?”
Eu me levantei e fui até a mesa de café para me servir um pouco de
água. De repente, senti muita sede para dizer uma palavra.
Liz esperou pacientemente que eu respirasse e começasse a falar
novamente.
“O que você sabe?” Eu perguntei com cuidado.
“Não muito, na verdade.”
“O que você quer saber?”
Ela levantou e se aproximou. Silenciosamente, ela perguntou:
“Aqueles caras forçaram você a fazer algo que você não queria?”
Fechei os olhos e as imagens daquela noite horrível começaram a
encher minha mente. O medo e a dor retornaram. Elas não eram mais tão
fortes, mas ainda acabavam com meu humor, independentemente do quanto
eu tentasse empurrar as memórias para longe e para o fundo da minha mente.
“Não,” eu sussurrei. “Mas eles queriam.”
Liz cobriu a boca com as duas mãos e vi lágrimas brilhando em seus
olhos.
Sentei-me em um sofá perto e respirei fundo. “Eles chegaram muito
perto de conseguir o que queriam. E eles conseguiriam, se não fosse pelo
sangue escorrendo da ferida no meu peito.”
Peguei a ponta da minha blusa e a puxei para cima, pela primeira vez,
no que parecia uma eternidade, revelando de bom grado a cicatriz que se
tornou minha maldição por toda a vida.
Ela engasgou e sentou do meu lado. “Um deles fez isso com você?”
“Não… eu fiz isso comigo mesma… Com uma faca eu vi pendurada
no bolso de um dos caras. Se eu o machucasse, seus amigos, sem dúvida,
acabariam comigo no beco.”
“Ah, Crystal…” Ela envolveu ambos os braços ao meu redor e me
abraçou com força.
Senti um súbito alívio em mim. Durante anos, quis contar à Liz sobre
o segredo que me mudou para sempre. Durante anos, eu vinha morrendo de
vontade de gritar sobre a dor que ainda enchia meu coração. Durante anos, eu
quis que alguém tirasse minha dor.
“Se não foi Stan, então quem te contou?”
A julgar pelo olhar nos olhos de Liz, suas palavras estavam prestes a
me chocar, e elas o fizeram.
“Liam contou.”
“O que?”
“Ele perguntou ao Stanley sobre sua cicatriz e seu irmão contou o que
sabia.”
“Eu vou matar o Stan…”
“Não diga nada a ele, Crys. Você não entende? Se ele era a única
pessoa que sabia da verdade, você não acha que ele precisava falar disso em
algum momento?”
“Mas não para o Liam!”
“Por quê? Você o culpa pelo que aconteceu com você? E antes que
você pergunte – sim, Liam também me contou sobre o que aconteceu entre
vocês dois.”
“Por que ele viria falar com você?”
“Porque ele queria saber toda a verdade. Não só o que Stan sabia.”
Lágrimas dificultaram minha fala. Ficaram presas na minha garganta
como uma bomba prestes a explodir.
Liz estava certa – eu continuava culpando Liam pelo inferno que se
tornara minha vida. Mas mais do que isso – eu me culpava.
Eu me inclinei contra o encosto do sofá e deixei as lágrimas fluírem.
“Só havia uma pessoa que sabia de tudo. E era Trevor. Ele me ajudou a sair
da confusão em que me transformei. Ele me tirou de uma merda que eu
pensei que nunca conseguiria de sair sozinha.”
“Por que Trevor? Por que você não veio falar comigo, Crys?”
“Sua mãe estava doente e você tinha muitos problemas para resolver.
Eu não queria adicionar outro a essa lista.”
“Mas você entende que os bastardos merecem ser punidos, mesmo
que não tenham conseguido o que queriam.”
“Eu não quero vê-los, nunca mais. Deixe-os viver suas vidas.”
“E se eles tiveram conseguido o que você não deu a eles de outra
pessoa?”
Eu engoli em seco. Eu pensei nisso muitas vezes. Eles agiam como se
soubessem exatamente o que estavam fazendo: um pegava um peixe, o resto
– aproveitava.
“Mamãe teria um ataque cardíaco se a polícia viesse me interrogar.
Todos começariam a sentir pena de mim. Eu não queria isso.”
“Por isso que você afastou Liam de você? Porque você estava com
medo de que ele nunca mais quisesse ficar com você novamente, porque você
não era mais tão perfeita?”
Eu limpei as lágrimas e olhei para Liz. “Ele nunca quis ficar comigo
de verdade. Porque se o quisesse, não deixaria seu medo de contar a Stanley
sobre nós arruinar tudo.”
“E se não fosse apenas sobre Stan? E se ele simplesmente quisesse
fazer isso de uma maneira diferente?”
Eu ri. “Eu não posso acreditar que você está do lado dele.”
“Eu não estou tomando o lado de ninguém. Estou apenas tentando
adicionar um pouco de bom senso ao que aconteceu entre vocês dois.”
“Bom comum e Liam nunca foram amigos.”
“Pense nisso, Crystal – se ele ainda se importa com você, não acha
que ele merece uma chance de falar com você, sem acusações ou ódio da sua
parte? Apenas sentar e conversar, como adultos.”
“Nós sempre somos péssimos em conversar.”
“É provavelmente porque você nunca tentou. Quem sabe, talvez você
até goste.”
Eu ri. “Eu duvido.”
“De qualquer forma, você me promete uma coisa?”
“Não. Porque eu sei o que você quer que eu prometa.”
“Não sabe, não.” Liz sorriu. “Eu não estou forçando você a falar com
ele. Eu quero que você fale consigo mesma. Talvez a Crystal que eu conheci
há seis anos tenha algo muito importante para contar à nova Crystal.”
“Ugh, você sabe o quanto eu ‘amo’ sua porcaria filosófica, certo?”
Ela riu. “É exatamente por isso que eu queria que você me fizesse
uma promessa. Você terá muito tempo para conversar com seu antigo eu
durante suas férias.”
“OK. Tá bom. Eu vou falar comigo mesma. Feliz agora?”
“Quase.”
Eu revirei os olhos. “O que mais você quer que eu faça?”
“Me conta o que Trevor escreveu na mensagem para fazer você
sorrir?”
Eu ri ao lembrar da nossa troca de mensagens. “Desculpa, querida. É
muito pessoal.”
Seus olhos cresceram para ficar do tamanho da lua, cada um. “Só não
me diga que você estava flertando com ele…”
“O que? Eu? Flertando com Trevor? Nunca!”
Eu sabia que Liz tinha mudado de assunto para me distrair. Ela me
conhecia muito bem para acreditar que uma simples pergunta sobre meu ex
me faria esquecer nossa conversa anterior. Eu estava grata por sua paciência e
compreensão. Ela sempre esteve lá para mim, e desta vez não foi uma
exceção. Ela ouvia meus resmungos adolescentes sobre outro encontro
fracassado, enxugava minhas lágrimas e o nariz escorrendo; depois me trazia
outra Margarita quando crescermos, depois esperava que eu me curasse e me
arrastava para outra festa para rir e dançar, e então, me deixe desmaiar no
sofá da sala dela. Eu queria que tudo fosse simples assim de novo.
“Ok, melhor eu me preparar para a entrevista,” disse Liz, andando até
a porta.
“Liz?” Eu chamei. “Obrigada por tudo.”
“Você é sempre bem-vinda, boneca.” Ela começou a abrir a porta,
depois parou e olhou para mim novamente. “Mais uma coisa – seja uma boa
menina esta noite, ok?”
“Do que você está falando?”
“Sair com Trevor, de novo, relembrar os velhos tempos, compartilhar
bebidas, dançar, flertar, você sabe…?”
“Entendi onde você quer chegar. E posso garantir que não vai
acontecer nada entre nós.”
“Isso é o que você me disse antes de vender sua preciosa virgindade à
sensualidade dele.”
“Ah, cala boca! Valeu a pena. Ele era muito bom de cama.”
“Poupe-me dos detalhes e lembre-se das minhas palavras – bom senso
e bom comportamento.”
“Sim, mamãe!”
Nenhum bom senso ou bom comportamento estava na mesa naquela
noite. Trevor e eu bebemos muito, dançamos muito e rimos como se não
houvesse amanhã, e me senti tão bem e tão fácil.
Tudo o que fazíamos parecia tão natural. E novamente, eu me peguei
pensando – por que não me apaixonava por ele…
“Por que essa cara azeda?” Ele perguntou, trazendo mais duas bebidas
para a nossa mesa. Estávamos sentados em um daqueles cafés de salsa de rua
onde as pessoas vêm dançar e relaxar. A maioria deles eram estranhos, mas
ainda desfrutavam de momentos juntos e nada parecia incomodá-los.
Eu olhei para Trevor e talvez fosse apenas a tequila mexendo com a
minha cabeça, mas, de repente, eu quis beijá-lo. Sem pensar duas vezes nesse
súbito desejo, eu o puxei pela camisa e bati meus lábios nos dele.
O espertinho não hesitou nem por um segundo. Ele segurou meu rosto
nas palmas das mãos e respondeu ao meu beijo com a paixão familiar que
enchia cada noite que passamos juntos no passado. Ele jogou este jogo como
um profissional – ambos dominando e me deixando definir o ritmo, como se
ele estivesse usando minha fraqueza contra mim, ao mesmo tempo em que
me fazia sentir querida e amada.
Eu fiquei meio surpresa quando ele terminou o beijo. “Apesar de ser
promissor, acho que não devemos apressar as coisas.”
“De jeito nenhum… Trevor Armstrong me dizendo para não apressar
as coisas?”
“Uh, mulher, você vai ser a minha morte. Você sabe o quanto eu
quero que essas preliminares continuem na cama, mas também sei que
misturar tequila e sexo nunca termina bem.”
“Que pena…” Suspirei. Embora no fundo soubesse que ele estava
certo. Eu me arrependeria de dormir com ele e ele se sentiria culpado por não
me impedir de cometer outro erro.
“Mas…” Ele disse, me observando de perto. “Se você aceitar casar
comigo, esqueça as longas noites com um namorado de silicone embaixo do
cobertor.”
“Como você sabe que eu tenho um?”
“Eu não sei, mas eu sempre quis saber disso – você tem?”
Eu ri. “Você é impossível.”
“Disse a garota que tentou me seduzir com um beijo, apenas alguns
minutos atrás.”
Eu lhe lançou outro olhar de “eu sou uma idiota por não amar você” e
joguei outra dose na minha boca, seguida de sal e um pedaço de limão que
queimou minha língua.
“Ok, hora de encerrar a noite. Liz vai me matar se eu não aparecer no
trabalho amanhã.”
“Nós provavelmente deveríamos pensar em uma maneira mais…
civilizada de passar outro encontro. Que tal ir ao teatro?”
“Hmm… parece interessante. Mas ópera não, por favor. Mas balé dá.”
“Boa.”
Ele pagou pelas bebidas e chamou um táxi para me levar para casa.
“Crystal, é você?” Perguntou a mamãe. Não havia luz na sala de estar,
mas eu conseguir ver a sombra da TV dançando no chão.
“Sim, sou eu!” Eu tirei os sapatos e fui para a sala de estar. “Ei, por
que você ainda está acordada?” O relógio na parede mostrava meia-noite.
“Seu pai não conseguiu dormir e pedi ao Stanley para lhe dar um
remédio para dormir. Mas agora parece que eu também preciso de um. Onde
você esteve, a propósito?”
“Apenas saindo com um velho amigo meu.”
“Ah… foi um encontro?”
“Não. Apenas uma reunião com um amigo.” Não importava o quanto
tivesse parecido um encontro, eu não queria dar um nome ao meu tempo que
passei com o Trevor, não importa quantas vezes ele chamasse nosso encontro
de ‘um encontro’. “Stan ainda está acordado? Eu quero falar com ele.”
“Ele está no escritório do seu pai. Lendo alguns papéis.”
“OK. Vou fazer uma xícara de chocolate quente. Você quer uma?”
“Não, obrigada. É melhor dar outra chance ao sono necessário.”
“Noite, mãe. Eu te amo.”
“Também te amo, querida.” Ela beijou minha testa e saiu.
Fui à cozinha, coloquei um pouco de água na chaleira elétrica e
esperei a água ferver.
Só agora, que estava de volta à segurança da minha casa, percebi que
passar a noite em outro lugar, na cama de Trevor, por exemplo, seria um erro.
Não porque eu duvidasse que sua cama tivesse talentos, mas eu duvidava que
fosse capaz de dar a ele o que ele estava disposto a me dar. Usá-lo
simplesmente para satisfazer minhas necessidades físicas não era uma opção.
Ele merecia muito mais que isso. Além disso, havia outro homem que eu não
conseguia tirar da minha cabeça. Eu concordaria em passar uma noite com
ele se tivesse oportunidade? Uma parte de mim provavelmente diria que não,
enquanto a outra parte seria totalmente a favor.
Quando que meu chocolate quente ficou pronto, peguei uma xícara e
fui para o escritório do papai. A porta estava entreaberta, mas eu bati de
qualquer jeito.
“Posso entrar?” Perguntei.
Stanley sorriu cansado. “Claro.” Ele se levantou para me
cumprimentar. “Chegando em casa tarde, hein? Eu deveria ficar
preocupado?”
“Eu não tenho mais dezesseis anos, lembra?”
“Isso não muda o fato de que eu sou seu irmão mais velho e que estou
preocupado com você.”
“Falando nisso… Você já decidiu se mudar para Washington?”
Ele deu a volta na mesa e se sentou. “Parece que vou precisar adiar a
minha partida.”
“Por quê?” Me sentei em uma cadeira de couro de frente para ele.
“Papai me pediu para dar uma olhada nos seus documentos de
propriedade, e há algumas coisas que eu preciso cuidar antes de ir.”
“Alguma coisa séria?”
“Não. Mas a casa do lago precisa ser reformada. E precisa ser agora.”
“O que eu posso fazer para ajudar?”
“Bem, em primeiro lugar, precisamos repintar as paredes e mudar o
chão. Você pode ir para lá quando tiver tempo e cobrir os móveis para não
estragar.”
“Certo. Posso fazer isso. Eu vou lá amanhã, depois do trabalho. Algo
mais?”
Stan me lançou um olhar pensativo. “Você está feliz, mana?”
Eu sabia o que o fizera perguntar. Embora eu achasse que seria
melhor dar ouvidos à Liz e não mencionar sua conversa com Liam que eu
agora sabia.
“Estou feliz,” menti. Inferno, eu gostaria de saber o que é ser
verdadeiramente feliz. Mas, neste momento, dizer que eu não estava feliz
também não seria bem verdade.
“Bom. Fico feliz em ouvir isso.”
“E você?” Eu perguntei.
Mas Stan apenas brincou. “Minha felicidade terá que esperar até que
termine a reforma da casa do lago e vá para Washington.”
“Você falou com mamãe e papai sobre isso?”
“Falei. E os dois disseram que preciso aceitar a oferta.”
“Viu? Eu disse. Eles te amam demais para ficar no caminho do seu
futuro brilhante e feliz.”
“Eu sei. É por isso que quero remodelar a casa do lago primeiro.
Papai disse que quer passar o Natal lá.”
“Parece que você e eu vamos ter muito trabalho a fazer.”
“Liz prometeu ajudar com as novas decorações para a biblioteca e a
sala de estar.”
“Não se preocupe, irmãozão, vamos conseguir.”
“Nós sempre fomos uma grande equipe, certo?” Outro olhar pensativo
se seguiu e eu me perguntei se Liz estava certa e Stan precisava falar com
alguém sobre o que ele teve que passar por minha causa.
“Stanley, você sabe que pode sempre falar comigo sobre qualquer
coisa, certo?”
“Eu sei, maninha. Assim como sempre estou aqui, se você precisar de
mim.”
“Eu nunca duvidei disso.”
Capítulo onze
Liam
Estava chovendo de cair o céu – clima perfeito para tornar meu humor
ainda pior. Eu estava a caminho da casa do lago de Stan. Eu sabia que Crystal
estaria lá esta noite e mesmo que eu não tivesse ideia de como iniciar a
conversa que eu sabia que aconteceria amais cedo ou mais tarde, pensei que
estava na hora de esclarecer as coisas.
Ontem foi um inferno para mim. Depois que conversei com Liz,
recebi uma ligação do bar onde me embebedei na noite anterior e boas
notícias – eles sabiam onde estava meu carro – estacionado bem na entrada
do bar, com as janelas bem abertas e um dos faróis quebrado. Primeiro,
pensei em simplesmente ir até lá pegar meu carro, mas depois mudei de ideia
e fui direto ao balcão do bar pedir uma bebida. Nem preciso dizer que eu não
parei em um copo.
Talvez seja por isso que hoje eu me senti uma porcaria e não queria
mais nada além de morrer, aqui e agora. Mas havia alguém que eu precisava
ver primeiro, então liguei para Stan e perguntei se ele sabia alguma coisa
sobre os planos de sua irmã para a noite. Parece que ela estava indo para a
casa do lago. Então eu fui.
Estacionando na varanda, vi o carro de Crystal estacionado na
garagem. As luzes da casa estavam acesas e eu ouvi música vindo de dentro.
Fui até a porta que não estava trancada e entrei.
As palavras de uma das primeiras músicas da Britney enchiam a casa.
“Olá?” Eu chamei. Mas ninguém respondeu.
Eu olhei ao redor da sala de estar, uma boa parte da qual estava agora
coberta de lençóis. Os livros e a maior parte das decorações tinham
desaparecido e, provavelmente, guardados nas caixas espalhadas por todo o
lugar. Eu me senti meio nostálgico. A casa me lembrou da época em que
nada além do presente importava. Stan, Kameron, Jeff e eu sempre vínhamos
aqui nos finais de semana. Nós nos fazíamos festa, divertíamos, ríamos, e
nunca pensávamos no futuro, como se o que nós tivéssemos naquela época
nunca fosse chegar ao fim. O que eles dizem sobre a juventude? Ah, certo –
sorri sem qualquer motivo… Eu gostaria de poder dizer o mesmo sobre a
vida que eu tinha agora.
“Você só pode estar brincando comigo…”
Eu me virei ao ouvir o som da voz de Crystal.
“Você de novo?” Ela não parecia feliz em me ver. “Acho que vai ser a
centésima vez que eu faço essa pergunta, mas o que diabos você está fazendo
aqui? Você não tem outra garota para perseguir?”
Eu não ouvi uma palavra do que ela dizia, porque tudo que eu
conseguia pensar era em como ela era incrivelmente linda. Ela estava usando
um suéter enorme que terminava logo acima dos joelhos, os pés estavam
descalços. Seu cabelo estava amarrado em um coque alto, com algumas
mechas rebeldes caindo aqui e ali. Mesmo sem maquiagem no rosto, ela
ainda parecia a garota mais linda do mundo.
“Você ao menos está me ouvindo?” Ela colocou as mãos nos quadris,
fazendo o suéter deslizar alguns centímetros.
Eu precisei de toda a minha força de vontade para parar de olhar para
as pernas dela, pensando no que eu e ela poderíamos fazer, em vez de brigar
por algumas coisinhas estúpidas de novo.
“Eu queria ver você,” eu finalmente disse, olhando-a nos olhos.
“Por que?”
“Nós precisamos conversar…”
Por alguns momentos silenciosos, apenas ficamos nos encarando. Até
que ela quebrou o contato visual e disse: “Não temos nada para conversar.”
Ela se afastou de mim, pegou uma das caixas no chão e começou a enrolar
fita ao redor.
Cheguei mais perto de onde ela estava e parei bem atrás dela. “É
assim mesmo, Crystal?” Eu perguntei em uma voz quase inaudível.
Sua postura congelou. Ela sabia do que eu estava falando, assim como
eu sabia que provavelmente era a última coisa no mundo sobre o que ela
queria discutir.
Sem se virar, ela respondeu: “O que aconteceu no passado é melhor
ficar no passado. Ponto final.”
“Olhe para mim, Crys… Por favor.”
Lentamente, ela se virou e vi medo preenchendo seus olhos de
chocolate.
“Fale comigo”, eu disse. “Grite comigo, me dê um soco no rosto, me
xingue – faça o que quiser. Mas não finja que nosso passado não te incomoda
mais, porque eu sei que sim.”
Ela sorriu sem humor. “Você acha que sabe de tudo, não é?”
“Quando se trata de você, eu não sei de nada. Eu nunca sei o que
esperar, não tenho certeza de nada. Mas sei que há uma coisa sobre a qual
precisamos conversar e vamos conversar, quer você goste ou não.”
“Desde quando você se tornou o chefe aqui?”
“Desde o dia em que você me afastou e fingiu que nada havia
acontecido entre nós.”
“Eu te afastei?” Ela disse um pouco mais alto do que o habitual. “Não
foi você que me afastou quando eu comecei a acreditar que realmente havia
algo entre nós?”
“Por que você não me contou sobre o que aconteceu naquela noite?”
“Por que eu te contaria alguma coisa? Eu entendi seu ponto, Liam, eu
realmente entendi – você achou que era muito velho para mim, e que eu
merecia alguém com os mesmos sonhos que eu. E você estava com medo de
dizer ao meu irmão que queria dormir comigo. Mas você sequer perguntou
sobre o que eu queria ou o que eu sonhava Você sequer pensou que eu
poderia dividir esses sonhos com você?”
“Crystal, por favor…”
“Você me convidou para sair, trouxe chocolate, flores, até me
comprou um vestido para o meu baile de formatura. Você me fez acreditar
que eu significava algo para você. E então você provou o contrário. Quão
cuidadoso e maduro, certo?”
“Você significava tudo para mim! Você me ouviu?” Agarrei-a pelos
ombros, tão desesperado quanto antes. Nenhuma palavra era boa o suficiente
para descrever como me senti naquele momento. “Deus… você ainda
significa um mundo para mim”, eu disse com os olhos enterrados nos dela.
“Como você pode não ver?” Eu não podia mudar nosso passado, eu não
poderia prometer a ela um futuro perfeito, droga – eu não poderia prometer
nada a ela, porque havia uma mulher diferente esperando por mim, promessa
de uma vida, e eu não podia acreditar que realmente daria a ela o que ela
queria, simplesmente porque eu não podia imaginar meu filho ou filha
crescendo sem mim.
Crystal engoliu em seco e se afastou de mim. Ela se sentou em um
sofá coberto com um lençol branco como a neve e escondeu o rosto nas
mãos.
“Vá embora, Liam. Essa conversa é inútil.”
Eu me ajoelhei na frente dela e tirei as mãos cobrindo seu rosto. As
palavras que eu estava prestes a dizer eram provavelmente as mais difíceis de
todas, mas eu queria que ela as ouvisse. “Eu te amei tanto. E eu nunca parei
de te amar, Crystal. Nunca.”
“Não diga isso…” Lágrimas brilhavam em seus olhos.
"Eu estou dizendo a verdade. Eu deveria ter dito isso há muito tempo,
mas eu estava sendo um idiota. Pensei que não te merecia. E você está certa,
eu pensei que você precisava de alguém que fosse capaz de ver as coisas do
mesmo ponto de vista que você. E acredite em mim, eu tentei te esquecer,
mas eu nunca soube como parar de te desejar… Em cada garota que eu
conhecia, eu tentava ver algo de você. Mas nenhuma delas era você.
Nenhuma delas me fez sentir as coisas que você fez…
“Isso não importa mais. O tempo mudou tantas coisas… Se você veio
aqui porque se sente culpado pelo que aconteceu comigo, então pare de se
culpar. Não foi culpa sua. Se qualquer coisa, foi minha. Eu fui muito ingênua
para não ver o óbvio – você nunca falou de amor ou do que quer que eu
quisesse tanto ouvir de você. Você foi gentil e solidário, e então, em algum
momento, devo ter confundido nossa amizade com outra coisa – algo que
nunca existiu.”
“Você está errada. O tempo não mudou o que sinto por você, Crystal.
E eu sei que por trás de sua bravura há uma dor – uma dor que nunca poderei
tirar; uma dor que você sentiu por minha causa.” Eu sabia que minhas
palavras não significavam nada para ela, não depois de tudo que ela tinha
passado por causa da minha covardia. Eu me lembrei do beijo que nós
compartilhamos nesta mesma casa, meses atrás. Naquela época, palavras não
eram necessárias. Então eu fiz a única coisa que parecia certa no momento.
Eu segurei seu rosto nas minhas mãos e, sem pensar duas vezes, puxei seus
lábios para os meus e a beijei profundamente.
Ela hesitou não mais do que alguns segundos antes de ceder e
respondeu ao meu beijo com a mesma paixão. Eu não posso dizer que fiquei
surpreso com sua disposição, eu e ela sempre andamos perigosamente perto
do penhasco que nos atraía com a profundidade abaixo e o tentador
esquecimento. Nós dois queríamos pular e mergulhar no êxtase que nossos
corpos vinham desejando há tanto tempo.
Suas mãos se atrapalharam com minhas roupas, até que eu estava sem
camisa e com o meu jeans aberto, com o meu corpo cobrindo o dela no lençol
branco do sofá. Seus lábios quentes e inchados encontraram novos beijos sem
reclamar; Seu corpo tremia sob o meu. Fogo puro correu através de mim,
queimando o restante do meu autocontrole que eu odiava tanto por levá-la
para longe de mim, seis anos atrás. Minha respiração ficou irregular, meu
corpo e mente se recusaram a cooperar, minha necessidade de estar com ela
me dominou, embora no fundo da minha mente, eu soubesse que o que
faríamos seria um erro – outra decisão egoísta que eu lamentaria.
Eu parei de beijá-la e olhei para ela. Seu olhar estava cego de desejo
que eu conseguia ler tão claramente na profundidade dos abismos de
chocolate.
“Você tem certeza disso?” Eu perguntei, dando a nós dois a chance de
parar antes que fosse tarde demais. “Eu não quero que você me odeie ainda
mais quando tudo acabar.”
Ela sorriu. “Eu acho que ‘mais’ não é possível neste caso em
particular.” Então, com a ponta do dedo, ela traçou uma linha em meu lábio
inferior e acrescentou em um sussurro: “Mesmo que seja apenas uma noite,
eu quero que isso aconteça. Sem arrependimentos e acusações pela manhã…
eu quero que esta noite nos pertença.”
Se ela soubesse o quanto eu queria aceitar o que ela oferecia e dar a
ela tudo de mim em troca. Mas…
“Eu preciso te contar uma coisa primeiro.” Provavelmente era o pior
momento para lembrar sobre uma noiva esperando por mim em casa, mas eu
sabia que era injusto manter Crystal no escuro sobre meus planos de
casamento.
“Eu não quero ouvir,” ela disse e puxou meus lábios de volta aos dela,
antes que eu tivesse chance de fazer outra confissão.
Minha consciência estalou; minha mente começou a correr, desistindo
de todas as razões para fazer a coisa certa e parar antes que eu não pudesse
mais me arrastar para longe dela.
Ela era boa demais para deixar escapar de novo.
Eu puxei o suéter dela e o tirei pela cabeça. Ela não tentou me
impedir. Pelo contrário – ela deixou as mãos descansando acima da cabeça e
esperou… Esperou que meus olhos a absorvessem.
Ela não estava usando sutiã e eu não podia deixar de apreciá-la.
Polegada por polegada, eu cobri sua pele com meus beijos, com minhas mãos
desenhando círculos invisíveis por todas as suas curvas.
Apenas quando meus lábios chegaram à cicatriz em sua barriga, senti
seu corpo tensionar. Eu olhei para ela e encontrei seus olhos me observando.
Foi a primeira vez que eu olhei de perto para o feio lembrete de uma noite
infernal do passado dela. Eu sabia que ela ainda tinha vergonha de mostrá-la,
para mim de todas as pessoas. Mas, por outro lado, eu admirava sua bravura.
Eu bati palmas e as luzes da sala se suavizaram. Talvez no crepúsculo
ela se sentisse mais segura. A música parou de tocar e o único som a quebrar
o silêncio era da nossa respiração. Com o meu olhar ainda segurando o dela,
eu me abaixei e toquei o topo da cicatriz com os lábios, traçando pequenos
beijos ao longo de seu comprimento. Ela soltou um suspiro lento e fechou os
olhos, como se ela pudesse finalmente deixar suas preocupações irem e parar
de pensar sobre o que eu poderia sentir vendo a imperfeição que ela vinha
escondendo de todos por anos. Para mim, ela ainda era linda por dentro e por
fora.
Levantei-me do sofá e a levantei nos meus braços. Se essa fosse a
nossa primeira e única noite juntos, eu queria passar na cama e não no sofá.
Fui até o quarto dela e a coloquei cuidadosamente na cama. Pairando
sobre ela, eu não conseguia parar de pensar em todas as noites desperdiçadas
que eu podia ter passado com ela, fazendo amor. Mas em vez disso, eu dormi
com outras mulheres, na esperança de tirar a que eu amava da cabeça,
conseguindo um orgasmo ou dois.
“Eu sei que é um pouco tarde demais para se desculpar…”
“Shh…” Ela colocou o dedo sobre meus lábios. “Vamos fingir que
nosso passado nunca existiu. Aqui e agora, nada além de nós importa. Não
importa o que aconteça amanhã, eu quero pelo menos uma pequena parte dos
meus sonhos sobre nós se tornar realidade.”
Eu sabia que lhe devia isso. Eu lhe devia muito mais do que uma
noite, mas ela estava certa – agora, nada além de nós importava.
Com outro beijo, assinei um acordo silencioso que ela e eu sabíamos
que terminaria ao nascer do sol. Assim como nós sabíamos que
provavelmente ficaria conosco pelo resto de nossas vidas, assim como aquela
cicatriz em sua barriga… Só que desta vez, com algo muito melhor que a dor
por trás.
Me livrei do resto das minhas roupas e deitei ao lado dela. Eu não me
cansava de observá-la. Mesmo que a ideia de estar dentro dela me levasse ao
limite, aproveitei o tempo para memorizar cada pequena coisa sobre ela, para
poder viver com essas lembranças quando ela não fosse mais minha.
A noite ia ser uma longa despedida – a mais longa da minha vida. E
não importava o quanto eu quisesse que durasse para sempre, eu sabia que
meu tempo com ela era limitado a um único sonho que ela queria viver
comigo. Os milhões de motivos que tínhamos para não deixar que
acontecesse não importavam mais. Nós precisávamos desta noite, agora mais
do que nunca.
Inclinando-me, escovei seus lábios nos meus, devagar, com cuidado.
Como se estivesse com medo de assustá-la. Ela fechou os olhos e sorriu para
a minha boca. Eu senti mais do que vi seu sorriso se curvando sob meus
lábios. Eu me perguntei o que ela estava pensando no momento?
“Eu beijo tão mal assim?” Eu perguntei em um sussurro.
Ela riu. “Pelo contrário… Ninguém nunca me beijou como você.”
Com os olhos ainda fechados, ela acrescentou calmamente: “Não pare…”
“Como eu posso?” Meu beijo se aprofundou, fazendo com que seu
corpo tremesse ao meu lado.
Com os nossos lábios ainda trancados, eu rolei para cima dela,
deixando minha mão deslizar pelo seu lado e até a calcinha de renda preta, a
única peça de roupa que restava nela.
“Eu quero tirá-la,” eu disse, arrastando beijos pelo seu pescoço,
clavícula e, em seguida, todo o caminho até sua barriga. Com meus olhos a
observando atentamente, agarrei a coisa sedosa e a tirei pelas suas pernas.
Mais da sua beleza foi exposta ao meu olhar. Devemos ter esperado
uma eternidade para chegar aqui e agora isso me fez ficar muito louco por
ela. Ela balançou os quadris como se enviasse um convite silencioso na
minha direção. Não que eu precisasse. Eu estava muito excitado, sentia como
se fosse explodir na porra de um segundo.
Minha cabeça começou a girar. Eu estava perdendo muito o controle,
mas sabia que precisava ir devagar.
Eu me abaixei, inalando o cheiro de sua feminilidade e lambi uma
linha entre seus lábios pelos; suas costas arquearam em resposta ao meu
toque. Minha língua cintilou ao redor de seu clitóris; ouvi seus gemidos
quietos preencherem a sala. O som era música para os meus ouvidos. Não se
pode imaginar o número de vezes que eu pensei em fazê-la gemer daquele
jeito, com meus lábios e minha língua indo para a parte mais sensível de seu
lindo corpo. Nem mesmo a presença da maldita cicatriz poderia diminuir sua
beleza. Ela era perfeita para mim, em todos os movimentos e sons que fazia –
ela era tudo que eu sempre desejei e ainda mais – às vezes demais, mas nunca
o suficiente.
Capítulo doze
Crystal
Eu estou realmente ferrada…
Esse foi o primeiro pensamento que me veio à cabeça no momento
em que percebi que não haveria como voltar atrás naquela noite. Há alguns
meses, Liam era a última pessoa no mundo que eu esperava ver na casa do
lago. E exatamente como naquela época, eu sabia que estava em apuros antes
mesmo que ele ousasse esmagar seus lábios nos meus e me tirar o fôlego com
o beijo alucinante que ele estava me dando. E talvez eu estivesse sendo uma
tola patética de novo, mas eu queria que o que seus olhos e lábios estavam
oferecendo acontecesse. Eu queria ele. Só para mim, pelo menos por uma
noite. Não era pedir muito, era?
Eu costumava pensar que Liam era um daqueles homens que sempre
iam a toda velocidade, não importa o que acontecesse. Mas não esta noite.
Ele levou seu tempo me observando, como se eu fosse um presente que ele
recebera no Natal e não queria desfazê-lo rápido demais para prolongar a
antecipação. Ele não estremeceu ao ver minha cicatriz. Não foi a primeira vez
que ele viu, mas foi a primeira vez que eu voluntariamente o deixei ver e
tocá-la, apesar do quão envergonhada eu me sentia sobre sua origem. Eu
esperava qualquer coisa, menos o que ele fez – ele pressionou seus lábios na
pele feia e começou a beijá-la, como se pudesse beijar a dor por trás dela. Ele
não apressou as coisas. Provavelmente porque ele estava com medo que eu
mudasse de ideia e lhe dissesse para recuar. Mas eu não faria isso. Não dessa
vez.
Não foi até hoje que percebi o quanto sentia falta dos seus lábios, dos
seus toques e até do cheiro que sempre lhe associei – bergamota que era um
acorde essencial de todas as suas fragrâncias. Deus, eu conhecia cada uma
delas. Porque toda vez que ele saía da minha casa, eu ficava na sala até que o
cheiro de seu perfume morresse no ar. Crescer não mudou esse meu hábito,
infelizmente.
Eu amava tudo sobre ele: a maneira como ele apertava os olhos
enquanto me observava; o jeito que seus toques me arrepiavam, subindo e
descendo pela minha espinha, fazendo-me tremer pela necessidade de sentir
mais dele; até a fraqueza que eu sentia quando ele estava por perto – eu
amava tudo, como uma maníaca seguindo cada pequena coisa que me
aproximasse do meu fruto proibido favorito que por acaso era ele…
Seus olhos se enterraram nos meus e eu sabia que estava perdida para
tudo, menos para ele. Não me lembrava de tirar a roupa dele ou de perder
meu suéter em algum lugar da sala de estar. Tudo que eu sabia era que eu
queria estar com o amor da minha vida, não importava as consequências, que
eu tinha certeza que deixariam outra cicatriz em mim, no meu coração para
ser exata.
Nem mesmo por um segundo eu me senti envergonhada dos meus
desejos e pensamentos, ele nunca me deixou sentir envergonhada. Eu
conseguia ler admiração em cada pequeno movimento que ele fazia. Seus
beijos estavam cheios de algo que eu me recusava a acreditar – amor. Eu
costumava rir quando as pessoas diziam que o amor tinha o poder de mudar
tudo. Quando, na verdade, foi exatamente isso que me mudou.
Liam disse que me amava e que nunca deixou de me amar. E eu
acreditei nele; Eu não sei porque, apenas acreditei.
Em algum momento, deixei meu olhar mudar dos seus lábios
brincando com meu clitóris para o espelho que ia até o chão preso à parede à
minha esquerda. Pela primeira vez em muito tempo, eu não tive medo de
ficar nua na frente dos olhos de um homem e ainda me senti confiante. Ele
fazia eu me sentir confiante, protegida e amada.
O fogo que seus beijos enviavam através do meu corpo fez eu me
sentir ainda mais consciente da necessidade que começou a se construir na
minha barriga. A proximidade de seu corpo, o calor da sua pele contra a
minha – era tão boa. Tão, tão boa.
A doce tortura que sua boca estava fazendo era insuportável, quase
dolorosa. Eu precisava de mais, eu queria muito mais do que isso.
Como vou deixá-lo ir quando a manhã chegar? Eu me perguntei.
Então, de novo, bem ali, e nenhuma manhã existia, e nem o senso comum
que se afogou na tempestade de paixão, sobrecarregando nossos corpos e
mentes.
Minhas mãos se cerraram em punhos quando os movimentos da
língua de Liam através do meu clitóris ficaram mais rápidos. Foi quando senti
um de seus dedos deslizar para baixo, para a abertura molhada e pulsante e
depois empurrou para dentro.
Eu ofeguei, tanto animada quanto assustada. E se eu nunca atender às
expectativas dele? E se, depois de tantas garotas com quem ele esteve,
estivesse dormindo comigo simplesmente por sentir pena pelo que aconteceu
comigo anos atrás? E se…
“Eu te amo, Crystal,” ele disse de repente, pairando sobre mim. “Te
amo tanto que arranca o coração do meu peito.” Enterrando o rosto na curva
do meu pescoço, ele beijou um ponto sob o lóbulo da minha orelha e
acrescentou: “O que eu vou fazer quando você não estiver mais comigo?”
Nossa, havia tanto desespero em suas palavras. Por um momento,
senti vontade de chorar.
Eu coloquei seu rosto em minhas mãos e disse: “Tudo vai ficar bem.
Tudo o que precisamos é de uma noite… Uma noite para tirar o nosso
passado dos nossos sistemas.” Eu acreditava no que estava dizendo? Acho
que não. Mas era mais fácil fingir que sim. Caso contrário, eu começaria a
sentir falta dele antes mesmo que me desse tchau.
Ele me olhou nos olhos, provavelmente pensando a mesma coisa que
eu alguns momentos atrás – não tínhamos ideia de como fazer amanhã, ou
depois de amanhã ou do nosso futuro dar certo.
Engolindo minhas dúvidas, eu disse: “O que acontece aqui, fica aqui,
ok?”
“Tem certeza que é isso que você quer?”
Não, neste momento, eu não tinha certeza de nada.
“Sim”, eu disse em voz alta, esperando que minha resposta parecesse
confiante o suficiente. “Não podemos ficar juntos e ambos sabemos disso.
Porque sempre haverá algo entre nós. Eu não posso te prometer nada, e você
também não pode. Mas por uma noite, podemos fingir que não nos
importamos…”
“Por uma noite,” ele repetiu, como se estivesse tentando acreditar em
mim. “Sim, podemos fingir…” Ele então cobriu minha boca com a sua, e eu
perdi a noção do entorno, mergulhando no oceano de sensações felizes que
seus lábios derramavam em mim.
Um gemido de fraqueza escapou da minha boca e ele o silenciou com
outro beijo, profundo e exigente. Surpreendentemente, sua boca tinha um
jeito de satisfazer todas as minhas expectativas, ansiosa para apertar os botões
do meu corpo que eu nunca soube que existia. Ao contrário de outras vezes
que ele e eu nos encontramos em um quarto, esta noite eu não me importei
com ele testando minha paciência. Pelo contrário – esperar por mais fez o
fogo dentro de mim queimar mais forte.
“Faça-me sua,” eu respirei em seus lábios. “Eu quero ser sua.” Eu
queria senti-lo me preenchendo e me levando alto, mais alto que o céu e a
lua, onde ninguém seria capaz de nos encontrar.
“Com prazer,” seguiu sua resposta sem fôlego.
Posicionando-se entre as minhas pernas abertas, ele deslizou as mãos
pelos meus lados e agarrou minha bunda, apenas para empurrar seu pau duro
e esperando dentro de mim, em um movimento rápido e áspero.
Um grunhido de rendição voou dos meus lábios, seguindo o prazer
agonizante que seu movimento espirrou dentro. Anos de sonhos e desejos
reprimidos se misturaram em uma conexão profunda que parecia tão forte e
inquebrável. Eu quase acreditei que não era tão frágil como na realidade…
O delírio em que mergulhamos era bom demais para pensar na
realidade.
Não essa noite.
Eu o puxei para mais perto, dando boas-vindas ao calor da sua pele
tocando a minha, e envolvi minhas pernas ao redor dele, apreciando as
sensações mágicas e ao mesmo tempo avassaladoras correndo pelas minhas
veias, atingindo minhas necessidades mais profundas e evocando o mais
louco dos meus sonhos.
A cada estocada, ele roubava uma pequena parte de mim, como se os
anos que meu coração sangrou por ele não fossem suficientes para me fazer
dele para sempre. Com cada pequeno movimento que meus quadris faziam
embaixo dele, eu lhe dava o que ele queria e ainda mais – eu dava tudo de
mim, sem esperar nada em troca.
Nossos beijos estavam ficando mais quentes, movimentos – mais
rápidos. Meus músculos pélvicos começaram a apertar em torno dele;
fazendo seus gemidos ficarem mais altos.
Eu gozei com o nome dele nos meus lábios, sentindo a liberação
esperada me engolir; seu orgasmo seguiu o meu. Nossos corpos tremeram de
prazer.
Com os lábios de Liam pressionados contra o meu ouvido, ele disse
em um sussurro: “Eu não estou nem perto de terminar com você, Sissy.”
Ele não estava brincando. E eu tive prova de suas intenções eram mais
do que sérias, quando cerca de dez minutos depois, senti seu pau duro como
pedra implorando por mais. Sem pedir permissão, sua dureza encontrou seu
caminho para dentro de mim, e eu choraminguei com o quão bom era senti-lo
assim novamente.
Deus, eu poderia me acostumar a fazer amor com ele com frequência.
Fazer amor…
Novamente, lembrei-me das palavras que ele disse anteriormente
naquela noite e novamente me perguntei se eu seria capaz de sobreviver ao
nascer do sol – o sinal do nosso acordo de uma noite terminando. Ele
empurrou tão fundo dentro de mim, que eu não sabia onde eu terminava e ele
começava. Os sons que fazíamos eram altos e cheios de agonia. Nós não
estávamos mais no controle do que estava acontecendo na sala. Nós paramos
de contar os segundos, perdidos um no outro para controlar o tempo. A
conexão entre nós ficou ainda mais forte. Como se o que costumávamos ter
no passado, antes de ser arruinado, estivesse de volta, nos aproximando ainda
mais do que nunca. Tão perto, senti a falta de ar, com muito medo de
começar a imaginar minha vida depois daquela noite. Eu mal conseguia
respirar. Liam me levantou e me fez sentar no seu colo, com minhas pernas
em volta dele e com sua dureza enterrada na minha profundidade.
“Olhe para mim, Crystal,” disse ele, de uma maneira exigente. “Olhe
para mim e me diga o que você sente. Você ainda me odeia?”
Não havia sentido em mentir. “Eu te odiei, Liam. Ou assim pensei,
mas…”eu parei, não tendo certeza se era corajosa o suficiente para dizer as
palavras que eu quis dizer tantas vezes.
“Mas o que?” Ele perguntou suavemente.
“Meu ódio nunca foi forte o suficiente para ofuscar meu amor por
você.” Senti uma lágrima predatória correndo pela minha bochecha corada.
“É verdade – nunca parei de amar você. Mesmo nos meus piores dias, você
era o único homem com quem eu queria estar.”
Ele fechou os olhos; vi sua mandíbula apertar. “O que vamos fazer
agora?”
Eu me forcei sorrir. “Tipo neste momento, você quer dizer?” Eu
levantei meus quadris e depois me abaixei sobre ele novamente.
Ele balançou a cabeça. “Não é o que quero dizer e você sabe disso.”
“Não, eu não sei. Eu não quero saber de nada. Nós fizemos um
acordo, lembra?”
A tristeza cruzou seus belos traços. “Você não vai me deixar
esquecer, vai?”
Colocando um beijo gentil nos seus lábios, eu disse: “Você sempre
será o amor da minha vida, Liam Henderson. Eu sei que isso nunca vai
mudar. Mas eu não quero mais que seja minha maldição. Eu vou deixar você
ir, e você fará o mesmo por mim.”
“Deus, Cristal, você está me matando…”
A dor, tão familiar, mas tão estranha, penetrou em meu coração. Foi
uma noite de despedida e nós dois sabíamos disso. A única coisa que nunca
esperamos que acontecesse era que nossos sentimentos um pelo outro se
fortalecessem. Bem, inferno, era um pouco tarde demais para pensar nisso.
Silenciosamente, eu disse: “Pare de falar. Já tivemos conversas e
discussões suficientes nos últimos seis anos. Vamos fazer amor.”
Essas foram as últimas palavras que dissemos um ao outro naquela
noite. Durante o resto da noite, fizemos amor e nunca mencionamos a
realidade que ambos sabíamos que viria bater à porta, mais cedo ou mais
tarde.
***
O som do meu celular tocando na mesa de cabeceira me acordou de
manhã.
“Olá?” Eu disse com uma voz sonolenta, atendendo a ligação.
“Graças a Deus, Crystal,” disse Liz no aparelho. “Eu já estou ligando
há cerca de uma hora. Onde você está?”
“Na casa do lago. Stan me pediu para ajudá-lo a prepará-la para a
reforma. Por quê?”
“Liam está desaparecido.”
“O quê?” Sentei na minha cama e ouvi o mencionado cara acima
rosnar em um protesto ao meu lado.
“Ninguém sabe onde ele está e seu telefone está desligado.”
Eu me virei para olhar para o ‘desaparecido” Liam. “Ah…” Seu
telefone deve ter ficado sem bateria e ele não teve tempo de recarregar, nem
mesmo de lembrar da maldita coisa, falando nisso. Ele estava ocupado
demais fazendo outras coisas. “Eu tenho certeza que ele está bem,” eu disse
no aparelho. Eu deitei com o rosto virado para Liam e sorri. “Ele deve estar
dormindo na cama de outra garota, com o telefone em algum lugar embaixo
dela.”
Com os olhos ainda fechados, Liam sorriu com minhas palavras e
envolveu um braço ao meu redor, me puxando para mais perto de seu peito.
“Espero que você esteja certa,” disse Liz preocupada. “De qualquer
forma, se você o vir ou souber dele, me avise. OK?”
“K.” Eu terminei a ligação e disse: “Eles acham que você está
desaparecido.”
“Eu estou,” respondeu Liam, abrindo os olhos. “Estou perdido em
você. E ficaria feliz em ficar desaparecido pelo resto da minha vida se você
concordasse em desaparecer comigo.”
“Desculpa. Não nesta vida.”
Ele revirou os olhos. “Ainda estamos fazendo essa coisa estúpida de
adeus?”
“Sim.”
“Eu estava esperando que você mudasse de ideia depois do que
aconteceu ontem à noite.”
Eu sorri. “Você deveria ter tentado com mais força para me
convencer.”
“Mais força?” Ele riu baixinho. “Isso sequer é possível?”
Eu me inclinei até ele e beijei seus lábios. Dizer adeus era a última
coisa no mundo que eu queria fazer, mas eu não tinha escolha.
“Você, pelo menos, me deixará te ver de vez em quando?” Ele
perguntou.
Suspirei e rolei de costas, ainda olhando nos olhos dele. “Você acha
que é uma boa ideia?” Era meio difícil imaginar uma conversa normal com
Liam, sem pensar no quanto eu o amava ou queria repetir na noite passada.
Ele se levantou em um cotovelo e traçou uma linha na minha
bochecha com as pontas dos dedos. “Você pode pedir qualquer coisa, exceto
para ficar longe de você. Além disso, foi sua ideia de nos tornarmos ‘amigos’
sem benefícios. Inferno, parece ridículo.”
“Confie em mim, é melhor.”
Ele se abaixou e sussurrou nos meus lábios: “A melhor coisa que
poderia ter acontecido conosco aconteceu na noite passada.”
Eu senti um leve rubor cobrindo minhas bochechas.
“E não diga que você não gostou,” acrescentou Liam.
“Eu amei. Cada momento.”
Ele sorriu. “Eu também. O torna ainda mais difícil pensar em ir
embora.”
Ele não era a única pessoa na sala que não tinha ideia de como
encarar o novo dia.
“Que tal o café da manhã?”, eu disse. “Não quebra a regra de ‘apenas
amigos’, não é?”
“A menos que eu decida ter você como café da manhã.”
Eu ri. “Eu não tenho tempo para ser seu café da manhã. Liz está me
esperando no estúdio. Eu acho que é melhor se nós apenas…”
“Levantarmos e tomar café em vez de fazer sexo?”
Eu balancei a cabeça brevemente.
“OK. Mas primeiro vamos tomar um banho juntos.”
“Amigos não tomam banho juntos.”
“Amigos não desaparecem em uma cama, a noite toda, totalmente nus
também. Então…” Ele se levantou, puxou o cobertor de cima de mim, me
envolveu em seus braços e me levou para o chuveiro. Eu não tive a chance de
discutir.
“Precisamos fazer isso realmente rápido, ou eu vou perder meu
emprego!” Eu disse, rindo.
Capítulo treze
Liam
No momento em que entrei em minha casa, soube que algo estava
errado. As cortinas da sala de estar estavam fechadas, a TV estava ligada e
mostrava um dos documentários do Animal Planet que ninguém nunca
assistia.
“Kim?” Eu chamei. “Onde você está?” Nem precisava dizer que eu
não tinha a mínima ideia de como olhar nos olhos dela depois do que
aconteceu entre Crystal e eu.
“Você voltou, finalmente,” disse Kim, levantando-se do sofá, a julgar
pela sua aparência, onde ela devia ter passado a noite. Ela estava de pijama,
com o cabelo amarrado em alguma coisa bagunçada. “Você sabe que horas
são?” Ela não estava gritando nem nada. Ao contrário, ela parecia estar me
fazendo uma daquelas perguntas padrão que se faz a alguém na manhã
seguinte, como “Você dormiu bem?” Ou algo do tipo.
“Hm, sim… Por volta das dez.”
“Bom saber que você não perdeu a noção do tempo, ao contrário de
sua consciência, é claro.” Ela me lançou um olhar assassino. “Eu sei que
estou aqui porque pensamos que seria melhor para o bebê. Mas eu não sou
um sofá, Liam. Eu sou um ser humano que tem sentimentos, que graças ao
meu estado estão muito diversos esses dias, e eu estou preocupada com
você.” Ela fez uma pausa para respirar. “Eu tenho ligado para você a noite
toda. Posso perguntar onde você esteve?” Ela cruzou os braços e olhou para
mim.
Por um momento, senti que ela podia ler tudo o que se passava na
minha cabeça. Ou talvez eu estivesse com muito medo de que ela realmente
pudesse entrar na minha cabeça.
“Sinto muito… Meu telefone ficou sem bateria e eu…”
“Não tinha outro telefone para você ligar e me dizer que estava bem.
Certo?”
“Exatamente.”
“E aqui eu pensei que você ia me dizer a verdade, pelo menos uma
vez.” Ela sorriu, como se tivesse dito algo engraçado, então se dirigiu para as
escadas.
“Kim, espere… me desculpa. Eu sei que devia ter te ligado. É só
que… Havia algo muito importante que eu precisava fazer.”
“O ‘algo’ era tão gostosa que você esqueceu da sua noiva grávida,
esperando você em casa?”
“Kim, por favor… Deixe-me explicar.” Embora eu não tivesse ideia
de como explicar minha ausência. Eu com certeza não ia dizer que eu tinha
passado a noite compensando por todas as noites que Crystal e eu tínhamos
perdido. Além disso, eu e ela fizemos um acordo – o que aconteceu na casa
do lago fica na casa do lago. Certo? Não que eu fosse ser tão idiota e fingir
que a noite nunca aconteceu. Mas quando se tratava de Kimberly, sabia que
ela não merecia um marido que a traísse e mentisse sem parar. Mas ela estava
esperando um bebê, meu bebê, e isso mudava tudo.
“Isso nunca vai acontecer de novo,” eu disse, tentando me convencer
de que as palavras não eram apenas besteiras.
“Ah, por favor, Liam, não comece de novo. Eu te conheço bem o
suficiente para não confiar em você com explicações pós-sexo. Eu pensei que
estava acima disso, tentei aprender a confiar em você. Mas você não está
ajudando, sabe? Você realmente acredita que eu não conheço o homem com
quem estou prestes a me casar?” Ela se aproximou e acrescentou: “Desde o
dia em que você fez o pedido, tudo mudou, incluindo você e sua atitude em
relação a mim. Você me usa quando precisa de mim, mas, além disso, você
nem sequer olha para mim, é como se eu fosse inexistente.”
“Kim, não é verdade. Eu nunca usei você e você sabe disso.”
“Talvez não devêssemos nos apressar com o casamento. Todo mundo
vai ver minha barriga crescendo, então alguns meses não vão mudar nada. Só
precisarei de um vestido de tamanho diferente. Mas não é nada comparado à
ausência de sentimentos entre nós.”
“Mas eu tenho sentimentos por você!”
“Compaixão não é exatamente o que eu preciso, Liam. Desculpe,
preciso de um banho e um café da manhã. Eu tive uma longa noite.” Ela se
afastou de mim e saiu do quarto.
“Porra,” eu xinguei por baixo da minha respiração. A quantidade de
merda na minha vida tinha uma tendência doentia a crescer na velocidade do
som.
Peguei meu celular do bolso e liguei para a única pessoa com quem eu
sempre podia ser honesto.
“Ei, colega. Você está no trabalho?”, Perguntei no aparelho.
“Não. Vou trabalhar em casa hoje,” respondeu Kameron. “Por quê?”
“Eu preciso de conselhos.”
“Ok… Que tipo de conselho?”
Eu coloquei meus sapatos de volta, peguei as chaves do meu carro e
saí de casa. “É melhor eu contar quando te vir.”
“Você não tem compromissos hoje?”
“Minha única consulta acabou de adiar o casamento. Então estou livre
para o resto do dia, e talvez para o resto da vida também.”
“Ah, tudo bem. Vejo você em breve.”
Ao contrário de meus outros amigos, Kameron era o único que sabia
quase tudo sobre mim. “Quase” tinha um nome na verdade, e o mero
pensamento de pronunciá-lo novamente fazia o sangue correr mais rápido em
minhas veias.
Deixar a casa do lago esta manhã foi uma das coisas mais difíceis que
eu já tive que fazer. Crys e eu sabíamos que chegaria, mas quando chegou a
hora de dizer adeus, entrei em pânico. De repente, percebi que provavelmente
nunca seria capaz de tocá-la novamente, beijá-la novamente, ou mesmo olhar
para ela sem o desejo selvagem de quebrar a regra de “apenas amigos.”
Ela estava perto, mas tão longe de mim. O mundo que a apenas
algumas horas parecia a coisa mais forte que já existiu, começou a se quebrar
e nenhum de nós conseguiu impedi-lo. Ela disse que nunca deixaria de me
amar e eu sabia que nunca deixaria de amá-la. Então ela recebeu um
telefonema de alguém que eu queria matar com minhas próprias mãos, Trevor
talvez, porque a voz masculina que eu podia ouvir vindo do aparelho parecia
animada demais para ser apenas mais uma amiga sem benefícios. Não
perguntei quem estava ligando, mas o idiota tinha que estragar nosso último
minuto juntos. Ela usou o telefonema como uma desculpa para sair, me deu
um beijo rápido nos lábios e depois foi embora da casa.
Eu estava no terraço, observando o carro desaparecer atrás das
árvores, com uma única pergunta na minha cabeça – por que não podíamos
fazer nosso relacionamento funcionar?
A resposta veio logo que olhei para o meu telefone e vi vinte e três
chamadas perdidas e oito mensagens não lidas da Kimberly.
Minha vida estava prestes a mudar para sempre e não havia lugar para
amor nela. Porque, de alguma forma, eu sabia que nunca seria capaz de amar
alguém tanto quanto amava Crystal.
“O que diabos aconteceu com você?” Foi a primeira coisa que
Kameron perguntou depois que ele abriu a porta para mim.
“Eu dormi com Crystal,” eu disse, indo direto ao assunto.
“Você fez o quê?”
“Você me ouviu. Eu dormi com Crys.”
“Eu pensei que vocês se odiavam até a morte.”
“Sim, bem, isso foi antes de eu me apaixonar perdidamente por ela.”
“E quando exatamente isso aconteceu?”
“Muito tempo atrás.” Suspirei e me sentei em um sofá. Kameron me
observou em estado de choque.
“Bebida?” Ele perguntou depois do que pareceu ser uma eternidade
de observando com seu olhar pensativo.
“Faça um duplo.”
Ele foi até o bar e voltou cerca de um minuto depois com um copo de
uísque na mão.
“Obrigado,” eu disse, tirando-o dele. “Eu sei que é um pouco cedo
para bebida, mas como você pode ver, eu realmente preciso de uma agora.”
“Sim…” Ele se sentou na minha frente e disse: “Stan sabe?”
“Você realmente acha que eu estaria sentado aqui, bebendo uísque, se
ele soubesse que eu dormi com a irmã dele?”
“Acho que não.”
Eu sorri. “Meu ponto, exatamente.”
“Foi… Você sabe… Uma fraqueza momentânea, ou…?”
“Ou.”
“Certo. Então você e Crystal estão fazendo isso há muito tempo?”
“Não. Ontem à noite foi a primeira vez. E a última, eu acho.”
“Você foi tão ruim assim?”
Eu olhei para Kameron e ri, tipo ri de verdade. “Não. Não acho que
fui tão ruim assim. Mas tem mais… Crys e eu temos história. Tudo começou
há seis anos. Naquela época, eu gostava tanto dela que não pensei nas
consequências. Eu deixei as coisas irem longe demais.”
“Achei que você tinha dito que ontem à noite foi a primeira vez que
dormiu com ela.”
“Bem, não tão longe.”
“Ah, tudo bem.”
“Eu vinha vê-la quando Stan não estava por perto. Eu pedia muito
para sair com ela e estava tudo bem, perfeito mesmo. Então um dia, fiz algo
que ela não perdoaria. Eu parei antes que ela e eu… Você sabe… Estávamos
prestes a cruzar a linha.”
“Você? Parou? Quem imaginaria…”
“Você não está ajudando, Kameron.”
“Desculpa. Então, o que aconteceu depois?”
“Ela ficou puta e me mandou embora. Eu saí, me sentindo pior do que
nunca. Primeiro, pensei em voltar para dizer que eu não quis ofendê-la nem
nada. Mas então eu mudei de ideia e apenas fui embora, esperando que ela
não me odiasse pelo resto da vida, o que foi exatamente o que aconteceu.”
"É por isso que ela não queria que você fosse o padrinho da Liv?"
“Sim. Ela achou que eu seria o pior padrinho do mundo.”
“Então, como vocês dois acabaram na cama?”
“Alguns dias atrás, descobri algo terrível. Acabou que na noite em
que deixei no quarto dela, seis anos atrás, ela saiu para relaxar e acabou em
um beco cercada por três idiotas que queriam…” Parei, incapaz de terminar a
frase.
“Puta merda… Pobre Crys. Mas eles não conseguiram o que queriam,
não é?”
Eu balancei minha cabeça em negativa. “Ela os assustou cortando o
peito com uma faca que um dos idiotas tinha. Depois ligou para Stanley e ele
a levou para a casa do lago, onde ela ficou até que a ferida sarasse. Ela não
queria que ninguém soubesse o que aconteceu naquela noite. Nem mesmo
Stan sabe de toda a verdade.”
“Não posso acreditar nisso. Liz sabe disso?”
“Sabe.”
“Ela não me disse uma palavra. Mas eu ainda não entendo… O que
aconteceu ontem à noite?”
“Depois que descobri a verdade, quis falar com ela. Stan me disse que
ela estaria na casa do lago, então fui lá. E então, bem, nós não esperávamos
que as coisas fossem tão longe. Embora ela e eu ambos quiséssemos.
Passamos a noite inteira juntos e agora não tenho ideia de como viver minha
vida, sabendo que ela nunca fará parte dela.”
“Você ainda a ama, não é?”
“Sim.” Me inclinei contra o encosto do sofá e olhei para o teto. “Eu
nunca parei de amá-la. Assim como ela nunca parou de me amar. Mas estou
prestes a casar com outra garota e Crystal quer ser apenas minha amiga.”
“Droga, cara… Como você ficou preso em tanta merda?”
“Eu continuo me fazendo a mesma pergunta.”
“Você contou a ela sobre o casamento?”
“Não. Eu tentei contar, mas ela não deixou.”
“Então o que acontece agora?”
“Como eu disse – estamos seguindo caminhos opostos.”
“Simples assim?”
“Simples assim.”
“Bem, parece meio…”
“Estúpido? Eu sei. Mas que escolha nós temos?”
“Ficar juntos?”
“Ela nunca vai concordar em ficar comigo se descobrir da gravidez de
Kim.”
“Mas você não pode se casar com uma mulher que você não ama só
porque é o que você acha que é a coisa certa a fazer. Eu ainda não consigo me
perdoar por perder a maior parte da gravidez de Elizabeth, mas eu sempre
quis ficar com ela. Me diga uma coisa, Liam – consegue imaginar passar o
resto da sua vida com alguém por quem você não sente nada?”
“Eu não sei o que pensar ou fazer.”
“Kimmy deve estar furiosa. O que você disse a ela sobre onde você
passou a noite?”
“Nada. E é exatamente por isso que ela disse que não devemos nos
apressar com o casamento.”
“Ela está certa, cara. Ser pai é a melhor coisa que poderia ter
acontecido comigo, além de me apaixonar por Liz, é claro. Mas eu acho que
não conseguiria viver com outra pessoa, sabendo que a mulher que eu amo
tem uma vida própria, com outro homem.”
“Não me fale sobre um outro homem. Eu ouvi alguém ligando para
Crys esta manhã, e o simples som de uma voz masculina me fez querer
quebrar o telefone dela.”
Kameron riu. “Viu? É exatamente isso que estou tentando dizer.
Pense nisso, cara. Um bebê só será feliz se os pais forem felizes. Você pode
ser feliz com Kim?”
“Eu não quero que o bebê cresça sem mim.”
“Não é como se Kim e o bebê fossem se mudar para outro planeta,
certo? Você pode passar tanto tempo com seu filho o quanto quiser. Ou você
está com medo que ela não deixe?”
“Qualquer coisa é possível.”
“Escute, Liam, vou ser honesto com você, eu nunca acreditei que
você e Kim poderiam dar certo. E não me entenda mal, ela é atraente e
engraçada, e, sem dúvida, ela gosta de você, mas quanto ao amor – eu acho
que isso nunca existiu entre vocês.”
“Eu nunca pensei que precisasse de amor para fazer parte de um
relacionamento. Acontece que era a única coisa que me faltava.”
“Por que você não fala com Stanley?”
“Não.”
“Vocês dois se conhecem desde a infância. Ele não pode te matar por
se apaixonar pela irmã dele.”
“Mas vai.”
“Foi isso que te impediu seis anos atrás? O medo do Dr. Stanley Burk
cortando suas bolas?”
Eu sorri. “Eu costumava pensar que essa era uma das razões. Mas
agora eu sei que o verdadeiro motivo era Crystal. Ela era jovem demais, com
grandes sonhos para o futuro. E eu era apenas um cara que nunca perdia um
rabo de saia.”
“Mas você perderia todos se desse uma chance ao que vocês viveram.
Confie em mim, eu sei do que estou falando. Conheci Liz quando ela tinha
dezoito anos, eu era mais velho que ela, mas isso nunca me impediu de ficar
com ela. Se não fosse pelo meu ciúme estúpido, eu nunca teria perdido a
chance de ver meu bebê crescer em sua barriga. Então, por favor, pense duas
vezes sobre quem você quer ver ao seu lado. Não cometa os mesmos erros
que eu. Não fará bem a ninguém.”
“Você sabe o quanto Crystal ama bebês. Ela é louca por Olivia,
mesmo não sendo filha dela. Ela nunca vai me tirar do meu bebê. Mesmo
que, para isso, ela tenha que sacrificar o que sente por mim.”
“Eu ainda acho que você precisa falar com Stan. Ele sempre foi o
mais sábio de todos nós.”
“Eu não acho que ele vai continuar a ser sábio neste caso particular.”
“Tenho certeza de que suas bolas não têm nada a temer.”
“Muito engraçado.”
“Fale com ele, Liam. E não deixe regras estúpidas e estereótipos de
casamento arruinarem sua vida. Você sempre foi muito bom em ignorá-los,
lembra?”
Capítulo catorze
Crystal
O dia prometia ser um inferno.
Começando a partir do momento em que percebi que era hora de sair
da casa do lago, sabia que minha vida nunca mais seria a mesma. Dei um
beijo de despedida em Liam, entrei no meu carro e apertei o acelerador,
esperando que a distância me fizesse sentir melhor. Mas nenhum milagre
aconteceu.
Quando cerca de vinte minutos depois estacionei na entrada do
estúdio, me sentia uma porcaria. Boas notícias – Trevor estava lá, esperando
por mim com uma xícara de café gigante nas mãos e o sorriso mais largo que
eu já tinha visto em seu rosto.
“Parece que alguém teve uma ótima noite,” eu disse, saindo do carro.
“Eu gostaria de poder dizer o mesmo sobre você, boneca, mas… O
que aconteceu com o seu ferro de passar?”
“O quê?”
Ele apontou para minha roupa enrugada. Estava ainda pior do que eu
me sentia no momento.
“Ah, isso…”
“Quer falar sobre isso?”
“Não.”
“Onde você passou a noite passada?”
“Achei que tinha dito que não queria falar sobre isso.”
“Sim, mas eu quero ouvir tudo.”
“Acredite em mim, você não quer…”
Trevor me lançou um olhar curioso. Eu juro que ele podia ver através
de mim. E mesmo se eu quisesse, não conseguiria esconder nada dele. Aposto
que meu desespero estava escrito em todo meu rosto vinagre. Quando a
compreensão o atingiu, sua expressão mudou de curiosa para tempestuosa.
“Vocês dois finalmente fizeram isso?”
“Eu te disse – você não ia quer ouvir.”
Sem palavras, ele me deu a xícara de café e colocou as mãos nos
bolsos da calça jeans.
“Então… Vocês estão juntos agora?”
“Não.” Passei por ele e fui para o estúdio.
Ele me seguiu, dizendo: “Eu sabia que isso aconteceria, mais cedo ou
mais tarde.”
Eu parei e me virei para olhar para ele. “Como você sabia disso?”
“Eu sou um psíquico.”
Eu sorri. “Certo. Eu esqueci.”
Trevor abriu a porta para mim e disse: “Sério, Crystal, quanto tempo
exatamente essa merda vai durar? Você não está cansada disso?”
“Estou. E acabou agora. Então não há com que se preocupar.”
Ele me imitou. “Certo.”
“Foi um sexo de despedida.”
Eu ouvi Trevor rindo atrás de mim.
“Qual é a graça?” Eu peguei a chave do meu escritório e destranquei a
porta.
“Sexo de despedida nunca acaba bem.”
“Você parece um especialista nisso.”
“Desculpe desapontá-la, querida, mas a despedida sexual é como um
bumerangue: você joga fora e volta mais cedo do que imagina, derrubando
você e fazendo a história se repetir.”
“Minha história com Liam é diferente. Então, por favor, vamos parar
de falar disso. Melhor me dizer, o que era tão importante que você não podia
esperar para me contar?”
Trevor se sentou em uma das cadeiras e cruzou os braços, me
observando.
Eu o observei de volta. Havia apenas uma coisa que ele poderia estar
tão animado para compartilhar comigo.
“Você viu seu pai, não foi?”
Ele suspirou e olhou para os braços cruzados. “Eu pensei que era hora
de esclarecer as coisas. Fui para casa, preparando-me mentalmente para a
pior conversa da minha vida, mas quando o vi, nenhuma palavra saiu da
minha boca.” Ele fez uma pausa e esperei que ele continuasse. “No momento
em que ele me viu, ele começou a chorar. Pode acreditar nisso?
Provavelmente foi a primeira vez que vi o velho demonstrando alguma coisa
além de sua atitude normal de jogador de pôquer. Ele veio me dar um abraço,
eu o abracei de volta e ficamos assim pelo que pareceu uma eternidade. Eu
nunca me senti mais em casa do que naquele momento.”
“Aw, estou tão feliz por vocês dois.”
“Nós ficamos conversando durante horas. Mamãe nos fez jantar e nós
comemos e brincamos como se aqueles anos de guerra fria nunca tivessem
existido.” Trevor olhou para mim e eu sabia que mais notícias estavam
chegando. “Ele me pediu para voltar para os Estados Unidos. Eu disse que
pensaria nisso.”
“Você quer voltar para cá?”
Outro olhar pensativo na minha direção se seguiu.
“Eu voltaria para cá… Se eu soubesse que você seria minha de novo.”
“Trevor…”
“Eu sei que já discutimos isso. Mas você fez uma pergunta e eu
respondi. Eu te amo, Crystal. Sempre amei.”
Ah, inferno, não…
Ele se levantou e veio até mim. “Eu quero que você seja feliz.” Ele
colocou um dedo sob o meu queixo e me fez olhar para ele. “Me deixa te
fazer feliz. Eu farei qualquer coisa por você, linda.”
Por um momento, senti vontade de dizer: “Sim, por favor, leve-me
daqui; me faça esquecer meu passado, me faça feliz.” Mas então, a porta do
meu escritório se abriu e Liam entrou, sem pedir permissão.
“Espero que eu não esteja interrompendo”, disse ele em uma voz seca.
“Está sim, na verdade,” Trevor gritou de volta.
“O que você está fazendo aqui?” Eu perguntei a Liam. Trevor estava
ao lado da minha cadeira, como se quisesse me proteger do amor da minha
vida, que nós dois sabíamos que não era necessário.
“Pensei que poderíamos almoçar juntos.”
“Eu te disse,” disse Trevor. “O bumerangue, lembra?”
Liam apertou os olhos, provavelmente tentando entender o que Trevor
estava falando.
“De qualquer forma, eu tenho coisas para fazer, então falo com você
mais tarde.” Ele me deu um beijo rápido – nos lábios – e saiu do escritório,
fechando a porta atrás dele.
As sobrancelhas de Liam se uniram.
“Pensei que nós tínhamos um acordo,” eu disse. Eu sabia que ele
ainda estava pensando sobre o frívolo ‘adeus’ de Trevor, mas eu não ia me
concentrar nisso. Conhecendo Trevor, eu não tinha dúvida de que ele fez isso
para me proteger e aos meus sentimentos feridos, que para ser honesta, ainda
me incomodava demais para parar de pensar neles. E, bem, poderia haver
razões egoístas para mostrar a Liam que ele não era o único candidato para o
meu coração.
“Foi um acordo de merda e nós dois sabemos disso.”
“Um acordo é um acordo.”
“Tanto faz. Mas eu estou morrendo de fome e achei que você não se
importaria em dividir o almoço comigo.”
“Estou no trabalho, Liam. Você não pode vir aqui e me levar para
almoçar quando quiser. Além disso, Liz sabe que eu me atrasei hoje e não
quero que ela nos veja juntos.”
“Porque ela pode pensar que você se atrasou por minha causa?”
“Exatamente.”
“O que ele estava fazendo aqui?” Liam apontou para a porta fechada.
“Ele me trouxe café.”
“Ele começou a trabalhar em uma cafeteria?”
“Não. Mas ele sabe o quanto eu amo café gelado de caramelo.”
“Assim como sorvete de caramelo, xarope de caramelo e qualquer
coisa que tenha caramelo.” Liam se aproximou, tão perto que eu conseguia
ver as pequenas rugas nos cantos dos seus olhos que ficavam mais visíveis
sempre que ele sorria. “Eu sei algumas coisas sobre você também, lembra?”
“Você não me deixaria esquecer, não é?”
“Você quer esquecer?”
Menos de quatro horas sem ele, e eu já sentia vontade de quebrar o
maldito acordo. Mas ele não precisava saber disso.
“Quando eu disse que você poderia vir me ver, não quis dizzer hoje.”
“Dividir o almoço comigo não vai te matar.”
Mas vai!
Trevor estava certo, quanto menos tempo eu passar na companhia de
Liam, melhor.
“Desculpa, eu tenho trabalho a fazer.” Afastei-me de seu olhar e
sentei na minha cadeira.
“Bem. Podemos pedir para almoçar aqui.”
Eu revirei os olhos. “Tanto faz.”
É desnecessário dizer que me concentrar no trabalho com Liam
respirando no meu pescoço era uma tarefa impossível. Mesmo sem olhar para
ele, eu sabia que seus olhos nunca pararam de seguir cada movimento meu.
Ele estava passando pelo meu escritório, dançando e cantando uma música
que eu nunca tinha ouvido antes, o que devo admitir, não estava ajudava em
nada a minha concentração. Eu esperava que o almoço fosse entregue antes
que eu tentasse matá-lo com minhas próprias mãos.
Mas quando, depois de uma hora, nenhuma comida foi entregue,
percebi que dividir o almoço não era o motivo da vontade de Liam em me
ver.
“Ok, o que está acontecendo?” Eu perguntei, irritada.
“Pensei que você nunca mais falaria comigo. Terminou de trabalhar?”
Eu ri. “Trabalhar? Você realmente acredita que eu conseguiria
trabalhar com você dançando e cantando no meu escritório?”
“Achei que estava sendo inspirador.”
Eu lhe lancei um olhar de dúvida.
“Não? Ok, você está certa – eu não estava tentando ser inspirador.”
“O que você quer, Liam?”
“Você.” Assim que meu rosto disse a ele tudo o que eu pensava sobre
a sua resposta, ele disse: “Brincadeira. Risque isso, não é brincadeira. Eu
quero você sempre. Mas eu queria falar com você sobre algo muito
importante.” Ele fez uma pausa e sua expressão ficou muito séria. Eu não
gostei. “É sobre sua cicatriz…”
“Nós não vamos falar sobre isso. Ponto final.”
“Por que você não escuta o que eu vou dizer primeiro?”
“Eu sei o que você tem em mente e a resposta é NÃO.”
“Por quê?”
“Porque eu não quero que ninguém me opere. Tenho medo, ok? Eu
odeio agulhas, sem mencionar bisturis e outros instrumentos cirúrgicos. Se
você quer me ver morta, me leve para a cirurgia.”
“E se eu fizer a operação?”
Eu olhei para ele, sem saber como responder. Meu coração disparou
no meu peito. Ele não poderia estar falando sério agora, poderia?
“Péssima ideia.”
“Não é,” disse Liam teimosamente. “Não é apenas o medo de ver um
bisturi nas minhas mãos, é?”
Maldita seja sua intuição.
“Me conte, Crystal? Por que você não quer remover sua cicatriz?”
Eu abaixei os olhos para minhas mãos que, de repente, ficaram
suadas. Senti como se me faltasse ar. Liam estava certo, meus medos não
tinham nada a ver com a cirurgia. Havia mais além disso.
Eu engoli e disse: “Eu não quero ser sedada de novo. Da última vez
que aconteceu, achei que meu tempo de recuperação nunca chegaria.
Enquanto Stanley estava costurando minha ferida, eu fiquei em um sono
profundo. A maioria das pessoas diz que não sonha enquanto está sob efeito,
mas no meu caso foi diferente – eu estava tendo um pesadelo, vivendo a noite
mais terrível da minha vida, de novo e de novo.
Os pesadelos depois disso não importavam. Acordei e tudo acabou, ao
contrário da única vez em que fui afetada pelos anestésicos que Stan me deu e
não consegui abrir os olhos quando quis. A agonia do desamparo… ainda
lembrava do sentimento tão bem; o sangue congelou em minhas veias ao
mero pensamento de entrar no sonho que eu não seria capaz de acordar.
Eu não percebi as lágrimas escorrendo pelo meu rosto, mas quando
senti os braços de Liam em volta de mim, eu sabia que havia algo de errado
comigo.
Ele não disse nada, mas seu abraço dizia tudo para ele.
“Eu sinto muito… eu sinto muito,” ele sussurrou, beijando minha
testa. “Eu nunca vou me perdoar por deixar você naquela noite. Nunca.”
“Como eu disse, não foi culpa sua. Eu estava sendo uma garota
estúpida e apaixonada. Eu deveria ter pensado duas vezes antes de ir ao
maldito clube. Se eu pudesse voltar no tempo…”
Liam falou de novo: “Se eu pudesse voltar no tempo, nunca mais te
deixaria sair dos meus braços.”
Eu me mexi um pouco para poder ver seu rosto. Seus lábios estavam
tão perto dos meus; eu podia sentir seu coração batendo descontroladamente
sob sua camisa. O olhar em seus olhos deixava mais difícil respirar. Tudo o
que eu conseguia pensar era em beijá-lo, me perder naquele perfume
fascinante de sua colônia e nunca mais voltar aos meus sentidos.
Mais uma batida do coração, um pequeno movimento…
E a porta do meu escritório se abriu e Liz entrou, quebrando a magia
do momento.
Eu saí do abraço de Liam e limpei a garganta.
“Estou interrompendo?” Liz perguntou, mudando o olhar entre Liam
e eu. Os olhos dela focaram nele um pouco mais do que em mim, como se ela
quisesse lhe dizer algo que eu não deveria ouvir.
“Liam já estava saindo,” eu disse.
“Bom.” Liz lhe lançou outro olhar cheio de algo que eu não entendi e,
em seguida, caminhou até minha mesa e abriu um catálogo com diferentes
tecidos. “Não consigo decidir qual escolher para minha coleção de Natal.
Seda ou veludo? O que você acha?”
Liam respondeu por mim: “Seda.”
Ele e eu dividimos um olhar e então ele se virou para a porta e saiu
sem dizer outra palavra.
Liz fechou o catálogo e olhou para mim.
“Que raio foi aquilo?”
“O que você quer dizer?”
“Você e Liam. Eu não sou cega, sabe?”
“Eu sei. Mas não tenho ideia do que você está falando.”
“Ash, não, minha querida amiga, você não vai mentir para mim de
novo. Estou cansada da velha história chamada ‘Meu primeiro crush, também
conhecido como Liam. Capítulo 100’. O que ele estava fazendo aqui?”
“Ele veio almoçar comigo. Algum problema?”
Ela olhou ao redor da sala e sorriu. “Ele estava comendo você no
almoço? Porque não vejo nenhuma comida na sala.”
Ela precisava dizer essas exatas palavras. Me lembra o que Liam disse
naquela manhã sobre me ter no café da manhã. Minhas bochechas ficaram
vermelhas em um piscar de olhos.
“Jesus… Você não dormiu com ele, dormiu?”
“Claro que não! Quer dizer… Não aqui… Não durante a hora de
almoço.”
Liz sentou em um pequeno sofá e balançou a cabeça. “Mas você
dormiu com ele em outro lugar, certo?”
Eu balancei a cabeça, com vergonha de algo que as pessoas
geralmente não se sentem envergonhadas como sempre. Afinal de contas,
fazer amor com alguém que você ama não é crime, é?
“O que você estava pensando?”
Eu não tinha resposta para essa pergunta.
“Liam, ele é… Não importa.” Liz balançou a cabeça de novo. “Eu
espero que tenha sido uma coisa de uma única vez?”
“Sim.”
“Bom. Porque eu não quero ver você chorar até a morte.” Ela voltou a
discutir sobre os tecidos da sua próxima coleção e nós não conversamos mais
sobre Liam. Mas eu tive esse sentimento estranho me dizendo que ela queria
me dizer algo, só que ela nunca disse.
***
No domingo à noite eu senti que minha vida estava descendo pelo
ralo rápido demais, e eu não podia fazer nada para impedir. Eu não soube
mais de Liam depois do nosso almoço fracassado, mas isso não diminuiu o
meu desejo de vê-lo de novo. Como louca, eu corria até o telefone toda vez
que ele tocava, esperando ver o nome dele piscando na tela. Mas ele nunca
ligou ou mandou mensagem.
Eu me perguntei se ele finalmente tinha desistido da ideia de sermos
“amigos sem benefícios” comigo e ia fingir que não me conhecia. Eu deveria
ter ficado feliz em saber que eu não precisaria lidar com a sua atitude
impossível novamente. Mas uma parte de mim, uma parte enorme de mim,
ainda ansiava por ele, e era incurável.
Além de sentir falta de Liam, eu estava prestes a perder Trevor. Era a
noite em que ele estava voltando para o Canadá e eu não ia para lá com ele.
“Tem certeza de que quer ficar aqui?” Ele perguntou umas cem vezes
na última meia hora. “Você não tem que dormir comigo, se você não quiser.
Existem dois quartos no meu apartamento. Eu não vou tentar me esconder
debaixo do seu cobertor no meio da noite, eu juro.”
Eu ri. “Eu não acredito em você.”
“O que eu preciso fazer para você ir para o Canadá comigo?”
Suspirei. “Não há nada que você possa fazer para me fazer mudar de
ideia. Mas prometo pensar em lhe fazer uma visita um dia. Você ainda me
deve um encontro civilizado, lembra?”
“Esse encontro vai acabar com você pedindo algumas gotas do meu
esperma para completar seu plano maluco de futuro?”
Eu ri. “Eu prefiro que seja jantar com um velho amigo.”
Ele fez a expressão mais desapontada de todos os tempos. “Eu gosto
mais da minha versão da sua visita. Mesmo que eu prefira não pensar no
motivo de você precisar do meu esperma.”
“Viu? Você não consegue parar de pensar em dormir comigo de novo
e é exatamente por isso que é melhor ficarmos onde estamos agora.”
“Chato.”
“Seguro.”
Ele revirou os olhos e me puxou para o seu abraço. “Vou sentir sua
falta, Crystal.”
Eu engoli o nó formando na minha garganta e disse: “Igualmente.”
Desejei-lhe tudo de melhor, e eu realmente queria que ele fosse feliz. Pena
que eu estava muito louca por outro cara para pular no avião, voar para longe
com Trevor e nunca mais voltar.
“Liga para mim quando você pousar, ok?”
Ele assentiu. “Vou ligar. E você promete ser uma boa menina, ok?
Nada de caras maus e lágrimas. Combinado?”
“Ugh, você sabe o quanto eu sou ruim em namorar caras bons. Eu os
faço me odiar.”
“Pelo menos, me prometa que você não vai mais chorar por um cara
em particular ou eu vou chutar a bunda dele.”
“Posso te prometer isso.”
Trevor fez uma careta. “Eu sabia que você diria isso, porque você
ainda se importa com a bunda dele.”
“Não é verdade.”
“Tanto faz. Mas lembre das minhas palavras – se ele ousar te
machucar de novo, é melhor que ele encontre um lugar bem protegido para se
esconder de mim.”
“Vou passar sua mensagem para ele.”
“Bom. Agora, venha aqui me dar mais um abraço. O avião não vai
esperar para sempre. E eu acho que sou o último passageiro a embarcar.”
Sorri, desejei-lhe um voo seguro, depois esperei que ele passasse pela
alfândega e voltei para o meu carro, esperando por mim lá fora.
Quando cheguei, vi um envelope no assento do passageiro. Eu abri e
encontrei um recado escrito por Trevor.
“Não importa o quão longe eu esteja, uma ligação é tudo o que
preciso para voltar e salvar você de tudo e de todos que podem querer
apagar aquele belo sorriso do seu rosto. Você é mais forte do que pensa.
Lembre-se. Seja o que for que a perturbe, enfrente e depois deixe para lá,
diga ‘que se dane’ e pegue o primeiro voo para o Canadá. Eu posso não ser
um príncipe encantado, mas uma vez que uma fera se transforma no amor de
alguém, lembra? P.S.: Amigos não deixam você fazer coisas estúpidas…
Sozinho. Então da próxima vez que você sentir vontade de fazer algo
estúpido, me ligue. Eu ficarei contente em ser safado com você.”
Eu ri e coloquei a recado de volta no envelope. Eu esperava que ele
encontrasse seu amor um dia, ele merecia ser feliz. Mas não comigo.
O tempo estava uma droga, assim como o meu humor. Eu não queria
voltar para casa, então liguei para Liz e ofereci meus serviços de babá.
Brincar com Liv sempre fazia eu me sentir melhor. Ou talvez ela
simplesmente preenchesse o espaço em branco onde eu ainda esperava ver
meus filhos um dia. Se eu pudesse encontrar um homem com quem gostaria
de tê-los, é claro, o que era difícil de imaginar, considerando minhas altas
expectativas e pouco desejo de compartilhar qualquer coisa, exceto uma
noite, com o futuro pai biológico.
Capítulo quinze
Três semanas depois
A beleza do pôr-do-sol escarlate era de cegar os olhos. Ele se fundia
com o céu, como um cubo de gelo colorido no copo de água quente. Observá-
lo através da janela do avião trouxe tantas lembranças na minha mente.
Minha viagem para as Bahamas não demorou muito, mas aproveitei cada
segundo, sabendo que nenhum Liam interromperia minha paz. Pela primeira
vez em anos, senti que finalmente estava livre e pronta para começar um
novo capítulo na minha vida, onde nenhum pensamento triste viria.
Quando eu prometi a mim mesma nunca olhar para trás, senti o braço
de alguém roçar o meu. Virei a cabeça para dizer oi para quem quer que fosse
se sentar ao meu lado no meu voo de volta a Pittsburgh, e me senti como o
chão, ou, para ser exata, o chão do avião quebrou embaixo de mim.
“Voltando para casa das férias?” Um homem de trinta e poucos anos
perguntou, sorrindo.
Eu senti como se o ar tivesse sido arrancado dos meus pulmões. Eu o
conhecia… Aquele rosto, aquela voz, aquele torcer familiar de sua boca que
eu ainda lembrava tão bem beijando, seis anos atrás, no beco escuro atrás do
clube.
Era ele – o homem com quem uma vez concordei em dançar e quase
me despedi da minha vida em uma poça de meu próprio sangue. O homem
cujo rosto eu via de novo e de novo em meus pesadelos. O homem que me
arruinou para todos os outros homens que vivem no planeta. O homem que
eu sempre tive medo de ver de novo.
“Senhorita, você está bem?” Ele perguntou, tocando minha mão.
Eu me encolhi como se a mão dele fosse feita de fogo.
“Senhorita?” Ele chamou de novo.
Ele parecia muito diferente do que eu lembrava, mas era ele, sem
dúvida. Ele estava vestido com um terno que parecia muito caro; sua camisa
branca como a neve contrastava com sua pele bronzeada. Mesmo sem
gravata, ele ainda parecia muito profissional. Ao contrário da noite que o
filho da puta assistiu o amigo me dar um soco no rosto.
“Está com medo de voar?” Ele perguntou.
Estou com medo de você!
Eu gostaria de poder dizer que não era verdade, mas o fato
permaneceu. Eu senti como se estivesse presa de novo. Pelo menos desta vez
havia muitas pessoas ao nosso redor e não havia nada a temer. Mas a menina
de dezoito anos em mim não sabia disso. Ela se sentia fraca e indefesa de
novo.
Por que hoje? Por que esse avião? Por que esse lugar, bem ao lado
do meu?
“Nós provavelmente devemos pedir à aeromoça para lhe trazer um
pouco de água.”
Mas eu não estava mais ouvindo. Eu pisquei e tentei ligar para a
aeromoça, mas nenhuma palavra saiu da minha boca. Tudo ficou preto.
A próxima coisa que me lembro de ter acontecido foi o rosto do
médico debruçado sobre mim. Seus óculos brilhavam nas luzes ao redor dele.
“Senhorita Burk, consegue me ouvir?”
Minha visão começou a clarear e vi outros rostos se inclinando sobre
mim. Aqueles eram os rostos dos passageiros. Eu vi alguns deles a bordo
comigo. Um rosto em particular era difícil de esquecer. Ele estava lá também
agora, com os olhos examinando meu rosto.
“O que aconteceu?” Eu perguntei, tentando lembrar o momento em
que desmaiei.
“Você desmaiou,” disse o dono da voz familiar do meu passado.
“Tivemos que chamar uma emergência,” acrescentou uma das
aeromoças.
“Há quanto tempo eu estou inconsciente?”
O médico voltou a minha cadeira para a posição vertical e senti minha
cabeça girar um pouco.
“Por cerca de quinze minutos,” disse ele. “Como você está se
sentindo?”
“Eu estou bem, eu acho.’ Eu não virei a cabeça para ver se o homem
que deveria passar as próximas quatro horas ao meu lado ainda estava lá. Mas
meu sexto sentido me dizia que ele estava perto.
“Eu recomendo que você pegue o próximo voo para Pittsburgh,” disse
o médico. “Sua pressão arterial está abaixo do normal.”
“Não,” eu protestei. “Estou bem. De verdade.” Eu não podia esperar
para voltar para casa. Mesmo que isso significasse viver o pior dos meus
pesadelos na vida real.
“Você tem certeza?”
Eu concordei. “Positivo. Mas…” Procurei uma aeromoça. “Posso
trocar de lugar com outra pessoa? Eu acho que ficar sentada na janela fez eu
me sentir mal.”
“Sem problemas. Você pode pegar um dos assentos na primeira fila.”
“Obrigada.”
Ela me ajudou a levantar e me acompanhou ao meu novo assento. Eu
sorri para a senhora sentada na janela, sentei e fechei os olhos, esperando que
eu chegasse em casa antes de perder a cabeça, ou bem, diante do homem que,
sem dúvida, ainda estava tentando lembrar de onde me reconhecia lembrasse
da garota que ele conheceu no clube uma vez.
Ainda me sentia um pouco tonta, mas não era nada comparado ao que
senti quando o vi sentado ao meu lado. Era como se eu estivesse de volta ao
beco escuro, fraca demais para sair do seu aperto e com muito medo de me
mexer. O medo dominou cada fibra do meu corpo e mente. Eu esperava não
ter outro ataque de pânico.
Eu respirei fundo e abri os olhos, tentando lembrar o que Stanley uma
vez me disse sobre o meu passado – “Não é real, é apenas uma memória,
memória ruim ou boa, mas não existe mais. ElA vive em sua imaginação e
cabe a você o que imaginar. Você pode mudar o quanto quiser, porque o que
estava lá nunca mais acontecerá.”
Naquela época, essas palavras eram exatamente o que eu precisava
ouvir para me fazer querer viver. Stan insistiu que fosse a um terapeuta, mas
me recusei a seguir seu conselho. Eu tinha certeza de que estava bem. Tinha
certeza de que era forte o suficiente para lidar com meus medos por conta
própria. E até hoje, eu tinha certeza de que tinha feito um ótimo trabalho.
Mas agora, eu não tinha mais certeza disso.
O rosto de Liam veio à minha mente e senti vontade de chorar. Eu
queria vê-lo, precisava vê-lo. Queria sentir seus braços ao meu redor e sua
voz me dizendo que ia ficar tudo bem. Que não havia nada a temer. Pedi à
aeromoça que me trouxesse uma xícara de chá e peguei um laptop da bolsa
para me distrair dos pensamentos sobre o homem sentado a poucas fileiras de
mim. A pequena distância que nos separava era inexistente. Era como se ele
ainda estivesse me segurando em seu abraço apertado, com o meu corpo
preso à parede de tijolos do clube. O som de sua risada ecoou em meus
ouvidos. Eu balancei a cabeça e abri o arquivo com a agenda de Liz para a
próxima semana. Eu não podia deixar o estranho do meu passado arruinar
tudo o que eu tinha agora; não podia deixar ele me arruinar novamente. As
próximas quatro horas ou mais seriam as mais longas da minha vida.
***
Liam
“Você realmente acredita que essas cicatrizes podem ser removidas?”
Eu olhei para o rosto da minha paciente de novo e balancei a cabeça.
“Com certeza. Pode levar mais de uma operação para torná-las invisíveis,
mas tenho certeza de que você ficará como novo quando terminar o período
de recuperação.”
Ela sorriu para seu reflexo no espelho e vi seus olhos brilharem de
lágrimas felizes.
“Você nem imagina o quanto suas palavras significam para mim.”
“Fico feliz em poder ajudá-la." Eu imediatamente pensei em Crystal e
como seria para ela usar um biquíni novamente, sem ter vergonha de revelar a
imperfeição da sua pele da barriga. Se ela concordasse em me deixar operá-
la…
“Quando vamos fazer a primeira operação, doutor?”
Eu olhei para a tela do meu laptop, ainda pensando na garota cuja
imagem nunca saía da minha mente, nem quando eu estava no trabalho, nem
quando eu estava dormindo.
“Acho que podemos agendar para a próxima terça-feira. Tudo bem?”
“Sim claro. Eu não posso esperar para ter meu rosto suave de volta.”
“Está bem, então. Vou pedir à enfermeira que a instrua sobre os
preparativos para o procedimento.” Apertei um botão do intercomunicador e
pedi a Lea, minha secretária, que acompanhasse Stacy ao consultório da
enfermeira.
Ela era uma daquelas pacientes que meu pai e eu iríamos operar
juntos. Seu rosto foi ferido por um incêndio e ela ficou com inúmeras
cicatrizes em suas bochechas e na testa. Boas notícias – elas não eram tão
aterradores quanto as de Crystal e eu tinha certeza de que conseguiríamos
removê-las completamente.
Mais uma vez, meus pensamentos viajaram para a noite em que vi a
cicatriz de Crystal pela primeira vez. Agora que eu sabia como ela conseguiu,
ficou ainda mais difícil suprimir o desejo de ajudá-la a se livrar dela.
Eu sabia que ela saíra de férias e que voltaria hoje à noite. Nós não
nos víamos há semanas e eu me sentia como se estivesse morrendo de novo e
de novo, acordando com uma mulher diferente ao meu lado.
Kim e eu estávamos tentando fazer nosso relacionamento dar certo.
Bem, ela estava tentando, quando tudo que eu podia fazer era fingir que me
importava. Mas toda vez que íamos dormir, eu fingia estar cansado demais
para fazer qualquer coisa além de dormir na cama com ela. Ou eu dizia que
estava com medo de machucar o bebê crescendo dentro da sua barriga.
Qualquer que fosse a desculpa que eu apresentasse, logo saía pela culatra,
considerando que minha imaginação se recusava a me dar novas desculpas de
porquê eu não queria fazer amor com minha futura esposa, e ela não estava
feliz com isso.
Olhei para o relógio e senti minha excitação atingir o teto. O avião de
Crystal estava prestes a aterrissar no Aeroporto Internacional de Pittsburgh
em menos de meia hora, e mesmo que eu não estivesse lá para encontrá-la,
estava feliz em saber que ela estaria de volta à cidade.
Meu dia de trabalho estava quase no fim, então arrumei minha mala,
me despedi do meu pai e fui para casa. Os pais de Kim iam nos fazer uma
visita hoje à noite e ela estava um pouco nervosa com o reencontro; meu
relacionamento com a mãe dela deixou muito a desejar. A mulher tinha
certeza de que casar com um cirurgião plástico era a pior decisão que a filha
poderia tomar. Ela achava que eu dormia com todas as pacientes do sexo
feminino e nada poderia fazê-la mudar de ideia.
Kim me encontrou nas portas da garagem. “Eles estão aqui!” Ela
sussurrou, apontando para o carro estacionado perto da casa.
“O quê?”
“Surpresa! Mamãe e papai chegaram cedo.”
“Como duas horas antes? Eles nem sabem que não é educado fazer
coisas assim?”
“Não fique bravo, querido. Mamãe está tão feliz. Ela disse que
conseguimos uma boa casa.”
Fingi um sorriso e fui até a porta dos fundos, dizendo: “Espero que
você não se importe se eu me trocar antes de enfrentar seus pais?”
“Leve o seu tempo, vou oferecer umas bebidas.”
As próximas duas horas seriam “divertidas”, sem dúvida.
Mas o que aconteceu na realidade foi muito pior do que eu esperava.
No momento em que cheguei à sala para cumprimentar os pais de
Kim, recebi uma ligação de Crystal.
“Alô?”
“Você pode vir para o quintal?”
“Hm, agora?” Não que eu não estivesse feliz em ouvir a voz dela, mas
agora era a pior hora que ela poderia ter escolhido para me fazer uma visita.
“É urgente,” ela disse. Algo estava errado na maneira como ela disse.
“Ah, meu Deus… Você está chorando? O que aconteceu?” Corri para
as portas que davam para o quintal, ignorando o olhar interrogativo de Kim e
seus pais.
Eu não estava enganado, Crystal estava chorando, tremendo como
uma folha ao vento.
“Meu Deus, o que aconteceu com você?”
Sem dizer uma palavra, ela se inclinou para mim e chorou ainda mais;
seus ombros tremiam.
Eu passei os braços ao redor dela e senti como se meu coração
estivesse sendo arrancado do meu peito. Eu não aguentava mais vê-la assim.
“Shh… tudo bem. Seja o que for que tenha te incomodado tanto,
apenas me diga.” Eu me afastei para ver seu rosto. Lágrimas corriam pelas
suas bochechas, deixando linhas escuras de rímel atrás delas.
“Eu o vi, Liam… O cara do beco. Eu o vi no avião.”
“Espera. O quê?”
“O cara que tentou me estuprar… Eu o vi no avião.”
O sangue ferveu nas minhas veias.
“Ele reconheceu você? Ele tentou te machucar?” Eu freneticamente
verifiquei suas roupas, lançando-lhe um olhar da cabeça aos pés.
“Não, ele não me machucou. E eu não acho que ele me reconheceu.
Mas ele sabia que não era a primeira vez que me via.
“Ah, Crystal…” Eu a puxei de volta para o meu abraço e xinguei
mentalmente. Ela deveria ter denunciado o bastardo para a polícia há muito
tempo. “Venha, eu vou te levar para casa.”
Eu não pensei em dizer aos pais da minha noiva que estava de saída,
mas já que sua mãe tinha certeza que eu era o maior idiota do planeta de
qualquer maneira, dizer que eu ia perder a reunião de família não mudaria
nada. Mandei uma mensagem para Kim, esperando que ela não me matasse
quando eu voltasse. Ela mandou uma mensagem em resposta, mas eu não li.
“Onde está a sua bagagem?”, perguntei a Crystal.
“Eu mandei para casa direto do aeroporto.”
Entramos no carro e liguei o motor, fazendo uma anotação mental
para ligar para o Kameron logo pela manhã. Tinha uma coisa na qual ele
poderia me ajudar.
Odiava a sensação de desamparo que me dominara ao ver as lágrimas
de Crystal. Eu precisava fazer alguma coisa para fazer com os bastardos do
beco pagassem pelo que fizeram. Quem sabe, talvez Crystal não tenha sido a
única vítima.
“Ele me seguiu até o táxi,” disse ela em voz baixa.
“Par quê?”
“Ele disse que queria saber se eu estava me sentindo melhor. Eu
desmaiei logo quando o avião estava prestes a decolar. Eles tiveram que
chamar a ambulância.”
“Droga. Por que você não esperou o próximo voo?”
“Eu não podia esperar para chegar em casa.” Ela colocou os braços ao
redor de si mesma e se afastou de mim. “Mas então, quando percebi que o
homem estava me seguindo, entrei em pânico. Eu disse a ele que estava bem,
entrei no táxi e pedi ao motorista que me trouxesse aqui. Espero que você não
se importe…”
“Não me importo. Embora eu preferisse que você tivesse outro
motivo para me ver.”
Silenciosamente, ela disse: “Eu precisava de você… Não é uma razão
boa o suficiente para fazer uma visita?”
Suspirei. Eu gostaria de poder dizer que ela, de todas as pessoas, não
precisava de nenhum motivo para vir a minha casa.
Nós dirigimos em silêncio, cada um perdido em seus próprios
pensamentos. Mas acho que havia uma coisa que era mais do que óbvia para
nós dois, sem dizer em voz alta – estava ficando muito difícil resistir a tensão
entre nós. Mesmo agora, tudo o que eu queria era levá-la para a casa do lago,
trancá-la em meus braços e amá-la pelo resto da noite, até que estivéssemos
exaustos demais para manter os olhos abertos.
Mas eu não podia fazer isso. Porque não queria que ela sofresse ainda
mais. Eu ainda não tinha ideia de como contar sobre o maldito casamento.
Estacionei na casa de Stan e desliguei o motor. Nenhum de nós se apressou
para sair do carro.
“Liam…”
“Crys…”
“Você primeiro,” disse ela.
Eu me virei para olhar para ela e tudo o que eu ia dizer voou para fora
da minha mente. Perdemos muito tempo fugindo do inevitável. Ela
costumava fingir que me odiava, eu costumava fingir que não me importava.
Quando, na verdade, toda vez que ela saía, levava uma parte de mim consigo,
tornando impossível eu me recompor. Não importa quanto tempo se passasse,
meu coração continuava rastejando de volta para ela, precisando dela,
apaixonando-se por ela, mais fundo a cada pequena batida. Ela roubou cada
pensamento, cada desejo não dito. Tudo nela era viciante. Sem saber, ela
controlava tudo o que eu fazia e vivia. Doía ficar sem a ver por muito tempo,
como se ela fosse o ar que eu precisava respirar para me manter vivo.
Perfeita aos olhos de todos, ela era frágil por dentro; perdida e
quebrada, como um navio despedaçado pela tempestade; como vidro imóvel
espalhado por todo o chão em pequenos fragmentos que nunca mais se
tornariam algo sólido.
Por que era tão difícil deixá-la ir? Talvez eu esperasse que ela
devolvesse os pedaços que havia roubado. Embora no fundo eu soubesse que
não precisava deles de volta. Porque ela era tudo que eu precisava e desejava.
Eu não conseguia encontrar as palavras certas para dizer a ela o
quanto eu a amava e como lamentava por tudo que teve que passar. Culpa
cortava minhas veias, me fazendo sangrar e morrer repetidamente, como se
vê-la agora, estar tão perto dela novamente não fosse uma tortura por si só.
Eu escovei sua bochecha com as costas da minha mão e me inclinei
mais perto, com apenas um pensamento passando pela minha cabeça – eu não
podia deixá-la ir, não de novo.
Seus lábios encontraram os meus não meio do caminho. Eu sabia que
não deveria beijá-la, mas, droga, eu não podia lutar contra o desejo de sentir
aqueles deliciosos lábios se movendo nos meus. Era mais forte do que eu e
me afastar não era uma opção. Eu queria me perder nela, em seu perfume, em
seu beijo.
Ela sussurrou meu nome, acariciando meus lábios com sua respiração;
senti mais o nome do que ouvi. Eu nunca gostei tanto de ouvi-lo como agora.
O mundo ruiu ao meu redor.
Havia apenas ela; as coisas que eu sentia por ela; as coisas que ela
sentia por mim e demostrava através do beijo que estava me dando. Eu me
afastei por não mais do que dois segundos e depois me inclinei para outro
beijo. Minha mão descansou na parte de trás do seu pescoço; a palma da sua
mão subia e descia pelo meu peito. Minha língua deslizou pelos seus lábios
entreabertos; ela gemeu baixinho em resposta, reduzindo minha capacidade
de pensar direto a zero.
Eu queria puxá-la mais para perto, tão perto que não haveria espaço
entre nós. Ela podia sentir isso; sua respiração acelerou e o mesmo aconteceu
com a minha. Meus lábios se moveram pelo seu pescoço e pelo ponto macio
sob o lóbulo da sua orelha. Meu coração se agitou com um amor que eu
nunca poderia imaginar ser tão forte. Eu estava completamente despreparado
para o que fazia comigo, mas eu amava cada segundo que sucumbia a ele.
Meus lábios encontraram o caminho de volta aos dela e ela recebeu
bem a conexão, adicionando ainda mais paixão em sua resposta. Isso me
surpreendeu. Esses beijos eram minha cura e minha dor; meu inferno e meu
paraíso, minha salvação e minha maldição. Mas eu não conseguia parar, não
conseguia abandoná-la, não conseguia parar de amá-la, mesmo não tendo o
direito. Eu costumava pensar que meu amor por ela não era real, que passaria
um dia. Eu afastei o que eu realmente queria, porque o que eu queria era
demais. Isso me assustou, me enfraqueceu e os homens odeiam ser fracos. E,
então, percebi que ela era minha força – a força que eu precisava mais do que
qualquer coisa no mundo.
Eu a vi e minha existência começou a fazer sentido; eu a toquei e foi
como se ela tivesse sido feita só para mim; Eu a beijei e depois nunca quis
deixá-la longe dos meus braços.
Ela era como um redemoinho de todos aqueles sentimentos que eu me
recusei a deixar entrar em meu coração. Eu queria mergulhar nela, me perder
em sua profundidade sedutora, prometendo alívio e paz muito necessários, e
nunca encarar a realidade novamente. Porque no meu mundo real, não havia
lugar para nós…
“Quer ficar um pouco?”
Eu sorri gentilmente. “Claro.” Dei-lhe mais um beijo, saímos do carro
e fomos até a porta.
A casa estava quieta e não havia luz no corredor.
Subimos as escadas e entramos no quarto de Crystal. Eu o amava e
odiava. Havia tantas lembranças escondidas lá.
“Me dê um minuto para me trocar,” ela disse, andando até o banheiro.
“Claro.” Sentei-me em sua cama e suspirei.
O que eu deveria fazer agora? Hoje à noite, mais do que nunca, sentia
que estava fazendo tudo estava errado, em mais de um sentido. Eu amava
Crystal, mas eu não podia ficar com ela, assim como eu não podia ficar com
Kimberly, que colocou tanta fé em nosso relacionamento, sabendo desde o
começo que era uma causa perdida. Fiquei meio triste por ela. Ela era uma
boa pessoa e eu não queria fazê-la sofrer. Mas quanto mais tempo
passávamos juntos sob o mesmo teto, menos eu sentia vontade de viver assim
a vida toda.
Por outro lado, havia Crystal. Ela também sofria. E eu odiava vê-la
assim. O que me levava a única forma de sair dessa merda… Precisava deixar
as duas partirem.
“Obrigada por ficar.” Crystal voltou do banheiro e se sentou ao meu
lado. Ela lavara o rosto e se trocara para um pijama. Eu quase podia sentir o
quão quebrada estava. Isso fazia meu coração sangrar, sabendo que havia
muito pouco que pudesse fazer para diminuir seu sofrimento.
“Venha aqui.” Eu abri meus braços para ela e ela de bom grado se
inclinou para mim, com a cabeça agora descansando no meu peito.
“É tão estranho, não é?”
“O que você quer dizer?”, perguntei.
“Este quarto, você e eu… Parece que aqueles seis anos depois do meu
aniversário de dezoito nunca aconteceram.”
“Sim…” Eu esfreguei suas costas suavemente, pensando em como
seria entre nós se eu tivesse ficado naquela noite.
Como se estivesse lendo minha mente, ela disse: “Acha que
poderíamos ainda estar juntos se você tivesse ficado?”
Eu sorri. “Eu não sei. Mas tenho certeza de que você faria o melhor
para me causar problema.”
Ela riu baixinho, fazendo seu corpo tremer em meu abraço. “Você
sabe o quanto eu amava ser um problema.”
“Eu acho que foi uma das coisas que fez eu me apaixonar por você.
Não conseguia resistir a provocar de volta.”
“Nada mudou desde então. Mas de novo, eu acho que nunca quis que
nada entre nós mudasse.” Ela olhou para cima e acrescentou: “A única coisa
que eu sempre tive medo era de ver você se casar com outra pessoa. Saber
que você namorava outras garotas não me incomodava tanto quanto saber que
você podia querer ficar com uma delas para sempre.”
“Nenhuma jamais foi como você. Mas às vezes não conseguimos
decidir o que realmente importa até que tudo fique no lugar e começamos a
ver a diferença entre o que temos e o que poderíamos ter.”
“Eu sei que tenho mantido você preso ao passado, ao nosso passado.
Mas quero que você pare de olhar para trás e siga em frente; com ou sem
mim, quero que você viva a vida que sempre desejou para si mesmo, construa
sua carreira, viaje para os lugares que sempre quis ver e aproveite cada
momento. Você sabe, hoje, no avião, percebi algo muito importante. Sem
saber, fiz de você uma prisioneiro do nosso passado. Uma parte de mim
culpava você pelo que aconteceu comigo, quando, na verdade, eu fui a única
responsável pelos eventos daquela noite. Então, o que estou tentando dizer é
que você está livre para fazer o que quiser. Não precisa mais se preocupar
comigo. Eu sou uma menina grande agora, posso cuidar de mim mesma.” Ela
baixou os olhos e acrescentou: “Encarar o meu medo me ajudou a ver tudo de
um ponto de vista diferente. Mesmo que eu ainda me sinta como um animal
ferido, morrendo de vontade de me esconder em algum lugar que ninguém
seja capaz de me encontrar, eu sei que isso não mudará nada. Stan estava
certo quando disse que meus medos não são nada além do fruto da minha
imaginação. Ele disse que eu poderia imaginar qualquer coisa que eu
quisesse. E agora, eu queria me imaginar feliz.”
“Você vai ser feliz, eu sei que você vai.” Sem mim…
“Obrigada de novo por me trazer para casa e ficar comigo. Sabe o
quanto isso significa para mim.”
“Eu não vou a lugar algum. Tente dormir. Amanhã será um novo dia.
Tudo vai parecer diferente de manhã.”
Com essas palavras ditas, coloquei um último beijo em seus lábios e
lhe desejei bons sonhos. Minha noite ia ser longa.
Capítulo dezesseis
“Onde você esteve?” As palavras de Kim eram silenciosas, quase
inaudíveis. Ela estava sentada na nossa cama, com o brilho suave da luz
noturna tocando seu rosto. Mesmo à distância, pude ver que seus olhos
estavam inchados de tanto chorar. Talvez a mãe dela estivesse certa, afinal, e
eu era a escória da terra, porque fazer duas mulheres sofrerem por minha
causa, ao mesmo tempo, era demais.
“Precisamos conversar,” eu disse. Fui até a cama e me sentei ao lado
de Kim.
“Você não respondeu minha pergunta,” ela respondeu.
“Não importa. O que importa, porém, é que não podemos continuar
fingindo que esse relacionamento está funcionando.”
“O que você está dizendo?”
“Eu me odeio por não dizer isso antes, mas…”
“Você não me ama. Eu sei disso. E daí?”
Eu olhei para ela, incerto do que ela esperava ouvir em resposta.
Ela prosseguiu: “Muitos casais vivem sem amor.”
“Mas eu não quero que nós sejamos um dos muitos.”
“Então o que você quer, Liam?” Sua voz ficou mais alta. “Porque
parece que eu sou a única pessoa nesta sala que está perdendo algo muito
importante. O que mudou desde o dia em que você fez o pedido?”
Essa era fácil.
“Nada, na verdade.” Era verdade – nada mudara desde aquele dia; eu
ainda estava apaixonado por Crystal.
“Então qual é o seu problema?” Kim perguntou. Seus lábios tremiam,
como se ela estivesse prestes a começar a chorar de novo.
“Eu quero que você seja feliz. Mas eu não posso ser o homem que vai
te fazer feliz.”
“E o nosso bebê? Você realmente acha que o bebê será feliz sem
você?”
Durante semanas estive pensando no que fazer com meu futuro. E
hoje eu tomei uma decisão. Era hora de dizê-la em voz alta.
“Eu cuidarei de tudo que você e nosso bebê possam precisar. E eu vou
amá-lo, não importa o quê. Mas acho que nos apressamos com o noivado.
Nenhuma criança pode ser feliz em uma família em que os pais não se
amam.”
Kim ficou quieta.
Então continuei: “Você pode ficar aqui até o bebê nascer. Enquanto
isso, vou procurar um novo lugar para vocês dois. Até lá, vou ficar em um
hotel. Acho que será melhor para nós dois.”
“Você está vendo outra pessoa?”
A questão era previsível. Eu sabia que ela perguntaria.
“Não.” Não era mentira. Eu não estava terminando com Kim, porque
mal podia esperar para namorar Crystal. Para ser honesto, eu não sabia se
poderia acontecer algo entre nós de novo. Tudo o que eu queria era ser
honesto com a mãe do meu bebê e comigo. Nem ela, nem eu, estávamos
prontos para o que o nosso futuro lançaria no nosso caminho. Ela achou que
poderia ser a esposa perfeita. Mas eu não precisava de perfeição. Sempre me
senti irreal de alguma forma, não importava o quanto eu gostasse que o
resultado de todas as minhas operações fossem perfeitos.
Eu estava cansado de promessas vazias e fingimento; só queria ser eu
mesmo novamente.
“Mamãe vai ficar furiosa.”
Eu sorri. “Ela terá mais uma razão para me odiar.”
Kim soltou um longo suspiro e se encostou na parte de trás da cama.
“Podemos esperar para contar aos meus pais a novidade? Pelo menos até eu
estar pronta para contar que eu vou ser mãe solteira.”
“Como quiser.”
“Obrigada. E você não precisa se mudar para um hotel. A casa é
grande o suficiente para duas pessoas morarem e nunca mais se verem.”
“Eu sei. Mas eu quero ficar sozinho por um tempo. Minha vida tem
estado agitada esses dias.”
“Entendo.”
“Fico feliz que entenda. Agradeço.” Me levantei da cama e fui para o
banheiro. Um banho quente era tudo que eu precisava no momento.
“Liam?”
“Sim?”
“Eu sabia que esse dia chegaria, mais cedo ou mais tarde, assim como
essa conversa. Quer ouvir a verdade? Fiquei chocada quando você fez o
pedido. Eu não sabia o que dizer. Uma parte de mim queria recusar, enquanto
outra pensava que não seria o melhor para o bebê crescendo dentro de mim.
Eu aceitei o pedido, pensando tolamente que não mudaria minha vida tanto
quanto mudou. Eu estava errada. Achei que me colocar em um casamento
que você e eu sabíamos que não seria fácil, valeria a tentativa. Mas agora que
conversamos, fico muito aliviada. Eu odiava mentir para mim mesma,
tentando me fazer acreditar que o que estava acontecendo estava tudo bem,
que estava dando certo. E mais uma coisa…” Ela se levantou e foi até mim.
“Eu queria agradecer por tentar consertar o que fizemos sem pensar nas
consequências.” Ela sorriu e colocou a palma da mão na minha bochecha,
dizendo: “Você é um bom homem, Liam Henderson. Mas não meu.”
Eu sorri de volta e lhe abracei. “Tenho certeza de que um dia você
encontrará seu homem, Kim. E eu estarei lá para apoiar você e o bebê, não
importa o que aconteça.”
“Eu sei.”
Deixei-a ir e fui ao banheiro. Tirei as roupas, liguei a água e entrei no
chuveiro. O vapor começou a encher a sala, engolindo o ambiente em suas
nuvens. As gotas de água escorriam pelas minhas costas e meus lados. Com
as palmas das mãos apoiadas na parede do chuveiro, fechei os olhos e deixei
a água tirar minha mente dos meus pensamentos perturbados. Alívio passou
por mim. Pela primeira vez no que parecia uma eternidade, finalmente me
senti livre. Foi um sentimento tão grande, esquecido, mas ótimo. Havia duas
coisas muito importantes que eu precisava fazer. Ambas envolviam Crystal.
Quando a manhã chegou, arrumei minhas coisas e liguei para o hotel para
fazer uma reserva. Kim disse que me manteria atualizado sobre o estado do
bebê e até perguntou se eu queria ir ao próximo ultrassom com ela. Uma
parte de mim queria que as coisas fossem diferentes entre nós. Mas
aparentemente, nós não fomos feitos um para o outro.
No caminho para o trabalho, parei no meu café favorito para tomar
café da manhã. Sentei em uma das mesas perto da janela e liguei para
Kameron.
“O que foi homem?” Ele disse no aparelho.
“Preciso da sua ajuda.”
“O que aconteceu?”
“Você ainda tem amigos na polícia?”
“Tenho. Por quê?”
“Eu quero fazer o porco que tentou ferir Crys, há seis anos, pagar pelo
que ele fez.” Eu duvidava que conseguiria encontrar os outros dois bastardos,
mas, pelo menos, um deles eu tinha que pagar.
“Ela sabe disso?”
“Ela não precisa saber.”
“Então, como você vai encontrá-lo? Você tem um nome?”
“É exatamente por isso que preciso da ajuda dos seus amigos da
polícia. O homem estava no mesmo vôo das Bahamas que Crystal.”
“Você só pode estar brincando… Sabe se ele a reconheceu?”
“Ela disse que não, mas eu não teria tanta certeza disso. O filho da
puta pode ter fingido que ele não lembrava dela. De qualquer forma, você
está comigo nisso?”
“Claro que estou. Acha que devemos contar ao Stanley sobre isso
também?”
“Se o chamarmos, precisaremos contar toda a verdade sobre o que
aconteceu naquela noite. E eu não acho que Crystal vai gostar.”
“Ok, me dê um tempo para fazer algumas ligações. Entro em contato
com você assim que encontrar alguém disposto a nos ajudar.”
“Obrigado, cara.”
Encerrei a ligação e disquei o número da minha secretária para saber
se havia algum compromisso agendado para o início da manhã. Ela disse que
meu primeiro paciente chegaria em cerca de uma hora, então eu tinha tempo
suficiente para terminar meu café da manhã sem pressa.
***
Crystal
Uma dor de cabeça estava me matando e nada parecia ser capaz de
pará-la.
“Acho que preciso de outro analgésico,” esfreguei minhas têmporas e
olhei para Liz, que estava sentada na minha cama, desenhando. Era sábado e
não precisávamos ir trabalhar, mas quando ela tinha um momento de
inspiração, ela não ligava para o dia da semana ou a hora. Ela precisava
colocar a ideia no papel. Ponto final.
“O que você realmente precisa é de um homem capaz de beijar sua
dor,” ela murmurou com os olhos ainda colados no caderno em suas mãos.
Revirei os olhos e chutei o cobertor, com a intenção de pegar o tão
necessário analgésico. “Obrigada pela preocupação. Mas eu estou bem.”
“Se você estivesse bem, não usaria isso…” Ela apontou para o meu
pijama maltratado pelo tempo. “Em uma tarde de sábado.”
“Foi um presente seu de Natal, lembra?”
“Sim, tipo uma vida ou mais atrás.”
“Eu amo ele, então vou guardar, não importa quantos anos tenha.”
Depois da minha conversa de fim de noite com Liam, alguns dias
atrás, sentia que algo havia mudado dentro de mim. Ele era tão terno, tão
carinhoso; quase me esquecia de culpá-lo por arruinar minha vida. Nada
parecia ser capaz de quebrar o acordo de paz tácito entre nós. Era como se
finalmente tivéssemos visto um ao outro por outra perspectiva. Não
estávamos mais obcecados em compensar o tempo perdido; nós
simplesmente deixamos o tempo e a vida decidirem por nós. Talvez nós não
devêssemos ficar juntos, afinal de contas, mas eu queria que ele se libertasse
de qualquer traço de culpa que ainda pudesse sentir por minha causa.
Voltei para o quarto com um copo de água na mão, coloquei-o na
mesa de cabeceira e voltei para debaixo do cobertor. Liz me observou
interrogativamente.
“Quanto tempo exatamente você vai ficar na cama?”
“Não sei. Por quê?”
“Esperava que você fosse à loja de bebês comigo para escolher roupas
novas para Olivia. Ela está crescendo rápido demais.” Ela suspirou. “Às
vezes eu queria poder parar o tempo para aproveitar a idade atual pelo menos
um pouco mais.”
“Por que você e Kameron não pensam em outro bebê?”
Ela riu. “É cedo demais. Não tenho certeza se estou pronta para o
bebê número dois. Depois do que Liv e eu tivemos que passar durante o
parto, estou com medo de engravidar de novo.”
“Sabe de uma coisa? Eu estive pensando em ir ao médico.”
Ela parou de desenhar e fechou o caderno. “Você está com problemas
de saúde?”
“Espero que não. Mas… sempre tive medo de descobrir que não
posso ter filhos.”
“Ah, querida, por que você teria medo disso?” Ela se aproximou de
mim e pegou minhas mãos nas dela.
“Não sei, eu só tenho esse sentimento aqui,” eu disse, apontando para
o meu coração.
“Ou talvez você só esteja sendo paranoica. Pare de dizer bobagem.
Você é uma mulher jovem e saudável, e pode ter quantos filhos quiser. Você
não precisa que um médico repita minhas palavras. Agora, levante-se, tome
um banho e vamos fazer compras. Liv está esperando seu novo guarda-
roupa.” Ela lançou outro olhar a minha e acrescentou: “E eu acho que você
precisa de pijamas novos. Porque usando isso, você não vai deixar ninguém
engravidar, minha amiga. Isso é certeza.”
Nós rimos e eu me forcei a ir ao chuveiro. Não estava com vontade de
sair de casa hoje, mas que opção eu tinha? Com alguém como Liz como
melhor amiga, você nunca pertence a si mesmo, nem no trabalho, nem no seu
dia de folga.
Eu não contei a ela sobre o que aconteceu durante meu voo de volta a
Pittsburg. Liam era a única pessoa que sabia de tudo e eu preferia que as
coisas continuassem assim. Graças a Deus, Stanley não me bombardeou com
um milhão de perguntas quando Liam me trouxe para casa na outra noite.
Embora algo me dizesse, ele tinha perguntas que queria que eu respondesse.
***
Liz e eu estávamos em uma loja de sapatos quando recebi uma
ligação de Trevor.
“Você sabe o que o sono e o sexo têm em comum?” Ele perguntou em
vez de me cumprimentar.
Sorrindo, eu disse: “Esclareça-me, professor.”
“Você nunca se cansa disso e às vezes parece que nunca aconteceu.”
“Você está tendo problemas com sono ou com sexo? Ou com os
dois?”
“Na verdade, eu ia lhe fazer a mesma pergunta.”
“Eu agradeço sua preocupação com o meu sono e minha vida sexual,
mas sexo é a última coisa que eu preciso no momento.” Uma mulher na loja
me lançou um olhar da cabeça aos pés e sorriu. Mesmo depois de tomar
banho e trocar meu pijama por um par de jeans e um suéter branco, eu ainda
não estava com uma aparência melhor do que quando usava o presente de
Liz.
Eu me afastei da observadora e disse no aparelho: “Eu não mudei de
ideia sobre dormir com você, se é isso que você realmente quer saber.”
Um riso silencioso soou do outro lado da linha. “Que pena. Esperava
ouvir que você estava a caminho da minha cama.”
“Desculpe desapontá-lo.”
Um flash em uma tela de TV gigante de uma das paredes do shopping
chamou minha atenção. Trevor estava dizendo algo sobre o quão confortável
era sua cama, mas eu não estava ouvindo. Meus olhos estavam colados à
imagem do homem do avião.
“A polícia de Pittsburgh prendeu Marko Suarez, um conhecido
traficante de drogas na comunidade, também conhecido pelo assassinato de
Dana Berry, de 20 anos, cujo corpo foi encontrado no último verão em um
dos carros que pertenciam a Suarez. Mudando nomes e lugares, ele tem se
escondido da polícia e só agora eles conseguiram prendê-lo, quando ele
estava prestes a deixar o país novamente.”
Minha boca caiu no chão, fiquei chocada ao ouvir a notícia, incapaz
de acreditar em meus olhos e ouvidos.
“Crys, você está me ouvindo?” Trevor perguntou.
“Desculpe, o que você estava dizendo?”
“O que está acontecendo? Você está bem?”
“Melhor do que nunca. Desculpe de novo, tenho que ir. Te ligo mais
tarde. Desliguei o telefone antes que ele pudesse protestar e corri até Liz, que
estava escolhendo novas roupas de cama para Olivia.”
“Você nunca vai acreditar no que eu acabei de ouvir!” eu disse, sem
fôlego. Fiquei chocada ao ouvir que o cara que nunca recebeu nenhuma
punição por me levar até a rua do maldito clube finalmente teve o que
merecia. Eu esperava que ele não conseguisse fugir da punição.
“O que foi?”
“Justiça finalmente foi cumprida! Olha,” apontei para uma das telas
de TV da loja.
“Quem é esse?” perguntou Liz, intrigada.
“É ele – o cara do clube. Aquele que me convidou para dançar, seis
anos atrás.”
Acabou que vê-lo no clube naquela noite não foi por acaso; o irmão
dele era dono do lugar. E a garota cujo corpo foi encontrado no carro do
babaca era namorada. Me perguntei se ela era uma daquelas que ele convidou
para dançar um dia.
Os olhos de Liz se arregalaram. “Só pode estar de brincadeira… Ele é
um traficante de drogas. Você sabia disso?”
“Como eu saberia?”
“Filho da puta. Bem feito.”
“De fato.” Eu olhei para a foto do bastardo que eu cordialmente
odiava e senti vontade de abraçar quem o algemou.
“Nunca pensei que ia dizer isso, mas Deus abençoe a polícia!”
Liz passou um braço ao redor dos meus ombros e disse em uma voz
travessa: “Agora que o mal foi derrotado, nada deve impedi-la de encontrar
um namorado de verdade. Ou fazer uma visita sexy ao seu ex gostosão.”
“Cala boca. Tenho outros planos para o futuro próximo.” Falando em
fazer uma visita sexy a alguém, de repente, eu quis compartilhar a notícia
com mais uma pessoa. “Eu preciso fazer uma ligação,” eu disse a Liz.
“Claro, vai. Preciso comprar mais algumas coisas antes de irmos
comer.”
Saí da loja e liguei para o número de Liam. Só ele estava fora de área
e fiquei um pouco para baixo por não conseguir falar com ele.
Esperei que Liz terminasse de fazer compras e depois fomos ao café
em frente à loja que tínhamos acabado de sair. Tentei ligar para Liam de
novo. E mais uma vez, ninguém além da caixa postal atendeu minha ligação.
“É isso,” disse Liz, batendo o garfo contra o prato. Eu nem olhei para
a comida, ainda morrendo de vontade de falar com Liam. “Para quem na terra
você está ligando?”
Eu olhei para ela arrependida e sorri. “Desculpa. Mas é importante.”
“Desde quando Liam se tornou mais importante do que jantar com sua
melhor amiga? Estou esquecendo de algo?”
Olhei em volta, com medo que alguém a ouvisse pronunciar esse
nome na minha presença. Como se eu fosse uma criminosa escondendo um
cadáver no meu porta-malas e Liam fosse meu parceiro de crime.
“Aconteceu uma coisa alguns dias atrás…” E então eu contei a ela
sobre o meu voo louco das Bahamas e tudo o que se seguiu.
“Por que diabos sou a última pessoa a saber disso?”
“Eu sabia que você ficaria preocupada comigo e eu não queria
incomodar com meus problemas.”
“Me incomodar com seus problemas? Você está falando sério agora?”
Ela pareceu ofendida.
“Não é algo que eu goste de falar.”
“Mas você contou a Liam.”
“É diferente.”
“Certo.” Ela pegou um guardanapo e limpou os cantos de sua boca.
Olhei para o telefone nas minhas mãos. Se o telefone de Liam estava
desligado, talvez eu pudesse encontrá-lo em casa? Eu estava a cerca de vinte
minutos de distância de onde ele morava. E se ele estivesse ocupado? Ou em
um encontro? Ou não quisesse mais me ver?
Liz rosnou, observando minha luta mental. “Vai. Eu cuido da conta.”
Eu sorri. “Obrigada!” A decisão de ir para a casa de Liam foi tomada
em instantes. Eu a beijei na bochecha e corri para fora do café.
Entrando no carro, liguei o rádio, achei minha estação favorita e liguei
o motor.
O caminho para a casa de Liam demorou um pouco mais do que o
esperado. O engarrafamento estava uma loucura e eu xingava toda vez que
outra rua ficava vermelha. Era como se alguém não quisesse que eu chegasse
ao meu destino. E talvez, se eu escutasse meu sexto sentido, eu não sentiria
vontade de socar alguém na cara uma hora e meia depois.
Estacionei o carro perto da casa e subi a escada da varanda. Toquei a
campainha e esperei impacientemente que Liam abrisse a porta.
Mas não foi ele que vi na porta.
“Posso ajudá-la?” Uma garota do desfile que eu vi sentada na
primeira fila ao lado de Liam algumas semanas atrás, sorriu para mim.
Kimberly, esse era o nome dela até onde eu lembrava.
Uma parte de mim já sabia que era uma má ideia fazer uma visita
inesperada a Liam.
Limpei a garganta e disse: “Estou procurando por Liam. Ele está em
casa?”
O reconhecimento cruzou o rosto da garota. “Ah, você deve ser a
Crystal, do The Riot Design Studio, certo? Eu te vi no desfile de moda.”
“Sou eu mesma.”
Ela falou antes que eu pudesse explicar o motivo da minha visita
“Liam esqueceu de pagar pelos vestidos que pedi depois do show? Eu
precisaria esperar mais seis meses para usá-los, mas não consegui me
controlar. Eu sempre fui louca pelos designs de Elizabeth.” Ela esfregou a
barriga redonda e sorriu brilhantemente. “É o começo do meu segundo
trimestre. Eu mal consigo esperar para sentir o bebê chutando.”
Meus olhos seguiram os dela e como se em um filme em câmera
lenta, as peças de um quebra-cabeça que eu não consegui montar por um
longo tempo começaram a assumir seus lugares, uma por uma.
“Eu não sei nada sobre seus vestidos.”
Ela olhou para mim, intrigada. “Ah… Eu achei que…”
“Eu precisava falar com Liam sobre outra coisa, na verdade.”
Quanto mais eu conversava com ela, mais rápido meu desejo de vê-lo
morria. Nunca mais.
“Parabéns,” eu disse finalmente, apontando para o motivo do meu
súbito desejo de fugir para o mais longe possível.
“Obrigada. Liam e eu estamos tão animados em nos tornar pais.”
Um caroço se formou na minha garganta. “Aposto que sim.” Me virei
para sair.
“Espera! Você quer deixar uma mensagem para Liam? Eu passo para
ele.”
“Não. Obrigada. Não era importante de qualquer maneira.” Não tão
importante quanto o fato de que o amor da minha vida estava prestes a ter um
bebê com outra mulher e eu era a última pessoa no mundo a descobrir sobre
isso.
Algo dentro de mim esmagou, fazendo as cores do ambiente se
misturarem em uma mancha preta. Me perguntei se a coisa esmagada era meu
coração. Eu tinha certeza de que ele estava quebrado há muito tempo.
Acontece que agora eu percebi que nunca tinha estado mais quebrado do que
agora…
Capítulo dezessete
Onde um buraco de vazio crescia até o tamanho da lua, a esperança
costumava viver. Um pequeno brilho que morreu no momento em que
percebi que meu sonho agora pertencia a outra pessoa. Não havia mais nada
pelo que lutar, nada em que se segurar. Muitas vezes eu dissera adeus ao meu
sonho, mas esta vez estava prestes a ser a última.
Com os dedos trêmulos, estendi a mão para uma caixa azul – a
guardiã dos meus segredos – na parte de trás da minha estante. Eu não a abri
durante anos, com muito medo de ver os fracassos da minha vida me
encarando.
Um pequeno caderno de veludo, coberto de uma escrita infantil; fotos
dos lugares que eu queria ver e os desenhos do vestido de noiva que eu queria
usar no meu grande dia; uma coroa de princesa do meu décimo sexto
aniversário; pétalas de rosas cor-de-rosa que costumavam crescer no jardim
dos meus avós; fotos minhas e de Liz no acampamento de verão; a corrente
com pingentes com as letras do meu nome, que fora o presente de Liam no
meu aniversário estragado; e, finalmente, no fundo da caixa havia uma foto
que com a qual eu costumava dormir e acordar – uma foto do cara que eu
amava e odiava tanto que doía.
Sentei-me na cama e olhei para o príncipe encantado de um conto de
fadas que nunca se tornaria realidade. Por que era tão difícil deixar meus
sentimentos por ele irem? Por que tudo o que ele fazia me afetava tanto? Por
que todas as palavras que ele dizia atravessavam meu coração, fazendo-o
trepidar como asas de uma borboleta assustada pronta para queimar até virar
cinzas nas chamas do fogo ardente?
Nunca fez sentido…
Me inclinei contra o cobertor na cama e olhei para o teto. Lá, no topo
da minha vida sem esperança, havia uma luz. Tão longe, tão perto. Eu
gostaria de poder estender a minha mão e puxá-la mais para perto, para senti-
la me abraçando em seu calor e me dando uma nova esperança.
Esperança… Toda vez que eu pensava que algo estava prestes a se
tornar mais do que apenas outro fruto da minha imaginação, algo acontecia e
me afastava do que parecia estar na palma da minha mão.
O que Liam e eu tivemos… Foi um jogo sem fim; um jogo de dor
agridoce e ecstasy tóxico. Dois poderiam jogar, mas apenas um de nós
sempre seguia as regras, enquanto o outro seguia o chamado do coração –
uma pequena coisa que levou a grandes confusões. E considerando que as
regras sempre me odiavam e isso era mútuo, eu era a idiota cujo coração se
achava todo-poderoso. Quando, na verdade, era a coisa mais fraca do mundo.
Uma batida suave na porta me trouxe de volta ao aqui e agora.
Stanley entrou no quarto e sorriu: “Eu achei que você poderia querer
conversar.”
Sentei na cama e dei um tapinha no lugar ao meu lado. Ele caminhou
até a cama e se sentou, envolvendo um braço ao meu redor.
“Como foi seu dia?” Ele fez sua pergunta favorita. Era a primeira
coisa que ele perguntava sempre que queria falar sobre algo importante.
“Perfeito e terrível.”
Ele sorriu. “O que Liam fez desta vez?”
Eu olhei para ele, incerta de como reagir à sua pergunta. “Por que
você acha que a parte terrível tem a ver com Liam?”
“Sempre foi assim.” Ele olhou para trás; os olhos cheios de
compreensão e preocupação.
“Você sabia?”
Ele assentiu em resposta. “Eu tenho olhos, sabe? Eu sempre soube
que havia algo entre vocês dois. Fiquei fora disso, porque achei que você
fosse madura o suficiente para resolver qualquer problema que tivesse. Mas
até onde posso ver, você é ainda mais incorrigível do que eu poderia
imaginar.”
Eu sorri tristemente. “Isso é tão óbvio?”
“Você o ama?”
Suspirei. “Eu faria qualquer coisa para me forçar a parar de amá-lo.”
“Você sabe do bebê, não é?”
Mais uma vez, fiquei surpresa com o nível de consciência do meu
irmão. “Como diabos você sabe disso?”
Ele me puxou para perto de seu peito e sussurrou: “Sendo o irmão de
uma das garotas mais bonitas do mundo, é meu trabalho saber o que a
incomoda. Ele contou sobre o bebê?”
“Não. Eu precisava falar com ele e fui até sua casa. Ele não estava lá,
mas conheci a namorada dele.”
“Ela não é mais namorada dele.”
“O quê?”
“Eles terminaram há alguns dias, ou para ser exato - na noite em que
vi vocês dois se beijando no carro.”
“Caramba…”
Senti minhas bochechas ficarem vermelhas. Agora eu sabia por que
Stanley nunca fez perguntas sobre as coisas que envolviam Liam. Ele sabia as
respostas.
“Desculpe, eu não quis te envergonhar. Mas a mamãe disse que o
carro do Liam estava estacionado na garagem e saí para ver o que ele queria.
Então te vi sentada no carro…”
“Você sabe que eu te amo, certo?”
“Mas você nunca odiou tanto ter um irmão mais velho do que agora,
certo?”
Eu ri, ainda sentindo minhas bochechas queimando. “Isso é tão
constrangedor.”
“Você tem idade suficiente para fazer o que quiser, mana, com quem
quiser. E Liam não é a pior opção. Ele é um cara legal, apesar do que todo
mundo pensa sobre ele. Sim, ele costumava se apaixonar por uma garota
nova a cada semana, mas não era nada. Porque toda vez que ele passava da
entrada desta casa, seus olhos procuravam você, mesmo que tivesse vindo me
ver.”
Lágrimas cegaram minha visão.
“Eu não sei o que fazer,” eu sussurrei. “Estou tão perdida, Stanley.”
Ele beijou minha cabeça, mas não disse nada.
“Por que ele terminou com Kim?”
“Por que você não pergunta isso a ele?”
“Não posso.”
“Ou não quer?”
Dei de ombros. “Ambos, eu acho.”
“Que desta vez seja a primeira e a última vez que lhe digo o que fazer,
mas acho que você precisa falar com ele. Você não é a única pessoa que está
sofrendo agora. Ele também está. Ele está morando em um hotel, trabalha
como um louco e eu juro que nunca vi meu amigo tão triste. Está
acontecendo alguma coisa com ele, Crys. Você não quer ir e descobrir o que
é?”
“Você realmente acha que é uma boa ideia?” Há alguns minutos, eu
tinha certeza que não queria ver Liam nunca mais.
“Pelo menos uma vez, faça o que eu estou dizendo, mana.”
Agora que eu sabia o que aconteceu entre ele e Kimberly, muitas
coisas começaram a fazer sentido. Começando pelo comportamento estranho
dele durante os últimos meses até as palavras que ele disse alguns dias atrás.
Às vezes não conseguimos decidir o que realmente importa até que
tudo fique no lugar e começamos a ver a diferença entre o que temos e o que
poderíamos ter.
Ele parecia ter tomado uma decisão que não conseguira fazer durante
muito tempo. Ele sabia o quanto crianças significam para mim. Ele sabia que
eu nunca diria a ele para abandonar seu filho por mim. Assim como ele sabia
que eu nunca ousaria ficar entre ele e o bebê. Mas agora que ele tinha uma
solução e sabia exatamente o que fazer em seguida, era minha vez de tomar
uma decisão.
“Ok, vou falar com ele na segunda-feira,” eu disse para Stan.
Ele assentiu com aprovação. “Espero que vocês se entendam. É o
momento certo para isso.” Ele beijou minha testa de novo e se levantou para
sair do quarto.
“Stan, espera.” Eu conhecia meu irmão muito bem para acreditar que
ele começou essa conversa simplesmente porque achou que eu precisava de
alguém para me ouvir. “Você está indo embora, certo?”
“Eu queria compartilhar a notícia depois que a remodelação da casa
do lago acabasse, mas já que você perguntou… Sim, vou em algumas
semanas.”
“Que bom. Fico feliz por você ter aceitado a oferta. É o que você
sempre quis.”
“Obrigado, mana. Eu vou sentir sua falta.”
“Não é como se você estivesse se mudando para outro planeta, certo?
Agora saia daqui antes que eu comece a chorar e implore para você ficar.”
Rindo, ele abriu a porta e disse: “Pelo menos eu não vou mais espiar
seus namorados.”
“Graças a Deus!”
***
Liam
A mulher estava fora da si completamente.
Respirei fundo e o mais calmamente possível, eu disse: “Sra. Winters,
se deixarmos seus seios maiores, eles vão se explodir.”
“Mas eu quero que sejam maiores! É pedir muito?”
“Neste caso, sim! Primeiro, porque não fará bem para o seu corpo. É
perfeito e não precisa de mais uma modificação cirúrgica. E segundo, como
eu disse, deixar seus seios maiores do que estão agora complicará
significativamente sua vida. Acredite em mim, seu marido não vai cancelar o
divórcio, mesmo que você coloque mais silicone em tudo que pode ser
mudado com sua ajuda mágica.”
“Como você se atreve!” Ela pegou sua bolsa e correu para fora do
escritório, batendo a porta atrás de si.
“Tenha um bom dia,” eu murmurei, olhando para a porta fechada.
Fui até minha mesa e sentei na cadeira. Não era nem meio-dia ainda e
eu estava cansado pra caramba. Tudo o que eu queria agora era voltar para o
meu quarto de hotel, dormir e acordar no próximo ano. Talvez assim eu me
sentisse mais ou menos vivo de novo.
Meus dias tinham sido um inferno. Quanto às minhas noites, não
foram muito diferentes. Com os olhos bem abertos, eu ficava deitado na cama
por horas, tentando adormecer com a cabeça zumbindo pela quantidade de
pensamentos perturbadores que passavam pela minha mente. Só conseguia
dormir quando estava exausto, incapaz de sentir meu corpo. Minha mente
desligava e se a sorte sorria para mim, eu conseguira dormir por mais ou
menos três horas. Então acordava de novo e me odiava por acordar no meio
da noite. As 3 horas da madrugada se tornou meu compromisso de todas as
noites. Sério, eu precisava terminar esse relacionamento nada romântico.
Estava muito perto de desistir de dormir e mudar meu horário de trabalho
para consultas noturnos. Talvez por isso eu tenha agido como um idiota e me
recusei a realizar o desejo louco da Sra. Winter. Sem dúvida, ela ia pedir para
o meu pai me demitir. Não que ele fosse ouvir, é claro. Diferente da minha
capacidade de amadurecer com a idade, ele nunca duvidou do meu talento
como cirurgião.
Eu bocejei e olhei para o relógio. Tinha mais quinze minutos antes da
minha próxima consulta. Apertei o botão do intercomunicador e pedi à
secretária que me trouxesse outra xícara de café, que acabou sendo minha
sexta esta manhã.
“A senhorita Burk está aqui para ver você. Vai recebê-la agora?” Lea
disse, colocando a xícara na minha mesa.
O quê? Crystal estava na sala de espera? “Sim por favor. Peça para
entrar.”
Levantei-me e fui receber minha visita inesperada.
“Crystal, que surpresa. Por favor, entre.” Fechei a porta atrás dela e
disse: “Espero que esteja tudo bem? Você está se sentindo bem?”
“Estou bem. Vim aqui falar com você.” Ela se sentou em uma das
cadeiras. Eu me inclinei contra a minha mesa e esperei que dissesse o motivo
da sua visita. “Eu sei sobre o bebê…”
Merda…
“Quem te contou?”
“Eu fui à sua casa e encontrei a Kim lá.”
Merda em dobro…
“Ela e eu… Não estamos mais juntos.”
“Eu sei. Stanley me contou que você terminou com ela. Foi por minha
causa?”
“Eu fiz o que era a coisa certa a se fazer. Eu não vou ser um daqueles
pais de domingo que pensam que enviar presentes e levar os filhos para tomar
sorvete uma vez por semana está bom. Eu estarei lá o máximo que puder.
Mas voltar para casa todas as noites e dormir com alguém que eu não amo – é
algo que eu não posso fazer. Eu quero passar minhas noites com a mulher
sem a qual eu não consigo imaginar minha vida…”
Seus olhos castanho-escuros se arregaram. Ela limpou a garganta e
desviou o olhar por um momento.
“Talvez você esteja certo e nós precisamos estar com aqueles sem os
quais não conseguimos imaginar nossas vidas. Mesmo que às vezes pareça
muito irreal para acreditar.”
Ela se levantou e andou até mim. Sem palavras, ela envolveu seus
braços ao meu redor e eu senti como se tivesse sido levado para o céu:
caloroso, acolhedor e pacífico. Eu gostaria de poder estender o momento,
apenas para segurá-la em meus braços por mais um pouco. Ela era a única
pessoa capaz de acalmar a tempestade no meu coração. Quando estava com
ela, não havia nada que se preocupar ou temer. Quando ela estava tão perto
de mim, meu mundo se reduzia ao aqui e agora, com ela. Nada mais
importava.
“Eu sinto muito, Liam…”
“Pelo quê?”
“Por não ser capaz de te fazer feliz.”
“O quê?” Eu coloquei seu rosto em minhas mãos e balancei a cabeça;
não conseguia acreditar no que ela estava dizendo. “Você é a única pessoa
que me faz feliz. A única razão que me faz acordar de manhã e encarar um
novo dia. Eu estaria perdido sem você.”
“Talvez se nunca tivéssemos nos conhecido, as coisas seriam muito
mais fáceis.”
“É um pouco tarde para pensar nisso. Não acha?”
Eu a puxei mais para perto do meu peito. Era tão injusto eu deixá-la ir
toda vez quando eu não queria nada além do que mantê-la só para mim.
Ela era a faísca da chama dentro de mim. Sem ela, não havia nada
para me manter queimando. Eu nunca poderia deixar alguém entrar tão
profundamente no meu coração e na minha mente. Ela tinha as minhas
chaves. Ela era a única pessoa que sabia abrir a porta que havia sido trancada
para qualquer pessoa, exceto ela. E por trás disso, havia minha alma e ela a
possuía.
“O que fazemos agora?” Ela perguntou após uma breve pausa.
“O que você gostaria de fazer?”
“Eu gostaria de ir à praia de novo.”
Eu sorri. “Parece bom. Vai me levar com você?”
“Não. Mas vou deixar você fazer algo por mim.”
Ela se moveu um pouco e me olhou nos olhos. “Eu estava pensando…
Você ainda quer me ajudar a me livrar da cicatriz?”
Eu não conseguia acreditar nos meus ouvidos. “Você quer que eu te
opere?”
“Na verdade, esperava que seu pai concordasse em fazer isso. Mas
quero que você esteja lá também. Sabe, para garantir que tudo corra bem.”
“Ah, Crystal… Essa é a melhor coisa que você poderia ter me dito.
Claro que estarei lá para apoiar você. Eu não conseguiria ficar longe da
cirurgia, mesmo que me amarrassem na minha mesa.”
Um fantasma de sorriso tocou seus lábios. “Obrigada. Eu devia ter
feito isso há muito tempo. Talvez se eu não tivesse nenhum lembrete visível
daquela noite terrível, minha vida teria sido muito melhor.”
“É exatamente por isso que quero ajudá-la. A propósito, por que você
foi à minha casa no outro dia?”
“O homem do avião… Ele foi preso. Você consegue imaginar isso?
Depois de todo esse tempo, ele finalmente teve o que merecia.”
“Sim…”
“Você não parece surpreso em saber da notícia.” Suas sobrancelhas se
franziram. “Você teve alguma coisa a ver com a prisão?”
“Eu?” Eu soprei. “Eu sou um cirurgião plástico, não um policial,
lembra?”
Eu ainda conseguia ler uma suspeita nos seus olhos.
“Certo.” Ela me lançou outro olhar pensativo. “Enfim, para quando
você acha que podemos agendar a operação?”
“Para isso, vou precisar examinar sua cicatriz e falar com meu pai.”
Eu olhei para o relógio na parede. “Tenho uma consulta em dentro de alguns
minutos. E depois outra. Que tal você voltar amanhã de manhã? Meu
primeiro paciente não vai chegar até as 10h. Teríamos muito tempo para
discutir a operação.”
“Parece bom. Vejo você amanhã então.” Ela ficou na ponta dos pés e
me beijou na bochecha.
Deus, eu queria beijá-la de verdade; parar de fingir que não éramos
nada além de velhos amigos e dizer o quanto ela ainda significava para mim.
“Obrigado,” eu disse, andando até a porta.
“Pelo quê?”
“Por não me julgar. Eu sei o quanto você ama crianças e eu juro que
serei o melhor pai do mundo, mesmo que eu não me case com Kim.”
Sombras de tristeza cruzaram seu rosto. Eu sabia o que ela estava
pensando. Eu abriria mão de muita coisa para ver ela tendo todos os meus
bebês.
“Julgar as pessoas não é justo. A menos que você seja Deus e nunca
tenha feito nada que os outros possam julgar.”
Com a palma da mão, toquei sua bochecha e a acariciei suavemente.
“Farei o possível para corrigir tudo o que fiz de errado. Prometo.”
Não era apenas sobre a cicatriz na barriga dela. Eu queria vê-la feliz,
verdadeiramente feliz. E, para isso, eu estava pronto para fazer absolutamente
qualquer coisa que estivesse em meu poder.
Capítulo dezoito
Crystal
Entrei no quarto do meu pai, segurando uma xícara de chá com limão
em minhas mãos. Eu ainda não conseguia me acostumar a vê-lo em uma
cadeira de rodas. Na minha opinião, ele ainda era o homem que costumava
ser há cinco meses – forte e cheio de energia vital.
“Ei,” eu disse, beijando-o na bochecha. “Como você está se
sentindo?”
Ele colocou o jornal que estava lendo de lado e sorriu gentilmente.
“Eu estou bem, querida. Não há nada com que se preocupar.”
“Você tomou seus remédios?”
“Sim.”
“Comeu bem?”
“Sim.”
“Quer alguma coisa além de chá?”
“Não.”
“Sério, pai, você é a pessoa mais fácil do mundo de se lidar.”
Ele riu. “Então quem é a mais difícil?”
Suspirei e sentei em uma cadeira de frente para ele.
Segurando uma xícara de chá nas mãos, ele disse: “Eu sei que algo
está incomodando você, Crystal. E tenho certeza de que não se trata apenas
do meu estado atual. O que está acontecendo?”
“É uma longa história…”
“Eu tenho muito tempo para ouvi-la.”
“Talvez da próxima vez. É melhor me dizer, você quer ver como
estão indo as reformas da casa do lago?”
“Tenho certeza que você e Stanley estão fazendo um ótimo trabalho.
Sua mãe e eu estamos pensando em nos mudar para lá.”
“O quê? Por quê? Esta casa é grande o suficiente para todos nós.”
“Sim, mas Stan está indo para Washington, e você está grande o
suficiente para viver sua própria vida, ter sua própria família e ser livre para
fazer o que quiser.”
“Não que morar com vocês já tenha me impedido de fazer o que eu
quisesse. Além disso, eu odeio ficar sozinha. Estou acostumada a grandes
jantares em família e caos na casa. Vou ficar louca morando aqui sozinha!
Além disso, você sabe o quanto eu odeio o escuro. Lembra daquele urso de
pelúcia que me matou de susto? Bem, nada mudou desde então – eu ainda
acredito em fantasmas morando embaixo da minha cama.”
“É exatamente por isso que sua mamãe e eu pensamos que era hora de
sairmos. Talvez se você encontrar um cara legal para protegê-la desses
fantasmas imaginários, a escuridão não parecerá mais tão assustadora.”
Eu fiz uma careta. “É fácil falar. Os caras hoje em dia são covardes.
Aposto que nem usam chinelos em casa.”
“Talvez se você deixar pelo menos um deles se aproximar o
suficiente, mudará de opinião.”
Eu revirei os olhos. “Duvido. Mas vou tentar.”
“Bom.” Ele sorriu. “Tem certeza de que não há nada que você
gostaria de me contar?”
“Positivo.” Levantei e lhe dei um beijo de boa noite. “Durma bem.
Você quer que eu o ajude a entrar na cama?”
“Não, eu estou bem. Vou ler um pouco mais.”
“OK.”
Deixando o quarto, esbarrei em Stanley.
“Como ele está?” Ele perguntou, acenando para a porta fechada atrás
de mim.
“Bem. Pelo menos é o que ele continua dizendo.”
“Eu conversei com o médico hoje e sabe de uma coisa? Ele disse que
há uma pequena chance de ver o papai andando de novo.”
“Mesmo?”
“Ele disse que há um novo tratamento terapêutico para pessoas com
os mesmos problemas que ele tem. Pode levar meses ou até um ano antes de
vermos quaisquer mudanças positivas em seu estado. Mas vale a pena tentar
de qualquer maneira, certo?”
“Com certeza! Você falou sobre isso com o papai?”
“Ainda não. Primeiro, os médicos precisam fazer alguns testes
adicionais.”
“Papai disse que ele e mamãe querem se mudar para a casa do lago.
Você acha que é uma boa ideia?”
“Eu não vejo porque não. Ar fresco certamente lhe fará bem. Além
disso, você sabe o quanto ele gosta da casa. Ele sempre disse que queria
morar lá.”
“Eu sei, é só que… Não consigo me imaginar morando aqui sozinha.
Parece errado, de alguma forma.”
Stanley sorriu e disse: “Tenho certeza de que há, pelo menos, uma
pessoa que você e eu conhecemos e que ficaria feliz em dividir esse lugar
com você.”
“Liz é casada, lembra?”
“Você sabe que não é dela que estou falando.”
“Não é uma opção.”
“Por que não?”
“Porque somos amigos e…”
“O beijo que eu testemunhei na outra noite dizia algo completamente
diferente.”
“Ugh, você não vai deixar este assunto de lado, vai?”
“Você falou com ele?”
“Sim, falei.”
“E?”
Fiz uma pausa antes de contar a Stan a notícia sobre a operação. “Eu
decidi remover a cicatriz.”
Ele passou uma mão pelos cabelos e eu vi lágrimas brilharem em seus
olhos. Era um momento tão raro ver a fraqueza do meu irmão, mas eu sabia
quanta força havia por dela.
Ele me puxou para seus braços e me abraçou com força. Ele ainda se
sentia culpado por me ouvir seis anos atrás e me levar para a casa do lago em
vez do hospital. Ele pensava que fora sua culpa o corte ter se transformado
em uma feia cicatriz. Eu sabia que ele queria que eu removesse isso há muito
tempo.
“É a melhor notícia que você poderia ter me dado, mana. Você quer
que Liam faça a operação?”
“Não. Eu pedi que o pai dele fizesse. Sei que Liam provavelmente
ficaria nervoso demais para me tocar. Mas quero que ele esteja presente
durante a operação.”
“É uma ótima ideia. Tenho certeza que pai dele fará o melhor para
deixar a cicatriz quase invisível. Sinto muito por não ter conseguido fazer
isso sozinho.”
“Não diga isso. Você fez um ótimo trabalho. Eu que fui muito
teimosa para te ouvir.”
Ele esfregou minha bochecha e disse: “Eu estarei lá também. Não na
cirurgia, mas na sala de espera.”
“Obrigada. Você sabe o quanto eu odeio hospitais.”
“Vai dar tudo certo.” Ele me deu outro abraço e então eu fui para o
meu quarto, muito animada com a consulta de amanhã para ter sequer uma
piscadela de sono. Seria uma das noites mais longas da minha vida.
***
“Eu não posso acreditar que estou fazendo isso,” eu disse, tirando a
blusa. Eu estava de pé atrás da tela dobrável no escritório de Liam e ele não
podia me ver.
Ele falou do outro lado da tela: “Ao que você está se referindo
exatamente – se despir ou aceitar fazer a operação?” Eu não conseguia ver o
rosto dele, mas sabia que ele estava sorrindo.
“Ambos,” eu respondi.
“Me avise quando estiver pronta.”
Eu respirei fundo e caminhei para trás da tela. “Pronto.”
Seus olhos deslizaram pelo meu peito, parando por um momento no
meu sutiã preto e depois na cicatriz. Eu juro que começou a formigar no
momento em que seu olhar focou nela.
Como se sentisse o meu mal-estar, Liam disse: “Relaxe. Não vai
demorar. Eu só preciso tirar algumas fotos, se você não se importa.”
“Não me importo.”
“Ok.” Ele pegou uma câmera e me disse para virar para a luz. Depois
que as fotos foram tiradas, ele examinou a área ao redor da cicatriz, fez
algumas anotações e depois disse: “Você deve saber que removê-la
completamente não é possível. O corte foi bem profundo. Mas após a
operação, a cicatriz será menos visível, o tom de pele do local lesionado será
quase igual ao resto da pele da barriga, e a superfície do ponto ferido será
muito mais suave. Se não ficar satisfeita com o resultado, depois de algum
tempo, podemos tentar tratamentos adicionais para diminuir a visibilidade da
cicatriz. Você tem alguma pergunta?”
“Por quanto tempo vou ficar inconsciente depois da cirurgia?”
“Algumas horas. Isso ainda te incomoda?”
“Um pouco.”
Ele sabia exatamente do que eu tinha medo.
“Vai ficar tudo bem. Confie em mim.”
“Posso me vestir agora?”
Seus lábios se curvaram em um sorriso malicioso felino. “Se você
quiser…”
“É uma consulta, doutor. Não um encontro.” Voltei para trás da tela e
peguei minha blusa pendurada em uma cadeira.
“Então, que tal você ir em um encontro de verdade comigo?”
Eu fiquei feliz por ele não poder ver meu rosto no momento. Tinha
certeza de que tinha se iluminado como uma árvore de Natal com o mero
pensamento de ir a um encontro com ele.
“Achei que você tinha desistido de me convidar para sair.”
“Existe uma alta probabilidade de que eu nunca vá parar de tentar.”
Depois de me vestir, peguei minha bolsa e fui enfrentar o médico
novamente. “Acho que não é uma boa ideia,” eu disse.
“Por quê?”
“Nós dois sabemos porquê.” Abaixei os olhos, incapaz de olhar para
ele. Dizer que eu estava com ciúmes de Kim por ter seu bebê era um
eufemismo. Toda vez que eu pensava nisso, queria morrer.
Liam se aproximou de mim, pegou minha mão e entrelaçou nos meus
dedos, dizendo: “Talvez eu não possa mudar meu passado, mas não vou
deixar isso afetar meu futuro. Ou o seu.”
Um bebê ia mudar muito e Kim sempre seria parte da vida dele, não
importa quantas mulheres ele namorasse ou casasse depois dela.
“Eu tenho que ir,” eu disse. Eu não queria continuar esta conversa,
não no momento.
“Tudo bem.” Eu podia sentir a decepção de Liam. Ele não queria que
eu fosse embora. Talvez ele quisesse que eu dissesse que apesar de tudo,
havia uma chance de ficarmos juntos de novo. Mas, neste momento, eu não
podias prometer nada. Para ser honesta, eu duvidava que algum dia me
acostumasse a dividi-lo com outra mulher, que não era qualquer mulher, e
sim, a mãe de seu primeiro filho.
Eu olhei para as nossas mãos juntas, imaginando se havia uma
maneira de fazer as coisas darem certo entre nós.
“Quando é minha próxima consulta?”
Estávamos perto demais para respirar livremente, sem aquela
sensação familiar de que eu estava sem ar, excitada demais para estar com ele
novamente, ainda assim, com muito medo de ir embora e nunca mais vê-lo.
“Vou mostrar as fotos que tirei para o meu pai. Ele vai estudá-las e
depois marcar uma consulta. Ele vai olhar para a cicatriz de novo e falar mais
sobre a operação. Se tudo correr bem, vamos agendar a operação para a
próxima semana. O que você acha?”
“Próxima semana?” Meu coração fez um salto duplo.
“Muito cedo?”
“Sim. Não.” Eu ri. “Desculpe, estou um pouco nervosa.”
“Tudo bem. Eu entendo.”
Eu olhei nos olhos dele e sorri. “Obrigada por tudo. Acho que eu
jamais concordaria com a operação se eu não soubesse que você estaria lá.”
“É apenas uma pequena parte do que eu devo a você.” Ele se inclinou
para frente e colocou um pequeno beijo em meus lábios. Não havia nada de
apaixonado nele, mas meu corpo inteiro tremeu em resposta.
“Vejo você mais tarde,” eu disse, esperando não desmaiar no meio do
escritório. O beijo prometia ser meu único pensamento pelo resto do dia.
Isso não é bom. Não é nada bom.
“Você está indo para o estúdio agora?” Liam perguntou.
“Sim, porquê?”
“Por nada. Apenas uma manobra para descobrir seus planos para o
dia.”
Ele me acompanhou até a porta e me desejou um bom dia.
Murmurei algo em resposta e corri para fora da sala de espera,
morrendo de vontade de respirar um pouco de ar fresco. A tensão entre nós
era óbvia demais para ignorar. Mesmo que não estivéssemos nos beijando ou
tentando tirar as roupas um do outro, pensamentos sobre fazer isso nunca
saíam da minha mente. E não importa quantas vezes eu dissesse a mim
mesma que não o queria, ele era o único homem no planeta que eu ansiava de
corpo e alma.
***
“Conte de dez a um,” disse Derek, o pai de Liam, quando o
anestesista colocou uma máscara no meu rosto.
Virei a cabeça ligeiramente para a direita, onde eu sabia que Liam
estava de pé. Seu rosto estava meio coberto por uma máscara, mas seus olhos
eram tudo que eu precisava ver. Havia muito amor em seu olhar, senti como
se estivesse me afogando nele.
“Dez, nove, oito, sete… Seis… Cinco…” Uma nuvem de fumaça rosa
suave me engoliu. Eu me senti tão leve, como se eu fosse uma nuvem
também, voando para mais e mais longe da minha dor.
Não havia mais ninguém ao meu redor, apenas eu e o vento. Eu não
conseguia lembrar a última vez que me senti tão bem. Eu poderia correr
através do tempo e do espaço, ser quem eu quisesse, cantar, dançar, sem
nunca pensar no motivo do meu sonho mágico.
Eu estava presa atrás da máscara de alguém que eu nunca quis ser por
tanto tempo. Era minha escolha, meu refúgio. Todos achavam que eu era
forte e corajosa, mas poucos conheciam o meu verdadeiro eu. Eu estava bem
com isso. Até o momento que percebi o quão cansada eu estava de fingir. Eu
não queria mais fingir. Como a água lava a tinta de uma tela, eu queria que
alguém desenhasse uma nova imagem minha, tirasse a minha dor e
silenciasse meus demônios internos. Estar adormecida de repente me deu
uma sensação de alívio, como se eu não tivesse dormido por anos.
A névoa ao meu redor começou a clarear, revelando uma linda
cachoeira, flutuando em ondas suaves. Gotas prateadas caíam no rico oceano
azul, cantando uma canção que só meu coração conseguia entender. Era um
lugar onde as fadas viviam.
Fiquei admirada, cada passo me aproximava da água rugindo.
Quando eu estava prestes a dar outro passo à frente, alguém me puxou
para trás, envolvendo os braços firmes ao meu redor.
“Fique comigo,” a voz familiar disse em meu ouvido.
Eu me virei, mas não vi o rosto da pessoa que eu esperava ver atrás de
mim.
Eu olhei para a cachoeira novamente, mas não parecia mais segura ou
mágica. Toneladas de água caíam sobre rochas grandes o suficiente para
transformar meus ossos em um punhado de cinzas. Do topo da colina, a
profundidade do oceano parecia implacável e aterrorizante. Um passo à frente
e me levaria embora.
Comecei a recuar até a cachoeira não mais ser visível; agora havia
apenas eu e o céu sem limites acima de mim. Nada a temer, nada de que
fugir…
***
Liam
Já se passaram quase duas horas desde que a operação acabou. Não
demorou muito, mas para mim, pareceu a operação mais longa da minha
vida. Eu assisti a cada pequeno movimento do meu pai, passo a passo,
checando na minha mente tudo o que devia ser feito. Eu estava feliz por não
operá-la. Minhas mãos tremiam mesmo sabendo que ficaria tudo bem.
Eu olhei para Crystal, dormindo pacificamente em sua cama. Era
quase meio-dia e ela estava prestes a acordar. Eu esperava que ela não tivesse
pesadelos. Eu queria que ela acordasse e se sentisse livre de tudo que a vinha
assustando há tanto tempo.
“Ela já está acordada?” Stanley olhou para o quarto.
Eu balancei a cabeça e saí para o corredor.
“Quanto tempo vai mantê-la aqui?” Ele perguntou.
“Se tudo correr bem, ela estará em casa em alguns dias.”
“Não em casa. Ela não contou aos nossos pais sobre a operação. Eles
acham que ela está em Nova York. Eles não sabem da cicatriz, lembra?”
“Ah, certo. Então, onde ela vai ficar quando tiver permissão para sair
do hospital?”
“Eu pensei na casa do lago, mas está muito barulhento lá agora. Os
trabalhadores ainda têm muito o que fazer. Mas Kameron sugeriu levá-la para
a casa do pai dele. A governanta, Bree, é uma enfermeira formada. Ela disse
que cuidaria dela. E mais uma coisa… Eu queria te agradecer.”
“Não há nada que agradecer.”
“Você a fez mudar de ideia sobre a operação. Você nem imagina o
quanto eu queria que ela se livrasse da maldita cicatriz. Mas ela nunca me
ouvia.”
“Ouça, Stan, tem uma coisa que eu queria te contar…”
“Eu sei sobre você e Crystal.”
“O quê?”
“Eu sempre soube que você tinha uma queda por ela.”
“Merda… Era tão óbvio?”
“Pra mim – sim. Até o dia do aniversário de dezoito anos dela, eu
sabia que você estava lá porque ela quis.”
“Mas você nunca tentou afastá-la de mim.”
“Por que eu faria isso?”
“Você tinha uma arma no armário, lembra? Acha que eu não sabia o
quanto você odiava todos os amigos dela do sexo masculino?”
Stanley riu. “A arma estava quebrada. Eu contei sobre ela porque
você não conseguia tirar os olhos da minha irmã e eu queria garantir de que
você a tratasse bem.”
“Inacreditável…”
“Eu não sei o que aconteceu entre vocês e por que ela começou a
odiar você, espero que não seja porque você se atreveu a machucá-la, mas
torço para que você encontre a chave para o coração dela. Ela ama você,
Liam, e espero que seus sentimentos sejam mútuos. Caso contrário, vou me
certificar de que a velha arma se lembre como se dispara.”
“Eu também a amo, sempre amei. Eu não sei o que vai acontecer
depois que ela sair do hospital. Tudo o que sei é que nunca amei ninguém
tanto quanto a amo. E eu daria tudo o que tenho apenas para reconquistá-la.”
“Tudo depende de você, cara. Conheço minha irmã e sei que ela pode
ser uma verdadeira chata, mas, no fundo, ela é apenas uma garota que sonha
grande e acredita em contos de fadas. Espero que um dia seu conto de fadas
se torne realidade.”
Capítulo dezenove
Crystal
Acordar nunca foi tão bom.
Minha cabeça ainda estava girando um pouco e senti uma leve dor na
barriga, mas meu novo eu estava feliz.
Liam se sentou na beira da cama e sorriu. Ele parecia um pouco
cansado, mas ainda tão bonito como sempre. Meus pensamentos se voltaram
para a manhã em que acordamos juntos em uma cama, na casa do lago, e eu
imediatamente quis sentir seus lábios nos meus e suas mãos percorrerem as
curvas do meu corpo.
Eu não sei o que foi que me fez sentir como se eu tivesse asas nas
costas. Talvez o olhar de seus olhos azuis-escuros irradiavam um amor tão
poderoso derreteria o gelo da Antártida. Nunca me senti tão apaixonada por
ele como agora. Era como se eu pudesse ver seus sentimentos por mim
brilharem em sua pele, envolvendo-me em seu brilho ofuscante.
“Como você está se sentindo?” Ele perguntou, pegando minha mão na
sua.
“Minhas costas e minha bunda doem de tanto ficar deitada.”
Seu sorriso aumentou.
“Se você quiser se levantar, tenha muito cuidado com as ataduras. Os
novos pontos precisam de tempo se curarem.”
“Então a operação correu bem?”
“Ainda melhor do que esperávamos. Tenho certeza que você vai amar
o resultado.”
“Mal posso esperar para ver.”
“Você vai ter que esperar um pouco antes de poder ver as mudanças.
Até lá, terá que seguir minhas recomendações e evitar levantar coisas
pesadas.”
“Farei qualquer coisa que você me disser.”
Suas sobrancelhas se levantaram em uma pergunta silenciosa.
“Nem pense nisso.”
Ele começou a rir. “Você não sabe o que eu estava pensando.”
“A resposta é ‘não’ para o que você tem em mente.”
“Vamos ver.”
***
Três dias depois
“O quarto de hóspedes está pronto,” disse Grayson, servindo-me de
uma xícara de chá. Stanley e Liam também estavam lá, assim como
Elizabeth, Kameron e minha linda afilhada Olivia.
“Muito obrigada por me deixar ficar aqui.”
“Não tem problema.” Ele olhou atentamente para seu filho. “Kameron
me contou sua história. Mas não se preocupe, ela está segura comigo.”
Stan apertou minha mão ligeiramente e esfregou minhas costas. “Tem
certeza de que não quer que eu fique aqui a noite toda?”
“Eu vou ficar bem. Sou uma menina grande, lembra?”
“Não importa quantos anos você tenha, ainda é minha irmãzinha e me
sinto responsável por tudo que você está passando.”
“Deixe-a em paz, Stan,” disse Elizabeth. “Eu tenho certeza que ela vai
ser bem cuidada.” Seus olhos se dirigiram para Liam, sentado na minha
frente e ela piscou para ele, como se soubesse de algo que eu não sabia.
“Tem alguma coisa que eu não sei?” Eu perguntei, observando-os
com desconfiança.
O Sr. Grayson falou novamente: “Já que Liam não tem onde morar
agora e você é paciente dele, ele precisa estar por perto caso você precise,
achei que seria melhor se ele ficasse aqui também.”
O rosto de Liam se iluminou. “É muito generoso da sua parte, Sr.
Grayson. Obrigado.”
“Por que sou a última pessoa a saber disso? E o que diabos aconteceu
com o seu quarto de hotel?”
Kameron falou: “Você nunca concordaria em deixar Liam ficar aqui
com você. Mas as costas dele doem de tanto dormir em uma cama de hotel.”
“Em uma cama do Fairmont Hotel? Sério?”
“Como você sabia que eu estava hospedado no Fairmont?” Liam
perguntou, surpreso.
“Alguém deve ter mencionado. Por quê?”
Seu sorriso sabe-tudo fez eu me sentir a pior mentirosa do mundo.
Bem, sim, eu fiz uma pequena pesquisa sobre ele on-line e vi algumas fotos
em sua página no Instagram mostrando o emblema do hotel. Eu não contratei
um espião para seguir todos os seus passos. Graças a Deus, com o Wi-Fi
gratuito do hospital, consegui encontrar qualquer informação que eu
precisasse.
“De qualquer forma, quanto tempo vai levar para os pontos curarem?
Eu não quero que meus pais façam muitas perguntas sobre a minha ‘viagem a
Nova York’.”
“Eu disse que você foi lá para encontrar um lugar para o meu desfile
de moda de Natal,” disse Liz. “Então, não acho que eles farão perguntas.”
“Você estará pronta para voltar para casa daqui a uma semana,” disse
Stanley. “Até então, faça tudo o que seu médico lhe disser.”
Eu fiz uma careta. “O médico e eu sabemos que sou péssimo em
obedecer.”
Kameron riu. “Tenho certeza que ele tem alguns truques para fazê-la
obedecer.” Seu pai lhe lançou um olhar de reprovação. “Com as receitas,
quero dizer.”
Um olhar no rosto de Liam era o suficiente para eu entender tudo. Ele
não ia me deixar ficar fora de vista, mas eu não achava uma boa ideia,
considerando o nosso relacionamento complicado. Por outro lado – ele era a
única pessoa que assombrava meus sonhos. Eu não teria notado se todos na
sala desaparecessem, exceto ele.
Olivia começou a chorar e Liz e Kameron voltaram para casa. Stanley
disse que tinha planos para a noite, então ele também foi embora. O Sr.
Grayson se desculpou, dizendo que tinha alguma papelada para fazer e foi
para o seu escritório. E Liam e eu ficamos sozinhos na sala de estar.
“Eu devia ter pedido ao Sr. Grayson para lhe dar um quarto no
primeiro andar,” disse ele, sentando-se ao meu lado.
“Eu não estou morrendo, graças a Deus. Eu posso andar e comer e até
xingar. Então, subir para o andar de cima não deve ser um problema.”
“Eu te carrego até lá, não se preocupe.”
“E se eu quiser fazer xixi? Você vai me levar ao banheiro também e
depois de volta para a cama?”
“Ah, meu Deus, me ajude.” Levantei e de repente senti uma dor no
lugar dos pontos.
“O que foi?” Liam perguntou, preocupado. Ele me pegou antes que eu
pudesse cair de volta no sofá e balançou a cabeça. “O que eu disse sobre se
mexer rápido demais?”
“Desculpa, eu esqueci.” Eu passei os braços em volta do seu pescoço
e fiz o rosto mais inocente do mundo.
“Pare de fazer isso.”
“Fazer o quê?” Eu perguntei em uma voz doce.
“Me olhar assim. Eu não sou de ferro, sabe?”
“Eu pensei que você queria me carregar até lá em cima. Agora você
tem a desculpa perfeita para usar minha fraqueza contra mim.”
“Certo.” Ele se dirigiu para as escadas, dizendo: “No caso de você
precisar de mim, meu quarto fica ao lado do seu.”
“Eu vou lembrar disso, doutor.”
As duas horas seguintes eu passei tentando encontrar uma desculpa
para bater na porta do quarto dele. Eu sabia que ele ainda não estava
dormindo; conseguia ouvir música vindo pela parede. Finalmente, achei que
nenhuma desculpa seria crível o suficiente e apenas fiz o que queria fazer.
“Eu pensei que você nunca viria,” ele disse, abrindo a porta um
segundo antes que eu pudesse bater.
“Como você sabia que era eu? E se fosse Bree? Ou o Sr. Grayson?”
“Bree foi para a cama há uma hora atrás. Ela me trouxe chocolate
quente antes de ir. E o Sr. Grayson ainda está trabalhando no escritório.
Consigo ver a luz da minha varanda. Então eu achei que você seria a possível
visita tímida tarde da noite que não encontrava coragem suficiente para bater
na porta. A julgar por quantos passos deu entre seu quarto e o meu, você
mudou de ideia dez vezes no mínimo.”
“Ok, espertinho, posso entrar agora?”
“Minha cama é sua cama. Desculpe, quero dizer, meu quarto é seu
quarto.”
Eu fui até a coleção de CDs espalhados pela mesa de café. “Pink
Floyd? Você nunca me disse que gostava deles.”
“O CD não é meu, eu encontrei no andar de baixo entre os CDs do Sr.
Grayson.”
“Eu sou a única pessoa que notou o quanto ele está triste? Acha que
ele está sentindo falta da Shelby?”
“Eu diria que ele está sentindo falta da mãe do Kameron, mas
definitivamente não daquela vadia da Shelby. O fato de eles terem um filho
não faz dela uma esposa perfeita.”
As palavras de Liam me fizeram pensar em outra coisa.
“Como está Kim?”
“Você não veio aqui para falar dela de novo, não é?” Ele se
aproximou, pegou o CD das minhas mãos e me virou de modo que agora
nossos rostos estavam de frente um para o outro. “Me diga uma coisa,
Crystal, se Kim não estivesse esperando meu bebê ou não existisse, você
continuaria me afastando?”
“Eu não estou te afastando. Estamos bem perto agora.”
“Você sabe o que eu quero dizer.”
Eu não sabia como responder sua pergunta. Havia tantos “e se” na
nossa história, acho que eu não saberia escrevê-la sem eles.
Ele achou que meu silêncio era a resposta.
Sem aviso, ele me puxou para seu peito, com cuidado, devagar; seu
coração saltou contra o meu.
“Corrija-me, se eu estiver errado.” Com o dedo indicador segurando
meu queixo, ele me fez olhar para ele. “Você veio aqui porque queria estar
aqui. Você não pensou em Kim ou em qualquer outra pessoa, só queria estar
comigo. Assim como eu não consigo parar de pensar em estar mais perto de
você.”
Eu engoli em seco. Cada palavra dele era verdadeira, mas eu
simplesmente não conseguia romper a parede invisível entre nós. Era feito de
meus medos estúpidos e suas obrigações de vida. E eu precisava de toda a
minha força de vontade para não deixar a parede cair. Porque eu sabia que
uma que caísse, não haveria volta.
Mais uma vez, fiquei quieta e, de novo, Liam tomou o meu silêncio
como uma resposta à sua pergunta.
A profundidade dos seus olhos impedia que eu desviasse o olhar ou
pensasse direito. Sempre foi assim – minhas palavras confusas e meu corpo
se transformava em algo incontrolável. Ele era mais do que apenas minha
paixão adolescente; ele era minha fuga, minha liberdade, meu eterno verão
que consistia em tudo que eu amava: calor, luz e beijos sob o céu noturno
estrelado.
O que quer que acontecesse, eu queria compartilhar com ele:
escuridão ou luz – eu queria ver tudo, com ele.
“Eu sinto sua falta,” eu finalmente disse. “Tanto que faz meu coração
sangrar. Eu não sei como parar de sentir sua falta; o sentimento é mais forte
que eu. Ele vem e vai, sempre voltando em momentos de silêncio. Eu vejo
você e tudo dentro de mim vira de cabeça para baixo. Você pode não estar
me observando, mas eu ainda sinto que seus olhos em mim, seguindo tudo o
que faço. Você pode não estar me tocando, mas sinto sua presença em todo
lugar que vou. Eu olho em volta, procurando pelo seu rosto familiar, com os
olhos que sempre brilham de tanto rir. Mas você não está lá… Eu não posso
substituí-lo com mais ninguém, eu não posso preencher a lacuna que você
deixa para trás toda vez que sai. Nenhuma distração é o suficiente para te
esquecer. Diga-me o que fazer para tirar você do meu sistema, porque meus
métodos são inúteis.”
Em voz baixa e rouca, ele disse: “Receio não ter um remédio para
esse caso específico. Mas mesmo se eu tivesse, eu não daria a você, porque
para melhor ou pior, eu quero ser o único homem que você ama.”
“Como você é muito egoísta.”
“Não estou me sentindo culpado.”
Eu sorri. “Por que não estou surpresa em ouvir isso?”
Ele se inclinou, seus lábios roçaram nos meus, enviando
formigamentos elétricos por todo o meu corpo.
“Fique comigo esta noite… Esqueça o resto e fique.”
Como eu poderia dizer “não” para isso? Depois de tudo o que eu
acabei de dizer a ele… Não havia como parar hoje à noite. Bandagens na
minha barriga não contavam.
A próxima coisa que eu percebi foi a pressão dos lábios nos meus.
Mal tive tempo de impedi-lo.
Sua língua mergulhou na minha boca e se misturou com a minha,
acendendo o fogo da luxúria com cada impulso que sua língua fazia contra a
minha.
Suas mãos foram para os meus quadris e me puxaram mais para perto.
Minha respiração acelerou. Seus lábios se moveram pelo meu pescoço,
deixando beijos delicados na minha pele. Eu pensei que estava acostumada
com seus beijos, mas estava errada. Toda vez que ele me beijava, eu estava
completamente despreparada para o que seus lábios me fariam sentir.
Eu me afastei para respirar um pouco de oxigênio necessário. Ele
descansou a testa contra a minha.
“Sério, Crystal, você escolheu o pior do mundo para vir me seduzir.”
Eu ri. “Por quê?”
“Há tantas coisas que eu prefiro fazer do que apenas beijá-la, mas não
posso. E estou impedido de fazer amor com você pelas próximas duas
semanas. As quais, eu acho, vão ser mais quatorze dias mais longos da minha
vida; uma tortura ao máximo.”
Afundei-me no seu abraço e disse: “Você está certo, Sr. Henderson.
Depois de todos aqueles anos assistindo você namorar outras garotas, catorze
dias de abstinência é o castigo mais leal que eu poderia ter pensado para me
vingar.”
“Você é cruel.”
“De modo algum. Mas você sabe o que dizem sobre vingança? É um
prato melhor servido frio.”
Ele olhou para mim e franziu a testa. “Você está gostando de me
torturar, não é?”
Eu coloquei o meu melhor sorriso e disse: “Você ainda quer que eu
fique?”
“Sempre.”
“Então eu vou ficar.”
“Vestindo isso?” Ele apontou para a minha camisa e leggings largas.
“Sim. Por quê?”
“Eu pensei que você vestiria algo mais sexy.”
“Eu tenho bandagens na barriga, lembra? Elas não são sexy o
suficiente para fazer sua imaginação enlouquecer?” Eu ri de sua careta.
“Desculpe, baby, é tudo o que você terá esta noite.”
“Não muito. Mas ainda é melhor do que nada.”
Sentei na cama dele e me inclinei contra os travesseiros. “Lembra do
aniversário de vinte anos do Stanley? Você e Kameron vieram para a casa do
lago, na esperança de se divertir e então você me viu e foi tipo o que diabos
ela está fazendo aqui?”
“Eu fiquei feliz em ver você.”
“Okay, certo. Como se eu não soubesse que você ia chamar strippers
para participar da festa.”
“Por isso que você pediu Stanley para levá-la com ele?”
Eu sorri, mas não disse nada.
“Ah, sua diabinha.” Liam deitou do meu lado. “Você tem sorte de
estar enfaixado agora.”
“Ou o que você faria?”
“Ou eu ensinaria uma lição sobre como ser uma boa menina.”
“Interessante…”
Ele se apoiou em um cotovelo, com a outra mão em volta de mim.
“Eu tenho uma confissão a fazer… Lembra daquelas lesmas em seu
travesseiro e das toalhas roubadas?”
“Só não me diga que foi você.”
“Pensei que você soubesse que tinha sido eu.”
“Na verdade, eu tinha certeza de que esses truques eram do Kameron.
Ele que sempre trazia coisas nojentas para casa, lembra?”
Eu ri. “Difícil de esquecer. Quantos anos nós tínhamos? Dez?”
“Você tinha doze e eu tinha oito anos. Eu nunca esquecerei daquele
sapo enorme que ele encontrou na água e depois pensou que poderíamos
cozinhar e comê-lo no jantar. Eu quase vomitei o vendo na mesa da cozinha.”
Liam riu. “Foi uma boa época, certo?”
“Sim… Mas fico feliz que as preferências alimentares do seu melhor
amigo tenham mudado.”
“Verdade.”
Nós olhamos nos olhos um do outro e eu senti que ele queria me dizer
alguma coisa.
“Vá em frente,” eu disse. “Seja o que for, apenas diga.”
Ele hesitou.
“Achei que não havia mais segredos entre nós. Ou há outra ex-noiva
que você quer me contar?”
“Não. Mas há alguém sobre quem quero te perguntar… Trevor. Vocês
dois parecem ser muito próximos. Quando isso aconteceu?”
Eu lambi meus lábios que, de repente, pareciam secos demais. Então
eu disse: “Ele foi o primeiro cara que conheci depois da história do clube. Ele
me apoiou quando eu mais precisava, e ele nunca fazia perguntas
desnecessárias, a menos que eu mesma sentisse vontade de dizer alguma
coisa.”
“Então ele sabia o que aconteceu com você?”
“Sim. Ele sabia de tudo.”
“Entendo… Pelo menos agora sua superproteção faz sentido.”
“O que você quer dizer?”
Ele hesitou novamente.
“Liam?”
“Ele veio me ver um ou dois dias antes dele voltar para o Canadá.”
“Por quê?”
“Ele queria saber o que eu sentia por você. Eu disse a ele a verdade.”
“O que mais?”
“Ele também perguntou se havia uma chance de remover sua cicatriz.
E eu disse sim.”
“Isso é tudo?”
“Sim.”
“Eu não acredito em você. O que mais ele te contou?”
“Eu não vou dizer mais nada. Ele me fez prometer que manteria isso
entre nós e eu não vou quebrar minha promessa.”
“Não é justo. Eu vou morrer de curiosidade!”
“Você vai sobreviver.”
Cruzei os braços sobre o peito e disse: “Vocês dois não tinham o
direito de falar sobre mim pelas minhas costas.”
“Para ser honesto, não fiquei surpreso em vê-lo no meu escritório.
Depois que vi vocês dois indo a um encontro, eu sabia que, mais cedo ou
mais tarde, ele viria falar comigo.”
“O que o fez pensar assim?”
“É óbvio – ele tem sentimentos por você e eu também. E eu ainda me
odeio por não lutar por você o suficiente. Eu deveria ter falado com você
depois da maldita festa de aniversário. Mas eu não fiz.”
“É tarde demais para arrependimentos. Além disso, acho que não
quero voltar a essa conversa. Vamos deixar naquele dia no passado, ok?”
“OK.”
“Mas tem uma coisa que quero discutir…”
“Eu sei o que é. E sei que é difícil para você aceitar o bebê e o fato de
que a mãe dele fará parte da minha vida. Mas eu não vou deixar você desistir
de nós, Crystal. Nós já passamos por tanta merda. Não acha que é hora de nos
dar uma chance? Deixar de se esconder de todos e ficar juntos, de verdade?”
“Você realmente acredita que podemos fazer isso dar certo?”
“Acredito. E você?”
Eu pensei por um momento. Se há alguns meses alguém me dissesse
que Liam e eu estaríamos deitados na cama, falando sobre nosso futuro, eu
teria dito que eles estavam loucos. Mas quanto mais tempo eu passava com
ele, mais eu queria passar o resto da vida ao seu lado.
Minhas defesas não eram mais tão fortes quanto costumavam ser.
Agora elas pareciam mais pedaços de papel de tornassol sob a chuva,
encharcando até o último milímetro e depois derretendo na água. Eu não
queria mais lutar contra meus desejos.
“Acho que podemos tentar.”
A maneira como seus lábios se levantaram disse tudo. Minhas
palavras eram o que ele queria e precisava ouvir.
Ele deitou no travesseiro, com o rosto perto do meu.
Nós não conversamos. Apenas ficamos assim, cada um pensando no
que havíamos perdido e no que havíamos encontrado.
“Eu nunca vou me cansar de implorar pelo seu perdão,” ele disse em
um sussurro.
“Eu te perdoei há muito tempo, já disse isso.”
“Mas ainda sinto que lhe devo desculpas. Não verbais, mas reais,
baseadas no que faço por você.”
“Você não me deve nada, Liam.”
“Não é verdade. Eu te devo uma vida inteira de nós, e não vou te
decepcionar, não de novo…”
Capítulo vinte
“Você está brilhando,” disse Liz, me observando de perto.
Eu mal conseguia segurar o sorriso ao lembrar da noite passada que
era a razão pela qual eu “brilhava”. Já tinham se passado quase três semanas
desde a operação. Liam e eu passávamos tanto tempo juntos que quase
esqueci como era sentir falta dele. Durante a minha estadia na casa do Sr.
Grayson, ele fez o seu melhor para provar que ele poderia ser o homem
perfeito para mim. Ele me trouxe flores e cozinhou jantares; me levou para
passear sob o céu noturno e brincou com pequenas coisas, só para me animar
ou me distrair do trabalho que precisava ser feito, não importava o quão
longe eu estivesse do escritório. Todas as noites dormíamos na cama dele,
embrulhados nos braços um do outro.
Mas noite passada foi diferente.
Nós não apenas dormimos. Na verdade, não dormimos nem um
pouco. Fizemos amor a noite toda…
“Desembucha! Eu preciso saber de todos os detalhes.”
Eu ri da impaciência de Liz. “Eu não vou dizer nada a você!”
“Por que diabos não? Não te contei tudo sobre a minha primeira noite
com o Kameron?”
“Primeiro, não foi a primeira vez que Liam e eu passamos uma noite
juntos. E segundo, não lembro de você ter me contado sobre suas noites com
o Kameron.”
“Ugh, você está me matando, Crystal! Pelo menos me diga que seu
rosto de fada-de-ar significa que vocês estão juntos de novo?”
Isso eu podia dizer a ela. “É como se nunca tivéssemos nos separado.”
Abaixei a caneta que estava segurando e me inclinei no encosto da minha
cadeira, dando um leve empurrão. Começou a girar, fazendo minha amiga rir.
“Jesus… Quem imaginaria que Liam seria tão bom em seduzir você?”
“Não é?” Eu ri. “Foi perfeito, Liz. Ainda sinto borboletas dançando
como loucas na minha barriga.”
“Tem certeza de que não é o resultado da operação?”
“Não. É o resultado dele em mim.”
“Ok, mudei de ideia sobre os detalhes. Guarde-os para si mesma.”
“Eu não me lembro da última vez que me senti tão feliz.”
“E eu não me lembro da última vez que te vi tão feliz. Eu acho que
Liam merece um parabéns pelo que ele fez com você”. Ela parou um
momento antes de perguntar: “O que você vai fazer agora?”
“Eu pedi a ele para se mudar para a minha casa.”
“Você fez o quê?”
“Bem, Stan está indo embora e meus pais vão se mudar para a casa do
lago. Então achei que ele poderia se mudar e morar comigo.”
“Você tem certeza que está pronta para isso?”
“Passei tanto tempo sonhando com ele. Eu não quero passar uma
única noite sem ele. Estou doente e cansado de fugir do meu amor por ele.
Quero mergulhar e me derreter nele.”
“Eu posso ver isso. Mas e quanto a Kim?”
Meu sorriso desapareceu. “Eu prometi a Liam que minha atitude em
relação a ela nunca ficaria entre nós. Em troca, ele prometeu nunca deixar,
nem ela, nem qualquer outra pessoa nos separar. Então acho que é um acordo
justo. Além disso, se quisermos ficar juntos, e queremos ficar juntos,
precisamos nos acostumar a ver Kim com frequência.”
“Ela sabe sobre você e Liam?”
“Sabe. Liam contou.”
“Ela está na casa dele, certo?”
“É temporário. Ele vai comprar uma casa nova para ela e para o
bebê.”
“Parece que tudo está se ajeitando, finalmente.”
“Sim.”
“Como Stan reagiu às notícias?”
“Ele está feliz por mim, por nós. disse que nunca poderia imaginar um
candidato melhor para ocupar seu lugar na casa. Embora eu não saiba do que
ele e Liam ficaram falando durante, pelo menos, duas horas, trancados no
escritório do papai. Mas quando Liam abriu a porta, ele parecia querer socar
alguma coisa.”
Liz riu. “Eu sabia que Stan ia dificultar um pouco. Considerando que
ele nunca gostou de nenhum de seus namorados.”
“Boas notícias – logo depois de falar com meu querido irmão, Liam
cancelou todos os compromissos do dia e me levou para um encontro,
dizendo que precisava se distrair. Ele também disse que estava feliz por eu
não ter mais dezoito anos. Por que ele diria isso?”
“Provavelmente porque se você ainda tivesse dezoito anos e Liam
como namorado, Stanley não pararia em o trancar no escritório por duas
horas.”
Meu telefone tocou e vi uma nova mensagem de texto piscando na
tela.
Era de Liam, e, mesmo sem dizer isso em voz alta, Liz sabia que a
mensagem era dele. Meu rosto deve ter dito tudo para mim.
“Ok, é melhor eu dar a vocês dois um pouco de privacidade.” Ela se
levantou e saiu do escritório.
O texto de Liam dizia: “Algum plano para esta noite?”
“Eu tenho um encontro.”
“Quem é o sortudo?”
“Você não conhece.”
“Droga… Eu estava esperando poder te pegar depois do trabalho.”
“3 palavras, 8 letras e eu sou toda sua.”
As três mensagens seguintes diziam: “Eu levo comida.” “Eu levo
vinho.” “Eu amo você.”
“Awe, você me conhece tão bem. Você ganhou!”
“E o bastardo de sorte que deveria ir a um encontro com você?”
“Ele vai sobreviver.”
“Vou buscá-la às 18:00.”
Mas o que me esperava às seis da tarde não era um encontro, nem
vinho, nem comida.
Liz invadiu meu escritório cerca de quinze minutos antes do final do
expediente e gritou: “Temos uma emergência!”
“O que aconteceu?”
“Rápido, tire suas roupas e coloque este vestido,” ela jogou um
vestido de marfim na minha mesa e esperou.
“O que está acontecendo, Liz? Onde está o incêndio?”
“Lá no salão de exposição. E você precisa estar lá em quinze
minutos.”
“Não posso. Liam está me esperando lá fora.”
“Ele terá que esperar um pouco mais. Agora, troque de roupa e venha
ao salão de exposição.”
Sem dizer outra palavra, ela saiu, deixando eu e o vestido sozinhos.
Eu olhei para o pedaço de tecido de marfim e peguei meu celular para
enviar uma mensagem ao Liam. Eu não sabia o que de tão importante Liz
queria que eu fizesse, mas se ela falou que era uma emergência, era uma
emergência.
Peguei o vestido que ela trouxe e fui até o espelho. Eu nunca tinha
visto esse vestido antes e tinha certeza de que vira todos os designs de Liz,
novos e antigos. O cinto era feito de cristais de ouro espalhados por todo o
topo do vestido e pelas mangas de três quartos. A saia era simples e fluida; as
costas abertas. Eu amei.
Eu coloquei o vestido e ele encaixou como uma luva, mostrando e
escondendo apenas o suficiente para parecer sexy e elegante. Era uma das
minhas cores favoritas e me perguntei por que Liz queria que eu usasse esse
vestido específico para o que estava me esperando no salão de exposição. Ele
me lembrava meu vestido do baile de formatura, presenteado por Liam. Eu
ainda o tinha escondido em algum lugar no guarda-roupa.
Eu coloquei os pés em saltos de veludo marfim que eu tinha no
armário e me dirigi para o salão.
Estava escuro e quieto.
“Liz?” Eu chamei.
As luzes acima da pista continuaram, iluminando a superfície lisa com
seu brilho suave.
“Ok, isso não é nenhum pouco engraçado.” Olhei em volta e
acrescentei: “Se é alguma piada, Liz, eu não tenho tempo para isso.”
Quando voltei para a pista de novo, vi uma única cadeira de pé sobre
ela.
“O que eu devo fazer com isso?” Eu disse para a escuridão.
Ninguém respondeu.
“Você quer jogar? Tudo bem, vamos brincar.” Fui até a cadeira e
sentei-me com as pernas e os braços cruzados.
O som de uma música lenta encheu a sala.
Fiz uma careta e olhei ao redor de novo. Só então, uma tela enorme na
minha frente tomou vida. Primeiro, era branco e depois vi pontos saltando,
como se estivesse digitando uma mensagem de texto.
“Lembra do idiota que deixou lesmas no seu travesseiro?”
Eu sorri.
“Aposto que ele queria deixar uma flor ou algo parecido, mas como
eu disse – ele estava sendo um idiota… Com muito medo de admitir que
estava perdidamente apaixonado por você.”
“Ele costumava entrar e espiar pela sua janela só para ter certeza de
que você tinha entrado aquelas lesmas.”
Uma linha de emojis seguiu as palavras.
“Mas o que ele realmente queria ver era você…”
Senti lágrimas correndo pelo meu rosto. A música dificultou ainda
mais que eu mantivesse as emoções sob controle.
“Como um viciado, ele te seguia por toda parte, vendo você crescer e
se transformar em uma jovem incrível, tão incrivelmente linda; ele desvia o
olhar sempre que seus olhos se encontravam do outro lado da sala.”
“Admitir que ele tinha uma queda por você ainda era uma opção
terrível.”
Outra linha de emojis se seguiu.
“Mas no dia em que ele viu um cara do bairro flertando com você,
quase o matou.”
“Ele não queria nada mais do que socar o pobre rapaz em seu rosto
sorridente.”
“E ele faria isso, se você não o visse observando. O olhar nos seus
olhos estava cheio de pensamentos que ele não sabia ler.”
“E de repente ele percebeu que passaria a vida inteira olhando nos
seus olhos, tentando adivinhar os pensamentos que se passavam pela sua
cabeça.”
“Era como uma bomba explodindo dentro do seu coração covarde.
Atingiu-o com um amor tão forte, que ele quis fugir e se esconder do que a
compreensão o fez ver.”
“Ele vinha fugindo há anos… Escondido em um casulo de mentiras e
assuntos sem sentido.”
“Até que um dia seus lábios tocaram os dele…”
“Ele ficou preso na prisão da sua doçura e ternura.”
“Ele nunca se sentiu tão alto antes…”
“Ele nunca quis voar ainda mais alto…”
“Mas então algo o impediu, puxando-o para longe de você.”
“Ele foi embora, esperando que fosse capaz de esquecer a doçura que
ele ainda conseguia sentir nos seus lábios, mesmo que você não estivesse
mais por perto.”
“Ele deu um passo para o lado e viu você vivendo sua vida, sem ele.”
“Quando, na verdade, ele sempre quis fazer parte dela…”
“Ele pensou que você estava feliz.”
“Ele pensou que você estava bem.”
“Até o dia em que ele viu algo que custou anos de sua cegueira…”
Instintivamente, minha mão tocou o cinto do vestido, cobrindo o local
onde a cicatriz feia estivera. Após a operação, ficou pouco visível. Mas meus
pulmões ainda não perdiam o ar pelas lembranças do dia em que levei uma
faca à minha pele.
Com os olhos cheios de lágrimas, olhei para a tela de novo.
“Havia tantas perguntas que ele queria fazer…”
“E tão pouco desejo de ouvir as respostas que ele de alguma forma
sabia que seria terrível.”
“Horas se transformavam em dia, dias – em noites sem dormir…”
“Mas o desejo de ver você ficou ainda mais forte.”
“E então você adormeceu em seus braços, e ele sentiu que era a
mesma coisa que estivera sentindo falta há tanto tempo, tentando substituí-la
por algo que nunca importava de verdade.”
“Ele queria ficar.”
“Para tirar sua dor.”
“Para beijar cada lágrima que você deixava cair.”
“Para curar todas as feridas que você pudesse ter.”
“Ele ainda amava você mais do que a própria vida.”
“Porque sem você, era vazio e sem graça.”
“Inútil e solitário.”
“Você completava tudo.”
“Você o completava.”
“Você o fazia feliz…”
A tela desapareceu e o silêncio preencheu a sala.
Por alguns momentos, nada aconteceu.
Então ouvi passos atrás de mim e me virei. Liam saiu de trás da
cortina que separava a pista dos bastidores e caminhou até onde eu estava
sentada.
Ele se apoiou em um joelho e abaixou a cabeça para beijar as costas
das palmas das mãos, uma a uma.
Sua testa tocou meus joelhos e senti mais lágrimas rolando pelas
minhas bochechas.
Nós não conversamos. Mas nenhuma palavra era necessária. Era
como se, com seu silêncio, ele estivesse dizendo tudo o que não podia dizer
em voz alta ou escrever na tela.
No meu coração, ouvi todas as suas palavras não ditas. E foi
inestimável.
Quando eu estava prestes a dizer o quanto eu o amava, ele olhou para
cima e disse: “Eu não sei o que está nos esperando no futuro: furacões ou
tempestades. Mas eu quero ver tudo isso com você.” Ele pegou uma pequena
caixa de veludo e a colocou nas minhas mãos. “Se você abrir, não haverá
volta. Se você a mantiver fechada, eu ainda estarei em algum lugar próximo,
observando você pela janela, como fazia quando éramos crianças. Mas meu
amor por você nunca vai desaparecer.”
Eu olhei para a caixa nas minhas mãos. Foi minha vez de dizer
alguma coisa. Mas eu simplesmente não conseguia me forçar a falar. Então
eu fiz a única coisa que eu queria fazer naquele momento.
Eu abri a caixa…
E vi um belo anel com um diamante em formato de coração.
“Este coração é seu,” disse Liam. “Assim como o que está batendo
dentro de mim.” Ele tirou o anel da caixa e colocou no meu dedo.
Ele então se levantou e me puxou para os braços, cobrindo meus
lábios com um beijo – o beijo mais incrível de todos os tempos.
O que eles dizem sobre o amor?
“Estar apaixonado lhe dá força, mas amar alguém lhe dá coragem.”
Era verdade. Apenas com ele, sentia que podia fazer qualquer coisa,
viver minha nova vida e nunca olhar para trás.
O que mais eu poderia desejar?
Eu ouvi alguém falando por perto.
Eu quebrei o beijo e vi os olhos sorridentes de Liam me observando.
“Droga, caras, nenhuma quantidade de lenços seria suficiente para ver
vocês dois.” Liz saiu da escuridão, carregando Olivia nos braços.
“Você esteve aqui todo esse tempo?”
Ela assentiu e se aproximou para me dar um abraço. “Eu, Stanley,
Kameron, Jeff e até Bob, que garantiu que a tela que por alguma razão
estúpida não ficava parada, permanecesse onde deveria ficar.”
No segundo seguinte, nossos amigos nos cercaram, dizendo como
estavam felizes por nós. Até mesmo Jeffrey, uma parte ausente do grupo do
meu irmão, chegou de Nova York para celebrar o noivado.
“Eu não perderia por nada,” ele disse, abraçando Liam.
“Você sabia que eu abriria a caixa, não é?” Perguntei a Liam.
“Bem, eu realmente queria que você abrisse.”
“O que você faria se eu a deixasse fechada?”
“Ele não pensou nisso,” Kameron respondeu por ele.
“Verdade,” disse Liam. “Eu não queria nem pensar nisso.” Ele me
beijou de novo e então o resto das luzes no salão se ascendeu e eu vi uma
mesa servida nas proximidades com champanhe, chocolates e frutas.
“Espero que você tenha gostado do vestido,” disse Liz.
“Eu amei. Muito obrigada. Mas… Quando você teve tempo para criá-
lo?”
Ela e Liam dividiram um olhar misterioso.
“Há quanto tempo você planejou esta noite?” Eu perguntei a ele.
“Liguei para Liz no dia em que meu pai removeu suas bandagens.
Mal podia esperar para te dar o anel.”
“Não posso acreditar que você manteve isso em segredo de mim!”
Liz riu. “Um acordo é um acordo. Eu prometi a Liam que ficaria de
boca fechada.”
“Então todo mundo tinha certeza de que eu abriria a caixa, certo?”
Stanley pegou uma taça de champanhe da mesa e depois me deu. “Se
você não abrisse, eu teria que cancelar meu voo para Washington e ficar aqui
para cuidar de você pelo resto de sua vida solitária e lamentável.”
“Bem, muito obrigada, querido irmão. Mas eu não sou uma causa tão
perdida quanto você pensa. Eu compraria um gato para me manter entretida.”
“Mas entretenimentos que me envolvem são muito mais divertidos,
certo?” Liam disse em meu ouvido.
Eu soquei seu peito de brincadeira. “Eu vou ter que verificar isso mais
tarde hoje à noite.”
“Eu topo tudo. Apenas me diga o que você quer que eu faça, e eu vou
obedecer.”
“Porra, eu amo você sendo tão obediente.”
Todo mundo riu.
“Se prepare, ele pede algo em troca,” disse Kameron. “Não lembro de
um único jogo que ele tenha jogado de forma justa.”
“O tempo muda tudo,” disse Liam, com os olhos brilhando como
sempre.
Eu não podia concordar mais com ele. O tempo mudou muito; nos
mudou.
Mas a única coisa que permaneceu igual foi o nosso amor. Eu
esperava que fosse forte o suficiente para viver os muitos anos que ele e eu
passaríamos lado a lado.
Havia tantas coisas que precisávamos para conseguir; tantos sonhos
para realizar. Nosso passado podia não ser perfeito, mas tínhamos nosso
futuro e poderíamos fazer como queríamos que fosse. E, mesmo separados,
ainda poderíamos ficar juntos, guardando um ao outro em nossas almas,
guardando o amor que nos uniu, ajudando-o a crescer e se tornar ainda mais
forte.
Eu costumava pensar que não acreditava mais em contos de fadas,
mas estava errada. Eu acreditava. E um deles agora estava acontecendo
comigo, com o homem que eu amava com todo o meu coração me dotando de
um amor tão puro, que brilhava ao seu redor, como mágica que você nunca
conseguia ver, apenas sentir passando por você.
Alguém disse uma vez que as verdadeiras histórias de amor não têm
fim. Eu queria acreditar que era verdade, porque em meu coração, eu sabia
que nunca amaria alguém tanto quanto amava Liam, nem nesta vida nem em
todas as minhas vidas futuras, se alguma existisse. Eu sabia que não haveria
outro homem para assumir seu lugar, nenhuma outra alma para somar com a
minha, nenhum outro amor para me tirar o fôlego. Havia apenas ele, sempre e
para sempre.
Passando por maus e bons tempos, ficamos fortes, mantivemos o
amor em nossos corações e nunca o deixamos morrer, não importa quantas
vezes morremos, procurando algo para preencher o vazio em que vivíamos.
Com bastante compreensão e perdão, encontramos o que pensamos que
estivesse perdido para sempre.
Nós nos encontramos…
FIM
SOBRE A AUTORA
Diana Nixon é uma autora bestseller internacional de romance
contemporâneo e paranormal.
Visite o site da autora:
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LIVROS DE DIANA NIXON
(Em Portugues)
Louise (Louise, #1)
Louise: Um Novo Começo (Louise, #2)
DESPEDAÇADO (DESPEDAÇADO. #1)
FRÁGIL (DESPEDAÇADO. #2)
Xeque-Mate (Xeque-Mate, #1)
Sem Compromiso (Xeque-Mate, #2)