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Terri Anne Browning - Lucy & Harris #3 - Rocking Kin (Revisado)

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Terri Anne Browning

Lucy & Harris #3


COM UMA PROMESSA, SUA VIDA MUDOU...
Dizer adeus a minha mãe também significou dizer adeus a minha vida na
Virgínia. Depois de fazer relutantemente uma promessa para minha mãe, eu estava
presa na Califórnia com o pai que eu não via desde que eu tinha quatro anos de
idade. Eu estava muito infeliz vivendo sob o mesmo teto que a madrasta monstra
e as duas meias-irmãs infernais. A minha única graça salvadora? Lucy Thornton,
filha do baterista da Demon's Wings, Jesse Thornton. Sem sua amizade - e sua
família roqueira estranha me aceitando como um dos seus - eu com certeza teria
enlouquecido após a primeira semana.

UMA EXPLOSÃO DO PASSADO...


Eu nunca pensei que veria Jace St. Charles novamente. Honestamente,
depois da maneira como ele quebrou meu coração, eu passaria muito bem sem ter
que ver seu rosto pelo resto da minha vida. Com a estreita amizade de Lucy com
Harris Cutter, dono do mais quente novo clube no Sul da Califórnia e novo chefe
de Jace, eu fui forçada a ver aquele maldito rosto frequentemente. Forçada a ver o
jeito como cada garota parecia tropeçar na pressa de chegar perto dele.

UMA SEGUNDA CHANCE?


Ser jogada em uma situação após a outra com Jace tornou difícil lutar
contra o fato de que eu não era tão imune a ele como queria ser. Mas, caramba, eu
era apenas humana e ele estava determinado como o inferno a me ganhar de volta.
Playlist

“Outcast”Shinedown
“Follow You”Bring Me the Horizon
“Paper Cut”Apollo Drive
“I Bet”Ciara
“One Love”Marianas Trenches
“Love Me Till It Hurts”Para Roach
“Everything” Buckcherry
“Drag Me Down”The Weeknd
“Save You” Kelly Clarkson
“I Won’t Say Goodbye” Failure Anthem
Capítulo 1

Por que me sinto tão dormente?


Eu não deveria estar dormente hoje. Quero dizer, como você pode
não sentir nada no dia em que sua mãe é lentamente descida a sete
palmos da terra, levando a vida que viveu nos últimos onze anos com ela?
Há muito havia lágrimas – elas secaram durante a última semana. Não
havia nenhum sentimento em meu corpo, meus dedos, mãos, braços,
pés, pernas não cooperavam com meu cérebro quando era hora de fazer
algo tão simples como pegar uma única rosa vermelha, me mover dois
passos para a frente e soltá-la sobre o caixão, que agora estava em seu
lugar de descanso final.
Meu cérebro me deixou de lado completamente também. Aquele
órgão em particular estava envolto em uma névoa tão espessa quanto o
que estava no ar úmido da Virginia. Se não fosse pelos dois homens que
estavam atrás de mim, e a menina à minha esquerda, eu poderia ter
realmente caído quando me aproximei para ser a primeira e única pessoa
a atirar a rosa no belo caixão de mogno da minha mãe. Parte de mim
queria que eles me deixassem cair, para ficar lá com ela. Seria muito
melhor do que teria que enfrentar nesse longo dia.
Mas eles não deixaram. Eu sabia que não iriam. Para aquelas três
pessoas, as pessoas que me amavam tanto quanto eu os amava, eu era
tudo o que restava de Abigail Jacobson.
Em volta de nós, amigos e membros da família murmuravam
palavras suaves para meu padrasto e meios-irmãos. Oferecendo
condolências e outras palavras amáveis com a perda de uma mulher que
foi retirada do mundo muito jovem. Abby só tinha quarenta e cinco anos
de idade. Mas o câncer? Esse monstro não se importava com quantos
anos uma pessoa tinha, ou o quanto ela era amada, ou quão gentil ela

4
era. Se qualquer coisa, o câncer entrava na vida desses tipos de pessoas
mais rápido do que qualquer outra pessoa. Eu odiava essa doença
maldita, odiava por tudo o que tirou de mim.
Por tudo o que forçaria em mim agora.
Minhas mãos começaram a tremer tanto que Angie e Caleb
pararam de falar com a tia-avó deles, Cindy, para embrulhar seus braços
firmemente em torno de mim. Mas mesmo não sendo um meio-
sanduíche1, como sempre chamamos nossos abraços em grupo, isso me
forneceu conforto imediato. Eu só queria ir para casa e trancar a porta
do quarto, puxar as cobertas sobre minha cabeça, e esperar acordar de
manhã descobrindo que tudo isso foi só um pesadelo realmente terrível.
Com a cabeça loira no meu ombro esquerdo, Angie me apertou
um pouco mais. — Vai ficar tudo bem, Kin.
Fechei os olhos mais apertado, mas continuei em silêncio. Caleb
levantou a cabeça do meu ombro direito e beijou minha bochecha. — Nós
amamos você, monstrinha.
Incapaz de falar com um nó na minha garganta que parecia um
deserto seco, eu apenas balancei a cabeça. Eu sabia que eles me
amavam, mas não tinha como eles saberem se tudo ia ficar bem. Não
ficaria. Porque na manhã do dia seguinte, eu estaria em um avião para a
Califórnia. Amanhã, eu teria que dizer adeus a Angie, Caleb e Carter.
Não era justo. Eu queria gritar as palavras para o céu com tudo o
que eu podia. Para o caixão no chão. Para o homem de pé em silêncio no
outro lado da sepultura da minha mãe. Só não era justo.
Como se sentindo meus olhos nele, meu pai levantou os olhos do
caixão de minha mãe e encontrou meu olhar. Eu não via meu pai em
quase 13 anos. Não desde que ele se casou com minha madrasta monstra
e decidiu que queria criar os filhos dela em vez de mim. Ele era um
estranho para mim, pois eu só tinha quatro anos de idade na época. Mas
ele não tinha mudado muito pelo pouco que eu me lembrava dele. Ou

1
No original: step-sandwich, fazendo referência a palavra meios-irmãos em inglês (stepsiblings).

5
talvez fosse porque eu o tinha visto em uma centena de capas de revistas
e algumas telas de cinema desde então.
Scott Montez era um ator/diretor que esteve em muitas revistas
de fofoca e algumas não tão ruins. Ele ainda era bonito para um homem
na casa dos cinquenta e poucos anos, com seus olhos azuis brilhantes
que ele herdou de sua mãe supermodelo inglesa e o tom de pele escura
latina que ganhou de seu pai aristocrata espanhol. Meu pai era magro,
bem cuidado, e gritava narcisista até dizer chega.
Eu o odiava.
Mas a partir de amanhã, ele seria uma característica importante
na minha vida, já que eu teria que viver com ele agora. Eu soube que isso
aconteceria no momento em que os médicos haviam dito a minha mãe
que não havia qualquer outra coisa que poderiam fazer por seu câncer
rapidamente se espalhando. No mesmo dia, ela recebeu a notícia que
teria apenas seis meses, no máximo, para viver, e já entrou em contato
com meu pai. Ela queria que eu morasse com ele quando ela morresse.
Eu implorei de joelhos para não ser mandada embora quando ela
morresse. Eu chorei, gritei, e quebrei as coisas quando ela calmamente
explicou que era hora de conhecer minha outra família. Sua desculpa foi
que ela queria que eu conhecesse Scott antes que fosse tarde demais.
Meu argumento era que eu não precisava conhecer o homem que
forneceu a metade do meu DNA. Carter Jacobson era o meu verdadeiro
pai nos meus olhos. Caleb e Angie, embora fossem quase quatro anos
mais velhos que eu, eram meu irmão e irmã mais do que qualquer irmão
de sangue que eu poderia ter tido.
Por que eu não poderia ficar com eles, pessoas que realmente me
amavam? Por que tenho que atravessar o país para viver com pessoas
que eu não conhecia? Pessoas que eu sabia que se ressentiam comigo
tanto quanto eu me ressentia deles?
— Porque você merece a chance de conhecê-lo, McKinley — minha
mãe tinha me dito com a voz quase um sussurro há apenas duas
semanas. — Ouça, menina. Você só tem um ano até completar dezoito.
Se você decidir que não quer ficar perto de seu pai depois disso, então

6
Carter vai recebê-la de braços abertos. Mas aceite esse tempo e use-o
para conhecer Scott e suas meias-irmãs. Dê uma chance à sua madrasta
e seus filhos. Uma chance de verdade. — Abby empurrou alguns fios de
cabelo encharcados de lágrimas para longe do meu rosto enquanto abria
um sorriso triste para mim. — Não viva com o remorso de não tentar,
Kin.
Eu tinha lutado contra isso com unhas e dentes até aquele
momento. Aquelas palavras - aquelas sábias palavras – foram as últimas
que a minha mãe disse antes de ela não poder dizer mais nada. No dia
seguinte, ela foi colocada para respirar através de máquinas e três dias
depois, ela morreu segurando a mão do meu padrasto.
Desde então, eu não protestei nem uma vez sobre ter que me
mudar para a Califórnia, mas isso não significava que eu estava ansiosa
por isso. Eu não queria ter que dizer adeus à minha família, meus amigos
e minha vida na Virgínia. Eu não quero ter que viajar quase cinco mil
quilômetros para viver com uma nova família, possíveis novos amigos e
toda uma nova vida. Não era justo que eu tinha que fazer isso.
Mas eu seguiria o conselho da minha mãe. Eu não ia passar a
vida com o pesar de não tentar, pelo menos.
Ainda doía, entretanto. Era como se eu tivesse perdido mais do
que apenas a mãe que me amava tanto quanto eu a amava. Eu também
estava perdendo Carter, Angie e Caleb.

***

Eu estava deitada na minha cama quando ouvi a batida na porta.


Eu subi para o meu quarto logo que toda a família e amigos saíram da
casa no início da noite. Eu estava exausta, mas não conseguia dormir,
querendo memorizar tudo sobre o quarto que tinha sido meu durante os
últimos treze anos, mesmo que eu pudesse dizer de cabeça todos os
detalhes dele, junto com cada memória feliz que eu tinha que deixar para
trás naquelas quatro paredes.

7
Tipo, o pôster da Demon’s Wings pendurado sobre a minha mesa
que eu consegui autografado na última vez que eles estiveram em
Roanoke. Ou o pôster da OtherWorld que eu consegui fazer Zander
Brockman autografar para mim quando eu o vi andando por Nashville
quando Caleb levou a mim e alguns de seus amigos para ver um show da
Trance no verão passado.
O pôster da Trance que eu consegui que fosse autografado no
mesmo dia estava na parede oposta, logo ao lado dos meus pôsteres
favoritos do Avenge Sevenfold. Angie e eu pintamos as paredes de um
roxo escuro quando eu tinha quinze anos, e no batente da porta que dava
para o meu banheiro estava manchada porque Caleb havia surpreendido
sua gêmea quando entrou pela porta, fazendo-a tropeçar e cair contra a
tinta molhada. Ela ficou com uma mancha roxa na bochecha por dois
dias, mas eu deixei a marca manchada lá para lembrar a todos nós
daquela visão hilariante.
Esfregando uma mão sobre meus olhos cansados, eu levantei
minha cabeça e olhei para a porta. A batida veio novamente e soltei um
suspiro. — Está aberta.
A porta se abriu apenas uma fração antes de Angie enfiar a cabeça
loura no vão aberto da porta. As luzes da sala estavam apagadas, mas,
como sempre, a luz do meu banheiro estava brilhando. Era estúpido, mas
aquela luz do banheiro sempre foi a minha luz noturna. Uma garota de
dezessete anos de idade que precisa de uma luz noturna, sim, sou eu.
— Você está acordada? — Perguntou ela quando me viu na minha
cama.
Atrás dela, Caleb empurrou sua irmã gêmea suavemente,
fazendo-a entrar no quarto para que ele pudesse seguir. — É claro que
ela está acordada, Ang. Ela não teria gritado se ela não tivesse estado. —
Ao entrar no quarto, ele acendeu as luzes e depois fechou a porta atrás
de si.
Quando meus olhos se ajustaram à luz, vi que seus braços
estavam carregados com besteiras para comer. Caleb estava carregando
uma enorme tigela de pipoca de microondas com manteiga extra em uma

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mão e um pequeno cooler que eu sabia que teria um litro de leite com
chocolate, Cocas diets e um litro de sorvete. Os braços de Angie estavam
muito cheios. Ela estava com uma caixa de pizza do meu restaurante
italiano favorito, um saco de Doritos, e um recipiente de cebola francesa.
Assim que eles alcançaram a minha cama, eles largaram tudo em
cima das minhas cobertas e deixaram-se cair em ambos os meus lados.
O grande corpo de Caleb fez a cama gemer e saltar algumas polegadas
quando ele se deitou.
Me sentei, empurrando meus travesseiros nas minhas costas
enquanto eu olhava para toda aquela coisa. — O que é isso?
— Essa é a nossa festa de despedida — Caleb me informou com
um pequeno sorriso triste. — Já que você não pode ir a uma discoteca
conosco ou algo divertido assim, nós pensamos em trazer a diversão para
você. — Ele tirou os sapatos e deslizou sob as cobertas comigo.
Angie estendeu a mão para o meu controle remoto, para a tela
plana que estava pendurada na parede na frente da minha cama, antes
de fazer a mesma coisa que seu irmão tinha acabado de fazer. — Nós
vamos assistir a filmes hilariantes, comer até vomitar, e dormir juntos.
Como estamos habituados a fazer.
Pela primeira vez naquele dia, os meus olhos começaram a arder
com lágrimas. Meu lábio inferior começou a tremer e eu o mordi com
força para impedi-lo. Vendo que os meus olhos estavam brilhantes de
lágrimas, eu que estava espremida em um meio-sanduíche pela
centésima vez naquele dia. — É apenas um ano, Kin — Caleb correu para
me assegurar. — Menos, na verdade. E então, você estará aqui de volta,
irá para a universidade e fará nossas vidas miseráveis mais uma vez.
— Caleb! — Angie repreendeu seu irmão gêmeo, mas eu tentei
sorrir e lhe dei uma cotovelada no estômago. Eu sabia que ele estava
apenas brincando. Ao contrário de alguns meios-irmãos que brigavam e
se odiavam como inimigos mortais, meu meio-irmão, meia-irmã e eu,
éramos mais próximos do que se tivéssemos o mesmo sangue. A diferença
de idade de quatro anos entre nós três poderia muito bem não ter existido
de tão próximos.

9
Eu ia sentir tanta falta deles.
— Nós vamos visitá-la a cada oportunidade que tivermos — Angie
prometeu enquanto abria a caixa de pizza, fazendo o cheiro de tomate e
alho encher a sala. — Natal na Califórnia deve ser divertido.
— Vou perder a neve. — Eu sussurrei quando peguei uma fatia
de pizza de queijo. Eu amava acordar na manhã de Natal e ver toda
aquela neve em Aspen, onde nós sempre passamos o Natal. Eu duvidava
que haveria toda aquela neve em Malibu no Natal deste ano.
— E papai disse que vai ver você sempre que tiver que voar para
Cali para negócios. — Caleb abriu o saco de Doritos e me entregou o
recipiente com molho. — E podemos nos falar no FaceTime todas as
noites. E mandar mensagens. E e-mail. E…
— E? — Eu perguntei com a boca cheia de pipoca.
— E Skype — Angie falou enquanto enfiava outro pedaço de pizza
na boca. Se ela estivesse em qualquer outro lugar, com outras duas
pessoas, minha linda meia-irmã não estaria enchendo o rosto com
alimentos gordurosos cheio de carboidratos ruins. Mas comigo e Caleb,
ela não se importava. Ela sabia que com a gente, ela estava livre para ser
quem queria ser.
— Sim, Skype — Caleb disse com um aceno de cabeça. — Nós
vamos conversar e nos ver tanto que vai ser quase como se ainda
estivéssemos na Costa Leste.
Porque eles estavam tentando tanto, eu forcei um sorriso para eles
e continuei a comer o meu peso em besteira. Angie finalmente decidiu
deixar em um filme no canal pay-per-view antes de voltar e alcançar o
pacote de ursinhos de goma que eu não tinha notado antes. Quando eu
vi os créditos de abertura, eu bufei Coca Diet para fora do meu nariz.
— O quê? — Angie perguntou inocentemente enquanto pegava um
guardanapo para que eu pudesse limpar o edredom e minha boca.
Caleb suspirou para sua irmã antes de envolver seus enormes
braços em volta de mim e puxar minha cabeça para baixo em seu ombro
duro. — Você tem um fetiche estranho por Jonah Hill, Ang. Não é certo.
Talvez você deva começar a ver seu psiquiatra de novo.

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Com o meu nariz ardendo da Diet Coke, em vez de precisar gritar
o mais alto possível, uma pequena risada escapou de mim. Revirando os
olhos quando meus meios-irmãos começaram a brigar um com o outro,
eu me abracei contra Caleb um pouco mais e absorvi um pouco mais do
amor por ele enquanto eu ainda podia.

11
Capítulo 2

O sol estava passando pela minha janela, forçando um gemido


mal-humorado da minha garganta. Alcançando meu travesseiro extra, eu
puxei-o sobre o rosto para bloquear a luz, desejando que eu pudesse
bloquear o resto do mundo no processo.
Eu não podia. Eu sabia que não podia. Não significa que eu não
podia desejar.
O som do alarme no meu telefone, o alarme do relógio ao lado da
minha cama, e as batidas na porta do meu quarto não me deixavam
bloquear nada essa manhã. Grunhindo, alcancei meu telefone,
silenciando-o com o toque do meu dedo. O alarme do relógio ao lado da
minha cama era um pouco mais difícil de desligar, pois eu não sabia
muito sobre a coisa estúpida que a monstra colocou ali quando decorou
esse quarto horrível para mim. Então, eu o alcancei cegamente, empurrei
até a parede e o quarto felizmente ficou silencioso.
A batida na minha porta continuou, no entanto. — Vá embora! —
Eu gritei, depois de levantar o travesseiro o suficiente para libertar minha
boca.
Aparentemente “vá embora” significava “por favor, fique à
vontade” nesta casa de idiotas. A porta se abriu, e minha madrasta
monstra entrou. Eu sabia que era ela, não porque eu tinha levantado o
travesseiro dos meus olhos, mas pelo cheiro repentino de perfume caro.
O mesmo perfume que encheu meus pulmões na noite anterior, quando
Jillian fingiu beijar cada uma das minhas bochechas quando encontrou
meu pai e eu no aeroporto.
É claro que havia cerca de dez câmeras piscando quando ela me
cumprimentou. Câmeras que a monstra tinha trazido para quando ela

12
cumprimentasse seu marido com um beijo que me deixou envergonhada,
assim como me fez querer vomitar.
Nojento.
— Você vai se atrasar para o seu primeiro dia de escola, McKinley
— Jillian me informou em seu tom frio. Honestamente, após a saudação
calorosa que recebi na frente dos paparazzi na noite anterior, era uma
maravilha se eu não ganhasse um gelo da mulher agora. Claro, não havia
câmeras para que ela precisasse bancar a “família feliz” hoje.
O travesseiro foi subitamente puxado para fora do meu rosto e eu
olhei para Jillian quando ela puxou as cobertas de cima da minha cama
e, em seguida, se virou e foi para ligar o chuveiro. Um olhar para o relógio
no meu telefone me disse que eu tinha uma boa hora antes de ter que
estar na escola, que ficava somente a dez minutos de carro da casa de
Malibu do meu pai. Ao contrário de Angie, eu não precisava de uma hora
no banheiro para me arrumar. Um banho rápido, uma muda de roupa, e
eu estava pronta.
Jillian não pareceu se importar quando eu lhe disse que não
precisava de mais de quinze minutos para ficar pronta. Então, ao invés
de discutir, eu me arrastei para fora da cama e me arrastei para o
banheiro, que já enchia de vapor do chuveiro. Conforme puxei a minha
camiseta do pijama sobre a cabeça, eu ignorei Jillian que já estava
selecionando maquiagem Dior e produtos de cabelo de algum salão
ostentoso.
Levei cinco minutos para tomar banho, a maior parte desse tempo
gasto em lavar o meu longo cabelo vermelho. Quando eu desliguei a água,
Jillian me deu um olhar estranho antes de voltar para o que estava
fazendo. Uma chapinha de ferro já estava ligada ao lado de um secador
de cabelo. Erguendo minhas sobrancelhas para eles, eu me sequei e, em
seguida, puxei meu cabelo em um coque bagunçado em cima da minha
cabeça. Peguei minha escova de dentes e começei a escovar. Dois minutos
depois, eu saio do banheiro e volto para meu quarto para pegar o
uniforme que eu deveria vestir para ir à escola todos os dias.

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Ugh, eu pensei, fazendo uma careta para a saia preta que não
chegava até os joelhos e camisa pólo branca combinando. Havia um
blazer preto pendurado na parte de trás da minha porta do armário. Se
eu teria que usar saia e blazer, o mínimo que eu podia fazer era me deixar
usar minha própria blusa. Então, ao invés de vestir a pólo branca, pequei
minha camiseta cinza do Metallica e depois vesti um par de botas. Eu
não voltei para o banheiro, apenas peguei a bolsa estilo mensageiro que
tinha o meu nome e o emblema da minha nova escola nele.
No andar de baixo, peguei uma fatia de pão, sufocando-o em
manteiga e geleia de morango antes de pegar um suco de laranja tamanho
individual. Enchendo minha boca com o pão, eu peguei o suco e fui até
a porta da frente pelo corredor, onde minhas irmãs estavam esperando
por mim.
Se você olhasse para elas e depois para mim, saberia que não
havia nenhuma possibilidade de sermos parentes de sangue. Minhas
duas irmãs, Georgia e Carolina, estavam vestidas para matar.
Literalmente. Elas usavam tanta maquiagem, produto de cabelo e
perfume que eu estava certa de que algo ou alguém tinha sido morto ao
longo do caminho. Talvez alguns animais inocentes e alguns
universitários que foram cobaias para alguma empresa para testar os
seus produtos e precisavam de algum dinheiro extra. Tudo para que
minhas duas meias-irmãs pudessem parecer tão bonitas e falsas como
naquele momento.
Quando me viram andando na direção delas, seus olhos se
estreitaram. — Mamãe deixou você sair do quarto sem terminar de fazer
o cabelo? — Carolina exigiu. Das duas, ela era a mais nova, e talvez a
mais inteligente também. Mas não menos esnobe do que a irmã. Georgia,
que tinha a minha idade, era uma réplica exata de sua mãe. Tudo, até o
tom frio de voz.
Dei de ombros, enquanto eu continuava a mastigar minha
torrada. Eu só arrumava meu cabelo para a escola por duas razões: dia
de foto ou baile de formatura. Nenhum deles aconteceria hoje, então não

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tinha como eu fazer nada mais além disso com meu cabelo. — Quem vai
dirigir? — Perguntei, falando com a boca cheia.
Georgia me deu um olhar de nojo, mas ergueu o conjunto de
chaves em suas mãos. — Eu, já que Carolina não tem sua licença ainda.
Ela só tem quinze anos.
— OK, legal. Estou pronta quando você estiver.
Georgia me deu outro aceno, suspirou com desgosto e abriu a
porta. Lá fora, o sol de setembro estava olhando para mim e eu peguei
meus óculos de sol de minha bolsa de mensageiro, enquanto as seguia
até o pequeno carro esportivo já esperando na frente da casa. Não sentei
no assento do passageiro da frente. Por um lado, eu não queria conversar
com qualquer uma delas. Era evidente demais que não gostavam de mim,
e acredite, o sentimento era mútuo. Menos de um dia na Costa Oeste e
eu já podia dizer que não conhecer as minhas duas meias-irmãs não teria
sido um arrependimento que eu teria tido no meu consciente para o resto
da minha vida.
Do banco de trás do carro de esporte muito caro, eu aprendi muito
sobre as elas, embora. Primeiro que Georgia não sabia dirigir. Em mais
de uma ocasião, eu fechei os olhos e rezei para qualquer deus que ainda
me ouvisse para que eu chegasse inteira na escola. Segundo, que
Carolina conseguia digitar um diálogo inteiro enquanto falava com sua
irmã ao mesmo tempo, mas aparentemente, Georgia não conseguia falar
e dirigir ao mesmo tempo. Eu descobri que nenhuma delas tinha bom
gosto musical enquanto brigavam sobre que canal de rádio ouviriam.
Meus pobres ouvidos foram torturados com as notas de algum cara de
R&B até o momento em que paramos em uma vaga do estacionamento
para estudantes que dizia reservado para a líder das líderes de torcida da
Malibu Academy.
Sério? Um local reservado para a líder das líderes de torcida? Que
diabos era uma líder das líderes de torcida de qualquer forma? Isso
significava que ela era a capitã? A presidente da sociedade das líderes de
torcida? Espere, existia algo como uma sociedade das líderes de torcida?
Eu tenho que lembrar de perguntar a Angie depois.

15
Saí da parte traseira do pequeno carro que teria garantido um
ataque de histeria a Caleb pela forma como Georgia o dirigia. Caleb era
um graduando em engenharia, planejava se tornar um designer
automobilístico e amava sua coleção de brinquedos rápidos que ele tinha
em nossa casa em Virginia. Meu meio-irmão ficaria furioso com a
maneira como Georgia quase carregou não só uma caixa de correio, mas
um sinal de parada e um maldito hidrante em um espaço de quase dez
minutos.
— Eu te mostro o escritório do diretor, — Carolina ofereceu
enquanto esperava que eu saísse do banco de trás.
— Não, obrigado. Eu faço isso. — eu disse por cima do meu ombro
enquanto colocava meus fones no meu ouvido esquerdo e ligava uma
música de verdade para aliviar a dor de ter que ouvir música ruim na
viagem para a escola. Seether encheu minha orelha esquerda e suspirei
de alívio quando entrei no prédio.
Quinze minutos mais tarde, quando eu estava na frente da
secretária com todos os documentos que eu precisava trazer, eu já estava
desejando estar de volta na Virgínia. Jillian tinha me ligado não dez
segundos depois de ter entrado no edifício, furiosa porque eu tinha
deixado a casa sem arrumar meu cabelo ou passar qualquer maquiagem.
O diretor tinha me visto assim que eu entrei no escritório e eu tinha sido
forçada a suportar uma palestra de cinco minutos sobre por que todo
mundo tinha que usar camisas polo branca sob seus blazers, e me fez
prometer usar a peça correta no dia seguinte.
Para melhorar tudo, não havia nenhuma matéria extracurricular
aberta em que eu estivesse interessada. Felizmente, no entanto, a
secretária tinha me prometido que iria me colocar no jornal da escola
para a minha aula do terceiro período. Se eu não poderia fazer aula de
poesia, pelo menos eu poderia fazer algum tipo de escrita.
Finalmente, a mulher mais velha me entregou o meu horário de
aula e um mapa da escola. — Sua primeira aula já começou, então se
apresse. Se você precisar fazer quaisquer alterações ao seu horário,
certifique-se de fazê-lo até o final da semana ou este será o definitivo.

16
Pegando as folhas de papel, olhei para o calendário e tentei evitar
rolar meus olhos quando vi que era trigonometria. Chato. Eu já tinha
feito trigonometria em Virginia, mas, obviamente, a trigonometria da
Costa Leste era muito diferente da Costa Oeste, e eu tive que aprender
tudo novamente.
Os corredores estavam vazios quando fui para minha primeira
aula. Demorou quase cinco minutos, mas finalmente encontrei a sala de
aula designada e abri a porta. Quando entrei, a classe ficou em silêncio.
O professor, que estava de pé na frente da classe fazendo uma pergunta,
fez uma pausa longa o suficiente para olhar para mim.
— Podemos ajudá-la? — Ele perguntou em um tom aborrecido.
— Sou McKinley Montez — Eu informei a ele enquanto ia em sua
direção, oferecendo-lhe o cronograma para que ele pudesse confirmar que
eu estava na sala correta.
Os olhos do professor se arregalaram e ele acenou de novo depois
de aceitar meu horário. Eu sabia que ele não poderia estar surpreso por
eu ser filha de Scott Montez. A Malibu Academy estava cheia de pirralhos
de celebridades. Então, o que era diferente em mim? Talvez porque eu
não parecia em nada com o perfil do meu pai? Ou porque eu nunca estive
nos tabloides com meu pai e ninguém tinha realmente me visto até a
morte de minha mãe? Scott tinha jogado a morte de Abby aos meios de
comunicação e deixou a minha vida ainda mais infernal a partir do
momento que minha mãe faleceu.
Eu era cem por cento filha da minha mãe com o meu corpo esbelto
longo, cabelo vermelho escuro, e grandes olhos azuis. Meu tom de pele
era de alabastro e, sim, eu tenho, de fato, algumas curvas. Não, elas não
foram plasticamente reforçadas como as da minha madrasta. Se me
perguntarem, eu admito que era bonita, mas eu não diria que era
exatamente linda.
— Eu sou o Sr. Blankenship. Vá em frente e tome seu lugar,
senhorita Montez.
Dei de ombros e sentei no único assento disponível, que ficava a
duas filas ao longo da porta e três cadeiras para trás. Eu mantive meus

17
olhos na minha mesa até que eu estava sentada, então peguei meu
caderno e uma caneta no caso de precisar anotar algo, mas percebi que
só ficaria rabiscando até que a aula acabasse.
Quando o Sr. Blankenship voltou para sua palestra, ouvi alguns
sussurros e risadinhas por trás de mim e cerrei os dentes. Dois segundos
na minha primeira aula e já estavam rindo de mim. Ótimo. Revirando os
olhos para mais uma risadinha bem atrás de mim, eu coloquei um fone
no meu ouvido esquerdo e foquei meu olhar, para que pelo menos, desse
a impressão de que eu estava prestando atenção. Não era como se eu
estivesse ouvindo algo pela minha orelha direita de qualquer forma. Eu
tinha perdido toda a audição nele quando era criança. Eu tive problemas
de infecção de ouvido que me fizeram ficar internada, mas não antes de
perder completamente a audição no ouvido direito.
Se trigonometria era chata, então a minha segunda aula foi um
festival de soneca. História não era meu assunto favorito. Se alguma
coisa, ela estava no topo das minhas aulas no ranking tortura. Eu estava
esperando sentar em um lugar no fundo, mas é claro, não havia nenhum.
Em vez disso, fiquei presa bem no meio de todos. Quando me sentei, senti
os olhos de todos me perfurando. Eu queria perguntar o que eles estavam
olhando, mas é claro que não fiz isso. Era cedo demais para começar a
mostrar minhas verdadeiras cores. Eu não queria assustá-los com meu
jeito franco de ser. Pelo menos ainda não.
O sino tocou e a professora, a Sra Crane, levantou-se atrás de sua
mesa onde estava observando todos desapaixonadamente e começou a
lecionar em um tom monótono que praticamente induzia ao coma. Eu
realmente queria colocar meu fone de volta, mas História não era
exatamente o meu assunto favorito. Tanto quanto eu odiava, eu tinha
que prestar atenção nesta aula.
Por alguns minutos.
— Hey — eu ouvi alguém atrás de mim sussurrar, mas logo
ignorei.

18
— Ei, você. Montez. Um pedaço de papel enrolado pousou na
minha mesa e eu não tive escolha a não ser reconhecer a pessoa por trás
de mim e à minha direita.
Alguma vez você já olhou para alguém pela primeira vez, e no
momento em que seus olhares se encontram, percebe que essa pessoa
seria uma parte importante da sua vida? Eu tive essa sensação duas
vezes na minha vida antes desse momento. A primeira vez foi quando eu
tinha quatro anos e conheci Angie e Caleb pela primeira vez, depois da
minha mãe e Carter estarem namorando há algumas semanas.
A segunda vez…
Bem, eu não quero pensar sobre a segunda vez em que eu tive
esse sentimento. Quem eu pensei que seria a pessoa mais importante na
minha vida tinha destruído meu coração apenas algumas semanas
depois que minha mãe recebeu a notícia devastadora de que não duraria
o resto do ano.
Mas no instante em que eu encontrei aqueles olhos escuros, eu
sabia que essa garota seria minha nova melhor amiga.
Quando vi a menina sentada lá, eu pisquei novamente, certa de
que eu estava vendo coisas. Mas não. Ela permaneceu a mesma quando
abri os olhos pela segunda vez. Dizer que essa menina era linda teria sido
um eufemismo. Ela usava pouca maquiagem que destacava seus olhos
quase pretos e cílios longos. Havia algum produto em seu cabelo
encaracolado louco, mas que domava aquela rica massa escura com
perfeição. A única imperfeição era a ligeira cicatriz acima do lábio e na
parte inferior do mesmo, mas que só aumentava sua beleza de uma forma
estranha.
— O quê? — Eu sussurrei de volta para ela.
— Qual seu horário de almoço?
Olhei para o meu horário. — O primeiro.
Ela sorriu. — Bom. Espere por mim depois da aula.
Eu fiz uma careta, mas ela só voltou sua atenção para a Sra Crane
e sua palestra. Balançando a cabeça, tentei me concentrar por mais
alguns minutos antes da voz do professor me irritar e eu colocar meu

19
fone no ouvido novamente. Fingi prestar atenção enquanto fingia ler o
capítulo sobre o qual ela estava discutindo enquanto batia o pé ao som
da música da OtherWorld que havia acabado de ser lançada.

20
Capítulo 3

Eu levei meu tempo arrumando minha bolsa quando o sinal


finalmente tocou no final da aula. Um olhar sobre o meu ombro me
mostrou que a bela morena de cabelos encaracolados ainda estava
embalando suas coisas. Então, eu esperei até que ela estivesse em pé
antes de me levantar. Quando ela se virou para mim, percebi que era
mais alta do que ela, pelo menos alguns centímetros, mas isso não era
nada que eu não estivesse acostumada. Me senti assustadoramente alta
nos meus quase um metro e oitenta.
Quando saímos do quarto juntos, minha nova amiga me ofereceu
sua mão. — Eu sou Lucy.
— McKinley. Mas você pode me chamar de Kin. — Joguei minha
bolsa por cima do meu ombro. Eu só deixo as pessoas mais próximas a
mim me chamarem de Kin, mas eu já sabia que Lucy e eu seriamos
próximas.
— Eu ouvi sobre sua mãe — Lucy disse quando passamos por
uma baía de armários. — Meus pêsames.
Minha mandíbula se apertou. Eu tentei não pensar sobre a minha
mãe durante todo o dia e tinha conseguido pela maior parte. Mas agora,
isso voltou a minha mente. — Obrigada.
— Merda, eu não quis chatear você. — Lucy suspirou. — Muito
bem, Lu. Tenta fazer amizade com a garota e acabar alienando-a.
Meu queixo afrouxou e eu quase sorri para minha nova amiga,
todos os pensamentos de choro indo embora. — Você está falando consigo
mesma?
Ela fez uma careta. — Sim. Mecanismo de enfrentamento. Meu
psiquiatra diz que é saudável. Eu acho que isso me faz parecer que
preciso estar em uma ala psiquiátrica presa com uma camisa de força.

21
— O-kay. — O sorriso se soltou e não pude evitar sacudir a cabeça
para ela. — Então, o almoço aqui é bom? Não é aquela porcaria vegana,
não é? Preciso de carne vermelha e gordura.
Minha mudança de assunto imediatamente deixou Lucy à
vontade de novo. — O almoço aqui é de alto nível. Tipo, de chefs de classe
mundial da Itália, França e Japão. Há uma seleção vegana, mas há muito
mais para escolher além disso. Mas você não vai encontrar qualquer
gordura no menu, e carne vermelha? Apenas às sextas-feiras.
Enquanto caminhávamos, eu notei várias pessoas parando para
olhar, enquanto eu caminhava ao lado de Lucy. Alguns olhos pousaram
em mim, mas parecia que os mais valentes dos espectadores mantiveram
seus olhares sobre Lucy. Minha nova amiga, no entanto, parecia alheia a
todos. Mantendo os olhos em mim enquanto caminhávamos para o
refeitório e pegava nossas bandejas, ela explicou os melhores alimentos
para se pegar e quais evitar a todo o custo.
Depois que pegamos nossas refeições – a minha era tiras de frango
grelhado e batata-doce enquanto a de Lucy tinha iogurte grego, metade
de um sanduíche de pão integral e algumas tiras de cenoura - parei para
olhar em volta à procura de um lugar para sentar. Sem uma palavra,
Lucy me levou até uma mesa na parte de trás que estava completamente
vazia. Olhando em volta, vi que quase todas as mesas estavam
transbordando com os alunos, mas essa mesa? Estava vazia?
E os olhares continuavam acontecendo.
— Tem alguma coisa no meu rosto? — Perguntei a Lucy quando
me sentei ao lado dela, de costas para a parede para que eu pudesse ver
os outros.
Lucy franziu a testa, em seguida, seguiu o meu olhar para as
pessoas ao nosso redor. Suspirando, ela abriu a garrafa de água Voss e
tomou um pequeno gole. — Talvez eu devesse avisá-la. Eu sou meio que
a excêntrica daqui.
Sua confissão sequer me perturbou. Se essa garota era estranha,
então eu era doente mental, porque, honestamente, ela era a única que
tinha falado comigo hoje além das minhas irmãs, quando nós chegamos

22
nesse maldito colégio particular e caro. Mas ainda assim, a minha
curiosidade foi aguçada. — O que isso quer dizer? — Ao olhar para ela,
ela parecia acima do normal para mim. Excepcionalmente bonita,
agradável, obviamente inteligente pela inteligência brilhando em seus
olhos.
— Bem, não sou eu, propriamente dito, mas a minha família. —
Ela suspirou de novo e pegou o copo de iogurte. — Todo mundo aqui é
filho de celebridade, de algum tipo ou forma. Como Piper ali? — Ela
assentiu com a cabeça para uma garota que estava sentada em uma
mesa cheia com uma mistura de rapazes e garotas, mas, honestamente,
para mim, parecia que ela estava sozinha no mundo pelo jeito que ela
estava comendo sua maçã e lendo alguma coisa em seu Kindle. — A mãe
dela é algum tipo de princesa, literal e figurativamente. A mãe dela faz
algum reality show sobre ser real. Acha que ela é a próxima Kardashian
ou alguma porcaria... E Brody? Seu pai é um jogador de futebol famoso
na Inglaterra, mas sua mãe mora aqui. — A cabeça de Lucy se inclinou
em direção a uma mesa vários metros à nossa esquerda e vi um menino
que era talvez da minha idade, com o cabelo mais escuro que eu já vi na
minha vida e um rosto cheio de sardas. Deve ter parecido estranho, mas,
surpreendentemente, não pareceu. Talvez fosse o sorriso em seu rosto
quando ele piscou para a menina sentada no lado oposto da sua mesa.
— Há filhos de políticos aqui. De estrelas do esporte, estrelas pop,
supermodelos e, adivinhe, eu tenho certeza de que há pelo menos um
garoto aqui que tem um pai estrelando algum filme. Muito parecido com
você, eu acho, já que o seu pai é o diretor top nestes dias e só faz alguns
filmes. E então você tem a mim... — Ela fez uma careta e deu uma
mordida de seu iogurte.
— Então o que seus pais fazem? — Eu levantei uma sobrancelha,
mais curiosa a cada minuto.
— Meu pai é um demônio2.

2
Tradução de Demon, referência a Demon’s Wings.

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Era um dia para muitas piscadas. — Um demônio? Tipo, ele fez
um pacto demoníaco e adora o diabo ou qualquer que seja a porcaria que
eles fazem? Ele tem superpoderes e você pode se transformar em uma
garota assustadora com chifres e uma cauda?
Isso produziu uma risada de minha melhor amiga. — Não. Não
esse tipo de demônio. Ele é o baterista da Demon’s Wings...
Tenho certeza que ela teria dito mais, mas meu grito a deteve. —
Oh Meu Deus! — Virei-me na minha cadeira e agarrei-a pelos ombros. —
Você é LUCY THORNTON!
Foi a vez de Lucy piscar, mas ela não chegou mais longe além de
abrir a boca novamente antes de uma mão firme tocar meu ombro e
minha cabeça se levantar. — Liberte-a. Agora.
Meus olhos quase saltaram para fora da minha cabeça quando vi
o homem de pé em cima de mim. Se você já viu fisiculturista de ternos,
então você pode começar a entender o que o animal em forma de homem
que estava olhando para mim com olhos frios e sem emoção parecia. Seu
cabelo era cortado, como se ele estivesse nas forças armadas. Seus olhos
escureceram e se estreitaram em mim como se eu planejasse cortar a
cabeça de Lucy fora e escavar suas entranhas para fazer algum tipo de
feitiço vodu em toda a escola. Veias incharam fora de seu pescoço,
desaparecendo na gola de sua camisa e paletó.
— Hum ... Ok. OK. Desculpe. — Eu levantei minhas mãos,
deixando-as em pose de desistência.
Lucy fez uma careta. — Está tudo bem, Marcus. Kin só está
animada. Ela não ia me matar.
— Você tem certeza que está bem? — Marcus manteve os olhos
em mim enquanto ele dirigiu sua pergunta a Lucy.
— Sim. Estou bem. Se eu precisar de você, vou gritar. Não se
preocupe.
Depois de mais um momento tenso. Marcus recuou e, em seguida,
desapareceu como se ele tivesse uma passagem secreta onde esconder.
Eu não o tinha visto chegar, mas era óbvio que ele observava Lucy como
um falcão. Para ocultar o meu desconforto, eu peguei uma tira de frango

24
com os dedos e mergulhei-a dentro do recipiente de molho que eu peguei
do balcão de saladas. — Desculpe.
— Não, eu sinto muito. — Lucy empurrou a bandeja para longe,
seu apetite aparentemente desaparecido. — De qualquer forma, é por isso
que eu sou a excêntrica aqui. Este lugar tem a melhor segurança no país.
Há uma equipe de guardas de segurança patrulhando os jardins e salões
em todos os momentos. Mas meu pai, ele não me deixa sair de casa sem
Marcus. E por causa da minha tia Em, a escola aceitou-o como minha
sombra.
Mordi minha fatia de frango antes de limpar os dedos e boca. —
Tenho certeza que ele tem suas razões.
Ela assentiu solenemente. — Sim. Ele tem muitos.
Eu dei outra mordida em meu frango enquanto observava o rosto
dela se modificar com o que parecia ser más recordações. Eu não podia
acreditar que não percebi quem Lucy era quando a vi pela primeira vez.
A garota era muito conhecida no mundo do rock como se fosse da realeza,
e como filha de um Demon, ela praticamente era.
Eu me interessei pelo Demon’s Wings quando tinha onze anos.
Caleb era um grande fã de rock e passou isso para mim. Foi nessa época
que eu soube que algo ruim tinha acontecido com alguns membros da
banda por causa de alguma fã louca. Eu tentei descobrir o que tinha sido,
mas não havia muitas histórias sobre isso. O relações públicas de alguém
deve ter feito horas extras para se certificar de que os tabloides não
tivessem a história completa.
Eu me perguntei se era por isso que os pais de Lucy eram tão
superprotetores, ou se era algo completamente diferente. Mas eu não
sinto que posso perguntar. Eu gostava dela e não queria me intrometer.
Se ela quisesse me contar, faria isso.
Minha nova amiga ficou tranquila pelo resto da refeição. Eu
terminei o meu almoço e nós caminhamos juntos para jogar nosso lixo.
Enquanto caminhávamos silenciosamente para fora da lanchonete, puxei
meu horário da minha bolsa e olhei. Aula de informática. Chato.

25
— Como é o resto do seu dia? — Lucy perguntou quando olhou
para os papéis em minhas mãos. Vendo minha próxima aula, ela franziu
o nariz. — Você sabe digitar?
Dei de ombros. — Todos nós, não sabemos? — Provavelmente era
muito cedo na nossa amizade para admitir que eu tive problemas mais
de uma vez por hackear. Computadores não eram nada para mim, graças
à tutela de Caleb e Angie. Angie mais do que Caleb. Minha meia-irmã era
mais do que apenas um rostinho bonito, mas era esse rosto bonito que a
livrou de muitos problemas que eu acho que a maioria teria que enfrentar
por alguns dos crimes cibernéticos que ela cometeu.
— Então, você vai passar nessa aula. — Seus olhos escuros
examinaram meu horário até a última aula, lendo facilmente de cabeça
para baixo. — Impressionante. O jornal. — Ela olhou para mim, um
sorriso em seu rosto me dizendo que suas memórias ruins estavam muito
longe, pelo menos pelo momento. — Eu sou sua editora.
— Ótimo. Pelo menos vou ter alguém para conversar. — Eu afastei
os papéis me virei para onde o armário deveria estar. Eu deveria mexer
nele todo dia, então achei melhor, pelo menos, descobrir onde ele estava.
Lucy me seguiu, e foi só então que eu notei a sombra ligeira atrás
dela. Marcus. Huh, então ele não tinha uma passagem secreta. Ele só
sabia como se misturar no fundo. Isso era muito legal. Ergui a cabeça o
suficiente para olhá-lo nos olhos, inclinei meu queixo para ele em
reconhecimento e, em seguida, decidi que era melhor ignorá-lo. Eu não
queria deixar Lucy desconfortável, continuando a chamar atenção para
seu guarda.
— Você gosta de escrever? Não são muitos os alunos novos que
querem se juntar ao jornal. Especialmente com o jeito como eu comando.
Sou meio que uma ditadora quando se trata de finalizar a edição
semanal. — Lucy tinha o telefone na mão agora, passando polegar sobre
a tela enquanto lia através do que eu assumi ser seu e-mail ou mídia
social.
— Eu posso lidar com ditadores — eu assegurei-lhe com um
sorriso.

26
Finalmente, chegando ao meu armário, comecei a trabalhar na
combinação antes de responder a primeira pergunta. — Eu gosto de
escrever poesia e músicas. Sou uma grande fã de música. — Ergui os
olhos para encará-la, avisando-a que eu não estava tentando marcar
pontos com o que eu estava prestes a admitir. — E sou um grande fã do
Demon’s Wings e OtherWorld. Drake Stevenson é um maldito deus pela
forma como toca sua guitarra.
— Fantástico. Tia Emmie vai te amar. Ela aprecia os verdadeiros
fãs dos caras. — Ela se inclinou para trás contra o armário ao lado do
meu. — E Drake é algo especial. — Os olhos escuros brilharam quando
ela sorriu. — Eu não o trocaria por nada.
Minhas sobrancelhas levantaram quando abri meu armário e
encontrei um saco de presente rosa transbordando com papel de seda em
tons pastel. — O que diabos é isso?
Lucy sequer se moveu. — É um saco do presente “Bem-vinda a
Malibu Academy”. Ele tem os elementos essenciais, de acordo com a
capitã das líderes de torcida. Os rapazes ganham um também, mas só
tem água de colônia, uma garrafa de água, um panfleto estúpido e, se
eles são bonitos o suficiente, o número de celular da sua meia-irmã. —
Eu suspirei ao pensar em Georgia e no sinal na estupida vaga de
estacionamento quando levantei o saco e olhei dentro. — Há gloss labial,
uma garrafa de água, algum tipo de perfume doentiamente doce, e spray
de cabelo.
Eu balancei minha cabeça enquanto levantava o panfleto do saco.
— E isto?
Lucy resmungou e afastou-se dos armários. — Essa é a lista de
clubes e outras coisas, mas é mais de um folheto de hierarquia, se você
me perguntar. Ele mostra o quão popular você é por qual clube ou esporte
você está.
Abrindo o livreto, eu vi o que ela queria dizer. Tinha os esportes e
clubes listados na ordem em que você esperaria que crianças populares
estivessem, terminando com o Clube de latim. O que havia de errado com
o latim? Revirando os olhos para a lista, eu o deixei cair de volta para o

27
saco de presente e o devolvi para o armário. Eu provavelmente não
visitaria meu armário muitas vezes mesmo, então essa porcaria poderia
ficar lá.
Enquanto eu fechava a porta, o sinal campainha tocou. Lucy
empurrou alguns cachos de seu rosto enquanto ela se movia alguns
passos mais perto. — Vejo você em uma hora.

28
Capítulo 4

O cheiro de café encheu meu nariz e acordou todos os meus


outros sentidos. Gemendo, me virei na cama, sorrindo quando encontrei
um corpo quente espalhado ao meu lado. Meu coração bateu mais forte
quando eu respirei fundo, apenas para franzir a testa quando inalei um
perfume que eu não estava esperando. O perfume era diferente.
Porra.
Levantando minha cabeça, eu achei a loira - não a ruiva que eu
estava esperando - que eu tinha trazido para casa comigo na noite
anterior, enrolada em um dos meus travesseiros como se estivesse
criando raízes na minha cama. Meu olhar deslizou sobre o que eu podia
ver dela. Rosto agradável, imaginei. Ou teria sido se não tivesse
endurecido com toda aquela maquiagem que agora estava manchada.
Seu cabelo era longo, o que provavelmente foi o que me atraiu em
primeiro lugar. Eu era um otário por cabelo longo.
Longo cabelo vermelho...
Sacudindo o pensamento da menina que eu tinha deixado para
trás, eu continuei a minha apreciação da garota com quem eu tinha
ficado após o show na noite anterior à First Bass. As cobertas estavam
dobradas sob seus braços, mas eu ainda podia ver o decote, me dizendo
que seu cabelo não foi a primeira coisa a chamar minha atenção. Vou
admitir que sou um homem de seios. Sempre fui, sempre serei.
A Garota da Ficada também tinha uma pele clara.
Além da cor do cabelo, ela lembrava muito a garota que eu queria
esquecer, mas não conseguia afastar da minha mente. Mas ao contrário
dos meus sentimentos para a ruiva na minha mente, o que quer que eu
senti na noite anterior a respeito da Garota da Ficada se foi faz tempo.

29
Eu tinha conseguido o que queria e agora tinha que me livrar dessa
garota antes que ela decidisse ficar por aqui.
Meu telefone vibrando com uma mensagem de texto tirou minha
atenção do rosto da loira. Agarrando-o antes que ele pudesse acordar
minha convidada agora indesejada, vi que era Grayson me avisando que
fez café e estava indo para o ginásio. O pensamento de café junto com o
cheiro persistente no ar me ajudou a funcionar e eu consegui sair da
cama.
Eu descobriria como me livrar da Garota da Ficada depois de ter
uma ou duas xícaras de café forte em minhas veias. Eu não quero ser um
idiota sobre isso, mas seria se precisasse. Certo, então eu só queria que
ela fosse tão longe quanto possível. Arrependimento estava me
sufocando. Eu sentia como se tivesse cometido adultério, mesmo que eu
não tenha mais uma namorada.
Apertando minha mandíbula, peguei a cueca boxer que deixei de
lado na noite anterior. Vesti e agarrei a primeira camiseta que vi no
caminho para fora do quarto.
O apartamento de três quartos que eu dividia com Gray era maior
do que nós dois precisávamos, mas quase não era grande o suficiente ao
mesmo tempo. Talvez fosse apenas porque era com Gray que eu o dividia.
Eu respeitava o roqueiro, que era o fundador e guitarrista da Tainted
Knights. Ele tinha habilidades loucas e eu sabia que ele era a razão por
sermos notados.
Grayson Knight, o homem, eu não conseguia suportar.
Eu cresci com Gray. Por quase metade da minha vida, que eu vivi
sob o mesmo teto que ele, fomos criados pela mesma mulher. Meus pais
se separaram quando eu tinha dez anos, deixando eu e minha irmã,
Kassa, para cuidar de nós mesmos.
Eu mal lembrava o homem e a mulher que deram a vida para mim
e Kassa, mas eu sabia que não tinha sido o tipo de pais para se gabar. O
cheiro ainda permanecia no meu nariz de quão ruim que a casa ficava
depois de uma das farras noturnas deles. Eu ainda podia ouvir o riso que
ecoava dentro do meu crânio das festas violentas que trouxeram

30
estranhos em nossa casa enquanto Kassa e eu dormíamos em cada fim
de semana.
Kassa dormia pelo menos. Eu ficava muito preocupado com a
minha irmã para fechar meus olhos naquelas noites. E se um dos
bêbados estranhos entrasse em seu quarto? Ela era apenas uma menina,
mas eu tinha visto alguns estranhos olhando para a minha linda irmã
com um olhar vidrado em seus olhos e sabia instintivamente que essa
pessoa poderia e iria prejudicar Kassa se tivesse a chance.
Nós fomos para um orfanato depois que nossos pais nos
abandonaram, mas não ficamos lá por muito tempo. Eu me senti mais
seguro na casa de acolhimento, e não tinha havido qualquer um que
olhasse para Kassa da maneira como aqueles estranhos tinham olhado.
Alicia St. Charles tinha aparecido do nada, querendo adotar uma menina,
mas quando ela me viu com Kassa, ela levou nós dois. O sistema judicial
tinha feito cambalhotas para cuidar da papelada em apenas uma fração
do tempo que normalmente teria levado para Kassa e eu sermos dela.
Quase de um dia para o outro, eu fui de dormir em uma cama de
beliche no quarto de hóspedes da minha família de acolhimento, para
dormir em uma cama king-size no meu próprio quarto. Eu aprendi rápido
que Alicia St. Charles era uma mulher como poucos. Ela era uma mulher
poderosa no sistema judicial em Bristol, Virginia. Ela era uma demolidora
na sala do tribunal. Em casa, porém, ela era uma mãe amorosa com a
minha irmã e eu. Alicia cuidou de nós, nos amou como se tivéssemos
nascido dela.
Nossa nova família pacífica não durou muito tempo, no entanto.
Menos de um ano depois de nos tornarmos oficialmente dela, a
mãe de Gray morreu e seu pai forçou Gray para sua cunhada, Alicia.
Alicia sequer piscou quando ela se tornou responsável por mais um
garoto, mesmo um pré-adolescente mal-humorado como seu sobrinho.
Ela acolheu o filho de sua falecida irmã com os braços abertos, tratando-
o como seu próprio filho, tanto quanto ela me tratou.
Gray era um ano mais velho do que eu, e ele deixou essa lacuna
bem aparente desde o momento em que foi morar com a gente. Doze anos

31
para os meus onze na época, nós nos enfrentamos desde o momento em
que Gray assumiu o quarto do outro lado da minha irmã. Ele estava
sempre tentando me superar em tudo. Se eu fizesse parte de uma equipe
na escola, ele virava o capitão. Se eu gostava de uma menina, ele a beijava
pela primeira vez. Se eu quisesse um novo jogo ou brinquedo, ele já tinha
jogado ou o quebrava antes que eu pudesse tocá-lo.
Alicia não tinha entendia por que Gray e eu não conseguíamos
nos dar bem quando estávamos crescendo. Pelo menos, uma vez por
semana, ela teve que apartar uma briga entre nós dois. Eu sabia que
quebrava seu coração, mas eu não podia deixar de não gostar de seu
sobrinho.
Talvez eu estivesse com ciúmes. Ou talvez fosse porque Gray
realmente era um babaca, às vezes. Eu não sabia o que era, e não tive
tempo para examinar os meus sentimentos. Através de meus olhos, eu
sempre achei Gray um idiota. Ele pegava o que queria, quando queria,
sem se preocupar com as consequências.
As únicas coisas com as quais já concordamos era em cuidar da
minha irmã e sobre a Tainted Knights. Essas duas coisas eram realmente
tudo o que importava, por isso foi o suficiente para me fazer tolerar o
cara.
Na maioria das vezes, de qualquer forma.
Eu estava na minha segunda xícara de café antes que eu tivesse
o poder cerebral para voltar ao meu quarto e me livrar da Garota da
Ficada. Demorou quase meia hora para tirá-la do apartamento. Ela era
grudenta e eu não suportava garotas grudentas. Nada me afastava tão
rápido quanto uma garota que fazia birras para conseguir o que queria.
Quando enfim fiquei sozinho, já eram quatro da tarde. Eu precisava de
um banho e algo para comer antes de irmos para a First Bass mais tarde.
O contrato da Tainted Knights com Harris Cutter era para shows
semanais apenas às quintas-feiras. O resto do tempo era nosso. Gray e
eu não tínhamos que começar um trabalho extra, porque Alicia cuidava
de nossas contas, então o dinheiro que fazíamos na First Bass estava

32
bom para nós. Os outros caras não eram tão sortudos e tinham outros
trabalhos, que ocupavam grande parte de seu tempo.
Eu não tenho que ir à First Bass tão frequentemente quanto eu
ia, mas eu gostava de sair com Harris. Ele se tornou um amigo próximo.
Talvez o único que eu realmente tinha. Eu não era próximo dos meus
companheiros de banda. Tocamos música juntos e isso era tudo. Eu não
saia com Kale, Sin, ou Cash, a menos que estivéssemos festejando depois
de um show. Gray era amigo deles, eu não.
Eu estava saindo do chuveiro quando meu celular começou a
tocar. Apanhei-o enquanto enrolava uma toalha na minha cintura e
olhava para a foto da menina na tela. Sacudindo a cabeça com o quão
bonita a minha irmã era, eu bati conectar e ergui o celular até minha
orelha. — Ei.
— O que você está fazendo, irmão? — Disse sua voz doce,
enchendo meu ouvido.
Eu não pude evitar o sorriso se espalhando por todo o meu rosto
ao ouvir o som de sua voz. Kassa era um anjo, não havia outra maneira
de descrevê-la. Com seu longo cabelo grosso loiro apenas algumas
tonalidades mais leves do que o meu, grandes olhos azuis, e uma voz que
poderia convencer qualquer pessoa a fazer qualquer coisa que quisesse,
não havia outra palavra para ela. Kassa era tudo de bom no mundo. Pelo
menos, no meu mundo.
Gray sempre brincava com ela e chamava de lagarta, mas eu sabia
que ela era uma borboleta.
— Estou me arrumando. O que você está fazendo? Alicia ainda
está no trabalho? — Kassa estava em seu último ano do ensino médio ou
eu tinha certeza de que ela seguiria Gray e eu para a Califórnia. Alicia
era uma viciada em trabalho, agora mais do que nunca, já que estávamos
todos com idade suficiente para cuidar de nós mesmos, de modo que
Kassa passava muito tempo sozinha. Ela tinha amigos, mas nenhum por
quem ela ficaria triste ao dizer adeus.
No dia que Gray e eu saímos de casa, ela chorou até ficar doente.
Eu sentia falta dela e desejava que ela ocupasse o terceiro quarto do

33
apartamento. Talvez se ela estivesse lá, eu pudesse tolerar Gray um
pouco mais. Inferno, eu sabia que podia. Kassa era capaz de virar uma
chave no Gray que ninguém mais podia.
— É sexta-feira à noite, o que você acha que eu estou fazendo? —
Sua voz doce assumiu um tom atrevido e eu rio. Conhecendo minha irmã,
eu percebi que ela estava acampada em sua cama com um litro de sorvete
de chocolate de menta e uma maratona reprise de seus programas
favoritos. — Alicia está sempre no trabalho. Você sabe disso. Parece que
desde o momento que eu aprendi a cozinhar o meu próprio jantar, ela
começou a trabalhar até a morte. Estou preocupada com ela, Jace. Ela
precisa desacelerar, relaxar um pouco. Ela está pálida.
Meu estômago se apertou com o pensamento de Alicia doente. Eu
a amava e odiava a ideia de algo acontecendo com ela. As poucas vezes
que a vi doente, eu me estressei pensando que ela ia morrer. Ela era tão
forte o tempo todo que as raras ocasiões em que parecia que ela era uma
mortal real como o resto de nós, eu pensei que ia perdê-la.
— Convença-a a ir para Cali no Dia de Ação de Graças — disse
Kassa enquanto eu secava o cabelo com uma segunda toalha. — Vou
pedir um grande jantar e ela pode relaxar.
— Vou fazer meu melhor. — disse ela com um suspiro. — Eu sinto
falta de vocês.
— Nós sentimos falta de você também, Kassa. — Eu sentia falta
dela, mas eu sabia Gray sentia também. Ele estava sempre com um
humor melhor depois de falar com ela. Só durava cerca de uma hora, no
máximo, mas pelo menos ele era um pouco mais suportável durante essa
hora.
— Talvez eu possa ir ver você e o Gray mesmo se Alicia não puder.
— A esperança em sua voz era como um soco no estômago.
— Eu gostaria disso, — Eu assegurei. — Gray também. Vou dizer
a ele... — Eu não queria dizer a ele, mas diria. Quanto menos eu falasse
com Gray, melhor para nós dois - eu e minha sanidade, especialmente.
Kassa riu. — Vou dizer a ele. Eu ia ligar para ele quando
desligasse agora.

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— Oh, entendo. Ele é o seu favorito, então você fala com ele por
último, para ficar conversando por mais tempo. — Ela riu com meu tom
irritado, mas eu estava sorrindo para o meu reflexo no espelho do
banheiro. Cutucar minha irmã era uma das poucas coisas que me
traziam conforto nos dias de hoje. — Você o ama mais do que seu próprio
irmão. Traidora.
— Eu amo ambos igualmente, — ela foi rápida em assegurar. —
Ele só precisa de mim mais do que você.
Eu não podia discutir. Por mais que eu não gostasse do roqueiro,
eu tinha que admitir que ele realmente precisava de Kassa mais do que
eu. Isso dizia muito, porque eu não sabia o que faria sem a minha irmã.
— Sim, sim. Desculpas.
— É verdade. — Houve uma pausa em sua extremidade e eu
percebi que era porque ela estava recebendo uma chamada.
— Falando no diabo. É ele, não é? — Era mais ou menos a hora
de Gray falar com ela, então eu sabia que era ele agora.
— Eu não tenho que atender se você quiser conversar mais. —
Kassa me prometeu.
Revirei os olhos para o meu reflexo. — E tirar do Gray sua dose
diária de Kassa? Nah, vou passar. Te amo, Kas.
— Eu também te amo, irmão. — Ela me mandou um beijo e depois
desconectou.
Eu fiquei ali, olhando para o meu telefone em silêncio, mas minha
mente estava agora completamente fora da minha irmã e meu
companheiro de quarto chato. A imagem olhando para mim tornou difícil
respirar por um momento enquanto eu assimilava a visão daqueles
cabelos e olhos castanho-avermelhados longos e brilhantes com um olhar
que eu tinha coloca ali naqueles olhos azuis surpreendentes.
Eu tinha tirado essa foto depois de beijá-la, de modo que seus
lábios estavam inchados e úmidos. Havia um leve rubor em suas
bochechas, porque ela estava prestes a fazer todos os meus sonhos de
nós juntos se tornar realidade. Bastava olhar para ela naquele momento

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e eu sentia como se pudesse conquistar o mundo, enquanto ela ficava
olhando para mim assim.
A menina na tela olhou para mim como se ela me amaria para
sempre, por mais dois segundos antes que a tela ficou em branco. Meu
peito apertou com as memórias, e eu joguei meu telefone para a pia e
agarrei enquanto respirava fundo uma e outra vez.
O que diabos eu estava fazendo?
Eu deveria estar na Virginia.
Eu nunca deveria ter saído.

36
Capítulo 5

Dois dias. Isso foi tudo o que levou antes de eu perceber que
estava no inferno. Na sexta-feira, eu estava convencida de que tinha feito
uma promessa a minha mãe para viver com Satanás e seus asseclas
quando concordei com seu último desejo.
Jillian não fazia nada além de me importunar constantemente
para fazer meu cabelo e maquiagem. Passei mais tempo discutindo com
ela sobre não ser decisão dela se eu saia de casa com um coque
bagunçado ou cabelo perfeito todas as manhãs. Quem diabos se
importava se eu estivesse com maquiagem suficiente para me
confundirem com um maldito palhaço? Ela estava tentando me mudar e
eu não estava prestes a ser forçada a mudar toda a minha personalidade
por ela ou qualquer outra pessoa.
Não ajudava que Georgia fosse tão ruim quanto sua mãe. Ou que
parecia que Carolina estava rapidamente se transformando em uma das
duas cabeças de vento com quem eu fui forçada a compartilhar um
telhado. Até o final da segunda semana vivendo com meu pai - que eu
raramente via - e sua família, eu estava pronta para estragar tudo. Eu
poderia viver com a culpa de não conhecer Scott Montez e a família, que
foi a razão para ele virar as costas para mim. Eu tinha certeza que eu não
ia me sentir culpada de modo algum.
Bem, não muito de qualquer maneira. A única culpa que eu
sentiria era de decepcionar minha mãe.
Droga.
Pensar em minha mãe foi a única razão pela qual eu era capaz de
passar pelo dia. Eu sentia tanto a falta dela que às vezes, quase não
conseguia evitar quebrar e chorar deitada na minha cama todas as
noites. Conversar com Angie, Caleb e Carter cada noite ajudava um

37
pouco, e eu tinha certeza de que se não fosse para a minha nova amizade
com Lucy Thornton, eu estaria perdida na minha própria dor infinita.
O que minha mãe estava pensando quando pensou que eu estaria
melhor na Califórnia com Scott em vez de com as três pessoas que eram
a única família de verdade que eu já tinha conhecido? Ela não tinha
entendido que eu iria chorar por ela? Que eu me sentiria perdida e
sozinha e que me levar para o meu pai biológico no instante em que ela
estivesse abaixo no chão iria me destruir?
Talvez ela não tinha pensado nisso de jeito algum, mas eu com
certeza me perguntava sobre isso a cada noite enquanto tentava não
chorar até dormir.
Hoje era sábado e pela maior parte, eu tinha evitado deixar meu
quarto tanto quanto possível. Era melhor para todos se eu ficasse no meu
quarto. Toda vez que eu via Jillian, nós acabávamos discutindo e eu
estava além de me importar se feria os sentimentos de alguém naquela
casa. Dois dias depois de chegar, eu finalmente tive o suficiente de deixar
as três garotas com quem eu agora compartilhava uma casa que mais
parecia uma prisão para mim, passarem por cima de mim.
Georgia só tinha a si mesma para culpar pela coloração rosa que
eu coloquei em seu shampoo e condicionador. Carolina não deveria ter
sido rápida para seguir os passos de sua irmã mais velha, porque eu não
tinha favoritos com elas. O shampoo e condicionador caros da mais nova
foi submetido à mesma coisa. O castigo de uma semana que eu ganhei
por deixar o cabelo das filhas de Jillian rosa valeu cada segundo de prisão
domiciliar. Eu tinha algo para sorrir, pelo menos, cada vez que eu via que
a cor feia do corante não saiu por pelo menos dois dias. As duas não
pararam de lavar os cabelos até a cor rosa ter desaparecido. Agora, a
Califórnia enfrentava uma seca.
Eu provavelmente não teria feito nada para minhas duas meias-
irmãs cadelas se elas tivessem deixado Lucy quieta. Em vez disso, elas
falaram mal dela demais para o meu gosto e eu nunca deixava ninguém
falar merda sobre meus amigos. Lucy e sua família eram as únicas luzes

38
brilhando à penumbra que era viver com meu pai e madrasta. Sem eles,
eu tinha certeza que já teria perdido a minha sanidade mental.
Felizmente, o meu castigo finalmente acabou, e eu estava ficando
com ânsia de ficar trancada no meu quarto por tanto tempo. Então,
mandei uma mensagem para Lucy e fiquei um pouco surpresa quando
ela me ligou de volta e disse para eu me arrumar. Ela estava me levando
para a First Bass, um dos mais novos clubes da Califórnia. Minha nova
melhor amiga tinha acesso VIP a um lugar onde as pessoas normais
teriam que esperar semanas para entrar na lista de espera oficial, e ela
finalmente ia usá-lo.
Sabendo que o proprietário exigia o requisito de idade para entrar,
eu imaginei, porque eu tinha certeza que lugares como a First Bass
normalmente não deixavam entrar crianças de dezessete anos. Então lá
estava eu, vestida como sempre, jeans e uma das minhas velhas
camisetas de rock, e chinelos. Eu sequer toquei na minha coleção nova
de maquiagem que Jillian continuava a aumentar.
Com meu cabelo fluindo pelas minhas costas, eu estava com Lucy
no bar enquanto esperávamos o barman trazer nossas bebidas. Se
Marcus, guarda-costas e sombra de Lucy, não estivesse lá, eu teria
mostrado minha identidade falsa - presente de Angie no meu último
aniversário. Eu queria uma cerveja mais do que o refrigerante que Nate
traria para nós.
Assim que o cara voltou, flertando como um louco com minha
amiga linda de morrer e oferecendo seu número, eu levei a minha bebida
e olhei ao redor, procurando um lugar para sentar. Com sua própria
bebida na mão, Lucy virou-se para seguir meu olhar. Eu tinha visto mais
do que um rosto que eu reconheci de vários tabloides e filmes que eu
realmente gostei ao longo dos anos, mas nenhum lugar para sentar. O
local era incrível e a música arrasava, mas eu estava meio entediada.
— Lucy!
Meus olhos instantaneamente conectaram com a garota mais
velha usando um vestido que era quase indecente e saltos que eu percebi
que ela não estava acostumada a usar pelo jeito que como estava

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cambaleando. Seu longo cabelo escuro estava pendurado quase inerte em
um emaranhado ao redor de seus ombros e a maquiagem estava
manchada em volta de seus olhos. Ainda assim, eu poderia dizer que essa
garota era bonita, apesar de todas essas coisas que sugeriam que ela
estava na borda de ser uma vadia.
Em seguida, ela se aproximou e eu percebi que provavelmente era
mais do que apenas não saber como andar naqueles saltos mortais que
a fazia cambalear em todo o lugar. Seus olhos estavam dilatados de uma
forma que me disse claramente que ela tinha algo pior do que álcool em
seu sistema. Ela tinha uma taça de champanhe na mão, mas pela forma
como continuava tropeçando e cambaleando, o conteúdo continuava
derramando sobre a borda do copo delicado que ela estava segurando.
Braços longos e finos envolveram Lucy, e eu fui agredida pelo
cheiro de seu cabelo. Nojento, mas só confirmou para mim que o que seja
que essa garota tomou, a fez ficar mais alta que as nuvens.
— Droga, querida, você está quente — disse a recém-chegada a
Lucy quando ela se endireitou para correr os olhos pelas curvas de Lucy.
Quando Lucy não parecia que ia responder, sua amiga tomou um gole de
sua bebida. — Eu não esperava vê-la aqui. Harris estava de mau humor.
Por semanas agora, ele tem sido insuportável. Vocês dois tiveram uma
briga?
A pele ao redor dos olhos de Lucy se apertaram com desagrado.
— Eu não o via para brigar com ele, Jenna. — A garota tropeçou
novamente e se Lucy não tivesse estendido a mão para pegá-la, ela teria
batido nos três homens que seguiam atrás dela. — Vamos sentar antes
que você caia. — Lucy olhou para mim, mas meus olhos ainda estavam
na nossa nova adição. — Você vê um sofá livre ou algo assim?
Os olhos azul-acinzentados de Jenna se arregalaram quando ela
finalmente me viu. — Uau, quem é esta? — Ela estendeu uma mão
visivelmente abalada. — Oi. Eu sou Jenna.
Eu não ia tocar nessa garota. Não porque eu suspeitava que ela
era lésbica. Não tinha nenhum problema com isso. Não, era que ela
parecia um pouco suja e cheirava mal. Nojento.

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— Esta é Kin — disse Lucy, nos apresentando como se eu não
tivesse desprezado a menina mais velha.
— Tipo Barbie e Ken? — Jenna perguntou com um bufo de
diversão enquanto Lucy colocava o braço em volta da cintura da garota e
a levava para um sofá que tinha acabado de ficar livre.
Quando chegamos, eu notei Marcus estreitando os olhos para
Jenna. Lucy caiu sobre o sofá e Jenna não se preocupou em fechar as
pernas, deixando o mundo ver que ela estava definitivamente vestindo
roupas íntimas sob o vestido curto que estava usando. Jenna drenou o
resto de sua bebida e largou o copo.
— Uau, ela é um verdadeiro barril de risadas. — Eu tomei um gole
do meu refrigerante. — Teremos que tomar conta dela a noite toda?
— De jeito nenhum, — Lucy me assegurou com um novo frescor
para seu tom de voz que eu não tinha ouvido antes. Seus olhos escuros
se estreitaram enquanto ela observava Jenna por alguns momentos,
então ela levantou a cabeça para olhar para Marcus.
A distância que ele nos oferecia para privacidade desapareceu e
de repente ele estava parado bem ao nosso lado. — Problemas? — Disse
a voz profunda. Ele já podia ver o que estava acontecendo, mas queria
saber o que Lucy precisava que ele fizesse.
— Sim. Assim que eu trouxer Harris aqui para lidar com ela,
vamos embora.
Boa. Eu realmente não estava me divertindo, mesmo que
tivéssemos acabado de chegar. Eu me sentia como uma espécie de
impostora estando no lounge VIP com tantas celebridades famosas. Isto
não foi quase tão divertido como eu tinha pensado originalmente que
seria. Eu estava fora do meu ambiente lá e só queria desaparecer. Eu
estive em clubes antes com Caleb e Angie - principalmente Caleb. Ele me
deixava usar minha identidade falsa e cuidava para que eu não tomasse
nada além do que eu podia aguentar.
Porra, eu sentia falta do meu meio-irmão.
Apertando minha mandíbula contra a dor aguda da perda que eu
sentia toda vez que pensava sobre a minha família na Virgínia, tentei me

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distrair ao observar as pessoas. Lucy e eu ficamos lá cuidando de sua
amiga por um tempo, esperando por esse tal de Harris aparecer, antes de
perceber que eu precisava ir ao banheiro antes de irmos. — Onde é o
banheiro? — Perguntei a Lucy quando olhei ao redor.
— Daquele lado. — Marcus foi rápido em oferecer.
A cabeça de Lucy virou para isso. — Vá com ela. — ela comandou
ao guarda-costas. Marcus voltou seu olhar sobre ela, mas ela foi rápida
a negar com a cabeça cacheada para ele. — Harris tem muita equipe aqui
que vai cuidar de mim pelos poucos minutos que irá levar para Kin usar
o banheiro. Vou ficar bem.
Eu não esperei por tempo suficiente para ver se Marcus fez o que
ela pediu, mas parti para o banheiro. Tanto quanto os banheiros eram,
esse provavelmente era o mais bonito que eu já vi em um clube. A fila era
a mesma que qualquer outro clube, apesar de tudo. Garotas que faziam
fila para usar as cabines estavam tão bêbadas ou possivelmente até mais
altas do que Jenna estava. Isso não era nada fora do comum, mas a cena
de drogas não era para mim.
Eu estive longe por quase vinte minutos por causa da fila. Quando
voltei, foi para encontrar Lucy discutindo com um cara duas vezes tão
maior que ela. Corri em direção a ela quando a vi levantar a mão e bater
no rosto do cara. Que porra é essa? Atrás de mim, Marcus aumentou o
ritmo, até que ambos estávamos praticamente correndo para Lucy.
Os olhos escuros se viraram na minha direção e eu vi uma
mistura de emoções atravessando seu rosto. A raiva era de se esperar,
mas a dor fez meu sangue ferver. Quem diabos tinha colocado aquele
olhar em seus olhos?
— Eu estou tão pronta para sair daqui, Kin, — Lucy disse
enquanto me empurrava entre dois caras e eu passei meus braços em
volta de seu pescoço.
Quando a senti tremer ligeiramente, apertei o meu domínio sobre
ela. Eu chutaria o traseiro de qualquer um que machucasse minha nova
melhor amiga. Lucy era a única graça que eu tinha naquele momento.

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Sem sua amizade e sua família me aceitando sobre suas asas, eu tinha
certeza que teria enlouquecido por viver com meu pai.
— Qual o problema? — Tudo o que precisaria era uma palavra
dela e eu faria o cara em que ela tinha acabado de bater provar suas bolas
por uma semana.
Lucy respirou fundo e sacudiu a cabeça enquanto se afastado. —
Eu só quero ir. Você se importa? — Sua voz era mais forte agora e eu
poderia realmente ver paredes subindo em volta de seu coração.
— Não, — eu assegurei. — Claro que não, querida. — Eu peguei
a mão dela, dando-lhe um aperto de suporte antes de começar a ir
embora com ela, sem sequer olhar para o cara com quem Lucy estava
discutindo.
— Kin?
Tudo dentro de mim se acalmou ao som do meu nome vindo de
uma voz que era tão dolorosamente familiar. Meu coração parou e fechei
os olhos enquanto tentava dizer a mim mesma que eu estava apenas
ouvindo coisas. Não havia como ser realmente ele. De jeito nenhum.
Jace St. Charles me deixou quando eu mais precisava dele. Não
dois dias depois de eu chorar em seu ombro porque estava com medo da
ideia de perder minha mãe, Jace tinha terminado comigo. Ele estava
decolando com sua banda, Tainted Knights, e não queria estar amarrado.
Ele quebrou meu coração, e eu não tinha tentado colá-lo novamente. Não
tinha motivo quando eu sabia que não tinha importância.
Ele foi o meu mundo por alguns meses desde que me apaixonei
por ele de repente. Talvez fosse porque Jace tinha sido meu primeiro em
tudo, ou talvez fosse apenas porque eu tinha passado por tanta coisa no
momento, mas eu tinha certeza de que Jace seria parte do meu futuro.
Errado.
Lentamente, porque eu tinha certeza que estava enlouquecendo,
eu me virei para olhar para o cara que tinha dito o meu nome. Quando
meu olhar caiu sobre o rosto que eu já havia memorizado cada polegada,
senti minha garganta apertar com as emoções. Eu queria me enfurecer
com ele por quebrar meu coração quando ele já estava ferido e rachado

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pelos pensamentos de ter que dizer adeus a minha mãe. Eu queria chorar
e dar-lhe o maior dos socos que um ex já tinha dado.
Em vez disso, cerrei minha mandíbula e encontrei seus olhos
azuis. — Jace. — Minha voz estava tão fria que poderia ter causado
queimaduras.
Pela primeira vez desde que eu conheci Jace St. Charles, ele
parecia incerto do que fazer. O cara que eu conhecia era sempre
autoconfiante o suficiente para que ele pudesse lidar com qualquer coisa
que a vida jogasse em cima dele. Ele estava tão surpreso em me ver?
— O que você está fazendo aqui?
Essa tinha que ser a pergunta de milhão de dólares. O que diabos
eu estava fazendo lá? Eu deveria ter ficado em casa e me trancado no
meu quarto para evitar Jillian e suas filhas cadelas. Eu poderia ter
colocado meus fones de ouvido e ouvido música para abafar a voz
irritante delas. Eu deveria voltar para a Virginia com Carter e os gêmeos.
Eu queria tanto estar lá nesse momento que quase machucava respirar.
— Lucy me convidou.
Lucy deslocou ao meu lado. Eu podia sentir os olhos no meu rosto,
mas não olhei para ela. Eu não achei que teria forças para manter minhas
emoções sob controle se fizesse.
Jace balançou a cabeça loura enquanto seus olhos deslizaram
sobre todo o meu corpo. Que eu senti seus olhos como um toque físico só
me chatearam ainda mais. Droga. Eu não queria sentir nada por ele, não
depois de como ele tinha quebrado meu coração em milhões de pedaços.
— Não. Quero dizer... o que você está fazendo aqui... na Califórnia?
Que ele não se lembrava o que eu estava passando com a minha
mãe no momento em que ele tinha terminado comigo foi como um tapa
na cara. Baixei os olhos para que ele não pudesse ver a dor que sua
pergunta me causou. Eu já chorei em seu ombro, dizendo a ele o quanto
eu não queria morar com meu pai quando minha mãe morreu. — Eu
tenho certeza que você tem coisas melhores a fazer do que ouvir a história
da minha vida desde que eu te vi pela última vez. — Eu me afastei dele,

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minhas emoções muito perto da superfície para que eu pudesse ousar
olhar para ele mais um segundo. — Vamos — eu murmurei para Lucy.
— Não. — Jace moveu-se rapidamente e estava bloqueando nosso
caminho para a saída. Uma grande mão pegou a minha antes que eu
pudesse pensar em me afastar. — Não vá. — Ele engoliu com dificuldade
e o pensamento de que ele estava tão emocional ao me ver de novo como
eu estava ao vê-lo, me fez pausar por um momento. — Porra, eu senti
sua falta.
A dor daquelas palavras me causara uma hemorragia. Ele sentia
minha falta? Ele sentia minha falta?
Ele. Sentia. Minha. Falta.
Que-porra-é-essa. Eu não acreditei naquilo nem por dois
segundos. Ele sentiu minha falta, mas onde esteve quando eu mais
precisei dele? Onde ele esteve quando disse adeus a minha mãe pela
última vez? Onde esteve enquanto eu a via sendo rebaixada para o chão?
Onde ele esteve quando eu achava que o mundo acabou e eu tive que
pisar naquela porra de avião com Scott Montez e deixar a minha
verdadeira família para trás?
Ele esteve fodendo com alguma garota aleatória, sem dúvida. Ele
deve estar morando com seus companheiros de banda e festejando. Jace
estava vivendo sua vida sem mim enquanto eu estava caindo aos
pedaços. Enquanto tudo o que eu queria era seus braços em volta de mim
e sua voz me dizendo que tudo ficaria bem. Eu não tinha paciência para
ficar lá e ouvi-lo mentir para mim.
— Sim, eu percebi por todos os telefonemas e mensagens de texto
que você não enviou. Eu não estou com disposição para ouvir suas
besteiras, Jace. Mova-se ou seja movido. — Eu senti Marcus dar um
passo atrás de mim e Lucy, e eu poderia ter abraçado o guarda-costas
normalmente impassível logo ali, por me apoiar.
O olhar azul de Jace foi para o homem que estava atrás de mim e
olhou para Marcus por um longo momento antes de finalmente fechar
sua mandíbula e pisar de lado. Sem dar-lhe um outro olhar, puxei Lucy
comigo enquanto me dirigia para as escadas.

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No momento em que chegamos lá fora e Marcus tinha passado o
bilhete de manobrista para o atendente, eu estava entorpecida. O choque
ao ver Jace novamente mexeu com a minha cabeça e meu coração não
sabia como lidar com as coisas passando pela minha mente naquele
momento.
Lucy tentou falar comigo algumas vezes no caminho para casa,
mas eu estava perdida no passado. Pedi-lhe para me deixar na casa do
meu pai. Eu prefiro ter que lidar com sua frieza do que o amor e carinho
maternal que receberia de Layla Thornton se fosse com ela. Se ela me
abraçasse naquele momento, eu com certeza desintegraria em um milhão
de pedaços no chão.
A volta para casa passou em um borrão para mim e eu nem tinha
certeza se disse boa noite para Lucy ou não. Eu estava em transe quando
usei minha chave para abrir a porta da frente. A casa estava escura, mas
eu sabia que ninguém estava na cama. Era quase dez horas em uma noite
de sábado. Meu pai estava fora ou fazendo algo para o novo filme que ele
estava dirigindo ou em alguma festa com Jillian. Georgia e Carolina
estavam, sem dúvidas, fazendo coisas com os amigos. Eu não era
estúpida. Eu sabia que Georgia voltava para casa bêbada na maioria das
noites. Ela saia com os amigos após o treino e não chegava em casa até
depois da meia-noite, às vezes.
Eu fiz meu caminho para o meu quarto e tranquei a porta atrás
de mim antes de cair na minha cama. Eu não vi as paredes em tons
pasteis ou as poucas fotos penduradas lá. Eu estava revivendo cada
momento que já tive com Jace – desde quando o vi pela primeira vez
cantando com a Tainted Knights em um bar em Bristol até o segundo que
ele tinha me dito que não poderia estar mais comigo porque precisava se
concentrar na banda.
Ele disse que me amava. Ele me mostrou que me amava.
E tudo foi uma mentira.

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Capítulo 6

Ver Kin me tirou o fôlego. Eu estava pensando muito nela


ultimamente e quando a vi, pareceu um sonho.
Não podia ser real. Essa garota apenas parecia com ela e minha
imaginação estava vendo o que queria ver. Não teria sido a primeira vez
que vi o rosto de Kin em outras meninas. Então, ela se virou e eu quase
caí de joelhos quando encontrei aquele olhar azul familiar que sempre
teve a capacidade de ver direto na minha alma.
Que diabos ela estava fazendo na Califórnia? Não que eu estivesse
reclamando. Era o destino me dizendo que era para ela estar comigo
afinal de contas. Eu só queria saber o que a levara para a Califórnia
quando eu sabia que ela ainda deveria estar na Virginia. Ela ainda tinha
que terminar seu último ano do ensino médio. Por que diabos ela seria
arrancada de lá durante esse último ano e para viajar mais de três mil
milhas de distância?
Depois que Kin e sua amiga saíram com o guarda-costas
musculoso, eu socorri Harris e fui para casa depois de colocarmos Jenna
em um táxi. Jenna não era a minha pessoa favorita, mas era mais por
causa das drogas do que qualquer outra coisa. Sua namorada, no
entanto, era outra história. Eu não suportava Tessa. Ela usava as
pessoas, era uma viciada em drogas pesadas e estava rapidamente
transformando Jenna em uma também.
Meus pensamentos não permaneceram na Jenna e sua namorada
vadia por muito tempo. Cheguei em casa por volta das onze e fui direto
para a cama, ignorando as risadas irritantes vindos do quarto de Gray.
O cara tinha uma garota diferente a cada noite e quanto menos cérebro
elas tivessem, mais ele gostava. A maneira como ele se prostituia me

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deixava exausto. Eu só levava uma garota para casa quando bebia
demais, e isso não acontecia muitas vezes.
Fazendo uma careta, eu caí na minha cama e puxei meu celular
do bolso. A imagem do papel de parede na tela fez meu peito apertar com
as emoções enquanto eu absorvia a imagem de Kin olhando de volta para
mim com tanto carinho.
Com tanta confiança.
Eu a conheci depois de um show no bar, onde os Tainted Knights
se apresentavam toda sexta à noite em Bristol. Era noite dos
universitários e o lugar estava cheio. Cash, nosso baixista, tinha
convidado amigos do colégio e prometido sair após o show. Eu estava
determinado a rejeitar o programa e chegar em casa com Kassa, mas uma
ruiva alta e cheia de curvas me chamou a atenção.
Kin estava vestindo jeans apertados com buracos nos joelhos,
botas de vaqueiro e uma camiseta da Demon’s Wings que aderia
perfeitamente em cima dos seios. Seus longos cabelos tinham sido
puxados para trás em um rabo de cavalo, mostrando ao mundo seu
pescoço longo, gracioso e o fato de que ela tinha sardas sob sua orelha
esquerda. Eu instantaneamente queria provar aquelas sardas e estava
prestes a fazer a minha jogada quando Cash cumprimentou a montanha
em forma de homem em pé ao lado dela.
Caleb Jacobson parecia um filho da puta assustador. Ele era tão
grande quanto um carro e parecia conseguir levantar bolas de supino
sem problemas. A maneira como ele tinha estado tão protetor de Kin me
deixou com inveja pela primeira vez na minha vida, que foi rapidamente
esmagado quando percebi que os dois eram meio-irmãos e agiam como
se fossem relacionados por sangue.
Kin não tinha sido tímida e não fez jogos comigo. Seus olhos azuis
tinham encontrado os meu enquanto todos nós conversávamos e eu sabia
que era a minha deixa. Caleb tinha mantido um olhar atento sobre nós
durante toda a noite, mas não tinha tentado se meter. Não que isso teria
importância. Eu teria enfrentado dez caras tão grandes quanto ele para
estar com Kin. Precisou de menos de uma hora antes de eu saber que

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queria mais do que apenas uma noite com a bela ruiva. Menos de uma
semana depois, eu sabia que ela poderia me possuir se eu deixasse, e fui
eu quem disse “eu te amo” primeiro, depois de um mês.
A mãe de Kin estava muito doente na época e eu dirigia até
Wytheville para vê-la quando Kin não podia ir até Bristol para ver a banda
tocar. Eu pude conhecer todos os Jacobsons, incluindo a mãe de Kin,
Abigail. Ela era uma mulher agradável e uma ótima mãe, por isso,
quando os médicos lhe disseram que ela tinha alguns meses restantes de
vida, Kin ficou destruída. Eu tinha a segurado, deixando-a chorar até
dormir em meus braços depois de descobrir que perderia a mãe. Eu sabia
que me sentiria da mesma forma se fosse Alicia lutando contra o câncer
e me fosse dito que ela não duraria até o Natal.
Harris tinha aparecido no bar apenas alguns dias mais tarde para
oferecer a Tainted Knights um acordo para shows em L. A. Nós todos
sabíamos que aceitar esse trabalho chamaria a atenção que a banda
merecia. Harris Cutter tinha conexões no mundo da música que nenhum
de nós poderia esperar ter. Eu fiquei dividido, embora. Eu queria aceitar
o acordo, mas ao mesmo tempo, queria me afastar dele. Se eu fosse
embora, o que aconteceria entre Kin e eu? Ela precisava de mim e eu
queria estar lá para ela.
Mas essa chance era do tipo uma-vez-na-vida. Então eu tive que
fazer uma escolha difícil e no final, escolhi a banda. Foi Gray quem
apontou para mim como Kin era jovem. Ela me superaria logo que a
deixasse. Ela poderia seguir em frente e eu seria apenas uma memória.
Enquanto aquilo foi uma pílula amarga de engolir, eu sabia que ele estava
certo. Kin tinha apenas dezessete anos. Eu era seu primeiro, e enquanto
eu queria ser o último, sabia que as chances de nosso relacionamento
durar estavam contra nós.
Eu terminei com ela um dia antes de sair de Bristol para a
Califórnia. Foi a coisa mais difícil que fiz e na maioria das noites, eu
dormia pensando em como as lágrimas corriam por suas bochechas e
olhos tão cheios de dor que me faziam sentir eviscerado.

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Eu fui um idiota, mas não me arrependia do tempo que passei na
Califórnia. A Knights Tainted era a minha vida e eu queria estar na frente
e no centro para o passeio que eu sabia que todos nós estaríamos tendo
agora que tínhamos um contrato pronto com a mais procurada gerente
musical. Emmie Armstrong nos levaria a lugares. Assim, mesmo sofrendo
uma confusão mental longe de Kin, eu sabia que era onde eu deveria
estar.
No entanto, vê-la agora, três mil milhas longe de sua casa, me
dizia que Kin deveria ser uma parte da minha vida também. Eu poderia
ter ambos.
Me forçando a parar de olhar para a foto no meu telefone, eu fui
até a minha lista de contatos e encontrei o número de Kin. Eu deveria ter
excluído quando me mudei, mas fiquei feliz por não ter feito isso. Eu
apertei ligar e coloquei o telefone no meu ouvido. Ele tocou e tocou até
que foi finalmente enviado para o correio de voz. Eu desliguei e tentei
novamente.
Três tentativas e todas foram para a caixa postal. Porra. Ela
provavelmente ainda estava chateada. Fazendo uma careta, esperei sua
voz da mensagem na caixa postal desvanecer. — Kin...— Eu limpei minha
garganta. — Nós precisamos conversar, baby. Me ligue de volta. Porra,
eu senti sua falta.
Abaixando meu telefone, apertei encerrar e enviei uma mensagem
para ela. A mensagem rapidamente mostrou que chegou ao seu destino,
mas ela não me respondeu. Eu não estava esperando que ela fizesse isso,
mas isso não me impedia de ter esperança. Kin era teimosa como o
inferno e, mesmo eu achando isso bonito na maioria das vezes, isso me
incomodava agora.
Devo ter cochilado, porque a próxima coisa que sei é a luz da
manhã brilhando através da minha janela e meu telefone tocando.
Esperando que fosse Kin, peguei o aparelho cegamente e levantei-o ao
meu ouvido. — Kin?
Houve uma longa pausa antes de ouvir um suspiro áspero. — Não,
desculpe, cara.

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Harris. Decepção tomou conta de mim e eu cerrei minha
mandíbula antes de forçar os olhos abertos e olhar para o teto. — E aí
cara?
— Você me deu o cano na noite passada, — Harris resmungou.
— Você não parecia saber que eu estava lá, mano. Quem era a
garota? — Lembrei da morena com todas as curvas e grandes olhos
castanhos que eu notei estar cheia de dor e talvez um pouco de
arrependimento em seus olhos quando ela olhou para meu amigo. —
Lucy, certo?
— Lucy. — Harris soltou um suspiro cansado antes de rir com
pouco humor. — Ela é minha melhor amiga no mundo, cara. Ou era há
um milhão de anos atrás. Estou indo para a casa dela depois que eu
pegar Trinity. Imagino que vou precisar de reforços para conseguir
atravessar a porta. Tenho que falar com ela sobre Jenna.
Pensando na irmãzinha de Harris, eu percebi que ela poderia levá-
lo para Fort Knox com aquelas covinhas bonitinhas que apareciam
quando a menininha de seis anos de idade sorria. Trinity se parecia com
seu irmão e pai, com exceção de seus olhos azul-acinzentados que
vinham de sua mãe. — Sim. Certamente ela vai garantir sua entrada,
cara.
— Então... Kin?
— É uma longa história, — eu disse a ele honestamente, mas nada
mais. Eu não estava pronto para falar sobre Kin com ninguém, exceto
ela. Primeiro, eu tinha que a ver novamente.
— Daquele tipo, não é? — Rir não refletia o humor real de Harris
neste momento.
— Sim, — eu murmurei, esfregando a mão sobre meu rosto.
— Vou levar Jenna para uma clínica de reabilitação no Arizona.
Vamos amanhã.
Quando os assuntos mudaram, foi uma boa para mim. Sentei na
cama, mais do que um pouco chocado que Harris tenha finalmente sido
capaz de convencer sua companheira de quarto a aceitar o primeiro passo
para se limpar. — Isso é ótimo, cara. Já é hora de ela se recuperar.

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— Foi sob coação. Eu lhe disse que ia contar a seus irmãos e
Natalie se ela não fosse. O problema é que ela quer que Tessa fique no
apartamento enquanto estiver fora. — Eu poderia realmente ouvir Harris
cerrando os dentes e sabia o porquê. Tessa era uma cadela tóxica. Ela
causaria problemas para Harris e Jenna de qualquer maneira possível.
— Eu não posso dizer não, porque o apartamento é metade dela e eu não
quero dar-lhe uma razão para desistir de ir.
— Você pode ficar aqui quando precisar, — eu assegurei a ele
enquanto me sentava na beira da cama. Harris e Jenna tinham um
apartamento no mesmo edifício que eu, alguns andares acima. O aluguel
do primeiro ano foi um presente de Alicia, quando me mudei para a
Califórnia.
— Obrigado. Eu posso ter que aceitar, já que toda essa merda vai
ser longa.
Falei com ele por mais alguns minutos, até que ouvi movimento
no apartamento. Jogando meu telefone de lado, eu fui para o banheiro,
tirando as roupas usadas ontem no show e nas quais acabei dormindo.
Trinta minutos mais tarde, eu estava na cozinha pegando uma tigela de
cereal e debatendo se eu deveria ligar para Kin novamente ou descobrir
onde diabos ela estava hospedada.
— Esse é um olhar sombrio. Você me assusta com esse olhar,
cara.
Não me incomodei em levantar os olhos do meu telefone enquanto
Gray se movia pela cozinha fazendo o café da manhã usando nada mais
que um par de boxers. Já que não ouvi risadinhas esta manhã, descobri
que ele já tinha se livrado de sua conquista da noite anterior.
Depois de ver Kin na noite anterior, eu estava mais chateado com
Gray do que nunca. Se ele não tivesse enchido minha cabeça com
besteiras sobre Kin seguir em frente sem mim se eu lhe desse espaço,
talvez eu teria pedido a ela para tentar a coisa toda de longa distância.
Eu poderia ter sido fiel a ela.
Agora, aqui estava ela, no mesmo estado que eu, sem que eu
pudesse tê-la.

52
Porra.
— Falou com o Kassa hoje?
Eu fiz uma careta. Kassa. Não importa o quão chateado eu fique
com Gray, apenas a menção do nome da minha irmã era a única coisa
que poderia me fazer falar. — Ontem.
— Ela te disse que Alicia tem tido dores de cabeça?
— Sim, — eu disse com um aceno de cabeça. Kassa tinha me dito
que encontrou Alicia no banheiro vomitando de uma forte enxaqueca. Eu
não me lembrava de Alicia ter enxaquecas, então fiquei preocupado desde
a ligação de Kassa. — Ela disse que a faria ir no médico.
— Boa sorte com isso. Você sabe como Alicia é. Ela não vai a
nenhum médico a não ser que seja amarrada e arrastada até lá. — Gray
pegou sua caneca e engoliu metade do conteúdo escaldando antes de
preenchê-lo novamente e se sentar na ilha na minha frente.
— Se Kassa não conseguir levá-la, acho que terei que voar para lá
e arrastá-la. — Eu não ia deixar isso passar sem ter certeza que minha
mãe adotiva estava bem. Ela estava doente por alguma coisa e isso me
assustava demais. De repente, ter fortes dores de cabeça, como ela estava
tendo me deixava surtando.
— Inferno, cara. Se precisar eu vou com você.
Eu balancei a cabeça, mas não disse mais uma palavra a ele
enquanto terminava meu café da manhã. Alicia era como uma mãe para
Gray também. Ela o criou como um filho, assim como fez comigo. Eu
sabia que ela era sua segunda pessoa favorita no mundo, perdendo
apenas para Kassa.
Depois do almoço, liguei para ela para falar sobre Alicia. Ela
marcaria uma consulta para ela na manhã seguinte e pedi para me
manter informado. Aliviado que Alicia realmente ia ao médico, eu caí na
minha cama e puxei meu histórico de chamadas. Ainda nada de Kin.
Xingando, passei meu polegar sobre o nome dela e ergui o receptor
para o meu ouvido. Tocou duas vezes antes de ir para o correio de voz, o
que me disse alto e claro que ela tinha me enviado para lá depois de ver
meu nome aparecer em seu telefone.

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— OK, baby. Entendi a mensagem alto e claro. Você ainda está
chateada. Boa. Isso me mostra que você ainda sente alguma coisa. — Eu
sorri, embora um pouco desapontado. Ela não estaria tão brava se não
se importasse.
Certo?
— Vou te dar alguns dias para refrescar. Não pense que eu vou
desistir, no entanto. Senti sua falta, Kin. Vê-la na noite passada me
mostrou que eu estava errado, baby. Eu nunca deveria ter deixado você
ir.
Baixando o telefone, eu apertei fim e, em seguida, estendi a mão
para o meu travesseiro. Foda-se esse dia. Se eu não podia fazê-la falar
comigo, então eu recuperaria o atraso no sono.

54
Capítulo 7

— Eu nunca deveria ter deixado você ir.


Meus dedos estavam realmente tremendo enquanto ouvia a
mensagem novamente.
Pela décima vez.
— Eu nunca deveria ter deixado você ir.
Idiota.
Deixando cair o telefone na cama, corri para me arrumar. Lucy e
eu sairíamos hoje à noite depois de eu tê-la convencido. Foi difícil. Sua
tia Emmie tinha me dito que a First Bass inauguraria uma noite de
microfone aberto e eu estava animada para experimentar uma das
músicas que eu tinha escrito desde que cheguei na Califórnia.
O fato de que Jace St. Charles poderia estar no clube não me
incomodava.
Muito.
Eu estava pronta para vê-lo novamente. Depois de passar
domingo a terça-feira mentindo para mim mesma que estava pronta, eu
tinha passado todo o dia de hoje convencendo Lucy a usar seu status VIP
para que eu entrasse. Agora, eu iria lá, e mostraria a Jace que eu estava
bem com ele estando no mesmo estado que eu mais uma vez, cantando
a música que eu escrevi para a minha mãe.
Isso era tudo o que realmente importava. A música.
Pensar na música que escrevi fez meu coração torcer
dolorosamente, como sempre acontecia quando lembranças de minha
mãe me pegavam de surpresa.
Puxando uma calça jeans que tinha visto melhores dias, mas
eram minhas favoritas, eu coloquei uma camiseta branca, vesti um colete
de couro sobre ele e peguei meu telefone e estojo de guitarra antes de

55
descer. Lucy e Marcus estavam lá para me pegar. Jillian não foi nada boa
para minha amiga e as meias-irmãs cadelas não foram melhor. Foi
mesquinho o modo como Jillian deixou Lucy para baixo pelo fato de Layla
Thornton ter usado sua força em seus círculos sociais para banir Jillian
para fora de mais de um evento ao longo dos anos. O tratamento que
minha amiga recebia de Georgia e Carolina era mais por elas não
gostarem do fato dos paparazzi a notarem – algo que Lucy odiava, mas
tanto Jillian quanto suas filhas cadelas desejavam.
Eu estava prestes a abrir a porta quando ela se abriu para dentro
e Scott entrou. Ele olhou para cima, viu o que eu estava carregando e
ergueu uma sobrancelha. — Isso parece demasiado grande para você
estar carregando.
Dei de ombros. — Não é pesado.
— Onde você está indo? — Ele perguntou, e eu parei por tempo
suficiente para olhar para ele. Desde quando ele se importava onde eu ia
ou o que eu estava fazendo? Ele raramente estava em casa e quando
estava, ele estava tão longo do alcance de Jillian que eu tinha certeza que
ele nem se lembrava de que eu existia.
— Saindo com uma amiga, — eu finalmente disse a ele.
— Divirta-se. — ele falou por cima do ombro enquanto se dirigia
para um dos quartos da casa.
— Estarei fora deste buraco do inferno, então sim. Vou me divertir
muito. — murmurei para mim mesma enquanto abria a porta e saia para
a entrada. A cada dia que passava, me arrependia mais de fazer aquela
estúpida promessa para minha mãe. Eu sabia que era o que ela achava
ser melhor para mim, para me mostrar como o meu pai era, mas depois
dos primeiros dias, eu logo descobri que ele não fazia falta nenhuma. Eu
queria tanto estar na Virginia com Carter e os gêmeos que eu quase podia
sentir o ar fresco de outono ou ouvir o riso enquanto nós pegávamos
folhas multicoloridas que caíam no jardim da frente.
Em vez disso, eu estava com pessoas que não queriam que eu
falasse sobre minha mãe e quanto eu sentia falta dela. Eu estava

56
respirando ar cheio de sal e não havia árvores, apenas uma praia de areia
e o Oceano Pacífico no quintal. Eu só queria ir para casa.
Garantindo que eu peguei as chaves, fechei a porta atrás de mim,
logo que a Range Rover de Lucy parou na calçada. Peguei o estojo de
guitarra e praticamente corri para o veículo. Lucy me cumprimentou com
um sorriso e um abraço e eu absorvi o carinho dela antes de voltar para
o meu lugar e prender o cinto de segurança.
— Você parecia estar escapando de algo pior que a morte quando
chegamos, — disse Lucy com uma risada enquanto Marcus estacionava
na garagem e dirigia para L.A.
Eu ri. — Sim, bem, eu estava. Meu pai tinha acabado de chegar.
Ele realmente falou comigo.
Seus olhos se arregalaram. Eu não tinha escondido nada quando
contei a ela sobre como era em casa – não, “casa” não. Aquilo nunca seria
uma casa para mim. Casa era onde eu me sentia segura e amada. Como
acontecia na casa dela.
Claro que eu não escondi nada também quando contei tudo a ela
sobre Jace na segunda. Eu não tive a intenção de descarregar tudo sobre
ela, mas ela era tão fácil de conversar que não consegui evitar as
palavras.
Levou mais tempo do que eu imaginava para convencer Lucy a
voltar ao First Bass, no entanto. Ela não me contou o que estava
acontecendo com ela e aquele cara chamado Harris, mas não precisava
ser um gênio para notar que eles tinham história. Por que outra razão,
seu nome estaria em uma lista que algumas pessoas matariam para estar
e, no entanto, ela estava relutante em usar?
A viagem para a cidade foi longa, mas já que ambas tínhamos um
toque de recolher bem longo – um que a minha mãe enlouqueceria se
soubesse – nós não nos preocupamos. Lucy ficou quieta pela maior parte
do tempo e não forcei uma conversa. Eu estava repassando a música que
cantaria mais tarde, e tentando lembrar dos versos que decidi que
precisavam ser alterados.

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Graças a Caleb, eu tocava guitarra desde os seis anos de idade.
Sua mãe tinha sido uma professora de música e o fez ficar viciado em
aprender novos instrumentos. Ele me ensinou a ler e escrever música e
eu tinha me aproximado mais dele do que de Angie, por causa do nosso
amor compartilhado por todas as coisas musicais.
Marcus estacionou na frente da First Bass e eu olhei pela minha
janela para ver o flash de câmeras já pipocando. Droga. Essa era a única
desvantagem sobre sair com Lucy. Os paparazzi estavam com fome para
qualquer coisa que eles poderiam descobrir sobre ela, porque ela era uma
“princesa do rock”, sendo a filha adotiva de um Demon.
Eu ouvi os paparazzi gritando seu nome assim que abri a porta e
saí. Lucy foi mais lenta ao sair, então eu esperei por ela na parte de trás
da Range Rover. Assim que ela me encontrou, ouvi os malditos paparazzi
começaram a chamar meu nome também, querendo que eu falasse com
eles.
Pelo olhar no rosto de Lucy, no entanto, percebi que talvez eu não
deveria ter insistido tanto para fazê-la vir comigo esta noite. Estendi a
mão para a dela, oferecendo um aperto reconfortante. — Você realmente
não quer estar aqui, não é? — Ela ficou tensa e fiz uma careta. — Olha,
não temos que fazer isso. Nós podemos ir e eu volto sozinha em outro dia.
Algo próximo de alívio atravessou o rosto dela, mas, em seguida,
ela balançou a cabeça. — Não. Vamos fazer isso. Sinto muito por ser um
estorvo. Eu já o superei. Vou entrar lá e pular como uma fã quando você
for lá em cima.
Deixei escapar um suspiro de alívio e sorri para ela. Lucy não erra
a menor garota que eu conheci, mas eu era mais alta que a maioria das
que entrei em contato. — Obrigado, Lucy. — Por mais que eu não
quisesse forçá-la para algo que ela realmente não queria fazer, eu estava
feliz de tê-la comigo ali. Eu não queria fazer isso sozinha. Provavelmente
amarelaria.
Demorou alguns minutos para conseguirmos entrar e depois
passar pelo cara assustador, mas delicioso, da segurança. Marcus estava
bem atrás de nós por todo o caminho. Lucy encontrou uma mesa e fez o

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pedido de costume do nosso refrigerante, enquanto eu olhava ao redor.
Nós não iríamos para a área VIP hoje, porque o microfone aberto
acontecia no piso térreo, mas eu meio que gostei mais daquela área. Ali,
eu não me sentia observada pelas “pessoas bonitas”.
Esperei até nossas bebidas chegarem antes de resolver que era
melhor fazer logo isso antes, se não desistiria. Foi só agora que estávamos
dentro da First Bass e que eu vi a grande multidão, que meus nervos
começaram a me dar um frio na barriga.
O que diabos eu estava fazendo? Eu não tinha nada que estar
aqui. Eu não podia me atrever a ser tão boa quanto eu pensava que era.
Isso era para pessoas com talento de verdade, não a minha bunda de
segunda categoria. Merda. Merda. Merda. OK. Nós podemos apenas ir
embora. Eu não havia me comprometido a nada ainda. Meu nome não
estava na lista para ser chamado mais tarde e me envergonhar ainda
mais quando eu não subisse naquele pequeno palco para cantar...
A mão de Lucy cobriu a minha, me puxando para fora do meu
momento cheio de ansiedade de puro pânico. — Kin, você vai arrasar lá
em cima. Não se preocupe em acertar os acordes, ou se a sua voz não
atingir as notas. Você não está aqui para se tornar uma estrela do rock.
Você está aqui para fazer suas músicas serem reconhecidas, e talvez até
mesmo vender uma. Você é uma escritora talentosa e vai arrasar com sua
música, querida.
Meus lábios começaram a tremer sem minha permissão. Isso era
exatamente o que eu precisava ouvir. Era o que Angie ou Caleb ou mesmo
minha mãe teriam dito. Pressionando meus lábios, eu dei um aceno de
cabeça firme e sorri. — Você está certa. Agora, onde posso me inscrever
para a chance de chegar até lá e chutar alguns traseiros?
— Tia Emmie disse que você tem que dizer ao barman e ele a
adiciona na lista. — Ela olhou para o bar e eu segui seu olhar. — Melhor
aposta é para lá, querida.
Levantei e atravessei o salão até o bar. O barman estava ocupado
misturando bebidas para a multidão no bar e esperei que ele entregasse

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algumas cervejas para os rapazes de vinte e poucos anos ao meu lado
antes de perguntar sobre a lista do microfone aberto.
O olhar do cara magro passou por mim duas vezes antes de ele
apontar para o final do bar sem mais que uma palavra para mim. Olhei
para o final do bar pela primeira vez e tudo dentro de mim ficou partes
iguais quentes e frias com a visão do homem sentado no banco ao lado
de Harris Cutter.
Jace St. Charles era o cara mais perfeito que já conheci no
departamento de colírios para os olhos, com sua confusão de cabelos
loiros e aqueles olhos azuis assassinos que pareciam olhar diretamente
através de todas as besteiras da pessoa. Ele malhava com frequência e
seu corpo mostrava o esforço, mas não de maneira exagerada como Caleb
era. Suas feições eram puramente masculinas, não havia nada
necessariamente lindo sobre ele, mas foi sua voz que me atraiu naquela
primeira noite em que o vi.
Eu me viciei no som de sua voz, e não apenas quando ele estava
cantando, também. Havia algo quase hipnótico na maneira como ele
falava que tinha me atraído para ele e me sugado desde aquele primeiro
'Olá'.
Enquanto eu o observava levantar a cerveja e tomar um gole, eu
o odiava por quanto ele ainda era capaz de me torcer por dentro. Eu
queria dar um tapa naquele rosto bonito e beijá-lo ao mesmo momento.
Então…
Então, eu quis chutá-lo nas bolas.
Sorrindo, me afastei do bar e caminhei para os dois caras no final
do bar. Eu estava quase chegando quando Jace levantou a cabeça como
se pudesse me sentir, e nossos olhares colidiram. Meus passos vacilaram
e me apoiei na cadeira mais próxima para me equilibrar. Pare com isso,
eu queria gritar para ele enquanto seus olhos deslizavam sobre meu
rosto, quase me venerando.
Respirei fundo, então sorri novamente. De uma forma ou outra,
eu me divertiria essa noite. Passei por Jace e me inclinei entre os dois
caras, olhando apenas para Harris. Eu realmente não tinha lhe dado

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mais do que um olhar rápido no sábado, mas agora eu estava fazendo
isso.
Enquanto Jace estava com o cabelo desarrumado e a barba por
fazer esta noite, Harris exibia um corte limpo, e estava vestido para
negócios com suas calça escura e camisa azul de botão que estava metade
aberta, mostrando um vislumbre sexy dos músculos. Olhos azuis se
iluminaram quando ele encontrou meu olhar e sorriu, me mostrando
covinhas gêmeas que poderiam fazer a calcinha de qualquer garota
derreter.
A minha, no entanto, não foi afetada ainda. Como poderia quando
eu ainda estava tão interessada no imbecil atrás de mim?
— Oi, — eu cumprimentei Harris. — Eu sou Kin.
Ele inclinou a cabeça. — Olá, Kin.
— Eu ouvi que este é o lugar para estar nas noites de quarta-feira.
Existe alguma maneira de entrar para o microfone aberto? — Mordi o
lábio, flertando descaradamente. — Eu tenho algo que eu gostaria de
cantar para você.
— Ah, é? — Ele sorriu de novo, suas covinhas aparecendo.
Puta merda. Eu poderia totalmente ver por que Lucy gostava
desse cara, se era isso que estava acontecendo com minha amiga. Se eu
o tivesse conhecido antes de colocar meus olhos em Jace, eu poderia
estar gostando dele também. — Sim, — eu disse, um pouco sem fôlego e
realmente sentindo a temperatura corporal de Jace congelando.
Jace Ciumento sempre foi divertido para mim. Ele sentiu ciúmes
de Caleb na primeira noite, mas eu rapidamente o posicionei sobre o
nosso relacionamento. Qualquer outra vez que fui ao bar em Bristol onde
a Tainted Knights tocava, ele não desgrudava os olhos de mim,
garantindo que ninguém se aproximasse. Ele preferia que eu ficasse com
Caleb do que sem ele, porque ninguém se preocupava em olhar duas
vezes quando meu meio-irmão estava ao lado e, se o fizessem, um olhar
dele geralmente afastava qualquer um.

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— Claro, Kin. Vou colocá-la na lista. — Seu olhar passou por cima
da minha cabeça para Jace, em seguida, rapidamente de volta para mim.
Eu quase podia sentir a mensagem que se passava entre os dois rapazes.
Fique longe.
Revirei os olhos. Eu não estava atrás de um substituto para Jace.
Inferno, eu queria distância de caras por um bom tempo.
— A Lu está com você? — Harris me surpreendeu, perguntando
em seguida.
Eu balancei a cabeça na direção da qual eu tinha acabado de
chegar e aqueles olhos azuis esverdeadas travaram nela
instantaneamente. O olhar que atravessou o rosto de Harris foi
inesperado e ao mesmo tempo... não. A forma como seus olhos pareciam
comer Lucy me disse tudo o que eu precisava saber sobre esse cara. Eu
queria parar na frente dele e dizer que se ele a machucasse, eu cortaria
suas bolas, mas por algum motivo, não acho que eu tinha que salientar
isso com esse cara.
— Você é minha nova pessoa favorita, Kin.
Eu sorri para ele. — Venha se juntar a nós.
Eu não tive que dizer a ele duas vezes. Ele estava de pé antes de
eu sequer me virar para a nossa mesa. Lucy tentou parecer ocupada
pegando seu celular e mexendo nele, mas eu podia ver o ligeiro tremor de
seus dedos quando sentei na minha cadeira, assim como Harris, que
escolheu o assento ao lado dela.
— Por que você não respondeu às minhas mensagens? — Harris
perguntou com um sorriso maroto no rosto quando ele deslizou sua
cadeira para tão perto de Lucy que me perguntei se ela desenvolveria
problemas de espaço pessoais. — Eu achei que ganharia ao menos um
“Foda-se” ou um “Vá para o inferno”. Em vez disso tudo, o que eu
consegui foi nada. Honestamente, eu prefiro o “Foda-se”, Lu.
— Do que você está falando? — Lucy exigiu. — Eu não recebi
nenhuma mensagem sua.
Sentei na minha cadeira, observando-os atentamente enquanto
eles discutiam sobre Harris enviar ou não mensagens de texto. Foi um

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pouco divertido ver Lucy se encarregar da atenção de um cara como
agora. Nas poucas semanas em que conheci Lucy, eu aprendi muito sobre
ela. Uma das coisas que eu já sabia era que ela achava que caras eram
imunes a ela porque ela com certeza agia como se ela fosse imune a eles.
No entanto, com Harris, eu podia ver quão não imune ela realmente era.
Estava na forma em que seus olhos ficavam dilatados um pouco mais, a
cada vez que seus olhares se encontraram. No jeito como sua respiração
parecia parar quando ele abaixava a cabeça um pouco mais perto. No
jeito como ela brilhava só de estar perto dele.
— Diabos com isso. Estou enviando mensagens para você desde
domingo à noite. — Ele pegou seu telefone e lhe mostrou.
Lucy sorriu e eu olhei por cima do ombro para ver o que estava
acontecendo. — Esse não é o seu número. Por que você faria isso com o
pobre cara, Lucy?
— Eu não. — disse Lucy, com uma risadinha. — Mamãe fez.
Harris pegou seu telefone de volta, um beicinho já se formando.
— Layla, me deu o número errado? — A dor em seus olhos me fez sentir
mal por ele. — Eu pensei que ela gostava de mim.
— Oh, pare, — Lucy disse a ele com um sorriso. — Mamãe te ama.
Ela só me ama mais.
— Então, me dê o seu número de verdade, — Harris ordenou,
segurando o telefone para ela mais uma vez. — Deixe-me enviar
mensagens que você possa ler e ignorar. Ou... e esta é a minha
preferência, aliás... realmente falar comigo.
Era bonito vê-los juntos assim, mas minha atenção rapidamente
se afastou quando a quarta e última cadeira na nossa mesa foi
subitamente puxada para trás e Jace sentou ao meu lado. Seus ombros
estavam mais tensos do que eu jamais tinha visto nele e seus olhos azuis
estavam cheios de gelo quando ele olhou para mim.
— Você realmente vai jogar jogos comigo, Kin? — Ele resmungou.
— Eu pensei que você fosse mais madura do que isso.
Eu poderia garantir que eu era mais madura do que qualquer
garota com quem ele já esteve antes. — Vá para o inferno, Jace.

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Ele se inclinou mais perto e eu atiro um rápido olhar em direção
a Lucy, mas ela ainda estava presa em Harris enquanto ele tentava
convencê-la a dar-lhe seu número verdadeiro. Jace tocou minha mão e
me afastei antes que ele pudesse me tocar novamente. — Você não
retornou nenhuma das minhas chamadas.
Eu levantei uma sobrancelha para ele. — Fiquei surpresa que você
ainda tinha o meu número, na verdade. Imaginei que isso seria apagado
no instante em que você decidiu que eu não valia a pena o seu tempo.
O olhar que atravessou seu rosto era tão intenso que eu quase
senti prazer. Um ataque direto. Não me fez sentir melhor que ele podia
sentir dor. Se qualquer coisa, só fez meu coração doer ainda mais. Eu
não podia nem começar a adivinhar porque ele ainda se preocuparia
comigo depois de tantos meses sem mais que uma palavra trocada. Ele
não tentou manter contato comigo ou saber o que acontecia em minha
vida.
Se ele tivesse, talvez eu não estaria tão...
Destruída.
Talvez se ele tivesse estendido a mão para mim enquanto eu
estava atravessando o inferno puro observando minha mãe desaparecer
bem diante dos meus olhos, eu poderia ser um pouco mais indulgente.
Não teria importado tanto que ele tinha me deixado por sua banda. Eu
poderia até entender exatamente isso, um pouco. Ele teve a chance de
fazer algo especial com a Tainted Knights e eu nunca teria ficado no seu
caminho de seus sonhos.
Eu o amava demais para ficar em seu caminho.
Amei.
O amei demais para ficar em seu caminho.
Eu o amei tanto que isso chegou a assustar minha mãe e Carter.
Eu tinha me apaixonado rápido e nosso relacionamento foi evoluindo
ainda mais rápido. Eu pensei que ele me amava tanto quanto.
Mas não havia nada dele. Depois que ele se afastou, me deixando
uma bagunça quebrada da Kin que uma vez fui, não houve chamadas ou
mensagens ou e-mails. A única pessoa por quem eu doía de vontade de

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conversar. A pessoa em que eu tinha confiado que cuidaria de mim e me
amaria tanto quanto eu o amava. A que eu doía de vontade de ver. De ter
seus braços em volta de mim. Por apenas estar lá para mim no fim do
dia.
Eu tive Carter e os gêmeos para me apoiar, mas eu precisava de
mais. Precisava de Jace. Ele sabia o quanto eu precisava dele.
E ele virou as costas e foi embora sem olhar para trás.
Aqueles olhos azuis ainda estavam em mim e me senti mais do
que um pouco exposta naquele momento. Decidindo não pensar nele – o
que era mais fácil dizer do que fazer – virei minha atenção para Lucy que
agora estava em pé com Harris tirando selfies e parecendo tão corada e
feliz que eu pensei que estava olhando para uma nova Lucy.
Aqueles dois pareciam bem juntos.
Se duas pessoas estavam destinadas a estar uma com a outra,
eram estes dois. Era meio que adorável.
Mas no momento, no entanto, adorável só me chateava.
Eu pensei que eu deveria estar com Jace e olha onde isso me
levou.
— Então, quando essa coisa de microfone aberto começa? — Eu
quis saber enquanto pegava um copo de refrigerante e tomava um
pequeno gole. — Eu gostaria de acabar logo com isso. — E voltar para a
casa do meu pai para que pudesse esquecer que este dia já aconteceu.
Inferno, agora eu estava realmente ansiosa para aquele poço de
víboras? Eu precisava ficar longe de Jace St. Charles o mais rápido que
pudesse.

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Capítulo 8

Se eu achava que Kin estava chateada, eu estava errado.


Ela não estava chateada. Não, ela estava magoada e isso era duas
vezes pior.
Porra.
Quando ela se levantou para subir ao palco para sua primeira
noite do microfone aberto, eu sofri para estender a mão e pegar a mão
dela. Para dar-lhe um aperto e oferecer meu apoio, mas o olhar em seu
rosto – naqueles malditos olhos azuis – me disse que tocá-la ali seria a
última coisa que ela precisava ou aceitaria. Seus olhos eram duros, mas
eu podia ver o que estava mais profundo.
A vulnerabilidade.
Ela parecia quase... derrotada, de certa forma. Aquele olhar era
algo que eu nunca tinha visto nela antes e me apunhalou direto na alma.
O que estava acontecendo com ela? Eu não tinha ideia do que tinha
acontecido com ela depois que eu saí de Bristol todos esses meses atrás
e naquele momento, eu teria matado para saber o que estava
acontecendo. Antes de deixá-la, eu sabia que tudo o que eu tinha que
fazer era puxá-la para perto e dizer a ela que tudo ficaria melhor, então
ela envolveria os braços em minha volta e descarregaria tudo o que a
estava incomodando.
Agora…
Bem, agora que eu tinha fodido tudo isso. Eu não conseguiria
saber o que havia de errado com ela tão facilmente. Isso se conseguisse.
Harris caiu na cadeira em que estava antes de ter que sair para
iniciar a apresentação, mas ele só tinha olhos para a bela garota com que
fui deixado sozinho no segundo em que Kin foi chamada. Olhei para Lucy
com o canto do meu olho.

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Não havia ninguém no mundo da música que não sabia quem era
Lucy Thornton. Sua história de vida inteira tinha sido divulgada a partir
do momento em que Jesse Thornton a adotou. O baterista do Demon’s
Wings havia se casado com a irmã mais velha de Lucy e os dois haviam
a adotado. Dois anos depois, justamente quando Layla Thornton tinha
entrado em trabalho de parto de seus filhos gêmeos, o pai biológico de
Lucy havia ressurgido e a sequestrado. O mundo da mídia enlouqueceu
tentando conseguir imagens de Lucy após aquele pequeno fiasco e um
deles realmente tinha.
Lucy estava com um grande hematoma. Nenhuma parte de seu
rosto tinha sido deixado intocado. Seus olhos estavam inchados e seu
pequeno corpo de nove anos de idade parecia como se tivesse usado como
saco de pancadas. A cicatriz em seu lábio era o único sinal exterior que
ainda permanecia, mas eu não pude evitar em me perguntar se essa parte
de sua vida deixou algumas cicatrizes emocionais também.
Desde que tudo acalmou – com exceção de algumas outras vezes
que os tabloides focaram nos outros Demons – Lucy tentou se manter
longe do centro das atenções tanto quanto possível. Para as celebridades
e seus filhos, no entanto, isso era quase impossível. O que explicava o ex-
militar de terno que estava observando Lucy como se alguém pudesse
saltar do nada e atacá-la a qualquer momento.
— Ela canta? — Harris perguntou a Lucy quando ele deslizou sua
cadeira para mais perto da garota.
Lucy deu de ombros. — Eu não a ouvi ainda, mas ela toca guitarra
como uma deusa.
Meu olhar voltou para a Kin, que estava sentada no banquinho
no palco, se preparando. — Caleb lhe ensinou, — eu informei o meu
amigo enquanto observava Kin.
Alguém teria que procurar bem para notar o quão nervosa ela
estava. Ela sempre foi tão valente e forte que, a menos que você realmente
soubesse, você não saberia quão ansiosa ela podia ficar. Seu sorriso era
brilhante e amigável, mas havia algo nos olhos dela que mantinham a
maioria das pessoas longe.

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— Caleb? — Harris murmurou.
Antes que eu pudesse explicar, Lucy falou. — O meio-irmão de
Kin. Eles são muito próximos. Kin tem ficado muito chateada por estar
longe dele, de sua irmã gêmea, e de seu padrasto. — Ela soltou um
suspiro irritado. — Seu pai não fica sempre em casa e sua madrasta e
suas meias-irmãs cadelas estão deixando a vida dela insuportável. Antes
de morrer, a mãe de Kin a fez prometer que ela gastaria este ano para
conhecer seu pai e sua família. Muito difícil fazer isso quando seu pai
está mais interessado em um filme de merda que está dirigindo, e sua
família preferiria que ela desaparecesse.
Porra. Então era isso. Eu realmente não tinha pensado que Abigail
realmente faria Kin manter essa promessa. Por que ela faria Kin deixar
tudo que conhecia e todos com quem gostava de passar o tempo para
ficar com seu pai pedaço de merda e sua família idiota? Isso pareceu
muito duro vindo de uma mulher que tinha conhecido e sabia que amava
Kin tão completamente. Abigail foi uma grande mãe, mas isto...
Isso só não estava certo.
Não é de admirar que Kin pareça tão miserável. Não era só por
causa do que tinha acontecido entre nós, eu apostaria dinheiro com isso.
Ela estava se sentindo perdida naquele momento, sendo arrancada do
convívio com Caleb e Angie, e se sentindo abandonada.
No palco, Kin finalmente se estabeleceu e lambeu os lábios um
pouco nervosa, antes de soltar uma pequena risada que pareceu acordar
meu corpo inteiro. — Oi, — ela cumprimentou o salão com aquele sorriso
fácil. — Eu sou Kin e essa... — Ela parou e vi quando seus olhos
encheram de lágrimas. Ver como ela tentou piscá-las de volta só me fez
querer pular naquele maldito palco e envolver meus braços em torno dela.
— Essa música é para a minha mãe.
Cerrei os punhos quando ela começou a tocar. Porque ela ainda
estava lutando contra as lágrimas, ela começou um pouco lenta, mas
menos de meio minuto depois, suas habilidades naturais com a guitarra
assumiram e ela se estabeleceu como a estrela do rock que eu sabia que
ela era. Quanto mais eu olhava, mais difícil era recuperar o fôlego.

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Porra, ela era incrível.
Sua voz era melhor do que um monte de estrelas pop que eu ouvia
no rádio com o Auto-Tune fazendo-as soar daquele jeito, mas não era o
tipo de voz de rock que as pessoas param e olham uma segunda vez. Isso
não importa, entretanto. Suas habilidades com a guitarra foram feitas
para isso, e as palavras que eu sabia que ela deveria ter escrito, estavam
tão cheios de emoção – tão tocante – que logo o clube todo parou o que
estava fazendo para olhar mais atentamente para a menina no palco.
Kin tinha um talento com a escrita de música e poesia. Ela pode
destruir uma pessoa com suas palavras, fazê-las sentir como se fossem
tudo ou nada. Ela poderia se abrir e mostrar ao mundo quem ela era com
uma música. Para mim, a música era tudo, e Kin era tão incrivelmente
talentosa que me fez sentir que a vida sem a música dela não tinha
qualquer significado.
Ela era o que tornava melhor, e fazia valer a pena.
Que porra eu estava pensando, ao me afastar dela?
A música chegou ao fim e Lucy estava logo fora de seu assento,
correndo para encontrar Kin quando ela saltou do pequeno palco. As
duas se abraçaram, mas eu estava enraizado no meu lugar, muito preso
no pesadelo de perceber o quanto eu tinha fodido com esta menina para
sequer respirar.
Ouvi um barulho estranho vindo do cara sentado na minha frente
e só então eu consegui tirar os olhos de Kin enquanto ela e Lucy se
abraçavam e riam, ambas já comemorando o sucesso da primeira
apresentação de microfone aberto de Kin. Harris estava pálido como a
morte, suor escorrendo em sua testa e seus olhos tinham uma aparência
translucida que, se eu não soubesse melhor, eu teria pensado que ele
estava alto como uma pipa.
— Cara, você parece uma merda. Você está todo suado e há um
olhar selvagem em seus olhos. Qual o problema com você?
Harris acenou para a garçonete. — Estou cansado, cara. Eu
preciso voltar para o escritório e lidar com as coisas. — Ele pediu um

69
bourbon e disse a loira para levar para ele em seu escritório. Ele ia pular
fora? Imaginei que ele ficaria com Lucy um pouco mais, pelo menos.
Kin e Lucy voltaram, ainda rindo, mas no segundo que os olhos
escuros de Lucy pousaram em Harris o riso morreu e ela estava
colocando a mão em sua testa. — Você está ficando doente? — Ela
perguntou, parecendo preocupada. — Você está quente e parece um
pouco corado.
Harris correu para explicar e depois de fazer Lucy prometer ligar
para ele, ele nos deixou para voltar ao trabalho.
Acenei para uma garçonete diferente e pedi outra cerveja para
mim, e refrigerantes para as duas meninas. Com Harris longe e o fim da
apresentação de Kin, eu não queria que elas fossem embora. Eu não
estava pronto para dizer boa noite para Kin, e essa com certeza, não seria
a última vez em que a vejo.
— Bom trabalho, querida. Estou tão orgulhoso de você. — Eu
estendi a mão para pegar a mão dela, mas ela se moveu ao redor da mesa
para evitar meu toque. Rangi os dentes e lembrei que precisava de tempo.
— Vocês duas virão para o show de amanhã à noite? — Perguntei
enquanto eu segurava a cadeira de Lucy para ela.
Ela olhou de mim para Kin e, em seguida, para a cadeira antes de
encolher os ombros e se sentar. — Que show?
Com ela sentada, eu puxei a cadeira entre ela e Kin. — A Knights
Tainted toca toda quinta-feira, — disse a Lucy. — Vocês duas deveriam
vir nos ver.
Kin sentou-se em seu assento, os braços cruzados sobre seu peito
enquanto ela me observava. — Tenho certeza que já vi muito da Tainted
Knights. A menos que vocês idiotas tenham algum material novo, eu vou
passar.
Eu sorri. — Cash e eu temos escrito algumas músicas
recentemente. Talvez eu cante para você amanhã à noite.
— Eu topo, — Lucy me garantiu enquanto tomava um gole do
refrigerante que a garçonete morena colocou na frente dela. — Quer vir
comigo, Kin?

70
Ela soltou um suspiro frustrado e me lançou um olhar gelado,
mas balançou a cabeça. — Certo. Não é como se eu tivesse algo melhor
para fazer de qualquer maneira.
— Ótimo, — eu disse com um sorriso quando me virei para Lucy
e dei-lhe o número do meu celular. Ela aceitou apenas após uma pequena
hesitação. — Vou avisar Harris que vocês vão se juntar a nós. Nós
podemos sair depois.
Kin rangeu os dentes, mas não disse nada. Lucy, no entanto, me
deu um sorriso que estava cheio de todos os maus pensamentos que eu
tinha certeza que ela normalmente mantinha escondido. — Claro, Jace.
Isso parece divertido. — Ela esfregou o dedo indicador ao redor da borda
do copo de refrigerante, seus olhos escuros nunca deixando os meus. —
Mas há algo que você deve se lembrar se você quiser sair comigo e Kin.
Minhas sobrancelhas se ergueram, curioso sobre que ameaça ela
jogaria em mim. — O que seria, Lucy?
— Meu pai me ama mais do que qualquer outra pessoa neste
planeta, — ela murmurou enquanto traçava a condensação no copo de
refrigerante. — E ele está gostando muito de Kin nas últimas semanas
também. Foda comigo ou com ela e só vai precisar de um sussurro no
ouvido dele e ninguém nunca vai encontrar seu corpo.
Antes que eu pudesse decidir se ela estava fazendo graça ou
dizendo a verdade, Lucy se levantou e ofereceu a mão para Kin. Com seu
estojo de guitarra na mão, Kin se levantou e pegou a mão de Lucy. Havia
um sorriso no rosto bonito enquanto ela acenava adeus para mim e
seguia Lucy e seu guarda para fora do clube.
Foi só depois que as duas foram embora e eu ainda estava sentado
ali, me perguntando se deveria realmente me preocupar com um Demon
atrás de mim, que percebi que Lucy devia estar brincando. Eu não achava
que ela era esse tipo de garota.
Não. Não Lucy Thornton.
Eu apostaria dinheiro que ela esconderia meu corpo no deserto
ela mesma. Ela era fodona assim e se eu não estivesse tão perdido quando
se travava de Kin, ficaria tentado a descobrir o quão determinada Lucy

71
Thornton realmente era sob toda aquela beleza doce. Entre Kin e Harris,
no entanto, eu sabia que isso nunca teria sido uma opção.
Ainda assim, seria divertido ter aquela garota como amiga.

Pela terceira vez em menos de uma semana, eu estava de volta à


First Bass.
A primeira vez em que viemos, no sábado, tinha sido uma
experiência nova para mim. Eu não estava acostumada a clubes que
precisavam de lista de espera para entrar na lista final. Eu sabia que
Caleb e Angie foram para alguns deles quando foram até New York para
o fim de semana ocasional, mas nunca tinham me levado com eles. Minha
identidade falsa, provavelmente, não teria funcionado em um lugar como
aquele.
Quarta-feira tinha sido uma experiência nova para mim também.
As noites de microfone aberto não eram algo que eu já tinha
testemunhado ou sido uma parte até então. Claro que eu tinha ido para
bares de karaokê, pelo menos uma vez por mês com os meus meios-
irmãos, mas nada como a noite de quarta-feira tinha sido. Karaoke era
apenas por diversão; as noites de microfone aberto eram para as pessoas
que estavam tentando serem notadas.
Quinta-feira foi uma experiência nova para mim tanto quanto as
outras noites na First Bass. Entrar no clube foi um pouco mais difícil do
que nas outras três vezes, porque havia um homem diferente na entrada
mantendo as pessoas fora e só deixando entrar os que estavam na lista –
ou com peitos bons o suficiente. Lucy teve que chamar Harris para dizer
que o cara não queria nos deixar entrar e ele saiu tão chateado que
realmente parecia estar saindo vapor de suas orelhas.
— Você vê essa garota? — Ele rosnou para o grande cara com um
fone no ouvido e uma prancheta com nomes. Os olhos do homem se
desviaram para Lucy, mas apenas por um segundo antes de Harris voltar

72
para o seu rosto. — Olhe bem, idiota, e então mantenha seus olhinhos
redondos para si mesmo. Lucy Thornton tem prioridade no meu clube.
Cause problemas a ela de novo e eu garanto que você vai estar virando
hambúrgueres no Burger King mais perto. Compreende?
— Harris... — Lucy agarrou sua mão e entrelaçou os dedos e eu
observei, sem palavras, como toda a raiva simplesmente evaporou-se
dele.
Harris Cutter, um metro e oitenta de pura massa muscular,
passou de monstro em fúria para um gatinho pequeno choramingando
com um toque de Lucy. Olhos azuis marinhos suavizaram e ele colocou
seu braço ao redor de seus ombros enquanto a guiava para o clube. —
Estou feliz que você veio hoje à noite, Lu. Jesse não reclamou de nada?
— Papai realmente gosta que eu estou gastando mais tempo com
você, — Lucy disse a ele com um rolar de seus olhos. — Eu acho que ele
e Sr. Cutter vão jogar golfe amanhã.
— Bom para eles. Vou ter que ligar para Nat para saber como foi
isso. — Abrindo a porta para o clube, ele recuou e esperou que Lucy,
Marcus e eu entrássemos na First Bass antes de nos seguir.
No interior, Harris acenou para o chefe da segurança. Tiny, o
homem moreno e delicioso que Lucy e eu conhecemos no sábado, acenou
com a cabeça, mas permaneceu em silêncio enquanto nos dirigíamos
para o nível mais baixo do clube. O nível de ruído do interior era quase
ensurdecedor. O lugar estava cheio, mas com Harris e Marcus ajudando
a limpar o caminho, Lucy e eu chegamos rapidamente na frente do palco
montado para o Knights Tainted e seus shows noturnos de quinta-feira.
Eu tentei absorver tudo enquanto alguns caras faziam a
passagem de som no palco. A fila era uma mistura de homens e mulheres,
todos vestindo camisetas da Tainted Knights. Curiosamente, eu me
perguntava como conseguir uma. Claro que eu odiava Jace, mas a
Tainted Knights fazia boa música e eu sempre seria um fã. Além disso,
Cash Graves, que era o baixista na banda, era um velho amigo de Caleb.
Eles eram o tipo de amigos que não precisavam manter contato
constante para saber se um deles precisava do outro, eles estavam

73
apenas um telefonema de distância. Eu meio que invejava a amizade
entre o meu meio-irmão e Cash, mas ao mesmo tempo eu estava meio
triste por Cash. O cara não tinha muitos amigos em quem pudesse
confiar além de Caleb. Sua família era cheia de cadelas imprestáveis que
viraram as costas para ele quando ele lhes disse que queria mais da vida
do que gastar o dinheiro que sua família herdou. Ele queria fazer o seu
próprio caminho no mundo, e quando lhes disse que ele conseguiria sem
o apoio deles, ele apenas deu de ombros e mudou-se para Bristol aos
dezoito anos.
Foi aí que ele conheceu os caras da Tainted Knights e foi assim
que eu o conheci também.
— O show está prestes a começar em poucos minutos, — disse
Harris a Lucy enquanto passava o braço em volta de seus ombros e a
puxava, como se estivesse protegendo-a da multidão. Desde que a
multidão era tudo menos turbulenta, eu não acho que essa desculpa
colou, mas eu não iria interrogá-lo. — Vocês dois querem algo para
beber?
— Água seria bom, — eu disse a ele.
— Sim. Agua está bom para mim, — Lucy assegurou, puxando
para trás para que ela pudesse sorrir para ele. — Você tem trabalho a
fazer esta noite, Harris? Ou você pode ficar com a gente?
— Eu sou todo seu essa noite, Lu. — Ele acenou para uma
garçonete e pegou duas garrafas de água fora de sua bandeja cheia. Ao
entregá-las, ele puxou Lucy de volta contra ele. — O show dura cerca de
uma hora e então nós podemos ir lá para cima relaxar.
Lucy abriu a boca para dizer algo, mas o baterista escolheu esse
momento para sair para o palco e assumir sua posição. Meus olhos se
concentraram em Kale Conway. Ele era um cara legal, sempre divertido
de estar por perto e raramente levava as coisas a sério. Lembrei dele me
fazendo rir na primeira noite em que eu o conheci. Eu gostava de rir e se
não tivesse me apaixonado por Jace aquela noite, eu ficaria atraída por
ele.

74
Com Kale no lugar, Cash foi o próximo a subir ao palco, seguido
rapidamente por Tate Sinclair. Eu não conhecia a história dele porque ele
era o mais evasivo dos cinco membros da Knights Tainted. Ele passou
por Sin, depois Tate, e o cara era um filho da puta arrogante. Ele era um
hipócrita e o maior canalha que eu já conheci.
Enquanto os outros três se posicionavam em seus lugares,
Grayson Knight saiu e toda garota em volta gritou como se suas vidas
dependessem disso. Eu coloquei um dedo na minha orelha esquerda
quando a menina atrás de mim gritou tão alto que meu tímpano começou
a vibrar. Eu não poderia dizer que culpava a garota, ou qualquer pessoa,
aliás. Gray era...
Bem, Gray era do que todos os sonhos molhados sobre estrelas
do rock eram feitos. Com seu longo cabelo escuro em cima e raspado nas
laterais, sua tez escura e seus olhos cor de areia pecaminosamente
deliciosos, ele gritava sexo e rock e trazia à vida a fantasia mais íntima
de cada mulher.
Ele também era um babaca e só fodia garotas que conheciam o
jogo. Uma hora – uma noite se tivesse sorte, com ele era só isso. Ele não
oferecia seu coração a ninguém e alguns até pensavam que ele não tinha
um para oferecer. Mas eu sabia que não era verdade. Tudo que precisava
era ver como os olhos de Gray mudavam quando ele olhava para Kassa
St. Charles para saber que ele tinha um coração e que pertencia a ela.
Pensar em Kassa me fez abaixar os olhos para estudar minhas
mãos. Nos meses em que Jace e eu ficamos juntos, eu tinha chegado a
pensar em Kassa como uma amiga e depois como uma irmã como Angie
era para mim. Ela era uma garota doce, com um coração de ouro, mas
podia ser forte como um prego se precisasse. Aquela doçura escondia um
lago de fogo que corria como o inferno quando frente a frente com ele. Ela
tentou me ligar uma vez depois de Jace ter me deixado, mas eu pedi para
Angie se livrar dela. Eu não queria sua bondade quando estava caindo
aos pedaços com a dor e o tipo de dor de cabeça que deixava uma pessoa
insensível.

75
No palco, Kale estava fazendo uma contagem regressiva para o
início da primeira música, mas não foi até que ouvi a voz de Jace do lado
do palco que eu fui forçada a olhar para cima. Lentamente, como se
soubesse que todos os olhos iriam segui-lo mesmo que ele decidisse saltar
em um poço que caia direto no inferno, ele entrou no palco, cantando
uma das poucas músicas mais lentas que eram uma das favoritas de
todos os fãs em Bristol.
Como ele se atreve a cantar essa música hoje à noite?
Cerrei os punhos apertados, minhas unhas enterrando nas
palmas das minhas mãos enquanto eu olhava para ele. Ele ganhou meu
coração com essa música. Me seduziu com ela. Tinha ganhado cada
polegada da minha alma com aquela música do caralho.
Ele sabia disso, como não poderia? Ele tinha cantado a maldita
música para mim na noite em que fez amor comigo pela primeira vez. Ele
a cantou novamente apenas momentos antes de dizer que me amava.
Ele...
Eu estava prestes a subir lá em cima, tirar as baquetas de Kale e
bater muito em Jace St. Charles, aquele bastardo sujo. Ele não estava
sendo justo. Meu coração estava doendo, minha alma parecia estar sendo
picada com cada palavra que saía de seus lábios. Eu queria bloquear
tudo, queria destruir meu tímpano esquerdo para que nunca ouvir outro
acorde, batida, palavra, ou qualquer coisa que representa aquela música,
nunca mais.
A música continuou indo. A voz de Jace caía abaixo do normal,
ele cantava as palavras que sabia que me acorrentaram a ele naquela
primeira noite. Seus olhos azuis pegaram os meus, se recusando a me
libertar quando ele colocou a mão sobre o coração e caiu de joelhos bem
ali na minha frente naquele maldito palco cantando para mim e só para
mim em um lugar tão cheio.
Sem pensar, eu dei um passo mais perto, meus olhos ainda presos
nos dele. A música foi lentamente chegando ao fim e meu coração estava
na minha garganta e eu continuava dando um pequeno passo de cada
vez até que estávamos ali na frente um do outro, meras polegadas nos

76
separando. O último acorde de guitarra foi lentamente ecoando no vazio
e todo o clube ficou em silêncio de repente, como se todos estivessem
segurando a respiração enquanto Jace continuou a segurar o meu olhar
refém.
— Kin, — ele começou, sua voz áspera e cheia de emoções que eu
não queria distinguir.
Levantando minha mão, eu dei um tapa em seu rosto tão forte
quanto eu consegui. Sua cabeça bateu para trás e minha mão caiu para
o meu lado, picando como se eu tivesse a empurrado em um poço em
chamas, mas eu apreciava a dor física. Um esboço vermelho da palma da
minha mão brilhou em seu rosto, e a multidão em nossa volta estava tão
atordoada que ninguém se atrevia a falar. Lágrimas de raiva começaram
a encher os olhos, mas me recusei a deixá-las cair.
— Vá se foder, Jace.
Mãos macias me enlaçaram em volta da minha cintura e me virei
com apenas o menor dos apelos de Lucy. — Vamos sentar no andar
superior, querida — Eu a ouvi murmurar.
— Gelo — eu pensei ter ouvido Harris dizer para outra garçonete,
pois ambos me levaram lá em cima.
Minha mão parecia estar escaldante de tanto que ardia, mas eu
apreciava a dor enquanto Lucy me empurrava para baixo em um sofá de
couro em um canto de trás do piso VIP. Sentir dor significava que eu
estava viva. A dor que tinha abatido meu coração por tanto tempo, agora
não tinha ganhado e eu realmente sentia como se pudesse respirar fundo
pela primeira vez desde que eu tinha pisado na Califórnia.
Foi com esse pensamento que um sorriso brincou nos meus lábios
e uma risada de verdade me escapou, enquanto Lucy pressionava um
bloco de gelo na minha palma vermelha. — Posso fazer isso de novo? —
Murmurei enquanto olhava para ela.
Harris caiu no sofá ao lado dela, com os olhos de água-marinha
dançando com humor. — Talvez na próxima vez. Ele tem um trabalho a
fazer esta noite, e eu tenho um clube lotado que vai iniciar um motim se
ele não terminar o show.

77
— Da próxima vez, — Lucy concordou com um sorriso malicioso
quando ela se apoiava em Harris e ficava de frente para mim. — Sente-se
melhor?
Dei de ombros. — Melhor do que eu há muito tempo, querida. Foi
uma espécie de catarse.
— Bom, — ela riu. — Agora, vamos nos divertir. — Seu olhar foi
para o homem de pé no canto e ela acenou para Marcus. — Acho que
ficaremos aqui pelo resto da noite. Você pode relaxar e pegar uma bebida.
Marcus olhou de Harris e depois de volta para Lucy antes de
acenar com a cabeça uma vez e ir ao bar VIP para pegar um copo de
refrigerante. Momentos depois, ele se estabeleceu em uma cadeira vazia
não muito longe do nosso sofá. Ele se posicionou para que pudesse
manter os olhos firmemente sobre Lucy, mas ofereceu-lhe algum espaço
e privacidade para que ela pudesse ser ela mesma.
Harris passou um braço ao longo das costas do sofá e levou sua
cerveja aos lábios. — Isso é legal. Estou feliz que você veio, Lu.
— Sim, — ela murmurou quando olhou para ele. — Eu também.
Fora Kin quase quebrar a mão, têm sido uma ótima noite. A Tainted
Knights tem um potencial assassino.
— Emmie acha também. Assim que o contrato comigo acabar, ela
tem grandes planos para eles. — Ele tomou outro gole de cerveja antes
de virar seus olhos impressionantes para mim. — Falando de planos para
o futuro... Eu recebi duas ligações sobre você, esta manhã. Um quer falar
com seu agente sobre a música que você tocou ontem à noite. O outro
quer saber se você tem mais que possam ouvir.
Todos os pensamentos de Jace, a merda que eu tinha que
enfrentar em casa e a dor na minha mão desapareceu. — Você está
falando sério? — Eu queria perguntar com uma voz calma, mas saiu
quase histérica. De jeito nenhum. Não havia como ele estar dizendo a
verdade. Ninguém gostaria da minha música.
Certo?
— Eu não brinco com coisas como essa, Kin. Esses caras são
alguns dos maiores nomes do mundo da música. Eu disse a eles que eu

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passaria o contato deles para você. — Ele tirou algo do bolso e entregou
um pedaço de papel dobrado. — Pense nisso antes de ligar para qualquer
um deles. Se você não tiver dezoito anos ainda, vai precisar de um tutor
para lidar com quaisquer ofertas que receber.
Lucy sentou-se um pouco mais reta, os olhos escuros se
estreitando no papel na minha mão. — Kin, isso é incrível. Eu estou tão
orgulhosa de você…
— Mas? — Eu sussurrei, com medo do que ela ia dizer.
— Mas... fale com a tia Emmie sobre isso, ok? Veja o que ela pensa
antes de tomar uma decisão. Como Harris disse, você vai precisar de um
tutor para lidar com quaisquer ofertas. Você acha que seu pai vai ter os
seus melhores interesses no coração? E Jillian?
Eu rapidamente dobrei o papel e o empurrei no bolso da frente da
calça. Lucy estava certa. Eu falaria com a tia dela sobre isso quando
puder, e se precisar, esperaria até meu aniversário em fevereiro antes de
aceitar qualquer oferta.

Meu rosto ficou ardendo até o final do show. Todos os meus


quatro companheiros de banda riam cada vez que olhavam para mim
enquanto esperávamos nossas cervejas no salão VIP. Ignorei-os e tomei
minha garrafa de Bud em dois goles antes de exigir uma outra de Nate, o
barman.
— Vejo que Kin ainda tem aquela personalidade impetuosa que
combina com o cabelo dela, — Sin disse com um sorriso arrogante. —
Droga, eu sabia que deveria ter tentado antes de você colocar as mãos
nela.
Se acontecesse de Sin e Gray ambos estarem em um prédio em
chamas e eu pudesse salvar apenas um deles, eu não tinha certeza se
salvaria qualquer um. Ok, então eu provavelmente iria atrás de Gray

79
porque minha irmã e Alicia me matariam se não o salvasse. Sin poderia
queimar. Eu desprezava ambos igualmente. Os dois eram melhores
amigos. Eu acho que iguais se atraem e toda essa besteira.
Uma mão pousou no meu ombro enquanto levantei a minha nova
garrafa de Bud e debati sobre bater na cabeça de Sin. Kale riu bem
humorado, mas seu domínio sobre o meu ombro estava cheio de tensão.
— Vamos encontrar um lugar para relaxar, certo?
Não me incomodei em responder quando afastei seu aperto e olhei
ao redor da sala a procura de Harris. Esperando que Kin e sua amiga não
tenham ido embora. Eu queria falar com ela, dizer a ela...
O que?
Que eu sentia muito por jogar sujo e cantar a música que eu
considerava como nossa? Eu não sentia por isso. O olhar em seu rosto
me disse que eu a afetei emocionalmente antes de irritá-la e ela me dar
um tapa. Ela ainda se importava, ela ainda sentia algo forte por mim e
não era apenas ódio.
Eu não tinha ideia do que diria a ela, só queria ter a chance de
conversar.
— Cash!
Minha cabeça virou quando ouvi a voz de Kin chamar. Ela estava
em um sofá de couro em um canto de trás, escondido da maioria dos
outros VIPs, mas ela se levantou e caminhou em nossa direção. Os olhos
azuis estavam concentrados em Cash enquanto ela passava por mim e
colocava os braços ao redor do baixista.
Cash envolveu-a em um abraço apertado. — Kin. — Ele estava
sorrindo quando se afastou o suficiente para olhar para ela. — É bom ver
você, querida.
— Você também. — Ela manteve um braço ao redor de sua cintura
quando sorriu para ele. Não que ela tivesse que olhar para cima agora.
Com quase um metro e oitenta e três com pés descalços, ela não era
muito mais baixa que Cash, que tinha apenas um metro e oitenta e cinco.
— Vem sentar com a gente?

80
Ele encolheu os ombros. — Claro, querida. — Ela puxou-o com
ela, seu braço ainda em sua cintura.
Eu queria quebrar a porra do pescoço dele quando ele passou um
braço sobre os seus ombros e caminhou com ela. Engolindo outro gole
da minha cerveja, eu comecei a segui-los e não me surpreendi quando os
outros três membros da Tainted Knights fizeram o mesmo.
Lucy e Harris estavam em uma extremidade do sofá, Lucy
escondida perto de Harris com os pés em seu colo. Kin estava ao lado de
Lucy, e Cash ocupava o resto do sofá. Em uma cadeira perto, estava o
segurança - que parecia estar sempre com Lucy - observando a todos.
Kale puxou uma cadeira para o nosso grupo e Gray e Sin seguiram o
exemplo. Me grudei no braço do sofá ao lado de Cash, pronto para
quebrar alguns dedos se tocasse em Kin por mais tempo do que eu
pensava que deveria.
— Lucy, este é Cash. — Kin estava apresentando. — Aquele bobão
é Kale, e do lado estão os gêmeos idiotas. — Ela apontou para Gray e Sin,
que inclinaram o queixo em saudação. — Ela se acomodou contra o lado
de Cash um pouco mais. — E você conhece Jace.
Lucy sentou-se para a frente, apertando as mãos dos outros
quatro homens, um sorriso no rosto. — Eu já ouvi muito sobre vocês, na
verdade. Tia Emmie tem alguns planos excitantes para a sua banda.
— Tia Emmie? — Kale levantou uma sobrancelha por meio
segundo e, em seguida, quase deixou cair sua cerveja. — Você é Lucy
Porra Thornton, não é?
Rosa encheu as bochechas de Lucy e ela sentou-se. Harris colocou
seu braço em volta dos ombros e ela pareceu ficar à vontade mais uma
vez. — Sim. Essa sou eu.
— Como é ter um Demon como pai? — Sin questionou com um
novo interesse em seu olhar.
— Ele é um ótimo pai, se é isso que você quer dizer.
— Não é. — Sin mudou de posição na cadeira. — O que eu quis
dizer, foi como é ter sua vida pessoal sempre lá fora, para o mundo ver?

81
— É uma merda, — Lucy assegurou com uma pitada de aço em
seu tom. — E é no que sua vida está prestes a se transformar. Então, se
você não quer os paparazzi reportando cada coisa que você fizer e com
quem fizer, saia agora.
— Ignore Sin, — Cash disse a ela quando olhou para o outro
baixista. — Ele é um burro na metade do tempo, e a outra metade ele é
um bastardo.
Sin não se preocupou em negar. Com um encolher de ombros que
mais ou menos concordou com a avaliação de Cash de sua personalidade,
Sin engoliu o resto de sua cerveja e colocou a garrafa vazia no chão a
seus pés.
Kin virou-se para enfrentar Cash. — Você tem falado com Caleb,
ultimamente?
— Não. Ele está ocupado com a faculdade. Caso contrário, eu já
teria sabido que você estava na Costa Oeste e teria vindo verificar você.
Seu rosto se contraiu. — Faça-me um favor e não diga a ele que
nos vimos. — Seu olhar se levantou para o meu por apenas um milésimo
de segundo antes de voltar para Cash. — Eu não estou pronta para lidar
com o drama que se seguirá se ele souber que encontrei vocês. Você sabe
que ele vai contar a Angie.
— Anotado.
Os outros não ficaram por aqui por muito tempo. Kale saiu
primeiro para encontrar outra coisa para beber e nunca mais voltou. Sin
e Gray foram em busca de uma garota com quem passar a noite, mas
Cash continuou ali, então não havia como eu ir para qualquer outro
lugar. Ficamos por mais duas horas antes de Lucy finalmente dizer a
Harris que tinha que ir para casa. As duas garotas se levantaram e Harris
abraçou Lucy por um longo momento antes de relutantemente deixá-la
ir. — Eu te ligo, — ele prometeu e ela deu-lhe um sorriso brilhante.
Kin abraçou Cash, me lançou um olhar desagradável e, em
seguida, pegou a mão de Lucy. — Obrigado por nos receber, Harris.
Ele inclinou a cabeça, um sorriso no rosto. — O prazer é meu,
Kin. Mas vamos tentar manter o dano físico no mínimo, da próxima vez,

82
ok? Eu não quero que o meu clube se torne famoso por entreter com
garotas brigando.
Um sorriso brincou em seus lábios e ela embalou a mão com a
qual me estapeou mais cedo. — Vou tentar o meu melhor.
Quando as meninas começaram a sair, eu pisei na frente de Kin.
Ela ignorou todas as minhas tentativas para falar com ela durante a
noite, mas eu não podia deixá-la ir sem dizer alguma coisa. — Sinto
muito. — eu soltei, porque eu ainda não tinha ideia do que dizer a ela. —
Sinto muito sobre tudo.
Suas sobrancelhas ruivas se ergueram. — OK. Você sente muito.
Bom saber. Vejo você por aí. — Com isso, ela reforçou seu aperto sobre a
mão de Lucy e caminhou em volta de mim, me deixando ali com o coração
na garganta.

83
Capítulo 9

Scott tinha viajado para o Canadá para filmar em algumas


locações para seu mais novo filme, então eu fui deixada sozinha em casa
com a madrasta e as duas meias-irmãs cadelas. Mesmo sendo impossível,
as coisas em casa ficaram ainda mais insuportáveis.
Eu nunca gostei muito de filmes de princesas da Disney, mas de
repente, eu conseguia compreender a Cinderela um pouco mais. A
necessidade de uma garota em ter uma noite de folga de sua família
terrível era totalmente compreensível e eu podia conseguir isso com Lucy.
Sair com ela, no entanto, significava ir para a First Bass na
maioria das vezes, ao que parecia. Eu estava bem em ir nas noites de
quarta-feira já que eu estava começando a receber alguma atenção pelas
músicas que eu tocava, mas nas quintas, eu preferia lidar com as três
bruxas do que assistir ao show da Tainted Knights, e depois assistir outra
garota perseguir Jace.
Jace ignorava a maior parte delas, mas houve mais do que uma
vez em que ele deixava as groupies chegarem perto e elas ficavam em
cima dele após os shows. Tentei dizer a mim mesma que eu era imune a
vê-lo com outras garotas, mas ele e eu sabíamos que era uma mentira.
Como ele poderia não saber que doía como um corte de papel no coração
cada vez que eu o via tocar o braço de uma garota, sussurrar em seu
ouvido e rir, e depois beijá-la?
Me destruía um pouco mais, a cada vez que isso acontecia e em
pouco tempo, eu já não estava indo para o clube tão frequentemente, o
que significava que eu tinha que lidar com Jillian e as meias-irmãs
cadelas mais e mais vezes. Eu já tinha quase toda leitura em dia, e com
certeza já tinha feito toda a lição de casa para o semestre inteiro, durante
as noites em que me tranquei no meu quarto ignorando todos elas. Pelo

84
menos, as minhas notas estavam constantes e minha média estava
excepcional.
Não havia como ignorar as cadelas do mal esta noite, no entanto.
Jillian e suas filhas estavam indo para uma festa de Halloween e eu
poderia ir com elas, ou ir para o First Bass com Lucy. Ver Jace era
definitivamente o menor dos dois males e eu vestida para matar em uma
fantasia policial que encontrei em Party City. Lucy não tinha ficado muito
feliz em se fantasiar, mas de alguma forma, consegui convencê-la.
Tirá-la de sua casa vestida como o sonho molhado de todo o
indivíduo não foi fácil, porém. Jesse Thornton quase teria um aneurisma
se visse o que sua filha estava vestindo, então eu a envolvi em um casaco
velho que eu tinha encontrado no armário do corredor do meu pai e
distrai Jesse enquanto Lucy corria para fora da casa.
Meu coração ainda estava correndo por pensar o que teria
acontecido se Jesse tivesse visto a roupa de Lucy quando entramos na
First Bass. Tirei o casaco e o entreguei a Tiny quando paramos na escada
que conduzia até o andar VIP.
— Senhorita Thornton, é sempre um prazer tê-la conosco, — Tiny
disse a ela enquanto Lucy começou a tirar o casaco.
Ela lhe deu um sorriso caloroso quando deu de ombros e entregou
a ele. Atrás de nós, ouvi Marcus murmurar uma maldição, o primeiro
sinal real de emoção dele que eu já tinha visto. A reação de Tiny não foi
muito melhor. Seus olhos quase saltaram para fora de sua cabeça.
Limpando a garganta, ele dobrou o casaco de Lucy sobre seu braço. —
Devo informar ao chefe que você chegou, senhorita Thornton?
— Não, por favor, não o incomode, Tiny. — Ela lhe deu um sorriso
malicioso. — Eu gostaria de surpreendê-lo, se você não se importa.
Eu vi a hesitação nos olhos escuros do grande homem, mas depois
de apenas um segundo, ele acenou com a cabeça e afastou-se para que
pudéssemos subir as escadas para o andar VIP.
Eu não estava acostumada a saltos tão altos como os que eu
estava usando, e nem Lucy, mas as botas de salto estilete de 12
centímetros iam até os joelhos e faziam nossas pernas parecerem

85
infinitas, combinadas aos nossos shorts pretos ultracurtos. Nós duas
usávamos cintos de armas combinando e nossas blusas mal cobriam os
“bens” de Lucy, mas nós estávamos sexys e era exatamente essa a
intenção.
Eu queria fazer Jace suar naquela noite, e sabia que Harris seria
incapaz de esconder o quão afetado ele estaria uma vez que ele visse sua
“melhor amiga” vestida assim. Era um pouco divertido ver o quanto
Harris adorava Lucy, como ele tentava esconder o quanto realmente se
importava.
Caras eram tão estúpidos.
Assim que chegamos ao topo das escadas, parecia que estávamos
cercados por uma horda de homens vestidos em trajes diferentes. Lucy
riu quando alguém lhe disse que ela parecia sexy e empurrou seu cabelo
longo, ajeitando para trás de seu rosto. Era uma loucura que a garota
não entendia o quão bonita ela realmente era.
Lentamente, fizemos nosso caminho em direção ao bar. Saíamos
de um grupo de rapazes apenas para ser cercadas novamente por um
novo grupo, cada um, um pouco mais ousado do que o último. Marcus
manteve distância, mas eu quase podia sentir sua tensão mesmo dos três
metros de distância que ele mantinha de Lucy.
Havia cinco caras no mais novo grupo que queria dizer a Lucy e
eu, o quão “gostosas” nós estávamos. Lucy novamente riu do elogio, e
tomando isso como um sinal de que ela estava flertando com ele e queria
mais atenção, um dos rapazes deu um passo para mais perto dela.
— Qual é o seu nome, linda? — O cara à minha esquerda
perguntou quando se aproximou de mim.
— Holly, — eu disse a ele com um sorriso. Não havia como eu
dizer para aquele idiota, o meu nome de verdade. Dei-lhe um sorriso
tenso antes de virar minha atenção de volta para Lucy. O cara que estava
agora só a algumas polegadas longe dela estava olhando para seu peito
como se fosse um presente de Natal que ele estivesse morrendo de
vontade de desembrulhar.

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Eu estava prestes a dizer para esses caras irem para um lugar
bem desagradável quando o novo “amigo” de Lucy empalideceu de
repente e recuou. Virando a cabeça na direção em que ele tinha acabado
de indicar, percebi rapidamente por que ele estava pronto para dobrar
sua cauda e correr.
Vendo Harris, Lucy esqueceu tudo sobre os caras chamando-a de
gostosa, e abraçou-o. Todos os cinco caras silenciosamente
desapareceram e eu não consegui evitar o riso quando vi o olhar mortal
com que Harris Cutter tinha se livrado dos fracos que estavam tentando
entrar em nossas calças.
— Eu estive procurando por você, — disse Lucy a Harris enquanto
recuava e girava, mostrando todos os detalhes de seu traje. — Você
gostou?
Pelo olhar em seus olhos de água-marinha, eu tinha certeza de
que Harris estava prestes a ter um aneurisma ao ver Lucy vestida daquele
jeito. — Como diabos você saiu de casa assim, Lu? — Perguntou ele. —
Jesse Thornton vai me matar se descobrir que você está vestida desse
jeito no meu clube.
Lucy sorriu e o abraçou novamente. Seus braços apertaram ao
redor dela e eu o vi fechar os olhos enquanto ele respirava lentamente. —
Kin me ajudou a fugir. Pelo que papai sabe, eu estou vestida como uma
freira. — Ela se afastou, ainda sorrindo para ele. — Por favor, podemos
sentar? Eu odeio essas malditas botas. Meus pés estão me matando.
Harris parecia aliviado que ela queria sentar. Ele pegou sua mão
e segurou firme quando nos levou a um sofá de couro em um canto na
parte de trás. Minha excitação para a noite drenou quando vi que Jace já
estava sentado lá.
Ótimo.
Eu sabia que teria que lidar com ele naquela noite, mas achei que
ele estaria fora procurando alguma garota e eu não teria que o ver muito.
À medida em que nos aproximávamos, vi que os olhos de Jace se
estreitaram quando passaram por mim, e eu senti cada toque seu como
uma carícia física.

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Harris tomou seu lugar no sofá e puxou Lucy ao lado dele.
Alcançando os zíperes de suas botas e puxando-as, ele ergueu os pés dela
para seu colo e começou a massageá-los. O primeiro gemido de prazer
que deixou os lábios de Lucy quase o matou. Eu vi o olhar que atravessou
seu rosto e sabia que estava precisando de muito para o pobre rapaz não
a beijar ali mesmo.
Eu não podia evitar não perguntar o porquê ele não fazia isso.
Estava com medo de estragar a amizade?
Ou ele estivesse com medo de Jesse Thornton?
Eram boas razões para não tocar Lucy, especialmente quando
este último podia acabar em morte. Ainda assim, eu sabia que, se ele
quisesse Lucy, ele teria que virar homem e apenas dizer a ela ou então a
perderia. Lucy pode não falar sobre como se sente por Harris, mas ela
não conseguiria esconder isso nem de um homem cego, muito menos de
mim. Se Harris se importava, Lucy se importava ainda mais, se não mais.
Eu tinha certeza de que ambos estavam apaixonados um pelo outro, e
mesmo estando feliz por eles, era meio que um pontapé no peito os ver
juntos e felizes.
Eu tive isso uma vez. Eu tive um cara olhando para mim como se
eu fosse tudo, como se eu tornasse mais fácil para ele respirar. Eu tive
aqueles toques suaves e os sussurros no meu ouvido. Eu tive a paixão e
o amor.
E ele se afastou de mim quando eu mais precisava dele. Como se
tivesse sido a coisa mais fácil para ele fazer.
Claro, eu entendia por que ele fez isso. E com certeza, concordava
que ele deveria seguir seus sonhos. Eu não queria que abrisse mão deles
por mim. Pedir-lhe para fazer isso teria sido egoísta e mostraria que eu
era muito imatura para um relacionamento sério.
Eu só queria significar um pouco mais para ele do que qualquer
outra coisa, e tê-lo lá para segurar minha mão quando eu enterrei minha
mãe.
Agora, eu tinha que me sentar ao lado dele em um sofá de couro,
como nada disso tivesse acontecido.

88
Sim. Certo. Eu conseguia isso.
Não.
Jace se moveu e se virou, então suas costas estavam viradas para
o canto do sofá e ele estava meio virado para mim. Sua mão esquerda
passou ao longo das costas do sofá e eu senti um de seus dedos passando
sobre o meu cabelo. — Eu não te vi aqui muito ultimamente.
— Eu tinha coisas melhores para fazer, — Eu menti e puxei meu
celular de um dos bolsos laterais do meu cinto de utilidades policial.
Acessei minhas mensagens e vi que tinha perdido algumas de Angie e
Caleb, então voltei minha atenção para respondê-las.
Eu estava sentindo falta dos gêmeos como uma louca. Conversar
com eles e Carter todo dia era agridoce. Eu precisava ouvir suas vozes,
compartilhar o que estava acontecendo em suas vidas no dia-a-dia, mas
doía cada vez que eu desligava o telefone. Todo o meu corpo doía com dor
quando tinha que terminar a chamada. As despedidas pareciam tão
difíceis quanto a que me deixou acenando para eles fora do aeroporto ao
pegar o avião que me levou para três mil milhas de distância deles.
— Vou querer um refrigerante, por favor.
Minha cabeça disparou com a voz de Lucy e eu percebi uma
garçonete em pé ao lado de Harris. — Cerveja — ele disse à menina.
— Certo, chefe, eu vou buscá-la para você. — Seu olhar passou
por mim e direto para Jace. O olhar no rosto dela me disse que eles
provavelmente tinham ficado em algum ponto.
Ela era uma regular?
Ugh. Pare com isso, Kin. Você não se importa.
Você não deveria se importar.
Porra, eu me importava.
— O mesmo, Wendy. — ele disse a ela sem lhe dar uma segunda
olhada.
Decepção sombreou seus olhos quando ela os virou para mim, e
depois ficaram ainda mais frios. — E você?
Eu quase rolei meus olhos. Sério? Ela tinha ciúmes de mim? Eu
queria rir, mas apenas sorri no lugar. Imaginei que dar um sorriso irônico

89
era mais seguro do que saltar para cima dela e arranhar seu rosto bonito.
Certo? — Eu pedirei a minha quando ficar com sede, obrigado.
Lucy virou a cabeça para mim enquanto a garçonete se afastava.
— Eu achei que você estava com sede.
Dei de ombros. — Pelo congelamento que eu quase ganhei da
sobra de Jace, eu tenho certeza que ela teria cuspido na bebida. Só vou
tomar um pouco do seu copo.
Os olhos castanhos se arregalaram. — Se ela fizesse isso, Harris
iria demiti-la na hora.
— Não se preocupe com isso. Estou bem por agora. — Eu dei-lhe
uma piscadela atrevida que fez seu sorriso voltar e voltei minha atenção
para o meu telefone.
Jace se moveu ao meu lado, seus dedos envolvendo em torno de
alguns fios do meu cabelo que estavam na parte de trás do sofá. — Ela
não é uma sobra, — ele murmurou.
Dei de ombros, mas não olhei para cima do meu telefone, fingindo
que eu não me importava. — Claro que ela não é.
— Kin, eu juro sobre a vida de Kassa, eu não ficaria com garotas
que trabalham no clube.
Ergui os olhos então. Kassa era a pessoa mais importante na vida
de Jace. Ele mataria por ela, então eu sabia que não seria capaz de jurar
sobre sua vida por uma mentira. — Ok, — eu disse a ele. — Mas ela quer
ser uma. Talvez você deva considerar a oferta.
— Talvez você deva começar a retornar as minhas mensagens e
ligações. — ele disparou de volta, inclinando-se mais perto. — Eu só
quero conversar, Kin.
— Eu não acho que há algo para conversar, — eu assegurei a ele.
— Está tudo no passado agora, de qualquer maneira. Eu segui em frente
com isso. — Mentira. Uma mentira tão grande. — Eu tenho certeza que
você já seguiu em frente também. Você simplesmente não quer admitir
isso a si mesmo.
Sua mandíbula apertou. — Eu não quero seguir em frente. Eu
quero você.

90
Meu coração gaguejou em meu peito, mas forcei meu rosto a
permanecer impassível. — Você me teve, Jace. Nossa história já acabou,
menos o feliz para sempre depois. Eu estou bem com isso. Já que você
foi a pessoa que foi embora sem olhar para trás, você deve estar bem com
isso também.
Os dedos que ele tinha emaranhados no meu cabelo apertaram,
puxando minha cabeça para trás um pouco, então eu fui forçada a erguer
meu olhar para ele. — Eu olhei para trás um milhão de vezes, baby. Eu
pensei em você cada dia que passou, me odiando por deixá-la daquele
jeito. Não pense que foi fácil para mim, Kin, porque com certeza não foi.
Levantando minha mão, eu puxei meu cabelo livre de sua mão e
me levantei. — Estou com sede afinal de contas, — disse a Lucy. — Já
volto.
Assim que eu estava fora de vista dos outros três, fechei os olhos
e respirei fundo. Ele não podia dizer coisas assim. Isso não era justo. Jace
St. Charles não devia ter o poder de me cortar com apenas algumas
palavras e me deixar sangrando até a morte com uma ferida aberta. Que
ele ainda podia fazer meu coração acelerar após as palavras que eu tanto
desejava ouvir, apenas me deixavam puta.
Eu marchei para o bar. O lugar estava superlotado com uma
mistura de pessoas com e sem fantasia. Abri caminho entre um cara de
terno e um cara vestido como Drácula. Eu senti os dois me olhando, mas
os ignorei quando Nate passou para entregar uma cerveja a um anjo sexy
no final do bar.
Havia pessoas esperando a mais tempo, mas assim que ele me
viu, colocou um copo de refrigerante na minha frente. Eu desejava que
fosse uma dose de tequila ou Jameson, mas peguei o copo com gratidão
e tomei um gole sedento antes de alcançar um dos bolsos da cinta de
policial e pegar uma gorjeta para ele. Nate sabia que eu estava com Lucy
e ele nunca nos fazia pagar pelas bebidas. Harris provavelmente ficaria
louco se o barman fizesse isso.
Nate tomou a nota que eu ofereci, jogou-a dentro do frasco atrás
do bar que já estava transbordando com gorjetas, em seguida, virou-se

91
para me encarar. Apoiando os braços no balcão, ele deixou seus olhos
vagarem sobre mim por um momento. Eu estaria mentindo se dissesse
que não gostei da maneira como ele olhou para mim. Era bom ter um
cara olhando para mim com aquela mistura de desejo e apreciação, sem
ser estranho sobre isso.
Se apenas Nate pudesse me fazer sentir metade do que Jace fazia,
eu pensei com um suspiro quando me inclinei para a frente até que
houvesse apenas algumas polegadas entre nós. — Oi, — eu murmurei.
— Traje legal.
Ele estava vestido como um stripper com apenas um par de calças
e uma gravata em seu pescoço. O que explica por que sua jarra de
gorjetas estava transbordando ainda mais do que o normal, com grandes
notas que provavelmente pagariam seu aluguel por três meses. Quem
não estaria disposta a entregar uma nota de cinquenta ou cem para ver
o que Nate escondia debaixo de sua camisa? Todos os músculos
saborosos flexionando enquanto ele se movia, era o suficiente para
aumentar a frequência cardíaca de qualquer uma.
Ele sorriu. — Olhos para cima, querida.
Eu soltei um suspiro frustrado e balancei a cabeça para o sexy
barman. — Antes fosse, Nate. Antes fosse.
Nate piscou. — Mais uma vez, querida. Olhos para cima. — Ele
bateu no meu nariz com um dedo longo e, em seguida, dirigiu-se para
pegar mais pedidos.
Fiquei ali, bebendo meu refrigerante, até que quase metade já
tinha ido, continuando a ignorar os dois tarados ao meu lado. Eu não
estava interessada, sequer um pouco. Eu desisti de caras, para sempre.
Nate recarregou meu copo antes de eu retornar para Lucy. Em vez
de me sentar entre ela e Jace, pedi para Marcus puxar uma cadeira para
mim e eu ignorei Jace pelo resto da noite. No momento em que saí, estava
exausta de tanto ignorá-lo, mas Lucy estava sorrindo, de modo que a
noite não foi uma perda total.
Quando voltei para a casa do meu pai, já era depois de meia-noite,
mas eu não esperava encontrar alguém lá. A casa estava escura quando

92
fui até o meu quarto e tirei minhas roupas antes de subir na cama. Eu
deveria lavar meu rosto e escovar os dentes, mas só queria ficar sob os
cobertores e me esconder.
Meu telefone soou com a chegada de uma mensagem e eu,
relutantemente, estendi a mão para ele. A mensagem ainda estava
iluminando a tela quando eu olhei para ela.
Saudades!
Senti as lágrimas queimando meus olhos quando abri o texto e
enviei resposta rápida. Sinto sua falta também, Ang. Te amo.
Comecei a colocar o telefone na minha mesa de cabeceira quando
ele vibrou novamente. Secando minhas lágrimas com meus dedos, eu
olhei para a tela novamente.
Eu sinto muito.
Mais lágrimas turvaram minha visão quando virei o telefone e o
coloquei na primeira gaveta da mesa de cabeceira, sem responder à
mensagem de Jace. Ele estava arrependido. Eu entendia isso. Ele me
disse isso muitas vezes em suas muitas mensagens.
Não ajudava com a minha dor. Por que ele não percebia isso?

93
Capítulo 10

Kassa não veio no dia de Ação de Graças. Foi algo que deixou
tanto eu quanto Gray de mau humor. Eu estava ansioso para ver minha
irmã, mas ela pegou uma infecção estomacal tão grave que não pôde fazer
a viagem. Gray, que eu tinha certeza que estava ansioso para ter minha
irmã por perto tanto quanto eu – se não mais – tinha ficado calmo durante
a semana de Ação de Graças e não tinha sido ele mesmo durante todo
esse tempo.
Entre isso e a cena que tive com Lucy Thornton na semana
passada na First Bass, eu não estava com vontade de falar com ninguém.
Não queria vê-los. Não queria nem os ouvir respirar.
Lucy não ficou muito feliz comigo quando me viu conversando
com uma das fãs leais que a Tainted Knights já tinha desde a primeira
semana de trabalho na First Bass. Honestamente, eu não tinha ficado
muito feliz comigo também. Porra, eu só queria um sinal mínimo de Kin
de que ela não estava se transformando em algum robô.
Algo que eu tinha começado, mas que tinha sido à custa de não
apenas os sentimentos de Kin, mas quase a minha vida depois do que se
seguiu.
O show tinha me deixou mais energizado do que o habitual. A
adrenalina estava correndo pelo meu sangue me deixando alto pela forma
como todos no clube cantavam o nome da banda. Talvez fosse porque Kin
estava de pé na frente e no centro com Lucy e eu senti seus olhos em mim
durante todo o show. Talvez fosse porque eu estava tão animado por
Kassa chegar à cidade e passar algum tempo com ela depois de não a ver
por tantos meses.

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De qualquer maneira, eu estava mais animado do que o normal
após o show. Gray, Kale, Sin, e Cash saíram não muito depois da última
música. Eu imaginei que eles estavam indo para o meu apartamento com
Gray ou encontrar alguma garota para passar a noite. O que eu estava
sentindo era contagioso para os outros membros da Tainted Knights e eles
praticamente vibraram com energia durante a apresentação.
Eu tinha encontrado Kin e Lucy já no andar VIP, rindo com Harris,
que estava sentado tão perto de Lucy que ela poderia muito bem, estar em
seu colo. Assim que me sentei no braço do sofá de couro ao lado Kin, no
entanto, ela perdeu o sorriso e sua risada desapareceu rapidamente.
Ela ainda estava com raiva de mim. Eu não estava cego para o fato
de que ela estava segurando sua raiva para mim como um escudo. Eu não
tinha ideia do que estava acontecendo em sua vida fora do que eu via
quando ela vinha à First Bass, mas pelo vazio em seus grandes olhos
azuis, percebia que as coisas não estavam boas em casa para ela. Eu
queria puxá-la em meus braços, abraçá-la como eu costumava fazer
quando a vida parecia estar jogando bolas curvas para ela.
Sabendo que fazer isso provavelmente me faria ganhar uma
joelhada nas bolas, ou um de seus ganchos mortais de direita no queixo,
eu não fiz isso. Eu estava tentando ser paciente, mas, porra, um cara tinha
seus limites antes da frieza começar a causar queimaduras. Assim, em vez
de despachar a fã que se aproximou de mim, nem mesmo cinco minutos
depois de eu me sentar, eu envolvi um braço em volta da cintura dela e
esperei para ver se Kin ainda se importava, mesmo que uma pequena
fração do que já foi antes.
Assim que a fã se inclinou para sussurrar no meu ouvido, o que, eu
não podia dizer porque eu não estava nem prestando atenção na garota -
eu senti Kin ficar tensa ao meu lado. Eu lancei um rápido olhar por cima
do ombro para ver a expressão no rosto dela, mas ela sequer estava
olhando para mim naquele momento.
Apertando meu queixo, virei para a garota em meus braços e deixei
meus lábios roçarem sobre os dela. O beijo foi curto, mas a garota ficou
imediatamente afetada. Eu ouvi sua respiração parar, senti o modo como

95
ela pressionou o peito ainda mais contra o meu. Suas unhas pintadas
foram empurradas para o meu cabelo, me segurando contra ela, mais do
que eu tinha planejado originalmente. Eu não a parei, entretanto. Eu a
deixei conduzir o beijo, dando tudo pelo que ela estava silenciosamente
implorando, mas minha mente não estava no beijo.
Estava em Kin. Eu esperava que seu coração estivesse doendo
também. Eu esperava que ela ficasse tão ciumenta que puxaria o cabelo
daquela garota fora enquanto a tirava para longe de mim. Porra, eu
esperava que ela me desse um soco no rosto e me dissesse para ir para o
inferno. Eu queria todas aquelas reações e muito mais. Se ela fizesse isso,
então eu saberia que ela não estava imune a mim como ela continuava
alegando.
Nenhuma dessas coisas aconteceu.
Uma bebida gelada foi derramada sobre a minha cabeça, pelo
menos, metade caindo na garota que eu estava beijando. Empurrando
para cima, eu percebi o que estava acontecendo dentro de alguns
segundos. Lucy tinha esvaziado o copo de refrigerante sobre mim e
garota...
E Kin tinha ido embora.
Harris gemeu alto e pegou o copo das mãos de Lucy quando ela
olhou para mim como se estivesse prestes a me rasgar ali mesmo. O fato
de Kin ir embora me cortou como uma faca e eu queria gritar de frustração.
Ela fugiu? Ela estava entediada com o que eu estava fazendo...
Ou ela tinha saído porque não podia suportar me ver beijando outra
pessoa?
Eu não sabia, e isso só me deixava puto. Eu pulei para me levantar.
— Inferno do caralho, Lucy. Qual seu problema? — Dei um passo mais
perto dela, mas antes de sequer chegar uma polegada mais perto da
menina, Harris estava subitamente em pé entre nós.
O olhar nos olhos do meu amigo era algo que eu nunca tinha visto
antes. A raiva estava saindo dele em ondas, com os punhos cerrados ao
lado do corpo, quando os olhos selvagens encontraram os meus. — Você,
não fale com ela assim. Nunca. — A voz de Harris estava baixa, mas não

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menos cheia de fúria. Ele estava praticamente tremendo de reação. — Eu
acabo rápido com você se tocá-la.
Um pouco da minha própria raiva desapareceu quando limpei
refrigerante do meu rosto. — Uau, cara, — eu disse, tentando acalmá-lo.
— Eu não ia tocá-la. Eu não bato em mulheres.
Eu nunca levantei a mão para uma mulher na minha vida. Não só
porque eu sabia que Alicia teria chutado a minha bunda e depois me jogado
na melhor escola militar do país, mas também por causa de Kassa. Eu
nunca mostraria a ela que tipo de idiotas havia no mundo. Nosso velho
gostava de bater em nossa mãe e até em mim quando eu não era rápido o
suficiente para encontrar um bom esconderijo. Eu garantia que Kassa não
fosse atingida, apesar de tudo. Mesmo quando criança, eu provavelmente
teria matado o filho da puta se ele tivesse tentado tocar minha irmãzinha
de qualquer forma.
Lucy se acalmou instantaneamente ao ver Harris com raiva. Ela
pegou a mão dele, tentando fazê-lo encará-la. — Harris, relaxe.
Seus olhos ficaram presos nos meus, que acabou se tornando um
olhar intenso. Porra. Harris sabia que eu nunca levantaria a mão para uma
garota, especialmente Lucy. O olhar fixo continuou e continuou e eu estava
começando a perceber que eu estava, provavelmente, prestes a ter uma
briga real com o cara que era um dos meus amigos mais próximos. Inferno,
meu único amigo. Eu não queria brigar com ele, mas se tivesse que chegar
a isso, não recuaria.
Lucy, sem sorte de chamar a atenção de Harris, de repente, abriu
caminho entre nós dois. Era estranho ver a menina que tinha apenas um
metro e meio na frente da besta que era Harris Cutter. Harris era pelo
menos, trinta centímetros mais alto do que ela, com o topo de sua cabeça
mal atingindo seus ombros. Ela parecia tão pequena lá na frente dele, um
cordeiro tentando acalmar um leão.
Ela cobriu o rosto com as mãos e ficou na ponta dos pés para tentar
trazê-los para o mesmo nível dos olhos. Havia ainda um punhado de
polegadas impedindo isso de acontecer. — Hey, hey, — ela disse,
mantendo sua voz suave e calma, mas alta o suficiente para ser ouvida

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sobre a música e a multidão que estava lá em cima com a gente. — Harris?
Ei, vamos lá. Olhe para mim.
Harris só ficou ainda mais tenso com seu toque e todos os
pensamentos de me preocupar se eu ia teria que brigar com meu amigo
voaram para fora da janela com o pensamento de que, com ele tão
chateado, ele poderia machucar Lucy por engano. — Lucy, — eu disse,
tocando seu braço, — talvez você não deva ficar tão perto dele assim. Ele
está tremendo de tanta raiva.
Harris se mexeu tão rápido que eu não reagi imediatamente. Ele
chegou a passar por Lucy, me empurrando para trás com um braço
enquanto o outro envolvia a cintura de Lucy e a puxava contra ele como se
nunca fosse soltá-la. — Não a toque, porra. — ele gritou.
— Cara, mas que porra? — Rosnei quando me corrigi. — Eu estava
apenas tentando tirá-la do caminho no caso de você virar um Hulk em cima
dela. Relaxe. Eu estava apenas pensando nela. — Eu passei meus dedos
pelo meu cabelo com raiva, percebendo que eu ainda estava encharcado
com refrigerante, e já estava pegajoso como o inferno. Olhando para cima,
eu balancei a cabeça para ele. — Foda-se essa merda. Vou para casa,
agora. Ligue quando seu cérebro começar a trabalhar novamente.
Eu saí – sem a fã que estava em cima de mim antes – e fui direto
para casa. Depois de um longo banho, onde eu tive que lavar o cabelo duas
vezes para tirar o refrigerante, eu caí na cama com meu telefone já na mão.
Como um fodido que gostava de sofrer, eu abri o contato de Kin e tentei
ligar para ela.
Foi direto para o correio de voz depois de apenas um toque.
Rangendo os dentes, deixei cair minha mão e olhei para o teto. Pelo menos
ela não tinha bloqueado o meu número. Algo que eu esperava que ela
fizesse há semanas pela frequência com que eu ligava. Se ela realmente
não queria nada comigo, ela não teria me bloqueado há muito tempo atrás?
Esse pensamento colocou um pequeno sorriso no meu rosto e ainda
estava lá quando rolei sobre o meu estômago e adormeci.
Isso foi há quatro semanas. Ela não tinha retornado nenhuma das
minhas ligações durante esse tempo, e eu mal a vi, mas ela ainda não

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tinha bloqueado meu número. E estava levando mais tempo para ir para
o correio de voz agora. Um cara racional teria desistido, eu tinha certeza,
mas eu não podia deixá-la ir. Quanto mais ela me evitava, mais eu
percebia o quão burro fui e eu estava desesperado para ter essa menina
de volta.
Era quarta-feira e achei que era a única chance que eu teria de
vê-la essa semana, então fui da cama direto para o chuveiro. Eu não
perderia a oportunidade de passar algumas horas com Kin, mesmo que
tudo o que ela fizesse era me ignorar como ela normalmente fazia.
Eu estava pegando minhas chaves quando meu telefone começou
a tocar e eu rapidamente o tirei do bolso. — Kassa?
— Hey, — ela cumprimentou, mas havia algo em sua voz que me
disse que a minha irmã não estava normal. Isso me fez parar com a mão
na porta.
— Qual o problema? — Eu exigi, medo aparecendo na minha voz.
Alicia fez os exames na semana anterior e eu sabia que ela estava à espera
dos resultados. Eles já chegaram?
— Nada, — Kassa começou, mas eu fiz um ruído descrente que a
fez soprar um suspiro. — Eu só estou solitária, Jace. Sinto falta de você
e Gray. Alicia parece estar trabalhando ainda mais recentemente, mesmo
que o médico tenha lhe dito para se acalmar. — Eu ouvi um tremor em
sua voz e meu intestino torceu. — Eu odeio estar sozinha o tempo todo.
— O Natal é daqui a apenas algumas semanas, Kas. Você pode vir
para cá, — eu tentei convencê-la, mas sabia que não era o que ela
realmente precisava. Kassa sempre teve eu e Gray para confortá-la,
sempre lá quando ela precisava de um par de braços para abraçá-la se
ela estivesse tendo um dia ruim. Nós sempre estivemos lá para deixá-la
aconchegar ou abraçar. Minha irmã não era uma garota carente, mas ela
nunca teve que ser porque entre mim e Gray, sempre havia alguém para
oferecer o apoio que ela precisava.
Agora, estávamos no outro lado do país e ela ficava sozinha a
maior parte do tempo. Telefonemas e FaceTime não davam para abraços
calorosos.

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— Eu não quero deixar Alicia, — Kassa me lembrou não pela
primeira vez, e eu cerrei os dentes.
Alicia ouviu repetidamente de seu médico nas últimas semanas
para tirar um tempo de folga para melhorar. Ela tinha tido mais e mais
enxaquecas, mas quanto mais ela ficava doente, mais ela trabalhava,
deixando Kassa sozinha até o ponto em que ela basicamente era a única
a viver na casa onde tinha crescido. Kassa tinha escola e outras
atividades para manter sua atenção, mas não havia ninguém lá para
conversar quando ela chegasse em casa. Ninguém para contar sobre seu
dia até que ela ligasse para mim ou Gray.
— Kassa... — Eu não sabia o que dizer para fazê-la se sentir
melhor. Eu não poderia voar para casa para o Natal, porque a Tainted
Knights iria se apresentar em todas as semanas, e se ela não queria
deixar Alicia, eu sabia que não tinha como convencê-la a entrar em um
avião para vir para a Califórnia. Nós dois sabíamos que Alicia não ia dar
uma pausa no trabalho, nem mesmo para os feriados que se
aproximavam.
— Eu não te liguei para chorar em seu ombro, Jace — Kassa
resmungou. — Eu só queria saber de você. Não falo com você há um dia
ou dois.
— Eu perdi o meu telefone há dois dias, — expliquei. Me levou
horas para encontrá-lo na First Bass. Ele tinha caído do meu bolso e
ficou preso entre duas almofadas. A bateria tinha morrido, então não
pude ligar para que eu pudesse ouvir a maldita coisa tocar antes do clube
abrir na noite anterior. Eu estava quase cortando almofadas quando
enfim encontrei aquela porra.
— Imaginei, — ela disse com uma pequena risada. — Gray disse
que estava bem quando eu falei com ele, mas sei como vocês dois são.
Para ele, bem só significa que você ainda está respirando. Qualquer outra
coisa é trivial.
Corri a mão pelo meu cabelo, sorrindo. — Sim, você está certa.
— Então, como vão as coisas com você e Kin? Chegando a algum
lugar com ela?

100
— Estou trabalhando nisso, — eu assegurei.
— Bom. Eu gosto de Kin. Ela acaba com você. Não são muitas
garotas que conseguem fazer isso. — Houve uma pausa e percebi que ela
estava recebendo outra ligação. — Droga, é Gray. É melhor eu responder
antes que ele tenha outro ataque.
— Outro? — Eu não podia deixar de perguntar.
— É uma longa história, — Kassa disse com um gemido. — Conto
mais tarde. Tenho que atender antes que ele enlouqueça e eu tenha que
passar três horas convencendo-o a não entrar em um maldito avião.
Meus olhos se arregalaram com isso, mas eu disse a minha irmã
que a amava antes de desligar. Gray não era normalmente do tipo
emocional, mas, novamente, quando se tratava da minha irmã ele não
ficava em seu estado normal. Balançando a cabeça, finalmente abri a
porta do apartamento e saí, na esperança de que Kin viesse cantar hoje
e eu pudesse vê-la novamente.

101
Capítulo 11

— Você está pensando em sair hoje à noite?


Ergui a cabeça do meu livro de história e levantei uma
sobrancelha para minha madrasta. Que diabos ela estava fazendo no
meu quarto? Eu sequer a ouvi abrindo a porta, mas lá estava ela, de pé
sobre a minha cama como se tivesse todo o direito de invadir minha
privacidade. — Vou à First Bass com Lucy.
Jillian assentiu. — Bom. Georgia vai com você.
Sentei na minha cama rapidamente. — Não, não vai. — De jeito
nenhum, eu sairia com Georgia. Não na First Bass, não em qualquer
lugar. A First Bass, como a casa de Lucy, estava se tornando o meu porto
seguro e eu não ia deixar Georgia estragar isso para mim. E eu com
certeza, não a queria lá para ouvir uma das músicas novas que eu tinha
escrito nas últimas semanas.
Jillian cruzou os braços sobre o peito muito falso e levantou
ambas as sobrancelhas para mim. — Sim, vai. Georgia precisa de mais
exposição. Eu a quero nos tabloides tanto quanto você está nos dias de
hoje. Isso significa que ela precisa aparecer na First Bass com você e
aquela menina Thornton. Eu quero vê-la no TMZ amanhã à noite,
McKinley. Ser vista com você e a filha do roqueiro vai conseguir isso.
Antes que eu pudesse responder a isso, Jillian virou-se e bateu a
porta atrás dela quando saiu do meu quarto. Ah, inferno. Sério?
Bem, ela ficou louca se achava que eu só concordaria com essa
merda. Afastando meu livro e as anotações, eu rapidamente peguei meu
estojo de guitarra e silenciosamente me dirigi para as escadas. Me senti
como uma maldita ninja enquanto caminhava pelo corredor em direção
à escada. Jillian teria um ataque se me pegasse me esgueirando assim.

102
Quando passei pelo quarto da Georgia, olhei dentro e quase deixei cair
minha guitarra quando vi o que ela estava vestindo.
Ela usava saltos de quinze centímetros, meias arrastão rasgadas,
shorts que terminavam logo abaixo de seu traseiro, uma camiseta que
mal cobria seu peito e maquiagem suficiente para que a qualificassem
para uma escola de palhaço. Seu cabelo no alto em algum tipo de torção
complicada que fodeu com a minha cabeça por apenas tentar descobrir
como ela tinha conseguido fazer isso. Parecia um cruzamento entre uma
prostituta muito cara, uma mimica e uma vadia total.
Precisou de toda a minha vontade para não começar a rir, mas de
alguma forma me contive e rapidamente fiz o meu caminho para baixo e
para fora na calçada. Lucy deveria me pegar e eu orei para que fosse logo,
porque eu não queria ter que levar Georgia comigo. Foda-se essa merda.
O Range Rover estacionou no final da calçada e corri para entrar
depois de jogar minha guitarra na parte de trás. — Vá! — Ordenei a
Marcus, que estava ao volante, como de costume. Meu coração estava
disparado quando me atrevi a olhar para fora da janela e vi Jillian sair
para a varanda da frente.
Seus olhos se estreitaram e seu rosto estava definido em linhas
duras que me disseram que eu ia ganhar uma bronca quando chegasse
em casa mais tarde naquela noite. Ah, inferno.
— O que você fez, Kin? — Lucy perguntou com uma risada
enquanto ela seguiu meu olhar, enquanto Marcus fez o que eu tinha
pedido e saiu para fora da garagem tão rápido que os pneus gritaram.
— A vadia queria que eu levasse Georgia comigo, — eu expliquei
enquanto cobria o rosto com as duas mãos para abafar meu grito
enquanto tentava liberar um pouco da minha frustração. Gemendo,
abaixei minhas mãos e olhei para minha melhor amiga. — Jillian queria
que eu a levasse porque ela disse que Georgia precisava de mais
exposição com os paparazzi, e ser vista com a gente na First Bass a
colocaria no TMZ.
A boca de Lucy abriu por um segundo antes de ela rir. — Uau. Ela
é uma verdadeira viagem, hein?

103
Eu balancei a cabeça, tentando tirar a imagem da meia-irmã vadia
da minha cabeça. — E Georgia ainda estava se preparando quando eu
saí, mas o que ela estava usando... — Estremeci. — Prometa para mim
que se eu sair de casa uma vez parecendo um cruzamento entre
prostituta cara e uma grande vadia, você fará a coisa certa e me dará
tapas até eu pensar direito.
Lucy começou a rir descontroladamente, mas eu estava falando
sério, droga. — Não é engraçado, Lu. Você deveria tê-la visto. Eu acho
que ela pensou que já que Harris possui a First Bass e é filho de um
roqueiro, ela deveria tentar e parecer uma daquelas fãs ou algo assim.
Mas ela ultrapassou as fronteiras completamente. Acho que é contra a lei
vestir aquelas roupas em público. Se ela estava tentando chocar,
conseguiu. Seu cabelo estava tão alto como o de uma rainha da beleza do
Texas e a sua maquiagem... — Eu não podia deixar de estremecer
novamente. — Foi horrível. Só o que ela fez nos olhos já vai assombrar
meus sonhos esta noite.
— Pare, — Lucy se declarou, rindo tanto que estava segurando
seus lados. — Você está me matando.
Apesar de saber o que estaria esperando por mim quando
chegasse em casa naquela noite, não pude deixar de sorrir. — Eu estou
sendo séria aqui.
— Eu sei, — disse Lucy com outra risada. — Isso é o que torna
tão engraçado. — Ela enxugou os olhos com as costas das mãos e virou-
se para me encarar melhor. — Estou surpresa que você conseguiu
abandoná-la.
— Não foi fácil. Ir para casa esta noite não vai ser uma opção,
também. — Eu fiz uma careta. — Posso ficar com você?
Um pouco da diversão deixou Lucy e ela pegou minha mão. —
Claro que pode, — ela me assegurou e soltei um suspiro aliviado.
Eu tinha passado algumas noites na casa de Lucy no passado e
amei e odiei. Eu amei quão facilmente Layla Thornton me aceitou e fez
eu me sentir como um de seus filhos. Eu odiei porque me fez sofrer ainda

104
mais por minha própria mãe. Layla tinha até se oferecido para me deixar
ficar com eles permanentemente.
Precisou de toda a força de vontade que eu tinha para recusar. Eu
tinha prometido à minha mãe e manteria a maldita promessa. Mas assim
que eu fizesse dezoito, iria embora. Nada poderia me manter na casa de
Scott Montez um segundo a mais do que o necessário.
O resto da viagem para a First Bass foi sem intercorrências em
sua maior parte. Marcus estacionou em frente ao clube e entregou as
chaves para o Range Rover para o manobrista antes de ajudar Lucy a
sair. Peguei meu estojo de guitarra e a segui. Nós sequer olhamos para o
enorme cara de pé na frente das cordas de veludo, mantendo as pessoas
fora. Rangi os dentes quando mais de um paparazzi gritou meu nome e o
de Lucy, mas nenhuma de nós se preocupou em olhá-lo de novo ao
entrarmos no clube.
Normalmente, nas noites de quarta-feira nós não íamos até o
andar VIP, então quando Tiny parou em nossa frente quando começamos
a passar a entrada VIP, nós duas ficamos surpresas. — Senhorita
Thornton, — o grande cara com voz deliciosa e a mais assustadora
possível cumprimentou. Mesmo conhecendo o cara, seu aparecimento
súbito a assustou e ela recuou, instintivamente se movendo em direção
a Marcus. — Sr. Cutter pede que você se junte a ele em seu escritório o
mais cedo possível.
Ela endureceu e eu vi seus olhos se arregalarem. Pressionei meus
lábios juntos. Harris tinha ignorado Lucy por mais de uma semana e de
repente ele estava pedindo que ela fosse falar com ele? Sim, essa merda
não ia colar com Lucy. Até eu sabia disso. Aumentei meu aperto em sua
mão, oferecendo-lhe um apoio silencioso.
Lucy endireitou os ombros e ergueu o queixo. — Obrigado, Tiny,
mas por favor, informe o Sr. Cutter que não vou me juntar a ele em seu
escritório. Se ele não conseguiu encontrar dois segundos para me enviar
uma mensagem para me avisar que está vivo, eu com certeza não tenho
que ir vê-lo agora.

105
Mordi o interior da minha bochecha para não rir quando vi a boca
do grande homem realmente cair aberta em surpresa. Aparentemente,
dizer 'não' a Tiny não acontecia muito. Eu não pude evitar sorrir para o
cara com diversão, mas antes que eu dissesse uma única palavra, Marcus
já estava empurrando eu e Lucy para a frente.
Ele nos encontrou uma mesa e me sentei enquanto ele assumia
seu posto habitual a vários metros de distância. Essa era uma das muitas
coisas que eu gostava em Marcus. Ele era respeitoso o suficiente para dar
algum espaço a Lucy e eu sabia que Lucy nunca teve medo de ser ela
mesma em torno dele. Sua lealdade era com ela, e ele nunca contaria
nada a seus pais a não ser que representasse uma ameaça potencial para
a sua vida.
Enquanto eu pegava o caderno que preenchi com todas as novas
músicas em que eu estava trabalhando, uma garçonete parou na nossa
mesa e eu pedi refrigerante para nós duas. Lucy parecia que estava
perdida em um mundo próprio e eu não pude deixar de chamar Harris
Cutter de um filho da puta estúpido. Lucy tinha me contado que Harris
a beijou na noite em que tivemos um encontro das garotas com sua mãe,
irmã e tia Emmie.
Isso tinha sido a mais de uma semana atrás, e o babaca nem ligou
nem mandou mensagem para ela. Se eu não soubesse o quão próximos
eles eram, teria dito que ele era apenas mais um idiota que finalmente
conseguiu o que queria, e agora se afastou, mas Harris era diferente. Eu
tinha visto a maneira como ele olhava para Lucy Thornton. Visto a fome
em seus olhos água-marinha e o amor que parecia irradiar fora dele
sempre que estavam perto um do outro.
Eu tive que convencê-la a concordar em vir comigo e podia ver que
ela não estava exatamente confortável. Eu me senti mal por pedir para
ela vir, mas sabia que não teria conseguido passar pela porta da frente
sem a ajuda de Lucy. Não significava que eu gostava de vê-la assim. Ela
não esteve tão desconfortável sobre estar na First Bass desde a primeira
vez que eu tinha vindo na noite de microfone aberto.

106
A garçonete voltou rapidamente com nossas bebidas e colocou o
primeiro copo na frente de Lucy. — Sr. Cutter gostaria que você se
juntasse a ele em seu escritório, — disse a Lucy.
Os olhos castanhos escuros baixaram para seu refrigerante, mas
eu não ia ficar sentada enquanto Harris fazia seu pessoal repassar
mensagens e encomendas. — Diga ao Sr. Cutter para ele ir se foder, —
Eu rebati para a menina. — Se ele quer tanto vê-la, sabe onde encontrá-
la.
Enquanto a boca da garçonete se contraiu e seus olhos se
arregalaram, eu voltei minha atenção às minhas músicas. Harris Fodido
Cutter. Se ele machucasse minha amiga, teria que lidar comigo. Eu
cortaria suas bolas fora e as entregaria em uma bandeja para Lucy fazer
o que quisesse com elas...
Senti sua presença muito antes de sua sombra cruzar nossa
mesa. Meu coração parou por um segundo, quando eu percebi que Jace
estava no clube, apenas para começar a correr quando senti seu olhar
em mim. Meus dedos apertaram ao redor da caneta que eu estava usando
para fazer anotações enquanto tentava evitar que elas tremessem.
Droga.
Eu não tinha me deixado pensar em Jace naquele dia, algo que
era quase impossível em noventa por cento do tempo. A exceção de uma
ou duas vezes, eu não o via desde a noite em que ele sugou o rosto de
uma fã aleatória. Eu tinha feito o meu melhor para ignorá-lo desde então,
o que não tinha o impedido de enviar mensagens de texto ou me deixando
mensagens de voz todo dia. Até os últimos dois dias pelo menos. Eu não
ouvi nem uma palavra dele nos últimos dois dias...
Eu não estava preocupada com isso.
Sério.
E daí se ele tinha desistido. Isso era o que eu queria.
Sério.
Jace parou na nossa mesa e eu podia sentir os olhos azuis
perfurando o topo da minha cabeça enquanto me forçava a me concentrar

107
na música que eu queria cantar mais tarde. Não estava perfeita ainda e
eu queria ter certeza de que estivesse antes de eu subir no palco.
Ouvi-o soprar um sopro duro através de seu nariz, mas quando
ele falou era para Lucy, não para mim. — Harris quer saber por que você
não vai vê-lo.
— Provavelmente, tem algo a ver com ele ser um idiota, — Lucy
assegurou. — É melhor ter cuidado, ouvi dizer que é contagioso. — Ela
soltou um suspiro surpreso e eu levantei meus olhos o suficiente para
vê-la através dos meus cílios. — Oh, espere, tarde demais. Você já pegou.
Eu não consegui segurar a risada que borbulhou. Porra, eu amava
Lucy Thornton. Ela era a melhor amiga que uma garota podia ter. Essa
menina era tão protetora de mim quanto eu dela.
— Aprendendo com Kin? — Jace perguntou e eu podia ouvir o
sorriso em sua voz.
Baixei os olhos de volta para o caderno, me recusando a sentir
prazer com o elogio estranho que ouvi em seu tom.
— Provavelmente o contrário, — Lucy disse com um atrevimento
que esteve ausente durante a última semana. — Se você quer sentar-se
comigo enquanto Kin se apresenta, está bem. Quando você não está
tentando pisar no coração e orgulho dela, eu realmente gosto de você.
Minha mão apertou minha caneta, mas eu fui rápida para
garantir que estava bem. — Só o meu orgulho, Lu. Meu coração já não
está envolvido.
Foi a maior mentira que eu já disse, mas Jace não precisava saber
disso, mesmo eu tenho certeza que Lucy suspeitava.
Ouvi Jace inspirar profundamente novamente e cerrei os dentes
pelo modo como eu era consciente dele. — Vou sentar com você, Lucy. Se
você for e falar com Harris.
— Vejo você mais tarde, Jace. Foi bom falar com você. Talvez nós
o vejamos na próxima quarta-feira. — Lucy foi rápida em responder. Eu
vi com o canto do meu olho, ela pegando o telefone, ignorando Jace.
— Você não virá amanhã à noite para assistir o Tainted Knights?
— Ele parecia desapontado.

108
— Eu vi você e sua banda tocar antes, — Lucy disse a ele, seu
olhar ainda em seu telefone. — Eu tenho certeza que não vou perder nada
importante. A única razão pela qual eu estou aqui agora é por Kin. Assim
que ela cantar, vamos embora.
— Droga, Lucy. Harris quer ver você. — Seu tom era cheio de
frustração, mas não havia como eu ficar lá, deixando-o falar assim com
ela.
Eu endureci e levantei a cabeça para encontrar Lucy com calma
encontrando o olhar de Jace, nada perturbada pelo tom dele. — Eu estou
bem aqui.
— Ele está ocupado, Lucy. Dê um tempo para o cara. Ele teve uma
semana difícil.
— Não sei nada sobre isso, — Lucy assegurou com um encolher
de ombros que deveria ter parecido descuidado, mas para mim parecia
que ela estava sofrendo. — Ele não ligou ou me mandou uma mensagem
em mais de uma semana.
A cadeira entre mim e Lucy foi puxado para trás, e Jace se sentou.
Eu tentei voltar minha atenção de volta para a minha música, mas agora
com ele sentado a menos de um pé de distância, eu estava impotente
para não sentir sua presença. Senti o cheiro de seu picante perfume
masculino que ele sabia que eu amava, e cerrei os dentes contra a súbita
onda de desejo que se reuniu entre as minhas pernas.
Idiota.

Eu entendi porque Kin e Lucy Thornton eram tão boas amigas. As


duas eram iguais. Suas malditas personalidades eram tão semelhantes
que poderiam ser cópias. Não era necessariamente uma coisa ruim,
porque Deus sabia o quão sexy Kin poderia ser com sua personalidade
atrevida, mas com certeza me enlouquecia quando ela estava sendo tão
teimosa que não me dava nem dois segundos do seu tempo.

109
Lucy, descobri ao longo dos últimos meses em que a conheci, era
exatamente da mesma maneira, se não mais. Mas onde Kin era incapaz
de perdoar, Lucy sempre parecia ser capaz de colocar a merda para trás
dela e seguir em frente, logo que a situação esfriava. Ela não era
completamente irracional sobre as coisas.
Normalmente.
Logo em seguida, no entanto, eu podia ver que ela não era a única
irracional sobre a situação entre ela e Harris. Eu não podia culpá-la. Meu
amigo agiu como um idiota, beijando-a e evitando-a por mais de uma
semana. Claro, eu entendi que ele estava com medo do que não só seu
pai faria com ele, mas de como o demônio que Jesse Thornton reagiria,
mas sinceramente, se fosse eu e Kin na mesma situação, eu não teria
pensado em nada, além de tê-la em minha vida.
Foda-se tudo, menos a menina que eu amava.
Rangendo os dentes quando esse pensamento encheu minha
cabeça, eu arrastei minha cadeira para mais perto de Kin. Foda-se essa
merda. Eu precisava seguir o meu próprio conselho e lutar pela garota
que eu estava desesperado para ter de volta na minha vida em vez de
apenas esperar que ela me perdoe. Ela precisava de um motivo para
confiar em mim novamente, para saber que eu não ia deixá-la nunca
mais. Isso começaria naquele segundo.
Sua cabeça ruiva se ergue do caderno onde eu sabia que ela
escrevia tudo, de músicas a poesias. Seus olhos azuis congelaram
quando ela viu o quão próximo eu estava, mas apenas sorri e me inclinei
sobre a mesa para olhar o que ela estava escrevendo. — O que é isso? —
Eu perguntei enquanto lia as poucas linhas que eu podia ver.
Ela encolheu os ombros. — É sobre uma menina que odeia tanto
um cara que ela corta o pau dele fora e o dá para os tubarões que
frequentemente nadam no oceano atrás da casa do pai bastardo dela,
comerem.
— Ouch, — eu murmurei, mas meu sorriso ficou no lugar.

110
— Wroth Niall tem um facão realmente foda, — Lucy comentou
enquanto voltava sua atenção para seu telefone. — Posso pedir e
emprestá-lo para você, Kin.
Um sorriso brincou nos lábios de minha menina e meu coração
literalmente parou no meu peito com a visão. Quando foi a última vez que
eu tinha visto Kin sorrir, mesmo o pequenino sorriso que estava
brincando em seus lábios agora? A triste verdade é que eu não podia
lembrar e meu interior torceu com pesar. Droga, Kin deve sempre sorrir.
Que eu era uma das razões para ela não fazer mais isso me matava.
Sua cabeça levantou e ela piscou para Lucy. — Eu aviso você se
precisar dele, querida.
— Ei, você é a filha de Jesse Thornton.
Minha cabeça disparou ao ouvir o som da voz de um cara assim
que Lucy e Kin se viraram para o recém-chegado. Eu poderia dizer que
este babaca seria um problema só de olhar para ele. Ele tinha um sorriso
maroto no rosto, como se ele fosse alguém que merecia tudo entregue a
ele. O cara atrás dele não pareceu ser tão idiota quanto seu amigo, mas,
quando seu olhar foi para Kin, eu estava pronto para bater nele.
As sobrancelhas de Lucy se ergueram quando ela olhou para o
cara que tinha acabado de falar. — Eu sou Lucy Thornton, — ela disse a
ele com um novo frescor em seu tom de voz que eu não tinha ouvido
muitas vezes vindo dela.
Sem ser convidado a se juntar a nós, o Idiota puxou a cadeira
entre mim e Lucy e sentou nela como se fosse dono do maldito lugar.
Quando seu amigo puxou uma cadeira no outro lado do Kin, eu não
poderia evitar de apertar minhas mãos em punhos. Sim, eu adoraria fazer
esse idiota comer alguns dentes.
— Como é ser filha de uma estrela do rock? — O cara ao lado de
Lucy disse quando se inclinou mais perto.
Ela encolheu os ombros. — Ele é um ótimo pai.
— Aposto que você já viu merdas incríveis. Quem é a pessoa mais
famosa que você já conheceu? — Ele se virou para ela ainda mais. — Eu

111
vi uma foto sua com o seu velho e aquele cara daquele filme de ficção
científica há alguns anos atrás. Isso deve ter sido legal, né?
— O nome é Chris, e não, não foi legal. Chris é amigo da minha
família. Eu o vejo o tempo todo. — Ela pegou o copo e tomou um gole
sedento, tentando afastar o filho da puta, mas ele só se aproximou mais.
Sua cabeça baixou para sua orelha e Kin e eu ambos ficamos
tensos quando vi o olhar nos olhos escuros de Lucy. Ela não gostou da
aproximação desse cara, e eu podia ver um traço de medo em seu olhar.
Aquele pequeno sinal de medo era tudo o que vi, embora, quando todo o
seu corpo parecia se preparar como se ela estivesse prestes a atacar. Eu
me perguntava quanto dano Lucy Thornton poderia causar. Conhecendo
a reputação de seu pai, eu tinha certeza que ele tinha ensinado sua filha
uma coisa ou dez sobre como proteger a si mesma.
Atrás dela, vi Marcus se aproximando, como se ele soubesse que
precisava afastar Lucy deste idiota, mas estava esperando por uma
sugestão dela.
O idiota disse algo baixo que só Lucy podia ouvir, riu de sua
própria piada, então se inclinou ainda mais perto para dizer mais alguma
coisa. O rosto de Lucy ficou sangue vermelho de raiva e eu arrastei a
cadeira para trás, ao mesmo tempo que Kin fez. Marcus moveu ainda
mais perto e com o canto do meu olho eu vi Harris correndo em direção
à mesa.
— Você não acabou de dizer isso para mim, — Lucy se enfureceu
quando ela se afastou da mesa e levantou para que pudesse encarar o
babaca. — Quem diabos você pensa que é, imbecil?
O cara riu, como se estivesse tendo o melhor momento da sua
vida. — Calma, querida. Eu não quis ofender. Eu pensei que todas vocês
vadias do rock gostavam de sugar um pau para se divertir.
Eu pulei para os meus pés, me esquecendo do segundo cara na
minha necessidade de fazer esse filho da puta sangrar. Kin já estava
alcançando-o, ao mesmo tempo em que Harris parou atrás de Lucy e
Marcus se moveu para ficar atrás do imbecil que ainda estava sorrindo
para Lucy como o idiota que era.

112
Eu estava tão decidido a acabar com o filho da puta que eu não vi
Lucy se movendo. Um segundo ela estava ali, fervendo de raiva
justificável, no outro ela estava balançando a mão. O sangue agora
jorrando do rosto do cara me disse que ela tinha quebrado seu nariz. Ele
não estava sorrindo agora enquanto segurava o nariz com as duas mãos,
com os olhos já começando a inchar.
— Não se atreva a falar assim comigo novamente, seu idiota de
merda. Eu corto seu pau fora e o faço comer, — ela gritou na cara dele.
Marcus se moveu rápido, agarrando o cara sangrando pela parte
de trás do pescoço e forçando-o a se levantar não muito gentilmente.
Vários caras da equipe de segurança da Harris apareceram do nada e
cercaram o cara sangrando e seu amigo.
Kin correu ao redor da mesa, e eu a segui um pouco mais devagar.
— Você precisa de um pouco de gelo, baby.
Lucy puxou a mão de Harris. — Estou bem. Eu só preciso ir ao
banheiro para lavá-la.
Kin envolveu um braço em volta dos ombros da amiga. — Vamos,
batedora. Vamos limpar você.
Ela assentiu com a cabeça e começou a se afastar de Harris, mas
eu vi o ligeiro brilho de lágrimas em seus olhos e no próximo segundo,
Harris estava puxando-a em seus braços. — Baby, está tudo bem — o
ouvi murmurar. — Peguei você, Lu.
Seus ombros começaram a tremer e um momento depois um
pequeno soluço a deixou. — Eu... eu acho que quebrei minha mão.
Merda.
Dei um passo ameaçador em direção ao filho da puta sangrando,
mas Marcus apertou seus braços em seu prisioneiro, enquanto dois
seguranças se colocavam entre mim e o cara que eu queria colocar meu
punho completamente. Quem diabos tratava garotas assim? Alicia teria
me esfolado vivo se eu dissesse algo parecido na frente de uma garota, e
eu sempre fui cuidadoso na frente da minha irmã. Que esse idiota tinha
perturbado Lucy assim só me fez querer acabar com ele, então eu só
podia imaginar o que Harris estava sentindo naquele momento.

113
Mas em vez de se preocupar com o cara sangrando por todo chão
do seu clube, Harris estava acalmando Lucy, que ainda estava chorando.
— Ok, baby. Vou cuidar de você, — ele prometeu a ela enquanto se
afastava e olhava para ela antes de dobrar para roçar um beijo sobre a
ponta de seu nariz.
Porra, eu deveria aprender com meu amigo. Talvez se eu prestasse
atenção o suficiente, eu poderia fazer um pouco dessa magia em Kin.
Embora Harris falasse com seu segurança, eu me aproximei de
Lucy e Kin, que agora estava examinando a mão de Lucy. Os nós dos
dedos já estavam inchados e machucados. Ela tinha sangue em sua mão,
mas eu não poderia dizer se era dela ou do babaca. Ela precisava lavar a
mão para se certificar de que ela não tinha nenhum corte na pele, e um
bloco de gelo para ajudar com o inchaço.
Harris se afastou de seu pessoal de segurança que já estavam
arrastando para longe tanto o filho da puta sangrando quanto o seu
amigo. — Vamos levá-la para a sala de emergência, Lu. — Ele a puxou
contra o seu lado e se dirigiu para seu escritório que dava para a rua de
trás.
Uma Range Rover já estava esperando do lado de fora. Marcus
abriu a porta traseira e Harris subiu e puxou Lucy para o seu colo. Kin
entrou no outro lado e eu a cutuquei para que eu pudesse sentar com
eles. Eu não ia mentir. Marcus era um filho da puta assustador e eu
prefiro me torturar sentado ao lado de Kin do que lidar com ele sentando
no banco do passageiro.
Como eu esperava, era pura tortura sentar ao lado Kin. A viagem
de dez minutos estava cheia de momentos bons e ruins nesse banco de
trás. Não havia espaço já que Kin estava pressionada com cada polegada
do meu lado direito. Eu não estive perto dela a um longo tempo, mas eu
estava grato por isso, no entanto. Eu podia sentir seu shampoo,
praticamente podia saborear o cheiro da loção de corpo que ela sempre
usou. A combinação era inebriante e minha boca encheu de água por
apenas um pequeno gosto, mesmo quando outras partes do meu corpo
endureceram e imploraram por seu toque.

114
A SUV parou subitamente na frente de um hospital próximo e eu
teria dado meu braço esquerdo para ter tido apenas mais alguns minutos
com Kin assim. Em vez disso, Marcus saiu do banco da frente e estendeu
a mão para Lucy. Harris não a deixou ir muito longe, embora, quando ele
tomou conta da situação no segundo em que a mão ilesa dela estava
segura na dele.
Eu saí do meu lado do carro e ofereci minha mão para Kin, para
ajudá-la. Para minha surpresa, ela aceitou, e meu coração bateu com
tanta força pelo contato que quase explodiu do meu peito, mas logo que
ela saiu do carro, ela se afastou e seguiu Lucy.
Fazendo uma careta, eu fui para a sala de emergência, onde
Harris já estava falando em voz baixa com uma enfermeira. Quando
cheguei até eles, Harris e Lucy estavam sendo levados de volta para uma
sala com Marcus, mas Kin e eu tínhamos que ficar na sala de espera.
Eu odiava as circunstâncias que nos trouxeram a isto, mas eu
não ia perder nem um segundo que pudesse, para ficar sozinha com Kin.
A sala de espera estava meia cheia e Kin encontrou dois assentos na parte
de trás. Eu caí ao lado dela e ela não se afastou quando passei um braço
sobre o encosto da cadeira.
— Você acha que sua mão está realmente quebrada? — Sua voz
estava um pouco instável e ela olhou para mim com olhos azuis
preocupados.
— Duvido. É mais provável que seja um hematoma ruim ou uma
torção, mas esses podem machucar mais do que se tivesse quebrado.
Kassa torceu o pé quando tinha treze anos. O médico disse que ela teria
tido um tempo de recuperação mais curto se realmente houvesse
quebrado.
Ela soltou um suspiro aliviado. — Caleb quebrou o pé em seu
primeiro ano do ensino médio. Ele teve que engessar e usar uma bota
durante três meses. Ele não podia jogar futebol, e foi quando ele começou
a ficar louco com o levantamento de peso.
— Eu lembro de você me contando sobre isso, — eu murmurei,
lembrando de seu meio-irmão, que poderia facilmente fazer supino com

115
um dos carros que ele estava tão decidido a aprender a construir no curso
na universidade. — Ele tropeçou na chapinha de Angie no banheiro.
Os olhos de Kin se alargaram e o menor dos sorrisos brincou em
seus lábios. — Sim. — O sorriso foi rápido a desaparecer e ela olhou para
longe de mim. — Sim…
Sua voz estava cheia de tanta tristeza que me eviscerava. Eu sabia
o quão próxima ela era dos gêmeos. Ela provavelmente sentia tanto a falta
dela quanto eu de Kassa. — Você não os vê, Kin?
Ela ficou em silêncio por um longo momento e eu tinha certeza
que ela não iria me responder quando finalmente deu de ombros e
balançou a cabeça. — Scott não me deixou ir visitá-los no Natal, mas
Carter disse que pode ser que ele venha para cá durante alguns dias. Isso
ajuda um pouco.
Minhas mãos se apertaram em punhos e eu olhei para nada em
particular quando percebi o quão solitária Kin deve estar. Eu sabia que
ela tinha Lucy, mas era provavelmente a única pessoa. Ela precisava de
mais pessoas para apoiá-la, ajudá-la a chorar por sua mãe. Para estar
apenas lá para ela.
Eu deveria ter sido uma dessas pessoas.
— Sinto muito sobre sua mãe, — eu disse a ela, e sua cabeça
girou. Foi a primeira vez que eu realmente lhe dei minhas condolências
por perder a mãe. Foda-se, eu era horrível. — Abby era uma grande
mulher, e sei como vocês eram próximas. Sinto muito por você tê-la
perdido. Sinto muito por tudo.
Kin olhou para mim por quase dois minutos completos, mas não
me atrevi a olhar para longe ou quebrar nossos olhares de qualquer
forma. Ela não estava olhando para mim, e o olhar em seus olhos me
disse que não estava planejando minha morte. Mas eu podia ver a dor
ainda brilhando, podia ver a dor que estava logo abaixo da superfície.
Finalmente, ela soltou um suspiro forte e longo. — Obrigado, Jace.
Eu realmente aprecio isso. Minha mãe... Ela gostava de você. Quando
você veio para a Califórnia, ela ficou orgulhosa de você e dos outros caras.

116
Uma lâmina branca e quente esfaqueou meu peito. Abigail
Jacobson estava orgulhosa de mim? Porra, por que isso dói tanto?
Porque você não fez nada para deixá-la orgulhosa, idiota. Tudo o
que eu fiz foi quebrar o coração de sua menina e foder com tudo.
Ficamos ali sentados em silêncio por quase dez minutos. Eu tentei
encontrar as palavras certas para dizer a ela novamente quanto eu sentia,
não apenas por sua mãe, mas por ir embora. Por não ligar. Por não
procurar saber se ela estava bem ou saber como estava lidando com o
que estava acontecendo com a mãe. Eu queria dizer a coisa certa que
faria com que ela me perdoasse por tantas coisas, mas nada vinha. Eu,
Jace St. Charles, não tinha palavras pela primeira vez na minha vida.
Antes que eu pudesse encontrar a coisa certa a dizer, ela me
surpreendeu, girando em seu assento duro de plástico e me olhando nos
olhos. Ela soltou um suspiro forte, mas em seguida, me deu um sorriso
triste que me fez querer socar meu punho em uma parede. — Olha, Jace,
eu sinto muito. Eu tenho sido uma enorme cadela para você há meses.
Tive que cerrar os dentes para não abrir a boca e dizer algo
estúpido. Sim, ela tinha sido uma cadela, mas eu merecia. Então sentei
lá, olhando para ela com os olhos arregalados enquanto ela continuava.
— Eu entendo por que você veio para cá, e estou realmente muito
orgulhosa de você e da Tainted Knights por realizar tanto. — Ela sorriu,
mas estava cheio de tristeza. — Eu soube no segundo em que ouvi vocês
tocando em Bristol que vocês fariam sucesso. É só que... Eu acho que
tudo aconteceu de uma vez. Você foi embora. Minha mãe ficou tão doente
e, em seguida, morreu...
Sua voz quebrou, mas ela limpou sua garganta e continuou como
se não tivesse acabado de quase chorar. Mas essa era a Kin. Ela era forte
quando precisava ser. Que ela teve que ser tão forte sozinha por tanto
tempo só me chateou muito mais. Comigo mesmo. Com o pai dela. Com
a porra do mundo todo.
— Eu não tinha o direito de estar tão brava. Me desculpe, eu fui
uma cadela, — ela disse com um pouco mais de força em sua voz.

117
— Kin... — Eu não queria seu pedido de desculpas. Ela não tinha
nada para se desculpar. Eu deveria ter tentado mais, deveria estar lá por
ela quando ela precisou de alguém para segurá-la depois de perder sua
mãe. Depois de ter sido arrancada de lá durante seu último ano do ensino
médio para se mudar para uma nova família que não a conhecia ou
confiava.
Ela balançou a cabeça. — Não, não diga nada. Eu só... Podemos
ser amigos? Quero dizer, vamos nos ver muito, com seu melhor amigo
tão obviamente apaixonado pela minha melhor amiga. Poderíamos, pelo
menos, ser civilizados um com o outro e tentar ser amigos.
Ela queria ser amigos.
Amigos.
Ser civil.
Foda-se amigos.
Foda-se ser civilizados.
Mas inferno, era mais do que o que eu tinha naquele momento.
Talvez ela até atendesse o maldito telefone quando eu ligasse agora.
Então, reprimindo minha necessidade de gritar para o mundo que eu
queria mais do que amizade, que eu a queria de volta em meus braços
onde ela pertencia, eu concordei. — Eu gostaria disso, Kin.

118
Capítulo 12

Felizmente, a mão de Lucy não estava quebrada, mas como Jace


havia dito, provavelmente teria doído menos se estivesse. Ela estava com
dor, mas se recusou a tomar qualquer coisa mais forte do que o
ibuprofeno que o médico havia sugerido que ela tomasse. Ela era teimosa,
mas eu conhecia suas razões. Ela me contou o que tinha acontecido
quando ela tinha nove anos, então eu entendia por que ela não gostava
de tocar em nada mais forte do que analgésicos básicos.
Na manhã seguinte, Lucy não conseguia encontrar seu telefone,
mas sua mãe entregou para Lucy o dela e nós saímos. Pela primeira vez,
o dia na escola passou rapidamente quando tudo que eu queria era que
se arrastasse. Eu não estava com pressa para chegar em casa e enfrentar
as consequências de sair sem Georgia ontem. Logo o último sinal tocou
e, enquanto Lucy e eu saímos para o estacionamento, eu vi Georgia
esperando impacientemente em seu pequeno carro esportivo com
Carolina.
Impressionante.
Eu preferia ter apenas ido para casa com Lucy, mas me esconder
de uma situação difícil não era o meu estilo. Além disso, eu precisava de
roupas minhas e não as emprestadas que peguei de Lucy naquela
manhã.
Abracei minha amiga quando ela entrou em seu Range Rover e
apertei meu queixo enquanto me dirigia em direção às meias-irmãs
cadelas. Eu tinha deixado minha guitarra na First Bass, mas Jace a
guardou para mim na noite anterior. Ele me mandou uma mensagem
duas vezes na noite anterior e, pela primeira vez, eu não as ignorei.

119
Meu coração estava pesado quando enviei uma resposta
agradecendo por cuidar da guitarra. Essa guitarra era especial para mim
e ele sabia disso. Carter a deu para mim quando eu tinha dez anos e ela
realmente foi autografada pelo DJ Ashba, meu terceiro guitarrista
favorito atrás de Drake Stevenson e Wroth Niall.
Boa noite, baby. Espero vê-la no show amanhã à noite. Bons
sonhos.
Essa foi a segunda mensagem na noite anterior e eu estava meio
adormecida e meu coração estava fraco quando li a mensagem.
Boa noite. Até mais.
Até então, eu não tinha planejado voltar para a First Bass essa
semana. Vê-lo nas noites de quarta-feira era bastante difícil, mas ir às
quintas-feiras sempre foi mais difícil e eu não voltei para assistir os
Knights Tainted desde que Jace jogou hóquei de amigdalas com uma fã.
Mas agora nós deveríamos ser amigos, então eu não podia deixar merdas
como essa me incomodar.
Amigos.
Eu pedi amizade.
Eu deveria estar bêbada na hora, ou algo assim, eu nem sei por
que disse algo tão estúpido. Nós só tínhamos nos sentado lá em uma sala
de espera lotada e a tensão entre nós ficou insuportável. Eu cedi e lhe
disse que estava arrependida.
Eu.
Pedi desculpa.
Mas enquanto as palavras saíram de meus lábios, percebi que era
verdade. Fiquei triste por agir como uma cadela com ele. Era verdade que
eu estava orgulhosa dele e os outros caras. E era verdade que eu estava
cansada de lutar tanto com ele. Cansada demais. Então mesmo que seja
como sofrer um golpe mortal toda vez em que eu o via com outra pessoa,
eu tinha que seguir em frente. Eu não disse tantas vezes que eu estava
cansada de tudo isso?
Bem, agora era hora de provar isso.

120
Na verdade, foi um alívio, não ter que me preocupar em vê-lo
sempre que eu fosse a First Bass com Lucy. Talvez agora eu pudesse
acrescentar mais um amigo à minha curta lista, e poder confiar nele como
confiei há um milhão de anos atrás.
Enquanto eu subia na parte de trás do carro de Georgia e
Carolina, Georgia me lançou um sorriso no espelho retrovisor. — Mamãe
quer falar com você.
Eu mal me abstive de rolar meus olhos quando puxei meu celular
fora da minha bolsa. — Aposto que quer, — eu murmurei enquanto
passava o dedo pela tela e via que havia dez mensagens de Jace.
Meu coração pulou no meu peito, mas rapidamente reprimi a
emoção. Coloquei meu telefone no silencioso naquela manhã e nem
sequer olhei para a maldita coisa durante todo o dia. Selecionando as
mensagens, eu vi que ele começou com um simples “bom dia, linda”, mas
com o decorrer do dia ele ficou mais impaciente já que eu não respondia
nenhuma das mensagens. A última estava toda em letra maiúscula,
praticamente gritando para mim.
VOCÊ AINDA VIRÁ HOJE À NOITE??? EU QUERO TE VER! ME
LIGA!
Eu balancei a cabeça e comecei a digitar uma resposta rápida dez
segundos antes de Georgia quase destruir a caixa de correio do nosso
vizinho mesmo o vizinho estando de pé ao lado, olhando sua
correspondência. Com meu coração ainda batendo e náuseas me fazendo
sentir gosto de bile na minha garganta, eu cliquei em enviar.
Relaxe. Meu telefone estava no silencioso. Eu estarei lá. Até
mais. Não posso ligar. Madrasta quer falar comigo.
Eu termino a mensagem com um emoji rolando os olhos e começo
a colocar meu telefone de volta na bolsa, mas a tela se ilumina com uma
nova mensagem imediatamente.
Podemos conversar depois? Realmente conversar?
As palmas das minhas mãos ficaram mais suadas e não só porque
Georgia quase passou arranhando o caro carro conversível da mãe
quando estacionou com uma parada barulhenta na garagem. Eu não era

121
estúpida. Eu sabia o que ele estava pedindo. Quando um cara dizia que
queria “conversar”, normalmente significa uma de duas coisas: ou ele
queria terminar com você, ou queria colocar a língua na sua garganta e
em outros lugares.
Georgia e Carolina saíram do carro, mas eu fiquei sentada lá por
alguns segundos antes de finalmente deixar meus dedos se moverem
sobre a tela do telefone.
Sim.
Isso era tudo o que eu escrevi antes de fechar a tela e enterrar o
telefone profundamente na bolsa. Eu não sabia o que ele enviaria de
volta.
Meu coração ainda estava fazendo cambalhotas no meu peito
quando eu finalmente saí do carro e caminhei lentamente para a casa de
Scott. Jillian estava esperando impacientemente por mim na porta da
frente, batendo seu Jimmy Choo e suas mãos em seus minúsculos
quadris quando ela olhou para mim.
Limpei meus pés no tapete do lado de fora da porta, porque minha
mãe me ensinou a sempre limpar os pés antes de entrar em uma casa, e
dei um olhar aborrecido para minha madrasta quando entrei. — Oi, —
eu a cumprimentei, tentando me mover ao redor dela para que eu
pudesse ir para a cozinha fazer um lanche antes de ir para cima para
fazer a pouca lição de casa que eu tinha.
Jillian se moveu para bloquear meu caminho. — Você não vai sair
dessa casa esta noite sem Georgia, você me entendeu, McKinley? Não vou
deixar você receber toda a fama sozinha. Leve Georgia com você, ou eu
prometo a você, menina, você não vai sair desta casa novamente até fazer
dezoito anos.
Minhas sobrancelhas levantadas com a palavra 'menina'. Eu era
uns bons centímetros mais alta do que a cadela. E seu tom de voz? Minha
própria mãe nunca falou comigo de um jeito tão condescendente, então
escutar isso dela me irritou de todas as formas erradas. Cerrei os punhos
ao meu lado, querendo rasgar seus cílios falsos daquela cabeça sem

122
cérebro e arranhar aquele rosto perfeito que o meu pai deve ter gasto uma
pequena fortuna arrumando com os melhores cirurgiões plásticos.
A voz de minha mãe na minha cabeça, no entanto, me fez relaxar
o suficiente para acalmar minha raiva. Eu fui criada por, não só uma
mulher que tinha me ensinado o certo do errado, mas um padrasto que
também era assim. Que eu deveria respeitar os mais velhos, blá-blá-blá.
Certo, então eu queria ignorar todas aquelas coisas que ela e Carter
tinham arraigado em mim. Por que, diabos, eu deveria respeitar alguém
que não tinha um pingo de respeito por mim?
Mas o coro de Abagail e vozes de Carter eram mais poderosos que
o meu ódio pela cadela atualmente em pé na minha frente. Então, eu
relaxei minhas mãos, forcei um sorriso nos lábios, e passei por Jillian. —
Certo. Que seja, — Eu falei por cima do ombro enquanto me dirigia para
a cozinha. Eu não faria nada que faria qualquer um dos meus verdadeiros
pais se envergonharem de mim. Pelo menos ainda não. Mas eu estava
chegando ao meu ponto de ruptura. — Vou sair às sete, por isso, diga-
lhe para estar pronta. Marcus virá nos pegar.
Já que eu não tenho o meu próprio carro, ou eu tinha que quer ir
com Georgia ou, felizmente, pedir para Marcus me pegar. Tanto, Jesse e
Layla Thornton tinham insistido nisso, tão preocupados com meu bem-
estar quanto eram sobre sua filha.
Sabendo que Jace queria conversar, eu tomei um cuidado extra
com a minha maquiagem e o que vestiria. Tomei banho, realmente sequei
o cabelo com o secador de cabelo de aparência cara que estava no meu
banheiro e até mesmo usei alguns dos produtos que Jillian mantinha lá
na esperança de que eu realmente iria fazer algo com esse “meu cabelo”.
Eu odiava admitir, mas os produtos deixaram meu cabelo mais suave do
que nunca e brilhando.
Vesti o meu jeans favorito, botas de salto na altura do joelho e
uma camiseta preta do Shinedown que comprei na Carolina Rebellion no
ano anterior. Para a maquiagem, eu não me incomodei com a base,
apenas coloquei um pouco mais de creme hidratante e esfumacei minhas

123
pálpebras de modo a favorecer meus olhos azuis. Um pouco do meu gloss
favorito nos lábios e eu já tinha terminado.
Quando cheguei lá embaixo, Georgia já estava esperando na porta
da frente com Jillian. Eu tive que afundar meus dentes no interior do
meu lábio inferior para não desatar a rir com o que a menina estava
vestindo. Sério? Eu honestamente não poderia dizer se a roupa – se você
quisesse chamar assim – era melhor ou pior do que a vi vestindo na noite
anterior.
Seu cabelo estava tão puxado estilo anos oitenta que me fez
pensar se ela teria que ir ao salão de beleza no dia seguinte para reparar
todos os danos que ela fez para deixar daquele jeito – e ficar assim. Seu
vestido mais parecia uma camisola de tão curto e a única parte coberta
do seu decote eram seus mamilos. O vestido terminava algumas
polegadas antes de sua bunda, mas ela usava um shorts de couro preto
que cobria sua bunda. Quase toda ela. Meia arrastão cobriam as pernas
bronzeadas e ela usava saltos tão altos que eu tenho certeza que a mãe
dela tinha guardado de seus dias como uma stripper.
Eu nem sabia se era ilegal sair daquele jeito em quaisquer outros
lugares do que Vegas e New Orleans durante o Mardi Gras. Será que Tiny
nos deixaria entrar com Georgia parecendo assim? Escondi um sorriso
enquanto imaginava o grande e gostoso chefe de segurança lançando
Georgia para fora, enquanto eu entrava para assistir ao show dos Tainted
Knights.
— Eu quero que as câmeras capturem vocês duas, então fique
perto de Georgia quando chegar à First Bass, — Jillian instruiu quando
ela estendeu a mão para corrigir alguns fios do cabelo da filha que se
atreveram a cair do seu enorme penteado, fortemente pulverizado.
Eu quase bufei, mas me segurei bem na hora.
— Certifique-se de dizer aos paparazzi quem Georgia é, McKinley.
Queremos o nome dela de manhã nos tabloides e no TMZ amanhã à noite,
— disse Jillian, continuando a confusão.
Eu me virei para que ela não pudesse ver que eu estava revirando
os olhos. — Sim. Certo. Tanto faz.

124
— Falo sério, — Jillian de repente estalou e agarrou meu pulso
tão forte que suas unhas marcaram minha pele. Ela me empurrou e
olhou para mim. — Se eu tiver que aturar você vivendo sob este teto, você
fará algo que pode nos beneficiar.
Respeite os mais velhos, Kin. Respeite os mais velhos.
Eu apertei minha mandíbula, contei até dez e forcei um sorriso
para a cadela. — Eu ouvi você, Jillian. Agora me deixe ir, porra.
Os olhos dela se arregalaram com a maneira como eu tinha
acabado de falar com ela e o aperto piorou um segundo antes de ela soltar
minha mão como se eu fosse algo venenoso. Recusando-me a esfregar
meu pulso agora dolorido, eu me virei para longe dela, jogando meus
cabelos em seu rosto quando abri a porta com a outra mão. Olhando para
fora, vi que Marcus já estava esperando e estendi a mão para pegar meu
casaco no armário do corredor.
Georgia sequer se preocupou com um quando saiu da casa. A
idiota ia congelar os peitos lá fora. Sacudindo a cabeça com o quão
estúpida a menina realmente era, eu fui em marcha lenta para o Range
Rover. Quando me aproximei, Marcus saiu para abrir a porta de trás para
mim. A única reação que ele teve com a visão da Georgia foi uma ligeira
elevação de suas sobrancelhas.
Eu soltei um suspiro de frustração. — Não pude me livrar esta
noite, garotão. Acho que estou presa com ela.
Ele deu um único aceno de cabeça e, em seguida, estendeu a mão
para me ajudar a entrar na parte de trás do SUV. Eu levantei minha mão
para colocar na dele, mas me lembrei de como doía e a deixei cair
novamente. — Eu faço isso, — eu assegurei.
Claro que ele tinha visto minha hesitação e seu cérebro suspeitou
do gesto. Não pude deixar de fazer careta quando seus grandes dedos
tocaram meu pulso através do meu casaco e sua mandíbula apertou
enquanto cuidadosamente empurrou para cima a manga para examinar
a minha carne na fraca iluminação dos postes.

125
— Quem? — Foi tudo o que ele perguntou quando levantou minha
mão apenas o suficiente para inspecionar as marcas das unhas que já
ficavam vermelhas.
Dei de ombros e me soltei. — Não importa. Estou bem.
Seu rosto se transformou em pedra enquanto ele segurava a porta
aberta e esperava que eu entrasse. Logo que sentei e coloquei o cinto de
segurança, ele fechou a porta e ficou atrás do volante. Georgia, que estava
de pé do outro lado da SUV esperando por Marcus abrir a porta para ela,
olhou para o segurança antes de deixar escapar um bufo e abrir a porta
sozinha.
Logo que ela também estava no carro e com o cinto de segurança,
Marcus finalmente colocou o veículo para fora da garagem. Eu atiro um
olhar para minha meia irmã cadela em algum ponto da viagem que me
fez ter que esconder o riso atrás de uma tosse. Seu cabelo estava tocando
o teto, fazendo seu penteado ceder alguns centímetros. Seus shorts de
couro eram tão apertados que eu me perguntava se estava cortando o
fluxo sanguíneo para a vagina dela e seu decote dizia para o mundo o
quão frio estava no Sul da Califórnia naquela noite de tão rígidos os seus
mamilos.
Seria uma noite muito interessante, isso era certo.
A viagem não foi pacífica. Georgia tirou seu telefone celular e
começou a ligar para todos os seus amigos. Ela gritou pelo menos seis
vezes - por chamada – o que deixou Marcus em alerta máximo, mas ela
estava rindo e rindo como se estivesse tendo o melhor dia de sua vida.
Ela estava me dando uma dor de cabeça, no entanto.
Decidindo que eu precisava pelo menos tentar ignorá-la, peguei
meu próprio telefone. Não fiquei surpresa em ver uma mensagem de Jace.
Apenas amigos, tentei me lembrar.
Apenas. Amigos.
Mas eu não podia evitar o sorriso bobo que levantou meus lábios
quando li a mensagem.
Estarei esperando por você antes do show. Não terei muito
tempo. Só quero ver você antes de entrar no palco.

126
Olhei para o relógio na parte superior da tela do meu telefone.
Devo chegar em 20 minutos.
Não fiquei surpresa quando ele instantaneamente enviou uma
resposta.
Veja você daqui a pouco, então, querida.
Balançando a cabeça, coloquei o telefone para longe e inclinei a
cabeça para trás contra o assento, tentando não pensar sobre a ligeira
dor no meu pulso. Eu ficaria com uma contusão e eu não era de me
machucar com facilidade. Minha mãe e Carter nunca usaram violência
de qualquer forma, nunca me bateram na minha vida. Nunca me
agarraram com raiva. Eu não estava acostumada a esse tipo de
tratamento, estava desconfortável com isso e sim, admito, fiquei um
pouco mais do que magoada.
Mas acima de tudo, eu estava chateada. Como essa cadela ousa
me tocar assim? Deixar vergões na minha pele? Como ela ousa me
machucar fisicamente?
Não estava bem.
Minha mãe e a voz de Carter não estavam flutuando em minha
cabeça me dizendo para respeitar os mais velhos. Se minha mãe estivesse
viva, ela provavelmente teria rasgado Jillian por fazer aquilo. Se Carter
estivesse lá, ele teria perfurado Scott por deixar sua esposa me tocar.
Pensando das duas pessoas que eram meus verdadeiros pais, a
mulher que tinha dado à luz a mim e o homem que me criou como sua,
lágrimas queimaram meus olhos e um nó encheu minha garganta. Eu
mantive meus olhos fechados firmemente para evitar que as lágrimas
estúpidas caíssem e respirei fundo para conseguir controlar minhas
emoções. Eu normalmente não chorava, mas tudo estava começando a
ser demais.
Todas as minhas emoções estavam nadando ao redor, me
confundindo. Eu sentia falta de Carter e os gêmeos. Sentia falta da minha
mãe. Eu queria estar na Virginia com todos eles. Eu queria estar
comprando um casaco porque estaríamos nos preparando para ir para
Aspen por uma semana no Natal. Eu queria discutir com Angie sobre o

127
que iria comprar para Caleb no Natal, porque ele era tão difícil de
presentear. Eu queria fazer mais daqueles enfeites estupidos para
adicionar às centenas que Abagail colocava em nossa árvore de Natal todo
ano.
Eu queria estar confusa sobre Jace St. Charles. Eu queria...
tantas coisas que eu sabia que nunca aconteceria.
A sensação do Range Rover parando me fez respirar fundo e abrir
os olhos. Georgia estava me atirando um olhar estranho, mas então seu
olhar para fora - para as câmeras piscando e seu rosto se abriu em um
enorme sorriso. Eu me perguntava como ela mantinha os dentes na boca.
Onde diabos estavam suas gengivas?
Movendo-se o mais lento do que o normal, Marcus saiu e entregou
as chaves para o manobrista. Ele abriu minha porta e me ajudou a sair,
tomando cuidado com o meu pulso dolorido. Logo que eu estava fora, ele
colocou a mão na parte inferior das minhas costas, me guiando em
direção à calçada.
Georgia praticamente pulou da parte de trás do SUV, e eu não
pude deixar de assistir fascinada enquanto ela se movia como se tivesse
nascido para vestir os saltos de stripper. Ela não oscilava ou tropeçava e
saiu sem esforço para me envolver em abraço “amoroso”.
— McKinley, com quem você está noite? — Eu ouvi um dos
paparazzi que sempre estava acampado na First Bass perguntar.
Rangi os dentes durante dez segundos completos antes de abrir
um sorriso e realmente responder a mulher pela primeira vez. — Esta é
minha meia-irmã, Georgia. — Isso foi tudo o que eu disse, embora tenha
parado alguns segundos para que Jillian ficasse feliz com a quantidade
de imagens das câmeras antes de me afastar de Georgia como se nem a
conhecesse.
Marcus estava bem ao meu lado quando chegamos à porta da
frente e ela se abriu para mim. Olhei para trás para ver se Georgia estava
vindo, mas ela ainda estava de pé na calçada posando para as câmeras e
respondendo as perguntas que eles estavam todos jogando para ela. Bem,
Jillian ficaria feliz. Sua filha com certeza acabaria no TMZ.

128
Provavelmente, seria ridicularizada por aquilo que ela tinha usado e quão
pronta ela estava para oferecer qualquer informação sobre si mesma, mas
estaria lá, no entanto.
Marcus seguiu meu olhar e resmungou algo em voz baixa. Ele não
era nada além de sua pose estoica de sempre essa noite. — Espere por
mim aqui, — ele ordenou em um tom calmo antes de ir para trás e pegar
os ombros da Georgia, orientando-a para a entrada do clube. — Pare de
agir assim, ou te levarei para casa, — ele estava rosnando para a menina
quando ele me alcançou. — Eu não estou aqui para cuidar das crianças.
Meu trabalho é manter segura aqueles a quem eu devo manter seguras.
Curiosamente, o seu nome não está na lista.
— Oh, sim? E o nome de McKinley está? — Georgia tentou ser
espertinha.
— Não. O nome de McKinley não está, — Marcus assegurou. —
Mas o nome de Kin, sim. Então, comporte-se ou eu prometo a você, você
estará no caminho de casa antes da sua hora de dormir, menina.
Ela realmente fez beicinho para ele, provavelmente pensando que
iria conseguir algo com o guarda-costas ameaçador desse jeito. Todas as
minhas lágrimas de mais cedo evaporaram completamente quando eu me
virei, nem mesmo tentando esconder meu riso.
Enquanto eu caminhava mais profundo para o clube, Tiny saiu
da entrada VIP. — Senhorita Montez. Tão bom vê-la novamente.
Sua voz era assustadora como o inferno, mas eu adorava. Esse
cara, como Marcus, me fazia sentir segura, e eu precisava daquela
sensação mais do que qualquer outra. Tiny estendeu a mão, oferecendo-
se para tomar meu casaco. — Posso?
Eu relutantemente dei de ombros do casaco e, em seguida,
embalei meu pulso dolorido contra o meu estômago para que ninguém
pudesse ver os vergões vermelhos. — Obrigada, Tiny.
Seu olhar estava na minha mão, mas ele não fez comentários
sobre isso. — Sr. St. Charles disse que estaria esperando por você no bar.
Pensar em Jace esperando por mim me animou um pouco mais e
eu não pude evitar o novo sorriso que surgiu em meus lábios. —

129
Obrigado. Você pode avisar Lucy que eu estarei na frente quando o show
começar?
— É claro, senhorita Montez.
Querendo distância de Georgia, eu praticamente ignorei o térreo
da First Bass e atravessei a multidão espessa para chegar ao bar. Eu
queria falar com Jace. Eu precisava de um amigo, precisava de alguém
para envolver seus braços em volta de mim e me dizer que tudo ia ficar
bem.
Marcus estava perto, mesmo com o quão rápido eu estava me
movendo e ouvi Georgia reclamando, então eu sabia que ela estava me
seguindo também.
— Eu pensei que ficaríamos na ala VIP? — Ela gemeu quando me
aproximei do bar.
Eu a ignorei enquanto olhava ao redor procurando Jace. Meus
olhos o viram quase que instantaneamente. Ele estava de pé no final com
uma cerveja em uma mão e um copo do que parecia refrigerante na outra.
Ele estava encostado contra a parede, seus olhos deslizando sobre a
multidão à procura de alguém.
Procurando por mim.
Meu coração disparou e eu fiz uma pausa longa o suficiente para
garantir que minhas mãos não tremiam antes de ir em direção a ele. Eu
soube o instante em que ele me viu. Mesmo com a distância que ainda
nos separava, eu percebia que seus olhos escureceram e um meio sorriso
levantou seus lábios. Ele acenou com a cabeça, acenando para que eu
me apressasse já que suas mãos estavam cheias.
Me empurrando através de um último grupo, cheguei até lá e ele
se afastou da parede para abaixar a cabeça e beijar minha bochecha. Eu
não estava esperando isso, e meu coração fez uma pequena torção
engraçada no meu peito que era ao mesmo tempo dolorosa e
emocionante. Jace permaneceu por mais um momento, seu nariz indo
para os meus ouvidos para inalar o cheiro do meu cabelo.

130
— Eu não gosto do seu novo shampoo, — ele me disse com um
leve franzido enquanto me entregava o copo de refrigerante. — Seu cabelo
está lindo como sempre, babe, mas não cheira como você.
— São apenas os produtos que Jillian deixou no meu banheiro, —
eu disse a enquanto tomava um gole da minha bebida. — Faz meu cabelo
parecer suave, entretanto.
Com a mão livre, ele agarrou algumas mechas e as esfregou entre
o polegar e o indicador. — Sim, está sedoso. Eu gosto, mas sinto falta do
cheiro.
Eu não sabia o que dizer sobre isso, então tomei outro gole do
refrigerante frio.
— Jace! — Nós dois nos viramos para encontrar Kale e Cash
esperando junto às escadas que levavam ao palco. — Vamos, — Kale
chamou e acenou uma de suas baquetas para mim. — Ei, Kin.
— Ei, Kin! — Cash chamou antes de pisar no palco.
Xingando, Jace engoliu o resto de sua cerveja em um gole, depois
se inclinou para escovar os lábios sobre minha bochecha novamente. —
Você espera por mim depois do show? Eu realmente quero conversar,
querida. Realmente conversar. Sobre nós.
Eu quase deixei cair meu copo. Sobre nós? Não. Não. Não. Eu não
podia conversar com ele sobre nós. Não havia nós, além de amizade. Ele
havia dito. Ele concordou, droga. — Ok, — eu me encontrei sussurrando,
no entanto. — Vou esperar.
Ele passou mais um beijo sobre minha bochecha, passando a mão
pelo meu braço, que instantaneamente produziu um arrepio, e então
correu para o palco. Ah, droga. Eu não ia ceder. Eu não podia. Eu tinha
muito com que lidar. Muita agitação em torno na minha cabeça me fazia
perder minha sanidade um pouco mais a cada dia que passava.
Eu precisava de um amigo. Não um namorado que tinha um
histórico de quebrar meu coração.
Não havia muito sobrando no meu coração para quebrar desta
vez, mas eu não estava disposta a arriscar novamente.

131
Uma mão macia e quente tocou meu braço e eu fiquei tão surpresa
que quase derramei a bebida toda sobre mim. Levantando minha cabeça,
eu encontrei Lucy de pé apenas algumas polegadas de distância. Marcus
era agora sua sombra, eu percebi, enquanto Georgia parecia uma menina
que estava prestes a começar a perseguir qualquer indivíduo sexy que
parecesse bastante rico. Me fez lembrar de uma menina que perseguia
borboletas em um campo, exceto que a menina estava vestida como uma
prostituta e perseguia possíveis celebridades em vez de borboletas
bonitas.
As sobrancelhas de Lucy se ergueram quando ela viu minha
expressão carrancuda. — Bem, vejo que você não conseguiu abandonar
meia irmã cadela número um hoje. Como diabos isso aconteceu?
Dei de ombros e escondi o meu braço ainda dolorido nas minhas
costas para que ela questionasse as marcas no meu pulso. — Foi uma
ameaça do tipo fazer ou morrer, Lu. Fazer ou passar um período
indefinido de tempo presa em casa, que na casa de Scott é um castigo
pior do que a morte, se você me perguntar.
— Certo, — disse Lucy com um aceno. No palco, a banda estava
fazendo uma última verificação de som e Lucy se virou para vê-los. —
Vamos. Prometi a Harris que estaríamos na frente.
Eu não discuti quando coloquei minha bebida no balcão e segui
atrás dela. Infelizmente, Georgia estava logo em nossos calcanhares
quando chegamos à frente da multidão. Com Marcus abrindo o caminho,
não tivemos quaisquer problemas em chegar perto, mas eu desejava que
ele tivesse, pelo menos, perdido Georgia em algum lugar no meio.
Ela bateu seu ombro no meu para me forçar a olhar para ela. —
Quem é o loiro bonito? Vi você falando com ele.
Eu não ousei olhar para cima no palco para ver o que Jace estava
fazendo. Se Georgia visse a maneira como eu não podia deixar de olhar
para ele, ela saberia exatamente o que Jace significava para mim e não
ia dar a ela esse tipo de munição. — Ele é um amigo, — eu finalmente
disse a ela. — O nome dele é Jace e nós somos amigos.

132
Capítulo 13

Precisou de muito tempo para que eu conseguisse focar minha


cabeça no trabalho em questãom em vez de no cheiro do cabelo de Kin.
Não era um cheiro ruim, na verdade era delicioso, mas não era um que
me dizia exatamente a quem aquele cabelo pertencia. O cheiro habitual
do cabelo dela sempre me deixou duro instantaneamente porque eu
reconhecia o aroma como sendo simplesmente de Kin, assim como
minhas terminações nervosas sempre reconheciam seu toque sendo dela,
sem que eu tivesse que abrir os olhos para confirmar.
Enquanto eu ajudava Kale e Cash a fazer o teste de som, não
consegui deixar de olhar para Kin. A primeira vez em que olhei para ela,
ela ainda estava no bar conversando com Lucy, mas agora elas estavam
na frente do palco. Harris não estava com elas, mas eu não estava
preocupado porque Marcus estava ali, mantendo pelo menos meio metro
de distância entre as duas meninas e o resto dos fãs.
Eu sabia como queria começar o show hoje à noite. Seria um
pouco diferente, mas nós não cantamos um cover a semanas. Uma das
coisas que eu amava tanto sobre Kin era aquela música e, mais
especificamente, que as letras das músicas sempre falavam com ela. Era
a maneira mais fácil de me comunicar com ela.
Foi como eu disse que a amava pela primeira vez.
Assim, enquanto Cash terminavam de fazer o que tinham que
fazer, eu disse a Kale o que ia acontecer, e quando Grayson e Sin subiram
ao palco, contei a eles também. Quando contei a Cash, ele levantou uma
sobrancelha para mim, mas estava sorrindo quando acenou com
compreensão.
De repente, me senti nervoso como o inferno, algo que eu não
tinha sentido antes de um show desde o primeiro com dezessete anos de

133
idade. Enxugando as palmas das mãos úmidas no meu jeans, me virei
para a multidão e peguei o microfone. O rugido da multidão
instantaneamente aquietou quando eu levantei a mão e sorri para todos.
— Porra, galera, é bom ver todos aqui novamente essa noite, — eu
os cumprimentei. A maioria eram nossos fãs, mas sempre havia recém-
chegados que tiveram sorte o suficiente para entrar. As noites de quinta
eram excelentes para a conta bancária do First Bass, mas Harris tinha
que ser extremamente cuidadoso para não transbordar o local ou ser
confrontado com multas do chefe de bombeiros se algo acontecesse. —
Vocês estão prontos para o rock hoje à noite?
A multidão foi à loucura, mas mesmo com o barulho, eu ainda
podia ouvir o “Yeahh” que veio da linha da frente.
Olhei para Kin e Lucy, ambas sorrindo e levantando o sinal do
rock para nós. Eu peguei o olhar de Kin e dei-lhe uma piscadela. Seu
sorriso ficou um pouco abafado e eu sabia que ela estava mordendo o
interior de seu lábio inferior. Droga, eu queria tanto beijá-la.
Afastando a necessidade de saborear seus lábios, forcei meu olhar
para a multidão atrás dela. — Vamos começar esta noite de uma forma
um pouco mais lenta. Essa música é a favorita de alguém especial e eu
pensei em mimá-la um pouco esta noite.
Atrás de mim, a banda começou os primeiros acordes da música
e eu tive que limpar minha mão livre no meu jeans novamente, porque
ela estava encharcada de suor, mas na hora certa, eu cantei o primeiro
verso.
Desde o primeiro acorde que Gray havia atingido com sua
guitarra, eu tinha visto a maneira como Kin reagiu. Ela sabia, sem as
palavras que eu estava cantando - cantando só para ela - que era “Iris”
do Goo Goo Dolls. Era uma de suas músicas favoritas, e não apenas da
banda, mas de todos os tempos. Ela me contou uma noite enquanto
estávamos no meu carro estacionado na estrada, embaçando as janelas
enquanto ela me beijava até que eu estava louco de desejo por ela. A
música estava tocando no rádio e ela parou com as mãos no meu peito
nu e começou a cantar enquanto me deixava fazer amor com ela.

134
Com esse primeiro refrão, eu vi a maneira como o queixo dela
quase começou a tremer quando a mesma memória brilhou em seus
olhos, e eu queria pular fora do palco e envolvê-la em meus braços
enquanto terminava o resto da música, mas tão rápido quanto, ela
apertou sua mandíbula e, lentamente, baixou o olhar para as mãos na
frente dela.
Ela tinha que saber o que eu estava dizendo a cada letra que eu
cantava, tinha que entender a verdade por trás de tudo. Eu daria até meu
último suspiro apenas para tocá-la mais uma vez. Para que ela visse meu
verdadeiro eu por quem ela tinha se apaixonado – e saber que quando eu
estava com ela, era o mais próximo do céu que eu jamais poderia esperar
estar.
Minha garganta se apertou com emoção, eu continuei a música,
os olhos presos nela enquanto eu silenciosamente pedia para ela olhar
para cima novamente. — E você não pode lutar contra as lágrimas que
não estão vindo. — Eu comecei o quarto coro e sua cabeça se levantou.
O brilho de lágrimas que eu vi lá, que eu sabia que ela não deixaria cair,
cortou meu peito como uma espada de fogo.
Atrás de mim, os caras estavam entrando no ritmo da música.
Kale estava no momento com os tambores, e Gray estava batendo cada
acorde em sua Fender como se suas mãos tivessem sido feitas
especificamente para tocar a música certa naquele momento. Sin e Cash
estavam ambos com os olhos meio fechados como se para deixar a
música se tornar uma parte de suas almas como faziam com cada música
que já tocamos. Mas eu não vi nada disso, porque eu estava tão envolvida
no olhar de Kin. Tão destruído por tanta dor que parecia sair dela e
inundar dentro de mim.
Fiquei grato por isso. Eu levaria toda sua dor se pudesse. Eu
tiraria tudo e substituiria com o amor que eu nunca parei de sentir por
ela. Dar a ela algo mais, algo melhor.
Eu daria a ela cada parte de mim, inclusive a minha alma, e desta
vez...
Desta vez, eu não iria embora sem ela.

135
A música foi chegando ao fim, e eu cobri o meu coração com a
minha mão quando caí de joelhos, para que estivéssemos no mesmo nível
de olhos. — E eu só quero que você saiba quem eu sou.
A música terminou e todo o clube de repente estava tão quieto que
eu podia ouvir meu coração batendo em meus ouvidos. Meu olhar ainda
estava trancado no de Kin e ela parecia tão encantada quanto eu. Houve
uma longa pausa, como se a multidão também estivesse em transe. Em
seguida, o menor e mais doce sorriso levantou nos lábios de Kin e foi
como se o transe fosse quebrado para mim e para as centenas de outras
pessoas dentro da First Bass quando eles começaram a bater palmas e a
gritar.
Eu toquei meus dedos em meus lábios e ofereceu a mão a ela. Ela
hesitou por um total de dois segundos antes de pisar para a frente e tocar
os dedos nos meu. Meu coração sobe com um milhão de novas
possibilidades, de repente eu estava feliz por terminar o show naquela
noite. Quanto mais cedo terminássemos, mais cedo eu poderia estar
sozinho com Kin para conversarmos.
Corri até a primeira metade do show, mal parando entre as
músicas como eu teria feito normalmente para que o show durasse mais.
A multidão sempre pulava quando tocávamos “Cocky Bastard Rocky
Star”. Os caras não pareceram se importar, não que eu tivesse um
problema com isso.
Em um certo ponto, vi Harris se juntar às meninas, e envolver
seus braços em torno de Lucy. Eu arrisquei um olhar sobre Kin em
seguida, vi como sua mandíbula estava dura e quase parei no meio da
música para perguntar por que ela estava tão chateada. Levantei uma
sobrancelha para Harris entre a próxima música e ele deu de ombros, me
avisando que Kin estava bem. Com Marcus de pé tão perto das duas
meninas, eu sabia que elas estavam a salvo, mas eu queria saber o que
Kin estava pensando.
Duas músicas depois, quando o ritmo começou a ficar mais
nervoso, a noite chegou a um impasse morto quando uma garota vestida
como uma atriz pornô dos anos oitenta pulou no palco e tentou estuprar

136
minha boca. Eu travei instantaneamente, erguendo minhas mãos para
afastá-la para mostrar a Kin que eu não tinha parte no que estava
acontecendo.
Os lábios da garota não tinham gosto ruim, mas ela estava
ansiosa demais e era desleixada. Meu pau sequer se contorceu quando
ela tentou me escalar como uma árvore, logo que os seguranças correram
ao palco e a puxaram de cima de mim. Limpando a boca com as costas
da minha mão, eu finalmente consegui uma boa olhada na doida que
pulou em mim.
Penteado ridículo. Roupa indecente. Maquiagem suficiente para
fazer Kassa querer se esconder atrás de mim ou de Gray, porque ela
poderia se passar por um palhaço – ou pior, um maldito mimico. A minha
irmã tinha um medo real de palhaços e mímicos, a tal ponto que ela
congelava e ficava quase catatônica até estar em um lugar seguro. Se ela
tivesse visto aquela garota, sairia correndo para a próxima saída,
gritando aos berros.
A multidão não aceitou bem a interrupção. Enquanto alguns
idiotas aplaudiam a garota, a maioria do clube estava vaiando e alguns
até mesmo jogaram suas garrafas de cerveja no palco – na menina.
Balançando a cabeça, eu esfregava as mãos sobre a boca de novo,
tentando fazê-la provar meus lábios e na esperança de aliviar o clima
para que a multidão não entrasse em motim. — Yo, cadela, os anos
oitenta estão chamando. As estrelas pornô querem suas roupas de volta.
As vaias pararam quando todos começaram a rir, incluindo os
meus companheiros de banda.
A garota, no entanto, não achou tão engraçado, enquanto suas
mãos eram empurradas atrás dela e alguém colocava laços de cabo em
torno de seus pulsos. Seu rosto ficou vermelho sangue, visível mesmo
através de suas várias camadas de maquiagem. Eu observei o movimento
de sua boca e percebi que ela estava me xingando com cada palavrão que
ela conhecia, mas eu não conseguia ouvir nada disso sobre o riso
estrondoso.

137
Mas enquanto a minha atenção tinha sido sobre o que estava
acontecendo no palco, eu tinha perdido o que estava acontecendo na
frente e no centro. A próxima vez que eu olhei para Kin, imaginando se
ela achava a situação toda tão engraçada quanto os outros, foi para
encontrá-la franzindo a testa enquanto ela falava com Lucy e Harris. Lucy
disse algo que fez a boca de Harris cair, em seguida, o abraçou.
Antes que eu pudesse sair do palco para alcançá-los, Marcus
estava empurrando as meninas na direção em que tinham acabado de
levar a louca que me beijou. Que porra é essa?
Eu pulei para fora do palco bem na frente de Harris. Ao meu redor,
a multidão começou a vaiar novamente, querendo que eu terminasse o
show. Quando dois caras com cervejas em suas mãos deram um passo
em minha direção, eu dispensei a ambos com um aceno e me virei para
o meu amigo. — Onde diabos Kin está indo? — Ela disse que poderíamos
conversar, droga. Eu finalmente sentia como se estivesse chegando a
algum lugar com ela.
Harris fez uma careta. — A garota que acabou de beijar você? —
Eu assenti. — É a meia-irmã de Kin. Ela veio com Kin e já que Lucy as
trouxe, ela também teve que ir.
Eu passei os dedos pelo meu cabelo, desejando ter feito algum
tipo de dano à cadela que tinha acabado de arruinar minha noite em mais
maneiras do que uma. — Filho da puta. Eu finalmente consegui que Kin
concordasse em falar comigo depois deste show. Aquela idiota arruinou
tudo.
Harris soltou um suspiro frustrado. — Concordo. — Ele olhou em
volta para a multidão que estava começando a ficar agitada. — Foda-se
essa merda. Vá fazer o seu trabalho, cara. Eu tenho trabalho a fazer.
Eu queria mandar o show para o inferno e seguir Kin, mas eu
tinha um trabalho a fazer e não podia deixar Harris com um clube cheio
de fãs chateadas. Mordendo um xingamento, eu subi no palco e olhei
para os meus companheiros de banda.
Cash andou até mim. — Qual o problema?

138
— Aquela vadia do caralho é meia-irmã de Kin. A cadela está com
problemas e agora Kin tem que levá-la para casa.
Os olhos de Gray se arregalaram. — Era a irmã de Kin? Que tipo
de merda ela está tendo que aturar em casa, cara? Aquela garota parecia
ter saído de um hospício.
— Você vai atrás dela? — Sin perguntou enquanto ajustava a
correia da guitarra em seu ombro.
Olhei por cima do ombro para a multidão e xinguei novamente. —
Não posso, cara. Eu gostaria, mas não posso, porra.
— Bem, vamos terminar essa merda e então, você pode descobrir
o que está acontecendo com Kin. — Gray me surpreendeu apertando meu
ombro. — Espero que possa ajudá-la, cara. Kin é uma garota legal. Ela
não merece isso... — ele fez uma careta — seja lá o que for.
— Nem mesmo eu teria tocado naquilo, — Sin murmurou com seu
sorriso arrogante como inferno. — É melhor fazer o teste de herpes antes
de beijar Kin de novo.
Eu ri, então franzi a testa com a mesma rapidez. Porra. Eu
provavelmente deveria. Não tinha como eu dar algo assim para Kin.

Lucy queria ir comigo quando Marcus parou em frente da casa de


meu pai, mas eu disse que não. Eu não queria que ela testemunhasse a
tempestade do inferno que provavelmente aconteceria. Então, dei-lhe um
abraço, disse boa noite a ela, e segui Marcus enquanto marchava com
Georgia até a porta da frente.
Suas mãos ainda estavam presas atrás dela com abraçadeiras e
eu não podia evitar de sorrir ao vê-la assim. Eu mandaria uma mensagem
de grupo para Angie e Caleb sobre isso mais tarde. Os gêmeos acabariam
gargalhando ao saber do que aconteceu.
Marcus tocou a campainha em vez de me deixar usar minha
chave. Quando Scott respondeu a porta, em vez de Jillian, fiquei

139
surpresa. Eu pensei que ele ainda estava no Canadá, fazendo seu filme
estúpido. Então, novamente, o que eu sabia? Ninguém me dizia nada
sobre a agenda do meu pai.
Scott olhou para o segurança de forma desapaixonada, mas
quando seus olhos pousaram em sua enteada mais velha, eles se
arregalaram em descrença. — O que diabos aconteceu? — Ele perguntou,
seus olhos agora cheios de raiva quando desembarcaram em tom
acusador em mim. — Georgia, o que...
— Scott? — Ouvi Jillian chamar e segundos depois ela estava de
pé na porta ao lado dele. Quando ela viu Georgia com as mãos amarradas
atrás das costas, seu rosto ficou roxo com uma mistura de vergonha e
raiva. — Que porra, você fez? — Ela perguntou, mas seus olhos estavam
de repente em mim. Me acusando. Exigindo respostas de mim.
Eu não tinha feito nada. Eu somente estava por perto ouvindo ao
show da Knights Tainted, tentando não fantasiar sobre como a conversa
com Jace aconteceria mais tarde. Eu fiquei onde eu deveria ficar,
dançando a música e me divertindo com minha melhor amiga.
Foi Georgia a única a causar problemas. A que teria acabado na
cadeia por basicamente agredir Jace e depois resistir quando os caras da
segurança tentaram puxá-la para fora do palco. Georgia foi quem fez um
show de si mesma, enquanto as câmeras brilhavam em todas as direções.
Assim como Jillian queria, sua filha provavelmente apareceria no TMZ,
mas não pelas razões que ela esperava. Não, ela seria motivo de chacota
do dia seguinte.
O que significava que Jillian também seria.
Eu queria esfregar as mãos juntas em alegria. Essas duas cadelas
só estavam começando a receber o que mereciam. Karma era uma cadela
tão deliciosa, e eu queria apertar a mão dela naquele momento. Até que
Marcus ouviu que sua presença já não era necessária, e Scott passou o
braço em volta dos ombros da Georgia enquanto a guiava para dentro da
casa. Jillian saiu para a varanda, pegou o mesmo pulso que ela tinha
ferido mais cedo e me empurrou para dentro. A porta ainda não tinha se
fechado antes que ela estava me virando para encará-la.

140
— O que aconteceu? — Ela fervia de raiva para mim.
Dei de ombros, recusando-me a esfregar meu pulso dolorido.
Fazer isso seria apenas dar o prazer para ela por ter me machucado
fisicamente. — Estávamos ouvindo a banda tocar e então Georgia correu
até o palco e molestou o vocalista da Tainted Knights. Os seguranças a
tiraram de cima dele.
— Por que você não ajudou sua meia-irmã? — Ela perguntou,
praticamente tremendo de raiva agora. — Você sabe o que as pessoas vão
dizer ao me verem amanhã? Os vizinhos devem tê-la visto algemada e
isso não é nada comparado se os jornais disserem que ela foi contida.
Eu levantei minhas sobrancelhas. — Tenho certeza de que, com
os vinte ou mais fotógrafos fora do clube, ela vai estar em toda notícia de
entretenimento amanhã. — Eu sorri docemente para ela. — Não é isso
que você queria?
— Não assim! — Ela gritou para mim. — Por que você não usou
sua influência para tirá-la de problemas?
— Minha influência? Quem você acha que eu sou? — Eu exigi. —
A porra do governador? Eu não tenho nenhuma força.
— Besteira. Tudo o que tinha a fazer era piscar para Harris Cutter
e ele teria deixado Georgia ir sem qualquer deste constrangimento. — Seu
nariz queimou quando ela deu um passo mais perto de mim. Eu endureci
meus ombros e a olhei de cima. Ela pensava que podia me intimidar?
Sério? — Você está de castigo pela próxima semana pelo menos. Não vai
sair desta casa, a menos que esteja com a família. Eu não vou deixar você
sair por aí com aquela garota Thornton, que poderia facilmente ter tirado
Georgia de problemas tão facilmente quanto você.
— Você não pode fazer isso! — Eu ficaria louca se não pudesse
sair de casa. As férias de inverno estavam chegando e eu ficaria presa.
Presa.
Com uma madrasta monstra e duas meias irmãs cadelas.
Jillian, na verdade, teve a ousadia de sorrir para mim. Vendo que
eu estava chateada agora, se divertia. — Tente, menina. O que eu digo
nesta casa é lei. Enquanto você viver sob este teto, você vai me ouvir ou...

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— Ou o quê? — Eu rosnei, dando um passo mais perto dela.
Ao contrário de mim, ela deu um passo hesitante para trás, mas
não perdeu o sorriso em seu rosto. — Ou você não poderá ver, falar,
socializar ou qualquer outra coisa. Sem escola ou amigos. Sem longas
conversas com aqueles idiotas em Virgínia, que acham que você é tão
especial. Fique na linha, McKinley, porque eu posso fazer sua vida um
inferno.
Minhas mãos se fecharam em punhos e precisou de toda a força
de vontade que possuía para não dar um soco nela ali mesmo. Minha
mãe e a voz de Carter eram quase um sussurro agora, me lembrando de
respeitar os mais velhos. — Já é um inferno, Jillian — Eu assegurei e me
afastei, me certificando que meu cabelo vermelho longo batesse no rosto
dela enquanto eu ia até as escadas. — E confie em mim, vou sair daqui
assim que eu completar dezoito anos.
Promessa ou não, assim que eu fosse um adulto legal, eu iria
embora da casa de Scott Montez.
Foda-se essa merda.
Foda-se essa cadela.

142
Capítulo 14

A única coisa boa de sair para levar Georgia para casa na noite
anterior foi não ter precisado falar com Jace. Eu estava quase grata por
isso. Se eu tivesse ficado na First Bass, teria conversado com ele.
Realmente, realmente conversado.
Conversar com Jace, eu quero dizer realmente conversar com ele,
era completamente diferente do que falar com ele, como eu vinha fazendo
durante meses neste momento. No início, quando Jace foi o meu mundo
e eu achava que eu era o dele, nós conversávamos durante horas sobre
nada e parecia que tínhamos falado sobre as maiores questões de filosofia
no universo. Poderíamos falar sobre tudo o que é importante e eu ficava
pensando em como nós éramos próximos. Como éramos parecidos.
Como éramos perfeitos.
Juntos.
Isso – e a química fogosa que compartilhávamos – fizeram eu me
apaixonar por ele em um instante, embora eu sabia que tinha levado pelo
menos um mês antes que de eu saber com certeza. Então, conversar com
ele? Sim, essa era uma má ideia.
Eu tinha muita merda no meu prato agora. Eu precisava passar
as férias com a madrasta do inferno. Precisava esperar até o meu
aniversário em fevereiro para que eu pudesse sair daquele inferno.
Também havia a escola, mas isso era uma merda chata. Eu já tinha
estudado a maioria das coisas que os professores estavam tentando
passar, então era uma festa do sono total que eu era forçada a suportar
todos os dias. Mas eu aceitaria aquilo, a ficar com Jillian em qualquer
dia.
Eu também tinha a universidade para pensar. Por alguma razão
estúpida, eu enviei aplicações para algumas escolas da Costa Oeste,

143
embora eu já tenha decidido ir para a Virginia Tech como Angie e Caleb
fizeram. Já que eu me formaria na primavera e não os teria comigo, pelo
menos eu estaria mais perto de casa. Ainda assim, também enviei
aplicações para a UCLA e várias outras, e fui aceita em todas.
Agora?
Eu ainda estava determinada a ir para Virginia Tech, mas...
Mas.
Havia um mas, e eu não entendia. Eu tentei dizer a mim mesma
que era porque eu queria esperar e ver para onde Lucy iria. Tentei dizer
a mim mesma que eu gostei do clima do sul da Califórnia. Eram todas
desculpas fracas quando eu pensava sobre isso, mas eu tentava não
pensar sobre isso com frequência. Lucy e eu ainda seríamos amigas
íntimas, não importa onde acabássemos fazendo universidade, e eu era
mais o tipo de pessoa de quatro estações do que com o clima aqui no sul
da Califórnia.
Se eu fosse honesta comigo mesma - e eu realmente não quero
estar certa – então, eu sabia que queria uma universidade da Costa Oeste
por causa de Jace. Depois de ter sido forçada a vê-lo tantas vezes, ouvi-
lo conversar com Harris e Lucy e inúmeras outras pessoas, eu sabia que
ele queria chamar L.A. de casa. Mesmo que fosse apenas por uma parte
do ano.
Se eu fosse honesta comigo mesma, admitiria que, depois de ouvi-
lo dizer aquilo pela primeira vez, eu tinha me aplicado a três
universidades diferentes, todas dentro de algumas horas de distância.
Se eu fosse honesta comigo mesma.
Mas eu não queria ser honesta comigo mesma, e assim eu
continuei dizendo a Carter que iria para a Virginia Tech a cada vez que
eu falei com ele sobre isso. Foi o que eu disse a Angie quando ela me
questionou sobre em que dormitório eu queria viver. Foi o que eu disse a
Caleb, quando ele mesmo me recomendou uma das universidades das
quais eu tinha sido aceita pelo departamento de música deles.
Todos os três deles fizeram as observações certas, riram comigo
sobre isso, mas todos nós sabíamos que eu não estava enganando

144
ninguém. Especialmente eles. Eles me conheciam muito bem. Sabia que
eu queria ficar no sul da Califórnia, mas eu não acho que eles perceberam
o porquê. Eu não tinha falado sobre Jace a qualquer um deles, embora
tinha certeza de que Caleb sabia, já que ele falava com Cash de vez em
quando. Eles - as três pessoas que me amavam por mim mesma e não
faziam esse amor de refém pelas coisas que poderia lhes dar – sabiam
que eu tinha algo importante ali e não precisavam saber de mais nada.
Eles só queriam que eu fosse feliz.
Eu não estava feliz, apesar de tudo.
Eu estava tudo, menos isso.
Lucy colocou a mão aos lábios pela milésima vez naquele dia e eu
tive que morder de volta o meu modo cadela. Ela estava tão feliz que
praticamente brilhava com isso, mas eu estava muito infeliz. Eu não falei
isso para ela, no entanto. Ela não merecia isso.
Mas se ela me passasse aquela maldita virose que estava rolando
porque não conseguia manter suas mãos longe de sua boca por dois
segundos, eu seriamente daria um soco nela.
— Você sabe que há uma virose rolando, certo? — Eu murmurei
quando nós saímos da escola na sexta-feira à tarde.
Eu senti como se estivesse caminhando para minha desgraça,
sabendo que era o último dia antes das férias de inverno e estaria presa
em casa com Jillian por tempo indeterminado. Eu queria que o dia
seguinte não fosse sábado. Não poderia haver escola por mais alguns
dias? Eu realmente não me importaria de ir no sábado e domingo naquele
momento.
— Hum? — Lucy murmurou, ainda fora em seu próprio pequeno
mundo enquanto passava os dedos pelo lábio inferior pela centésima vez
em menos de uma hora.
— Lucy, há uma virose, — eu disse a ela em um tom mais frio do
que eu normalmente teria usado com ela. — Pelo menos, um terço do
corpo discente pegou. E ainda assim você não para de tocar em sua boca.
O. Dia. Todo. — Eu bati meus dedos para a parte de trás de sua mão ilesa

145
para enfatizar o que estava fazendo. A outra mão ainda estava enfaixada
e ficaria assim por mais algumas semanas.
Lucy franziu a testa enquanto nós continuamos a andar. Olhei
para ela com o canto dos meus olhos, vi o fluxo de emoções e o
caleidoscópio de pensamentos que passaram pelo rosto bonito. Sério, a
menina não percebia o quão bonita, ela era, e quando ela estava tendo
um momento de conflito interno como agora, ficava ainda mais bonita.
Estendendo a mão, eu peguei o braço dela e a puxei para me
encarar, forçando-nos a parar antes que pudéssemos chegar às portas
que davam para fora, para o estacionamento dos alunos. Onde eu tinha
certeza de que minhas meio irmãs cadelas estavam impacientes
esperando por mim.
— O que há com você hoje? — Eu fiz a pergunta, mas eu já sabia
a resposta.
Harris.
Amor.
Eu não estava com ciúmes. Pelo menos não deles juntos. Apenas
do que eles tinham. Como eles pareciam. Como ficavam perfeitos juntos.
Como... eles pareciam tudo, juntos.
Lucy começou a tocar seus lábios novamente e eu estava prestes
a bater na mão dela quando ela deixou cair e soltou um suspiro. —
Desculpe, eu só estou um pouco...
Balançando a cabeça, não pude deixar de rir, mas mantive um
pouco do humor. — Apaixonada? — A palavra provou ser maçante sobre
minha língua e eu fiz uma careta.
O amor era uma pílula amarga para engolir quando você se
recusava a senti-lo.
Quando minha melhor amiga apenas deu de ombros, eu quis
bater em sua cabeça para não a deixar ficar tão presa em um só cara.
Era uma armadilha. Tudo isso. O amor não era nada além de uma...
O amor era lindo, mas eu não queria ver a beleza dele naquele
momento.

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— Basta ter cuidado, Lucy — eu disse a ela em um tom calmo,
não querendo estragar o momento para ela, mas incapaz de não a alertar.
— Eu sei como é maravilhoso estar apaixonada assim. É como se você
estivesse andando em uma nuvem. Nada poderia derrubá-la. Até que isso
quebra o seu coração.
— Kin...
Ela começou a falar, mas eu a cortei. — Olha, eu não estou
tentando derrubar você, querida. Estou apenas avisando para ter
cuidado. OK? Basta ir... devagar.
Seus olhos castanhos se estreitaram em compreensão e eu quis
fugir dela, odiando o quão próximas éramos que ela podia ver como
minha dor era profunda. — Você não levou as coisas devagar com Jace,
não é?
Baixei os olhos, incapaz de deixá-la ver tudo. — Não. — Saiu
praticamente um sussurro, mas limpei minha garganta e me forcei a
olhar para cima novamente, sem encontrar seus olhos. — Não, as coisas
foram em grande velocidade conosco. Provavelmente, é por isso que não
durou muito. Eu cedi cedo demais e ele perdeu o interesse. Por que mais
ele achou tão fácil ir embora sem olhar para trás?
Foi o que eu disse a mim mesma, inúmeras vezes no passado, mas
naquele momento eu não acreditava nisso. Não completamente. Eu sabia
que sua música vinha em primeiro lugar e respeitava isso.
Eu só não queria vir em um segundo. Era pedir demais?
— Porque ele é um idiota que não percebe a boa coisa que ele
tinha, — Lucy disse enquanto colocava os braços em volta de mim com
tanta força que eu tinha que abraçá-la de volta. — Harris não é como
Jace, embora — ela tentou me assegurar. — Ele é um dos caras bons.
Por mais que eu soubesse disso, sabia que mesmo os caras bons,
faziam coisas estúpidas. — Mesmo os bons rapazes têm seus momentos
idiotas.
Ela não respondeu e depois de um momento de silêncio, onde eu
sabia que nunca seria capaz de convencê-la de que Harris Cutter era
nada além de seu cavaleiro de armadura brilhante, eu me puxei para a

147
saída. — O que você vai fazer durante o próximo mês? Você pode gastar
tantas noites na minha casa quanto quiser.
Eu não queria pensar no que eu estaria fazendo; em vez disso,
queria fazer o que sempre fiz. — Eu sei o que eu gostaria de estar fazendo,
— contei a ela. — Todo Natal nós íamos para Aspen por pelo menos uma
semana. Carter tem uma cabana lá em cima e nós saíamos para cortar
nossa própria árvore. Depois, a decorávamos com todos os tipos de coisas
estúpidas.
Baixei os cílios, tentando segurar as memórias que estavam me
atacando. As lutas de bolas de neve com os gêmeos. Minha mãe fazendo
seus biscoitos de gengibre especiais que nós todos nos esgueiramos na
cozinha para roubar quando ela estava de costas. De ir para a cama na
véspera de Natal com os sons de Angie zumbindo e a voz de minha mãe
quando ela lia A noite antes do Natal para nós ainda ecoando na minha
cabeça. Acordar sabendo que não importa o que estava debaixo da árvore
para mim, eu ficaria grata e amaria porque minha mãe o deu a mim...
Nenhuma dessas coisas aconteceria neste Natal.
— Minha mãe guardava todos os ornamentos artesanais que já
fez na escola, — disse Lucy para me distrair das coisas que eu teria no
Natal. — Portanto, há um monte de sinos, origamis, e renas feitas de copo
e isopor. — Lágrimas queimaram meus olhos e me vi confessando a
conversa que tive com meu pai. Era tão memorável porque nós tivemos
tão poucos delas, mas uma em particular era como um espinho no meu
sapado. — Quando eu perguntei ao meu pai se eu poderia ir para Aspen
com Carter e os gêmeos, ele se recusou a falar sobre isso comigo.
Aparentemente, Jillian tem um grande calendário social nesta época do
ano, e eu devo ir a todas as festas com eles.
Para mostrar o meu rosto com Georgia e Carolina, de modo que
quando as pessoas vissem a minha imagem em todos os tabloides de
fofocas, eles iriam associá-las comigo. Mas. Que. Porra. Por que isso era
tão importante quando tudo que eu queria era passar alguns dias com
Carter e os gêmeos? O que eu quero não importa?
Não, definitivamente não importa para eles, isso era certo.

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Inconscientemente, meu olhar foi para o carro onde Georgia e
Carolina já estavam sentados no interior. Eu abrandei o passo, andando
lento como um caracol, na esperança de prolongar um pouco o tempo
antes de ter que mergulhar de cara para a cova com as três víboras que
eram Jillian e suas filhas clones.
— Sanduíche de irmãos!
Eu congelei quando Lucy foi subitamente empurrada para longe
de mim e eu estava enrolada em dois pares de braços que pareciam tão
familiares que eu não queria questionar o abraço repentino. Levei dois
segundos antes de deixar cair as lágrimas que estavam queimando meus
olhos e um sorriso feliz borbulhou dentro de mim. Encontrei os olhos de
Angie, sabia que ela era real pelas lágrimas felizes em seu próprio olhar,
e ambos começamos a saltar para cima e para baixo com os braços
maciços de Caleb em torno de nós como um urso protegendo seus dois
filhotes.
Eu não era o tipo de garota que pulava de animação. Angie era,
porém, e eu a amava o suficiente para pular com ela. Eu gritei, rindo e
chorando enquanto ela me segurava mais apertado.
Foi vários momentos mais tarde antes de Angie se acalmar o
suficiente para que pudéssemos parar. Quando parei, olhei nos olhos
risonhos de Caleb. — Sentiu nossa falta? — Ele brincou.
— Se senti falta? — Eu não sabia se gritava ou sussurrava, mas
ele riu como se não tivesse importância. — Tanto que dói. — Eu beijei o
rosto de Angie, afastando alguns fios de cabelo loiro quando parecia
colado às minhas bochechas úmidas. Limpei as lágrimas e abracei-a mais
perto. — O que vocês dois estão fazendo aqui?
— Papai disse que sua madrasta não iria deixá-la vir até nós no
Natal, por isso, logo que o semestre terminou, nós pegamos o primeiro
avião para ver você, — explicou Angie. — Você vai ter que aguentar a cara
feia de Caleb por quatro semanas inteiras. Papai vai estar aqui na
segunda-feira. Ele tinha alguns negócios para cuidar antes de vir até
aqui, mas nós mal podíamos esperar para vê-la.

149
Naquele momento, não importava que eu não era o tipo
borbulhante que pula, porque eu estava fazendo exatamente isso,
enquanto gritava: — Sim, sim, sim, — eu disse, animada. Quatro
semanas das minhas pessoas favoritas. Quatro semanas da minha
família. Quatro semanas de paz.
Uma garganta foi limpada e só então eu me lembrei de Lucy.
Olhando para cima, eu a vi de pé atrás de Marcus onde ele deve tê-la
movido. — Lucy, venha conhecer o meu irmão e irmã.
Angie virou antes de Lucy conseguir se mover, oferecendo a mão.
— Lucy? Eu já ouvi muito sobre você. Muito obrigada por cuidar de Kin
para nós.
Eu não escondi nada sobre Lucy e a vida com Scott Montez para
os gêmeos. Eu não contei a Carter tanto quanto para eles.
O rosto de Lucy mostrou sua surpresa. — Não me agradeça, —
disse Angie. — Kin tem sido minha salva vida.
Eu fiz uma careta, perdendo o resto da conversa quando olhei
para Lucy mais perto. Eu a salvei? O que isso significa? Eu tentei pensar
na primeira vez que eu conheci Lucy, tentei comparar a forma como ela
era então, de como ela era agora, mas ela parecia a mesma garota feliz
que tinha me ajudado a atravessar um momento muito louco na minha
vida. Claro, ela estava apaixonada agora, mas essa era a única diferença
que eu realmente vi.
O que eu perdi?
Aquilo me deixou confusa, me fazendo querer fazer uma pausa
para voltar sobre todos os meses em que fomos melhores amigas. Quando
olhei para Lucy, observando como ela interagia com Angie e Caleb,
percebi que talvez houvesse uma diferença. Eu simplesmente não
conseguia descobrir qual.
Caleb terminou de abraçar Lucy, me forçando a voltar ao
momento em que ele enfiou as mãos nos bolsos. — Você realmente está
de castigo? O seu e-mail para Angie disse que você estava, mas que não
sabe por quanto tempo. O que diabos você fez, Kin?

150
Eu sabia que ele estava me provocando, mas lembrando que eu
estava de castigo e estourando minha bolha feliz. — Nada, — eu
resmunguei. — Pela primeira vez, eu não fiz absolutamente nada. Georgia
correu para o palco, beijou o vocalista e foi escoltada para fora do clube
com as mãos algemadas com abraçadeiras. — Eu não mencionei que foi
Jace quem ela beijou. Eu não estava pronta para mergulhar nessa
conversa com os gêmeos ainda. — Lucy nos deu uma carona para casa e
Marcus nos acompanhou até a porta para explicar ao meu pai e Jillian o
que aconteceu. Georgia ganhou um tapinha na cabeça da Mamãe
Querida e eu fiquei de castigo indefinidamente por não usar minha
“influência” para tirá-la do problema.
Ainda doía Scott ficar tão preocupado com Georgia, mas não me
poupar mais do que um olhar na noite anterior. Idiota.
A buzina ecoou nas paredes da escola atrás de nós e eu cerrei
meus punhos enquanto dizia a mim mesma que eu precisava me manter
longe de confusões. Isso significava não estapear as meias irmãs cadelas.
Embora, eu tenha certeza que Jillian iria usar isso como bom motivo para
melhorar as características de suas filhas.
— Vamos ver quanto tempo você fica de castigo quando o papai
chegar aqui, — Angie murmurou mais para si do que para qualquer outra
pessoa quando ergueu o dedo médio para as meias irmãs cadelas.
Ah, eu amava Angie pra caramba. Ela era um pouco deusa. A irmã
do meu coração parecia o que a maioria chamaria de anjo com seu longo
cabelo loiro e aqueles olhos azuis brilhantes. Ela tinha uma voz doce que
usava como sua vantagem muitas vezes e nos tirou de problemas mais
do que algumas vezes com ela. A coisa sobre Angie, porém, era que as
aparências nunca foram mais enganadoras. Ela era tudo menos um anjo.
Ela era puro inferno em sapatos de salto alto quando precisava
ser - ou quando queria ser. E quando ela estava comigo e seu irmão
gêmeo, ela queria ser. Frequentemente.
Caleb, por outro lado, parecia um animal lindo do inferno. Ele era
assustador com seu corpo tipo hulk e por vezes, ameaçador. Como sua

151
irmã gêmea, as aparências enganavam. O irmão do meu coração era mais
anjo do que sua irmã jamais poderia esperar ser.
— Mas nós não vamos sair hoje à noite, vamos? — Caleb disse
fazendo bico, me fazendo lembrar da situação em questão.
— Não, — eu murmurei enquanto lágrimas frescas picavam meus
olhos. Droga. Eu tinha chorado mais nos últimos dez minutos do que eu
tinha em seis meses.
Lucy foi rápido, embora. — Que tal eu levar vocês dois para sair
na cidade hoje à noite? Marcus e eu vamos buscá-los em seu hotel e levá-
los para jantar e, em seguida, até a First Bass. Vou dar-lhe a experiência
VIP completa.
Forcei um sorriso para ela. — Sim, vocês dois saiam. — Eu sabia
que Lucy iria cuidar das duas pessoas que significavam muito para mim.
— Saiam com Lucy e divirtam-se. Quando Carter chegar aqui será a
nossa vez. — Georgia bateu na buzina de novo e eu estava a dez segundos
de bater nelas, então abracei os gêmeos novamente. — Eu estou tão feliz
que vocês dois estão aqui. Eu amo muito vocês dois.
Angie abriu a boca, mas Carolina escolheu aquele momento para
gritar comigo. — Kin. Vamos. Mamãe está nos esperando.
Pelo menos era Carolina. Se tivesse sido Georgia, eu poderia ter
virado um diabo da Tasmânia em cima dela.
Mantenha-se longe de problemas, Kin.
Rangi os dentes quando me lembrei. Só mais alguns meses até
que eu tivesse dezoito anos.
Ainda assim, dei aos gêmeos um sorriso provocante. — Vocês
trouxeram dinheiro? Podem ter que me tirar da prisão mais tarde por
bater naquelas duas.
As sobrancelhas de Angie levantaram, seus olhos azuis cheios de
interesse. — Você está com medo de entrar em mais problemas?
— Ang, — Eu cobri meu coração com a mão. — Sério? Você se
esqueceu de mim tão facilmente?
Sem. Problemas.

152
Foda-se essa merda. Angie estava lá. Eu ia me divertir um pouco,
caramba.
Angie sorriu. — Eu te ligo mais tarde, docinho.
Ver aquele sorriso sarcástico em seu belo rosto me encheu com
tanto amor que quase doía. — Eu mencionei que senti sua falta? Por que
eu senti. Tanto assim. — Eu soprei-lhe um beijo e, em seguida, virei para
correr para o carro, onde Georgia estava com a mão pressionada na
buzina. Vadia do caralho.
Enquanto Georgia nos levou de volta para a casa, peguei meu
celular e selecionei o nome de Jace. Eu precisava pelo menos avisá-lo que
os gêmeos estavam na cidade.
Vendo que eu já tinha uma mensagem não lida dele, a abri.
Você vai até a First Bass hoje à noite?
Meus dentes afundaram em meu lábio inferior.
Estou de castigo. Mas Lucy vai estar lá... Com Caleb e Angie.
Assim que eu cliquei em enviar, vi que ele tinha recebido a
mensagem e já estava lendo, como se ele estivesse esperando que eu
respondesse. Ele fazia muito isso, eu me perguntava. Ele ficava
esperando depois de cada mensagem ao longo dos últimos meses?
Houveram muitas delas, e se ele ficou esperando pela resposta de cada
uma, tinha que significar algo.
Certo?
Porra, eu não sei, mas meu coração doeu a acreditar que sim.
VOCÊ RESPONDEU!!!
Revirei os olhos para o texto animado em caixa alta.
Pensei em avisá-lo que Caleb estava na cidade com Angie.
Eu tentei enfatizar isso para ele, mas ele não pareceu se importar
que eu estava tentando ajudá-lo. Ele ainda estava muito animado que eu
tinha respondido à sua mensagem.
Quando o castigo acaba? Posso te ver logo? Você pode me
LIGAR?

153
Eu murmurei uma maldição sob a minha respiração. Se Jace
estivesse sentado ao meu lado direito, então, eu teria erguido os ombros.
Ou batido algum sentido em sua cabeça dura.
ANGIE ESTÁ NA CIDADE, JACE. ANGIE. ELA VAI ATÉ A FIRST
BASS ESTA NOITE COM LUCY E CALEB. ANGIE. ANGIE. A. N. G. I. E.
Eu bati enviar e esperei que ele finalmente entendesse o que eu
estava tentando fazê-lo perceber. Caleb estava na cidade com Angie.
Angie, que iria chutá-lo nas bolas se o visse. Angie, que faria muito mais
danos com apenas a menor das provocações. Ele não precisa se
preocupar com Caleb, que era muito mais difícil de chatear e não ousaria
machucar ninguém a menos que Angie ou eu pedisse.
Angie rasgaria o sorriso de Jace St. Charles e sorriria como um
anjo quando terminasse.
Sim. Entendi isso, querida. Não importa. Quero ver você.
Quero ouvir sua voz. Me liga.
Antes que eu pudesse pensar em ligar ou não, o carro parou com
espasmos. Se eu não estivesse usando o cinto de segurança, teria sido
jogada com certeza. Afastando o tipo de náusea que vinha de um passeio
de montanha-russa que Georgia me causava sempre que estava ao
volante, eu rapidamente digitei uma última mensagem antes de
relutantemente sair do carro.
Eu te ligo mais tarde.

154
Capítulo 15

Ela ia ligar.
Porra, sim!
Finalmente.
Que Kin realmente me mandou uma mensagem de volta colocou
um sorriso estúpido no meu rosto. Com a promessa dela de me ligar, eu
estava realmente caminhando ao redor do apartamento cantando uma
das canções favoritas da minha playlist enquanto fazia um lanche tardio.
Principalmente, tudo o que tinha na geladeira era leite, ovos,
condimentos e muita cerveja. A despensa estava tão nua quanto, com
apenas algumas caixas meio vazias de cereais, sopa enlatada e uma
variedade de vitaminas de proteína em pó que Gray mantinha abastecido.
Ele era louco por suas proteínas em pó.
Mexi alguns ovos, acrescentei algumas fatias de torrada com
geleia de uva e fui para a sala para ver televisão enquanto esperava Kin
ligar. Eu não tinha ideia de quando, ou mesmo se ela realmente ia ligar,
mas não ia a lugar nenhum até que ela ligasse.
Enquanto eu comia o último pedaço de torrada, Gray entrou na
sala de estar em apenas uma toalha enrolada na cintura e seu telefone
ao ouvido. — Sim, ele está aqui, — ouvi-o dizer a quem ele estava no
telefone com ele. — Parece muito bem, Kas.
Eu atirei-lhe um olhar quando ele caiu sobre o sofá, estendendo-
se antes de cruzar as pernas. — Não. Você não precisa falar com ele. Eu
acabei de dizer que ele está bem... porque eu quero falar com você, é por
isso. Ele pode se virar.
Revirei os olhos e tomei um grande gole de café. Sabendo que Gray
não entregaria seu telefone para mim ou qualquer outra pessoa quando

155
se tratava de Kassa na outra extremidade, eu limpei minha garganta. —
Estou bem, Kas. Te amo, — eu gritei para que ela pudesse me ouvir.
— Viu? Ele está bem, como eu disse a você. — Ele escutou por um
segundo antes de grunhir. — Bem. Kas diz que ama você também, idiota.
Gray ficou no sofá, conversando com Kassa sobre tudo e qualquer
coisa que parecia vir à mente de Kassa. Eu sabia que minha irmã me
amava e confiava em mim, mas não do jeito que ela era com Gray. Eu
estava feliz que eles tinham esse tipo de relacionamento. Eu estava grato
que Gray se importava com ela tanto quanto eu e a ouvia falar por duas
horas seguidas sobre o seu dia sem reclamar.
Eles ainda estavam no telefone quando o meu próprio celular
vibrou com uma mensagem.
Estarei na First Bass em uma hora. Você vem?
Minhas sobrancelhas se ergueram para isso. Pensei que você
estava de castigo.
ANGIE ESTÁ AQUI.
Claro. Isso respondeu a essa questão particular perfeitamente.
Sorrindo para a tela, eu rapidamente respondi a mensagem, avisando-a
que a veria no clube, antes de me levantar. Gray sequer me poupou uma
segunda olhada quando levei meu prato sujo para colocá-lo na pia antes
de ir para o quarto me trocar.
Puxando uma camisa limpa sobre a minha cabeça, eu peguei meu
telefone novamente.
Você vai precisar de dinheiro e um advogado?
Houve uma longa pausa, mas logo vi que ela tinha lido a minha
mensagem.
Engraçado.
Eu sorri para a mensagem e, em seguida, na próxima que se
seguiu.
Talvez…
Rindo, eu peguei minhas chaves e sai.

156
Angie tinha me ligado e me dito para esperar na calçada. Eu não
a questionei, me vesti para a noite com o meu jeans favorito, uma blusa
e um casaco. Eu andei nas pontas dos pés e silenciosamente fechei a
porta atrás de mim enquanto levava minhas botas comigo.
Ela já estava esperando por mim quando cheguei e pulei no carro
sem dar uma segunda olhada para a casa do meu pai. Angie ligou o motor
do poderoso carro que Caleb deve ter alugado, e borracha queimou por
um momento.
Eu comecei a escorregar meus pés em minhas botas, já rindo do
olhar feroz no rosto da minha meia-irmã. Eu tinha acabado de escapar,
mas não haveria problemas em ser pega. Jillian e suas filhas estavam
fora, mas Scott estava em algum lugar na casa. Mas o olhar no rosto de
Angie e o sorriso em seus lábios fez parecer que ela tinha acabado de me
ajudar a escapar da prisão ou algo assim. Pelo jeito que ela estava
dirigindo, eu tinha certeza que ela achava que os policiais apareceriam a
qualquer momento para tentar me levar para longe dela.
— Você está bem? — Angie perguntou cinco minutos depois.
— Com você e Caleb aqui, estou mais do que bem. — Era a
verdade. Eu nunca estive melhor do que naquele momento.
— Bom. — Ela balançou a cabeça, seu cabelo loiro caindo em seu
rosto. Com um suspiro, ela empurrou as mechas de volta. — Onde você
quer ir, irmãzinha?
— First Bass, — Eu não hesitei em dizer a ela. — É onde Lucy
estará com Caleb.
— O clube do menino roqueiro, certo? — Ela assentiu com a
cabeça para si mesma. — Cash e os caras tocam lá, certo?
Dei de ombros. — Sim. Toda noite de quinta-feira. Cash não vai
estar lá hoje à noite, embora. A não ser que Caleb chame.
— Ele não conseguiu falar com Cash, então somos apenas nós.

157
Puxei meu telefone do meu bolso e olhei para as mensagens que
Jace e eu trocamos antes de virar meu olhar de volta para Angie. — Jace
vai estar lá.
Ela sequer piscou. — Ele vai? Bom.
— Por favor, seja boa — eu disse a ela. — Não comece problemas
no clube de Harris.
Angie ficou em silêncio por tanto tempo que eu não tinha certeza
de que ela ia me responder ou não. Então, ela soltou outro suspiro e
lançou um sorriso. — Não no clube de Harris. Entendi.
Eu não pude deixar de rir novamente e parecia que, na verdade,
veio da minha alma. Era tão bom estar tão perto de alguém que eu amava
mais do que a própria vida. Eu estava mais feliz do que estive em um
longo tempo e isso fez meu coração se sentir quente de uma forma que
não tinha desde o dia em que eu descobri que minha mãe não ia ficar
comigo para sempre.
Ao pensar em minha mãe, não pude evitar sentir as lágrimas
picando meus olhos. Pisquei-as de volta e voltei minha atenção para fora
da janela do passageiro do poderoso carro desportivo, não querendo ser
um infortúnio quando deveria estar em êxtase que Angie e Caleb estavam
realmente lá para mim.
O carro começou a parar e eu fiz uma careta, percebendo que não
tinha parado por um sinal ou por trânsito. — O que…?
Braços amorosos me envolveram, afastando minha pergunta. —
Eu sinto falta dela também, sabe — Angie sussurrou. — Ela era a única
mãe que eu realmente conhecia e sinto falta dela todos os dias, Kin. Não
há problema em sentir falta dela. Não há problema em chorar.
A dor apertou em torno do meu coração e tentei me afastar, mas
ela só apertou os braços, me forçando a ficar no abraço. As lágrimas
encheram meus olhos sem a minha permissão e de repente, eu estava
soluçando. Soluçando por todo o tempo perdido em que eu estive longe
da minha família de verdade. Soluçando pela perda de minha mãe.
Soluçando pela solidão.
Soluçando por mim.

158
Foi a primeira vez que me deixei realmente chorar desde que
minha mãe morreu. A primeira vez que deixava as lágrimas caírem tão
livres e abertamente. E mesmo que doesse tanto chorar, era bom
também. Era purificador. Eu tentei ser tão forte por tanto tempo, mas
naquele momento, eu precisava ser fraca e isso estava bem porque eu
sabia que Angie poderia ser forte o suficiente por nós duas. Mesmo que
apenas por alguns minutos.

Assim que cheguei na First Bass eu me dirigi até o andar VIP. As


noites de sexta-feira não eram tão selvagens quanto as noites de quinta
após o show da Tainted Knights, mas isso não quer dizer que não era
menos cheia. Especialmente no piso superior. Todos que eram alguém e
queriam ser vistos estavam lá, na esperança de acotovelar-se um com o
outro.
Eu não ligava para celebridades. Tudo que eu queria era
encontrar Kin e torcer para ter aquela maldita conversa que deveríamos
ter tido na noite anterior. Sabendo que Lucy gostava de ficar no canto
onde era mais sereno e privado, fui direto para os sofás lá atrás.
Encontrar Lucy sentada no colo de Harris enquanto estavam
sentados conversando com Caleb me surpreendeu. Os dois caras
estavam rindo e bebendo cervejas enquanto Lucy encostava a cabeça no
ombro de Harris e tomava um gole de seu refrigerante de costume. Ela
parecia sonolenta, mas seus olhos brilhavam com diversão, ouvindo a
conversa dos dois.
Marcus estava em uma cadeira a uns bons três metros de
distância. Ele tinha um copo de água gelada na mão, mas seus olhos
estavam sempre vigilantes enquanto ele parecia considerar todos perto
Lucy como uma possível ameaça, como se pudessem arrancá-la dali a
qualquer momento. Encolhendo os ombros, eu fui até os três.

159
Harris me viu primeiro e levantou sua cerveja em saudação. — Ei.
Achei que não viria hoje, cara.
— Kin me mandou uma mensagem — Eu disse enquanto caia no
segundo sofá ao lado deles. Meu olhar foi para Caleb. — E aí cara. Como
você esteve?
Caleb não me deu um olhar mortal como eu teria esperado, mas
mais uma vez, eu sabia que ele não era a verdadeira ameaça. — Não
posso reclamar. Você?
— Eu vou estar melhor quando suas irmãs chegarem aqui, — eu
assegurei a ele quando olhei em volta, na esperança de vê-las. — A que
horas, elas disseram que estaria aqui? Kin disse em uma hora. — Eu
cheguei em quarenta e cinco minutos, então eu sabia que ela ainda tinha
um pouco de tempo antes do prometido, mas porra, eu queria vê-la.
— Angie disse que ela estava ajudando Kin a sair da casa, então
acho que depende do que vai acontecer. — Os olhos do grande cara
estavam cheios de diversão quando inclinou a cerveja aos lábios
novamente. — Eu não estaria tão ansioso para vê-las, entretanto. Angie
pode guardar rancor um inferno de muito mais tempo do que Kin.
Encostei-me no sofá, esticando as pernas na minha frente. — Vou
ouvir tudo que Angie quiser falar quando Kin chegar aqui.
— Então, é aí que Angie está? — Lucy levantou a cabeça,
afastando seus cachos do rosto. Ela se mexeu, mas Harris apertou a mão
em sua cintura, como se para ter certeza que ela não fosse longe demais.
— É isso que você quis dizer quando disse que ela estava lidando com
“coisas de garota”?
Caleb sorriu. — Sim. Kin não estava brincando sobre dinheiro de
fiança antes. Angie pode ser uma mão cheia quando quer.
— Parece que ela vai combinar perfeitamente com Lu, — Harris
murmurou, o que o fez levar uma cotovelada nas costelas da menina em
seu colo. Ele riu e puxou a cabeça para trás para baixo em seu peito e
apoiou o queixo no topo de seus cachos com um olhar de puro
contentamento no rosto.

160
Ver a maneira como seus olhos estavam tão pesados quanto os de
Lucy me fez pensar no que aconteceu entre os dois, mas todos os
pensamentos deles foram subitamente cortados quando ouvi a voz de
Angie chamando por Caleb.
Eu pulei para os meus pés, meus olhos já à procura de Kin. Angie
era menor do que sua meia-irmã, mas eu conseguia detectar o cabelo
ruivo de Kin facilmente. Fui para a frente, precisando vê-la e tocá-la.
Quando elas entraram na minha linha de visão, eu parei ao ver que Angie
estava com os olhos vermelhos.
Elas estiveram chorando.
— Qual o problema? — Eu exigi, me movendo para tomar as mãos
de Kin.
Ela não se afastou imediatamente. — Nada, — ela me assegurou
com um pequeno sorriso. — Estou feliz em ver minha família, isso é tudo.
— Oh. — Eu a puxei para mim e ela se aproximou alguns passos.
— Você tem certeza que está bem? Tudo em casa vai bem?
Sua mandíbula se apertou e ela puxou as mãos. — Aquela não é
a minha casa.
— Ok, com certeza. — Eu agarrei uma de suas mãos e a puxei
para o sofá que eu tinha acabado de desocupar. — Vamos. Vamos sentar.
— Eu olhei para Angie por cima do meu ombro. — Você vai me chutar
nas bolas?
— Não no clube, — Angie disse para mim enquanto passava e
sentava no meu lugar de antes. — Prometi a Kin que não iria tocá-lo. No
clube.
— Certo... — Arrisquei um olhar para Kin, que só sorriu.
Balançando a cabeça, sentei na outra extremidade do sofá e puxei-a para
baixo na almofada do meio que me separava de Angie. — Então, enquanto
eu estiver no clube estarei seguro, não é?
— Basicamente, — Kin disse com uma risada. — Pode querer falar
com Harris sobre colocar uma cama para você ou algo assim.
— Angie, este é Harris — disse Lucy, apresentando-os. — Harris,
Angie. Ela é gêmea de Caleb.

161
— Prazer em conhecê-la, — Harris disse a ela, oferecendo a mão.
Angie apertou-a, mas rapidamente puxou para trás, olhar ao
redor procurando uma garçonete. — Alguém com sede?
— Qual é o seu veneno? — Uma garçonete perguntou ao se
aproximar depois de Harris acenar.
— Quero uma dose de 151, — Angie disse a ela.
— Você pensa em abastecer um foguete? — A garçonete
perguntou com uma sobrancelha levantada. — Essa coisa é poderosa.
— É o meu favorito, — Angie disse a ela com uma piscadela. —
Eu gosto de coisas poderosas.
— Você tem identidade? — A menina olhou para Harris. — Não
gostaria que o chefe me demitisse por não verificar.
Angie tirou sua licença de seu bolso e entregou-a. — Traga um
duplo, — disse para a menina depois que ela verificou sua data de
nascimento. — E uma garrafa de água.
— O que você quer beber, querida? — Perguntei, passando meu
braço sobre o encosto do sofá.
— Só água, — disse a ela com um encolher de ombros. — Eu
poderia realmente comer algo, embora. Eu não tive o jantar ainda.
Harris pegou seu telefone. — Pizza? Eu estou com fome também.
— Eu não. — Caleb passou a mão sobre o estômago. — Eu ainda
estou recheado com o que Lucy me alimentou anteriormente. Ang, foi a
melhor comida mexicana que eu já tive na vida.
— Ciumenta! — Angie fez beicinho. — Kin, temos que ir lá um dia.
— Vou levar as duas, — eu disse a ela, deixando meus dedos
roçarem sobre o braço nu de Kin.
O olhar azul de Angie disparou para mim e seus olhos se tornaram
ameaçadores. — Soa como um plano. Então, eu posso chutar o seu
traseiro e pedir um pouco de sorvete frito quando eu terminar. — Quando
tudo o que eu fazia era sorrir para ela, ela levantou as sobrancelhas. —
Alguma coisa aconteceu com você, St. Charles? Você bagunçou seu
cérebro quando chegou aqui na Califórnia?

162
— Não. Apenas feliz por estar aqui com Kin. Você chutar a minha
bunda vale a pena se ela vai sair comigo.
A cabeça de Kin pulou para cima. — Eu não disse que eu ia sair
com você.
Meu sorriso não sumiu. — Você vai. — Eu podia ver que ela estava
enfraquecendo. Ela me mandou uma mensagem anteriormente. Ela tinha
me avisado sobre Angie estar na cidade e até me disse para encontrá-la
no clube. Quer Kin quisesse admitir ou não, ela estava perto de me dar
uma segunda chance.
E eu não ia foder com isso.

163
Capítulo 16

Sair da casa de meu pai foi fácil. Voltar? Não muito. Eu tinha a
minha chave, então entrei com bastante facilidade. Tentar evitar ser pega
indo para o meu quarto era como tentar invadir o Fort Knox.
De alguma forma, eu fiz todo o caminho para o meu quarto.
Só para Jillian me seguir e exigir saber onde eu estive a noite toda.
Porra.
Não adiantava mentir. Eu disse a ela onde estive e com quem. Ela
não aceitou bem a notícia de que minha verdadeira família estava na
cidade e que Carter chegaria na segunda-feira. Eu acho que ela não
achava que Carter e os gêmeos realmente se importavam o suficiente para
mudar seus planos tradicionais para estar comigo.
Eu realmente era tão detestável assim para ela?
Provavelmente.
Tentei não permanecer nesse pensamento por muito tempo. Já
que Jillian tinha me pego entrando, eu estava basicamente de castigo
durante todo o fim de semana. Eu mal tinha permissão para deixar meu
quarto, e quando eu pude sair sair, era apenas para ir a alguma festa
estúpida de Natal que Jillian esteve morrendo de vontade de participar
durante o ano todo.
Passei quatro horas tentando me esconder, mas Jillian não deixou
isso acontecer. Ela me apresentou a todos que conhecia, garantindo que
cada pessoa soubesse que eu era a melhor amiga de Lucy Thornton e que
eu passei muito tempo na First Bass com os membros da nova banda de
rock, Tainted Knights.
Eu fiquei no centro das atenções durante a noite toda e odiei cada
segundo dela. A minha única salvação?

164
Jace enviou mensagens a noite toda. No começo, eu fiquei
relutante em responder, mas quando meu telefone continuou a vibrar na
minha pequena bolsa que eu fui forçada a levar, já que combinava com
meu vestido caro, eu descobri que Jace era o menor de dois males. Eu
podia encontrar um lugar tranquilo e enviar mensagens para ele pelo
resto da noite.
Claro que eu não consegui encontrar um lugar calmo, mas
consegui me divertir contando a Jace tudo o que eu estava fazendo
naquela noite. Quando lhe disse que três idiotas diferentes a quem Jillian
tinha me apresentado continuaram a me perseguir pela festa, ele exigiu
que eu ligasse.
Em vez disso, enviei-lhe uma foto que eu tirei de dois dos três
rapazes de pé no fundo, parecendo os perseguidores que eram.
No momento em que todos nós voltamos para casa naquela noite,
eu estava exausta, mas Jillian estava me provocando com cada coisa que
eu tinha feito de errado ao longo de toda a festa. Eu coloquei meus fones
de ouvido, fiz um sanduíche para mim e subi as escadas para o meu
quarto. Enquanto eu caia na cama com o sanduíche de peru na mão,
meu telefone começou a tocar.
Olhando para baixo, vi que era Jace e esperei enquanto mastigava
minha primeira grande mordida antes de responder. — Ei, — eu o
cumprimentei, forçando o meu tom para soar aborrecida. — E aí?
— Onde você está? — Ele perguntou, parecendo irritado.
— Eu estou no meu quarto, comendo um sanduíche. A comida na
festa não foi o suficiente para alimentar uma pessoa morrendo de fome,
e muito menos a mim. — Eu dei outra mordida no meu enorme
sanduíche, repleto de alface, tomate e picles. Jillian fez uma careta
quando eu espremi maionese e mostarda nele, mas eu não me importei.
Gostei ainda mais por isso.
— Eu pensei que você estava de castigo, — ele resmungou. — Se
eu soubesse que você ia sair hoje, eu teria ido àquela maldita festa
também.

165
Minhas sobrancelhas levantaram quando me virei para o meu
estômago e comecei a tirar os saltos altíssimos que fui forçada a usar a
noite toda. Eu tentei chutar Georgia na cabeça algumas vezes com eles,
esperando esfaqueá-la no olho com os saltos agulha. — Eu não queria
estar lá, bobo. Eu lhe disse antes. Eu estava lá porque a madrasta e meu
pai me fizeram ir. Eu ficaria feliz de ter ficado trancada nesse maldito
quarto a noite toda, mas tenho certos benefícios que Jillian gosta de
explorar. Como ter amigos famosos e tudo o que é bobagem.
— A madrasta de Harris tinha um convite para essa festa. Ela o
ofereceu para mim e Gray, mas não havia jeito de eu ir nessa merda. Se
eu soubesse que era onde você estaria, no entanto, teria aceitado a
maldita coisa. — Jace soltou um suspiro frustrado e pude imaginar suas
narinas dilatadas com seu aborrecimento.
— Eu não poderia imaginar você na festa, Jace. É totalmente fora
do seu ambiente. Uma mistura de riqueza gananciosa e idiotas
sorrateiros.
Jace soltou uma risada dura. — Estou acostumado a esses tipos
de festas, querida. Alicia obrigou Kas, Gray e eu a irmos nelas na maior
parte de nossas vidas. É o que acontece quando sua mãe adotiva vem de
um lugar cheio de dinheiro como Alicia veio.
Metade do meu sanduíche já tinha ido. Vendo uma mancha de
mostarda no meu polegar, eu o lambi antes de responder. — Sim, bem,
você é melhor do que isso, Jace. Eu não quero você lá. Além disso, gostei
de suas mensagens. Foi divertido, e chateou Jillian porque eu estava
ignorando os idiotas com quem ela queria que eu ficasse.
— Porra. Eu sabia que deveria ter ido.
Eu não pude deixar de rir com a ameaça em seu tom. Ele estava
com ciúmes? O pensamento me fez sorrir de pura felicidade. Por cerca de
dez segundos. Então forcei meu rosto em uma careta e olhei para os meus
travesseiros. — Está tarde, Jace. Eu preciso tomar banho e ir para a
cama. Carter vai estar aqui amanhã e eu quero estar descansada para
vê-lo.

166
— Você toma banho de manhã, — ele me lembrou com um
resmungo. Claro que ele se lembraria disso.
— Normalmente, — eu concordei, um sorriso mal dividindo meu
rosto, — mas alguma idiota com muita colônia me fez dançar e acabei
com o cheiro por todo o meu vestido e braços. Não quero isso nas minhas
cobertas.
— Pooorra!
Rindo da possessividade que ouvi alto e claro em seu rugido, eu
rapidamente lhe disse boa noite e desliguei meu telefone antes que ele
pudesse me ligar de volta. Era surpreendentemente bom, provocá-lo
assim e ouvir como ele ficou chateado. Quão ciumento. Quão possessivo.
Jace St. Charles ainda sentia alguma coisa e não era apenas o
desejo que quase nos fez queimar a primeira vez que estávamos juntos.
Não, havia algo mais profundo lá.
A única pergunta era: Eu queria descobrir o que esse algo mais
profundo era?
Adormeci naquela noite sem realmente saber a resposta.

****

Carter Jacobson era tão alto quanto seu filho, tinha os mesmos
olhos azuis e cabelos loiros como os seus dois filhos, e aquele olhar
enganosamente angelical em seus olhos me lembrava tanto de Angie que
eu queria rir. Vê-lo de pé com Scott Montez na sala de estar, com os
gêmeos de cada lado dele enquanto Jillian e Scott ficavam ali olhando
para ele com os olhos apertados, era além bizarro.
Meu primeiro instinto foi correr e jogar meus braços em torno
dele, e eu tinha feito isso, assim que a campainha tocou a menos de dez
minutos antes. Agora, em uma sala de estar cheia de quatro pessoas que
eu odiava mais do que qualquer outro lugar do planeta, bem como três
dos que eu amava mais do que tudo, enquanto eu estava no meio do que
parecia ser a terra de ninguém, eu só queria que ele me abraçasse
novamente.

167
Para minha mãe, foi amor à primeira vista com Carter. Para mim?
Levou um pouco mais de tempo para amá-lo tanto quanto eu amava
agora. Tipo, um dia e meio. Eu nunca tive uma figura paterna até Carter
entrar na minha vida. Scott não estava lá há muito tempo desde que
abandonou minha mãe e eu, mas não tínhamos realmente precisado dele
de qualquer maneira. E não era como se tivéssemos precisado de Carter
também, realmente. Nós queríamos precisar dele, e isso era uma grande
diferença.
Carter não disse uma palavra quando descobriu que eu vinha
como parte do pacote que era a bela Abigail Montez. Não tinha piscado
quando teve de assumir mais um filho para criar e ser pai. Eu nunca me
senti bem em chamá-lo de 'pai' em todos os anos que tinha sido uma
parte de sua vida, mas ambos sabíamos que eu o considerava como tal.
Meu pai.
O homem que havia me assumido sem sequer um resmungo e me
aceitou como se eu fosse do seu sangue como Angie e Caleb eram.
— McKinley está de castigo, — Jillian informou a Carter, soando
como a cadela pretensiosa que ela era. — Ela vem causando problemas
há semanas e agora eu finalmente alcancei meu ponto de ebulição. Eu
não vou apenas deixá-lo vir aqui e levá-la para um tratamento especial
como se ela não tivesse feito nada de errado.
Rangi os dentes para não discutir. Eu não tinha feito uma maldita
coisa para causar problemas. Todas as minhas notas eram ‘A’ e eu tentei
ficar o mais longe de Jillian e suas filhas, tanto quanto possível. Ela só
estava chateada que eu não queria brincar com suas pequenas pirralhas
ranhentas e dar-lhes um passeio na aba da nova fama que eu tinha,
aparentemente, adquirido não só como a filha reclusa de Scott Montez,
mas como a nova melhor amiga de Lucy Thornton.
Não que eu tivesse que explicar isso para Carter. Ele me criou,
pelo amor de Deus. Ele sabia quão problemática eu poderia ser, e a boa
pessoa que eu era também. Ele não era cego para os meus defeitos, nem
era imune a minhas boas qualidades. Ele me amava, independentemente
das coisas boas ou más.

168
Graças a Deus.

****

— Pelo que tenho ouvido, você colocou Kin de castigo porque ela
não quer brincar de boazinha com a garota loira e excessivamente
maquiada atrás de você. — Carter apontou com a cabeça para Georgia,
que estava com uma expressão satisfeita no rosto ao lado da mãe. Em
suas palavras, a presunção se transformou em um clarão e depois um
beicinho, como se pensasse que isso fosse funcionar no meu padrasto. —
Sua filha entrou em apuros e você esperava que Kin passasse por cima
de sua própria moral para ajudá-la. Isso e também fazer com que a
menina tivesse alguns minutos no centro das atenções. — Sempre aquele
para se ligar para qualquer situação, Carter deixou Jillian ofegando de
indignação dentro de três segundos com sua análise da situação. —
Deixar Kin de castigo foi desnecessário. E para não pisar no pé... ah,
porra, quem estou enganando? Eu realmente não me importo cuja calos
eu pisava no momento. Mas você não tem opinião no que se refere a Kin.
A única razão pela qual ela está aqui é para conhecer Scott-Idiota-
Montez. Abby provavelmente está rolando sobre sua sepultura... que
Deus a tenha... porque ela deve ver o erro que foi forçar Kin vir aqui e ter
que lidar com uma vagabunda como você.
— Do que você acabou de me chamar? — Jillian gritou. — Scott,
você vai ficar aí parado e o deixará fazer isso comigo, em nossa própria
casa?
Scott apenas deu de ombros. — Ele não falou mentiras, Jillian.
Cale-se por alguns minutos, sim?
Com outro grito, ela bateu o pé, parecendo mais como uma
criança mimada do que o adulto que ela tão obviamente era. — Eu não
vou ficar parada para isso, Scott. Faça esse homem sair. Agora.
— Feliz em sair, — Carter assegurou. — Mas Kin vem com a gente.
Nós não a vimos em meses e ficaremos aqui por quatro semanas para

169
recuperar o tempo perdido. Quer você goste ou não, ela vai nos ver o
quanto ela quiser.
— Scott!
Carter pegou minha mão. — Arrume-se, Kin, querida. Seu irmão,
irmã e eu estaremos lá fora esperando por você.
Não precisava falar duas vezes. Corri para o andar de cima, tirei
as botas e peguei meu telefone e um casaco. Se Carter ia me tirar do nono
círculo do Inferno, eu não diria não. Eu estava correndo de volta para
baixo pelas escadas antes mesmo de eles chegarem à porta da frente.
Sem um olhar na direção de meu pai, que agora estava acalmando as
penas amarrotadas de Jillian, eu agarrei a mão de Caleb quando ele me
ofereceu e o deixei me puxar para o sol.
Rindo, eu pulei nas costas de Caleb e ele me levou para o Escalade
alugado, onde Carter estava subindo ao volante. Com todos nós
finalmente dentro, olhei em volta para os três Jacobsons e desejei com
todo meu coração que eu tivesse o mesmo sobrenome.
— Para onde? — Angie perguntou do banco do passageiro da
frente.
— Café da manhã, — eu disse a ela. — Eu preciso de comida.
Carter riu quando colocou o SUV em movimento e saiu da
garagem. — Alimento e diversão. — Seus olhos encontraram os meus no
espelho retrovisor. — Senti sua falta, Kin.
Meu coração torceu e eu tive que piscar de volta uma enxurrada
de lágrimas, mas meu sorriso era brilhante quando ofereci a ele. — Eu
senti mais.
Ao longo dos próximos dias, eu gastei muito tempo com Carter e
os gêmeos. Eu não vi Lucy, mas mandei mensagem para ela algumas
vezes. Jace mandou uma mensagem também, mas eu estava tão
envolvida em passar tempo com os meus entes queridos, que não tive
tempo para respondê-lo. Pela maior parte isso foi bom, porque eu ainda
não sabia como lidar com esta nova mudança em nosso relacionamento.
Eu meio que sentia falta dele, no entanto.
Ok, não mais ou menos. Eu sentia.

170
Mais do que um pouco, mas com as coisas na casa de meu pai
ficando loucas, eu não tive tempo para pensar sobre o quanto estava
sentindo falta dele. Mais uma vez, uma coisa boa. Eu não estava pronta
para examinar o porquê eu sentia falta dele.
Ainda não.
Após a primeira semana, Jillian começou a manipular as coisas e
eu fui forçada a ir para mais festas. Ela estava tornando o feriado de Natal
– o meu feriado favorito no passado – meu período menos favorito do ano,
com todas as festas que eu tinha que ir. Desde que eu me acostumei a
passar as minhas manhãs com Carter, ela começou a me manter fora
mais e mais tarde em suas malditas festas e eu estava exausta quando
eu saia com meu padrasto e os gêmeos.
Eu estava sendo puxada em duas direções diferentes, uma que eu
queria ir... merda, uma para a qual eu queria correr... enquanto eu
preferia ir para o dentista tratar um canal do que ter que ir na outra. A
tensão estava elevada na véspera de Natal. Eu só queria um presente
naquele ano e era ir para casa, mas isso não ia acontecer. A promessa
que eu fiz a minha mãe ainda estava tocando no meu ouvido. Eu sabia
que se ela ainda estivesse viva, não teria ficado magoada comigo se eu
voltasse atrás nessa promessa, mas ela me criou para não ser uma
desistente.
Eu gostaria de completar meus 18 anos em fevereiro dizendo que
eu tentei. Gostaria de terminar o meu ano escolar lá, mas não sob o
mesmo teto que a rainha estupida conhecida como Jillian Montez. Eu
não sei onde iria morar quando fizesse 18, mas eu sabia que não tinha
que me preocupar. Não só a família de Lucy me ofereceu um quarto, mas
Carter já tinha prometido para mim alugar um apartamento se era isso
que eu queria.
A Véspera de Natal de Gala que eu participei era outra festa que
fui forçada a ir, mas eu conversei com Emmie, tia de Lucy e ela conseguiu
mandar convites para Carter e os gêmeos. Meu padrasto era um
empresário extremamente bem-sucedido na Virgínia e não era um

171
homem pobre para os padrões de ninguém, mas ele não era uma
celebridade, então as pessoas deram-lhe um olhar frio.
Eu odiava a forma como algumas pessoas olharam para baixo de
seus narizes para ele naquela noite. Carter era um superstar aos meus
olhos e todo mundo poderia engolir isso por tudo o que me importava.
Especialmente Jillian, que estava em um canto cercado por seu pequeno
bando de amigos. Ela atirou a Carter e os gêmeos, zombarias e sussurrou
aos ouvidos de quem quisesse ouvir sobre eles.
Rangendo os dentes enquanto o pequeno grupo disparava a Angie
um olhar e depois explodia em risos, eu os afastei deles. Era isso ou ir lá
e socar minha madrasta no rosto. Por mais que eu quisesse fazer isso, eu
não daria a Jillian a satisfação de a) me deixar de castigo novamente, ou
b) usar minhas ações para sua vantagem, ganhando a simpatia dos
tablóides para a história sobre como a enteada era incontrolável e
perigosa. Eu podia ver as manchetes e sabia que Jillian iria absorver cada
gota do holofote que viria a seguir.
— Eles soam como um pequeno bando de hienas quando riem
assim, não é?
Eu quase pulei com a voz atrás de mim. Eu estive escondida em
um canto, longe de todos, incluindo os gêmeos. Eu pensei que o meu
esconderijo era muito bom. Eu podia ver todos enquanto eles realmente
não podiam me ver, a menos que alguém estivesse procurando.
Virando, eu não conseguia evitar que meus olhos se arregalassem
quando meu olhar caiu sobre Jace. Eu não o vi nas últimas três semanas,
então vê-lo bem ali fez meu coração acelerar. Ele estava vestido com um
smoking com seu cabelo arrumado em um estilo desleixado que eu tinha
aperfeiçoado para ele no passado, passando meus dedos por ele uma e
outra vez.
Eu queria correr meus dedos por ele de novo quando ele me
beijou.
Balançando a cabeça para dissipar essa necessidade repentina,
eu fiz uma careta para ele. — O que você está fazendo aqui?

172
— Natalie Cutter me deu um convite, — ele me disse com um
sorriso maroto quando colocou a mão na parede por trás da minha
cabeça e se inclinou para frente. — Achei que era a única maneira de vê-
la antes do Ano Novo. Você não está retornando as minhas ligações ou
mensagens.
Baixei os olhos para o casaco, não querendo ver como seu olhar
parecia me comer viva, uma vez que deslizou sobre mim como uma
carícia física. — Eu estive ocupada, — eu disse a ele honestamente.
— Foi o que Lucy me disse, — disse ele com um aceno. — Pais
brincando de cabo-de-guerra pelo que eu escutei. Mas você esteve tão
ocupada que não podia tirar dois segundos para mandar uma mensagem
para mim e me avisar que está tudo bem?
Meus dentes afundaram no interior do meu lábio inferior. Ele
parecia realmente preocupado e isso fez borboletas aparecerem no meu
estômago de uma forma que me fez sentir tanto doente quanto animada.
— Não, — eu finalmente respondi, — porque eu não sei se estou bem ou
não.
— Porra, Kin. — Sua mão livre ergueu para descansar no meu
quadril enquanto ele me puxava para o seu calor do corpo. — Baby, você
deveria ter me ligado. Eu poderia ter...
Minha cabeça se levantou. — Poderia ter o que? Você não poderia
ter ajudado, Jace. Nada nem ninguém pode ajudar. — Minha voz falhou
e fiz uma careta pelo modo emocional que eu estava exibindo. Porra, eu
não queria estar emocional. Eu odiava isso.
Seus olhos azuis pareciam tempestuosos quando ele olhou para
mim. — Eu poderia ter te abraçado, Kin. Eu poderia ter abraçado você e
dizer que tudo ia ficar bem no final.
Um sopro trêmulo saiu de mim com essas palavras.
Ele poderia ter me abraçado.
Isso era o que eu queria quando minha mãe morreu... ter esses
braços fortes me segurando, enquanto o meu mundo desmoronava, mas
ele não estava lá. Agora ele estava se oferecendo para fazer exatamente
isso e eu doía por ele com tudo dentro de mim, mas eu tinha que ser forte

173
e não cair em seus braços. Eu não tinha certeza do que eu queria e não
podia ceder e foder as coisas.
— Eu pensei que você ia ter companhia para os feriados, — eu
disse. Lucy tinha me dito que a irmã de Jace viria da Virgínia por alguns
dias, mas eu não tinha tido a chance de perguntar se Kassa veio ou não.
— Kas não pode vir no último minuto, então Gray voou para estar
com ela e Alicia. — Seus dedos apertaram no meu quadril, me puxando
pela última polegada que nos separava.
— Oh, — eu murmurei. — Por que você não foi com ele? Você
ficará sozinho no Natal? — O pensamento disso só me deixou triste por
ele. Ninguém deve ficar sozinho no Natal.
Ele encolheu os ombros. — Eu sabia que você estaria aqui esta
noite e não queria perder de vê-la. Eu vejo Kassa todo ano na manhã de
Natal desde que ela nasceu. Este ano, eu queria estar com você.
Meu pulso começou a bater rápido, mas levantei uma sobrancelha
como se suas palavras não tivessem me afetado. O brilho em seus olhos
me disse que ele viu através da minha fachada. — Você se arriscou, Jace.
E se eu tivesse pulado esta festa? Então você teria ficado na Califórnia
para nada.
O início de um sorriso brincou no lado esquerdo da sua boca. —
Foi uma oportunidade que eu estava disposto a tomar, querida. — Ele
abaixou a cabeça e esfregou o nariz contra o meu. A sensação de sua
respiração quente deslizando sobre meus lábios me fez tremer e eu senti
mais do que ouvi a risada dele em resposta. — Além disso, se você não
estivesse aqui, eu teria abandonado este terno de pinguim e ido à sua
procura. Tudo o que eu queria para o Natal é cinco minutos a sós com
você, Kin, e eu estava determinado a me dar esse presente.
Inclinei minha cabeça contra a parede, sorrindo para ele. — Você
é tão arrogante, você sabe disso?
— Qual é o seu ponto? — Ele piscou e esfregou seu nariz sobre o
meu de novo. Porra. Por que isso parecia mais íntimo do que um beijo?
Meus mamilos estavam duros como diamante no meu sutiã e minha
calcinha estava molhada apenas de estar perto dele, mas ter o seu nariz

174
esfregando tão cuidadosamente sobre o meu fez meu coração bater de
uma forma que me deixou eufórica.
E isso me assustou demais.
— Você está linda nesse vestido, por sinal. — Eu tremi de novo
quando ele moveu a mão para fora da parede para tocar minha clavícula
exposta do vestido de baile sem alças. Sim, um vestido de baile, porra.
Eu odiei colocar a maldita coisa, mas com Jace me tocando tão
ternamente, eu estava feliz de estar vestindo isso. — Eu preferia que você
estivesse de jeans e uma camiseta velha, entretanto. Essa é a minha
verdadeira Kin. Não essa versão Boneca Barbie, — ele murmurou. —
Quero dizer, você está sexy e tudo mais, baby, mas eu amo a outra Kin
muito mais.
Ele tinha acabado de dizer amo? Minha mente nublada com
desejo não conseguia segurar esse pensamento por muito tempo.
— Jace... — Minha voz saiu rouca, cheia de tudo o que eu estava
sentindo e tentando tão forte combater. — Nós não deveríamos estar
fazendo isso.
— O problema é que deveríamos estar fazendo isso o tempo todo,
baby. — Seu nariz acariciou a minha bochecha até o meu ouvido. — Eu
sofro de saudade de você, Kin. Eu sofro pra caralho e eu preciso de você
para mandar a dor para longe.
— Jace, — Eu choramingo quando sinto seus lábios na minha
orelha, seus dentes afundando na minha carne de uma maneira que ele
tinha me mostrado que poderia me levar ao limite. — Por favor... pare.
Eu...eu não estou... hum... oh, isso é bom... Jace... pare. Eu não vou...
aliviar qualquer dor. — Suas dores não eram nada em comparação com
as minhas. Eu me contorci contra ele, sentindo o pulso da 'dor' contra o
meu estômago, o que só deixou a minha própria dor muito mais intensa.
— Cadela!
Eu me afastei com o alto e irritado tom de voz de Angie. Era como
ser encharcada com um balde de água gelada. Virando a cabeça para
longe de Jace, eu vi a minha meia-irmã de pé, frente a frente com Jillian
no meio do seu rebanho. Os olhos redondos dos amigos de Jillian eram

175
insultantes enquanto eles olhavam para Angie como se ela fosse um
inseto para esmagar sob seus saltos Louis Vuitton. Jace seguiu meu
olhar, seu corpo tenso de repente por uma razão que não era a nossa
necessidade mútua um pelo outro.
O olhar no rosto de Angie era selvagem. A versão angelical tinha
desaparecido, substituída por cem por cento diabo, e o diabo estava
pronto para pegar Jillian, que era mais um assecla do inferno do que
qualquer pessoa que já conheci.
— Doce Jesus, — Jace murmurou. — Isto não vai ser bonito.
Eu passei por debaixo do braço e me dirigi para onde a minha
meia-irmã estava acumulando uma grande multidão. Havia pura
maldade nos olhos de Jillian, com uma pitada de alegria. Porra, ela estava
gostando de tudo o que estava acontecendo, o que me disse que era pior
do que eu podia imaginar.
— Eu não vou ficar sentada enquanto você fala sobre a minha
irmã assim, — Angie durou. — Você não tem direito de julgar ninguém,
sua vagabunda hipócrita.
— Angie... — Caleb tentou intervir, mas um olhar de sua gêmea o
fez levantar as mãos em sinal de rendição quando ele deu um passo para
trás.
— É como eu vejo, menina. — O sorriso de Jillian estava no lugar
agora e eu quase podia sentir o calor enquanto a raiva de Angie se
formava. — McKinley é uma...
Tudo o que ela ia falar foi cortado quando Angie deu um passo em
direção a ela, com as mãos fechadas em punhos apertados em seus lados
levantando para tomar um balanço para o rosto construído de Jillian.
Antes que ela pudesse acertar a madrasta, Carter estava lá, puxando sua
filha para longe do alvo pretendido.
— Eu vou destruí-la, — Angie fervia. — Eu vou cortar os seus
peitos falsos do caralho e vender os sacos de soro fisiológico pelo maior
lance. — Ela lutou contra o aperto de seu pai. — Diga isso de novo,
vagabunda. Diga isso de novo, eu te desafio.

176
A multidão em torno deles só foi crescendo e eu tive que empurrar
o meu caminho. Até o momento em que cheguei a eles, Scott tinha
aparecido com Georgia e Carolina. Georgia tinha um olhar de satisfação
no rosto, mas Carolina estava franzindo a testa e olhando de Angie para
a mãe. Eu vi alguns flashes e percebi que isso era exatamente o que
Jillian queria. Ela estava ganhando seu desejo de Natal quando sua
imagem aparecesse na edição da manhã de todos os tablóides no país.
Senti uma mão na minha cintura quando eu abrandei e percebi
que Jace tinha me seguido.
— Controle sua filha, Jacobson. — Scott latiu. — Ela está fazendo
um espetáculo de todos nós.
Em vez de incentivar Carter a lidar com Angie, no entanto, isso o
deteve. Ele afrouxou seu domínio sobre ela e ela teria ido para a garganta
de Jillian se Caleb não tivesse pisado entre eles.
— Você está dando a ela exatamente o que ela quer, — ouvi meu
meio-irmão resmungar para sua gêmea. Ele teve que usar toda a sua
força para segurá-la enquanto ela lutava contra ele com o triplo da força
que seu corpo pequeno poderia ter tido.
— Eu não dou a mínima, — Angie rosnou. — Ela não pode falar
sobre Kin assim e continuar respirando.
Enquanto o aperto de Caleb não diminuiu, seus olhos
estreitaram. — O que diabos foi que ela disse, Ang?
Eu não me importava o suficiente sobre o que Jillian poderia ter
dito sobre mim. Minha atenção foi retirada dos gêmeos para o meu
padrasto agora de pé frente a frente com o meu pai. — Controlar a minha
filha? — Carter falou com uma voz tão calma e serena que eu sabia que
havia reais problemas fervilhando. Carter só tem esse calmo olhar
perigoso em seus olhos quando estava tão chateado que ele estava
tentando se conter. Eu tinha visto algumas vezes ao longo dos anos e,
geralmente, quando ele lidava com negócios, nunca em uma situação
pessoal como esta. — E quanto a você controlar a cadela de esposa que
você tem, filho da puta? Talvez se crescesse um conjunto de bolas em

177
você, você podia ficar de pé por si mesmo por uma vez em sua vida e
cuidar das coisas importantes.
Ouvi a respiração de Jace silvar para fora dele enquanto escutava
Carter brigar com Scott. — Pegando fogo, — ele murmurou com uma
risada baixa. — Porra, eu senti falta da sua família, querida.
Eu não podia encontrar uma resposta. Isso estava se
transformando em uma zona de guerra em torno de mim, e enquanto em
qualquer outro momento eu teria estado em pé ao lado de Carter e Angie,
atirando os meus próprios socos, bem agora eu estava imaginando o
resultado do que estava acontecendo. Angie presa por agressão se ela
alcançasse Jillian. O nome de Carter estampado na frente dos estúpidos
tablóides e arruinando seu negócio.
Eu não deixaria isso acontecer. Não por mim.
Dando um passo à frente, eu envolvi minhas mãos em torno dos
pulsos de Angie. Ela empurrou como se eu tivesse a eletrocutado, a
cabeça estalando de volta quase como se eu tivesse a esbofeteado. Olhos
azuis selvagens encontraram os meus e alguma raiva esmaeceu. — Ela
disse...
— Eu não me importo, Angie. Tudo o que ela disse não importa.
Ela não importa. Pare com isso antes de entrar em apuros.
Dor misturava com sua raiva, fazendo o queixo tremer levemente.
— Ela é má, Kin. Você não deveria ter de lidar com ela.
Puxei-a para longe de Caleb e para os meus braços, abraçando-a
apertado. — Ela não importa, — eu repeti. — Você é melhor do que ela,
então não se rebaixe ao nível dela e dê a ela o que ela quer.
Ela relaxou em meus braços e eu sabia o que iria seguir a
tempestade que quase se transformou em furacão. Senti as lágrimas no
meu ombro nu. Um soluço borbulhava, mas segurei a cabeça dela contra
mim, afogando-o para fora para que os abutres de fofocas com fome em
torno de nós não ouvissem.
Eu me agarrei a ela por um minuto antes de olhar para Jace. Atrás
de mim, Scott e Carter ainda estavam lançando insultos um para o outro
e eu tive que intervir rapidamente, antes que a reputação de Carter fosse

178
arruinada. Como se estivesse lendo a pergunta nos meus olhos, Jace
aparece ao meu lado e eu entreguei Angie para ele, sem dizer uma
palavra.
Caleb estava quieto ao nosso lado, seus olhos em Jillian, que
estava mais uma vez cercada por seu rebanho, que tinha crescido em
pelo menos seis mulheres agora. Eu sabia que não teria que me
preocupar com ele fazendo nada de estúpido, virei para o meu pai e me
empurrei entre ele e Carter. Empurrei Scott para trás, e porra, foi bom
quando ele tropeçou para trás alguns passos.
— Isso é o suficiente, — eu disse a ele antes de olhar para Carter.
— Por favor, pare. Você é melhor do que isso, Carter. Não deixe que eles
te derrubem. Não o deixe arruinar o que você tem. Ele destrói tudo o que
toca. Eu não quero vê-lo adicionado à pilha de lixo que já está uma milha
de profundidade, Carter.
Eu passei meus braços em torno de sua cintura quando ele baixou
os olhos de vergonha. — Vamos, — eu murmurei, meu tom de voz calmo
e suave como eu tinha ouvido minha mãe usar quando ela tentava
acalmar o marido no passado. — Vamos pegar algo para comer e relaxar
no hotel.
— Eu sinto muito, Kin. — Ele soltou uma respiração áspera. —
Sua mãe ficaria com tanta vergonha de mim agora.
Meus braços se apertaram ao redor dele. — Bem, eu estou muito
orgulhosa de você, e uma vez que ela não está aqui, isso é tudo que
importa. — Eu dei a ele um sorriso travesso, que me deu um sorriso sem
entusiasmo em troca. — Eu estou realmente, realmente com fome.
Podemos pedir comida chinesa?
Atrás de mim, Jillian soltou um protesto irado que soou quase
como um grito. — Você não vai com eles. Eu não vou permitir isso, — ela
gritou. — Você veio aqui com a gente, McKinley, e vai sair com a gente.
Suspirei e me virei para ela, minha expressão em branco, então
ela não iria ver quão chateada eu realmente estava. Ela já tinha começado
um show por uma noite, eu não estava prestes a dar-lhe outro. — Eu
acho que todos nós sabemos que você não conta agora, Jillian, então o

179
que você quer realmente não importa. — Eu passei uma mão ao redor da
muito maior de Carter.
— Vejo você amanhã, — eu disse por cima do meu ombro
enquanto os conduzia para longe da multidão como se eu não tivesse sido
afetada pela tempestade de merda, que eu tinha certeza de que iria se
seguir na manhã seguinte.
Jace, ainda com os braços cheios de Angie, nos seguiu. — Eu
poderia realmente querer um pouco de frango adocicado, se vamos pedir
comida chinesa.
— Só se você prometer compartilhá-lo. — Eu atirei-lhe um sorriso
agradecido quando nós deixamos o local e Caleb entregou o bilhete para
o manobrista. Ele estava mudando de assunto, agindo como se nada
tivesse acontecido e eu não estava com medo de admitir, pelo menos não
para mim mesma, que eu o amava por isso.
— Se você compartilhar o macarrão, querida.
Ele era um negociador difícil, mas eu realmente gostava de
compartilhar seu frango adocicado. — Combinado.

180
Capítulo 17

Passei o resto da noite de Natal e todo o dia de Natal com Kin e


sua família em sua suíte de hotel. Assim que chegamos em seu quarto,
alugamos o filme How the Grinch Stole Christmas, desenho animado
favorito de Kin, e comemos comida chinesa. Kin estava deitada entre mim
e Caleb no sofá na área de estar e antes dos créditos sequer começaram
a passar ela estava dormindo com a cabeça no meu ombro e seus pés no
colo de seu meio-irmão.
Foi algumas horas mais tarde antes de Caleb e Angie irem para a
cama, mas eu decidi ficar onde estava, odiando a idéia de deixar Kin.
Carter me cobriu com um cobertor extra e me arrumei para dormir
sentado com Kin em meus braços. Foi a melhor noite de sono que eu tive
em meses, mesmo acordando na manhã seguinte com um torcicolo.
Os Jacobsons estavam mais do que felizes em me deixar ficar no
dia de Natal enquanto ficávamos em sua suíte. Era mais do que eu
poderia ter pedido, passar o dia inteiro com Kin quando tudo o que eu
realmente queria era apenas cinco minutos com ela.
No final do dia, no entanto, Carter disse a Kin que ele e os gêmeos
estavam voltando para a Costa Leste na manhã seguinte.
— Não, — ela protestou enquanto balançava a cabeça. — Você me
prometeu quatro semanas. Eu ainda tenho pelo menos mais uma
semana.
Carter suspirou, cansado. — Querida, nós lhe causamos
problemas suficientes com Scott e aquela mulher idiota dele. Nós não
queremos adicionar mais para o seu prato agora.
Eu observava impotente quando lágrimas encheram os olhos de
Kin, mas ela as tinha piscado, tentando evitar que caíssem. — Eu não

181
me importo com eles. Eu não quero que você vá embora. Eu sinto falta
de vocês... muito. — Quando a voz dela quebrou, eu quis puxá-la em
meus braços e nunca deixá-la ir. — P...por favor, não vá.
A dor no rosto de Carter era a mesma de sua enteada. — Kin…
— Voltamos para o seu aniversário, docinho, — Angie correu para
assegurá-la. — Não perderemos. E eu prometo que vamos compensar
todos os problemas que causamos. — Ela apertou sua mandíbula e olhou
para fora da janela. — Que eu causei.
O queixo de Kin tremia. — Eu não me importo com isso. Eu posso
lidar com Jillian.
O grande corpo de Caleb se agachou na frente dela. — Talvez
possa, mas ela vai relembrar o que aconteceu na noite passada. Ela irá
tornar sua vida ainda mais miserável do que já está, querida. Queria que
você fosse para casa com a gente.
— Eu... eu não posso fazer isso. Prometi a mamãe.
— Ela não faria essa promessa se soubesse como essa cadela
louca era, Kin. Você sabe disso, — Carter rosnou.
Ela encolheu os ombros. — Eu não vou desistir. Eu não tenho que
esperar muito mais tempo. Quando eu fizer dezoito anos, eu vou embora.
Caleb soltou um suspiro frustrado e voltou seus olhos azuis para
mim. — Prometa que vai cuidar dela.
Eu sequer hesitei. — Eu prometo.
— Quero dizer. Realmente cuidar dela este tempo, Jace. Eu
preciso de você para fazer isso por mim.
— Caleb, eu juro que vou cuidar da sua irmã. Você não tem nada
com que se preocupar, cara. Vou lidar com tudo que ela precisar. —
Nossos olhos se encontraram por quase um minuto inteiro enquanto eu
tentava fazê-lo ver o quão sincero eu estava sendo agora sobre Kin.
Seja o que foi que Caleb viu deve tê-lo convencido porque ele se
endireitou e estendeu a mão para mim. — Obrigado, cara.
Eu apertei sua mão, aliviado de que ele confiaria em mim com algo
tão importante. Ele tinha que saber o que Kin significava para mim. Tinha
que entender que eu a amava e só queria sua felicidade.

182
Mais tarde naquela noite, fui para casa para dar a Kin uma noite
a sós com sua família antes de irem embora na manhã seguinte. Eu
cheguei no hotel para buscá-la e levá-la para casa, na mesma hora que
os gêmeos subiram no carro esportivo alugado que Caleb vinha usando
desde que chegaram.
Quando eu estacionei meu carro e caminhei em direção a Kin, eu
percebi que ela estava chateada. Até o momento em que cheguei, ela
estava perdendo a batalha para não deixar as lágrimas caírem. Quando
a primeira rolou sobre seus cílios e sobre sua bochecha, eu passei meus
braços em torno dela e puxei sua cabeça no meu peito. — Baby, — eu
respirei em seu ouvido, — Vai ficar bem. Eu prometo.
Seus ombros tremeram com o soluço que ela estava tentando
segurar. — Eu já esto..ou senti...indo saudades deles, — ela sussurrou
entrecortada.
— Eu sei, baby. Eu sei. — Eu a acomodei contra mim, enquanto
ela desistia da luta de ser forte e chorou tanto que eu me preocupei se
danificaria algo internamente. Os sons que a deixavam me evisceravam,
mas eu só apertei meu abraço nela. — Estou com você, Kin.
Passou um longo tempo até aqueles sons arrasadores pararem.
Ela estava mole nos meus braços e eu levantei minha cabeça para olhar
para ela com preocupação. — Sente-se melhor?
Ela balançou a cabeça enquanto limpava as lágrimas com a ponta
dos dedos. — Nem um pouco.
Eu segui o caminho de uma lágrima errante, uma vez que caiu
pelo seu rosto e se agrupou no canto de sua boca, em seguida, acariciei
o meu polegar sobre o lábio inferior cheio. — Sinto muito, querida. O que
posso fazer para tornar isso melhor?
Ela respirou trêmulo. — Você não pode, mas obrigado por estar
aqui comigo.
— Eu não gostaria de estar em nenhum outro lugar, Kin.
Ela não respondeu e baixou os olhos para que eu não pudesse ver
o que ela estava pensando. Depois de alguns segundos, ela colocou os

183
braços em torno de si e olhou para o meu carro. — Você pode me levar
de volta para a casa de Scott agora?
Eu não queria que ela voltasse para lá mais do que Carter ou os
gêmeos queriam, mas eu balancei a cabeça em acordo e peguei sua mão.
Entrelaçando os dedos, eu a levei para o meu carro e abri a porta do
passageiro para ela. Depois de ela ter entrado e colocado o cinto de
segurança, fechei a porta e dei a volta para o lado do motorista.
Ela ficou quieta na viagem de volta a Malibu, e com cada
quilometro que nos levava para mais perto da casa do pai, eu queria pedir
que ela fosse para o meu apartamento e ficasse lá. Se ela não quisesse
dormir na minha cama comigo, havia um quarto de hospedes que eu
daria a ela. Ela poderia viver comigo e Gray até se formar e depois...
Então quem sabia. Talvez ela ficasse. Talvez ela pudesse ir para a
faculdade por perto e eu não teria que lhe dizer adeus novamente.
Talvez…
Porra. Meu punho bateu no volante enquanto eu me aproximava
de sua casa, forçando-a, finalmente, a levantar a cabeça e olhar para
mim. — Qual o problema? — Ela perguntou, sua voz soando rouca por
todo o choro de antes.
— Não é nada, — eu menti. — Só odeio que você esteja
machucada, querida. — Isso não era mentira. Era uma tortura ver a dor
em seus olhos. Ver como ela estava pálida e quanto mais pálida ela tinha
ficado com cada rodada dos pneus do carro. Isso não estava certo. Eu
não deveria estar levando-a de volta para a casa onde ela não se sentia
bem-vinda, para uma família que não a amava.
— Eu vou trocar minhas roupas e depois vou a pé até a casa de
Lucy, — ela me disse. — Você não tem que se preocupar comigo, Jace.
Eles não podem me quebrar.
— Talvez não, baby, mas aquela cadela vai te arranhar tentando
te dobrar.
Ela juntou as mãos no colo e olhou para mim através de seus
cílios, escondendo de mim o que estava em seus olhos. — Obrigado pelo

184
carinho, Jace. Isso... — Ela engoliu em seco e me deu o menor dos
sorrisos. — Isso realmente significa muito para mim.
— Eu sempre cuidarei de você, Kin. — Eu parei em frente à casa
de seu pai e, em seguida, virei para encará-la. Antes que ela pudesse se
mover para sair, eu me inclinei sobre o espaço que nos separava e peguei
seu rosto em minhas mãos. — O que eu sinto por você não mudou, exceto
que ficou mais forte. Porra, nunca se esqueça disso, baby. — Eu beijei a
ponta do seu nariz e lentamente voltei para trás. Ela não falou enquanto
seus grandes olhos azuis me observavam atentamente. — Se precisar de
mim, eu estou apenas a uma chamada de distância. Não importa a hora,
baby. Dia ou noite.
Ela puxou em uma respiração afiada. — Obrigada. — Ela
estendeu a mão para a maçaneta da porta, parecendo tão relutante em ir
como eu estava em deixá-la. Lentamente, ela saiu do carro e começou a
se virar, mas rapidamente enfiou a cabeça para dentro. — Você vai me
ligar mais tarde?
— Ligar. Mandar mensagem. FaceTime. — Eu dei-lhe uma
piscadela e um sorriso, tentando aliviar um pouco o olhar assombrado
em seus olhos. — O que você quiser, baby.
— Ligue, — ela murmurou. — Eu realmente apreciarei se você
ligar.
— Então eu vou, — prometi.
— Ok, então. Obrigada... — Ela deu um passo para trás e fechou
a porta, mas parou na calçada por alguns momentos antes de finalmente
acenar e caminhar para a casa.
Eu a observei ir, temendo a distância que ela colocava entre nós
a cada passo que dava. Apenas quando ela estava dentro eu coloquei meu
carro em movimento e voltei para o meu apartamento. Depois de alguns
quilômetros, eu ativei o comando de voz do carro para ligar para Lucy.
Ela atendeu após alguns toques.
— Jace?
Eu olhei para fora do pára-brisa. — Ei, Lu. Você pode me fazer
um favor?

185
Houve uma pequena pausa antes de responder. — Se eu puder,
com certeza.
Eu cerrei os dentes, mentalmente me xingando. — Eu acabei de
deixar Kin na casa de seu pai. Você pode ligar para ela? Ela teve um mau
momento esses dias.
— Eu ouvi que alguma coisa aconteceu na festa de gala na outra
noite com a família Montez e os Jacobsons, mas eu realmente não prestei
atenção ao que estava sendo dito. — Ela soltou um longo suspiro. — Sim,
Jace. Vou ligar agora.
Eu parei em um semáforo e inclinei a cabeça para trás contra o
encosto de cabeça, fechando os olhos. Eu queria virar e voltar para ela.
Levá-la para casa comigo e nunca a deixar voltar para aquela porra de
casa novamente. Em vez disso, eu limpei minha garganta, sabendo que
não havia nada que eu pudesse fazer. — Obrigado, Lucy.

A casa estava estranhamente quieta enquanto eu entrava e subia


as escadas. Eu sinceramente esperava que Jillian estivesse à minha
espera assim que eu entrei pela porta. No entanto, não havia nenhum
sinal dela, e eu não ouvi sua voz enquanto passava pelo seu quarto, a
caminho para o meu.
Eu não sabia se estava aliviada por não ter que lidar com a merda
dela ou se estava ainda mais irritada. Eu queria isso com ela. Queria
gritar e gritar e chamá-la de nomes e, em seguida, queria colocar meu
punho em seu rosto e gritar um pouco mais. Era por causa dela que a
minha verdadeira família se foi uma semana mais cedo do que o
esperado. Ela era a única culpada por arruinar o meu tempo com meus
entes queridos. Ela arruinou o meu primeiro Natal sem minha mãe, que
foi a porra de um desastre, e tudo que eu queria fazer era chorar.
Chorar, dane-se isso.

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Eu odiava chorar.
Abrindo a porta do meu quarto, eu joguei minha bolsa em cima
da cama e bati a porta atrás de mim. Eu realmente já tinha sentido toda
essa raiva? Eu não conseguia me lembrar de uma época em que estive
tão perturbada, tão magoada, tão ressentida com qualquer pessoa na
minha vida. Eu sentia uma dor de cabeça latejante pela tensão e meus
olhos pareciam que saltariam da minha cabeça a qualquer momento.
Quando eu me deixei cair no final da cama, houve uma batida
suave na porta antes que a abrisse. Ergui a cabeça, pronta para brigar
com Jillian, mas fechei a boca logo que vi que não era ela.
Carolina estava na porta com um presente embrulhado em suas
mãos enquanto ela olhava quase timidamente para mim. — Oi, — ela
murmurou baixinho, como se eu fosse um animal selvagem e ela
estivesse tentando não me assustar.
Eu não respondi enquanto eu continuava a olhar para ela. Ela
esteve do lada da mãe e a irmã toda a vez, por todo o tempo que morei
aqui. Eu não podia confiar nela. Ela riu toda vez que sua mãe me
incomodou até a morte sobre alguma besteira mesquinha.
Ela não tinha?
Perceber que eu honestamente não sabia a resposta, de repente
me fez franzir a testa. Ela fez essas coisas? Eu não conseguia lembrar.
Claro que eu me lembrava da alegria no rosto de Georgia quando a mãe
fazia tais coisas, mas eu não conseguia me lembrar se Carolina fez o
mesmo.
— Posso... entrar? — Ela murmurou, o sorriso no rosto parecendo
incerto.
Ainda tentando descobrir se Carolina tinha sido tão ruim quanto
sua irmã mais velha, eu estava tão distraída que acenei sem uma palavra.
Hesitante, ela me ofereceu o presente em suas mãos. — Isto é para
você. De todos nós.
Isso me tirou dos meus devaneios e levantei minhas sobrancelhas
para ela, porque era uma mentira óbvia. Carolina fez uma careta e

187
colocou o presente na cama ao meu lado. — Ok, é de mim, — ela
rapidamente alterou. — Eu pensei que você poderia gostar deste.
Curiosa, eu estendi a mão para pegá-lo. A coisa não era muito
pesada e não sacudiu quando eu balancei algumas vezes. Puxando em
uma extremidade do pacote, eu lentamente arranquei o papel colorido de
Natal para encontrar uma caixa simples por baixo. Levantando a tampa
da caixa, quase a deixei cair quando vi o que Carolina tinha me dado.
Papeis de música. Vários e vários papeis de música. Pelo menos
mil folhas que eram grossas e de um bege bonito. Eu já as vi antes e sabia
exatamente como era caro. Eu cometia tantos erros, porém, que eu nunca
tinha pensado em comprar qualquer um para mim para colocar minhas
músicas.
Minha cabeça disparou para cima, encontrando os olhos
interrogativamente. — O que é isso?
Ela corou. — Ouvi você aqui escrevendo suas músicas e na última
vez que você estava trabalhando, você começou a xingar porque tinha
acabado o papel, — explicou ela, seus dentes afundando em seu lábio
inferior cheio por um momento antes que ela desse de ombros. — Suas
músicas são incrivelmente boas, Kin. Eu particularmente adoro a que
você escreveu para sua mãe... Enfim, eu vi isso na loja no dia seguinte e
pensei em você.
Eu estava além de palavras. Era um presente profundo e que eu
não esperava vir de qualquer um ali. Ela tinha que estar procurando o
papel porque não era do tipo que seria vendido em qualquer loja.
— Obrigada, — eu disse a ela tardiamente depois dela ficar parada
ali me observando por quase um minuto inteiro. — Eu aprecio o presente,
Carolina.
Ela me deu um pequeno sorriso genuíno e virou-se para a porta.
Com a mão na maçaneta, ela parou e olhou para mim por cima do ombro.
— Eu realmente sinto muito pela véspera de Natal, Kin. Mamãe é uma
cadela horrível, e as coisas que ela estava vomitando sobre você e Angie
foram rancorosas e falsas.

188
Eu ainda não tinha idéia do que Jillian disse sobre mim que fez
Angie reagir daquele jeito. Ela tentou me dizer, mas eu não quis ouvir.
Jillian não importava e isso era o fim de tudo, tanto quanto eu estava
preocupada.
— Obrigada, Carolina. E obrigada novamente pelo presente, — eu
disse a ela com um pequeno sorriso.
Meu telefone começou a tocar com o toque familiar de Lucy antes
que a porta sequer tinha se fechado atrás dela. Sentimento drenado de
repente, eu ergui o telefone na minha orelha e cai para trás contra os
travesseiros. — Ei, estranha.
— Ei. Como você está? — A voz dela estava cheia de preocupação
e eu sabia que ela deve ter ouvido falar do que aconteceu com Jillian e
minha família na estupida festa de Gala.
— Eu estou bem, — eu disse a ela, embora não estivesse
completamente certa se era verdade ou não, mas não queria falar sobre
isso. Eu estava exausta fisicamente, mentalmente e emocionalmente.
Especialmente emocionalmente. — E aí?
— Jace me ligou. Ele estava preocupado com você.
Meu coração se contraiu com o pensamento de Jace. Ele esteve
comigo durante os últimos dias. Ao meu lado. Atrás de mim. No fundo.
Frente e no centro. O cara dormiu comigo no colo a noite toda da véspera
de Natal e ganhou um torcicolo no pescoço. Ele segurou a minha mão -
me segurou - e esteve lá por mim quando eu mais precisava dele. Eu
sentia muita falta dele e ele acabou de me deixar na porta a menos de
vinte minutos atrás.
— Eu estou bem, Lu. Eu juro.
— Quer vir aqui? — Ela perguntou, mudando de assunto. —
Mamãe está fazendo cookies.
Minha boca encheu de água com o pensamento de um dos
biscoitos caseiros de Layla Thornton, mas em vez de saltar para os meus
pés, estendi a mão para a caixa de papel de música do meu lado na cama.
Meus dedos traçaram sobre a tampa quando eu balancei a cabeça. —

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Nah. Eu não estou com fome. Talvez amanhã, apesar de tudo. Ligo para
você no início da noite.
— São três horas da tarde, Kin.
Eu lutei contra um bocejo. — Sim, mas eu não dormi bem na noite
passada. Estou exausta, Lu.
— OK. Bem, vou deixar você descansar um pouco, então. — Eu
podia ouvir o amor na voz de Lucy e deixei isso me envolver como um
cobertor. — Ligue se precisar conversar, querida. Você sabe que eu estou
aqui para você a qualquer momento.
— Sim, Lu. Eu sei. — Eu me virei para o meu lado, tirei meus
sapatos e puxei minhas pernas em direção ao meu peito. — Boa noite,
Lu.
— Boa noite, Kin.

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Capítulo 18

A semana seguinte passou em um borrão.


Evitei Jillian como uma peste, então eu não seria tentada a bater
nela. Ela me evitou também, fazendo eu me perguntar o que diabos
estava acontecendo com ela. Desde o dia em que me mudei, ela ficou
atrás de mim, e agora mantinha distância. Não que eu estivesse
reclamando, eu estava curiosa para saber por que ela faria isso de
repente.
O aniversário de Lucy chegou e eu fiquei no meu quarto até a hora
de ir para a First Bass para a festa. Marcus vinha me buscar como Lucy
pediu, mas não tinha idéia de que eu não era a única esperando por ela
quando ela chegou ao clube naquela noite. Harris estava trabalhando
com sua madrasta e Emmie Armstrong para dar uma festa surpresa a
Lucy.
Eu estava ansiosa para a festa e tinha quase perguntado para
Carolina se ela queria se juntar a nós. Quase. Durante a semana
passada, ela havia se tornado um aliado bem-vinda. Ela entrou no meu
quarto a cada noite e nos conversamos e eu estava lentamente
conhecendo-a. Eu não a considerava mais um meia-irmã do mal, mas eu
não pensava nela como amiga também. Se eu tivesse que dar definir
nosso relacionamento, seria o início de uma semi-amizade. Eu ainda não
confiava nela completamente, então não ia dar uma de louca e chamá-la
de amiga. Ainda não, pelo menos.
Enquanto eu estava me arrumando para a festa, emoção me
deixou nervosa. Eu não via Jace desde que ele me deixou na casa de Scott
no dia depois do Natal, mas nós nos falamos todas as noites. Mais de
uma vez, eu tinha adormecido com ele ainda no telefone. Foi agradável e

191
me fez lembrar de como as coisas eram antes de ele deixar a Virginia com
o Tainted Knights. Eu estava morrendo de vontade de vê-lo novamente.
Marcus chegou na hora certa e cheguei no clube, assim como
todos os outros. Toda a família de Lucy me cumprimentou, me acolhendo
com amor ao seu seio, enquanto nos preparávamos para surpreender
Lucy. Os Tainted Knights foram os últimos a chegar, tendo sido
convidados para se apresentar na festa.
Jace entrou com seus companheiros de banda e meu coração deu
uma cambalhota dolorosa no meu peito. Eu não podia evitar, exceto olhá-
lo com olhos que diziam ao mundo que eu estava pronta para ceder. Eu
queria ver o que poderia acontecer entre nós dois, se tentássemos
novamente.
Eu não queria falar com ele sobre isso na frente da família de
Lucy, então o evitei durante toda a noite. Ele continuou tentando se
aproximar de mim, mas eu sabia que se me aproximasse, eu o pediria
para me beijar, então fiquei afastada. Um flash de dor atravessou seu
rosto quando ele percebeu que eu não queria estar perto dele, mas antes
que eu pudesse corrigir isso, ele caminhou até o bar, onde Gray estava
bebendo uma cerveja.
Fazendo uma careta, eu prometi a mim mesma esclarecer isso
antes de ir até ele depois, então virei minha atenção para a festa.
Lucy teve um grande momento e mal conseguia manter os olhos
abertos no momento em que todos saíram. Seu pai a levou para o carro,
mas quando Jesse perguntou se eu precisava de carona, eu lhe disse que
já tinha uma.
Pelo menos, eu esperava que tivesse. Eu não falei com Jace a noite
toda, então eu não tinha certeza se ele iria me levar ou não. Eu poderia
tomar um táxi para casa se precisasse, mas estava esperançosa de que
isso não precisaria acontecer.
Com Lucy e seus pais fora, estavam apenas Harris e Jace comigo
no clube, exceto pelos poucos funcionários que Harris pediu para
trabalhar na festa. Sentei em frente a Jace enquanto ele e Harris bebiam
uma última cerveja, enquanto a equipe limpava.

192
— Pensei que você iria com os Thorntons, — Jace resmungou
quando ele tomou um gole de sua cerveja.
Dei de ombros. — Eu não queria voltar para a casa do meu pai
ainda.
Suas sobrancelhas levantaram. — Você não poderia ficar com
Lucy hoje à noite?
— Claro, mas eu não estou no clima para uma festa do pijama
com a Lu. — Mas eu estava esperando uma com Jace.
— Posso levá-la de volta para Malibu, então? — Ele se inclinou
para frente, sua cerveja acabada.
Fingi pensar sobre isso. — Acho que sim, — eu murmurei.
Harris sacudiu a cabeça. — Vocês dois precisam superar o
passado.
Eu estava trabalhando nisso, na maior parte. Agora, eu queria
focar no presente e talvez até mesmo no futuro. — Sim, — eu concordei
com um aceno. — Eu vou trabalhar nisso.
Revirando os olhos cor de água-marinha, Harris ficou de pé. —
Vamos sair daqui. Estou exausto.
Jace saltou para seus pés, suas chaves já na mão quando pegou
a minha. Em vez de agarrar meus dedos, no entanto, ele agarrou meu
pulso com firmeza, como se ele tivesse medo de que eu fugiria se não se
segurasse em mim. Harris disse boa noite na frente dos carros. Jace
estava ao lado do seu, esperando até que seu amigo fosse embora antes
de se mover para abrir a porta para mim.
— Porque você esteve fria a noite toda? — Ele rosnou quando
bloqueou a porta, não permitindo que eu entrasse.
Larguei o ato e estendi a mão para tocar uma mão no seu peito.
Olhos azuis arregalaram-se e ele cobriu minha mão, pressionando-o mais
perto sobre seu coração. — Eu não confio em mim mesma para manter
minhas mãos longe se eu chegar muito perto, — eu disse a ele
honestamente e vi quando seus olhos escureceram. Lambendo meus
lábios secos, pedi-lhe a única coisa que eu realmente queria naquele
momento. — Podemos voltar para seu apartamento e conversar?

193
— Apenas conversar? — Ele brincou com um sorriso malicioso
quando abaixou a cabeça. Sua respiração quente acariciou minha
bochecha quando ele pressionou os lábios na minha testa.
— Por enquanto. — Eu tremi quando ele beijou um caminho pela
minha bochecha e então deu um beijo forte no ponto sensível sob o osso
da minha mandíbula.
— Isso aí, querida. Eu realmente quero conversar também. — Ele
levantou a cabeça, seus olhos me comendo viva quando andou para o
lado e me ajudou a entrar no carro. — Apenas me bata na cara se eu não
deixar você falar, está bem? Eu não confio muito em mim sozinho com
você agora.
Eu sorri. — Eu não confio em mim também, Jace, mas nós
realmente devemos conversar primeiro.
Ele balançou a cabeça e fechou a porta antes de correr para
sentar-se no assento do motorista. Observando-o, eu não pude deixar de
notar as mãos realmente tremendo quando ele ligou o carro e colocou-o
em movimento. — Conversar, — ele murmurou para si mesmo quando
entrou no tráfego. — Apenas conversar.
Eu não respondi quando ele percorreu a curta distância até seu
prédio. Era uma área agradável com segurança de alta qualidade. Ele
usou um cartão-chave para abrir as portas para a garagem e, em seguida,
teve de usá-lo novamente para chamar o elevador, já que estávamos
estacionados. Tivemos que caminhar através do lobby para chegar a
outro conjunto de elevadores e passamos por dois seguranças no
caminho.
Finalmente, no segundo elevador, ele usou o seu cartão-chave
para desbloquear o andar para o seu apartamento e então me puxou para
um abraço. Com um suspiro de satisfação, eu fui de bom grado. Sua
cabeça abaixou, mas ele só enterrou o rosto no meu pescoço e respirou
fundo como se estivesse tentando respirar tudo de mim. Eu me inclinei
mais para ele, querendo absorver tudo dele da mesma maneira que ele
estava fazendo comigo.

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Quando o elevador parou, nenhum de nós se moveu
imediatamente. Estávamos muito felizes por ficar do jeito que estávamos,
envoltos em torno de si com tanta força que nenhum de nós se atreveu a
soltar por medo de perder uma parte de nós mesmos.
Alguém limpou a garganta e nossas cabeças viraram para ver
Gray parado com uma mão nas portas enquanto nos olhava com uma
mistura de diversão e desgosto em seu rosto. — Vocês dois vão foder no
elevador? Se assim for, vocês podem esperar até que eu tenha saído
primeiro?
Jace murmurou um xingamento, pegou minha mão e empurrou
pelo caminho, passando pelo seu companheiro de quarto. Gray riu
quando entrou no elevador. — Não faça nada que eu não faria, — ele
falou atrás de Jace quando chagamos na porta do apartamento. —
Pensando bem, talvez você não devesse.
Revirei os olhos para ele por cima do ombro, logo que as portas do
elevador se fecharam. Gray piscou e agitou os dedos de uma maneira que
teria sido sedutora para qualquer outra pessoa. Eu, no entanto, era
completamente imune a Gray Knight.
— Graças, porra, vamos ficar sozinhos. — Jace abriu a porta e me
puxou para dentro com ele, acendendo as luzes quando abriu caminho
para a sala. — Eu não queria conversar com ele por perto.
— Nem eu. — Gray era tão fodidamente irritante. Eu não entendia
como Kassa conseguia aguentar aquele idiota, mas ela era a única que
parecia compreendê-lo. Eu tinha certeza que a irmã de Jace precisava ter
sua cabeça examinada.
Ainda segurando a minha mão, Jace se sentou no sofá e me
puxou para baixo ao lado dele. Sentada perto dele, com o meu lado
esquerdo prensado no seu lado direito, eu achei difícil lembrar o que eu
queria falar. Jace colocou nossas mãos unidas em sua coxa, virou a
palma da mão e começou a traçar a ponta do dedo sobre a minha linha
da vida.
— Seu pai sabe que você vai estar fora até tarde?

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Dei de ombros. — Eu duvido que ele saiba tudo o que se passa
sob seu teto. Ele voltou para o Canadá há dois dias para filmar o resto de
seu filme. Eu disse a Carolina para dizer a sua mãe que eu ficaria fora
com Lucy, e ela não vai estar me esperando.
— Merda, — ele respirou e deixou cair a cabeça para trás no sofá.
— Gostaria que você não tivesse dito isso, querida.
— Por quê?
— Você não é esperada. Isso significa que posso mantê-la aqui a
noite toda. — Ele lentamente levantou a cabeça e encontrou meu olhar.
— Você quer ficar?
— Eu estava esperando isso... — Mordi o interior do meu lábio
inferior para não revelar todas as coisas que eu estive esperando para
aquela noite. Se eu lhe dissesse que estava esperando passar a noite
inteira em sua cama, não haveria absolutamente nenhuma conversa
acontecendo.
Ele se levantou e estava do outro lado da sala em um flash. Pisquei
para ele, confusa com a distância súbita entre nós.
— Fale, Kin. Vamos conversar. Agora, antes que eu perca todas
as razões do porquê devemos conversar.
— Oh. — Engoli em seco, me sentindo tímida pela primeira vez
com esse cara. — Bem…
Vendo que eu estava tendo problemas, ele enfiou as mãos nos
bolsos das calças de brim. — Você me perdoa, Kin?
Eu respirei fundo e balancei a cabeça. — Sim, — eu sussurrei. —
Eu te perdoo, embora não tenha certeza que você precisa do meu perdão.
— Eu soltei um longo suspiro e empurrei meu cabelo para trás do meu
rosto. — Olha, eu entendo por que você foi embora. Tainted Knight tem o
que é preciso para ir muito longe e eu estou tão orgulhosa de você e dos
outros, Jace. Isso nunca foi um problema. Eu só…
— Você deveria ter vindo antes da banda, Kin. — Ele baixou a
cabeça, como se tivesse vergonha. — Eu deveria estar lá para você
quando sua mãe morreu. Eu sei que você estaria lá por mim se tivesse
sido Alicia.

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Engolindo em seco, eu assenti. — Sim. Estaria.
— Eu cometi um erro. Um enorme. — Ele levantou a cabeça, os
olhos brilhantes com determinação. — Um que eu nunca vou repetir. Eu
te amo, Kin. Eu te amei praticamente desde o segundo em que pus os
olhos em você. Eu a amei mesmo quando eu estava indo embora. Eu vou
te amar pelo resto da minha vida, baby.
Cada palavra que saia da sua boca era como um golpe direto para
o meu peito. Doeu, mas era um tipo bom de dor. Aliviou todas as dores
persistentes e encheu meu coração com o amor que eu nunca parei de
sentir por ele. — Eu não parei de te amar, Jace. E... Eu tentei muito, mas
eu simplesmente não podia.
Senti lágrimas picarem meus olhos e baixei os cílios para que ele
não os visse. Ótimo, mais lágrimas. Porra, eu odiava chorar. É era tudo
o que parecia fazer ultimamente, apesar de tudo. Eu estava me
transformando em um caso perdido.

****

Mãos quentes e fortes tocaram os meus braços. Jace se moveu


rapidamente de novo e agora estava agachado na minha frente. — Eu sei
que isso me faz parecer como um bastardo, mas agora eu não dou a
mínima. Estou feliz que você não parou de me amar, Kin. Porra, eu tive
pesadelos sobre você parar de me amar e isso sempre me fez acordar
suando frio. — Ele levantou a mão e usou o polegar e o indicador para
levantar a minha cabeça para que os nossos olhares se encontrassem. —
Eu sei que arruinei as coisas entre nós, querida. Eu quebrei sua
confiança em meus sentimentos por você, mas eu não vou parar de
provar a você - que para mim - você é tudo. Eu não vou deixar você ir de
novo, Kin. Eu não vou embora a menos que eu saiba você irá comigo na
próxima vez.
Sem a minha permissão, uma lágrima derramou sobre o meu
rosto. — Promete? — Saiu rouco, um sussurro tremido, mas ele me ouviu
alto e claro.

197
— Sim, Kin, eu prometo. Não vou a lugar algum nunca mais, a
menos que você venha comigo. — Seu domínio sobre meu queixo apertou
quando eu tentei me soltar, querendo esconder meus sentimentos dele.
Eu queria acreditar nele, doía para acreditar nele, mas ele não poderia
cumprir essa promessa. Ele não podia. Seu contrato com a First Bass
acabaria em poucos meses e depois aquele que a Tainted Knights assinou
com Emmie Armstrong entraria em vigor. Ele estaria correndo por toda
parte com a banda, e eu ainda estaria aqui.
Levantando minha mão, eu peguei sua mão e puxei longe o
suficiente para que eu pudesse abaixar minha cabeça para beijar a palma
da sua mão. — Não me faça essa promessa, Jace. Faça essa aqui. — Eu
respirei fundo. — Prometa que não importa onde você vá, você vai voltar.
Isso é tudo o que eu quero. Que você volte para mim cada vez que você
for embora. Eu estarei esperando, aqui, para que você possa sempre
voltar.
Olhos azuis ficaram mais brilhantes e eu segurei minha
respiração quando percebi que ele estava lutando contra suas próprias
lágrimas. — Porra, Kin. Você acabou de me destruir, baby. — Ele respirou
forte e ficou de pé. No segundo seguinte, ele estava me pegando em seus
braços e caminhando em direção a uma porta fechada no outro lado do
apartamento. — Isso é o suficiente de conversa por uma noite, eu acho.
Agora... — Ele fez uma pausa para abrir a porta e, em seguida, a fechou
com um chute enquanto caminhava para sua cama. — Agora, eu só quero
te abraçar. — Ele me sentou na beira da cama com cuidado, em seguida,
pegou o edredom e puxou-o para trás. — Apenas segurar você, Kin. Tanto
quanto eu estou morrendo por ter você agora, eu quero levar as coisas
devagar desta vez. Tudo bem?
Meu coração se contraiu pela centésima vez naquela noite. — Sim,
— eu o assegurei com um sorriso tremido. — Está mais do que bem, Jace.

198
Capítulo 19

Meu telefone estava tocando, e essa porra não parava. Eu já o


tinha deixado ir para a caixa postal duas vezes, mas assim que a maldita
coisa se acalmou, ela começou a fazer barulho novamente. Gemendo, eu
dei um beijo na parte de trás da cabeça de cheiro doce de Kin e cegamente
estendi a mão para o meu telefone. — Sim? — Eu resmunguei, ainda
meio dormindo.
— Jace, — A voz de Natalie Cutter encheu meus ouvidos.
Algo em seu tom havia me feito sentar em linha reta na cama,
meu coração já batendo. Ouvi a preocupação e medo em seu tom, o que
me deixou em alerta vermelho. — Nat, qual o problema?
A madrasta de Harris soltou um suspiro áspero. — Eu acabei de
receber um telefonema de Emmie. Ela disse que algo estava acontecendo
com Harris. Ele não atende o telefone e o de Jenna cai direto no correio
de voz. Eu estou indo para lá agora, mas você pode subir e ver como ele
está? Eu vou enlouquecer se não souber que ele está bem.
Olhei para Kin, que ainda dormia pacificamente. Ela estava
aconchegada profundamente em um dos meus travesseiros, seu belo
rosto com o menor dos sorrisos fantasmas em seus lábios. Sabendo que
eu não conseguiria voltar a dormir com ela até saber que o meu amigo
estava bem, eu saí da cama, tomando cuidado para não acordar Kin. —
Vou subir agora, — assegurei. Eu tirei minhas chaves e encontrei a extra
que Harris tinha me dado meses antes, quando ele acidentalmente se
trancou para fora de seu apartamento e precisou chamar um chaveiro às
três da manhã.
— Obrigado, Jace. — Natalie parecia aliviada agora.
— Sem problemas. Ligo de volta, ok?

199
— Eu agradeço. Chego aí dentro dos próximos vinte minutos.
Desligando, eu coloquei o telefone no bolso e entrei no elevador.
Levou menos de trinta segundos para subir os vários andares que
separavam o meu apartamento do que Harris compartilhava com Jenna
Stevenson. Usando a minha chave, eu abri a porta e entrei no
apartamento escuro. Acendi as luzes enquanto entrava, chamei o nome
de Harris, já indo em direção ao quarto que eu sabia que era dele.
— Harris? Você está bem, cara? Sua mãe acabou de me ligar. Ela
está preocupada com sua bunda. — Eu não ouvi nada vindo de seu
quarto e me detive com a mão na maçaneta da porta. Por alguma razão,
medo apertou meu interior quando me forcei a abrir lentamente a porta.
Havia um esboço sombrio do grande corpo de Harris na cama e
estendi a mão para o interruptor de luz. — Ei, cara... — Tudo o que eu ia
dizer morreu na minha língua quando vi Harris.
Ele estava completamente nu em sua cama. Ele estava de lado,
mas seu corpo estava tão quieto que eu sabia que algo estava errado. Seu
peito não se movia com as respirações profundas que vinham com o sono
e ele estava em uma posição que teria sido desconfortável para mim, e
muito mais para um cara do tamanho de Harris.
Sem pensar duas vezes, corri para a cama. Tocando a mão em seu
ombro, eu toquei seu corpo gelado. Sacudi, tentando acordá-lo. — Harris,
— Eu chamei alto em seu ouvido. — Ei, acorde. Sua mãe vai estar aqui
em breve.
Ele sequer pestanejou ao volume da minha voz. Com meu coração
batendo em meus ouvidos, eu procurei por um pulso. Levou algumas
tentativas, mas finalmente encontrei. Lento e irregular. Eu senti um tum-
tum-tum contra o meu dedo indicador e médio em um padrão que
assustou o inferno fora de mim.
Eu balancei seu ombro novamente. — Acorde, porra, — eu vibrava
em seu ouvido, com medo na minha mente que eu o veria morrer.
— O que está acontecendo?

200
Eu sequer virei para olhar para Jenna enquanto ela corria para o
quarto. — Harris? — Ela murmurou, então ela estava ao meu lado.
Gritando. — Harris. Harris, acorde. Acorde. Acorde.
Sob meu aperto, eu o senti empurrar e então começar a tremer.
Levei alguns segundos para perceber que ele estava em convulsão. Porra.
Algo branco começou a espumar ao redor da sua boca.
— Oh, meu Deus, — Jenna gritou quando me ajudou a segurá-lo.
— Ele está tendo uma overdose. — Ela soltou e pegou o telefone fixo ao
lado da cama. — Porra. Porra. Porra. O que você fez? — Ela sussurrou,
como se para si mesma. — O que diabos você estava fazendo?
Pelo telefone, ouvi a voz distinta de uma mulher. — nove-um-um,
qual a emergência?
A voz de Jenna tremeu enquanto ela falava. — Meu companheiro
de quarto está tendo uma overdose.
— O que ele tomou? — Perguntou a operadora, parecendo calma
e fria. Ela provavelmente recebia chamadas como esta todos os dias.
— Eu não sei, — ela gritou para o receptor. — Ele está tendo uma
convulsão e há material branco saindo de sua boca. Ele vai morrer, porra!
Se eu tinha ficado com medo antes, não era nada comparado com
o que senti naquele momento. Porra. Não. Não, eu não ia deixar. Estendi
a mão para o telefone, tirando-o das mãos de Jenna. — O que diabos eu
faço para salvá-lo? — Eu rugi,
Ainda calma e serena, a mulher do outro lado rapidamente me
passou o que fazer. Eu não poderia, sinceramente, lembrar o que
aconteceu durante os próximos três minutos, enquanto eu lutava com o
corpo em convulsão de Harris para mantê-lo vivo enquanto os
paramédicos chegavam lá. Quando dois homens apareceram na porta
com uma maca e equipamento médico, eu os deixei assumir.
Quando me movi para fora de seu caminho, choque me atingiu e
eu comecei a tremer. Me senti frio e quente de uma só vez, enquanto as
lágrimas queimavam meus olhos e minha garganta preencheu com um
caroço do tamanho de uma bola de beisebol. Eu vi um dos paramédicos

201
retirar uma seringa e esfaqueá-la no corpo ainda em convulsão de Harris.
Ele ficou quase que instantaneamente parado.
— Que diabos foi isso? — Jenna perguntou, lágrimas fluindo
livremente pelo rosto.
— Algo para puxá-lo de volta a zero da overdose, senhorita, — o
paramédico disse em um tom frio e profissional. — Precisamos levá-lo ao
hospital. Agora. Um de vocês pode vir junto?
— Eu vou, — Jenna disse a eles antes que eu pudesse abrir a
boca. Eu queria ir também, mas quando eu dei um passo à frente para
segui-los, o segundo paramédico me parou. — Só há espaço para um.
Você pode nos encontrar lá.
Incapaz de falar através do nó ainda entupindo a minha garganta,
eu pude apenas acenar. Certo. Eu seguiria. Eu precisava ligar para
Natalie de volta também. Precisava dizer a Kin onde eu estava indo para
que ela não acordasse e se preocupasse comigo. Eu me movi no piloto
automático enquanto corria de volta para o meu apartamento.
Eu não entendia como Harris poderia ter uma overdose. Ele não
estava usando drogas. Tinha trabalhado duro para colocar Jenna em
uma clínica de reabilitação e...
Tessa!
Parei na metade da minha sala de estar quando compreensão me
bateu. Onde diabos estava Tessa?
Mesmo sem saber o que aconteceu, eu soube instintivamente que
Tessa estava por trás do que estava acontecendo com Harris. Ela fez isso
com ele. Ele quase morreu. [Link]ços.
Por causa dela.
Apertando minha mandíbula, peguei meu telefone quando eu
entrei no meu quarto. Natalie atendeu imediatamente. — Eu pensei que
você ia ligar mais cedo, — ela repreendeu com uma pequena risada. —
Como ele está?
As lágrimas ameaçaram a derramar então. Ouvir sua madrasta e
a preocupação em sua voz suave, quebrou o que eu tinha que dizer a ela.
— Ele está a caminho do hospital, Nat. Ele... Ele teve uma overdose.

202
Houve uma longa pausa na outra extremidade. Então ela
explodiu. — Que porra você está falando? — Ela se enfureceu. — Não. De
jeito nenhum. Não Harris. Ele é um bom menino. Ele não faria isso.
Fechei os olhos. — Eu sei disso, Nat. Eu sei. Não foi culpa dele.
Inferno, eu não sei o que aconteceu, mas ele começou a ter uma overdose
quando cheguei lá em cima. Eu cuidei dele até os paramédicos chegarem
lá. Jenna foi com ele.
— Jenna... — Ela murmurou o nome da irmã, então xingou. —
Que hospital?
Eu disse a ela o que um dos paramédicos me tinha dito, e ela
desligou na minha cara assim que tinha o que precisava. Apertando
minha mão ao redor do telefone, eu abaixei minha mão e coloquei-o na
beira da cama. Eu ainda estava sentindo os efeitos depois de cuidar do
meu melhor amigo, enquanto ele esteve tão perto da morte, porra.
— Jace? — A voz sonolenta de Kin me puxou para fora do inferno
em que minha mente ficou presa e eu olhei para ela com lágrimas ainda
frescas em meus olhos.
Ao vê-los, mesmo na luz fraca vindo da porta do quarto aberta,
ela se levantou. — Qual o problema? — Ela estendeu a mão para mim. —
O que aconteceu?
Um soluço ameaçou me sufocar se eu não o liberasse e eu enterrei
meu rosto em seu cabelo enquanto a puxei contra mim forte. — Harris...
— eu consegui dizer através de soluços. Eu nunca tinha sido tão rasgado
em minha vida, mas ver alguém quase morrer, não alguém, meu melhor
amigo, porra, me destruíu. — Ele está doente.
Dedos suaves acariciaram através do meu cabelo e no meu
pescoço, fazendo meu tremor só aumentar. — Shh, shh, — ela sussurrou,
balançando comigo. — Vai ficar tudo bem, — ela prometeu. — Ele está
bem, nós acabamos de vê-lo.
Eu não consegui explicar a ela logo em seguida. Eu não sabia o
que aconteceu com Harris, mas eu sabia que Tessa tinha que ser uma
parte disso. Eu precisava contar a Jenna e Natalie o que eu suspeitava.

203
Precisava encontrar aquela puta e fazê-la pagar por aquilo que ela
fez com Harris.

Jace ainda estava tremendo quando chegou ao hospital.


Ele não falou muito desde que voltou ao apartamento, então eu
não tinha idéia do que estava acontecendo. A cena que encontramos no
hospital me surpreendeu muito, apesar de tudo. Quando Jace disse que
Harris estava doente, eu assumi que significava que ele estava com febre
e talvez tinha alguma virose ou gripe.
Encontrar Natalie Cutter e sua irmã do lado de fora de uma sala
de exames falando com um médico encharcado de suor me fez parar
quando escutei o que ele tinha a dizer.
Natalie olhou para o médico. Seu belo rosto estava pálido como a
morte, mas os seus olhos estavam selvagens quando ela fechou e abriu
as mãos em seus lados. Ao lado dela, Jenna estava andando para frente
e para trás, os olhos indo de porta para a sala de exame, para o médico,
para a sua irmã mais velha. Ela parecia nervosa, mas eu não tinha idéia
se era por causa do que estava acontecendo com Harris ou algo
completamente diferente.
— Ele teve sorte de ter alguém lá para mantê-lo vivo até que os
paramédicos chegassem, Sra Cutter, — o médico estava dizendo agora.
— Pelo exame de sangue, ele estava drogado com uma mistura de ecstasy
e ketamina. Tinha o suficiente em seu sistema para ter drogado três
homens do seu tamanho. Um pouco mais e ele teria morrido, sem dúvida.
— Eu não entendo como ele conseguiu as drogas, — Natalie disse
a ele. — Ele não é assim. Ele é um trabalhador e não mexe com drogas.
Ele é um bom menino.
— Eu não tenho dúvida disso, Sra Cutter. A partir de sua condição
física eu posso dizer que ele não é um usuário regular de drogas. — Sua

204
cabeça inclinou para Jenna. — Talvez você devesse perguntar para essa
aqui sobre isso, porém. Pelo modo como ela está agitada no momento, eu
quase posso garantir que ela sabe algo sobre as drogas que quase
mataram seu enteado.
Olhos selvagens ficaram ainda mais selvagens se isso fosse
possível, quando Natalie virou-se para a irmã. — Sobre o que ele está
falando, Jenna? — Ela fervia. — Você sabe algo sobre isso?
Jenna fez uma pausa em seu ritmo e olhou para a porta de exame
antes de relutantemente encontrar os olhos de sua irmã. — Eu não estava
fazendo um estágio em Phoenix, Nat. Eu estava em uma clínica de
reabilitação lá. Eu estava ficando limpa.
Natalie deu um passo ameaçador em direção a ela. — Você fez isso
com Harris? — Ela se moveu tão rapidamente que o médico não teve
tempo de reagir. Num piscar de olhos, Natalie empurrou Jenna de costas
contra a parede ao lado da porta da sala de exame e ficou na cara de
Jenna. — Fez? — Ela gritou.
Lágrimas corriam pelo rosto pálido de Jenna. — Não fui eu, Nat.
Eu nunca faria isso com ele. Nunca. Ele... deve ter sido Tess... — Um
soluço a interrompeu.
— Tessa? Sua namorada? — Natalie levou a mão à garganta de
sua irmã e apertou. — Aquela cadela fez isso com meu filho?
— Eu acho que sim, — Jenna sussurrou entrecortada.
A mão em sua garganta caiu e Natalie deu um passo para trás.
Ela fechou os olhos, sussurrou algo sob sua respiração e pareceu se
acalmar um pouco. Mas quando ela abriu os olhos azul-acinzentados
novamente, havia puro ódio nas profundezas. Sua mão levantou e no
segundo seguinte, o corredor ecoou com o tapa que ela acabara de colocar
no rosto de Jenna.
O rosto de Jenna virou instantaneamente, suas lágrimas fluindo
em silêncio enquanto Natalie se afastava dela. — Posso vê-lo? — Ela
praticamente implorou ao médico. — Por favor. Eu preciso ver o meu
filho.

205
O médico voltou os olhos impiedosos de Jenna para Natalie e eles
se suavizaram. — É claro, senhora Cutter. Mas só por alguns minutos. O
menino precisa descansar.
— Eu...eu entendo, — ela assegurou, então, finalmente, viu Jace
e a mim a poucos metros de distância. — Jace, — ela se moveu para a
frente e o abraçou — obrigado, — ela sussurrou. — Obrigada por ajudá-
lo.
Eu observava impotente como os olhos de Jace se encheram de
lágrimas novamente, mas ele piscou-as de volta. — Estou feliz que ele
está vivo, Nat.
— Eu também, — ela sussurrou. — Eu também.

****

Jace foi com Natalie para verificar Harris, enquanto uma


enfermeira apareceu e então mostrou a mim e a Jenna a sala de espera.
Jenna se moveu para ficar no fundo da sala, colocando-se tão longe do
contato humano quanto possível. Observei-a por alguns minutos,
preocupada com ela. Seu rosto ainda estava vermelho sangue de onde
sua irmã tinha lhe dado um tapa e ela estava alternando entre chorar e
xingar baixinho.
Jenna tinha trabalhado duro para ficar limpa, então eu esperava
que isso não a fizesse retroceder.
Sabendo que eu não podia fazer nada para a menina mais velha,
eu retirei o meu telefone. Alguém precisava contar a Lucy, e já que
ninguém a havia mencionado, eu precisava ligar para ela. O telefone
tocou e tocou, e eu estava prestes a desligar e tentar novamente quando
a voz de Lucy encheu minha orelha.
— Ei, Kin. — Sua voz soava estranha. Sem sonolência como eu
esperava, mas engasgada como se tivesse chorado ou fosse chorar.
Será que ela já sabe?
— Lu, alguém lhe contou sobre Harris?

206
Houve uma longa pausa antes de ela soltar um suspiro áspero e
lançar uma risada sem humor. — De certa forma, — ela me assegurou.
— Sinto muito, — eu corri para contar a ela. — Olha, você pode
pedir para Marcus trazê-la até aqui? Eu não acho que os médicos vão
deixar você entrar, mas vale a pena tentar.
Outra pausa. — Os médicos?
— Claro, os médicos. O que você espera de um hospital, Lucy? —
Talvez ela estivesse meio dormindo afinal de contas, se ela estava tão
lenta sobre essa merda.
— Que porra de hospital? — Gritou.
Pisquei. — Você disse que alguém já tinha lhe contado o que
estava acontecendo, Lucy.
— Não que ele estava em um maldito hospital, Kin. Por que ele
está em um hospital? — Havia uma voz no fundo e a voz de Lucy parecia
estar vindo de um barril enquanto falava com eles. — Harris está no
hospital, tia Emmie.
Emmie? Por que ela estava com Emmie? Eu estava tão confusa.
— O que exatamente você sabe, então, Lucy?
— Eu não quero falar sobre isso agora, Kin. Em que hospital você
está? — Ela soou estranha, mas quando eu lhe disse que hospital, ela me
disse que iria me ver em breve.
Desligando meu telefone, notei que Jace e Natalie tinham voltado
de ver Harris. Jace tinha seu braço ao redor de seus ombros enquanto
ela soluçava contra seu peito. Os sons vindos dela tornaram impossível
para o meu coração não se quebrar por ela.
Me levantando, eu atravessei a sala até eles. — Como ele está? —
Murmurei.
Jace balançou a cabeça. — Ele está dormindo, querida. O médico
disse que ele provavelmente não vai acordar até amanhã com todas as
drogas que ele tem nele agora. Com o remédio que o paramédico deu a
ele para trazê-lo de volta, pode demorar até ele abrir os olhos.
Mordi o interior do meu lábio inferior enquanto eu me preocupava
com Harris. Porra, Tessa realmente tentou matá-lo? Eu só tinha visto a

207
namorada de Jenna - ex-namorada agora, eu supunha - algumas vezes,
mas eu nunca gostei dela. Ela era a causa de Jenna ter começado nas
drogas em primeiro lugar. Ela viciou Jenna e depois teve um ataque
quando Jenna foi embora para ficar limpa. Harris tentou manter tudo em
segredo, mas depois que Lucy e eu tínhamos encontrado Jenna drogada
na First Bass naquela primeira noite, Lucy tinha praticamente
chantageado-os para conseguir ajuda para Jenna.
Ela queria que Jenna fosse para a reabilitação ou ela iria contar
para a irmã e os irmãos de Jenna. Jenna foi no dia seguinte para Phoenix
e Lucy manteve a boca fechada. Mas Tessa ainda estava por perto.
Até agora.

208
Capítulo 20

A sensação das mãos macias no meu braço e o fluxo de luz


brilhante vindo de uma janela próxima estavam me puxando para fora
de uma névoa profunda. Eu gemia, lutando contra o nevoeiro, querendo
me aproximar daquelas mãos macias e me esconder da luz, tudo ao
mesmo tempo.
Minha cabeça estava me matando e o resto do meu corpo não se
sentia muito melhor. Eu estava com uma grande dor e meu estômago
estava revirando de uma forma que me dizia que eu ia ter que enfrentar
a luz um inferno muito mais cedo do que eu queria.
Gemendo, virei para o meu lado, longe daquelas mãos suaves, e
esvaziei o meu estômago no chão. Eu ouvi o conteúdo molhado quando
salpicaram os azulejos e gemi de novo quando outra onda de náusea me
atingiu com força, fazendo câimbras em meu intestino.
Dedos suaves acariciaram minha testa, me acalmando. — Está
tudo bem. Você está bem. Deixe acontecer. Não lute contra isso.
Eu desisti da luta de deter a próxima onda de vômito e esvaziei no
chão uma e outra vez. No momento em que tinha acabado, me senti
drenado e cai para trás contra um colchão desconfortável e uma desculpa
patética de travesseiro. — Onde estou? — Eu sussurrei, minha garganta
doendo como um filho da puta.
— Hospital, — veio a voz doce que eu amava pra caralho. — Você
já está aqui a três dias.
Três dias?
Eu abri um olho, testando a luminosidade do ambiente. Não era
tão ruim quanto eu temia, mas meus olhos ainda pareciam querer sair
da minha cabeça. — O que aconteceu?

209
O belo rosto de Lucy apareceu na minha frente e eu quase a
agarrei, algum instinto interior me dizendo para segurá-la agora e nunca
deixá-la ir.
— Nós ainda estamos tentando descobrir, — ela me disse com um
sorriso apertado, lágrimas deixando seus olhos castanhos escuros mais
brilhantes do que o normal. — Estamos apenas gratos que você está vivo.
— Houve um acidente? É por isso que eu sinto como se tivesse
sido atropelado por um caminhão? — Eu tentei provocar, mas seu rosto
apenas se fechou mais.
— Não, Harris. Sem caminhão. — Ela exalou longo e forte. —
Tessa te drogou. Você teve uma overdose. Se Jace não estivesse lá, você
poderia ter morrido.
Eu congelei com suas palavras quando uma memória inundou de
volta para mim. O chá. O chá na geladeira tinha gosto amargo, mas eu
pensei que era apenas porque Jenna tinha estragado um de seus lotes de
chá gelado. Agora, eu percebi que foi algo completamente diferente.
Porra.
Esta foi sua vingança por Jenna romper com ela, mas ela
realmente me odiava tanto a ponto de tentar me matar? Eu não tinha
sentido uma vibe 'assassina' dela em todos os meses que vivemos sob o
mesmo teto, mas de novo, eu não conhecia Tessa muito bem.
— Jenna está bem? — Tessa fez algo para ela também? Ela está
bem? Ela ainda está limpa?
— Jenna está bem, — Lucy me assegurou, mas a hesitação em
sua voz me fez dar uma olhada para ela. Vendo a questão em meus olhos,
Lucy fez uma careta. — Todo mundo sabe sobre Jenna agora, Harris. Eles
estão culpando-a pelo que aconteceu, não que eu possa honestamente
culpá-los, mas isso não importa agora. Natalie quer que ela volte para
Ohio para viver com a mãe e o pai. Drake quer tentar ajudá-la. Shane
ainda está em cima do muro sobre o que ele quer fazer, por isso até que
ele tome sua decisão, Jenna foi condenada a ficar no seu quarto no seu
apartamento.

210
Eu tentei sentar na cama, mas meu estômago e cabeça
protestaram e eu caí impotente de volta contra o colchão. — Isso não foi
culpa de Jenna, Lu. Ela não teve nada a ver com o que Tessa fez. Porra,
ela terminou com Tessa, ela ia colocar tanta distância entre as duas
quanto humanamente possível.
Aquelas mãos macias empurraram para o meu peito, me
mantendo deitado. — Acalme-se. Eu não disse que a culpava, eu só estou
dizendo que eu posso entender por que todo mundo faria isso. Não se
preocupe com ela agora. Apenas se concentre em voltar ao seu antigo eu.
OK?
Puxei uma respiração profunda. — Sim. Ok. — Eu cobri uma das
mãos no meu peito e dei-lhe um aperto. — Obrigado por estar aqui,
doçura.
Se eu não estivesse segurando-a, eu poderia ter perdido o jeito
como ela se encolheu e se afastou quando a chamei de 'doçura'. Mas
durou apenas um segundo antes de sua mão relaxar contra o meu peito.
Quando ela sorriu para mim, eu podia ver quão forçado era. Aquele
instinto de mais cedo de segurá-la e nunca soltar me encheu de novo e
eu apertei sua mão ainda mais.
— Qual o problema? — Eu exigi, olhando seus olhos mais
atentamente. Seus cílios estavam molhados, os olhos inchados e
vermelhos. Havia trilhas individuais pelo seu rosto que me disseram que
ela deveria estar chorando por um longo tempo. — O que aconteceu
enquanto eu estava fora, Lu?
— Não é nada, — ela me disse com outro sorriso tenso, mas não
encontrou o meu olhar e eu sabia que ela estava mentindo.
— Não. — Eu entrelacei os dedos nos dela e vi como seus olhos
cairam para observar nossas mãos. — Diga o que aconteceu. Por favor.
Ela engoliu em seco e balançou a cabeça. — Não. Ainda não. Você
deveria descansar. Eu prometi ao seu pai que sentaria com você
enquanto ele e Natalie tinham um pouco de café.
Meu pavor apenas aumentou. — Conte. Agora.

211
— Não. — Ela balançou a cabeça teimosamente, mas o olhar em
seus olhos escuros tornou difícil respirar de novo. — Eu cuidei disso. Não
há nada para você se preocupar agora.
— O que havia com que me preocupar, em primeiro lugar? — Eu
exigi. — Pare com isso, Lu. Diga o que diabos eu perdi. Eu não posso
consertar esse maldito olhar assombrado em seus olhos se você não me
disser.
Em vez de me responder, ela virou a cabeça, me bloqueando.
Porra, não. Eu não poderia lidar com esta merda. Algo aconteceu e eu
sabia que era ruim, pelo jeito como ela estava agindo. Ela estava lá, mas
não estava. Ela era minha doce Lucy, mas também era uma versão
robótica e fria dela. Eu queria – precisava - corrigir o que Tessa tinha
fodido, porque parecia que eu estava perdendo a única pessoa que eu não
poderia viver sem.
Desespero me agarrou e olhei em volta, esperando que houvesse
alguém que pudesse me dizer o que estava acontecendo. Eu precisava de
respostas. O quarto estava vazio, entretanto, e eu estava desesperado
para saber.
— Doçura, — eu comecei, mas ela se encolheu com o meu aperto
novamente, fazendo meu estômago apertar. — Porra. Me conte. Agora.
A porta se abriu atrás dela e eu virei meus olhos relutantemente
longe dela para ver quem era. Vendo Emmie e Natalie de pé na porta, eu
dei um suspiro de alívio. — Bom. Você está aqui. Diga o que diabos eu
perdi, Nat.
Natalie me deu um sorriso triste quando ela atravessou a sala,
para estar no lado oposto da Lucy. Emmie veio para ficar ao lado de sua
sobrinha e envolveu um braço em volta da cintura dela, como se
oferecendo apoio a Lucy.
— Você perdeu muitas coisas, garoto. — Natalie bateu um dedo
na palma da minha mão que tinha um soro saindo dela. — Nada que você
precise se preocupar agora, no entanto.
— Eu quero respostas, porra — eu falei.

212
— OK. Tessa foi presa. Ela está sendo acusada de tentativa de
homicídio... entre outras coisas. Com a ajuda de Emmie, nós
conseguimos encontrar aquela cadela e fazê-la falar. O promotor se
comprometeu a manter os detalhes fora da mídia tanto quanto ele puder.
Fiquei contente que Tessa teria que enfrentar o que fez, mas eu
não podia deixar de me concentrar em algo que Natalie disse. — Entre
outras coisas? Que outras coisas?
Emmie pegou um celular – o celular de Lucy - e tentou entregá-lo
para mim. Natalie estendeu a mão para ele, tentando arrancá-lo para
longe. — Não. Pare com isso, Emmie. Ele não está pronto.
— Ele terá que descobrir mais cedo ou mais tarde, Nat. Melhor
agora com você aqui do que de alguma outra fonte, — Emmie disse a ela,
exalando pelo nariz e apertando seu domínio sobre Lucy.
Apertando sua mandíbula, Natalie olhou para Emmie sobre a
minha cabeça por um longo momento antes de concordar com relutância.
Peguei o telefone de Em.

Eu não sabia o que esperar quando Harris pegou o telefone da tia


Emmie. Ele abriu a mensagem de texto que eu recebi na noite da minha
festa de aniversário e as leu com olhos que ficaram instantaneamente
sem emoção. Ele viu cada vídeo que Tessa me enviou.
Dentro de mim, eu estava quebrada. Eu já tinha visto a cada um
desses vídeos, tinha visto com o meu coração rachado quando o cara que
eu amava, fodia outra pessoa. Eu pensei que as coisas estavam
terminadas entre nós. Que eu nunca seria capaz de ver Harris Cutter da
mesma forma novamente.
Então Kin ligou e fez todos aqueles pensamentos virarem de
cabeça para baixo. Eu entrei em acordo com o que tinha acontecido.

213
Tessa o tinha drogado. Ele não era responsável pelo que aconteceu
quando ele não era ele mesmo. Não era culpa dele.
Minha cabeça sabia disso, mas meu coração ainda não entendia
completamente. Não podia voltar o tempo para não ver o que eu tinha
visto. Eu não poderia não sentir o que eu senti quando eu vi Harris tocar
em Tessa do jeito que eu estava louca para ser tocada por ele.
Eu estava sentada no quarto do hospital desde a noite em que ele
foi trazido para lá. Eu não saí de seu lado por nada mais do que para
usar o banheiro. Meu pai não estava feliz. Emmie não estava feliz. Eu não
estava feliz.
Nossas famílias sabiam todos os detalhes agora. O pai dele. Meu
pai. Nenhum deles estavam cegos para a verdade, exceto Harris, até
aquele momento.
As coisas foram tensas no hospital. Meu pai lidou com tudo muito
mais facilmente do que Devlin Cutter. Jesse Thornton foi de querer matar
Harris para a total compreensão em um piscar de olhos, uma vez que ele
sabia o que Tessa tinha feito. Enquanto Devlin entendia, ele não estava
levando as coisas da mesma maneira que Jesse. Ele estava chateado,
mas eu poderia dizer que não era com Harris. Toda a sua raiva estava
focada em uma pessoa.
Tessa.
Ok, talvez duas pessoas. Jenna não tinha sido intocada pela raiva
de Devlin. Poucas pessoas não a culpavam pelo que aconteceu. Ela trouxe
Tessa para a vida de Harris. Ela trouxe drogas para a equação. Ela
manteve Tessa por perto, mesmo depois de ficar limpa.
Ver o quão bem o meu pai compreendeu a situação me confundiu.
Eu ainda era incapaz de encontrar um fundamento sobre meus próprios
sentimentos, mas ele encolheu os ombros para isso como se fosse nada.
Talvez eu conseguisse fazer isso também.
Um dia.
Até então, eu seria assombrada por aqueles vídeos. Eu seria
forçada a reviver cada gemido e suspiro que ele deu quando fez coisas
para alguém que não era eu. Ele estava me traindo, ainda que não pura

214
e simplesmente. O que antes era perfeitamente preto e branco já tinha
vários tons de cinza que me torciam até o ponto da loucura.
Eu ainda o amava. Eu não acho que poderia parar, mesmo se o
tivesse visto em vídeos com uma centena de garotas diferentes. Eu
entendia que ele não foi capaz de dizer não, que o que aconteceu
realmente não era culpa dele.
Mas eu ainda me sentia traída. Eu ainda tinha um coração
partido, embora estivesse tentando juntar os pedaços. Era difícil, porém.
Eu não era tão forte como eu pensava.
Em meu tênis, meu dedo do pé latejava, e eu agradeci a dor física
do corte que eu fiz na noite do meu aniversário. O corte não estava
curando porque eu ficava torcendo os dedos dos pés para reabrir a ferida
que eu fiz com a lâmina de barbear. Eu precisava dessa dor para me
ajudar através das emoções que estavam me consumindo.
Lentamente, Harris baixou a mão que ainda estava segurando
meu telefone. Ele ainda estava como uma rocha, com o rosto duro. Seus
olhos estavam em branco e sua pele mais pálida do que tinha visto na
primeira noite que eu o vi deitado naquela cama de hospital.
— Vá, — ele disparou com uma voz desprovida de qualquer
emoção.
Meu coração se transformou em gelo. — O que?

Ele virou a cabeça, me bloqueando como eu tinha feito com ele


mais cedo. — Vá. Eu não quero você aqui.
— Harris... — Peguei sua mão, incapaz de deixá-lo. Ele puxou sua
mão antes que eu pudesse tocá-lo.
Eu não iria deixá-lo... eu não podia. Eu o amava. O pensamento
dele não me querendo com ele me matou. Lágrimas queimaram meus
olhos quando olhei dele para sua madrasta, os olhos cheios de piedade e
determinação, em seguida, para a tia Emmie. Seus olhos verdes estavam
cheios de preocupação para mim, mas eu não queria sua preocupação.
Eu queria que ela corrigisse isso como ela tinha feito com todos
os outros problemas que eu já tinha enfrentado no passado.

215
Balançando a cabeça, eu me virei para Harris. Toquei seu rosto,
implorando com o meu toque para ele olhar para mim. — Nós podemos
passar por isso. Não me importa o que aconteceu. Eu te amo.
— Basta ir, Lucy.
A derrota em sua voz fez meus joelhos ameaçarem a dobrar. — Eu
não posso, — eu sussurrei em torno de um soluço. — Não me faça ir.
— Nat, — ele trincou fora. — Livre-se dela.
Sem questionar, Natalie moveu ao redor da cama e colocou a mão
no meu ombro. O olhar em seus olhos estava cheio de relutância, mas o
aperto que ela tinha em mim me disse que ela ia fazer isso. Lágrimas me
cegaram quando eu a deixei me guiar até a porta. Abrindo-a, ela virou e
foi embora enquanto tia Emmie me empurrou pela porta. Meu coração se
partiu mais uma vez quando o deixei lá.
Não. Por favor, não.
Eu começei a desintegrar, mas tia Emmie me pegou. O soluço que
me deixou ecoou pelas paredes do corredor e para baixo para a sala de
espera. Pessoas apareceram atrás de mim, mas eu estava muito
quebrada para notar ou me importar se eles me vissem caindo aos
pedaços. Emmie foi a única que apertou os braços em volta de mim e me
deixou chorar até que minha garganta estivesse crua e dolorida.
Quando os barulhos horríveis pararam, um conjunto diferente de
braços estava em volta de mim e eu senti uma nova torrente de lágrimas
me cegarem quando o meu pai me enfiou no peito dele e me levou para
longe da porta do quarto do hospital. Longe de Harris.
Longe do cara que eu achava que seria o meu futuro.

216
Capítulo 21

Lucy foi embora no dia anterior, mas os sons torturados que


vieram dela ainda estavam ecoando na minha cabeça. Eu não conseguia
parar de vê-la tão destruída na minha mente. Eu não sabia o que
aconteceu no quarto de Harris, mas o que aconteceu deixou minha amiga
um fantasma de si mesma.
Jace não saiu do hospital desde que Harris foi trazido, então eu
fiquei com ele. Fiquei surpresa que Jillian não tinha ligado para exigir
que eu voltasse para a casa, ou pior, que não apareceu para se mostrar
nos meios de comunicação que estavam estacionados no estacionamento
do hospital, já que começou a rolar a fofoca de que Harris Cutter foi
trazido com uma possível overdose. Ela não fez nada disso, mas Carolina
tinha me mandado uma mensagem três vezes, perguntando se eu estava
bem.
Eu respondi, avisando que ficaria com Jace enquanto ele estava
no hospital com o nosso amigo. Ela prometeu dizer a sua mãe depois da
primeira mensagem, mas nas outras duas vezes ela só disse estar
preocupada comigo. Querendo saber se eu estava bem. Se eu estava
dormindo. Se ela pudia me trazer algo.
Eu me senti em conflito sobre ela. Era estranho, para dizer o
mínimo, que eu tenha julgado Carolina errado. Eu não errava sobre as
pessoas na maioria das vezes, e isso me confundiu para caramba. Eu
odiava tê-la colocado no mesmo barco com sua mãe e irmã mais velha,
que eu a tenha julgado mal. Ela realmente era uma menina boa, doce
até.

217
O médico ia liberar Harris no dia seguinte, agora que eles tinham
certeza que todas as drogas estavam fora do seu sistema e ele não parecia
ter quaisquer efeitos secundários a partir dela. Eu só o tinha visto uma
vez desde que Lucy foi embora, mas eu não poderia concordar com o
médico sobre sua avaliação, de que Harris ia ficar bem.
Ele não estava nem perto de estar bem. Seus olhos estavam
mortos, seu rosto duro e pálido. Havia uma nova raiva na feição
despreocupada de Harris Cutter que me preocupava tanto quanto o
colapso que Lucy teve. Eu não sabia tudo, Lucy não me contou muito
sobre o que aconteceu, mas uma noite tudo foi para o inferno. Eu sabia
que ela recebeu algumas mensagens de texto do telefone de Harris
enviadas por Tessa, mas isso foi tudo o que ela disse.
Fosse o que fosse, foi o suficiente para destruir a vida de duas
pessoas. Não, não apenas duas. Mais. Harris e Lucy não foram os únicos
destruídos depois do que Tessa fez. Jenna, que estava presa em um cabo
de guerra entre seus três irmãos. Devlin e Natalie Cutter, que não
conseguiam esquecer que o filho quase morreu. Jesse e Layla, que não
podiam fazer a dor de sua filha ir embora. Jace, que ainda estava
assombrado pela imagem de quase perder seu melhor amigo, enquanto
observava-o ter uma overdose. Eu sofria por todos eles.
Com Harris sendo liberado, Jace estava finalmente pronto para
voltar ao seu lugar. Eu estava pronta para ir com ele, querendo dormir
em sua cama enquanto me aconchegava contra ele por algumas horas
antes de ter que enfrentar qualquer um na casa do meu pai.
Esse plano foi rapidamente alterado, no entanto, quando eu
comecei a sair com Jace. Do nada, Lana Stevenson apareceu na minha
frente. Sua barriga estava enorme, parecendo perto de estourar. Ela
estava carregando sua quarta filha e apenas algumas semanas longe de
dar à luz, mas o olhar em seu rosto bem ali me fez pensar se a mais nova
pequena adição da família Demon se juntaria a nós mais cedo do que o
esperado.
— Kin, graças a Deus, você ainda está aqui. Preciso da sua ajuda.
Você vem comigo para Malibu? É Lucy. Ela precisa de nós.

218
Eu sequer pisquei. Isso era tudo o que ela precisava dizer. Se Lucy
precisava de mim, então eu ia ficar com ela. Ela era minha melhor amiga
e me ajudou a atravessar alguns dos piores momentos da minha vida. Eu
devia a ela.
— Bom, obrigada. — Ela segurou minha mão livre, a não
entrelaçada com a de Jace, e me puxou junto com ela para a SUV ligada
do lado de fora da entrada do hospital. Eu sequer tive tempo de olhar
para Jace enquanto ela me levava para longe.
Drake Stevenson estava ao volante e colocou o carro em
movimento logo que a porta se fechou atrás de mim e sua esposa. Ele me
deu um triste aceno de cabeça no espelho retrovisor e acelerou. Estendi
a mão para o meu cinto de segurança. — Lucy está bem?
Lana olhou para mim do assento do passageiro da frente. — Não,
— ela disse com lágrimas nos olhos. — Isso tudo é um desastre, Kin. Eu
não posso explicar agora porque não sei o que está acontecendo. Tudo o
que sei é que Layla me chamou, quase histérica. Ela e Jesse estavam
tendo uma discussão e eu podia ouvi-lo furioso no fundo. Eu não fiz
perguntas. Já que eu ainda não tinha ido para casa, eu disse a Drake
para voltar e pegar você. O que quer que esteja acontecendo, eu sei que
Lucy vai precisar de nós duas.
Layla e Jesse Thornton discutindo? Eles eram como um casal
incrível. O que diabos eles estavam discutindo?
Drake manteve-se calado todo o caminho para a casa dos
Thorntons. Eu sabia que ele adorava Lucy e ela o amava tanto quanto.
Havia uma forte ligação entre eles, que qualquer um poderia perceber
quando estavam perto. Eu percebi que ele estava sendo puxado em duas
direções. Querendo cuidar de Jenna. Querendo confortar Lucy. Deve
estar matando-o.
— Vai dar tudo certo, — Lana ficava murmurando e no começo eu
pensei que ela estava apenas falando para si mesma, mas então eu vi o
jeito como ela apertava a mão de Drake cada vez que ela disse isso. Ela
estava tentando tranquilizá-lo, apesar de sua própria preocupação e

219
estresse serem tão evidentes em seu rosto bonito. — Vai ficar tudo bem,
querido. Eu prometo.
Ele só balançou a cabeça e, em seguida, empurrou com mais força
no acelerador.
Assim que o SUV parou na calçada, eu estava correndo para sair
e seguir atrás de Lana. Ela não se preocupou em bater, andamos direto
para dentro da casa da sua irmã e cunhado. Eu pude sentir a tensão na
casa logo que entrei, mas as coisas pareciam tranquilas. Se Jesse e Layla
estiveram discutindo, eles tinham parado. Por enquanto, pelo menos.
— Ela não quer ir!
Minha cabeça virou ao redor com o berro de Jesse e eu e Lana
olhamos uma para a outra antes de correr na direção de onde a voz veio.
Andar de cima. Lana se moveu mais rápido do que eu teria pensado que
uma mulher grávida conseguiria e alcançou o patamar do segundo andar,
no mesmo instante que Drake estava vindo pela porta da frente.
— Tenha cuidado, Anjo.
— Ela precisa ir. Vai ser bom para ela. Ficar aqui só irá tornar as
coisas mais difíceis para ela, — a voz de Layla se alastrou para trás. —
Algum tempo longe de toda essa merda vai dar-lhe algum espaço para
respirar.
— Eu...eu não vou, — ouvi Lucy soluçar. — Você não pode me
obrigar!
Que diabos estava acontecendo?
Lana fez uma pausa longa o suficiente para abrir a porta de onde
todas as três vozes estavam vindo e eu parei quando vi a cena no quarto
de Lucy. Ela estava deitada em sua cama, com o rosto enterrado em seus
travesseiros enquanto soluçava uma e outra vez, seu corpo tremendo com
a força de cada um. Jesse estava de um lado da cama de sua filha
enquanto Layla estava do outro, ambos se encarando enquanto gritavam
um para o outro.
— Eu não vou deixar você mandá-la embora. Ela precisa de nós
mais do que qualquer coisa agora. Se ela estiver do outro lado do país
como vamos ajudá-la? Huh, Layla? Como? — Sua voz tremeu com a força

220
de suas emoções enquanto apontava o dedo para fora da janela. — Eu
não vou deixar você e Emmie mandá-la embora, porra. A minha menina
precisa de mim.
— Lana! — Lucy levantou a cabeça e viu sua irmã. — Lana, não
deixe que mamãe me mande embora. Não deixe.
Lana se aproximou da cama, indo direto para Layla. — O que está
acontecendo? — Ela perguntou, seu olhar indo de uma pessoa para a
outra, demorando em sua irmãzinha deitada antes de aterrar em sua
irmã mais velha que estava chorando abertamente, tão forte como Lucy
estava até então, mas a determinação em seus olhos marrons me disse
que ela não ia desistir da luta.
— Eu disse a Emmie para organizar os documentos de Lucy. Ela
vai para Georgetown na segunda-feira. — Layla colocou os braços em
torno de si mesma, seu corpo tremendo como se estivesse fisicamente
doente.
— O quê? — Lana exclamou, seus olhos cor de mel se arregalando.
— Layla... Você acha que é uma boa ideia? Olhe para Lucy. Ela está uma
bagunça.
— Você não estava uma bagunça depois do que aconteceu com
Drake? — Sua irmã mais velha exigiu e a boca de Lana apertou assim
que o homem em questão entrou pela porta do quarto. — Quão quebrada
você estava, Lana? E quanto é que ajudou, colocar distância entre você e
aqui?
Com uma mão que tremia visivelmente, Lana empurrou o cabelo
do rosto e virou-se para longe de todos eles. Seus olhos sobre o tapete,
ela parecia estar considerando o que Layla disse.

Drake se moveu para ficar ao lado de Jesse. Ele deve ter ouvido o
que Layla disse para a sua esposa e estava escolhendo o lado do seu
cunhado. — Ir embora não resolveu nada, Layla, — ele rosnou. — Você

221
só está mostrando a ela que pode correr de seus problemas e que isso
resolverá tudo.
— Não, eu estou mostrando que às vezes, você tem que ir embora
e colocar-se em primeiro lugar, — Layla estalou.
— Isso é besteira. — Jesse gritou tão alto que eu tinha certeza de
que os Armstrongs ouviram duas casas depois.
— Eu não quero ir embora, — gritou Lucy. — Eu posso corrigir
isso com Harris se você apenas me der um tempo.
— A cabeça do menino não está pensando direito e nem a sua, —
Layla disse para a filha em um tom que estava cheio de dor. — Você não
pode consertar isso quando nem sabe como se sente agora, querida.
— Eu sei. Eu o amo. Isso é tudo o que importa.
Lana finalmente virou-se e sentou-se na beira da cama de sua
irmã. Com um sorriso aguado, ela empurrou o cabelo emaranhado de
Lucy para fora do rosto. — Lucy, Layla está certa. Você precisa de tempo
para limpar a cabeça. O mesmo acontece com Harris. Dê-lhe algum
espaço, docinho. Vá para Georgetown por um semestre. Concentre-se na
escola e deixe seu coração curar um pouco.
Lucy ficou imóvel ao ouvir as palavras de sua irmã, assim como
todos os outros na sala pareceram sugar uma respiração profunda, cheia
de dor. Por um momento, Lucy parecia que ia discutir, mas no último
segundo seu rosto se desintegrou e caiu contra o peito de Lana. — Dói,
Lana. Dói tanto que eu não consigo respirar.
Lana colocou os braços ao redor dela, gentilmente balançando-a
para frente e para trás. — Eu sei, querida. Eu sei.
Tanto Jesse quanto Drake pareceram perder todo o vapor para
uma argumentação enquanto observavam as duas irmãs. Com um olhar
assombrado em seus olhos azul-acinzentados, Drake se moveu para ficar
ao lado deles e esfregou ambas as costas quando Lucy chorou. Jesse
abaixou a cabeça, as lágrimas já escorrendo pelo rosto.
— Você está certa, Layla, — ele murmurou. — Ela precisa ir.

222
Por insistência de sua madrasta, Harris foi para casa com seus
pais.
Eu pensei que era melhor para ele ir com eles, ao invés de voltar
para o lugar onde ele quase morreu. Além disso, eu duvidava que ele
pudesse ter muito descanso com a forma como as coisas estavam indo
com Jenna. Jenna estava basicamente presa em seu apartamento agora.
Mesmo ela sendo uma adulta, ela vivia com a mesada que seus irmãos
colocavam em sua conta bancária todos os meses, já que ela não ganhava
muito de sua obra de arte. Com a ameaça de ter sua mesada cortada, ela
não tinha escolha a não ser obdecer.
Eu me senti mal por ela, mas ao mesmo tempo, sabia que Jenna
trouxe isso sobre si mesma. Ela deveria ter contado a sua família sobre a
reabilitação. Ela deveria ter terminado com Tessa antes dela voltar. Porra,
ela não deveria ter se envolvido com uma viciada em drogas. Suas más
decisões a trouxeram a este ponto, mais ninguém.
Já que Lana puxou Kin junto com ela, eu fui para casa sozinho
naquela noite. Fiquei contente que Gray não estava em casa quando
cheguei lá, mas ao mesmo tempo, eu desejava que ele estivesse lá, então
eu não teria que pensar sobre todas as coisas passando pela minha
cabeça naquele momento.
Tentando me manter longe dos meus pensamentos sombrios, eu
tomei banho e me arrastei para a cama. Eu não dormia fora de uma
cadeira de plástico já a quatro dias e meu corpo doía por algum descanso
de verdade, mas meu cérebro não parava. Fiquei ali, olhando para o teto
por mais tempo. Pensei em ligar para minha irmã, mas não queria
perturbá-la com o que estava na minha mente. Eu pensei em mandar
mensagens para Kin, mas não queria interromper o que ela estava
fazendo. Pelo olhar no rosto de Lana quando a levou, era importante.
Estar no centro, enquanto a vida de Harris era jogada de cabeça
para baixo, me fez olhar para a minha própria vida. Meu amigo tinha

223
tudo ao seu favor. Um clube de sucesso que ele construiu por conta
própria. Uma namorada que o amava e faria qualquer coisa por ele. Era
uma vida que qualquer um invejaria e que se transformou em cinzas da
noite para o dia. Ele quase perdeu a vida, perdeu a menina, e sequer
queria falar sobre o seu clube. Felizmente, ele tinha uma equipe
completa, que poderia lidar com sua ausência sem esforço.
O que eu tenho?
Uma namorada que eu amava mais do que a vida. Uma carreira
que estava mostrando algum potencial de sucesso. Uma irmã e mãe
adotiva que me amavam.
Não era uma vida ruim, isso era certo, mas eu sentia que estava
faltando alguma coisa.
Eu ainda estava tentando descobrir o que era quando meu
telefone tocou. Sem olhar para a tela, eu o coloquei no meu ouvido. —
Alô?
— Oi, — A voz de Kin saiu em um suspiro rouco, mas eu ainda
ouvi o tremor.
— Qual o problema?
— Eu estou do lado de fora. Posso subir? — Ela perguntou, mas
eu já estava correndo pelo apartamento.
— Estou descendo, querida. — Eu soquei o botão de chamada
para o elevador, mas era três andares. — Você está bem?
— Já estive melhor, — ela murmurou. — Eu só estou cansada,
Jace.
Finalmente, o elevador chegou e eu entrei. Havia três outras
pessoas já no interior e dois deles engasgaram quando me viram. Eu fiz
uma careta e olhei para mim. Eu estava usando um calção de basquete
e nada mais. Nem mesmo sapatos. Merda. Na minha pressa para chegar
a Kin, eu não pensei sobre a roupa.
Ignorando as outras três pessoas, eu apertei meu telefone. — Está
ficando tarde, querida. Eu pensei que você teria ido de volta para o seu
pai.

224
— Eu deveria ter, mas não consegui. Se você não quer que eu
suba, eu posso simplesmente tomar um táxi de volta para Malibu.
— Não, — eu quase gritei, fazendo com que as outras pessoas
saltassem no elevador. — Não, eu quero que você fique. Eu estava
preocupado com você, isso é tudo.
— Oh. — Ela soltou um suspiro que parecia alivio.
O elevador parecia levar uma eternidade para descer. Eu bati
minha mão contra a minha coxa enquanto esperava impacientemente
que as portas se abrissem. Uma vez que eles abriram o suficiente para
que eu pudesse passar, eu corri através do lobby e para a rua, onde Kin
estava esperando na porta. Alívio tomou conta de mim de uma forma que
eu não entendia e me assustou quando passei meus braços em torno
dela.
Ela caiu no meu peito, seu corpo quase flácido de exaustão. —
Lucy está partindo, — ela explodiu. — Ela está indo embora.
Eu me afastei em reação. — O quê? — Agarrei-lhe o queixo e
inclinei a cabeça para encontrar seus olhos. — Ela vai embora? Onde
diabos ela está indo?
— Georgetown, — disse ela, enxugando o rosto manchado de
lágrimas. — A mãe dela acha que vai ser a melhor para ela. Ela não queria
ir, mas Lana a convenceu de que seria uma boa ideia. Ela vai embora e
eu não vou ter ninguém... — Ela parou, sacudindo a cabeça. — Porra,
isso soa tão egoísta.
Puxei-a para dentro do prédio e em direção aos elevadores.
Precisávamos de privacidade. Eu não queria que ninguém nos ouvisse
falando sobre Lucy. Felizmente, eramos os únicos no elevador neste
momento e eu a puxei contra mim enquanto tentava fazer minha mente
compreender que Lucy realmente ia embora.
Como ela pode fazer isso com Harris?
Como?
Me irritou que ela ia abandoná-lo. Não era certo, droga.

225
De volta ao apartamento, eu levei Kin ao meu quarto e empurrei-
a para baixo, na beira da minha cama. — Ela realmente vai embora? E
Harris?
Kin fez uma careta. — Ela não quer ir, Jace. Não foi ideia dela. É
o que a mãe quer e Lana concordou que seria melhor para ela e Harris
terem algum tempo e espaço para limpar suas cabeças.
Um pouco da minha raiva de Lucy evaporou. Ela não queria ir,
mas sua família estava empurrando-a para isso. Com minha cabeça um
pouco mais clara, eu pude ver o que sua mãe queria. Talvez a distância
ajudasse ela e Harris através da tempestade de merda que Tessa havia
provocado.
Soprando um longo suspiro, eu me deixei cair para baixo ao lado
de Kin na minha cama. — Bem, porra.
Ela assentiu com a cabeça. — Concordo.
Enrolei um braço em volta dos ombros e puxei sua cabeça para
baixo em meu peito. — Você vai ficar bem, baby? Eu sei que ela é sua
melhor amiga.
— Eu vou sentir falta dela, mas concordo que Lucy precisa de
algum tempo para limpar a cabeça. Ela está uma confusão, Jace. O que
quer que estava naquelas mensagens, fodeu com ela. Você sabe o que
era? Harris disse algo?
Minha mão apertou e eu tive que deixá-la ir, ou arriscar machucá-
la. — Sim, querida. Foi alguma merda feia que eu não quero encher sua
cabeça. Ela fez vídeos dela e Harris fazendo coisas e tentou publicar em
sites pornográficos por vingança. Emmie conseguiu tirá-los antes que se
espalhassem.
— Isso é tão fodido. Não admira que Lucy esteja tão destruída. —
Ela balançou a cabeça, com os olhos vidrados com mais lágrimas. — Se
fossemos nós, teria me matado vê-lo com outra garota.
— Você nunca terá que se preocupar com isso, Kin. Eu não estive
com ninguém desde que eu vi você na First Bass naquela primeira noite.
Logo que eu te vi novamente, soube que não haveria ninguém mais para
mim. — Fui pego de surpresa com o quanto eu estava mentindo para

226
mim mesmo. Eu sentia saudades dela, mas foi até que eu tivesse a visto
de novo, que percebi o quanto. Esta menina era o meu mundo e eu tinha
ferrado regiamente quando me afastei dela.
— Então você nunca ficou com qualquer uma daquelas meninas
que você usou para me fazer ciúmes? — Ela olhou para mim com uma
mistura de diversão e magoa.
Eu coloquei seu rosto em minhas mãos. Traçando meu polegar
sobre o lábio inferior cheio, eu lhe disse a verdade. — Não. Nenhuma
delas. Eu só estava tentando ver uma reação sua; Além disso, elas não
significavam nada.
Alívio passou pelo seu rosto e ela me deu um pequeno sorriso. —
Estou feliz. Eu tinha algumas imagens muito feias correndo pela minha
mente de você com elas. E eu cortando as suas bolas.
Estremeci com a última parte. — Porra, baby. Tenha um pouco de
piedade dos meus meninos.
Ela riu e era música para meus ouvidos.
Ela era tão linda que minha respiração ficou presa no meu peito
e eu não conseguiria manter minhas mãos para mim mesmo que eu
tentasse. Abaixando minha cabeça, eu peguei sua boca com meus lábios
e mergulhei para um beijo que nos deixou vendo estrelas.
Ela me seguiu enquanto uma onda de necessidade nos consumia.
Suas mãos foram para o meu peito nu, suas unhas picando minha carne
quando ela as passava para baixo sobre o meu estômago. Nós caimos na
cama e eu a puxei para cima de mim, deixando que ela tivesse o controle.
Se ela quisesse parar, ela poderia, mas eu precisava dela também, pra
caramba, para colocar os freios em mim mesmo.
O beijo continuou e continuou, sua língua explorando minha boca
enquanto eu saboreava o sabor dela em minha própria. Porra, ela tinha
um gosto bom. Seu corpo estendido junto ao meu, suas coxas espalhadas
de forma que ela estava praticamente montando minha cintura. Com os
cabelos caindo sobre seu ombro, me senti como se estivéssemos com
cortinas ao redor e nós poderíamos nos esconder do mundo por tanto
tempo quanto quiséssemos.

227
Procurando por ar, Kin levantou a cabeça, mas apenas por tempo
suficiente para puxar sua camiseta sobre a cabeça. Eu queria empurrá-
la de costas e deleitar os olhos sobre a pele que ela acabou de mostrar
para mim, mas ela já estava baixando a cabeça e eu estava perdido mais
uma vez em seu sabor.
Meu corpo estava doendo e latejando por ela. Eu precisava estar
dentro dela, precisava tê-la em volta de mim enquanto eu a marcava
como minha. Suas mãos me exploraram e foi só quando seus dedos
traçaram ao longo do meu coração que isso veio a mim, o que estava
faltando na minha vida.
Nada.
Eu não estava sentindo falta de algo. Eu tinha a menina que eu
amava. Eu tinha a minha família, amigos e carreira. Nada mais
importava. Enquanto Kin estivesse em meus braços, minha vida era
fodidamente perfeita.

228
Epílogo

— Acorde!
Eu acordei, me empurrei ereta na cama. Meu cabelo estava uma
bagunça e eu tinha certeza que havia baba no meu rosto, mas não me
preocupei em limpá-lo quando olhei para a pessoa em pé sobre a minha
cama.
— Odeio você, — eu resmunguei enquanto Carolina caía na minha
cama.
Ela riu e se acomodou entre os meus travesseiros antes de
empurrar algo em minhas mãos. — Feliz aniversário, Kin.
Pisquei o sono dos meus olhos enquanto eu focava o presente que
a minha meia-irmã acabou de colocar no meu colo. Durante o mês
passado, Carolina e eu acabamos nos aproximando ainda mais. Ela tinha
se tornado a amiga que eu precisava quando Lucy foi embora para
Georgetown e eu não tinha medo de admitir que eu precisava de sua
amizade mais do que eu percebia. Com a minha meia-irmã tomando
conta, era mais fácil voltar para a casa de meu pai no final de cada dia.
— Você não tem que me dar qualquer coisa, Caro, — Eu repreendi,
mesmo quando comecei a desembrulhar o presente.
— Eu queria, — ela me assegurou enquanto me observava abrir a
caixa. — Espero que você goste.
Encontrar a foto lá dentro fez meu coração apertar. Era um belo
quadro, o que provavelmente custou a Carolina sua mesada de um mês
inteiro, mas foi a foto o verdadeiro presente para mim. Pisquei as lágrimas
enquanto me olhava entre Lucy e Angie. Lembrei de Caleb usando meu
telefone para tirar a fotografia na noite em que eu escapei com Angie para

229
ir à First Bass. A foto estava no meu telefone e eu a coloquei no meu
computador, que foi onde Carolina deve tê-la encontrado.
Ver o rosto sorridente de Lucy me fez sentir sua falta ainda mais.
Eu não via o sorriso dela desde o seu aniversário. Quando falei com ela
por telefone, ouvi a dor que ainda estava tão perto da superfície, e quando
eu usei o FaceTime com ela eu vi as sombras debaixo de seus olhos. Ela
era um fantasma de seu antigo eu e meu coração se partiu por ela.
Harris não estava muito melhor, embora. Ele não sorria mais.
Seus olhos eram frios e mortos e ele estava trabalhando tanto que parecia
estar adiantando uma sepultura com todos os novos projetos que ele
estava realizando no clube. Eu me preocupava com ele mais do que com
Lucy, embora. Eu sabia o quão forte Lucy realmente era. Harris não era
tão forte, mesmo se ele quisessse que o mundo pensasse que ele era.
— Obrigada, Caro. Isso é lindo.
Ela me deu um sorriso caloroso. — Estou feliz que você gostou.
Eu pensei que seria perfeito para o seu novo quarto.
Excitação afastou um pouco da dor em meu peito pelos meus
amigos. Era o meu aniversário. Minha promessa para a minha mãe
estava oficialmente terminada e eu podia deixar a casa de Scott Montez
sem um único pesar. Eu já tinha um apartamento pronto e esperando
por mim, graças a Carter.
— Você vai me visitar, certo? — Eu quis saber quando me
acomodei contra os travesseiros ao lado dela.
Ela revirou os olhos. — Duh. Estou pensando em passar mais
tempo no seu apartamento do que em casa. Confie em mim, eu não gosto
daqui mais do que você.
Eu fiz uma careta. — Eu gostaria de poder levá-la comigo. —
Enquanto Carolina e eu nos aproximavamos, eu percebi que ela era tão
prisioneira naquela casa quanto eu. Sua mãe e irmã a usavam,
embaraçando-a, e fazendo sua vida duas vezes mais infernal como
fizeram com a minha. O que me segurava era a minha promessa para
minha mãe, mas a dela era sua idade. Ela tinha apenas quinze anos. Ela
estava presa com sua mãe por mais alguns anos, pelo menos.

230
— Vou sentir sua falta, — eu disse a ela honestamente quando
inclinei minha cabeça para trás. — Eu meio que me acostumei com você.
— Eu vou sentir sua falta, também.
Peguei a mão dela e dei-lhe um aperto firme. — Eu estou a apenas
um telefonema de distância.
— Obrigada, Kin.
Ficamos ali, conversando um pouco mais, até que Carolina teve
que se preparar para a escola. Eu deveria estar me preparando também,
mas eu ia faltar na escola naquele dia e iria ao meu apartamento. Corri
em volta, colocando a última das minhas coisas nas minhas malas.
Eu pensei em pedir para Jace me pegar, mas eu sabia que ele
estaria ocupado na First Bass. Ele estava ajudando Harris cada vez mais
e passava mais tempo no clube do que em casa a menos que eu estivesse
com ele. Então eu fechei a última mala e a levei para o andar de baixo,
achando que seria apenas chamar um táxi.
Quando abri a porta da frente, eu esperava que Jillian saisse da
cozinha para brigar comigo, mas ela não apareceu e eu dei um suspiro
de alívio quando saí para o degrau da frente. Colocando as malas na
entrada, eu fechei a porta.
Um carro buzinando me fez virar. Meus olhos pousaram em uma
nova Range Rover e a loura sentada atrás do volante. Meu coração
derreteu quando Angie abriu a porta do motorista e saiu. Caleb saiu do
lado do passageiro e eu quase chorei ao vê-los. Eu sabia que eles viriam
para a Califórnia no meu aniversário, mas eu não os esperava até mais
tarde no dia.
— Ei você aí, docinho — Angie colocou os braços em volta de mim,
me apertando com força. — Feliz Aniversário!
Eu rio através das minhas lágrimas felizes quando a abraço de
volta. — Esta é a melhor surpresa, — eu disse a eles quando fui esmagada
em um sanduíche entre meu irmão e irmã.
Angie foi a primeira a se afastar. Ela levantou um conjunto de
chaves e balançou-as para mim. — Isto é para você. Eu escolhi. O que
você acha?

231
Olhei para as chaves agora em minha mão para a Range Rover
branca. — Para mim?
— É claro que é para você, bobinha. Para quem mais seria? —
Caleb brincou enquanto passava em volta dos meus ombros e pegava
uma das minhas malas na mão livre.
— Vamos dar um test drive neste bad boy, — Angie pediu quando
abriu a parte de trás para que Caleb pudesse colocar minha mala dentro
antes de voltar para as outras. Ela saltou para o banco do passageiro e
eu deslizei atrás do volante.
Rio feliz, esperando até Caleb estar no banco de trás antes de sair
para fora da garagem. No caminho para o meu novo apartamento,
perguntei para os gêmeos sobre a viagem. Eles me mantiveram entretida
com seu vôo até que eu parei dentro da garagem do meu prédio novo. Era
apenas a poucos quarteirões da escola, então eu poderia caminhar se eu
precisasse, mas com o meu novo Range Rover, eu não precisaria.
Caleb levou minhas malas até o último andar do edifício de
apartamentos e eu usei as minhas chaves para destrancar a porta. O
dono supostamente deixaria entrar os caras da mudança no dia anterior,
que estariam trazendo os móveis que eu escolhi com Jace no fim de
semana antes. Carter me deu um pouco de orçamento a mais para
brincar com as probabilidades e terminou que eu encontrei alguns itens
ótimos.
— Feliz Aniversário!
Eu quase pulei quando ouvi as vozes gritando da cozinha. Por que
todo mundo estava tentando me dar um ataque cardíaco? Virei para
encontrar Carter e Jace, os dois de pé na cozinha com um bolo pequeno
na ilha entre eles. Com a visão de Jace, meu coração fez aquela pequena
cambalhota louca que sempre fazia e fui agredida com uma onda de amor
por ele que me deixou sem fôlego.
Levei alguns segundos para tirar os olhos dele e virar para Carter.
Ele estava parado lá com um largo sorriso no rosto ainda bonito. — Feliz
aniversário, Kin, — repetiu ele e avançou para me abraçar.

232
Lágrimas felizes me cegaram e tentei piscá-las para longe, mas
algumas escaparam de qualquer maneira. — Realmente é agora. — Eu o
abracei apertado, respirando os aromas familiares que eu sempre
associava com amor e memórias felizes. — É tão bom ver você.
— Então, o quanto você gosta do nosso apartamento? — Angie
perguntou quando ela atravessou a cozinha até a geladeira e pegou uma
garrafa de água.
Quanto tempo eles estavam lá? Eu não tinha abastecido a
geladeira ainda. Então, o que ela disse registrou.
— Nosso apartamento? — Meu coração estava disparado com as
possibilidades.
Angie fechou a porta da geladeira, um sorriso iluminando seu
lindo rosto. — Sim, nosso. — Ela abriu a água em suas mãos como se
não tivesse acabado de balançar meu mundo. — Meu e seu.
— Mas... E a faculdade?
— Eu estou saindo nesse semestre e começarei na UCLA no
outono, — ela me disse como se estivesse me dizendo que pediu pizza e
não apenas mudando sua vida para estar mais perto de mim.
Eu não conseguia parar as lágrimas enquanto corriam pelo meu
rosto. — Angie...
— Nada de lágrimas, — Carter intercedeu. — Hoje vai ser um dia
feliz, e por Deus, eu vou garantir que você se mantenha feliz.
Uma risada cheia de emoção borbulhou dentro de mim. — Estou
feliz, — eu resmunguei em voz rouca. — Mais feliz que isso e você vai me
matar.
Braços fortes foram em volta da minha cintura e eu me inclinei
para o calor de Jace. — Nesse caso, eu não deveria dizer que eu estive
conversando com Emmie, hein? — Ele murmurou no meu ouvido.
Algo em sua voz me fez virar em seus braços para que eu pudesse
ver seu rosto. — O que você estava falando com ela? — Ele falava com
Emmie sempre, agora que seu contrato com a First Bass estava perto de
terminar. Ela tinha planos para a Tainted Knights. Eu sabia que com ela
como sua empresaria, eles subiriam rapidamente no mundo do rock.

233
— Oh, nada realmente. — Ele deu um beijo sobre a ponta do meu
nariz. — Apenas que eu realmente gosto da sua música e perguntei se
ela estaria interessada em gravarmos uma demo para as gravadoras
ouvirem uma de suas músicas. Ela gostou da idéia.
Meu estômago se apertou com entusiasmo. — Você disse? Ela
disse? — Eu já estava saltando para cima e para baixo. — Meu Deus.
Você... Ela... não consigo nem falar agora.
Ele riu e me beijou novamente. — Feliz aniversário, querida. Eu
te amo.
Eu passei meus braços em torno dele, sabendo que eu nunca iria
deixá-lo ir. — Eu amo você, Jace. Amo tanto.

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Terri Anne Browning 
Lucy & Harris #3 
COM UMA PROMESSA, SUA VIDA MUDOU... 
Dizer adeus a minha mãe também signif
Playlist 
 
 
 
 
 
 
“Outcast”Shinedown 
“Follow You”Bring Me the Horizon 
“Paper Cut”Apollo Drive 
“I Bet”Ciara 
“One L
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Capítulo 1 Kin
 
Por que me sinto tão dormente? 
Eu não deveria estar dormente hoje. Quero dizer, como você pode 
não
5 
 
era. Se qualquer coisa, o câncer entrava na vida desses tipos de pessoas 
mais rápido do que qualquer outra pessoa. Eu
6 
 
talvez fosse porque eu o tinha visto em uma centena de capas de revistas 
e algumas telas de cinema desde então. 
Scot
7 
 
Carter vai recebê-la de braços abertos. Mas aceite esse tempo e use-o 
para conhecer Scott e suas meias-irmãs. Dê uma
8 
 
Tipo, o pôster da Demon’s Wings pendurado sobre a minha mesa 
que eu consegui autografado na última vez que eles estiv
9 
 
mão e um pequeno cooler que eu sabia que teria um litro de leite com 
chocolate, Cocas diets e um litro de sorvete. Os
10 
 
Eu ia sentir tanta falta deles. 
— Nós vamos visitá-la a cada oportunidade que tivermos — Angie 
prometeu enquanto ab

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