O Evangelho segundo São
Mateus
“O Evangelho Eclesial”
O Evangelho segundo São
Mateus
Autor: Estudiosos mais conservadores, acreditam que o apóstolo Mateus
realmente escreveu este evangelho, mas, hoje, a maioria dos estudiosos
concorda que Mateus não escreveu o Evangelho que leva seu nome, e
prefere descrever o autor como um anônimo cristão de origem judaica.
Período: aproximadamente 80 d.C.
Palavras-chave: O Reino dos Céus; A vida de Igreja; Reconhecimento
e autoridade de Jesus;
Estrutura do Livro
I. Evangelho da infância e preparação
do ministério de Jesus (1,1-4,16): IV. Edificação da Comunidade Cristã.
1) A genealogia e o evangelho da infância: Ele O ensino de Jesus funda a comunidade
é o Filho de Abraão, Filho de Davi, Filho de eclesial (16,13-20);
Deus (1-2).
1) A Igreja é fundada e são traçados os
2) O ministério de Jesus é preparado tanto por itinerários da fé (16,13-17);
João Batista como pelo batismo e tentações (3-
4,16). 2) Regras do comportamento da Comunidade
(18): Discurso comunitário;
II. Apresentação de Jesus no Evangelho
3) São dadas as instruções para o governo da
de Mateus (4,17-11):
Comunidade (19-20);
Prefácio: Jesus Jesus chama discípulos (4,17- V. Últimos dias em Jerusalém (21-25):
25);
1) A crise de Israel é manifesta através do
1) Jesus é o Messias da Palavra (5-7); discurso em parábolas (21-22);
2) Sermão da Montanha: Jesus é o Messias 2) Cristo dirige-se pela última vez aos Seus
das Ações (8-9); correligionários (23);
3) Narrativas de milagres, Jesus associa os 3) Cristo dirige-se pela última vez aos
Seus à Sua obra (10): Discurso Missionário; discípulos, antes da Paixão, para os instruir
III. Separação entre fé e incredulidade sobre os tempos da Igreja (24-25);
(12,1- 16, 12): VI. Paixão e Ressurreição de Cristo (26-
1) Discussão com os Judeus (12); 28):
2) O ensinamento de Jesus manifesta a 1) O sofrimento e a morte do Justo (26-27);
separação entre os discípulos e os fariseus (13):
O discurso em parábolas; 2) A ressurreição de Cristo e a missão dos
discípulos (28);
3) João Batista morre, mas os discípulos são
instruídos (14);
4) Discussões com os Judeus (15-16,12);
O Evangelho segundo São
Mateus
1. Introdução
2. Contexto Histórico
3. Mateus, uma narrativa enraizada na história
4. Cristo Mestre segundo Mateus
5. O Amor, resumo da Lei
6. Lendo o Evangelho
7. Conclusão
1. Introdução
1ª edição - versão 2015
Mt.5
Dos sinóticos, Mateus foi o evangelho mais citado
pelos primeiros escritores eclesiásticos e os pais da Igreja.
Isto se deu ao fato de esse evangelho ser o que dedicou
maior espaço aos ensinamentos de Jesus. A tradição cristã
considerou-o como o “Evangelho Eclesial”, isto é, aquele
a partir do qual se elaborou a doutrina da Igreja, o novo
povo de Deus, com o propósito de instruir o fiel acerca de
Jesus Cristo.
Mateus é o evangelho mais valorizado em toda a
tradição da Igreja e tem sido objeto de numerosos estudos
e comentários. Orígenes, João Crisóstomo, Cirilo de
Alexandria, Hilário de Poitiers, Jerônimo, Agostinho são
alguns dos que dedicaram esforços no estudo de Mateus.
O texto proposto pelo evangelista é atrativo! A
composição didática do evangelho impressiona. Há, de
certa maneira, um quadro da cristologia das comunidades
primitivas. Graças às pesquisas estruturais é possível
identificar a estrutura mateana. Cinco grandes unidades
discursivas de Jesus escalonam o evangelho:
1. O sermão da montanha 5,3-7,27
2. O apostolado cristão 10,5-42
3. O reino dos céus 13,3-52
4. A vida da comunidade cristã 18,3-35
5. O final dos tempos 24,4-25,46
Estas cinco unidades de discurso demonstram como
Jesus vive com os seus discípulos, sobre os quais vai
construir a comunidade do Reino, e dá-lhes diretrizes para
o tempo pós-Páscoa. As unidades são compostas com o
objetivo de ajudar os crentes a aprendê-las de memória.
Segundo J. Radermakers, os cinco grandes discursos
de Jesus distribuem a doutrina do Mestre conforme os
progressos da formação de sua comunidade. Trata-se de
uma catequese. “Esses discursos são um “vade-mécum” para
Mt.6 1ª edição - versão 2015
os responsáveis de comunidades e para os catequistas que atuam
em meios cristãos saídos do judaísmo”.
Como Marcos, o evangelho de Mateus contará, numa
primeira parte, o anúncio que Jesus faz do Reino de
Deus, através de seus ensinamentos e suas curas, com a
preparação longínqua da Igreja; e, numa segunda parte, o
evangelista mostra a maneira como o Mestre, caminhando
para a sua paixão, reúne seus discípulos a fim de constituir
a comunidade, testemunha do Reino em gênese.
A linguagem utilizada por Mateus facilita a
memorização. Ela contém uma estrutura sólida e
claramente compreensível, com uma diretriz ética e moral.
Os seus discursos são montagens literárias inspiradas
nos processos rabínicos de composição: formas repetidas,
paralelismos antitéticos ou sinonímicos, e que foram bem
conservados por Mateus. Provêm do ensinamento oral
praticado pelos rabinos.
Mateus não teme o redito: ele repete uma fórmula típica
em diversos lugares de seu evangelho para estabelecer
correspondências e facilitar a memorização: “O Reino dos
Céus está próximo” (3,2; 4,17; 10,7); “nas trevas exteriores”
(8,12; 22,13; 25,30); “a consumação dos tempos” (13,
49; 24, 3; 28, 20). Contaram-se até 27 repetições desse
gênero. Contribuem para ressaltar a dinâmica própria do
evangelho mateano, seguindo o ritmo de uma assimilação
progressiva.
A linguagem mateana pensa à maneira dos semitas:
exprime-se com os termos das Escrituras e das tradições
palestinas de sua época. Isso aparece claramente no
emprego de certas palavras e, sobretudo, de expressões
características. Encontramos, assim, um grande número
de semitismos, composições próprias à sintaxe hebraica,
passados para o grego; enumeraram-se 329, ou seja, três
vezes mais do que em Marcos. Mateus cita alguns termos
hebraicos, sem explicá-los, como “raka” (cabeça oca,
1ª edição - versão 2015
Mt.7
cretino) em 5,22; “Beelzebul” (mestre-príncipe, alcunha de
Satanás) em 10,25; “Corbã” (tronco das ofertas, tesouro do
templo) em 27,6 e outros.
Quanto às expressões típicas do meio palestino do século
I, citamos especialmente: “Reino dos Céus”, de preferência
a “Reino de Deus” (12 vezes); “meu Pai” ou “nosso Pai
que está nos céus” (5, 16.45; 6,1.8; 7,11.21; 10, 32-33; 16,17;
18,10.14.19), o “Pai celeste” (15,13; 18,35; 23,9); “cumprir a
Lei” (5,17), “a Lei e os Profetas” (5,17; 7,12; 22,40); “casa de
Israel” (10,6; 15,24), “os filhos de Israel” (26,9) etc.
Sobre o destinatário do evangelho de Mateus há
Cf. At 11, 19-26;
certo consenso entre os estudiosos. Trata-se de uma
13, 1 comunidade em Antioquia, na Síria, capital da província
romana, terceira cidade do Império, depois de Roma
e Alexandria. A comunidade de Antioquia é uma
comunidade viva, formada em grande parte por judeus
da diáspora, com uma minoria de pagãos convertidos; é
mais aberta na interpretação das Escrituras, na aplicação
da Lei, no relacionamento com os pagãos do que a Igreja
de Jerusalém, conservadora e ligada à tradição.
Portanto, o evangelho de Mateus é dirigido a uma igreja
judaico-cristã com a necessidade de tomar posição em
face do judaísmo oficial, do qual se originaram. A grande
questão da comunidade é se eles deveriam manter a
Cf. 4,23; 9,35;
10,17; 12,9; 13,54;continuidade com suas raízes judaicas, ou proceder a uma
22,7 irremediável separação. Mateus enfatiza com firmeza a
continuidade, pois Jesus cumpre a história de Israel, mas a
Texto do Car- própria realização provoca uma ruptura. Ao citar a “Lei e
deal Arcebispo os Profetas” e dizer que Jesus não vem abolir, mas cumprir
do Rio de Janei- (5,17), Mateus ressalta a fidelidade de Jesus à Aliança de
ro Dom Orani Deus com Israel. Ele retrata Jesus com traços judaicos,
João Tempesta como livre seguidor e aperfeiçoador da lei e costumes
judeus. Jesus supera o ensinamento dos rabinos.
1.1. Os Evangelhos Sinóticos
Mt.8 1ª edição - versão 2015
Os Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas (conhecidos
como os Evangelhos sinóticos) incluem muitos dos mesmos
episódios, muitas vezes, na mesma sequência, e às vezes
até na mesma formulação. A relação do Evangelho de
Mateus com o de Marcos e o de Lucas é uma questão em
aberto conhecida como o problema sinótico.
O Evangelho de Mateus contém cerca de 612
versículos dos 662 versículos do Evangelho de Marcos, e
principalmente em exatamente a mesma ordem. Mateus,
no entanto, muito frequentemente remove ou modifica
a partir de frases redundantes ou palavras incomuns de
Marcos e modifica as passagens do evangelho de Marcos
que possam colocar Jesus em uma luz negativa (por
exemplo, remover o comentário altamente crítico que Jesus
“está fora de sua mente” em Mc 3, 21, removendo “não te
importas” de Mc 4, 38).
Embora o autor do Evangelho de Mateus tenha
escrito de acordo com seus próprios planos e objetivos
e do seu próprio ponto de vista, a grande quantidade
de sobreposição na estrutura das frases e na escolha das
palavras indica que Mateus copiou de outros escritores do
Evangelho, ou eles copiaram uns dos outros, ou eles todos
copiaram de outra fonte comum. Os problemas sinóticos
causaram nos estudiosos do século XVIII questionamentos
sobre a visão tradicional de composição.
A visão mais popular na ciência moderna é a hipótese das
duas fontes, que especula que Mateus tomou emprestado
de Marcos e de uma coleção de ditos hipotéticos chamados
fonte Q (de “Quelle”, alemão que significa “fonte”). Para a
maioria dos estudiosos as fontes Q para partes de Mateus
e Lucas - às vezes, usa exatamente as mesmas palavras -
mas não são encontradas em Marcos. Exemplos desses
materiais são as três tentações do Diabo a Jesus, as
Bem-Aventuranças, a Oração do Senhor e muitos ditos
individuais
1ª edição - versão 2015
Mt.9
A minoria dos estudiosos continua a defender a
prioridade de Mateus, com Marcos tomando emprestado
de Mateus (“Hipótese agostiniana” e “Hipótese de
Griesbach”). Então, em 1911, a Comissão Pontifícia Bíblica
afirmou que Mateus foi o primeiro evangelho escrito, que
foi escrito pelo evangelista Mateus, e que ele foi escrito em
aramaico.
1.2. O Evangelista: Quem foi Mateus ?
Mateus era galileu e filho de Alfeu. Ele recolhia os
impostos (publicano) do povo hebreu para Herodes
Antipas. Sua Repartição de Finanças era localizada em
Cafarnaum, onde ele era desprezado e considerado um
pária. No entanto, como era cobrador de impostos ele teria
sido alfabetizado. Foi nesse cenário, que Jesus chamou
Mateus para ser um dos doze apóstolos e depois de seu
chamado, Mateus convidou Jesus para casa para uma festa.
A teologia tradicional identificou o evangelista Mateus
com o apóstolo Levi de quem fala o evangelho. O nome
de Mateus, que significa “Dom de Deus” ou “Deus dado”,
em grego “Theodoro”, é mencionado em todas as listas de
apóstolos do Segundo Testamento (Mt 10,3; Mc 3,18; Lc
6,15; At 1,13). A tradição sinótica cita a vocação de Levi, um
“publicano” ou coletor do imposto romano (Mc 2,13-14; Lc
5,27-28). Marcos menciona Mateus como “filho de Alfeu”
e conta que ele recebeu Jesus em sua casa (Mc 2,15), mas o
primeiro evangelho designa-o como Mateus (9,9). Embora
fosse pouco comum usar dois nomes semíticos, falou-se a
seguir de Levi Mateus como se fez com Simão Pedro. Os
Pais da Igreja, como Papias, Irineu, Orígenes, Agostinho,
Eusébio, Atanásio e muitos outros, reforçam a dedução
bíblica e sustentam a ideia de que Mateus seja o nome e
Levi o sobrenome, ainda que reconheçam a dificuldade da
junção de dois termos semíticos.
Mt.10 1ª edição - versão 2015
Como apóstolo, Mateus seguiu Jesus, e foi uma
das testemunhas da Ressurreição e Ascensão. Mateus
juntamente com Maria e Tiago e outros seguidores
mais próximos do Senhor, retirou-se para o Cenáculo,
em Jerusalém. Tiago sucedeu a Pedro como o líder
da comunidade de Jerusalém. Fato é que os apóstolos
permaneceram em Jerusalém ainda por um bom tempo,
e proclamaram que Jesus de Nazaré, era o Messias
prometido. Esses primeiros judeus cristãos eram chamados
de nazarenos. É quase certo que Mateus pertencia a esta
comunidade, pois tanto o Novo Testamento quanto o
Talmude afirmaram ser isto verdade.
Alguns acreditam que Mateus morreu de morte natural
ou na Etiópia ou na Macedônia. No entanto, a Igreja
Católica Romana e a Igreja Ortodoxa dizem que ele morreu
como um mártir.
1ª edição - versão 2015
Mt.11
1.3. Mateus e a “Teologia da Perfeição”
Não só na categoria de evangelista, mas de santo
e Apóstolo, ele soube responder a este chamado que
descreve. Desta forma, Mateus anuncia as palavras
de Jesus, as palavras que ele mesmo seguiu e da qual é
testemunha.
O Evangelho de Mateus escrito em hebraico ou
aramaico não existe mais, mas no Evangelho grego que
temos, continuamos a ouvir ainda, de certo modo, a voz
persuasiva do publicano Mateus que, tendo-se tornado
Apóstolo, continua a anunciar a misericórdia salvífica
de Deus para nós. Ouçamos a mensagem de São Mateus,
meditando sobre ele sempre de novo também para
aprender a levantar-nos e a seguir Jesus com determinação.
Este diálogo teológico com a Revelação transmitida
por Mateus nos faz propor um pensamento e uma forma
de teologia com base no Evangelho Mateano. Sob a
perspectiva tratada neste trabalho, bem se poderia delinear
uma “teologia da perfeição”. O que se quer dizer com
este termo é o significado mais profundo da concepção
de “perfeito”, que poderia se resumir na seguinte ideia:
uma teologia da plenitude, entendida enquanto sendo a
Encarnação e o momento histórico de Jesus como o auge
do cumprimento das profecias, por um lado, mas também
se refere à novidade evangélica, um Deus que vem até nós
por amor (Mt 9, 35-38), que não rejeita os pecadores, mas
os atrai (Mt 9, 11-13; 18, 21-35).
Essa “teologia da perfeição” proporia um Jesus que
chama a todos a participarem do Reino de Deus (Mt 13,
18-23; 24, 14). Esta proposta de Jesus, em Mateus, renova
as concepções de religiosidade: não é mais o simples
cumprimento de uma Lei exterior (Mt 5, 17.18) que basta
para a salvação (Mt 23, 23), mas é uma entrega interior e
exterior do ser (Mt 19, 21.22; 19, 27-29). A perseverança
nesta entrega a um chamado de Jesus é o que propriamente
Mt.12 1ª edição - versão 2015
caracterizaria esta perfeição, a fidelidade a Deus em todos
os momentos e vicissitudes (Mt 10, 3-8; 16, 24.25), da
mesma forma que Jesus o fez (Mt 20, 28).
Neste sentido se entende o alcance de Mt 5, 48:
“Vós, portanto, sereis perfeitos como é perfeito o vosso
Pai celeste.”
O ser humano deve manter a integridade do seguimento
a Jesus (Mt 8, 21.22), assim como Deus sustentou a proposta
de amor para com a humanidade ao ponto de enviar seu
Filho (Mt 23, 37-39). Da parte de Deus esta “perfeição” deve
ser entendida como a história da salvação (Mt 20, 1-16),
dos homens, aceitando e fazendo parte desta salvação (Mt
8, 11).
Aquele que aceita o chamado de Jesus, deve aceitar
uma entrega total que comporta uma conversão e uma
reciprocidade de amor (Mt 9, 9). Esta reciprocidade (Mt 22,
36-40) se faz notar não somente com Jesus, mas com todos
aqueles que são os “pequeninos” do Reino de Deus (Mt 18,
1-14; 19, 13-15). A expansão de amor proposta em Mateus
se assemelha a uma gota de azeite em um papel; no início é
um impacto (com Jesus), mas logo a tendência deste amor
será expandir-se ao próximo e, posteriormente, a todos os
povos (Mt 28, 18-20).
2. Contexto Histórico
Quando o Primeiro Evangelho foi escrito, o judaísmo,
em cujo universo de significados estavam inseridas as
primeiras comunidades cristãs – particularmente a mateana
–vivia um dos períodos mais turbulentos da sua história.
O saldo da guerra judaico–romana (66-135 dC.) era, em
todo sentido, desolador e o futuro apresentava-se incerto.
Jerusalém, a Cidade Santa, tinha sido arrasada no ano 70
e, com ela, o Templo, o sacerdócio e boa parte do mundo
conhecido por Jesus e seus discípulos. Era literalmente
o “fim do mundo” ou, melhor, de “um mundo”. A esses
1ª edição - versão 2015
Mt.13
(cf. Mt 24–25;
Mc 13; Lc 19,41-
acontecimentos últimos referem-se os evangelistas nos
44). discursos chamados de “escatológicos”.
Uma incógnita, peremptória e angustiante, levantava-
se para o povo da Aliança: Como sobreviver? Ou, dito
de outro modo: Qual era o núcleo, o coração, a medula
da própria identidade? Identificava-se esse núcleo com o
Templo – já desaparecido – ou ia além? Repensar a própria
identidade era, pois, questão de sobrevivência.
Foi naquele obscuro horizonte que vieram à luz o
Evangelho de Marcos, primeiro (aproximadamente 70
d.C.), e o Evangelho de Mateus, depois (aproximadamente
80 d.C.). Como parte desse povo, abalado e confundido
pelos últimos acontecimentos, ambos os evangelistas
deverão enfrentar o sofrimento e a perplexidade das
comunidades destinatárias de seus Evangelhos, assim
como as incógnitas que esse sofrimento colocava.
Nessas circunstâncias, Marcos– contemporâneo
da guerra com Roma – levanta uma pergunta básica,
crucial: “Quem é Jesus?”. Era preciso, de fato, começar por
esclarecer a identidade do Mestre. A resposta de Mc foi
(cf. Mc
igualmente decisiva para a comunidade dos seguidores:
8 , 3 1 ; 9 , 3 0 - 3 2 ;Jesus é o Cristo, o Filho de Deus (cf. Mc 1,1),o messias
10,32-34; Is 52–
53;Mc 10,32 inesperado,o Servo Sofredor que caminha para Jerusalém
seguido de seus discípulos.
Uma década depois, quando o Evangelho de Mateus
aparece, a pergunta outrora levantada por Marcos
adquire, na comunidade mateana, um foco diferente.
Ou, melhor, à pergunta pela identidade de Jesus – que
Mateus conserva e responde desde sua própria teologia
– acrescenta-se uma outra, também urgente e derivada
da anterior: “Quem somos nós?”. Trata-se, no fundo,
da mesma pergunta à qual, uma vez desaparecido o
Templo, todas as comunidades judaicas, em especial as
palestinenses, tiveram que responder. Ao final das contas,
o cristianismo das origens, ainda que encontrasse em
Mt.14 1ª edição - versão 2015
Jesus Cristo seu radical fundamento, sabia-se devedor,
continuador e membro do Povo da Aliança, de cujas
Escrituras continuava-se alimentando e de cujo culto ainda
participava – mesmo que celebrando, na intimidade das
casas, a ceia do Senhor
2.1. As Guerras Romano Judaicas
É o termo genérico que designa a série de revoltas
movidas pelos judeus contra a dominação pelo Império
Romano. Foram três guerras, mas alguns historiadores
consideram que houve apenas duas, descartando a “Guerra
de Kitos”.
Primeira guerra: Também chamada de “Grande Revolta
Judaica”, iniciada em 66 d.C., na província romana da
Judeia, e oficialmente encerrada em 70 d.C. embora a luta
tenha se prolongado até 73 d.C., com a tomada da fortaleza
1ª edição - versão 2015
Mt.15
de Massada. Foi sufocada pelas tropas do comandante
romano (e futuro imperador), Vespasiano, secundado por
seu filho, Tito. Morreram mais de um milhão de judeus e
o Templo de Jerusalém foi destruído, restando apenas o
Muro das Lamentações.
Segunda guerra: Também chamada de “Guerra de Kitos”,
ocorreu entre os anos 115 e 117, no governo do imperador
Trajano. Consistiu em uma revolta das comunidades
judaicas da Diáspora (judeus que viviam fora da Judeia),
disseminando-se, principalmente, por Cirene (Cirenaica),
Chipre, Mesopotâmia e Egito. Foi sufocada pelo
comandante romano Lúsio Quieto.
Terceira guerra: Também chamada de “Revolta de Bar
Kokhba”, ocorreu entre os anos de 132 e 135, durante o
governo do imperador Adriano, sendo liderada por Simão
bar Kokhba, que alguns consideraram ser o Messias
davídico esperado pelos judeus. Foi sufocada pelas
tropas do comandante romano Sexto Júlio Severo. Para os
historiadores que não consideram a “Guerra de Kitos” como
uma das guerras judaico-romanos, esta seria a segunda
guerra entre romanos e judeus.
Outras revoltas: Além dessas guerras, houve também
uma rebelião dos judeus da Síria Palestina contra
Constâncio Galo, césar do Império Romano, conhecida
como “Revolta judaica contra Galo”, ocorrida entre 351 e
352, que foi sufocada pelo comandante romano Ursicino.
No século V, as Revoltas Samaritanas contra o Império
Bizantino inflamaram a região por quase um século.
No século seguinte, os judeus se revoltaram novamente
contra o imperador bizantino Heráclio.
Mt.16 1ª edição - versão 2015
3. Mateus, uma narrativa enraizada na
história
O Evangelho segundo Mateus (= Mt) é,
fundamentalmente, uma narrativa. A exemplo do
Evangelho segundo Marcos (= Mc), onde se inspira, o
redator do primeiro Evangelho quer contar uma história, a
história de Jesus, Filho de Deus. Para realizar este projecto,
ele compõe uma narração que vai do nascimento de Jesus
até à Ressurreição, uma narração que é intercalada com
ensinamentos, milagres e sofrimento de Cristo.
Esta constatação evidente - o primeiro Evangelho é uma
narração - faz-nos descobrir três coisas: primeiramente, a
linguagem utilizada. Existem muitas maneiras de falar
da fé cristã, para a transmitir aos outros. Por exemplo, o
apóstolo Paulo, para melhor explicar a fé às comunidades
que fundou, escrevia Cartas. Estas Cartas não apresentam
a fé, contando a vida de Cristo - que quase aparece nos
seus escritos - mas explicando as verdades fundamentais
da fé e o modo prático de as viver. Paulo comunica e,
muitas vezes, discute com os seus leitores, empregando a
linguagem da argumentação, de raciocínios rigorosamente
construídos.
O profeta João, que escreve o Apocalipse, utiliza,
por sua vez, a linguagem da visão. A partir desta visão,
que se inspira no mundo de Deus, ele sugere aos seus
leitores uma maneira de interpretar a realidade concreta
em que eles vivem. Mateus, ao contrário, não utiliza
nem a argumentação de Paulo nem a visão de João para
manifestar a sua fé em Cristo, Filho de Deus. Ele manifesta
a sua adesão ao Cristo vivo e traça-nos o retrato do
Ressuscitado, contandô-nos a história do Jesus terrestre.
Portanto, a comunicação da fé não se faz dum modo direto
e com argumentos, mas de modo indirecto, sugerindo,
pela evocação duma vida passada, que resiste a toda a
sistematização apressada e que tem a sua própria lógica.
1ª edição - versão 2015
Mt.17
Em segundo lugar, a escolha da narração para
manifestar a fé em Cristo mostra um interesse apaixonado
pelo Jesus terrestre. Tal como todos os primeiros cristãos,
Mateus não vê em Jesus um ilustre defunto, cujas obras
maravilhosas e sabedoria convém lembrar com muito
respeito, mas o Senhor vivo e elevado à direita do Pai. No
entanto, Mateus considera que a melhor maneira de falar
deste Senhor vivo e glorificado, o modo melhor de O tornar
conhecido é precisamente lembrar um homem histórico e
concreto, Jesus de Nazaré, nascido durante o reinado do
imperador Augusto e crucificado no reinado de Tibério.
O Senhor, o Filho de Deus, não é directamente acessível;
é necessário lembrar a Sua existência terrestre para O
descobrir verdadeiramente. Trata-se, portanto, de voltar
ao passado narrado para compreender o presente e abrir-
se ao futuro. Em terceiro lugar, comparando a narração de
Mateus com a de Marcos, constatamos um alargamento
do quadro biográfico. Três exemplos: Marcos começava a
evocação da missão de Cristo, narrandoa atividade de João
Batista; Mateus, ao contrário, recua mais no tempo e dá-
nos conta do nascimento de Jesus e dos primeiros tempos
da sua infância.
Depois, ao fim do seu Evangelho, Marcos termina com
a descoberta do túmulo vazio e o temor das mulheres;
Mateus, vai .mais além deste acontecimento e conta-
nos as aparições do Ressuscitado aos Seus em Jerusalém
e na Galileia. Finalmente, se Marcos apenas menciona o
facto de que Jesus ensinava, Mateus dá-se ao trabalho de
nos transmitir o conteúdo de tal ensinamento em cinco
grandes e majestosos discursos. Concluindo, Mateus
pretende mostrar Cristo aos seus leitores através de Sua
vida densa de acontecimentos. Diferentemente de Paulo,
e em perfeito acordo com Marcos, Mateus não se interessa
unicamente pelo facto da morte e ressurreição de Cristo.
Ele pretende igualmente dar-nos os acontecimentos da
vida do Crucificado nas suas múltiplas dimensões.
Mt.18 1ª edição - versão 2015
3.1. O Emanuel, tema central do evangelho
As grandes sinfonias de Mozart ou de Beethoven contêm
múltiplos temas, que são desenvolvidos à medida do
andamento da obra. Dum modo semelhante, poderíamos
dizer que o Evangelho de Mateus contém um único tema,
que é desenvolvido em múltiplos movimentos. Este tema,
desenvolvido ao longo de todo o Evangelho, aparece no
texto pelo processo literário da inclusão. Na primeira
citação de cumprimento do Antigo Testamento em Jesus -
meio privilegiado de que Mateus se serve para interpretar
a história de Jesus -, o evangelista escreve:
“Tudo isto sucedeu para que se cumprisse o que foi dito
pelo Senhor e anunciado pelo profeta: Eis que a virgem
conceberá e dará à luz um filho; e chamá-lo-ao Emanuel,Mt 1, 22-23
quê quer dizer ‘Deus conosco.”
Paralela a esta declaração inicial, encontramos em Mateus
a última palavra da última instrução do Ressuscitado aos
Seus, palavra que, aliás, conclui o Evangelho e que está
redigida nos seguintes termos:
“E Eu estarei sempre convosco até ao fim do mundo.”
O tema fundamental do Evangelho de Mateus é,
portanto: Deus está connosco em Jesus de Nazaré. Por
outras palavras, ao deixar-nos a sua narrativa sobre Jesus,
Mateus quer mostrar que o Deus de Israel está connosco,
como está e para que está conosco. A manifestação da
presença salvadora e transformadora de Deus, tal é o
eixo central da história representada na vida de Jesus de
Nazaré.
3.2. Marcos, o modelo literário
Para quem lê paralelamente Marcos e Mateus, impõem-
se três constatações: primeiramente, Mateus tomou
de Marcos o gênero literário próprio dum evangelho:
seguindo o seu genial predecessor, para testemunhar a
sua fé em Cristo, ele faz um relato sobre Jesus desde os
1ª edição - versão 2015
Mt.19
começos na Galileia até ao Seu fim violento em Jerusalém.
Em segundo lugar, não somente aproveita o gênero
literário utilizado por Marcos, mas também o seu plano
geral do evangelho. Utilizando embora materiais que são
próprios do seu evangelho e agrupando outro material à
volta de certos temas, Mateus conservou a mesma ordem
do Evangelho de Marcos. Finalmente, a fidelidade de
Mateus a Marcos não está somente no gênero literário e
no plano; está também nos pormenores: dos 666 versículos
que constituem o Evangelho de Marcos, mais de 600
encontram-se em Mateus. Por isso, podemos dizer, sem
exagerar, que Marcos é o modelo literário que inspira e
guia Mateus, se bem que, em definitiva, Mateus é uma
recriação de Marcos.
Esta convergência literária é acompanhada por um
certo número de convergências teológicas. Assim Mateus,
no seguimento de Marcos, vê na história de Jesus, não
uma história fechada sobre si mesma e definitivamente
passada, mas uma história transparente para o presente
da Igreja. O discípulo, por exemplo, é certamente o
companheiro histórico do Jesus terrestre mas, ao mesmo
tempo, uma figura com a qual se pode identificar cada
um dos que se dizem discípulos de Jesus. O mesmo se
pode dizer do seguimento, que designa o itinerário que
os doze partilharam com Jesus, mas, ao mesmo tempo,
torna-se figura simbólica da adesão ao Senhor. Por outro
lado, em cada um dos dois Evangelhos o título de «Filho
de Deus» é o apelativo supremo para designar o último e
definitivo enviado de Deus. Nas duas narrações os relatos
de milagres são os lugares principais onde se juntam
e explicam as relações entre o Homem e o Cristo. Estas
convergências teológicas tão importantes não conseguem,
no entanto, esconder o essencial: Mateus não recolheu e
até abandonou a estrutura fundamental da teologia de
Marcos.
O segundo Evangelho caracteriza-se, efetivamente,
pela importância decisiva que atribui à cruz. Mediante
Mt.20 1ª edição - versão 2015
o “segredo messiânico”, Marcos pretende mostrar que a
identidade de Jesus deve ficar escondida até que se revele
verdadeiramente; e a paixão é o espaço privilegiado em que
esta identidade pode finalmente ser revelada sem qualquer
mal entendido. O segredo messiânico desenvolve-se
em Marcos mediante três processos literários: as ordens
de silêncio (a identidade de Jesus não deve confessar-
se publicamente antes da Paixão); a incompreensão dos
discípulos (os Doze não podem compreender o caminho
do seu Senhor antes da chegada ao seu termo); e a teoria
das parábolas (cf. Mc 4, 10-13). Mateus não segue este
ponto de vista de Marcos para ele, a Paixão não é o ponto
culminante do destino de Jesus, mas o lugar onde a justiça
pregada é vivida até às suas últimas consequências. Por
isso mesmo, para o redator do primeiro Evangelho, os três
anúncios da Paixão não têm a função organizadora que
recebem no evangelho de Marcos; por isso, os discípulos
(em Mateus) são, sobretudo os que compreendem; e por
(cf. Mc 8,27-
isso também, a confissão de fé em Jesus, longe de fazer30 e Mt 16,13-20)
apelo à restrição, converte-se em responsabilidade .
4. Cristo Mestre segundo Mateus
Quem é Cristo segundo Mateus? Que imagem
transmite este Evangelho à sua comunidade, aos seus
leitores? Uma primeira abordagem deste problema, pode
ser esquematizada observando os nomes que os atores
da narração de Mateus dão a Jesus. Efetivamente, cada
grupo implicado na narração, tem um modo específico de
nomear Jesus de Nazaré, se bem que no título escolhido
- Cristo Mestre - se revele a natureza da relação que liga
Jesus ao seu interlocutor.
Um primeiro grupo é constituído por aqueles que
negam ou desconhecem a verdadeira identidade de Jesus:
escribas, fariseus, saduceus, um jovem, as multidões,
Judas. Este grupo dirige-se a Jesus chamando-lhe “Mestre”
(12 vezes, sendo 6 unicamente de Mateus), ou de “Rabi” (4
1ª edição - versão 2015
Mt.21
vezes, sendo 2 de Judas); as multidões favoráveis a Jesus
até à Paixão, mesmo não aceitando a Sua pessoa, veem
n’Ele um Profeta.
MT 21, 11
“e as multidões respondiam: “É o profeta Jesus, de
Nazaré da Galileia.”
Mt 21, 46
“Procuravam prendê-lo, mas tiveram medo das
multidões, pois elas o consideravam com o profeta.”
Um segundo grupo é constituído por aqueles que
acreditam em Jesus: são os que foram curados por Jesus e
os discípulos. Dirigem-se a Jesus invocando-O como seu
“Senhor”(Kyrios). Nas 34 vezes que aparece este último
título - que é o título cristológico mais frequente no
primeiro Evangelho - 22 são próprias de Mateus. O terceiro
ator, que nos forneceu, indubitavelmente, o ponto de vista
decisivo sobre Jesus, é o próprio Deus. Por duas vezes,
aquando do Batismo (3,17) e da transfiguração (17,5), Ele
intervém diretamente no relato para qualificar Jesus como
seu «Filho muito amado». Este título, que é certamente o
mais importante, é dado também pela Escritura (2, 15),
pelo próprio Jesus (11, 27; 24, 36), por Pedro (16, 16), pelos
discípulos (14,33) e pelo Centurião junto da cruz (27, 54). Se
o titulo “Filho de Deus” - precisamente por causa d’Aquele
que o diz - se impõe como nome mais verdadeiro, o título
que exprime a fé dos discípulos, e que é o mais frequente,
é o de “Senhor” (Kyrios).
Quem é esse “Senhor” invocado pelos infelizes e
pelos discípulos? O evangelista tece toda uma série
de equivalências muito esclarecedoras: O Senhor é,
primeiramente, o Homem de Nazaré que caminha com
os Seus e os ensina (8,21). Ele 25 é, também, o Salvador
que arranca os infelizes e os discípulos da sua miséria (por
isso, este título é frequente nos milagres). Foque assim é,
Ele cumpre a antiga profecia, Ele é o Filho de Davi (por
isso há uma equivalência entre Kyrios e Filho de Davi em,
Mt.22 1ª edição - versão 2015
“Partindo Jesus dali, dois cegos o seguiram, gritando:
Filho de Davi, tem piedade de nós! Jesus entrou numa casa
e os cegos aproximaram-se dele. Disse-lhes: Credes que euMt 9,27-28
posso fazer isso? Sim, Senhor, responderam eles.”
“E eis que uma cananéia, originária daquela terra,
gritava: Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim! MinhaMt 15, 22
filha está cruelmente atormentada por um demônio.”
“Dois cegos, sentados à beira do caminho, ouvindo
dizer que Jesus passava, começaram a gritar: Senhor,
filho de Davi, tem piedade de nós! A multidão, porém, os
repreendia para que se calassem. Mas eles gritavam aindaMt 20, 30-31
mais forte: Senhor, filho de Davi, tem piedade de nós!”
Ele o Senhor que reina com autoridade sobre os seus
discípulos. Ele é o Juiz que virá julgar todos os povos no
fim dos tempos (por isso, há equivalência entre Senhor
e Filho do Homem em 24-25). E este Senhor, Homem de
Nazaré e Messias de Israel, Senhor do mundo e da Igreja,
Juiz do fim dos tempos, que é preciso agora descobrir mais
claramente através do retrato que Mateus nos fornece.
4.1. O discípulo e o ensino de Jesus terrestre
Qual a maneira de se tornar discípulo? A resposta de
Mateus é, ao mesmo tempo, tradicional e profundamente
surpreendente. Tradicional é a maneira dos outros
movimentos cristãos primitivos em que a entrada na
comunidade se fazia pelo batismo e pela catequese. Mas
também surpreendente pelos termos utilizados para
caracterizar a catequese. Examinemo-los em pormenor: A
catequese de Mateus não tem como conteúdo o significado
da morte e ressurreição de Cristo - como era pregado
por Paulo e Marcos - mas concentra-se nos ensinamentos
dados pelo Senhor. Deste modo, para Mateus, o elemento
essencial do “Acontecimento Jesus” reside na mensagem
que ele proclamou. Também é estranha a expressão
utilizada para caracterizar esta mensagem:
1ª edição - versão 2015
Mt.23
Mt 28, 20a “Tudo quanto vos tenho mandado.”
O ensinamento de Jesus é, portanto, apresentado como
um mandamento, como uma exigência imperativa (num
contexto semelhante, Marcos fala de “evangelho”):
Mc 13,10
“E é preciso que. antes, o Evangelho seja proclamado a
todas as nações.”
“Em verdade eu vos digo, onde quer que seja proclamado
Mc 14,9
o Evangelho. no mundo inteiro’ , referir-se-á também, em
sua memória, o que ela fez.”
e Lucas de “conversão e perdão dos pecados”:
Lc 24, 47
“e em seu nome se pregará a conversão e o perdão” dos
pecados a todas as nações, a começar por Jerusalém.”
como o indica o tempo passado do verbo, trata-se do
ensinamento dado pelo Jesus terrestre, durante o seu
ministério. Por outras palavras, o Ressuscitado faz da
palavra do Jesus terrestre a norma obrigatória até ao fim
dos tempos.
A mensagem do Ressuscitado é idêntica à do Jesus
terrestre. O Senhor do universo dá-se a conhecer
unicamente através da mensagem proclamada pelo
homem, Jesus de Nazaré. E insistimos: há unidade perfeita
entre o Ressuscitado e o Jesus terrestre. Para conhecer o
Senhor, que vive atualmente na comunidade, é preciso
colocar-se numa atitude de escuta e de seguimento do
Cristo histórico, que nos é manifestado nos Evangelhos.
Mas quando nos colocamos numa atitude de escuta do
Jesus terrestre, deixando-nos instruir por Ele, é então que
encontramos o Ressuscitado. Qual é, então, a mensagem
fundamental proclamada pelo homem, Jesus de Nazaré?
Qual é este «mandamento», que não podemos perder de
vista? Trata-se da vontade de Deus anunciada na Lei e nos
Profetas, interpretada com a autoridade soberana de Jesus,
concretizada e resumida no mandamento do amor.
Mt.24 1ª edição - versão 2015
O discípulo deve «guardar» este ensino de Jesus como
norma obrigatória. Este verbo (guardar.) não faz alusão a
um esforço de memória como se se tratasse de transmitir
a palavra de Jesus de geração em geração, sem a alterar
em nada. “Guardar” significa, antes, a obediência fiel,
concreta e quotidiana à exigência divina. Este convite à
fidelidade prática - tão típica de Mateus - é colocado sob o
sinal da promessa: Aquele que exige é também Aquele que
oferece a Sua mão e a Sua presença aos Seus seguidores,
em todo o mundo e em todas as épocas da História dos
homens: “Eu estarei convosco até ao fim dos tempos”
(20b). O Evangelho de Mateus acaba com esta promessa de
assistência ativa para com todos os que se comprometem
a seguir Jesus. O futuro está aberto, habitado por uma
palavra, protegido por uma promessa. A comunidade
universal dos discípulos pode, então, pôr-se a caminho.
4.2. Jesus, o cumprimento da lei (Mt 5, 17-20)
O “manifesto” indica à comunidade de Mateus como
Cristo, Senhor do mundo e da Igreja, se apresenta aos
homens depois da Páscoa. Todo aquele que deseje
confessar o Ressuscitado deve colocar-se à escuta e entrar
na escola do Jesus terrestre. Os ensinamentos ministrados
pelo Cristo histórico —de que os Evangelhos são a
recordação - continuará a ser, até ao fim dos tempos, o
acesso insubstituível e exclusivo à Sua presença. Põe-se,
então, de forma premente, a questão: Que ensinamento é
este, ao qual Mateus atribui uma função tão decisiva?
4.2.1. O programa do Sermão da Montanha
O ensino do Cristo de Mateus encontra-se reunido nos
cinco grandes discursos que encontramos ao longo do seu
Evangelho. Dentre estes cinco discursos, tem particular
importância o do Sermão da Montanha (capítulos 5-7),
no qual Cristo Se apresenta como o Messias da Palavra.
E nesta célebre instrução que o Jesus terrestre proclama
a vontade de Deus, em relação com a multidão e com os
discípulos (5,1-2).
1ª edição - versão 2015
Mt.25
O Sermão da Montanha, em si mesmo, é composto de
três partes:
a) a introdução (5,1-16) fala da felicidade e da vocação
dos discípulos;
b) parte central (5,17-7,12) diz-nos qual é a «melhor
justiça»;
c) a conclusão (7,13-29) é constituída por uma
exortação à obediência fiel.
A parte central começa por uma declaração
programática (5,17-20), na qual Cristo anuncia o tema que
Mt.26 1ª edição - versão 2015
será desenvolvido seguidamente, nas seis antíteses (5,21-
48) e nas instruções sobre a autêntica atitude para com
Deus. E esta famosa declaração programática de 5,17-20,
magna carta do ensino do Cristo de Mateus, que vamos
considerar seguidamente.
4.2.2. Discussão sobre a Lei
Esta passagem enfrenta uma das questões mais
candentes que se colocaram aos primeiros cristãos. Qual
é a relação existente entre a Lei formulada no Antigo
Testamento e o ensino de Jesus? A vinda de Jesus ao
mundo anula a Lei do Antigo Testamento? Se a anula,
onde está a fidelidade de Deus à Sua Palavra e às Suas
promessas? Jesus confirma e aceita a Lei? Então, onde
está a novidade decisiva da Sua vinda?
O Cristo do Sermão da Montanha agarra este problema
candente e bate-Se em duas frentes: por um lado, elimina
antecipadamente o mal-entendido segundo o qual Ele
teria vindo para suprimir a Lei:
Mt 5, 17
“Não penseis que vim revogara Lei ou os Profetas.”
sob este aspecto, Ele está contra certos círculos cristãos,
para os quais a revelação de Cristo implicava o abandono
das exigências éticas formuladas no Antigo Testamento.
Encontramos sinais destes cristãos «emancipados» na
polêmica contra os falsos profetas, que conclui o Sermão
da Montanha (7,15-23). Por outro lado, o Cristo de
Mateus enfrenta igualmente os que se consideravam os
guardas da vontade secular de Deus: os escribas e os
fariseus:
“Se a vossa virtude não superar a dos escribas e
Mt 5, 20
fariseus, não entrareis no Reino dos Céus.”
O conflito a que estamos a referir-nos não tem nada
de abstrato nem de longínquo. Não é, tão pouco, uma
simples peripécia da vida de Jesus, sem importância para
a Igreja de Mateus. Pelo contrário, este conflito está no
1ª edição - versão 2015
Mt.27
centro das preocupações do evangelista; ele está presente
na tradição e na vida de sua comunidade. Prova disso são
estes versículos 17 e 20, que são próprios de Mateus (só o
v. 18 tem paralelo em Lc 16,17). Se os v. 18-19a refletem o
ponto de vista de certos grupos “judeu cristãos”, donde
saiu o próprio evangelista, a formulação dos v. 17 e 20 é
sua e exprime a sua posição. Qual é ela?
“Não penseis que...”
A confusão que reinava no meio de certos discípulos,
e que Mateus trata de dissipar, diz respeito à missão de
Jesus. A causa da discussão era a autoridade da «Lei e dos
Profetas». Por outras palavras, a revelação da vontade de
Deus transmitida no Antigo Testamento continua ou não
Gl 3, 24
a ser uma exigência obrigatória para os cristãos? Paulo,
por exemplo, não declarou que “o fim da Lei é Cristo?” .
A resposta do Cristo de Mateus é categórica: não
existe uma ruptura entre a exigência ética, transmitida
na tradição do Antigo Testamento, e o ensino de Jesus.
Pelo contrário, a Sua vinda ao mundo caracteriza-se
precisamente pelo cumprimento da vontade de Deus
expressa no Antigo Testamento. Este “cumprimento”
acontece quando existe a fé no Seu ensino: Cristo declara
com toda a transparência e uma vez por todas a vontade
originária do Pai e a Sua prática: Cristo encarna, em todos
os momentos da Sua vida, a obediência declarada.
A vinda de Cristo não marca um termo ao direito de
Deus, tal como ele é formulado e transmitido ao longo
da história de Israel. Pelo contrário, tal vinda instaura o
direito de Deus sobre a terra e confere-lhe a sua validade
definitiva e universal.
4.2.3. Jesus, Mestre da Lei
A declaração programática que abre a parte central do
Sermão da Montanha permite-nos, deste modo, precisar
corretamente a afirmação central do “manifesto”. O ensino
Mt.28 1ª edição - versão 2015
do Jesus terrestre, que permite conhecer o Ressuscitado
e que deve ser proclamado a todos os povos, tem uma
dupla relação com a vontade de Deus revelada no Antigo
Testamento.
Por um lado, convém sublinhar a continuidade essencial
entre a pregação do Cristo de Mateus e a exigência moral
do Antigo Testamento. Ao mesmo tempo em que Cristo
cumpre as promessas dos profetas da Antiga Aliança, Ele
leva também à sua plenitude o direito de Deus anunciado a
Israel. O Antigo Testamento torna-se, pela própria vontade
de Cristo, o livro da Igreja. Mas, por outro lado, a aceitação
do Antigo Testamento não é literal nem mecânica. Cristo
leva ao seu pleno cumprimento a tradição secular de
que Ele é herdeiro. Ele dá-lhe a interpretação definitiva,
ao mesmo tempo em que a estabelece como verdade na
história dos homens. Deste modo, Cristo afirma a Sua
soberania em relação à Lei. A partir de Jesus, não poderá
haver nenhuma interpretação ou prática autênticas que
prescindam do ensino e da prática do Jesus terrestre; Aí
se encontra a condição necessária e exclusiva da melhor
justiça à qual são chamados os discípulos.
O tempo vivido pelos discípulos reunidos em Igreja
é, portanto, um tempo marcado pelo ensino do Jesus
terrestre. A partir daí, e até ao fim dos tempos, a História é
colocada sob o signo desta exigência ética. O horizonte do
julgamento põe de sobreaviso contra toda a ilusão e contra
toda omissão: a palavra proclamada, a Torah levada à sua
plenitude, convida à ação. A única resposta possível e rica
de vida a esta palavra, é a melhor justiça.
4.3. A Justiça segundo Mateus
A “justiça” é a noção, por excelência, de que se serve Cf. Mt 3,15;
Mateus para exprimir o comportamento fiel à vontade521,32,10.20;6,1.33;
de Deus (aparece 7 vezes). Neste caso, Mateus distingue-
se dos outros dois sinópticos, porque este termo nunca
aparece em Marcos e uma só vez aparece em Lucas. Para
1ª edição - versão 2015
Mt.29
melhor perceber a originalidade de Mateus, convém
comparar a sua ideia de justiça com a de Paulo. Para este
apóstolo, a «justiça» é, fundamentalmente, o ato pelo qual
Deus «justifica» o pecador. Esta «justiça» não vem pela
obediência à Lei. Só pode ser recebida mediante a fé. O
Cf. Rm 1,16-
crente não pode pretender a justiça; esta lhe é atribuída
17, Fil 3,9 pela graça de Deus. Bem pelo contrário, em Mateus, o
crente pode cumprir a Lei e, assim, aspirar à justiça.
A busca da justiça pela obediência à vontade de Deus é
precisamente o objeto do convite que Cristo faz aos Seus
seguidores, no Sermão da Montanha (5,20; 6,33). Jesus é
o modelo perfeito desta conformidade com os preceitos
divinos. A salvação escatológica é prometida àquele que se
compromete a seguir o caminho da «justiça», isto é, a retidão
ética, e que está pronto a aceitar todas as consequências.
Portanto, se para Mateus, a justiça se concretiza no atuar
ético do homem e, por este motivo, ela constitui a condição
da salvação, nem por isso ela é mais que um simples
caminho (21, 32). No primeiro Evangelho, os discípulos
são chamados à justiça mas nunca são declarados «justos».
Porque a Igreja está a caminho do julgamento e só Deus
designará os Seus como justos. O discípulo é chamado a
praticar a justiça e não a presumir-se justo. O Discurso
da Missão (cap. 10) manifesta o mesmo processo: Jesus,
não somente Se compadece das multidões maltratadas
e prostradas (9, 36), mas ainda escolhe colaboradores
para ir em socorro das mesmas; e Ele apetrecha com a
Sua Palavra e com o Seu poder aqueles que associa à sua
prática missionária. Então, no capítulo 11, que conclui a
apresentação do Cristo de Mateus, à pergunta do Batista:
“És Tu Aquele que há de vir ou devemos esperar outro?”
Jesus responde, evocando os gestos concretos de
libertação que Ele próprio realiza;
“Respondeu-lhes Jesus: Ide e contai a João o que ouvistes
e o que vistes: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos
Mt.30 1ª edição - versão 2015
são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam,
o Evangelho é anunciado aos pobres...Bem-aventuradoMt 11, 4-6
aquele para quem eu não for ocasião de queda!”
Ele é também o amigo de publicanos e pecadores, o
manso e humilde de coração.
“O Filho do Homem vem, come e bebe, e dizem: É um
comilão e beberrão, amigo dos publicanos e dos devassos. Mt 11,19
Mas a sabedoria foi justificada por seus filhos.”
A Paixão manifesta, da maneira mais clara e definitiva,
que os valores proclamados pelo Mestre são totalmente
assumidos até ao sofrimento, até à morte. Sobretudo
Getsêmani revela-nos um Cristo que sabe viver a oração
—ensinada aos discípulos - quando chega o momento da Mt 26,42
provação: “Faça-se a Tua vontade”.Jesus não se contenta
em proclamar uma nova justiça. Ele realiza-a.
4.4. Conteúdo e Autoridade da Lei
O conteúdo da pregação do Cristo de Mateus consiste
no cumprimento da Lei do Antigo Testamento. Foi o que
descobrimos em textos fundamentais, como 28,16-20
e 15,17-20. Qual é, então, o conteúdo desta Torah (Lei)
proclamada e vivida pelo Jesus terrestre?
O leitor atento esbarra imediatamente com uma grande
dificuldade: é que o primeiro Evangelho não tem um
discurso unitário sobre a Lei. Assim, alguns textos declaram
que a Lei é válida na sua totalidade, enquanto outros falam
da sua reinterpretação ou mesmo abolição. O exemplo
clássico e mais claro sobre este assunto é-nos dado no
Sermão da Montanha: enquanto o discurso programático
de 15,17-20 apresenta Jesus como Aquele que vem
«cumprir» a Lei, confirmando a sua validade, as antíteses,
que seguem imediatamente (5,21-48), manifestam-nos um
Jesus que reinterpretou a Lei e, nalguns casos, a aboliu.
Como explicar esta aparente contradição? Para resolver
este problema, convém examinar, em primeiro lugar, em
1ª edição - versão 2015
Mt.31
que sentido é válida a Lei e, em segundo lugar, em que
sentido ela é reinterpretada ou abolida.
4.4.1. A validade da Lei
Segundo Mateus, a Lei é integralmente válida, enquanto
Paulo afirma que «Cristo é o termo da Lei» (Rm 10,4),
Mateus defende categoricamente que Cristo, longe de
abolir a Lei, a cumpre, isto é, dá-lhe a sua plena validade. E
esta validade não é geral nem simbólica: “Não passará um
Mt 5, 18
só “i” ou uma só vírgula da Lei, sem que tudo se cumpra.”
;isto equivale a dizer: nenhum mandamento - por menor
que seja - poderá ser posto em causa. A Lei do Antigo
Testamento é, portanto, normativa; ela continua a ser a
expressão adequada da vontade de Deus.
Se a Lei aparece revestida de tanta importância e
autoridade, como se relaciona com a autoridade do
próprio Cristo? Que relação existe entre o Cristo de Mateus
e a Torah? A resposta a esta pergunta pode surpreender
o leitor do Evangelho: a Torah (Lei) constitui o ponto de
referência que permite estabelecer a identidade messiânica
de Jesus e compreender o conjunto do Seu ministério.
Primeiramente, enquanto promessa (livros proféticos
do Antigo Testamento), permite mostrar ao povo de
Israel que Jesus é o Messias prometido. Como o provam
as numerosíssimas citações de cumprimentos, tão típicas
do primeiro Evangelho, Jesus manifesta a Sua dignidade
messiânica na medida exata em que realiza as promessas
comidas na Bíblia de Israel. Todos os momentos da
Sua vida manifesta isso mesmo: do nascimento à cruz,
passando pelos milagres, Jesus realiza a esperança inscrita
no coração da Torah veterotestamentária. Ele cumpre,
portanto, a Torah, enquanto promessa.
Mas - e este é segundo aspecto - Jesus cumpre também
a Torah enquanto exigência; de duas maneiras: por um
lado, Jesus cumpre a Torah ao nível do Seu ensinamento;
Mt.32 1ª edição - versão 2015
a Sua pregação reinterpreta a vontade, original de Deus
manifestada aos Pais do
Povo de Israel. Por outro lado, Jesus cumpre a Torah,
enquanto exigência, ao nível da Sua vida: cada momento
da Sua vida é uma tradução prática da palavra anunciada;
cada momento da Sua vida manifesta a obediência
exemplar do Filho.
A pessoa de Jesus é, pois, o espaço onde a Torah, enquanto
promessa e exigência, chega ao seu desenvolvimento e ao
seu pleno cumprimento. Chegados a este ponto da nossa
análise, podemos perguntar-nos se Cristo é ainda soberano
em relação com a Torah ou se tornou servo da mesma.
4.4.2. O mandamento do Amor
O segundo modelo de interpretação da Torah, nas
controvérsias com os fariseus, parte do fato de que, por
vezes, duas exigências inscritas na Torah podem entrar em
conflito. Este conflito, gerado pela própria Torah, exige uma
decisão que terá como resultado a maior importância dum
mandamento em relação a outro ou outros. Mas afirmar
que, em determinada circunstância, um mandamento
deve prevalecer sobre o outro é, por um lado, arruinar a
autoridade formal da Torah (um mandamento já não é
válido pelo simples fato de figurar na Torah) e é, por outro
lado, escolher um princípio de hierarquização. Ora bem,
como ficou manifesto na dupla citação de Os 6,6, em:
“Ide e aprendei o que significam estas palavras: Eu
quero a misericórdia e não o sacrifício. Eu não vim chamarMt 9.13
os justos, mas os pecadores.” e;
“Se compreendêsseis o sentido destas palavras: Quero
a misericórdia e não o sacrifício... não condenaríeis os Mt 12,7
inocentes.”
e também em,
1ª edição - versão 2015
Mt.33
“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o
dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os
preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia,
Mt 23,23
a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro
lugar, sem contudo deixar o restante.”
Cristo encontra no amor este princípio de re-
interpretação. Um bom exemplo deste processo
Cf. Mt 12, 1-8; Mc
interpretativo é nos oferecido pela controvérsia das
2, 23-28 espigas arrancadas. A comparação sinóptica mostra aqui
claramente o específico da argumentação de Mateus.
No relato de Marcos, o comportamento dos discípulos
é justificado de dois modos: primeiramente, por um
precedente extraído da história de Davi;
“E ele lhes disse: “Então nunca lestes o que fez
Davi quando ele e seus companheiros se acharam em
necessidade e ele sentiu fome,como, no tempo do sumo
sacerdote Abiatar, entrou na casa de Deus, comeu os pães
Mc 2,25-26
dc proposição, que a ninguém é permitido comer, senão aos
sacerdotes,e deu-os também aos que estavam com ele?”
Seguidamente, pela afirmação de Jesus, que Se declara
soberano Senhor do sábado, colocado este último ao
serviço do homem;
“E ele lhes dizia: O sábado foi feito para o homem e não
Mc 2,27-28
o homem para o sábado, de sorte que o Filho do Homem é
senhor até do sábado.”
Mateus toma o texto de Marcos, mas aumenta-o com
duas citações extraídas do Antigo Testamento.
A primeira é tirada do livro dos Números 28, 9-10:
“Não lestes na lei que, nos dias de sábado, os sacerdotes
transgridem no templo o descanso do sábado e não se
tornam culpados? Ora, eu vos declaro que aqui está quem
é maior que o templo. Se compreendêsseis o sentido destas
Mt.34 1ª edição - versão 2015
palavras: Quero a misericórdia e não o sacrifício... não Mt 12,5
condenaríeis os inocentes.”
Esta citação evoca o fato de que os sacerdotes, no
exercício do seu ofício, estão autorizados pela própria
Lei a violar o sábado. A intenção do argumento é clara: a
própria Torah hierarquiza os mandamentos; neste caso, a
necessidade do culto e dos sacrifícios é mais importante
que o preceito do descanso do sábado.
A segunda referência ao Antigo Testamento é uma Mt 12,7
citação de Os 6, 6: “Prefiro a misericórdia ao sacrifício.”
Esta declaração permite dar o segundo passo na
demonstração: se a hierarquização dos mandamentos é
inevitável, em nome de que princípio deve fazer-se? Em
nome do amor - responde Mateus. Os discípulos tinham
fome (Mt 12, 1: correção de Mateus em relação a Marcos); a
sua extrema necessidade justifica o seu gesto (de arrancar
espigas) porque o amor de Deus prefere o bem do homem
ao respeito formal e cruel duma exigência.
5. O Amor, resumo da Lei
De acordo com a primitiva tradição cristã, Mateus
descobre no mandamento do amor o centro da mensagem
ética de Jesus. No entanto, dentre os três sinóticos, foi ele o
único que quis expressamente mostrar que esta exigência
do amor está de acordo com o A.T. e no centro da Lei do
Antigo Testamento. Lembremos os elementos essenciais
deste assunto:
O texto clássico é o de Mt 22, 34-40. Em relação com
a sua fonte de Marcos (12, 28-34), o primeiro Evangelho
distingue-se pela insistência na relação entre amor e Lei.
Se o escriba do Evangelho de Marcos pergunta: “Qual Mc 12,28
é o primeiro de todos os mandamento?” , o legista de
Mateus diz: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”
Além disso, se Jesus conclui a Sua instrução, em Marcos,
afirmando: “Não há outro mandamento maior que este”
1ª edição - versão 2015
Mt.35
(Mc 12,31), o Cristo de Mateus termina nestes termos:
Mt 22,40
“Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os
Profetas” .
Este empenhamento em apresentar a exigência do amor
como centro da Lei verifica-se no contexto e no comentário
que Mateus atribui à «regra de ouro»: “Portanto, o que
Mt 7,12 e Lc
quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a
6,31 eles; porque esta é a Lei e os Profetas.” . Por um lado,
Mateus, rompendo com a ordem da tradição conservada
em Lucas, fez destas palavras a conclusão da parte central
do Sermão da Montanha; toda a interpretação da vontade
de Deus culmina neste apelo ao amor recíproco. Por outro
lado, Mateus, depois da «regra de ouro», acrescentou este
comentário que lhe é próprio: “Porque esta é a Lei e os
Profetas.” Com esta intervenção redacional, o autor do
primeiro Evangelho manifesta claramente que, para ele, a
exigência do amor é, ao mesmo tempo, o centro e o resumo
da Lei.
Esta insistência em querer descobrir o princípio
de interpretação da Lei encontra-se nas duas citações
redacionais de Oseias 6, 6; em Mt 9, 13 e 12, 7: “Prefiro a
Misericórdia ao sacrifício”. Nos dois casos, Cristo pretende
dizer aos fariseus em que aspectos a vontade original
de Deus, que é o amor, se opõe à sua prática legalista e
perniciosa da Lei. Igualmente, na célebre maldição contra
os escribas e fariseus, Cristo, numa maneira própria de
Mateus, designa a justiça, a misericórdia e a fidelidade
como os pontos fundamentais da Lei. Por outro lado, fica
claro que, se as seis antíteses pertencem à segunda parte
do Decálogo (sobre o próximo) (5, 41-48); a última, que
encerra este assunto, retoma o motivo do amor para o
aplicar aos inimigos; isto significa que o amor ilimitado é
a única finalidade da Lei, a perfeição à qual são chamados
os discípulos de Jesus.
Finalmente, o amor vivido - que é o centro da Lei - é
visto como critério do julgamento final. Em 19, 19; ao jovem
Mt.36 1ª edição - versão 2015
que Lhe pergunta o que deve fazer para possuir a vida
eterna, Cristo responde, dizendo-lhe que cumpra a Lei; e,
explicando, Mateus é o único dos sinóticos que menciona o
amor do próximo: “E ainda amarás o teu próximo como a
ti mesmo”. Na majestosa cena do julgamento final, própria Cf. Mt 25,31-
de Mateus, são os gestos de misericórdia, feitos em favor46
dos miseráveis, que decidem o destino último dos homens.
O Cristo do Sermão da Montanha apresenta-se com uma
autoridade imediata e incondicionada, uma autoridade
independente da Lei e superior a ela.
5.1. As dificuldades que ainda permanecem
Os relatos de controvérsia e as antíteses do Sermão da
Montanha, mostram que Cristo vê na exigência do amor,
o centro da gravidade e o resumo da Lei. Esta opção
claramente ética implica, ao mesmo tempo, que a Lei ritual
perde todo o seu valor para a comunidade cristã.
Marcos pensa isto mesmo: para ele, a Lei no que toca
aos ritos, perdeu o seu valor: “Nada há fora do homem Mc 7,15
que, entrando nele, o possa tornar impuro” . O mesmo se
diga em relação ao sábado e ao jejum (Cf. Mc 2, 19-27), que
perdem o seu caráter obrigatório. Que pensa Mateus?
Certamente, o autor do primeiro Evangelho conhecia,
pelo Evangelho de Marcos, a tradição sobre a pureza Cf. Mt 15, 1
ritual . Mas ele considera o problema duma maneira mais
pormenorizada. Nada do que existe na Lei é anulado;
mas cada coisa deve ocupar o lugar que lhe corresponde.
Assim, em caso de conflito, deve vencer o mandamento
mais importante; ora, isto implica a prioridade absoluta da
exigência do amor. Esta possibilidade está bem clara no
capítulo 23. A afirmação é bem clara: a obediência deve
regular-se pela exigência central da Lei- o amor -sem
abandonar (um destes mais pequenos preceitos) (5, 19).
Este ponto de vista pode verificar-se ao longo de todo
o Evangelho. A estranha redação de 24, 20 faz pensar
que a comunidade cristã de Mateus ainda respeitava o
1ª edição - versão 2015
Mt.37
sábado e nada indica que o rito da circuncisão tenha sido
abandonado.
Historicamente, explica-se a manutenção de toda a Lei
- mesmo os seus ritos - pelas raízes profundas que este
Evangelho tem no ambiente do judaísmo; no entanto, um
grande problema começa a colocar-se: Como conjugar esta
opção do ambiente judeu-cristão com a missão universal
da Igreja? Quererá isso dizer que os pagãos não poderão
aceitar Cristo sem aceitar, previamente, a Lei na sua
totalidade? Será que Mateus estava do lado dos adversários
de Paulo nas discussões da Carta aos Gálatas?
A história resolveu a questão: no contexto de missão
universal, a importância da exigência do amor, levou, de
fato, à anulação dos ritos da Lei.
Em todo o seu Evangelho, Mateus concede um lugar
de destaque à Lei. A referência central é, certamente, o
ensinamento do Jesus terrestre; mas este ensinamento é
cumprimento da Lei. O crente, por sua parte, é convidado
a colocar-se numa posição de escuta desta exigência ética
e a colocá-la em prática. Tal como os seus irmãos na fé, ele
encontra-se no caminho do julgamento e é unicamente “a
melhor justiça” que lhe garantirá a salvação.
Numa palavra, o fato de acentuar o papel da Lei na
apresentação de Cristo, do fazer como condição de salvação
e do juízo final, não estará em contradição com toda a ideia
de salvação pela graça? A Boa Nova da chegada do Reino
como mensagem de libertação não é exageradamente
diminuída? Não cairemos num novo legalismo? Numa
nova “religião de obras”?
6. Lendo o Evangelho
6.1. Prólogo (Mt 1-2)
O primeiro capítulo de Mateus apresenta-nos Jesus
como Homem-Deus.
Mt.38 1ª edição - versão 2015
“A genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de 1, 1-17
Abraão.”
Mostra assim que este personagem esperado pelo
povo judeu é da nossa raça. Mas Ele é algo mais, pois, foi
concebido pelo poder do Espírito Santo:
“Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava
desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu
que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. José, seu
esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la,
resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava,
eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe
disse: José, filho de Davi, não temas receber Maria por
esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito
Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de
Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados.
Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor
falou pelo profeta: Eis que a Virgem conceberá e dará à
luz um filho, que se chamará Emanuel, que significa: Deus
conosco. Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe
havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa. E, sem
que ele a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu filho, que Mt 1, 18-25
recebeu o nome de Jesus.”
E o papel de José consistia em dar-lhe um nome, ou seja,
inseri-lo no desenvolvimento da nossa história, dando-lhe
um ser social. No capítulo segundo passa-se à história
onde os tempos e os lugares têm uma grande importância:
trata-se de Jesus de Nazaré, conhecido como tal, nascido
em Belém de Judá no tempo do rei Herodes. Adorado
pelos pagãos, recusado pelos chefes dos Judeus e o sangue
corre em Israel, desenha-se já no horizonte o drama que
acabará na cruz.
Subjacente a esta estrutura aparece outra, uma
genealogia verdadeira, abertura de uma sinfonia, seguida
de cinco episódios, cada um deles contendo uma citação
1ª edição - versão 2015
Mt.39
do Antigo Testamento. Deste profundo enraizamento
bíblico, brota uma seiva que alimentará todo o Evangelho.
“Mas, por que Cristo foi concebido de uma virgem desposada
e não uma única virgem? Por três razões: em primeiro lugar,
que pela genealogia de José se conhecesse a origem de Maria; a
segunda, para os judeus não a apedrejarem como uma adúltera;
e terceiro, que ele teve de fugir para o Egito edredom. O mártir
Ignacio argumenta outra razão: para ocultar ao demônio, o parto
de Maria, sempre acreditei que Cristo foi gerado não de uma
virgem, mas de uma mulher casada.”1
6.1.1. A Gênese de Jesus Cristo ( Mt 1, 1-17)
A genealogia tinha-se convertido num gênero literário
para apresentar um personagem importante. Os primeiros
cristãos sabiam que Jesus era descendente de Davi. Mas era
necessário prová-lo. É o que aqui intenta Mateus por estas
três vezes, catorze gerações que vão desde Abraão até José.
Esta lenta melopeia faz crescer em nós a convicção de que
aquele que irá nascer no fim dos tempos é verdadeiramente
da nossa própria raça. um homem como nós Mas, também
totalmente diferente.
6.1.2. A Anunciação a São José ( Mt 1, 18-25)
A genealogia terminava em José: mas Mateus diz-nos
que José interveio de alguma maneira naquele nascimento
“Maria concebeu Jesus de maneira virginal, pelo poder do
Espírito Santo, José sabe-o, e, como é um homem “justo”
não quer dar o seu nome, um nome humano a esse Filho do
milagre.” Deus, então, vem dizer-lhe que dê a esse Menino,
junto com o nome, o “ser social”. “Maria deu-lhe o Seu ser
de homem, mas tu dar-lhe-ás o nome, inserindo-o, assim,
na tua descendência.” O Anjo anuncia o “Emanuel” e José
chama-lhe “Jesus” (ou “Deus salva”). Só depois de passar
pela morte e pela ressurreição, esse Deus-Salvador poderá
ser real e definitivamente o Deus conosco.
1 São Jerônimo
Mt.40 1ª edição - versão 2015
O papel de José realiza-se na fidelidade ao Espírito
na continuidade daquilo que a genealogia anunciava O
Espírito de Deus que presidiu à criação, tornou possível a
adesão de fé de José e atuou em plenitude em Maria.
6.1.3. Os Magos em Belém ( Mt 2, 11-12)
Entre o rei Herodes rodeado dos chefes religiosos de
Jerusalém, e o rei que acaba de nascer, desenha-se já todo o
drama da vida de Jesus e da Sua missão. Os Judeus rejeitam-
no, enquanto os pagãos O adoram como o fará mais tarde,
a própria comunidade em torno do Ressuscitado. E, assim,
se realiza a profecia de Isaías que anunciava a entrada
da multidão dos pagãos nessa Jerusalém iluminada pela
glória de Deus (Is 60 e 62).
“Consumado o milagre do nascimento virginal, o útero cheio
de divindade deu à luz o Deus-homem, sem perder o selo da
integridade, entre os recantos escuros de um estável e estreitar
uma manjedoura, onde a infinita majestade , reduzindo nas
dimensões curtas de um concurso e pequeno corpo, suspenso
habita o seio, e tudo o que Deus permite vil sendo envolto em
fraldas, uma nova estrela aparece de repente no céu iluminando a
terra. E dissipou o nevoeiro que cobria todos, transforma a noite
em dia para dia quedase não escondida no meio da noite. É o que
diz o evangelista, “Porque, quando ele nasceu.”2
6.1.4. O cumprimento do Exôdo ( Mt 2, 13-15)
O filho chamado do Egito era para Oséias o povo
de Israel. Jesus é o verdadeiro Israel que vai realizar
cabalmente esse êxodo que conduz à terra prometida, ao
Reino de Deus.
6.1.5. O massacre dos inocentes ( Mt 2, 16-18)
O sangue corre em Israel, prefigurando o da cruz. Jesus
escapa de momento, ao massacre como outrora Moisés. E
Raquel, em Belém, chora seus filhos desterrados no exílio.
2 Santo Agostinho, in sermone 5 de Epiphania
1ª edição - versão 2015
Mt.41
6.1.6. A vida em Nazaré ( Mt 2, 19-23)
Mateus vê aqui o cumprimento das profecias em geral,
mas sem encontrar um texto preciso, a Bíblia ignora
Nazaré. Mas, neste acontecimento dentro da lógica dos
anúncios proféticos, vê o final do êxodo, o regresso do
exílio e a entrada na terra prometida. Mas ainda há mais
uma nova intervenção de Deus que convida a ir mais longe,
à “Galileia das nações”, que será o lugar do encontro de
Jesus com o Seu povo,
“A terra de Zabulon e de Neftali, região vizinha ao mar,
a terra além do Jordão, a Galiléia dos gentios, este povo,
que jazia nas trevas, viu resplandecer uma grande luz; e
Mt 4, 15-16
surgiu uma aurora para os que jaziam na região sombria
da morte.”
e, finalmente, o lugar donde enviará os Seus discípulos
por todas as nações.
Ao longo destas cinco citações da Escritura, Mateus
mostra-nos que Jesus está profundamente inserido neste
povo judeu, e que vem refazer a sua história para conduzi-
la ao seu termo. O Novo Moisés vai poder, a partir de
agora, colocar-se à frente do Seu povo para convidá-lo a
entrar com Ele próprio, no Reino de Deus.
6.1.7. A historicidade dos relatos da infância
Temos direito a levantar esta questão ainda que seja
difícil resolvê-la, na situação em que se encontram os nossos
conhecimentos bíblicos. Comecemos por recordar algumas
evidências: pelo fato de descobrir o sentido teológico dum
acontecimento, não se segue que esse acontecimento seja
inventado! Por outro lado a nossa fé não se fundamenta
nesses fatos da mesma maneira como se fundamenta na
ressurreição de Cristo: poderíamos, portanto, ver-nos
obrigados a reconhecer que tal pormenor ou mesmo tal
episódio, são parábolas, sem que o nosso cristianismo
sofra o menor abalo. Enfim, é preciso estudar os textos sem
Mt.42 1ª edição - versão 2015
ideias pré-concebidas e sem “isso não existiu”: nem “isso se
deu exatamente da maneira como está escrita.”
Mateus parece ter recolhido algumas tradições
conservadas na família de José. Está de acordo com Lucas
num ponto fundamental: na concepção virginal e ainda
sobre o nascimento em Belém. A exatidão da genealogia,
diferente da de Lucas, não constitui nenhum problema.
A genealogia era, então, não uma questão de ordem
biológica, mas jurídica, ou seja, uma forma de estabelecer
parentesco. E, também nisto. Mateus está de acordo com
Lucas, Jesus é da descendência de Davi. É possível que
sobre um pano de fundo histórico (a recordação da visita
de uns grandes personagens a Herodes e os numerosos
assassinatos perpetrados por este rei sanguinário) levasse
Mateus a construir uns relatos de alcance teológico.
Porém, a realidade que ele nos quer apresentar é sem
dúvida, uma realidade histórica: Jesus, filho de Davi, Novo
Moisés, é o libertador que nos salva pela Sua morte e Sua
ressurreição.
6.2 Jesus proclama o Reino e prepara a Igreja ( Mt
3-16)
A partir desse momento Jesus começou a pregar
dizendo:
“Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Mt 4, 17
céus” .
Assim começa esta primeira parte do ministério de Jesus:
todo ele se passa na Galileia. Jesus dirige-se às multidões
para anunciar-lhes que chegou o Reino. Há já um pequeno
grupo de discípulos que mal se distingue dos demais.
Começa-se também a sentir pouco a pouco o desenrolar
do drama as multidões afastam-se, os adversários fazem
pressão e Jesus dedica-se à formação dos Seus discípulos,
célula da Igreja que tem de continuar a Sua obra.
1ª edição - versão 2015
Mt.43
6.2.1.O Reino de Deus chegou! (Mt 5-9)
Jesus proclama-o com as Suas palavras, o Sermão da
Montanha (5-7) e com os Seus milagres (8-9), sinais que,
segundo os profetas, deviam anunciar a chegada do Reino
As Bem-aventuranças proclamam-no, os milagres provam-
no. Mas, a Boa Nova será bem acolhida? No fim da viagem
triunfal as multidões estão cheias de admiração, mas os
fariseus atacam. O drama prepara-se.
6.2.2. Jesus envia seus discípulos a pregar e Ele parte a
pregar o Reino (Mt 10-12)
O discurso da missão tem em vista tanto os discípulos
da comunidade de Mateus e nós, como os Doze, para
anunciar os sofrimentos que os esperam, se querem
conformar-se com o seu Mestre.
Jesus envia os Seus discípulos a pregar. Mas é Ele que
parte. Descobre-se, assim que o programa da missão que
lhes deu, era o que Ele ia viver antecipadamente (11-12).
6.2.3. A pregação do Reino obriga a uma opção (Mt
13-16)
A distinção entre a multidão e os discípulos vai-se
definindo. Jesus dirige-se às multidões em parábolas,
mas sem ilusões: elas não podem compreender porque
interiormente, já escolheram. Jesus interpreta as parábolas
para os discípulos que começam a intervir como grupo, e
eles compreendem.
As multidões continuam ainda com Jesus e reúnem-se à
sua volta, mas não podem já compreender a Sua mensagem.
Para elas, Jesus limita-se a multiplicar os milagres, porque
a Sua atividade de Salvador ainda lhes diz respeito.
Por isso, Jesus dedica o Seu tempo a preparar e a ensinar
os discípulos. Fazendo-os participar da Sua atividade,
sobretudo dos seus milagres, prepara-os progressivamente
para o seu próximo ministério.
Mt.44 1ª edição - versão 2015
No fim desta primeira parte, esses discípulos aparecem
já como uma comunidade sólida em torno de Jesus. E é
através dela que o Pai vai revelar, daí em diante, quem é
Jesus Cristo.
6.3. Do Antigo ao Novo Testamento ( Mt 3-4)
Na nossa leitura de Mateus, os capítulos 3-4 são
considerados “episódios-chave”. Efetivamente, podemos
ver neles tanto o fim do prólogo como o início da pregação
do Reino de Deus.
Como fim do prólogo, Mateus conclui estes episódios
sobre João Batista, da mesma maneira que tinha concluído
os episódios sobre José.
“Ao ouvir dizer que Arquelao reinava na Judeia, José
retirou-se para a região da Galileia e foi morar numa
cidade chamada Nazaré para que se cumprisse o oráculo Mt 2, 22-23
dos profetas.”
“Tendo ouvido dizer que João fora preso, retirou-se
para a Galileia, foi habitar em Cafarnaum, para que se Mt 4, 12-16
cumprisse o oráculo do profeta Isaías.”
José e João Batista desempenharam o seu papel na
preparação de Jesus. O primeiro, homem Justo, inseriu-o
na história do povo dando-lhe o seu próprio nome,
levando-o ao Egito para que se cumprisse um novo êxodo,
designando-O como “Salvador” (Jesus = Deus Salvador).
O segundo, cumprindo toda a justiça, permitiu-lhe, pelo
batismo, manifestar a Sua missão nesse povo.
O povo judeu, primeiro no deserto, e depois através
de toda a sua história, falhou a sua entrada no “Reino
de Deus”, nessa terra prometida a Moisés Jesus, inserido
nesse mesmo povo pelo Seu nascimento e graças a José. e
por meio da sua missão manifestada por João, vai assumir
sobre Si a história desse povo e do deserto o conduzirá à
sua verdadeira e plena realização. No fim desse itinerário.
1ª edição - versão 2015
Mt.45
Jesus pode proclamar. O Reino está próximo, Israel,
com Jesus, está já em condições de entrar nesse Reino,
infelizmente vai recusar-se, e essa luz começa já a brilhar
para os pagãos.
Estes acontecimentos são também a introdução à
pregação do Reino de Deus. Jesus, antes de fazer o Seu
grande discurso inaugural (5-7), escolhe os Seus discípulos,
e isto tem a sua importância, a Sua pregação terá uma
forca especial, desde o momento em que haja um pequeno
grupo que a aceite e a procure viver.
6.3.1. A pregação de João Batista ( Mt 3, 1-12)
No momento em que vai começar a pregação tão esperada
de Jesus Cristo, eis que aparece um personagem novo e
desconhecido “Naqueles dias, apareceu João, o Batista.”
2 Rs 1, 8
Habita no deserto da Judeia, vive como um profeta e veste-
se como o profeta Elias: não tem nada em comum com o
“Nazareno”. Ora bem, esses dois homens, tão diferentes,
vão realizar a mesma função. “Então, veio Jesus”. Um e
outro convidam os homens ao arrependimento com as
Cf Mt 3, 2;4,
mesmas palavras: “Arrependei-vos, porque está próximo
17 o Reino dos céus.” O seu ministério exerce-se em função
duma profecia de Isaías. As multidões acorrem aos dois,
de regiões, em parte, idênticas (3, 5; 4, 25) e, ao vê-Ias, um e
outro dirigem-lhes os seus discursos e o seu programa de
vida (3, 7-12; 5)
Tanto João, como Jesus, foram enviados por Deus
para mostrar aos homens o caminho da salvação. Os
seus ministérios seguem um caminho paralelo e os seus
discípulos continuarão depois da morte do Mestre, e até
com certa rivalidade entre eles, até ao momento em que
apareceu claramente nas comunidades cristãs, através da
continuidade do ministério de Jesus em relação ao de João,
a plenitude e cumprimento na pessoa de Jesus Cristo.
A diferença entre o Precursor e “Aquele que vem depois”
é sublinhada pelo evangelista: João batiza em água para
Mt.46 1ª edição - versão 2015
movê-los ao arrependimento. Jesus batizará no Espírito
Santo e no Fogo. O Espírito é o vento que joeirará o trigo
(Is 41, 15-16) e atiçará o fogo inextinguível (Is 66, 24), mas é
também o sopro que dá a vida. (28, 19) Esta purificação do
Batismo de Jesus será muito mais radical que a do simples
batismo da água.
6.3.2. Batismo de Jesus ( Mt 3, 13-18)
É o próprio encontro entre estes dois homens que
revela a diferença fundamental entre eles. Jesus veio, da
Galileia, ter com João, no Jordão para ser batizado por ele.
3, 13 Jesus tem de insistir. “Convém que cumpramos assim
toda a justiça” 3, 15 mas, João também tem que resistir
(3, 14) para levar a comunidade de Mateus a admitir que
Jesus tenha podido ser batizado por João Contudo, e esta
atitude de humildade que permite a Jesus receber a sua
investidura messiânica (3, 16-17) que O acreditará e lhe
dará plena consciência messiânica.
A palavra “JUSTIÇA” em Mateus designa uma conduta
em conformidade com as exigências de Deus, essas
exigências das quais o Sermão da Montanha nos revela
todo o alcance, que é infinito. Efetivamente, a sua única
norma é “ser perfeito como o Pai celeste é perfeito.” (5, 48)
A entrada no Reino de Deus depende desta justiça.
Portanto, não se pode buscar verdadeiramente a felicidade
do Reino sem se buscar esta justiça.
Vem depois uma visão apocalíptica, tomada de Ezequiel:
“eis que os céus se Lhe abriram e viu o Espírito de DeusEz 1, 28; 2, 20
descer como uma pomba”; esse Espírito evoca o Espírito deCf. Gn 1, 2
Deus que pairava sobre as águas primitivas.
“E uma voz vinda do céu, dizia: Este é o meu Filho ( do
Sl 2, 7) muito amado (lembra o sacrifício de lsaac) no Qual
pus toda a Minha complacência” (vem do primeiro CantoCf. Sl 2, 7; Gn 22,
do Servo de Isaías). Por detrás desse Messias real aparece o2.12.16; Is 42, 1
servo que sofre, mas que só Jesus o pode perceber.
1ª edição - versão 2015
Mt.47
Contudo, essa voz parece dirigir-se não só a Jesus, mas
a todos os presentes, trata-se de uma primeira revelação
à multidão que, imediatamente vai seguir Jesus e, através
dela, todos os povos.
6.3.3. Tentações de Jesus ( Mt 4, 1-11)
Jesus recebeu o Espírito, e agora sente-se impelido por
esse Espírito, que O conduz, em primeiro lugar, ao deserto.
“Ele foi levado, não por necessidade, nem em cativeiro, mas
pelo desejo de combater.”3
Já não se trata, para Jesus, de confrontar-se com o
messianismo de João Batista, mas de experimentar o Seu
próprio messianismo no encontro com o demônio. Jesus
não pode conformar-se com a espera do Reino de Deus,
pregado por João Batista a salvação não esta só próxima,
ela já esta presente na Sua pessoa. Mas, se Ele, Jesus, é a
Salvação, será necessariamente uma salvação presente e
terrestre? Vai reviver no deserto as tentações do Seu povo
durante o Êxodo.
De fato, o demônio coloca Jesus diante das tentações
que fizeram sucumbir, outrora, o povo de Israel, segundo
o livro do Êxodo. Mas Jesus afasta-as como o devia ter feito
o povo, segundo o Deuteronômio. O caminho seguido
pelo povo noutros tempos e que tinha falhado, tem agora
êxito em Jesus. Ele determina-se livremente, diante da
opção que lhe é apresentada recusa um domínio terreno
sobre mundo, já que a Sua missão consiste em anunciar
aos pobres a Boa Nova da salvação.
Ml 3,28; cf.
Mt 11, 14; 17, 10-
Vimos na pessoa de João Batista, o novo Elias que tinha
13 de regressar à terra “antes do dia da vinda do Senhor”.
Pelas suas referências ao Deuteronômio, o autor apresenta
Jesus como o novo Moisés. que encarna o novo povo de
Deus e vence a tentação, onde o povo de Deus tinha sido
outrora vencido.
3 São Jerônimo
Mt.48 1ª edição - versão 2015
A história de Israel chegou ao seu fim. Jesus dirige-
se aos pagãos. Depois de uma visita a Nazaré, fixa a Sua
residência em Cafarnaum, na Galileia das Nações, o seu
ministério dirige-se, em primeiro lugar, às ovelhas perdidas
da Casa de Israel. ( Mt 10,6; 15, 24) Mas num contacto
intimo e profético com os pagãos. “O povo que andava nas
trevas viu uma grande luz”, assim tinha anunciado Isaias
o nascimento do rei Ezequias-Emanuel (Is 9, 1).
Esta luz, manifestada aos discípulos na Transfiguração
(Mt 17, 2), anuncia já profeticamente a ressurreição.
6.3.4. Pregação do Reino e escolha dos discípulos ( Mt
4, 17-25)
A partir desse momento, Jesus começou. Encontraremos
outra vez esta expressão na saída da Galileia, quando Jesus
sobe a Jerusalém para a sua paixão. Agora, pelo menos,
inaugura a Sua pregação com os mesmos termos de João
Batista, os dois coincidem na sua oposição profética a Israel,
obstinado e excessivamente confiado nos seus privilégios
de povo eleito.
Todas as condições já estão cumpridas para que Jesus
empreenda a Sua missão. Para isso alguns homens vão
segui-Lo; não só as multidões, mas também os discípulos
mais próximos. É necessário que alguns se associem
verdadeiramente à Sua missão .
Mt 4, 19
“Farei de vós pescadores de homens”.
De momento, separa os Seus primeiros colaboradores
do seu ambiente familiar e profissional, mostrando-lhes o
alcance simbólico do Seu ministério como prolongamento
do Seu próprio ministério Bem depressa, eles, tendo Simão
como chefe, serão os Doze, representando a universalidade
de todos aqueles que seguirão Jesus.
A missão de Jesus começou, e o autor apresenta-nos um
sumario da sua atividade que irá descrevendo nos capítulos
seguintes, a doutrina e a proclamação do “Evangelho
1ª edição - versão 2015
Mt.49
Mt 8-9
do Reino”, a cura “de toda a enfermidade e de todas as
doenças”. Às multidões que antes vinham da Judeia a João
Batista, juntam-se às da Galileia e às da Decápole, terras
verdadeiramente pagãs. Fazendo alusão à toda a Síria (Mt
4, 24), o autor confirma às comunidades cristãs desta região
que o seu Evangelho tem origem unicamente na pregação
autêntica de Jesus.
6.5. As Bem Aventuranças ( Mt 5, 3-12)
Na boca de Jesus foram, sobretudo, um grito. Enraizadas
nos anúncios proféticos, vão desenvolvendo em imagens.
a Boa Nova proclamada por Jesus “O Reino de Deus
Mt 5, 3
chegou”. “Bem aventurados os pobres, porque doravante
já não serão pobres, pois chegou o Reino de Deus.”
Elas são o resumo da Boa Nova que desencadeou esse
movimento da multidão para ouvir Jesus. e que interpelou
os discípulos ao ponto de deixarem tudo para O seguir. Sem
elas, sem esse grito, o ‘Sermão’, seria incompreensível. Este
sermão desenvolve uma doutrina para gente que já está a
caminho. Expõe exigências terríveis, mas para discípulos
que já sabem que se trata da sua felicidade. “Felizes”.
“Elas são a melhor porta para o Evangelho, pois nos explicam
tudo, nos abrem tudo, elas são como um autorretrato de Jesus.”4l
“As bem Aventuranças dão o tom e as condições do verdadeiro
amor. A mensagem que elas contêm nos transformará na
medida em que nós aceitamos colocá-las. Mas quem dentre nós
estará à altura de uma tal exigência de santidade. Esta página
do Evangelho de São Mateus exprime admiravelmente toda
a elevação da perfeição cristã ao qual Jesus nos chama a todos.
O Sermão da Montanha é o resumo da doutrina cristã, e todas
as bem aventuranças são como o resumo desse Sermão. Elas
4 Cardeal Philippe Barbarin, Terra Santa, Julho de
2009
Mt.50 1ª edição - versão 2015
condensam assim de uma forma admirável tudo o que constitui
o ideal da vida cristã.”5
“Bem aventurados os mansos, porque herdarão a terra.”
“Artesão de profissão, tem o prazer de ver as oportunidades
para agir: um carpinteiro, ao assistir a uma boa árvore, corte
que pretende empregá-lo em obras de seu escritório; eo sacerdote,
quando ele vê uma igreja cheia, regozija-se por dentro e se sente
mudou-se para ensinar. Assim diz o Senhor, vendo a multidão foi
movido para pregar. Assim diz: “Quando Jesus viu a multidão
subiu uma montanha.”6
“Bem-aventurados os que choram, porque eles serãoMt 5, 5
consolados.”
“E todos aqueles que choram seus pecados podem realmente
ser chamados abençoados, mas no meio do caminho. Mais felizes
os que choram os pecados dos outros, concordam que tais pecados
são todos os professores.”7
“Bem aventurados os que têm fome e sede da justiça:
eles serão saciados. Bem aventurados os misericordiosos:
eles alcançarão a misericórdia. Bem aventurados os
corações puros: eles verão a Deus.”
“Ele fornece felicidade para os que têm fome e sede de justiça,
afirmando que o conhecimento perfeito de Deus é a única
ganância dos santos, não podem ser satisfeitos até que habitem o
céu. E é isso que se expressa com as palavras “eles serão fartos.”8
A nona bem-aventurança ressoa com um som novo.
Passa-se da perseguição “por causa da justiça” para a
5 Diácono Georges Bonneval, Palavra do Fundador,
Agenda 2015
6 Pseudo-Crisóstomo, opus imperfectum super
Matthaeum, hom. 9
7 Pseudo-Crisóstomo, opus imperfectum super
Matthaeum, hom. 9
8 Santo Hilário, in Matthaeum, 4
1ª edição - versão 2015
Mt.51
perseguição “por causa de mim”. Pronunciada por Jesus
provavelmente muito mais tarde, próximo da paixão, dá-
nos a certeza de que o sofrimento suportado por causa
de Cristo cria, com Ele, uma solidariedade que garante a
salvação.
Nunca se deu uma definição tão bela da Igreja. Não
é um local onde dão voltas e mais voltas, aqueles que se
salvam (fora da Igreja não há salvação), mas uma luz sobre
o monte, revelando um sentido, traçando um caminho
“para os que estão nas trevas, uma luz que remete para a
fonte donde irradia: O Pai celeste.”( Is 60)
6.6. Por que Jesus exige tanto ?
As exigências do Sermão da Montanha são absolutas
e carecem praticamente de limites. Aquele que adota o
princípio de dar uma hora do seu tempo, a quem lhe pedir
meia hora; de privar-se do necessário a favor de quem lhe
pede o supérfluo, esse mostra rapidamente que já não se
pertence a si mesmo mas tão somente está pronto a deixar-
se gastar.
Já não o faz, porém, em nome de uma lei, ou de uma
prescrição intocável, mas sim porque está possuído duma
exigência interior e renegar-se-ia a si mesmo se renunciasse
a ela.
É isso o absoluto do Sermão da Montanha, não é feito
de rigor nem de intransigência, de uma observância a
manter a todo o custo, mas de um apelo que leva cada
vez mais longe e que se identifica cada vez mais com a
personalidade mais profunda. A exigência mais imperiosa
termina por ser a da liberdade.
O Sermão da Montanha exige o máximo, quando pede
para acreditarmos num Deus capaz de transformar a
vida, de fazer nascer um homem novo no seio do nosso
universo. Isto é possível porque Jesus dirige-se a homens
que já realizaram a experiência do amor.
Mt.52 1ª edição - versão 2015
A Sua doutrina dirige-se a homens que já foram
arrancados pela Boa Nova do poder de Satanás e já vivem
no Reino de Deus irradiando a sua luz; a homens que
foram perdoados, que encontraram a pérola preciosa e
foram convidados às bodas, a homens pertencentes, pela
sua fé em Jesus, à nova criação, ao novo mundo de Deus; a
homens na vida dos quais, irrompeu já essa grande alegria
de que nos fala a parábola do tesouro escondido num
campo; o homem que o encontrou enche-se de alegria,
vai e vende tudo o que tem, dirige-se a homens que foram
filhos pródigos, mas agora recebidos novamente pelo Pai
na sua casa.
Jesus anuncia a todos eles; Podeis viver já os tempos da
salvação. Mas este tempo é também o da vontade de Deus
com todas as suas exigências. O perdão de Deus faz apelo
à entrega de toda a nossa vida.
6.6.1. Abandono à providência: Mt 6
“Coloca-se no capítulo seguinte, três trunfos importantes, a
saber: a esmola, o jejum e a oração, contra três males, ao contrário
de nosso Senhor que queria ser tentado. Lutar por nós contra a
gula no deserto, contra a ganância no monte e contra o orgulho no
templo. A esmola distribuída, é contrária à ganância acumulada,
o jejum é contra a gula, porque ele é seu inimigo, a oração é
contrário ao orgulho, o único mal que sai do bem, enquanto todos
os outros males do mal, e, portanto, não é destruída pela boa, mas
sim estimulada. Não pode ser, então, um melhor remédio contra
a vanglória, a oração.”9
“O Senhor tinha ensinado antes dele que quem quer amar
a Deus e tomar cuidado para não ofende-lo, não se deve cair na
ilusão de que se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo, de
modo que o coração não seja dividido,nem busque as coisas que
sejam supérfluo mas sim,o necessário. A fim de que a intenção
não esteja inclinada a participar com um e outro, acrescenta,
9 Pseudo-Crisóstomo, opus imperfectum in
Matthaeum, hom. 13
1ª edição - versão 2015
Mt.53
dizendo: “Por isso vos digo que não andais com a sua alma
lutando para o que haveis de comer, etc.”10
Santo Agostinho nos seus Semões aproxima cada um dos
dons do Espírito Santo, a cada uma das Bem aventuranças:
Dom do Temor: Bem aventurados os pobres em Espírito.
Dom da Piedade: Bem aventurados os mansos.
Dom da Ciência: Bem aventurados os aflitos.
Dom da Força: Bem aventurados aqueles que tem fome
e sede de justiça.
Dom do Conselho: Bem a venturados os misericordiosos.
Dom da inteligência: Bem aventurados os puros de
coração.
Dom da Sabedoria: Bem aventurados os que promovem
a paz.
Santo Tomás de Aquino, no seguimento de Agostinho
ensina que as Bem aventuranças são “atos que procedem dos
dons do Espírito Santo ou virtudes aperfeiçoadas pelos dons.”
6.6.2. A vida de um verdadeiro discípulo (Mt 7 )
Jesus conclui o Sermão da Montanha com algumas
regras muito importantes para aqueles que desejam
verdadeiramente ser Seus discípulos, como a importancia
de “não julgar”;
“Não julgueis, e não sereis julgados. Porque do mesmo
modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com
Mt 7, 1-2
a medida com que tiverdes medido, também vós sereis
medidos.”
“A eficácia da oração”;
10 Santo Agostinho, de sermone Domini, 2, 15
Mt.54 1ª edição - versão 2015
“Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será
aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca,Mt 7, 7-8
acha. A quem bate, abrir-se-á.”
“A regra de ouro e os dois caminhos”;
“Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o
vós a eles. Esta é a lei e os profetas. Entrai pela porta
estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho
que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí
[Link], porém, é a porta e apertado o caminho daMt 7, 12-14
vida e raros são os que o encontram.”
Aqui podemos ver que Mateus teve todo o cuidado em
excrever aquilo que é de verdadde importante entendermos
para seguir o caminho de Jesus e ser um verdadeiro
discípulo, é preciso de cada um de nós um abandono total
de si para se entregar ao próximo.
6.7. Jesus poderoso em ações: Dez Milagres ( Mt
8-9)
A doutrina de Jesus teria sido incompleta se tivesse sido
proclamada só com palavras. Os Seus milagres a favor dos
pobres e dos doentes mostram claramente que recebeu de
Deus o poder de realizar o que anuncia e, manifestam, ao
mesmo tempo, que a salvação que propõe atinge o homem
na sua totalidade. Estes dez milagres estão agrupados em
três séries diferentes de relatos.
6.7.1. Jesus, o “servo sofredor” que nos salva (Mt 8,
1-17)
As três primeiras curas de pessoas desprezadas (um
leproso, um pagão e uma mulher) acabam, com a citação
de Isaias 53, 4: “Ele tomou as nossas enfermidades e
carregou as nossas dores”. Modificando o texto de Isaías
(“tomou” em vez de “tirou”; “enfermidades” em vez de
“pecados”). Mateus revela-nos que Jesus Cristo é aquele
que não só sofre pelos nossos pecados, mas, procedendo
assim, os destrói e nos salva. Certos pormenores próprios
1ª edição - versão 2015
Mt.55
de Mateus, nestes relatos, mostram-nos que esta salvação
atinge, pela fé, mesmo os pagãos, que a verdadeira salvação
é a ressurreição.
6.7.2. Jesus convida a segui-lo ( Mt 8, 18-9, 13)
Os três milagres seguintes estão enquadrados pelos
convites de Jesus a segui-Lo, isto é, a tornar-se Seu
discípulo. Jesus pode dar-se ao luxo de chamar desse
modo, com autoridade soberana, porque a Sua palavra
é toda poderosa, tanto sobre os corações como sobre os
elementos (a tempestade), sobre os possessos como sobre
as consciências (o perdão dos pecados).
Há dois pequenos relatos de vocação sobre o tema
seguir que cortam a introdução do relato da tempesta-de,
em seguida, o chamado de Mateus (“segue-me”) conclui
esta série que termina com uma proclamação: “Porque não
vim chamar os justos, mas os pecadores”.
Através destes relatos, descobre-se a leitura cristã da
comunidade. O relato da tempestade converte-se numa
imagem da vida da Igreja: os discípulos seguem Jesus na
barca-Igreja: celebram ali o Senhor ressuscitado (ou «de
pé», é a mesma palavra) com o grito litúrgico “Kyrie eleison!
Salva-nos, Senhor”. Jesus repreende-os pela sua pouca fé
e mostra-lhes os pagãos, o mundo inteiro a admirar-se
perante esta barca-Igreja “mas quem é este Homem?”.
Sentimo-nos igualmente surpreendidos ao encontrar um
plural depois da cura e do perdão do paralítico.
Mt 9, 8
“Ao ver isto, a multidão ficou dominada pelo temor e
glorificou a Deus, por ter dado tal poder aos homens.”)
Será isto um índice de que, na comunidade, Mateus sabe
que o poder dos ministros de perdoar pecados vem da
autoridade de Jesus ?
6.7.3. Discurso Apostólico: Jesus Chama (Mt 10, 1-42)
Mt.56 1ª edição - versão 2015
Quando colocamos lado a lado os três relatos da
chamada dos doze (Mt 10, 1-4; Mc 3, 13-19; Lc 6, 13-16)
surgem certos fatos ilustrativos.
Jesus os escolheu. Lc 6, 13 diz que Jesus mandou chamar
a seus discípulos, e que dentre eles escolheu a doze. É como
se o olhar de Jesus tivesse estado percorrendo as multidões
que o seguiam, e no pequeno grupo que sempre ficava
com Ele depois que a multidão se dispersava, procurasse
todo o tempo aqueles a quem pudesse confiar sua tarefa.
Como se tem dito: “Deus sempre está procurando mãos
para utilizar.” Deus sempre se pergunta: “A quem enviarei,
e quem há de ir por nós?” ( Cf. Is 6, 8).
No Reino há muitas tarefas. Há a do que deve abandonar
sua pátria e lar e a do que deve ficar onde está; a tarefa
que requer o uso das mãos e a que requer o uso da mente;
a tarefa que concentrará os olhares dos homens sobre o
obreiro, e a tarefa que passará totalmente inadvertida.
Mas Jesus está procurando todo o tempo, entre os homens,
aqueles que devem realizar sua missão.
Jesus os chamou. Jesus não obriga a ninguém a cumprir
uma responsabilidade no Reino, limita-se a oferecer as
responsabilidades, para que quem esteja dispostos a
aceitá-las as tornem suas. Jesus não obriga, convida. Não
quer “recrutas”, mas voluntários. Tem-se dito que todo ser
humano é livre para crer ou não crer. Mas todo ser humano
recebe o chamado, que pode aceitar ou rechaçar.
Jesus lhes atribuiu uma tarefa. Em Mc 3, 14 diz que
Jesus estabeleceu os doze. No original grego a palavra
é poiáin, que significa literalmente fazer ou fabricar.
Freqüentemente era usada com o significado de atribuir
uma tarefa ou designar para uma função pública. Jesus
age aqui como um rei que designa a seus ministros; ou
como um general que atribui as ordens a cada um de
seus comandantes de tropa. Não se tratava de entrar ao
serviço de Jesus por uma derivação inconsciente; tratava-
1ª edição - versão 2015
Mt.57
se de uma designação definida para Ele. Qualquer um se
orgulharia de ser nomeado por um rei para desempenhar
algum cargo público, quanto mais deverá orgulhar-se se
quem o designa é o Rei de reis?
Estes homens foram designados dentre os discípulos.
Um discípulo é alguém que aprende. Os homens que
Jesus deseja e precisa devem estar dispostos a aprender. A
mente fechada não pode servir a Jesus Cristo. O servo de
Cristo deve estar disposto a aprender algo novo cada dia
de sua vida. Cada dia deve estar um passo mais perto de
seu Mestre e mais perto de Deus.
Igualmente significativas foram as razões pelas quais
Jesus escolheu estes homens. Escolheu-os para que
estivessem com Ele (Mc 3, 14). Se tiverem que ser os
encarregados de seu trabalho no mundo, devem viver em
sua presença antes de sair ao mundo; devem passar da
presença de Jesus Cristo à presença dos homens.
Nenhuma obra no nome de Cristo pode ser efetuada
por quem não provenha diretamente da presença de
Cristo. Hoje, na complexidade da vida e organização da
Igreja contemporânea, muitas vezes, em tantas comissões
e comitês, juntas e grupos de trabalho, estamos tão
ocupados em fazer funcionar a maquinaria eclesiástica,
que corremos o perigo de esquecer que nada de tudo
isto tem importância alguma se os atores Mateus forem
homens que não estiveram com Cristo antes de estar com
os homens.
São chamados para ser apóstolos (Mc 3, 14; Lc 6, 13). A
palavra “apóstolo” significa literalmente o que é enviado;
é a palavra que se utilizaria para designar um enviado
especial ou um embaixador. O cristão é um embaixador de
Jesus Cristo diante dos homens. Chega perante a presença
de Cristo para poder ir, desde essa presença, a representar
a Cristo entre os homens, levando consigo a palavra e a
beleza de Jesus Cristo.
Mt.58 1ª edição - versão 2015
Foram chamados para ser arautos de Cristo. Em Mt
10, 7 lhes encarrega de pregar. A palavra ékerússain, que
provém de “kérux”, cujo significado em português é arauto.
O cristão é um arauto de Jesus Cristo. Traz para os
homens o anúncio de Jesus Cristo. É por isso que deve
começar estando na presença de Jesus Cristo. O cristão
não foi chamado para levar aos homens seus próprios
pontos de vista ou opiniões. Traz de parte de Jesus Cristo
uma mensagem de certezas divinas e não pode levar essa
mensagem a menos que primeiro a tenha recebido na
presença divina.
6.8. Jesus parte a evangelizar (Mt 11-12)
Jesus parte a fazer o que tinha ensinado aos discí-pulos
Vamos ver como a Sua pregação (ações e palavras) realiza
o discernimento entre os ouvintes no interior de Israel:
uns recebe-Lo-ão , os “simples” e os discípulos, enquanto
outros - os “sábios”, os fariseus - recusa-Lo-ão e a sua
situação será pior que a anterior.
Estes capítulos 11-12 são evidentemente uma com-
posição teológica de Mateus, algumas repetições de
passagens anteriores permitem-lhe assinalar como vai
crescendo o drama. Algumas correspondências internas
vão organizando estes textos em torno dum eixo central, o
grito jubiloso de Jesus.
Este grito que costuma designar-se como o “hino de
júbilo”(11, 25-30), constitui o coração desta seção e dá-lhe
o seu sentido. Porque vive na intimidade do Pai, o Filho
recebeu o conhecimento dos mistérios do Reino e a missão
de os revelar.
A aceitação ou a recusa desta revelação manifesta que
somos “simples” ou “sábios”, se somos da família de Jesus
ou não. Desta maneira, este hino revela-nos em toda a sua
profundidade, o discernimemto que os outros episódios
nos mostram ao realizarem-se.
1ª edição - versão 2015
Mt.59
O mistério de Jesus começa a revelar-se. Nesta secção
juntam-se diversos títulos de Jesus, que andavam dispersos:
sabedoria (11, 19), Filho (11, 25-27). Filho do Homem (12,
8), Servo (12, 18-21), Filho de Davi (12, 23), e anuncia-se
claramente a ressurreição (12, 40).
6.8.1. João e a sabedoria manifestada pelas suas obras
( Mt 11, 2-19)
Como em S. Lucas (7, 18-28), João, o Batista, envia,
desde a prisão, os seus discípulos para perguntar a Jesus:
“És Tu o que está para vir?” É fácil de compreender esta
dúvida - cheia de emoção - do precursor, sabendo ele que
Cf. Is 40, 10
era “a voz que clama” segundo Is 40. Anunciava o “Senhor
Cf. Ml 3, 1-3
que vinha com força” , o Juiz terrível, o Senhor “que chega
como um fogo” para tudo purificar. Ora, o que lhe chega à
prisão sobre Jesus é totalmente diferente.
Jesus responde-lhe apresentando as Suas “obras”.
Mateus acrescentou esta palavra ao princípio e ao fim
deste episódio, uma palavra de sabor joânico e que só
Cf. Is 61, 1ss; 35,
se encontra neste lugar do seu Evangelho ao descrever a
5-6; 26, 19 atividade de Jesus. Esta enumeração está inspirada nos
Cf. Lc 4, 18ss
grandes anúncios do segundo e terceiro Isaías, como o teria
feito Jesus na Sinagoga de Nazaré segundo Lucas, as Bem-
aventuranças seriam também um eco destes textos. Por
conseguinte, estas obras provam, para quem conhece as
Escrituras, que Jesus Cristo é verdadeiramente o Messias.
Mas quão diferente era o Messias que João anunciava.
Por isso, Jesus declara-o “feliz” se ele não se escandalizar
nem tropeçar nessa barafunda total dos seus pensamentos
provocada pela figura do Messias que lhe é proposta.
Em seguida, Jesus faz o elogio de João, um elogio
extraordinário, um profeta e mais do que um profeta: “é o
maior entre os nascidos de mulher”. Mas é estranho o que
vem a seguir “e, no entanto, o mais pequeno no reino dos
céus é maior do que ele”. Quer isto dizer que João fica posto
de lado? Parece que neste caso Jesus não faz comparação
Mt.60 1ª edição - versão 2015
entre duas pessoas: João e aquele que entra no Reino,
mas a comparação é entre duas espécies de grandeza: a
grandeza de João é ainda desta terra - e neste sentido é ele
que ocupa o primeiro lugar, mas esta espécie de grandeza
não é nada em comparação com os privilégios que confere
a participação no Reino. A atenção não se detêm em João:
a partir dele, eleva-se até à consideração do Reino que vem
e das condições de existência totalmente novas que ele traz
para os que nele vão tomar parte. Encontramo-nos aqui
em presença dum belo exemplo da pedagogia de Jesus. Na
prática, é menos importante admirar João do que atuar de
maneira a fazer parte do Reino.
E Jesus não tem ilusões. O estilo de João e o Seu são
diferentes, mas ambos tropeçam com a mesma oposição
por parte dos chefes judeus. Contudo, a Sabedoria é
reconhecida pelas suas obras: essa Sabedoria não pode ser
outra que a de Cristo, seja a Sabedoria de Deus e dos Seus
desígnios manifestados através de Jesus, seja, com maiorCf. Mt 12, 42
rigor, a Sabedoria, o próprio Jesus. Paulo fará deste título
um dos fundamentos mais profundos da sua cristologia.
6.8.2. As maldições sobre as cidades do Lago ( Mt 11,
20-24)
As cidades do Lago são amaldiçoadas porque se
imaginam elevadas até ao céu e estão inchadas da sua
“sabedoria”, impedindo-as de reconhecer a verdadeira
Sabedoria que se manifesta pelas Suas obras. “O ReinoMt 11, 12
sofre violência” dizia Jesus, é a queixa que sai do Seu
coração por causa dessa violência contra o Reino que
divide os ânimos: quando se está em presença Dele, já
não é possível outra saída, ou optar por Ele e entrar nesse
Reino ou negá-Lo e ser rejeitado. Para aceitá-Lo é preciso
despojar-se de todo o orgulho, de toda a “sabedoria”,
tornar-se simples. Esta aceitação do Reino por parte dos
simples faz surgir dos lábios de Jesus um salmo de ação de
graças, pouco comum nos sinóticos e muito próximo do
quarto Evangelho: o “hino de júbilo”. (11, 25-30)
1ª edição - versão 2015
Mt.61
Depois deste hino, o capítulo 12 recolhe estes mesmos
temas, mostrando-nos concretamente duas categorias
de “simples” e de “sábios”, os discípulos e os fariseus.
Também nesta ocasião são as obras de Jesus que os vão
manifestar.
Este capitulo 12 está delimitado por uma dupla inclusão.
No principio (12, 1-2) coloca em cena os discípulos e os
fariseus. Estes reúnem um conselho para condenar Jesus
(12, 14). Os discípulos (12, 49) constituem a verdadeira
família de Jesus. porque cumprem a vontade de Deus.
6.8.3. Os fariseus: “sábios” que recusam ( Mt 12, 1-14)
Jesus, no Seu hino de júbilo, convida os judeus a
renunciar a esse “jugo” pesado das prescrições, sem alma
dos “sábios” judeus, para tomar o Seu, também exigente,
mas com uma exigência completamente interior.
Imediatamente depois, temos um exemplo disso
Mt 12, 2-12
na controvérsia sobre “o que não está permitido fazer
no Sábado”. Jesus encontra as raízes do Judaísmo
considerando o sábado como o espaço espiritual da ação
de Deus na história do homem, mas ao mesmo tempo
renova-lhe a seiva, dando a essa ação divina uma carne
viva - a sua - onde ela pudera desenvolver toda a sua
força. Reduzir o sábado a uma casuística do permitido e
do proibido é fechar os olhos à realidade profunda que ele
encerra. Não é o culto com todas as suas prescrições que
deve ser a sua medida, mas a misericórdia e a piedade que
dá a sua consistência ao compromisso do homem na ação
de Deus.
Nos dois lugares, aqui e no capítulo 9,13, Mateus
acrescentou esta citação de Oséias. Quererá, com isso, dizer
aos fariseus do seu tempo que está de acordo com o seu
esforço de renovação espiritual, na medida em que essa
renovação os pode levar a reconhecer em Jesus, o Messias?
Efetivamente, Yohanan ben Zakkai, aquele que organizou
Mt.62 1ª edição - versão 2015
a emigração dos Judeus para Yamnia antes da catástrofe
do ano 70, apoiava-se também nessa passagem de Oséias.
Nesta discussão, Jesus afirma-se superior ao sábado,
instituição divina, por ser o Filho do Homem. Uma série
de curas vai permitir-Lhe agora proclamar-Se o Servo de
Deus.
6.8.4. Jesus, Servo de Deus, não apaga a mecha que
ainda fumega ( Mt 12, 16-23)
Os fariseus acabam de decidir a morte de Jesus, e Jesus
retira-se. É o princípio desse movimento de retirada queCf. 14, 13; 15, 21
o levará até à cruz. De fato, Jesus não é um juiz que vem
condenar, mas sim, tal como o recordou aos enviados de
João Batista, o Servo humilde que cumpre a sua missão
sem grande alarido e deixa a cada um a sua oportunidade.
Frente aos fariseus que tramam a sua morte, Jesus retira-
se para não precipitar o drama, nem “apagar a mecha
que ainda fumega”. Este juízo de Deus que se realiza no
silêncio de jesus e na Sua misericórdia é, sem dúvida, ujm
sinal para os “simples” que O seguem e uma esperança
para os pagãos.
As multidões preguntam-se, se não será o Filho de Davi.
Mas os judeus fecham-se à graça e a sua condição tornar-
se-á pior.
6.8.5. Esta geração má torna-se ainda pior ( Mt 12, 24-
35)
Esta passagem é uma das mais duras do Evangelho.
Jesus, com as Suas ações poderosas, acaba de provar
que com Ele chegou já o Reino de Deus. Os fariseus
interpretam-nas como uma manifestação diabólica. Eis o
pecado que não tem perdão “a blasfêmia contra o Espírito”
a rejeição da revelação percebida em Jesus, rejeição que
manifesta colocar-se voluntariamente fora do Reino. Jesus
converte-se, então, no Juiz que anunciava João Batista, mas
de um modo inesperado, reportando o julgamento para o
1ª edição - versão 2015
Mt.63
coração do homem. Cada um forja o seu próprio destino
na sua opção, acolhendo a revelação do Reino em Jesus
Cristo, seguindo as solicitações do Espírito ou recusando-a
contra esse mesmo Espírito. De forma que, depois desta
revelação do Reino, a condição dos fariseus - de todos os
tempos - resulta pior, porque passou da ignorância para o
endurecimento.
O sinal definitivo perante o qual há que optar é,
finalmente, a ressurreição de Cristo, o sinal de Jonas, dado
a esta geração. Lucas, provavelmente, conservou melhor
a tradição primitiva: para ele o sinal de Jonas não é outra
coisa que Jonas a pregar: há que comparar a sua vida com
Cf. Lc 11, 30
a de Jesus, não pelos «sinais» extraordinários, mas pela
sua própria pessoa que nos proclama a salvação de Deus.
Mateus, depois da ressurreição, vê na história de Jonas,
partindo dum detalhe secundário, uma prefiguração da
ressurreição. Aquilo que sublinhávamos no Sermão da
Montanha quando dizíamos que Jesus tinha interiorizado
e personalizado a fé, alcança aqui a sua mais alta expressão:
a nossa opção fundamental faz-se sobre o mesmo mistério
da pessoa do Ressuscitado. Trata-se dum dramático “Vê-se
os sábios a fecharem-se diante da mensagem” e aquela geração
torna-se ainda mais perversa. Mas o capítulo termina com
uma nota de esperança, essa geração não é todo o Israel.
6.8.6. A verdadeira família de Jesus ( Mt 12, 46-50)
Os discípulos ficaram na sombra desde o começo deste
capítulo. Volta agora a aparecer e adivinha-se estar já
presente neles o verdadeiro Israel, que «faz a vontade do
Pai», e que, portanto, é a verdadeira família de Jesus.
Através de todo este conjunto nota-se que o drama se
vai concretizando: e os capítulos tornam-se comovedores
porque nos damos conta que também nos interpela e
somos, segundo os casos, «fariseus» e «discípulos». Na
vida histórica de Jesus, tal como nos é apresentada por
Mateus, adivinha-se já que as sortes estão lançadas, que
cada um já optou, que está já quase consumada a divisão
Mt.64 1ª edição - versão 2015
entre Israel, «geração perversa» e o verdadeiro Israel. O
discurso em parábola será a última advertência de Jesus: a
colheita está próxima, o juízo aproxima-se, mas há ainda
tempo.
6.9. Ouvir e Compreender ( Mt 13-15)
6.9.1. Discursos em parábolas ( Mt 13, 1-24)
Nos lábios de Jesus, a parábola do semeador parece
dirigir-se a pessoas decepcionadas. ao ver o fracasso da
Sua pregação. Jesus quer comunicar-lhes a sua confiança:
anuncia a vinda do Reino. Os fracassos nada provam,
porque a colheita chegará algum dia. E ao mesmo tempo
um ensinamento sobre o próprio Jesus. Ele, Jesus, é quem
inaugura o Reino de Deus.
A aplicação desta parábola na comunidade primitiva
interessa-se, sobretudo pelo terreno, ou seja, pela
qualidade das pessoas que recebem esta palavra Sente-se
menos a segurança duma boa colheita. Pensa-se, sobretudo
no perigo de fracassar e nas disposições que impedem a
palavra de dar fruto cada evangelista acentuará um dos
aspectos.
Marcos mostra-se mais sensível ã situação do seu
tempo’ o perigo principal está nas perseguições. ja que
muitos cristãos correm o perigo de fraquejar,
Lucas demonstra que o acolhimento da Palavra supõe.
por parte do homem. a fé e, sobretudo. a perseverança no
momento da tentação Não se trata tanto dum contexto de
perseguição, quanto da tibieza na vida quotidiana.
Mateus insiste na necessidade de «compreender’ a
mensagem: a sua inteligência espiritual levará a vivê-Ia na
prática.
E é esta compreensão que determina em Mateus a
distinção entre a multidão e os discípulos (v. 10-17) Porque
fala Jesus em parábolas? Dá duas respostas. Em primeiro
1ª edição - versão 2015
Mt.65
lugar, apela à iniciativa divina “A vós é dado a conhecer os
mistérios do Reino dos céus, mas a eles não lhes é dado”.
Não se trata, porém, dum capricho arbitrário de Deus: Deus
dá aos que já têm. A razão dessa distribuição encontra-se,
finalmente nos próprios interessados. Efetivamente, como
segunda resposta. Jesus continua: “É por isso que lhes
falo em parábolas, pois veem sem ver.” Marcos escrevia:
“para que vendo, não vejam.” Mateus compraz-se em
sublinhar que Jesus não quer a cegueira da multidão, mas
apenas a reconhece. Evidentemente, esta incapacidade
de ver e compreender são consideradas como culpáveis,
e o discurso em parábolas, que é uma consequência,
apresenta-se como uma condenação e um castigo.
Esta apresentação é dramática e interpela-nos também
a nós. Porque não se pode ver, nestes dois grupos
(discípulos e multidão - os que compreendem e os que
não compreendem) só simplesmente os cristãos e os
judeus. De fato, somente o último terreno dá fruto, mas os
anteriores acolheram também, mais ou menos a Palavra.
Mateus parece querer advertir-nos, compreende-se ou não
segundo as disposições do coração e estas não dependem
do fato de se estar fora ou dentro da Igreja, critério que
discerne os homens, segundo o qual serão julgados e a
prática da Justiça, e não o fato de pertencer a esta ou àquela
comunidade religiosa.
6.9.2. O Reino do Pai e do Filho ( Mt 13, 24-52)
Destas seis parabolas, quatro vem aos pares: a do grão
de mostarda e da levadura (31-33): a do tesouro e da pérola
preciosa (44-46). As outras duas, parecidas, quanto ao
fundo, servem para enquadrá-las a do joio (24-30) e a da
rede (47-50). No centro surge a explicação do joio (36-43).
Portanto, esta parábola dá sentido ao conjunto.
6.9.3. Explicação da Parábola do Joio
Este texto parece ser obra de Mateus. Apresenta-nos o
Filho do homem e o diabo semeando no mesmo campo
Mt.66 1ª edição - versão 2015
que é o mundo: os filhos do Reino e os filhos do Maligno.
No tempo da colheita, só os primeiros resplandecerão no
Reino do Pai.
Encontramo-nos, portanto, aqui, com dois Remos: o do
Pai que só existe como tal no fim dos tempos, e o do Filho
do Homem que existe já, e se identifica com o mundo e
com toda a humanidade, contem tanto pecadores como
justos, já que este Reino e o do Maligno se entrelaçam
mutuamente. Não se trata aqui, por princípio, da Igreja,
questão principal aos olhos do evangelista, não é saber
se é ou não cristão, se pertence à Igreja ou não: mas mais
universalmente, se cumpre a vontade do Pai celeste,
ou Cristão ou não, cada um será julgado segundo o seu
comportamento.
Esta explicação dá sentido às duas parábolas, a do
joio e à da rede. Os dois pequenos pares de parábolas
que a enquadram fazem ressoar neste conjunto especiais
harmonias.
6.9.4. A mostarda e a levedura: O Reino de Deus vencerá
O seu sentido é muito parecido ao da parábola do
Semeador. Mas o contexto dá-lhe outra força. Neste mundo
em que o mal e o bem andam tão intimamente ligados, quem
vai ganhar? Estas duas parábolas estabelecem um mesmo
contraste entre um começo insignificante (um pequeno
grão, um pouco de fermento) e o resultado maravilhoso. O
Reino começa pobremente, mas irá crescendo contra tudo
e será capaz de revolucionar o mundo.
6.9.5. O tesouro e a pérola preciosa: Arriscar tudo pela
alegria do Reino
Estas duas parábolas insistem na disposição essencial
para formar parte deste Reino, estar disposto a tudo
vender por ele. À primeira vista, isto parece uma loucura.
Mas, é pela sua alegria que o homem dá tudo. Aquele que
saborear um pouco das delícias desse Reino compreende
que é ali que está o verdadeiro tesouro e compromete-se
1ª edição - versão 2015
Mt.67
a fundo. Deixamos de lado os versículos 34-35 que nos
dão a razão pela qual Jesus fala em parábolas, mas num
sentido muito diferente. Aqui é, talvez, para advertir que
essa divisão entre “discípulos e multidão”, entre os que
compreendem e os que rejeitam, realiza-se no coração do
mesmo mundo, desse Reino do Filho do Homem. Mas,
sobretudo, aqui, a razão é puramente positiva: Jesus fala
assim para publicar o que estava oculto.
6.9.6. Os discípulos convertidos em escribas ( Mt 13,
51-52)
Jesus não explica aos discipulos as últimas parábo-
las: tinham sido “compreendidas”. Jesus desejaria que
os escribas, com toda a riqueza do “velho” Testamento,
se convertessem em discípulos para descobrir o “novo”.
Será o caso de Paulo. Mas, já que se negam a isso, serão os
discípulos a converter-se em “escribas”, ao compreender
os mistérios do Reino, sem passar pela ciência rabínica.
6.9.7. O relato do caminhar sobre as águas ( Mt 14, 22-
23)
Segue o relato de Marcos, com alguns matizes que lhe
dão um novo significado, por exemplo, no versículo 24 não
são os discípulos que se fatigavam remando, mas a barca
que era “açoitada pelas ondas”. O relato do sismo dominado,
(a tempestade) mostrou já, que Mateus via, nessa barca um
símbolo da Igreja. É também por esta Igreja que Mateus
aqui se preocupa. Esta sequência (de noite, Jesus a rezar,
os discípulos desamparados. o novo encontro com Jesus),
encontra-se em Marcos 1, 35-38, no começo do ministério de
Jesus. Em Mateus encontramo-la aqui, na tempestade e na
agonia —Não é por acaso que o andar sobre as águas vem
a seguir à multiplicação dos pães, como também a agonia
vem depois da instituição da Eucaristia: a multiplicação
dos pães prefigura a Eucaristia, alimento do homem
que caminha na noite da fé. Enquanto que em Marcos, o
relato acaba com a admiração dos discípulos, de coração
Mt.68 1ª edição - versão 2015
endurecido, sem compreender nada, em Mateus, termina
com uma profissão de fé:
“És realmente o Filho de Deus!”
Se Marcos sublinha que o mistério de Jesus conti-
nua fechado ate à ressurreição. Mateus quer, sobretudo.
apresentar-nos o exemplo daquilo que temos de fazer hoje
nessa barca-Igreja, reconhecer em Jesus o Filho de Deus
Mateus acrescentou ao seu relato, a passagem de Pedro
caminhando sobre as águas. Já o tinha nomeado primeiro
na lista dos Doze: Pedro começa a ocupar um lugarCf. Mt 10, 2; 16,
especial nesta barca-Igreja, como se verá mais adiante. A13-20 e 17, 24-27
sua pergunta é ambígua: exprime a sua fé ou a sua dúvida?
Pedro encarna o caminho da fé no coração do homem: crê,
mas a sua fé continua a ser frágil. Quando não pensa em
mais nada a não ser em Jesus, é forte: quando volta a tomar
consciência da sua condição humana, afunda-se.
Mas grita: “Senhor, salva-me!” E, então Jesus estendeu-
lhe a mão e segurou-o. Imagem autêntica das lutas
do homem por Cristo, o homem vê-se, de certo modo,
agarrado a Cristo, pela fé e pelo amor.
Depois dos milagres de Genesaré, vem uma discussão
de Jesus com os fariseus e os escribas: porque é que osCf. Mt 14, 34-36
discípulos comem pão sem lavar as mãos ritualmente?Mt 15, 1-20
Jesus prova-lhes que eles, assim como os discípulos de
outrora, não compreenderam a novidade do Evangelho.
E remete-nos outra vez aos ensinamentos do Sermão da
Montanha sobre a interiorização da Lei realizada por Jesus.
6.9.8. A fé da mulhar pagã ( Mt 15, 21-28)
Também a fé da cananeia se exprime simbolicamente
com a imagem do pão. A sua fé consegue de Jesus, um
milagre, que Ele não pode conseguir em Nazaré (13, 58). E
aparece o universalismo do Evangelho. Esta primeira parte
da seção dos pães conclui com um grito de admiração das
1ª edição - versão 2015
Mt.69
multidões, suscitado pelas ações poderosas de Jesus (15,
29-31).
A segunda parte começa com a segunda multiplicação
(15, 32-39). Logo em seguida numa discussão com os
fariseus (16, 1-4). Jesus rompe com eles: “Depois afastou-
Se”.
O último episódio desta seção manifesta que os
discípulos têm de continuar a progredir na sua fé. Na
discussão sobre o pão e o fermento dos fariseus (16, 5-12),
Jesus resume para os discípulos o significado desta seção:
os milagres dos pães, alimento para as multidões, era,
sobretudo, ensinamento para eles. Agora compreendem
que têm de escolher entre o ensinamento dos fariseus e a
novidade que lhes traz Jesus.
6.10. A Comunidade confessa o seu Senhor ( Mt 16-
22)
Chamamos a este conjunto de relatos um “episódio-
chave”. Ou seja, se por um lado, constitui uma nova
introdução, paralela à primeira (3-4), por outro é a con-
clusão dos acontecimentos precedentes.
6.10.1. Pedro, rocha da Igreja, proclama o Filho de Deus
( Mt 16, 1-20)
Ao fim deste longo período de preparação, Jesus
arrisca, finalmente, a seguinte pergunta: “Que dizem os
homens que é o Filho do Homem?”... “E Vós, quem dizeis
que Eu Sou?” Alguns, entre os da multidão, reconheceram
em Jesus um profeta. Mas Pedro, em nome do grupo,
proclama-O como o Profeta, o Messias ou o Cristo. Esta é
a resposta que Pedro dá segundo S. Marcos, e tem todas
as probabilidades de ser de fato a do apóstolo naquela
ocasião. Mas, segundo S. Mateus. a resposta foi: “Tu és o
Cristo, o Filho de Deus vivo”. É impossível ver na expressão
“Filho de Deus” o sentido relativamente débil que essa
expressão tinha naquela época. equivalente ao título de
Mt.70 1ª edição - versão 2015
Messias ou de Filho de Davi. A solenidade da frase, os
artigos (“O” Cristo, “O” Filho de Deus vivo), a resposta
de Jesus leva-nos a reconhecer nesta frase a plenitude da
fé cristã, tal como os apóstolos a irão descobrir pouco a
pouco depois da ressurreição. No Batismo era o próprio
Pai que proclamava a identidade do Seu Filho: agora fá-lo
através da Sua Igreja.
A «Bem-aventurança» dirigida a Pedro e a alusão ao seu
nome são próprias de Mateus. O seu caráter tão arcaico,
as frases rítmicas que formam assonâncias em aramaico, o
jogo de palavras impossível em grego “Tu és Pedro, e sobre
esta pedra...” (tanto em grego como em português, Pedro
é masculino e pedra é feminino ), advertem-nos que este
texto é muito antigo e que não se trata duma composição
da comunidade primitiva.
Mas, quererá isso dizer, que Jesus a pronunciou nesta
ocasião. Nesse caso, poderia pensar-se preferentemente na
paixão (em paralelismo com o texto de Lc 22, 31-32), ou
mesmo no período depois da Páscoa (cf. Jo 21, 15-19).
Esta «Bem-aventurança» sugere que se trata duma
revelação do Pai, e isso confirma o sentido forte desta
expressão.
A nomeação de Simão, doravante chamado “Pedra”,
indica como acontece no A.T., sempre que há uma
mudança de nome - uma nova missão. O nome de “Pedra”
ou de “Rocha” recorda aquela pedra fundamental que, em
Isaias, designava o Messias (Is 26, 16). Simão, portanto,
recebe a missão de ser o fundamento da comunidade.
Efetivamente, sobre essa pedra, edificará Jesus a “Sua
Igreja”. Esta palavra só se encontra duas vezes em Mateus:
aqui e em 18, 17. Em si mesma, a palavra não é estranha:
é a tradução do «qahal» hebreu, a assembleia de Deus:
o que é novidade aqui é o possessivo: “minha” Igreja.
Falando deste modo, Jesus muda, aprofundando o sentido
da palavra, doravante, a santa “Assembleia de Deus” será a
1ª edição - versão 2015
Mt.71
convocada por Ele e a que Ele edificar sobre esta rocha que
é Pedro. Deste modo a forca da morte não poderá nada
contra ela: mais ainda, a morte não poderá sequer resistir
aos ataques que a Igreja lançar contra ela. Finalmente, Jesus
confia a Pedro as “chaves”, isto é, fá-lo, segundo Is 22, 22,
por exemplo, seu primeiro-ministro, confiando-lhe o poder
que Ele próprio tem, segundo o Apocalipse (3, 7). “Atar-
desatar” exprime, entre os rabinos, a totalidade do poder,
quer seja o de proibir ou permitir (estabelecer regras), quer
o de condenar ou o de absolver (excluir da comunidade ou
admitir na comunidade). O “Poder das Chaves”, confiado a
Pedro, e também ao conjunto da comunidade (Mt 18. 18) é,
portanto, um poder espiritual. Todo o seu peso e valor está
em ser ratificado por Deus.
Com base neste texto, todos os cristãos estão de acordo
em reconhecer que foram concedidos a Pedro poderes
particulares. Eram pessoais? Deviam reconhecer que a fé
católica se apoia na tradição que interpreta este texto. A
partir do interior desta fé, somos levados a pensar que esta
interpretação corresponde ao pensamento de Jesus.
6.10.2. Jesus anuncia a Sua Paixão: Pedro tenta O seguir
( Mt 16, 21-28)
A partir de então, Jesus começou a fazer ver aos Seus
discípulos que tinha de sofrer e ressuscitar. Como já vimos,
nesta expressão, que só se encontra aqui e em 4, 17, há uma
nova viragem na pregação de Jesus. Doravante, dedicar-
se-á aos Seus discípulos e, uma vez que já confessaram o
Seu messianismo, deve fazer-lhes compreender que e, pela
Cf. Mt 16, 21;
morte, que se cumprirá a Sua missão. Este é o primeiro
17, 22-23; 20, 17-19dos três anúncios que marcam a subida a Jerusalém , cada
um dos anúncios vai seguido da observação de que os
discípulos não compreenderam: e, em cada uma dessas
ocasiões, Jesus diz aos discípulos que terão também eles
de seguir o mesmo caminho.
Os acontecimentos da paixão-ressurreição ajudaram,
sem dúvida, os discípulos a precisar estes anúncios e a
Mt.72 1ª edição - versão 2015
fixá-los em três. Mas o essencial continua a ser que Jesus
subiu a Jerusalém com a consciência de que teria que
oferecer a Sua morte e indicou à Sua comunidade que esse
era também o caminho dela.
6.10.3. A Transfiguração de Jesus ( Mt 17, 1-8)
“Seis dias depois”, este é um dos poucos casos em que
dois episódios vêm ligados por uma cronologia precisa, a
transfiguração aparece, deste modo, como uma resposta
do Pai ao anuncio da Paixão por parte de Jesus. Este
acontecimento é uma espécie de antecipação, na vida
terrena de Jesus, da glória que anunciava aos justos para o
fim dos tempos no reino do Pai (13, 43) e que Ele próprio
conhecerá depois da Sua morte: a Sua manifestação (28,
16-20) será a vinda do Filho do Homem, e, desta forma, os
discípulos vê-Lo-ão vir com o Seu Reino (16, 27-28).
Esta revelação apocalíptica que transfigura Jesus vale,
primeiramente, para Ele porque Lhe permitirá entrar com
confiança na noite da Paixão: mas ela é sobretudo uma
revelação do Pai aos discípulos. A voz dirige-se a eles, cf. Dt 18, 15
e Mateus acrescenta “Escutai-O” . Jesus é claramente
apresentado como o Mestre da doutrina da comunidade
tal como aparecerá durante a Sua ressurreição (28, 16-20)
O diálogo sobre Elias faz parte integrante do relato e
acrescenta uma nota indispensável: a glória não é para Jesus
uma evasão, porque Ele volta à realidade do quotidiano: é
apenas uma luz no caminho da morte.
6.10.4. A cura do menino epiléptico ( Mt 17, 14-21)
Este relato, mais que uma apóstrofe para os não crentes,
é uma lição aos discípulos sobre a fé capaz de transportar
montanhas. Ao conhecer as pegadas do Mestre que eles
devem seguir, terão menos medo de caminhar.
6.10.5. O imposto pago por Jesus e por Pedro ( Mt 17,
24-27)
1ª edição - versão 2015
Mt.73
Depois do segundo anúncio da Paixão, vem o episódio
estranho do imposto pago por Jesus e por Pedro. Ao
declarar que, nem Ele nem os Seus discípulos estão
obrigados a pagar esse imposto ao Templo, Jesus declara
que são eles os verdadeiros filhos e que os judeus não
são mais que “estrangeiros”. Seja qual for a realidade do
milagre, constata-se que Jesus fá-lo por Ele e por Pedro. Este
episódio-chave conclui-se, portanto. com esta solidaridade
particular.
6.10.6. O discurso sobre a vida da comunidade
Este discurso eclesiástico, como se lhe costuma chamar,
desconcerta a nossa lógica: é muito difícil descobrir
a estrutura deste conjunto de trechos recolhidos por
Mateus dos diversos lugares das suas fontes. Mas a vida
ri-se da lógica! Como nas cartas de Paulo, descobrimos
aqui uma comunidade concreta, com os seus problemas
muito parecidos aos nossos, Mateus parece dirigir-se aos
responsáveis da comunidade para lhes dar não um Direito
Canônico completo, mas o espírito que os deve animar.
Duas parábolas dão o tom a este discurso e o resumem.
6.10.7. Uma comunidade confiada aos pastores ( Mt 18,
1-20)
Uma pergunta dos discípulos manifesta que não
captaram ainda o espírito que deve animar os responsáveis
duma comunidade de que o Mestre quis ser o servo
Preocupam-se ainda com as precedências eclesiásticas.
Jesus responde-lhes com um gesto simbólico: colocando
um menino no meio deles, declara-lhes que é necessário
voltar a ser como as criancinhas Não voltar à infância, mas
descobrir-se diante de Deus como um menino que tem o
futuro diante de si como algo sempre novo, e está sempre
disponível, sem pretensões. “Fazer-se” menino é dar-se
conta de que o Pai nos chama continuamente a crescer.
Mt.74 1ª edição - versão 2015
Mas o menino é também um ser débil, facilmente
menosprezado naquela época. Jesus pede então que seja
acolhido, e se o fazem “em Seu nome” é a Ele próprio que
acolhem. Portanto, da debilidade física passa à debilidade
espiritual.
De fato, já não se fala de meninos, mas de pequenos que
crescem em Jesus. De que se trata? Ao nível da redação
evangélica, não se trata já de meninos como tais, mas de
crentes, ou seja de cristãos que são pequenos por serem
provavelmente mais débeis, menos formados e, por isso,
mais expostos.
Também Paulo distinguirá na comunidade de Corinto
“débeis” e “fortes”. Assim se compreende porque Jesus,
como Paulo mais tarde, pede que se tenha cuidado para osCf. 8-10
não “fazer cair” (literariamente: “escandalizar”). Sabe muito1 Co 8, 13
bem que os tropeços (ou escândalos) são uma condição
histórica do homem, mas não são uma fatalidade, e temos
de evitá-los aos nossos irmãos. A razão pela qual não se
deve desprezar estes “pequenos”, vem expressa numa
linguagem simbólica: “os seus anjos, nos céus, vêem
constantemente a face de Meu Pai que está nos céus”. E
que Paulo traduzia: “A vossa vida está escondida com Col 3, 3
Cristo em Deus”.
A parábola do homem que vai à procura da ovelha
extraviada, mostra-nos claramente a solicitude do Pai
por esses «pequenos». Diferentemente de Lucas, onde
Jesus conta esta história para justificar a Sua maneira deCf. Lc 15, 3-7 e Lc
proceder com os pecadores, Mateus situa-se no tempo15, 1-2
da Igreja: a ovelha extraviada não é já o pecador a quem
Jesus traz a boa notícia, mas o cristão que se afasta da
comunidade e corre o perigo de se perder. O acento recai
agora na obrigação que o “pastor” tem de ir buscar quem
anda perdido.
A repetição da expressão «um só destes», manifesta
que a Igreja não é uma colectividade anónima, mas uma
1ª edição - versão 2015
Mt.75
comunidade em que cada um dos membros é o único para
Deus e tem que sê-lo também para os seus irmã[Link]
solicitude de Deus é que permite compreender a passagem
«do irmão que peca». Não se trata duma ofensa pessoal,
mas dum pecado que afasta o irmão da comunidade. O
objectivo não é reconciliar-se como em Lucas 17, 3, mas
ganhar o irmão.
Se isso não se conseguir, este irmão passa a ser um
«publicano e um pecador». não como uma pessoa
desprezível, mas como todas as pessoas, que estão fora
da comunidade e, como elas, depende da misericórdia de
Deus.
Como fez antes com Pedro (16, 19), agora fá-lo com
os discípulos, confiando também a eles a poder de «atar
e desatar. Tendo em conta o contexto, parece que temos
de ver aqui o poder de reter e perdoar os pecados, como
em S. João (20, 23). Contudo a visão teológica destas duas
passagens é diferente João rela-ciona este poder com a
comunicação do espírito de santidade, Mateus com a
presença de Cristo entre os Seus (18, 20; cf. 28, 20): mas,
tanto num caso como no outro, assiste-se à transmissão
dum poder que, antes da Páscoa, era exercido só por Cristo.
Jesus acaba de exprimir o Seu interesse pelos «pequenos»
da comunidade, de dar uns poderes e umas regras para que
esta comunidade se mantenha coerente consigo mesma
quando o pecado ameace destrui-la.
Agora indica qual é o fundamento último desta
comunidade e que se experimenta na oração: a sua presença
no meio deles. Este texto é muito enérgico: recolhe uma
fórmula tradicional no Judaísmo e encontra-se numa
sentença dum rabino morto no ano 135: “Se duas pessoas se
reúnem e pronunciam as palavras da Lei, a “Shekinah” (a santa
presença de Deus) está no meio deles.” Assim, esta fórmula
também serviu a Jesus para se declarar “presença de Deus”
entre nós!
Mt.76 1ª edição - versão 2015
6.10.8. Perdoar porque nos perdoaram ( Mt 18, 21-35)
O segundo conjunto deste discurso refere-se ao perdão.
Pedro acha muito perdoar até sete vezes, o número da
plenitude. Mas Jesus trocando as voltas ao canto de Lamec Gn 4, 24
, multiplica essa plenitude ao infinito. Quando as pessoas
se sentem perdoadas por Deus, não podem deixar de
transmitir aos outros esta misericórdia infinita.
Através deste discurso, vemos uma comunidade
interrogar-se sobre a sua vida concreta, procurando o
fundamento da sua comunhão. E encontra-o em Jesus,
presença de Deus no meio dela, presente na oração e no
irmão, sendo cada um destes irmãos único para Deus. Ao
reconhecer-se a si mesma perdoada, somente conserva
como Direito Canônico, ou como espirito que a deve
animar, a misericórdia e o perdão.
Durante esta longa etapa em direção a Jerusalém e
depois na própria cidade, vamos ver como o apelo ao
compromisso absoluto lançado por Jesus aos Seus dis-
cípulos vai penetrando dolorosamente até ao coração
das liberdades humanas, ou seja até à opção definitiva: o
acolhimento ou a recusa. Toda esta seção tem como pano
de fundo a multidão, mas de fato tudo se desenvolve
entre Jesus e os Seus discípulos por uma parte, e os Seus
adversários por outra.
Assistimos, além disso, como João o sublinha espe-
cialmente, a um duplo processo: Jesus é julgado pelos
chefes religiosos, mas de fato, é Ele o juiz que os condena.
Cf. Mt 18, 23-35
Na parábola do devedor implacável, o assunto
continua sendo o perdão. Nessa oportunidade Jesus fala
aos discípulos através de uma parábola, apresentando
semelhanças com o Reino de Deus: “Eis porque o Reino
dos Céus é semelhante a um rei que resolveu acertar contas
com os seus servos.” Jesus mostra, através da parábola, o
quanto é necessário exercer o perdão com amor.
1ª edição - versão 2015
Mt.77
Nas prestações de contas solicitadas aos servos de
determinado rei: “trouxeram-lhe um servo que devia
dez mil talentos.” Importância enorme e impagável -
escolhida intencionalmente por Jesus para o fim que
desejava com a parábola - equivalente a 60 milhões de
denários. Sabedor da realidade daquele homem, aquele
rei age com misericórdia: “Compadecendo-se do servo,
soltou-o e perdoou-lhe a dívida.” Por outro lado o servo
que recebeu o perdão não teve compaixão de outro que
lhe devia valor infimamente menor: “Cem denários”(um
denário equivalia apenas ao salário de um dia) e mandou
prendê-lo, causando a indignação dos seus companheiros.
Ele esquecera a sua situação perante o seu rei e o quanto
havia sido beneficiado com a sua bondade. Por isso
foi severamente punido: “Eis como o Pai celeste agirá
convosco, se cada um de vós não perdoar, de coração, ao
seu irmão”.
Este talvez este seja o nosso mal, esquecemos o quanto
Deus faz por nós em todos os momentos de nossas vidas.
Jesus nos ensina que o nosso comportamento precisa
conter o amor e a compaixão em relação aos nossos irmãos,
conforme nos diz: “Como eleitos de Deus, revesti-vos de
Col 3,12-13
sentimentos de compaixão, como o Senhor vos perdoou,
assim também fazei vós.”
Devemos ansiar por vivermos nas cercanias de Deus,
mas para andarmos com Deus precisamos ter nossos
pecados perdoados por Ele. Sabemos que Ele nos perdoa
pelo Seu infinito amor, e ao sermos perdoados, precisamos
também perdoar o próximo, como uma extensão do perdão
de Deus.
Temos sempre que conviver com o perdão em quatro
situações: Pedirmos sempre o perdão de Deus; perdoar-
nos a nós mesmos; dar o perdão ao próximo; e pedir
perdão ao próximo por nossos erros. Que o perdão sem
limites de Deus seja sempre o nosso referencial.
Mt.78 1ª edição - versão 2015
Estes capítulos podiam organizar-se em três partes que
vamos percorrer rapidamente:
1. Mt 19-20: Encontros de Jesus no caminho da Galileia
a Jerusalém: os fariseus, o jovem rico, os cegos. As Suas
respostas provocam reações de incompreensão por parte
dos discípulos. Jesus prossegue assim os ensinamentos,
não já por meio de discursos. mas partindo da vida, dos
encontros quotidianos: procura conseguir deles essa
mudança de mentalidade que os tornará como crianças. No
centro, a parábola dos operários da última hora, completa
e esclarece o Seu pensamento.
2. Mt 21-22: O “Filho de Davi” entra em Jerusalém.
Como vai ser recebido? Três séries de textos permitem a
resposta: gestos de Jesus (21, 1-27); parábolas (21, 28-22.
14); controvérsias (22, 15-46). Vai subindo a tensão entre
Jesus e as autoridades Judaicas.
3. Mt 23: Num discurso á multidão. Jesus dá-lhes regras
para discernir os verdadeiros ensinamentos: depois ataca
a hipocrisia dos fariseus. Finalmente abandona a cidade
com uma lamentação, mas também com uma nota de
esperança.
a) O matrimónio indissolúvel (19, 3-15):
Alguns fariseus interrogaram Jesus sobre o divórcio.
Jesus esclarece a questão remontando-a ao plano de Deus:
romper o matrimónio é romper a aliança com Deus. Os
discípulos estranham. Jesus diz-lhes que graças a um dom
especial, alguns homens poderão viver somente para o
Reino.
b)A pobreza (19, 16-30):
Ao jovem rico que o interroga, sobre o que é bom ou
perfeito (estes dois temas são sinônimos) para ter a vida
eterna, Jesus responde: a pobreza. Não se trata dum
“conselho” (válido só para a Vida Religiosa), mas de
1ª edição - versão 2015
Mt.79
uma ordem para alcançar a vida eterna. O Evangelho
apresenta perfeição como o fim que hão de alcançar todos
os crentes sem exceção, utilizando os meios, todos os os
meios necessarios, até os mais radicais sempre que sejam
necessarios: e a pobreza absoluta é um desses meios
quando a posse dos bens é um obstáculo para a salvação.
E os discípulos continuam admirados. Jesus muda as
perspectivas daquele jovem, não se trata de fazer alguma
coisa para alcançar a vida eterna, mas de abandonar para
receber.
c) Os operários da última hora (20, 1-6):
A parábola original termina no versículo 15 e Jesus
dirige-se aos Judeus dizendo-lhes: Assim como o patrão
não é injusto ao dar a todos o mesmo salário, porque o faz
não por causa dos «méritos» dos operários, mas porque ele
é bom: assim também Deus não é injusto ao admitir no Seu
Reino os pecadores, porque é bom. Mateus ao acrescentar
uma conclusão (v. 16), muda o auditório: a parábola dirige-
se agora aos discípulos, aos cristãos da sua comunidade,
apoia-se num detalhe secundário da história (a ordem do
pagamento os primeiros protestam não porque lhes pagam
depois, mas porque lhes pagam o mesmo): da mesma
maneira que o patrão para pagar o salário, faz passar para
último lugar os operários que chegaram primeiro, assim
também Deus faz passar, no Seu Reino, para último lugar,
os judeus que foram os primeiros a ser chamados. Neste
contexto, a parábola converte-se também numa promessa
para os discípulos que foram chamados antes que os
chefes religiosos Judeus. Mas continua a ser também para
eles uma advertência o fato de ser agora os primeiros
chamados desta Igreja não lhes dá nenhum direito. É o que
se explica no episódio seguinte.
d) Os “melhores lugares” no reino (20, 17-28):
Para entrar no Reino, é preciso seguir o mesmo caminho
de Jesus, que passa pela cruz (terceiro anúncio da paixão).
Mt.80 1ª edição - versão 2015
A mãe de Tiago e João quer dar uma boa colocação aos
seus filhos. Aos discípulos que se indignam por isso, Jesus
recorda-lhes que o maior é o que se faz servo dos outros,
como o Filho do Homem.
e) Os dois cegos de Jericó (20, 29-34):
Esses cegos convertem-se, neste contexto, em símbolo
dos discípulos que continuam cegos. Só Jesus lhes pode
abrir os olhos.
6.10.9. A recepção do Filho de Davi em Jerusalém ( Mt
21-22)
Ao entrar em Jerusalém (21, 1-11), Jesus, segundo
Mateus, escolhe realizar o oráculo de Zacarias (9, 9) que
anunciou o filho de Davi como um messias humilde.
Dirige-se à “Filha de Sião” (Is 62, 11), isto é, ao povo do
futuro, purificado por Deus, e que deve converter-se numa
luz para todos os povos. Como O irá receber este povo, a
“Filha de Sião”?
Três séries de textos darão a resposta:
a) Gestos de Jesus (2, 12-27):
* Jesus purifica o Templo (21, 10-17), tal como o havia
anunciado Zacarias (14, 21): cura os cegos e os coxos
que o seguiram até àquela parte do Templo que lhes
estava proibida. Assim realiza as profecias de Isaías (35,
5-6) e toma as nossas enfermidades (Is 53. 4=Mt 8, 17). A
multidão entusiasma-se e só Mateus, refere a aclamação
dos meninos, dos que sabem acolher o reino.
O milagre da figueira seca (21, 18-22) que foi, sem
dúvida, no principio uma parábola, converte-se aqui num
ensinamento sobre a fé para os discípulos.
Finalmente, Jesus nega-se a responder aos chefes sobre
a origem da Sua autoridade (21, 23-27).
b) Parábolas (21, 28-22,14):
1ª edição - versão 2015
Mt.81
Estas três parábolas têm um som distinto das do capítulo
13. São sobretudo um juízo e é nelas, onde Jesus dirá com
mais clareza a consciência que tem de si mesmo.
* O Pai e os seus dois filhos (21, 28-32): Para entrar no
Reino, não se trata de dizer, mas de fazer a vontade do Pai.
* Os vinhateiros homicidas (21, 33-46): A «vinha»
representa, sobretudo depois de Isaias (Is 5), Israel. Os
vinhateiros são, portanto, os responsáveis, os chefes
religiosos que devem cuidá-la, mas que maltratam os
profetas que Deus lhes envia. Deus faz, então, a última
tentativa: envia-lhes o Seu Filho. Eles, porém matam-no.
Vem, então, o Juízo. Deus destruirá esses responsáveis e
confiará a vinha a outros. A parábola é demasiado clara, os
chefes religiosos reconhecem-se nela e compreendem que
Jesus Se apresenta como o Filho.
A parábola primitiva acaba, com toda a certeza, no
versículo 41: refira-se a essa entrega da vinha a outros.
A comunidade primitiva, depois da Páscoa, viu nela
sobretudo o anúncio do mistério Pascal e acrescentou o
versículo 42, colocando nos lábios de Jesus o versículo 22
do salmo 118. A parábola exprimia o sentido da morte e da
ressurreição de Jesus.
Mateus, por sua parte. acrescentou o versículo 43,
voltando assim ao sentido primitivo da parábola, mas
concretizando-o mais ainda, o Reino de Deus será tirado a
esses responsáveis dos judeus para dá-lo “a uma nação que
produza os seus frutos”. Não se trata aqui das «nações»,
isto é, dos pagãos, mas de um grupo que faz pensar na
“nação santa” do Êxodo (19, 6). O Reino de Deus será
confiado doravante a essa nova nação santa que é a Igreja.
* As bodas do Reino aberta a todos, (22, 1-14): O Rei,
da parábola anterior, oferece para as bodas do seu filho,
um festim a todos, «maus e bons» mostrando assim o
seu universalismo. Mas, no final, a parábola insiste na
resposta pessoal que se exige a cada um, não basta aceitar
Mt.82 1ª edição - versão 2015
o convite, é necessário também ter a veste nupcial. Mas a
recusa é sempre possível. A entrada definitiva no Reino é
assinalada por essa veste.
c) Uma discussão rabínica (Mt 22, 16-46):
O rabino responde às três questões e depois pergunta:
este é um gênero de discussão que Jesus também utiliza e
que lhe permite tomar posições frente às diversas correntes
religiosas do seu tempo.
* Fariseus e Herodianos: O tributo a César (22, 15-22).
Superando o dilema que Lhe propõem. Jesus remete cada
um para a sua liberdade diante de Deus.
* Saduceus: A ressurreição dos mortos (22, 23-33):
Refutando as questões inúteis sobre o “como ressusci-
taremos”, Jesus vai ao essencial. Deus é Deus de vivos
e é o Deus de Abraão: este e todos os outros, portanto.
continuam vivos
* Um legista fariseu: o maior mandamento (Mt 22, 34-
40):
* Finalmente, Jesus interroga os seus adversários sobre
a sua própria identidade, (22, 41-46): Quando da Sua
entrada em Jerusalém, Jesus foi aclamado «Filho de Davi»,
Agora procura fazer-lhes perceber, toda a profundidade
desse título cujo sentido só resultará, claro, depois da
ressurreição. Os Seus adversários lá não se atrevem a
perguntar-Lhe mais coisas. Jesus, então, irá deixar escapar,
para a multidão e para os discípulos, um prolongado grito
de amor defraudado.
6.11. Um grito de amor defraudado ( Mt 23)
Os fariseus são os “santos” que apostaram toda a sua
vida na Lei de Deus e vivem em consequência disso.
Simplesmente, eles pensam que essa santidade lhes dá
direito perante Deus. Podem apoiar-se nos seus méritos. E
é isso que deixa tudo a perder, porque os torna incapazes de
1ª edição - versão 2015
Mt.83
acolher a Deus como um dom gratuito e abrir-se para aceitar
o seu Messias, tão desconcertante para as suas concepções.
Jesus mostra-se muito duro para com eles porque, embora
admirando-os fica decepcionado ao ver que estragam, com
as suas atitudes, todo o esforço de santidade. Também é
muito provável que Mateus “carregue as tintas, atacafido
os rabinos do seu tempo, que estavam a dar impulso ao
judaísmo de Yamnia.”
* Jesus ensina primeiramente, aos discípulos e à
Cf. Mt 23, 1-2
multidão, a discernir as boas e más obras; o critério é a
fraternidade e o serviço.
* Depois, em sete “ai de vós”, exprime a Sua dor pela
forma como os fariseus estragam a “virtude” (23, 13-36). Mas
esta polêmica contra os fariseus é também uma catequese
Mt 23, 11-12
dirigida aos discípulos, e a nós, porque é aos cristãos que
Cristo declara: “o que se exalta, será humilhado...”, a esses
cristãos que estão sempre ameaçados pela tentação do
“farisaísmo”.
* Finalmente, este requisitório acaba com uma
lamentação em tom de tristeza impotente. Contudo, não
Mt 23, 37-39:
se perderam todas as esperanças. Israel, se o desejar algum
cf. Rm 11 dia, voltará a conhecer o Messias.
6.11.1. A inauguração do Reino no Mistério Pascal ( Mt
23-28)
Chegamos à última etapa do Evangelho. Na primeira
parte, Mateus, mostrava-nos Jesus a proclamar a vinda do
Reino de Deus e a preparar a Sua Igreja Na segunda parte,
interessava-se sobretudo pela formação da comunidade
que tinha de proclamar no mundo o seu Senhor.
É a partir da situação muito concreta da sua comu-
nidade dos anos 70-80 d.C., das suas dificuldades para
acreditar e para perseverar na esperança: da sua oposição
ao judaísmo de Yamnia etc., que Mateus faz uma releitura
Mt.84 1ª edição - versão 2015
dos acontecimentos da vida de Jesus e interpreta os relatos,
já muito estruturados, que recebe da tradição.
Neste último “caderno” mostra-nos como Jesus, com
a Sua Morte e Ressurreição, inaugurou esse Reino e,
inclusive, o estabeleceu definitivamente. Doravante, a
missão da Igreja será conseguir que os frutos da vitória
alcancem toda a humanidade.
Encontramo-nos aqui, também, com duas partes: um
grande discurso onde Jesus anuncia o fim dos tempos: e
o relato da paixão- ressurreicão que é, em certo sentido, a
sua realização.
6.11.2. O Anúncio da Vinda definitiva do Reino em
Jesus ( Mt 24-25)
A pergunta dos discípulos provocada por este discurso
(24, 3) situa-se a dois níveis: quando será a ruína de
Jerusalém? Que sinais anunciarão a vinda gloriosa do
Filho do Homem e o fim do mundo? É provável que no
pensamento dos discípulos, estes três acontecimentos
não fossem mais que um. Nós, hoje, sabemos muito bem,
como o sabia Mateus, quando escreveu estas páginas, que
a ruína de Jerusalém teve lugar no ano 70 e que o fim dos
tempos estava ainda para vir. Seria interessante distinguir,
neste discurso, o que corresponde a cada um desses
acontecimentos. Mas é impossível.
Por outro lado, a fé cristã, na sequência de todo o Novo
Testamento, procura manter ao mesmo tempo o “já” e o
“ainda não”: é verdade que “ainda não” se realizou a vinda
gloriosa do Filho do Homem para acabar a História, mas
também é verdade que Jesus desde já, realizou tudo no seu
Mistério Pascal. Cada um dos autores do Novo Testamento,
como nós próprios, segundo as necessidades e as diversas
ocasiões, insiste mais num desses dois aspectos. Mateus,
por seu lado, fixa a sua atenção no que “já” se fez. E, por
isso, o Juízo não tem lugar no fim dos tempos, mas em
cada um dos instantes da nossa vida cotidiana em que nos
1ª edição - versão 2015
Mt.85
encontramos com o Filho do Homem presente ao nosso
lado. Contudo, insistirá, mais que os outros autores, na
vigilânca da espera.
1. Os “sinais” da vinda do Filho do Homem - (24, 4-35)
Estes sinais, apresentados num estilo apocalíptico.
cheio de imagens, não são fáceis de interpretar. Podemos,
contudo, sublinhar um deles: “haverá sismos” (tremores
de terra) (v.7). O “sismo”, em si é uma mera imagem
tradicional, mas em S. Mateus aparece várias vezes como
símbolo da chegada efectiva dos últimos tempos na
morte de Jesus, um sismo abre os túmulos, (27, 51) e, ao
ver esse sismo, os guardas enchem-se de medo (27, 54)
outro sismo abre o túmulo de Jesus (28,2). E no milagre
do “sismo dominado”. Mateus já tinha antecipado estes
acontecimentos (8, 24).
Todas estas imagens, recolhidas do Antigo Testamento,
nos asseguram que essa vinda é certa e que deve ser
esperada na fé.
2. O “quando” da vinda - (24, 36-25.46):
Jesus responde a esta questão de três maneiras:
a) Ningém conhece a data; vigiai, pois! (24, 36-44)
O grito dos Evangelhos: “estai preparados! Vigiai!”,
tem de ressoar no coração de todo aquele que deseja a
ocorrência do grande encontro, não como uma obsessão
pela sua salvação pessoal, mas como uma exigência de
fidelidade às missões confiadas pelo Mestre.
É sobre este ponto que vão insistir as três parábolas.
b) Três parábolas sobre o tema da vigilância (24, 45-
25.30)
O servo fiel (24, 45-51):
Mt.86 1ª edição - versão 2015
A vigilância adquire a forma de uma fidelidade
responsável a uma missão confiada pelo Senhor. Através
desta apresentação, adivinha-se que a comunidade
de Mateus tinha sofrido a experiência dolorosa da
incapacidade, e mesmo da infidelidade de alguns dos seus
chefes: pode pensar-se que Mateus deseja recordar-lhes a
seriedade do seu ministério.
As dez virgens ao encontro do esposo (25, 1-13).
Como aquelas “filhas de Jerusalém” do Cântico dos
Cânticos, em quem o rabinos viam um símbolo dos
discípulos levando a luz da Lei e velando na espera do
Messias, também a comunidade cristã tem de velar. É
necessário estar preparada quando vier o esposo.
Os talentos (25, 14-30):
A parábola original queria demonstrar que, diante de
Deus, não estamos na mesma relação de igualdade dos
que assinam um contrato, estamos em ordem quando são
cumpridas as cláusulas do mesmo. Estamos na relação
do servo diante do seu Senhor: este pode pedir, mais do
que exige a “justiça” humana: não se pode ser verdadeiro
servo se não se está disposto a cumprir as exigências do
seu senhor até às mais desconcertantes.
A comunidade primitiva tinha já alargado esta aplicação,
acrescentando o versículo 29. Ela insiste sobre a maneira
como se fará o juízo.
Com muitos aperfeiçoamentos (“ao fim de muito tempo”,
“servo bom e fiel”, “servo mau e preguiçoso”, “inútil”),
e acrescentando o versículo 30. Mateus continua o seu
ensinamento sobre a vigilância na espera, mas precisando:
“velar é cumprir as tarefas marcadas pelo Senhor”, não
basta acolher a Palavra, é necessário fazê-la frutificar. O
Reino dos céus é um “capital que foi colocado nas nossas
mãos”, não temos o direito de o deixar improdutivo. Essa
é a nossa tarefa na história e o sentido do atraso da parusia.
1ª edição - versão 2015
Mt.87
c) O Juízo é hoje (25, 36-46):
“Quando será a parusia?”, perguntavam os discípulos.
Jesus responde agora: seremos julgados pelo amor que
temos aos nossos irmãos. E assim nos revela a verdadeira
“data” do juízo. Esse juiz que esperavam encontrar
algum dia, pela primeira vez, há muito que os homens o
encontraram, ao longo da sua vida cotidiana. O homem
encontra-se com o juiz celeste sempre que está diante do
seu próximo: o juízo e a sorte final de cada um decide-se
desde agora. O que é decisivo é o momento presente, na
sua vulgaridade aparente. Este instante reveste-se dum
valor infinito, porque está carregado com o peso infinito da
presença misteriosa, no homem que está diante do homem,
do Filho do Homem e do próprio Deus.
6.11.3. O mistério pascal inaugura o Reino ( Mt 26-28)
Jesus acaba de anunciar a vinda do Reino. Mateus
mostra-nos agora a realização desta profecia com a Páscoa
do Senhor, chegou o REINO, e a Igreja foi definitivamente
fundada. As várias correspondências entre os capítulos 24-
25 e 26-28 mostram-nos à evidência.
O prólogo (26, 1-5):
Este prólogo diz-nos o essencial. Ao abrir o seu
relato, Mateus tem consciência de pôr aos seu leitores
uma pergunta tremenda: Como é que esse que nos foi
apresentado até agora como o Messias, o Senhor, o Filho
de Deus, pode ser entregue na mão dos pagãos e enviado
à morte, condenado pelos chefes religiosos estabelecidos
por Deus para discernir a vinda do Messias? Mateus
responde, em primeiro lugar, colocando a conspiração
judaica nos lábios de Jesus: é Ele que decide da Sua morte,
livremente;os chefes não fazem mais que cumprir ( então) o
que Ele decidiu. Mas Mateus vai, sem dúvida, mais longe.
Escreve: “Os Sumos Sacerdotes e os Mestres Anciãos do
Povo reuniram-se.” Parece retomar aqui o t ema do Salmo
2, o Salmo que a comunidade cristã, vivendo a sua própria
Mt.88 1ª edição - versão 2015
paixão, meditava para compreender o seu destino e o de
Cristo.
E, então, tudo se esclarece. Se os chefes religiosos
condenam a Jesus, é porque são eles os “maus” do Salmo
e Jesus é então o Messias. Por outro lado, se Jesus vive a
primeira estrofe do Salmo, é também certo que as outras se
cumprirão e o projeto de Deus realizar-se-á, estabelecendo
o Messias como Senhor de todas as nações. É precisamente
isto que Mateus nos vai mostrar.
1. Chega a Páscoa e o Filho do Homem é entregue (26,6-
56);
2. O Filho do Homem é entregue para ser crucificado
(26, 57-27, 44);
3. A Páscoa do Filho de Deus (27, 45-28, 15);
Para Mateus, a morte de Jesus e a Sua ressurreição
formam uma só teofania, marcada pela dupla alusão ao
tremor de terra (27, 51 e 28, 2). O verbo “chegar” (as trevas:
27, 45; José da Arimateia: 27, 57; o terramoto: 28, 2) adquire
aqui uma importância especial, porque marca o começo
dos três tempos desta teofania: a morte do Filho de Deus, a
sepultura de Jesus e a Sua ressurreição.
Conclusão: a missão universal dos discípulos (28, 16-
20).
6.11.4. Chega a Páscoa e o Filho do Homem é entregue
( Mt 26, 6-56)
a) A unção real em Betânia e a venda de Judas (26, 6-16):
Jesus domina os acontecimentos: aqui, para começar,
celebra antecipadamente a Sua sepultura. Os discípulos,
mais uma vez, não compreendem. Nota-se por detrás
do relato, uma espécie de conflito entre a ação (as “boas
obras” em favor dos pobres) e a contemplação (essa “boa
obra” em relação a Jesus). Em todo o caso, Jesus mostra-
1ª edição - versão 2015
Mt.89
nos que as duas coisas são inseparáveis, o amor aos pobres
tem que viver-se no amor Àquele que se identificou com
eles (25, 36-46);
Judas vende Jesus por “trinta moedas de prata” (Mt-Mc-
Lc). Neste gesto, Mateus vê a realização de uma profecia
de Zacarias (Zc 11, 12): Deus é rejeitado pelo Seu povo que,
por desprezo, lhe paga o salário irrisório de um escravo.
É o próprio Deus que, em Jesus, é vendido pelos homens.
b) A Páscoa no seio da comunidade (26,17-30):
A Paixão de Jesus desenvolve-se, antes de mais
nada, no meio da comunidade dos discipulos: é ali, em
primeiro lugar, onde Ele é entregue (v. [Link]) e
onde dá o Seu Corpo e Sangue. De fato, é aliciante para as
nossas comunidades que este relato da Instituição esteja
enquadrado entre a traição de um dos Doze e o anúncio
das negações de Pedro.
O relato da Instituição, muito próximo de Marcos.
recolhe provavelmente o texto litúrgico das comunidades
judaico-cristãs. Por este gesto profético, Jesus vive ante-
cipadamente a Sua própria morte. Mateus ilumina o seu
sentido ao acrescentar “para a remissão dos pecados”.
Além disso, aqui tem lugar também um dos três “para
remissão dos pecados”. E, tem aqui lugar também um dos
três “a partir de agora” do seu Evangelho: “pouco antes
da Sua paixão, Jesus despediu-se dos judeus dizendo-
Mt 23, 29
lhes: a partir de agora, não mais me vereis até que digais:
Bendito...” Aqui despede-se dos Seus discípulos: e, diante
do Sinédrio irá declarar “a partir de agora, vereis o Filho
do Homem...” (26, 64), esse Filho do Homem que se
manifestará aos discipulos no dia de Páscoa.
c) A agonia e a fuga dos discípulos (26, 31-56):
O relato da agonia é muito semelhante ao de Marcos.
Jesus celebrou já a Sua morte umas horas antes, com
o hieratismo próprio do sacerdote no altar. Conhe-
Mt.90 1ª edição - versão 2015
cíamos, assim, o seu sentido, mas não sabiamos até onde
atingiria a humanidade de Jesus. A agonia mostrou-o.
Mateus acrescentou claramente, por três vezes, a palavra
“comigo”: Jesus chega ao horto “com eles” (os discípulos),
e pede-lhes: “Vigiai comigo”, e, em seguida, repreende-os
dolorosamente: “Não pudestes velar uma hora comigo?”
Esta palavra tem, antes de mais, uma profundidade
humana: essa necessidade de Jesus de “estar com” diz-nos
mais sobre a Sua humanidade e a Sua angústia do que uma
longa exposição doutrinal. Mas além disso tem um valor
eclesial, é o Senhor da Sua comunidade que a interpela até
ao fim dos tempos, pedindo-lhe que esteja com Ele. Mas,
infelizmente, tem de morrer só. É verdade que “um dos
que estavam com Jesus, puxou da sua espada” (v. 51), mas
com isso só demonstrou nada ter compreendido. E essa
comunidade que acabava de protestar, foge covardemente
( v. 31-35).
6.11.5. O Filho do Homem é entregue para ser
crucificado ( Mt 26, 57-27, 44)
a) Diante do Sinédrio (26, 57-75):
Logo desde o princípio, Mateus começa por nos dizer o
que pensa desse julgamento: “buscavam uma testemunha
falsa contra Jesus para Lhe dar a morte”. A pergunta do
sumo sacerdote mais solene em Mateus que nos outros
evangelistas: um apelo a Deus para forçar o acusado a
declarar a sua identidade: “... se tu és o Cristo, o Filho de
Deus”. Estas duas palavras, nos lábios do sumo sacerdote
têm, provavelmente, o mesmo sentido: «és o Messias?»
Jesus recusa esta problemática: “És tu que o dizes: o
que Eu digo é, a partir de agora vereis...” A “blasfêmia” de
Jesus não consiste em chamar-Se Messias-Rei, referindo-
se ao Salmo 110 (sentado à direita do Poder), ou Filho do
Homem, em relação a Daniel (“Filho do Homem... vindo
sobre as nuvens do céu”) mas está em unir em Si os dois
títulos, e, sobretudo, por lhes dar um conteúdo pessoal
afirmando a Sua divindade. E é esse condenado à morte,
1ª edição - versão 2015
Mt.91
servo sofredor de lsaías, que reivindica esses dois títulos
de glória.
De novo, como contraponto trágico, o que acontece ao
longo de todo este relato, enquanto o Seu Mestre proclama
quem é, à custa da Sua própria vida, a comunidade
renega-O pela boca de Pedro.
b) Diante de Pilatos: O processo face ao mundo (27,1-
26):
Depois do entusiasmo das multidões da Galileia, temos
vindo a observar como Jesus é abandonado e reduzido aos
Seus discípulos. Esses mesmos O deixam, encontrando-
Se agora sozinho diante do Sinédrio. Mas, eis que, de
súbito, a cena alarga-se e aparece um imenso tribunal onde
ninguém ousa tomar posição: “O assunto é teu” (v. 4.24).
De fato, em volta do governador junta-se gente, o
povo,Judas, Barrabás, os sumos sacerdotes e os anciãos,
a mulher de Pilatos.... e, pouco depois, os guardas, os
transeuntes, as mulheres... Um processo diante de todo o
mundo.
Mateus narra, em primeiro lugar, a morte de Judas de
uma forma diferente da do autor dos Atos (A 1, 18-19).
Mateus recolhe as tradições populares para mostrar que se
cumpriram as Escrituras. O plano de Deus realiza-se mesmo
através de atos abomináveis. Judas morre proclamando
a inocência de Jesus. O seu suicídio apresenta-se como
esboço de um ato de fé que se não abre à esperança.
O processo gira em torno do título do “Rei dos Judeus”.
Mateus tem aqui duas tradições próprias a interven-
ção da mulher de Pilatos e o grito dos judeus “caia Seu
sangue sobre nós e sobre os nossos filhos!” Contra todos
os que se iludem ao enfrentar-se com uma opção religiosa
(reconhecer a Cristo ou pedir a Sua morte como blasfemo),
o povo tem, pelo menos, a coragem de assumir a sua
Mt.92 1ª edição - versão 2015
própria responsabilidade e escolher, em função do que crê
ser a sua fidelidade à Aliança.
c) Crucifixão do Rei dos Judeus, Filho de Deus (27, 27-
44)
Jesus é, logo desde o principio, ultrajado: e Mateus é o
único que menciona um cetro irrisório nas mãos desse rei
esbofeteado (v. 29). Também é o único a referir entre as
diversas zombarias que lhe dirigem, a seguinte “pôs a Sua
confiança em Deus; que Deus O salve..., porque Ele disse:
Sou Filho de Deus!” (v. 43). Com esta citação do Salmo
22, 9. Jesus apresenta-se como Aquele que dá o sentido
profundo à esperança dos justos perseguidos: também eles
são filhos de Deus.
6.11.6. A Páscoa do filho de Deus (27, 45-28, 15)
A morte e ressurreição de Jesus são, para Mateus, os
dois aspectos de uma só teofania, de uma só manifestação
de Deus.
a) A morte de Filho de Deus (26, 45-56):
Aqui, como em Marcos, Jesus morre dando um grande
grito (v. 46.50), proclamando o Seu sofrimento com o
Salmo 22. Neste momento, o véu do Templo rasga-se,
manifestando que a Antiga Aliança tinha acabado e que
o verdadeiro santuário da presença de Deus passa a ser o
corpo de Jesus. Há aqui um sismo, o sinal dado por Jesus
sobre a vinda do Filho Homem, diante deste sismo, os
guardas exclamam: “Era o filho de Deus!” Esta exclamação,
impossível antes da Páscoa, exprime a é cristã no que ela
tem de mais paradoxal: é a esse Ser supliciado a quem nos
proclamamos Filho de Deus.
Mateus manifesta o alcance cósmico desta morte duma
forma nova: o sismo abre os túmulos, alguns santos
ressuscitam e esperam a ressurreição de Jesus para entrar
com Ele na Cidade Santa. No seu estilo apocaliptico
diz-nos, o acontecimento pascal e o fim dos tempos e os
1ª edição - versão 2015
Mt.93
santos podem, finalmente, entrar com o Ressuscitado na
Jerusalém celeste, o Reino de Deus.
b) A sepultura de Jesus (27, 57-66):
Entre as duas teofanias, a paz do sepulcro dá-nos um
pouco de tempo para a contemplação, da qual as mulheres
são aqui o símbolo.
Mateus acrescentou o epidódio dos guardas no
sepulcro. Os três textos (27, 62-66; 28, 1-4 e 28, 11-15)
formam um conjunto muito paralelo com o evangelho de
Pedro, apócrifo. Havia, sem dúvida, uma tradição, de tipo
apologético, que tendia a demonstrar que a ressureição
não pode ser uma superstição. Mateus, ao recolhê-la,
modifica-a para fazer dela uma teofania.
c) A ressurreição de Jesus (28, 11-15):
E outra vez o sismo que abre o sepulcro. Um versículo,
de estilo apocalíptico, faz pressentir o alcance cósmico
do acontecimento, a ressureição é a vitória final de Deus
sobre a morte: os seus inimigos caem “como mortos”: o
aspecto do Anjo do Senhor (isto é, o mesmo Deus) é o do
relâmpago, esse mesmo relâmpago que Jesus dava como
símbolo da vinda do Filho do Homem (24, 27). E Deus
revela às mulheres o acontecimento: “Jesus, o crucificado,
ressuscitou... Irá diante de vós para a Galileia: ali O
vereis”.
7. Conclusão
Voltando agora àquele texto que líamos ao princípio
talvez compreendamos melhor que esse envio dos
discípulos em missão pelo mundo é o da comunidadade
cristã ao longo de toda a história, e é também a nossa.
Esta comunidade de Mateus, parece-nos muito próxima
da nossa. Carregada com dois mil anos de tradição, ela
é uma comunidade reunida em torno do seu Senhor,
Mt.94 1ª edição - versão 2015
proclamado e servido na liturgia. Recebeu d’Ele um
ensinamento que ela se esforça por compreender, isto é,
por descobrir todas as suas implicações para dele viver e
cumprir assim toda a justiça. É constantemente tentada a
fechar-se sobre si mesma, mas ela sente-se como uma “Igreja
para o mundo”, em marcha para a Galileia dos pagãos. Não
é o Reino, mas sabe que é o sinal desse Reino no mundo,
o lugar onde o Filho do Homem tem de poder exercer em
plenitude o Seu Senhorio para, desde ali, irradiar e chegar
a todos os homens. Tem que viver na vigilância, porque na
espera prolongada corre o risco de esfriar no seu zelo. Tem
que ser uma comunidade de discipulos, isto é, de pessoas
que seguem a Cristo e vivem em conformidade com o seu
Mestre, no serviço mútuo sabendo que os únicos sinais que
nos deixou são, com o amor, a misericórdia e o perdão.
Só, e por vezes desamparada sente-se no alto mar como
um frágil barco rodeada de água por todas as partes,
constantemente ameaçada pelo sismo das forças do mal.
Mas sabe que, se persevera na fé e na oração. esse ‘sismo’
é também o que manifesta a vitória de Deus sobre a morte.
E a sua última segurança e que, em Jesus, Deus tornou-
se definitivamente, EMANUEL: DEUS CONOSCO.
1ª edição - versão 2015
Mt.95
Tema Bíblico
A Fecundidade da Palavra
► Introdução ao tema na Palavra de Deus:
“E ajuntou-se muita gente ao pé dele, de sorte que,
entrando num barco, se assentou; e toda a multidão
estava em pé na praia. E falou-lhe de muitas coisas por
“Há diferença parábolas, dizendo: ‘Eis que o semeador saiu a semear.
entre a habitação
dos que pro-
E, quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do
duzem cem vezes caminho, e vieram as aves, e comeram-na. E outra parte
e dos que pro- caiu entre pedras, onde não havia terra suficiente, e logo
duzem sessenta
vezes e os que nasceu, porque não tinha terra funda. Mas, vindo o sol,
produzem trinta queimou-se, e secou-se, porque não tinha raiz. E outra caiu
vezes, pois os
primeiros serão entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na.
levados aos céus, E outra caiu em boa terra, e deu fruto: um a cem, outro a
os segundos irão
morar no paraíso
sessenta e outro a trinta. Quem tem ouvidos para ouvir,
e os últimos irão ouça.’Escutai vós, pois, a parábola do semeador. Ouvindo
habitar a cidade,
e foi neste sentido
alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o
que o Senhor maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração; este
afirmou que:Na é o que foi semeado ao pé do caminho. O que foi semeado
casa de meu
Pai há muitas entre pedras, é o que ouve a palavra, e logo a recebe com
moradas.” alegria. Mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca
-Santo Irineu de
Lião duração, e, chegada a angústia e a perseguição, por causa
da palavra, logo se ofendem. E o que foi semeado entre
espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste
mundo, e a sedução das riquezas sufocam a palavra, e fica
infrutífera. Mas, o que foi semeado em boa terra é o que
Mt 13, 1-9.18-23
ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem,
outro sessenta, e outro trinta.”
Fecundidade, característica ou estado do que é fecundo
e fértil. Que produz em excesso, produtividade ou
fertilidade.
Mt.96 1ª edição - versão 2015
A maior parte dos acadêmicos acredita que a parábola
tinha um tom otimista originalmente, no sentido de que
a “semente” eventualmente sucederá, enraizando-se e
produzindo uma grande colheita.
Jesus afirma estar ensinando em parábolas por que
ele não quer que todos o compreendam, apenas os que o
seguem. Por isso, um ouvinte já deve estar comprometido
a seguir Jesus para compreender completamente a
mensagem e sem esse compromisso, não a compreenderá.
E se alguém não compreende completamente a parábola, é
um sinal de que não é um discípulo de fato. Jesus cita Isaías
que também pregou em Israel, sabendo que esta passagem
passaria despercebida (ou não compreendida) de modo
que os pecados dos israelitas não seriam perdoados e eles
seriam punidos por Deus por eles. Existe um debate sobre
o seu significado original desejado por Jesus. A explicação
completa do significado da parábola reafirma que haverá
dificuldades para a mensagem de Jesus se fixar, talvez
frente a alguma perseguição. Esta parábola é essencial
para a compreensão de todas as demais parábolas de Jesus,
pois ela deixa claro que o que é necessário para entender
Jesus é a fé anterior em sua mensagem e que Ele não irá
tentar iluminar os que se recusam a acreditar e irá apenas
confundí-los.
1ª edição - versão 2015
Mt.97
► Exemplos no Antigo Testamento:
Esta passagem de Isaías vem nos mostrar como o Senhor
cuida dos que Ele ama. O Senhor prepara com cuidado um
canteiro fértil, cerca, retira as pedras e planta; edifica uma
torre de proteção, constrói um lagar e aguarda o resultado.
“Eu quero cantar para o meu amigo seu canto de amor
a respeito de sua vinha: meu amigo possuía uma
vinha num outeiro fértil. Ele a cavou e tirou dela as
pedras; plantou-a de cepas escolhidas. Edificou-lhe
uma torre no meio, e construiu aí um lagar. E contava
com uma colheita de uvas, mas ela só produziu
uvas azedas. E agora, habitantes de Jerusalém, e
vós, homens de Judá, sede juízes entre mim e minha
vinha. Que se poderia fazer por minha vinha, que eu
não tenha feito? Por que, quando eu esperava vê-la
produzir uvas, só deu uvas azedas? A vinha do Senhor
Is 5, 1-4.7a
dos exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá
são a planta de sua predileção.”
► Exemplos no Novo Testamento:
1 Ts 5, 19
“Não extingais o Espírito.”
“Como podemos nós “extinguir” o Espírito, sufocando-O?
Esta expressão conduz-nos ao evangelho no qual Jesus explica a
parábola. Quando evoca particularmente a terceira terra invadida
por espinhos. O que sufoca o Espírito Santo é finalmente a falta
de espaço aberto e de liberdade interiores. O nosso ser, como a
nossa vida cotidiana, está carregada de ocupações, de coisas que
invadem o espaço, roubam nossa atenção, mesmo que nem sempre
sejam coisas más em si mesmas. As riquezas deste mundo, mesmo
se não são más, podem sufocar o Espírito de Deus em nós.”11
11 Diácono Georges Henri Bonneval, in Fracassos
Atravessados,Vidas fecundadas: seguindo Paulo de Tarso,
pg.175
Mt.98 1ª edição - versão 2015
Muitas vezes nossa falta de fecundidade está nesta falta
de atenção às coisas celestes e aos bens que não passam
e buscamos e encontramos o nada sempre. Por isso, nos
perguntamos sempre o motivo e o sentido de viver, pois
nos falta este “aspirai as coisas do alto.”
“Fica-nos muito claro: a vigilância deverá ser praticada
em todas as etapas da caminhada. A vocação é como uma
sementinha, semeada por Deus no coração daquele que Ele
escolheu. A parábola evidencia outros pontos, a respeito dos
quais o consagrado deverá mostrar-se particularmente vigilante:
as preocupações com a saúde, com a família ou com o futuro,
que ameaçam transformar-se em inquietude e até em angústia,
impedindo a vocação de desnvolver-se na paz. As riquezas e os
bens terrrenos podem, de igual modo, bloqueá-la. Regularmente,
os prazeres da vida vem assaltar a partir do exterior, o coração
de quem a eles já renunciou. A todas essas armadilhas é preciso
dizer não. Dessa forma, as almas consagradas, que vivem no
meio do mundo, devem destacar-se, sem escandalizar os que a
cercam, testemunhando com isso, o amor exclusivo que dedicam
a Jesus, o Bem-Amado de suas vidas.”12
► Como a Igreja vive e o que ensina:
“Através do anúncio do Evangelho, os sacerdotes geram a fé
naqueles que ainda não crêem, para que possam unir ao sacrifício
de Cristo o seu próprio sacrifício, que se traduz em amor a Deus
e ao próximo. O amor ao próximo, a atenção à justiça e aos pobres
não são temas apenas relativos à moral social, mas expressam
uma concepção sacramental da moral cristã, porque, através do
ministério dos presbíteros, realiza-se o sacrifício espiritual de
todos os fiéis, em união com o de Cristo”.13
Cf. 1 Co 3, 9
“A Igreja é a lavoura ou campo de Deus.” Nesse campo
cresce a oliveira antiga, cuja raiz santa foram os Patriarcas e em
12 Pe. Jacques Marin, in Faz a Alegria de Jesus, edição
SDV nº 1, pg. 169-170
13 Papa Bento XVI, in Audiência Geral na Praça de São
Pedro, quarta feira, 1 de julho de 2009.
1ª edição - versão 2015
Mt.99
que foi feita e se fará a reconciliação dos judeus e dos gentios. Ela
foi plantada pelo celeste Viticultor como vinha eleita.
Cristo é a verdadeira Videira, que dá vida e fecundidade aos
ramos, que dizer, a nós, que pela Igreja permanecemos nele, sem
o qual nada podermos fazer. Sendo Cristo enviado pelo Pai a
fonte e a origem de todo apostolado da Igreja”, é evidente que
a fecundidade do apostolado, tanto o dos ministros ordenados
como o dos leigos, depende de sua união vital com Cristo. De
acordo com as vocações, os apelos da época e os dons variados
do Espírito Santo, o apostolado assume as formas mais diversas.
Mas é sempre a caridade, haurida sobretudo na Eucaristia, “que
e como que a alma de todo apostolado”. Jesus diz: “Eu sou a
videira, e vós, os ramos. Aquele que permanece em mim e
Jo 15,5
eu nele, produz muito fruto, porque, sem mim, nada podeis
fazer.”
O fruto indicado nesta palavra é a santidade de uma vida
fecundada pela união a Cristo. Quando cremos em Jesus Cristo,
comungamos de seus mistérios e guardamos seus mandamentos,
o Salvador mesmo vem amar em nós seu Pai e seus irmãos, nosso
Pai e nossos irmãos. Sua pessoa se toma, graças ao Espírito, a
Jo 15,12
regra viva e interior de nosso agir. “Este é o meu mandamento:
Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” 14
► Exemplos na vida dos Santos:
Ele era relojoeiro; ela rendeira: de origem burguesa,
santos por eleição. São eles: Luís Martin (1823-1894) e Zélia
Guérin (1831-1877) os pais de Teresa do Menino Jesus. É o
segundo casal de esposos depois de Luís e Maria Beltrame
Quattrocchi, beatificados em 2001 por João Paulo II que é
elevado às honras dos altares.
Ambos eram filhos de militares e foram educados num
ambiente disciplinado, severo, muito rigoroso e marcado
por um certo jansenismo ainda rastejante na França
da época. Os dois receberam uma educação de cunho
religioso: nos Irmãos das escolas cristãs, Luís; nas Irmãs
14 Catecismo da Igreja Católica, nº 755; 864 e 2074
Mt.100 1ª edição - versão 2015
da adoração perpétua, Zélia. Ao terminar os estudos, no
momento de escolher o próprio futuro, Luís orientou-se
para a aprendizagem do ofício de relojoeiro, não obstante o
exemplo do pai, conhecido oficial do exército napoleônico.
Zélia, inicialmente, ajudava a mãe na administração da loja
da família. Depois, especializou-se no “ponto de Alençon”
na escola que ensina a tecer rendas. Em poucos anos os
seus esforços foram premiados: abriu uma modesta fábrica
para a produção de rendas e obteve um discreto sucesso.
Ambos nutrem desde a adolescência o desejo de entrar
numa comunidade religiosa. Ele experimentou pedir para
ser admitido entre os cônegos regulares de Santo Agostinho
do hospício do Grande São Bernardo nos Alpes suíços,
mas não foi aceite porque não conhecia o latim. Também
ela tenta entrar nas Filhas da Caridade de São Vicente de
Paulo, mas compreende que não é a sua estrada.
Durante três anos Luís vive em Paris, hóspede de
parentes, para aperfeiçoar a sua formação de relojoeiro.
Naquele período foi submetido a muitas solicitações
por parte do ambiente parisiense impregnado de impulsos
revolucionários. Aproximou-se até de uma associação
secreta, mas afastou-se imediatamente. Insatisfeito com
o clima que se respirava na capital, transferiu-se para
Alençon, onde iniciou a sua atividade, conduzindo até
à idade de 32 anos um estilo de vida quase ascético.
Entretanto, Zélia, com a receita da sua empresa, manteve
toda a família, vendendo rendas para a alta sociedade
parisiense. O encontro entre os dois acontece em 1858 na
ponte de São Leonardo em Alençon. Ao ver Luís, Zélia
percebeu distintamente que ele seria o homem da sua vida.
Após poucos meses de noivado, casam. Conduzem
uma vida conjugal no seguimento do Evangelho, ritmada
pela missa quotidiana, pela oração pessoal e comunitária,
pela confissão frequente, pela participação na vida
paroquial. Da sua união nascem nove filhos, quatro dos
1ª edição - versão 2015
Mt.101
quais morrem prematuramente. Entre as cinco filhas que
sobreviveram, está Teresa, a futura santa, que nasceu em
1873. As recordações da carmelita sobre os seus pais são
uma fonte preciosa para compreender a sua santidade.
A família Martin educou as suas filhas a tornar-se não só
boas cristãs mas também honestas cidadãs. Aos 45 anos
Zélia recebe a terrível notícia de que tinha um tumor no
seio. Viveu a doença com firme esperança cristã até à morte
ocorrida em Agosto de 1877.
Com 54 anos, Luís teve que se ocupar sozinho da família.
A primogênita tem 17 anos e a última, Teresa, tem 4 e meio.
Então, transferiu-se para Lisieux, onde morava o irmão de
Zélia. Deste modo, as filhas receberam os cuidados da tia
Celina. Entre os anos de 1882 e 1887, Luís acompanhou as
três filhas ao carmelo. O sacrifício maior para ele foi afastar-
se de Teresa que entra para as carmelitas com apenas 15
anos. Luís foi atingido por uma enfermidade que o tornou
inválido e que o levou à perda das faculdades mentais. Foi
internado no sanatório de Caen. Morreu em Julho de 1894..
Mt.102 1ª edição - versão 2015
1ª edição - versão 2015
Mt.103
Como sou chamado a viver a Palavra de Deus?
Sementes da Palavra Resolução
As virtudes necessárias A felicidade proposta por Jesus não
para a felicidade eterna; Mt 5, 1-12
é imediata e eufórica como o mundo
(pobreza, mansidão, paz, nos ensina mas, é preciso viver aqui
misericórdia, pureza e em vista da Vida eterna;
justiça);
Com esta parábola o Senhor vem
nos ensinar que Ele não olha tanto
Acreditar nos pequenos Mt 13,
31-33 para a quantidade das nossa ações
dons;
mas sim, para o quanto de amor e fé
nós colocamos nelas;
Realizar a vontade de Quando o Senhor nos pede de
Jesus sem questionar; Mt 14,
realizar algo, muitas vezes queremos
22-33 já saber o motivo e a razão de tal
missão ou até memso algo ruim, mas
o que Ele quer é provar nossa fé e
saber se realmente o obedecemos;
Índice
1. Introdução.............................................................................05
[Link] Evangelhos Sinóticos..................................................................08
1.2. O Evangelista: Quem foi Mateus ?................................................10
1.3. Mateus e a “Teologia da Perfeição”...............................................12
2. Contexto Histórico.................................................................13
2.1. As Guerras Romano Judaicas.........................................................15
3. Mateus, uma narrativa enraizada na história...................16
3.1. O Emanuel, tema central do evangelho........................................18
3.2. Marcos, o modelo literário..............................................................19
4. Cristo Mestre segundo Mateus............................................20
4.1. O discípulo e o ensino de Jesus terrestre.....................................23
4.2. Jesus, o cumprimento da lei (Mt 5, 17-20)....................................25
4.2.1. O programa do Sermão da Montanha
4.2.2. Discussão sobre a Lei.................................................................27
4.2.3. Jesus, Mestre da Lei ...................................................................28
4.3. A Justiça segundo Mateus...............................................................29
4.4. Conteúdo e Autoridade da Lei.......................................................31
4.4.1. A validade da Lei........................................................................32
4.4.2. O mandamento do Amor ..........................................................33
5. O Amor, resumo da Lei.......................................................35
5.1. Onde está a coerência ?....................................................................37
5.2. As dificuldades que ainda permanecem
6. Lendo o Evangelho
6.1. Prólogo (Mt 1-2)................................................................................39
6.1.1. A Gênese de Jesus Cristo ( Mt 1, 1-17).....................................40
6.1.3. Os Magos em Belém ( Mt 2, 11-12)...........................................41
6.1.4. O cumprimento do Exôdo ( Mt 2, 13-15)..................................41
6.1.5. O massacre dos inocentes ( Mt 2, 16-18)...................................41
6.1.6. A vida em Nazaré ( Mt 2, 19-23)...............................................41
6.1.7. A historicidade dos relatos da infância....................................42
6.2 Jesus proclama o Reino e prepara a Igreja ( Mt 3-16)
6.2.1.O Reino de Deus chegou! (Mt 5-9)............................................ 43
6.2.2. Jesus envia seus discípulos a pregar e Ele parte a pregar o
Reino (Mt 10-12)....................................................................................43
6.2.3. A pregação do Reino obriga a uma opção (Mt 13-16)...........44
6.3. Do Antigo ao Novo Testamento ( Mt 3-4).....................................45
6.3.1. A pregação de João Batista ( Mt 3, 1-12)..................................46
6.3.2. Batismo de Jesus ( Mt 3, 13-18)..................................................47
6.3.3. Tentações de Jesus ( Mt 4, 1-11).................................................48
6.3.4. Pregação do Reino e escolha dos discípulos.......................49
6.5. As Bem Aventuranças ( Mt 5, 3-12).................................................50
6.6. Por que Jesus exige tanto ?..............................................................52
[Link] à providência............................................................53
6.6.2. A vida de um verdadeiro discípulo.........................................54
6.7. Jesus poderoso em ações: Dez Milagres ( Mt 8-9)........................55
6.7.1. Jesus, o “servo sofredor” que nos salva (Mt 8, 1-17)..............55
6.7.2. Jesus convida a segui-lo ( Mt 8, 18-9, 13).................................59
6.8. Jesus parte a evangelizar (Mt 11-12)..............................................60
6.8.1. João e a sabedoria manifestada pelas suas obras ( Mt 11, 2-19)
................................................................................................................61
6.8.2. As maldições sobre as cidades do Lago ( Mt 11, 20-24).........62
6.8.3. Os fariseus: “sábios” que recusam ( Mt 12, 1-14)....................63
6.8.4. Jesus, Servo de Deus, não apaga a mecha que ainda
fumega...................................................................................................63
6.8.5. Esta geração má torna-se ainda pior ( Mt 12, 24-35)..............64
6.9. Ouvir e Compreender ( Mt 13-15)..................................................65
6.9.1. A multidão e os discípulos ( Mt 13, 1-24)................................65
6.9.2. O Reino do Pai e do Filho ( Mt 13, 24-52).................................66
6.9.3. Explicação da Parábola do Joio.................................................66
6.9.4. A mostarda e a levedura: O Reino de Deus vencerá..............67
6.9.5. O tesouro e a pérola preciosa: Arriscar tudo pela alegria do
Reino......................................................................................................67
6.9.6. Os discípulos convertidos em escribas ( Mt 13, 51-52)..........68
6.9.7. O relato do caminhar sobre as águas ( Mt 14, 22-23)..............68
6.9.8. A fé da mulhar pagã ( Mt 15, 21-28)..........................................69
6.10. A Comunidade confessa o seu Senhor ( Mt 16-22)....................70
6.10.1. Pedro, rocha da Igreja, proclama o Filho de Deus ( Mt 16, 1-2
0).............................................................................................................70
6.10.2. Jesus anuncia a Sua Paixão: Pedro tenta O seguir ( Mt 16, 21-
28)...........................................................................................................72
6.10.3. A Transfiguração de Jesus ( Mt 17, 1-8).................................73
6.10.4. A cura do menino epiléptico ( Mt 17, 14-21).........................73
6.10.5. O imposto pago por Jesus e por Pedro ( Mt 17, 24-27)........73
6.10.6. O discurso sobre a vida da comunidade...............................74
6.10.7. Uma comunidade confiada aos pastores ( Mt 18, 1-20).......74
6.10.8. Perdoar porque nos perdoaram ( Mt 18, 21-35).....................77
6.10.9. A recepção do Filho de Davi em Jerusalém ( Mt 21-22)........81
6.11. Um grito de amor defraudado ( Mt 23)........................................83
6.11.1. A inauguração do Reino no Mistério Pascal ( Mt 23-28)......84
6.11.2. O Anúncio da Vinda definitiva do Reino em Jesus ( Mt 24-
25)...........................................................................................................85
6.11.3. O mistério pascal inaugura o Reino ( Mt 26-28).....................88
6.11.4. Chega a Páscoa e o Filho do Homem é entregue ( Mt 26, 6-
56)...........................................................................................................89
6.11.5. O Filho do Homem é entregue para ser crucificado ( Mt 26,
57-27, 44)................................................................................................91
6.11.6. A Páscoa do filho de Deus (27, 45-28, 15)...............................93
7. Conclusão.............................................................................94
Tema bíblico.............................................................................96