TCC Mindulness
TCC Mindulness
SÃO PAULO
2023
CYBELLE MARIA XIMENES PINHEIRO – RA: F06JAH-3 – PS9A13
DORA CAROLINE TENÓRIO CARVALHO – RA: D87FHA-6 – PS0A13
KATHLEEN PEREIRA PAULINO DA SILVA – RA: D938HD-9 – PS0A13
OLIVER CAMPOS MOREIRA – RA: D8921G-6 – PS0A13
SÃO PAULO
2023
RESUMO
1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................5
1.1 Apresentação do tema ...............................................................................................5
1.4 Hipóteses..................................................................................................................11
2 MÉTODO................................................................................................................12
2.1 Participantes.............................................................................................................13
3 RESULTADOS .......................................................................................................15
4 DISCUSSÃO ...........................................................................................................16
5 CONCLUSÃO ........................................................................................................25
REFERÊNCIAS.............................................................................................................27
APÊNDICE A – ROTEIRO DE PERGUNTAS PARA ENTREVISTA ..................30
ANEXO I – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ..........32
5
1 INTRODUÇÃO
1.1 Apresentação do tema
Mindfulness é uma técnica situada num ponto de encontro dentre diversas
intervenções clínicas que busca capacitar o indivíduo a praticar a atenção plena para
observar suas experiências no presente, percebendo o que está ocorrendo em seu corpo,
se abdicando dos julgamentos que podem surgir na consciência e buscando o
reconhecimento dos acontecimentos (BECK, 2022).
Há evidências de que a utilização da técnica Mindfulness afeta o nível
psicofisiológico dos clientes, resultando em mudanças significativas com maior agilidade
no tratamento da ansiedade e depressão, ajudando na melhora dos sintomas. Se o
indivíduo for capaz de alterar sua relação com os próprios pensamentos, conseguirá
alterações nos padrões de comportamentos disfuncionais, isto porque a Mindfulness
pressupõe que o pensamento e a percepção atuam em relação à emoção e ao
comportamento. Na atualidade, a técnica tem recebido atenção na área da saúde e vem
sendo investigada por diferentes ciências acerca de seu potencial terapêutico (SILVEIRA
et al., 2021).
Tanto a ansiedade quanto a depressão são os quadros de transtornos mentais mais
frequentes na população, a ansiedade prevalece em cerca de 4,8% da população, já a
depressão possui a prevalência de 3,15% (SANTOMAURO et al., 2021).
Em termos gerais, a ansiedade é uma condição na qual os indivíduos maximizam
o perigo relacionado à determinadas situações, pelo erro em relação ao entendimento das
informações ao lidar com ameaças; já a depressão possui diversas características, sendo
as mais frequentes a tristeza, o nervosismo, choro frequente e pensamentos disfuncionais.
Considerando todos os pontos levantados, é de extrema importância investigar o
uso da técnica Mindfulness para tratamento da ansiedade e da depressão, dado que ela já
vem apresentando resultados promissores (SILVEIRA et al., 2021; BECK, 2022). O
presente trabalho irá abordar os seguintes aspectos: a técnica Mindfulness e sua aplicação
para o tratamento da ansiedade e da depressão pela abordagem teórica da Terapia
Cognitivo-Comportamental e como os psicólogos utilizam a técnica visando a melhora
da saúde mental dos clientes.
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1.2 Revisão de literatura
Segundo Santomauro et al. (2021), a depressão tem uma prevalência no mundo
de 3.152 casos a cada 100.000 pessoas, enquanto a ansiedade atinge 4.802 a cada 100.000,
números que demonstram a importância de tratamentos voltados a estas psicopatologias.
Deste modo, os transtornos de ansiedade e depressão são muito recorrentes na atualidade,
razão pela qual demandam formas de tratamento que sejam eficazes e céleres (MORENO;
CARVALHO, 2014).
Dentre os transtornos psicológicos, os de ansiedade são os mais comuns,
apresentando prevalência de 4,8% nesta população, sendo os mais frequentes, inclusive,
na infância e adolescência, estando muitas vezes associados. Geralmente, ambos os
transtornos têm início na infância e seus sintomas podem se fazer presentes na vida inteira
se não forem devidamente tratados (FORTES et al., 2019).
A ansiedade está atrelada ao medo do futuro e está associada a danos à saúde, tais
como, diarreia, falta de ar, taquicardia, aumento da pressão arterial, dentre outros, ou seja,
sintomas tanto físicos como psicológicos; enquanto a depressão está associada à tristeza,
sensação de culpa ou desvalor, perda de prazer ou interesse em atividades, dentre outros
sintomas (GUIMARÃES et al., 2021). O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos
Mentais, em sua quinta edição (DSM-5-TR) (APA, 2023), descreve como características
comuns aos transtornos depressivos a presença de humor triste, vazio ou irritável,
acompanhado de alterações somáticas e cognitivas que afetam significativamente a
capacidade de funcionamento do indivíduo. Em relação aos transtornos de ansiedade, são
descritos como antecipação de ameaça futura, sobreposta ao medo, que provoca períodos
de excitabilidade autonômica aumentada (taquicardia, tremores, palidez), pensamentos
de perigo imediato e comportamentos de fuga.
Também é importante destacar que há vários quadros de ansiedade e depressão.
O DSM-5-TR (APA, 2023) lista, dentre outros tipos de depressão, a depressão tipo
melancólica ou endógena, a depressão unipolar ou depressão bipolar e a depressão mista.
Em relação à ansiedade, é feita a subdivisão entre o Transtorno de Ansiedade
Generalizada (TAG), os sintomas de ataques de pânico, transtorno do pânico, entre
outros.
Segundo Oliveira (2019), o tratamento dos transtornos de ansiedade e depressão
poderá demandar atendimento psicológico e psiquiátrico, conforme a gravidade dos
sintomas verificados em cada cliente. No campo da psicologia, uma das abordagens
7
teóricas mais estudadas e aplicadas para o tratamento destes tipos de transtorno é a
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).
Reyes e Fermann (2017) apontam que a pesquisa e a prática clínica demonstram
que a TCC é efetiva na redução de sintomas e taxas de recorrência em uma ampla
variedade de transtornos psiquiátricos, dentre os quais se destacam a ansiedade e a
depressão.
Desenvolvida por Aaron Beck no início dos anos 1960, a TCC possui alta eficácia
para tratamento de diversos transtornos psiquiátricos, como a depressão e a ansiedade,
sendo a abordagem com maior embasamento empírico (AGOSTINHO et al., 2018).
Comumente, estes transtornos são tratados pelo uso de medicamentos associados à terapia
com profissionais da saúde mental, dentre estes, se destacam o psicólogo, o psiquiatra e
os terapeutas ocupacionais. Através dos estudos feitos por Aaron Beck e A. John Rush, a
TCC tomou novo rumo. Foi realizado um estudo clínico controlado e randomizado no
qual o grupo (controle) de clientes com depressão fazia uso de um medicamento da classe
dos antidepressivos (imipramina), e foi comparado ao grupo (experimental) que utilizou
apenas a psicoterapia. O resultado obtido foi que, pela primeira vez, a terapia pela fala
estava equiparada aos efeitos trazidos pelo uso do medicamento (BECK, 2022).
A TCC, enquanto Terapia Comportamental, foi desenvolvida pelo psicólogo
Albert Bandura, na década de 1960. Bandura criou a Teoria de Aprendizagem Social, que
além de considerar o condicionamento clássico e operante e a aprendizagem por
observação, enfatizava como fundamental para o entendimento do desenvolvimento e do
tratamento dos transtornos psicológicos, a função dos processos cognitivos. Durante esta
mesma década, Aaron Beck e outro teórico importante, Albert Ellis, queriam entender
como os pensamentos negativos ou sem lógica estariam associados às dificuldades
psicológicas, no caso da depressão e da ansiedade. Com isso, a Terapia Cognitiva,
proposta por Aaron Beck e Albert Ellis, começou a exercer influência sobre a Terapia
Comportamental, combinando técnicas das duas abordagens teóricas, tendo como
destaque os princípios cognitivos e a aprendizagem social. Sendo assim, a TCC é marcada
pela análise dos processos cognitivos tanto para a compressão quanto para o tratamento
dos problemas apresentados pelos clientes, utilizando-se de uma forte aliança terapêutica
para eficácia nos tratamentos dos transtornos de ansiedade e depressão (SANTOS et al.,
2015).
Segundo Moreno e Carvalho (2014), a TCC considera o modelo cognitivo, no qual
as emoções e os comportamentos são influenciados pela forma como o sujeito estrutura
8
seu mundo. Santos et al. (2015) definem que cognições mal adaptativas influenciam
diretamente o sofrimento emocional. Portanto, ao modificar essas cognições, o
sofrimento emocional e os comportamentos disfuncionais diminuem.
As características centrais da TCC derivam da Terapia Comportamental, são elas:
o rigor acadêmico-científico; o sujeito ser ativo no processo; ser focada no momento
presente; focada na aprendizagem; ser individual; progressiva, no sentido de se mover
primeiro às atividades mais simples e, depois, às mais complexas e, por fim, há a
característica de que ela é breve. A duração varia de acordo com o nível de complexidade
e dificuldade apresentadas em cada caso (SANTOS et al., 2015).
Segundo Beck (2022), a TCC é variada e ampla no atendimento às pessoas,
podendo ser adaptada aos clientes que apresentam diferentes níveis socioeducacionais,
assim como é aplicada a diversas culturas e idades, desde crianças até idosos. Pode ser
utilizada também no contexto educacional, da saúde, carcerário, dentre outros; abrange
também os formatos de intervenção individual, em grupo, casal e familiar.
As técnicas tradicionais encontradas na TCC podem ser escolhidas para os
tratamentos seguindo a ordem pelo qual o objetivo central da demanda é apresentado pelo
cliente. As técnicas têm como objetivo influenciar os aspectos dirigidos diretamente ao
pensamento, ao comportamento, ao humor e a estimulação fisiológica do cliente, para que
possam ser modificadas as suas crenças centrais. Tais crenças são as ideias mais concretas
que o indivíduo tem sobre si; são desenvolvidas desde a infância, são inflexíveis, rígidas
e não consideram diversas variáveis ambientais que podem descontruir estas crenças,
sendo tomadas pelo indivíduo como verdade absoluta (BECK, 2022). Daí a importância
do psicólogo no processo terapêutico para investigar e auxiliar o paciente nas descobertas
dessas crenças, fazendo-o perceber como funciona e quais recursos ele tem que podem
ser mais adaptativos e flexíveis a cada caso.
Para o tratamento dos transtornos de ansiedade e depressão, as técnicas
tradicionais da TCC podem ser aplicadas na psicoterapia, de acordo com: o vínculo
estabelecido entre o cliente e o psicólogo, o nível de gravidade da queixa e com a análise
de cada caso. Para o tratamento de ansiedade e depressão, as técnicas tradicionais
transitam entre: solução de problemas, tomada de decisão, refocalização, relaxamento,
cartões de enfrentamento, prescrição gradual de tarefas, exposição, autocomparaçōes,
lista de méritos dentre outros (BECK, 2022).
Com o avanço nos estudos da TCC foi possível desenvolver técnicas alternativas
de tratamento para as pessoas que sofrem de ansiedade e depressão. Estas técnicas
9
ganharam destaque por serem utilizadas de forma complementar, podendo também ser
utilizadas juntamente com as técnicas tradicionais, tais como: a psicoeducação, o registro
de pensamentos disfuncionais, o questionamento socrático, as técnicas de exposição,
dessensibilização sistemática, técnicas de habilidades sociais dentre outros (HOFMANN,
2018). As técnicas alternativas têm como proposta uma ampliação aos tratamentos já
conhecidos, sendo uma nova forma de tratar os sintomas apresentados pelos clientes.
Desse modo, a meditação Mindfulness ganhou destaque dentro das técnicas, sendo
amplamente utilizada pelos psicólogos na atualidade (GUIMARÃES et al., 2021).
Estudos mostram que a prática da Mindfulness auxilia em mudanças nas redes neurais de
atenção, modifica os padrões de atividade elétrica espontânea, melhora o desempenho de
funções executivas (MÉDICI, 2022), assim como auxilia na redução da depressão e
ansiedade, provoca melhora nos relacionamentos interpessoais e melhora a satisfação do
viver dentre outros (MARQUES, 2016).
Neste sentido, psicólogos que adotam a TCC podem utilizar a Mindfulness como
proposta terapêutica de intervenção que consiste em uma técnica que tem como principal
objetivo ensinar na prática, a capacidade de concentração no momento presente. A
palavra Mindfulness pode ser entendida como atenção plena e sua origem advém das
práticas de meditação. Esta prática tem sido pesquisada há mais de 30 anos, tanto na área
da medicina como na área da psicologia, com a finalidade de investigar sua eficácia e
resultados nos tratamentos (VANDENBERGHE; VALADÃO, 2013). O papel principal
da técnica é de desenvolver habilidades que possam reduzir os impactos dos conflitos do
dia a dia. Para obtenção destes benefícios, a prática deve ser realizada com regularidade
(PINHO, 2020).
A meditação consiste em focar a mente em um único objeto, na própria respiração
ou também em alguma palavra. Quando é iniciada, o principal objetivo é manter-se
concentrado, com a atenção dirigida à prática da meditação que pode ser silenciosa ou
guiada. Já na Mindfulness esse processo é entendido como uma prática formal, ou seja,
separar um momento específico para sua realização (PINHO, 2020).
A principal linha de estudo foi desenvolvida por Kabat-Zinn, no Centro de
Mindfulness da Universidade de Massachusetts no ano de 1979, com o objetivo principal
de desenvolver um método para diminuição do sofrimento gerado pelo estresse e dor, sem
necessariamente envolver cunhos religiosos, culturais e ideológicos. Os resultados
obtidos ao longo dos anos de pesquisa constataram a sua eficácia no tratamento de
condições de saúde física e mental (GUIMARÃES et al., 2021).
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Deste modo, o uso de novas práticas na área psicológica, com o surgimento de
novos modelos teóricos, que podem ter baixo custo para os clientes e profissionais, têm
se mostrado um caminho precursor no trabalho da aceitação de emoções e vivências dos
clientes. A junção entre a Mindfulness e a TCC busca um novo enfoque para o tratamento
das crenças e emoções dos clientes. Anteriormente, o olhar para as queixas era voltado
exclusivamente para a modificação dos conteúdos, visando combater os sentimentos
negativos, os quais são interpretados como causa do sofrimento. Com a junção de ambas
as técnicas, tem-se um novo olhar: a intenção de transformar a perspectiva do cliente a
respeito de suas crenças e emoções, considerando todo o contexto e a realidade subjetiva.
Desta maneira, com a evolução nas abordagens da TCC, tem-se a introdução de uma
técnica até então desconhecida, visando validar as experiências internas dolorosas como
aspectos naturais da condição humana (VANDENBERGHE; VALADÃO, 2013).
Com base nestes pressupostos teóricos, questiona-se: quais os efeitos da aplicação
da técnica Mindfulness segundo os psicólogos da abordagem da terapia cognitivo-
comportamental para o tratamento dos transtornos de ansiedade e depressão?
1.3 Objetivos
1.3.1 Objetivo geral
Investigar os efeitos da aplicação da técnica Mindfulness pela terapia cognitivo-
comportamental no tratamento dos transtornos de ansiedade e depressão, com base na
perspectiva de profissionais psicólogos.
1.5 Justificativa
Os transtornos de ansiedade e depressão são os quadros mais frequentes na
população, sendo que a ansiedade atinge cerca de 4,8% da população, enquanto a
depressão em torno de 3,15% (SANTOMAURO et al., 2021). Deste modo, estudos
voltados para o tratamento dos sintomas relacionados a estas psicopatologias são
relevantes, já que tais transtornos podem produzir diferentes níveis de sofrimento
psíquico. Nos últimos anos, tem-se observado uma preocupação das ciências da saúde em
desenvolver tratamentos mais eficazes para estes transtornos, sendo o uso de técnicas
como a Mindfulness, um recurso que tem conquistado interesse entre pesquisadores, pois
tem demonstrado redução significativa de sintomas atrelados à ansiedade e à depressão,
com efeitos benéficos e duradouros (GUIMARÃES et al., 2021; PINHO, 2020).
A ferramenta se coloca como um recurso acessível, na medida em que não
demanda nenhum tipo de equipamento, estrutura física ou material, podendo ser praticada
basicamente em qualquer lugar onde se encontre o praticante, desde que previamente
instruído de forma adequada (PINHO, 2020). Por ter estas características, a Mindfulness
se tornou um tratamento acessível a pessoas de todas as classes sociais, inclusive as de
baixa renda, tendo em vista que o praticante, onde quer que esteja, pode amenizar seus
sintomas de ansiedade e depressão ao entrar em contato com o que a técnica propõe. O
baixo custo atrelado ao seu ensino e aplicação é um incentivo, para que seja instalada nos
serviços públicos de saúde, por exemplo, o Sistema Único de Saúde (SUS),
principalmente nos equipamentos de saúde mental e os Centros de Atenção Psicossocial
(CAPS). Sendo a Mindfulness uma Prática Integrativa Complementar (PIC) ela poderá
auxiliar os indivíduos de forma integral, vendo-os por uma perspectiva biopsicossocial,
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enfatizando o momento presente no qual o cliente se encontra, evitando vê-lo apenas pelo
binômio saúde-doença.
Do ponto de vista institucional, a relevância da presente pesquisa se encontra na
ampliação e consolidação do arsenal de técnicas disponíveis para utilização pelos
profissionais da saúde, tais como terapeutas ocupacionais, médicos, fisioterapeutas e
principalmente pelos psicólogos dentro dos diversos contextos de atuação, inclusive para
desenvolver técnicas alternativas que vão além das técnicas tradicionais de intervenção,
tais como a psicoterapia individual e mudanças no estilo de vida para o efetivo tratamento
da ansiedade e da depressão. Além disso, o estudo da Mindfulness tem relevância pelo
potencial de ser aplicada no tratamento de outras queixas psicológicas e, também, para
desenvolver as habilidades socioemocionais de bem-estar, a autoconsciência e para
reduzir o afeto negativo (ARAÚJO et al., 2020).
Em relação à contribuição para a produção do conhecimento científico, o avanço
na produção de pesquisas relacionadas ao Mindfulness vem enriquecendo a conceituação
científica do constructo da atenção, desvelando o papel que ela desempenha tanto no
tratamento como na formação de transtornos psicológicos. Desse modo, a TCC, por
avaliar os pensamentos e as emoções com foco no comportamento, se torna a forma mais
eficaz de tratamento para ansiedade e depressão, garantindo através dos resultados
obtidos pelos estudos científicos, a diminuição ou até mesmo a completa ausência dos
sintomas destas psicopatologias (SIQUEIRA, 2021).
A incorporação da Mindfulness à ciência e a disseminação de técnicas da TCC
incentivam o surgimento de diversas modalidades de intervenções baseadas na técnica,
conhecidas como Mindfulness-Based Interventions – MBIs (CRESWELL, 2017), as quais
têm contribuído muito para a ciência, na medida em que têm ajudado a desenvolver a
pesquisa em diversas questões biopsicossociais, incluindo depressão, ansiedade, estresse,
insônia, vícios, psicose, dor, hipertensão, controle de peso e sintomas relacionados ao
câncer (ZHANG et al., 2021).
2 MÉTODO
A presente pesquisa se configura qualitativa com delineamento de pesquisa de
campo. A pesquisa qualitativa responde a questões particulares, focando no universo dos
significados, aspirações e atitudes, possibilitando a coleta de dados que são apreendidos
como não quantificáveis. Segundo Minayo (2021), esses conjuntos de fenômenos
humanos são compreendidos apenas como parte da realidade, pois o ser humano pode ser
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compreendido por pensar suas interpretações sobre suas ações e intencionalidades e seu
modo de agir.
Ainda segundo Minayo (2021), a pesquisa de campo, sendo o campo entendido
como um recorte espacial, visa construir uma aproximação do pesquisador com a
realidade em que as indagações são construídas, estabelecendo uma interação entre os
diferentes atores. Assim, o conhecimento empírico será construído, sendo considerado
fundamental para a pesquisa qualitativa.
2.1 Participantes
Os participantes da pesquisa foram seis psicólogos clínicos que trabalhavam em
consultório particular e utilizavam a abordagem da TCC, aplicando a técnica Mindfulness
para o tratamento de ansiedade e depressão.
Foram adotados os seguintes critérios de inclusão: os profissionais atuavam de
modo presencial tanto com a TCC como com a Mindfulness e eram profissionais
autônomos, sem vínculo institucional. Além disso, utilizavam a técnica Mindfulness para
o tratamento de ansiedade ou depressão ao menos uma vez nos últimos seis meses. Por
fim, deviam ter ao menos dois anos de experiência profissional na área clínica. Quanto
aos critérios de exclusão, foram adotados os seguintes: profissionais que trabalhavam
exclusivamente pela modalidade remota e profissionais que não atuavam há mais de um
ano na área clínica.
2.2 Instrumentos
O instrumento utilizado foi o roteiro de perguntas para entrevista semiestruturada,
elaborado pelos pesquisadores e composto por nove perguntas semiabertas (Apêndice A).
As perguntas foram elaboradas visando o atingimento dos objetivos traçados para este
trabalho (item 1.3), tal como, investigar os efeitos da técnica no tratamento dos
transtornos de ansiedade e depressão pela TCC.
Em dois momentos, foi solicitado explicitamente ao entrevistado que comentasse
a respeito de detalhes e percepções pessoais, com o objetivo de enriquecer o resultado
final do trabalho com o viés subjetivo do profissional sobre a Mindfulness.
3 RESULTADOS
A técnica Mindfulness tem sido cada vez mais utilizada como uma abordagem
complementar ou integrativa na TCC para o tratamento de transtornos de ansiedade e
transtornos depressivos. No entanto, a compreensão sobre como os profissionais de saúde
mental experientes utilizaram a técnica em suas práticas clínicas foi limitada. Portanto,
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este estudo buscou explorar a percepção dos psicólogos em relação à técnica Mindfulness,
pela TCC, tendo como ênfase os transtornos descritos.
Para alcançar esse objetivo, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com
seis psicólogos que utilizavam a técnica em sua prática clínica. As entrevistas foram
gravadas e analisadas em busca de temas e padrões comuns que pudessem surgir em suas
respostas e, também, houve especial atenção à possíveis divergências que surgiram.
Os resultados foram obtidos conforme previsto no capítulo que trata do método
(Item 2) e forneceu uma visão importante sobre como os psicólogos experientes
aplicavam a técnica em sua prática clínica, e podem ser usados para informar e melhorar
futuras pesquisas e práticas clínicas relacionadas a esse tema.
O perfil dos psicólogos entrevistados incluiu uma experiência profissional de mais
de cinco anos de prática clínica e utilização ampla e geral da técnica Mindfulness, pela
TCC, inclusive para os transtornos objeto do presente estudo. Desta forma, foram
preenchidos os critérios adotados de inclusão e exclusão.
4 DISCUSSÃO
Iniciamos a entrevista com a indagação sobre o público de atuação dos psicólogos
com a Mindfulness. O que pudemos perceber, a partir das respostas, é que o público de
atuação é amplo, especialmente adultos e adolescentes. Isto significa que a maioria dos
entrevistados atendem uma variedade de públicos, e em diferentes contextos, como
consultório, hospital e corporativo.
Segundo Fortes et al. (2019), as investigações com indivíduos adultos já estão
amplamente estabelecidas e evidenciam descobertas mais coerentes. Várias análises
abrangentes comprovaram que as abordagens fundamentadas na atenção plena
proporcionaram benefícios para o bem-estar psicológico e a qualidade de vida, além de
reduzirem os sintomas de depressão, ansiedade e estresse. Com crianças, os resultados
ainda são escassos, porém estudos já existentes vêm demonstrando resultados
promissores, principalmente no continente Europeu, demonstrando que a Mindfulness
pode ser aplicada a todas as faixas etárias.
Através da pesquisa qualitativa feita, observamos algumas divergências nos
relatos, considerando que alguns psicólogos afirmaram atender públicos específicos,
como executivos, crianças e mães. Além disso, enquanto alguns psicólogos utilizam a
técnica em todas as faixas etárias, outros preferem atender apenas adolescentes e adultos.
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Outra divergência importante é o critério de seleção de pacientes para a aplicação da
técnica Mindfulness, que varia entre os profissionais.
A partir do posicionamento e da atuação dos psicólogos entrevistados,
observaram-se nas respostas critérios semelhantes, onde foram agrupadas opiniões
convergentes e divergentes nas questões abordadas a partir da observação, experiência
prática, e eficácia por eles vivenciadas na utilização da técnica Mindfulness. Sendo assim,
uma psicóloga trouxe um aspecto interessante sobre a Psicologia Junguiana, que tem uma
proximidade com questões do Oriente e o fato de que a TCC levou tempo para incorporar
a prática da meditação ao seu repertório de técnicas. Também é interessante destacar que
um dos psicólogos enfatizou a complexidade da Mindfulness e a necessidade de critérios
de seleção de pacientes para a aplicação.
Segundo Guimarães et al. (2021), é sabido que a adoção regular de práticas
meditativas desempenha um papel significativo na prevenção e no tratamento de várias
doenças e condições clínicas. Além disso, está diretamente associada ao aprimoramento
da qualidade de vida e do bem-estar físico dos indivíduos, ao mesmo tempo em que ajuda
a reduzir os níveis nocivos de estresse. Assim, os critérios de seleção de pacientes são
restritos a condições específicas, como esquizofrenia grave, outros transtornos com
sintomas psicóticos, ou casos em que o paciente não poderá lidar com um aumento inicial
da sintomatologia provocado pelo início da prática.
Prosseguindo à segunda questão formulada, foi perguntado a respeito dos critérios
utilizados na decisão de aplicação ou não da Mindfulness, especificamente para o
tratamento dos transtornos de ansiedade e transtornos depressivos. Em relação a esta
indagação, a maioria dos psicólogos respondeu que utiliza critérios para aplicar a técnica
em seus pacientes, porém não foram uníssonos em relação a esses critérios, sendo as
respostas complementares entre si. Dois deles mencionaram o critério da disponibilidade
dos pacientes ao praticarem a Mindfulness, já que a prática pressupõe a instalação de um
novo hábito em suas vidas. Além disso, foi mencionada a necessidade de conceitualização
dos casos para que se possa compreender se a Mindfulness será benéfica para aquele
paciente em particular.
A respeito da aplicabilidade da Mindfulness para tratamento de ansiedade e
depressão pela TCC não houve grandes divergências dos psicólogos, porém, dois deles
ressalvaram que em casos graves de depressão, a meditação pode ser contraindicada,
assim como, é também contraindicada em outros casos específicos, como em pacientes
com sintomas psicóticos.
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A revisão integrativa sobre Mindfulness no contexto dos transtornos mentais
elaborada por Pinho et al. (2020) não trouxe qualquer contraindicação para o uso da
Mindfulness, nem mesmo para pacientes com depressão grave ou sintomas psicóticos,
havendo achados no sentido de que a técnica pode auxiliar na redução do sofrimento
associado nestes casos. Contudo, é importante destacar que a ciência atual ainda não
esgotou o tema. A percepção clínica dos psicólogos experientes sobre certos cuidados
com a aplicação da técnica merece atenção especial e inclusive pode dar base a eventuais
estudos sobre contraindicações com base em evidências clínicas.
Houve menção ainda dos psicólogos à dificuldade que alguns pacientes ansiosos
podem ter para começar a prática da meditação formal. Nestes casos, a forma com que as
instruções são dadas deve ser cuidadosamente manejada, para evitar que o paciente crie
aversão à técnica.
Outro aspecto levantado por alguns dos psicólogos foi que a prática da
Mindfulness irá, inicialmente, provocar um aumento na sintomatologia, pois aumenta no
paciente a capacidade de observar os próprios pensamentos e emoções. Portanto, é
interessante que dentre os critérios de aplicação esteja a compreensão acerca da
capacidade do paciente em lidar com esse aumento inicial dos sintomas, isto é, a
conceitualização cognitiva de cada paciente é um elemento fundamental para a escolha
dos psicólogos quanto ao uso da Mindfulness. Este aumento sintomatológico, não
obstante observado por alguns dos entrevistados em suas práticas clínicas, não foi
encontrado na bibliografia pesquisada.
Como já observado, a percepção clínica dos psicólogos entrevistados tem grande
importância para que se possa colher informações da prática no dia a dia nos consultórios,
visto que eles fundamentam sua atuação nos constructos científicos do campo da
psicologia. Com base nisto, durante as entrevistas, ao perguntar sobre a frequência de
aplicação da Mindfulness, três psicólogos disseram que não há uma regularidade
estabelecida, mas seguem o protocolo de 8 semanas, orientando os pacientes a praticarem
todos os dias. Corroborando com essa resposta, de acordo com outro psicólogo, a prática
formal é utilizada em menos de 50% dos pacientes e, para estes, a Mindfulness entra como
técnica que será somada às práticas da TCC. Também houve um posicionamento pelo
qual um psicólogo disse não saber a frequência de aplicação, pois depende da avaliação
para aferição de quais técnicas serão mais eficazes de acordo com cada caso. Já outro
psicólogo relatou que os transtornos de ansiedade e transtornos de depressão podem
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ocorrer concomitantemente, mas estimou que a cada 10 pacientes, em pelo menos 7 a
Mindfulness é utilizada.
Ao identificarmos qual a média de frequência da aplicação da Mindfulness, o
próximo critério foi entender de que forma se dá a aplicação da técnica. Alguns psicólogos
baseiam-se na terapia comportamental e usam a técnica da meditação formal, ensinando
a pessoa a prestar atenção na respiração. Aqui faz-se necessário diferenciar estes dois
conceitos que são utilizados: a prática formal e a não formal. A primeira é mais restrita,
pois envolve sentar-se, fechar os olhos, observar a respiração e estar atento ao momento
presente; a segunda diz respeito às atividades do dia a dia em que a pessoa possa expandir
o ato meditativo para qualquer ação, por exemplo, lavando a louça, cozinhando, tomando
banho, dentre outros. A prática da meditação formal antecede o que foi relatado por quatro
psicólogos, como o escaneamento corporal, isto é, o paciente volta sua atenção de modo
voluntário e guiado para partes do seu corpo, por exemplo, a respiração, a entrada e saída
do ar, musculatura abdominal, temperatura das mãos, dos pés, postura do seu corpo,
temperatura do ambiente, dentre outros. Desse modo, induzem os pacientes por meio de
um processo gradual a um estado de maior relaxamento inicial com respirações
profundas.
Os psicólogos de modo geral entendem que a atitude do terapeuta é deixar com
que o paciente explore esse momento com uma abertura da mente, sem julgar se é bom
ou ruim, deixando-o apenas observar o que está acontecendo para que ele se torne
consciente do processo da realidade no aqui e agora. Todos os psicólogos relataram que
as técnicas da TCC são colocadas de acordo com a conceituação cognitiva do paciente,
com sua história de vida e com o objetivo da sessão, que precisam estar alinhados aos
objetivos da terapia. Assim sendo, fazem uma prática da Mindfulness primeiramente em
consultório, junto com o paciente, uma ou duas vezes, a depender de cada caso, para
depois orientarem como se dará a prática fora da sessão. Sobre os pressupostos da prática,
um psicólogo relatou que os três pilares da Mindfulness são: a intenção, a atenção e a
atitude. Nas suas práticas, três deles, mandam áudios gravados com a própria voz para
guiar os pacientes na execução da técnica fora do consultório. Dos três, dois relataram
que além dos áudios também recomendam livros, aplicativos de meditação e vídeos nas
plataformas digitais. Para pacientes com transtorno depressivo, um dos psicólogos relatou
que há outras técnicas e ferramentas que, para ele, devem ser utilizadas antes da aplicação
da Mindfulness.
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Segundo Tanajura et al. (2022), a Mindfulness pode ser indicada a pacientes com
transtornos depressivos graves, pois é de fácil aplicação, baixo risco físico e emocional,
promove com que o paciente tenha um autocuidado aumentado e favorece com que ele
seja ativo no processo e na prevenção de recidivas. A partir disso, a Mindfulness é capaz
de estabelecer conexões entre diversos sistemas do corpo, como por exemplo, os sistemas
imunológico, psicológico, neurológico e endócrino. Neste sentido, foi transcrito um
trecho da obra de Vandenberghe e Souza (2006):
[...] para fundamentar o uso do treino de mindfulness na prevenção de recaída
da depressão em pessoas que passaram com sucesso pela terapia cognitiva. A
intenção deste treino é que a pessoa aprenda a detectar, reconhecer
amistosamente e logo depois soltar (permitir que vão embora) os pensamentos
e os sentimentos depressogênicos, antes que estes reiniciem o espiral rumo à
depressão (p. 37).
5 CONCLUSÃO
Desde o final da década de 1970, o interesse pela técnica da Mindfulness vem
crescendo e seu uso na psicologia está cada vez mais consolidado. As pesquisas
científicas sobre o tema, também crescentes, vêm demonstrando que os efeitos da prática
sobre a saúde mental são de grande potencial terapêutico.
O objetivo desta pesquisa foi o de investigar os efeitos da aplicação da técnica
Mindfulness, pela TCC, para o tratamento dos transtornos de ansiedade e depressão.
Especificamente, buscou-se compreender a forma com a qual os psicólogos aplicam a
técnica, a frequência de utilização, a aplicação concomitante de outras técnicas e quais os
resultados que, em geral, são obtidos.
A pesquisa se configurou como qualitativa, com delineamento de pesquisa de
campo. Foram entrevistados seis psicólogos, sendo que para os dados colhidos foi
utilizado o procedimento de análise de conteúdo.
Pôde-se constatar através do presente estudo que a Mindfulness é aplicada, de
forma geral, para o tratamento dos transtornos de ansiedade e depressão, pela TCC, sendo
que a técnica é geralmente aplicada após a realização da conceitualização do caso e em
conjunto com as demais técnicas de que dispõem as abordagens cognitivas.
Não há uma regra geral sobre a forma de aplicação, contudo, foi destacado que
em muitas vezes o paciente deve aprender a prática no consultório, podendo até mesmo
praticar com o terapeuta, de forma que conheça as instruções específicas da Mindfulness
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a fim de minimizar possíveis erros sobre a execução ou compreensão da técnica na hora
de meditar.
Foi percebido pelos psicólogos entrevistados a melhora nos sintomas dos
transtornos de ansiedade e depressão, após o início da prática, aliada aos demais
elementos que compõe a terapia cognitivo-comportamental, resultado que era o
aguardado, já que está em consonância com os mais recentes achados científicos sobre o
tema.
É possível que, num futuro próximo, as práticas meditativas ganhem espaços
centrais no cuidado pessoal em saúde mental e também que seja ampliado para os
sistemas públicos, o que demandará que a informação científica sobre a efetividade deste
tipo de prática seja cada vez mais difundida e espera-se que cada vez mais haja
profissionais habilitados para instruir a população sobre a forma correta de se praticar.
São reconhecidas as limitações da presente pesquisa, tais como o número reduzido
de psicólogos entrevistados, a região geográfica específica dos profissionais e os parcos
recursos para investigação dos efeitos da Mindfulness, já que se partiu apenas da
observação clínica, do relato subjetivo dos psicólogos e da análise qualitativa das
respostas. Contudo, foi possível identificar que a amostra dos entrevistados trouxe mais
dados condizentes do que divergentes com a literatura científica acerca do tema, portanto,
este estudo buscou se somar ao conhecimento já produzido e é esperado que possa
contribuir com a discussão e desenvolvimento do tema da investigação dos efeitos da
aplicação da Mindfulness.
Conclui-se que o presente estudo fortalece o reconhecimento da Mindfulness
como uma técnica promissora e integrativa na terapia psicológica. À medida que a
pesquisa avança e a compreensão se aprofunda, a contribuição da Mindfulness para a
saúde mental promete expandir novos horizontes e influenciar positivamente a forma
como se enfrentam os desafios emocionais e psicológicos da vida moderna.
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REFERÊNCIAS
MINAYO, Maria Cecilia et al. Pesquisa social: Teoria, método e criatividade. 4. ed. Rio
de Janeiro: Editora vozes, 2021
World Health Organization. (2017). Depression and other common mental disorders:
Global Health Estimates. World Health Organization. Depression. Geneva: WHO.
Disponível em: https://apps.who.int/iris/handle/10665/254610. Acesso em: 10 mai. 2022.
DADOS DO PARTICIPANTE
Identificação:
2. Quais os critérios que você utiliza para decidir se aplica ou não a técnica Mindfulness
para tratamento de transtornos de ansiedade e/ou depressão?
3. Para o tratamento dos transtornos de ansiedade e/ou depressão, com que frequência
é aplicada a técnica Mindfulness?
9. Qual sua opinião sobre a contribuição que a Mindfulness pode trazer ao sistema
público de saúde?
ANEXO I – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO