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Análise de "12 Homens e Uma Sentença"

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UNIVERSIDADE PAULISTA / UNIP

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS


CAMPUS CIDADE UNIVERSITÁRIA
CURSO DE PSICOLOGIA

ANDREZA AMÉRICO DE OLIVEIRA


CYBELLE MARIA XIMENES PINHEIRO
GABRIELE BARBOSA
JOSIMAR RODRIGUES DE MELLO

ANÁLISE DO FILME 12 HOMENS E UMA SENTENÇA


À luz dos fundamentos teóricos de processos grupais

SÃO PAULO
2022
ANDREZA AMÉRICO DE OLIVEIRA – RA: F12259-0
CYBELLE MARIA XIMENES PINHEIRO – RA: D06JAH-3
GABRIELE BARBOSA – RA: F03495-0
JOSIMAR RODRIGUES DE MELLO – RA: T95715-0

ANÁLISE DO FILME 12 HOMENS E UMA SENTENÇA


À luz dos fundamentos teóricos de processos grupais

Trabalho de APS - Atividades Práticas Supervisionadas


da disciplina de Processos Grupais apresentado como
parte da avaliação do 2º bimestre do Curso de
Psicologia da Universidade Paulista – UNIP, Campus:
Cidade Universitária. Turno Matutino – 6º e 7º semestre.

Orientadora: Profa. Dra. Bernadete Lenza

SÃO PAULO
2022
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ............................................................................................................................ 4
2. DESCRIÇÃO DO FILME “12 HOMENS E UMA SENTENÇA” ............................................ 6
3. ANÁLISE FÍLMICA SOB ÓTICA DA TEORIA DE PROCESSOS GRUPAIS.................... 8
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................................... 15
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................................. 16
4

1. INTRODUÇÃO

As reflexões desenvolvidas nesse estudo se baseiam na análise do filme


“12 Homens e Uma Sentença” (LUMET,1957), através da articulação com os
conceitos das principais teorias de grupos estudados na disciplina de Processo
Grupais no curso de Psicologia da Universidade Paulista UNIP e visam fortalecer
a compreensão dos fenômenos humanos presentes nos contextos grupais, dado
a relevância desse assunto para o convívio em sociedade, assim como para o
campo da psicologia, sendo importante recurso para intervenções psicológicas.
Como futuros psicólogos tais conhecimentos são fundamentais para o
entendimento da natureza dos processos psicológicos e comportamentais
envolvidos nesses contextos, considerando as influências que os grupos
exercem nos indivíduos, comunidades e instituições. Tal entendimento favorece
a aplicação de técnicas e dinâmicas de grupos que visem ampliar a consciência
dos indivíduos a fim de que superem sua tendência individualista em prol da
coletividade (BARRETO, 2014).
Nesse sentido, o uso de filmes em trabalhos acadêmicos tem sido
considerado um importante apoio didático no ensino superior ao possibilitar a
integração de conceitos teóricos e práticos por meio da observação das
situações vivenciadas pelos personagens, proporcionando deste modo,
aprendizagem social e experiência lúdica. Além disso, os filmes também
estimulam a imaginação criativa facilitando a articulação dos conceitos
apresentados nas disciplinas acadêmicas, favorecendo a compreensão e
ampliação de conhecimentos (MENDONÇA; GUIMARÃES, 2008).
Diante dessa perspectiva, podemos considerar que o cinema como uma
modalidade de arte, dialoga com a psicologia e convida o espectador a
experimentar diferentes lugares e pontos de vista lhes proporcionando vivenciar
histórias individuais e grupais permeadas de emoção e significados. Tais
experiências contribuem sobremaneira para a formação cultural, social e política
dos sujeitos, passando a integrar os seus respectivos repertórios pessoais e
ampliando desta forma a sua visão de mundo (SILVA, 2010).
O filme em questão se passa na sala de um tribunal americano, onde doze
jurados devem chegar à unanimidade da sentença, seja pela condenação ou
5

absolvição, de um jovem acusado de ter matado o pai, cujo resultado, caso seja
desfavorável para o réu, poderá conduzi-lo à pena de morte.
Diante desse contexto, descreveremos inicialmente os principais fatos
apresentados no filme e em seguida, promoveremos análises correlacionando
as principais teorias de processos grupais, destacando entre outros aspectos,
como são estabelecidas as relações sociais entre os integrantes do júri, como
os elementos se organizam no grupo, os processos psicológicos e
comportamentais envolvidos, a atribuição de papéis, a constituição de normas
no grupo, etc.
Por fim, com base nos aprendizados obtidos, procederemos
considerações finais acerca da relevância deste trabalho para a formação
profissional do psicólogo.
6

2. DESCRIÇÃO DO FILME “12 HOMENS E UMA SENTENÇA”

O filme “12 Homens e uma sentença” cujo título original é “Twelve Angry
Men”, foi dirigido por Sidney Lumet e lançado em 1957 nos Estados Unidos,
portanto há 65 anos atrás. É considerado um clássico atemporal do cinema em
virtude do seu conteúdo rico e atual, capaz de inspirar reflexões importantes
acerca de preconceitos implícitos, atitudes individuais enviesadas por questões
pessoais, bem como, pelo impacto de movimentos de grupo nos indivíduos, entre
outras questões abordadas.
O filme foi ambientando inteiramente na sala de júri de um tribunal
americano, na cidade de Nova York, onde apresentou logo na cena inicial a sala
de audiências onde o juiz orienta os doze jurados com relação a regra central a
ser por eles utilizada para a definição do veredicto, o qual poderia conduzir o réu,
um jovem porto-riquenho, à pena de morte pelo crime de homicídio contra o
próprio pai. Assim, o juiz explica que o veredito deve ser unânime, seja pela
condenação ou absolvição do réu, e no caso de dúvida ou discordância quanto
a culpa ou inocência, os jurados devem conversar a fim de se evitar uma
condenação injusta que possa levar o réu a pena de morte ou, uma absolvição
injusta que deixe um homem perigoso livre para o convívio em sociedade.
Os jurados seguem para uma sala reservada, a maioria com pressa de
sair de lá, banalizando todo processo decisório, decidem realizar uma votação,
antes mesmo de discutir as circunstâncias do caso e conversar sobre o que cada
um concluiu sobre o caso ou analisar as provas. No momento da apuração
desses votos surge a surpresa não esperada por onze dos jurados, apenas um
deles votou na inocência do jovem réu.
Em seguida, o jurado oito, um arquiteto interpretado pelo ator Henry
Fonda, fez questão de se colocar e dizer que não tinha certeza da inocência do
réu, mas que também não estava convicto de sua culpa pelo assassinato do pai
e deste modo sugeriu que conversassem sobre o caso. A partir desse momento,
os atritos tiveram início, o jurado que discordou provocou e conduziu uma
investigação para análise das provas resultando em outras rodadas de votação
as quais culminaram em mudanças de posturas e entendimentos dos envolvidos.
A cada rodada de votação, as percepções dos jurados em relação aos
fatos apresentados eram analisadas de forma individual e ao mesmo tempo, na
7

medida em que ia sendo ampliada a contagem de votos para inocentar o jovem,


cada um dos jurados também ampliava o seu olhar para enxergar os fatos de
forma diferente. Assim, com o tempo, a má vontade inicial dos jurados que só
queriam ir logo para suas casas ou seus compromissos, vai sendo substituída
por empenho e esforço para entender as nuances do caso a fim de solucionar o
brutal crime e proferir uma sentença justa.
O efeito das lentes usadas pelo diretor Sidney Lumet, nos deixou mais
próximas dos personagens conseguiu promover uma sensação de incomodo e
claustrofobia que também era encenada pelos atores do enredo. Tais situações
puderam ser observadas no ambiente, com a pequena sala trancada e com
pouca circulação de ar. Não bastasse a temperatura emocional elevada, em
virtude da forte chuva que caia naquela ocasião, os jurados fecharam as janelas
e com isso, a temperatura já aquecida aumentou, intensificando o mal estar
refletido nos rostos suados dos jurados. Além disso, dentre os jurados havia um
homem muito gripado e o ventilador não ligava.
8

3. ANÁLISE FÍLMICA SOB ÓTICA DA TEORIA DE PROCESSOS GRUPAIS

Com a finalidade de se contextualizar o estudo, promover um melhor


entendimento dos seus fundamentos, identificamos cada um dos personagens,
apresentamos uma breve descrição histórica acerca da Dinâmica de Grupos e
sobre as relações de poder presentes nos grupos de maioria e minoria
psicológica identificadas na análise do filme.
Cada um dos jurados será identificado da seguinte maneira: jurado um
“J01” Assistente de treinador (presidente da mesa/autoridade da mesa); jurado
dois “J02”, o Bancário que oferece balas aos demais; jurado três “J03”, o
Empresário que tinha problemas de relacionamento com o filho; jurado quatro
“J04” , o Corretor de Wall Street; jurado cinco “J05”, o homem de origem pobre
que ascendeu socialmente; jurado seis “J06”, aquele que trabalha em
construções como pintor; jurado sete “J07” , o Vendedor/Apostador de jogos, o
mais apressado; jurado oito “J08”, o Arquiteto que discorda da sentença de
culpado; jurado nove “J09”, o homem mais velho do grupo e o primeiro a mudar
de ideia; jurado dez “J10”, o Empresário do ramo de transportes que estava
resfriado; jurado onze “J11”, o Joalheiro de origem europeia, e o jurado doze
“J12”, o Jovem vaidoso publicitário que trabalha com Marketing.
Diante dessa organização, cabe ressaltar que os doze jurados eram
provenientes de diferentes origens e status social, contudo, todos tentavam
demonstrar a sua importância social, e sim, alguns se destacavam mais, na
opinião do grupo pelo exercício hermenêutico. A condução do J08 foi decisiva
para que ocorresse a dinâmica de grupo e consequentemente, a mudança de
pensamento dos jurados de forma que os doze fossem convencidos de que se
não discutissem buscando a certeza dos fatos, poderiam condenar
indevidamente um inocente à morte. Baseando-se nessas duas direções
(maioria e minoria psicológica e a dinâmica de grupo) é que essa análise se
estrutura.
Segundo Minicucci (1997), através das pesquisas de fenômenos que
ocorriam nos grupos, Kurt Lewin promoveu significativa contribuição para o
campo das ciências sociais ao dedicar-se a estudar as dimensões concretas e
existenciais das relações interpessoais de grupos. Lewin introduziu o termo
Dinâmica de Grupo e ao se dedicar ao estudo de pequenos grupos, desenvolveu
9

a teoria sobre as minorias psicológicas que, segundo ele, é condição


fundamental para a compreensão do processo grupal, sendo ainda um dos
precursores do movimento da Psicologia Social como ciência.
Kurt Lewin (MAILHIOT,1981) preocupado com a teorização dos grupos
sociais inicia sua trajetória a partir de estudos com as minorias judias na
Segunda Guerra, expandindo posteriormente as pesquisas com outros grupos.
Seu objetivo era conhecer os macrofenômenos sociais, através de pesquisas
com pequenos grupos. Desenvolveu pesquisas relevantes no campo da
psicologia de grupos minoritários e maioritários, bem como na dinâmica entre
eles.
Os conceitos de minoria e maioria psicológica possui diferentes
significados para a demografia e para a Psicologia. Para a demografia considera-
se a quantidade de pessoas para representar maioria ou minoria, ao passo que
para a psicologia, o número de pessoas independe, tendo em vista que o
conceito está relacionado a questão de poder.
Para Lewin (MAILHIOT,1981), a maioria psicológica é um grupo que
possui autonomia não necessitando de outro grupo para existir. Este grupo é
detentor de privilégios e estabelece para si aquilo que lhe cabe. Em
contrapartida, a minoria psicológica, independentemente da quantidade de
pessoas está sob sujeição de outros, não tem autonomia, possui menos direitos
e para exerce-los, precisa lutar por eles. Desta forma, toda minoria psicológica
esta propensa a discriminação, sendo, portanto, um problema social e não
individual.
Esse conceito pode ser evidenciado na primeira cena do filme onde os
jurados começam a discussão a respeito do caso, o J10 tenta explicar a natureza
do comportamento do acusado e acha que todos os latinos são selvagens.
Nesse sentido, o antissemitismo, sexismo e racismo se constituem em
problemas sociais descendentes dos grupos de maioria psicológica efetivados
por meio de atos que desumanizam os grupos de minoria psicológica, usando a
dominação e o julgamento. Além disso, os grupos de minoria psicológica são
perseguidos na medida em que se sobressaem de outros grupos.
Os doze jurados não se conheciam previamente e a partir do contato com
o grupo começam a perceber o seu lugar social. Apesar de aparente igualdade,
uma vez que todos devem votar e chegar a unanimidade, independente de
10

posição ou outro critério, começa a se revelar uma divisão do grupo em maioria


e minoria psicológica, podendo ser observada a partir de posturas e diálogos
permeados por preconceitos e hostilidades.
Um estudo de revisão sobre processos grupais e cinema disponibilizado
pela Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento (2022), divulgou
uma análise relevante separando os jurados em seus grupos psicológicos mais
predominantes. Os protagonistas foram organizados assim, os jurados quatro
(J04), dez (J10), doze (J12) pertencem ao grupo de maioria psicológica e os
jurados um (J01), dois (J02), três (J03), cinco (J05) inseridos no grupo de minoria
psicológica. O jurado oito (J08) não será incluído em nenhum grupo.
Amparados na teorização de Lewin o (J03) pertence ao grupo de minoria
psicológica, por ser um pequeno empresário, exibido no filme que ele é um
trabalhador que conquistou sua riqueza, mas não é de fato poderoso, a sua
marca como personagem tenta condenar a vida do réu com o vigor de suas
palavras. Sua fúria era projetada no réu, desdobramento de seu relacionamento
problemático com o filho. Na cena em que esse jurado, em um acesso de ira,
rasgou a foto do filho, mostra que a condenação do rapaz era como se fosse um
acerto de contas com o próprio filho.
O (J05) apresenta um momento envolvente do filme, o único entre os
jurados nascido latino pobre, foi apontado pelo grupo de defender o réu, mas
segundo ele mesmo, depois que mudou de moradia, tentava esquecer seu local
de nascimento. Essa postura é semelhante a outro estudo de Lewin (MAILHIOT,
1981) que aborda o auto ódio e a desvalorização do indivíduo direcionada para
o próprio grupo. Esse sujeito ao se dar conta de que poderia ser discriminado e
ao mesmo tempo querer participar e se inserir no grupo, entra num processo de
negação de si. No avanço da narrativa sua postura mudou ele recria o momento
do esfaqueamento, derrubando uma percepção equivocada.
As dinâmicas de grupos possuem variações conceituais desde a sua
concepção formulada por Lewin, que observou que havia um sistema de forças
que estavam presentes na constituição dos grupos, força essa que agia como
reguladora na definição de papéis dos membros do grupo (MAILHIOT, 1981).
Para Pichon-Rivière, a formação de um grupo se dá a partir de um
conjunto de indivíduos que são ligados entre si por meio do tempo e espaço com
11

base num tipo de vínculo que os une, interagindo através de papéis (BARRETO,
2014).
Relativamente aos papéis, cabe destacar que os doze jurados tinham a
mesma função no grupo, ou seja, o poder de decidir o destino do réu.
Nota-se, porém, que ao entrarem na sala reservada, o jurado número um
toma a cabeceira da mesa e a iniciativa de sugerir aos demais que se posicionem
na mesa conforme o número que lhes foi atribuído, em ordem crescente, e
posteriormente, propõem a primeira votação, surgindo assim a primeira liderança
do grupo. Isso nos remete ao que A. Bavelas assevera sobre redes de
comunicação e as relações igualitárias e hierarquizadas:

“Quanto mais forem espontâneas as vias de acesso ao outro e


menos formais os canais de comunicação, mais a comunicação
com ele tem possibilidade de tornar-se adequada e autentica.”
(MAILHIOT, 1981, p.75).

No que tange ao grupo e a liderança, podemos dizer que seu estilo era
democrático, pois as decisões eram tomadas em conjunto, líder e demais
jurados, buscando soluções que atendesse a todos, valorizando as opiniões
individuais e buscando incentivar a cooperação para se chegar a um objetivo
comum quanto ao veredicto do réu (BARRETOS, 2010).
A primeira votação do grupo resultou em onze votos para culpado e, um
para inocente, mexendo com os humores de alguns jurados que se comportaram
de maneira agressiva, tendo em vista que a maioria estava convencida da culpa
do réu e só pensava em ir embora. Contudo, em razão da regra de
funcionamento do júri americano de unanimidade de veredicto, o J08 que votou
inocente, creditou ao réu o benefício da dúvida aplicado nos casos em que não
se possui evidências suficientes para comprovar a culpa do sujeito.
Desta forma, ao aplicar o benefício da dúvida ou princípio in dubio pro reo
do direito penal para os casos de dúvida razoável quanto a culpa de um acusado,
deve-se considerar a hipótese de inocência ao seu favor, critério adotado pelo
J08 que atuou de maneira eficaz no grupo no sentido de mobilizar um trabalho
conjunto de análise mais criteriosa dos fatos a partir desse princípio, e que ao
12

final, se mostrou coeso, alterando completamente o resultado do julgamento


(DIAS, 2019).
A coesão entre os membros de um grupo, conforme apregoam Cartwright
e Zander (1975) é fator determinante para o cumprimento das regras
estabelecidas.
Segundo Miniccucci (1997) para que haja boa integração no grupo é
fundamental que o líder atue de forma eficaz usando entre outras habilidades:
comunicação autêntica; alto grau de coesão e permeabilidade de fronteiras.
Nesse sentido, observamos algumas dessas características no J08, além de um
forte poder de argumentação que mobilizou o grupo de jurados, um a um, a rever
o seu posicionamento, contribuindo para a coesão do grupo e para o alcance do
objetivo maior de unanimidade no veredicto, atuando, portanto, como líder
democrático da causa.
Para Lewin (1978), mais significativo do que a similaridade ou a diferença
entre os membros de um grupo, é a sua relação de interdependência. Ele
considera que o grupo atua como um todo dinâmico cuja mudança em uma das
partes, provoca a mudança nas demais. Esse movimento de grupo foi observado
no filme ao longo das discussões e consequentes votações, onde, a cada etapa
de novas argumentações e apresentação de dúvidas razoáveis sobre o caso, o
grupo de jurados modificava o seu posicionamento em função de uma mudança
ocorrida na postura de um de seus membros.
Segundo Kurt Lewin, o movimento no qual a conduta ou comportamento
dos indivíduos de um grupo resulta de um campo de determinantes
interdependentes ou espaço vital, foi denominado de teoria de campo
(CARTWRIGHT; ZANDER, 1975).
Ao longo do filme, as discussões se intensificam e o J08 permanece
questionando as provas e a partir de situações que não foram claras nos
depoimentos das testemunhas, passa então a dramatizar a cena em que uma
testemunha supostamente teria visto o suspeito do seu apartamento no andar
inferior, refazendo a cena em conjunto com demais jurados, cujo resultado é
decisivo para que outros jurados mudem o seu voto em vista das novas
percepções geradas com a dramatização.
Deste modo, o J08 se fez valer da técnica de psicodrama criada por Jacob
Levy Moreno, método segundo o qual a comunicação, a criatividade e a
13

espontaneidade são favorecidas durante a encenação no processo de role-


playing ou também chamado de teatro espontâneo, permitindo aos participantes
experimentarem diferentes papéis que lhes possibilitem vislumbrar novos pontos
de vista e deste modo, encontrarem respostas mais adequadas para a situação
que está sendo vivenciada na dramatização (BARRETO, 2014).
Segundo Moreno (1889-1974) as demandas da vida em sociedade nem
sempre favorecem a expressão da espontaneidade e criatividade e, a partir
dessa observação, criou o Teatro do improviso, posteriormente chamado de
psicodrama. Partindo de suas experiências pessoais, ele percebeu a condição
terapêutica do psicodrama, pois as pessoas ao se expressarem criativa e
espontaneamente através da dramatização em público, conseguiam lidar com
conflitos e ampliar o seu desenvolvimento psicológico, livrando-se da
inflexibilidade de sua postura perante as situações e assim, obtinham novos
olhares sobre o seu relacionamento consigo mesmo, com os outros e com o
mundo (MARINEAU,1992)
Ao longo do filme nota-se que alguns jurados mais exaltados e/ou
impacientes buscaram assumir temporariamente a liderança do grupo, contudo
os seus estilos de liderança mais “autocráticos” como os demonstrados pelos
jurados J03 (empresário com problemas com o filho) e J10 (empresário do ramo
de transportes, que estava resfriado) ou o estilo “laissez-faire” do jurado J07
(Vendedor/Apostador de jogos, o mais apressado), não se sustentaram na
função.
A esse respeito, Kurt Lewin, Ronald Lippett e Ralph K.White divulgaram
na revista “The Journal of Social Psychology” (1939), um estudo sobre climas
sociais criados experimentalmente com o objetivo de identificar o
comportamento do grupo segundo o estilo de liderança: autocrático, democrático
e laissez-faire (LEWIN; LIPPIT; WHITE, 1939).
Os resultados deste estudo demonstraram que na liderança democrática
os sujeitos são mais colaborativos, pois as decisões são tomadas em conjunto e
assim, valoriza-se as individualidades do que nas lideranças autocráticas, onde
as determinações partem do líder, e os indivíduos se comportam de maneira
submissa e por vezes, com agressividade. No estilo de liderança laissez-faire
observou-se que os comportamentos agressivos se intensificaram, favorecendo
14

mais os comportamentos de trabalhos isolados do que a colaboração dos


indivíduos com o grupo (BARRETO, 2014).
O desfecho do filme demonstra como as discussões do grupo, a
encenação de cenas por meio do psicodrama e a mediação de liderança
democrática e participativa, especialmente conduzida pelo J08 favorecerem
novas percepções, resultando numa reviravolta do julgamento, que teve início
com a votação de onze votos para culpado e um para inocente e se reverteu em
unanimidade de votos em favor do réu, com doze veredictos para inocente.
15

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na análise apresentada, buscamos contextualizar as teorias de Lewin,


Moreno e Pixon-Rivière sobre os processos de dinâmica de grupo, articulando-
as com os diálogos apresentados no filme “12 Homens e Uma Sentença”.
Conforme a análise dos teóricos mencionados neste trabalho e a
associação com a trama retratada no filme, compreendemos que indivíduos
antagônicos em suas histórias e com diferenças socioculturais podem contribuir
nos desenvolvimentos psicológicos dos processos grupais de forma positiva.
Cada indivíduo carrega preconceitos, discriminações e estereótipos,
sendo que o compartilhamento de experiências mesmo com sujeitos
antagônicos, através do diálogo e da argumentação de ideias, pode proporcionar
o amadurecimento dos membros do grupo como o apresentado no filme.
Importante destacar que as teorias de Kurt Lewin até hoje cooperam para
a formação e atuação de psicólogos, contribuindo não apenas para ampliar o
conhecimento do trabalho com grupos sociais, como também lapidando o olhar
dos profissionais para a dimensão das influencias exercidas pelos grupos nos
indivíduos, comunidades e instituições (BARRETO, 2014).
Os estudos das teorizações e a análise do filme de Lumet (1957) nos
possibilita concluirmos que os processos grupais, não a despeito da
heterogeneidade dos participantes, com suas visões de mundo, preconceitos,
condição econômica e culturais, mas a partir dela que as ações e significações
são transformadas.
Portanto, consideramos que o estudo dos processos grupais é de muita
relevância para a formação dos profissionais de Psicologia, que podem se fazer
valer dessa ferramenta de intervenção psicológica tanto na clínica como em
instituições a fim de promover a ampliação dos potenciais humanos através de
vivências grupais significativas.
16

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABREU, Liliane Alcântara de. Et al. Processos grupais no cinema: doze homens
e uma sentença. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do
Conhecimento. Ano. 07, Ed. 01, Vol. 05, pp. 94-130. Janeiro de 2022. ISSN:
2448-0959. Disponível em:
https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/processos-grupais. DOI:
10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/processos-grupais. Acesso
em: 19 abr. 2022.

BARRETO, M. F. M. Dinâmica de grupo: história, práticas e vivências. 5a ed.


Campinas: Alínea, 2014.

CARTWRIGHT, D.; ZANDER, A. F. Dinâmica de grupo: pesquisa e teoria. São


Paulo: EDUSP, 1975.

DIAS, Yuri Coelho. O PRINCÍPIO DO IN DUBIO PRO REO COMO LIMITAÇÃO


À FUNDAMENTAÇÃO DA DECISÃO DE PRONÚNCIA. Caderno Virtual, v. 3,
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LEWIN, K. Teoria de campo em ciência social. São Paulo, Pioneira, 1965.


Problemas de dinâmica de grupo. São Paulo: Cultrix, 1978.

LEWIN, K.; LIPPIT, R. WHITE, RK. (1939): Patterns of Aggressive Behavior in


Experimentally Created “Social Climates”, The Journal of Social Psychology,
10:2, 269-299. Doi: https://doi.org/10.1080/00224545.1939.9713366. Disponível
em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00224545.1939.9713366.
Acesso em 24 abr. 2022.

LUMET, Sidney. 12 HOMENS e uma sentença (12 angry men). Direção de


Sidney Lumet. EUA: 1957. United Artists; MGM. 96 min., son., p&b

MAILHIOT, G. B. Dinâmica e Gênese dos Grupos. São Paulo: Duas Cidades,


1981.

MARINEAU, René F. Trad: José de Souza Mello Werneck. Jacob Levy Moreno,
1889-1974:pai do psicodrama, da sociometria e da psicoterapia de grupo.
São Paulo: Ágora, 1992

MENDONÇA, J.C.; GUIMARÃES, F.P. Do quadro aos "quadros": o uso de


filmes como recurso didático no ensino. Ebape BR 6, agosto/ 2008.
Disponível em https://doi.org/10.1590/S1679-39512008000500003. Acesso em
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MINICUCCI, A. Dinâmica de grupo: teoria e sistemas. 4ª. ed. São Paulo: Atlas,
1997.

SILVA, Veruska Anacirema Santos da. (2010). Memória e cultura: cinema e


aprendizado de cineclubistas baianos dos anos 1950. Dissertação de
mestrado. Programa de Pós-Graduação em Memória, Linguagem e Sociedade.
Univ. Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB. 2010.

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