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UNIP - UNIVERSIDADE PAULISTA

Instituto de Ciências Humanas


Curso de Psicologia

JORGE MIKLOS - RA C941AD5

Processos Grupais: uma análise do filme Doze Homens e uma Sentença na


perspectiva de Will Schutz

Campus Paraíso/ São Paulo


2019
UNIP - UNIVERSIDADE PAULISTA
Instituto de Ciências Humanas
Curso de Psicologia

JORGE MIKLOS - RA C941AD5

Processos Grupais: uma análise do filme Doze Homens e uma Sentença na


perspectiva de Will Schutz

Trabalho apresentado ao Curso de Graduação


de Psicologia da UNIP – Universidade Paulista
–, como parte das exigências para a obtenção
de nota parcial para a disciplina de Processos
Grupais sob orientação do Professor Ms.
Vagner Huffenbaecher Pepe.

Campus Paraíso/ São Paulo


2019
“A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o
que vemos, senão o que somos.”
Fernando Pessoa
Resumo

Esse trabalho tem por escopo refletir a respeito dos processos grupais expressando
os conflitos existentes, bem como as possibilidades de abertura e ressignificação dos
fatos e da própria realidade, por meio de recursos da Psicologia. Para tanto, tomamos
a película “Doze Homens e uma Sentença”, sob a ótica dos Processos Grupais na
perspectiva de Will Schutz. As dimensões de dependência e interdependência bem
como, os fatores centrais aspectos de personalidade de seus membros com relação
as dimensão de controle, afeto e inclusão serão articuladas com a narrativa do filme.
Os procedimentos metodológicos empregados partem do estudo bibliográfico
usufruindo as contribuições de Will Schutz (1989).
Sumário

Introdução .............................................................................................. 5
Desenvolvimento .................................................................................... 5
Conclusão .............................................................................................. 9
Referências ............................................................................................ 9
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Introdução

O objetivo deste trabalho é articular a teoria a respeito de Processos Grupais


criada por Will Schutz, um estudioso das dinâmicas de grupos, com o filme Doze
homens e uma sentença, 1957, história e roteiro de Reginald Rose, direção de Sidney
Lumet.
Tomou-se como corpus para a análise ‘o filme disponível na Rede Social no
Vimeo (https://vimeo.com/158869195) em virtude da imagem e som apresentarem
qualidade de recepção mais nítida. Na busca encontrou-se que há um remake do filme
realizado em 1997 com direção de William Friedkin. Porém, não está disponível em
plataformas streaming.
Os procedimentos metodológicos empregados partem do estudo bibliográfico
tendo por referência Will Schutz .

Desenvolvimento
Embora não seja escopo deste trabalho resenhar a película Doze homens e
uma sentença é imprescindível informar ao leitor uma concisa sinopse da história
contada no filme, a fim de amparar a compreensão do estudo.
A narrativa de Doze Homens e uma Sentença transcorre focando doze jurados
que devem decidir se um adolescente acusado de ter matado seu pai com uma facada
no peito, é ou não culpado. Em caso de condenação seria aplicada a pena de morte,
com execução na cadeira elétrica, sem direito à apelação. A decisão devia ser
unânime, visto que a jurisdição americana indica que só deve se votar pela culpa do
réu caso não haja nenhuma dúvida de sua acusação.
A princípio, onze jurados demonstram plena certeza que o réu é culpado, cada
um elencando o seu argumento. Entretanto, o jurado número 8, Sr. Davis, um
arquiteto, não acredita nem na inocência e nem na culpa. Ele demonstra a dúvida.
Convencido de sua incerteza, o Sr. Davis sugere aos seus colegas que analisem e
debatam entre si novamente as informações dos autos do processo.
Porém, sua dúvida um pouco angustiante e sua intenção de debruçar-se mais
a fundo depara-se com as dificuldades pessoais, a má vontade e rancores dos outros
jurados que, desmotivados pelo contexto (está muito quente na sala, outros estão com
pressa) preferem a certeza da condenação pois esse veredito lhes liberaria de volta
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aos seus afazeres. Esse impasse entre 11 convictos que querem trocar a condição
culpada do réu pela sua liberação e a certeza da dúvida do Sr. Davis, inicia o conflito
no grupo.
A película é filmada 97% do tempo dentro dessa sala do júri, na qual ocorrem
discordâncias acaloradas, algumas de altíssimo nível e outras que atingem o extremo
oposto. Argumentos e contra-argumentos são usados de maneira precisa, de modo a
permitir, passo a passo a reconstrução de como poderia ter ocorrido o crime.
Ao longo As situações conflitivas do grupo expõem preconceitos, mazelas,
estupidez e também a possibilidade de dignidade e de reparação que habitam o ser.
O filme inicia-se com as imagens do tribunal, no momento em que os jurados devem
retirar-se para a sala do júri. A película é filmada 97% do tempo dentro dessa sala do
júri, na qual ocorrem discussões acaloradas, algumas de altíssimo nível e outras que
atingem o extremo oposto.
Argumentos e contra-argumentos são usados de maneira precisa, de modo a
permitir, passo a passo a reconstrução de como poderia ter ocorrido o crime,
respeitando-se a máxima de que a verdade talvez nunca possa ser conhecida.
O grupo de jurados é heterogêneo é constituído por pessoas do sexo
masculino, maiores de 21 anos, com nível de escolaridade, profissão, experiências de
vida diversas. As diferentes posições e experiências vão se fazendo presente, a
princípio de modo informal, como se discussões não fossem necessárias pelos
“aspectos óbvios” do caso.
No transcorrer dos debates, alguns buscam a liderança, por meio da persuasão
e da banalização da situação. Expõe comentários hostis sobre as respostas e
percepções dos outros (conotação negativa), procurando que os não familiarizados à
situação, sintam-se menos preparados ou inferiores, não legitimados e submissos.
Essa situação colocada no filme nos remete às contribuições de Schutz (1989,
p. 103), a respeito dos processos grupais. De acordo com Schutz (1989, p. 104), no
desenvolvimento do grupo, precisam também ser considerados os aspectos de
personalidade de seus membros com relação as dimensão de dependência
(autoridade) e interdependência (intimidade) além da dimensão tempo e outros
fatores, tais como: objetivos do grupo, contexto físico-social, dentre outros.
Para Schutz (1989, p.104) a integração dos membros de um grupo acontece
quando certas necessidades fundamentais são satisfeitas, pois só em grupo e pelo
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grupo essas necessidades podem ser satisfeitas, sendo fundamentais porque são
vivenciadas por todo ser humano em um grupo qualquer.
Para Schutz (1989), ao descrever as necessidades interpessoais que ocorrem
em um grupo, destaca três: a inclusão, o controle e a afeto.
Necessidade de inclusão que significa a necessidade de se sentir considerado
pelos outros, de sua existência no grupo ser de interesse para o outros. Cada membro
do grupo procura seu lugar através de tentativas para encontrar e estabelecer os
limites de sua participação no grupo, o quanto vai dar de si, o quanto espera receber,
como se mostrará ou que papel desempenhará primordialmente. É uma fase de
introdução do grupo de forma ativa e experimental:

O comportamento de inclusão se refere à associação entre as


pessoas: exclusão, inclusão, pertinência, proximidade. O desejo de
ser incluído manifesta-se como desejo de atenção, de interação, de
ser distinto dos demais. Ser completamente identificável implica que
alguém está tão interessado em mim que descobre minhas
características singulares. (SCHUTZ, 1989, p. 105).

A necessidade de inclusão é destacada na película quando na segunda


votação, quando um elemento do grupo que estava em consonância com veredito
culpado revolve associar-se a Davis e justifica:

Esse cavalheiro ficou sozinho contra nós e não está dizendo que o
rapaz é inocente, apenas não tem certeza. Não é fácil se posicionar
contra todos. Ele fez uma jogada por apoio e eu lhe dei. Respeito suas
razões, o rapaz deve ser culpado, mas quero ouvir mais. (Fala do
jurado 9 no filme).

As alianças vão se formando e o sentimento de inclusão parece estimular a


externalização dos sentimentos, ideias, posições. A necessidade de inclusão é o
sentir-se aceito, integrado e valorizado totalmente pelo grupo, além de procurar provas
de que não é ignorado, isolado ou rejeitado. Em todas as três etapas, a maturidade
social (o nível de socialização), e a necessidade de inclusão, condicionarão e
determinarão atitudes mais ou menos adultas, evoluídas.
Mas não apenas a necessidade de inclusão está evidenciada na película. Há
também no processo grupal a necessidade de controle. Para Schutz (1989, p; 107),
a necessidade de controle corresponde ao respeito pela competência e
responsabilidade dos outros e consideração dos outros pela competência e
responsabilidade do indivíduo. Encontrado o seu lugar, cada membro passa a
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interessar-se pelos procedimentos que levem às decisões, ou seja, pela distribuição


do poder no grupo e controle das atividades dos outros:
O comportamento de controle se refere ao processo de tomada de
decisão entre as pessoas na área do poder, da influência e da
autoridade. O desejo de controlar varia segundo um continuum, desde
meu desejo de ter autoridade sobre os outros (e de, portanto, controlar
o meu futuro) até meu desejo de ser controlado e isentado de toda
responsabilidade. (SCHUTZ, 1989, p. 107).

A necessidade de controle apontada por Schutz é mais salientada na dinâmica


grupal do júri. Observa-se a esse aspecto de controle quando alguns jurados
colocando-se como mais preparados, com julgamentos pré-concebidos, tendendo a
estabelecer relações de dependência por meio da desqualificação do colega outro,
com controle autocrata e tentativa de estabelecer relações mais pessoais.
A necessidade de controle faz referência ao poder, influência, autoridade, como
também os indivíduos definirão para si mesmo suas próprias responsabilidades e as
de cada membro dentro do grupo.
Na película surgem então, questões como o grupo está controlado e por quem?
Quem tem autoridade sobre quem, em que momento e por quê? Há uma disputa de
narrativas que envolve a situação de controle.
E, por fim, a película manifesta a terceira necessidade proposta por Schutz, a
necessidade de afeto. Shutz (1989, p. 108) descreve essa necessidade como
sentimentos mútuos ou recíprocos de amar os outros e ser amado, ou seja, sentir-se
amado. Uma vez resolvidos razoavelmente os problemas de controle, os membros
começam a expressar e buscar integração emocional:

O comportamento de afeto descreve sentimentos de proximidade,


pessoais e emocionais, entre duas pessoas. O afeto é uma relação
didática, quer dizer, ocorre entre pares de pessoas, ao passo que tanto
a inclusão quanto o controle são relações que podem ocorrer ou em
díadas, ou entre uma pessoa e um grupo. (SHUTZ, 1989, p. 108)

Na película essa necessidade fica explicitada quando surgem abertamente


manifestações de hostilidade direta, apoio, e outros sentimentos. Cada um procura
conhecer as possibilidades de intercâmbio emocional dos outros a fim de estabelecer
limites quanto à intensidade e qualidade das trocas afetivas.
O clima emocional do grupo dos jurados pode oscila entre momentos de
grande harmonia e momentos de insatisfação, hostilidade e tensão.
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Conclusão

A leitura realizada do filme “Doze homens e uma sentença” pautou-se no nas


contribuições de Will Schutz a respeito dos processos grupais, enfocando a
necessidades interpessoais na formação e desenvolvimento de um grupo, conceito
usado para especificar que a integração dos membros de um grupo acontece quando
certas necessidades fundamentais são satisfeitas, pois só em grupo e pelo grupo
essas necessidades podem ser satisfeitas, sendo fundamentais porque são
vivenciadas por todo ser humano em um grupo qualquer.
O filme vislumbra a necessidade de inclusão, a necessidade de controle e a
necessidade de afeto. Com a apresentação e desenvolvimento da situações a
ocorrência de mudanças comportamentais dos membros do júri, aflorando
sentimentos, mágoas, motivações, necessidades, que precisavam ser expostas,
contidas, legitimadas para promover a independência grupal.
Não existia um líder, mas no decorrer da história, vários personagens, ao se
tornarem protagonistas exerceram essa função, fizeram colocações panorâmicas ou
sintéticas, possibilitando a integração emocional e social do grupo.
Sendo os processos grupais um movimento inacabado, assim também são as
nossas ideias, comportamentos e impressões, sempre delineadas a partir de dado
contexto. Nesse sentido, consideramos o trabalho exposto passível de outras tantas
apreciações e interpretações, visto ser a verdade algo inatingível como está expresso
na epígrafe.

Referências
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DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA. Direção: direção de Sidney Lumet., Produção:


Wolfgang Reinhardt. Estados Unidos da América: Constantin Film, 1957. Disponível
em: <(https://vimeo.com/158869195>. Acesso em 11.maio.2019.

SCHUTZ, Will. Profunda Simplicidade. Tradução Maria Sílvia Mourão Netto. São
Paulo: Ágora, 1989.