Apontamentos de FPP, Mestrado: RID-P.
E, 2024/2025 Orlando Azarias Banze
RESUMO
O presente trabalho faz resumo de anotações decorrentes dos estudos das políticas públicas
que foram objecto de avaliação pelo Prof. Doutor Rodrigues Niuane Cumbane. De acordo
com Araújo e Rodrigues (2017:4), análise/estudos de políticas públicas surge e desenvolve-se
nos EUA no pós guerra, em condições políticas, económicas e sociais caracterizadas pelo
alargamento das áreas de intervenção do Estado na resolução de problemas, bem como o
trabalho entre académicos e investigadores de ciência política: orientação ao
desenvolvimento de conhecimento e informação necessários à boa governação. Políticas
públicas diferem-se da política porque elas são, segundo Dye (2016b), qualquer coisa que
governos escolhem fazer ou não fazer e, segundo Pedone (1986:10), nexo entre a teoria e
acção (valores sociais e institucionais). Ao passo que Política é, segundo De Sousa
(2005:144), um conjunto de meios através dos quais o poder é utilizado de modo a influenciar
a natureza e os conteúdos da actividade governamental. Temos como pais fundadores de
estudos de políticas públicas, de acordo com Araújo e Rodrigues (2017) e Souza (2002:3):
Lasswell (1936) que apresentou expressão policy analysis atrvés do qual contribuiu para a
estruturação do campo de análise das políticas públicas como ciência social aplicada e para
lançar as bases do modelo de análise sequencial ou das 7 etapas do processo político
(informação, iniciativa, prescrição, invocação, aplicação, avaliação e cessação); Simon
(1957) ao debate o conceito policy makers segundo o qual a racionalidade dos decisores
públicos é limitada por vários problemas (informação incompleta ou imperfeita, tempo para a
tomada de decisão, auto-interesse dos decisores); Lindblom (1959: 84-86)1trouxe modelo
analítico no qual defende que, o processo de decisão política é construído passo a passo por
mudanças incrementais na base de políticas preexistentes, envolve ajustamentos mútuos e
negociação, e não é uma solução final para os problemas; e, Easton (1965) definiu políticas
públicas, no seu modelo, como um output do sistema político, revelador da emergência, da
natureza e da actividade do estado. De acordo com Pedone (1986) há concordância no que se
refere à subdivisão do processo de políticas públicas, e sendo constituído por – formação de
assuntos públicos e de políticas públicas – fase em que as questões públicas surgem e formam
correntes de opinião ao seu redor; formulação de políticas públicas – processo de elaboração
de políticas no executivo, no legislativo e em outras instituições públicas, sob os pontos de
vista da racionalidade económica e político-sistémica; processo decisório – interligado com o
anterior e com delimitações próprias, onde actuam os grupos de pressão exercendo influência
sobre os decisores; implementação das políticas – processo de execução das políticas
1
Lindblom, Charles E. (1959). “The science of ‘muddling through”. Public Administration Review, 19 (2), pp.
79-88, disponível em: https://faculty.washington.edu/mccurdy/SciencePolicy/Lindblom%20Muddling%2
0Through.pdf (última consulta em agosto de 2016).
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resultantes dos processos de formulação e decisão; avaliação de políticas – avalia-se padrões
distributivos das políticas resultantes – analisam-se os efeitos pretendidos e as consequências
indesejáveis e impactos gerais na sociedade, na economia e na política. De acordo com
Pedone (1986:13), as formas de entrada de assuntos na formação da agenda pública são:
primeira forma dá-se pela resposta a crises de carácter imediata; segunda, é através do
processo político onde políticos procuram se visualizar por iniciativas; a terceira é a ordem de
eventos sequenciados no executivo, legislativo ou judicial desde o nível central até local; e a
quarta resume-se na antecipação a problemas e conflitos latentes no horizonte de assuntos
públicos. De acordo com Pedone (1986), o modelo de racionalidade económica propõe que o
sistema económico induz a formulação de políticas públicas. E, o modelo político-sistémico
defende que os actores no jogo do poder do processo de formulação interagem e chegam a
um acordo político que permite exercício do pluralismo e funcionamento do sistema político
sem mudanças básicas. De acordo com Pedone (1986:20), formulação responsável de
políticas públicas caracteriza-se por buscar nas justificativas morais os critérios para o
processo de formulação das políticas públicas. Para Pedone (1986), a análise de políticas
públicas tem um importante papel na criação e na defesa de valores sociais defensáveis. Nas
formações liberais-democrático-capitalistas, o processo decisório é produto do livre jogo de
influências e de poder entre grupos de pressão organizados. Nas formações socialistas de
planeamento centralizado, o processo decisório é realizado pela elite do Estado de acordo
com padrão de valores reconhecidos. O lógico é a definição e identificação dos problemas
sociais. De acordo com Araújo e Rodrigues (2017:18) e Dye (2016b:12), políticas públicas
são tomadas na base de modelos – sequencial que permite explorar e investigar o processo
das políticas públicas por redução da sua complexidade; multiple streams framework – que
explica como é que os problemas se transformam em problemas políticos, como captam a
atenção do público e dos políticos e entram na agenda da acção pública; incrementalismo
uma visão segundo a qual, políticas públicas são continuação de actividades passadas de
governos com modificações incrementais; garbage can defendendo que as escolhas de
políticas públicas são feitas como se as alternativas estivessem numa lata de lixo – existem
vários problemas e poucas soluções; racional segundo o qual, a política racional é aquela que
alcança o máximo ganho social, ou seja, quando a diferença entre valores alcançados e os
sacrificados é positivo e, maior que qualquer que seja outra alternativa; coalizão de defesa
defende que a política pública deveria ser um conjunto de subsistemas que são relativamente
estáveis, que articulam-se com acontecimentos externos, os quais dão parâmetros para
constrangimentos e recursos de cada política pública; arenas sociais vêem políticas públicas
como sendo iniciadas pelos chamados empreendedores políticos, isto é, para que uma
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determinada circunstância ou evento se transforme num problema, é preciso que as pessoas se
convençam de que algo precisa ser feito; equilíbrio interrompido defende que os subsistemas
de uma política pública permitem ao sistema político-decisório processar as questões de
forma paralela, fazendo mudanças a partir da experiência de implementação e de avaliação, e
só em períodos de instabilidade ocorre uma mudança serial mais profunda. Segundo Araújo e
Rodrigues (2017), este modelo permite explicar as descontinuidades ou interrupções
(punctuations), bem como as continuidades (stasis) das políticas, defendendo que o mesmo
sistema institucional gera as mudanças pequenas e graduais e as grandes rupturas. Para Lowi
(19642;1972, citado por Souza, 2002) a política pública pode assumir quatro tipologias:
políticas constitutivas/estruturantes – que lidam com procedimentos; políticas regulatórias –
são mais visíveis ao público, envolvendo burocracia, políticos e grupos de interesse; políticas
distributivas – decisões tomadas pelo governo que desconsideram a questão dos recursos
limitados, gerando impactos mais individuais do que universais, ao privilegiar certos grupos
sociais ou regiões em detrimento do todo – exemplos de políticas públicas que favorecem o
clientelismo e o patrimonialismo; e, políticas redistributivas – são as que atingem maior
número de pessoas e impõem perdas concretas e no curto prazo para certos grupos sociais e
ganhos incertos e futuro para outros; são, em geral, as políticas sociais universais, o sistema
tributário e o sistema previdenciário. Constação: a concepção dos planos estratégicos de
desenvolvimento do país: Plano Prospectivo Indicativo, Programa de Reabilitação
Económica/e Social, Plano de Acção para Redução da Pobreza Absoluta e, Plano de Acção
para Redução da Pobreza configuram-se nos conceitos de políticas públicas vistas como
qualquer coisa que governos escolhem fazer ou não fazer (Dye, 1984a e 2016b) ou nexo entre
o pensamento/teoria e acção/prática (valores sociais e institucionais), enquanto representantes
ou gestores do Estado (Pedone, 1986).
Referências bibliográficas
Araújo, Luísa & Lurdes Rodrigues (2017) Modelos de Análise das Políticas Públicas. Fórum
das Políticas Públicas, Lisboa.
Dye, Thomas R. (2016) Understanding public policy. McKenzie Professor of Government
Emeritus, Florida State University. Fifteenth edition.
Pedone, Luiz (1986). Formulação, Implementação e Avaliação de Políticas Públicas.
Fundação Centro de Formação do Servidor Público – FUNCEP, Brasília.
Souza, Celina (2002). Políticas Públicas: Conceitos, Tipologias e Sub-Áreas. USP.
2
Lowi, Theodor (1964a). American Business, Public Policy, Case Studies and Political Theory", World Politics,
16: 677-715.