Ritos de passagem, iniciação, e
iniciação maçónica
13/02/2020
Quando comparamos as Iniciações
aos mistérios de Elêusis, na
Antiguidade Clássica, com a recepção
na sociedade secreta dos Mau-Mau,
existente entre os Kikuyu do Quénia,
e com a Iniciação Maçónica, o que é
que podemos encontrar em comum
entre estas diferentes formas rituais ?
A Etnologia responde-nos a esta
questão através do conceito de “Ritos
de Passagem”, dos quais a Iniciação
é, seguramente, um protótipo.
Estes Ritos são realizados para
concretizarem as transições de
indivíduos, entre dois estados
diferenciados.
Sejam estas alterações mudanças de
limiar (tais como nos ritos de
acolhimento de estrangeiros), de
passagem de etapas do ciclo de
existência (como por exemplo os ritos
de nascimento, puberdade,
casamento ou, funerários), ou de
admissão num novo grupo (religioso
ou não), todos os Ritos de Passagem
apresentam sempre uma estrutura
sequencial comum.
Esta foi caracterizada em 1909, pelo
etnólogo francês Arnold Van Gennep
(1873-1957). De acordo com este
investigador, o ritual, que não é mais
do que um sistema cultural
de (Publicado em
[Link]) comunicação
simbólica, constituído por sequências
ordenadas e padronizadas de
palavras e de actos, assume, nestes
Ritos, um desenvolvimento ternário,
composto por três fases principais
encadeadas entre si.
Estas são:
A preliminar, na qual se dá o
isolamento do individuo do grupo,
ou do seu mundo antigo, e que
constitui o rito de separação;
A liminar (do latim limen, limiar)
na qual se dá o
recondicionamento, sendo o
participante frequentemente
confrontado com a sua própria
morte simbólica, ocorrida na fase
anterior (rito de margem);
A post-liminar na qual se dá a
integração do individuo no novo
mundo ou estatuto,
frequentemente através de um
renascimento simbólico,
constituindo um rito de agregação.
Nos anos 80 do século passado, o
antropólogo britânico Victor Turner
(1920-1983) aprofundou os estudos
de Van Gennep, incidindo mais
especificamente na fase liminar.
Ele concluiu que a mesma
corresponde a um estado fronteira
entre dois mundos, semelhante aos
limbos, caracterizado por grande
ambiguidade e incerteza, no qual se
verificam a humildade, as provas, a
privação de liberdade e, aquilo que
ele designou de communitas, uma
comunidade desestruturada, onde
todos os indivíduos são iguais.
A Iniciação distingue-se, entre os
Ritos de Passagem, por operar uma
transformação radical dos iniciados,
sempre no sentido de uma elevação
de estatuto.
Mircea Eliade tipificou as Iniciações,
distinguindo-as entre as iniciações
tribais, as de sociedades secretas e,
as religiosas.
As Iniciações tribais são ritos de
passagem à idade adulta,
obrigatórios, sexualmente
diferenciados e, geralmente
colectivos.
As Iniciações ditas às sociedades
secretas são, pelo contrário,
voluntárias e, em geral, individuais.
Por ultimo as Iniciações religiosas são
ritos de acesso a um estatuto de
especialista ritual, e de futuro
oficiante.
Esta compartimentação revela-se,
todavia, na pratica, demasiado rígida,
na medida em que muitos casos
integram características de vários, ou
de todos estes tipos.
No entanto, podemos dizer que os
elementos essenciais de (Publicado
em [Link]) uma Iniciação são:
a transformação do iniciado, a
ritualização complexa, a importância
da liminaridade ritual, a presença de
provas, o papel essencial do segredo
e, a transmissão de um saber
iniciático.
Nos rituais de Iniciação,
nomeadamente na Iniciação
Maçónica, a mensagem não se
encontra no Ritual per si, mas sim na
sua vivencia e, interpretação.
Assim, o segredo iniciático consiste
nesta experiencia pessoal que é, por
natureza, incomunicável, dada a
incomunicabilidade do Ser.
Da mesma forma que as sensações
não são, integralmente,
transmissíveis, a percepção dos
símbolos e do rito, que decorre
através de um processo interno
pessoal, é também incomunicável.
Cada iniciado penetrará em maior ou
menor profundidade neste segredo,
de acordo com as suas possibilidades
pessoais de realização, dos seus
limites de compreensão e, do seu
estado de despertar da consciência.
Esta noção de segredo, ligada à
Maçonaria, constitui igualmente um
factor de união entre todos os Irmãos,
criando simultaneamente uma
cumplicidade fraternal e, um
sentimento de responsabilidade
individual e colectiva, face às
exteriorizações.
Existem várias formas de Iniciação
Maçónica, que diferem consoante o
Rito praticado, mas todas obedecem
à estrutura ternária de Van Gennep.
Na Iniciação Escocesa, a fase
preliminar consiste na passagem pela
Câmara de Reflexões, na qual o
postulante, isolado do contacto com o
exterior, e com iluminação reduzida, é
confrontado com uma série de
objectos de carácter simbólico, que
lhe sugerem uma morte para a sua
vida profana, e a necessidade de
viajar ao interior de si próprio.
Este rito de separação enfatiza a
rotura com o seu Eu profano, através
de uma desconstrução da sua forma
anterior de pensar e, de agir, baseada
no reforço do seu Autoconhecimento,
e no Livre Exame.
Trata-se de um despertar da
consciência, sedimentado de agora
em diante, num continuo
questionamento de si próprio face aos
seus deveres, livre dos
condicionamentos das paixões, e dos
preconceitos, inerentes ao “estado de
trevas” em que se encontrava.
Podemos pois considerar que a
Iniciação do REAA tem o seu ponto de
partida na entrada na Câmara de
Reflexões, pois é este o momento em
que o postulante, pela primeira vez
na sua vida, é colocado perante si
próprio.
Para além de a Iniciação Maçónica se
tratar de um processo de despertar
da consciência constitui, por si só já
um acto de consciência, pois
ninguém, a menos que esteja apenas
motivado pela curiosidade, se disporá
a ser Iniciado, se não estiver ciente
do facto de não ser positivo o seu
“estado tenebroso”, e se não
pretender polir as asperezas da sua
Pedra Bruta, numa obra na qual será,
simultaneamente, material de
construção e, obreiro .
A fase liminar da cerimónia decorre
entre a preparação do candidato para
a entrada no templo e, o momento
em que lhe é dada a Luz.
O recipiendário é, então, posto num
estado de indeterminação, “border-
line” entre dois mundos, que
sublinhará algumas partes dos
discursos que irá ouvir em Loja.
Torna-se necessário privá-lo do que
indica, revela e, simboliza o mundo e
os valores profanos, antes de o
constituir, receber, e lhe dar o que
materializará o mundo no qual será
admitido.
Assim, em primeiro lugar, o candidato
é privado da vista, situação esta que
lhe reduz a liberdade de movimentos,
necessitando de ser guiado.
Seguidamente é desprovido das suas
riquezas materiais, designadas
de “metais”, que no seu mundo
servem de meio social de troca.
O candidato é, também, privado da
palavra, livre e espontânea, a qual
constitui um laço social importante,
pois permite a comunicação com o
outro.
O estado de indeterminação é ainda
acentuado pela perda de liberdade e
de equilíbrio com que executa as
viagens, no Templo, e pela privação
parcial da sua roupa, materializada
pelo estado de “nem vestido nem
despido” em que é colocado.
As provas físicas a que é submetido,
de purificação pelos elementos,
acentuam a realização de um
processo progressivo, que
transmutará o recipiendário, dando-
lhe acesso a uma realidade
ontologicamente diferente, no
caminho do pleno desenvolvimento
das suas potencialidades materiais,
intelectuais e, espirituais.
Finalmente, ao ser-lhe dada a Luz, o
candidato passa a neófito,
renascendo para uma nova vida.
A fase pós-liminar concretiza a
agregação ao grupo, através do
juramento, recepção, investidura dos
paramentos do grau, comunicação
dos respectivos segredos e,
participação do novo Irmão no
Encerramento dos Trabalhos.
A Iniciação Maçónica integra-se,
assim, na vasta corrente das
Iniciações Tradicionais e, é um
exemplo clássico de Rito de
Passagem. Poderemos, todavia,
questionar qual o seu sentido para o
Homem contemporâneo e, o que é
que, no aqui e agora, ela pode
acrescentar ao Iniciado do século XXI.
Muito embora a Maçonaria seja
Universal, não existe um só sentido
de prática maçónica, nem um só
estereotipo de Maçon.
A Iniciação Maçónica pode ser
encarada com diversos objectivos
principais, sejam eles de
aperfeiçoamento pessoal filosófico
e/ou espiritual, de defesa de valores
éticos, humanísticos, de laicidade,
republicanos, ou até de especulação
de ordem esotérica, em busca de uma
Tradição primordial.
Em qualquer um destes casos, o
percurso iniciático pressupõe sempre
um novo olhar sobre si próprio e,
sobre as suas relações com os outros,
que fundamentará o
exercício (Publicado em
[Link]) do livre arbítrio numa
base mais justa e mais fraterna, e que
permitirá ao Mestre Maçon reunir o
que está disperso, sempre entre o
Esquadro e o Compasso.
Será que as actuais Obediências e
Lojas conseguem estes desideratos
relativamente aos seus membros ?
Será que a maior parte dos Maçons se
impregnam suficientemente da Luz,
para a irradiarem convenientemente
no Mundo Profano ?
A Maçonaria é uma instituição
humana e, “errare humanum est”.
Daí a extrema importância de que se
revestem a qualidade do
recrutamento e da transmissão, numa
época de dissolução de valores éticos
como a que atravessamos.
Maus Mestres Maçons recrutam maus
profanos que, por sua vez, serão
também maus Mestres, transmitindo-
se nesta Cadeia Iniciática apenas
iniciações virtuais, que só relevam
o “parecer em detrimento do ser”.
Porem, a Via Iniciática continua a
estar embutida no psiquismo do
Homem, constituindo ainda a
Iniciação Maçónica, quando
plenamente vivida, uma resposta à
exaltação do Ego, característica das
Sociedades actuais, bem como uma
oportunidade única de contribuição
para uma obra comum, intemporal,
por uma Humanidade melhor.
E, saber donde vimos, quem somos, e
para onde vamos são perguntas para
as quais não existe uma resposta que
seja Verdade absoluta, e que tanto
interessaram ao Irmão do século das
Luzes, como continuam a importar ao
Maçon contemporâneo.
Permanece válida a afirmação de Van
Gennep de que “para os grupos,
como para os indivíduos, viver é
incessantemente desagregar-se e
reconstruir-se, mudar de estado e de
forma, morrer e renascer”, sendo
certo que todo o Ser Humano e toda a
Sociedade podem sempre reconstruir-
se aperfeiçoando-se, continuando a
fazer sentido as palavras do Irmão
Oswald Wirth de que “A Franco-
Maçonaria é chamada para refazer o
Mundo. A tarefa não é superior às
suas forças na condição de que ela se
torne o que ela deve ser”.
Joaquim Grave dos Santos
Bibliografia
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[Link]
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[Link]
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maconica/