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Quinta feira, 26 de janeiro de 2012 – 7h [GMT + 1

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Número 140
Eu não teria perdido um Seminário por nada no mundo— PHILIPPE SOLLERS Nós ganharemos porque não temos outra escolha — AGNÈS AFLALO www.lacancotidien.fr

Sob o olhar •

Crônica Vienense I
Por Laure Naveau
Esta crônica também poderia ser chamada de “Sob a luz”; feliz luz que nos permite atravessar momentos muito sombrios da História (NDLR)

Uma criança nasceu em Viena - herdeira de duas gerações de psicanalistas – neste início de 2012, juventude do mundo de ontem subitamente luminoso. O simbólico no XXI século será jovem, enfim. Exilado em Londres no final de sua vida, Freud, “por sua tradição”, escrevia Lacan, nasceu nesse lugar como um hóspede de passagem”. Viena, cidade da tradição e do melting pot”[1],

menos ainda. e porque eu. “Não é que a coisa tenha chocado esse auditório (. A prática da psicanálise foi desvelada e não retornará. à luz do nascimento de uma pequena princesa. fazendo ouvir a sua voz na inesquecível conferência sobre A Coisa Freudiana ou o Sentido do retorno a Freud em psicanálise? Freud. no campo da linguagem e do contexto de um discurso. Lacan afirma a supremacia do inconsciente e da ordem simbólica lá onde os psicanalistas os desalojaram em proveito do imaginário e da teoria do eu. quando ensino isso. disseram-me textualmente(. não foi compreendido. há mais de cem anos. essa palavra não é bonita.).. falo [2] Alguns anos mais tarde. Lacan era claro: nenhuma linguagem será capaz de dizer o verdadeiro sobre o verdadeiro. e. digo o verdadeiro sobre Freud – que . essa aventura dos confins do fim da unidade da psicologia onde. Permanecendo em seu abrigo.. ele reabilita o sintoma em sua dignidade humana. simplesmente assim. que não pode ser desvelada a não ser no horror.). A coisa. Lacan evoca sua viagem a Viena como tendo sido marcada por um “ponto de um lugar desertado”. Eu. e não há outro meio para fazêlo. No mesmo golpe. Para dimensionar o mal entendido (. a verdade. para o inventor da psicanálise.. em novembro de 1955. não será. “A verdade [como causa] funda-se naquilo que fala. o que nos faz diluir. decifras “sem nostalgia” a ordem simbólica de uma cidade que viu nascer. não se sonha coisificar. ora bolas! A quem se fiar? As pessoas não se veem como são.. Ele assimila a sua Coisa freudiana à coisa que não se pode nomear. sua mensagem esperou ser decifrada. Como então. e denuncia a surdez de seu auditório da época. A Ciência e a Verdade. um discurso inédito? Onde passou a mensagem freudiana segundo a qual o doutor Lacan rendeu homenagem. é claro. disse ele.“ponto de convergência cultural da qual soube fazer o concerto”[i]. E é assim porque o inconsciente que diz o verdadeiro sobre o verdadeiro está estruturado como uma linguagem. quando se abordam sob máscaras filosóficas.): “Porque ele não diz o verdadeiro sobre o verdadeiro?”[ii] Já nessa época. em seu último texto dos Escritos.. senão uma terra de exílio..

Esta falta do verdadeiro sobre o verdadeiro (. A fala tem um valor de verdade. e tal qual um visionário. a via estrita emprestada pelo discurso analítico ao XXIº século. será capaz de permanecer? Ao contrário de Freud. Mahler arranja. Stephen Zweig é um homem para o qual desmoronou. pode ser lido. o que será da psicanálise. lacaniana: A psicanálise é um sintoma. “uma ruptura irremediável dos lugares nos quais os significantes mestres haviam se inscrito e orientado a civilização. Ventura. (. o lugar do Urverdrägung[3]. Por seu suicídio. “aspirado pela destituição da figura do pai (... “Joyce fez explodir por si mesmo a ordem simbólica. a cada arte. pode ser pintado. (. “A ameaça ao avesso da psicanálise” é um fantasma que percorreu todo o movimento analítico.) ele reduziu ao silêncio a vociferação de um mundo que não mais o representava”. a verdade falar. ele a desintegra a partir da letra ilegível. escreve O. . Os arquitetos e os Plásticos[4] criam o Jugenstil. Oscar Ventura levanta esta questão: se não há mais a ordem simbólica.) Ou melhor.. a continuar a viver mantendo uma posição ética (sem nos suicidarmos ou nos submetermos à ditadura do objeto pós-moderno)”. através de uma outra boca. Ventura. A liberdade da alma e a liberdade da arte estão juntas. que as pedras. sua arte. Escândalo! A mulher não mais é mãe. sob o nome de inconsciente... É esta. Ao mesmo tempo em que Freud publica a Interpretação dos Sonhos. a aceitar a inconsistência do mundo sem cair no cinismo nem no suicídio. toda esperança no mundo no qual viveu”... realmente. em sua honra. Identificação melancólica que o opõe a Joyce. o véu não mais retém suas formas. Zweig testemunha o desmoronamento. e. os artistas da Secessão..) Recordar. reitera O.mais provocante em Schiele com “O cardeal e a freira”. (. desde a sua criação em Viena. mas de seu sucesso. Por exemplo.) é.. a IX sinfonia de Beethoven e Gustav Klimt pinta.) Joyce nos ensina a pensar o bom uso da ironia. sua liberdade”.” [iii] Sem nostalgia Em seu artigo para os PAPERS. Eles não hesitam em derrubar os modelos do velho império: “A cada época. apareciam em Viena.. do seu jeito. lá.) e do insuportável que foi para ele a queda dos ideais forjados durante séculos”. em abril de 2011. Em 1900. O café vienense torna-se um lugar histórico de discussões de vanguarda. e Freud não cessou de dizer isto.. o amor carnal é evocado – pudicamente em Klimt com o seu magistral “Beijo” que nos transtorna. Oskar Kokoschka preconiza a destruição da linha e uma outra utilização para a matéria e a estrutura do quadro. É esse o manifesto. seus costumes afrouxam.. (. ao lado da psicanálise nascente.soube deixar. um friso sobre a mulher. Por sua arte. quando é preciso. sabem também gritar.[5] O arquiteto Josef Maria Olbrich cria o Palácio da Secessão. Koloman Moser e Hoffmann decoram as paredes e o mobiliário com uma sobriedade geométrica que . Daí a necessidade de uma formulação inédita. O inconsciente descoberto por Freud pode ser dito. o que pesa sobre ela? Sua resposta é luminosa: a psicanálise não se encontra ameaçada de extinção.

em Bruxelas. procurando utilizar em sua pintura as formas de representação as mais contemporâneas: fotografia. levantamento sobre o visível – No a posteriori à exposição. (. Hoje. Os psicanalistas vienenses da IPA. justamente. a psicanálise. cinema. com seu conservadorismo mortal. Mas. são criados os Ateliês aplicados (Wiener Workstätte).valoriza o objeto nu e sua matéria prima. atormentado. o magnífico Palácio Stoclet d’Hoffmann. pode-se dizer mais ou menos assim: em 1938. O artista. depois. em Viena. um vazio. Foi assim que. Por Agnès Vigné-Camus Um ressalto ao artigo de Elisabeth Pontier do Lacan Cotidien nº 135 Contrariamente às ideias recebidas. um lugar de falta-a-ser. aplainada pela tradução francesa “O eu (moi) deve desalojar o id”. Em 1905. reproduzido por ocasião da exposição temporária do Belvedere. reescrever Freud. falecido em 1944. pelo contrário. ou a arte. tantas vezes utilizada pelos pioneiros da experiência analítica. era. Era esse o propósito das duas curadoras da exposição Angela Lampe e Clément Chéroux: dissociar o mito solidamente estabelecido do artista vivendo em uma torre de marfim.[iv] Ressalto Edvard Munch... sua alma às TCC. A Revista cosmopolita Ver sacrum (1897-1903) preconiza uma nova concepção de existência: ou o comércio. Em 1903. Ele a traduziu: “Ali onde isso era. venderam. preocupado unicamente com o seu universo interior”. em uma manhã. Freud foi caçado em Viena pelo horror nazista. criados por Freud.) Foi muito admirada a forma pela qual ele soube fazer valer a frase de Freud “Wo Es war. Edvard Munch não era “um artista solitário.) É um lugar de ser e. (. também. p. Jacques-Alain Miller retoma discretamente esse fato em seu ensino “Vida de Lacan”: Lacan vai. (Estamos hoje com as TCC: ou o comércio. um homem em sintonia com o mundo de seu tempo. A “Casa” de Freud com sua bela escada de pedras. Veja seu escrito: A coisa freudiana. como. ou a psicanálise). . também. não tinha muito a ver com o inconsciente. Lacan chega a Viena para ali fazer ouvir a sua voz e o retorno ao sentido de Freud... Pode-se ver surgir. soll Ich werden”. o movimento da Secessão se afirma com o conceito de “obra de arte total” que se apoia na psicanálise e na estampa japonesa para melhor se libertar do classicismo. 417 dos Escritos[6]. a leitura de Lacan repousa de forma explícita sobre a localização do sujeito do inconsciente no seio do id.

não apenas tratar o real com o qual se ocupa. A passagem ao ato põe fim a uma relação de devastação. após ter posto a câmara.. finalmente. desde o início. não se trata de demonstrar o que ultrapassa o . não é também válido pintar centenas de maçãs ou violinos sobre uma mesa?”[ix] Munch está à procura dos traços do real. o que ele faz? Ele procura. capturado. mas poderiam arrancar a serpente que corrói as raízes de meu coração? . é quando ele prova a autointitulada realidade objetiva que o olho percebe. ameaça de suicídio que culmina em automutilação. Para ele. É por isso que é necessário que eu escolha entre o amor e meus quadros”.[viii] Suas telas são. É o que ele tenta fazer compreender Tulla Larsen.É certo que te amo – é justamente isso que é doido – eu sou pouquíssimo inclinado a sair com alguém (. pois se Munch utiliza a fotografia e a imagem animada. Silhuetas diáfanas aparecem e desaparecem do visor.) sou feito para pintar quadros. A arte é para ele uma tentativa de extração inaudita daquilo que queima – “A lava incandescente de meu cérebro sai borbulhando em meus quadros” – “uma força motriz de cristalização” que “submeteu sua lei” à natureza[vi]. fiquei vivamente tocado.. Enfim. quando ele multiplica os clichês. Ele escreve: “Quando estou totalmente habitado por essa imagem. Tal procura aparece principalmente quando o artista dilui a matéria pictórica. e do qual retira o motivo sob diversas formas: telas. cenas intermináveis. e isso produz efeitos de transparência em seus quadros. impasse evocado em suas cartas à amada. Obsedado e atormentado por um vestígio. aos quais se encontra confrontado. tentando capturá-los sobre a película e a torná-la sensível em suas telas. Obras primas imortais sairão de suas mãos .Percorrendo as salas da exposição.eu: Sim. pela tomada de perspectiva das fotografias. Você nunca poderá fazê-lo”[v]. uma fábrica incessante na qual ele engaja incessantemente seu ser. ele não hesita em dar às suas obras “um tratamento de cavalo” – deixando os quadros sem proteção do lado de fora. afim de que eles ganhem o matiz procurado. utilizando todas as aparelhagens possíveis. Em seguida.“Poder criar a beleza para os outros é o meu martírio”[vii] Munch pensa que pintar é o único destino possível para si. dos filmes e dos quadros. desenhos. mas a traduzir o que ele vê. Para dar a forma que convém à sua pintura. ele caminha sobre o espectador. Ele atira uma bala na mão. como que passando do outro lado do espelho. lembrando uma dupla exposição fotográfica. sua companheira de momento.Ele: Isso não. eu sei. a ele. o que tem por efeito que Tulla renuncia. Ele escreve em 1928[x]: “A natureza não é apenas o que é visível ao olho. Ela também comporta as imagens internas da alma – as imagens impressas na retina”. neles aparece um halo luminoso invisível a olho nu. fabricando um “universo independente” ao qual indica as forças em um de seus escritos. É esta a função dos clichês da modelo Rosa Meissner que ele fotografa em 1907 no hotel Rohn. sua saúde e seu orgulho face àquilo que ameaça consumi-lo. concordei inteiramente com aquela proposição. surda a seu apelo: “Meu amor – te agradeço muitíssimo por tuas cartas . ao mesmo tempo. numa ligação que não cessa de terminar para em seguida retomar: de lua de mel com promessas de casamento não cumpridas. ele o procura cernir sempre de maneira a mais precisa possível. pois. Como o prova um filme no qual. litografias e mesmo uma escultura em bronze. Então. encenando um duplo com o qual conversa: “ – Ele: você vai executar grades coisas.

(N. para nossa felicidade. tudo resplandece e faísca – os planetas brilham – os átomos brilham”. “O sol”. o vegetal devora a casa. Sobre o quadro. velado.) Pinto as linhas e as cores deixadas sobre a minha retina sem nada ajuntar – sem os detalhes que não mais vejo – o que resulta na simplicidade dos quadros – o seu vazio aparente”[xi] O que se descobre. fantasmáticos. Desenvolvida nos finais do sec XIX e inícios do XX. a levantar uma ponta do véu. tanto mais surpreendente por ser normalmente invisível. T.os chamados artistas “plásticos” ou “visuais” que se contrapunham às chamadas “belas artes”. Uma experiência sobre a qual ele consente.) [3] Em alemão no original. Angéla Lampe et Clément Chéroux apontam que seus ensaios sobre a fotografia e o cinema são também “notas visuais” que documentam. como ele bem disse. T. – “Fecho os olhos na escuridão. je parle. seu trabalho de pintura[xii]. [1] Em inglês no original: caldeirão no qual os elementos heterogêneos de uma sociedade vão se fundindo em direção a uma sociedade mais homogênea (N. T. de alguma maneira. T. enquanto os personagens. portanto. o vazio fixado pelo olho de Munch. Esse trabalho deve ser colocado em perspectiva com a experiência de um gozo que o atravessa e. “Neve fresca sobre a avenida” um caminho desértico se encontra em primeiro plano. Também chamado de “arte decorativa” que guarda uma certa semelhança com a “art nouveau”.. introduzindo uma diferença nos dois termos eu em francês. “Vinha virgem vermelha”. aparecem na extremidade da tela como se deslizassem em direção a uma zona fora do campo. Moi. [4] No original plasticiens. é uma paisagem desertada de toda vida humana. No fundo de mim. Disto se pode ter uma ideia através de certos quadros como “Noite estrelada”. Sobre uma outra. (N. principalmente na Alemanha.).) [2] Em francês.quadro da realidade que às vezes o invade e que evoca com uma infinita delicadeza?: Pinto o quadro após impressões percebidas por meu olho durante os instantes de emoção (.) [5] Jugenstil.. la verité.) . com efeito. “O tronco amarelo”. o irradia. No centro da imagem. verdadeiro foco. o recalque original (N. T. (moi e je) que não há em português (N.

98 [vi] Ibid. p. 22 [xii] Apresentação da exposição ▪ LANÇAMENTO ▪ .882s). Bras. [iv] MILLER.) [i] Lacan. XXI. lição de 9 de março de 2011. Paris. p. Bras. p. p. 418 (N.). 244 [viii] Ibid. Les couleurs de la névrose. T. p.). T. A ordem simbólica no sec.. [v] Notas de 'Edvard Munch in Atle Naess. N. 401 (na Ed. 20 [xi] Ibid. “Orientação lacaniana: Vida de Lacan”proposto no quadro do departamento de psicanálise da Universidade Paris 8. p. Não é mais do que é. p. Nota: Por ocasião da primeira reunião do VIII Congresso da AMP. [iii] Idem. p.881s. l'exposition. p. p. Seuil. Centre Pompidou.364 [vii] Ibid. 2011.. Paris. Munch. Bras. 402. [ii] Idem.. 155 [ix] Relativo ao pintor e retranscrito na exposição [x] Edward Munch. Jacques-Alain. Quais as consequências para a direção do tratamento? Oscar Ventura deu uma conferência no dia 19 de abril de 2011 intitulada “Sem nostalgia”. Escritos. As ideias de citadas por Laure Naveau podem ser reencontradas na sua crônica (NDLR). 1966. Inédito. 867 (na Ed. p. p. p.[6] Em português. 868 (na Ed. l'œil moderne. p. Editions Arzan.

Entrelinhas: 1.fr . avenue Édouard Vaillant.editionsmichele. Métro Marcel Sembat – ligne n°9 _________________ Aos autores: Proposta de textos para publicação no Lacan Quotidien devem ser dirigidas por email ou diretamente no site lacanquotidien. Nota de pé de página: a mencionar no corpo do texto.Nas livrarias em 2 de fevereiro! E nos site das éditions Michèle : http://www. Tamanho: 12.clicando no item “propozez un article”.15. Parágrafo: Justificado.com ▪ VAMOS ! ▪ Convocação Fórum organizado pelo Pas de O de conduite relativo a crianças de 3 anos De sexta a domingo. tamanho10 _________________ . 28 de janeiro de 2012. em seu final. Fonte: Calibri. em Word. no Instituto de psicologia de Boulogne-Billancourt (92) 71.

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