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Benito Fake - Miolo - VF Ebook

O livro 'O Fake' de Benito Maeso explora a natureza da desinformação e como ela se entrelaça com a vida cotidiana, questionando a definição de verdade e mentira. A obra discute o impacto das fake news na sociedade e propõe uma reflexão sobre a confusão entre real e imaginário, incentivando os leitores a buscar uma compreensão crítica do fenômeno. Com um prefácio de Marilena Chaui, o autor utiliza uma abordagem socrática para instigar o pensamento crítico sobre a ideologia do fake em nosso tempo.

Enviado por

Jairo
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Benito Fake - Miolo - VF Ebook

O livro 'O Fake' de Benito Maeso explora a natureza da desinformação e como ela se entrelaça com a vida cotidiana, questionando a definição de verdade e mentira. A obra discute o impacto das fake news na sociedade e propõe uma reflexão sobre a confusão entre real e imaginário, incentivando os leitores a buscar uma compreensão crítica do fenômeno. Com um prefácio de Marilena Chaui, o autor utiliza uma abordagem socrática para instigar o pensamento crítico sobre a ideologia do fake em nosso tempo.

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Benito Maeso

(@be_maeso)

O FAKE

O QUE É ISSO?

E por que
vivemos nele?

Prefácio por
Marilena Chaui

Coleção
SENSO CRÍTICO
Copyright© 2024 dos autores
Todos os direitos reservados.

EDITOR-CHEFE
Geraldo Balduino Horn

GESTÃO COMERCIAL
Célia Maria de Poli Penteado

REVISÃO
José Marcelo Siviero

PROJETO GRÁFICO
Jhonny Alves dos Reis

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Maeso,
Maeso, Benito
Benito
OFake
fake:: oO que
que é?
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isso? E por de
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vivemos nele? /
/ Benito
Benito
Maeso. --
-- Maeso.
Curitiba,-- PR
Curitiba,
: Platô,PR2024.
: Platô, 2024.

ISBN
ISBN 978-65-983484-5-8
978-65-983484-5-8

1.
1. Indivíduo
Indivíduo e
e sociedade 2. Informação
sociedade 2. Informação
(Disseminação)
(Disseminação) 3.
3. Notícias falsas 4.
Notícias falsas 4. Relações
Relaçõessociais
sociais I. Título.
I. Título.

24-228651 CDD-070.4
Índices para catálogo sistemático:

1. Notícias falsas : Jornalismo 070.4

Eliane de Freitas Leite - Bibliotecária - CRB 8/8415

TODOS OS DIREITOS DESTA EDIÇÃO RESERVADOS À

PLATÔ EDITORIAL
CURITIBA — PR
[Link]
Benito Maeso

O FAKE
O QUE É ISSO?
E POR QUE VIVEMOS NELE?
CONSELHO EDITORIAL

Ademir Aparecido Pinhelli Mendes – UNINTER


Adriana del Valle Pagani – IRI - Universidad Nacional de La Plata, Argentina
Adriano Moreira – Universidade Técnica de Lisboa, Portugal
Alécio Donizete da Silva – UFMT
Anderson Luiz Tedesco – UNOCHAPECÓ
Arilda Arboleya – ISULPAR
Carmen Lúcia Fornari Diez – UNIPAC
Claudio Almir Dalbosco – UPF
Dalton José Alves – UNIRIO
Edson Teixeira de Rezende – FESP-PR
Elter Manuel Carlos - Universidade de Cabo Verde, Cabo Verde
Filipi Vieira Amorim – FURG
Geraldo Balduino Horn - UFPR
Giselle Moura Schnorr – UNESPAR–UV
Jorge Fernando Hermida – UFPB
Jorge Luiz Viesenteiner – UFES
Marco Sonzogni – Victoria University of Wellington, Nova Zelândia
Maurílo Gadellha – IFRN
Maurini de Souza Alves Pereira – UTFPR
Patrícia Del Nero Velasco – UFABC
Pedro Ângelo Pagani – UNEP
Regis Clemente da Costa – UEPG
Renato Epifânio – Universidade do Porto, Portugal
Rodrigo Marcos de Jesus – UFMT
Rodrigo Pelloso Gelamo – UNESP
Samuel Dimas – Universidade Católica Portuguesa, Portugal
Brindo
Ao amor, Patrícia
Ao futuro, Gabriel
À sabedoria, Marilena.
APOIO
COLÉGIO INTEGRAL

AGRADECIMENTOS

Com muita alegria e conatus aos amigos participantes do Grupo de


Estudos Espinosanos/USP.
A todas e todos os amigos docentes do IFPR Colombo e do
PPGFil/UFPR.
Sandra Braga, Rodrigo, Sandra Almeida, Pedro Henrique, Kayque,
Rodrigo Mickus, Edmundo, João, Ethannyn, Honorato, Murilo e
Camila, Eloy, Marcos de França, Marcos Morcego, Cristiano Barba,
Rodrigo Grigoletti, Guto Diaz, Alessandra Psi, Plus Coffee Comics
& Arts, Eladio, Alex, Emmanuel Appel.
Luquinhas, Izis, Barbara e o GT Histórias das Filosofias CNPq.
A toda a equipe de Platô Editorial.
E a todas e todos alun@s nessa jornada!
Vocês são os e as que me ensinam!

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS
Claudia e Carmen Maeso
José Marcelo Siviero
Mariza Pan e Tadeu Ciola
Paulo Vieira Neto
Vladimir Pinheiro Safatle
E ao primeiro leitor, Paulo Eduardo Arantes
Esta obra é fruto do trabalho desenvolvido pelo autor junto aos
grupos de pesquisa Grupo de Estudos Espinosanos/FFLCH-USP
e Paradoxes of Emancipation (Centre Marc Bloch/ Humboldt
Universität zu Berlin). Gratidão imensa aos coordenadores, colegas
e equipe de pesquisa.
SUMÁRIO

Prefácio.........................................................................................................9
Marilena Chaui

Um manual de instruções.................................................................11

Capítulo 1
Nem verdade, nem mentira, muito pelo contrário.............. 13

Capítulo 2
Quem é fake?............................................................................................37

Capítulo 3
A vida fake.................................................................................................53

Capítulo 4
O poder do fake......................................................................................77

Capítulo 5
É possível encontrar uma saída? ................................................111

Posfácio......................................................................................................125
PREFÁCIO

Eis um livro precioso, cuja leitura abre sendas de com-


preensão e de combate.
Eis um livro socrático. Todos conhecem a atitude de
Sócrates. Andava pelas ruas de Atenas conversando com os
jovens indagando se sabiam efetivamente o que eram os valores
e as ideias que possuíam. O que é coragem? O que é a justiça? Os
jovens respondiam e Sócrates mostrava-lhes que não só contra-
diziam uns aos outros, mas também contradiziam a si próprios
e os levava a concluir que, afinal, não sabiam o que imaginavam
saber. Pediam-lhe, então, que apresentasse a verdade sobre tais
valores e ideias, mas ele não o fazia, apenas os convidava a fazer
como ele, isto é, buscar a verdade, mesmo e, sobretudo, se esta
lhes parecesse destruir suas convicções.
Socraticamente, Benito Maeso escreve na primeira pessoa do
singular, indicando que não se furta ao percurso do conhecimento
e que o partilha conosco, fazendo perguntas a si próprio e a nós,
levando-nos a descobrir que não sabíamos exatamente o que é o
fake, que julgávamos conhecer por identifica-lo ao boato e à fofoca.
Para essa enorme descoberta, Maeso percorre as escuras
sendas do fake news em nossa vida psíquica e social cotidiana, na
determinação de nossos desejos, medos e esperanças, nas formas
do poder e da guerra, apontando nossa profunda ignorância
sobre as causas e efeitos desse mecanismo tecnológico, “máquina
de produzir desinformação”, “máquina de poder”, “máquina de
guerra”, “máquina de produzir injustiças”, “máquina de produzir
o ódio”. Numa palavra, para usarmos o título de uma obra de
Walnice Galvão, de produzir “as formas do falso”.
Tomando exemplos da vida cotidiana e dos momentos
sócio-políticos excepcionais, Maeso indica os inúmeros pro-
cedimentos técnicos de intervenção sobre nosso psiquismo e
a vida sócio-política, por meio da produção da irrealidade e
da falsidade, da mentira e do cinismo transformados em for-

9
mas de persuasão e de espetáculo. Analisa detalhadamente os
procedimentos empregados por grandes oligopólios e grupos
políticos para obter a adesão pessoal e social à desinformação
e à falsidade pelo controle sobre nossa maneira de pensar, de
sentir e de agir, assim como nos levar à aceitação do discurso
de ódio e de massacres inomináveis, além de provocar nossa
sedução por “celebridades”, “coaches”, “influencers”.
O percurso realizado se desdobra num movimento in cres-
cendo que nos faz passar da banalidade do cotidiano à destruição
deliberada do pensamento e dos sentimentos, postos sob controle
de “autoridades”, que decidem sobre gente, coisa e mundo, pois,
explica o autor, “o poder do fake não é “fake”” e, mais do que isso,
“ser fake é a ideologia de nosso tempo” e nele se aloja a destruição
da democracia não só por condenar conflitos que a definem como
instituição e garantia de direitos, mas também por não perceber-
mos que “o fascismo é o fake da democracia”.
Tomando a posição exatamente contrária à do fake e das
“autoridades”, Maeso apresenta aos leitores as fontes teóricas
e informacionais de seu texto e de suas reflexões pessoais, de
maneira a assegurar que possam consulta-las diretamente e
avaliar o sentido dos que lhe é apresentado.
É possível destruir a “vida fake”?, indaga Maeso. E responde
socraticamente: “não há manual de instrução para sair disso”.
No entanto, o autor não nos deixa no completo desamparo,
mas oferece algumas pistas possíveis para controlar esse poder
tanto no plano psicológico pessoal como no plano sócio-político
e no plano do pensamento teórico de combate à ideologia e seus
efeitos deletérios.
Das pistas oferecidas, este livro é, sem dúvida, a mais
evidente, pois, sob a fala ininterrupta das formas do falso, Maeso
aponta os silêncios que a sustentam e propõe que – exatamente
como ele o faz neste livro - façamos falar esse silêncio sob a
tagarelice interminável que nos invade noite e dia, vida afora.

Marilena Chaui

10
Um manual de instruções

“Tudo veio a ser; não existem fatos eternos:


assim como não existem verdades absolutas.”
(Nietzsche, “Humano, demasiado humano”, aforismo 2)

A palavra da moda é o fake. Se algo me contraria, se


um fato desmente minha convicção, se uma pessoa pública é
“pega na mentira” ou em contradição, logo diz: - Isso é fake!,
ou – Fake News!
Mas o que seria o tal fake? A tradução diz “falso, imita-
ção, embuste”, mas esse termo significa muito mais: virou um
símbolo para um modo de vida e de ação que tem elementos que
se conectam com o real ou verdadeiro (ainda que essas palavras
NÃO signifiquem a mesma coisa), mas que cria uma realidade
própria na cabeça e na vida de quem o segue.
Este livro busca mergulhar, da forma mais simples e
direta possível, num tema que está presente no dia a dia: as
noções das pessoas sobre conceitos como verdadeiro, falso,
mentira, realidade, real, etc. parecem estar – e estão – muito
confusas e misturadas.
Tal confusão não é nova, mas o crescimento das redes sociais
e a inflação de informação que recebemos a aprofundou. O que
para muita gente é verdade comprovada por fatos, para outros e
outras foi reduzido a uma questão de opinião. Só que as pessoas
pensam e agem – FUNCIONAM NO MUNDO - com base em
tais opiniões, mesmo que sejam totalmente sem pé nem cabeça.
Nossa tarefa é entender como e porque isso acontece – e
como a mistura entre real e imaginário, entre ilusão e “realidade”,
é surpreendentemente concreta. Como um manual de instru-
ções, e sem a pretensão de dar conta de tudo sobre o tema, este
é um ponto de partida para pensarmos e agirmos num mundo
que, aos poucos, já está se tornando absurdamente fake. Vamos?

11
Capítulo 1
Nem verdade, nem mentira,
muito pelo contrário

Comecemos pelo começo: o que significa o fake? Muitos


o entendem como sinônimo de falso, de mentira, de oposto da
verdade. Só que a partir daí precisamos entender outra coisa
bastante complicada de definir. Afinal, o que é a verdade?
Tradicionalmente, entendemos verdade como a descrição
exata de algo que ocorreu – ou a correspondência entre o fato
e a sua explicação. Isso pode ocorrer por nossa experiência de
uma situação ou pela análise racional que fazemos dos fatos.
Por exemplo, é verdade que eu escrevi estas palavras nesse
livro (descrição de um fato) ou que a Terra é um geoide (um
fato que, por exemplo, foi explicado, entre outros, por Aris-
tóteles quando ele observou a curva da sombra da Terra nos
eclipses da Lua).
Porém, verdade – ou o contar a verdade – também depende
de QUEM conta, de QUANDO conta, de COMO se conta e
DO QUE é contado. A perspectiva é, ao final, um elemento que
compõe a nossa noção do que é a verdade.
Não me entenda errado: não estou dizendo que as coisas
não acontecem ou não existem, ou que podem ser reduzidas
à interpretação ou opinião que temos delas. Na base das
interpretações, sempre existe o concreto, a dimensão mate-
rial da existência. O que digo é que um mesmo fato pode,
de acordo com o contexto histórico, social ou cultural, ser
compreendido e narrado de forma completamente diferente,
isto é, ser uma “verdade” completamente outra, ainda que se
refira à mesma ocorrência. Um choque entre a ideia e a coisa
da qual fazemos a ideia (ou nos termos do filósofo Espinosa,
a ideia e o ideado).

13
Um exemplo: a Terra está aí, nossos pés estão nela e
ela é redonda, ainda que algumas pessoas usem a Internet e os
celulares (que somente são possíveis, enquanto tecnologias, pelo
fato de que o planeta é redondo) para dizer que ela é plana. No
passado, para muitas pessoas era uma verdade inquestionável
que o planeta “era” chato como uma pizza, e quem dissesse o
contrário corria o risco de morrer na fogueira. Ou, também no
passado, não se questionava a escravização de pessoas, algo que
era considerado corriqueiro e, para muitos, justificável, visto que
tais pessoas que defendiam esta prática tinham como verdade
para si que as pessoas pretas seriam inferiores biologicamente
ou que seriam uma “raça” diferente, não-humana, e poderiam
ser tratadas de forma brutal.
Sabemos hoje que essas ideias de raça e de inferioridade
biológica são completamente absurdas e falsas, mas por muito
tempo foram, ainda que de um jeito peculiar, tidas como verdades.
Ou seja, a própria definição do que é verdade – ou a percepção
que as pessoas têm do que ela é – varia de acordo com as cir-
cunstâncias nas quais a percepção é produzida.
Para evitar confusão, vamos deixar os conceitos
em destaque:

@ Fato: o que existe e o que acontece. As coisas e os fatos


ocorrem pela associação de processos, eventos, situações. A
existência material, por exemplo, de uma pedra é consequência
de vários processos geológicos que resultam naquele objeto.
É um fato que você existe, e a sua existência é resultado da
associação de gametas, etc.
@ Real: o que há fora da sua cabeça e/ou o que tem exis-
tência em si mesmo. A mesa, a cadeira, o livro ou o computador
onde você lê este livro. Pode ser deduzido independentemente
das suas convicções. O real é também, como diz Marilena Chaui
(2001, p. 23), “o movimento incessante no qual os seres huma-
nos, em condições nem sempre escolhidas por eles, instauram
um modo de sociabilidade”. Ou seja, condições PRÁTICAS e
ações CONCRETAS.

14
@ Realidade: é o real MAIS o que há na sua cabeça,
como você o compreende, o que você pensa, como você per-
cebe as coisas. Algo pode ter realidade ainda que não seja
físico. Pense num cavalo alado. Ele não existe concretamente,
mas para você pensar nisso, precisa conhecer duas coisas que
existem mesmo, materialmente falando: um cavalo e um par
de asas. Juntando as imagens na sua cabeça, aparece a imagem
do cavalo alado. O animal não é concreto, mas a imagem tem
um grau de realidade.
Real e realidade tem certas diferenças, mas muitas imbri-
cações, ao final. A principal tem a ver com a materialidade, com
o caráter concreto do real, com suas práxis (as ações humanas
feitas de acordo com as condições concretas de existência).
@ Verdade – como se conta e se compreende esta per-
cepção do que acontece. Existem diversas definições e conceitos
de Verdade. Os mais comuns são:

a. Verdade é a correspondência entre o fato e sua expli-


cação. Algo acontece, alguém elabora uma explicação
e esta é correta, ou seja, explica o fato;
b. Verdade é aquilo que não é possível provar como falso.
Se a explicação resiste às críticas ou às tentativas de
desmenti-la, é muito possível que seja verdade;
c. Verdade é uma narração coerente dos fatos, que faz sen-
tido para quem conta, para quem ouve e que explica
satisfatoriamente um conjunto de situações. Seria um
consenso construído entre as pessoas em uma época –
como uma teoria científica ou uma crença muito arraigada
numa sociedade. Ainda que descolada dos fatos, esta
crença tem valor de verdade para quem acredita nela; e
d. Verdade é algo que se define de acordo com o interesse
de um grupo, de um indivíduo ou de um ethos social,
visando a preservação da vida e dos costumes e orga-
nização daquele grupo. Ou seja, verdade é o que é útil
para quem a fala. Citando Nietzsche, “verdadeiro em

15
geral significa apenas o que é apropriado à conservação
da humanidade. O que me faz perecer quando lhe dou
fé não é verdade para mim: é uma relação arbitrária
e ilegítima do meu ser com as coisas externas” (apud
Abbagnano, 2012, p. 1186)
E a mentira? O que é? O contrário da verdade? Não
necessariamente. Do ponto de vista lógico, o contrário da ver-
dade é a falsidade, ou seja, a não-verdade, a negação do que
assumimos como verdadeiro. Porém, se uma pessoa mente ao
ponto de acreditar realmente e profundamente no que diz, é
mentira ou verdade? Para nós, pode ser mentira, mas para ela,
é absolutamente verdadeiro, com base no que vimos até agora.
Aristóteles diz que existem, fundamentalmente, dois
tipos de mentira: a jactância, que consiste em aumentar ou
exagerar a verdade, e a ironia, que consiste em diminui-la.
Ou seja, ainda que distorcendo a verdade, a mentira ainda se
refere a ela, está em relação com ela. Já a falsidade é a negação
completa da informação verdadeira e verificável. Para Kant,
“aquilo cujo oposto é falso é verdadeiro” (apud Abbagnano,
2012, p. 237). Mais uma vez, o problema é qual o critério que
usamos para definir o verdadeiro. Além disso, não podemos
considerar que existam apenas duas categorias nesta questão:
além do verdadeiro e do falso, temos o possível (quando há
a possibilidade, em algumas circunstâncias, de que aquela
ideia, frase ou explicação seja ou se torne verdadeira) e o
indeterminado (quando não há como dizer com segurança se
é verdadeiro, falso ou possível).
Exemplos: é MUITO possível, mas ainda não provado,
que exista vida em outros planetas. Logo, ainda não é verdade,
mas se tornará quando surgirem provas concretas. Por outro
lado, NÃO PODEMOS DETERMINAR se tal vida é evoluída
ao ponto de construir discos voadores. Ou seja: a história é mais
complexa do que parece.

16
Verdade e informação

A disputa sobre o que é ou não é verdade, mentira, falsi-


dade, etc., existe há muito tempo, mas um fenômeno das últimas
décadas deu um nó nas concepções que tínhamos sobre o tema: o
crescimento descontrolado do fluxo de informações como efeito
do desenvolvimento dos computadores, da Internet e da chamada
Sociedade de Informação. Nunca recebemos tanta informação
– e nunca foi tão difícil, exatamente por isso, separar quais são
realmente confiáveis e quais podemos descartar sem medo.
Historicamente, essa separação era feita com base nas cate-
gorias de correspondência e verdade vistas antes, na verificação
das informações e na correspondência entre ideia e fato. Mas
há uma categoria IMENSA de informações que escapa a este
processo, até pela impossibilidade de uma só pessoa conhecer
todos os fatos que ocorrem.
Em inglês, são chamadas de creative nonfiction (ou “não-
ficção criativa”). Você as conhece: são aquelas teorias mirabo-
lantes que até têm elementos de verdade ou de realidade, mas
na hora em que juntam tudo, vira um verdadeiro caos sem pé
nem cabeça. Conspiração Illuminati, “Paul está morto” (a teoria
que o ex-Beatle Paul McCartney morreu em 1966 e foi substi-
tuído por um sósia), alienígenas construíram as pirâmides, etc.,
etc., etc. Há elementos nestas histórias que até podem ser reais
ou dar margem a interpretações exóticas, mas há uma imensa
distância entre o fato de McCartney ter sofrido, naquele ano,
um acidente de moto que deixou uma marca no seu rosto (fato)
e a ideia de que os demais Beatles teriam elaborado um plano
maluco para esconder do fandom da banda a suposta morte de
Paul no acidente, contratado um sósia que, além de também ser
canhoto, cantava e compunha tão bem como Paul (ficção). A
não-ficção criativa é comum na literatura e séries de TV, naqueles
romances “históricos” que misturam real e imaginário. A velha
frase “baseado em fatos reais” pode significar com MUITA base
ou “baseado de leve” na realidade.

17
ALGUMAS DAS PRINCIPAIS CREATIVE
NONFICTIONS

A Sangue Frio – livro - Truman Capote


Candy – série – Star +
1356 – livro - Bernard Cornwell
O Código da Vinci – livro – Dan Brown
Alienígenas do passado – série – History Channel
Dahmer – série – Netflix
Eram os Deuses Astronautas? – livro – Erich von Danniken
The Crown – série – Netflix
Elvis está vivo – teoria da conspiração
Paul McCartney está morto – teoria da conspiração
Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil –
livro – Leandro Narloch
A Lista de Schindler – livro e filme
1808 - livro - Laurentino Gomes

Mas o que faz com que as pessoas acreditem neste tipo de


informação? O conceito (que virou moda) para explicar isso é a
tão falada pós-verdade, uma situação na qual, na hora de definir
os valores de verdade individuais e coletivos, os fatos objetivos
têm menos peso que as opiniões pessoais. Ou seja, fatos e ver-
sões passam a ter o mesmo valor: se uma pessoa não consegue
provar sua opinião, ela estende este problema aos fatos, dizendo
que eles é que estão errados ou são falsos.
Retomando os conceitos para que tudo fique bem evidente:

@ informação: conjunto de dados que servem para explicar


fatos ou descrever processos.
@ conhecimento: conjunto de informações às quais é
possível dar um sentido e usá-las para criar um modelo de
explicação da realidade.

18
A informação somente vira conhecimento se passa por este
processo de reflexão, de atribuição de sentidos. Como recebemos
muita informação, mas não há tempo para refletir sobre ela, não
podemos dizer que vivemos na Sociedade do Conhecimento.
Quanto mais informação é produzida, menos a informação em
si possui valor. É exatamente o que acontece com a inflação na
economia: a diminuição de poder de compra do dinheiro. Quanto
mais dinheiro circulando sem um valor correspondente, um
lastro, menos o dinheiro vale em si mesmo. Ou seja, como dito
pela professora Olgária Matos (USP), temos uma inflação infor-
macional enquanto o conhecimento está em crise, pois não existe
lastro suficiente para validar as informações. Se a informação
e o conhecimento não valem mais nada, não podemos confiar
neles para construirmos o conceito de verdade. Daí as opiniões,
exatamente por serem individuais, acabam por dar à pessoa
que as pensa a segurança para “escolher” uma verdade para si.
A pós-verdade opera com base no que chamamos de notí-
cia-lixo, termo que substitui Fake News – até porque muitas
vezes as notícias-lixo não são falsas, tendo elementos que podem
até se referir a fatos reais, mas são apresentados de maneira a
distorcer a percepção do/a leitor/a buscando acionar gatilhos
emocionais. Quanto melhor a história vender ou convencer, mais
“verdade” vira. Quanto mais compartilhamento tiver, mais é tida
como real. Quanto mais chocar, mais verdadeira.
E se os fatos desmentem a história? Ora, danem-se os fatos.
Parece simples, não é? Bastaria escolher o que queremos
considerar como verdade ou falsidade e pronto, seja feita a vossa
Verdade. Mas não é bem assim: esse processo de “escolha” é
cheio de nuances e, na prática, não é totalmente consciente.
Num tempo como o atual, com esta overdose de informações na
qual estamos submersos, os critérios que definem nossa escolha
são vários, envolvendo emoções, raciocínio, medo e desejo ao
mesmo tempo. A pergunta, então, é: o que faz pessoas que apa-
rentemente sabem muito bem a diferença entre o verdadeiro e o
falso, entre o possível e o delirante, abraçarem ideias alucinadas
e irracionais como se fossem a mais pura verdade?

19
Vamos por partes, como um bom montador de quebra-
-cabeças diria. Uma informação, mesmo que não corresponda
aos fatos, precisa ter certas características que amplificam seu
poder de convencimento e propagação. Do que adianta uma
informação ser verdadeira, útil ou importante se ninguém fica
sabendo dela e se ela permanece confusa para quem a recebe? E
como combater uma informação ruim ou evidentemente falsa se
esta é muito popular e fácil de entender? Nosso próximo passo
é começar a compreender o que faz as informações fake serem
tão mais atraentes do que as que são definidas como verdadeiras.

O ciclo do Fake: volume, frequência, barulho

Um estudo de 2018, “The spread of true and false news online”,


publicado na revista Science, analisou algumas destas característi-
cas, com foco principal nas notícias falsas que circulam na Internet
e nas redes sociais. A primeira conclusão é, por si só, chocante:
uma notícia falsa é difundida 100 - eu disse CEM - vezes mais
rápido e em volume maior do que uma notícia verdadeira sobre
qualquer assunto. Ou seja, o ditado de que mentira tem perna
curta, mas corre mais que a verdade também se aplica à Internet.
Mas o que causa isso? Em primeiro lugar, há uma carac-
terística dos mecanismos de busca na Internet que a maioria das
pessoas ignora: o famoso algoritmo de pesquisa funciona por
coincidência e combinação de termos, não por verificação de
conteúdo (é o chamado sistema booleano1). Logo, uma informação
1
Vejamos a definição técnica, de acordo com o CAPCS da UERJ: Os Operadores
Booleanos atuam como palavras que informam ao sistema de busca como combinar os
termos de sua pesquisa. São eles: AND, OR e NOT e significam, respectivamente, E,
OU e NÃO e, a fim de facilitar a visualização da busca, é importante que estes sejam
escritos em letras maiúsculas. O operador booleano AND funciona como a palavra “E”,
fornecendo a intersecção, ou seja, mostra apenas artigos que contenham todas as pala-
vras-chave digitadas, restringindo a amplitude da pesquisa. Ex: Diabetes AND Exercício.
O operador OR funciona como a palavra “OU”, mostrando a união dos conjuntos, ou
seja, a base de dados fornece a lista dos artigos que contenham pelo menos uma das
palavras que, normalmente, são sinônimas. Este termo aumenta a sensibilidade da busca.
Ex: Atividade física OR Exercício. O operador NOT inclui o primeiro termo e exclui o
segundo termo da pesquisa. Porém, a fim de evitar a sua utilização de forma equivocada,
sugere-se aplicar somente os termos descritos anteriormente. Ou seja, é a combinação
dos resultados que alimenta o mecanismo de pesquisa. Dados equivocados também

20
que aparece no topo de uma pesquisa, ou nas primeiras páginas
da busca, não é a mais correta do ponto de vista de valor da
informação ou a carregada de maior verdade, mas simplesmente
a que mais se ajusta ao termo da pesquisa, ou ao site ou artigo
no qual o termo pesquisado mais aparece.
Esse tipo de algoritmo de busca, exatamente por ser
apenas uma programação que procura reconhecer padrões e não
uma inteligência que também teria sentimentos como empatia ou
bom senso, não segue as regras da sociedade, não tem nenhum
filtro a respeito de verdade ou falsidade – nem sobre questões
como violência, ofensas, preconceitos, etc. – e “não liga” se você
concorda ou discorda com o que está sendo exibido.
Imagine uma situação extrema, mas possível (e peço
desculpas pelo exemplo que vou criar, mas às vezes é preciso
dar um sacolejo nas pessoas): você se escandaliza com um vídeo
recebido no qual um homem pratica violência, ofensa ou mal-
dade contra outras pessoas dançando uma versão da Macarena
cuja letra elogia Hitler e chamando brasileiros de “macacos” e
“inferiores”. Cena horrível, de péssimo gosto, não é verdade?
Porém, a partir do momento que você compartilhou isso,
comentando como ficou justamente indignado ou indignada com
esse absurdo, essa imagem, este vídeo (esta notícia, no caso das
Fake News) vai aparecer com mais destaque (ou seja, vai bombar)
na nuvem de dados da Internet, aparecendo com mais frequência
nos mecanismos de busca tipo Google e Bing – e mais pessoas
poderão esbarrar com esta atrocidade durante sua navegação.
Pior ainda se o autor do vídeo der um jeito para monetizar2
sua exibição – ele ou ela ainda vão ganhar dinheiro com sua
indignação. Vários canais que fomentam ódio e preconceitos,
divulgando Fake News e alimentando teorias da conspiração,
recebem dinheiro por meio deste mecanismo, seja em outros
países ou no Brasil.

são apresentados na busca, desde que estejam combinados aos demais elementos da
pesquisa. (fonte: [Link]
2
Monetizar: receber dinheiro de acordo com a quantidade de vezes que uma informação
é acessada, vista, compartilhada ou curtida na Internet.

21
Você pode até se perguntar: mas como as empresas de
tecnologia e as redes sociais não tomam providências contra essas
atrocidades? A resposta é simples: elas não ligam. Quanto mais
informação circulando, e quanto mais pessoas comentando sobre
um assunto (seja contra ou a favor deste), mais dinheiro a rede
social ganha. Fluxo informacional gera engajamento. Engaja-
mento gera faturamento. Para uma rede social, pouco importa
se você apoia ou se opõe ao racismo, por exemplo, desde que
você compartilhe muitos dados e seus posts gerem engajamento
em seu círculo de contatos. As empresas somente vão agir se o
compartilhamento destas ideias prejudicar o faturamento e ao
modelo de negócios.
Um exemplo: os donos anteriores do antigo Twitter
baniram as contas do ex-presidente dos EUA Donald Trump
naquela rede, pois não apenas Trump as usava para estimular
seus apoiadores a tentarem um golpe de estado (como os eventos
de 06/01/2021 no Capitólio) como muitos clientes da rede esta-
vam indignados com a leniência da rede ao discurso trumpista,
deixando de anunciar e saindo da plataforma. Menos clientes,
menos informação compartilhada. Logo, menor faturamento.
É ilusão achar que uma empresa ou um empresário de
alto escalão realmente estaria preocupado com valores como
equidade, liberdade, respeito e solidariedade se isso não fosse
uma forma de lucrar sobre o tema. Não à toa, uma das primeiras
promessas feitas pelo novo dono do antigo Twitter (hoje [Link]),
Elon Musk, foi a de liberar as contas de Trump novamente, o
que certamente geraria muito tráfego de informações pró e
contra a volta – e geraria muito dinheiro -, mas essa liberação
não ocorreu plenamente pela perspectiva de perdas financeiras
ou possíveis retaliações do governo dos EUA.
As pessoas comuns compartilham informações seja por
concordarem ou por discordarem delas, seja por rirem ou por
se indignarem com elas. No final, isso não importa: o objetivo
da mensagem de ser difundida o máximo possível foi atingido.
E quanto mais vezes uma pessoa vê uma informação, mais fica
propensa a aceita-la como verdadeira.

22
Então as informações fake são como fofocas, que viram ver-
dade pois “todo mundo está falando nisso”? Em boa medida, sim.
Esse hábito de que algo, por ser muito comentado, virar verdade é
tão antigo que, para o bigodudo Friedrich Nietzsche, foi a maneira
pela qual a moral da sociedade foi construída, no que ele chamou
de comportamento de rebanho (ou, em outras palavras, gado). Há
também fatores psicológicos e sociais, que serão explorados mais
detalhadamente nos capítulos posteriores deste livro, mas que
influem decisivamente para a aceitação e acolhimento da informação.
Logo, há coisas muito importantes que não podem ser
deixadas de lado aqui:

@ O volume de compartilhamentos e o engajamento


(ou seja, o quanto as pessoas debatem sobre o tema) torna-se a
referência da verdade/veracidade da informação;
@ Quanto mais “intimidade” ou proximidade a pessoa
tiver com a fonte da informação, mais propensa estará a acei-
tá-la como verdadeira, pois o valor e critério de verdade acaba
sendo a confiança que temos em quem mandou, ou aspectos
como afeição, apetites, desejos, paixões, simpatias, etc., não a
análise dos fatos;
@ Muitas vezes, a informação que vem de uma fonte tra-
dicional (um canal de notícias, por exemplo) ou de uma pessoa
de influência nas redes (youtubers, influencers, perfis verificados
e muito mais) não tem poder de convencimento para além dos
seus públicos tradicionais; e
@ Quanto mais a pessoa se sinta valorizada (por ter
“informações” e ser vista como especial pelos e pelas demais)
e acolhida num grupo, mais segura se sentirá nesse ambiente
informacional e mais acreditará nas informações que transmite,
recebe e interage. As informações passam a funcionar como um
reforço da identidade: por um processo de identificação, cada
indivíduo funciona como emissor de informação e como fiador
da credibilidade da informação que vem dos demais.

É assim que as chamadas “bolhas” são criadas.

23
Falem mal, mas falem de mim: a autópsia de um post de
Internet

Antes de entrarmos na cabeça e nas personalidades que


interagem desta forma fake, ainda precisamos entender mais
sobre o poder de convencimento que aquele post de rede social,
ou aquela corrente de WhatsApp tem sobre a sua tia que se escan-
daliza com a suposta foto de pessoas nuas em uma universidade
pública3. Aliás, sua tia vai receber esse tipo de coisa “escanda-
losa” EXATAMENTE porque ela se escandaliza. Ela REAGE
a tais notícias, e cada reação gera dados e informações que são
“minerados” no celular ou no computador dela: isso é chamado
de data mining, ou o processo de, por meio das cookies que são
instaladas nos dispositivos, os dados gerados são catalogados,
divididos, processados e vendidos a empresas e grupos que tem
interesse em aumentar seu público consumidor – ou influenciar
social ou politicamente as pessoas.
Por exemplo: se você pesquisar sobre colchões no meca-
nismo de busca, há uma imensa chance de que anúncios sobre
ofertas de colchões apareçam nos links patrocinados e nas páginas
patrocinadas da sua rede social predileta. Isso não é coincidên-
cia: seus dados foram vendidos para aquela empresa que faz a
oferta (Você achava que redes sociais ganhavam dinheiro como?
Vaquinha? Doações? Ou eram passatempos sem fins lucrativos
de bilionários preocupados em oferecer diversão para as pessoas?
Como diz o meme, “sabe de nada, inocente”).
Todos e todas nós que usamos Internet e redes sociais
trabalhamos produzindo dados e informações para que as
empresas as comercializem. Isso está bem claro nos Termos e
Condições de qualquer uma delas (aqueles termos e condições
que quase nunca as pessoas leem): fomos nós que demos auto-
rização para esse comércio das informações. E, ao contrário
do que muita gente pode pensar, não é um trabalho de graça:

3
A foto em questão foi tirada em uma manifestação durante a conferência Rio +20, e não
em uma universidade. Fonte: [Link]
-[Link]

24
as pessoas recebem curtidas, comentários, compartilhamen-
tos e se sentem importantes por causa disso; libera endorfina
e cria satisfação com a sensação de popularidade, ainda que
seja apenas pelo tempo que o post ficar visível. O pagamento é
emocional. Como dizia o apresentador de televisão conhecido
por seus aviõezinhos com notas de R$ 50,00, isso tudo “vale
mais que dinheiro”.
Um adendo: se formos pensar a sério, e seguindo o racio-
cínio da teoria do valor (resumidamente: sempre trabalhamos
mais do que recebemos em troca pelo que produzimos para a
fábrica ou a empresa, pois é desta diferença entre o que ganhamos
em dinheiro e o que geramos de dinheiro que surge o lucro do
dono, o mais-valor que ele ganha a partir do trabalho de cada
uma ou cada um de nós), a produção e a “venda” de informa-
ções – agora reduzidas a um produto – são pagas com pouco
ou nenhum dinheiro, mas com muita “recompensa ou remune-
ração emocional”: likes pagam bem e não podem ser roubados!!
Sempre produziremos informações, somos uma fonte infinita
de produção, mas também sempre receberemos menos do que
“damos”. Se uma pessoa fica muito feliz por receber curtidas e se
sentir valorizada, imaginem o valor do que essa pessoa produziu
sem nem perceber. O próprio conceito do dinheiro físico está
desaparecendo com o avanço da tecnologia: até a passagem de
ônibus pode ser paga em cartão ou Pix.
Agora, além disso, a linguagem tem papel importante
no processo: tão importante como O QUE está sendo dito é
COMO está sendo dito.
Vamos listar algumas coisas que um post, uma corrente,
uma notícia escandalosa, etc., parecem ter na maior parte das
vezes para funcionarem de forma tão eficaz. O segredo está na
linguagem certa, na palavra certa, no momento certo:

a. Linguagem ambígua, mas pretensamente confiável ou


pseudocientífica.
Simples de detectar: uma notícia assim muitas vezes apela
ao que seriam declarações de um/a cientista, de um/a especia-

25
lista ou de alguém que deteria mais saber sobre um assunto4. Ou
seja, de uma autoridade. E se a pessoa tem autoridade ou poder,
é porque saberia o que faz ou diz. Pensando nisso, a filósofa
Marilena Chaui inventou a expressão discurso da competência para
explicar por que as pessoas acreditam que alguém que ocupa
(ou diz ocupar) um cargo sabe mais do que elas.
Muitas vezes tais declarações supostamente científicas
ou ditas por supostas autoridades são retiradas do contexto
original ou manipuladas descaradamente, sem contar que muitas
pessoas podem dizer que são cientistas, mas quem nos garante
isso? Alguém vai conferir os diplomas ou o currículo do/da
suposto/a cientista na Internet?
Um exemplo foi o vídeo de um suposto profissional de
saúde dizendo que o Hospital da USP em Ribeirão Preto teria
uma ala somente para tratar as pessoas que sofreram efeitos
colaterais e complicações pelo uso da vacina contra o COVID-
19, descrita erroneamente por ele como uma terapia gênica ou
genética.
Você sabia que no Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão
Preto existe uma ala só para tratar das pessoas com com-
plicações com reações adversas da vacina contra Covid, que
na verdade é uma terapia genética? Você não sabia, né? A
imprensa prefere se calar do que publicar a verdade. (Tre-
cho do vídeo)
Vamos lá, olhando atentamente dá para observar algumas
coisas que permitem saber que temos um fake na nossa frente:
# Uma expressão como “terapia genética” ou “terapia
gênica” provoca medo instantâneo nas pessoas, pois lembra
ficção científica do tipo heróis e vilões mutantes, monstros ou

4
Na filosofia, chamamos isso de Falácia do Argumento de Autoridade (em latim, ad
verecundian), presente na lógica de Port-Royal. É fazer a pessoa acreditar no que é dito
pois foi dito por uma pessoa que ocupa um cargo ou posto de poder. Ainda que hoje em
dia seja fácil perceber isso (por exemplo, quando uma celebridade aparece num comercial
dizendo que usa o shampoo anticaspa X, na verdade não há a menor garantia de que a
celebridade realmente use esse shampoo), esta estratégia - o apelo à fala de uma figura
de poder - não é algo novo, pelo contrário. Apesar de tradicional, é um estratagema que
se adapta a qualquer época.

26
deformidades (quantos filmes de terror tem essa temática?). Na
verdade, nada disso é deste jeito.
Uma terapia gênica é quando DNA humano é alterado
para tratamento de doenças de origem genética, como atrofia
muscular, amietrofia espinhal e outras de mesmo tipo. O gene
“problemático” é trocado por um saudável.
Uma vacina (seja para gripe, COVID, sarampo, etc.)
NÃO USA material humano para ser produzida: muitas vacinas
usam pedaços “mortos” do vírus para que os nossos anticorpos
criem imunidade contra os vírus “vivos”. Este método é seguro
e usado desde que as vacinas começaram a ser utilizadas e
produzidas. Agora, não é todo mundo que tem tempo para ir
atrás destas informações.
# Muitas pessoas são hostis, por motivos variados, contra
universidades públicas brasileiras. Falar em uma universidade
no post parece unir tais pessoas. Se fosse uma universidade de
um país tido como central (EUA, países da Europa, Japão, etc.)
talvez o preconceito não existisse.
# Por outro lado, você já deve ter visto notícias que atri-
buem propriedades miraculosas a certos alimentos que teriam sido
divulgadas por “cientistas da Universidade X” ou que os mesmos
cientistas “não querem que você saiba” sobre tais propriedades.
As pessoas têm uma relação conflituosa com o que chama-
mos de ciência: em alguns momentos, ela é vista como mágica,
capaz de fazer milagres e coisas nunca vistas. Em outros, é mos-
trada como inimiga da vida, das tradições, da moral e costumes
ou da sociedade. Logo, toda notícia que adota um discurso sobre
a ciência, seja contra ou a favor, acaba por hipnotizar as pessoas.
# Por último, o toque final que denuncia o caráter fake:
o estímulo a quem lê para acreditar que alguém poderoso (a
imprensa, o “governo oculto”, o deep state, os Illuminati, as farma-
cêuticas, etc.) está escondendo a verdade de você. Ninguém é ingênuo
de achar que não existam segredos ou que tais grupos, se é que
existem, falariam tudo abertamente para todas e todos ou não
puxariam a brasa para suas sardinhas. Mas tem um “pagamento

27
emocional” muito grande em achar que estes seres poderosos
escondem a verdade justamente de VOCÊ, alecrim dourado.
Dá uma sensação de ser importante, não é verdade? De
que SÓ VOCÊ é que pode saber destes segredos...
Assim, o vídeo, a notícia, a corrente que lida com este tipo
de discurso acaba por provocar na gente a sensação de que, se
é escrito de forma difícil, logo deve ser verdade – ou que, como
alguém veio e “traduziu” as palavras difíceis para algo mais
simples, é sinal que estavam mentindo para você. A “autoridade”
aparece pelo jeito que uma coisa é dita, e não por seu conteúdo.
A ambiguidade do que é dito também leva as pessoas a
interpretações equivocadas. Palavras genéricas, rebuscadas ou com
significado muito amplo fazem com que as pessoas tentem entender
o significado delas pelo contexto geral, mas este contexto, muitas
vezes, já é impregnado das convicções prévias de quem está lendo.
Falaremos mais atentamente na análise do discurso lacunar.

b. Uso de verbos (principalmente em chamadas de vídeos


virais) que demonstrariam força ou poder (humilhar, lacrar,
calar, etc.)
Por que as pessoas têm a tendência em acreditar mais
neste tipo de informação, principalmente se dita desta maneira?
Porque estas informações são ditas desta maneira. No dia a dia,
as pessoas estão infelizmente habituadas a situações nas quais
devem “engolir sapos”: humilhações no trabalho, na escola, nas
relações pessoais. Quem nunca teve vontade de dar o troco no
colega que faz bullying ou no chefe que assedia e ridiculariza a
equipe? Seus problemas acabaram: satisfaça sua sede de vingança
vendo outras pessoas supostamente se vingarem por você. A
garotinha que “falou a verdade na cara” do político. O estu-
dante que “desmascarou” o professor. O deputado dorminhoco
e boca-suja que “tocou o terror” contra os políticos que o leitor
ou leitora não gostam, etc.
Exemplos não faltam: o que faz esta característica do fake
ser tão popular é um sentimento muito comum a qualquer pessoa:
vingança. Isso é normal, só segure a onda. Como o sábio morador

28
daquela vila no México (o gênio que nunca pagou aluguel na
vida) diz, “a vingança nunca é plena: mata a alma e envenena”.

c. A apresentação (chamada, síntese, linhas iniciais, lead,


texto de aplicativo de mensagens) deve transmitir tudo que
deve ser pensado e feito pelo/a receptor/a da informação.
Informações: quanto mais diretas, melhor. Quanto mais
disserem como você deve pensar – e quanto mais fizerem você
se sentir especial por pensar “diferente” dos e das demais (e
EXATAMENTE igual ao que estão dizendo para você pensar),
melhor ainda. Está tudo lá: os fatos, as versões, as interpretações.
Apenas as use como se fossem suas ideias.
A maioria das pessoas não lê mais do que as informações
iniciais de um texto, seja pela correria do dia a dia, seja por achar
que leu o suficiente. No jornalismo, lidar com esta dificuldade
de concentração das pessoas passa pelo uso da técnica do lead
(condensar no primeiro parágrafo do texto as respostas para
as questões QUEM, O QUE, QUANDO, ONDE, COMO e
POR QUÊ?). Sabendo disso, quem se beneficia da desinforma-
ção condensa suas mensagens, misturadas com as informações
fundamentais, logo nos primeiros trechos de texto, aumentando
seu poder de convencimento e a associação com a verdade, pois
muitas vezes são as únicas informações que o/a leitor/a vão
receber ou prestar atenção sobre o texto.
É possível comparar esta característica do discurso das
Fake News com as ordens e sugestões (diretas ou não) que a
publicidade e os anúncios colocam na mesa (ou os comandos que
um soldado raso recebe no treinamento nas Forças Armadas):
reaja positivamente às ordens, aceite-as, execute-as, etc. Isso é
chamado, no marketing, de call to action (o “comando” do anún-
cio, como “compre!”, “conheça!”, “siga!”, “faça!”, “compartilhe!”,
“assine!”, etc.). Num experimento5 realizado em 1967 numa escola
de Palo Alto (EUA), um professor observou que as ordens do
regime nazista a seus seguidores eram construídas exatamente

5
Este experimento foi retratado em ambas as versões do filme A Onda, de 1981
e de 2008.

29
com estas características: respostas curtas, informações diretas
e condensadas, pouco ou nenhum tempo para reflexão. O apelo
à ação também mobiliza, inclui e engaja as pessoas, como uma
comunidade que reage em conjunto.

d. Discurso lacunar: você lê o que quer ler e complementa com


o que já pensa.
É fácil observar que, como a linguagem do Fake é baseada
na ambiguidade, onde uma mesma palavra pode ter significados
absurdamente diferentes de acordo com o contexto na qual é
dita, os encadeamentos das ideias podem não ter nada a ver
com a mensagem original. Isso não é acidental: são ideias e
discursos tão vagos na prática que quem escuta projeta sua
própria necessidade ou desejo neste “espaço vazio”, sem que
seja necessário dizer nada, do jeito que quiser fazer. As ideias
e julgamentos sobre o mundo, as pessoas e sobre si mesmo ou
mesma ocorrem “não a despeito das lacunas ou dos silêncios,
mas graças a eles” (Chaui, 2016, p.247).
Os exemplos estão presentes no cotidiano. Vamos a um:
quando alguém fala de mérito ou de competência, está falando
de quê? Da capacidade da pessoa em realizar coisas ou de um
senso comum de que “apenas o esforço próprio já é suficiente
para você ser bem-sucedido” ou ainda de que “se uma pessoa
ocupa uma posição de poder é porque ela sabe mais que as
outras, logo é melhor”? Difícil responder, pois parece que há
um contrabando de ideias entre as frases, e que quando alguém
fala do primeiro significado fala ao mesmo tempo dos demais,
ainda que eles não sejam a mesma coisa. Ou pior ainda, quem
falou quis dizer a primeira coisa, mas quem ouviu compreendeu
como se dissessem a segunda coisa.
Isso se chama viés de confirmação: a pessoa já pensa de
um determinado jeito, logo ela entende a informação como
se esta validasse automaticamente o jeito que a pessoa pensa.
Voltando àquela sua tia que se escandaliza com todas as coisas,
ela sempre vai achar que a notícia, a reportagem, etc., é verda-
deira porque ela diz EXATAMENTE o que ela está pensando.

30
É um problema de interpretação das informações, mais do que
de verdade ou falsidade em si.
Isso será desenvolvido mais tarde, mas é essa união entre
os vieses de confirmação e esta lógica discursiva cheia de furos
e lacunas que caracteriza o discurso ideológico (outra palavra
carregada de preconceitos) A ideologia é simultaneamente um
jeito de pensar (ideário), um jeito de contar o que acontece na
realidade e um jeito de agir no real, influenciado pelo jeito que
as pessoas pensam e contam suas histórias. A ideologia é sempre
vista mais facilmente nas outras pessoas do que em si mesmo
ou mesma, pois conseguimos perceber as incoerências entre
discursos e realidade no jeito dos outros falarem e agirem, mas
é difícil ter a humildade de ver nossas próprias incoerências.

e. Escolha precisa das palavras para provocar o efeito desejado


em quem recebe a informação.
Uma “boa” notícia falsa mistura informações absurdas
com outras que são verdade. Na confusão, as pessoas tornam-se
suscetíveis a darem o mesmo valor aos dois tipos. E um dos
segredos para isso está na escolha das palavras e das imagens
usadas para narrar a história. Podemos dividi-las em alguns
tipos-base:
# Contraste e impacto: imagens bonitas, histórias cho-
cantes – ou vice-versa. A foto do bebê fofinho acompanhando
uma suposta matéria jornalística falando que o partido político
Z quer implantar o aborto obrigatório. Ou a foto da celebridade
quase esquecida, em seus tempos áureos, com a legenda para o
link “você não acreditaria em como ela está agora”.
# Oximoros e binarismos: termos contraditórios que
levam as pessoas a confundir seus significados, o que paradoxal-
mente gera reforço do significado geral. Exemplo mais comum
ultimamente: “Intervenção militar em defesa da democracia”. A
ideia da parte inicial da frase é o contrário da ideia da parte final.
Já o binarismo (evidente ou não) é a estratégia de, por
meio do discurso, separar os campos de debate em nós e eles.
Quanto mais radicalizado um grupo se mostra e mais disposto

31
parece a rotular todos os divergentes como inimigos de seu
sistema de pensamento, mais este grupo é manipulável e pode
ceder a impulsos de destruição e violência, num comportamento
semelhante a seitas religiosas.
# Lança-chamas: dizer aquilo que certamente irá provocar
mais polêmica, da maneira que provoca mais celeuma. Vejamos
este exemplo, dito por um influencer na rede previamente cha-
mada de Twitter, e hoje conhecida apenas como X.
“Proibir Fake News é proibir a verdade. Quando você
dá ao estado o poder de PROIBIR/CENSURAR falas,
reportagens, posts ou mensagens privadas, sobre o pre-
texto de que é mentira, o estado vai usar esse poder para
proibir a VERDADE sobre o pretexto de que é mentira”.
Ao misturar propositalmente os conceitos de mentira e
verdade com a suposta liberdade de expressão (como se hou-
vesse uma garantia constitucional sobre o direito de mentir),
o autor deste tweet escreve de forma deliberadamente confusa
e que provocará discussões entre quem concorda ou não com
a questão levantada. E, como sabemos, quanto mais discussão
sobre um tema, mais faturamento isso gera, pois mais vezes a
polêmica será compartilhada.
# Concordância e persuasão: dizer o que a pessoa quer
ouvir como forma de convencê-la do que se quer convencer.
Versão sofisticada do viés de confirmação. É como adular uma
pessoa dizendo que “apenas os muito inteligentes” percebem
determinado fato (coincidentemente ou não, a interpretação
dos “muito inteligentes” sobre o fato deve ser a mesma de quem
divulgou o fato ou a notícia fake sobre ele). Como a pessoa
que recebe a informação não quer ser chamada de burra ou de
pouco inteligente, tende a concordar com todas as informações
apresentadas. Quem utiliza tal estratégia costuma se apoiar em
estratégias de marketing de nicho: as informações são divididas,
produzidas e customizadas de acordo com o púbico a se atingir
(lembrem da sua tia escandalizada e de como aquelas imagens
escandalosas SEMPRE chegam no aplicativo de mensagens
dela). Dentre as estratégias, temos as pesquisas de opinião, o

32
mapeamento de comunidades on e off-line e o ajuste e direcio-
namento do discurso, ou do jeito de falar com as pessoas, para
que elas se tornem simpáticas às coisas ditas.
# Resposta atávica: quando a imagem e a mensagem,
combinadas ou não, geram reações e estímulos pré-racionais na
pessoa. Sensações e sentimentos como medo, asco, desejo, ira,
pulsão, etc., são exemplos destas reações e gatilhos que estão no
sistema límbico e relacionam-se a instintos de sobrevivência,
de lidar com ameaças reais ou imaginárias
É simples ver como certas notícias falsas têm esse poder de
desencadear reações instintivas. Alguns exemplos de chamadas
comuns no ecossistema informacional deixam bem claro como
isso ocorre: “Imigrantes botam fogo em Igreja” (medo), “Veja
fotos da decapitação” (asco), “você não vai acreditar que ele
teve a coragem de fazer isso com a garota” (ira), “veja policial
atirando em ladrão” (vingança, justiçamento), “kit gay transforma
crianças em homossexuais” (dificuldade de lidar com pulsões
e libido). Com medo do desconhecido ou do que não consegue
se compreender direito, os instintos entram em modo de ata-
que-defesa e a racionalidade do indivíduo vai para o beleléu.
Se alguém desejar manipular as pessoas pelo medo (como
ocorreu no Brexit – a saída do Reino Unido da União Euro-
peia - com o estímulo à xenofobia e ao temor em relação aos
imigrantes, acusados de violência e de ‘roubarem’ os empregos
dos e das britânicas), bastaria juntar um estímulo proposital a
estes fatores listados acima com o que será visto no próximo
capítulo: os comportamentos e padrões mentais que povoam as
mentes das pessoas comuns e que as empurrariam em direção
ao autoritarismo. A hipnose pode ser coletiva, mas ela ocorre
de jeitos diferentes em cada indivíduo.

# O que lemos

ABBAGNANO, Niccola. Dicionário de Filosofia. SP: WMF


Martins Fontes, 2012

33
CHAUI, Marilena. O que é Ideologia. SP: Brasiliense, 2001
CHAUI, Marilena. Ideologia e educação. Educ. Pesqui., SP, v.42,
n.1, p.245-257, jan-mar/2016
DOWNES, Stephen. Guia de Falácias Lógicas. [Link]
[Link]/wiki/images/5/5c/[Link]
ESPINOSA, Bento. Tratado da Emenda do Intelecto. BH:
Autêntica, 2023
LINDEN, Rafael. Terapia gênica: o que é, o que não é e o que será.
Dossiê Biotecnologia: Estudos Avançados. 24 (70), 2010. Disp.
[Link]
LOPES, Ruy Sardinha. Informação, conhecimento e valor. SP:
Radical Livros, 2008
NIETZSCHE, Friedrich. Humano Demasiado Humano. SP:
Lafonte, 2018
NIETZSCHE, Friedrich. “Sobre verdade e mentira num sentido
extra-moral” in MARÇAL, Jairo (org.) Antologia de textos
filosóficos. Curitiba: SEED, 2009, p.530-541

# O que acessamos

FATO OU FAKE. G1.


[Link]
[Link]
[Link] (rede social) - (hoje [Link])
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Série ‘Vacinas Expli-
cadas”. [Link]
detail/how-do-vaccines-work
[Link]
how-are-vaccines-developed

34
[Link]
the-race-for-a-covid-19-vaccine-explained
CAPCS-UERJ. Você sabe o que são operadores booleanos?
[Link]
-booleanos/UOL Confere. [Link]
ultimas-noticias/2023/02/24/hospital-das-clinicas-nao-tem-
-ala-para-tratar-sequelas-de-vacinados.
The line between fact and fiction. Disp. htm [Link]
[Link]/writing/the-line-between-fact-and-fiction/
[Link] [Link]
conta-de-trump-no-twitter/a-63823561
[Link] [Link]
tes-as-diferentes-formas-de-gerar-receita-com-um-site/
BANCO CENTRAL DO BRASIL [Link]
controleinflacao/oqueinflacao

# Quer saber mais?

A Onda. Filme. 1981. 44 minutos. Dir. Alex Grasshoff.


A Onda. Filme. 2008. 110 minutos. Dir. Dennis Ganzel
A Era da pós-verdade. Fundação Perseu Abramo. Disp. https://
[Link]/2022/11/29/a-era-da-pos-verdade/
[Link] [Link]
logia/noticia/2019/08/sete-afirmacoes-feitas-pelos-terrapla-
nistas-e-os-motivos-de-eles-estarem-enganados-cjze68lgl038r-
[Link].
HARAWAY, Donna. Manifesto Ciborgue. Ponta Grossa: Mons-
tro dos Mares, 2023

35
Capítulo 2
Quem é fake?

Uma pergunta difícil, mas com uma resposta sincerona;


eu, você, sua tia, seu ou sua chefe, o líder religioso da sua comu-
nidade, o policial, o hippie, o militar...TODO MUNDO, se olhado
de perto, é meio (ou é muito) fake. Sendo humanos, lidamos
com um conflito permanente entre nossa percepção sobre nós
mesmos, nossa imagem projetada para os outros e a imagem
que percebemos que os e as outras têm sobre nós. Neste jogo
entre expressão, aparência e percepção é que se processaria a
criação daquilo que chamamos de personalidade.
Este paradoxo é perceptível no dia a dia: basta analisar-
mos nossos comportamentos, nossa linguagem, nossas ações de
acordo com o ambiente no qual estamos inseridos. É bastante
improvável que alguém entre nós fale e aja do mesmo jeito – e
use as mesmas palavras - quando está com amigos e amigas em
uma festa ou no almoço de domingo com pai, mãe e a família
reunida. Por sermos seres sociais, buscamos interação com nosso
semelhante e muitas vezes imitamos o comportamento alheio.
Esta capacidade de se adaptar ao ambiente e estabelecer
laços com as pessoas traz uma consequência lógica: passamos
a nos importar com a maneira como somos vistos ou com-
preendidos pelas demais pessoas do grupo. Ao mesmo tempo,
passamos a agir de forma a buscar causar uma boa impressão
em tais pessoas, a influenciar esta compreensão. Neste processo,
adaptamos comportamentos e modos de pensar ao que o grupo
exige na mesma razão em que buscamos que o grupo ajuste suas
condutas de acordo conosco.
Essa relação entre a necessidade de fazermos parte de
um grupo e a busca de cada um e uma de nós em mostrar nossa
individualidade, mostrar aquilo que nos torna únicos e diferen-
tes, cria um vazio em cada pessoa e cria também a necessidade

37
de ajustarmos nossos comportamentos, sentimentos e posturas
tanto às nossas expectativas quanto às dos demais. E isso envolve
modularmos nossas pulsões, linguagens e desejos para sermos
percebidos como confiáveis, atraentes, interessantes, seguros,
etc. Este processo de reconhecimento entre os integrantes do
grupo objetiva o fortalecimento de si e do conjunto.
Assim, seria possível dizer que a formação deste Eu pes-
soal/social, desta personalidade, acontece pela relação entre a
individualidade de cada pessoa e o que acontece na vida social,
no dia a dia, nas coisas (boas ou ruins) que as pessoas aprendem
convivendo umas com as outras, nas tradições e ideologias que
atravessam a sociedade. E, de certa maneira, todas as pessoas
acabam criando uma máscara para interagir com as outras, pois
expressar quem você é também é expressar como seus pais ou
responsáveis criaram você, a educação que você recebeu, os
valores que o seu grupo social acha importantes, o que você
concorda ou discorda sobre as outras pessoas, e por aí vai.
Tem ingredientes nesse bolo (a pessoa) que não são visíveis e
que nem todo mundo curte o sabor se estiverem em grandes
quantidades, mas que dão algum gosto na receita.
Seja sincera/o: você já disse coisas apenas para agradar
ou provocar quem estava perto (ou deixou de dizer pelo mesmo
motivo)! Já sorriu quando queria, no fundo, falar “umas verdades”
para a pessoa. E você sabe que certas coisas que você poderia dizer
a alguém apenas seriam formas de ferir esta pessoa, ou seja, algo
desnecessário. Imagine que seu amor fez a você a famigerada
pergunta “amor, eu engordei?”, e você diria “sim, engordou e está
feio/a”, assim, diretamente e sem tomar cuidado para não ferir
os sentimentos da pessoa? Se você falar “toda a verdade honesta-
mente”, será que não vai ser pior para o relacionamento? A frase
atribuída a Voltaire parece fazer sentido então: “tudo que você
diz deve ser verdade, mas nem tudo que é verdade deve ser dito”.
E o que acontece com as emoções que somos obrigados
e obrigadas a guardar em caixinhas dentro de nossa cabeça? O
que acontece conosco? Como a gente lida com estes fantasmas
que não são camaradas?

38
Aparências, nada mais...

O ser humano é obcecado por sua aparência, ou seja, por


influenciar positivamente a maneira pela qual as demais pessoas
lhe enxergam: o jeito de APARECER, de ser visto. Roupas,
modos, falas e discursos influenciam no que acham de você.
Assim, a construção desta persona ocupa um local importante
na definição da personalidade de cada um de nós, assim como
cria jeitos de agir e de ser que colaboram na criação desta ima-
gem de si mesmos.
Porém, essa obsessão acaba por provocar um tipo de
fratura em quem somos: há sentimentos, vontades, desejos que
não podem ser expostos, pois temos medo do que sentimos, do
que eles podem causar ou do julgamento da sociedade sobre
eles. Da mesma forma, acabamos por copiar (ou MIMETIZAR,
como camaleões) comportamentos que podem contrariar o que
realmente sentimos ou pensamos sobre um tema ou o que a
sociedade considera a ação correta, mas imitamos estas ações por
querermos nos integrar a grupos - ou por elas proporcionarem
espaço para que certos sentimentos, pensamentos e desejos que
as pessoas não teriam coragem de assumir publicamente (por
propagarem preconceitos, por exemplo) possam se manifestar,
ainda que por frestas da sociedade.
A aparência das coisas e das pessoas, no final das contas, é
algo bem truncado e incompleto, pois a aparência/representação
NUNCA consegue dizer absolutamente tudo sobre aquele objeto
ou pessoa. Dois filósofos são importantes para entendermos isso:
o francês Maurice Merleau-Ponty e o brasileiro Bento Prado
Junior. Eles nos dizem, cada um a seu modo, que a maneira pela
qual as coisas se apresentam é influenciada pela maneira que as
pessoas se relacionam (a intersubjetividade) e também influen-
cia nesta inter-relação pessoal. Como não é possível conhecer
completamente uma coisa ou uma pessoa, muito da imagem
que temos do mundo é, literalmente, invenção da nossa cabeça,
fruto das expectativas que temos ou do jeito que reagimos às
ações dos outros.

39
Ou seja, não é só o poeta que é um fingidor, como diria
Fernando Pessoa: todo mundo é. Tais máscaras que criamos
para funcionar socialmente são imitações do que absorvemos e
almejamos, projeções do que queremos ser ou dizer e edições do que
transmitimos aos demais e a nós mesmos6. No fundo, sabemos
disso, agimos assim e criamos tais armaduras para poder lidar
com as outras pessoas – e com nossas próprias angústias, emoções
e vontades. Há muitas situações nas quais, para conseguirmos
lidar com todo esse rio de emoções e pensamentos que corre na
terra da aparência, tentamos juntar tudo, inclusive coisas que
são completamente contraditórias entre si, em alguma história
unificadora, um conto de fadas, uma teoria da conspiração, algo
que possa PARECER uma ameaça para que isso nos una contra
ela. Veremos este processo na sequência.
Tudo isso tem um lado bom: pode funcionar muito bem
para que uma pessoa se sinta mais segura para enfrentar os
medos que habitam dentro dela, ou superar sua timidez, ou
evitar de se machucar ou machucar outras pessoas, ou buscar
sua paz interior, entre outras coisas. Porém, muitas vezes estas
armaduras todas escondem um lado muito, mas muito ruim
que mora, de acordo com o filósofo Theodor Adorno, dentro
de cada um de nós.

Existe um tirano dentro de cada pessoa?

Adorno estudou, na década de 1950, um fenômeno intri-


gante nas sociedades alemã e norte-americana: como era pos-
sível que pessoas aparentemente comuns e tranquilas, com um
conhecimento razoável sobre as coisas, se transformassem,
como por um passe de mágica, em pessoas violentas, raivosas e
que valorizavam a ignorância. Para entender o que acontecia,

6
O filósofo alemão Walter Benjamin escreveu em sua tese “Origens do drama barroco
(ou trágico) alemão”, dentre outras coisas incríveis e geniais, sobre como as pessoas
facilmente transformam a vida num tipo de teatro, onde podem se enxergar como reis,
príncipes, princesas, heróis, heroínas ou injustiçadas no drama do viver. Sabe aquela
pessoa que diz “isso só acontece comigo”, como se vivesse em uma novela ou no BBB?
Pois então...

40
o filósofo e sua equipe de pesquisadores na Universidade da
Califórnia (EUA) e no Instituto de Pesquisa Social em Frank-
furt (Alemanha) conduziram um estudo que envolveu mais de
2 mil pessoas, entre estudantes da Universidade da Califórnia
e do Oregon, trabalhadoras/es da região, membros das igrejas
próximas, militares reformados e veteranos de guerra, prisio-
neiros da penitenciária de San Quentin, etc.
Para saber o que ocasiona este comportamento, o grupo
elaborou e aplicou questionários nos quais investigaram a tendên-
cia das pessoas entrevistadas a adotar comportamentos hostis e
autoritários. Como ninguém iria dizer claramente algum absurdo
como “sou racista”, “sou antissemita”, “acho que mulheres não
devem trabalhar e devem ir para a cozinha”7, etc., as perguntas
foram montadas para que as pessoas, caso pensassem desta
forma, acabassem por revelar isso de forma indireta, por sua
pontuação nas respostas.
Este perfil psicológico, chamado de Personalidade Autoritá-
ria pelos estudosos, apresenta algumas características frequentes,
independente da pessoa que respondeu, de seu gênero, sexo,
etnia, identidade sexual, classe social, etc. E o mais esquisito é
que algumas das características aparecem tanto com pessoas que
tiveram alta pontuação nos questionários – ou seja, que eram
abertamente preconceituosas – como com pessoas que tiveram
baixa pontuação ou que se enxergavam como progressistas.
Vamos a estas características principais.

@ Convencionalismo: aceitar e defender obstinadamente


valores tradicionais sem se perguntar as razões disso;
@ Submissão acrítica a autoridades: aceitar ordens sem
questionar as razões – e apenas porque vieram de pessoas
com “poder”;
@ agressão autoritária: tendência em descontar sua raiva
em grupos mais frágeis, como minorias sociais, pessoas pobres,
mulheres, crianças, etc.;
7
Hoje em dia, tem muita gente que diz isso abertamente para chocar e ganhar curtidas
e compartilhamentos. Lembram do que falamos sobre a propagação de polêmicas?

41
@ anti-intracepção: uma raiva agressiva contra as coisas,
pessoas ou comportamentos que sejam subjetivos, criativos ou
imaginativos. Uma tendência a se focar apenas nas coisas práticas
e objetivas, mantendo-se sempre ocupado: tempo é dinheiro e
“cabeça vazia é oficina do diabo”;
@ estereotipia e superstição: acreditar que o destino
individual e coletivo já está definido; julgar as pessoas com base
em estereótipos e padrões fixos;
@ Rigidez excessiva de comportamentos e “dureza” como
equivalente à firmeza de caráter: a ideia de que ser uma pessoa
com princípios e valores sólidos é igual a ser uma pessoa que não
demonstra compaixão, sentimentos e que aguenta qualquer con-
tratempo sem reclamar, afinal mostrar sentimentos é “mimimi”;
@ ter pensamentos de dominação e poder: vontade de
dominar, subjugar, oprimir as outras pessoas para se sentir bem;
@ destrutividade: agredir gratuitamente as outras pes-
soas, não importa quem nem como (agressão verbal, ironia,
bullying, sarcasmo, deboche, violência física ou psicológica);
@ cinismo: desconsideração em relação às outras pessoas
e, principalmente, escolher deliberadamente não se importar
com a diferença entre verdade e falsidade em uma situação;
@ projetar seus medos e impulsos sobre as outras pessoas,
ou o que se acha que as outras pessoas são. Os demais sempre
são vistos como fonte de perigo, do mal, de risco;
@ obsessão com condutas, discursos e significantes rela-
cionados à sexualidade, seja a própria ou a das outras pessoas
(vulgo “fiscal de colchão”).

Seja sincera ou sincero com você: conhece alguma pessoa


que se encaixe nestes padrões? Já agiu desta forma alguma vez?
Hmmm, complicado.... Mas não se sinta só: é mais comum do que
parece, o que, para o grupo de pesquisadoras e pesquisadores
que elaborou este estudo, mostra que existe alguma coisa no
jeito que as pessoas são educadas desde cedo, mais as reações
que surgem por causa da vida em sociedade, que acaba por dei-

42
xar cicatrizes na nossa personalidade – e acabamos por achar,
lá dentro da nossa mente, que a solução para estas cicatrizes é
virarmos pequenos tiranos.
Um outro pensador, Étienne de La Boétie (1530-1563),
escreveu quando tinha apenas 18 anos o Discurso sobre a Servidão
Voluntária, onde reflete sobre a razão pela qual as pessoas acei-
tam ser oprimidas por um tirano. Além do comodismo (o hábito
de ser oprimido e não questionar isso), ele aponta a crença no
poder do líder, que é visto como um Messias por seus seguido-
res, e a crença em poderes divinos, que muitas vezes são usados
como justificativa para que alguns oprimam muitos. Mas o que
mais impressionou La Boétie foi aquilo que podemos chamar
de “esquema de pirâmide” da opressão e da tirania: um tirano
oprime seu circulo próximo; as pessoas deste círculo próximo
oprimem, cada uma, o seu circulo próximo. Estes círculos de
segundo escalão oprimem mais círculos, e por aí vai: a sociedade
inteira é opressora e oprimida ao mesmo tempo, menos o tirano
que não tem ninguém acima dele para lhe oprimir e mantém
seus oprimidos ‘satisfeitos” com algumas migalhas – cargos,
joias, propinas, privilégios, curtidas e compartilhamentos (hoje
em dia), etc. Para manter os privilégios, o círculo mais próximo
do tirano se submete com mais força ainda, tentando antecipar
suas vontades (o famoso cordão dos puxa-sacos) e atira aos seus
oprimidos outras migalhas, e assim vamos até que os oprimidos
virem parte do círculo de opressão, pois DESEJAM os privilégios
e a possibilidade de oprimir alguém.
Sabe o síndico que se mete na vida de todas as pessoas do
condomínio, deixando todo mundo maluco? Sabe o motorista
de ônibus que vê você correndo para pegar o coletivo e fecha
a porta na sua cara? Sabe aquele seu parente que, na reunião
de família, sempre dá um jeito de criticar todo mundo dizendo
que todos estão errados e só ele ou ela estão sempre certos?
Ou o colega de trabalho que é grosseiro, humilha os demais e
assedia as colegas mulheres, mas quando leva bronca sempre
diz que foi só “uma brincadeirinha”? A/o colega de trabalho
que só falta beijar o chão em que o chefe pisa e busca humilhar

43
os demais para que a chefia o note? Ou quem diz não ter pre-
conceito, mas vira e mexe fala mal de pessoas pretas, pobres,
nordestinas, LGBTQIAPN+, etc.? Conhece alguém como a
Dona Florinda do seriado Chaves, que mora na mesma vila que
os demais personagens pobres, mas sempre diz que não quer
se misturar “com essa gentalha”? Pois é ... para esta pessoa se
tornar um tirano, só falta a chance.

“Foi só uma brincadeira” mesmo?

Mas espera aí...alguém pode dizer, “mas o que essas pes-


soas fizeram de errado? Só falaram o que pensam, ainda que o
que pensam seja meio estranho ou reprovável”.... “Aonde fica a
liberdade de expressão”?... “E o direito de pensar diferente”?...”O
que isso tudo tem a ver com o tal do fake”?...”Lá vem lição de
moral, não posso nem mais fazer uma brincadeira”? Fique de
boa: ninguém aqui quer censurar ou proibir nenhum pensamento,
apenas refletir junto com você sobre coisas BEM importantes.
Vamos chamar para a conversa dois outros filósofos do
século XX, os franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari, que
escreveram juntos sobre um montão de coisas, mas tem uma
ideia deles que é especialmente interessante para pensarmos
estes problemas de hoje: a de que a maior característica de uma
boa parte da humanidade é a sua imensa capacidade de fazer
besteira. Perceber isso precisa incluir a percepção de que cada um
de nós – o que inclui a mim e a você que está lendo isso agora –
faz e pensa besteira, e lidar com ela é nossa responsabilidade.
Fazer besteira ou pensar besteira não é simplesmente
trocar o açúcar pelo sal em uma receita ou pensar num trocadilho
digno da quinta série com o nome de um colega. É, de acordo
com estes pensadores, sintoma de um modo limitado de pensar,
de uma falta de imaginação ou criatividade, de não conseguir se
colocar no lugar da outra pessoa e de ter orgulho de ser assim.
Se eu não consigo refletir e admitir que pensei ou fiz besteira,
me envergonhar disso e aprender com isso, eu não consigo nem
perceber a besteira dos outros.

44
Deleuze vai dizer que “a besteira não é um erro ou um
conjunto de erros. Há pensamentos imbecis, discursos imbecis,
que são feitos inteiramente de verdades” (2018, p. 105). Ou seja,
como já vimos ao falar dos tipos de verdade, é uma questão de
COMO as ideias são organizadas, da relação entre o que uma
pessoa pensa, como ela aprende a pensar assim e como a socie-
dade condiciona e é condicionada pelos nosso pensamentos e
ações. E essa alteração (acidental ou proposital) da organização
das ideias é uma característica central do fake.
As pessoas tendem a pensar muito sobre as coisas, prin-
cipalmente na hora de tomar decisões. E tanto pensar às vezes
pode ser excessivo, alimentando medos e ansiedades e impedindo
as melhores escolhas. Daí, para evitar esta tensão, muitas vezes
agem por puro impulso (fogem do pensar) ou aceitam o que
outras pessoas pensaram (sociedade, religião, família, etc.) como
verdades prontas. E como confiamos nestas pessoas (já falamos
disso no capítulo 1), não questionamos se há algo por trás desta
verdade fast-food, que basta pedir que vem pronta para consumo.
Se formos pensar a sério sobre esse assunto, e usando
um argumento desenvolvido pelo linguista John Austin, não
há diferença real entre falar e fazer besteira. Austin chama isso
de dimensão performativa da linguagem: contar uma história,
fazer um discurso, propagar uma ideia traz impactos no mundo
concreto, não são apenas palavras ao vento. Basta ver como sur-
giram diversos casos de imitadores inspirados pelos malucos que
invadiram escolas. Ou quanto aumentaram os casos de violência
contra mulheres ou pessoas LGBTQIAPN+8, inclusive assassi-
natos, depois que alguns políticos, líderes religiosos e influencers
disseram coisas como preferir um filho morto do que gay, que
uma criança precisa “apanhar para virar homem” caso mostrasse
comportamento supostamente gay, que mulheres teriam direitos

8
Entre 2020 e 2022, uma mulher foi morta por motivo fútil a cada 6,5 horas no país.
Conforme a juíza Renata Gil de Alcântara Videira, ex-presidente da Associação dos
Magistrados do Brasil, a violência começa muitas vezes em casa com ataques verbais e
evolui para humilhações, constrangimentos, agressões físicas, abusos morais e sexuais,
podendo chegar à morte. (Fonte: [Link]
coluna/2022/08/[Link])

45
demais no trabalho (como licença-maternidade) e que isso preju-
dica o patrão homem, que uma mulher não deve fazer faculdade
para que o marido não se sinta inferior a ela... a lista de absurdos
é grande, e uma pessoa conhecida falar tais besteiras encontra
eco em cabeças menos pensantes, visto que muitas delas seguem
cegamente o que a autoridade diz, sentindo-se legitimadas a
cometer estas agressões já que “alguém de poder” pensa parecido.
A besteira tem outra característica importante: ela surge
muitas vezes não só como fruto do desconhecimento que temos
sobre algum assunto, mas muitas vezes de uma falsa preten-
são de que sabemos muito sobre um assunto, sendo que o que
estamos fazendo é apenas reproduzir besteiras alheias como
se fôssemos nós que tivéssemos tido a grande ideia besta. Um
pensamento – a produção de conhecimento – realmente digno
deste nome está em permanente confronto contra o pensar
besta, contra estes consensos que existem na sociedade e que
as pessoas aceitam sem piscar.
E o que fazemos com o discurso que, por trás da brinca-
deira e da besteira, propaga preconceito e ódio contra grupos de
pessoas? Devemos tolerar por ser só uma piada? O filósofo Karl
Popper deu uma resposta bem direta sobre o assunto: de jeito
nenhum! Popper, que passou pelos horrores da Segunda Guerra
Mundial, pensou muito a respeito de liberdade de expressão e
chegou a uma conclusão paradoxal: por mais que uma sociedade
deva ser tolerante e as pessoas devam respeitar o direito das
outras se expressarem livremente, se uma pessoa usa sua liber-
dade de expressão para incentivar preconceitos, ódios e ataques
à vida de outras pessoas diferentes, esta pessoa que fala muita
besteira não deve ter a liberdade de falar qualquer coisa, deve
ser punida de alguma forma bastante dura. Para garantirmos a
liberdade de expressão, ela precisa ter um limite: NÃO podemos
ser tolerantes com as pessoas intolerantes.
Popper imaginou uma situação que, infelizmente, acon-
tece e aconteceu na realidade: suponha uma sociedade que, em
nome da liberdade de expressão, aceita que um candidato a um
cargo discurse defendendo a eliminação da oposição, a morte

46
de pessoas de uma religião e a censura a alguns grupos sociais.
Um discurso de intolerância. Se for eleito, poderá transformar
suas palavras em atos, demolindo a democracia e a liberdade por
dentro, em nome de uma suposta liberdade individual.
De quem estamos falando? Popper falava de Hitler, que
se tornou chanceler (um tipo de primeiro-ministro) na Alema-
nha em 1933 como efeito de um acordo entre os conservadores
tradicionais e os conservadores radicais que comandavam o
poder na era Hindenburg. O partido nazista, que tinha a maior
bancada do Parlamento (Reichstag) alemão, defendia abertamente
a superioridade dos alemães sobre todas as outras pessoas (e
também a superioridade de brancos sobre pessoas pretas), o
extermínio dos judeus e da oposição política e a completa cen-
sura de qualquer voz dissidente. E fez isso usando a democracia
e a liberdade contra elas mesmas, tanto que o partido recebeu
votação maciça e muito apoio e dinheiro de empresas alemãs e
de outros países. Ainda que o sistema alemão (parlamentarista)
fosse diferente do nosso, a escolha foi livre e a votação também.
Os nazistas usaram e abusaram de Fake News contra os
judeus, as universidades e intelectuais, as pessoas pretas, as pes-
soas homossexuais, os outros países, etc. Muita gente achou que
era apenas piada, que Hitler nunca faria aquilo quando chegasse
ao poder, que era só o jeito “sincerão” dele. Mais de 6 milhões
de judeus, ciganos, homossexuais, opositores políticos, etc.,
vítimas da fome, doenças e venenos nos campos de concentra-
ção e extermínio – sem contar quase 50 milhões de mortos nas
operações militares - não acharam essa história nada engraçada.
Ou seja, palavras tem poder. Logo, não é – NUNCA É –
apenas uma brincadeira. Nunca é só uma besteirinha. Nunca é só
uma fake: tais coisas viram realidades bem desagradáveis.

Cinismo

Das características que já vimos, o cinismo é especialmente


importante, pois conecta o impulso de agressividade e autorita-
rismo e a racionalização desta agressividade. Traduzindo: são as

47
desculpas que inventamos para justificar as vontades violentas
que muitas vezes as pessoas têm.
Quanto mais esta racionalização ou justificativa seja
genérica ou distante da realidade, mais cínico é o contraste
estabelecido com a brutalidade da ação particular. O cinismo
opera como falsa consciência esclarecida, como recusa deliberada
entre verdadeiro e falso visando organizar psicologicamente as
contradições que operam na personalidade do indivíduo, que
precisa lidar com a vontade de satisfazer impulsos destrutivos
opostos aos comportamentos aceitos.
Ou seja: para justificar a vontade violenta de, por exem-
plo, agredir uma pessoa, muitas vezes alguém que sofre deste
impulso precisa dar alguma justificativa pseudorracional para
o que fez. Ou arruma uma desculpa para “passar pano” para
um ato de violência de outra pessoa, pois não quer dar o braço
a torcer ou não consegue ver uma contradição real operando.
Esta confusão (intencional ou não) faz com que a infor-
mação falsa, por exemplo, torne-se o próprio índice de verdade,
mas uma verdade que é construída sem necessidade de corres-
pondência completa aos dados e que passa a ter valor absoluto
para quem a abraça. Lembram do oximoro “intervenção militar
para a manutenção da democracia”? Quem realmente aposta
nesta ideia NÃO PERCEBE que há uma incompatibilidade de
termos, uma contradição entre “intervenção” e “democracia” e
acha que este discurso é coeso. Mas além disso, a propagação
deste modo cínico de ver a vida carrega uma falsa coerência entre
discurso e prática: falamos em agir corretamente, ou que nosso
modo de agir é sempre correto, mas sabemos que nossas práticas
desmentem este fato. Para não nos frustrarmos e confrontarmos
esta acrasia9, criamos histórias que “apagam” esta inconsistência
e fazem com que não tenhamos que nos expor a este dilema. O
cinismo é como a novilíngua desenvolvida por George Orwell no

9
Do grego akrasia, que significa “não ter comando sobre si mesmo”, a acrasia é a ação
de uma pessoa que, mesmo sabendo a melhor coisa a fazer, acaba por escolher a pior
opção: “Vejo as coisas melhores e as aprovo, mas sigo as piores. (Ovídio, poeta romano,
em As Metamorfoses)

48
livro 1984, onde o Grande Irmão propagava pensamentos como
“Guerra é paz, escravidão é liberdade, ignorância é força” para
condicionar as mentes da população, até mesmo pelo fato de que
uma pessoa ‘cínica” (neste sentido, alguém que adota o discurso
e a prática cínica) não percebe - ou ignora deliberadamente - a
dissonância cognitiva existente entre sua visão de mundo e os
processos da realidade.
Por isso, a crítica que a filósofa Marilena Chaui faz a
governos autoritários recentes, que, em suas palavras, fizeram
“da mentira a arte de governar”, é correta. Já notaram que
pessoas autoritárias assumem uma postura de ódio a quem
pensa diferente delas (ou até mesmo ódio ao conhecimento que
é comprovado e corroborado, como o que as pesquisas científi-
cas trazem)? E mesmo se são desmentidas pelos fatos, brigam
com eles, trazem – ou muitas vezes CRIAM – outros apenas
para não terem que admitir seu erro? Governos autoritários
são cínicos pois seus integrantes ou apoiadores fazem uma
recusa determinada e muitas vezes consciente de distinguir o
verdadeiro do que é falso, ao ponto de odiarem esta separação.
Muitas vezes, alguém sabe que uma informação é falsa, mas a
difunde “por precaução”, pois “vai que pode ser verdade um dia”
ou “nunca se sabe, afinal”, ou “melhor prevenir que remediar”. Se
você espalha uma falsidade SABENDO que é falsa, o problema
não é só a notícia, mas você...
Surge a questão: por que alguém faria isso consciente-
mente? Há quem lucre com as Fake News e as fofocas, como
já dissemos antes, mas há um certo “pagamento psicológico”
com isso. Numa sociedade que flerta com o autoritarismo, os
estímulos psicológicos sobre os indivíduos causados por apelos
ao medo, ao terror, à desconfiança, ao ódio, etc., podem gerar
em algumas pessoas prazer com o sofrimento alheio, mesmo
que ela mesma sofra medo, insegurança, pobreza, etc., na pele
e tenha noção de que sua vida ficou mais pobre ou mais difícil.
Sabe aquele vizinho que está mal, mas comemora que o outro
vizinho está pior ainda?

49
Infelizmente conhecemos gente assim, que beija a mão
que a agride e fica feliz com a desgraça dos outros. Como o
comediante Chris Rock escreveu no dia 15/08/2017 em sua
conta no antigo Twitter (atual X), “se há dez caras que acham
ok curtir seu tempo na companhia de um nazista, eles se tornam
onze nazistas”.
Esta tensão vai, progressivamente, rompendo a indivi-
dualidade e a personalidade das pessoas, por mais equilibradas
que elas pareçam. Esse clima social de preconceito e guerra
constante entre as pessoas (na economia, no trabalho, na política,
nos times de futebol, na fé, etc.) já tinha sido visto por Adorno
naquele estudo que mencionamos, mas com o passar do tempo
isso piorou. Até que ponto este discurso de “para ser um ven-
cedor você precisa superar todo mundo” não vira um problema
na cabeça das pessoas? Essa mentalidade de empreendedor na
qual o mundo é visto como competição na qual somente poucos
serão os “escolhidos” para ter sucesso (e “sucesso” é visto como
“ter dinheiro”) não leva às pessoas a desenvolver ansiedade,
Burnout e depressão?
Até mesmo na esfera religiosa este comportamento
abunda, com as pessoas levando a sério demais a ideia de que
muitos serão chamados e poucos os escolhidos (ou seja, de que
é preciso “competir” e “concorrer” pela atenção divina). A “cura”
ou “salvação” que alguns escolhem? Um jeito fake de ser, ver e
agir no mundo: a obsessão pela aparência nas redes, a necessi-
dade de posar de boa pessoa, de condenar os demais e as demais
por serem diferentes ou por se comportarem fora dos rígidos e
inatingíveis padrões morais de quem julga, a crença exagerada
de que se é especial e que se está sempre certo. Em suma, os
elementos iniciais que alimentam o preconceito.
Descrevi pessoas e comportamentos que você conhece,
não é? E de diversos pontos do espectro político e social... Vamos
conhecer os mais comuns? Quem são? Onde moram? Como se
reproduzem? Fique de olho na continuação...

50
# O que lemos

ADORNO, Theodor. Estudos sobre a personalidade autori-


tária. SP: EdUnesp, 2019
AUSTIN, John L. How to do Things with words. New York:
Oxford University Press, 1965.
AUSTIN, John L. Quando Dizer é Fazer: palavras e ação.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1990
DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a Filosofia. SP: n-1, 2018
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia?
SP: Editora 34, 2010.
LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso da Servidão Voluntária.
SP: Brasiliense, 2001
MERLEAU-PONTY, Maurice. O visível e o invisível. SP:
Perspectiva, 2019
ORWELL, George. 1984. SP: Cia. das Letras, 2009
OVIDIO. As Metamorfoses. SP: Editora 34, 2017
PESSOA, Fernando. Autopsicografia. In Poesias. 15a ed. Lis-
boa: Ática, 1995
POPPER, Karl. A Sociedade Aberta e seus inimigos. Vols. 1
e 2. Lisboa: Edições 70, 2012.
PRADO JÚNIOR, Bento. Presença e Campo Transcenden-
tal: consciência e negatividade na filosofia de Bergson. SP:
EdUSP, 1988

# O que assistimos?

CHAVES (El Chavo del Ocho). Série (1973-1980). Criação:


Roberto Gomez Bolaños. Televisa -México

51
# O que acessamos

@chrisrock – [Link] (hoje X)


CHAUI, Marilena. O que é a “nova” ultradireita? [Link]
[Link]/outrasmidias/marilena-chaui-o-que-
e-a-nova-ultradireita/
[Link] - [Link]
alvaro-gribel/coluna/2022/08/bolsonaro-e-os-crimes-contra-
[Link]
ROQUE, Tatiana. O negacionismo no poder. Revista Piauí,
ed. 161, fevereiro 2020. Disp. [Link]
materia/o-negacionismo-no-poder/

# Quer saber mais?

O ABECEDÁRIO de Gilles Deleuze (verbete H – História da


Filosofia e R - Resistência). Documentário. Dirigido por Pier-
re-André Boutang. 1995. Disp. [Link]
fr/4DACTION/w_fiche_film/30863_1
LUI, Eduard Henry; MAESO Benito. Teologia da Prosperi-
dade e religião do Capital. IF-SOPHIA. Ano I, Vol. I, jul./2015.
Disp. [Link]
[Link]/julho-2015-edicao-iv

52
Capítulo 3
A vida fake

Porto Alegre, 22 de novembro de 2022. Em frente ao quartel


do Exército, dispostos em círculos, os seguidores de um candidato
a presidente derrotado, inconformados, apontam as lanternas de
seus smartphones para o céu, clamando por ajuda intergaláctica para
destituírem o presidente eleito e restaurarem a “ordem”.
Ainda que isso pareça uma imensa piada, este fato é sin-
toma de um conflito entre visões de mundo antagônicas e hostis
entre si. Ao nosso lado, há pessoas que aparentemente têm
conhecimento, ponderação ou agem de modos até simpáticos,
mas que, sob certos estímulos, abraçam sem o menor pudor
comportamentos e ideias irracionais e delirantes. Porém, algo
mais profundo do que uma luta entre certo e errado, verdadeiro
e falso, opera neste caso. Não basta mostrar a verdade e assim
libertar tais pessoas deste transe hipnótico, pois para estas
pessoas o estado de transe é a própria verdade.
Vimos até agora alguns movimentos da relação entre os
estímulos externos que recebemos o tempo todo e o bug que a
nossa cabeça dá por causa de sermos condicionados a viver de
certas maneiras. Agora vamos avançar em entender O QUE essa
relação gera, que tipo de pessoa sai dessa confusão e que tipo de
coisa pode acontecer na realidade por causa disso. Chamamos
este processo de vida fake.
Mais do que desinformação e manipulação de dados, a
vida fake é a construção individual e coletiva de um modo de vida
que encontra em si mesmo seu referencial de verdade, valida-
ção discursiva e suporte emocional - e que é muito resistente e
refratário a qualquer abertura, sendo parecido com uma seita.
Essa convicção no fake como se fosse verdadeiro é operante (causa
coisas) e é operada (é realizada por pessoas e é efeito de outras
coisas também) no mundo. Tem dimensão material e mostra

53
seus efeitos de forma visível e profunda na vida das pessoas (até
mesmo de quem não abraça este modo de viver).
Uma de suas características é funcionar como uma caixa
de ressonância e de amplificação de sentimentos como raiva,
agressividade, ressentimento e frustração com as dificuldades da
vida. Essa frustração se vira, também, contra a organização da
sociedade: a vida social passa a ser vista como uma competição na
qual as pessoas somente podem ser inimigas entre si e a política,
como modo de organizar as relações das pessoas, é vista como
uma pedra no sapato de quem quer “vencer” a qualquer custo.
Neste mundo-cão que tais pessoas parecem ter prazer em
viver, dois processos são muito claros: o estabelecimento de um
conjunto de traços de personalidade que permitem identificar as
pessoas com tendências autoritárias e as formas de organização
social que, em si, criam o cenário (e são criadas também) para
que estas tendências aflorem. Uma forma de ver e de viver a
realidade que não corresponde ao real, mas que funciona na
prática. Vamos começar pelos tipos mais comuns de pessoas
que vivem nessas realidades próprias.

“Figurinhas carimbadas”

Certos tipos sociais parecem se repetir quando vemos as


personalidades das pessoas que vivem dentro desse mundo onde
ilusão e realidade se misturam e fazem a argamassa da vida.
Para entendermos como essa argamassa vira uma casa, vamos
conhecer as particularidades de cada tipo. São tópicos gerais que
você pode encontrar nas atitudes cotidianas de muitas pessoas
no seu dia a dia. Segue o fio:

@ O ressentido/ a ressentida: “A culpa é minha, eu boto


em quem eu quiser”

# Sente sempre uma sensação de angústia (justificada ou


não) em relação a si e às pessoas. Angústia é uma sensa-

54
ção difusa, como uma ansiedade ou com o medo, mas sem
objeto ou causa. É caracterizada pela perda da paz interior,
a tristeza, a dor e mudanças de humor.
# Esconde seu preconceito e sua dificuldade em lidar com
os percalços da vida em fórmulas e manifestações supos-
tamente mais “racionais”. Exemplos: darwinismo social,
racismo científico, ideias como a de que mulheres seriam
inferiores por uma suposta fraqueza física “natural” e outras
esquisitices do tipo. É o racista que tem “amigos negros”,
mas atravessa a rua ao ver uma pessoa negra em sua direção.
# Como diz Theodor Adorno, o ressentido é como aquele
“pai de família descontente e resmungão que se alegra se
outra pessoa pode ser culpada por seus próprios fracassos
econômicos” (2019, p. 534-535). São pessoas que, por causa
da limitação das suas experiências de vida, não conseguem
enxergar de modo mais amplo e sempre estão em busca
de um “bode expiatório” para atribuir os problemas da
sociedade.
# O ressentido sente a perda de qualidade social e econômica
em sua vida, mas não compreende COMO ou PORQUE isso
ocorreu. Em vez de questionar o sistema, a pessoa continua
mantendo sua função social e culpa os estereótipos ou as
outras pessoas pelo problema. Um exemplo: a disputa entre
taxistas e motoristas de aplicativos de carona (tipo Uber,
InDriver ou 99), ou culpar imigrantes pela diminuição
dos empregos.
# Em geral, assumem uma atitude “acrítica” ou “crítica”
sobre o mundo somente para concordar com as demais
pessoas do grupo – o comportamento de “seguir a boiada”.
Tem constante medo de “perder algo” ou “ser tirado do
grupo”. São pessoas que se importam demais com “o que
os outros vão pensar”.
# O neoliberalismo econômico e social é um exemplo
de como estes indivíduos agem: o “fracasso” individual é

55
primeiro sentido em si, pelo fato de a pessoa não conse-
guir atingir as expectativas e os padrões de rendimento
exigidos na sociedade, e depois este mesmo “fracasso”
(frustração de expectativas) é deslocado ao Outro, ao “con-
corrente”. Buscar “exterminar” o concorrente traz benefício
psicológico: ainda que este indivíduo não triunfe, ele fica
feliz por alguém estar pior que ele.

@ O “ressentido do bem”: “Tudo muda para continuar


a mesma coisa”

# Este tipo de pessoa aparenta não ter preconceitos, mas


a causa disso não é uma conscientização interior sobre o
tema, mas a pressão em seguir padrões ideológicos exter-
nos para “sair bem na foto”, ou seja, ser bem-visto pelas
demais pessoas do grupo ou da comunidade. O resultado
é um discurso progressista, cheio de clichês e frases fei-
tas, mas uma prática retrógrada. Um exemplo é o dito
“esquerdomacho”, que fala em respeitar direitos e minorias,
mas não se mexe para dividir as tarefas da casa com sua
companheira ou esposa.
# Muitas vezes a pessoa concorda com a necessidade de
enfrentar os problemas que afligem as minorias sociais, mas
acaba vendo tais lutas como menos importantes ou como
sem solução. São ortodoxos na sua forma de ver o mundo,
ainda que falem sobre a necessidade de comunhão social.
# Apresentam um raciocínio que aceita e abraça o puni-
tivismo e o justiçamento, como se a força e a destruição
fossem as únicas formas de resolver os conflitos, mas
fazem isso com um disfarce pseudorracional e por meio
de reflexões morais tidas como “sensatas”. Exemplos: em
vez de pensarem sobre as causas da corrupção e seu efeito
no tecido social, abraçam ideias de que apenas a punição
exemplar de quem se corrompe resolve o problema, dei-
xando suas causas (e o corruptor, muitas vezes) de lado.

56
@ O “supercertinho” (Convencionalismo): “Os vidros
do banco também não sofrem”?

# Segue rigidamente padrões estereotipados de compor-


tamento e pensamento. Tais estereótipos vêm de fora
(sociedade, família, religião, etc.) mas são absorvidos tão
profundamente por essa pessoa que ela os obedece auto-
maticamente (o chamado gado).
# Defendem e praticam o que se chama de padrão domi-
nante em uma sociedade, pois possuem um IMENSO
medo em serem vistos ou vistas como diferentes dos e das
demais. Por isso, aceitam facilmente os prejulgamentos e
preconceitos do grupo maior na sociedade, sem análise
crítica destes valores, que são vistos como naturais: sempre
existiram, sempre existirão.
# Tais valores (como tradição, família, propriedade, etc.),
aliás, são vistos como sinal de “decência” e de “civilização”
contra qualquer valor ou forma diferente de ver o mundo.
Muitas vezes eles se definem por contraste em relação
ao Outro: eles e elas são “de bem”, e ser “de bem” é ser
diferente do que as outras pessoas são. Quem nunca ouviu
alguém dizer “não sou que nem essas pessoas”?
# Estas pessoas se acham arautos de uma moral social-
mente perdida que deve ser resgatada a qualquer preço.
Como muitos vídeos na plataforma TikTok mostram, os
autointitulados “defensores da liberdade, de Deus e da
Pátria/família” usam como justificativa para sua guerra
santa contra o diferente a necessidade de salvar o futuro
para seus herdeiros.
# O termo que os define é FAMILIAR: família tradicional,
papéis tradicionais de masculinidade (o homem viril e
“comum”, em um emprego seguro) e feminilidade (mulher
recatada, limpa e do lar).

57
# Temem ser associados com extremos: são adeptos da
teoria da ferradura (há “gente má” dos dois lados e isso
“invalidaria” as reivindicações).
# São muito propensos ao racismo. As minorias sociais só
são aceitáveis enquanto assimiláveis, ou seja, se se integra-
rem à Ordem e ao Progresso. Lutas sociais são bem-vindas,
desde que sejam para integração à comunidade, não para
mudar padrões econômico-sociais. Lembram de um pessoal
falando que minorias DEVEM se curvar às maiorias? Esta
frase significa algo impossível: que uma minoria deixe de
ser o que é, que não lute por seu reconhecimento.
# O problema são sempre os Outros.

@ O mandão ou a mandona (Síndrome autoritária):


“vai ficar de mimimi”?

# Buscam esconder seu medo em parecerem fracas por


meio da repressão profunda de seus desejos e vontades.
Junte a isso o ambiente repressivo no qual cresceram ou
existem e pronto! Estas pessoas alcançam seu ajuste social
tendo prazer na subordinação e obediência (em mandar e
obedecer na base da marretada).
# Este tipo social ama toda autoridade repressiva. Ao
mesmo tempo, psicologicamente, sentiram ou ainda sentem
muita raiva de seus pais (ou da figura paterna) e, por não
poderem muitas vezes expressar sua irritação, direcionam
a raiva contra grupos sociais e pessoas diferentes dela. O
ódio vai contra quem o sujeito não se identifica.
# O amor pela autoridade é tão grande que se transforma
em uma crença cega, e os “fracos” – aqueles que não preen-
chem as características de autoridade - são rejeitados e
atacados pelos indivíduos que se encaixam neste padrão.
E TODA punição contra estas pessoas em condição de
vulnerabilidade social é “merecida”, pois, por serem “fra-

58
cos”, “pediram por isso”. É a estratégia de culpar a vítima
pelo que o algoz fez (aquele papo intragável de que uma
mulher “pede” para ser abusada, ou uma criança “pede”
para apanhar).

@ O/a “engajado em excesso” e “dono da verdade”


(Manifestante): “¡Soy contra!”

# Um tipo bem comum, principalmente na adolescência e


nos primeiros anos de faculdade: é contra toda autoridade
(social, paterna, profissional) não pelo que esta autoridade
pode ter feito, mas por ser uma autoridade (“hay gobierno,
soy contra”10). Podem ser, na vida pessoal, até retraídos e
tímidos, mas quando estão “na causa” tornam-se expan-
sivos, assertivos e até autoritários, lutando contra tudo
que seja ou pareça tirania. Nunca fogem de uma treta – na
verdade até procuram. Traços de personalidade neurótica.
# Sua consciência social, ainda que louvável, é um tipo de
“religião sem deuses”, como se o SEU bom senso e a SUA
reflexão dessem conta sozinhas do recado. Enxergam-se
como donos de uma autoridade inata (ou donos da verdade)
para criticar e “apontar o dedo”.
# Dentro de sua lógica que aproxima processos sociais
com versões laicas de punição divina, é fácil ver esse com-
portamento nas reações extremas das pessoas na Internet.
Fenômenos como a “lacração”, os “guerreiros da justiça
social11” e outros do mesmo tipo são expressões de um
certo complexo de culpa que atravessa a classe média,
10
Um grande amigo meu leu esse trecho do texto e recomendou um livro para você,
leitor ou leitora: O homem que matou Getúlio Vargas, do Jô Soares. No livro, o pistoleiro
anarquista Dimitri Borja Korozec tem a sanha atrapalhada de eliminar todos os tiranos
e figuras de autoridade do mundo, mas acaba ocasionando grandes episódios históricos
de forma tragicômica.
11
Pessoas que lutam por causas sociais e de defesa das minorias, mas que ao fim e
ao cabo buscam apenas validação pessoal, mérito ou aplauso por suas atitudes. Nesta
lógica, todas e todos que não se encaixam nos padrões morais destas pessoas carregam
a culpa pelos erros e devem ser expostos ou punidos exemplarmente.

59
presente, por exemplo, na noção de caridade (herdada do
mea culpa cristã, pois nascemos pecadores para os dogmas
desta religião): ajudam-se os indivíduos, mas não se ques-
tionam as estruturas sociais. Para eles, VOCÊ está errado
mesmo que prove o contrário.

@ O/A Rebelde-psicopata: “coringou geral”

# Como reconhecer esta pessoa? Simples: mostram ter ódio


irracional e cego contra todo tipo de autoridade. Mães,
professores, comandantes, etc., NENHUMA PESSOA está
livre de sua fúria. Um exemplo deste tipo humano aparece
no triste caso do rapaz que esfaqueou a professora em uma
escola estadual de São Paulo.
# Porém, estas pessoas odeiam autoridades MAS sempre
seguem as figuras de autoridade mais violentas, como se esse
ódio escondesse um profundo desejo por líderes autoritários.
# Seja na versão “lobo solitário”, seja na versão “corajoso
de grupo”, é possível perceber uma propensão por excessos
“toleráveis”: atitudes violentas que se escondem atrás da
zoeira, excessos de bebida, tendência a buscarem situações
de risco, uma certa tendência destrutiva em relação aos
outros e a si.
# Caras durões, mas que buscam a punição. Apresentam
indiferença (e não desprezo) à existência de outras pessoas.
Cínicos (esquecem deliberadamente a distinção entre certo
ou errado e verdadeiro/falso).

@ A pessoa impulsiva: “É fazendo m@#$# que se aduba


a vida”

# Essas pessoas agem como se ainda fossem crianças, como


se os freios da sociedade e do SuperEgo nunca tivessem
sido absorvidos.

60
# Atraídas pelo que é diferente, desde práticas sociais, reli-
giosas, amorosas, etc. Muitas vezes não fazem a separação
“nós X eles” que outros tipos têm como base de pensamento.
# Simpatizam com tudo que consideram que é reprimido
pela sociedade, pois buscam satisfazer suas vontades, não
importa o quão malucas sejam.
# O descontentamento pessoal com a tentativa dos demais
em lhe impor limites faz com que, muitas vezes e pela
empatia com os demais, elaborem críticas bastante perti-
nentes aos costumes e à sociedade, mas somente porque
buscam satisfazer seus desejos em primeiro lugar.

@ O/A “fora da casinha” (Alucinado/a): “Meu mundo,


minhas regras”.

# Parecem viver num mundo imaginário, onde as regras


sociais não funcionam direito. Enxergam ameaças em todos
os cantos, por isso se isolam das demais pessoas e sentem-se
frustrados por não estabelecerem relações sociais.
# Comumente criam um mundo imaginário muito com-
plexo e cheio de detalhes, uma realidade fake, na qual
podem se enxergar como heróis ou heroínas que lutam
contra “os poderes ocultos do mundo”.
# Tendem ao fanatismo em torno de um ideal, de um líder
ou de uma ideologia. Ao abraçarem ideologias, buscam
expressar uma sensação de falsa superioridade em relação
aos demais integrantes do ingroup (do qual faz parte) e do
outgroup (os grupamentos sociais externos à célula social
que lhe dá abrigo e segurança).
# Muitas vezes isso é percebido por um profundo pre-
conceito em relação aos integrantes dos outros grupos
sociais e pela necessidade de demonstrar conhecimento ou
erudição sobre temas diversos, ainda que, na realidade, não

61
tenham domínio dos assuntos. Querem – PRECISAM – se
sentir únicos e especiais.
# Esta necessidade de que possuem mais conhecimento
que a maioria (ou, melhor dizendo, essa ilusão de conhe-
cimento análoga ao que já falamos sobre a capacidade de
fazer besteira) faz com que estes alucinados sejam presas
fáceis das teorias de conspiração mais absurdas possíveis,
pois PRECISAM se sentir possuidores e conhecedores de
segredos que “os e as inferiores” não conheçam. Além disso,
sentem-se acolhidos pela “comunidade” das pessoas cons-
piracionistas ou radicais. Como, no dia a dia, estas pessoas
não são muito boas em formar laços sociais com as demais,
acabam achando seu grupo seguro para se expressar.

@ As pessoas manipuladoras: “para serem serial killers


só faltam as penas”!

# Julgam os outros por meio de estereótipos MUITO


rígidos: racismo, sexismo, machismo, homofobia, intole-
rância religiosa, xenofobia, etc.
# Não mostram afeto a quase ninguém: pessoas, animais,
grupos, etc., tudo é apenas OBJETO ou meio para seus
objetivos. Não enxergam pessoas, enxergam números
numa planilha ou coisas para serem usadas.
# Exemplo: aqueles economistas que celebram o aumento
da Bolsa de Valores quando cortam benefícios sociais e
esquecem que, por trás dos números, existem PESSOAS
em dificuldade.
# Até mesmo o jeito de pensar, a razão, é instrumentali-
zada: pensam só o necessário para cumprir as tarefas que
se propõem a fazer.
# Apresentam tendências para a esquizofrenia e a psico-
patia. São obcecados por organização, domínio e ordem.

62
Tudo precisa estar dividido e organizado nos mínimos
detalhes para ser compreendido.
# Narcisistas e mimados. Enxergam a vida social e a polí-
tica como uma relação entre amigo e inimigo (“aos amigos,
tudo; aos inimigos, a lei draconiana”), ou de acordo com
os interesses e resultados desejados.
# Cinismo extremo (não separam verdade e falsidade).
Por exemplo, “democraticamente” fazer tudo, dentro da
lei, para destruir a democracia.
# São muito leais às causas que defendem. Seguem ordens
sem questionar se são éticas ou não.
# De acordo com Adorno (2019), estas características
são visíveis tanto em generais nazistas como em homens
de negócios, empresários, burocratas, certos funcionários
públicos, militares e gerentes de empresas e fábricas.

@ O tipo “tranquilão”: a turma do “deixa-disso”, o


“passador de pano” e o “isentão”.

# Deixam as coisas “seguirem seu curso”, para evitar


conflitos. São tão passivos que isso beira o conformismo
(“para que se esforçar para mudar o que é ruim”?).
# Muito irônicos em relação ao mundo e a si mesmos. Con-
formistas mesmo se são vítimas de opressão ou violência.
Relutam em assumir uma posição definida até mesmo no
jeito que se comunicam e falam com as outras pessoas.
# Vivem como se já estivessem em uma sociedade que resol-
veu seus problemas. Logo, não se posicionam sobre nada.
Agora que você leu esta lista de características e já reco-
nheceu que muitas pessoas que você convive no dia a dia “fecham
a cartela do bingo”, também deve ter notado que estas carac-
terísticas acabam por se misturar, no fim das contas. Nenhuma
pessoa é SOMENTE um destes tipos psicológicos, até mesmo

63
porque algumas características se assemelham em vários tipos,
variando apenas de intensidade. Uma pessoa ressentida deseja
um grupo para lhe acolher, por exemplo, mas de acordo com o
nível deste ressentimento e da sensação de solidão e frustração
com a vida, pode acabar se tornando um conspiracionista do
tipo que usa chapéu de alumínio para evitar que os satélites
da Nova Ordem Mundial leiam sua mente....Pessoas assim,
pelo mundo, com este arsenal de pensamentos questionáveis
e sensações estranhas, estão em todos os lugares, trabalhando,
interagindo, procriando, se relacionando umas com as outras.
E esta é a base da sociedade e do que chamamos de realidade:
as relações pessoais. Que tipo de sociedade, então, pode surgir
desse caldo de estranhezas?

Uma (auto-)realidade muito peculiar

O filósofo Thomas Hobbes (1588-1679) ficou conhecido


por dizer que, em condições naturais, o ser humano seria um
predador de seu semelhante, ou, nas suas palavras, “o homem é
o lobo do homem”. As coisas não parecem muito diferentes hoje
em dia, mas há uma diferença fundamental: se Hobbes dizia que
a sociedade havia se organizado para evitar que os indivíduos
prejudicassem seus semelhantes, dando poder a um monarca
e criando o Estado, hoje este Estado parece agir de maneira a
estimular a competição e a luta de todas as pessoas contra as
demais e contra si mesmas.
Obviamente, não é só o Estado que estimula esta postura
de guerra entre os indivíduos: parece que somos “treinados
para a batalha” em todas as áreas da vida. No trabalho, somos
incentivados a competir uns contra os outros para vender mais,
montar mais peças, entregar mais relatórios em menos tempo; na
escola, competimos permanentemente para mostrar quem está
mais preparado para passar nas provas e/ou no vestibular; em
casa, irmão desconhece irmão e as próprias relações familiares
(parentes, casais, etc.) andam tomadas pelo espírito da “supera-
ção” – palavrinha presente também nos discursos dos coaches,

64
dos pastores e de inúmeros vídeos motivacionais e de autoajuda
na Internet. A pergunta é: superar QUEM? E o QUÊ?
Essa busca por produtividade a todo custo, essa obses-
são por desempenho e por “competir” tem nome e sobrenome:
neoliberalismo. Para os pensadores Pierre Dardot e Christian
Laval (2014, passim), o neoliberalismo é muito mais do que um
sistema econômico que resgataria os princípios do liberalismo
dos séculos XVII e XVIII, repaginando-os para o mundo atual:
é um modo de vida (um ethos) no qual as pessoas são regidas
pelo princípio universal da concorrência generalizada. Muito
além da gestão, distribuição ou produção de recursos e capi-
tal, esse modo de vida se misturou na vida privada e pública,
produzindo relações sociais, subjetivas e políticas regidas pela
lógica da competição, pela ideia de que o indivíduo é superior
à sociedade e que cada indivíduo tem a si mesmo como work in
progress, como algo a ser “construído”.
A concorrência vira a norma que regula mercados, Estados
e pessoas. Deixamos de nos enxergar como seres humanos e
passamos a nos considerar sujeitos-empresa, “empresários de
si” ou empreendedores e empreendedoras. E uma sociedade na
qual não há colaboração, somente concorrência entre quem a
compõe, é uma sociedade antissocial.
Se o Eu é esse “empresário de si”, o Outro é o concor-
rente no mercado social e viver em comum é “triunfar” nesta
(anti)sociedade. Mas a empresa é também lugar de competição
e mudança constante. Assim, a competição será dentro de si. O
sujeito mutante só não muda na obrigação de mudar, em ser
mais eficaz e adaptável possível. Empresário de si, empreende-
dor de si, explorado de si, proletário de si. Suas ações são um
cálculo de custos que exige um desempenho impossível. Desde
as drogas estimulantes para funcionar mais no trabalho até
“vender-se” bem nas redes sociais, o sujeito-produto-empresa
de si torna-se, voluntariamente, mercadoria de si mesmo. As
pessoas “naturalizam” as regras do jogo neoliberal e se adaptam
ao Estado-empresarial – no qual previdência, saúde, educação
e lazer são produtos que os consumidores têm a “liberdade de

65
escolher” e adquirir, não direitos aos quais todas as pessoas
(cidadãos) devem ter acesso – convivendo com desemprego
permanente e a precarização das relações de produção sociais e
das relações sociais de produção12. Assumir o risco, os efeitos de
suas escolhas e tornar-se empreendedor é a nova razão-mundo.
A lógica social é a dos reality shows (eliminando os mais fracos
e inaptos) e a “uberização” do trabalho, com a “flexibilização”
dos “colaboradores”. Cá para nós, você acordou um dia, sem
boletos para pagar, e “escolheu colaborar” com o chefe ou
a empresa?
Como diz a filósofa Marilena Chaui, a privatização, carac-
terística fundamental do projeto neoliberal, é mais do que vender
empresas públicas para a iniciativa privada: é um modo de pensar
que transforma o que seriam direitos das pessoas e dos cidadãos
(como acesso à saúde, à educação, à aposentadoria, a uma vida
feliz) em produtos que os e as clientes podem comprar. Ou
seja: você é mais ou menos “gente” de acordo com o que pode
adquirir, de acordo com sua conta bancária. Isso é injusto, mas
é uma ideia que seduz muita gente que precisa se sentir especial
perante os e as demais.
Falando sobre emoções, se no passado elas eram empecilho
(desde o desapego do ser em relação a seu trabalho até o ditado
de que “Homem – trabalhador, provedor, macho - não chora”),
hoje as emoções são o fundamento do sistema de exploração.
O estímulo ao trabalho excessivo e à transformação de tudo
em mercadoria, ou seja, em coisas que podem ser compradas e
vendidas, ocorre por reforço de emoções positivas e que podem
ser catalogadas pelas pessoas, ou seja, divididas e colocadas em
listas de importância. Pela emoção, chega-se ao mais profundo
do indivíduo, que pede para ser explorado para satisfazer suas

12
São parecidas, mas não são a mesma coisa: relação social de produção seria a forma
como as pessoas constroem as relações de trabalho e a distribuição deste no processo
da produção e da reprodução da vida material. As relações de produção social – e esta
inversão de palavras nas duas expressões é de propósito – são as formas pelas quais
a construção da sociedade e da própria noção de “quem somos nós” estão permeadas
por este movimento de produzir o mundo: o ser humano produz o mundo, produz a si
mesmo no processo, e vice-versa

66
emoções. Quem já ouviu que a ‘família” da empresa é mais
importante que sua vida pessoal? As próprias emoções viram
um produto para algumas pessoas: viciados em adrenalina (ou
em likes) são um exemplo disso.
Outro bom exemplo de como as emoções individuais são
capturadas nesta lógica de concorrência está na estranhíssima
mistura entre esta mentalidade neoliberal com os procedimen-
tos que vemos em muitas denominações religiosas existentes
por aí. Já notaram que muitas igrejas que, de certa maneira,
seguem a teologia calvinista13, associam sempre a prosperidade
e a riqueza material a uma suposta predileção de Deus pelas
pessoas bem-sucedidas? Do mesmo jeito, aquele “deus” chamado
mercado também possui segredos que os humanos não conse-
guem compreender, mas se você é bem-sucedido em conseguir
lucros, é sinal de ser “abençoado”.
Faz bem se sentir especial, não é mesmo? Para nos sentir-
mos assim e acreditemos que somos “predestinados”, aceitamos
todas as formas de opressão social, humilhação no trabalho e na
vida cotidiana, trabalhamos em excesso até fazer mal para a saúde
e inclusive tratamos as outras pessoas como lixo para que o “deus
mercado” goste mais da gente, como se no Paraíso, assim como num
elevador, somente coubesse um número muito pequeno de pessoas
e, para garantir seu lugar entre os “justos”, ou os “bem-sucedidos”,
valesse tudo. Mas espera...não é assim que alguns interpretam a
frase “muitos serão os chamados, poucos os escolhidos”?
Mas por que razão esta mentalidade aparece e se instala
na sociedade? Bem...historicamente, toda vez que há uma crise
política, econômica ou social, muitas pessoas pedem soluções
rápidas e fortes, as mais simples possíveis, sem pensar que as
causas das crises são sempre mais complexas do que aparentam.
E a razão dessa busca por saídas imediatas é o MEDO. O mesmo

13
João Calvino (1509-1564) foi um teólogo protestante responsável pela doutrina da
Predestinação e a defesa dos costumes e do lucro. Esta doutrina diz que a salvação da
pessoa já está determinada por Deus e que não temos ideia do plano d’Ele para nossa
vida, mas podemos ter um spoiler do plano se perseguimos o sucesso material e formos
bem-sucedidos. Ou seja: ganhar dinheiro agrada a Deus e pode te salvar.

67
medo que fez, para Hobbes, as pessoas abdicarem de parte de
sua liberdade em prol da segurança de não correrem riscos.
Exemplos não faltam: do medo da “invasão” dos imi-
grantes que turbinou a campanha de Donald Trump nos EUA
(afinal, uma das propostas de campanha dele era construir um
muro para evitar que os imigrantes mexicanos entrassem nos
EUA e ameaçassem os empregos e a paz interna no país) ao
medo da “conspiração dos judeus para dominar a economia
alemã” que fez tantas pessoas naquele país apoiarem, ainda que
discretamente, as loucuras de Hitler. Em comum, a ascensão
tanto de Trump como de Hitler se deu num cenário de crise
econômica muito acentuada, com perda de empregos, perda de
poder aquisitivo da população e temor em relação a ameaças
externas e internas. No Brasil, o medo também correu solto
com a enxurrada de notícias-lixo nas campanhas eleitorais,
como já comentamos. Mas o próprio ato de sentir medo é o
gatilho que faz as pessoas criarem formas autoritárias de vida
– ou o que as faz abraçar o autoritarismo que mora, escondido,
dentro de cada um14.
Para justificar as reações dos indivíduos perante o medo,
buscamos loucamente por segurança e por autoridade. Quanto
mais medo do desconhecido (o futuro), mais as pessoas se apegam
a um passado idealizado. Outro exemplo disso foi a paranoia
e os pedidos constantes por militarização das escolas (ou pela
presença de policiais armados e fardados dentro de sala de aula)
como efeito das ameaças de ataques no dia 20 de abril de 2023.
As ameaças não se concretizaram, mas os efeitos práticos delas
foram sentidos e foram reais (pouco comparecimento estudantil,
clima de terror nas escolas, aumento do uso de dispositivos de
segurança como portões eletrônicos, etc.).

14
Num texto de 1925, sobre a inflação na Alemanha, Walter Benjamin observa que
o risco da perda dos bens materiais e da estabilidade individual faz com que, parado-
xalmente, as pessoas sejam cada vez mais suscetíveis à histeria de massa e ao pânico.
Para ele, “as pessoas só têm em mente o mais estreito interesse privado quando agem,
mas ao mesmo tempo são determinadas mais que nunca em seu comportamento pelos
instintos da massa” (1987, p. 21). Tais instintos seriam o de eliminação da ameaça e do
diferente, visto como risco à estabilidade econômica.

68
Ou seja: estados psicológicos são causados por atitu-
des concretas e geram consequências nas atitudes práticas
das pessoas. Esta retroalimentação cria, nos indivíduos que
a sofrem, uma compreensão da realidade na qual emoções e
fatos aparecem como a mesma coisa, ou pelo menos muito
misturados. Esta “realidade fake” ou realidade própria surge
na cabeça dos indivíduos como uma tentativa de solucionar
a crise que existe no mundo real. É mais seguro “viver” nas
próprias ideias e narrativas do que entender e enfrentar a
complexidade do mundo real, onde as coisas não seguem
exatamente nossos desejos. Como este comportamento opera
por mecanismos de pertencimento e hostilidade, entende-se
porque é tão simples para as pessoas se isolarem em bolhas
que reforçam suas convicções prévias.
Como já falamos, o mais surpreendente é o fato de que,
ainda que esta realidade não seja “real” ou factual, ou seja, não
corresponda aos fatos, ela FUNCIONA para quem acredita
nela. Ou melhor, quem acredita nela FAZ com que ela funcione.
Todas as incoerências e contradições desaparecem por “mágica”
na cabeça de quem embarca nesta onda. A realidade ganha cará-
ter duplo: ora é o esmagador vilão contra o qual o injustiçado
precisa se revoltar, sob pena de perder sua liberdade idealizada,
ora é aquilo que os “poderes” buscam esconder das pessoas: o
conhecedor da realidade e da verdade seria o injustiçado. Em
comum, ambas as ideias mostram que a verdade desse mundo
falso é exatamente o fato de ser falso, pois a pessoa satisfaz sua
necessidade de confirmação daquilo que já está convencida. E
tal convencimento é emocional, não racional.
Os indivíduos produzem, em sua cabeça, as ilusões neces-
sárias para sobreviverem em comunidade. Aplicam tais ilusões
sobre a realidade/facticidade – trazendo efeitos concretos na
vida das outras pessoas e na sua própria - e assim transformam
uma na outra. Realidade e ilusão passam a ser a mesma coisa. É
verdadeiro, logo real e fático, aquilo que a minha ilusão diz que
é, o que me atende psicologicamente e expressa meus desejos.

69
E o falso é aquilo de que não gosto, que não me agrada ou que
me traz emoções negativas.
Assim, a própria percepção do que é real, ou o que real-
mente acontece, vira um tipo de buffet por quilo no qual esco-
lhemos o que vamos pegar nas bandejas para “montar” nosso
pratinho. As combinações mais malucas possíveis, ao final, fazem
parte do mesmo prato. O slogan deste “restaurante de realida-
des” poderia ser: saboreie a vida nos seus sonhos – ou nos seus
pesadelos.

Novas palavras, “velhos” conceitos

Mas espere...Como alguém em sã consciência aceitaria


esses modos de sentir e pensar sem questionar o que está acon-
tecendo? Por exemplo, seria muito simples contradizer a ideia
de que as pessoas necessariamente têm que competir umas com
as outras: basta ver que famílias, grupos e comunidades que se
ajudam conseguem resultados muito melhores. Ou mesmo a
ideia de que as pessoas são necessariamente determinadas em
sua personalidade por elementos externos (sociedade, cultura,
valores, etc.): não bastaria um pouco de cabeça no lugar para
que um indivíduo pudesse superar o poder destes preconceitos
e paradoxos? Afinal, é EVIDENTEMENTE contraditório uma
pessoa pedir ditadura achando que está pedindo democracia, ou
uma pessoa pedir pelo fim de direitos trabalhistas achando que
isso vai garantir os seus direitos e facilitar sua riqueza.
Será? Será mesmo?
Para quem crê nestas coisas, os paradoxos somem graças
a um processo que acontece nas nossas cabeças e ao mesmo
tempo nas ideias que habitam e moldam a sociedade: o processo
da IDEOLOGIA.
Essa palavrinha mal compreendida não é um insulto ou
xingamento, na verdade: ela representa, mais do que as visões
de mundo das pessoas (ou seus ideários), uma dinâmica entre
pensamentos e ações que tem resultados concretos e materiais
na vida de todo mundo. Ideologia não é uma “falsa realidade”

70
que encobriria as verdades seguras do mundo, mas uma falsa
consciência do mundo. Se fosse só uma questão de verdade ou
falsidade, bastaria mostrar a verdade factual para as pessoas
“arrancarem o véu” ideológico de suas caras.
Porém, como diz o filósofo Theodor Adorno, a ideologia é
a própria “organização de opiniões, atitudes e valores – um modo
de pensar sobre o homem e a sociedade” (2020, p.73), fruto de
processos históricos e eventos sociais contemporâneos às pes-
soas. A ideologia opera de forma diferente em cada indivíduo e,
por causa disso, acaba formando uma coesão das diferenças. Para
Adorno (2009, p.289), “com a sociedade, a ideologia progrediu
a tal ponto que ela não é mais ilusão socialmente necessária e
autonomia como sempre frágil, mas simplesmente como cimento:
identidade falsa entre o sujeito e o objeto”.
Já a filósofa Marilena Chaui (1981, p.11), em O que é Ideolo-
gia, a define como “um conjunto lógico, sistemático e coerente, de
representações (ideias e valores) e normas ou regras de conduta
que indicam aos membros da sociedade o que devem sentir e
como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer”. Esta
definição ressalta as duas características fundamentais do processo
ideológico: ser um fenômeno objetivo e subjetivo simultaneamente
– ou seja, age nas pessoas e na sociedade, é um modo de pensar e
um modo de agir no mundo - e ter uma lógica “lacunar, ou seja,
nela os encadeamentos se realizam não a despeito das lacunas ou
dos silêncios, mas graças a eles” (2016, p.247). Isso significa que
o dito discurso ideológico é tão vago na prática que as pessoas
que o escutam projetam suas próprias ideias, desejos e demandas
nestes espaços vazios, mas sem notar que estão fazendo [Link]
exemplo simples: se um candidato diz que irá governar para
‘defender as boas pessoas” de uma cidade, é a SUA ideia (a sua, de
você que está lendo) do que é uma boa pessoa que vai “completar”
o discurso na sua cabeça. Pode ser que duas pessoas com visões
completamente diferentes do que é esse “bom” acabem por votar
no mesmo candidato, pois elas acharão que ele concorda com
elas individualmente, mesmo que o próprio político tenha
outra ideia do que é ser “uma boa pessoa”.

71
Exemplos de ideologia abundam: ninguém nasce torcendo
para um time de futebol, defendendo um posicionamento político
ou seguindo uma religião específica. Aprendemos isso de forma
tão cotidiana que chega a um ponto em que achamos que NÓS
MESMOS ou MESMAS decidimos torcer para aquele time ou
frequentar aquele culto ou igreja, ou que é NATURAL torcer
para o Flamengo e detestar o Corinthians, como se o mundo
sempre fosse assim (e ai de quem disser o contrário!). Só que,
muitas vezes, esquecemos que, quando nascemos, aquela mãe
ou pai flamenguista fez o enxoval todo do bebê nas cores do
rubro-negro, até mesmo os enfeites de porta para colocar no
quarto da maternidade. Ou esquecemos que, quando tínha-
mos 3 anos de idade, o Mengão foi o tema da nossa festa de
aniversário. Sem perceber, absorvemos estas informações e as
transformamos em verdades (e não adianta você me dizer que
seu pai é flamenguista e você não. Até que ponto você não torce
para o time rival SÓ para contrariar e irritar seu progenitor?).
A ideologia surge, então, do fato das pessoas muitas vezes
preferirem fechar os olhos às coisas da realidade que as chateiam.
O discurso da ideologia apaga certas características do real (por
exemplo, alguém que nunca sofreu preconceito, racismo ou
nunca passou necessidades na vida nunca vai dar a importância
devida quando estas coisas acontecem com as outras pessoas)
e “acende” outras (por exemplo, o medo da punição, o elogio
ao trabalho, a necessidade de ser reconhecido, etc.). Ela fun-
ciona, numa comparação simples mas bastante didática, como
os óculos: ela parece dar nitidez ao mundo que você vive – que
cada um de nós vive – mas você só enxerga os óculos na cara
das outras pessoas (ou seja, aquele papo furado de que “só os
outros têm ideologia”). E mesmo que outra pessoa use lentes
do mesmo grau que você, não é exatamente a mesma coisa que
vai ser vista se você trocar os óculos com ela, só algo bastante
parecido. Em outras palavras, TODO MUNDO é ideológico e
ideologizado, mas é mais fácil enxergar a ideologia nos outros.
Ou seja: as ideologias (pois elas SEMPRE ocorrem no
plural) possuem tanto uma dimensão material quanto psicológica.

72
Na relação entre ambas as dimensões, o conceito ganha a força
de convencimento e se torna um elemento de coesão de grupos,
sociedades e até mesmo dos pensamentos dos indivíduos, rece-
bendo validade psicológica. Usamos o termo ideologia tanto para
nos referirmos à superestrutura social como aos pensamentos
que ocorrem e criam uma história na mente dos indivíduos. Esta
duplicidade da palavra faz com que muitas pessoas se confundam
sobre seu significado e a encarem como um insulto, como um
sinônimo de manipulação ou doutrinação ou a reduzam a uma
simples descrição de um ideário, de um conjunto de ideias. Como
toda pessoa tem seu “próprio” conjunto de ideias, muitas vezes
elas não conseguem entender que existem alguns elementos em
comum entre tais conjuntos, e que tais elementos têm origem
nas relações sociais, econômicas, de trabalho, culturais, etc.
Toda pessoa possui ideologias, mesmo que não as enxergue ou
só consiga enxergar as das outras pessoas. Nas palavras dos
principais teóricos que abordaram este conceito,
na produção social da sua existência, os homens estabe-
lecem relações determinadas, necessárias, independentes
da sua vontade, relações de produção, que correspon-
dem a um determinado grau de desenvolvimento das
suas forças produtivas materiais. O conjunto destas
relações de produção constitui a estrutura econômica
da sociedade, a base concreta sobre a qual se eleva uma
superestrutura jurídica e política e a qual correspondem
determinadas formas de consciência social. O modo de
produção da vida material condiciona o desenvolvimento
da vida social, política e intelectual em geral (Marx,
Engels, 2006, p.301).
Se o sistema de ideias da pessoa abraça tendências auto-
ritárias, estimuladas pelas práticas sociais de seu grupo – e
também pelo próprio ressentimento e frustração pessoais –,
esta pessoa constrói um modo de viver com as demais pessoas
(uma política) que é em si a expressão deste autoritarismo e
que se espalha pelas ideologias políticas que a pessoa segue ou
exibe aos demais.

73
Assim, esta postura de recusa da realidade/facticidade
aparece nas ações de cada indivíduo que pertence ao grupo maior
(que também abraça uma realidade própria, como vimos). No
mundo atual, no qual a circulação de informações (exatas ou
não) é tão grande, estas se misturam com as crenças e visões
de mundo individuais, reforçando convicções prévias de cada
pessoa e criando um modo de viver que é essencialmente tirânico.
O critério que é usado para definir o que é verdade passa a ser
apenas a confirmação daquilo que a pessoa JÁ ESTÁ CON-
VENCIDA, não importa a posição política dela. E impor a sua
verdade sobre as demais pessoas é uma ação muito autoritária.
Desse modo, o que chamamos de vida fake é a expressão
desta forma de viver e se relacionar com as outras pessoas. Para
que ela exista, como vimos, opiniões e verdades não podem
ser separadas, assim como a sensação de crise (principalmente
econômica) precisa ser permanente para que as pessoas, pelo
medo, aceitem e desejem o autoritarismo e a tirania, tentando
resolver a economia por meio de pautas morais como roupas
azul e rosa ou banheiros separados ou juntos. O mais importante
para entendermos nessa história é o quanto esta forma de ver
o mundo é individualista e egoísta, pois trata a todas as outras
pessoas como objetos. Se até a verdade tem como único critério
o Si Mesmo, ou seja, o que o indivíduo já acredita e acha que é,
não é difícil isso virar justificativa para a completa opressão e
agressividade contra os outros.
A realidade fake é o terreno “real” onde indivíduos ope-
ram concretamente, pois a produção das ideias e a produção
das ações ocorrem simultaneamente. Ideologias têm impacto
na realidade: pessoas matam e morrem por causa delas. O fake
– ou ser fake - é a ideologia dos nossos tempos.

# O que lemos

ADORNO, Theodor. Aspectos do novo radicalismo de direita.


SP: [Link], 2020
ADORNO, Theodor. Dialética Negativa. RJ: Zahar, 2009

74
ADORNO, Theodor. Estudos sobre a personalidade autori-
tária. SP: Ed. Unesp, 2019
BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas vol. 2: Rua de mão
única. SP: Brasiliense, 1987
CHAUI, Marilena. O que é Ideologia? Coleção Primeiros Passos –
Vol. 13. SP: Brasiliense, 1997
CHAUI, Marilena. Ideologia e educação. Educ. Pesqui., SP, v.42,
n.1, p.245-257, jan-mar/2016
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo.
SP: Boitempo, 2014
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica. Madri: Herder, 2013
HOBBES, Thomas. Leviatã. Petrópolis: Vozes, 2020
MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. SP:
Boitempo, 2006
METEORO BRASIL. Tudo que você precisou desaprender
para virar um idiota. SP: Planeta, 2019

# O que acessamos

Jornal A Tarde, edição de 22/11/22. Disp. em [Link]


br/politica/brasil/bolsonaristas-pedem-por-intervencao-alieni-
gena-em-porto-alegre-1212223. Acesso em 29/11/2022 12:08
Portal [Link] (Agência FrancePresse) 15/02/2019
21h15. [Link]
veja-como-os-eua-vao-construir-o-muro-na-fronteira-com-o-
-[Link]ÉPOCA NEGÓCIOS. 21/01/2023. https://
[Link]/ciencia-e-saude/noticia/2023/01/
vies-de-confirmacao-a-mente-aceita-so-aquilo-em-que-acredi-
[Link]
EL PAIS. Byung-Chul Han: “Hoje o indivíduo se explora
e acredita que isso é realização. Entrevista. 07/02/2018.
Disp. [Link]
tura/1517989873_086219.html

75
# Quer saber mais?

ARANTES, Paulo. O novo tempo do mundo. Coleção Estado


de Sítio. SP: Boitempo, 2014
MAESO, Benito. As diferenças em Comum: Deleuze, Marx
e o Agora. Curitiba: Appris, 2020
BBC BRASIL. Quem foi João Calvino, que ajudou a fundar
o protestantismo e justificar o capitalismo. 01/12/2021. In
[Link]
BYUNG-CHUL HAN. Sociedade do cansaço. Documentário.
2015. Disp. [Link]
SALES, Ana Gabriela. 20 de abril inspira medo de novos ataques
em escolas; entenda o simbolismo da data. JORNAL GGN. Disp.
[Link]
ou-apelo-por-atencao-a-educacao/

# Indicação do amigo Zé Marcelo

SOARES, Jô. O homem que matou Getúlio Vargas. SP: Com-


panhia das Letras, 1998.

76
Capítulo 4
O poder do fake

05/05/2014 - Mulher espancada após boatos em rede


social morre em Guarujá, SP
Ela foi agredida após ser acusada de praticar magia negra com
crianças. Moradores registraram vídeos mostrando a agressão e pos-
taram na web.
[Link]
mulher-espancada-apos-boatos-em-rede-social-morre-
[Link]

14/12/2016 – How fake news led Dylann Roof to


murder nine people. (Como as fake news levaram
Dylann Roof15 a matar nove pessoas)
Misinformation, lies and propaganda on the Internet have taken hate
speech to a whole new level. (Desinformação, mentiras e propaganda
na Internet elevaram o discurso de ódio a um outro nível)
[Link]
dylann-roof-to-murder-nine-people/

25/09/2018 – Organizadora de grupo contra Bolsonaro


relata agressão no Rio de Janeiro
Segundo boletim de ocorrência registrado na Polícia Civil, asses-
sora de candidato do PSOL foi abordada e agredida por dois
homens quando entrava em sua residência.
[Link]
-grupo-contra-bolsonaro-no-facebook-e-agredida-no-rio/
15
O supremacista branco Dylann Roof, 21 anos, entrou na Igreja Metodista Episcopal
Africana Emanuel em Charleston, Carolina do Sul, no dia 19 de junho de 2015, e atirou
77 vezes contra um grupo de estudos bíblicos composto por 12 pessoas. Nove acabaram
falecendo. Os demais foram mantidos vivos pelo atirador para que “contassem sua história”.

77
16/11/2019 - Para especialistas, mulheres são as
principais vítimas na divulgação de informações falsas
na internet
Já levantamento de uma plataforma de mobilização revela que bra-
sileiros são os que mais acreditam em fake news no mundo.
Fonte: Agência Câmara de Notícias. [Link] leg.
br/noticias/618014-para-especialistas-mulheres-sao-as-princi
pais-vitimas-na-divulgacao-de-informacoes-falsas-na-internet/

12/08/2020 – Centenas de mortos como resultado da


desinformação sobre a COVID-1916
A study says at least 800 people may have died globally because of
coronavirus-related misinformation.
[Link]

13/06/2022 - Movidos por rumor de WhatsApp,


moradores de cidade no México acusam turista de ser
‘ladrão de crianças’ e o matam em linchamento
Daniel Picazo foi espancado e queimado vivo. Moradores não dei-
xaram que resgate se aproximasse para salvá-lo.
[Link]
-por-rumor-de-whatsapp-moradores-de-cidade-no-mexico-a
cusam-turista-de-ser-ladrao-de-criancas-e-o-matam-em-lin
[Link]

16
Um estudo divulgado em Agosto de 2020 pelo The American Journal of Tropical
Medicine and Hygiene (vol. 103, num. 4), intitulado COVID-19–Related Infodemic and
Its Impact on Public Health: A Global Social Media Analysis, estabeleceu uma correlação
entre as informações divulgadas nas redes sociais e o número de óbitos pela Sars-COV-2
no início da pandemia, constatando que os diversos rumores, Fake News, teorias da
conspiração e assemelhados impactaram, em algum nível, em cerca de 800 mortes no
período, visto que os doentes que vieram a óbito recusaram-se, de alguma forma, a
tratamentos validados pela comunidade científica e/ou adotaram terapias divulgadas
na Internet (ex: cloroquina, ivermetctina e alvejante sanitário).

78
17/06/2022 - Brasileiros contam como notícias falsas
destruíram a vida dos seus pais
Casos emblemáticos de fake news no país geraram traumas para os
donos da antiga Escola Base e até a morte de uma mãe de 33 anos
[Link]
como-noticias-falsas-destr uir am-a-vida-dos-seus-
pais,[Link]

02/08/2022 - Ex-deputada federal Manuela d’Ávila


denuncia ameaças de estupro e morte recebidas nas
redes sociais
Agressor ameaçou estuprar Manuela, matar a mãe da política e atacou
até a filha da ex-deputada, que é uma criança
[Link]
putada-federal-manuela-davila-denuncia-ameacas-de-estupro-
[Link]

01/09/2022 - Fake news e campanhas de


desinformação, intimidação e assédio, abuso de poder e
violência política ameaçam instituições e democracia.
Documento divulgado trimestralmente identificou um aumento de
mais de 100% no número de ameaças envolvendo violência física no
segundo trimestre do ano
[Link]
macao-intimidacao-e-assedio-abuso-de-poder-e-violencia-poli
tica-ameacam-instituicoes-e-democracia/

79
07/05/2023 - VÍTIMA DE FAKE NEWS, HOMEM
É ESPANCADO NO LITORAL DE SP E TEM
MORTE ENCEFÁLICA
Homem foi espancado por moradores após ter boato espalhado de que
ele havia roubado uma motocicleta.
[Link]
vitima-de-fake-news-homem-e-espancado-no-litoral-de-sp-e-
-[Link]
As tristes manchetes de jornais e sites de notícias listadas
mostram que o poder do Fake não é nada fake, no fim das contas.
Ainda que tenhamos aqui apenas casos derivados da propagação
de notícias falsas, hoje a velocidade de desinformação invade
todas as áreas da nossa vida, criando literalmente, como já vimos,
uma realidade irreal. A “culpa”, em si, não é da existência de
desinformação, mas de como lidamos com ela. Afinal, a informa-
ção em si não tem lado bom ou ruim: quem atribui tais valores
morais (diferentes de valores informacionais) a ela somos nós.
Pensando nisso, este capítulo irá analisar, ainda que de forma
inicial, de que forma o poder da (des)informação e da criação
de realidades irreais é visível em campos relacionados a outras
formas de poder, como a política, a guerra e os relacionamentos
humanos, chegando à própria forma pela qual nos enxergamos.

Política fake

A influência das Fake News no processo eleitoral já se


encontra bem documentada: um estudo do NetLab da Uni-
versidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), comandado pela
professora Marie Santini, apurou que a relação entre Fake News
e política é muito mais complexa do que os boatos, dossiês e
acusações do passado. Hoje, o que ela chama de “estrutura
de desinformação” está cada vez mais sofisticada, ganhando
poder nas redes sociais, mas também na realidade externa.
A campanha de desinformação não é restrita às eleições, por

80
exemplo: ela ocorre o tempo todo e em todos os níveis. E o
fato desta campanha de desinformação ser ininterrupta faz
com que mesmo pessoas que em circunstâncias normais nota-
riam que tais informações são falsas acabem por “duvidar” se
aquilo não pode ser verdadeiro, afinal de contas, diminuindo
a resistência das pessoas a certas histórias e aumentando a
resistência a conferir os dados:
“A pessoa começa a ser bombardeada por diferentes
fontes. Uma narrativa repetida muitas vezes tem o
efeito de começar a gerar dúvida em outro público
que não seria o segmento principal de uma estratégia
de desinformação, mas que acaba sendo atingido pela
repetição ao longo do tempo. Então esse fomento da
dúvida é uma questão muito séria. Porque aí prepara
o terreno para que outras narrativas de desinformação
possam ´colar’ nesse público.” (SANTINI, M. entrevista
25/10/22 – portal G1)
Como o ditado popular diz, água mole em pedra dura tanto
bate até que fura. Antes de tomarem a rede, as (des)informações
são testadas em grupos pequenos, em redes e posts menores.
As críticas vão permitindo a quem propaga desinformação
“melhorar” o material, mudando os textos e focos até vencer a
resistência das pessoas.
O estudo apurou que a máquina de desinformação, regida
por grupos políticos e econômicos, segue o seguinte fluxo:

a. Início: os boatos e Fake News começam a aparecer


em pequenos canais de Junk News (notícias-lixo) na
Internet (estão principalmente no YouTube, Reddit e
Twitter - hoje X). As narrativas e boatos são testados
ali e ajustados progressivamente até adquirirem um
formato que “pegue”.
b. A hora das “tias” do WhatsApp e Telegram: agora que
a narrativa tem formato, hora de testar sua recepti-
vidade em grupos dentro dos aplicativos de troca de
mensagens. Assim como as empresas testam produtos
(de sabão em pó até celulares e fraldas) em grupos

81
pequenos para saber a opinião das pessoas, para saber
o que as pessoas acham, as “narrativas” também são
produtos, o que possibilita que o mesmo método seja
usado (a chamada pesquisa qualitativa).
c. “Eu vi no Face”: as mensagens e histórias são divul-
gadas em canais maiores, em bolhas específicas e seg-
mentos de público mais amplos. Assim, as mensagens
ganham engajamento e tração.
d. O poder da imagem: nas plataformas como Kwai, Tik-
Tok, etc., as pessoas gravam comentários indignados e
a mensagem ganha uma dimensão audiovisual. Lem-
bram do vídeo indignado que chega para a sua tia?
Ele é criado aqui.
e. “Em todos os lugares!”: Hora da multiplicação
exponencial. As mensagens invadem (por meio de
anúncios pagos e também por engajamento e com-
partilhamento) todas as plataformas e meios de
comunicação – sites, blogs, rádio, TV, apps de men-
sagens, redes sociais de todo tipo, mas com muito
mais intensidade e, como já vimos, validadas por
serem muito compartilhadas (a falácia do “se vi
muitas vezes, é verdadeiro”).
f. Distorção da realidade: quando canais, sites e redes
montam serviços de checagem de informação, abrindo
espaço para que os usuários da plataforma corrijam
notícias e posts recebidos, adicionando comentários,
basta organizar perfis (humanos ou “robôs”) para des-
mentir as informações que desagradam (ainda que
sejam reais) ou confirmar as que agradam o grupo
político ou social interessado (ainda que sejam falsas).
Lá no tempo que a Internet era mato, era engraçado ver
a profusão de frases descabidas atribuídas a Clarice Lispector,
como “dormir de conchinha é fundamental” (quem já leu sabe
que ela NUNCA escreveria algo assim), ou aqueles PowerPoints
de “bom dia” com mensagens otimistas e musiquinha de eleva-

82
dor. Mas em assuntos mais sérios o potencial destrutivo desta
máquina de produção em série de (des)informação é imenso.
Existe, porém, outro tipo de relação estranha entre o
fake e a política: quando a própria prática desta última vira o
primeiro. Como isso ocorre é o que veremos a seguir.

@ Política estilo BBB e o político como caricatura

Todo ano é (quase) igual: muitas pessoas acompanham nas


telas, nas redes e nas conversas do dia a dia o reality show no qual
pessoas ditas comuns assumem seus personagens “reais” para
concorrer a um bom dinheiro, vários contratos de publicidade e
muitos minutos de fama. Ainda que boa parte da audiência saiba,
no fundo, que as pessoas confinadas na tal casa e vigiadas por
câmeras não estão sendo exatamente “autênticas” o tempo todo,
parece que esta encenação do que é ser uma pessoa verdadeira
“na novela da vida real” tem o poder de fazer as pessoas que
assistem o show se sentirem como deuses, decidindo o destino
dos “mortais” com a votação na Internet e por SMS. Claro que
este poder de vida e morte (ou de continuar ou não na casa) é
exercido sempre após os “atores” entregarem o entretenimento
esperado, sejam cenas quentes debaixo do edredom ou barracos
e discussões acaloradas por qualquer motivo.
Mas o reality show em questão mostra outra característica
interessante da nossa relação com as aparências: desenvolvemos
simpatia ou antipatia não pelo que a pessoa é, mas pelo que
aparenta ser ou o que julgamos que ela aparenta ser. E este jeito
de ver o mundo tornou-se aparente ao analisarmos a percepção
que as pessoas têm sobre o processo político.
No reality show é possível ver a ocorrência de dois proces-
sos simultâneos na formação do personagem que cada integrante
da casa irá usar para convencer o público de que deve chegar à
final: o primeiro é a criação do produto-pessoa, ou seja, a pes-
soa passa a representar e encarnar aquilo que seus seguidores
esperam ver ou obter dela: polêmica, lacração, comportamento
piedoso, reconhecimento, elogios e xingamentos, interações, etc.

83
Quanto melhor essa “persona” for divulgada, ou seja, quanto
mais seguidores e polêmicas, mais valor a identidade recebe e
mais “bem-sucedida” a pessoa será para a audiência.
Como vivemos em uma sociedade na qual a competição
é a linguagem principal das relações humanas, cada integrante
precisa vender mais eficazmente sua imagem para conquistar o
público. Você lembra daquela campanha de uma marca de refri-
gerante na qual as latas tinham o nome de pessoas? Será que
isso não é a mesma coisa que transformar a pessoa com aquele
nome num “produto”? Quem não compraria uma lata com seu
próprio nome para “beber a si mesma” e “se ver na latinha”?
O outro processo é o da divisão das pessoas e da sociedade
por nichos de mercado e pela segmentação dos grupos sociais,
seja nos conchavos que ocorrem na casa do reality show, seja nos
fandoms de cada participante. De certa forma, esta divisão na
casa simula as relações dos grupos sociais fora dela. Assim, os
integrantes da casa miram públicos específicos em sua atuação
(ou são escolhidos pela produção do programa para representar
e ter interação com tais grupos sociais). E quando tal procedi-
mento se relaciona à política, os resultados são explosivos – em
confusão dentro da casa e audiência fora dela.
Um exemplo claro deste processo foi uma edição do
programa na qual, além das protocelebridades de sempre, o
elenco foi montado com alta participação de ativistas de cau-
sas sociais, étnicas, de gênero, LGBTQIAPN+, etc. Parecia
ser um grande avanço ter pessoas que defendem segmentos
importantes na sociedade participando e tendo espaço para
debaterem e divulgarem suas pautas. Porém, o que aconteceu –
ou o que a edição do programa para transmissão nos fez crer
que aconteceu – foi um festival de abusos, intrigas e agressões
psicológicas entre as pessoas, usando muitas vezes as pautas
sociais como desculpa.
Além da prova de que vale tudo por audiência, este fato
acaba por mostrar os traços que existem, até mesmo em pes-
soas vistas como alinhadas a valores de acolhimento e respeito,
daquilo que vimos no capítulo 3 sobre as pessoas que se acham

84
“donas da verdade”: estas pessoas são similares aos chamados
empresários-de-si, pois têm a si mesmas como única referência
do que consideram certo e errado, mas como operam nas pau-
tas de ativismo social, poderíamos chamá-las de ativistas de si
mesmas ou mercadorias-militantes.
É como se as pessoas competissem entre si para saber
quem é mais “desconstruído/a”, mais engajada/o, mais ‘respon-
sável socialmente”, mas com resultados catastróficos. Ao falarem
exatamente o que seu público quer ouvir (ou o que elas mesmas
consideram como a única verdade que deve ser ouvida), o debate
de ideias é completamente interditado, silenciando inclusive
pensamentos e ideias que podem colaborar para a melhoria das
condições sociais.
Não é preciso citar os nomes das pessoas desta edição, pois,
para além de nomes, elas e eles executam funções na dinâmica
do programa (ainda que não exista um roteiro pronto do que
as pessoas participantes devem falar). E as funções em questão
foram baseadas na seguinte lógica: se fulano ou fulana é X, APE-
NAS ELA OU ELE podem dizer se A OUTRA OU O OUTRO
são X ou Y, tirando dos demais o direito de dizerem quem são.
Esta imposição de identidades (não a identidade do grupo, mas
a de uma pessoa sobre outra) elimina a chance de reconhecer as
diferenças pessoais. Apenas o que a/o “ativista de si” crê ou diz
que é verdadeiro ou válido é confirmado assim, negando a todo
mundo inclusive a chance de rever seus conceitos.
Isso vale até mesmo para as campanhas de solidariedade
no mundo virtual: ao mesmo tempo em que somos solicitados a
nos engajar em toda e qualquer manifestação, abaixo-assinado,
etc., nos tornando hiperengajados e reativos a qualquer coisa tida
como injustiça, nos sentimos impotentes perante a avalanche de
solicitações. Cria-se um paradoxo: quanto mais buscamos fazer
a diferença, menos sentimos que isso funciona. Quando tudo é
visível, é aí que não conseguimos ver nada. E quem consegue ser
visto é entendido como quem traz as soluções, a quem devemos
confiar os nossos destinos. Surge a política de influência, ou o
político reduzido a influencer.

85
***

Aprendemos a pensar que as relações políticas e sociais


equivalem aos modos de relação entre as pessoas no reality show
(ou talvez o reality show é que tenha sido pensado para repro-
duzir a forma que muitas pessoas pensam e agem umas com as
outras). De qualquer forma, este circuito de retroalimentação
transformou a vida comunitária em espetáculo, principalmente
o que chamamos de política nos moldes tradicionais (eleições,
representantes, etc.).
Muitas pessoas veem o processo eleitoral como se fosse
parecido ao processo de escolha dos ganhadores do reality show,
levando em conta ao votar a capacidade da candidata ou do
candidato em provocar tretas, se meter em discussões e assumir
posturas polêmicas (desde deputados no Brasil até presidentes
em El Salvador, o jeito de agir é o mesmo: todas as ações parecem
feitas para gerar vídeos no TikTok). Não importa mais a plata-
forma política ou o programa do partido ou coligação, mas sim a
pessoa-candidata e o que ela pode trazer de “entretenimento” ao
dia a dia. Muitas vezes, a própria candidata ou candidato aposta
neste tipo de estratégia para não ter que abordar temas polêmicos
ou para dizer que ‘tudo não passava de uma brincadeira”. Quanto
mais espetáculo, mais poder e aceitação de parte da audiência
eleitoral, pois as pessoas se identificam com o show. O filósofo
Theodor Adorno notou isso ao observar o jeito quase circense
dos líderes do Eixo ao fazerem seus discursos, gestos e atitudes.
O Führer, com sua cara de canastrão e o carisma da
histeria orquestrada, puxa a roda. Sua representação
realiza substitutivamente e em imagem o que é vedado
a todos os demais na realidade. Hitler pode gesticular
como um palhaço; Mussolini pode arriscar notas erra-
das como um tenor de província. (ELEMENTOS DO
ANTISSEMITISMO, V)
Essa vocação cômica é absolutamente intencional: faz
com que as pessoas se engajem ao “palhaço” e levem suas ideias
na brincadeira, mas também permite que as pessoas se sintam

86
representadas pela palhaçada e expressem suas ideias perigo-
sas como se fossem brincadeiras. Este tipo de pessoa “política”
funciona como uma caricatura do que é o processo da política,
como um personagem que encarna aquilo que o senso comum
entende como política e reproduz este discurso. Por isso vemos,
por exemplo, parlamentares envolvidos em escândalos de cor-
rupção pedindo votos aos eleitores e eleitoras dizendo coisas
como “os políticos são todos iguais”, “vote em mim para mudar”,
“defendo a honestidade”...ou até alguns dizendo que, “já que
está tudo ruim, vote em mim”, ou “pior que tá não fica”. Sempre
pode ficar (seu avô ou avó deve lembrar do Jânio Quadros e da
vassourinha de varrer corruptos, ou do “caçador de marajás”
Fernando Collor andando de jet-ski e pilotando caças da FAB...
pesquise, confia).
Este tipo de político fake encontra espaço para se criar num
ambiente no qual a própria ideia de democracia se torna fake tam-
bém. Por um lado, há uma pergunta válida na desconfiança que
muitos têm em relação à democracia: se todas e todos têm direitos
iguais, por que razões tão poucos podem usufruir destes direitos
a uma vida melhor enquanto tantos ficam apenas com os deve-
res? Se as leis devem proteger todas as pessoas, por que vemos
diferenças na aplicação delas de acordo com a cor da pele, com
o gênero, com o sexo ou com a classe social? O filósofo Claude
Lefort apresentou a ideia, no seu livro A Invenção Democrática,
de que o que caracteriza a democracia não é a ausência de con-
flitos e de problemas na sociedade, mas exatamente a existência
deles. Se há conflitos e debates, há liberdade para as pessoas
pensarem e agirem de forma diferente – e discutirem suas dife-
renças, batalharem para conseguir fazer algo real para mudar
esta história, para resolverem estes problemas.
Porém, como muitas pessoas confundem democracia
com a ausência (forçada ou não) de conflitos, toda vez que há
crises na sociedade alguns grupos abraçam rapidamente ideias
de acabar com o “conflito” pela força, impondo a sua vontade
como a única que vale. Assim, abre-se o espaço para políticos
que apelam às massas e à ideia de povo pacífico, de comunidade,

87
de nós contra eles (ou seja, a ideia de pacificação social a todo
custo) poderem chegar ao poder pelo voto, democraticamente,
ainda que suas intenções de acabar com os conflitos, seja com
o uso de armas, da religião ou da violência do Estado, sejam
visivelmente antidemocráticas.
Para abordar um conceito que causa muita confusão, mas
que é usado indiscriminadamente, o chamado fascismo não é
apenas um conjunto de ideias que defenderiam um estado forte, a
produção capitalista e ideais preconceituosos e xenofóbicos. Tudo
isso faz parte do conceito, mas o fascismo é, em sua operação,
um procedimento social de negar ao semelhante a possibilidade
de poder expressar suas diferenças em nome de uma suposta
“igualdade” ou apelo aos valores da maioria como os únicos que
importam. O fascismo é o fake da democracia.

Guerras fakes, morte e caos reais


Na guerra, a primeira vítima é a verdade –
Frase atribuída a Ésquilo (525 – 455 a.C.)

Parece óbvio que toda guerra tenha, junto com as opera-


ções militares, uma boa dose do que chamamos de psychological
operations (sigla PsyOps), ou operações de guerra psicológica, que
são procedimentos e técnicas usadas com o intuito de manipular
a opinião pública, alterar o ânimo das tropas combatentes e criar
estados psicológicos nas populações e nas Forças Armadas dos
países envolvidos no conflito, mas usando como armas a infor-
mação e a emoção (ou seja, sem tiros). Parece complicado, mas
não é: sabe aquela sensação de “já perdeu” que às vezes parece
que invade um time, principalmente depois de provocações da
torcida e do time que está ganhando? É basicamente provocar
isso em uma escala muito maior, com o uso de panfletos, fofocas,
boatarias, desinformação, noticiários e cobertura de TV e rádio
e, hoje em dia, com a difusão descontrolada das informações.
Um exemplo de PsyOps que virou um conflito real foi a
invasão do Iraque por um conjunto de países liderados pelos

88
EUA e Inglaterra no ano de 2003, que foi justificada à época pela
suposta existência de “armas de destruição em massa” ilegais
que teriam sido produzidas pelo regime de Saddam Hussein. A
existência das tais armas foi noticiada como verdade absoluta em
diversos países, mas uma reportagem de 15/03/2023 da BBC,
feita pelo correspondente Gordon Corera, aponta que mesmo
entre a comunidade de inteligência e espionagem havia sérias
dúvidas sobre este fato:
Para David Omand, então coordenador de Inteligência
e Segurança do Reino Unido, [a denúncia das armas}
“foi uma falha grave”. Omand afirma que um viés de
confirmação fez com que os especialistas do governo
britânico ouvissem fragmentos de informações favorá-
veis à ideia de que Saddam Hussein tivesse armas de
destruição em massa e desprezassem as informações
contrárias.[Link]
c5158j6902mo
Basicamente, de acordo com este ex-funcionário do
governo britânico, as pessoas leram o que elas quiseram nas
mensagens interceptadas, não o que estava escrito. Elas QUE-
RIAM achar indícios das armas, logo qualquer coisa poderia ser
interpretada desta forma. Resultado: mais de 30 mil mortos, cerca
de 120 mil feridos, instabilidade imensa na região do Oriente
Médio, aumento da violência, do terrorismo e da radicalização
entre grupos religiosos e políticos diferentes entre si dentro e
fora do Iraque, levando o país a uma guerra civil e trazendo
consequências para o mundo inteiro.
Outro exemplo pouco conhecido, mas que mostra como
esta prática é comum, ocorreu na II Guerra Mundial, quando
tanto o lado do Eixo como dos Aliados produziram centenas de
“profecias de Nostradamus” predizendo sua vitória no conflito.
Michel de Nostradamus (1503-1566) foi um médico francês
ao qual eram atribuídas capacidades de predizer o futuro. Ele
escreveu 12 livros chamados Centúrias, cada um com cerca
de 100 profecias escritas na forma de quadras ou sextilhas
(poemas curtos de quatro e de seis versos, respectivamente).

89
Porém os textos são tão difíceis de entender que novamente
o viés de confirmação dá as caras: dependendo de quem lê o
texto, as profecias podem falar sobre fatos que já acontece-
ram, que estão acontecendo ou que ainda vão acontecer, ou
sobre pessoas tão diferentes como Gandhi, Hitler, os irmãos
Kennedy ou o rei Henrique V da França, que nunca existiu,
mas é citado (ou imaginado pelos intérpretes) nas profecias. É
como um teste de Rorschach, ou teste das manchas de tinta,
onde o paciente vê uma mancha e associa a imagem com o que
está em sua cabeça.
O sul da França, principalmente, foi alvo desta guerra
de propaganda: aviões nazistas e aliados jogavam panfletos
com supostas quadras de Nostradamus predizendo vitória dos
alemães ou dos franceses na guerra.
Antes mesmo da II Guerra começar já estava em curso
uma operação de guerra psicológica contra a população judia
e contra as populações dos países que Hitler pretendia invadir.
A ideia de uma Grande Alemanha e sua política de anexação
era justificada por um conjunto de propagandas psicológicas
que enalteciam a superioridade da “raça ariana” frente aos
judeus, descritos em imagens como parasitas, ratos, limitados
intelectualmente e, paradoxalmente, “criadores de um plano
mirabolante para controlar o dinheiro do mundo”. Instigar o
medo e o nojo contra outras pessoas é uma tática de manipu-
lação psicológica muito difundida nas guerras. Um exemplo
recente está na forma que são retratadas as pessoas que vivem
na Palestina. Chamou a atenção, entre tantas, uma manifesta-
ção: de forma chocante, uma comentarista de um programa de
TV no Rio Grande do Sul se referiu aos moradores de Gaza e
Cisjordânia como “animais” e defendeu o extermínio de todas
as pessoas que vivem na região, independente de serem ou não
ligadas a grupos armados17.
Em suma, os motivos apresentados para tais guerras que
citamos acima eram bem fake, mas seus resultados desastrosos
17
[Link]
israelita-por-discurso-de-odio

90
foram bem reais. Mas seria possível uma guerra completa-
mente falsa, como no filme Mera Coincidência, de 1997? Sim,
é muito possível. Talvez o caso mais famoso de uma guerra
completamente fake tenha sido a trollagem feita pelo ator e
diretor Orson Welles ao adaptar o livro Guerra dos Mundos, de
[Link], para um programa no Rádio Teatro Mercury, que
foi ao ar ao vivo na CBS Radio no dia 30 de outubro de 1938.
Welles narrou a história de uma suposta invasão alienígena
descrita no livro como se estivesse ocorrendo naquele exato
momento da transmissão, na cidade de Nova Jersey, e o fez
de forma tão convincente que uma onda de caos se espalhou.
De acordo com uma reportagem de 30/10/2020 da emissora
alemã Deutsche Welle,
A dramatização, transmitida às vésperas do Halloween
(dia das bruxas) em forma de programa jornalístico,
tinha todas as características do radiojornalismo da
época, às quais os ouvintes estavam acostumados.
Reportagens externas, entrevistas com testemunhas
que estariam vivenciando o acontecimento, opiniões
de peritos e autoridades, efeitos sonoros, sons ambien-
tes, gritos, a emoção dos supostos repórteres e comen-
taristas. Tudo dava impressão de o fato estar sendo
transmitido ao vivo. ([Link]
1938-p%C3%A2nico-ap%C3%B3s-transmiss%C3%A3o-
de-guerra-dos-mundos/a-956037)
Cerca de 6 milhões de pessoas ouviram a transmissão.
Mais da metade não ouviu o aviso de que era uma peça de ficção.
Dados da CBS na época indicam que 1,2 milhão de pessoas
achou que aquilo realmente estava acontecendo. Cerca de 500
mil pessoas saíram às ruas em completo pânico nas cidades de
Nova Iorque, Nova Jersey e Newark. Ainda que não haja mortes
causadas por esta brincadeira, é de se pensar o poder que uma
história, apenas por ser bem contada, tem sobre a mente de
toda uma população.
Até que ponto nós mesmas e mesmos não cairíamos em
uma lorota deste tamanho?

91
Relações fake

Não precisamos ir à guerra para entender a suscetibilidade


das pessoas a uma história bem contada: muitas vezes fecha-
mos os olhos a situações evidentemente problemáticas porque
queremos confiar na pessoa que está envolvida na história. E um
campo onde isso é facilmente visível é o dos relacionamentos
pessoais. Já foi dito que as pessoas estabelecem relações não
entre si, mas com as projeções que cada uma faz a respeito dos
outros e sobre si.
As relações humanas precisam lidar, tanto no mundo
online como no offline, com este problema do julgamento pela
aparência, pelo que desejam ver nas outras pessoas ou pelas
máscaras que cada um de nós usa para ser e se sentir valorizado
pelas e pelos demais. Ou, em situações extremas, para enganar
e levar as outras pessoas ao erro. O catfish, quando uma pes-
soa cria um perfil (ou identidade) de rede falso para interagir
com outras pessoas, desenvolver relacionamentos até mesmo
sentimentais e, ao final, dar golpes, extorquir dinheiro, vazar
fotos íntimas, roubar dados bancários e destruir psicológica e
sentimentalmente suas vítimas, mostra como a aparência e a
representação induzem ao erro.
Talvez o caso mais famoso18 deste tipo de golpe tenha
ocorrido com o jogador de vôlei italiano Roberto Cazzaniga,
que passou 15 anos acreditando de verdade que namorava vir-
tualmente a modelo brasileira Alessandra Ambrósio. Resultado:
perdeu mais de 700 mil euros para golpistas que se passavam
pela modelo, mantendo conversas sentimentais com o rapaz. Na
realidade, Ambrósio NUNCA SOUBE da existência do desolado
jogador até a história correr a mídia.
Mas não são apenas estas modalidades de fraude que
caracterizam relações que podemos chamar de fake: a obsessão
pelo que imaginamos sobre a pessoa – ou sobre como a pessoa
deve se comportar – também ganha o carimbo de falso na testa.
18
[Link]
golpe-que-vitimou-o-jogador-de-volei-italiano/

92
É comum vermos relacionamentos naufragarem pelo elevado
volume de expectativas que uma das pessoas projeta sobre a
outra, sobre como esta deve agir, falar, se comportar, etc. Quem
nunca teve que lidar com a irritação de seu ou sua amada que se
decepciona por você não ter feito algo que, na verdade, você nem
fazia ideia de que deveria fazer ou do que a pessoa esperava?Às
vezes, o fake do relacionamento é o fato dele existir apenas
para um dos lados: o caso da mulher que fantasiou uma relação
afetiva com um companheiro de caminhada e, por causa disso,
quis contratar assassinos profissionais para eliminar a esposa do
rapaz, que já morava à época em outro estado após ter casado,
é bastante simbólico19, afinal, pelo que foi apurado pela polícia,
o relacionamento romântico era só na cabeça dela.
Por que damos estes exemplos estranhos aqui? Porque
eles apontam um tipo sui generis de mentalidade: o ponto onde
os desejos ou obsessões de uma pessoa ou grupo passam a ter
dimensão real sobre a vida inclusive de pessoas que não tem
absolutamente nada a ver com o delírio ou com a projeção – o
fantasma que criamos em nossas mentes - que pode ter caracte-
rísticas tanto de afeição desmedida como tender para a violência,
a histeria e a agressão despropositadas. Se isso já é o suficiente
para azedar profundamente relações pessoais, o impacto deste
descompasso entre projeção (seja positiva ou negativa) e reali-
dade é muito mais nefasto quando lidamos com as projeções ou
com a manipulação dos medos e desejos de um grupo. Vejamos
alguns exemplos conhecidos deste processo no qual sensações
falsas provocam desastres reais.

O comportamento de manada e o HiperEu

a. #deepfake
Com o avanço meteórico da tecnologia e sua populariza-
ção cada vez maior, coisas que antes somente eram vistas nas

19
[Link]
trata-assassino-para-matar-esposa-de-amigo-que-conheceu-online

93
telas do cinema hoje podem ser feitas em casa, com a mesma
qualidade, usando seu computador ou celular. Sabe aqueles
vídeos que mostram o rosto de uma celebridade no corpo
de outra, o Papa Francisco vestindo um casaco de frio super-
fashion (ou uma camiseta da banda Black Sabbath), as versões
de músicas contemporâneas “cantadas” por intérpretes como
Frank Sinatra ou os programas que transformam sua foto
em caricatura ou misturam seu rosto com o do seu cachorro?
Legais, né. Mas imagina se alguma pessoa mal-intencionada
coloca o SEU rosto em imagens de filmes, digamos, pouco
recomendáveis para menores de idade e sai compartilhando
por aí? Até você explicar que focinho de porco não é tomada
o constrangimento vai ser muito pesado.
Essa prática é chamada de deepfake (traduzindo: profunda-
mente fake) e se iniciou quando um usuário do Reddit (cujo ape-
lido era @deepfakes) usou ferramentas de inteligência artificial
(AI), aprendizado de máquinas e softwares de edição de vídeo e
áudio para criar um programa que permite, automaticamente,
mapear as expressões de uma pessoa e transpor para a imagem
de outra num vídeo, sincronizando também voz, movimentos
de boca e lábios, piscadas de olhos, etc. Se isso permite vídeos
engraçados e memes divertidos (como o do Silvio Santos cantando
músicas da banda Iron Maiden), pode ser uma fonte inesgotável
de fraudes e manipulações.
Uma matéria do site Tecnoblog chama a atenção para
as diversas possibilidades de produzir deepfakes. Além da mais
comum (a troca de rostos em vídeos e fotos), a técnica também é
utilizada para a manipulação de áudios, onde podem ser criadas
gravações que simulam a voz de determinada pessoa. Este tipo
de deepfake é facilmente compartilhável em aplicativos de men-
sagens como o WhatsApp. O site lembra que também existem
os chamados deepfakes textuais, ou textos escritos com ajuda de
Inteligência Artificial que simulam o jeito de escrever de outra
pessoa; os deepfakes nas redes sociais, usados para a criação
de perfis falsos na internet; e os deepfakes em tempo real, que
permitem mudar o rosto em transmissões ao vivo. Há também

94
o shallowfake, um tipo de manipulação de imagens e sons menos
sofisticado, no qual a desinformação ocorre mais pela edição e
cortes nos vídeos do que pela sincronização do conteúdo falso
com a imagem.
O estrago que o mau uso desta tecnologia pode fazer é
enorme: na política, por exemplo, as eleições brasileiras de 2022
foram recheadas de áudios falsos nos quais candidatos “assu-
miam” pactos com o diabo, vídeos falsos associando adversários
políticos de grupos e candidatos a crimes sexuais (um grupo
de SP tentou cometer este assassinato de reputação com um
religioso do qual não gostavam. Ainda que o vídeo tenha sido
desmascarado rapidamente por peritos independentes, o grupo
contratou um perito alinhado com suas ideias para atestar a
“veracidade” do vídeo) ou, talvez no caso mais famoso de deepfake/
shallowfake da época eleitoral, a divulgação de resultados falsos
de uma pesquisa eleitoral inexistente que teria sido mostrada no
Jornal Nacional. Esses conteúdos acabam chegam a pessoas que
não conseguem identificar, imediatamente, sua falsidade. Daí,
antes da pessoa parar para pensar se aquilo é real, o deepfake já
circulou em toda sua rede.
Mas além da política, a vida pessoal de uma pessoa atingida
por deepfakes também sofre danos muito severos. Um exemplo
mais recente foi a produção, usando recursos de AI (Inteligência
Artificial) de nudes (fotos de nudez) falsos da cantora Taylor Swift.
As fotos foram compartilhadas nas redes sem nenhum indica-
tivo de terem sido geradas por inteligência artificial, gerando
imensa polêmica: de um lado, haters da cantora, mães de família
e tias escandalizadas, adolescentes do sexo masculino com os
hormônios à flor da pele e torcedores de outros times de futebol
americano (na época, a cantora namorava um jogador do time
de futebol americano Kansas City Chiefs, Travis Kelce20) fazendo
MUITO barulho para avacalhar a imagem pública da cantora.
Do outro, Swift e seu fã-clube tentando derrubar as páginas que
compartilharam as fotos falsas, buscando zelar pela imagem dela.

20
Como não posso prever o futuro, não sei se, quando VOCÊ ler o livro, eles estarão
juntos ainda.

95
Como brigar contra o avanço da tecnologia? Como fazer
uma separação entre a realidade e o produto de um software
up-to-date? Algumas dicas colhidas na Internet (gracias, bloguei-
ras e blogueiros de tecnologia) ajudam nessa tarefa:
* Tem dúvidas se aquele vídeo é real? Assista em diversas
velocidades. Falhas de edição costumam aparecer, como
“chiados” e sombras estranhas;

* Observe atentamente o rosto das pessoas. Ainda que


os softwares estejam cada vez mais avançados, detalhes
nos olhos, na pele, nas sobrancelhas, na boca e nas rugas
denunciam a manipulação;

* Atenção às mãos: é comum ter dedos a mais nas imagens;

* Sombra e luz: o segredo de bons diretores de foto-


grafia num filme. Nos deepfakes, é comum ter sombras
no sentido contrário à posição da fonte de luz, p. ex.;
* E não se esqueça de pesquisar outras versões do vídeo,
áudio ou imagem que você está vendo: hoje as páginas
de pesquisa já têm dispositivos que permitem localizar
a fonte original de uma foto ou vídeo. Use sem modera-
ção: se não tiver outra fonte para aquela foto a não ser
a de onde você recebeu, há uma grande chance de não
ser verdade. O mesmo cuidado que devemos ter com as
notícias devemos ter sobre o deepfake.

b. # O caso Escola Base


Em março de 1994, os proprietários de uma escola de edu-
cação infantil particular no bairro da Aclimação, em São Paulo (o
casal Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada), assim como
a professora Paula Milhim Alvarenga e o seu esposo e motorista
de van Maurício Monteiro de Alvarenga foram injustamente
acusados de abusar sexualmente de dois alunos de 4 anos de idade.
As mães destas crianças haviam procurado a polícia, que
inicialmente constatou que não existiam provas das alegações
feitas. Indignadas, procuraram a mídia, que fez um estardalhaço a
respeito da história. O delegado do caso, Edélcio Lemos, começou

96
a dar declarações que botaram fogo na cobertura jornalística.
Ao mesmo tempo, nenhum dos acusados teve espaço de defesa
nos jornais e TVs.
Resultado: a população enfurecida depredou a escola e
os acusados já estavam condenados pela opinião pública antes
mesmo do desfecho do inquérito, agora já conduzido por outros
delegados, que concluíram QUE AS ALEGAÇOES DE ABUSO
ERAM FALSAS. A inocência dos acusados nunca foi divul-
gada corretamente pela imprensa, que se limitou a dizer que
o inquérito foi encerrado por falta de provas. A exceção foi o
jornal Diário de São Paulo, que fez uma cobertura mais idônea,
mas por ser um jornal menor e de pouca circulação, não teve
tanta repercussão.
Mas já era tarde: a escola fechou, os proprietários tiveram
a vida arruinada e faleceram antes de receber alguma indenização
pela cobertura irresponsável da mídia e a sanha por holofotes
do delegado; por conta disso, a professora e seu marido nunca
mais conseguiram arrumar a vida e acabaram se separando
devido aos traumas do episódio. Os danos psicológicos, morais
e financeiros foram irrecuperáveis.

c. # O caso Lola Aronovich


A professora da Universidade Federal do Ceará (UFC),
blogueira e ativista feminista Lola Aronovich é vítima de ata-
ques e ameaças de morte por parte de grupos masculinistas há
mais de 15 anos. Ao denunciar discursos de ódio na Internet,
tornou-se alvo de uma horda de homens despeitados. Também
foi vítima de ataques coordenados utilizando fake news e seus
dados pessoais foram expostos na Internet diversas vezes. Ela
já registrou 12 Boletins de Ocorrência na polícia por ameaças
e seu nome batiza a Lei 13.642/18, que determina que a PF
investigue crimes de misoginia online.
Dos diversos relatos e entrevistas dadas pela professora
sobre estes ataques, chama a atenção uma característica desco-
berta por ela sobre os conteúdos trocados por masculinistas em
seus sites e chans (comunidades online): a retroalimentação do

97
ressentimento e da frustração destes homens com a sociedade,
com o comportamento feminino e com o que consideram que
seria um direito negado a eles (o sucesso profissional por “ser
quem se é”, a submissão dos outros – especialmente mulheres,
o pertencimento a uma suposta elite – já vimos estes sintomas,
não é verdade?). Lola comenta que chegava a ser cômico ler
declarações de consolo mútuo destes homens a respeito da
rejeição das mulheres que seriam seus interesses românticos
ou sexuais, dizendo que “até baratas fazem sexo”. Como vovó
já dizia, quem desdenha quer comprar.
O comportamento de tais grupos extremistas também é
um exemplo claro da construção deste híbrido entre real e ima-
ginário que, infelizmente, acaba por afetar a vida das pessoas de
forma concreta. A própria professora teve que dar satisfações à
universidade onde trabalha por causa de um site falso, criado por
masculinistas ligados a grupos neonazistas, que divulgava nome
completo, endereço, telefones e e-mails da professora, além de
associá-la a práticas bizarras como sacrifício de crianças, orgias e
abortos em sala de aula. Os autores foram processados, mas por
lentidão da justiça, acabaram fugindo do país sem serem presos.
Hoje, os masculinistas rejeitam este nome, pelo qual foram
expostos por Aronovich em diversos textos, posts e livros. Mas
não desapareceram: os coaches de masculinidade, os red pills e
outros tantos são, no fundo, novos rótulos para o mesmo pro-
duto, pois seu ideário de uma suposta superioridade masculina
permanece intacto e difundido. Ao expô-los, Lola tornou-se alvo
de uma violenta campanha de desinformação e de assassinato de
reputação (quando, de forma coordenada, grupos e indivíduos
espalham informações sem nenhuma base concreta sobre uma
pessoa, instituição ou empresa).
O volume e a intensidade destas campanhas de ódio
podem não ser fortes o suficiente para, por si mesmas, gerarem
hostilidade física contra seu alvo, mas funcionam colocando
a “pulga atrás da orelha” das demais pessoas sobre quem está
sofrendo este ataque, levando à desconfiança e, no extremo,
ao chamado “cancelamento”.

98
De acordo com o site BrasilEscola, a cultura do cance-
lamento é a prática de organizar um boicote virtual a pessoas
vistas como desviantes do padrão social supostamente seguido
pelos organizadores. O objetivo é levar a pessoa julgada ao
esquecimento social, numa versão 2.0 do ostracismo grego.
Ainda que haja um ganho importante, no ambiente virtual, na
defesa de minorias historicamente oprimidas como fruto da
democratização do acesso às redes, pode acontecer de que cer-
tos grupos se fechem tanto em seus próprios códigos que isso
impeça a aceitação de pensamentos diferentes. Passa-se a usar
as redes não como campo público de debate racional, mas com
o objetivo de demarcar território em disputas de poder contra
outros grupos ou indivíduos.
Ou seja, o foco não é a busca da resolução de conflitos e a
ampliação do diálogo: cancelar é buscar a punição e a exclusão
daqueles que são considerados culpados de transgressões ou
opiniões indesejáveis – e, para um cancelador, isto DEVE ser
feito a qualquer preço. Esta lógica de cancelamento e massacres
virtuais não são obras exclusivas de grupos radicais associados
ao espectro político da extrema-direita: como já vimos, a obses-
são pela afirmação de si – e de seu modo de ver o mundo – leva
até mesmo indivíduos e grupos do campo dito progressista a
estabelecerem relações de poder que, ainda que baseadas em
irrealidades, repetem formas de opressão e silenciamento. Ambos
os campos do espectro político, então, operam dentro de uma
lógica de hiperindividualidade, na qual o único interlocutor
autorizado a questionar o indivíduo é uma cópia ou um outro
dele mesmo, mesmo que estejamos falando de ideias absoluta-
mente delirantes, falsas e irreais. Vejamos:

d. # O n+1, ou o esforço imenso em negar a realidade


e a substituir por outra.
O título desta seção pode provocar um incômodo: “afinal,
o que o autor (esse “eu” que escreve para vocês) quer dizer com
uma fórmula matemática”? Para entender o que está aconte-
cendo, é preciso que voltemos a dois amigos que já visitamos

99
nesta jornada: Gilles Deleuze e Félix Guattari. Essa dupla
apresentou uma ideia muito interessante sobre como a gente
constrói o nosso “eu”, que eles chamaram de n-1.
O N significa o múltiplo, tudo que existe, que é pensado e
que pode ser pensado e feito. Daí você se pergunta: se o N é o Tudo,
por que não seria então a Unidade maior, o Todo do universo, o
Uno, tipo um deus? Segundo os autores, porque sempre surgem
coisas novas a fazer e pensar, sempre estamos criando coisas. Logo
pensar numa totalidade ou Unidade que dê conta de tudo que foi, é
e será feito ou pensado seria loucura completa. É como pensar que,
a cada minuto, podemos tomar decisões em todas as direções, cada
movimento ou pensamento nosso gera bilhões de possibilidades
do que ser, do que fazer e para onde ir. Querer reduzir toda esta
multiplicidade e possibilidade a apenas um jeito de ser, ou a apenas
uma rota possível de eventos, é empobrecer a vida. Ao contrário
de Plotino, filósofo do século III que associava o Uno (não o carro
nem o jogo, mas o conceito de totalidade e completude das coisas)
ao todo do Universo, nossos amigos franceses acham que a única
forma de algo ou alguém ser único, uno ou ter uma identidade
fixa é sacrificando seu poder de ser muitos, de ser diferente, de ser
múltiplo (a Metamorfose Ambulante).
Daí é que eles imaginam que a Unidade é inferior à Multi-
plicidade, criando a fórmula n-1 para expressar este pensamento:
por que ficar ou ser só de um jeito (de pensar, de viver, de entender
o mundo) se a vida tem múltiplas possibilidades? Vamos pensar
mais de perto com um exemplo culinário: você que me lê agora
pode ser absolutamente obcecado por suflê de beterraba, mas não
pode ser definido SOMENTE por isso. Dizer que sua identidade, o
que você é, se reduz ao seu amor incrível por beterrabas é diminuir
você como pessoa que, por exemplo, pode tocar violão muito bem
ou ser muito carinhosa ou carinhoso com seus parentes ou seus
bichinhos de estimação. Isso é tão importante sobre você – ou
mais - quanto seu desejo por essa planta.
Beterrabas à parte, e se a nossa identidade é algo maior
do que definidores externos ou internos, sendo a interação entre
tais fatores, é de se pensar o que se passa na cabeça de pessoas

100
que, por exemplo, acreditam em teorias da conspiração e acham
que o resto do mundo esconde deles e delas “a verdade”.
Um erro comum é confundirmos essa operação mental
extremamente complexa descrita acima com burrice ou limitação
intelectual, como se a pessoa fosse desprovida da capacidade
de pensar só porque acredita em sandices e em correntes de
“Zap Zap”. Já paramos para pensar o tamanho do trabalho que
dá se convencer de coisas impossíveis como vacinas contendo
nanochips, conspirações mundiais para esconder o governo do
mundo feito por lagartos alienígenas, ou que Elvis não morreu?
Ser meio lelé exige esforço e dedicação.
Este tipo de comportamento se caracteriza, no fundo, pela
recusa de tudo que é dado como possível, ainda que seja apenas
em imaginação. Esse grande “NÃO” ao mundo, a todos os peri-
gos reais ou fantasiosos que habitam a cabeça dessas pessoas,
significa, no limite, que tudo que for externo a este indivíduo
será negado ou esvaziado de sentido. Voltando à fórmula de
Deleuze e Guattari, o N (o mundo, o real, toda a multiplicidade
de coisas possíveis) é que será negado, duvidado ou considerado
alucinação. Isso não significa que a experiência de mundo de tais
pessoas seja mais pobre do que a de quem aceita as diferenças,
mas muito mais rica do que se imagina a princípio. Existe o
mundo (denominado como n) MAIS este indivíduo, que se vê
como superior ao mundo.
A mentalidade paranoica destes indivíduos que acham que
o mundo inteiro conspira contra eles alimenta sua sensação de
desconfiança em relação às instituições e ao que é chamado de
sistema, fazendo com que se sintam especiais. Ao mesmo tempo,
por pertencerem a grupos sociais que, ainda que não tenham todos
os privilégios na sociedade, não são completamente oprimidos
(seja pelo dinheiro, cor da pele, sexo, gênero, etc.), acabam por
se enxergarem como pertencentes à elite e também às minorias
injustiçadas, ainda que na prática não o sejam completamente.
Resumindo a equação, o que vemos é uma hiperssubje-
tividade, uma hiperidentidade que é lida pelas pessoas como
hiper-diferença. Um HiperEu, não o SuperEu de que Freud

101
fala, que controla nossos impulsos irracionais, mas um Eu tão
voltado a si mesmo que as pessoas deste grupo social acabam
por compreenderem a si de três formas contraditórias, mas que
paradoxalmente não se excluem para quem se vê assim: como
integrantes da maioria, como indivíduos e como outsiders e
desajustados ao sistema do qual fazem parte e que valida sua
existência. São, então, n+1.

e. # A inundação da maldade
A convicção destas pessoas e grupos de serem os portado-
res da verdade e de que vale QUALQUER COISA para defender
suas agendas e interesses, inclusive fomentar a lógica “amigo x
inimigo”, leva a ações nas quais os fundamentos da sociedade,
como ética, respeito, cuidado e solidariedade, acabam por ser
(intencionalmente ou por impulso) jogados no lixo.
Já vimos no primeiro e segundo capítulos os gatilhos men-
tais que um post mal-intencionado ou uma informação falsa dispa-
ram nas pessoas: lidar com o medo causa traumas - e pessoas sem
muito caráter podem se aproveitar disso para obter vantagens. A
questão é saber que tipo de vantagem está em jogo. Conforme o
pesquisador Ricardo Fan, num artigo para o site [Link], espe-
cializado em tecnologia, estratégias e inteligência relacionadas
às forças armadas e às indústrias bélicas, são cinco os principais
grupos que se engajam na guerra de informação (recordar é viver):
@ Grupos políticos que querem manipular a opinião
pública, influenciar eleitores e manchar a imagem de
seus adversários;

@ Criadores de conteúdo que geram receitas e mone-


tização, muitas vezes com fake news;

@ Indivíduos com agenda pessoal e ideológica (religiosa,


política, etc.) muitas vezes promovem suas crenças por
meio de desinformação;

@ Trolls de Internet buscam ganhos de notoriedade ou


buscam a sátira e o deboche, e;

102
@ Pessoas comuns que compartilham desinformação
acreditando transmitir a verdade.
Todas estas categorias, de alguma forma, são soldados
num tipo de guerra híbrida (estratégia política, social e muitas
vezes militar de controle de uma comunidade, estado ou nação
que mistura o uso de instrumentos judiciais, da ciberguerra,
desinformação e boataria, de avanços militares e golpes de
estado, entre outros). Um exemplo deste tipo de guerra foram
as chamadas “primaveras” árabes, iniciadas no ano de 2010, que
derrubaram governos e criaram condições para a ascensão de
regimes conservadores em seus países. Há quem defenda que
passamos processo parecido no Brasil desde o ano de 2013.
É visível o crescimento da radicalização política neste
período, pelos motivos expostos nos capítulos anteriores. A
mentalidade de vale-tudo, na qual a política passa a ser o ter-
reno da busca da aniquilação do diferente de todas as formas,
é estimulada pela dinâmica de guerra constante contra todo o
mundo – e da impressão de que o inimigo são todos os demais.
Isto ficou visível durante as enchentes que assolaram o
Rio Grande do Sul (com ocorrências menores, durante este ano,
no Rio de Janeiro, Maranhão, Bahia e Pernambuco) no mês de
maio de 2024. Enquanto as águas invadiam casas, ruas, estra-
das e provocavam deslizamentos, perdas agrícolas e imensas
perdas de vida animal e humana, ao mesmo tempo se iniciou
uma enxurrada de boatos, fake news, montagens fotográficas e
deepfakes visando confundir as pessoas e fazê-las acreditar em
absurdos como que a China havia produzido a inundação com
armas nunca antes vistas (a pedido do próprio governo brasi-
leiro, pasmem!) ou que as doações encaminhadas por pessoas de
todo o país precisariam “pagar imposto”, que o governo estava
multando barqueiros que ajudavam no resgate das vítimas, ou
que o governo federal havia pago o cachê de uma cantora pop
(Madonna) para um show “ritualístico” no Rio de Janeiro que
visava atrair forças “das trevas” e más energias para os estados
do Sul do Brasil (de perfil tido como mais conservador, de direita
e cristão), entre outras histórias loucas veiculadas por políticos

103
extremistas (deputados e senadores alinhados ao candidato
derrotado em 2022), influenciadores e coaches, celebridades
de reality shows, prefeitos de oposição ao governo federal e até
mesmo pessoas comuns, mas que divulgaram vídeos editados
e documentos incompletos em busca de atenção e notoriedade.
Mesmo os militares, antes vistos por muitas destas pes-
soas como salvadores e apoiadores de rupturas democráticas,
passam ao posto de traidores e novos inimigos. Conforme
levantamento realizado pela consultoria de pesquisas Quaest
e publicado pelo site de notícias Intercept Brasil, entre os dias 3
e 10 de maio, 70% das menções sobre militares no ecossistema
informacional da chamada extrema-direita eram negativas,
principalmente a partir do momento em que as Forças Armadas
passam a entregar donativos e equipamentos adquiridos pelo
Governo Federal para atender a população gaúcha. Institui-
ções como Exército e Brigada Militar, entre outras, perderam
tempo precioso desmentindo boatos e fakes, o que atrapalhou
o resgate e socorro às famílias.
O ruído comunicacional foi tão alto ao levar pânico às
populações que, como reação, levou a Polícia Federal a abrir
um inquérito para apurar a divulgação de conteúdos falsos
relacionados às enchentes no Rio Grande do Sul. Ministros do
STF (Supremo Tribunal Federal) posicionaram-se abertamente
a favor da necessidade de regulamentação das plataformas digi-
tais, pois o volume de (des)informações e o efeito nefasto na vida
das pessoas foi visto como exemplo do potencial destrutivo da
desinformação para além do contexto eleitoral.
A pergunta é: para que tais boatos? Para desestimular as
pessoas a realizarem as doações? Para atribuir a culpa da tragédia
(há consenso científico sobre o papel das mudanças climáticas
neste processo) ao governo do “inimigo” e não do messias? Para
passar pano aos governos estaduais e municipais que mudaram
radicalmente as legislações ambientais em favor dos poluidores
e que não investiram em prevenção de desastres? Para levar
terror às pessoas que já perderam tudo ou quase, criando um
clima de anti-solidariedade? Para buscar extrair dividendos

104
políticos para seus grupos internos, em uma disputa de poder
intestina, mas também buscando condicionar a percepção que
as pessoas terão desta tragédia no futuro, visando colocar as
pessoas contra os líderes no poder e extrair benefícios eleitorais
futuros? Tudo isso e muito mais.
A base desta operação é a mobilização do ódio puro e
simples: se uma pessoa recebe ajuda do governo ou do grupo
político que a outra pessoa combate, automaticamente passa a
ser vista como inimigo. Se uma instituição cumpre seu papel
de apoio social em uma situação de catástrofe, ela é inimiga do
povo por fazer parte do malvado Estado (que, paradoxalmente,
foi estruturado – ao menos em teoria – para a defesa do povo).
Se uma celebridade de perfil progressista mobiliza suas redes
sociais e de contatos para arrecadar donativos e valores, as
“pessoas de bem” devem denunciar seu esforço como se fosse
um golpe financeiro.
Por tais razões, entre a enxurrada de notícias-lixo, cobran-
ças via redes sociais (feitas inclusive por autoridades eleitas para
outras autoridades eleitas!!), oportunistas que tentam arrecadar
recursos com Pix falsos e ofensas e mentiras de todos os tipos e
matizes, prosperaram slogans como “civil ajuda civil” (sem estado
ou instituições) e ideias de que a tragédia veio para separar os
eleitos (que serão salvos por sua fé e convicções políticas e sociais
radicais) dos que serão punidos por, simplesmente, fazerem algo
em direção ao próximo. Estes últimos devem ser atacados e
aniquilados, dentro desta lógica binária.
Em uma palestra no YouTube, a professora Marilena
Chaui aponta uma característica das notícias-lixo que é fun-
damental, na sua visão, para entender todo o processo de
construção do fake como modo de vida: por não termos o
conhecimento de sua origem (todos e ninguém são os emis-
sores e receptores), as fake news “transformam a mentira em
fato [...] A perda da referência ao verdadeiro e a indiferença
ao verdadeiro por meio do falso faz com que o vício se torne
a forma da comunicação”.

105
Já vimos que muitas pessoas ficam felizes ou se sentem
valorizadas, por diversos motivos, ao embarcarem na viagem
do fake. Mas surge um novo fator: a dificuldade em afirmar o
verdadeiro e o falso, o que transforma a comunicação em algo
impossível de avaliar eticamente, é acompanhada e amplificada
por esta indiferença.
Se nada mais importa e nada mais provoca o sujeito, não
importa para ele o que está sendo divulgado. Cria-se, na cabeça
da pessoa que compartilha, ou a impressão de que ela não tem
absolutamente nada a ver com aquilo que comunica ou que não
há limites no que é comunicado, desde que o que comunico afirme
minha posição contrária (em casos de difamação do inimigo) ou
favorável (em casos de louvação ao amigo). Nenhuma pessoa
é totalmente alheia ao que divulga, às ideias que abraça ou às
práticas que acaba por defender. Não há ninguém que, como
Adolf Eichmann, possa dizer que apenas cumpriu ordens sem
refletir sobre o conteúdo delas neste caso.
Avançando no diagnóstico, Chaui aponta que o falso virou
o meio de comunicação por excelência em escala planetária e
em diversos níveis sociais, de grandes potências ao cidadão
comum. Isto
é um crime contra a liberdade do outro, contra o pen-
samento do outro, contra as relações sociais fundadas
efetivamente em laços virtuosos. É isso que desaparece,
porque você transforma a desconfiança e o medo no
sustentáculo da comunicação. [...] É a morte da ética,
a morte de uma vida eticamente regulável.
Ou seja, fake não é apenas a notícia, mas a comunicação
ENTRE as pessoas e sujeitos, de todas as formas e em todos
os níveis; a postura do indivíduo perante o mundo e as e os
demais; a estrutura-base e as maneiras pelas quais se dão as
relações sociais. Em uma sociedade costurada pela mistura
entre individualismo, indiferença em relação ao semelhante e
a indistinção entre fato e fake, o desprezo pelo Outro é o cerne
das relações sociais.

106
***

Cremos ter sido possível mostrar alguns efeitos práticos


desta mistura entre crenças e visões de mundo pessoais com a
interação humana que caracteriza a realidade. O mais assustador
nisso tudo continua sendo o fato de que o equívoco pode ser
pessoal, mas o resultado é coletivo. A questão que surge para
todas e todos nós, que estamos neste ponto do livro agora, é: há
saída ou estamos condenados a afundar num mar de meias-ver-
dades, fatos alternativos e convicções que podem até ter certo
fundamento, mas estão longe de ser indicativos de segurança?
As pessoas podem ter direito a terem suas próprias opiniões,
mas não tem direito a terem seus próprios fatos. Como viver
num mundo onde as fronteiras entre real, virtual, imaginário,
verdade e falsidade simplesmente desapareceram?

# Com quem falamos

Profa. Dra. Lola Aronovich (Univ. Federal do Ceará);


Profa. Dra. Marilena de Souza Chaui (Universidade de São Paulo).

# O que lemos

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Elementos do


Antissemitismo, in Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro,
Zahar, 1985
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs – Vol. 1.
SP: Ed. 34, 1995
ISLAM, Saiful (M.D.) et al. COVID-19–Related Infodemic and
Its Impact on Public Health: A Global Social Media Analysis.
The American Journal of Tropical Medicine and Hygiene.
vol. 103, num. 4. Aug 2020. Disp. [Link]
journals/tpmd/103/4/[Link]

107
LEFORT, Claude. A Invenção Democrática: os limites da
dominação totalitária. Apresentação: Marilena Chaui. BH:
Autêntica, 2011
VÁRIOS AUTORES. O Grande Livro do Maravilhoso e do
Fantástico. Lisboa: Reader’s Digest, 1977
VIANA, Sílvia. Rituais de Sofrimento. Coleção Estado de
Sítio. SP: Boitempo, 2015

# O que acessamos

[Link] - Escola
Base: falsa acusação que marcou o país vira documentário.
09/11/2022. Disp. [Link]
noticias/reportagem/historia-o-que-foi-o-caso-escola-base-fake-
[Link]
[Link]- Mulher contrata
assassino para matar esposa de amigo que conheceu
online. 05/06/23. Disp. [Link]
mundo/2335601/mulher-contrata-assassino-para-matar-espo-
sa-de-amigo-que-conheceu-online
[Link] – Entenda como acon-
tece o “catfishing”. Disp. [Link]
nologia/entenda-como-acontece-o-catfishing-golpe-que-
vitimou-o-jogador-de-volei-italiano/
[Link] - 1938: Pânico após transmissão de “Guerra
dos Mundos”. Disp. ([Link]
C3%A2nico-ap%C3%B3s-transmiss%C3%A3o-de-guerra-dos-
-mundos/a-956037)
[Link] - Guerra do Iraque, 20 anos: como a
busca por armas de destruição em massa no país fracassou.
15/03/2023. Disp. [Link]
c5158j6902mo

108
CÂMARA DOS DEPUTADOS. Lei 13.642/2018. 03/04/2018.
Disp. em [Link]
lei-13642-3-abril-2018-786403-publicacaooriginal-
[Link]
[Link] - Estudo mostra que uso de Fake
News cresce no segundo turno. Reportagem. 25/10/2022.
Disp. em [Link]
/2022/10/25/estudo-mostra-que-uso-de-fake-news-cresce-
no-2o-turno-desinformacao-esta-mais-complexa-e-sofistica
[Link]
[Link] - Cultura do Can-
celamento. Disp. [Link]
[Link]
[Link]. - Band RS cancela pro-
grama Hora Israelita por discurso de ódio. Disp. [Link]
[Link]/2023/10/30/band-rs-cancela-programa-ho
ra-israelita-por-discurso-de-odio [Link] -
O que é deepfake. Disp. [Link]
e-deep-fake-e-porque-voce-deveria-se-preocupar-com-isso/
[Link] - Eleições 2020 são marca-
das por deepfake. Disp. [Link]
seguranca/eleicoes-20220-sao-marcadas-por-deepfake-saiba-
como-identificar/
[Link] - FAN, Ricardo. A Guerra de desinformação
nas enchentes do Rio Grande do Sul: um desafio para a socie-
dade. Disp: [Link]
ra-de-desinformacao-nas-enchentes-do-rio-grande-do-sul-
um-desafio-para-a-sociedade/[Link] - Extre-
ma-direita espalha fake news até contra os militares – Orlando
Calheiros. Disp. [Link]
extrema-direita-espalha-fake-news-ate-contra-os-militares/

109
# O que assistimos

Escola Base – Um repórter enfrenta o passado. Documentário.


Dir. Caio Cavechini, Eliane Scarvodelli. Apres. Valmir Salaro.
Globoplay, 2022
Mera coincidência (Wag the Dog). Dir. Barry Levinson.
Elenco: Dustin Hoffman, Robert de Niro, Anne Heche. Comé-
dia/Drama. 1997.
Sobre Ética com MARILENA CHAUI. Palestra online. Disp.
[Link] Dia
19 maio 2024

# Trilha sonora

Metamorfose Ambulante (1973) – Raul Seixas

110
Capítulo 5
É possível encontrar uma saída?

Não.
E o que quero dizer com isso? Que tanto a tecnologia
como as distorções da realidade e as dissonâncias cognitivas
que foram amplificadas – mas NÃO FORAM CRIADAS – por
este desenvolvimento técnico extremo nas últimas décadas
já fazem parte de nossas vidas de maneira irremediável e
irreversível. Não é pessimismo, é realismo. Não iremos voltar
à floresta para uma suposta comunhão com a Natureza, com
espíritos ou com um mundo mais simples. Isso não produz
novas formas sociais, apenas cria um novo conjunto de uto-
pias e ideais que, muitas vezes, mais dificultam que ajudam
as transformações sociais.
Se não há como negar a realidade, vivamos com ela: da
mesma maneira que o delírio, a dissonância cognitiva e a nega-
ção da realidade das pessoas que descrevemos neste livro é
fonte constante de problemas no mundo real, devemos estar
atentos para não cairmos nos mesmos erros e impor as nossas
“dissonâncias” sobre o mundo. Não dá para fugir do real, nem
mesmo criando um Brasil ou um mundo paralelo; logo devemos
entendê-lo e enfrentá-lo.
Você não vai achar agora uma receita ou manual de
instruções para tirar aquele amigo ou parente do mundo ima-
ginário onde ele ou ela se enfiaram por todos os motivos que
foram explicados anteriormente neste livro. A solução é pensar
em pequena escala: em si mesmo, em pessoas muito próximas e
naquelas pessoas que ainda se mostram receptivas a conversar.
É aprender a evitar cair em ciladas e enganos, a desenvolver
seu senso crítico, a buscar entender as razões pelas quais uma
pessoa abraça o fake e, principalmente, exercitar sua empatia.
As pessoas que acreditam no falso como verdadeiro acham que

111
seu suposto “conhecimento da verdade” e sua “moral elevada”
são a mesma coisa, como o professor Jorge Chaloub (UFRJ/
Centre Marc Bloch) notou em uma palestra no YouTube.
Assim, desmascarar com fatos e provas uma fake news ou uma
teoria da conspiração é, para estas pessoas, a mesma coisa que
você ofender a moral deles ou xingar a mãe: entendem como
ataque pessoal.
Mas lembre-se: ser empático não é aceitar a maluquice
sem reagir. Ninguém tem sangue de barata nem vocação para
Irmã Dulce. Muitas vezes, pessoas assim confundem empatia
com aceitação ou fraqueza. Não deixe que façam mal a você.
Não aceite desaforo e não bata palma para maluco dançar, até
porque há alguns que embarcam nesse delírio que são qualquer
coisa, menos malucos. São mal-intencionados mesmo.

Des-saber e desinformar: como lidar

Há um tempo atrás, um deputado filho de um ex-presi-


dente postou informações duvidosas mostrando números falsos
sobre um suposto aumento de impostos, que ocorreria como
consequência do projeto de reforma tributária apresentado pelo
governo. Ao fundo, um mapa onde as regiões do Brasil estavam
divididas de forma totalmente errada.
Claro que as pessoas criticaram a divisão errada do mapa
e compartilharam o suposto “mico” deste político. Porém, o
objetivo dele, que era propagar falsidades sobre a reforma tri-
butária e colocar parte da opinião pública contra o projeto, foi
atingido. A “isca” foi uma suposta “burrice” do autor sobre as
regiões brasileiras. E todo mundo a mordeu direitinho.
Isso é só mais um exemplo do que já vimos sobre a dinâ-
mica das informações falsas na Internet, mas o que chamou a
atenção neste caso foi o cálculo premeditado. Não foi um equí-
voco ou um simples engano, foi uma mentira intencional para
que outra informação mentirosa e falsa passasse desapercebida
dos vigilantes de Internet, que inclusive colaboraram para que
a real má intenção se espalhasse.

112
Temos, então, um outro tipo de comportamento que
não tem a ver com o autoengano, com o equívoco ou com uma
simples “derrapada” da pessoa que acreditou no falso: é um
comportamento falso, uma negação, uma omissão ou uma dis-
torção deliberada, intencional e motivada dos fatos. Se alguém
age desta forma, a intenção dificilmente é boa.
Além do compromisso com a veracidade, com a ver-
dade factual, com valores fundamentais de civilidade, respeito
e dignidade, antes de compartilhar uma informação talvez seja
interessante tentar responder algumas perguntinhas básicas:
- Afinal de contas, quem ganha com a divulgação desta
informação?
- A que tipo de pessoa isso realmente interessa?
- Faz bem para quem saber sobre isso?
- Será que isso é tão relevante assim ou eu apenas quero
atenção sobre mim?
- É possível conferir se isso realmente é verdade?
- Isso insulta ou ofende alguém ou algum grupo? E se
fosse com você a ofensa, tudo bem?
- Se as pessoas levarem esta informação a sério, elas podem
correr risco de vida? Ou outras pessoas podem correr riscos?
Estes são apenas alguns exemplos de questões a se fazer
antes de sair por aí compartilhando o que ouviu ou leu sem
parar para pensar se é verdade ou não. Se você não ligar para
estas respostas, sinto informar, mas o problema não é apenas
das informações falsas...

Você sabe, não sabe ou acha que sabe? (ou: a confiança


das pessoas estúpidas)

Na manhã do dia 6 de janeiro de 1996, ocorreu o assalto


mais estranho da história: um homem chamado McArthur
Wheeler roubou dois bancos na cidade de Pittsburgh à luz
do dia, sem usar máscara ou qualquer disfarce. Só entrou nas

113
agências bancárias, apontou uma arma para os caixas e pediu
o dinheiro. O que aconteceu? Obviamente, no mesmo dia de
tarde, a polícia bateu na porta do surpreso ladrão, que fez o
maior escândalo, pois não acreditava que seria capturado já que
tinha usado “o suco”.
O “suco” era suco de limão, o qual Wheeler tinha esfre-
gado na cara e nas mãos para, segundo ele, ficar invisível. Você
lembra daquela brincadeira infantil de escrever mensagens no
papel com suco de limão e o texto desaparecer depois que o
suco seca? Então...
A história parece inventada de tão absurda (como alguém
poderia achar que, realmente, uma ideia bizarra como esfregar
um limão na cara faria a pessoa ficar invisível?), mas é a mais
pura verdade. Tanto que inspirou um estudo de dois psicó-
logos da Universidade de Cornell, nos EUA – o professor
David Dunning e seu aluno de doutorado Justin Kruger, hoje
professor na New York University – sobre a diferença que
existe entre a confiança das pessoas no que acham que sabem
e o que realmente sabem.
Como já disse o humorista inglês John Cleese, do genial
grupo Monty Python, há pessoas tão estúpidas que nem con-
seguem compreender que são estúpidas, por isso acham que são
muito inteligentes. Esse é o cerne do Efeito Dunning-Kruger:
quanto menos competente uma pessoa for para desempenhar
uma tarefa, mais confiante ela será de que irá dar conta facil-
mente dela.

114
Gráfico mostrando a relação entre confiança e experiência/conheci-
mento sobre um assunto e o efeito Dunning-Kruger. Quanto menos
conhecimento e experiência, maior a falsa confiança da pessoa. (Fonte:
Jornal da USP)

Ao mesmo tempo, à medida que a pessoa vai aprendendo


sobre as coisas, mais cresce nela a impressão de que ainda há
muito a aprender, de que ela não sabe nada, ou que ela sabe uma
fração ínfima do conhecimento (a chamada “síndrome do impos-
tor”, quando alguém que tem conhecimento sobre um assunto
acha que todas as pessoas têm esse saber e que ela não tem nada
de especial). A famosa frase atribuída ao filósofo Sócrates (“Só
sei que nada sei”) é um exemplo disso. Aquele “apagão” que
aquela aluna ou aluno tem na hora da prova para a qual tanto
estudou também é outro caso muito comum.
E como a pessoa aprende e realmente consegue confiar
nas informações que conhece? Voltamos ao velho Sócrates
(de novo), que dizia também que “aquilo que não sei, não saio
por aí dizendo que sei”. E o barbudão tinha um método muito
interessante chamado maiêutica, que consistia em questionar
aquilo que as pessoas tinham como certezas absolutas (ou seja,
o senso comum das pessoas) até que, ao reconhecerem que ainda
tinham muito a aprender, elas se dispusessem a querer sair da
ignorância e se abrir a novos conhecimentos.

115
Para Sócrates, o processo de aprender consiste em
três etapas:
@ ignorância (agnoia): quando não se sabe sobre algo;
@ opinião (doxa): quando há um certo conhecimento sobre
o assunto, mas não o suficiente para realmente dominá-lo; e
@ conhecimento (gnosis ou episteme): quando a pessoa
consegue dominar o assunto, após muito estudo e humildade.
A maior parte das pessoas até consegue sair da ignorância
completa sobre os assuntos, mas permanece na doxa, na opinião,
e acredita que ter opiniões (fortes ou não) sobre um assunto
equivale a saber algo de verdade sobre ele, a ter conhecimento,
como se falar alto (ou falar do alto, de uma posição de poder ou
de destaque) equivalesse a saber do que se fala. E não podemos
esquecer do que vimos sobre a ideologia ou discurso da compe-
tência: a ideia errada de que uma pessoa, por ocupar um lugar
de poder, sabe mais que as outras sobre um tema. Logo, tudo
que esta pessoa fale, suas opiniões mais estapafúrdias, seriam
verdade por que esta pessoa está “no topo”.
Isso não é verdade. Se opinião fosse igual verdade, minha
opinião de que Mauro Shampoo, do Íbis de Pernambuco, foi o
maior centroavante da história do futebol mundial deveria ser
reconhecida por todas as pessoas como verdade inquestionável.
Cá entre nós, você já tinha ouvido falar em Mauro Shampoo ou
no Íbis, o chamado “pior time do mundo”?
Não saber algo não é crime, mas persistir deliberada-
mente num estado de desconhecimento e de negação é muito
prejudicial para o indivíduo, para as pessoas que o cercam e
para a própria sociedade.
Platão, aluno de Sócrates, comparava o processo do apren-
dizado a sair de uma caverna: primeiro os olhos vão se acostu-
mando gradativamente à luz, até conseguirmos olhar as coisas
como são. E também avisava que, muitas vezes, ao voltarmos
à caverna e tentarmos explicar as coisas a quem ainda estava
lá dentro, seríamos hostilizados, pois quem só vê o mundo por
meio de sombras não sabe lidar com a luz. De maneira análoga,

116
quem acha que sabe demais não sabe lidar com o fato de, na
verdade, não saber tanto quanto acha – e acaba se tornando
caricato, arrogante, inconveniente ou até agressivo, tipo o rapaz
do suco de limão.
Por isso, uma boa providência para não pagar este mico é
ser humilde: todo mundo ainda pode aprender ou conhecer algo
novo nessa vida. Calce as sandálias da humildade: não dói. O
sábio, a professora, o jardineiro, a artesã, o torneiro mecânico,
o jovem, o velho...sempre há algo a ensinar e a aprender uns
com os outros.

Se não for pelo amor...

Até agora, ressaltamos a necessidade da empatia, a busca


pela informação verídica, a necessidade de seguir padrões e
valores éticos e sociais na hora de difundir informações e a
disposição em admitir que não se sabe de tudo. Isso é um exce-
lente começo para diminuir o impacto do fake no nosso dia a dia.
Mas como lidar com pessoas que não descem do salto? Ou com
aqueles e aquelas que estão tão convictos do delírio que, como
já vimos, entraram em estado paranoico? Se puder, evite estas
pessoas ou planeje a retirada delas de sua vida. Mesmo. Vale a
pena. Quanto menos tóxico o ambiente à sua volta, melhor para
sua sanidade mental e mais simples de lidar com os efeitos que
estas pessoas causam na vida dos demais. Em vez de enfrentar
diretamente a pessoa que está neste estado delirante, controle
os danos: converse com as demais pessoas do entorno, argu-
mente sem parecer arrogante, desfaça as mentiras e enganos
alheios e mantenha o foco em criar um entorno positivo à sua
volta. Foque nas pessoas que ainda têm salvação. Não adianta
oferecer água a quem não quer beber. Se não tiver como evitar,
ignore. Vale o esforço? Vale o estresse e a angústia? Se não vale
a pena, não passe por isso.
Conheço uma pessoa que adota uma tática ousada, mas
muito divertida: cada vez que encontra um adepto de teoria da
conspiração ou uma pessoa muito preconceituosa, cria algo mais

117
absurdo ainda ou profere insultos tão assustadores que esta pes-
soa acaba por achar que encontrou pela frente uma pessoa “muito
radical”, que “não é bem assim”, que “a teoria que ela abraça é
muito estranha”, etc., etc., etc. Exemplo: aos negacionistas do
pouso na Lua, essa pessoa amiga simplesmente diz que a Lua
não existe e acreditar nela é que é a conspiração! Ou, quando
ele pega aquele motorista de Uber que começa a reclamar de
programas de igualdade social, ele exagera, apenas para cho-
car (conheço a pessoa e sei que ela é totalmente defensora das
minorias sociais), e diz que, abaixo de uma determinada faixa
de renda, as pessoas devem ser castradas ou eliminadas pois só
ocupam espaço (de preferência citando algo que visivelmente
atinja esse motorista). Rende risadas e sua avaliação no aplica-
tivo certamente cai muito, mas nem todo mundo pega a ironia.
O objetivo destas estratégias “de choque” é o de provocar
desconforto em quem as recebe, esperando que esta sensação
de estranhamento provoque um movimento da pessoa em dire-
ção a abandonar os pensamentos pré-formatados e as emoções
movidas pelo ego ou ressentimento. Ainda que nem sempre isso
funcione, pode dar certo. Porém, existe sempre risco em provocar
o constrangimento alheio (ou seguir à risca a antiga expressão
popular “chapéu de otário é marreta”): a possibilidade de que
a pessoa simplesmente fique quieta na frente de todo mundo
na hora do vexame e, secretamente, nutra ódio ou sentimentos
de vingança contra o “sabichão” que a desmoralizou. Já vimos
esse sintoma alguns capítulos atrás e sabemos que ele é comum.

O problema do Contrapúblico

Os difusores das ideias fakes se abraçam muito na ideia


de construir um contrapúblico21, um grupo de pessoas que se
posiciona como antagonista ao discurso corrente, que esta-
belece uma relação de conflito com o dito público mediano.
21
Esse conceito foi usado por Michael Warner para analisar o discurso de minorias
rebeldes e depois, no Brasil, por Camila Rocha e Esther Solano para analisar o ódio de
certos grupos sociais verde-amarelos ao conhecimento, às universidades e à inclusão
das minorias sociais.

118
Como já vimos, o interessante é exatamente o fato de que
estas pessoas que se enxergam como diferentes são o próprio
público mediano que julgam combater. Eles e elas se enxergam
como subalternos em uma sociedade que, em sua visão, apenas
é acolhedora para aqueles que, na prática, são os realmente
estigmatizados. É comum ver tais grupos sociais usarem e
inverterem os discursos dos grupos que sofrem preconceito,
por exemplo, para afirmarem que eles “também sofrem” algum
tipo de censura ou sanção social (é o que vemos em expressões
absurdas como “racismo reverso”, “cristofobia” ou “preconceito
por ser hétero”).
Outra característica dos contrapúblicos é considerarem
que suas ideias e formas de ver o mundo são permanentemente
injustiçadas e ignoradas pelo “sistema”, ou seja, pelos saberes
que ocupam os espaços de discussão e produção de informação
e conhecimento na sociedade, como universidades, imprensa ou
política. Por isso, essas pessoas sempre acham que seus “gurus”
são “banidos” das universidades, por exemplo, pois há um “com-
plô do sistema” contra as verdades deles – e não porque tais
“gurus” são autores ou pensadores e pensadoras ruins. E, cá
entre nós, é bastante empoderador para um discente enfrentar
o/a docente achando que sabe mais, ou dizer coisas chocantes
para provocar polêmica e virar o centro das atenções. Junte
a revolta da juventude com a chance de se sentir superior e
temos os ingredientes para pequenas ou grandes explosões de
rebeldia sem causa.
Como já sabemos desde os tempos de colégio, se nos
irritamos com um apelido é aí mesmo que ele pega. Logo, lidar
com tal postura de contestação e tentativa de marcação de
território exige inteligência, humor e paciência. Não jogue o
mesmo jogo que um troll de internet joga: ele ganha por fazer
você descer ao nível dele e se sentirá validado, pois recebeu a
atenção que queria. Isso só reforça o mundo paralelo onde ele
vive, o consolidando em seu papel de contrapúblico. Procure
a lei se se sentir ameaçada ou ameaçado por habitantes deste
Brasil paralelo, virtual ou real.

119
Quando fazemos o silêncio falar

Em síntese, o que observamos na prática é a dificuldade


em combater o discurso e o modo de vida fake para pessoas
que, por comodismo, paranoia ou interesse pessoal, acabam
por se recusar a ouvir ou aceitar qualquer informação ou modo
de ver o mundo que seja diferente de sua convicção pessoal
inicial. Vimos até agora como este tipo de pensamento e modo
de vida se constroem, como se entranham no cotidiano, seus
efeitos na vida das pessoas que não necessariamente compar-
tilham de seus pressupostos e qual o alcance desta confusão
na tomada de decisões tão comuns como tomar vacinas ou
ouvir um podcast.
Não é de se espantar, afinal, que esta adoção de uma vida
fake tenha todas as características de quando a pessoa abraça uma
ideologia sem entender seu real funcionamento: como vimos,
nesta situação a ideologia opera como um véu sobre a realidade
que condiciona o jeito como a enxergamos e como agimos nela,
sendo reforçada por nossas ações. Porém, é possível desmontar
o discurso ideológico exatamente quando revelamos seu caráter
lacunar - ou seja, fazemos os seus silêncios falarem: consegui-
mos mostrar e reconhecer suas fraturas, buracos e paradoxos.
Quando fazemos falar o silêncio que sustenta a ideologia,
produzimos um outro discurso, o contradiscurso da
ideologia, pois o silêncio, ao ser falado, destrói o discurso
que o silenciava. (Chaui, 2016, online)
Acreditamos que o fake, por na prática ter um caráter
profundamente ideológico, pode ser combatido de forma similar,
ainda que suas peculiaridades exijam ajustes neste processo. O
que indicamos aqui é um ponto de partida. A estratégia para
desmontar o fake não seria, então, preencher seus buracos apon-
tando os erros que tais lacunas carregam. Não seria algo como
apontar os erros das teorias sobre terraplanismo, negacionismo
científico, etc. mostrando os dados corretos, mas maximizar
as contradições que estes buracos, paradoxos e fraturas criam,
permitindo quebrá-los por dentro, “encontrando uma via pela

120
qual a contradição interna ao discurso ideológico o faça explodir”
(Chaui, 2013, p.139).
Um exemplo possível – e extremo - são as atitudes daquele
meu amigo que falou que a Lua não existe. Outro, mais cotidiano
e mais afável, poderia ser responder o meme do mapa errado do
Brasil com um que contivesse um mapa mais esquisito ainda, mas
que propagasse informações corretas da reforma. Certamente
uma parte das pessoas que compartilharia este mapa também
ia criticar seu uso, mas a mensagem ia se espalhar, ia chegar
em alguém que poderia estar aberto a rever as informações do
meme anterior.
O contradiscurso também possibilitaria um apelo direto
aos interesses da pessoa que veicula e replica o discurso fake.
Duas simples perguntas feitas para a pessoa podem ajudar: “e
o que eu tenho (ou o que você tem) a ver com isso” e “no que
isso vai influenciar de verdade a sua vida”? Exemplo: no dia
07/10/2022, após as eleições legislativas e após o primeiro
turno das eleições majoritárias para a presidência da República,
circulou no Twitter (hoje [Link]) a notícia de que a deputada
eleita Erika Hilton, que é travesti, seria escolhida para um cargo
como ministra caso Lula ganhasse.
Como a professora Sabrina Fernandes comentou no
mesmo dia, devemos “perguntar o que a pessoa vê de impor-
tante naquela informação”. A notícia era sabidamente menti-
rosa, mas qual seria o problema se fosse verdadeira? Muitas
pessoas apenas replicaram tal informação sem nem refletir
sobre seu significado ou avaliar se tal fato realmente teria
impacto em suas vidas, movidas apenas pelo “escândalo” –
lembra da sua tia que recebeu as imagens estapafúrdias há
alguns capítulos atrás?
Reforçar a necessidade de que a pessoa tenha que dizer
os motivos pelos quais certas questões seriam importantes (ou
não) pode levá-la a um questionamento sobre o real valor de
algumas de suas convicções. Não é garantido que funcione todas
as vezes, mas quando funciona, funciona muito bem.

121
O conflito entre o interesse individual e o coletivo pode
fornecer outra ferramenta para o combate ao fake: o cinismo
que as pessoas viventes desta realidade paralela apresentam é
acompanhado pela busca da satisfação dos interesses individuais
sobre os coletivos. Paradoxalmente, quanto mais convencidas
as pessoas estão de que suas ações alucinadas as aproximam
destes interesses, mais fácil é perceber os efeitos reais contrários
de seus atos.
Forçar este paradoxo a se revelar pode levar a estabelecer
novos laços associativos entre os integrantes do grupo. Muitas
pessoas que embarcam nos delírios do fake não são mal-inten-
cionadas, apenas ignorantes da dimensão real de suas dúvidas
sobre o mundo. Mostrar que muitas de suas angústias são com-
partilhadas até mesmo pelas pessoas que ela foi ensinada a ver
como inimigas pode ajudar a esfriar os ânimos.
Como podemos fazer alguém imerso nesta realidade pró-
pria perceber que seus interesses concretos somente podem ser
realmente atendidos fora do delírio alucinatório no qual julga
viver (ou, em termos muito cotidianos, a promessa do acesso à
arma, vestir-se de azul ou rosa ou evitar banheiros unissex, seja
o que isso for, coloca mais comida na mesa do trabalhador)?
Como, para além de nossos esforços individuais, uma pessoa pode
tomar a consciência por si mesma de que é preciso expandir seu
pensamento para além de uma visão de mundo restrita, rígida
e que exclui quem é diferente?
As tecnologias – TODAS ELAS, antigas ou ultra con-
temporâneas – podem ser aliadas no processo (pois são fer-
ramentas, não boas ou más em si), mas nada substitui a ação
humana. Contra o escândalo e o delírio da vida fake, é preciso
agir de forma prática e para além da simples denúncia ou
engajamento em ideologias de qualquer naipe: passa, nova-
mente, pela luta franca para o entendimento e apropriação,
pelas pessoas, da compreensão de que é preciso transformar
suas condições de vida – econômica, social, coletiva, emocio-
nal, individual, psicológica, etc. - de forma simultaneamente
individual e coletiva.

122
Contra os discursos fake da besteira, do cinismo e da
alucinação, a consciência de que a realidade dos fatos também
é composta pela percepção das pessoas sobre estes, e que esta
percepção precisa se basear em valores e direitos que tragam
dignidade à vida do maior número de pessoas possível. O desafio
é fazer tais valores serem devidamente compreendidos.
Contra o fake e seu modo de vida, a busca por uma vida
prática, ou de práxis, onde pensamento, ação e intersubjetividade
andem próximas. Só somos quem somos por existirmos junto
com outras pessoas diferentes de nós. Essa é a nossa tarefa, de
todas, todos e de cada um.

# O que lemos

CHAUI, Marilena. “Crítica e ideologia”. In: Manifestações


ideológicas do autoritarismo brasileiro. SP: Fundação Perseu
Abramo; Belo Horizonte: Autêntica, 2013
ORSINI, Cecilia Maria de Brito. 2001: Orsini / Chaui. J. psi-
canal., São Paulo, v. 49, n. 90, p. 129-143, jun. 2016. Disponível
em <[Link]
pid=S0103-58352016000100011&lng=pt&nrm=iso>.
PLATÃO. Apologia de Sócrates. Curitiba: Elenco, 2006
PLATÃO. A República. Belém: Ed. UFPA, 2000
ROCHA, Camila: Medeiros, Jonas; SOLANO, Esther. The Bol-
sonaro Paradox: the public sphere and right-wing coun-
terpublicity in contemporary Brazil. Cham, Switzerland:
Springer Nature AG, 2021
SANTIAGO, Homero. O pensamento político de Marilena
Chaui: a invenção do método. Cadernos Espinosanos, número
36, jan-jul 2017. Pp 57-87.
WARNER, Michael. Públicos e Contrapúblicos (abreviada).
Periódico Permanente. Num. 6. Fev. 2016. Pp. 1-17

123
# O que acessamos

@safbf – Sabrina Fernandes – [Link] (hoje [Link])


[Link] - O que é o efeito Dunning-Kruger?
14/06/2023. Disp. [Link]
efeito-dunning-kruger/
[Link]. Você sabe mesmo
tudo que acha que sabe? 02 mai. 2019. Disp. [Link]
[Link]/voce-sabe-mesmo-tudo-que-acha-que-sabe-o-efeito-
dunning-kruger/

# O que assistimos

CHALOUB, Jorge. Is the Ultra-Right anti-intellectual?


Reflections on the contemporary intellectual. Palestra online.
Paradoxes of Emancipation/Centre Marc Bloch. 04 julho 2023.
Disp. [Link]
CLEESE, John. On Stupidity. Disp. [Link]
watch?v=wvVPdyYeaQU

# Quer saber mais?

Você precisa saber mais. Isso é só o começo.

124
POSFÁCIO

Desde o Sofista de Platão o falso tem sido um problema,


e, sobretudo um problema político. Ele pode variar da mentira
mais fantasiosa à exata descrição (descontextualizada) de um
fato. Pode variar do rumor sonoro e violento ao silêncio mais
discreto. Pode, enfim, ser promovido por ação ou por omissão.
A mentira, enquanto produção do falso, é uma arte sutil e mul-
tifacetada, tão sutil quanto os interesses de todos os mentirosos
desse mundo, tão multifacetada quanto as razões diferentes que
levam os mentirosos ao seu ofício.
Por conta disso Benito cerca um velho monstro com
novas faces, revela as novas peripécias de um antigo vilão, suas
novas táticas, fundadas na imensa difusão de informação e na
ausência cada vez maior de formação. Esse monstro é o falso,
que, dito em inglês, para ser mais universal e falar a língua de
internet, é o fake. Não se trata mais apenas de mentir, mas de
oferecer o falso como mer-cadoria valiosa.
Claro que a investigação sobre o falso é eminentemente
política (e já era assim desde Platão). É que, para haver delibe-
ração, escolha, para que possamos tomar partido, enfim, se faz
necessário saber quais são nossos interesses verdadeiros e quais
são as condições em que eles se cumprem. O fake apaga esses
dois requisitos e sequestra nosso poder de escolha. Sendo assim,
o domínio que o fake quer fazer sobre nossas decisões se faz sem
violência explícita, sem o uso escancarado da força – o falso não
é um Trasímaco intimidando a Sócrates. A violência real, por
certo é a mesma: estar submetido ao falso e ser levado a fazer
algo prejudicial a si mesmo não é diferente de ser acorrentado
e submetido por qualquer poder adverso.
Benito percebe as duas coisas, seja a sutileza do falso, seja
sua violência. Mais que isso busca sua origem na prática desavi-
sada de quem é visitado pelo fake – ouvir a opinião dos outros ou
as notícias que circulam em meio público não é menos perigoso
que atravessar uma rua movimentada com o sinal aberto. Com

125
certeza, o autor não esquece de denunciar também a intenção de
quem lança o falso nas redes e nos meios de informação. Benito
combina as duas coisas para construir seu contra-ataque. Trata
se de refinar a arte da desconfiança, de redobrar todo cuidado,
de retomar a atenção cuidadosa. Mas também de reconhecer os
terrenos: a imprensa, a internet, as redes sociais, o boca a boca
e a própria disposição de quem cede ao fake.
Tudo isso traz o falso ao centro da consideração de quem

Benito Maeso
quer pensar a política para valer. Não apenas o falso da ideologia,
mas o falso que ocupa o lugar dos fatos. O mundo mudou muito
no século 21, e isso coloca velhas tarefas em novas luzes.
é professor do Benito
IFPR e da
nos ensina a desconfiar novamente!
UFPR, lecionando para
adolescentes e Neto
Paulo Vieira adultos
desde 2008. Doutor em
Ética e Filosofia Política,
pesquisa as relações
entre filosofia, psicologia
e comunicação social.
Companheiro da Patricia,
pai do Gabriel, humano
de estimação da Jujuba e
da Marceline e guitarrista
nas (poucas) horas vagas.

126
O FAKE não é apenas a
notícia, mas a comunicação
ENTRE as pessoas e sujeitos,
de todas as formas e em todos
os níveis; a postura do indivíduo
perante o mundo e as e os demais;
a estrutura-base e as maneiras pelas
quais se dão as relações sociais. Em uma sociedade
costurada pela mistura entre individualismo, indife
rença em relação ao semelhante e a indistinção
entre fato e fake, o desprezo pelo Outro é o
centro das relações sociais.

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