DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA
NO NOVO CÓDIGO CIVIL
DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO NOVO CÓDIGO
CIVIL
Revista dos Tribunais | vol. 818 | p. 36 | Dez / 2003
Doutrinas Essenciais de Direito Civil | vol. 3 | p. 911 | Out / 2010
DTR\2003\619
João Batista Lopes
Desembargador aposentado. Mestre e doutor pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Membro da Academia Paulista de Magistrados.
Área do Direito: Geral
Sumário:
[Link]ção - [Link]: denominação, origem e conceito - [Link] jurídica - [Link]
geral da doutrina - 5.A Contribuição da jurisprudência brasileira - [Link] positivo brasileiro - 7.O
projeto de Código Civil - [Link]ção da personalidade jurídica no novo Código Civil -
[Link]ão - [Link]
1. Introdução
O interesse pelo instituto da desconsideração da personalidade jurídica, na doutrina e na
jurisprudência brasileira, não é recente, mas o tema ganhou especial relevo a partir do Código de
Defesa do Consumidor cujo art. 28 cuidou expressamente da matéria.
Agora, com o novo Código Civil (LGL\2002\400), cujo art. 50 se ocupa explicitamente do instituto,
passará ele a integrar, obrigatoriamente, os currículos de nossas faculdades e merecer a atenção
detida de nossos civilistas.
Neste artigo, a par de breves considerações teóricas sobre a desconsideração da personalidade
jurídica ( disregard of legal entity) será objeto de análise o citado art. 50 em cotejo com o art. 28 do
CDC (LGL\1990\40) e seus desdobramentos e repercussões no dia-a-dia forense.
Cuida-se de tema de inquestionável atualidade uma vez que o desvirtuamento da personalidade
jurídica, o desvio de seus fins e sua utilização para lesar terceiros vêm contribuindo para a
desorganização da economia e o comprometimento das instituições.
Conforta-nos, porém, verificar a preocupação de muitos magistrados que, independentemente de
regra legal expressa, já vêm acolhendo, mesmo fora do âmbito do Código de Defesa do Consumidor,
a tese da desconsideração para coibir abusos e corrigir injustiças.
É de se esperar que, com o advento do novo Código, o instituto ganhe perfil doutrinário definitivo
para se converter em instrumento idôneo contra a fraude e a má-fé.
2. Generalidades: denominação, origem e conceito
2.1 Denominação
Na doutrina e na jurisprudência, encontramos variadas denominações do instituto como superamento
da personalidade jurídica, desestimação da personalidade jurídica, doutrina da penetração,
"despersonalização da pessoa jurídica" ( sic), desconsideração da personalidade jurídica etc.
De todas elas a que melhor traduz a essência e finalidade do instituto é, inquestionavelmente, a
última, ou seja, desconsideração da personalidade jurídica.
Em verdade, não se cuida de despersonalização ou extinção da personalidade, mas simplesmente
de sua desconsideração episódica para a proteção dos sócios, de terceiros de boa-fé e, até mesmo,
da própria pessoa jurídica, como adiante se verá.
2.2 Origem
O precedente judiciário mais antigo de que se tem notícia sobre o tema é a decisão do Juiz Marshall,
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proferida em 1809, nos EUA, no caso Bank of United States v. Deveaux. A despeito de a
Constituição Federal (LGL\1988\3) americana limitar a jurisdição das cortes federais às controvérsias
entre cidadãos de diferentes Estados, o magistrado conheceu da causa, tomando em consideração a
pessoa dos sócios individuais e, portanto, desconsiderando a pessoa jurídica.
Na Inglaterra, em 1897, no caso Salomon v. Salomon, decretada a falência de uma sociedade
comercial controlada por Aaron Salomon, o liquidante pretendeu alcançar os bens particulares
daquele sob o fundamento de que a atividade da company era, de fato, a atividade da pessoa física,
que se valera de artifício para limitar sua responsabilidade. A sentença acolheu a tese,
reconhecendo a confusão dos patrimônios e foi confirmada, em segundo grau, mas posteriormente
reformada pela House of Lords.
Outros julgados seguiram a mesma esteira. No processo contra a Standard Oil Co., o tribunal
americano entendeu que um acordo celebrado por acionistas de sociedades petrolíferas para
monopolizar determinado setor era, na verdade, um acordo entre sociedades e contrário à ordem
pública.
No caso First National Bank Of Chicago v. F. C. Trenbein, este, devedor insolvente, constituiu uma
sociedade com pessoas de sua família, sendo o patrimônio social formado pela transferência de
seus bens particulares. Em processo judicial intentado, procurou forrar-se de responsabilidade
invocando a distinção entre a pessoa física e a pessoa jurídica, mas, com base na teoria da
penetração, a defesa não foi acolhida.
Em todos esses casos foi acolhida a tese de que o princípio da separação entre a pessoa jurídica e a
pessoa física não é um dogma, não tem caráter absoluto e deve ceder passo em casos particulares.
2.3 Conceito
A distinção entre a pessoa jurídica e as pessoas físicas que a compõem é vetusta ( societas distat a
singulis) e foi consagrada, expressamente, no art. 20 do CC/1916 (LGL\1916\1):
"As pessoas jurídicas têm existência distinta da dos seus membros.
§ 1.º Não se poderão constituir, sem prévia autorização, as sociedades, as agências ou os
estabelecimentos de seguros, montepio e caixas econômicas, salvo as cooperativas e os sindicatos
profissionais e agrícolas, legalmente organizados.
Se tiverem de funcionar no Distrito Federal, ou em mais de um Estado, ou em territórios não
constituídos em Estados, a autorização será do Governo Federal; se em um só Estado, do Governo
deste.
§ 2.º As sociedades enumeradas no art. 16, que, por falta de autorização ou de registro, se não
reputarem pessoas jurídicas, não poderão acionar a seus membros, nem a terceiros; mas estes
poderão responsabilizá-las por todos os seus atos".
A interpretação doutrinária desse artigo tornou patente, porém, que a regra geral da separação entre
a pessoa jurídica e as pessoas físicas não é absoluta e só deve prevalecer se não houver
desvirtuamento, desvio de finalidade, infração à lei ou confusão entre o patrimônio da sociedade e o
dos sócios.
Cabe registrar, para logo, que a regra do art. 20 supracitado não foi repetida no novo Código Civil
(LGL\2002\400), mas seu comando persiste, decorrência de interpretação sistemática como adiante
se exporá.
O que importa ressaltar, neste passo, é que a distinção sobredita não tem caráter absoluto e, como
regra geral que é, comporta exceções contempladas na lei ou admitidas na jurisprudência.
Nos casos em que a sociedade se desvia de seus fins para servir de instrumento para a prática de
atos ilícitos, o sistema deve fornecer meios idôneos que permitam ignorar, transitoriamente, a
distinção entre a sociedade e os sócios a fim de se proteger adequadamente os interesses destes,
de terceiros e da própria sociedade.
Não se cuida, porém, de extinção ou dissolução da sociedade, nem de anulação do ato tido por
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ilícito. O que se objetiva com o instituto é a desconsideração episódica, momentânea da pessoa
jurídica para se alcançar a pessoa do sócio infrator. Longe de se dissolver a sociedade, o que se
pretende é protegê-la contra atos abusivos ou ilegais cometidos pelos sócios.
Uma variante dessa doutrina é a chamada desconsideração inversa (ou imprópria) em que se
despreza a figura do sócio e a obrigação por ele contraída maliciosamente para se alcançar a
pessoa jurídica. Essa modalidade de desconsideração mostra-se adequada às hipóteses em que o
sócio, transfere todos os seus bens para a sociedade com a intenção maliciosa de fraudar credores.
3. Natureza jurídica
Como se pôs em relevo no item anterior, a figura da desconsideração não se confunde com a da
dissolução da sociedade, nem com a anulação de seus atos.
As ações de dissolução e de anulação têm natureza constitutiva negativa, porquanto implicam
alteração na relação jurídica original.
Na desconsideração, não se altera a estrutura e a constituição da pessoa jurídica: apenas se impede
que atos abusivos ou ilegais praticados por sócios prevaleçam sobre os objetivos daquela.
A desconsideração não exige a propositura de ação própria para ser decretada: o pedido pode ser
formulado incidentemente e, assim, solucionado por simples decisão interlocutória, como adiante se
verá.
Importa ressaltar, porém, que a desconsideração não deve ser utilizada como instrumento de
investigação de fatos: somente quando comprovado o abuso, o ilícito, a fraude é que a medida
poderá ser decretada.
Ressalta claro, pois, o caráter excepcional da providência, já que, ausentes fundamentos relevantes,
deve ser mantida a regra geral da distinção entre pessoa física e pessoa jurídica.
4. Panorama geral da doutrina
Nos lindes de um simples artigo, não há como examinar a vasta bibliografia existente sobre a teoria
da desconsideração da personalidade jurídica. 1
Merecem, porém, especial referência Maurice Wormser e Rolf Serick, entre outros autores
estrangeiros, por terem sido pioneiros no estudo do tema; e Rubens Requião por haver iniciado entre
nós a discussão em torno da matéria.
A essência da doutrina da desconsideração pode ser encontrada na obra de Serick cuja proposta é
por ele assim resumida:
"1. Em caso de abuso da forma da pessoa jurídica, traduzida na intenção de burlar a lei, subtrair-se
às obrigações contratuais ou causar danos a terceiros, o juiz pode afastar-se da neta distinção entre
sócio e pessoa jurídica.
2. Em princípio, não se pode desconhecer a autonomia subjetiva da pessoa jurídica só porque não
se logrou realizar o escopo de uma norma ou a causa objetiva de um negócio jurídico.
3. É admissível a aplicação de normas baseadas em atributos, capacidade ou valores humanos se
não houver contradições entre o escopo dessas normas e a função da pessoa jurídica.
4. Se se verificar que, em determinado negócio as partes envolvidas são, na realidade, o mesmo
sujeito, é possível desconhecer a autonomia subjetiva da pessoa jurídica quando se tiver de aplicar
uma norma baseada na efetiva e não meramente formal diferenciação". 2
A conclusão a que chega Serick e que serviu de base à construção definitiva da teoria da
desconsideração é a da relatividade da distinção entre pessoa física e pessoa jurídica.
A tese repercutiu no Brasil sobretudo pela especial atenção que lhe dedicou Rubens Requião em
palestra proferida e posteriormente publicada.
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Esse eminente comercialista mostra que a jurisprudência brasileira já havia percebido a necessidade
da superação da dicotomia pessoa jurídica-pessoa física, em casos particulares de abuso, fraude ou
confusão entre o patrimônio de uma e de outra.
Incursão pela doutrina brasileira revela a existência de duas vertentes bem distintas: a) a teoria
subjetiva, defendida por Requião que se funda na fraude e no abuso; b) a teoria objetiva, sustentada
por Fábio Konder Comparato, que toma como fundamento da desconsideração a confusão
patrimonial entre o controlador e a sociedade controlada.
Fábio Ulhoa Coelho reconhece o mérito de Comparato ao apontar a insuficiência da teoria subjetiva,
mas ressalta que a confusão patrimonial não é a única hipótese ou o único fundamento da
desconsideração. 3
Alexandre Couto Silva, reportando-se a Fábio Ulhoa Coelho, escreve:
"Salienta-se que, inicialmente, a teoria da desconsideração, por escassez de aplicação, baseava-se
principalmente na ocorrência da fraude e do abuso - concepção subjetivista -, e com a evolução da
teoria e a atuação dos tribunais em casos práticos pôde-se destacar fundamentos para a sua
aplicação, dando-lhe um enfoque mais objetivista. Entretanto, deve-se depreender que a teoria não
pode e nem deve ser entendida como de caráter exclusivamente subjetivista ou objetivista, como
quiseram alguns doutrinadores. A coexistência de ambas as concepções é possível, completando
uma à outra, pois a concepção objetivista não abrange todos os casos possíveis de aplicação da
teoria, devendo-se socorrer da concepção subjetivista, que pode atingir maior número de hipóteses
de aplicação da teoria (Coelho, 1999, p. 43 et seq.)". 4
Importa ressaltar, por outro lado, que as hipóteses legais de responsabilidade dos sócios por atos
ilícitos ou contrários ao contrato social não devem ser qualificadas como desconsideração.
A esse respeito escreve João Casillo:
"Quando a lei brasileira, como nos exemplos acima citados, impõe ao sócio, gerente ou
administrador a responsabilidade por dívidas da sociedade, o faz porque uma dessas pessoas agiu
de maneira contrária à lei ou ao contrato, mas como pessoa integrante da pessoa jurídica. Não foi a
pessoa jurídica que teve a sua finalidade desvirtuada, não foi a pessoa jurídica como ser que foi
manipulada mas, sim, o diretor, o gerente ou o sócio que, na sua atividade ligada à empresa, andou
mal.
Quando se fala, por outro lado, em desconsideração da pessoa jurídica, é porque a própria entidade
é que foi desviada da rota traçada pela lei e pelo contrato. A sociedade é utilizada em seu todo para
mascarar uma situação, ela serve como véu, para encobrir uma realidade.
Note-se que, nos casos citados da legislação brasileira, o que se vê é uma verdadeira punição ao
diretor, gerente ou sócio e, como já vimos no direito estrangeiro, a desconsideração pode ser
utilizada inclusive para beneficiar a pessoa jurídica (v. no Cap. 'Direito suíço', caso sob n. 5).
Assim acreditamos que devemos separar bem estas duas hipóteses, por não serem idênticas". 5
5. A Contribuição da jurisprudência brasileira
A inexistência de regra legal sobre a desconsideração da personalidade jurídica não impediu que a
jurisprudência, em sua função criadora, adotasse, em casos particulares, soluções que muito se
aproximavam da doutrina da disregard.
Especial registro merece acórdão, de que foi relator o Des. Edgard Moura Bittencourt, apontado por
Rubens Requião como a "mais perfeita identificação com a teoria da disregard", em que ficou
remarcado:
"Há, no caso, completa confusão do patrimônio da pessoa física do executado com o do embargante,
o que resultou evidente prejuízo para quem contratou com aquele.
Trata-se de bens encontrados no apartamento do executado, que não apresenta justificativa
aceitável; são bens que não podiam ter sido adquiridos para um hospital, como a embargante
(televisão, vitrola, geladeira doméstica). Página 4
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(...)
A assertiva de que a sociedade não se confunde com a pessoa dos sócios - é um principio jurídico,
mas não pode ser um tabu, a entravar a própria ação do Estado, na realização de perfeita e boa
justiça, que outra não é a atitude do juiz procurando esclarecer os fatos para ajustá-los ao direito" (
RT 238/394).
Outro precedente importante foi o voto vencido proferido pelo Des. Oswaldo Aranha Bandeira de
Mello que, fundado na teoria do negócio fiduciário, admitiu em cobrança intentada contra sócios a
penhora em bem da sociedade por entender que esta não passava de "projeção do próprio
executado, então seu presidente, a quem dava poderes de gestão tão ilimitados, como se só por ele
e por seus haveres fosse constituída, de modo a lhe atribuir dupla personalidade e lhe permitir o jogo
dúbio com os seus credores" ( RT 343/181).
Recentes decisões consolidaram a admissibilidade da superação da personalidade jurídica para
coibir a fraude e proteger terceiros. 6
6. Direito positivo brasileiro
Como se sabe, a proteção ao consumidor ganhou status constitucional (art. 5.º, XXXII, CF
(LGL\1988\3)) e a legislação infraconstitucional, consolidou essa proteção na Lei 8.078, de 1990,
considerada pela doutrina um microssistema de normas.
O art. 28, caput, do CDC (LGL\1990\40) estabelece:
"O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando, em detrimento do
consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ao ato ilícito ou violação
dos estatutos ou contrato social. A desconsideração também será efetivada quando houver falência,
estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má
administração".
O § 1.º desse artigo, vetado pelo Presidente da República, tinha o seguinte teor literal:
"A pedido da parte interessada, o juiz determinará que a efetivação da responsabilidade da pessoa
jurídica recaia sobre o acionista controlador, o sócio majoritário, os sócios-gerentes, os
administradores societários, e, no caso de grupo societário, as sociedades que a integram".
À primeira vista, o veto poderia ser interpretado como descaracterização da teoria da
desconsideração na medida em que viesse a impedir a responsabilização do acionista controlador,
do sócio majoritário, dos sócios-gerentes e dos administradores societários.
Há, porém, desvio de perspectiva nesse entendimento como anota Elizabeth Cristina Campos
Martins de Freitas:
"Na realidade, a ausência desse parágrafo em nada modificou a eficácia da norma, não nos mesmos
termos utilizados no veto, mas pelo fato de que o atingir o patrimônio pessoal dos sócios e/ou
responsáveis constitui a razão primeira da desconsideração da personalidade jurídica (...).
De todo o exposto extrai-se que, por razões didáticas e metodológicas, o melhor caminho parece ser
o de entender que o dispositivo vetado não deve ser relegado ao completo descaso, podendo até ser
invocado pelas partes interessadas e utilizado pelo aplicador da norma para deslinde das questões
de legitimidade passiva". 7
7. O projeto de Código Civil
O Anteprojeto do Código Civil (LGL\2002\400), em seu art. 49, dispunha:
"A pessoa jurídica não pode ser desviada dos fins que determinaram a sua constituição para servir
de instrumento ou cobertura à prática de atos ilícitos, ou abusivos, caso em que caberá ao juiz, a
requerimento do lesado ou do Ministério Público, decretar-lhe a dissolução.
Parágrafo único. Neste caso, sem prejuízo de outras sanções cabíveis, responderão conjuntamente
com a pessoa jurídica os bens pessoais do administrador ou representante que dela houver utilizado
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de maneira fraudulenta ou abusiva, salvo se a norma especial determinar a responsabilidade
solidária de todos os membros da administração".
A redação proposta recebeu críticas por não assimilar corretamente a idéia da desconsideração ao
aludir à dissolução da sociedade. Além disso, ao referir-se unicamente ao administrador, deixou de
fora outros sócios porventura envolvidos nos ilícitos ou desvios.
Sobreveio nova redação, no art. 50 do Projeto, com insignificante alteração na parte final do caput
que passou a estabelecer:
"(...) decretar a exclusão do sócio responsável ou, tais sejam as circunstâncias, a dissolução da
sociedade".
Finalmente, sensível, em parte, às objeções de especialistas, deu-se novo teor ao artigo sobredito,
como adiante se verá.
8. Desconsideração da personalidade jurídica no novo Código Civil
O novo Código Civil (LGL\2002\400), em seu art. 50, estabelece:
"Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela
confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando
lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações
sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica".
Como se vê, o novo texto expungiu alguns defeitos do projeto ( v.g., a indevida alusão à dissolução,
a intervenção do Ministério Público em todos os casos, a não responsabilização dos demais sócios
etc.) mas não se refere, expressamente, à desconsideração episódica da personalidade, essência do
instituto de que se cuida, orientação que fora corretamente adotada no art. 28 do CDC
(LGL\1990\40).
De qualquer modo, é inquestionável que o legislador consagrou a teoria da desconsideração da
personalidade jurídica, que não se confunde com outras figuras já existentes na legislação
precedente.
Com efeito, não há confundir o instituto da desconsideração com o da dissolução da pessoa jurídica
ou anulação de seus atos. Também nenhuma relação tem com as formas de responsabilidade
contempladas expressamente no sistema. A desconsideração não implica extinção da sociedade,
nem desconstituição de seus atos, nem acarreta, necessariamente, prejuízo para ela, já que se
busca com o instituto a preservação da personalidade jurídica e de seus fins legítimos.
A ausência de alusão expressa à desconsideração no texto do art. 50 é irrelevante, já que o artigo é
explícito ao aludir ao desvio de finalidade e à confusão patrimonial como situações que autorizam a
constrição de bens dos administradores ou sócios.
Emprestou-se, assim, adequado elastério ao instituto, porquanto se contemplou não apenas a
hipótese de abuso (teoria subjetiva) mas também a de confusão patrimonial (teoria objetiva).
Em suma, a doutrina da desconsideração foi, inquestionavelmente, acolhida no novo Código, o que
representa importante passo no desenvolvimento do instituto.
Algumas considerações complementares se impõem, porém.
Em primeiro lugar, não foi contemplada a desconsideração em sua modalidade inversa, isto é, a
superação da pessoa do sócio para se alcançarem os bens da sociedade.
Suponha-se que, para fraudar credores, o sócio venha a transferir seus bens para a sociedade. Na
ação contra ele movida por credor, será lícito penhorar bens da sociedade?
Posto que omisso a respeito o art. 50, é possível que a jurisprudência, interpretando extensivamente
a regra legal, venha a admitir sua incidência nessa hipótese.
Cumpre, também, indagar se a declaração da desconsideração depende de ação própria ou pode
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ser decretada incidentemente.
A exigência de ação própria praticamente tornaria inefetiva a regra legal, presente o quadro atual de
morosidade da justiça.
Diante disso, desde que observado o princípio do contraditório, a questão pode ser dirimida nos
próprios autos, inclusive em processo falimentar, 8do mesmo modo que a fraude de execução pode
ser decretada nos próprios autos do processo de execução (Cahali).
O que não pode ser admitido é a decretação da desconsideração de plano, sic et simpliciter, a
pretexto de que a observância do contraditório poderia frustrar a eficácia da medida.
9. Conclusão
A teoria da desconsideração da personalidade jurídica, que já era admitida na jurisprudência antes
mesmo do advento do Código de Defesa do Consumidor, foi definitivamente consagrada nesse
diploma legal e, agora, reafirmada em termos incisivos no novo Código Civil (LGL\2002\400).
Pese embora algum reparo à redação adotada, é inquestionável que a norma cumprirá importante
papel para preservar o prestígio da pessoa jurídica e coibir a fraude contra credores.
Como ressalta Dobson, em frase lapidar, a doutrina da desconsideração está embasada num critério
de verdade na medida em que, existindo uma contradição entre o ente ideal sociedade e o objeto
real empresa, deve desestimar-se o primeiro e observar-se atentamente a realidade, ou seja, o
segundo. 9
Aos juízes estará reservada a relevante missão de aplicar adequadamente a teoria, preservado o
direito ao contraditório e à ampla defesa e assim procedendo preservarão os fins legítimos da
pessoa jurídica e garantirão a segurança das relações jurídicas.
10. Bibliografia
AMARO, Luciano. "Desconsideração da pessoa jurídica no Código do Consumidor". Revista Direito
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ARRUDA ALVIM NETTO, José Manoel de et al. "Desconsideração da personalidade jurídica".
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COELHO, Fábio Ulhoa et al. Comentários ao Código de Proteção do Consumidor. In: OLIVEIRA,
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DOBSON, Juan M. El abuso de la personalidade jurídica. Buenos Aires: Depalma, 1985.
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JUSTEN FILHO, Marçal. Desconsideração da personalidade societária no direito brasileiro. São
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1967. Página 7
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OLIVEIRA, José Lamartine Corrêa de. A dupla crise da pessoa jurídica. São Paulo: Saraiva, 1979.
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REQUIÃO, Rubens. "Abuso de direito e fraude através da personalidade jurídica ( disregard doctrine
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______. Aspectos modernos de direito comercial (estudos e pareceres). 2. ed. São Paulo: Saraiva,
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______. "Projeto do Código Civil (LGL\2002\400) - Apreciação crítica sobre a parte geral e o Livro I
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______. "Tendências atuais da responsabilidade dos sócios de sociedades comerciais". RT, São
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SERICK, Rolf. Forma e realtà della persona giuridica. Trad. Marco Vitale. Milano: Giuffrè, 1966.
SILVA, Alexandre Couto. "Desconsideração da personalidade jurídica: limites para sua aplicação".
RT, São Paulo: Ed. RT, vol. 780, p. 53.
(1) Para um estudo mais detido do tema são indispensáveis, entre outras, as seguintes obras:
SERICK, Rolf. Forma e realtà della persona giuridica. Trad. Marco Vitale. Milano: Giuffrè, 1966 (título
original: Rechsform um realität Juristicher Personen); REQUIÃO, Rubens. "Abuso de direito e fraude
através da personalidade jurídica ( disregard doctrine)". RT 410/12-24; CASILLO, João.
"Desconsideração da personalidade jurídica". RT 528/24; COELHO, Fábio Ulhoa et al. Comentários
ao Código de Proteção do Consumidor. In: OLIVEIRA, Juarez de (Coord.). São Paulo: Saraiva, 1991;
Desconsideração da personalidade jurídica. São Paulo: Ed. RT, 1989; COMPARATO, Fábio Konder.
O poder de controle na sociedade anônima. Rio de Janeiro: Forense, 1983; DOBSON, Juan M. El
abuso de la personalidade jurídica. Buenos Aires: Depalma, 1985; GUIMARÃES, Flávia Lefevre.
Desconsideração da personalidade jurídica no Código do Consumidor - Aspectos processuais, Max
Limonad; JUSTEN FILHO, Marçal. Desconsideração da personalidade societária no direito brasileiro.
São Paulo: Ed. RT, 1987. MASNATTA, Héctor. El abuso del derecho a traves de la persona colectiva
. Rosario (Argentina): Jurídicas Orbir, 1967.
(2) Op. cit., p. 275, 281, 287 e 292-293.
(3) Desconsideração..., cit., p. 43.
(4) "Desconsideração da personalidade jurídica: limites para sua aplicação", RT 780/53.
(5) Op. cit., p. 24.
(6) Assim, por exemplo: "Execução - Penhora - Sociedade por cotas - Dissolução irregular -
Incidência sobre os bens de seu representante legal - Admissibilidade - O arresto incide sobre bem
particular de sócio por dívida contraída por empresa que se encontra desativada, sem que
respondam pelas obrigações antes assumidas. Aplicação da teoria da desconsideração da
personalidade jurídica" (Ap c/ rev. 433.508-0/00 - Guarujá - rel. Juiz Claret de Almeida - j.
07.06.1995). "Execução - Penhora - Teoria da desconsideração da personalidade jurídica das
pessoas jurídicas - Aplicação analógica do art. 28 do Código do Consumidor (Lei 8.078/90) -
Admissibilidade - Pessoa jurídica devedora desativada, alterando-se os sócios que alienaram seus
direitos a terceiros, atos não levados a conhecimento prévio do juízo - Presunção de insolvência e
prejuízo aos credores, dando plena aplicação à teoria - Decisão que indeferiu ofício para
conhecimento de bens dos sócios - Agravo provido" (1.º TACivSP - 6.ª Câm. - AgIn 907.117-6-SP -
rel. Juiz Oscarlino Moeller - v.u. - j. 29.02.2000). "Penhora - Incidência sobre cotas de sócio
majoritário revel - Admissibilidade - Aplicação da teoria da desconsideração da personalidade da
pessoa jurídica - Art. 28 do CDC (LGL\1990\40) (Lei 8.078/1990) - Hipótese onde há inequívoco
abuso de direito do sócio, detentor da maioria das cotas sociais, partícipe de danos empresas no
mesmo endereço, sendo uma delas devedora inadimplente, com ofuscamento dos bens suscetíveis Página 8
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de penhora - Constrição mantida - Embargos do devedor improcedentes - Recurso improvido" (1.º
TACivSP - 6.ª Câm. - Ap 718.319-3-São Paulo - rel. Juiz Oscarlino Moeller - v.u. j. 17.02.1998). "
Falência - Desconsideração da personalidade jurídica - Declaração incidental - Possibilidade -
Desnecessidade de prévia decisão judicial em processo de conhecimento - Hipótese de ineficácia
relativa, e não de invalidação dos negócios jurídicos, que permite a arrecadação dos bens como se
ainda pertencessem à falida. O ajuizamento da ação revocatória, previsto na lei falimentar, não é
exigência absoluta nos casos de ineficácia relativa dos atos praticados pelo devedor. Entendimento
doutrinário e jurisprudencial. Liminar cassada. Recurso improvido" (TJSP - 7.ª Câm. de Direito
Privado - AgIn 155.854/8-São Paulo - rel. Des. Salles de Toledo - v.u. - j. 29.11.2000).
(7) Desconsideração da personalidade jurídica - Análise à luz do Código de Defesa do Consumidor e
do novo Código Civil (LGL\2002\400). São Paulo: Atlas, 2002. p. 173.
(8) Nesse sentido, o Tribunal de Justiça já decidiu: "(...) Resta saber se essa desconsideração
poderia ter sido proclamada incidentemente como foi, ou se estaria na dependência de prolação de
sentença julgando procedente a ação ainda a ser proposta. Note-se que ficou claro existirem
elementos hábeis a servir de base a uma decisão que, dando por configurados os requisitos para
tanto, desconsiderasse incidentalmente a personalidade jurídica das sociedades envolvidas e
determinasse a arrecadação de seus bens. Mesmo assim, teria sido preciso, mais do que a cognição
restrita ocorrida, um amplo processo de conhecimento? (...) vem a jurisprudência se inclinando no
sentido de dispensar, nos processos falimentares, o prévio ajuizamento de ação, nos casos em que
a observação da realidade impuser a desconsideração da personalidade jurídica. Há, como se viu,
sólidos fundamentos jurídicos para tanto. Diversos precedentes podem ser invocados, a começar
(tendo em vista a importância do exemplo) pelo 'caso C', em que a personalidade jurídica de
empresas do grupo foi desconsiderada (cf. os v. acórdãos deste E. Tribunal prolatados nos Agravos
de Instrumento 190.330-2; 190.367-1; 190.368-1; 227528-1, rel. Des. Munhoz Soares, cf. f.). Podem
ainda ser citados, entre outros, os julgamentos, todos deste E. Tribunal, referidos pelo DD.
Procurador de Justiça oficiante (ApCív 215.927-1, rel. Des. Flávio Pinheiro, j. 18.10.1994; 5.ª Câm.
de Direito Privado, AgIn 271.753-1, rel. Des. Jorge Tannus, v.u., j. 22.02.1996; AgIn 89.524-4, 4.ª
Câm. de Direito Privado, rel. Des. Fonseca Tavares, v.u., j. 25.02.1999; AgIn 109.094-4, 6.ª Câm. de
Direito Privado, rel. Des. Mohamed Amaro, v.u., j. 30.09.1999; cf. f., respectivamente)" (TJSP - 7.ª
Câm. de Direito Privado; AgIn 155.854-4/8-SP; rel. Des. Salles de Toledo; j. 29.11.2000; v.u.).
(9) Op. cit., p. 94.
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