A Experiência de Mediação Linguística em Dois Agrupamentos de Escolas
do Porto
Como profissional de Educação Social e Serviço Social, tive a felicidade de iniciar
a minha carreira aos 22 anos. Trabalhei em diversas áreas, o que me proporcionou um
grande enriquecimento pessoal e profissional. Estabeleci relações significativas, tanto
com outros profissionais como com as famílias que acompanhei. Posso afirmar que sou
uma pessoa feliz e rica em vivências gratificantes. Mantenho até hoje contacto com
muitas das pessoas com quem estabeleci relações de ajuda, e tive o privilégio de
testemunhar o crescimento e evolução de inúmeras famílias e indivíduos, o que me
enche de orgulho.
Acredito que, quando me reformar, terei material para escrever vários livros de
memórias com histórias do acompanhamento social.
Durante quase dezassete anos estive na linha da frente da intervenção social,
nomeadamente na Ação Social e no acompanhamento do Rendimento Social de
Inserção, trabalhando com cerca de 100 agregados familiares. No entanto, surgiu em
mim a necessidade de mudança e evolução, e decidi lançar-me no desafio de ser
Mediadora Linguística e Cultural.
Respondi a várias ofertas de escolas na área do Grande Porto durante o mês de
fevereiro, preparei um portefólio, e em março fui chamada para entrevistas. Quando
visitei a Escola Secundária Eugénio de Andrade, senti de imediato um ambiente de
cooperação entre os profissionais, e os alunos pareciam felizes e descontraídos nos
intervalos. A entrevista correu bem e senti que partilhávamos perspetivas comuns, o
que me deu esperança de ser selecionada.
Assim foi. Iniciei funções a 26 de março, tendo sido colocada em dois
Agrupamentos de Escolas – Eugénio de Andrade e Pêro Vaz de Caminha – distintos
entre si, mas acolhedores em igual medida.
A profissão de mediador linguístico-cultural nas escolas é relativamente
recente, e o enquadramento legal oferece alguma margem de autonomia, tanto para
as direções como para os próprios profissionais.
No Agrupamento Pêro Vaz de Caminha, iniciei a minha intervenção com os
alunos migrantes menos integrados. Tive a sorte de dispor de uma sala onde pude
receber alunos "flutuantes", sem programação rígida, e dar asas à imaginação.
Realizámos jogos de palavras, dinâmicas emocionais, atividades verbais e de cálculo
mental, ouvimos músicas e traduzimos letras. Nessas intervenções individualizadas,
pude conhecer melhor as diversas culturas presentes no agrupamento e apoiar os
alunos migrantes em testes e fichas.
Constatei que, independentemente da origem, são adolescentes como
quaisquer outros: inseguros, irreverentes, "imortais" e todos os “II” — ingénuos,
incríveis, inteligentes, e, acima de tudo, com uma enorme necessidade de serem
ouvidos.
Na Eugénio de Andrade, tive o privilégio de integrar o GAAF (Gabinete de Apoio
ao Aluno e à Família) e fazer parte da dinâmica promovida pela Direção. Fui bem
acolhida pelas colegas, estagiárias e pelos alunos que frequentavam o espaço.
Estabeleci relações significativas com adolescentes migrantes e não migrantes, e ficou
claro que todos partilham traços comuns, embora mantenham características culturais
próprias. Estas diferenças devem ser encaradas como enriquecedoras e, curiosamente,
não observei entre os jovens o "fantasma do Islão" tão presente entre alguns adultos.
A escola enfrenta hoje um grande desafio: o de respeitar a individualidade de
cada aluno. Não somos todos iguais — e isso é uma riqueza. Um dos problemas do
ensino, a meu ver, é tratar os alunos como um todo homogéneo. Cada criança tem uma
trajetória de vida única, independentemente da sua origem, raça ou etnia.
Além do desafio da integração dos alunos migrantes, enfrentamos outro
igualmente importante: sensibilizar toda a comunidade educativa — professores,
assistentes operacionais, administrativos — para as questões da empatia e do
preconceito. Existe ainda um racismo latente na nossa sociedade, que se manifesta
especialmente perante diferenças culturais, como os hábitos alimentares, a higiene ou
a língua.
É fundamental cultivar a EMPATIA em todos os agentes educativos e nos
próprios alunos. Falar sobre estas questões já é um passo. A escola deu outro passo
importante ao contratar profissionais como os mediadores, que podem apoiar
efetivamente a integração e o bem-estar dos alunos migrantes.
Vivemos numa sociedade plural, composta por diferentes culturas, tradições e
perspetivas. A escola deve ser o espaço onde essa diversidade não apenas existe, mas é
valorizada e celebrada. Promover o respeito e a convivência entre as diferenças é
essencial para formar cidadãos mais empáticos, conscientes e preparados para os
desafios do mundo contemporâneo.
Contudo, trabalhar a diversidade cultural na escola exige mais do que boas
intenções. É preciso planeamento, estratégias concretas e envolvimento de toda a
comunidade educativa para que a inclusão aconteça na prática, no quotidiano escolar.
A Educação Relacional surge aqui como uma ferramenta importante para
reduzir o distanciamento relacional que tantas vezes impede aprendizagens
significativas. Esta é uma responsabilidade partilhada por todos os que fazem parte do
ecossistema educativo. A construção de pontes relacionais deve estar no horizonte de
uma educação mais justa e eficaz.
Apesar destes avanços, a sociedade como um todo ainda precisa de evoluir.
Para mim, que pertenço à geração pós-25 de Abril, é chocante ver como ainda hoje se
fala com preconceito de certos alunos, especialmente os provenientes de religiões
diferentes. Parece por vezes estarmos a regressar à Idade Média e à inquisição que
tanto criticamos.
Se acreditamos em Deus — ou em algo superior — devemos reconhecer que a
coexistência de diferentes religiões é permitida por esse mesmo Deus. São apenas
diferentes formas de olhar para o mesmo princípio divino.
Acredito que a mudança começa em cada um de nós. Se diariamente formos
conscientes dos preconceitos que carregamos e lutarmos ativamente por ser mais
justos e empáticos, estaremos a dar o primeiro passo rumo a uma sociedade mais
humana.
Este texto é, acima de tudo, uma mensagem de solidariedade, valorização da
diversidade cultural e empatia, alinhada com ideais de convivência pacífica e amor
universal.
Somos todos filhos da HUMANIDADE e cidadãos do MUNDO!