Sobre Projeção
Sobre Projeção
Somos vítimas de nós mesmos, de nossa ignorância, e não do mundo externo, como nos é
conveniente acreditar. O mundo externo nada mais é do que uma projeção. Acreditamos ser sempre vítimas
de pessoas, objetos e situações, vítimas do mundo externo. Mas, em verdade, somos vítimas de nossos
próprios demônios, demônios que nós mesmos criamos, alimentamos e perpetuamos. Somos vítimas de
nossos próprios conceitos e preconceitos, valores, padrões, fantasias, ilusões, esperanças, expectativas,
desejos.
E, por acreditarmos que tudo acontece sempre no lado externo, que sempre nos transforma em
grandes vítimas, tentamos resolver nossos conflitos lutando para reagir ao externo. Porém, é inútil essa
reação ao externo, já que a origem de nossos tormentos não está lá. Enquanto lutamos contra o externo,
nos desviamos cada vez mais de nós mesmos, pois o foco está errado. Portanto, o resultado é pouco ou
nenhum.
Quando não conseguimos lidar com algum conflito dentro de nós, projetamo-lo para fora, a fim de
tornar mais fácil ou possível trabalharmos a situação. Parece que essas projeções passam a assumir
escalas cada vez maiores, e se sobrepõem como se fossem camadas. Assim, quanto antes nos
observarmos e resolvermos a situação interna que nos incomoda, menores serão as conseqüências
externas.
Não é difícil perceber que, quando nos rejeitamos internamente, é comum sermos rejeitados por
terceiros. Quando travamos um conflito ou uma briga interna, é comum nos envolvermos brigas com
alguém. Quando criticamos o próximo, certamente existe dentro de nós aquilo que deu origem a essa
crítica.
Desculpas e explicações refletem as desculpas e explicações que existem em nosso íntimo para
com o nosso próprio ser. Portanto, refletem uma não aceitação, uma negação dos erros, das emoções, dos
instintos, das manifestações do ego.
Ver é enxergar o reflexo da luz nos objetos. Da mesma forma, quando enxergamos algo em
alguém, estamos vendo apenas um reflexo de nós mesmos. A diferença é que, na maior parte do tempo,
enxergamos nos outros o reflexo das nossas trevas e não de nossa luz.
Enquanto não despertarmos a consciência, não conseguiremos ver nada além de reflexos, além de
deformações ou vultos obscurecidos pelo véu da ignorância e do preconceito. Vivemos uma ilusão, pois
nunca saímos de dentro de nós mesmos. Vemos tudo através de um véu, do véu da ignorância, do véu de
Maya. Enquanto não despertarmos a consciência, tudo será visto e compreendido a partir do pobre
conteúdo interno que temos.
Todas as pessoas que vemos ou convivemos são como uma superfície onde projetamos imagens
que existem em nosso interior. Não as vemos como realmente são, vemos apenas estereótipos de nosso
lado sombra. Todas representam nossos próprios reflexos – reflexos que amamos, reflexos com os quais
brigamos ou nos magoamos.
Quando nos apaixonamos por alguém, estamos projetando uma imagem que já existe em nosso
interior, com a qual nos identificamos. Como assinala Jung, a pessoa que recebe a projeção é portadora de
um gancho que a aceita perfeitamente. O fato de alguém se apaixonar ou se decepcionar, mais cedo ou
mais tarde, vai resultar na retirada da projeção do objeto externo. Então dizemos que a pessoa amada
deixou de ser aquela por quem nos apaixonamos. Ocorre é que, na verdade, ela nunca foi, só serviu como
suporte para a projeção de nossos próprios conteúdos internos.
Muitas vezes, no fim de um relacionamento, após experiências que tenham contribuído para
desfazer a projeção, a ilusão quanto à pessoa amada, um fica com raiva do outro. Essa raiva é uma nova
projeção, a projeção da decepção com nós mesmos por não termos percebido o erro antes, por termos nos
iludido, e por uma série de outros motivos. Como não conseguimos lidar com isso, projetamos a raiva, o
sentimento, a emoção ruim para o outro. Alguém que não nós mesmos precisa ser culpado.
A projeção de nosso mundo interior no exterior não é coisa que fazemos de propósito. É
simplesmente a maneria como funciona a psique. Em realidade, a projeção acontece de forma tão contínua
e inconsciente que costumamos não dar tento de que esta contecendo. Não obstante, tais projeções são
instrumentos úteis à conquista do autoconhecimento. Contempalndo as imagens que atiramos na realidade
exterior, como reflexos no espelho da realidade interior, chegamos a conhecer-nos.
Irritação, crítica, julgamento, reclamação, zombaria, repulsa, rejeição, são negações de nós
mesmos, que formam e alimentam o lado sombra. A recorrência vai dando mais força à sombra, e, sem que
possamos perceber, estamos agindo da mesma forma. Este processo é uma violência muito grande contra
nós mesmos. Certamente, somos o nosso pior inimigo.
Não devemos nos arriscar a dizer que não temos o mesmo sentimento, a mesma emoção, o
mesmo defeito que percebemos nos outros, porque certamente o temos. Um tem ciúme da pessoa amada,
o outro do dinheiro ou da casa. Um se irrita com o trânsito, o outro com o barulho do vizinho ou das
crianças. Um se incomoda com agitação, o outro com estagnação. Um mendiga dinheiro, o outro atenção
ou reconhecimento. Um quer parecer rico, o outro quer parecer bom ou justo
Os defeitos devem ser aceitos, observados, estudados e compreendidos, para que possam ser
superados. Negação, luta, briga, guerra contra os nossos defeitos ou dos outros não é solução. Aceitar os
defeitos do outro também é uma atitude de grande importância. Temos que tentar compreender o próximo,
temos que buscar a compaixão.
À medida que vamos nos conhecendo, temos mais capacidade para conhecer melhor o outro, para
exercer a compaixão, a paciência, a tolerância, o respeito, pois, desta forma, conseguimos perceber a
projeções, conseguimos perceber que somos todos iguais, os limites do Eu vão se expandindo.
Enquanto não temos ainda uma consciência desperta, devemos procurar aceitar os defeitos que
vemos nos outros, pois assim estaremos aceitando os nossos próprios defeitos. Afinal, o que vemos nos
outros são apenas projeções. Conforme praticamos a aceitação, a compaixão, a paciência, a tolerância, o
respeito para com os outros, as barreiras vão se rompendo. E então vamos nos percebendo mais e melhor,
vamos percebendo as projeções que fazemos ou que fizemos.
Obviamente, não são somente as partes negativas em nós que negamos. Muitas vezes negamos a
nossa criatividade, espontaneidade, inteligência, vivacidade, bondade, simpatia, simplicidade. Tudo isso faz
parte do mesmo mecanismo de projeção praticado durante a vida, no nosso dia-a-dia.
Sem percebermos, com a não aceitação de nós mesmos e dos outros, vamos fortalecendo nossos
egos, aumentando nosso lado sombra, nossas trevas, aumentando nossas ilusões sobre nós mesmos e
sobre a realidade. Vivemos nos projetando e nos identificando, rejeitando ou aceitando nossos próprios
reflexos nos outros. A compreensão, o auto-conhecimento, a aceitação, a individuação, são formas de
reintegração das partes de nosso Ser.
Somos dados a acreditar que uma determinada parte nossa é melhor do que outra, a gostar mais
de uma parte do que de outra. Por conseqüência, ficamos propensos a rejeitar, a não gostar daqueles que
se mostram ou se comportam de maneira semelhante à parte rejeitada dentro de nós. Rejeitamos nos
outros o que não gostamos em nós mesmos. Precisamos aceitar, compreender, cada um dos nossos
aspectos, os bons e o maus, os que gostamos e os que não gostamos, sem nos apegarmos, sem
desejarmos apenas os bons, os de que gostamos, sem nos identificar com essas frações de nós mesmos,
sem nos dividirmos.
Quando não mais tivermos certos comportamentos, certos defeitos, não mais serviremos de
espelho para as pessoas nesse aspecto. Eliminados os defeitos e cultivadas as virtudes, passaremos a
refletir o que é bom, seremos bons exemplos, bons espelhos. Esta é uma fórmula propícia para ajudar os
outros, uma fórmula propícia de caridade, amor, de compaixão.
A projeção é uma escravidão, escravidão aos demônios dos outros e aos nossos. Assim, pautamos
nossos atos, nossas ações, nosso comportamento, pelo que pensam esses demônios. É muito difícil
perceber quando e o quanto somos escravizados por nossos pensamentos. Isto se dá de maneira muito
sutil. Vivemos pensando o tempo todo, nossa mente é inquieta, não temos um centro. Assim não podemos
diferenciar aquilo que vem direta e naturalmente de nosso Ser daquilo que vem dos egos.
Temos que parar de culpar terceiros pelas coisas indesejáveis que nos acontecem, temos que
tomar as rédeas das situações. Somente assim elas poderão ser mudadas. Nunca antes deste
procedimento, nunca enquanto a culpa for transferida aos outros, às condições externas, etc. Essa
tendência de culpar os outros faz parte da fantasia, da fascinação. Essa tendência de culpar os outros faz
parte da projeção.
Tememos nossas próprias projeções mentais. O medo do que os outros vão pensar ou dizer é
baseado em nossos próprios o]pensamentos, conceitos e preconceitos.Temos vergonha de nossos próprios
conceitos, de nossos próprios valores, projetados para os outros. Ficamos magoados com nossas próprias
projeções nas ações ou palavras dos outros. Sentimos raiva de nossos próprios pensamentos projetados.
Vemos nos outros nossa própria maldade refletida. Ficamos orgulhosos e nos envaidecemos de nossas
próprias idéias e fantasias sobre nós mesmos. Sentimo-nos ofendidos em conseqüência dos valores que
damos às palavras e por nos auto-adorarmos, por queremos ser reconhecidos.
Não reagimos aos acontecimentos externos, mas aos nossos próprios pensamentos, sejam eles
grosseiros ou sutis, efêmeros ou não, bons ou ruins. Assim, ao julgarmos objetos, pessoas, situações,
reagimos aos nossos próprios julgamentos. E, por mais que acreditemos que estamos reagindo ao que é
externo a nós, o que fazemos, na verdade, é reagir ao interno. Acreditamos nas histórias que a mente conta
e as seguimos.
Não existe ninguém nos ofendendo, nós é que nos ofendemos sozinhos. Não existe ninguém no
magoando, nós é que nos magoamos sozinhos. Não existe ninguém nos irritando, nós é que nos irritamos
sozinhos. Tudo não passa de projeções mentais.
Apenas conhecendo a verdade sobre cada um dos aspectos da projeção é que conseguiremos nos
libertar deles. Conhecendo a verdade sobre cada aspecto de uma projeção, um dia conheceremos a
verdade fundamental sobre a própria projeção.
No momento, podemos concluir que nada sabemos sobre a projeção, podemos concluir que somos
ignorantes. Qualquer tentativa de definição da projeção em nós pode limitar nossas experiências.
Precisamos estar abertos para nos permitir descobrir, conhecer, cada vez mais, o processo da projeção em
nós mesmos. Precisamos estar abertos nos permitir descobrir, conhecer, de maneira cada vez mais
profunda e enriquecedora, sobre a própria projeção.
Talvez a busca pela compreensão e pela compaixão para com o próximo seja uma chave para a
compreensão dessas verdades, visto que essa busca possivelmente já seja, por si, um ato de compaixão. A
compaixão vai nos levando a desviar o foco de nosso universo próprio. E isso vai nos oferecer condições
para começarmos a perceber gradualmente o mundo externo.
Provavelmente, depois de termos acompanhado toda esta reflexão, iremos negar seus pontos
principais. De fato, fica difícil entender realmente o que seja todo esse fenômeno interno sem passar pela
experiência de sair de dentro de nosso próprio universo. Sem uma compreensão plena, realmente fica tudo
mais difícil, difícil principalmente para o ego. São os medos. É cômodo viver sonhando, viver uma realidade
destorcida. Por isso, a tendência primeira será negar tudo que foi dito. Estamos apegados à nossa realidade
atual, temos medos do novo, do desconhecido, medo de nos defrontarmos com nossas misérias.
Pode parecer que tudo vai ficar mais feio e desconfortável quando pararmos de fantasiar e
enfrentarmos a realidade. E possivelmente, a um primeiro momento, vai. Quando se encara a própria
miséria, o sofrimento é inevitável. Mas, depois de vencermos este obstáculo, o que é verdadeiramente belo
e novo poderá ser visto em toda a sua nitidez. Tudo será novo, tudo aquilo que víamos antes será visto de
maneira diferente. Veremos a vida como ela realmente é, veremos a magia das coisas e descobriremos os
segredos das simplicidades. Mas, para chegarmos a este ponto, teremos antes que vencer nossos
demônios, nossos medos – os vilões que nos impedem de mergulhar no desconhecido.
Pode parecer que, se pararmos de nos projetar, o amor não mais existirá, as cores da vida
empalidecerão. É só uma impressão. Veremos então as cores reais, e não mais as cores fantasiosas. E,
indubitavelmente, as cores reais são muitos mais belas, porquanto verdadeiras. E o amor acontecerá
livremente a partir daquilo que se apresenta de fato, da realidade dos seres, das flores, ao invés de se
manter acorrentado às fantasias e idéias que projetamos.