A AUTO-IMAGEM
É quase um truísmo da psicologia contemporânea que a auto-imagem está na raiz da maior parte
da conduta humana. O mais difícil de aceitar é que a auto-imagem seja o produto daquilo que outras
pessoas nos disseram que somos, tenham elas dito coisas certas ou não. Se nos vemos como maus ou
inadequados, nossa vida será governada pela Lei de Murphy e alguma forma de autodestruição aparecerá
em nossa conduta. Não seremos capazes de enfrentar desafios e a segurança será nossa meta, acima e
antes de tudo. Tentaremos de algum modo esconder a nossa vergonha ou inadequação sob o véu do
anonimato. Não alcançaremos a condição básica de que todo ser humano necessita para estar plenamente
vivo - aceitar a nós mesmos como somos.
Toda a teoria do Dr. Carl Rogers, famoso por seu sistema de aconselhamento não-diretivo ou
centrado no cliente, é baseada na necessidade de auto-aceitação. O Dr. Rogers afirma que o desafio básico
de toda vida humana é o do auto-conhecimento e da auto-aceitação. Ele postula ainda que não podemos
nos entender e nos aceitar tal como somos sem que alguém tenha antes nos compreendido e aceito pelo
que somos. Finalmente, Rogers sustenta que, uma vez aceitos e amados pelo que somos, os problemas
contra os quais lutamos na vida cederão ante o auto-conhecimento e a auto-aceitação.
Como conseqüência, Rogers sugere que o papel de um conselheiro (e isso poderia também ser
aplicado a um amigo) é, em grande parte, ouvir enquanto o cliente descreve seus problemas e, em última
análise, a si mesmo. O conselheiro deve transmitir sua postura de aceitação em relação ao aconselhado,
sem ceder ao impulso de sobrecarregá-lo com direções ou conselhos. Para ter sucesso nesse tipo de
aconselhamento ou amizade, é preciso acreditar nessa afirmação: a grande necessidade humana é
conhecer e aceitar a nós mesmos como somos. Muitas vezes, somos tentados a pensar que colocar os
outros "em seus devidos lugares" ou forçá-los a encarar a realidade, é a solução de todos os problemas.
Na verdade, a crítica severa que atinge a pessoa e não o ato, apenas aprofunda o problema, pois torna a
auto-aceitação mais difícil.
O Dr. Maxwell Maltz, cirurgião plástico, descobriu que quando sua arte cirúrgica removia alguma
fealdade física ou contribuía para uma aparência exterior mais agradável, seus pacientes passavam, quase
sempre, por uma transformação de personalidade. Mostravam-se mais confiantes, mais expansivos, com o
espírito renovado. Prosseguindo na investigação desse fenômeno, o cirurgião voltou-se para a imagem
interior, em contraposição à aparência física exterior, e descobriu que essa imagem interior controla uma
boa parte da conduta e da felicidade humana. Em seu livro Psycho-Cybernetics ("Psico-Cibernética"), o
Dr. Maltz apresenta a auto-imagem negativa como a causa radical da maior parte da inércia, do fracasso e
da infelicidade do ser humano.
A importância da auto-imagem é bem ilustrada no conto de fadas "Rapunzel". É a história de uma
jovem, presa numa torre com uma velha bruxa. A jovem é muito bonita, mas a bruxa afirma
insistentemente que ela é feia, uma estratégia para manter a jovem na torre em sua companhia. O
momento da libertação de Rapunzel ocorre no dia em que ela, olhando pela janela, avista o Príncipe
Encantado junto à base da torre. Rapunzel joga pela janela seus longos cabelos dourados e o Príncipe,
trançando suas madeixas, sobe para salvá-la. A prisão de Rapunzel, na realidade, não era a torre, mas o
medo de sua própria feiúra, que a bruxa descrevera tantas vezes e com tanta eficácia. Entretanto, quando
Rapunzel se vê refletida nos olhos do seu Príncipe Encantado e percebe sua própria beleza, liberta-se da
tirania de sua feiúra imaginária.
Isso é verdadeiro não apenas para Rapunzel, mas para todos nós. Precisamos desesperadamente
ver nossa própria virtude e beleza no espelho dos olhos de outra pessoa, se quisermos ser livres de
verdade. Até esse momento, permaneceremos também trancados dentro de nossas próprias torres. Para
sermos capazes de amar, precisamos ver além de nós mesmos. Precisamos nos preocupar com a felicidade
e realização do outro. Sendo assim, não conseguimos amar até que tenhamos tido essa visão de nossas
próprias virtudes e talentos.
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Mecanismos de Defesa do Ego
Já mencionamos que a natureza humana é cheia de recursos no que diz respeito à autodefesa.
Esses recursos tornam-se evidentes nos mecanismos de defesa do ego que usamos para nos proteger da
ansiedade e dos complexos de culpa e inferioridade. Ao invés de expor nossa individualidade, que
percebemos como inadequada ou desagradável, instintivamente construímos muros de isolamento. Isso
contraria o conselho de Robert Frost: Não erga um muro antes de saber o que está retendo do lado de
dentro e o que está deixando do lado de fora. Na medida em que sentimos as cicatrizes de ansiedade,
culpa e as sensações de inferioridade, somos tentados a usar máscaras e a representar papéis. Não
confiamos em nós mesmos nem nos aceitamos o bastante para sermos autênticos. Esses muros e máscaras
são medidas de autodefesa; nós faremos uso deles enquanto forem necessários.
Embora a vida possa parecer mais segura por trás dessas fachadas, ela é também uma vida
solitária. Deixamos de ser autênticos e, como pessoas, enfraquecemos até a morte. O mais triste quando
precisamos de usar máscaras, no entanto, é que temos de cortar todo contato genuíno e autêntico com o
mundo real e com outros seres humanos. Devemos nos lembrar que esse mundo e esses seres têm em suas
mãos nosso potencial de amadurecimento e realização. Devemos interagir honestamente com eles.
Quando recorremos à representação de papéis e ao uso de máscaras, não há possibilidade de crescimento
humano e pessoal. O fato é que não estamos sendo nós mesmos, e não podemos emergir como pessoas
sem uma atmosfera de crescimento. Estamos apenas representando num palco. Quando cair o pano após o
espetáculo, continuaremos as mesmas pessoas imaturas que éramos quando a cortina se levantou no início
do ato.
Com freqüência, nossas máscaras são pretensiosas e desagradáveis. O menino que caminha pelo
cemitério à noite, assobia para convencer a si mesmo e aos outros de que não está com medo. Chamamos
a isso de "assobiar no escuro". O menino que sonha ser um astro do basquete caminha nas pontas dos pés,
tentando ser algo que teme não ser.
Mais desagradáveis talvez sejam as pessoas que "morrem de ansiedade" por dentro mas usam
externamente uma pretensiosa máscara de arrogância. Acontece às vezes de o público assistente perceber
a verdade.
Existe uma forte tentação de julgar as pessoas somente através de seus atos ou fachadas. É muito
raro enxergarmos através da presunção e da impostura das máscaras; é difícil descobrirmos o coração
inseguro ou ferido que se esconde atrás delas, tentando proteger-se de maiores danos. Assim, muitas
vezes atacamos as máscaras com os punhos de ferro da crítica e do sarcasmo, ou tentamos arrancá-las em
meio à nossa raiva desesperada. Não conseguimos perceber que são usadas apenas porque são
necessárias. Somente o conforto de um amor que aceita e compreende convencerá os ansiosos, os
perseguidos pela culpa e os supostamente inferiores a sair de trás de suas defesas. Pode perfeitamente
acontecer que nós mesmos estejamos nos escondendo atrás de muros e fachadas semelhantes, que
impedem o verdadeiro encontro e a comunicação humana... apenas uma máscara perante outra, um muro
diante de outro muro.
Em geral, somos capazes de reconhecer as máscaras. Sentimos que certa pessoa não é autêntica,
que é pretensiosa, e a consideramos uma fraude. Desagrada-nos muito a máscara do sarcasmo, e nos
ressentimos com a máscara silenciosa da esfinge. Tentamos sabotar a leviana impertinência do jovem e a
máscara de arrogância do velho. Não percebemos que nas raízes nãoexpostas dessas fachadas, existe
apenas um grito de dor, a necessidade de ser compreendido e amado na vida. Em sua maioria, as
características detestáveis que encontramos nos outros são o resultado de algum tipo de autodefesa. É
natural que fiquemos ressentidos com essa postura egocêntrica. É então que devemos nos lembrar da
pergunta do psiquiatra: "Você já teve uma dor de dente?". Devemos aprender a olhar além da presunção
e da impostura dos nossos irmãos humanos, a fim de aliviar-lhes a dor e a solidão com as quais ergueram
seus muros de defesa. Ataques diretos a esses muros resultarão apenas em reforço da defesa.
A Mente Subconsciente
Os psicólogos nos falam de dois níveis da mente humana: o consciente e o subconsciente. É óbvio
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pela própria terminologia que estamos cônscios ou cientes do conteúdo de nossas mentes conscientes e
alheios ao conteúdo do seu nível subconsciente, às vezes chamado de "inconsciente". Esses dois níveis
foram comparados com o andar de cima e o andar de baixo de uma casa. Quando alguma coisa incomoda
nossa visão - móveis estragados ou uma feia lata de lixo, instintivamente queremos colocá-los fora das
nossas vistas - no porão. Lá, não teremos de olhar para eles. Assim acontece com os dois níveis da mente.
Quando não podemos encarar ou conviver com alguma realidade ou atitude que encontramos em nós
mesmos, podemos enterrá-la em nossas mentes subconscientes. Quando queremos esquecer algum evento
de nossas vidas e deliberadamente o escondemos nos confins do subconsciente, isso é chamado de
supressão. Quando descobrimos em nós mesmos alguma atitude ou reação emocional que consideramos
indigna, costumamos afastá-la de nossa vista e a colocamos na mente subconsciente. Isto é chamado de
repressão.
Às vezes, quando a mente subconsciente fica sobrecarregada, nos sentimos muito desconfortáveis.
Não percebemos a fonte do desconforto, exatamente porque o conflito real foi enterrado em nosso
subconsciente. Mas, ainda assim, esse conflito permanece vivo. Às vezes tentamos encontrar um
problema do momento presente sobre o qual lançar a culpa pelo nosso desconforto, mas as raízes da nossa
dor só podem ser encontradas na mente subconsciente.
Por exemplo, quando as crianças não são amadas e valorizadas, tendem a reagir através da
conformidade externa ou da rebelião externa. Mas haverá sempre ressentimento, pois foram privadas de
suas necessidades psicológicas. Entretanto, a sociedade e a nossa cultura não lhes permitem expressar
esse ressentimento, por mais real que ele seja. Quando uma criança tenta expressar o seu ressentimento
em relação aos pais, estes, muitas vezes, lembram-lhe energicamente que são seus pais e merecem ser
amados. O fato é que talvez não sejam muito merecedores de amor. E assim, sua insistência em serem
amados coloca a criança numa posição de profundo conflito emocional. Os pais que exigem que seus
filhos obedeçam ao quarto mandamento - honrar pai e mãe - deveriam fazer um esforço para serem
merecedores desse mandamento.
As crianças que experimentam um ressentimento inevitável, geralmente não podem expressá-lo.
Pelo contrário, elas o percebem como um sentimento muito mau. Se tentarem exprimi-lo fora da família,
poderão ser chamadas de "ingratas"; os outros as farão sentir-se envergonhadas por tal atitude diante dos
pais.
O palco está então preparado para a repressão. Sem saber o que fazer com o seu ressentimento, as
crianças o escondem no porão de sua mente. É como uma farpa de madeira que se crava profundamente
na carne, causando inflamação e dor. O ressentimento nas crianças que não são amadas de maneira
adequada é fonte de um sofrimento intenso e prolongado. Existe sempre a possibilidade de que esse
ressentimento, acumulado na mente subconsciente, possa entrar em ebulição e transbordar em atos de
violência ou vandalismo, recaindo com seu impacto sobre as pessoas erradas.
Outro exemplo muito comum é a repressão da necessidade de afeição e amor. Com grande
freqüência em nossa cultura, essas necessidades não podem ser reconhecidas ou expressas, pois não
coincidem com a imagem de independência e auto-suficiência que nos são transmitidas. Como
conseqüência, as pessoas que têm essas necessidades reprimidas terão de procurar gratificação de
maneiras indiretas e sutis. A maior parte do tempo, essas pessoas estão enganando a si mesmas e aos
outros.
Já foi dito que o álcool, ao liberar as inibições, muitas vezes abre a porta para as repressões do
subconsciente. A mulher que discute e fica agressiva sob influência do álcool, está provavelmente
liberando suas hostilidades reprimidas. O homem que quer abraçar todos os presentes, homens ou
mulheres, pode estar liberando um pouco de suas necessidades reprimidas de ser amado. Na peça de T. S.
Eliot, The Cocktail Party, o autor retrata um homem que, alcoolizado, agarra um psiquiatra e lhe implora:
Por favor, faça com que eu me sinta importante!
E é disso que trata a psicanálise. O analista traz à tona o conteúdo da mente subconsciente. Ele
ajuda os clientes a perceber quais são os seus verdadeiros problemas, para que possam resolvê-los ou
conviver com eles.
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Embora a hipnose e a narcoterapia ("soros da verdade") sejam às vezes usadas na psicanálise, a
técnica mais comum é chamada de livre associação. O analista ajuda o cliente a associar os seus
pensamentos presentes com memórias passadas, ligando o que sente aqui e agora com as causas históricas
e essenciais dessas sensações. O analista pode também tentar interpretar os sonhos do cliente, que se
originam, em grande parte, da mente subconsciente, uma vez que a mente consciente (estando
adormecida) não é ativada durante o sono.
Desnecessário dizer que o processo de psicanálise deve ser deixado para os profissionais
competentes. Abordar essa questão serve apenas para ilustrar a realidade da mente subconsciente e o fato
de que nós, muitas vezes, não entendemos nossas próprias motivações e as causas do nosso desconforto.
Transferência
Com muita freqüência, agimos impelidos pelas necessidades que enterramos no subconsciente.
Precisamos nos sentir amados, nos sentir importantes e aceitar a nós mesmos. Essas necessidades, mesmo
passando despercebidas, exercem profunda influência sobre nossa conduta e sobre o modo como lidamos
com os outros. Transferência, no sentido em que usamos aqui, é sempre um processo subconsciente pelo
qual "transferimos" nossas necessidades a outras pessoas. Por exemplo, se desejamos nos sentir
importantes, podemos tentar ter o domínio absoluto sobre os outros. Se nos perguntarem acerca dessa
conduta, afirmaremos obstinadamente que esse é o modo como os outros precisam ser tratados, para o seu
próprio bem. Na verdade, poderíamos estar transferindo para eles nossa própria necessidade
subconsciente. Um jovem pode vir a engajar-se numa ocupação de notável altruísmo alegando que deseja
contribuir para o mundo dos menos favorecidos. Embora possa ser este o caso, pode ser também que,
subconscientemente, essa pessoa tenha uma necessidade não-satisfeita de sentir-se necessária.
As mães e os pais costumam ser superprotetores com seus filhos, sob a alegação de que não
querem que nada de mau lhes aconteça. Mas eles podem estar transferindo, de modo inconsciente, sua
própria necessidade de que os filhos não cresçam e continuem dependentes deles. É importante estarmos
conscientes da transferência em nossa vida, e sabermos que, sob o disfarce de altruísmo e amor, podemos
estar visando nosso próprio eu. Ainda assim, não existe um modo de conhecer toda a complexidade da
motivação humana, ou de explorar todas as nossas necessidades subconscientes. O que podemos fazer é
renovar nossa motivação e dirigir o foco da nossa mente para aqueles que estamos tentando servir e
ajudar. Se fizermos isso de maneira sistemática, poderemos adquirir, aos poucos, o hábito do amor.
A Necessidade de Ajuda Profissional
Nossa era tem sido denominada de "era do divã". Às vezes, interpretamos a presença de estresse e
tensão em nossa vida como indicação da necessidade de ajuda profissional, psicológica ou psiquiátrica. O
estigma que acompanha a busca dessa ajuda foi em grande parte eliminado nos tempos de hoje. Talvez
isso seja devido ao fato de que muitos artistas de cinema e heróis nacionais admitiram ter procurado
tratamento profissional. Entretanto, supressão, repressão, necessidades subconscientes e transferência são
parte da constituição psicológica de todos nós. Somente, procuraremos esse tipo de ajuda se e quando
precisarmos dele.
Mencionamos no começo do livro a dinâmica da personalidade humana e a possibilidade de que
essa dinâmica possa ser obstruída. Isso pode ocorrer a ponto de as pessoas não serem capazes de vivenciar
uma amizade verdadeira e significativa, nem de executarem um mínimo de suas potencialidades. Nesse
caso, existe indicação de que precisam de ajuda profissional.
Uma amizade verdadeira e significativa pressupõe mais do que a mera associação com outra
pessoa. Pressupõe que somos capazes de compartilhar nossa vida, de nos revelar a outra pessoa.
Pressupõe que podemos confiar nossos segredos ao amigo e aceitar as suas confidências. É o
relacionamento humano que Martin Buber chama de encontro "Eu-Tu".
Existe sempre uma certa distância entre o nosso potencial e o nosso desempenho real. Nunca
realizamos plenamente o nosso potencial absoluto, nem traduzimos perfeitamente nossas melhores
intenções em atos externos. A distância entre potencial e desempenho acontece, por exemplo, com alunos
que têm grandes dotes intelectuais mas não conseguem sucesso em seus cursos na escola; ou com
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trabalhadores competentes que não alcançam rendimento suficiente para conservarem um emprego por
muito tempo. Nesses casos, existe alguma indicação de que a dinâmica da personalidade ficou seriamente
bloqueada e há a necessidade de assistência profissional.
Outra evidência dessa necessidade está ligada ao que chamamos de doenças psicossomáticas. Por
causa da inter-relação misteriosa mas muito real entre corpo e mente, as perturbações enterradas na mente
podem expressar-se em reações físicas. Entretanto, isso deve ser avaliado por um médico competente. E
finalmente, uma prolongada depressão, que também indica a presença de alguma perturbação, pode
significar que a pessoa necessita de ajuda profissional. Há momentos, é claro, em que todos nós nos
sentimos deprimidos. A depressão sintomática de um problema mais profundo é, em geral, uma depressão
incapacitante e prolongada. Mas ela também será expressa tanto pela incapacidade da pessoa de construir
uma amizade significativa quanto de realizar seu potencial.
A Necessidade de Amizade
Assim como algumas pessoas necessitam de assistência competente e profissional, todos nós
precisamos da "psicoterapia de apoio" da amizade. Todos nós somos um conjunto de misteriosas
necessidades e impulsos que precisam ser expressos. Precisamos ser capazes de nos exprimir, de falar de
nós mesmos sem medo de rejeição. Com muita freqüência, os problemas latentes em nosso interior
permanecem indefinidos e, portanto, destrutivos. Quanto mais nos fechamos, mais doentes nos tornamos.
Não percebemos as verdadeiras dimensões das coisas que nos incomodam, até que possamos defini-las e
demarcá-las em conversa com um amigo. Dentro de nós elas persistem, nebulosas como fumaça. Mas
quando fazemos confidências a outra pessoa, adquirimos um certo senso de dimensão e objetividade. E
isso permite o crescimento na auto-identidade e a capacidade de nos aceitarmos como somos realmente.
Pode acontecer que os nossos muros e máscaras dificultem essa tarefa. Podemos instintivamente
tentar racionalizar nosso fechamento, alegando não haver ninguém por perto com quem possamos nos
abrir. Muitos enganam a si mesmos acreditando que ninguém seja digno de confiança em seu suposto
círculo de amigos. É muito comum que essas alegações constantes sejam meras desculpas. Nosso
verdadeiro medo é de sermos rejeitados. Tememos que a outra pessoa não nos entenda. E assim
esperamos, e esperamos, e esperamos atrás de nossos muros até que alguém nos transmita uma
manifestação tranqüilizadora; ou ficamos olhando pela janela da nossa torre, esperando que um Príncipe
Encantado venha nos salvar. Fugimos dos relacionamentos interpessoais verdadeiros, alegando que o
momento não é propício ou as circunstâncias não são ideais. Nesse meio tempo, só podemos perecer.
Muito provavelmente, "representaremos" os problemas que permanecem submersos dentro de nós,
enquanto nos recusamos a expressá-los. Representaremos nossa hostilidade através da crítica destrutiva
aos que estão à nossa volta. Representaremos nossa necessidade de ser amados por meio de uma
superdependência emocional dos outros. Representaremos nosso sentimento de inferioridade reprimido
tentando humilhar ou dominar os outros.
É muito mais sensato assumirmos os riscos de confiar em outra pessoa do que vivermos sozinhos
atrás de muros e máscaras, representando cegamente as coisas sobre as quais nos recusamos a falar. E se
queremos amar verdadeiramente os outros, precisamos lembrar-nos de que os problemas reprimidos e
suprimidos são, sem dúvida, impedimentos para o amor. Eles são como a nossa dor de dente, que nos
mantém voltados para nosso interior. .São eles que nos impedem de sermos nós mesmos e de nos
esquecermos de nosso próprio eu.
Fonte: John Powell. Por que tenho medo de amar? Ed. Crescer. 3a. ed. Belo Horizonte 2001, pp. 41-63.