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Autoconhecimento

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Decifra-me ou te devoro: A importância do

autoconhecimento em nosso percurso existencial


Soraya Rodrigues de Aragão*

O mito da esfinge de Tebas:


"Um antigo mito grego relata que a esfinge de Tebas estava sempre atenta aos viajantes que passavam
naquela cidade. Esta abordava o transeunte com o seguinte enigma: " Qual o animal que de manhã tem
quatro patas, ao entardecer tem duas e ao anoitecer tem três patas"? Caso o enigma não fosse respondido
corretamente pelo viajante, este era devorado pela esfinge. A resposta pontual era o "homem".

A humanidade, enquanto espécie, em sua caminhada existencial, sempre se questionou quem é, de onde
veio, para onde vai. Muitas destas perguntas eram respondidas através de narrativas fantásticas, nascendo,
assim, o mito. Tanto os fenômenos externos quanto seus processos internos eram explicados
simbolicamente. Em uma abordagem figurativa e mitológica, eram elucidados os questionamentos
existenciais que os angustiavam, proporcionando, deste modo, alivio ou conforto psíquico para as
perguntas que aturdiam os "enigmas" da vida de um modo geral e acerca das questões existenciais
humanas.

Este mesmo homem fez grandes progressos. Conseguiu compreender muito da essência de seres
microscópicos e das leis da natureza, descobriu a existência de energias, mesmo aquelas invisíveis aos
olhos humanos, bem como explorou o universo afora, motivado em encontrar vida em outros planetas. De
fato, o homem é um explorador nato focado no mundo externo.

Neste desejo continuo de conhecer o que está "fora de si" e condicionados às intempéries externas da vida
prática em nome da sobrevivência de sua espécie, em sua historia filogenética, o homem foi se formando
em sua complexidade como ser multi-determinado, mas esquecendo de perscutrar seus processos
dinâmicos internos e desta forma, reforçando a estereotipia comportamental através do distanciamento da
sua auto escuta, tendo em foco os apelos externos.

Este mesmo ser humano conhecedor de tantas ciências, contraditoriamente não aprofundou no
conhecimento de sua própria essência, pois ainda não foi capaz de responder ao grande enigma do famoso
"Conhece-te a ti mesmo", anexado no Templo de Delfos desde 650 a.C. Este enigma, o de "quem nós
somos", uma vez não revelado, encontra-se diretamente relacionado a eufagia do próprio ser: somos
constantemente aniquilados pela ignorância de não sabermos quem de fato somos.

O que é autoconhecimento?
Para uma verdadeira transformação, o primeiro passo é se autoconhecer. Autoconhecimento ou
conhecimento de si, em um sentido mais profundo não é absorção de informações. Este processo tem a
função primordial de nos movimentarmos para um saber próprio, de modo a proporcionar construções e
desconstruções. Deste modo, este conhecimento traz à luz muitas questões que muitas vezes passavam
despercebidas (ou que não queríamos admitir), visto que na maioria das vezes, não desenvolvemos ainda
um alto grau de intimidade conosco para alavancar nosso aprimoramento pessoal.

O autoconhecimento é um processo transformador, o maior investimento que podemos fazer por nós
mesmos, pois quando nos conhecemos, não reagimos impulsivamente aos nossos processos internos e à
vida, mas desenvolvemos uma conexão consciente com nosso "eu" e com o mundo externo.
Através deste processo, nos é permitido conhecer e trabalhar nossos conflitos e resistências, ou seja, as
nossas sombras, bem como conhecer e desenvolver os nossos recursos, possibilidades e potencialidades,
aumentando, desta forma nossa auto estima, nos tornando mais fortes para encarar as adversidades da
vida, gerando sentimento de auto-satisfação, que é condição sine qua non para nossa felicidade e auto-
realização profunda, o que é muito diferente do sentimento de euforia que o mundo nos oferece.

Em outras palavras, através do autoconhecimento, "nos encontramos e nos acolhemos na unicidade e


complexidade que nos é própria, para a partir deste ponto de partida ser oportunizada a conscientização e
consciencialização dos conteúdos subjacentes aos nossos estados afetivos e emocionais"; para rever
valores e crenças e consequentemente nos posicionarmos como pessoas ativas e responsáveis diante de
nós e da vida.

Neste processo concluímos que não somos os papéis sociais que exercemos, nem a percepção das
pessoas a nosso respeito. Do mesmo modo, não somos a identificação engessada que criamos de nós
mesmos, o que geralmente tem função de máscara protetora e escudo de defesa para nos agarrarmos a
uma imagem idealizada. Geralmente a imagem que idealizamos para nós não corresponde integralmente
a quem de fato somos. Esta vem à tona diante de experiencias catalisadoras que nos colocam frente a
comportamentos automáticos e emoções disfuncionais que precisam ser prontamente trabalhadas. O
problema é que muitas vezes culpamos os outros e não admitimos que é uma questão nossa.

Autoconhecimento e sintomas:
O corpo apresenta seu discurso através dos sintomas. Estes falam muito de nós e através de nós. A
compreensão da sintomatologia associada a compreensão das nossas emoções é a chave mestra para o
portal do autoconhecimento, pois sintomas e estados emocionais estão intrincados em um mosaico. Existe
uma linguagem corporal conflituosa que nos diz respeito através da sintomatologia apresentada e esta deve
ser avaliada, compreendida e ressignificada. Isto porque conteúdos subjacentes "se encondem" nestes
sintomas e que uma vez cronificados podem desenvolver quadros ansiosos e depressivos, bem como
outros distúrbios psiquiátricos e doenças físicas. Sendo assim, a questão principal não é retirar o sintoma
e sim deixar que este flua, para que seja trabalhado.

Infelizmente as pessoas não apresentam uma cultura preventiva. O que acontece é que elas procuram se
autoconhecer diante de um estado de sofrimento significativo, seja por seus sintomas, seja em busca de
respostas existenciais. Esta resistência advém do fato de que, embora se autoconhecer seja gratificante, é
também um trabalho longo e doloroso, pois nem sempre estamos dispostos ou prontos a encarar nossas
sombras, romper paradigmas, descontruir autoconceitos, mudar hábitos e rever condutas.

Em busca do próprio "eu":


Precisamos retirar as nossas mascaras configuradas pelos condicionamentos internalizados e visitarmos o
nosso templo de Delfos, olhando no espelho da nossa própria consciência para trabalharmos nossos
comportamentos disfuncionais. E' necessário conhecer o que há de melhor em nós, os nossos recursos, as
nossas motivações, para desenvolvermos nossa auto estima. Da mesma forma, é necessário conhecer o
que há de pior em nós, para que seja desconstruído e transformado.

Discutir nossos pensamentos, idéias e crenças é o primeiro passo para iniciarmos nosso processo de
mudança interior. Mas de pouco ou nada adianta conhecer e não aceitar o conteúdo como seu; de pouco
adianta se não nos propusermos ao trabalho mais profundo: encarar e compreender o porque dos nossos
sentimentos e emoções. Sofremos porque não nos conhecemos, porque não somos conscientes de como
funcionamos. O sofrimento existencial é produto da ignorância, sendo nós mesmos os geradores destes
mesmos sofrimentos que tanto desejamos nos desvencilhar e que nos seria poupado, caso nos
conhecêssemos. Sendo assim, não existe a possibilidade de fugirmos de nós mesmos, já que a verdadeira
liberdade advém da própria conquista consciente do "eu".

A partir desta conquista, a maior de todas que podemos fazer, não buscaremos nos satisfazer nos prazeres
e ilusões externas, nem tampouco precisaremos da incessante aprovação dos outros, visto que estaremos
satisfeitos e preenchidos conosco. No entanto, para que este processo se inicie, é necessário coragem para
sairmos da nossa zona de conforto, o que gera certo sofrimento e readaptação, ou seja, dispêndio de
energia para encarar estados emocionais negativos; paciência e perseverança no processo de mudança
de paradigmas e hábitos, mas que indubitavelmente valerão a pena.

Descontrole emocional e autoconhecimento:


O descontrole emocional é normalmente acompanhado por arrependimentos que muitas vezes são
irremediáveis. Impossível voltar atrás no tempo no que foi dito ou feito. Ações impensadas e precipitadas
podem desgastar ou mesmo arruinar nosso campo relacional, bem como a vida pessoal, afetiva, profissional
e social. A tranquilidade, o discernimento, a tolerância e a paz de espirito são atributos que podem ser
desenvolvidos através do autoconhecimento. Basta se propor a dar o primeiro passo para desenvolver
competências individuais e relacionais. O resultado disto será uma vida mais gratificante e feliz.

O trabalho psicoterapêutico:
O psicólogo é um profissional que pode nos ajudar muito nesta caminhada íngreme tendo como proposta
o investimento no paciente ou cliente para que este seja melhor para si, para os outros e para o mundo. No
entanto, ninguém será detentor de um conhecimento que é da própria pessoa. Como catalisador de
processos de mudanças e de autoconhecimento, o psicólogo indaga, perscruta, leva à questionamentos
que promovem escolhas, mudanças e respostas existenciais que somente o paciente fará e concluirá
através dos insights psicoterapêuticos. E como disse Sócrates, o pai da Filosofia: “Se o que tu procuras não
achares primeiro dentro de ti mesmo, não achará em lugar algum”.

Publicado no Psicologia.pt a: 2016-01-24 | Idioma: Português (Brasil) | Palavras-chave: Autoconhecimento,


conhecimento, eu, humanidade, mito, cultura

* Psicóloga. Realizou seus estudos acadêmicos na Unifor e Lumsa (Roma). Apresenta formação em
Dinâmica de Grupos (LDG), capacitação em Prevenção ao uso de Drogas pela UFSC (Universidade Federal
de Santa Catarina). É Sócia da Sociedade Italiana de Neuropsicofarmacologia e membro da Sociedade
Italiana de Neuropsicologia. Desenvolveu o projeto intitulado: «Consultoria Estratégica em Avaliação
Emocional».

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