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BAHÁULLÁH

E A

NOVA ERA

UMA INTRODUÇÃO À FÉ BAHÁÍ

BAHÁULLÁH

E A

NOVA ERA

CONSTRUINDO UMA CIVILIZAÇÃO PACÍFICA E GLOBAL, UM DESAFIO À HUMANIDADE

J. E. Esslemont

LLÁH E A N OVA E RA C ONSTRUINDO UMA CIVILIZAÇÃO PACÍFICA E GLOBAL , UM

Título original em inglês: Bahá’u’lláh and the New Era

© 1984

EDITORA BAHÁÍ DO BRASIL

Caixa Postal 1085 13800-973 – Mogi Mirim – SP

www.editorabahaibrasil.com.br

ISBN: 978-85-320-0170-2

1ª edição: 1928 2ª edição: 1939 3ª edição: 1946 4ª edição: 1952 5ª edição: 1962 6ª edição: 1975 7ª edição: 1984 8ª edição: 1996 9ª edição: 2001 10ª edição: 2007

Tradução: Hyram Faria Ribeiro e Leonora S. Armstrong

Revisão: Coordenação Nacional Bahá’í de Tradução e Revisão do Brasil

Capa: Gustavo Pallone de Figueiredo

Impressão: Prisma Printer Gráfica e Editora Ltda., Campinas – SP

SUMÁRIO

Introdução

ix

1 AS BOAS NOVAS

1

O Maior Acontecimento da História – 1; O Mundo em Transfor-

mação – 3; O Sol da Retidão – 4; A Missão de Bahá’u’lláh – 5; Cumprimento das Profecias – 6; Provas de Autenticidade – 8; Dificuldades na Investigação – 10; O Propósito do Livro – 11.

2 O BÁB: O PRECURSOR

12

O Berço da Nova Revelação – 12; Infância e Juventude – 14;

Declaração – 15; A Disseminação do Movimento Bábí – 15; Outras Declarações do Báb – 16; Aumentam as Perseguições – 17; Martírio do Báb – 18; Túmulo no Monte Carmelo – 19; Escritos do Báb – 20; Aquele que Deus Tornará Manifesto – 21; Ressurreição, Paraíso e Inferno – 22; Ensinamentos Sociais e Éticos – 22; Paixão e Triunfo – 23.

3 BAHÁULLÁH: A GLÓRIA DE DEUS

25

Nascimento e Infância – 25; Preso por Ser Bábí – 26; Exílio em Bagdá – 28; Dois Anos no Deserto – 29; Oposição dos Mullás – 30; Declaração em Ridván, Proximidades de Bagdá – 32; Constantinopla e Adrianópolis – 32; Cartas aos Reis – 33; Prisão em ‘Akká – 35; Restrições Abrandadas – 36; Abrem-se os Portões da Prisão – 37; Sua Vida em Bahjí – 40; Ascensão – 43; Bahá’u’lláh como Profeta – 43; Sua Missão – 49; Seus Escritos – 51; O Espírito Bahá’í – 52.

4 ‘A BDUL-B AHÁ: O S ERVO DE B AHÁ

54

Centro do Convênio – 58; Renova-se a Prisão Rigorosa – 59; Comissões Turcas de Investigação – 62; Viagens ao Ocidente – 63; Regresso à Terra Santa – 65; Haifa Durante a Guerra – 67; Sir ‘Abdu’l-Bahá ‘Abbás, K.B.E. – 68; Últimos Anos – 68; O Falecimento de ‘Abdu’l-Bahá – 69; Escritos e Discursos – 71; Posição de ‘Abdu’l-Bahá – 72; Exemplo de Vida Bahá’í – 74.

5 QUE É UM BAHÁÍ?

76

A Vida Bahá’í – 76; Devoção a Deus – 77; Busca da Verdade –

78; Amar a Deus – 80; Desprendimento – 82; Obediência –

84; Serviço – 85; A Disseminação dos Ensinamentos – 86; Cortesia e Reverência – 87; Olhos que Não Vêem o Pecado – 89; Humildade

– 90; Veracidade e Honestidade – 92; Auto-Realização – 93.

6 ORAÇÃO

95

Conversação com Deus – 95; A Atitude Devocional – 96; A Necessidade de um Mediador – 98; A Oração é Indispensável e Obrigatória – 99; A Oração Congregacional – 101; Oração, a Linguagem do Amor – 102; A Salvação das Calamidades – 103;

A Oração e a Lei Natural – 105; Orações Bahá’ís – 106.

7

109

O Corpo e a Alma – 109; A Unidade de Toda a Vida – 109; A

Vida Simples – 110; Álcool e Narcóticos – 111; Divertimentos – 111; O Asseio – 112; Efeitos da Obediência aos Mandamentos Proféticos – 112; O Profeta como Médico – 114; A Cura por Meios Materiais – 114; A Cura por Meios Não-Materiais – 116;

O Poder do Espírito Santo – 117; Atitude do Paciente – 118;

SAÚDE E CURA

Aquele que Cura – 120; Como Todos Podem Ajudar – 122; A Idade Áurea – 123; Como Usar a Saúde – 124.

8 A UNIDADE RELIGIOSA

125

O Sectarismo no Século Dezenove – 125; A Mensagem de

Bahá’u’lláh – 127; Pode-se Transformar a Natureza Humana? – 127; Primeiros Passos para a Unidade – 129; O Problema da Autoridade

– 130; A Revelação Progressiva – 132; Infalibilidade dos Profetas

– 134; O Manifestante Supremo – 135; Uma Nova Situação –

137; A Plenitude da Revelação Bahá’í – 138; O Convênio Bahá’í

– 139; Nenhum Clero Profissional – 141.

9 A VERDADEIRA CIVILIZAÇÃO

143

Religião – A Base da Civilização – 143; Justiça – 144; Governo – 146; Liberdade Política – 149; Governantes e Súditos – 150; Nomeação e Promoção – 151; Os Problemas Econômicos – 152; Finanças Públicas – 153; Partilha Voluntária – 154; Trabalho para Todos – 154; A Ética da Riqueza – 155; Nenhuma Escravidão Industrial – 156; Legados e Heranças – 158; Igualdade entre Homens e Mulheres – 159; As Mulheres e a Nova Era – 161; A Rejeição dos Métodos Violentos – 162; Educação – 163; As Diferenças Inatas de Natureza – 164; Aperfeiçoamento do Caráter – 165; Artes, Ciências e Ofícios – 166; Tratamento aos Criminosos – 166; Influência da Imprensa – 168.

10 O CAMINHO DA PAZ

169

Conflito versus Concórdia – 169; A Paz Suprema – 170; Precon- ceito Religioso – 171; Preconceitos de Raça e de Pátria – 173; Ambições Territoriais – 175; Idioma Universal – 176; Liga Universal das Nações – 179; O Arbitramento Internacional – 181; Limitação de Armamentos – 183; A Não-Resistência –

183; A Guerra Justificável – 185; Unidade do Oriente e Ocidente

– 187.

11VÁRIAS LEIS E ENSINAMENTOS

189

A Vida Monacal – 189; Casamento – 190; Divórcio – 192; O Calendário Bahá’í – 192; Assembléias Espirituais – 194; As Festas Bahá’ís, Aniversários e Dias de Jejum – 196; Festas – 197; Jejum –

198; Reuniões – 199; A Festa de Dezenove Dias – 201; Mashriqu’l-Adhkár – 201; A Vida após a Morte – 203; Céu e Inferno – 205; A Unidade dos Dois Mundos – 207; A Inexistência do Mal – 210.

12 A RELIGIÃO E A CIÊNCIA

213

Conflito Devido ao Erro – 213; Perseguição aos Profetas – 214;

A Aurora da Reconciliação – 216; Busca da Verdade – 217; O

Verdadeiro Agnosticismo – 218; O Conhecimento de Deus –

219; As Manifestações Divinas – 220; A Criação – 221; A Evolução do Homem – 223; Corpo e Alma – 225; A Unidade

do Gênero Humano – 226; A Era da Unidade – 227.

13PROFECIAS CUMPRIDAS PELA FÉ BAHÁÍ

229

Interpretação da Profecia – 229; A Vinda do Senhor – 230;

Profecias Referentes a Cristo – 231; Profecias sobre o Báb e Bahá’u’lláh – 232; A Glória de Deus – 234; O Ramo – 235; O Dia de Deus

– 237; O Dia do Juízo – 237; A Grande Ressurreição – 238; A

Volta de Cristo – 241; O Tempo do Fim – 243; Sinais no Céu e na

Terra – 245; A Maneira de Sua Vinda – 248.

14P ROFECIAS DE B AHÁULLÁH E ‘A BDUL-B AHÁ

252

O Poder Criador da Palavra de Deus – 252; Napoleão III –

255; Alemanha – 256; Pérsia – 257; Turquia – 258; América –

260; A Grande Guerra – 262; Distúrbios Sociais do Pós-Guerra

– 263; A Vinda do Reino de Deus – 267; ‘Akká e Haifa – 269.

15RETROSPECTO E PERSPECTIVA

271

O Progresso da Causa – 271; O Báb e Bahá’u’lláh como Profetas –

273; Uma Perspectiva Gloriosa – 274; A Renovação da Religião – 275; Necessidade de uma Nova Revelação – 276; A Verdade é para Todos – 276; A Última Vontade e Testamento de ‘Abdu’l-Bahá –

277; O Guardião da Causa de Deus – 280; As Mãos da Causa

de

Deus – 282; A Ordem Administrativa – 283; A Ordem Mundial

de

Bahá’u’lláh – 292.

Epílogo

301

Bibliografia

305

INTRODUÇÃO

Conheci os ensinamentos bahá’ís pela primeira vez em dezembro de 1914, conversando com amigos que haviam se encontrado com ‘Abdu’l-Bahá e que me emprestaram alguns folhetos. Logo fui atraído por seu alcance, beleza e poder. Tive a impressão de que preenchiam as grandes necessidades do mundo moderno mais plena e satisfatoriamente de que qualquer outro ensinamento religioso que eu já havia encontrado – impressão esta que estudos subseqüentes vieram a aprofundar e confirmar. Ao buscar conhecimentos mais completos sobre o Movimento, encontrei considerável dificuldade em obter a literatura que desejava, e cedo concebi a idéia de colocar num livro a essência daquilo que eu havia aprendido, a fim de facilitar seu acesso a outras pessoas. Quando a comunicação com a Palestina foi reaberta após a guerra, escrevi a ‘Abdu’l-Bahá e anexei uma cópia dos nove primeiros capítulos do livro, cujo esboço estava então quase terminado. Recebi uma resposta muito gentil e animadora, e um convite cordial para visitá-Lo em Haifa e comigo levar o manuscrito inteiro. O convite foi por mim aceito com prazer, e no inverno de 1919-1920 tive o grande privilégio de passar dois meses e meio como hóspede de ‘Abdu’l-Bahá. Em diversas ocasiões durante esta visita, ‘Abdu’l-Bahá conversou comigo sobre o livro, dando várias sugestões valiosas para aperfeiçoá-lo, e propôs que assim que eu tivesse revisado o manuscrito, este seria inteiramente traduzido para o persa a fim de que Ele pudesse ler na íntegra e alterar ou corrigir onde fosse necessário. A revisão e tradução foram feitas como sugerido, e ‘Abdu’l- Bahá encontrou tempo em meio a Seus inúmeros afazeres para corrigir cerca de três capítulos e meio (Capítulos 1, 2, 5, e parte do 3) antes

x

I NTRODUÇÃO

de Seu falecimento. É motivo de grande pesar para mim que ‘Abdu’l- Bahá não pode completar a correção do manuscrito, pois assim o valor do livro seria aumentado extraordinariamente. O manuscrito inteiro foi, entretanto, cuidado-samente revisado por um comitê da Assembléia Nacional Bahá’í da Inglaterra, que também aprovou a sua publicação. Sou muito grato pelo valioso apoio prestado pela srta. E. J. Rosenberg, sra. Claudia S. Coles, Mírzá Lutfu’lláh S. Hakím, sr. Roy Wilhelm e sr. Mountfort Mills, e por muitos outros amáveis amigos, na preparação deste trabalho. Quanto à transliteração dos nomes e palavras árabes e persas, o sistema adotado neste livro é o recomendado por Shoghi Effendi para aplicação em todo o mundo bahá’í.

Fairford, Cults,

by Aberdeen

J. E. Esslemont

BAHÁULLÁH

E A

NOVA ERA

Capítulo 1

AS BOAS-NOVAS

O Prometido de todos os povos do mundo já veio.

Todas as nações e comunidades aguardavam uma Revelação, e Ele, Bahá’u’lláh, é o proeminente Instrutor e Educador de toda a humanidade.

‘Abdu’l-Bahá

O Maior Acontecimento da História

Ao estudarmos o que registram as páginas da história acerca da “evolução do homem”, torna-se evidente que o fator principal nesse progresso é o advento, de tempos em tempos, de homens que ultrapassam as idéias aceitas em seu tempo, e tornam-se descobridores e reveladores de verdades até então desconhecidas entre o gênero humano. O inventor, o pioneiro, o gênio, o profeta – estes são os homens de quem depende primordialmente a transformação do mundo. Como diz Carlyle:

A verdade clara, muito clara, pensamos, é que

dotado de uma Sabedoria superior, de uma Verdade espiritual ainda não conhecida, é mais forte não apenas do que dez homens que não a possuem, nem do que dez mil, e sim, é mais forte do que todos os homens que não a têm; sobressai-

um homem

se

entre eles com um poder realmente etéreo e angélico, como

se

possuísse uma espada do próprio arsenal do céu, a que

nenhum escudo e nenhuma torre de bronze, afinal, resistirá.

Signs of the Times

2

BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

Na história da ciência, da arte, da música, vemos abundantes exemplos desta verdade, mas em domínio algum salienta-se mais nitidamente a suma importância do grande homem e de sua mensagem que na história da religião. Através de todos os tempos, sempre que a vida espiritual do homem degenera e a corrupção moral predomina, aparece Aquele mais admirável e misterioso dos homens, o Profeta. Só, contra o mundo, sem pessoa alguma que O possa ensinar ou guiar, ou até compreender perfeitamente, ou participar de Sua responsabilidade, Ele surge entre os homens como um vidente entre cegos, proclamando Seu evangelho de verdade e retidão. Entre os Profetas, alguns se sobressaem com uma proeminência especial. De tempos em tempos, um grande Revelador Divino – um Krishna, um Zoroastro, um Moisés, um Jesus, um Muhammad – surge no Oriente como um Sol espiritual para iluminar as mentes obscurecidas dos homens e despertar suas almas adormecidas. Seja qual for nossa opinião sobre a grandeza relativa desses Fundadores de religião, devemos admitir serem Eles os fatores mais potentes da educação humana. Esses profetas são unânimes em declarar que as palavras por Eles proferidas não são Suas, mas que constituem, sim, uma Revelação por Seu intermédio, uma Mensagem Divina da qual são apenas os Portadores. Em Seus discursos encontram-se também inúmeras promessas e referências a um grande Educador Mundial destinado a aparecer na “plenitude dos tempos”, Aquele que há de continuar a levar à fruição a tarefa por Eles começada, estabelecendo um reino de paz e justiça na Terra e unindo em uma só família todas as raças, religiões, nações e tribos, “para que haja somente um rebanho e um Pastor”, e todos, “do menor ao maior”, possam conhecer e amar a Deus. A vinda desse “Educador da Humanidade”, no fim da era, deve certamente ser o maior acontecimento da história. E a Fé Bahá’í proclama ao mundo as boas-novas de que esse Educador, de fato, já veio, e que Sua Revelação foi transmitida e escrita, podendo assim ser estudada por qualquer pesquisador sincero, que o “Dia do

AS BOAS NOVAS

3

Senhor” já alvoreceu e o “Sol da Justiça” tornou-se visível. Até agora apenas alguns, nos cumes das montanhas, avistaram o Orbe glorioso, mas seus raios já estão iluminando o céu e a terra e, em breve, Ele há de aparecer acima das montanhas, brilhando em todo seu esplendor sobre as planícies e os vales, dando vida e guiando a todos.

O Mundo em Transformação

É evidente a todos que o mundo, no século dezenove e na primeira parte do século vinte, passou pelos tormentos da morte de uma velha era e pelas dores do nascimento de uma nova. Os velhos princípios do materialismo e egoísmo, os velhos preconceitos e animosidades de seita e pátria estão perecendo, desacreditados, entre as ruínas por eles causadas, e em todos os cantos do globo vemos sinais de um novo espírito de fé, de fraternidade, de internacionalismo, que está rompendo os velhos grilhões e ultrapassando as fronteiras antigas. Transformações revolucionárias, sem precedentes em sua extensão, têm ocorrido em todos os setores da vida humana. A velha era não morreu ainda. Empenha-se num duelo de morte com a nova. Males há em quantidade, gigantescos e terríveis, mas estão sendo expostos, investigados, desafiados e combatidos com novo vigor e nova esperança. Nuvens há em abundância, grandes e ameaçadoras, mas já a luz as rompe, iluminando a estrada do progresso e revelando os obstáculos e armadilhas que obstruem o caminho à frente. No século dezoito era diferente. Quase nenhum raio de luz diminuía a treva espiritual e moral que amortalhava o mundo. Era como a hora mais escura que precede a alvorada, quando as escassas lâmpadas e velas ainda acesas pouco fazem além de tornar visível a escuridão. Carlyle, em sua obra Frederick the Great, assim fala do século dezoito:

Um século que não tem história, e pouca ou nenhuma pode

como

ter. Um século tão opulento em falsidades acumuladas

4

BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

nenhum outro anterior! Tão falso se tornara que já não tinha

consciência de o ser; tão saturado e impregnado de falsidade até os ossos que, de fato, atingira o ponto culminante e uma

Revolução Francesa teve de lhe pôr termo

bem apropriada, penso eu com gratidão, para um século como esse. Pois havia, mais uma vez, necessidade de uma Revelação Divina aos inertes e frívolos seres humanos para que se não baixassem completamente à condição do símio.

Frederick the Great, Livro 1, Capítulo I.

Conclusão esta

A época atual, em comparação com o século dezoito, é a aurora após a noite tenebrosa, ou a primavera que segue o inverno. O mundo sente o impulso de uma vida nova e vibra de novas esperanças e novas idéias. O que há poucos anos parecia um sonho irrealizável é agora um fato. O que parecia ser para um futuro muito distante já faz parte da “vida prática”. Voamos nos ares e fazemos viagens submarinas. Enviamos mensagens ao redor do mundo com a rapidez do relâmpago. Em poucas décadas temos visto milagres numerosos demais para serem mencionados.

O Sol da Retidão

Qual a causa desse súbito despertar no mundo inteiro? Os bahá’ís acreditam que seja em conseqüência de uma grande efusão do Espírito Santo por intermédio do Profeta Bahá’u’lláh, nascido na Pérsia em 1817 e falecido na Terra Santa em 1892. Bahá’u’lláh ensina que o Profeta, ou “Manifestante de Deus”, é o Portador de Luz ao mundo espiritual, assim como o Sol é o portador de luz ao mundo natural. Do mesmo modo que o Sol material brilha sobre a Terra, fazendo crescer e desenvolver os organismos materiais, também o Sol da Verdade, através do Manifestante Divino, brilha sobre o mundo da alma e do coração, educando os pensamentos, a moral e o caráter dos homens. E assim como os raios do Sol material têm uma influência que penetra nos

AS BOAS NOVAS

5

mais escuros e sombrios recantos do mundo, dando calor e vida até

a seres que nunca viram o próprio Sol, assim também a emanação

do Espírito Santo, através do Manifestante de Deus, exerce uma

influência sobre a vida de todos, inspirando as mentes receptivas até em lugares e entre povos que desconhecem em absoluto o nome

do Profeta. O advento do Manifestante é como a vinda da primavera.

É um dia de Ressurreição em que os espiritualmente mortos

adquirem uma vida nova, a realidade das religiões divinas é renovada

e restabelecida – dia em que aparecem “novos céus e uma nova terra”.

No mundo da natureza, entretanto, a primavera causa não só

o crescimento e o despertar de uma vida nova como também a

destruição e remoção da velha e gasta; pois o mesmo Sol que faz

brotarem as árvores e abrirem as flores causa também a decomposição das coisas mortas e inúteis, dissolve o gelo e a neve do inverno, e liberta as inundações e tempestades que limpam e purificam a Terra.

O mesmo sucede no mundo espiritual. O brilho do sol espiritual

causa idêntica agitação e mudança. Assim, pois, o Dia da Ressurreição

é também o Dia do Juízo, dia em que as corrupções e imitações da

verdade, as idéias antiquadas e os costumes obsoletos são descartados

e destruídos, em que o gelo e a neve do preconceito e da superstição, que se acumularam durante o inverno, são dissolvidos e transformados, e energias há muito tempo congeladas e presas são libertas para inundar e ressuscitar o mundo.

A Missão de Bahá’u’lláh

Clara e repetidamente declarou Bahá’u’lláh ser Ele o

Educador e Instrutor de todos os povos, há muito tempo esperado,

o intermediário de uma emanação de Graça maravilhosa que haveria

de transcender todas as emanações anteriores, na qual todas as antigas

formas de religião se uniriam, semelhantes aos rios que se incorporam

ao oceano. Lançou Ele um alicerce que forma uma base firme para a

unidade no mundo inteiro e para a inauguração daquela era gloriosa

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

de paz na terra e boa vontade entre os homens, predita pelos profetas

e celebrada pelos poetas. Busca da verdade, unidade do gênero humano, unificação

das religiões, raças e nações, união do Oriente e do Ocidente, reconciliação entre a religião e a ciência, eliminação dos preconceitos e das superstições, igualdade entre o homem e a mulher, estabelecimento da justiça e retidão, criação de um supremo tribunal internacional, unificação dos idiomas, educação compulsória – estes

e muitos outros ensinamentos similares, a pena de Bahá’u’lláh revelou durante a última metade do século dezenove, em inúmeros livros e

epístolas, das quais diversas foram dirigidas aos reis e governantes do mundo. Sua mensagem, de incomparável clareza e alcance, mostra uma harmonia extraordinária com os sinais dos nossos tempos e com nossas necessidades. Jamais foram os novos problemas com os quais o homem se defronta tão gigantescos e complexos como agora.

E em nenhum tempo as soluções propostas foram tão numerosas e

tão contraditórias. Nunca se sentiu tão extensa e urgentemente a necessidade de um grande Instrutor mundial. E nunca, talvez, esperou-se tão confiante e universalmente pela vinda deste Instrutor.

Cumprimento das Profecias

Escreve ‘Abdu’l-Bahá:

Quando Cristo apareceu, há vinte séculos, embora tivessem os judeus esperado com ansiedade Sua vinda e rezado todos os dias com lágrimas nos olhos: “Ó Deus, apressa a Revelação do Messias”, ao alvorecer o Sol da Verdade, porém, eles O negaram, levantaram-se contra Ele com a maior inimizade, e afinal, crucificaram Aquele Espírito Divino, o Verbo de Deus, e O denominaram Belzebu, o malfeitor – assim como nos diz o Evangelho. O motivo disso, disseram, era que “A Revelação de Cristo, segundo o claro texto do Torá, será atestada por certos sinais e, enquanto estes não aparecerem,

AS BOAS NOVAS

7

quem pretender ser o Messias será apenas um impostor. Entre esses sinais figura o seguinte: O Messias há de vir de um lugar desconhecido, mas todos nós conhecemos a casa deste homem em Nazaré, e pode alguma coisa boa vir de Nazaré?

O segundo sinal é que Ele governará com bastão de ferro,

isto é, deverá agir com a espada, mas este Messias nem sequer tem um báculo de madeira. Outra condição é que se sentará no trono de Davi e estabelecerá a soberania de Davi. Ora, longe de ser entronizado, este homem nem possui uma esteira sobre que se sentar. A promoção de todas as leis do Torá é outro sinal; entretanto, este homem anulou essas leis, nem guardou o sábado, embora diga claramente o texto do Torá que qualquer um que se diga Profeta, realize milagres mas não guarde o sábado, deve ser morto. Outro sinal é este:

durante Seu reinado, a justiça será tão adiantada que a retidão

e as boas ações atingirão até o reino animal – a serpente e o rato ocuparão o mesmo abrigo, a águia e a perdiz o mesmo

ninho, o leão e a gazela habitarão o mesmo pasto, e o lobo e

o

carneiro beberão da mesma fonte. Agora, porém, a injustiça

e

a tirania chegaram a tal ponto que O crucificaram! Outra

condição é que, nos dias do Messias, os judeus haverão de prosperar e triunfar sobre todos os povos do mundo, mas estão agora vivendo na maior humilhação, escravizados, no Império dos Romanos. Como pois, poderá este ser o Messias prometido no Torá? Assim fizeram objeção àquele Sol da Verdade, apesar do fato de ser esse Espírito de Deus realmente o Prometido do Torá. Por não haverem, entretanto, compreendido a significação desses sinais, crucificaram o Verbo de Deus.

Agora os bahá’ís sustentam que todos esses sinais apareceram

na

Manifestação de Cristo, embora não no sentido em que

os

judeus os entenderam, sendo alegórica a descrição no Torá.

Entre os sinais figura, por exemplo, o da soberania. Dizem

os bahá’ís que a soberania de Cristo era celestial, divina,

eterna, e não uma soberania como a de Napoleão, a qual se desvanece em pouco tempo. Há quase dois mil anos

8

BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

estabeleceu-se essa soberania de Cristo, até agora ela permanece e, por toda a eternidade, esse Ser Divino será enaltecido sobre um Trono imperecível. De igual modo, manifestaram-se todos os outros sinais, mas os judeus não os compreenderam. Embora quase vinte séculos hajam passado desde o aparecimento de Cristo em esplendor divino, no entanto, os judeus ainda esperam a vinda do Messias, achando que têm razão e que Cristo era falso.

Escrito por ‘Abdu’l-Bahá para este capítulo.

Tivessem os judeus se dirigido a Cristo, Ele lhes teria explicado

o

verdadeiro sentido das profecias a Seu respeito. Aproveitemos nós

o

seu exemplo e, antes de decidirmos que as profecias relativas à

Manifestação do Instrutor dos Últimos Dias não tenham sido cumpridas, vejamos o que o próprio Bahá’u’lláh escreve sobre a interpretação delas, pois devemos admitir serem muitas das profecias

expressões “lacradas”, e o Verdadeiro Educador é o Único que pode quebrar o selo e mostrar o verdadeiro sentido encerrado nas palavras. Muito escreveu Bahá’u’lláh explicando as profecias da Antigüidade, porém não as apresenta como prova de ser Ele Profeta.

O sol é sua própria prova para todos aqueles dotados do poder da

percepção. Quando nasce, não necessitamos de predições antigas para convencermo-nos de seu brilho. É assim quando aparece o Manifestante de Deus. Se todas as profecias antigas caíssem em esquecimento, continuaria Ele a ser Sua própria prova, plena e concludente, para todos aqueles cujos sentidos espirituais estivessem aguçados.

Provas de Autenticidade

A ninguém Bahá’u’lláh pediu para aceitar cegamente Suas asserções e sinais. Ao contrário, antes de tudo, nos Seus ensinamentos

fez enfáticas advertências contra a cega sujeição à autoridade e exortou

a todos que abrissem seus olhos e ouvidos e fizessem uso do próprio

AS BOAS NOVAS

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juízo, independente e destemidamente, a fim de certificarem-se da verdade. Aconselhou Ele a mais completa investigação, jamais Se ocultando, e apresentou, como provas supremas de Sua condição de Profeta, Suas palavras e ações, e os efeitos destas na transformação do caráter e da vida do homem. As mesmas provas foram estabelecidas pelos Seus grandes predecessores. Disse Moisés:

Quando o tal profeta falar em nome do Senhor, e tal palavra se não cumprir, nem suceder assim, esta é palavra que o Senhor não falou: com soberba a falou o tal profeta: não tenhas temor dele.

Deuteronômio, 18:22.

Cristo estabeleceu Sua prova com igual clareza, usando-a em apoio a Sua própria pretensão. Disse Ele:

Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos

devoradores. Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má

Portanto, pelos seus frutos os

produz frutos maus conhecereis.

Mateus, 7:15-20.

Nos capítulos seguintes tentaremos mostrar, pela aplicação destas provas, se é justificável ou não a pretensão de Bahá’u’lláh de ser Profeta; se o que Ele disse de fato aconteceu, e se os Seus frutos foram bons ou maus; em outras palavras, se estão sendo cumpridas Suas profecias e estabelecidos Seus ensinamentos, e se o trabalho de Sua vida contribuiu para a educação e o adiantamento da humanidade e a elevação da moral, ou se aconteceu o contrário.

10

BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

Dificuldades na Investigação

Há, naturalmente, dificuldades no caminho daquele que busca

a

verdade a respeito desta Fé. Como todas as grandes reformas morais

e

espirituais, a Fé Bahá’í tem sido muito mal interpretada. Sobre as

terríveis perseguições e sofrimentos por que passaram Bahá’u’lláh e

Seus discípulos, amigos e inimigos estão em perfeito acordo. Sobre

o valor do Movimento, entretanto, e o caráter de seus Fundadores,

as afirmações dos que crêem e dos que negam são inteiramente contraditórias. É justamente como no tempo de Cristo. Quanto à crucificação de Jesus e às perseguições e martírio de Seus adeptos, historiadores cristãos e judeus estão de acordo, mas enquanto aqueles que acreditam em Cristo dizem haver Ele cumprido e desenvolvido os ensinamentos de Moisés e dos outros profetas, os que negam declaram que Ele infringiu as leis e mandamentos, sendo por isto digno de morte. Na religião, como na ciência, a verdade revela os seus mistérios somente ao humilde e reverente pesquisador que estiver pronto a pôr de lado qualquer preconceito ou superstição – a vender tudo o que possui a fim de poder comprar “a pérola de grande preço”. Para que compreendamos a Fé Bahá’í em sua plena significação, devemos

iniciar seu estudo em espírito de sinceridade e desinteressada devoção à verdade, perseverando no caminho da busca e dependendo da orientação divina. Nos Escritos de seus Fundadores poderemos encontrar a chave-mestra que nos abrirá os mistérios desse grande despertar de espírito, e o critério final de seu valor. Infelizmente, também aqui há dificuldades no caminho do pesquisador que não conheça o persa nem o árabe, pois são estes os idiomas em que se encontram os ensinamentos. Apenas uma pequena parte foi traduzida para o inglês, e grande parte dessas traduções muito deixa

a desejar, não só em exatidão como em estilo. A despeito, porém, da

imperfeição e da insuficiência das narrativas históricas e traduções, as grandes verdades essenciais que constituem as bases maciças e

AS BOAS NOVAS

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firmes desta Fé sobressaem-se como montanhas entre as névoas da incerteza*.

O Propósito do Livro

Nossa intenção, nos capítulos que seguem, será mostrarmos, tanto quanto possível, imparcialmente e sem preconceito, os fatos notáveis da história e, mais especialmente, dos ensinamentos da Fé

Bahá’í, de maneira a tornar possível aos leitores a formação de um juízo inteligente quanto à sua importância e, talvez, induzi-los a investigar mais profundamente este assunto por si próprios.

A busca da verdade, entretanto, por importante que seja, não

é tudo a que se deva dedicar a vida. A verdade não é uma coisa

morta que, quando encontrada, deva ser posta num museu – rotulada, classificada, aí exibida e deixada, seca e estéril. É algo vital, que deve criar raízes no coração do homem e dar frutos em sua vida, para que ele possa atingir a plena recompensa de sua busca.

O verdadeiro objetivo, pois, de disseminar-se o conhecimento

de uma Revelação profética, é que os que se tornam convictos da sua verdade venham a praticar seus princípios, a “viver a vida” e difundir as boas-novas, apressando desse modo o advento do dia abençoado em que a Vontade de Deus seja feita assim na terra como no Céu.

*Existem agora as incomparáveis traduções feitas por Shoghi Effendi dos Escritos de Bahá’u’lláh e de ‘Abdu’l-Bahá, do persa e do árabe. Estas, juntamente com seus consideráveis escritos próprios que tratam da história da Fé, das exposições e implicações de suas verdades fundamentais e do desenvolvimento de sua Ordem Administrativa, tornam a tarefa do pesquisador infinitamente mais fácil nos tempos atuais do que no tempo do dr. Esslemont.

Capítulo 2

O BÁB: O PRECURSOR

O Opressor* sujeitou à morte o Bem-Amado dos mundos para extinguir a luz de Deus entre o povo e para privá-lo do manancial da vida eterna nos dias de teu Senhor, o Benévolo, o Mais Generoso.

Bahá’u’lláh. O Chamado do Senhor das Hostes, pp. 119-20.

O Berço da Nova Revelação

A Pérsia, berço da Revelação Bahá’í, já ocupou um lugar sem igual na história do mundo. Nos dias da sua primitiva grandeza era uma verdadeira rainha entre as nações, não rivalizada em civilização, em poder ou esplendor. Deu ao mundo grandes reis e estadistas, profetas e poetas, artistas e filósofos. Zoroastro, Ciro e Dario, Háfis e Firdawsí, Sa’dí e Omar Khayyám são apenas uma pequena parcela de seus inúmeros filhos ilustres. Era insuperável a habilidade dos seus artífices; seus tapetes eram inigualáveis, suas cutelarias inimitáveis, sua cerâmica de fama mundial. Em toda parte do Oriente Próximo e Médio deixou traços de sua grandeza antiga. Não obstante, nos séculos dezoito e dezenove achava-se num estado de deplorável degradação. Sua antiga glória parecia irremediavelmente perdida. Seu governo tornara-se corrupto e suas condições financeiras eram extremamente críticas; alguns de seus governantes eram incapazes, outros de uma crueldade monstruosa. Seu clero era intolerante e seu povo ignorante e supersticioso. A maioria pertencia a uma seita muçulmana, denominada xiita, mas existia também um número considerável de zoroastrianos, judeus e

*Xá Muhammad. †Hoje: Irã. Uma das duas grandes facções – xiita e sunita – nas quais o Islã foi subdividido pouco

O BÁB: O PRECURSOR

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cristãos, de seitas diversas e antagônicas. Todos se diziam adeptos de sublimes instrutores que os exortavam a adorar a um Deus único e a viver em amor e união, mas, não obstante, evitavam-se uns aos outros mostrando ódio e escárnio, e cada seita julgando as demais como impuras, como cães ou pagãos. Havia amaldiçoamento e execração em grau assustador. Era perigoso um judeu ou um zoroastriano andar nas ruas num dia chuvoso, pois se a sua roupa molhada tocasse um muçulmano, este se considerava poluído e o outro talvez pagasse com a vida a ofensa cometida. Quando um muçulmano recebia pagamento de um judeu, zoroastriano ou cristão, antes de pôr o dinheiro no bolso tinha que lavá-lo. Se um judeu via um filho dar um copo d’água a um pobre mendigo muçulmano, arremessava-lhe o copo das mãos, pois a maldição e não a bondade

era o quinhão do infiel! Os próprios muçulmanos estavam divididos em várias seitas entre as quais ocorriam freqüentemente lutas amargas

e violentas. Os zoroastrianos participavam menos dessas

recriminações mútuas, preferindo viver em comunidades separadas, sem nenhum contato com seus compatriotas de outros credos. As condições sociais, tanto quanto as religiosas, haviam chegado a um estado de desesperada decadência. A educação era negligenciada; as ciências e artes ocidentais eram consideradas contrárias à religião. A justiça era uma farsa. As estradas nenhuma

segurança ofereciam aos viajantes; prevaleciam a pilhagem e o roubo.

A falta de saneamento era lamentável. Apesar de tudo isso, porém, a luz da vida espiritual não estava

extinta na Pérsia. Aqui e ali, em meio ao mundanismo e à superstição prevalecentes, ainda podiam-se encontrar algumas almas santas, e muitos corações nutriam o ardente desejo de conhecer a Deus, semelhantes aos corações de Ana e Simeão antes do aparecimento

de Jesus. Muitos esperavam ansiosamente um prometido Mensageiro

de Deus, confiantes de que o Seu advento estava próximo. Tal era o estado de coisas na Pérsia quando o Báb, Arauto de uma nova era, despertou a atenção de todo o país com a Sua Mensagem.

depois da morte de Muhammad. Os xiitas sustentam que ‘Alí, o genro de Muhammad, foi o primeiro legítimo sucessor do Profeta, e que somente seus descendentes são os califas verdadeiros.

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

Infância e Juventude

Mírzá ‘Alí Muhammad, que depois assumiu o título de Báb (isto é, Porta) nasceu em Shíráz, no sul da Pérsia, em 20 de outubro de 1819 (primeiro dia de Muharram, 1235 d.h.). Era um Siyyid, isto é, um descendente do Profeta Muhammad. Seu pai, um conhecido negociante, morreu pouco depois de Seu nascimento, ficando Ele aos cuidados de um tio materno, comerciante em Shíráz, que O criou. O Báb aprendeu a ler na infância, recebendo a educação elementar usual.* Aos quinze anos entrou no comércio, primeiro com Seu tutor, depois com outro tio que morava em Búshihr, nas costas do Golfo Pérsico. Quando jovem, distinguia-Se pela grande formosura pessoal e o encanto de Suas maneiras, como também por Sua piedade excepcional e nobreza de caráter. Era infalível na observância das orações, jejum e outros ritos da religião muçulmana, e não somente obedecia ao pé da letra, como vivia o espírito dos ensinamentos do Profeta. Casou-Se com cerca de vinte e dois anos de idade. O filho nascido deste casamento morreu quando ainda criança, no primeiro ano do ministério do Báb.

*Sobre este ponto observa um historiador: “A crença de muitas pessoas no Oriente,

entre os adeptos do Báb (agora bahá’ís) especialmente, é que o Báb não recebeu instrução alguma, mas que os mullás, a fim de rebaixá-Lo aos olhos do povo, diziam que sabedoria tão profunda e tão grandes conhecimentos como os possuídos por Ele

só poderiam ser atribuídos à instrução que recebera. Depois de profundas pesquisas

sobre a veracidade deste assunto, encontramos evidências que demonstram que

durante Sua infância Ele freqüentou por um curto período de tempo a casa do Shaykh Muhammad (também conhecido por ‘Ábid), onde aprendeu a ler e escrever

o persa. Foi a isto que o Báb referiu-Se quando escreveu no livro de Bayán: Ó

Muhammad! Ó Meu professor”! “Mas o que é interessante notar é que este Shaykh, Seu professor, tornou-se um dedicado discípulo do próprio aluno, e o tio do Báb, Hájí Siyyid ‘Alí, também veio

a ser adepto sincero, sendo martirizado por ser bábí”. A compreensão destes mistérios é dada àqueles que buscam a verdade, mas sabemos que a educação recebida pelo Báb foi apenas elementar e que qualquer sinal extraordinário de grandeza e conhecimento por Ele manifestado era inato e procedente de Deus”.

O BÁB: O PRECURSOR

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Declaração

Ao atingir Seu vigésimo quinto ano de idade, atendendo ao mandamento divino, Ele declarou que “Deus, o Excelso, O escolhera para a missão de ser o Báb”. No livro Narrativa de um Viajante, p. 4, lemos:

Entretanto, o que pretendeu pelo termo Báb foi que Ele era o canal de graça de um grande Ser ainda atrás do véu da Glória – Aquele que era o possuidor de incontáveis e ilimitadas perfeições – através da vontade de Quem, Ele movia-Se, e pelo vínculo do amor de Quem, Ele apegava-Se.

A crença na iminente aparição de um Mensageiro Divino prevalecia naqueles dias, principalmente entre uma seita conhecida como os shaykhís, e foi a um distinto membro desta seita, chamado Mullá Husayn Bushrú’í, que o Báb primeiro declarou Sua missão. A data exata desta declaração, segundo o Bayán, uma das obras do Báb, foi a véspera do quinto dia do mês de Jamádíyu’l-Avval 1260 d.h.*, isto é, 23 de maio de 1844 d.C., duas horas e onze minutos depois do pôr do sol. ‘Abdu’l-Bahá nasceu durante a mesma noite, não se tendo verificado, porém, a hora exata. Após alguns dias de ansiosa investigação e estudo, Mullá Husayn tornou-se firmemente convencido de que o Mensageiro de há muito esperado pelos xiitas aparecera de fato. Seu ardente entusiasmo por esta descoberta cedo foi partilhado por vários de seus amigos. Dentro de pouco tempo a maioria dos shaykhís aceitou o Báb, tornando-se conhecidos por bábís; e logo a fama do jovem Profeta começou a alastrar-se rapidamente por todo o país.

A Disseminação do Movimento Bábí

Os dezoito primeiros discípulos do Báb foram denominados “Letras do Vivente”, sendo Ele próprio a décima nona. Estes

*d.h. – depois da hégira (isto é, a fuga de Muhammad de Meca a Medina em 622 d.C.).

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

discípulos Ele os enviou as diferentes partes da Pérsia e do Turquestão para anunciarem o Seu advento, enquanto Ele próprio empreendeu uma peregrinação à Meca, lá chegando em dezembro de 1844 e declarando abertamente a Sua missão. Ao regressar a Búshihr, causou grande agitação por haver-Se proclamado o Báb. O fogo de Sua eloqüência, o prodígio de Seus escritos rápidos e inspirados, Sua extraordinária sabedoria e conhecimento, Sua coragem e Seu zelo de reformador despertaram entre Seus discípulos o maior entusiasmo, excitando porém, um grau correspondente de alarme e inimizade entre os ortodoxos muçulmanos. Os doutores xiitas denunciaram-No com veemência e persuadiram o governador de Fárs, chamado Husayn Khán, um tirano fanático, a empreender a supressão da nova heresia. Começou então para o Báb uma longa série de encarceramentos, deportações, interrogatórios diante de tribunais, açoites e indignidades, que só terminaram com Seu martírio em 1850.

Outras Declarações do Báb

A hostilidade que Ele provocara com a declaração de ser o Báb, redobrou quando o jovem Reformador procedeu em seguida à proclamação de ser Ele próprio o Mihdí (Mahdi), cuja vinda Muhammad predissera. Os xiitas identificaram esse Mihdí como o décimo segundo imame*, que segundo suas crenças desaparecera misteriosamente de entre os homens havia cerca de mil anos. Acreditavam que ele ainda estivesse vivo e devesse reaparecer no mesmo corpo, e interpretaram em seu sentido material as profecias relativas ao seu domínio, à sua glória, às suas conquistas, e aos “sinais” de seu advento, justamente como fizeram os judeus no tempo de Cristo com referência às profecias similares sobre o Messias. Esperavam que ele aparecesse com uma soberania terrestre e um exército numeroso, e que declarasse sua revelação fazendo ressuscitar os mortos, etc. Por não haverem aparecido esses sinais, os xiitas rejeitaram o Báb com o mesmo escárnio feroz que os judeus

*O imame dos xiitas é o divinamente ordenado sucessor do Profeta, a quem devemtodos os fiéis obedecer. Onze pessoas, sucessivamente, ocuparam o lugar de Imame, tendo o primeiro sido ‘Alí, o primo e genro do Profeta. A maioria dos xiitas afirma

O BÁB: O PRECURSOR

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mostraram para com Jesus. Os bábís, por outro lado, interpretaram figurativamente muitas das profecias. Consideravam a soberania do Prometido como aquela do Galileu – “Homem das Tristezas” – uma

soberania mística; como espiritual a Sua glória, e não terrena; Suas conquistas como sendo sobre as cidades dos corações dos homens; e encontraram provas abundantes da declaração do Báb em Sua vida

e ensinamentos maravilhosos, em Sua fé inabalável, Sua convicção

invencível, e em Seu poder de ressuscitar espiritualmente aqueles

que estavam nas sepulturas do erro e da ignorância. O Báb, entretanto, não Se limitou ao título de Mihdí. Ele adotou o título sagrado de “Nuqtiyiúlá” ou “Ponto Primordial”. Este fora o título aplicado ao próprio Muhammad pelos Seus discípulos. Mesmo os imames eram de importância secundária em relação ao “Ponto”, de Quem recebiam sua inspiração e autoridade. Ao assumir este título, o Báb, semelhantemente a Muhammad, entrou na série dos grandes Fundadores de Religião e por isso foi considerado pelos xiitas um impostor, do mesmo modo que acontecera com Seus predecessores, Moisés e Jesus. Ele inaugurou até um novo calendário, restaurando o ano solar e indicando o ano de Sua própria Declaração como início da Nova Era.

Aumentam as Perseguições

Em conseqüência destas declarações do Báb e da alarmante rapidez com que pessoas de todas as classes, ricas e pobres, doutas e ignorantes, aceitavam entusiasticamente Seus ensinamentos, as tentativas de supressão tornavam-se cada vez mais impiedosas e resolutas. Lares eram pilhados e destruídos. Mulheres agarradas e levadas embora. Em Teerã, Fárs, Mázindarán e outros lugares executaram grande número de adeptos. Muitos eram decapitados, enforcados, arremessados das bocas de canhões, queimados ou retalhados. A despeito de todas estas tentativas de repressão, porém,

o Movimento progredia, ou melhor, através desta mesma opressão, a firmeza dos adeptos aumentava, pois em tudo isto viram o

que o décimo-segundo Imame, por eles denominado o Imame Mihdí, enquanto ainda criança, desapareceu numa passagem subterrânea em 329 d.h., e que no devido tempo aparecerá, vencerá os infiéis e inaugurará uma era de felicidade.

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

cumprimento literal de muitas profecias a respeito da vinda do Mihdí. Assim, numa tradição mencionada por Jábir, tida pelos xiitas como autêntica, lemos:

Ele encerrará a perfeição de Moisés, a preciosidade de Jesus, e a paciência de Jó; em seu tempo, seus santos serão humilhados e suas cabeças serão trocadas como presentes, como o foram as dos turcos e dos deylamitas; eles serão mortos e queimados; e haverá medo, temor e consternação; a terra será tinta pelo seu sangue e suas mulheres cairão em prantos; são estes, de fato, meus santos.

New History of the Báb, traduzida pelo professor E. G. Browne, p. 132.

Martírio do Báb

Em 9 de julho de 1850*, o próprio Báb, que contava então trinta e um anos de idade, caiu vítima da fúria fanática dos Seus perseguidores. Com um jovem e devotado discípulo, de nome Áqá Muhammad ‘Alí, que havia pedido insistentemente que lhe fosse permitido compartilhar do Seu martírio, foi o Báb conduzido ao cadafalso do velho largo do quartel de Tabríz. Aproximadamente às dez horas da manhã, foram amarrados por baixo dos braços e dependurados de tal modo que a cabeça de Muhammad ‘Alí repousava no peito do seu querido Mestre. Um regimento de soldados armênios foi formado e recebeu ordem de fogo. Os estampidos logo se fizeram ouvir, mas quando a fumaça se dissipou, constatou-se que o Báb e Seu companheiro estavam ainda vivos. As balas haviam apenas decepado as cordas pelas quais estavam suspensos, de modo que haviam caído ao chão, ilesos. O Báb seguiu para um cômodo próximo, onde foi encontrado conversando com um de Seus amigos. Ao meio-dia, mais ou menos, foram outra vez suspensos. Os armênios, que haviam considerado o resultado dos seus disparos um milagre, recusaram-se a atirar novamente, de modo que um outro regimento de soldados teve que ser trazido ao cenário.

*Sexta-feira, 28 de Sha’bán, 1266 d.h.

O BÁB: O PRECURSOR

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Desta vez os tiros surtiram efeito. Os corpos de ambas as vítimas foram crivados de balas e horrivelmente mutilados; seus rostos, porém, permaneceram quase intactos. Com este ato vil, o largo do quartel de Tabríz tornou-se um segundo Calvário. Os inimigos do Báb vibraram com o triunfo culposo, pensando que a odiada árvore da Fé Bábí estivesse agora cortada pela raiz, e que sua destruição completa seria fácil! Pouco durou, porém, seu triunfo! Não compreenderam que jamais a Árvore da verdade poderia ser derrubada por um machado material. Mal poderiam imaginar que o próprio crime por eles perpetrado foi o meio de dar maior vigor à Causa. O martírio do Báb realizou Seu desejo há muito nutrido e inspirou em Seus adeptos um zelo mais intenso. Tal era o ardor de seu entusiasmo espiritual, que os mais amargos ventos da perseguição outro efeito não surtiram senão o de lhe aumentar a intensidade. Quanto mais se esforçavam por extingui- las, mais alto subiam as chamas.

Túmulo no Monte Carmelo

Após o martírio do Báb, Seus restos mortais, com os de Seu devotado companheiro, foram atirados à beira do fosso fora dos muros da cidade. Na noite seguinte alguns bábís conseguiram removê-los, à meia-noite e, depois de guardados durante muitos anos em depósitos secretos na Pérsia, foram finalmente levados com grande perigo e dificuldade para a Terra Santa. Lá estão agora enterrados, num túmulo lindamente situado no declive do Monte Carmelo, não distante da Caverna de Elias e apenas a poucas milhas do lugar onde Bahá’u’lláh passou os últimos anos de vida e onde jazem agora Seus restos mortais. Entre os milhares de peregrinos que de todas as partes do mundo vêm prestar homenagem no Túmulo Sagrado de Bahá’u’lláh, nenhum deixa de oferecer uma prece também no Santuário de Seu devotado Precursor, o Báb.

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

Escritos do Báb

Volumosos foram os Escritos do Báb, e a rapidez com que, sem estudo ou premeditação, Ele fez esmerados comentários, exposições profundas ou preces eloqüentes, era tida como uma das provas da Sua inspiração divina. Pode-se resumir do seguinte modo o conteúdo de Seus vários Escritos:

Alguns destes são comentários e interpretações dos versículos do Alcorão; outros são orações, sermões e alusões ao verdadeiro significado de certas passagens; enquanto outros são exortações, admonições, dissertações sobre os diversos ramos da doutrina da Unidade Divina, demonstrações da especial missão profética do Senhor das coisas existentes (Muhammad), e (conforme compreendemos) encorajamentos para o aperfeiçoamento do caráter, desprendimento dos estados mundanos e dependência das inspirações de Deus. Mas a essência e significado das Suas composições eram os elogios e descrição daquela Realidade que claramente foi Seu único objetivo e propósito, Seu Bem-Amado e Seu anelo*. Pois, Ele considerou Sua própria vinda como Aquele arauto das boas-novas, e considerou Sua verdadeira natureza como sendo meramente um meio para manifestar as maiores perfeições dAquele Ser. E realmente, Ele não cessava dia e noite de celebrá-Lo nem por um único instante, mas costumava dizer a todos os Seus seguidores que deveriam esperar Sua vinda. De tal maneira que Ele declara em Seus Escritos: Eu não sou senão uma letra desse poderosíssimo livro, uma gota de orvalho desse oceano ilimitado, e quando Ele aparecer, a Minha verdadeira natureza, os Meus mistérios e enigmas, se tornarão evidentes, e o embrião desta religião se desenvolverá através dos graus da sua existência e sua evolução, e atingirá a posição ‘da mais perfeita forma’, e se adornará com o manto do ‘Louvado seja Deus, Criador por

e tão inflamado estava o Báb com a chama de

excelência

*Bahá’u’lláh.

Alcorão, 95:4.

O BÁB: O PRECURSOR

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Bahá’u’lláh que a comemoração dEle era a vela luminosa de Suas noites escuras na fortaleza de Mákú, e a lembrança dEle era o melhor dos companheiros nas dificuldades da prisão de Chihríq. Por meio disso, o Báb obteve grande elevação espiritual. Com Seu vinho inebriava-Se e na lembrança dEle, o Báb regozijava-Se.

‘Abdu’l-Bahá. Narrativa de um Viajante, pp. 43-45.

Aquele que Deus Tornará Manifesto

Compara-se às vezes o Báb a João Batista, mas a Sua Missão não foi meramente a de arauto ou precursor. O Báb foi em Si um Manifestante de Deus, o Fundador de uma religião independente, embora limitada em tempo a um curto período de anos. Os bahá’ís acreditam que o Báb e Bahá’u’lláh foram Co-Fundadores da sua Fé, sendo as seguintes palavras de Bahá’u’lláh testemunho desta verdade:

“Que tão breve período tenha separado esta mais poderosa e admirável Revelação e Minha própria Manifestação anterior, é um segredo que nenhum homem pode desvendar e um mistério que mente alguma pode penetrar. Sua duração havia sido preordenada, e ninguém jamais descobrirá sua razão, a não ser que, e não antes de informar-se do conteúdo do Meu Livro Oculto.” Em Suas referências a Bahá’u’lláh, porém, o Báb mostrou uma humildade absoluta, declarando que, no dia de “Aquele que Deus tornará manifesto”:

Ouvir e recitar um único versículo dEle é melhor do que recitar mil vezes o Bayán [isto é, a Revelação do Báb].

O Báb citado por E. G. Browne em: A Traveller’s Narrative, p. 349.

Ele julgava-Se feliz em suportar qualquer aflição, se assim procedendo, pudesse, ainda que no mínimo grau, aplainar a senda para “Aquele que Deus tornará manifesto”, Aquele que era, dizia Ele, a fonte única da Sua inspiração e o objeto único do Seu amor.

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

Ressurreição, Paraíso e Inferno

Constituem uma parte importante dos ensinamentos do Báb

as Suas explicações dos termos ressurreição, juízo final, paraíso e inferno. Entende-se pelo termo ressurreição, diz Ele, o aparecimento de uma nova Manifestação do Sol da Verdade. A ressurreição dos mortos significa o despertar espiritual dos que dormem no túmulo da ignorância, negligência e luxúria. O Dia do Juízo Final é o Dia da nova Manifestação, quando as ovelhas pela aceitação ou rejeição

à Sua Revelação, serão separadas das cabras, pois as ovelhas conhecem

a voz do Bom Pastor e O seguem. Paraíso é a felicidade de conhecer

e amar a Deus, como revelado por Seu Manifestante, atingindo assim a mais alta perfeição de que o homem é capaz, e após a morte obtendo entrada no Reino de Deus e na vida eterna. Inferno é simplesmente a privação desse conhecimento de Deus, com o conseqüente insucesso em atingir a perfeição divina, e a perda do Favor Eterno. Ele declara definitivamente que estes termos não têm nenhuma outra verdadeira significação a não ser esta, e que as idéias prevalecentes sobre a ressurreição do corpo físico, um céu e um inferno materiais, e outras coisas semelhantes são meros produtos da imaginação. Ensina que há vida após a morte, e que o progresso no caminho para a perfeição é ilimitado.

Ensinamentos Sociais e Éticos

O Báb, em Seus Escritos, exorta Seus discípulos a distinguirem-se pela cortesia e pelo amor fraternal. Os ofícios e as artes úteis devem ser cultivados. A educação elementar deve ser geral. Nesta nova e maravilhosa Dispensação, agora em seu início, a mulher há de ter mais completa liberdade. O tesouro público terá que prover ao pobre os meios de subsistência, porém sendo estritamente proibida a mendicância, bem como o uso de bebidas alcoólicas.

O BÁB: O PRECURSOR

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O princípio orientador do verdadeiro bábí deve ser o amor puro, sem a esperança de recompensa ou o medo de punição. Assim diz Ele no Bayán:

Adora a Deus de tal modo, que se a recompensa da tua adoração a Ele fosse o fogo, nenhuma alteração sofreria a tua adoração. Adorar a Deus por medo é indigno do limiar da Sua santidade Assim também, se a tua contemplação estiver no Paraíso, e se tua adoração na esperança de alcançá-lo, fizeste da criação de Deus Sua co-participante.

Bábís of Persia II, por professor E. G. Browne, J.R.A.S., vol. XXI, p. 931.

Paixão e Triunfo

Estas palavras que acabamos de citar revelam o espírito que

animou a vida inteira do Báb. Conhecer e amar a Deus, espelhar Seus atributos e preparar o caminho para Sua próxima Manifestação

– estas foram a meta e o objeto único do Seu ser. Para Ele a vida não tinha terrores, nem a morte aguilhão, pois o amor expulsara o medo,

e o próprio martírio não era senão o enlevo de sacrificar Seu todo

aos pés do Seu Bem-Amado. Como é extraordinário que esta pura e bela Alma, este inspirado expositor da Verdade Divina, este fervoroso amante de Deus e de Seus semelhantes fosse tão odiado e finalmente morto pelos ditos religiosos de Sua época! Seguramente, nada, a não ser um preconceito irrefletido ou proposital, poderia cegar os homens ao fato de aqui haver, em verdade, um Profeta, um Santo Mensageiro de Deus. Grandeza e glória mundanas, Ele não as possuía, mas qual

a maneira de se dar provas de Poder e Domínio espirituais, a não ser

pela capacidade de dispensar qualquer auxílio material e triunfar sobre toda a oposição terrena, ainda mesmo a mais potente e virulenta? Como pode o Amor Divino ser demonstrado a um mundo descrente, senão pelo seu poder de resistir até o fim aos golpes da calamidade e aos dardos da aflição, ao ódio dos inimigos e à perfídia

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

dos falsos amigos, levantar-se sereno sobre todos eles e, sem consternação e ressentimento, ainda perdoar e abençoar? O Báb resistiu e o Báb triunfou. Milhares sacrificaram, em dedicação à Sua Causa, todas as possessões e a própria vida, como prova da sinceridade do seu amor por Ele. Bem poderiam os reis invejar Seu poder sobre o coração e a vida dos homens. E, além disso, “Aquele que Deus tornará manifesto” apareceu, confirmou as declarações de Seu Precursor e aceitou a Sua devoção, fazendo-O partícipe da Sua Glória.

Capítulo 3

BAHÁULLÁH: A GLÓRIA DE DEUS

Ó tu que esperas, não mais te demores, pois Ele já veio. Vê o Seu Tabernáculo e a Sua Glória nele encerrada. É a Glória Antiga com uma nova Manifestação.

Bahá’u’lláh

Nascimento e Infância

Mírzá Husayn ‘Alí, que depois adotou o título de Bahá’u’lláh (isto é, Glória de Deus), era o filho mais velho de Mírzá ‘Abbás de Núr, um vizir ou ministro de Estado. Sua família era rica e distinta, tendo muitos de seus membros ocupado cargos importantes no governo e nos serviços civil e militar da Pérsia. Ele nasceu em Teerã, capital da Pérsia, entre a alvorada e o nascer do sol no dia 12 de novembro de 1817*. Nunca freqüentou colégio ou escola, sendo- Lhe dada em casa a pouca instrução que recebeu. Não obstante, mesmo quando criança mostrou grande sabedoria e conhecimentos admiráveis. Quando Bahá’u’lláh ainda era moço, Seu pai morreu, deixando-O responsável pelos irmãos mais jovens e pela direção das extensas propriedades da família. Sobre os primeiros anos da vida de Bahá’u’lláh, Seu filho mais velho, ‘Abdu’l-Bahá, contou uma vez ao autor deste livro o seguinte:

Desde criança, era extremamente bondoso e generoso. Gostava muito da vida campestre e passava grande parte de Seu tempo

*2 de Muharram, 1233 d.h.

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

nos jardins ou nos campos. Ele tinha um extraordinário poder de atração, que por todos era percebido. Sempre havia muitos que se aglomeravam ao Seu redor. Ministros e pessoas da corte O rodeavam, e crianças tinham-Lhe grande afeição. Quando contava apenas treze ou quatorze anos de idade, tornou-Se célebre pelos Seus conhecimentos. Discorria sobre qualquer assunto e resolvia qualquer problema que Lhe era apresentado. Em grandes reuniões, Ele tratava de vários assuntos com os ulemás (os mullás mais eminentes) e explicava intrincadas questões religiosas. Todos O ouviam com o maior interesse. Quando contava vinte e dois anos de idade, Bahá’u’lláh perdeu o pai e, como era costume na Pérsia, o governo quis que ocupasse o cargo do Seu pai no Ministério. Bahá’u’lláh, entretanto, recusou. O Primeiro Ministro então disse: “Deixe- O. Tal posição não Lhe é digna. Ele tem em vista algum ideal mais elevado. Não O posso entender, mas estou convencido de que está destinado a alguma carreira elevada. Seus pensamentos não são iguais aos nossos. Deixe-O.”

Preso por Ser Bábí

Quando, em 1844, o Báb declarou Sua missão, Bahá’u’lláh, então em Seu vigésimo sétimo ano, abraçou intrepidamente a Causa da nova Fé, da qual cedo foi reconhecido como um dos mais poderosos e destemidos expositores. Já por duas vezes havia Ele sido preso por ser adepto da Causa e, em certa ocasião, sofrido a tortura da bastonada, quando, em agosto de 1852, houve um acontecimento de terríveis conseqüências para os bábís. Sádiq, um jovem adepto do Báb, ficara tão afetado pelo martírio do seu querido Mestre, de que fora testemunha ocular, que perdeu o uso da razão e, com intuito de vingar Sua morte, armou uma cilada para o xá e disparou uma pistola contra ele. Em vez de usar uma bala, porém, carregou a arma com pequenos grãos de chumbo, e embora tivessem alguns atingido o xá, nenhum

BAHÁULLÁH: A GLÓRIA DE DEUS

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ferimento grave houve. O jovem arrancou o xá do seu cavalo, mas foi imediatamente preso pelos guardas de Sua Majestade e assassinado no mesmo momento. Injustamente a responsabilidade desse ato foi atribuída ao inteiro grupo dos bábís e houve, em conseqüência, um horrível massacre. Oitenta foram mortos logo em Teerã com torturas as mais revoltantes, e muitos outros, inclusive Bahá’u’lláh, aprisionados. Tempos depois, Bahá’u’lláh escreveu:

Pela retidão de Deus! Nós não estávamos de modo algum ligados àquele ato perverso e Nossa inocência foi inequivocamente estabelecida pelos tribunais. Ainda assim,

eles Nos prenderam e de Níyávarán, que era então a resistência de Sua Majestade, conduziram-Nos a pé e acorrentados, com

a cabeça nua e os pés descalços, ao calabouço de Teerã. Um

homem brutal, acompanhando-Nos a cavalo, arrancou Nosso chapéu, enquanto éramos apressados por uma tropa de carrascos e oficiais. Fomos condenados a quatro meses em um lugar imundo além de qualquer comparação. Quanto ao calabouço no qual este Injustiçado e outros similarmente

injustiçados foram confinados, uma escura e estreita cova seria preferível. Após Nossa chegada fomos primeiro conduzidos ao longo de um corredor negro como breu, do qual descemos três íngremes lances de escadas até o local de confinamento a Nós designado. O calabouço estava envolto em densas trevas

e Nossos companheiros de prisão contavam cerca de cento e

cinqüenta almas: ladrões, assassinos e salteadores. Embora apinhado, não havia outra abertura senão a passagem pela qual entramos. Pena alguma pode descrever aquele local, língua alguma descrever seu cheiro terrível. Aqueles homens, em sua maioria, não tinham roupas nem lençóis sobre os quais deitar-se. Somente Deus sabe o que Nos aconteceu naquele lugar sumamente fétido e lúgubre! Dia e noite, enquanto confinado naquele calabouço, Nós meditamos sobre os atos, a condição e a conduta dos bábís,

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imaginando o que poderia Ter levado um povo de tão altos princípios, tão nobre e tal inteligência, a perpetrar ato tão audacioso e ultrajante contra a pessoa de Sua Majestade. Este Injustiçado, por isso, decidiu erguer-se após ser libertado da prisão e assumir, com o máximo vigor, a tarefa de regenerar este povo. Certa noite, em um sonho, estas excelsas palavras fizeram- se ouvir: “Em verdade, Nós Te faremos vitorioso por Ti mesmo e por Tua pena. Não Te lamentes por aquilo que Te sucedeu, nem tenhas medo, pois estás em segurança. Em breve Deus erguerá os tesouros da terra – homens que Te ajudarão por Ti mesmo e por Teu Nome, meio pelo qual Deus revivificou o coração daqueles que O reconheceram.”

Epístola ao Filho do Lobo, pp. 37-38.

Exílio em Bagdá

Durante os quatro meses desse encarceramento terrível, Bahá’u’lláh e Seus companheiros continuaram dedicados, cheios de entusiasmo e no maior contentamento. Quase diariamente, um deles era torturado ou trucidado e os outros lembrados de que a próxima vez poderia ser a sua. Quando os carrascos vinham buscar um deles, aquele cujo nome era chamado dançava, literalmente, com júbilo, beijava as mãos de Bahá’u’lláh, abraçava seus demais companheiros

de crença e então apressava-se, com ânimo e alegria, para o lugar do martírio. Foi provado concludentemente que Bahá’u’lláh nenhuma parte tomara na conspiração contra o xá, e o ministro russo atestou

a pureza do Seu caráter. Ele estava, além disso, tão doente, que se

receava a Sua morte. Em lugar, pois, de sentenciá-Lo à morte, o xá

ordenou que fosse exilado a ‘Iráq-i-‘Arab, na Mesopotâmia, e para lá, quinze dias depois, Bahá’u’lláh seguiu acompanhado de Sua família e grande número de amigos. Sofreram penosamente com o frio e com outras durezas na longa jornada de inverno, e chegaram

a Bagdá em um estado de quase completa destituição.

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Assim que Sua saúde permitiu, Bahá’u’lláh começou a ensinar àqueles que pediam esclarecimentos sobre a Fé e a animar e exortar os adeptos; e em pouco tempo a paz e a felicidade reinavam entre os bábís*. Tal estado de coisas, entretanto, pouco durou. Um irmão de Bahá’u’lláh por parte do pai, Mírzá Yahyá, conhecido também por Subh-i-Azal, chegou a Bagdá e logo depois começaram a surgir divergências secretamente instigadas por ele, assim como semelhantes divisões sucederam entre os discípulos de Cristo. Essas divergências (que mais tarde, em Adrianópolis, tornaram-se abertas e violentas) eram muito penosas para Bahá’u’lláh, cujo único ideal na vida era a promoção da unidade entre os povos do mundo.

Dois Anos no Deserto

Cerca de um ano após Sua vinda a Bagdá, Bahá’u’lláh partiu só, para o deserto de Sulaymáníyyih, levando nada mais que uma muda de roupa. Sobre este período, Ele escreve no Kitáb-i-Íqán o seguinte:

Nos primeiros dias após a Nossa chegada nesta terra, percebendo os sinais dos iminentes acontecimentos, decidimos retirar-nos antes que se realizassem. Fomos ao deserto, onde, afastados e sós, tivemos por dois anos uma vida completamente solitária. Nossos olhos vertiam lágrimas angustiosas e do Nosso coração dilacerado surgia um oceano de agônicos pesares. Muitas noites não tivemos com o que Nos sustentar; muitos dias Nosso corpo não encontrou repouso. Por Aquele que tem o Meu ser entre Suas mãos! Não obstante essas chuvas de aflições e calamidades incessantes, Nossa alma estava envolta de êxtase e todo o Nosso ser mostrava uma alegria inefável. Pois em Nossa solidão não estávamos cientes do prejuízo ou benefício, saúde ou doença, de qualquer pessoa. Inteiramente sós, comungávamos com Nosso espírito, esquecidos do mundo e de tudo o que

*Isto foi no começo do ano de 1853, ou nove anos depois da Declaração do Báb, cumprindo assim certas profecias do Báb concernentes ao “ano nove”.

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nele existe. Não sabíamos, porém, que o enredo do destino divino excede ao mais vasto dos conceitos mortais, e o dardo de Seu decreto transcende o mais audaz dos planos humanos. Ninguém pode escapar aos enredos que Ele arma – nenhuma alma pode libertar-se, a não ser pela submissão à Sua Vontade. Pela justiça de Deus! Nossa retirada não contemplava regresso; Nossa separação não esperava nenhuma reunião. O único propósito de Nossa retirada foi evitar que Nos tornássemos motivo de discórdia entre os fiéis, fonte de distúrbios entre Nossos companheiros, meio de prejuízo para qualquer pessoa, ou causa de tristeza para algum coração. Além dessas, nenhuma intenção acariciávamos; fora dessas, nenhum propósito tivemos em vista. E não obstante, cada um maquinava segundo seu próprio desejo e se entregava à sua vã fantasia, até a hora em que veio da Fonte mística a ordem de que voltássemos para o lugar donde havíamos vindo. Rendendo Nossa Vontade à Sua, submetemo-nos à Sua injunção. Qual a pena que possa descrever o que foi visto por Nós ao regressarmos? Passaram-se dois anos, durante os quais Nossos inimigos maquinaram assídua e incessantemente a fim de Nos exterminar, assim como todos atestam.

O Kitáb-i-Íqán, pp. 152-153.

Oposição dos Mullás

Após o regresso desse retiro, Sua fama tornou-se maior do que nunca, e de toda parte iam a Bagdá muitas pessoas desejosas de vê-Lo e ouvir Seus ensinamentos. Judeus, cristãos, zoroastrianos e muçulmanos interessavam-se pela nova mensagem. Os mullás (doutores muçulmanos), entretanto, assumiram uma atitude hostil e tramaram persistentemente a Sua queda. Certa ocasião um deles foi enviado para entrevistá-Lo e fazer-Lhe algumas perguntas. O emissário achou as respostas de Bahá’u’lláh tão convincentes e Sua sabedoria tão admirável, embora evidentemente não adquirida por

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meio de estudos, que se viu obrigado a confessar ser Ele, em entendimento e sabedoria, incomparável. Entretanto, a fim de que os mullás que o haviam enviado admitissem ser Bahá’u’lláh, de fato, um Profeta, pediu-Lhe que fizesse um milagre como prova. Bahá’u’lláh expressou Sua boa vontade em aceitar a sugestão, sob certas condições, declarando que forneceria a prova desejada, ou

senão, permitiria ser declarado impostor, se os mullás concordassem

a respeito do milagre a ser realizado e assinassem e selassem um

documento pelo qual se comprometessem, caso fosse o milagre levado

a efeito, a confessar a validez da Sua missão e a cessar sua oposição a

Ele. Tivesse sido o objetivo dos mullás descobrir a verdade, esta era, sem dúvida, sua oportunidade; mas sua intenção era outra. Queriam de qualquer modo uma decisão a seu próprio favor. Tinham medo da verdade, e assim recusaram o desafio audaz. O embaraço que isso lhes causou, porém, apenas instigou-os a maquinar novas conspirações para a extinção da Fé oprimida. O cônsul-geral da Pérsia em Bagdá os apoiou e mandou repetidas mensagens ao xá, alegando estar Bahá’u’lláh, mais do que nunca, prejudicando a religião maometana, e ainda exercendo uma influência maligna na Pérsia, devendo Ele, pois, ser exilado para algum lugar mais distante. Nesta crise, quando os governos iranianos e turcos, instigados pelos mullás, reuniam os seus esforços para a extirpação do Movimento, Bahá’u’lláh manteve Sua calma e serenidade características, animando e inspirando os Seus discípulos, e escrevendo palavras imperecíveis de guia e consolo. ‘Abdu’l-Bahá conta como nesse tempo Bahá’u’lláh freqüentemente ia passear ao longo das margens do Tigre, donde voltava com uma expressão alegre, escrevendo em seguida algumas daquelas jóias líricas de sábios conselhos, As Palavras Ocultas, que têm trazido consolo e alívio a milhares de corações aflitos e magoados. Por alguns anos só existiam poucos exemplares manuscritos de As Palavras Ocultas, os quais tiveram de ser cuidadosamente escondidos para que não caíssem nas mãos dos numerosos inimigos, mas esse pequeno livro é agora, provavelmente, a mais conhecida de todas as obras de Bahá’u’lláh,

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sendo lido em todos os cantos do globo. O Kitáb-i-Íqán é outra obra de Bahá’u’lláh muito conhecida, escrita mais ou menos no mesmo período, por volta do fim de Sua estada em Bagdá (1862-

1863).

Declaração em Ridván*, Proximidades de Bagdá

Após muitas negociações, a pedido do governo iraniano, foi

assinada pelo governo da Turquia uma ordem chamando Bahá’u’lláh

a Constantinopla. Essa notícia causou grande consternação entre

Seus discípulos. Afluíram à casa de seu bem-amado Mestre, a tal ponto que a família, enquanto a caravana se preparava para a longa jornada, acampou por doze dias no jardim de Najíb Páshá, fora da cidade. Foi durante estes doze dias (21 de abril a 2 de maio de 1863, isto é, dezenove anos após a declaração do Báb) que Bahá’u’lláh deu a vários dos Seus adeptos as boas novas de ser Ele próprio o Predito pelo Báb, o Escolhido de Deus, o Prometido de todos os Profetas. O jardim onde foi feita essa memorável Declaração veio a ser desde então conhecido pelos bahá’ís por “Jardim de Ridván”, e os dias que Bahá’u’lláh ali passou são comemorados com a “Festa do Ridván”, anualmente celebrada no aniversário desses doze dias. Durante aqueles dias, em vez de tristeza ou desalento, Bahá’u’lláh mostrou o maior contentamento, dignidade e poder. Seus discípulos

tornaram-se alegres e entusiasmados, e grandes multidões vieram prestar-Lhe seus respeitos. Todas as notabilidades de Bagdá, inclusive

o próprio governador, vieram prestar suas homenagens ao Prisioneiro que iria partir.

Constantinopla e Adrianópolis

A viagem a Constantinopla durou de três a quatro meses, sendo o grupo composto por Bahá’u’lláh, membros de Sua família

e vinte e seis discípulos. Ao chegarem em Constantinopla ficaram

prisioneiros numa pequena casa que muito mal os comportava. Mais

*Pronuncia-se Rezván.

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tarde conseguiram alojamentos um pouco melhores, mas decorridos quatro meses foram transferidos novamente, desta vez para Adrianópolis. Embora durasse poucos dias, a viagem a Adrianópolis foi a mais terrível que realizaram. Durante quase todo o tempo a neve caía pesadamente e, como estavam desprovidos de roupas apropriadas e de alimentos, seus sofrimentos foram extremos. No primeiro inverno em Adrianópolis, Bahá’u’lláh e Sua família, composta de doze pessoas, foram acomodados numa pequena casa de três cômodos, sem conforto e infestada de ratos e insetos. Na primavera obtiveram alojamento mais confortável. Aqui passaram mais de quatro anos e meio, e Bahá’u’lláh recomeçou a ensinar, congregando ao Seu redor um grupo numeroso. Anunciou publicamente Sua missão e foi entusiasticamente aceito pela maioria dos bábís, que daí em diante tornaram-se conhecidos por bahá’ís. Uma minoria, entretanto, sob liderança do meio-irmão de Bahá’u’lláh, Mírzá Yahyá, fez-Lhe violenta oposição, e uniu-se aos antigos inimigos, os xiitas, com quem planejou Sua queda. Seguiram-se grandes distúrbios e, por fim, o governo turco baniu a ambos, bábís e bahá’ís, de Adrianópolis, exilando Bahá’u’lláh e Seus adeptos para ‘Akká, na Palestina, onde chegaram, segundo Nabíl*, em 31 de agosto de 1868, enquanto Mírzá Yahyá e o seu grupo foram mandados a Chipre.

Cartas aos Reis

Nesse período, Bahá’u’lláh escreveu Sua famosa série de cartas ao sultão da Turquia, a muitas das cabeças coroadas da Europa, ao papa e ao xá da Pérsia. Mais tarde, em Seu Kitáb-i-Aqdas, dirigiu- Se a outros soberanos, aos governantes e presidentes da América, aos dirigentes da religião em geral e a todo o gênero humano. Anunciou a todos Sua missão, exortando-os a dedicar suas energias ao estabelecimento da verdadeira religião, de um governo justo e da paz internacional. Em Sua carta ao xá, Ele pleiteou com veemência a causa dos oprimidos bábís e pediu para ser levado à presença

*Narrador da história dos primeiros anos da Fé, contada em Os Rompedores da Alvorada. Nabíl foi participante de algumas das cenas que descreve e conheceu pessoalmente muitos dos primeiros crentes. †O Aqdas, Kitáb-i-Aqdas, O Livro de Aqdas e O Livro Mais Sagrado, todos referem-se ao mesmo livro.

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daqueles que haviam instigado sua perseguição. Desnecessário dizer que não se satisfez esse pedido. Badí‘, o jovem e devotado discípulo que entregou a carta de Bahá’u’lláh, foi preso e martirizado com terríveis torturas, sendo-lhe aplicados ao corpo tijolos de barro quente! Na mesma carta Bahá’u’lláh faz a mais comovente descrição de Seus próprios sofrimentos e anseios:

Tenho visto, ó xá, no caminho de Deus, o que olhos jamais viram nem ouvidos ouviram. Meus conhecidos Me repudiaram e Meus caminhos se estreitaram. A fonte do bem-

estar secou-se e as folhas do caramanchão da tranqüilidade murcharam. Quão numerosas as tribulações que choveram,

e que em breve choverão sobre Mim. Sigo adiante, com a

face volvida para Aquele que é o Onipotente, o Todo- Generoso, enquanto atrás de Mim desliza a serpente. Meus olhos têm derramado lágrimas até ensopar Meu leito. Minha tristeza não é por Minha própria causa, entretanto. Por Deus! Nunca passei por uma árvore sem que Meu coração não lhe tivesse dirigido estas palavras: “Oxalá fosses cortada em Meu nome, e Meu corpo sobre ti crucificado, na vereda de Meu senhor!”, pois vejo o povo vagando desatento e inconsciente em seu estupor embriagado. Elevaram às alturas suas paixões e diminuíram seu Deus. Parece-Me que tomaram Sua Causa por zombaria e a consideram uma brincadeira e um passatempo, acreditando o tempo todo que agem bem, e que habitam com segurança na cidadela da proteção. Não obstante, o assunto não é como eles insensatamente imaginam: amanhã verão aquilo que hoje estão habituados a

negar!

Dentro em breve, os expoentes da riqueza e do poder Nos

banirão da terra de Adrianópolis para a cidade de ‘Akká. De acordo com o que se diz, é a mais desoladora cidade de todo

o mundo, a de mais feio aspecto, mais detestável por ser a

metrópole das corujas, dentro de cujos arredores nada se pode

*A fim de serem sepultados dois daqueles que morreram, Bahá’u’lláh deu Seu próprio tapete para que, com o produto da sua venda, se atendesse às despesas do sepultamento, mas, em lugar de usarem o dinheiro para esse fim os soldados lançaram mão dele e jogaram os cadáveres num buraco feito na terra. (‘Abu’l-Husayn Ávárih Tafti, historiador persa.)

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ouvir, salvo o eco de seu lamento. Lá resolveram aprisionar este Servo, para que se fechem, diante de Nossas Faces, as portas da tranqüilidade e do conforto, e para nos privarem de cada benefício deste mundo, ao longo do restante de nossos dias. Por Deus! Embora a fadiga Me abata e a fome Me consuma,

a rocha dura seja Meu leito e as feras do deserto Minhas companheiras, não Me queixarei, mas, sim, sofrerei pacientemente, como sofreram aqueles dotados de constância

e firmeza, através do poder de Deus, o Rei Eterno e Criador

das nações, e agradecerei a Deus sob todas as condições. Pedimos que, por Sua bondade – exaltado seja Ele Pedimos que, por Sua bondade – exaltado seja Ele – através deste encarceramento, Ele livre das cadeias e correntes os pescoços dos homens e os leve a volverem-se, com face sincera, para a Face dAquele que é o Potente, o Generoso. Prontamente, Ele responde a quem O invoca, e próximo está de quem com Ele comunga. Imploramos, ademais, que Ele faça desta tribulação sombria uma proteção para o Templo de Sua Causa, e a proteja do ataque das espadas afiadas e das adagas pontiagudas. A adversidade tem sempre dado origem à exaltação de Sua Causa e à glorificação de Seu Nome. Tal tem sido o método de Deus levado a cabo nos séculos e eras passadas.

‘Abdu’l-Bahá. Narrativa de um Viajante, pp. 111-112.

Prisão em ‘Akká

Naquele tempo ‘Akká (Acre) era uma cidade-prisão para onde eram mandados os piores criminosos de toda parte do Império Turco. Aí chegando, após uma penosíssima travessia marítima, Bahá’u’lláh e Seus adeptos – uns oitenta a oitenta e quatro, incluindo homens, mulheres e crianças – foram encarcerados no quartel do exército. Estava extremamente sujo e sombrio. Não havia camas nem conforto de espécie alguma. O alimento era tão ruim e insuficiente que, depois de algum tempo, os presos imploraram permissão para comprar sua própria comida. Durante os primeiros dias as crianças

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choravam continuamente e era quase impossível dormir. Malária, disenteria e outras doenças cedo se manifestaram, e todos, com exceção de dois, caíram vítimas. Três faleceram, e os sofrimentos dos sobreviventes eram indescritíveis*. Essa prisão rigorosa durou por mais de dois anos e, durante este período a nenhum dos bahá’ís era permitido transpor os umbrais da porta da prisão, a não ser no caso de quatro homens que saíam diariamente sob cuidadosa vigilância para comprar alimentos. Durante o encarceramento no quartel, visitas aos presos eram estritamente proibidas. Vários bahá’ís da Pérsia fizeram todo o caminho a pé, a fim de verem seu querido Líder, mas não lhes foi permitido adentrar as muralhas da cidade. Costumavam ir a uma planície além do terceiro fosso, donde podiam ver as janelas do compartimento de Bahá’u’lláh, que a eles Se mostrava numa das janelas. Depois de fitá-Lo à distância, voltavam em prantos para seus lares, mas inflamados com um novo entusiasmo pelo sacrifício e dedicação.

Restrições Abrandadas

A prisão foi por fim mitigada. Houve mobilização das tropas turcas e o quartel foi requisitado para os soldados. Bahá’u’lláh e Sua família foram transferidos para uma casa nas imediações e Seus adeptos foram acomodados numa estalagem na cidade. Bahá’u’lláh permaneceu por mais sete anos confinado nessa casa. Num pequeno quarto próximo àquele que Lhe foi designado, treze pessoas de Sua família, de ambos os sexos, tiveram que se acomodar como melhor puderam! No início de sua permanência nesta casa, sofreram excessivamente em conseqüência da insuficiente acomodação, alimentação inadequada e falta das comodidades usuais da vida. Depois de certo tempo, porém, alguns quartos adicionais foram postos à sua disposição, podendo eles assim viver com relativo conforto. Depois que Bahá’u’lláh e Seus companheiros deixaram o quartel, visitas eram-lhes permitidas, e gradativamente as severas

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restrições impostas pelas ordens imperiais foram sendo relaxadas mais e mais, embora de vez em quando novamente impostas por algum tempo.

Abrem-se os Portões da Prisão

Mesmo durante a pior época de encarceramento, os bahá’ís não desanimaram e sua serena confiança jamais foi abalada. Enquanto ainda no quartel de ‘Akká, Bahá’u’lláh escreveu a alguns amigos:

“Não tenhais medo. Estas portas abrir-se-ão. Minha tenda será erguida no Monte Carmelo e o maior contentamento será alcançado.” Esta declaração foi uma grande fonte de consolo para Seus adeptos e, no devido tempo, foi literalmente cumprida. A história de como se abriram as portas da prisão é melhor contada nas palavras de ‘Abdu’l-Bahá, traduzidas pelo Seu neto, Shoghi Effendi:

Bahá’u’lláh amava a beleza e o verdor dos campos. Um dia Ele fez a seguinte observação: “Há nove anos não vejo o verdor dos campos. O campo é o mundo da alma, a cidade é o mundo do corpo.” Ao saber indiretamente destas palavras, compreendi que Ele desejava ir ao campo e eu estava certo que seria bem sucedido em qualquer tentativa de satisfazer esse Seu desejo. Havia em ‘Akká, nesse tempo, um homem chamado Muhammad Páshá Safwat, que nos fazia muita oposição. Ele tinha um palácio chamado Mazra‘ih, a cerca de seis quilômetros e meio ao norte da cidade, um lugar muito aprazível, cercado por jardins e com água corrente. Fui fazer uma visita a esse páshá. Disse-lhe: “Pashá, deixastes vazio o vosso palácio e estais vivendo em ‘Akká.” Ele retrucou: “Sou inválido, não posso deixar a cidade. Se for para o campo ficarei só, privado da companhia de meus amigos.” “Enquanto não estiverdes morando lá e a casa estiver desocupada, alugai-a para nós”, disse-lhe eu. A princípio surpreendeu-se com a proposta, mas logo consentiu. Arrendei a propriedade por um preço muito baixo, cerca de cinco libras esterlinas anuais,

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paguei-o por cinco anos e assinei um contrato. Enviei trabalhadores para fazer alguns reparos na casa, tratar do jardim e construir um banheiro. Também havia preparado uma carruagem para o uso da Abençoada Beleza*. Um dia, resolvi ir ver o lugar. Não obstante as reiteradas ordens contidas em sucessivos firmãs [ordem emanada de um soberano ou autoridade muçulmana] proibindo a nossa passagem além dos muros da cidade, saí pelo portão da cidade. Soldados estavam de guarda, mas não fizeram nenhuma objeção; então fui diretamente ao palácio. No dia seguinte saí novamente, acompanhado de alguns amigos e oficiais, sem sermos molestados ou barrados, embora os guardas e sentinelas estivessem a postos em ambos os lados dos portões da cidade. Em outra ocasião, convidei os oficiais e notabilidades de ‘Akká para um banquete, que eu havia preparado, à sombra dos pinheiros de Bahjí, e à noite todos regressamos à cidade juntos. Um dia, fui à Santa Presença da Abençoada Beleza e disse:

“O palácio de Mazra‘ih está pronto para Vós, como também uma carruagem para Vos conduzir até lá.” Bahá’u’lláh recusou-Se a ir, dizendo-me: “Sou prisioneiro.” Mais tarde, pedi-Lhe outra vez, mas recebi a mesma resposta. Pela terceira vez voltei à Sua presença, mas Ele ainda disse “Não!”, e eu não ousei insistir mais. Havia, entretanto, em ‘Akká, um certo Muhammadan Shaykh, homem bem conhecido e de muita influência, que tinha uma grande afeição por Bahá’u’lláh e a quem Ele concedia muitos favores. Chamei esse shaykh e expus-lhe a situação. Eu disse: “Vós sois ousado. Ide hoje à

noite à Sua Santa Presença, ajoelhai-vos diante dEle, segurai- Lhe as mãos e não O deixeis enquanto não vos prometer sair

foi diretamente a Bahá’u’lláh e

da cidade”!

sentou-se perto de Seus joelhos. Tomando as mãos da Abençoada Beleza e beijando-as, perguntou: “Por que não deixais a cidade”? “Sou prisioneiro”, disse Bahá’u’lláh. “Deus nos livre!”, respondeu o shaykh, “Quem tem o poder de Vos

*Jamál-i-Mubárak (literalmente, Abençoada Beleza), título freqüentemente aplicado a Bahá’u’lláh pelos Seus adeptos e amigos.

Ele era árabe

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fazer prisioneiro? Vós Vos tendes conservado na prisão. Foi

Vossa própria vontade ser encarcerado e agora Vos imploro a sair e ir ao palácio. Está bonito e verdejante. As árvores estão lindas, e as laranjas parecem bolas de fogo!” Assim que a Abençoada Beleza dizia, “Sou um prisioneiro, não pode ser”,

o shaykh tomava Suas mãos e beijava-as. Por uma hora inteira

esteve a implorar. Finalmente Bahá’u’lláh disse, “khaylí khub”

(muito bem) e, assim, a paciência e a persistência do shaykh foram recompensadas*. Ele veio com grande alegria dar-me as boas novas do consentimento de Sua Santidade. A despeito

do estrito firmã de ‘Abdu’l-‘Azíz que me proibia de encontrar- me ou de ter qualquer relacionamento com a Abençoada Perfeição, tomei a carruagem no dia seguinte e O levei até o palácio. Ninguém fez qualquer objeção. Durante dois anos Bahá’u’lláh permaneceu nesse fascinante e encantador lugar. Foi então decidido que nos mudássemos para uma outra casa em Bahjí. Por causa de uma epidemia, irrompida em Bahjí, o dono da casa, com toda a família, havia-se retirado com pavor, disposto a cedê- la gratuitamente a qualquer pretendente. Alugamos a casa por um preço muito baixo, e aí foram as portas da majestade

e da verdadeira soberania completamente abertas. Embora

nominalmente um prisioneiro (pois os severos firmãs do sultão ‘Abdu’l-‘Azíz nunca foram anulados), Bahá’u’lláh mostrava de fato tal nobreza e dignidade em Seu porte e Sua vida, que todos Lhe tinham grande reverência e os governantes da Palestina invejavam-Lhe a influência e o poder. Governadores e mutasarrifs, generais e altos funcionários do lugar solicitavam-Lhe humildemente a honra de serem admitidos à Sua presença – pedido a que raramente Ele acedia. Em uma ocasião, um governador da cidade implorou este favor porque havia recebido de autoridades superiores a ordem de ir, acompanhado de certo general, visitar a Abençoada Perfeição. Sendo satisfeito o pedido, foram; e o general, que era europeu e um homem muito corpulento, ficou tão

*Khayli khúb é língua persa. Shaykh ‘Alíy-i-Mirí era o mutfí de ‘Akká.

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impressionado com a majestosa presença de Bahá’u’lláh que

permaneceu ajoelhado próximo à porta. Tal foi o constrangimento de ambos os visitantes que somente depois de repetidos convites feitos por Bahá’u’lláh, foram induzidos

a fumar o narguilé* oferecido. Mesmo assim, apenas o tocaram com os lábios e então, pondo-o de lado, cruzaram os braços

e sentaram-se numa atitude de tal humildade e respeito que deixou pasmos todos aqueles que estavam presentes. A amorosa reverência dos amigos, a consideração e o

respeito que Lhe eram mostrados por todos os oficiais e pessoas proeminentes, a onda de peregrinos e outros em busca da verdade, o espírito de devoção e serviço evidente por toda a parte, o semblante majestoso e augusto da Abençoada Perfeição, a eficácia de Seu mando, o número de Seus zelosos adeptos – tudo isto testemunhava o fato de que na realidade Bahá’u’lláh não era um prisioneiro e, sim, um Rei dos Reis. Dois soberanos déspotas Lhe faziam oposição, dois poderosos

e autocráticos governantes, mas mesmo enquanto encarcerado

em suas prisões, Bahá’u’lláh dirigiu-Se a eles em termos os

mais austeros, como se fosse um rei dirigindo-se aos seus súditos. Mais tarde, a despeito dos severos firmãs, Ele continuou a viver em Bahjí como um príncipe. Muitas vezes dizia: ”Em verdade, em verdade, a prisão mais vil foi convertida num Paraíso de Éden.” Não se testemunhou tal coisa, certamente, desde a criação do mundo.

Sua Vida em Bahjí

Tendo nos primeiros anos de durezas mostrado como se deve glorificar a Deus, embora num estado de pobreza e ignomínia, Bahá’u’lláh nos Seus últimos anos de vida em Bahjí, mostrou como se deve glorificar a Deus, sob uma condição de honra e afluência. As ofertas de centenas de milhares de devotados adeptos colocaram à Sua disposição vastos cabedais que Lhe coube administrar. Apesar

*Cachimbo largamente usado pelos turcos, hindus e persas composto de um fornilho, um tubo, e vaso cheio de água perfumada que o fumo atravessa antes de chegar à boca.

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DE DEUS

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de ter-se descrito a Sua vida em Bahjí como realmente majestosa no

mais elevado sentido da palavra, não se deve imaginar, porém, que fosse caracterizada por esplendor material ou extravagância. A

Abençoada Perfeição e Sua família viviam com a maior simplicidade e modéstia; o gasto com luxo egoísta era coisa desconhecida naquele lar. Perto de Sua casa os adeptos prepararam um jardim que denominaram Ridván, no qual Ele passava muitos dias consecutivos ou mesmo semanas, dormindo à noite numa pequena cabana. De vez em quando Ele ia mais longe fazendo várias visitas a ‘Akká e Haifa e, mais de uma vez, armou Sua tenda no Monte Carmelo, como Ele predissera enquanto ainda encarcerado no quartel de ‘Akká.

A maior parte do tempo de Bahá’u’lláh era dedicada à prece e

meditação, à revelação dos Livros Sagrados e Epístolas e à educação

espiritual dos amigos. A fim de Lhe dar toda a liberdade que essa grande obra reclamava, ‘Abdu’l Bahá encarregou-se dos demais afazeres, incumbindo-se até mesmo de receber os mullás, poetas e membros do governo. Todos estes ficavam encantados e contentes ao conhecerem ‘Abdu’l-Bahá, e inteiramente satisfeitos com Suas explicações e palestras. E, embora não houvessem encontrado o próprio Bahá’u’lláh, tornavam-se plenos de sentimento de amizade por Ele, através do relacionamento com Seu filho, pois a atitude de ‘Abdu’l-Bahá fazia-os compreenderem a posição de Seu pai. O eminente orientalista, o falecido professor Edward G. Browne, da Universidade de Cambridge, visitou Bahá’u’lláh em Bahjí, em 1890, e registrou suas impressões, como segue:

O meu guia parou por um momento enquanto eu tirava os

sapatos. Então, com um rápido movimento de mão, retirou- se e, enquanto eu passava, repôs as cortinas; e encontrei-me numa ampla sala, em cujo fim achava-se um baixo divã, havendo do lado oposto à porta duas ou três cadeiras. Embora

vagamente suspeitasse para onde ia e com quem haveria de estar (pois nenhuma informação clara me fora dada), passaram-se um ou dois segundos antes que eu, palpitante de admiração e reverência, tomasse finalmente consciência

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

de que a sala não estava deserta. No canto onde o divã tocava

a parede, sentava-se uma maravilhosa e venerável figura,

coroada de um taj de feltro, do tipo usado pelos dervixes (mas de altura e feitio não comuns), ao redor do qual estava

enrolado um pequeno turbante branco. Jamais posso esquecer- me da fisionomia daquele a quem olhava, embora não possa descrevê-la. Aqueles olhos penetrantes pareciam ler-nos a

própria alma; poder e autoridade residiam naquela testa larga, enquanto as linhas profundas na fronte e rosto indicavam uma idade que os cabelos pretos de azeviche e a barba que, em indistinguível magnificência, quase tocava a cintura, pareciam desmentir. Não me foi preciso perguntar em presença de quem eu estava, enquanto curvei-me diante daquele que é

o objeto de uma devoção e um amor que os reis poderiam invejar e os imperadores almejar em vão! Uma voz cheia de dignidade e brandura convidou-me a

sentar e então prosseguiu: “Louvado seja Deus por haveres

alcançado!

desejamos o bem do mundo e a felicidade das nações; não obstante, consideram-Nos instigador de discórdia e sedição,

Que todas as nações

merecedor de cativeiro e banimento

tornem-se uma na Fé e todos os homens venham a ser como irmãos; que os laços de afeição e unidade entre os filhos dos

homens sejam fortalecidos; que cesse a diversidade de religião,

Vieste ver um prisioneiro e exilado

e

as diferenças de raça sejam anuladas – que mal há nisto?

E

assim há de ser: essas lutas infrutíferas, essas guerras ruinosas

Vós, na Europa,

não precisais disso também? Não é o que Cristo predisse? Vemos, entretanto, vossos reis e governantes gastarem seus tesouros mais livremente com meios de destruição da humanidade do que com aquilo que poderia conduzi-la à

felicidade

Que o

hão de passar e a ‘Paz Máxima’ há de chegar

Estas lutas, esta carnificina e discórdia devem

cessar e todos os homens serem como uma família

homem não se vanglorie pelo amor a sua pátria e, sim, pelo amor a sua espécie ”

BAHÁULLÁH: A GLÓRIA DE DEUS

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Se bem posso recordá-las, tais foram as palavras que, além de muitas outras, ouvi de Behá*. Que aqueles que as lêem, julguem por si mesmos se o propagador de tais doutrinas merece morte e encarceramento, e se é mais provável que o mundo ganhe ou perca com a sua difusão.

A Traveller’s Narrative, p. 39.

Ascensão

Assim passou Bahá’u’lláh, simples e serenamente, o outono da Sua vida na terra, até que, após um ataque de febre, expirou, em 29 de maio de 1892, com a idade de setenta e cinco anos. Entre as últimas Epístolas por Ele reveladas, figura Sua Vontade e Testamento, escrita de Seu próprio punho. Nove dias após Sua morte os selos foram rompidos pelo Seu filho mais velho na presença dos membros da família e de alguns amigos, e o seu conteúdo, curto mas notável, foi revelado. Por este Testamento, ‘Abdu’l-Bahá foi constituído o representante de Seu pai e o expositor de Seus ensinamentos, e a família e demais parentes de Bahá’u’lláh e todos os adeptos foram instruídos a dirigirem-se a Ele e obedecer-Lhe. Isso constituiu uma barreira contra o sectarismo e dissensão, e uma garantia à unidade da Causa.

Bahá’u’lláh como Profeta

É importante ter-se uma idéia clara de Bahá’u’lláh como Profeta. Seus discursos, como os dos outros Manifestantes Divinos, podem ser divididos em duas classes: uma, em que Ele escreve ou fala simplesmente como um homem a quem Deus encarregou de levar uma mensagem à humanidade, e outra, em que as palavras são proferidas como se viessem diretamente de Deus. No Kitáb-i-Íqán, Ele diz:

*Bahá’u’lláh.

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

Nas páginas precedentes já designamos dois graus para cada

um desses Luminares oriundos das Auroras da santidade eterna. Um deles, o grau da unidade essencial, já explicamos. “Nenhuma distinção fazemos entre eles”. (Alcorão, 2:136)

O

outro é o grau da distinção e pertence ao mundo da criação

e

às suas limitações. Neste sentido, cada Manifestante de

Deus tem uma individualidade distinta, sua Missão definitivamente prescrita, uma Revelação predestinada e limitações especialmente designadas. Cada um deles é conhecido por um nome diferente, é caracterizado por um atributo especial, cumpre uma certa Missão e lhe é confiada uma Revelação distinta. Assim mesmo como Ele diz: “A alguns dos Apóstolos Nós fizemos exceder aos outros. A alguns Deus falou e a alguns elevou e enalteceu. E a Jesus, Filho de Maria, demos sinais manifestos e Nós O fortalecemos com o Espírito Santo ” É por causa desta diferença em seu grau e sua missão, que

as palavras que provêm desses Mananciais do conhecimento

divino parecem divergir. Não fora isso, e todas as suas palavras

– aos olhos daqueles iniciados nos mistérios da sabedoria

divina – seriam, na realidade, apenas expressões de uma mesma Verdade. Como a maioria dos homens não soube

apreciar esses graus aos quais nos referimos, sente-se, portanto, confusa e atônita diante das afirmações tão divergentes pronunciadas por Manifestantes que são, essencialmente, um

e o mesmo. Assim, pois, quando aquelas Essências da existência são consideradas do ponto de vista de sua unidade e seu sublime desprendimento, os atributos de Deidade, Divindade, Suprema Unicidade e Mais Íntima Essência, lhes têm sido e são aplicáveis, já que todas permanecem no trono da Revelação divina, estabelecidas sobre o assento da Ocultação divina. Com seu aparecimento, a Revelação de Deus se manifesta, e através de seu semblante, a Beleza de Deus se revela. Assim é que se têm ouvido os acentos do próprio Deus pronunciados por esses Manifestantes do Ser Divino.

BAHÁULLÁH: A GLÓRIA DE DEUS

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Vistos à luz de seu segundo grau – o grau da distinção, da diferenciação, das limitações, características e normas temporais – eles manifestam servitude absoluta, extrema beleza e abnegação completa. Assim como Ele diz: “Sou o servo de Deus. Sou apenas um homem como vós” Se qualquer um dos Manifestantes de Deus – Aqueles que a tudo abrangem – declarasse: “Sou Deus!”, Ele certamente diria a verdade, sem a menor dúvida. Pois já foi demonstrado, repetidas vezes, que, através de sua Revelação, seus atributos e nomes, se tornam manifestos no mundo a Revelação, o Nome e os atributos de Deus. Assim Ele revelou:

“Aqueles dardos pertenciam a Deus; não foram Teus!” (Alcorão, 8:17) E diz também: “Em verdade, aqueles que hipotecaram fidelidade a Ti, hipotecaram, realmente, fidelidade a Deus.” (Alcorão, 48:10) E se qualquer deles proferisse estas palavras:

“Sou o Mensageiro de Deus,” Ele também estaria dizendo a verdade, a verdade indubitável. Assim como Ele diz:

“Muhammad não é pai de homem algum entre vós, mas Ele é o Mensageiro de Deus.” Vistos a essa luz, todos eles são apenas Mensageiros daquele Rei ideal, daquela Essência imutável. E se todos proclamassem: “Sou o Selo dos Profetas,” realmente só diriam a verdade, sem qualquer sombra de dúvida. Pois eles todos não são mais que uma só pessoa, uma só alma, um só espírito, um único ser, uma única revelação. Todos manifestam o “Princípio” e o “Fim”, o “Primeiro” e o “Último”, o “Visível” e o “Oculto” – tudo o que se refere Àquele Que é o mais íntimo Espírito dos Espíritos e a eterna Essência das Essências. E se dissessem: “Somos os servos de Deus,” (Alcorão, 33:40) isso também é um fato manifesto e indiscutível. Pois eles se manifestaram no máximo grau de servitude – como nunca homem algum atingirá. Assim, essas Essências da vida, em momentos em que estavam profundamente imersas nos oceanos da antiga e sempiterna santidade, ou quando se elevavam até os mais sublimes ápices dos mistérios divinos, declaravam ser sua voz a Voz da Divindade, o Chamado do próprio Deus. Se os olhos do

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

discernimento se abrissem, perceberiam que, até neste estado, eles se consideravam a si mesmos como inteiramente obliterados e inexistentes diante dAquele Que é o Onipresente, o Incorruptível. Parece-me que a si mesmos se julgaram um simples nada e acharam sua própria menção naquela Corte um ato de blasfêmia. Pois o menor sussurro do ego dentro daquela Corte, evidencia engrandecimento próprio e existência independente. Aos olhos dos que atingiram essa Corte, meramente sugerir isso é, em si, uma grave transgressão. Quanto mais grave seria, se qualquer outra coisa fosse mencionada naquela Presença, se o coração do homem, a língua, a mente, ou a alma, se ocupasse com alguém que não fosse o Bem-Amado, se os olhos contemplassem qualquer outro semblante e não Sua beleza, se o ouvido se inclinasse para alguma outra melodia em vez de Sua voz e os pés algum caminho trilhassem que não fosse o Seu. Neste dia sopra a brisa de Deus, e Seu Espírito atingiu todas as coisas. Tão grande é a efusão de Sua graça que a pena deixa de se mover e a língua emudece. Em virtude deste grau, reclamaram para si a Voz da Divindade e coisas semelhantes, enquanto declarando, em virtude de seu grau de Mensageiro, que eram os Mensageiros de Deus. Em cada caso, pronunciavam aquilo que conformava às exigências da ocasião e atribuíam a si próprios todas essas declarações – declarações que se estendem desde o reino da Revelação divina até o reino da criação, e desde o domínio da Divindade até mesmo o domínio da existência terrestre. Assim é que, seja qual for sua asserção – quer se refira ao reino da Divindade, ou ao de Senhor, ou Profeta, Mensageiro, Guardião, ou Apóstolo, ou ao da Servitude – indubitavelmente, tudo é verdade. Essas asserções, portanto, que citamos para sustentar Nosso argumento, devem ser consideradas atentamente, a fim de que as declarações divergentes feitas por esses Manifestantes do Invisível, essas Auroras da Santidade, deixem de agitar a alma e confundir a mente.

BAHÁULLÁH: A GLÓRIA DE DEUS

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Quando Bahá’u’lláh fala como um simples homem, o grau que Ele assevera para Si é o de absoluta humildade, da “extinção de Si próprio em Deus”. O que distingue o Manifestante em Sua personalidade humana dos outros homens é Sua completa abnegação, como também a perfeição das Suas faculdades. Em todas as circunstâncias pode Ele dizer, como disse Jesus no Jardim de Getsêmani: “Todavia não se faça a minha vontade, mas a Tua.” (Lc, 22:42) Assim em Sua Epístola ao xá, Bahá’u’lláh diz:

Ó rei! Eu era apenas um homem como os outros, adormecido em meu leito, mas eis que os sopros do Todo-Glorioso manaram sobre Mim e Me deram o conhecimento de tudo o que existe. Isso não provém de Mim, mas de Um que é o Todo-Poderoso, o Onisciente. E Ele ordenou que Eu levantasse Minha voz entre a terra e o céu, e por isso Me sucedeu o que fez correrem as lágrimas de todo homem de compreensão. A erudição comum entre os homens, não a estudei; nem entrei em suas escolas. Pergunta na cidade em que residi, a fim de teres a certeza de que Eu não sou dos que falam falsamente. Este Ser é apenas uma folha movida pelos ventos da Vontade de teu Senhor, o Todo-Poderoso, Alvo de todo louvor. Poderá aquietar-se quando soprarem os ventos tempestuosos? Não, por Aquele que é o Senhor de todos os Nomes e Atributos! Movem-na a seu bel-prazer. O efêmero afigura-se como nada perante Aquele que é o Sempiterno. Seu chamado predominante atingiu-Me e Me fez expressar Seu louvor entre todos os povos. Em verdade, estava eu como morto, quando Seu imperativo foi enunciado. A mão da Vontade de teu Senhor, o Compassivo, o Misericordioso, transformou-Me. Poderá alguém pronunciar espontaneamen- te o que faça todos os homens, grandes e humildes, contra ele protestarem? Não, por Aquele que ensinou à Pena os mistérios eternos, salvo quem fosse fortalecido pela graça do Onipotente, do Todo-Poderoso.

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

Assim como Jesus lavava os pés de Seus discípulos, Bahá’u’lláh costumava às vezes preparar os alimentos ou prestar outros serviços humildes a Seus adeptos. Era o servo dos servos, e só Se gloriava em servir, contente em dormir no chão duro, se necessário fosse, em viver de pão e água, ou mesmo, certas vezes, daquilo que Ele chamava “o sustento divino, isto é, a fome!” Sua perfeita humildade era percebida em Sua profunda reverência à natureza, à natureza humana, e especialmente aos santos, profetas e mártires. Para Ele, todas as coisas falavam de Deus, da mais insignificante à mais elevada. Deus escolhera Sua personalidade humana para ser o Porta- Voz e Pena Divinos. Não foi por Sua própria vontade que Ele assumiu tal posição de dificuldades e durezas sem paralelo. Assim como Jesus disse: “Meu Pai, se for possível, afaste de Mim esse cálice,” Bahá’u’lláh declarou: “Houvesse outro expositor ou porta-voz sido encontrado, não Nos teríamos feito objeto de censura, escárnio e calúnias por parte do povo” (Epístola de Ishráqát). Mas o chamado divino foi claro e imperativo, e Ele obedeceu. A vontade de Deus tornou-se a Sua vontade, e o agrado de Deus, Seu agrado; e com “aquiescência radiante” Ele declarou:

Em verdade Eu digo: Tudo o que ocorre no caminho de Deus é o anseio da alma e o desejo do coração. Em Seu caminho, o veneno mortal é puro mel e cada tribulação um gole de água cristalina.

Bahá’u’lláh. Epístola ao Filho do Lobo, p. 35.

Em outras ocasiões, como já mencionamos, Bahá’u’lláh fala “com a voz de Divindade”. Quando assim fala, Sua personalidade humana é tão completamente subordinada que é deixada inteiramente de lado. Por Seu intermédio, Deus dirige-Se às Suas criaturas, proclamando Seu amor por elas, ensinando-lhes Seus atributos, tornando conhecida Sua vontade, anunciando Suas leis para guiá-las, e pedindo-lhes seu amor, sua fidelidade e dedicação. Nos Escritos de Bahá’u’lláh, dá-se freqüentemente a mudança de uma para outra destas formas. Algumas vezes, é evidente ser o

BAHÁULLÁH: A GLÓRIA DE DEUS

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homem que fala; depois, sem interrupção, prossegue como se Deus estivesse falando na primeira pessoa. Mesmo quando falando como um homem, entretanto, Bahá’u’lláh fala como Mensageiro de Deus, como o exemplo vivo da completa devoção à vontade de Deus. Sua vida inteira é atuada pelo Espírito Santo. Não se pode, pois, traçar uma linha definitiva entre os elementos humanos e os divinos em Sua vida ou ensinamentos. Diz-Lhe Deus:

Dize: Nada é visto em Meu templo, exceto o Templo de Deus e em Minha beleza, salvo a Sua Beleza e em Meu ser, salvo Seu Ser, em Mim próprio, salvo Ele próprio e em Meu movimento, salvo Seu Movimento e em Minha aquiescência, salvo Sua Aquiescência e em Minha pena, salvo Sua Pena, a Poderosa, a Toda-Louvada. Nada tem existido em Minha alma, salvo a Verdade, e em Mim nada pode ser visto, exceto Deus.

Bahá’u’lláh. O Chamado do Senhor das Hostes, p. 18.

Sua Missão

A missão de Bahá’u’lláh no mundo é realizar a Unidade – Unidade de todo o gênero humano em Deus e através dEle. “Esta palavra sublime”, diz Ele: “é o fruto Todo-Glorioso da Árvore da Sabedoria: vós todos sois os frutos de uma só Árvore, e as folhas de um mesmo Ramo. Que o homem não se vanglorie pelo amor à sua pátria, e sim pelo amor à sua espécie.” Profetas anteriores prenunciaram uma era de paz na terra e boa vontade entre os homens, e deram Suas vidas para apressar seu advento, mas todos Eles declararam claramente que essa abençoada consumação só seria realizada após a “Vinda do Senhor” nos últimos dias, quando os maus seriam julgados e os justos recompensados. Zoroastro predisse três mil anos de conflito antes do advento do Sháh Bahrám, o salvador do mundo, que haveria de dominar Ahríman, o espírito do mal, e estabelecer um reinado de paz e retidão.

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

Moisés predisse um longo período de exílio, perseguição e opressão para os filhos de Israel, antes que aparecesse o Senhor dos Exércitos e os reunisse de todas as nações para destruir os opressores

e estabelecer Seu Reino na terra. Cristo disse: “Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas a espada” (Mateus 10:34); e Ele predisse um período de guerras e rumores de guerras, de tribulações e aflições, que continuariam até a vinda do Filho do Homem “na Glória do Pai”. Muhammad declarou que entre judeus e cristãos, por causa de suas más ações, ‘Alláh estabelecera inimizade e ódio que durariam

até o Dia da Ressurreição, quando Ele apareceria para julgar a todos*. Bahá’u’lláh, por outro lado, anuncia ser Ele o Prometido de todos esses Profetas – o Manifestante Divino em cuja era o reinado de paz será realmente estabelecido. Esta afirmação é única e sem precedentes, mas está admiravelmente em harmonia com os sinais dos tempos e com as profecias de todos os grandes Profetas. Bahá’u’lláh revelou, de um modo completo e com clareza incomparável, os meios de realizar a paz e a unidade entre a humanidade. É verdade que, desde o advento de Bahá’u’lláh até agora, tem havido guerras e destruição em escala sem precedentes, mas é justamente o que havia de suceder, segundo todos os profetas, ao amanhecer o “grande e terrível Dia do Senhor”, confirmando a opinião, pois, de que a “Vinda do Senhor” não está apenas próxima,

e sim já é um fato consumado. Segundo a parábola de Cristo, o

Senhor da Vinha deve destruir completamente os maus lavradores, antes de dar a Vinha a outras pessoas que Lhe dêem os frutos em suas épocas. Não significa isso que, à vinda do Senhor, esteja reservada terrível destruição aos governos despóticos, padres avaros e intolerantes, mullás ou chefes tirânicos, que, como maus lavradores,

vêm há séculos desgovernando a terra, e apropriando-se indevidamente de seus frutos? É possível que haja no mundo, por algum tempo ainda, acontecimentos terríveis e calamidades sem paralelo, mas Bahá’u’lláh

*Vide citações do Alcorão no Capítulo 13, no subtítulo O Tempo do Fim.

BAHÁULLÁH: A GLÓRIA DE DEUS

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assegura-nos que dentro em breve “essas lutas infrutíferas, essas guerras ruinosas hão de passar, e a Paz Máxima virá”. As guerras e lutas têm-se tornado tão intoleráveis em seu poder destruidor, que

a humanidade deve livrar-se delas ou perecer. “A plenitude dos tempos” é chegada e, com ela, o Prometido

Libertador!

Seus Escritos

De âmbito mais abrangente são os Escritos de Bahá’u’lláh, tratando de todas as fases da vida do homem, individual e social, das coisas materiais e das coisas espirituais, das interpretações das escrituras antigas como também das modernas, e das antecipações proféticas, tanto a respeito do futuro próximo quanto do remoto. É admirável a vastidão como também a exatidão de Seus

conhecimentos. Ele podia citar e elucidar de maneira convincente e autoritária as Escrituras das várias religiões que Seus correspondentes ou inquiridores conheciam, embora nunca tivesse tido os meios usuais de acesso a muitos desses livros. Em A Epístola ao Filho do Lobo, Ele declara que nunca lera o Bayán, embora em Seus próprios Escritos Ele demonstre o mais perfeito conhecimento e compreensão da Revelação do Báb (O Báb, como vimos, declarou haver sido Sua Revelação, o Bayán, inspirada por “Aquele que Deus tornará manifesto”, e dEle emanado!) Com uma única exceção, a de uma visita que lhe fez em 1890 o professor Edward Granville Browne, a quem concedeu quatro entrevistas de vinte a trinta minutos cada uma, Bahá’u’lláh nenhuma oportunidade teve de estar em contato com os ilustres pensadores do Ocidente; não obstante, Seus Escritos mostram uma perfeita compreensão dos problemas sociais, políticos

e religiosos do mundo ocidental, e até mesmo Seus inimigos tiveram

que admitir serem incomparáveis Sua sabedoria e conhecimento. As bem conhecidas circunstâncias de Sua longa prisão tornam impossível duvidar-se de que a riqueza de conhecimento manifesta em Seus Escritos deve ter sido adquirida de alguma fonte espiritual,

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

inteiramente independente dos meios usuais de estudo ou instrução,

e do auxílio de livros ou professores*. Bahá’u’lláh algumas vezes escrevia em persa moderno, a língua comum de Seus compatriotas, a qual tem uma grande mescla de árabe. Outras vezes, por exemplo quando Se dirigia aos sábios zoroastrianos, Ele escrevia no mais puro persa clássico. Com igual fluência Ele também escrevia em árabe, ora em linguagem muito simples, ora em estilo clássico semelhante ao do Alcorão. Seu perfeito domínio desses diversos idiomas e estilos era notável em vista de Sua inteira falta de instrução literária. Em alguns de Seus Escritos o caminho da santidade é apontado em termos tão simples que “os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão” (Isaías, 35:8). Em outros há uma riqueza de

metáfora poética, filosofia profunda e alusões às escrituras muçulmanas, zoroastrianas e outras, ou à literatura e lendas da Pérsia

e da Arábia, como somente o poeta, o filósofo ou o erudito pode

adequadamente apreciar. Ainda outros tratam dos estágios adiantados da vida espiritual, e são compreensíveis somente para aqueles que já tenham passado pelos estágios anteriores. Suas obras são como uma mesa abundantemente provida de alimentos e iguarias adequadas às necessidades e agradáveis ao paladar de todos os que sinceramente buscam a verdade. É por isso que Sua Causa surtiu efeito entre os letrados e cultos, poetas espirituais e escritores de renome. Mesmo alguns dos mais eminentes dos sufis e de outras seitas, e alguns ministros de Estado que eram escritores, foram atraídos pelas Suas palavras, pois excediam as de qualquer outro autor quanto à doçura e à profundidade de significado espiritual.

O Espírito Bahá’í

Do local de Sua prisão na longínqua ‘Akká, Bahá’u’lláh emocionou profundamente Sua terra natal, a Pérsia, e não somente

a Pérsia, emocionou e continua emocionando o mundo. O espírito

*Ao ser perguntado se Bahá’u’lláh fizera um estudo especial das literaturas ocidentais, fundando Seus ensinamentos de acordo com elas, ‘Abdu’l-Bahá disse que os livros de

BAHÁULLÁH: A GLÓRIA DE DEUS

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que O animou, bem como aos Seus discípulos, era infalivelmente

gentil, cortês e paciente, porém de uma força de vitalidade admirável

e poder transcendente. Realizou o que parecia impossível:

transformou a natureza humana. Aqueles que se sujeitavam à sua influência tornavam-se novas criaturas. Estavam plenos de um amor, uma fé e um entusiasmo tão grandes que, comparados às alegrias e tristezas terrenas eram apenas como pó na balança. Eles estavam prontos a enfrentar o sofrimento por toda a vida ou uma morte violenta, com perfeita equanimidade, ainda mais, com alegria radiante, fortalecidos por sua inabalável confiança em Deus. E o mais admirável de tudo: seus corações transbordavam de contentamento por haverem atingido uma vida nova, a tal ponto que nenhum lugar neles restava para sentimentos de amargura ou

desejos de vingança contra seus opressores. Desistiram por completo do uso da violência, mesmo em defesa própria, e em vez de lastimarem sua sorte, consideravam-se os mais afortunados dos homens por terem o privilégio de receber esta nova e gloriosa Revelação e de dedicar a vida ou derramar o sangue em testemunho

à sua verdade. Bem podiam seus corações cantar de alegria, pois

acreditavam que Deus, o Supremo, o Eterno, o Bem-Amado, lhes falara através de lábios humanos, convocando-os a serem Seus servos e amigos; que Ele viera para estabelecer Seu Reino na terra e trazer Sua dádiva inestimável da Paz para um mundo exausto de luta e desgastado pelas guerras. Tal foi a fé inspirada por Bahá’u’lláh. Ele anunciou Sua própria missão, assim como o Báb predissera, e graças aos dedicados esforços de Seu grandioso Precursor, houve milhares prontos para aclamar Seu advento – milhares que haviam rejeitado as superstições e os preconceitos e, com corações puros e mentes abertas, aguardavam a Manifestação da Prometida Glória de Deus. Pobreza e grilhões,

circunstâncias sórdidas e ignomínia externa não lhes puderam ocultar

a Glória Espiritual de seu Senhor – não, antes, essas sombrias

condições terrestres serviram apenas para intensificar o brilho do Seu verdadeiro Esplendor.

Bahá’u’lláh, escritos e impressos em tempos tão remotos como a década de 1870, continham os ideais agora tão familiares no Ocidente, embora naquele tempo estas idéias não houvessem sido impressas ou sequer concebidas no Ocidente.

Capítulo 4

‘ABDUL-BAHÁ: O SERVO DE BAHÁ

Quando o oceano de Minha presença tiver refluído, e o Livro de Minha Revelação se achar completo, volvei vossas faces Àquele eleito por Deus, Aquele que brotou desta Raiz Antiga.

Bahá’u’lláh. O Kitáb-i-Aqdas, K121, pp. 50-51.

Nascimento e Infância

‘Abbás Effendi, que mais tarde adotou o título de ‘Abdu’l Bahá (isto é, Servo de Bahá), foi o filho mais velho de Bahá’u’lláh. Nasceu em Teerã, antes da meia-noite, na véspera do dia 23 de maio de 1844*, na mesma noite em que o Báb declarou Sua missão. Contava Ele nove anos de idade quando Seu pai, a Quem já com esta idade tinha grande devoção, foi encarcerado na masmorra de Teerã. Uma multidão saqueou Sua casa, espoliando a família dos bens e deixando-a em desamparo completo. ‘Abdu’l Bahá relata que um dia obteve permissão para entrar no pátio da prisão, a fim de ver Seu amado pai quando Ele saía para Seu exercício diário. Bahá’u’lláh estava terrivelmente alterado, tão doente que mal podia andar; Seu cabelo e barba em desordem, Seu pescoço ferido e inchado devido à pressão do pesado aro de aço, Seu corpo curvado pelo peso das correntes, e a cena causou tal impressão na mente do sensível menino que jamais se apagou. Durante o primeiro ano em que residiram em Bagdá, dez anos antes de haver Bahá’u’lláh declarado abertamente Sua Missão, a percepção aguda de ‘Abdu’l-Bahá, que tinha então apenas nove

*Quinta-feira, 5 de Jamádíyu’l-Avval, 1260 d.h.

‘ABDUL-BAHÁ: O SERVO DE BAHÁ

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anos de idade, conduziu-O à momentosa descoberta de que Seu pai era de fato o Prometido, cuja Manifestação todos os bábís esperavam. Cerca de sessenta anos depois, Ele assim descreveu o momento em que esta convicção, de repente, apoderou-se de toda a Sua natureza:

Sou o servo da Abençoada Perfeição. Ainda era criança, em Bagdá, quando Ele anunciou-me a Palavra e nEle acreditei. Logo que me proclamou a Palavra, lancei-me aos Seus abençoados pés, implorando-Lhe e suplicando-Lhe que aceitasse meu sangue como sacrifício em Seu Caminho. Sacrifício! Quão doce acho esta palavra! Não há maior dádiva para mim do que esta! Que maior glória posso eu conceber, do que a de ver este pescoço acorrentado por amor a Ele, estes pés agrilhoados por devoção a Ele, este corpo mutilado ou atirado às profundezas do mar pela Sua Causa! Se em realidade Lhe adoramos sinceramente, se em realidade sou Seu servo sincero, então devo sacrificar minha vida, tudo que possuo, em Seu Abençoado Limiar.

Diário de Mírzá Ahmad Sohrab, 3 de janeiro de 1914.

Foi naquele tempo que Seus amigos começaram a Lhe chamar de “O Mistério de Deus”, título que Lhe dera Bahá’u’lláh, pelo qual foi geralmente conhecido durante o período de residência em Bagdá. Quando Seu pai partiu e passou dois anos em solidão, ‘Abbás ficou inconsolável. Sua principal distração consistia em copiar e decorar as Epístolas do Báb, e grande parte de Seu tempo era empregada em meditação solitária. Quando, finalmente, Seu pai regressou, o menino não coube em si de contentamento.

Mocidade

A partir desse tempo, Ele tornou-se o mais íntimo companheiro de Seu pai e, por assim dizer, Seu protetor. Embora muito jovem, Ele já mostrava admirável perspicácia e discernimento,

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

incumbindo-Se de receber todos os inúmeros visitantes que vinham ver Seu pai. Só admitia à presença ‘Abdu’l-Bahá de Bahá’u’lláh aqueles que julgasse serem genuínos pesquisadores da verdade; do contrário, não permitia que incomodassem Bahá’u’lláh. Em muitas ocasiões ajudava Seu pai, respondendo às perguntas e solucionando as dificuldades desses visitantes. Quando, por exemplo, um dos líderes sufis, de nome ‘Alí Shawkat shá, pediu uma explicação da frase, “Eu era um Mistério Oculto”, que se encontra numa bem conhecida tradição muçulmana*, Bahá’u’lláh dirigiu-Se ao “Mistério de Deus”, ‘Abbás, e pediu-Lhe que desse a explicação por escrito. O rapaz, que contava então quinze ou dezesseis anos, escreveu imediatamente uma importante epístola, fazendo uma exposição tão elucidativa que o Páshá ficou pasmo. Esta epístola acha-se agora vastamente disseminada entre os bahá’ís, e é bem conhecida por muitas outras pessoas, fora da Fé Bahá’í. Nesse tempo, ‘Abbás visitava freqüentemente as mesquitas, onde discutia assuntos teológicos com os doutores e sábios. Nunca freqüentou qualquer escola ou universidade, sendo Seu pai, Seu único professor. Seu divertimento predileto era a equitação, pela qual tinha grande prazer. Após a Declaração de Bahá’u’lláh no Jardim dos arredores de Bagdá, a devoção de ‘Abdu’l-Bahá pelo Seu pai tornou-se maior do que nunca. Durante a longa jornada a Constantinopla, vigiava Bahá’u’lláh noite e dia, acompanhando a cavalo Sua carruagem e guardando Sua tenda. Ele auxiliava Seu pai tanto quanto possível nos cuidados e responsabilidades da casa, tornando-Se o esteio e o conforto de toda a família. Durante os anos passados em Adrianópolis, ‘Abdu’l-Bahá ganhou o afeto de todos. Ele ensinava muito, tornando-Se conhecido geralmente como o “Mestre”. Em ‘Akká, quando quase todos ficaram doentes, com tifo, malária e disenteria, Ele banhava os pacientes, cuidava deles, alimentava-os, vigiando-os sem descanso, até que, completamente exausto, Ele próprio foi acometido por uma disenteria e durante aproximadamente um mês permaneceu em

*Esta tradição é citada numa Epístola de Bahá’u’lláh. Vide capítulo 5 deste livro.

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estado grave. Em ‘Akká, como em Adrianópolis, todos, do governador ao mais humilde mendigo, vieram a amá-Lo e respeitá-Lo.

Casamento

As seguintes particularidades sobre o casamento de ‘Abdu’l Bahá foram gentilmente fornecidas ao autor por um historiador persa da Fé Bahá’í:

Durante a mocidade de ‘Abdu’l-Bahá, a questão de um casamento apropriado para Ele foi, naturalmente, de grande interesse para os adeptos, e muitas pessoas apresentaram-se desejosas de que tal coroa de honra coubesse à sua família. Durante muito tempo, porém, ‘Abdu’l-Bahá nenhuma inclinação demonstrou para o casamento, e ninguém compreendia a sabedoria disto. Soube-se depois que havia uma moça destinada a tornar-se esposa de ‘Abdu’l-Bahá, uma moça cujo nascimento se dera através da bênção concedida pelo Báb aos seus pais, em Isfahán. Ela pertencia a uma das grandes e nobres famílias de Isfahán, sendo seu pai, Mírzá Muhammad ‘Alí, tio do “Rei dos Mártires” e do “Bem-Amado dos Mártires”. Quando o Báb esteve em Isfahán, Mírzá Muhammad ‘Alí não tinha filhos, mas sua esposa tinha grande desejo de tê-los. Ao ouvir isto o Báb deu a ele uma porção de Seu alimento, dizendo-lhe que repartisse com sua esposa. Pouco depois de haverem tomado deste alimento, tornou-se evidente que suas esperanças de há tanto nutridas estavam prestes a serem realizadas, e no devido tempo nasceu-lhes uma filha, sendo-lhe dado o nome de Munírih Khánum*. Mais tarde, nasceu um filho, ao qual deram o nome de Siyyid Yahyá, e tiveram ainda outros filhos. Algum tempo depois, morreu ‘Abdu’l-Bahá o pai de Munírih, seus primos foram martirizados pelo Zillu’s-Sultán e pelos mullás, e a família encontrava-se em grandes dificuldades e severas perseguições por serem bahá’ís. Bahá’u’lláh permitiu então que Munírih

*É interessante comparar esta história com a do nascimento de João Batista. Vide Evangelho de São Lucas, capítulo 1.

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e seu irmão Siyyid Yahyá viessem a ‘Akká por motivo de segurança. Bahá’u’lláh e Sua esposa, Navváb, genitora de ‘Abdu’l-Bahá, dispensavam tanta bondade e estima a Munírih que todos perceberam que eles queriam que ela se tornasse a esposa de ‘Abdu’l-Bahá. O desejo dos pais tornou-se o desejo de ‘Abdu’l-Bahá também. Ele tinha um terno sentimento de amor e afeição por Munírih, que era inteiramente correspondido, e dentro em breve uniram-se em casamento.

O casamento foi extremamente feliz e harmonioso. Dos filhos que tiveram, quatro filhas sobreviveram aos rigores de seu longo encarceramento e, através das suas belas vidas de serviço, elas tornaram- se queridas de todos que tiveram o privilégio de conhecê-las.

Centro do Convênio

Bahá’u’lláh indicou de várias maneiras que, após a Sua própria ascensão, ‘Abdu’l-Bahá deveria assumir a direção da Causa. Muitos anos antes de Sua morte, fez esta declaração de maneira velada no Kitáb-i-Aqdas. Em várias ocasiões referiu-Se a ‘Abdu’l-Bahá como “O Centro de Meu Convênio”, “O Supremo Ramo”, “O Ramo da Raiz Antiga”. Costumava chamá-Lo “O Mestre” e exigia que toda a família O tratasse com especial deferência; e em Sua Vontade e Testamento deixou instruções explícitas para que todos a Ele se dirigissem e obedecessem. Após a morte da “Abençoada Beleza” (título pelo qual Bahá’u’lláh era geralmente chamado por Sua família e Seus adeptos), ‘Abdu’l Bahá assumiu a posição que Seu pai claramente Lhe indicara:

dirigente da Causa e autorizado Intérprete dos ensinamentos, porém isto foi causa de muito ressentimento de alguns de Seus parentes e outras pessoas, os quais tornaram-se tão cruéis opositores a ‘Abdu’l- Bahá, quanto Subh-i-Azal havia sido a Bahá’u’lláh. Tentaram semear dissensões entre os adeptos e, sendo nisso mal sucedidos, fizeram várias acusações falsas contra ‘Abdu’l-Bahá ao governo turco.

‘ABDUL-BAHÁ: O SERVO DE BAHÁ

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Seguindo as instruções recebidas de Seu pai, ‘Abdu’l Bahá estava erigindo um monumento no Monte Carmelo, no alto de Haifa, destinado a ser o permanente local de repouso dos restos mortais do Báb e ter também alguns salões para reuniões e conferências. As autoridades foram falsamente informadas de que ali se construía uma fortaleza, onde ‘Abdu’l-Bahá e os adeptos pretendiam entrincheirar-se, desafiar o governo e tentar apossar-se da vizinha região da Síria.

Renova-se a Prisão Rigorosa

Há mais de vinte anos, ‘Abdu’l-Bahá e Sua família tinham liberdade para andar pelo campo ao redor de ‘Akká, dentro de algumas milhas, mas agora, no ano de 1901, em conseqüência destas e de outras acusações igualmente sem fundamento, foram outra vez estritamente confinados dentro dos muros da cidade-prisão por mais de sete anos. Isso, porém, não O impediu de disseminar eficientemente a mensagem bahá’í na Ásia, Europa e América. Sobre este período, assim escreve Horace Holley:

A ‘Abdu’l-Bahá, como instrutor e amigo, vinham homens e

mulheres de todas as raças, religiões e nacionalidades, para sentar-se à Sua mesa como hóspedes privilegiados, pedindo Sua opinião sobre o programa social, espiritual ou moral, que mais tocasse o coração de cada um; e depois de uma permanência que variava entre algumas horas e muitos meses,

voltavam para casa inspirados, renovados e esclarecidos. Certamente, o mundo jamais possuiu uma casa de hospitalidade igual a essa. Dentro de suas portas, as rígidas castas da Índia desvaneciam-se, e o preconceito de raça – fosse do judeu, cristão ou muçulmano – tornava-se menos que um vestígio;

e desmoronava-se todo critério que não fosse a lei essencial de corações ardentes e aspirações elevadas, banido e proibido pela cordialidade unificadora do dono da casa. Era como um

rei Artur e a Távola Redonda

mas um Artur que condecorava

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mulheres tanto quanto homens, conduzindo-os não com a espada, mas com a Palavra.

Horace Holley. The Modern Social Religion, p. 171.

Durante esses anos, ‘Abdu’l-Bahá manteve uma enorme correspondência com adeptos e pessoas desejosas de informações, de todas as partes do mundo. Foi grandemente auxiliado por Suas filhas nesse trabalho, além dos vários intérpretes e secretários. Grande parte de Seu tempo era despendida com as visitas aos doentes e aflitos, em suas próprias casas; e nos bairros mais pobres de ‘Akká nenhum visitante era mais bem-vindo que o “Mestre”. Assim escreve um peregrino que ali esteve nesse tempo:

É hábito de ‘Abdu’l-Bahá distribuir esmolas aos pobres toda

semana, na sexta-feira pela manhã. De seus poucos haveres,

dá um pouco a cada necessitado que vem pedir ajuda. Esta manhã cerca de cem estavam em fila, sentados e agachados

na rua defronte ao largo onde fica a casa de ‘Abdu’l-Bahá. E que indefinível conglomeração de seres humanos eram eles. Toda espécie de homens, mulheres e crianças – pobres, infelizes, de aspecto desesperador, seminus, muitos deles aleijados e cegos, mendigos na verdade, totalmente desprovidos – aguardando esperançosos – até que ‘Abdu’l

Indo rapidamente de um a outro,

parando algumas vezes para dar uma palavra de solidariedade

e incentivo, deixando cair pequenas moedas em cada mão

Bahá surgisse à porta

ansiosamente estendida, tocando a face de uma criança, tomando a mão de uma mulher idosa que quase se segurava

à orla de Suas vestes enquanto Ele passava, dizendo palavras

iluminadoras a homens velhos e cegos, perguntando pelos que eram demasiado fracos e infortunados para virem receber seu quinhão de auxílio, e enviando-lhes sua porção com uma mensagem de amor e elevação espiritual.

Glimpses of Abdul Baha, p. 13.

‘ABDUL-BAHÁ: O SERVO DE BAHÁ

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Poucas eram as necessidades pessoais de ‘Abdu’l-Bahá. Ele começava Seu trabalho de madrugada e só o deixava tarde da noite. Duas refeições simples por dia Lhe eram suficientes. Seu vestuário consistia de umas poucas peças de tecidos modestos. Ele não podia admitir o luxo enquanto havia necessitados. Tinha um grande amor às crianças, às flores e às belezas da natureza. Cada manhã, às seis ou sete horas, a família costumava reunir-se para tomarem juntos o chá da manhã e, enquanto o Mestre servia o Seu chá, as crianças entoavam preces. O sr. Thornton Chase escreve sobre essas crianças:

Nunca vi crianças como estas, tão corteses, desprendidas, atenciosas com os outros, jamais inoportunas, inteligentes e sempre prontas a privarem-se das pequenas coisas das quais as crianças gostam muito

In Galilee, p. 51.

O “ministério das flores” era uma característica da vida de ‘Akká, da qual cada peregrino levava consigo fragrantes recordações. A sra. Lucas escreve:

É impressionante ver o Mestre inalar o odor das flores. É como se o perfume dos jacintos Lhe estivesse segredando alguma coisa, enquanto mergulha o Seu rosto nas flores. É como o esforço do ouvido para ouvir uma bela harmonia – uma atenção concentrada!

A Brief Account of My Visit to ‘Akká, pp. 25-26.

Ele adorava presentear Seus numerosos visitantes com belas flores de doces aromas. Thornton Chase dá sua impressão sobre a vida na prisão em ‘Akká, como segue:

Cinco dias passamos dentro daquelas paredes, prisioneiros com Aquele que habita na “Maior Prisão”. É uma prisão de

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paz, de amor e serviço. Nenhuma vontade, nenhum desejo há ali, senão o bem da humanidade, a paz do mundo, o reconhecimento da Paternidade de Deus e dos mútuos direitos dos homens como Suas criaturas, Seus filhos. De fato, a verdadeira prisão, a atmosfera sufocante, a separação de todos os verdadeiros desejos do coração, o vínculo às condições terrenas, estão fora dessas paredes de pedra, enquanto que por dentro delas encontram-se a liberdade e a pura aura do Espírito de Deus. Todos os problemas, tumultos, aflições ou ansiedades pelas coisas do mundo estão dela excluídos.

In Galilee, p. 24.

As durezas da vida de prisão pareceriam calamidades lastimáveis para a maioria das pessoas, mas a ‘Abdu’l Bahá nenhum terror causaram. Enquanto na prisão, Ele escreveu:

Não vos inquieteis por causa de meu aprisionamento e calamidade, pois esta prisão é meu belo jardim, meu paraíso e meu trono de domínio entre a humanidade. Meu flagelo em minha prisão é uma coroa para mim, a qual me glorifica entre os retos. Qualquer um pode ser feliz na condição de conforto, sossego, saúde, sucesso, prazer e contentamento; mas se alguém estiver feliz e contente em tempo de infortúnio, penúria e enfermidade prolongada, isso é uma prova de nobreza.

Tablets of Abdul-Baha, vol. II, pp. 258 e 263.

Comissões Turcas de Investigação

Em 1904 e 1907 o governo turco nomeou comissões para investigar as acusações contra ‘Abdu’l-Bahá e testemunhas mentirosas prestaram declarações falsas contra Ele. ‘Abdu’l-Bahá, enquanto as refutava, expressou Sua total prontidão em submeter-Se a qualquer sentença que o tribunal Lhe impusesse. Declarou que se O

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encarcerassem, arrastassem pelas ruas, amaldiçoassem, apedrejassem, submetessem a toda sorte de ignomínia, enforcassem ou fuzilassem, ainda assim estaria contente. Nos intervalos entre as sessões da Comissão de Investigação, Ele prosseguia Sua vida usual com a maior serenidade, plantando árvores frutíferas em um jardim ou presidindo uma festa matrimonial com a dignidade e a radiância da liberdade espiritual. O cônsul espanhol ofereceu-se para arranjar-Lhe passagem segura para qualquer porto estrangeiro que Ele quisesse, mas embora grato, Ele recusou firmemente essa oferta, dizendo que quaisquer que fossem as conseqüências, deveria seguir os passos do Báb e da Abençoada Perfeição, que nunca tentaram proteger-Se ou fugir de Seus inimigos. Ele encorajou a maioria dos bahá’ís, entretanto, a sair dos arredores de ‘Akká, que se havia tornado muito perigosa para eles, permanecendo sozinho, com apenas alguns dos fiéis, à espera de Seu destino. Os quatro oficiais corruptos que constituíam a última Comissão de Investigação, chegaram a ‘Akká no começo do inverno de 1907, onde permaneceram durante um mês e partiram para Constantinopla, depois de concluir a assim chamada ‘investigação’, resolvidos a declarar que as acusações contra ‘Abdu’l-Bahá foram comprovadas e a recomendar Seu exílio ou execução. Assim que regressaram à Turquia, entretanto, irrompeu a revolução e os quatro membros da Comissão, por serem do regime antigo, tiveram que fugir. Os Jovens Turcos estabeleceram sua supremacia, e todos os presos políticos e religiosos no Império Otomano foram postos em liberdade. Em setembro de 1908 ‘Abdu’l-Bahá foi libertado da prisão e, no ano seguinte, o próprio sultão ‘Abdu’l-Hamid foi feito prisioneiro.

Viagens ao Ocidente

Após ser posto em liberdade ‘Abdu’l Bahá continuou a mesma vida de santidade, de incessante atividade no ensino, na correspondência e no auxílio ao pobre e ao enfermo, apenas

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mudando-Se de ‘Akká para Haifa e de Haifa para Alexandria, até agosto de 1911, quando partiu para Sua primeira visita ao mundo ocidental. Nessas viagens ‘Abdu’l-Bahá esteve com pessoas das mais variadas opiniões, e cumpriu plenamente o mandamento de Bahá’u’lláh: “Associai-vos a todos os povos com alegria e contentamento.” Nos primeiros dias de setembro de 1911 Ele chegou a Londres, onde passou um mês, durante o qual além das palestras diárias com pesquisadores e de muitas outras atividades, falou à congregação do rev. R. J. Campbell no City Temple, e à do arquidiácono Wilberforce em St. John’s, Westminster e almoçou com o lord Mayor [prefeito de Londres]. Dirigiu-Se em seguida a Paris, onde Seu tempo foi ocupado em entrevistas e palestras diárias a ouvintes entusiastas de muitos tipos e nacionalidades. Em dezembro Ele voltou ao Egito e, na primavera seguinte, acedendo aos ardorosos pedidos dos amigos americanos, embarcou para os Estados Unidos, chegando em Nova Iorque em abril de 1912. Durante os nove meses seguintes Ele percorreu a América do Norte, de costa a costa, dirigindo-Se a pessoas de toda espécie e condição, estudantes universitários, socialistas, mórmons, judeus, cristãos, céticos, esperantistas, sociedades pró-paz, clubes de Novos Pensamentos, sociedades para sufrágio feminino, e falando em igrejas de quase todas as denominações, fazendo em cada caso discursos apropriados à audiência e à ocasião. Em 5 de dezembro embarcou para a Grã-Bretanha, onde passou seis semanas, visitando Liverpool, Londres, Bristol e Edimburgo. Em Edimburgo Ele fez um notável discurso na Sociedade de Esperanto, no qual declarou haver encorajado os bahá’ís do Oriente a estudarem o Esperanto, a fim de promoverem melhor entendimento entre o Oriente e o Ocidente. Após dois meses em Paris, passados, como antes, em entrevistas e conferências diárias, Ele partiu para Stuttgart, onde realizou uma série de conferências de grande sucesso entre os bahá’ís alemães.

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Dirigiu-Se depois a Budapeste e Viena, fundando novos grupos nestes lugares e regressando ao Egito em maio de 1913; e em 5 de dezembro do mesmo ano voltou para Haifa.

Regresso à Terra Santa

Contava Ele então setenta anos, e as longas e árduas atividades culminando nestas estafantes viagens pelo Ocidente, haviam esgotado Seu corpo físico. Depois de Seu regresso, ‘Abdu’l-Bahá fez o seguinte comovente comentário dirigido aos adeptos orientais:

Amigos! Está chegando o tempo quando não mais estarei

entre vós. Tenho feito tudo que podia ser feito. Tenho servido a Causa de Bahá’u’lláh até o máximo de minha capacidade. Tenho trabalhado dia e noite, todos os anos de minha vida.

Ó! Como desejo ver os amados assumindo as responsabilidades

da Causa! Agora é tempo de proclamar o Reino de Bahá! Agora é hora de amor e união! Este é o dia da harmonia espiritual dos amados de Deus! Tenho exaurido todos os

recursos de minha força física, e o espírito da minha vida são

as notícias bem-vindas da unidade do povo de Bahá. Estou

dirigindo meus ouvidos na direção do leste e na direção do

oeste, na direção do norte e na direção do sul, quiçá possa ouvir as canções de amor e companheirismo entoadas nas reuniões dos fiéis. Meus dias estão contados, e, não resta alegria alguma para mim senão esta. Ó! Como anseio ver os amigos unidos como um colar de pérolas cintilantes, como

as

brilhantes plêiades, como os raios do Sol, como as gazelas

de

um prado!

O Rouxinol místico está gorjeando para eles todos. Não vão escutar? A Ave do Paraíso está cantando. Não lhe prestarão

atenção? O Anjo de Abhá está chamando-os. Não O ouvirão?

O Arauto do Convênio está suplicando. Não obedecerão?

Ah, eu estou esperando, esperando ouvir as jubilosas notícias de que os crentes são a própria personificação de

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sinceridade e veracidade, a encarnação de amor e amizade, os símbolos vivos de unidade e concórdia. Não irão alegrar meu coração? Não satisfarão meu anseio? Não manifestarão meu desejo? Não cumprirão o desejo do meu coração? Não darão ouvidos a meu chamado? Estou esperando, esperando pacientemente.

Introdução de A Última Vontade e Testamento, pp. xlii-xliii.

Os inimigos da Causa Bahá’í, cujas esperanças atingiram o ápice quando o Báb caiu vítima de sua fúria, quando Bahá’u’lláh foi expulso de Sua terra natal e feito um prisioneiro perpétuo, e novamente com o passamento de Bahá’u’lláh – esses inimigos vibraram uma vez mais quando viram a fraqueza física e o cansaço de ‘Abdu’l-Bahá após Seu regresso do Ocidente. Mas novamente suas esperanças estavam fadadas ao desapontamento. Em pouco tempo ‘Abdu’l Bahá pôde escrever:

Inquestionavelmente este corpo físico e energia humana não

teriam sido capazes de resistir ao constante desgaste

apoio e o auxílio do Desejado foi o Guardião e Protetor do

Têm alguns dito que ‘Abdu’l-

Bahá está prestes a se despedir deste mundo, que as suas energias físicas estão depauperadas e esgotadas, e que dentro em breve essas complicações hão de pôr termo à sua vida. Isto está longe da verdade. Embora na opinião dos rompedores do Convênio e deficientes mentais, seu corpo seja fraco em conseqüência das vicissitudes no Caminho Abençoado, ainda, graças a Deus, através da providência da Abençoada Perfeição, as forças espirituais estão no maior rejuvenescimento e vigor. Graças a Deus, através do favor e bênção de Bahá’u’lláh, mesmo as energias físicas estão inteiramente restauradas, alegria divina é obtida, as supremas boas novas estão resplandecentes e a felicidade ideal transbordando.

fraco e humilde ‘Abdu’l-Bahá

mas o

Star of the West , vol. V, n o 14, p. 213.

‘ABDUL-BAHÁ: O SERVO DE BAHÁ

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Não só durante a guerra européia como depois, ‘Abdu’l Bahá, em meio a inúmeras outras atividades pôde escrever uma série de extensas e inspiradas cartas que, depois de reabertas as comunicações, despertou nos crentes do mundo inteiro novo entusiasmo e zelo. Sob a inspiração dessas cartas a Causa cresceu rapidamente, e por toda parte a Fé mostrava sinais de nova vitalidade e vigor.

Haifa Durante a Guerra

Houve um exemplo notável da previsão que ‘Abdu’1 Bahá fez durante os meses que precederam imediatamente a guerra. Nos tempos de paz, havia usualmente um grande número de peregrinos em Haifa, vindos da Pérsia e de outras regiões do globo. Cerca de seis meses antes de irromper a guerra, um dos bahá’ís antigos que residia em Haifa apresentou um pedido de vários adeptos da Pérsia

para que lhes fosse permitido visitar o Mestre. ‘Abdu’1-Bahá não concedeu a permissão e, daí em diante, foi gradualmente dispensando os peregrinos que se achavam em Haifa, de modo que no final de julho de 1914 já não restava nenhum. Quando, em princípios de agosto, o estouro repentino da grande guerra assombrou o mundo,

a sabedoria da Sua precaução tornou-se evidente. Quando a guerra irrompeu, ‘Abdu’l-Bahá, que já havia passado

cinqüenta e cinco anos de Sua vida em exílio e prisão, veio a ser mais uma vez virtualmente prisioneiro do governo turco. As comunicações com amigos e crentes fora da Síria foram quase inteiramente interrompidas, ficando Ele e o Seu pequeno grupo de seguidores novamente sujeitos a circunstâncias difíceis, à escassez de alimentos,

e a grandes transtornos e perigos. Durante a guerra, ‘Abdu’l-Bahá esteve muito ocupado em atender às necessidades materiais e espirituais daqueles que O rodeavam. Organizou pessoalmente extensos serviços agrícolas perto de Tibérias, garantindo desse modo um grande suprimento de trigo, através do qual foi evitada a fome não somente entre os bahá’ís como também entre centenas de pobres de todas as religiões em

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Haifa e ‘Akká, cujas necessidades Ele liberalmente supriu. Ele cuidou de todos, mitigando seus sofrimentos tanto quanto possível. A centenas de pobres Ele dava diariamente uma pequena quantia. Além de dinheiro, distribuía pão. Quando não havia pão, Ele dava tâmaras ou outro alimento. Fazia freqüentes visitas a ‘Akká a fim de ali confortar e ajudar os bahá’ís e os pobres. Durante o tempo da guerra Ele tinha reuniões diárias com os adeptos, e através de Seu auxílio mantinham-se contentes e tranqüilos durante todos aqueles anos conturbados.

Sir ‘Abdu’l-Bahá ‘Abbás, K. B. E.

Grande foi a alegria em Haifa quando, às 15 horas de 23 de setembro de 1918, após umas vinte e quatro horas de combate, a cidade foi tomada pelas cavalarias britânica e indiana, assim fazendo cessar as horrorosas condições de guerra sob o regime turco. Desde o início da ocupação britânica, grande número de soldados e oficiais de todos os graus, até do mais alto, procurava entrevistas com ‘Abdu’l-Bahá, deleitando-se com a Sua palavra cheia de luz, Sua largueza de visão, profundeza de percepção, Sua cortesia, dignidade e genial hospitalidade. Tão profundamente impressionados ficaram os representantes do governo pelo Seu nobre caráter e pela Sua grandiosa obra em prol da conciliação para a paz e da verdadeira prosperidade do povo, que o título de cavaleiro do império britânico foi conferido a ‘Abdu’l-Bahá, tendo a cerimônia se realizado no jardim do governador militar de Haifa, aos 27 dias do mês de abril de 1920.

Últimos Anos

Durante o inverno de 1919-1920, o autor teve o grande privilégio de passar dois meses e meio como hóspede de ‘Abdu’l Bahá em Haifa, podendo assim observar intimamente Sua vida cotidiana. Nesse tempo, embora com quase setenta e seis anos de

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idade, Ele estava ainda muito vigoroso e realizava diariamente um trabalho quase incrível. Ainda que muitas vezes fatigado, Ele mostrava um admirável poder de recuperação, e Seus serviços estavam sempre ao dispor daqueles que mais os necessitavam. Sua infalível paciência, docilidade, bondade e tato fizeram da Sua presença uma bênção. Era Seu costume passar grande parte de cada noite em oração e meditação. Desde o amanhecer até a noite, com exceção de uma breve sesta depois do almoço, estava Ele sempre muito ocupado em ler e responder cartas de vários países, e em dirigir os múltiplos afazeres da família e da Causa. À tarde, Ele usualmente fazia um pequeno relaxamento, na forma de uma caminhada ou um passeio de carruagem, mas quase sempre acompanhado de um, dois ou mais peregrinos, com os quais conversaria sobre assuntos espirituais, ou encontraria no caminho alguma oportunidade de visitar e auxiliar alguns pobres. Ao regressar, convidava os amigos para a costumeira reunião noturna em Seu salão. Não só no almoço como no jantar, Ele costumava entreter um bom número de peregrinos e amigos, e encantava Seus hóspedes com histórias alegres e cheias de humor, como também com palestras preciosas sobre assuntos os mais variados. “Minha casa é a casa do riso e da alegria”, dizia Ele e, de fato, assim era. Sentia grande prazer em reunir pessoas de várias raças, cores, nações e religiões, em espírito de unidade e cordial amizade ao redor de Sua mesa hospitaleira. Era realmente um pai amoroso não só para a pequena comunidade de Haifa como também para a comunidade bahá’í inteira, no mundo todo.

O Falecimento de ‘Abdu’l-Bahá

As múltiplas atividades de ‘Abdu’l-Bahá continuaram com pequena diminuição a despeito da crescente fraqueza física e fadiga, até o último ou penúltimo dia de Sua vida. Na sexta-feira, 25 de novembro de 1921, Ele assistiu à prece do meio-dia na mesquita de Haifa, distribuindo, em seguida, esmolas entre os pobres com Suas próprias mãos, como era Seu costume. Após o almoço Ele ditou

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algumas cartas. Depois de um pequeno descanso, foi passear no jardim, onde conversou com o jardineiro. À noite deu Sua bênção e conselho a um estimado e fiel servo da casa que havia se casado nesse dia, assistindo, logo após, à reunião usual dos bahá’ís em Seu próprio salão. Menos de três dias depois, na segunda-feira, 28 de novembro, à l hora e 30 minutos da madrugada, Ele expirava, tão tranqüilamente que, às duas filhas que estavam ao Seu lado, pareceu que Ele estava dormindo. A triste notícia cedo espalhou-se pela cidade e foi difundida pelo telégrafo por toda parte do mundo. O funeral foi realizado na manhã seguinte, terça-feira, 29 de novembro:

funeral o qual nem Haifa, nem a Palestina nunca haviam

visto. Tão profundo eram os sentimentos que uniu milhares de pessoas, representantes de várias religiões, raças e línguas.

O alto comissário da Palestina, sir Herbert Samuel, o

governador de Jerusalém, o governador da Fenícia, os altos funcionários do governo, os cônsules de vários países residentes em Haifa, os líderes de várias comunidades religiosas, as altas personalidades da Palestina, judeus, cristãos, muçulmanos, drusos, egípcios, gregos, turcos, curdos e uma hoste de Seus amigos americanos, europeus e nativos, homens,

mulheres e crianças, tanto de classes altas como de classes baixas, ao todo, cerca de dez mil, chorando a perda de seu Amado

— Ó Deus, meu Deus – o povo pranteava num só coro –

Nosso pai nos deixou, nosso pai nos deixou! Conforme subiam lentamente o Monte Carmelo, a Vinha de Deus, o ataúde parecia, à distância, estar sustentado por

mãos invisíveis, de tão alto acima das cabeças do povo era ele carregado. Depois de duas horas de caminhada, chegaram ao jardim do Santuário do Báb

o enorme grupo se amontoava ao redor do

tabernáculo de Seu corpo que aguardava para ser depositado

em Seu lugar de repouso, dentro da câmara contígua à do

um

Enquanto

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Báb, os representantes das várias denominações muçulmanas, cristãs e judias, todos com corações ardentes pelo fervoroso amor a ‘Abdu’l-Bahá, uns levados pelo impulso do momento, outros com preparo, ergueram suas vozes em elogio e lástima, prestando sua última homenagem de despedida ao seu Amado. Tão unidos estavam em aclamá-Lo como o educador e reconciliador sábio da raça humana nesta era perplexa e triste, que parecia restar nada para os bahá’ís dizerem.

Introdução de A Última Vontade e Testamento, pp. xviii-xx.

Nove oradores, todos eles proeminentes representantes das comunidades muçulmana, cristã e judaica, prestaram eloqüentes e comoventes testemunhos de seu amor e admiração pela pura e nobre vida que acabava de findar-se. Então o ataúde foi suavemente colocado na simples e sagrada sepultura. Seguramente, esse foi um tributo à altura da memória dAquele que labutou durante toda a Sua vida pela unidade das religiões, raças e línguas – um tributo e também uma prova de que Sua vida de trabalho não fora em vão, de que os ideais de Bahá’u’lláh que eram Sua inspiração, ainda mais, Sua própria vida, já começavam a difundir-se pelo mundo e a destruir as barreiras constituídas pelas seitas e castas que, por séculos, vinham separando muçulmanos, cristãos, judeus e as diversas outras facções nas quais a família humana se havia dividido.

Escritos e Discursos

Os Escritos de ‘Abdu’l-Bahá são muito numerosos e estão, na maior parte, em forma de cartas aos bahá’ís e a inquiridores. Grande número de Seus discursos e palestras foi registrado e muitos foram publicados. Dos milhares de peregrinos que O visitaram em ‘Akká e Haifa, muitos descreveram suas impressões, e alguns destes registros acham-se impressos. Assim estão completamente preservados Seus ensinamentos, os quais abrangem uma grande variedade de assuntos. A respeito de

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vários problemas tanto do Oriente quanto do Ocidente, Ele tratou mais amplamente do que o fizera Seu pai, dando aplicações mais detalhadas dos princípios gerais determinados por Bahá’u’lláh. Muitos desses Seus Escritos não foram traduzidos ainda para nenhuma língua ocidental, mas já há o bastante para dar um conhecimento amplo e profundo dos princípios mais importantes dos Seus ensinamentos. Ele falava o persa, o árabe e o turco. Nas viagens ao Ocidente, as palestras eram sempre traduzidas, com o que certamente muito perdiam de sua beleza, eloqüência e força; não obstante, tal era o poder do Espírito que acompanhava Suas palavras que todos que O ouviam ficavam impressionados.

Posição de ‘Abdu’l-Bahá

A Abençoada Perfeição indica na seguinte passagem a

incomparável posição que designara a ‘Abdu’l-Bahá:

Quando o oceano de Minha presença tiver refluído, e o Livro de Minha Revelação se achar completo, volvei vossas faces Àquele eleito por Deus, Aquele que brotou desta Raiz Antiga.

Bahá’u’lláh. O Kitáb-i-Aqdas, K121, pp. 50-51.

E outra vez:

para

qualquer coisa no Livro que não compreendais, dirigi-

vos Àquele que ramificou deste poderoso Tronco.

O próprio ‘Abdu’l-Bahá escreveu o seguinte:

Segundo o texto explícito do Kitáb-i-Aqdas, Bahá’u’lláh designou o Centro do Convênio para ser o Intérprete da Sua Palavra – um Convênio tão firme e poderoso que, desde o princípio do tempo até o dia presente, nenhuma Dispensação religiosa produziu outro semelhante.

‘ABDUL-BAHÁ: O SERVO DE BAHÁ

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Foi exatamente pela completa servitude com que ‘Abdu’l-Bahá promulgava a Fé de Bahá’u’lláh por todo o Oriente e o Ocidente que resultava algumas vezes em confusão na crença dos adeptos a respeito de Sua posição. Percebendo a pureza do espírito que animava Suas palavras e ações, cercados como estavam de influências religiosas que assinalavam o desmoronamento das doutrinas tradicionais, alguns bahá’ís imaginavam que honrariam ‘Abdu’l-Bahá comparando-O a um Manifestante ou saudando-O como a “volta de Cristo”. Nada Lhe causou tão intensa tristeza como essa falha em perceber que Sua capacidade de servir Bahá’u’lláh procedia da pureza do espelho voltado para o Sol da Verdade, e não do próprio Sol. Além disso, diferente das Revelações anteriores, a Fé trazida por Bahá’u’lláh continha a potência de uma sociedade humana universal. Durante a missão de ‘Abdu’l-Bahá, que abrangeu o período de 1892 a 1921, a Fé evoluiu através de etapas sucessivas de desenvolvimento na direção de uma verdadeira ordem mundial. Seu desenvolvimento necessitou de uma contínua orientação e de instruções específicas por parte de ‘Abdu’l-Bahá, único conhecedor da plenitude dessa nova e potente inspiração trazida à terra nesta época. Até o falecimento de ‘Abdu’l-Bahá, quando se tornou conhecida Sua Última Vontade e Testamento, sendo sua significação exposta por Shoghi Effendi, o Guardião da Fé, os bahá’ís quase que inevitavelmente atribuíam à orientação de seu bem-amado Mestre um grau de autoridade espiritual que se igualava ao do Manifestante. Não mais se notam os efeitos de tão ingênuo entusiasmo dentro da comunidade bahá’í. Tendo os bahá’ís adquirido uma compreensão mais nítida do mistério daquelas incomparáveis devoção e servitude, tanto mais conscientemente podem hoje apreciar o caráter extraordinário da missão cumprida por ‘Abdu’l-Bahá. A Fé que parecia tão fraca e impotente em 1892, em vista do exílio e encarceramento de seu Exemplo e Intérprete, tem, desde aquele tempo, com poder irresistível, levantado comunidades em muitos países*, e desafia a fraqueza de uma civilização decadente com

*Desde a publicação da primeira edição deste livro em 1928, a Fé a tal ponto se difundiu pelo mundo que existem agora bahá’ís residindo em mais de 220 países e territórios (em mais de 110.000 localidades). Para informações atualizadas acessar sites da web. (n.e.)

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

ensinamentos que são únicos em revelar o futuro de uma humanidade desesperada. A Última Vontade e Testamento de ‘Abdu’l-Bahá expõe com perfeita clareza o mistério das posições do Báb e de Bahá’u’lláh, e Sua própria missão:

É esse o fundamento da crença do povo de Bahá (seja minha vida sacrificada por Eles). Sua Santidade, o Excelso (o Báb), é a manifestação da Unidade Divina e o Precursor da Antiga Beleza. Sua Santidade, a Beleza de Abhá, (seja minha vida um sacrifício por Seus amigos fiéis!) é o Supremo Manifestante de Deus e a Aurora de Sua Mais Divina Essência. Todos os demais são Seus servos e fazem o que Ele ordena.

A Última Vontade e Testamento, p. 22.

Por esta e por muitas outras afirmações nas quais ‘Abdu’l Bahá acentuou a importância de fundamentar o conhecimento da Fé em Suas Epístolas gerais, ficou estabelecido um alicerce para a unidade de crença, que resultou no rápido desaparecimento das diferenças de compreensão causadas pela referência às Suas Epístolas ‘Abdu’l- Bahá endereçadas a indivíduos, nas quais o Mestre respondia a perguntas pessoais. Acima de tudo, o estabelecimento de uma bem definida ordem administrativa, dirigida pelo Guardião, transferiu às instituições toda a autoridade anteriormente exercida ‘Abdu’l- Bahá na forma de prestígio e influência dos bahá’ís individualmente, nos vários grupos locais.

Exemplo de Vida Bahá’í

Bahá’u’lláh foi o proeminente Revelador do Verbo. Seus quarenta anos de prisão deram-Lhe apenas limitadas oportunidades para contato com Seus semelhantes. A ‘Abdu’l-Bahá, portanto, coube a importante incumbência de expoente da Revelação, o Executor

‘ABDUL-BAHÁ: O SERVO DE BAHÁ

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do Verbo, o Grande Exemplar da vida bahá’í em real contato com o mundo hodierno nas mais diversas fases de sua miríade de atividades. Ele mostrou ser ainda possível, em meio ao intenso torvelinho que é a vida moderna, em meio ao egoísmo e à luta pela prosperidade material que em toda parte prevalecem, ter-se uma vida de inteira devoção a Deus e serviço ao próximo, assim como Cristo e Bahá’u’lláh e todos os Profetas exigiram dos homens. Por um lado, rodeado de provações e vicissitudes, calúnias e perfídia, e por outro, de amor e louvor, devoção e veneração, Ele manteve-Se como um farol edificado numa rocha, no inverno, batido pelas tempestades em fúria, no verão, acariciado pelo oceano, Seu porte e serenidade permanecendo sempre firmes e inabaláveis. Ele viveu a vida de fé, e exorta Seus seguidores a vivê-la aqui, neste mundo, e agora. Ele ergueu em meio a um mundo belicoso a Bandeira da Unidade e da Paz, o Estandarte de uma Nova Era, e assegura àqueles que se levantem em seu apoio que serão inspirados pelo Espírito do Novo Dia. É o mesmo Espírito Santo que inspirou os Profetas e Santos da Antigüidade, mas é uma nova emanação desse Espírito, apropriada às necessidades do novo tempo.

Capítulo 5

QUE É UM BAHÁÍ?

O homem deve produzir frutos. Quem não dá fruto algum é – nas palavras do Espírito (Jesus) – semelhante a uma árvore infrutífera, a qual não é digna, senão do fogo.

Bahá’u’lláh. Epístolas de Bahá’u’lláh, p. 70.

Disse uma vez Herbert Spencer, que por nenhuma alquimia política é possível extrair conduta áurea de instintos de chumbo, e é também verdade que por nenhuma alquimia política é possível extrair uma sociedade áurea de indivíduos de chumbo. Bahá’u’lláh, como todos os Profetas anteriores, proclamou esta verdade e ensinou que, a fim de estabelecer o Reino de Deus na terra, primeiro era preciso fazê-lo no coração dos homens. Ao examinarmos os ensinamentos bahá’ís, portanto, começaremos pelas instruções de Bahá’u’lláh sobre a conduta individual, e tentaremos formar um conceito claro do que significa ser um bahá’í.

A Vida Bahá’í

Tendo alguém Lhe perguntado, em certa ocasião: “Que é um bahá’í?”, ‘Abdu’l-Bahá respondeu: “Ser bahá’í significa simplesmente amar a todos; amar à humanidade e esforçar-se por servi-la; trabalhar pela paz e fraternidade universais.” Noutra ocasião, definiu um bahá’í como sendo “uma pessoa dotada de todas as perfeições humanas em ação”. Num de Seus discursos em Londres, disse que uma pessoa pode ser um bahá’í mesmo que nunca tenha ‘Abdu’l-Bahá ouvido o nome de Bahá’u’lláh. Disse ainda:

QUE É UM BAHÁÍ?

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A pessoa que vive a vida de acordo com os ensinamentos de

Bahá’u’lláh já é um bahá’í. Por outro lado, uma pessoa pode

se chamar de bahá’í por cinqüenta anos e se não viver a vida

(bahá’í) não é bahá’í. Uma pessoa feia pode se chamar bela,

mas não engana a ninguém

Palestras de ‘Abdu’l-Bahá, Londres – 1911, pp. 95-96.

Quem não conhece os Mensageiros de Deus, entretanto, é como uma planta que cresce na sombra. Embora não conheça o sol, dele depende inteiramente. Os grandes Profetas são sóis espirituais e Bahá’u’lláh é o sol deste “Dia” em que nós vivemos. Os sóis dos dias passados aqueceram e vivificaram o mundo e, se não tivessem brilhado, a Terra estaria agora fria e morta, mas somente o sol de hoje pode amadurecer os frutos que os sóis dos dias anteriores trouxeram à vida.

Devoção a Deus

A fim de que seja atingida a vida bahá’í em toda a sua

plenitude, uma cônscia e direta relação com Bahá’u’lláh é tão necessária como é o sol para o desabrochar do lírio ou da rosa. O bahá’í não adora a personalidade humana de Bahá’u’lláh, e sim a

Glória de Deus manifesta através dessa personalidade. Ele venera a Cristo, a Muhammad e a todos os antigos Mensageiros de Deus à humanidade, mas reconhece Bahá’u’lláh como o portador da Mensagem de Deus para a nova era em que vivemos, como o Grande Educador Mundial que veio prosseguir e consumar a obra de Seus predecessores.

A aceitação intelectual de um credo não faz de um homem

um bahá’í, nem a aparente retidão de conduta. Bahá’u’lláh exige de Seus discípulos uma devoção sincera e completa. Somente Deus tem o direito de fazer tal exigência, mas Bahá’u’lláh fala como Manifestante de Deus e Revelador de Sua Vontade. Os Manifestantes anteriores foram igualmente claros quanto a esse

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

ponto. Cristo disse: “Se alguém quiser Me seguir, que renuncie a si mesmo, e tome sobre si a sua cruz, e siga-Me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor

a Mim, salvá-la-á.” Em palavras diferentes, todos os Manifestantes de Deus fizeram esta mesma exigência aos Seus discípulos, e a

história da religião mostra claramente que enquanto esta exigência era francamente reconhecida e aceita, a religião florescia, a despeito de toda a oposição terrena, a despeito das aflições, das perseguições

e do martírio dos seguidores. Por outro lado, todas as vezes que a

consideração aos ditames da sociedade e a sua “respeitabilidade” vêm a substituir a dedicação incondicional, a religião decai. Tornou- se moda, mas perdeu seu poder de salvar e transformar, seu poder de fazer milagres. A verdadeira religião jamais esteve em moda.

Permita Deus que algum dia ela esteja; mas ainda é verdade, assim como nos dias de Cristo, que “estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos há que a encontrem”. A porta do nascimento espiritual, como a do natural, somente dá passagem aos homens um a um, e quando não há empecilhos. Se no futuro o número de pessoas que conseguir passar por esse caminho for maior do que no passado, não será porque a passagem tenha sido alargada,

e sim, por causa de uma maior disposição por parte dos homens em

atingir a “grande renúncia” que Deus exige; porque longa e amarga experiência fez com que vissem, finalmente, a loucura de escolher seu próprio caminho em lugar do caminho de Deus.

Busca da Verdade

Bahá’u’lláh prescreve a justiça a todos os Seus seguidores e assim a define:

A

essência de tudo o que temos revelado é a justiça; está em

se

livrar da vã fantasia e da imitação; com os olhos da unidade

deve o homem discernir a Glória de Deus, e averiguar todas

as coisas com visão perspicaz.

QUE É UM BAHÁÍ?

79

É necessário que cada indivíduo veja e compreenda por si

mesmo a Glória de Deus manifesta no templo humano de Bahá’u’lláh; de outro modo, a Fé Bahá’í não lhe seria mais do que um nome sem significação. O chamado dos Profetas à humanidade tem sempre sido para que abra seus olhos, não os feche, use sua razão, não a suprima. É a visão clara e o pensamento livre, não a credulidade servil, que a tornará capaz de penetrar as nuvens do preconceito, a livrar-se dos grilhões da imitação cega, e a atingir a compreensão da verdade de uma nova Revelação. Aquele que quiser ser um bahá’í precisa buscar destemidamente a verdade, sem contudo limitar sua busca ao plano material. Seus poderes de percepção espiritual devem ser tão despertos quanto os físicos. Ele deve usar todas as faculdades que Deus lhe deu para a aquisição da verdade, em nada acreditando sem motivo válido e suficiente. Se seu coração for puro e sua mente estiver livre de preconceitos, quem busca sinceramente não deixará de reconhecer a Glória Divina, seja qual for o templo em que possa manifestar-Se. Bahá’u’lláh declara também:

O homem deve conhecer a si próprio e reconhecer o que leva

à sublimidade ou à humilhação, à glória ou ao rebaixamento,

à riqueza ou à pobreza.

Epístolas de Bahá’u’lláh, p. 43.

A origem de toda a erudição é o conhecimento de Deus –

exaltada seja Sua glória – e este só será atingido através do conhecimento de Seu Manifestante Divino.

Epístolas de Bahá’u’lláh, p. 175.

O Manifestante é o Homem Perfeito, o grande Exemplar para

a Humanidade, o Primeiro Fruto da árvore do gênero humano. Antes de O conhecermos, não conhecemos as possibilidades latentes que existem dentro de nós. Cristo nos diz que devemos contemplar os lírios, como crescem, e declara que Salomão, em toda a sua glória, não adornou-se como aqueles. O lírio cresce de uma raiz

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

absolutamente sem atrativos. Se nunca tivéssemos visto o desabrochar do lírio, se jamais tivéssemos contemplado o incomparável encanto de sua folhagem e flor, como poderíamos conceber a realidade contida nessa raiz? Ainda que pudéssemos dissecá-la com o maior cuidado e a examinássemos minuciosamente, jamais descobriríamos a beleza adormecida que o jardineiro sabe como despertar. Assim, antes que tenhamos visto a Glória de Deus revelada no Manifestante, não podemos fazer uma idéia da beleza espiritual latente em nossa própria natureza e na dos nossos semelhantes. Conhecendo e amando ao Manifestante de Deus e seguindo os Seus ensinamentos, tornamo- nos capazes, pouco a pouco, de compreender as perfeições potenciais dentro de nós mesmos; então, e não antes, a significação e o propósito da vida e do universo tornam-se visíveis para nós.

Amar a Deus

Conhecer o Manifestante de Deus significa também amá- Lo. Uma coisa é impossível sem a outra. Segundo Bahá’u’lláh, o objetivo da criação do homem é que ele possa conhecer a Deus e adorá-Lo. Assim diz Ele numa de Suas Epístolas:

O amor foi a causa da criação de todos os seres contingentes,

como diz a conhecida tradição. “Eu era um Tesouro Oculto. Desejei tornar-Me conhecido, e assim Eu trouxe a criação à existência para que Me pudesse conhecer”.

Bahá’u’lláh. O Kitáb-i-Aqdas, n23, p. 145.

Também na obra As Palavras Ocultas, Bahá’u’lláh diz:

Ó Filho do Ser! Ama-Me, a fim de que Eu te possa amar. Se

não Me amas, de modo algum pode o Meu amor te atingir. Sabe isto, ó servo!

Ó Filho da Visão Maravilhosa! Insuflei em ti um sopro de

Meu próprio Espírito, a fim de que Me pudesses amar. Por

QUE É UM BAHÁÍ?

81

que Me abandonaste e quiseste outro, que não Eu, como teu bem-amado?

Ter amor a Deus! Este é o objetivo único da vida para o bahá’í. Ter a Deus como seu maior companheiro e mais íntimo amigo, seu Incomparável Bem-Amado, em cuja Presença está a plenitude do contentamento! E amar a Deus significa amar a tudo e a todos, pois todos provêem de Deus. O verdadeiro bahá’í será a personificação perfeita do amor. A todos amará com um coração puro, fervorosamente. A ninguém odiará. A ninguém desprezará, pois terá aprendido a ver a face do Bem-Amado em toda face, e a ver Seus traços em toda parte. Seu amor não conhecerá limites de credo, nação, classe ou raça. Diz Bahá’u’lláh:

Em tempos remotos se revelou: “O amor à pátria é elemento da Fé Divina.” No dia de Sua manifestação, porém, a Língua da Grandeza proclamou: “Não se vanglorie quem ama sua pátria, mas sim, quem ama o mundo.”

Bahá’u’lláh. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, p. 80.

E mais:

Bem-aventurado quem prefere seu irmão antes de si próprio. Verdadeiramente, de acordo com a Vontade de Deus, o Onisciente, a Suma Sabedoria, tal homem figura entre o povo de Bahá, que habita na Arca Carmesim.

Epístolas de Bahá’u’lláh, p. 83.

‘Abdu’l-Bahá nos diz que devemos ser “como uma só alma em muitos corpos, pois quanto mais amarmos uns aos outros, mais próximos estaremos de Deus”. A um auditório norte-americano Ele disse:

De igual modo, as divinas religiões dos santos Manifestantes de Deus são, na realidade, a mesma, embora sejam designadas

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

por nomes diferentes. O homem deve amar a luz, não importa

em que horizonte ela surja. Ele deve amar a rosa, não importa em que solo ela cresça. Ele deve ser um buscador da verdade, não importa de que fonte ela provenha. Apego à lâmpada não significa amor à luz. Apego à terra é indigno, o que é digno é desfrutar a rosa que surge do solo. Devoção à árvore

é inútil, benéfico é participar dos frutos. Frutos deliciosos

devem ser saboreados, não importa em que árvore cresçam ou onde sejam encontrados. A palavra da verdade deve ser apoiada, não importa que língua a pronuncie. Verdades absolutas devem ser aceitas, não importa em que livro estejam registradas. Se fomentarmos o preconceito, ele será causa de privação e ignorância. O conflito entre religiões, nações e raças surge da incompreensão. Se investigarmos as religiões para descobrirmos os princípios subjacentes aos seus fundamentos, veremos que elas estão de acordo; pois a realidade fundamental delas é uma e não múltipla. Através disso, os seguidores das religiões do mundo chegarão à sua unidade e reconciliação.

A Promulgação da Paz Universal, p. 187.

Ele disse ainda:

Cada um dos bem-amados deve amar aos outros e não lhes negar suas possessões e sua vida, e deve procurar por todos os meios fazê-los alegres e felizes. Mas estes outros devem também ser desinteressados e abnegados. Assim pode este Sol Nascente inundar os horizontes, esta Melodia alegrar e fazer felizes a todos os povos, este Remédio Divino tornar-se

a panacéia para todas as doenças, este Espírito da Verdade converter-se em fonte de vida para cada alma.

Tablets of Abdul-Baha, vol. I, p. 147.

Desprendimento

Devoção a Deus implica também em desprendimento de tudo que não seja de Deus, isto é, desprendimento de todos os

QUE É UM BAHÁÍ?

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desejos egoísticos e mundanos, e mesmo dos que dizem respeito à vida do outro mundo. O Caminho de Deus pode passar pela riqueza ou pobreza, saúde ou doença, por um palácio ou uma masmorra, um jardim de rosas ou uma câmara de tortura. Qualquer que seja seu destino, o bahá’í aprenderá a aceitá-lo com “aquiescência radiante”. O desprendimento não quer dizer estulta indiferença ao que lhe rodeia, ou resignação passiva às más condições; nem significa desprezar as boas coisas criadas por Deus. O verdadeiro bahá’í não será insensível, apático, nem ascético. Encontrará abundante interesse, abundante trabalho e abundante alegria no Caminho de Deus, mas dele não se desviará nem sequer pela grossura de um fio de cabelo em busca de prazer, nem cobiçará o que Deus lhe haja negado. Quando um homem se torna um bahá’í, a Vontade de Deus vem a ser sua vontade, pois estar em desacordo com Deus é o que ele não pode tolerar. No Caminho de Deus, não há males que lhe possam amedrontar, nem aborrecimentos que lhe possam desanimar. A luz do amor ilumina seus dias mais escuros, muda os sofrimentos em alegria, e o próprio martírio, em êxtase. A vida é elevada ao plano heróico e a morte torna-se uma alegre aventura. Bahá’u’lláh diz:

Pois quem nutre em seu coração o amor a qualquer um além de Mim, seja na extensão de uma semente de grão de mostarda, não poderá ser admitido em Meu Reino.

O Chamado do Senhor das Hostes, pp. 43-44.

Ó Filho do Homem! Se Me amas não te prendas a ti mesmo; e se buscas Meu prazer, não consideres o teu próprio; para que tu morras em Mim e Eu possa viver eternamente em ti.

Ó Meu Servo! Liberta-te dos grilhões desse mundo e desprende tua alma da prisão do ego. Aproveita tua oportunidade, pois não mais te virá.

As Palavras Ocultas, n o 7 do árabe e n o 40 do persa

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

Obediência

Devoção a Deus envolve obediência implícita aos Seus Mandamentos revelados, mesmo quando a razão destes não é compreendida. O marinheiro obedece implicitamente às ordens de seu capitão, ainda que ignore a razão delas; a sua submissão à autoridade, porém, não é cega. Ele sabe muito bem que o capitão prestou serviços em cada posto e deu fartas provas de competência como navegador. Se assim não fosse, ele seria insensato, realmente, em submeter-se à sua autoridade. Assim, o bahá’í deve obedecer implicitamente ao Capitão de sua Salvação, mas seria insensato, em verdade, se primeiro não se certificasse ter esse Capitão dado provas sobejas de ser digno de confiança. Tendo recebido tais provas, porém, ele seria ainda mais insensato em recusar-se a obedecê-Lo, pois somente pela obediência inteligente e consciente ao mestre sábio é que podemos colher os benefícios de sua sabedoria e adquirir esta sabedoria para nós próprios. Por mais sábio que fosse o capitão, se a tripulação não lhe obedecesse, como poderia o navio alcançar o porto ou os marinheiros aprender a arte da navegação? Cristo mostrou claramente que a obediência é o caminho do saber. Ele disse:

A minha doutrina não é minha, mas dAquele que me enviou.

Se alguém quiser fazer a vontade dEle, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se Eu falo de mim mesmo.

João, 7:16-17.

Outrossim, diz Bahá’u’lláh:

A verdadeira crença em Deus e o reconhecimento dEle não

podem estar completos, a não ser que seja aceito o que Ele revelou, e seja observada qualquer coisa que Ele tivesse decretado e que fosse assentada no Livro pela Pena de Glória.

Epístolas de Bahá’u’lláh, p. 60.

QUE É UM BAHÁÍ?

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Obediência implícita não é uma virtude popular nestes dias democráticos e, de fato, inteira submissão à vontade de um simples homem seria desastrosa. A Unidade do Gênero Humano, porém, somente pode ser alcançada através da completa harmonia de todos com a Vontade Divina. A não ser que essa Vontade seja claramente revelada e os homens abandonem todos os outros dirigentes e obedeçam ao Mensageiro Divino, os conflitos e lutas prosseguirão e os homens continuarão opor-se uns aos outros, a dedicar uma grande parte de sua energia à frustração dos esforços de seus semelhantes, em vez de trabalhar harmoniosamente para a Glória de Deus e o bem-estar comum.

Serviço

Devoção a Deus implica em uma vida de serviço aos nossos semelhantes. De nenhum outro modo podemos servir a Deus. Se voltarmos as costas aos nossos semelhantes, estaremos também voltando as costas a Deus. Cristo disse: “Sempre que não o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos, a Mim não o fizestes.” Disse também Bahá’u’lláh:

Ó filho do homem! Se teus olhos estiverem volvidos para a misericórdia, abandona as coisas que te são proveitosas e apega-te ao que trará proveito à humanidade. E se teus olhos estiverem volvidos para a justiça, escolhe para o teu próximo aquilo que para ti próprio escolherias.

Epístola ao Filho do Lobo, p. 45.

‘Abdu’l-Bahá diz:

Na Causa Bahá’í, as artes, as ciências e todos os ofícios são (considerados como) adoração. O homem que faz uma folha de papel de escrever com o máximo de sua habilidade, conscienciosamente, concentrando toda a eficiência em

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

aperfeiçoá-la, está louvando a Deus. Em poucas palavras, todo esforço, toda função desempenhada pelo homem, de todo o coração, se for movida pelos mais nobres propósitos e pelo desejo de servir à humanidade, é adoração. Isto é adoração:

servir à humanidade e suprir as necessidades do povo. Servir é orar. “Um médico, cuidando do doente benignamente, ternamente, livre de preconceito e crente na solidariedade da raça humana, está louvando a Deus”.

Palestras de Abdu’l-Bahá, Paris 1911, p. 175.

A Disseminação dos Ensinamentos

O verdadeiro bahá’í não só acredita nos ensinamentos de

Bahá’u’lláh como também encontra neles a guia e inspiração de sua vida inteira, e alegremente transmite aos outros o conhecimento que é a fonte do seu próprio ser. Somente assim receberá ele “o poder e a confirmação do Espírito” em sua plenitude. Nem todos podem ser oradores eloqüentes ou bons escritores, mas todos podem ensinar pelo “exemplo de vida”. Diz Bahá’u’lláh:

Incumbe, ao povo de Bahá, através do poder de Suas palavras, fazer o Senhor triunfar e, por meio de suas belas ações e de seu bom caráter, admoestar o povo, desde que a influência exercida por ações é maior do que a de palavras.

Epístolas de Bahá’u’lláh, p. 67.

O bahá’í, entretanto, em hipótese alguma imporá suas idéias

àqueles que não querem ouvi-las. Atrairá as pessoas ao Reino de Deus, não tentará forçá-las a isso. Será como o bom pastor que conduz o seu rebanho e encanta suas ovelhas com sua música, ao contrário daquele que as empurra com cães e bastão.

Diz Bahá’u’lláh em As Palavras Ocultas:

Ó Filho do Pó! Sábios são aqueles que não falam salvo se tiverem quem ouça, assim como o portador da taça, que só a oferece quando encontra quem a procure, e o apaixonado,

QUE É UM BAHÁÍ?

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que não exclama das profundezas de seu coração antes de fitar a beleza de sua bem-amada. Lança, pois, as sementes da sabedoria e do conhecimento no solo puro do coração, e guarda-as ocultas, até que os jacintos da sabedoria divina brotem do coração, e não do lodo e do barro.

E ainda, na Epístola de Ishráqát, Ele diz:

Ó povo de Bahá! Sois os mananciais do amor de Deus e as

fontes de Sua benevolência. Não corrompais vossas línguas amaldiçoando e causando injúria a qualquer alma, e guardai vossos olhos de tudo que não seja condigno. Apresentai o que possuís. Se for recebido favoravelmente, tereis atingido vosso objetivo; se não, protestar é inútil. Deixai tal alma a sós e volvei-vos ao Senhor, o Protetor, o Subsistente por Si próprio. Não sejais causa de tristeza, muito menos de discórdia e contenda. Nutre-se a esperança de que possais obter a educação verdadeira à sombra da árvore de Sua terna misericórdia e agir de acordo com o que Deus deseja. Sois todos as folhas de uma só árvore e as gotas de um mesmo oceano.

O Kitáb-i-Aqdas, p. 73.

Cortesia e Reverência

Bahá’u’lláh diz:

Ó povo de Deus! Eu vos admoesto que observeis cortesia,

pois é aquilo que, acima de tudo mais sobressai como um príncipe entre as virtudes. Feliz aquele que está iluminado com a luz da cortesia e ataviado com a vestidura da retidão. Quem está imbuído de cortesia atingiu, em verdade, um grau sublime. Espera-se que este Ser Oprimido e todos os demais homens sejam capacitados a adquiri-la e a ela e segurar firmemente, a observá-la e nela fixar o olhar. É este um

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

mandamento inescapável que emanou da Pena do Nome Supremo.

Epístolas de Bahá’u’lláh, p. 100.

E repetidas vezes Ele diz:

É permitido que os povos e raças do mundo se associem uns

com os outros jubilosa e radiantemente. Ó povo! Convivei

com os seguidores de todas as religiões em espírito amistoso

e fraternal.

Epístolas de Bahá’u’lláh, p. 30.

‘Abdu’l-Bahá diz, numa carta aos bahá’ís da América:

Acautelai-vos! Acautelai-vos! Para que não ofendais a nenhum coração! Acautelai-vos! Acautelai-vos! Para não ferir nenhuma alma! Acautelai-vos! Acautelai-vos! Para que a pessoa alguma trateis de um modo pouco bondoso! Acautelai-vos! Acautelai-vos! Para que não sejais causa de desespero para nenhuma criatura! Fosse alguém tornar-se causa de pesar a algum coração, ou de desânimo a qualquer alma, melhor seria que se escondesse nas ínfimas profundezas da terra do que sobre ela andasse.

Ele ensina que assim como a flor está escondida no botão, também um espírito de Deus habita no coração de todo homem, não importa sua aparência exterior, por dura e desagradável que seja. O verdadeiro bahá’í, pois, tratará a todas as pessoas do mesmo modo que o jardineiro cuida de uma bela e rara planta. Ele sabe que nenhuma intervenção impaciente de sua parte pode fazer o botão abrir-se em uma flor; somente Deus, por intermédio dos raios solares, pode fazer isso. Por conseguinte, Seu objetivo é levar estes raios vivificantes a todos os corações e lares obscurecidos. ‘Abdu’l-Bahá diz ainda:

QUE É UM BAHÁÍ?

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Entre os ensinamentos de Bahá’u’lláh há um que exige do

homem, sob todas as condições e circunstâncias, que perdoe, que ame ao seu inimigo, e considere uma pessoa que lhe quer mal como uma pessoa que lhe quer bem. Isso não quer dizer que se considere a alguém como inimigo, e então o

e tolere. Isto é hipocrisia e não verdadeiro amor.

Não, pelo contrário, deveis ver os vossos inimigos como

suporte

amigos, as pessoas que vos desejam mal como pessoas que vos desejam bem, e tratá-las de acordo. Vosso amor e bondade

não apenas por tolerância, porque a

tolerância, se não vem do coração, é hipocrisia.

Star of the West, vol. IV, p. 191.

devem ser verdadeiros

Tal conselho parece ininteligível e contraditório até compreendermos que, embora o exterior físico do homem possa ser rancoroso e malévolo, há, dentro de cada um, a natureza interior, espiritual, que é o verdadeiro homem, do qual somente o amor e benevolência podem emanar. É para este homem verdadeiro, interior, dentro de cada um de nossos semelhantes, que devemos dirigir nosso pensamento e amor. Quando este desperta e entra em atividade o homem exterior é transformado e renovado.

Olhos que Não Vêem o Pecado

Em nenhum assunto são os ensinamentos bahá’ís mais imperativos e incondicionais do que na exigência da abstenção de fazer críticas. Cristo falou com muita veemência sobre o mesmo assunto, mas hoje tornou-se usual considerar-se o Sermão da Montanha uma composição de “Conselhos de Perfeição” que não se pode esperar sejam seguidos pelo cristão comum. Não só Bahá’u’lláh, como ‘Abdu’l-Bahá, empenharam-se em tornar claro que tudo o que Eles dizem sobre este assunto é o que Eles esperam que seja cumprido. Lemos em As Palavras Ocultas:

90

BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

Ó Filho do Homem! Nem sequer sussurres os pecados alheios

enquanto tu próprio fores pecador. Fosses tu transgredir este mandamento, maldito serias, e disso dou testemunho.

Ó Filho do Ser! Não atribuas a nenhuma alma o que não

desejarias que a ti fosse atribuído, nem digas o que não cumpres. É este Meu mandamento a ti; observa-o.

‘Abdu’l-Bahá nos diz:

Guardar silêncio sobre os defeitos dos outros, orar por eles e ajudá-los com bondade a corrigir seus defeitos. Olhar sempre para o bem e não para o mal. Se um homem tiver dez boas qualidades e uma só má, devemos olhar para as dez e esquecer- nos desta última; e se um homem tiver dez más qualidades e apenas uma boa, devemos olhar para esta e nos esquecermos das dez. Jamais nos consentir pronunciar uma única palavra que não seja bondosa sobre outra pessoa, ainda que seja nossa inimiga.

A um amigo americano, Ele escreve:

A pior qualidade humana e o maior pecado é a calúnia, especialmente quando emana das línguas dos que crêem em Deus. Se fosse descoberto algum meio pelo qual as portas da calúnia pudessem ser eternamente fechadas, e cada um dos que crêem em Deus descerrasse os lábios em louvor aos outros, então os ensinamentos de Sua Santidade Bahá’u’lláh seriam disseminados, os corações iluminar-se-iam, os espíritos seriam glorificados, e o mundo humano atingiria a felicidade eterna.

Star of the West, vol. IV, p. 192.

Humildade Enquanto somos ordenados a fechar os olhos ‘Abdu’l-Bahá para as faltas dos outros e a olhar para suas virtudes, somos ordenados,

QUE É UM BAHÁÍ?

91

por outro lado, a descobrir nossas próprias faltas e a não levar em conta nossas virtudes. Bahá’u’lláh diz, em As Palavras Ocultas:

Ó

Filho do Ser! Como pudeste esquecer as tuas próprias faltas

e

ocupar-te com as alheias? Quem assim fizer, será por Mim

abominado.

Ó Emigrantes! A língua, Eu a designei para Me mencionar;

não a corrompais com a difamação. Se a flama do ego vos sobrevier, lembrai-vos de vossas próprias faltas e não das faltas de Minhas criaturas, já que cada um de vós conhece a si mesmo melhor do que aos outros.

‘Abdu’l-Bahá diz:

Seja a vossa vida uma emanação do Reino de Cristo. Ele não

Na religião de

Bahá’u’lláh, todos são servos e servas, irmãos e irmãs. Assim que alguém se julgue um pouco melhor, um tanto superior

aos outros, estará em posição perigosa e, a não ser que rejeite a semente de tal pensamento mau, ele não será um instrumento apto para o serviço do Reino. Descontentamento consigo mesmo é um sinal de progresso. Aquele que está satisfeito consigo é uma manifestação de Satã, e o que não está contente consigo mesmo

é a manifestação do Misericordioso. Se uma pessoa tem mil

qualidades boas, não deve olhar para elas; deve, ao contrário,

esforçar-se em descobrir seus próprios defeitos e

imperfeições

Por mais que um homem possa progredir,

veio para ser servido, e sim, para servir

está ainda imperfeito, porque há sempre um ponto à sua frente. E logo que olha para aquele ponto, ele torna-se descontente com sua própria condição e aspira atingir aquele estado. Elogio a si próprio é o sinal de egoísmo.

Diário de Mírzá Ahmad Sohrab, 1914.

92

BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

Embora nos seja ordenado que reconheçamos nossas faltas e delas nos arrependamos com sinceridade, é definitivamente proibida a prática da confissão a padres ou a outras pessoas. Bahá’u’lláh nos diz em Bishárát (Boas Novas):

O pecador, quando se encontra completamente desprendido

e liberto de tudo, salvo de Deus, deve pedir dEle clemência e

perdão. Não é permissível a confissão de pecados e transgressões perante seres humanos, pois isso jamais conduziu, nem haverá

de conduzir ao perdão divino. Essa confissão diante de uma

pessoa, além disso, resulta na humilhação e no rebaixamento,

e Deus – exaltada seja Sua glória – não deseja a humilhação de

Seus servos. Em verdade, Ele é o Compassivo, o Misericordioso.

O pecador deve, entre ele e Deus, implorar misericórdia do

Oceano da misericórdia, suplicar perdão do Céu da

generosidade.

Epístolas de Bahá’u’lláh, p. 32.

Veracidade e Honestidade

Bahá’u’lláh diz na Epístola de Tarázát:

Verdadeiramente, é a porta da segurança para todos os que habitam na terra e um sinal de glória da parte do Todo- Misericordioso. Quem dela participa, tem participado, realmente, dos tesouros da riqueza e prosperidade. A fidedignidade é o maior portal que conduz à tranqüilidade e segurança dos povos. Dela a estabilidade de todo assunto tem, deveras, dependido e ainda depende. Todos os domínios de poder, de grandeza e de riquezas são iluminados por sua luz Ó povo de Bahá! A fidedignidade é, verdadeiramente, a melhor das vestes para vossos templos e a mais gloriosa coroa para vossas cabeças. A ela segurai-vos firmemente, segundo o preceito de Quem ordena, dAquele que é de tudo informado.

QUE É UM BAHÁÍ?

93

Ele diz ainda:

A essência da fé está na escassez de palavras e na abundância de

ações; se as palavras de um homem excedem as ações, saibam, verdadeiramente, que sua morte é melhor que sua vida.

Epístolas de Bahá’u’lláh, p. 174.

‘Abdu’l-Bahá diz:

A veracidade é a base de todas as virtudes do homem. Sem a

veracidade, o progresso e sucesso da alma em todos os mundos são impossíveis. Quando este atributo sagrado for estabelecido no homem, todas as outras qualidades divinas também ‘Abdu’l- Bahá serão realizadas.

Tablets of Abdul-Baha, vol. II, p. 459.

Que a luz da veracidade e honestidade resplandeça neles, de modo que todos aqueles que os contemplarem possam saber que sua palavra, no trabalho ou no lazer, será uma palavra para

se confiar e depender.Esquecei o ego e trabalhai para toda a raça.

Palestras de ‘Abdu’l-Bahá, Londres – 1911, p. 114.

Auto-Realização

Bahá’u’lláh constantemente exorta o homem a compreender e exprimir plenamente as perfeições latentes dentro dele – o verdadeiro ser interior como distinto do limitado ser exterior, o qual, quando muito, é apenas o templo e, demasiadas vezes, a prisão do verdadeiro homem. Diz Ele em As Palavras Ocultas:

Ó Filho do Ser! Com as mãos do poder, Eu te fiz; com os dedos da potência, Eu te criei; e dentro de ti coloquei a essência de Minha luz. Que estejas contente com isso e nada mais busques, pois é perfeita Minha obra e inexorável Meu mandamento. Não questiones, nem alimentes dúvida sobre isto.

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

Ó Filho do Espírito! Eu te criei rico; porque te empobreces?

Nobre te fiz; com o que te rebaixas? Da essência da sabedoria, Eu te concedi a existência; por que buscas iluminação de outro, senão de Mim? Da argila do amor, te moldei; como é que te ocupas com outro? Volta teus olhos a ti mesmo, a fim de que, dentro de ti, Me possas encontrar, forte, poderoso, O que subsiste por Si Próprio.

Ó Meu Servo! És assim como uma espada de fina têmpera,

oculta na escuridão de sua bainha, cujo valor se esconde do conhecimento do artífice. Que saias, pois, da bainha do ego e do desejo, para que teu mérito resplandeça e se manifeste ao mundo inteiro.

Ó Meu Amigo! Tu és o sol dos céus de Minha santidade; não

permitas que a corrupção do mundo eclipse teu esplendor. Rompe o véu da negligência, para que possas emergir, resplandecente, de trás das nuvens, e adornar todas as coisas com as vestes da vida.

A vida para a qual Bahá’u’lláh convoca Seus seguidores é certamente de tal nobreza que, em toda a vasta extensão das possibilidades humanas, nada há mais nobre ou mais belo a que o homem possa aspirar. A compreensão do ser espiritual dentro de nós mesmos significa a compreensão da verdade sublime de que nós viemos de Deus e a Ele haveremos de retornar. Esta volta a Deus é a meta gloriosa do bahá’í; mas, para atingi-la, o único caminho é o da obediência aos Seus Mensageiros escolhidos e, especialmente, ao Seu Mensageiro para a época em que vivemos, Bahá’u’lláh, o Profeta da Nova Era.

Capítulo 6

ORAÇÃO

A oração é uma escada pela qual todos podem subir ao Céu.

Conversação com Deus

Muhammad

“A oração”, diz ‘Abdu’l-Bahá, “é a conversação com Deus”. A fim de tornar conhecida aos homens a Sua Mente e Vontade, Deus lhes deve falar numa linguagem que eles possam compreender, e isto Ele faz pela boca de Seus Santos Profetas. Enquanto fisicamente vivos, esses Profetas conversam com os homens face a face e transmitem-lhes a Mensagem de Deus, e depois de Sua morte, Sua mensagem continua a atingir as mentes humanas através de Seus dizeres registrados e de Seus escritos. Não é essa, porém, a única maneira pela qual Deus pode lhes falar. Há uma “linguagem do Espírito”, que é independente da fala ou da escrita, pela qual Deus pode comunicar-Se com aqueles cujos corações buscam a verdade e inspirar-lhes onde quer que estejam e seja qual for sua raça ou língua nativa. Nessa linguagem o Manifestante continua a manter a conversação com os fiéis depois de Sua partida deste mundo material. Após Sua crucificação, Cristo continuava a conversar com Seus discípulos e a inspirar-lhes. De fato, Ele os influenciou mais fortemente do que antes, e o mesmo tem sucedido com outros Profetas. ‘Abdu’l-Bahá fala muito sobre essa linguagem espiritual. Ele diz, por exemplo:

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

Devemos falar na linguagem do céu, na linguagem do espírito, pois há uma linguagem do espírito e do coração. É tão diferente da nossa linguagem como a nossa o é da dos animais, que se exprimem apenas por gritos e sons. É a linguagem do espírito que fala a Deus. Quando, em oração,

libertamo-nos de todas as coisas externas e voltamo-nos para Deus, é como se ouvíssemos no coração a voz de Deus. Sem palavras falamos, comunicamo-nos, conversamos com Deus e

ouvimos a resposta

Todos nós, quando, atingimos uma

verdadeira condição espiritual, podemos ouvir a voz de Deus.

De uma palestra registrada pela srta. Ethel J. Rosenberg.

Bahá’u’lláh declara que as mais elevadas verdades espirituais só podem ser comunicadas por meio dessa linguagem espiritual. A palavra falada ou escrita é completamente inadequada. Num pequeno livro chamado Os Sete Vales, em que Ele descreve a jornada desde a morada terrestre até o Lar Divino, diz, tratando das etapas mais adiantadas da jornada:

A língua falha ao tentar descrever estes três Vales, e as palavras são inadequadas. A pena não escreve nessa região; a tinta

deixa apenas um borrifo

Somente os corações, do êxtase dos

sábios místicos podem falar; pois não há mensageiro ou missiva

que consiga relatar*.

Bahá’u’lláh. Os Sete Vales, pp. 29-30.

A Atitude Devocional

A fim de que possamos atingir a condição espiritual em que se torne possível conversarmos com Deus, ‘Abdu’l-Bahá diz:

Devemos nos esforçar para atingirmos essa condição, separando-nos de todas as coisas e do povo do mundo, e voltando-nos para Deus somente. Será preciso algum esforço por parte do homem para alcançar tal estado, mas ele deve

*Este trecho é do poeta persa, Shamsu’d-Dín Muhhamad, de Shíráz.

ORAÇÃO

97

trabalhar para isso, lutar por isso. É pensando e cuidando menos das coisas materiais, e mais das coisas espirituais, que podemos atingi-lo. Quanto mais nos afastamos de uma, mais próximos estamos da outra. A escolha é nossa. Nossa percepção espiritual, nossa visão interior, deve ser aberta, de modo que possamos em tudo ver os sinais e traços do Espírito de Deus. Tudo nos pode refletir a luz do Espírito.

De uma palestra registrada pela srta. Ethel J. Rosenberg.

Bahá’u’lláh escreveu:

ao alvorecer de cada dia, comungar

com Deus e perseverar de toda a alma na busca do Bem-

Amado. Com a chama de Sua amorosa menção, deve ele consumir todo pensamento refratário

Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, pp. 198-199.

Aquele que busca deve

Da mesma maneira, ‘Abdu’l-Bahá declara:

Quando o homem permite ao espírito, através da alma, iluminar seu entendimento, então ele contém toda a Criação mas, por outro lado, quando o homem não abre a mente e o coração às bênçãos do espírito, e sim inclina a alma para o lado material, na direção da parte corporal de sua natureza, então ele desce de sua alta posição e torna-se inferior aos habitantes do mais baixo reino animal.

Palestras de ‘Abdu’l-Bahá, Paris –1911, pp. 91-92.

Bahá’u’lláh escreve também:

Livrai vossas almas, ó povo, da escravidão do eu, e purificai- as de todo apego a qualquer coisa além de Mim. A lembrança de Mim limpa de contaminação todas as coisas – pudésseis vós apenas o perceber Entoa, ó Meu servo, os versículos de Deus por ti

a fim de que a doçura de tua melodia possa

recebidos

98

BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

acender tua própria alma e atrair os corações de todos os homens. Se alguém, recluso em seu aposento, recitar os versículos revelados por Deus, os anjos do Todo-Poderoso, dispersando-se, difundirão por toda parte a fragrância das palavras emanadas de seus lábios

Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, p. 219.

A Necessidade de um Mediador

De acordo com ‘Abdu’l-Bahá:

É necessário um mediador entre o homem e o Criador – alguém que receba a plena luz do Esplendor Divino e a irradie sobre a humanidade, do mesmo modo que a atmosfera da Terra recebe e difunde o calor dos raios solares.

Divine Philosophy, p. 8.

Se desejamos orar, devemos ter algum objeto em que nos concentrarmos. Se nos voltamos para Deus, devemos dirigir nossos corações a algum centro. Se o homem adora a Deus de outro modo a não ser através de Seu Manifestante, deve primeiro formar um conceito de Deus, e este conceito é criado por sua própria mente. Como o finito não pode compreender o Infinito, assim Deus não pode ser compreendido deste modo. Aquilo que o homem concebe com sua própria mente é-lhe compreensível. Aquilo que ele pode compreender não é Deus. Aquele conceito de Deus que um homem forma por si próprio é apenas um fantasma, uma imagem, uma ilusão. Nenhuma conexão há entre tal conceito e o Ser Supremo. Se uma pessoa deseja conhecer a Deus, deve encontrá-Lo no espelho perfeito, Cristo ou Bahá’u’lláh. Em qualquer desses espelhos ele verá refletido o Sol Divino. Do mesmo modo que conhecemos o sol físico pelo seu esplendor, pela sua luz e calor, assim também conhecemos a Deus, o Sol Espiritual, quando Ele brilha do templo do Manifestante, pelos Seus atributos de

ORAÇÃO

99

perfeição, pela beleza das Suas qualidades, e pelo esplendor da Sua luz.

De uma palestra com o sr. Percy Woodcock em ‘Akká, 1909.

Diz Ele ainda:

A

menos que o Espírito Santo se torne o intermediário, não

se

pode receber diretamente as dádivas de Deus. Não deixes

de considerar a verdade óbvia, pois é evidente per se, que uma criança não pode ser instruída sem um professor, e o

saber é uma das graças de Deus. O solo não se cobre de relva

e vegetação sem a chuva das nuvens; por conseguinte, a nuvem

A luz tem

um centro e se alguém deseja procurá-la de outro modo que

Volta a tua atenção

para os dias de Cristo; algumas pessoas imaginavam que sem as emanações Messiânicas fosse possível atingir a verdade, mas foi precisamente essa idéia que se tornou a causa da sua privação.

Tablets of Abdul-Baha, vol. III, pp. 591-592.

não seja do seu centro, jamais a atingirá

é a intermediária entre as graças divinas e o solo

Um homem que tenta adorar a Deus sem dirigir-se a Seu Manifestante é como um homem numa masmorra, tentando através de sua imaginação deleitar-se com as glórias da luz do sol.

A Oração é Indispensável e Obrigatória

O uso da oração é recomendado aos bahá’ís em termos inequívocos. Bahá’u’lláh diz no Kitáb-i-Aqdas:

Recitai os versículos de Deus a cada manhã e anoitecer. Quem não os recita não é fiel ao Convênio de Deus e a Seu Testamento, e quem neste Dia se afasta destes versículos sagrados é dos que por toda a eternidade se afastaram de Deus. Temei vós todos a Deus, ó Meus servos!

100

BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

Não vos ufaneis de muito lerdes os versículos, ou da

profusão de atos pios realizados noite e dia. Pois ler um único versículo com júbilo e radiância é melhor do que a leitura enfastiada de todos os Livros Sagrados de Deus, o Amparo no perigo, O que existe por Si só. Recitai os versículos sagrados em tal medida que vos não sobrevenha a prostração

e o desânimo. Não sujeiteis vossas almas ao que lhes traz

fadiga e abatimento, mas sim alívio e ânimo, para que se ergam nas asas dos versículos divinos rumo ao Nascente de Seus sinais manifestos. Assim vos aproximareis de Deus, se o apenas compreendêsseis.

O Kitáb-i-Aqdas, K149, p. 59.

Diz ‘Abdu’l-Bahá a um correspondente:

Ó tu, amigo espiritual!

e obrigatória, e sob nenhum pretexto está o homem isento

desta obrigação, a menos que sofra de uma doença mental

ou um obstáculo intransponível o impeça.

Saiba que a oração é indispensável

Tablets of Abdul-Baha, vol. III, p. 683.

Ao ser perguntado por outro correspondente: “Por que orar? Que sabedoria há nisto, já que Deus estabeleceu tudo e executa todas as coisas na melhor ordem – qual a sabedoria, pois, em rogar, e suplicar, e em expor os desejos e pedir auxílio?” ‘Abdu’l-Bahá respondeu:

Sabe tu que, em verdade, convém ao fraco suplicar ao Forte,

e incumbe a quem aspira às graças suplicar ao Glorioso e

Generoso. Quando se roga a seu Senhor, voltando-se a Ele e buscando graças de Seu Oceano, esta súplica traz luz ao seu coração, iluminação à sua vista, vida à sua alma e enlevo ao seu ser. Durante tuas súplicas a Deus e tuas recitações: “Teu Nome é minha cura,” considera o quanto teu coração se alegra,

ORAÇÃO

101

tua alma se deleita pelo espírito do amor de Deus e tua mente é atraída para o Reino de Deus! Através desta atração as habilidades e capacidades crescem. Quando o recipiente é ampliado, mais água pode conter, e quando a sede aumenta, as graças da nuvem tornam-se agradáveis ao paladar do homem. Eis o mistério da súplica e a sabedoria que há em expor as carências.

De uma Epístola a um bahá’í americano, traduzida por ‘Alí Kulí Khán, outubro de 1908.

Bahá’u’lláh revelou três orações diárias obrigatórias. O crente tem a liberdade de escolher qualquer uma destas três orações, mas tem a obrigação de recitar uma delas e da maneira indicada por Bahá’u’lláh.

A Oração Congregacional

As orações que Bahá’u’lláh ordenou como obrigação diária para os bahá’ís devem ser recitadas individualmente. Só no caso da Oração pelos Mortos ordenou Bahá’u’lláh a oração congregacional, e a única exigência é que ela seja lida em voz alta e que todos permaneçam em pé. Isto difere da prática islâmica da oração congregacional, segundo a qual os crentes formam fileiras em pé atrás de um Imame, que dirige a oração, o que é proibido na Fé Bahá’í. Esses preceitos, que estão de acordo com a abolição do clero profissional por Bahá’u’lláh, não querem dizer que Ele não desse nenhum valor às reuniões para adoração. Sobre a importância de reunir-se para orar, ‘Abdu’l-Bahá disse o seguinte:

Um homem talvez diga: “Posso orar a Deus quando quiser, quando os sentimentos do meu coração forem atraídos a Deus; quando estiver no deserto, na cidade, ou onde quer que eu esteja. Por que devo ir aonde outros se acham reunidos, num dia especial, a uma hora determinada, unir as minhas preces com as suas, quando eu talvez não esteja com disposição para orar?”

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BAHÁULLÁH E A NOVA ERA

É fútil pensar-se assim, pois onde muitos se reúnem a força é maior. Soldados combatendo isolados e individualmente não têm a força de um exército unido. Se todos os soldados reúnem-se nessa guerra espiritual, seus sentimentos espirituais unidos auxiliam-se reciprocamente e suas preces tornam-se aceitáveis.

De notas tomadas pela srta. Ethel Rosenberg.

Oração, a Linguagem do Amor

A alguém que perguntou se a oração era necessária, visto que Deus conhece, presumivelmente, os desejos de todos os corações, ‘Abdu’l-Bahá respondeu:

Se uma pessoa sente amor por outra, terá vontade de lhe dizer. Embora saiba que o amigo percebe que ele o ama, ele

Deus conhece os desejos

de todos os corações. Mas o impulso à oração é natural, provindo do amor do homem a Deus.

é preciso que a prece seja em palavras, mas antes,

em pensamento e atitude. Mas se esse amor e desejo estão faltando, é inútil tentar forçá-los. Palavras sem amor nada significam. Se alguém conversar convosco como um desagradável dever, sem amor ou prazer, desejareis conversar

com ele?