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Análise de "Alguma Poesia"

O poema "Poema de sete faces" é o primeiro poema do livro Alguma poesia (1930), de Carlos Drummond de Andrade. Através de sete partes breves, o poema explora temas como o indivíduo desajustado na sociedade, o conflito entre razão e emoção, e a falsa adaptação do eu lírico a um mundo que não compreende. A linguagem rompe com convenções através da quebra de sintaxe e da colocação do poeta como um "anjo torto" que vive na somb

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Análise de "Alguma Poesia"

O poema "Poema de sete faces" é o primeiro poema do livro Alguma poesia (1930), de Carlos Drummond de Andrade. Através de sete partes breves, o poema explora temas como o indivíduo desajustado na sociedade, o conflito entre razão e emoção, e a falsa adaptação do eu lírico a um mundo que não compreende. A linguagem rompe com convenções através da quebra de sintaxe e da colocação do poeta como um "anjo torto" que vive na somb

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Alguma poesia, 1930

Carlos Drummond de Andrade

Professora Paula
Gramática
Literatura
Redação
Espanhol
Alguma poesia – 1930
Biografia:

• Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902, em Itabira, MG


• Realizou os primeiros estudos em Belo Horizonte e Nova Friburgo-RJ
• Formou-se em Farmácia
• Trabalhou sempre no serviço público e na imprensa, envolvido sempre em atividades intelectuais
• Fundou, com amigos, A Revista, para divulgar o Modernismo em Minas
• Publicou em 1928, o poema “No Meio do Caminho”, o célebre poema da pedra, na Revista da
Antropofagia e tornou-se amigo dos modernistas paulistas
• Mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1935, a convite do amigo Gustavo Capanema, ministro da
Educação do governo Vargas, foi chefe de gabinete por onze anos
• Depois trabalhou no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
• Aposentou-se em 1962, tornando-se colaborador de jornais até os anos 1980
• Faleceu no Rio de Janeiro em 05 de agosto de 1987, na semana posterior à morte de sua filha
Julieta
Alguma poesia – 1930
Características literário de Drummond
 
A produção poética de Drummond pode ser dividida em quatro fases:  

1. A fase gauche (1930-1940): Eu maior que o mundo – humor, ironia e piada.


Período marcado pelo isolamento, individualismo, reflexões metapoéticas e existenciais.
Principais obras: Alguma poesia (1930) e Brejo das Almas (1934).
 
2. A fase social (1940-1945): Eu menor que o mundo - poesia de ação.
Representa as contradições entre o ser e o mundo. Há o abandono do individualismo e a
tomada de postura histórico-engajada. Vale lembrar que falamos de um período de guerras
e conturbação política nacional e mundial: Segunda Guerra Mundial, Ditadura de Getúlio
Vargas, Nazifascismo.
Principais obras: Sentimento do mundo (1940), José (1942) e A rosa do povo (1945).  
Alguma poesia – 1930
Características literário de Drummond
 
A produção poética de Drummond pode ser dividida em quatro fases:  

3. A fase do não (1950-1960): Eu igual ao mundo - poesia metafísica.


Período marcado pelo desencanto político. O poeta se lança numa poesia reflexiva, filosófica
e metafísica. Claro Enigma introduz essa vertente filosófica, pessimista e reflexiva, abordando
morte e vida, infância e velhice, o amor e o tempo.
Principais obras: Claro Enigma (1951), Fazendeiro do ar (1955), Vida passada a limpo (1959)
e Lição de coisas (1962).  

4. A fase da memória (1970-1980): compreende o período de lembranças da infância na


cidade natal Itabira, além de reflexões universais sobre o tempo e a memória.
Principal obra: a série Boitempo (1973).
Alguma poesia – 1930
Características literário de Drummond

• Poeta gauche – torto, diferente do seu tempo


• “poeta do homem presente, do tempo presente, da vida
presente” –
• Trata de 9 temas em suas poesias

• Amor • Família
• Eu • Amigos
• Estar no mundo • Exercícios lúdicos
• Choque social • Terra natal
• A própria poesia
Alguma poesia – 1930
Escola Literária Modernista

• Primeira fase do Modernismo Brasileiro, 1922-1930


• Chamada de Fase de Ruptura
• Recusa às propostas tradicionais de se fazer literatura
• Mudanças quanto ao tema, linguagem e forma predominantes até então na arte em geral

• Segunda fase do Modernismo Brasileiro, 1930-1945


• Chamada de Fase de Consolidação
• Recusa às propostas radicais que agitaram o panorama literário da primeira fase modernista.
• Literatura de crítica social

• Terceira fase do Modernismo Brasileiro, 1945-1960


• Fase do universalismo
• Literatura intimista
Alguma poesia – 1930
Características da obra

• São 49 poemas ao todo


• Há também os micropoemas
• Contém poemas escritos desde 1923, alguns deles publicados anteriormente, como é o
caso do célebre 'No meio do caminho', que, logo após a sua publicação, suscitou uma
série de polêmicas
• Verso branco - despreocupado em relação às rimas
• Verso livre, desprendido da regularidade métrica
• Temática do dia-a-dia. Ele procurou escrever sobre as coisas simples do cotidiano.
• Linguagem que transgride a norma padrão de maneira discreta
• Apresenta coloquialismo, adoção de processos típicos da prosa (o prosaísmo), além de
palavras facilitadas
• Apresenta poema piada - curto e cômico, usa o humor para retratar a realidade
• Certo ceticismo e a rejeição de qualquer ideologia
Alguma poesia – 1930
Temática Poemas
Eu – o indivíduo Poema de sete faces; Também já fui brasileiro; Europa, França e Bahia;
Moça e soldado; Música; Explicação.
O estar no No meio do caminho; Cota zero (este poema pode também integrar o
mundo grupo temático "exercícios lúdicos").
O choque social Política; Poema de jornal; Nota social; Coração numeroso; O sobrevivente;
Anedota búlgara; Sociedade; Outubro de 1930; Poema da purificação.
O Amor Casamento do céu e do inferno; Toada do amor; Cantiga de viúvo;
Sentimental; Esperteza, Quadrilha; Iniciação amorosa; Balada do amor
através das idades; Quero me casar.
A família Infância; Sweet home; Família; Sesta.
A terra natal Lanterna mágica; Igreja; Festa no brejo; Jardim da praça da Liberdade;
Cidadezinha qualquer; Fuga; Cabaré mineiro.
A própria poesia Poesia; Poema que aconteceu.
Exercícios Construção; Política literária; Sinal de apito.
lúdicos
Os amigos
Alguma poesia – 1930
Poema de sete faces – 1º poema da obra

Quando nasci, um anjo torto


desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

O homem atrás do bigode Mundo mundo vasto mundo,


As casas espiam os homens
é sério, simples e forte. se eu me chamasse Raimundo
que correm atrás de mulheres.
Quase não conversa. seria uma rima, não seria uma solução.
A tarde talvez fosse azul,
Tem poucos, raros amigos Mundo mundo vasto mundo,
não houvesse tantos desejos.
o homem atrás dos óculos e do -bigode, mais vasto é meu coração.

O bonde passa cheio de pernas:


Meu Deus, por que me abandonaste Eu não devia te dizer
pernas brancas pretas amarelas.
se sabias que eu não era Deus mas essa lua
Para que tanta perna, meu Deus,
se sabias que eu era fraco. mas esse conhaque
[pergunta meu coração.
botam a gente comovido como o diabo.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

Carlos Drummond de Andrade. Alguma poesia (1930)


Alguma poesia – 1930
Análise do “Poema das sete faces”

1ª face
2ª face
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra disse: As casas espiam os homens
Vai, Carlos! ser gauche na vida. que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
• Poeta gauche – desajeitado e inapto não houvesse tantos desejos.
• Inverte o tema romântico do poeta como gênio
incompreendido • Ruptura com a lógica do discurso
• Poeta agora frágil , inapto, ridículo • Individuo desajeitado será colocado diante do
• Sua obra o consagra como um anjo torto desejo amoroso
• Amor problematizado, trado como
• Não vive em um mundo iluminado e harmonioso
incompreensível
• Vive na sombra e obscuridade
Alguma poesia – 1930
Análise do “Poema das sete faces”

3ª face
4ª face

O bonde passa cheio de pernas:


O homem atrás do bigode
pernas brancas pretas amarelas.
é sério, simples e forte.
Para que tanta perna, meu Deus,
Quase não conversa.
[pergunta meu coração.
Tem poucos, raros amigos
Porém meus olhos
o homem atrás dos óculos e do bigode,
não perguntam nada.

• Confronto entre o eu e o outro


• Mostra-se espantado diante do mundo que não
• Tema do desajustamento
compreende
• O poeta gauche é colocado diante do mundo
• Busca sentido nas coisas banais do dia a dia
• Mundo que não entende, cheio de convenções e falsas
• Conflito entre sentimento e desejo
• Conflito entre o amor idealizado e o erotismo aparências
• Conflito entre razão e emoção • Falsa adaptação
• Metonímia: pernas=> mulheres
• Supressão das vírgulas: simultaneidade
• Prosopopeia ou metonímia: 
Alguma poesia – 1930
Análise do “Poema das sete faces”

5ª face 6ª face

Meu Deus, por que me abandonaste Mundo mundo vasto mundo,


se sabias que eu não era Deus se eu me chamasse Raimundo
se sabias que eu era fraco. seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
• Tema do homem abandonado por Deus mais vasto é meu coração.
• Avanço da ciência e tecnologia
• Tema do espanto diante do mundo
• Referência Bíblica (Matheus 27:46) • Postura individualista
• Eu maior que o mundo
• Sarcasmo diante das convenções literárias
• Tema da aporia: falta de respostas diante de
certos conflitos
Alguma poesia – 1930
Análise do “Poema das sete faces”

7ª face Cubismo na escrita

Eu não devia te dizer • Fragmentação do eu


mas essa lua • Amostra simultânea do objeto fragmentado
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
• Visão de diferentes perspectivas

• Negação do sentimentalismo
• Negação da subjetividade
• Negação do eu em contraste com o outro Forma
• 3º pessoa que abre o poema x 1º pessoa que • Não há regularidade no tamanho das
fecha estrofes
• Culpa a lua e a bebida, substâncias que levam
ao sentimentalismo • Poemas brancos e livres
Alguma poesia – 1930
Infância

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo
Minha mãe ficava sentada cosendo. olhando para mim:
Meu irmão pequeno dormia. – Psiu… Não acorde o menino.
Eu sozinho menino entre mangueiras Para o berço onde pousou um mosquito.
lia a história de Robinson Crusoé, E dava um suspiro… que fundo!
comprida história que não acaba mais.

Lá longe meu pai campeava


No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu no mato sem fim da fazenda.
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha E eu não sabia que minha história
café gostoso era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
café bom.
Alguma poesia – 1930
A rua diferente Cota zero

Stop.
Na minha rua estão cortando árvores A vida parou
botando trilhos ou foi o automóvel?
construindo casas.
Análise do poema
Minha rua acordou mudada.
Os vizinhos não se conformam. • Poema piada
Eles não sabem que a vida • Gênero cultuado por Oswald de Andrade na primeira
tem dessas exigências brutas. fase do Modernismo
• Sarcasmo
Só minha filha goza o espetáculo • Efeito criado pela sugestão
e se diverte com os andaimes, • Captação de um instante da vida moderna
a luz da solda autógena • Dependência do homem moderno em relação as
máquinas e tecnologia
e o cimento escorrendo nas fôrmas.
Alguma poesia – 1930
Lagoa

Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo. Análise do poema
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa. • Tendência a rejeitar a abstração


A lagoa, sim. • Preferência por situações concretas
A lagoa é grande
e calma também. • Elogio da experiência, do já vivido
• O eu lírico observa a vida ironicamente
Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa...
Alguma poesia – 1930
No meio do caminho Análise do poema
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho • Publicado em 1928, na Revista da
tinha uma pedra Antropofagia
no meio do caminho tinha uma pedra.
• Poema que trouxe polêmicas
Nunca me esquecerei desse acontecimento • Criticado X admirado
na vida de minhas retinas tão fatigadas. • Colecionou material a respeito do poema e
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra publicou Uma pedra no meio do caminho –
tinha uma pedra no meio do caminho Biografia de um poema – 1967
no meio do caminho tinha uma pedra. • Parece brincadeira irreverente
Alguma poesia – 1930
Análise do poema

• Ruptura com a língua padrão: coloquialismo, falta de pontuação, repetição


• Subversão da tradição literária
• Tema do dia a dia 
• Forma transgredida com irregularidade no tamanho da estrofe, versos brancos e livres
• Poder de expressividade
• Poder de síntese
• Poema simbólico
• Imagem da pedra interpretada como obstáculo
• Cansaço existencial
• Experiência que jamais se supera
• Exploração da sugestão visual da palavra
• Intertextualidade com outros poemas da tradição literária:
• Dante
• Olavo Bilac
Alguma poesia – 1930
Cidadezinha qualquer Análise do poema

Casas entre bananeiras • Retrato da vida monótona da cidade


mulheres entre laranjeiras pequena do interior
pomar amor cantar. • Lentidão e tédio
• Falta de novidades e surpresas
Um homem vai devagar. • Repetição da palavra “devagar” é simbólica
Um cachorro vai devagar. • Metonímia e personificação
Um burro vai devagar. • Homens e animais são colocados no
Devagar… as janelas olham. mesmo patamar
• Supressão da vírgula
Êta vida besta, meu Deus.
Alguma poesia – 1930

Análise do poema
Quadrilha
• Uma única estrofe e sete versos.
João amava Teresa que amava Raimundo • Não há rimas e também não há sílabas
métricas.
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili • O tema é universal, o poeta fala de amor, mas
que não amava ninguém. de forma desencantada,
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento, • Evidencia os desejos que não foram realizados.
• O amor está sempre acompanhado de um
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, dissabor.
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes • Como na dança folclórica Quadrilha, os casai
se alternam
que não tinha entrado na história. • Ironia das convenções sociais como o
casamento
• A única pessoa que não amava, acabou
casando-se
• Sonhos frustrados
Alguma poesia – 1930
Quero me casar Poema da purificação – último poema do livro

Quero me casar Depois de tantos combates


na noite na rua o anjo bom matou o anjo mau
no mar ou no céu
e jogou seu corpo no rio.
quero me casar.

Procuro uma noiva As água ficaram tintas


loura morena de um sangue que não descorava
preta ou azul e os peixes todos morreram.
uma noiva verde
uma noiva no ar Mas uma luz que ninguém soube
como um passarinho.
dizer de onde tinha vindo
Depressa, que o amor apareceu para clarear o mundo,
não pode esperar! e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.”
Alguma poesia – 1930
Na fase posterior, eu menor que o mundo, o tom e a temática dos poemas mudam:

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.


Também não cantarei o mundo futuro. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
Estou preso à vida e olho meus companheiros. não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
Entre eles, considero a enorme realidade. não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O presente é tão grande, não nos afastemos. O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. presentes, a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade. Sentimento do mundo

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