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Tenório Telles Marcos Frederico Krüger
(Organizadores)

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Copyright © Editora Valer, 2006

Editor

Isaac Maciel
Coordenação Editorial

Tenório Telles
Projeto Gráfico

Wilson Prata
(Capa – Composição com a obra Cabocla, de Afrânio de Castro, coleção particular) Revisão

Marcos Sena Sergio Luiz Pereira
Normalização

Ycaro Verçosa

T274p Telles, Tenório. Poesia e Poetas do Amazonas / Tenório Telles, Marcos Frederico Krüger (Organizadores) – Manaus: Editora Valer, 2006. 328 p. ISBN 85-7512-133-2 1. Literatura brasileira (Amazonas) – poesia 2. Antologia literária I. Título II. Krüger, Marcos Frederico. CDU 82-82(811.3)

Editora Valer
Rua Ramos Ferreira, 1195 69010-120, Manaus-Amazonas Fone: (92) 633-6565

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SUMÁRIO
Apresentação A Poesia no Amazonas – tradição e rupturas
Henrique João Wilkens 11 15 Th: Vaz Minha Madrinha – Nossa Senhora da Conceição Sonho I. Xavier de Carvalho Chegando Hoje Aníbal Teófilo A Cegonha Mater Horas roxas Theodoro Rodrigues 31 34 Monja A Festa do cauim Quintino Cunha 37 Encontro das águas (Rios Negro e Solimões) A Enchente 43 45 Heliodoro Balbi Paulino de Brito Rio Negro Últimos momentos de D. Quixote 50 47 Durante a febre Flor de pedra 69 70 Garça feliz 65 67 68 63 64 59 60 61 55 57 51 54

Muhuraida
Tenreiro Aranha

20

Soneto (Passarinho, que logras docemente)
Idílio Soneto (Enquanto o 25 26 30

mole Siberita treme)
Francisco Gomes de Amorim O Caçador e a tapuia O Desterrado Ermanno Stradelli

Pitiapo
Torquato Tapajós Saudades O Descrente

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Maranhão Sobrinho Vencendo o Saara Cromo Soror Teresa O Coração do mar Jonas da Silva Coração Lago maldito Triste viajor sem fé Raimundo Monteiro Utas Pentesilea Eu J. Ferreira Sobrinho A Garça O Uirapuru Barreto Sobrinho Três garças... três graças... O Uirapuru Pereira da Silva Sumaumeira morta Mavignier de Castro Luar amazônico Alma de marujo 99 100 93 89 91 87 88 83 84 85 79 80 81 73 74 75 76

Hemetério Cabrinha Velho tronco A Pororoca Em busca da perfeição Álvaro Maia Árvore ferida Inverno, I Elias Gavinho Contrastes Súplicas Américo Antony Igapó A Ronda dos cisnes Mário Ypiranga Monteiro IX (de Dona Ausente) XVIII (de Dona Ausente) Sebastião Norões Mar da memória Mar despovoado Águas puras... águas barrentas... Benjamin Sanches Solidão Destino Epitáfio 117 118 119 113 114 115 111 112 109 110 107 108 105 106 101 102 104

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Violeta Branca Poema das tuas mãos A Vela que passou Nostalgia do mar Paulo Monteiro de Lima Pôr-do-Sol no Amazonas Tempestade maravilhosa Thiago de Mello Silêncio e palavra Estatutos do homem Num campo de margaridas Anísio Mello Vendaval de sonhos A Semente Lembranças Luiz Bacellar O Poeta veste-se Soneto da caixa de fósforos Rondel da banana Carta Lunar – Adágio, XX Haikais Almino Affonso Velho tronco A solidão do morto Samaumeira 149 152 154 143 145 146 147 148 139 141 142 131 134 138 125 127 121 123 124

Antísthenes Pinto I (Sombra e asfalto) Morto vivo 21 (Angústia numeral) Jorge Tufic Homem Remington, pluie Makunaíma recria o mundo Retrato de mãe, VIII Farias de Carvalho A Primeira namorada A Nova República Ofício Onanismo Alencar e Silva Soneto de espera ou o 1.º da morte 187 Cantar de andarilho Sob Vésper L. Ruas Sonetos autobiográficos, VIII Apocalipse Nênia Guimarães de Paula Espelho e face Elegias – Quinta 195 196 191 193 194 188 190 165 166 167 168 159 161 162 164 155 157 158

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Os Rebanhos da fuga Cascata Aurolina Araújo de Castro Lembrando Coreto Alcides Werk Estudos, VI Da noite do rio Da opção Ernesto Penafort A Medida do azul Rio de sono

198 199

Geografia provinciana Estrangeira Jacob Ohana

224 226

201 202

Diurno Amazona Inconstância

227 228 229

203 205 207

Maria José Hosanah O Canto As Barrancas, I Max Carphentier 231 233

209 210

O Sermão da selva, IV Hino de entrada e ofertório, VII

235 237

Enquanto a lua for calada e branca 211 Elson Farias Balada Romance da noite-chuva O Rio Amazonas Mady Benzecry Às Dez horas de uma noite triste A Procissão do tempo Astrid Cabral Selo d’água 223 219 221 213 215 217

A Coroa mitológica – Do uirapuru 238 Roberto Evangelista Haicais Anibal Beça Didática Coplas de virgo 243 244 239

VI – Em tom de old-blues para piano, sax, contrabaixo, guitarra e bateria 246 Aldisio Filgueiras O Rio comanda a vida Ai de ti, Manaus Provérbio 247 250 254

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Donaldo Mello Anunciação Viceversando Cláudio Fonseca Reflexos Poema amargo Milton Hatoum As portas do rio foram abertas Entre cemitério e última classe Celdo Braga Panela de Barro Sina de Porto Rosa Clement Sua majestade, o abacaxi Flores incandescentes Bosco Ladislau É mentira o que dizem estes senhores... 269 O Amargo da terra Dori Carvalho As Tetas do povo Desconfiança Corações milenares 273 274 275 271 267 268 265 266 261 263 O Porão de um barco tem suas redes 262 257 259 255 256

Simão Pessoa Rio Negro I – Um dia junto os cacos II – Ó Primavera insubmissa Butterfly Confraria Arnaldo Garcez O Lado vermelho do azul O Ai do samurai Zemaria Pinto exercício n.º 5 Advertência – Uma poética do devaneio, IV (bunda) Regina Melo Raízes Sinfonia Abril Fim de fita Ana Célia Ossame 295 296 297 298 291 293 289 283 286 279 280 280 281 282

Aguardo todas as previsões A Poesia é um exercício de amor
Queda Dúvida?

299 300 301 302

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Rita Alencar e Silva Sangra a vida Poema adorável Tenório Telles Salexistência Destino Canção da esperança Cândida Alves Eu te amo Todo corpo Dedé Rodrigues Trabalho de parto De ofício ou carta de fã 317 318 311 314 305 306 308 303 304

Sergio Luiz Pereira Poética Rio Solimões Efraim Amazonas Enchente XVII (de Engenharia do tempo) Poemazul 321 322 323 325 319 320

Bibliografia

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Apresentação
Allison Leão*

O desafio era basicamente este: escrever sobre uma antologia com mais de duzentos anos entre o primeiro e o último poeta. O que haveria de comum entre todos os poetas além do fato de serem antológicos e terem feito, ao menos em certo momento, literatura no Amazonas?, quis saber minha regular cabeça de crí tico literário. Volto à leitura. Folheio o texto ainda não encadernado que me fora entregue pelo Tenório Telles dias antes. E nada. Não sei bem por que, resolvi espalhar pelo chão do quarto as inúmeras folhas soltas. Olho para os nomes, os títulos dos poemas, as datas de nascimento. Como um detetive, estou tentando compor com essas páginas um mosaico de um crime. Que mesmo crime terão cometido todos esses autores e autoras? Ou terão sido vítimas? Se forem mesmo vítimas, muitos – inclusive vários que já partiram – não chegaram a ser mortos, porque, dispostas as páginas no chão, rodeando-me, todos me olhavam vivíssimos e desafiadores como a Esfinge. Uma moça é quem começa. Dança, violenta e branca, à minha frente. Eu sei que as sereias cantam e assim nos seduzem, mas ela dança, como também, em vez de cantar, dançam em alguns poemas as palavras – afoitas, ofegantes. Uma mulher de 19 anos com seu sangue de sol e sua alma de bruma. Mas não me conte segredo algum. Não duvido, inclusive, que se eu der bobeira ela me leva para o fundo do mar, onde os segredos ainda são mais obscuros.

* Allison Leão é escritor e professor de literatura. Escreveu Jardins de silêncio (conto) e A cidade que existe em nós (dissertação de mestrado).

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Ali próximo, em outras páginas, um grupo de cavalheiros observa a cena. Pigarreando ainda alguns pudores, Quintino Cunha me chama a atenção, pois vai declamar seu "Encontro das águas". Estufa o peito e: "Vê bem, Maria, aqui se cruzam...". Há uma fila formada para as seguintes declamações: Álvaro Maia, Américo Antony e Thiago de Mello são os próximos. Alheias ao jogral estão certas figuras, nas sombras. Está cada qual num canto, e assim parecem querer ficar. Xavier de Carvalho, Theodoro Rodrigues, Antísthenes Pinto, L. Ruas. Mas logo, dessas sombras, nos quatro cantos do meu quarto, avança uma faminta escuridão. E por um instante me parece que vai engolir a claridade nascida na boca dos poetas que louvam a magnitude de florestas e de rios. Mas em seguida atinge a fronteira com a claridade, e nesse ponto faíscam os atritos desse embate. As faíscas devem ter alterado minha vista, porque agora são muitas figuras que passeiam entre as páginas. Uns, vestidos de terno e gravata, revisam seus poemas; outros os fazem nus. Umas mulheres começam a parir palavras; outras preferem pingá-las delicadamente sobre as folhas de papel, como gotas. Poetas bebem, poetas fumam, poetas riem, poetas choram. No meio dessa confusão, Luiz Bacellar abre uma caixa de fósforos. Mas de lá saem apenas – gloriosos em sua singeleza – palitos. E eu queria outra Lux. Talvez meu caminho esteja incorreto. As antologias parecem querer agrupar, reunir. Mas estas folhas soltas, espalhadas no chão do meu quarto, dão a impressão do que talvez seja a literatura de qualquer lugar do mundo: diversa. Falamos de escritores amazonenses ou que tenham sua vida marcada por uma passagem nesta terra. No entanto, as marcas podem ser muitas. Sim, talvez as antologias reúnam, mas aqui leio a reunião da variedade. A diferença é o que lhes dá em comum. Os poetas do ciclo da borracha, os do Clube da Madrugada, os que o leitor ainda pode encontrar pelos bares da cidade, os que agora só se encontram nos livros, os da noite, os do dia, os cosmopolitas e os provincianos. E é claro, os inclassificáveis, muitas vezes cambiantes entre um desses tipos e outros – estão todos nessas páginas. Sentir essa diversidade
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significa entrever a própria diversidade cultural do Amazonas – desde as brenhas do mato de Alcides Werk até as muitas cidades de Aldisio Filgueiras. Ponto para a antologia, que assim pode ajudar a revelar o que já está bem na nossa cara: a pluralidade – e não a unidade – que compõe nossa literatura e nossa cultura. Isso mesmo, não há uma literatura amazonense; há umas. Acompanhamos, assim, através do complexo discurso literário poético, as variações da própria história do Amazonas: a colonização, a Província, a euforia gomífera, os processos de modernização, as resistências do arcaico, a contemporaneidade. Mas a sutileza da literatura requer dessa leitura histórica um esforço interpretativo, porque em sua esmagadora maioria os poemas não falam diretamente desses processos. No entanto, o lugar media a relação entre os poetas e seu tempo. Da mesma maneira que o tempo interfere na relação entre o poeta e seu lugar. Assim, cada poeta desta antologia é um signo do tempo e do lugar amazonenses. E os signos não morrem: transmutam-se. Por isso, esses mais de duzentos anos de poesia vão como que se reescrevendo, à medida que lemos o tempo passando nos poemas. E assim, não há morte; há simplesmente reprocessamento da matéria de poesia. Ler, por exemplo, a "teoria" poética de Zemaria Pinto implica reler as formas clássicas dos primeiros poetas no Amazonas. Assim como ler as revisitações formais de Luiz Bacellar significa sincronizar tempo, forma e conteúdos poéticos. Um engano que cometi ao início desta leitura foi achar que as antologias salvam os escritores, que elas os recuperam do esquecimento dos anos. Não tenho dúvida de que de certa forma isso ocorra – quando foi, por exemplo, a última vez que você leu "Monja", de Theodoro Rodrigues? Mas, ao recuperar traços da obra de cada poeta, as antologias descartam-lhes outros. Ossos de ofício de antologia. Resta esperar que cada escritor, com seu punhado de poemas nas mãos, seduza o leitor para o convite de uma maior intimidade. Como num baile, depois desta dança/leitura, o leitor lembrará de alguns rostos/vozes. E vai querer reencontrá-los.
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A Poesia no Amazonas – tradição e rupturas
Inserem-se, neste volume, poemas representativos da literatura do Estado do Amazonas. São textos que se afirmaram no gosto popular e são recitados e interpretados amiúde, como “Encontro das águas”, de Quintino Cunha, e “Estatutos do homem”, de Thiago de Mello. E inserem-se também aqueles que, segundo os organizadores, possuem qualidade estética ou importância histórica capaz de assegurar a sua permanência no cânone literário regional. Uma pergunta, entretanto, precisa ser feita e respondida: o que, na realidade, vem a ser um poeta amazonense? Como se verá, nem todos os artistas relacionados nasceram no Estado a que se refere esta antologia. O que justifica a sua inclusão foi a atuação literária que, durante algum tempo ou por toda vida, tiveram em terras do Amazonas. Devem ser incluídos, neste caso, os poetas do ciclo da borracha: Maranhão Sobrinho e Jonas da Silva, por exemplo. E, atualmente, Jorge Tufic, natural do Acre. Em contrapartida, poetas há que, nascidos no Amazonas, se radicaram em outros Estados, como Paulino de Brito. Nesse caso, o nascimento se tornou destino e a seleção se fez inevitável. É possível, portanto, que, devido à flexibilidade dos critérios de seleção, alguns nomes apareçam nas antologias referentes a outros Estados. Não cause espanto se Tenreiro Aranha, do período colonial, aparecer entre os do Pará, se Quintino Cunha surgir entre os cearenses.

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De qualquer maneira, não serão muitos aqueles que pertencem a duas literaturas regionais. A falta de comunicação entre as “províncias” faz com que elas se ignorem e tenham olhos apenas para o Sudeste do País. Quem não emigra e não se afirma literariamente nos centros principais, arrisca-se a irremediável desconhecimento. Esclarecemos que, nos textos mais antigos, termos desconhecidos ou que apresentam grafia problemática foram registrados tal e qual se encontram nos livros, mas diferenciados pelo tipo itálico: rodea, rouguemos, etc. E, finalmente, os autores se encontram apresentados pela data de nascimento. Com isso, evita-se qualquer sintoma possível de favorecimento, bem como se deixa implícita, embora sem rigor, a cronologia e a “evolução” da poesia no Amazonas: estilos de época e tendências que repetem, com alterações previsíveis, o mesmo caminho da literatura brasileira em geral.
Tenório Telles Marcos Frederico Krüger

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Henrique João Wilkens
Desconhecem-se as datas de nascimento e morte desse militar português que serviu na Amazônia durante quase toda a vida. Sua obra resumese ao poema épico Muhuraida, de 1785 (só publicado em Lisboa em 1819). Possui seis cantos, com um total de 134 estrofes. Com visível influência de Luís de Camões, tem como assunto a cristianização dos índios muras.

* * *

Escolhemos dois momentos expressivos e de boa engenharia poética da Muhuraida. O primeiro pertence ao Canto 3.o, estrofes 16 a 22, em que um ancião mura procura persuadir os índios, em fase de cristianização, a não abandonarem os antigos valores da tribo. É um trecho calcado no episódio do Velho do Restelo, de Os Lusíadas (Canto IV, est. 94 a 104). Observe-se que através do ancião, Wilkens denuncia, embora talvez involuntariamente, todas as traições e maldades que os brancos cometeram contra os índios. O segundo momento, composto de dois fragmentos, está no Canto 6.o, estrofes 4 a 9 e 12 e 13. Nele se vê como Satanás, numa última tentativa para manter os muras sob o domínio do mal, incentiva suas legiões a impedir a cristianização; e, finalmente, as providências que um anjo, enviado por Deus com o objetivo de converter os índios, toma para que o embarque que levará os muras à pia batismal se realize sem problemas. É significativo o fato de o Diabo registrar que os índios não possuem alma, concordando com posições colonialistas que com isto justificavam o extermínio dos povos da floresta.

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Do Canto 3.º
Atentos ouvem todos a proposta, Ainda que estranha, sem maior reparo, Pois a Verdade bela nada oposta É bárbara fereza, ou peito avaro. Mas entre os Anciões, um Velho encosta A ressecada mão, com gesto raro, Na negra face adusta, e enrugada, Estremado responde, em Voz irada. Oh, dos teus poucos anos, louco efeito! Da confiança vil, temeridade! Que atenção nos merece, ou que conceito, Conselho, que envilece a tua idade? Queres, que ao ferro, generoso peito Entregue a Paz? Ou perca a liberdade, A doce liberdade, o valeroso Muhura, em grilhão pesado, e vergonhoso? Já não lembra o agravo, a falsidade, Que contra nós os Brancos maquinaram? Os Autores não foram da crueldade? Eles, que aos infelices a ensinaram? Debaixo de pretextos de Amizade, Alguns matando, outros maniataram, Levando-os para um triste Cativeiro, Sorte a mais infeliz, mal verdadeiro.

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Grilhões, Ferros, Algemas, Gargalheira, Açoutes, Fomes, Desamparo e Morte, Da ingratidão foi sempre a derradeira Retribuição, que teve a nossa sorte. Desse Madeira a exploração primeira, Impediu, por ventura, o Muhura forte? Suas Canoas vimos navegando, Diz, fomos, por ventura, os maltratando? Para os alimentar, matalotagem Buscava nosso Amor, nosso cuidado; A Tartaruga, o Peixe na viagem Lhes dávamos, e tudo acompanhado De frutas, e tributos de homenagem, Em voluntária oferta, que frustrado O receio deixasse; a Confiança Aumentando, firmasse a Aliança. Que mais fazer podia o Irmão? O Amigo? Que provas queres mais de falsidade? São estes entre os quais buscas Abrigo? É nesta em que te fias amizade? Ah Muhura incauto! Teme o inimigo Que tem de falso toda a qualidade. O que a força não pode, faz destreza, Valor equivocando co’a Vileza.

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Assim falando o Velho se levanta, O lento passo ao Bosque encaminhando. Mas o Orador de nada já se espanta, Pois tal oposição stava esperando: E como nele obrava força santa De um Deus, que o mesmo esforço ia aumentando; Nos bárbaros infunde um tal conceito, Que a preferência alcança, co o respeito.

Do Canto 6.º
Mas já na Habitação do eterno dano, O Príncipe das Trevas, Monstro informe, Já no Sucesso vendo todo Arcano Da Providência Santa, deu o enorme Sinal acostumado, que do humano Inimigo Esquadrão, negro, disforme, Veloz, qual pensamento, logo ouvido, Se ajunta, na aparência, destemido. Eia, lhes diz, briosos Companheiros! Dignos todos de eterna, milhor sorte! Já que igualar quisesteis os primeiros, A aquele Deus, que rege a Vida, a Morte, Já que poder so imenso, prisioneiros Fazer-vos pode, e por Barreira forte, O imenso espaço pôr, que daqui dista Ao Céu, que já se nega à nossa Vista.

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Os olhos levantai, vede essas Feras, (Pois serem racionais, só a forma indica) Já quase a substituir-nos nas Esferas Celestes destinadas; já publica Veloz a Fama, conjecturas meras, Que só a credulidade justifica. Mas temo, desprezada esta aparência, Se realize a ruina co’evidência. Ide pois precaver a contingência, Não se perca da Presa a milhor parte; As luzes lhe ofuscai da inteligência, Empenhe-se Valor, destreza, e Arte. Não se atribua nunca a Negligência O desprezo do Aviso, pois reparte O injusto Fado com desigualdade, Poder, Ventura, e infelicidade. Qual de Etna, ou de Vesúvio vasta entranha, Fermentando indigesta Massa ardente, Da repleção efeito, arroja estranha, Temível, larga, ignífera Torrente; No trânsito impetuoso quanto apanha A cinzas reduzindo; indiferente À dura penha, à flor, Jardim vistoso, Casal humilde ou Povo numeroso.

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Do Império assim das Trevas vai saindo, Qual Torrente a Coorte, em Chama involta; O denso fumo os Ares já cobrindo, Pestífero vapor, intenso solta. Nas vastas Regiões se difundindo Vai do Amazonas, Infernal Escolta; Dos Átomos parece a qualidade Neles se identifica, e quantidade. (...) Já aflitos, pensativos, dispertando, De idea tal enfim preocupados; Só mortes e vinganças respirando, Já lhes tardava os ver executados. Mas o Anjo Tutelar, que vigiando Estava, e lamentando os enganados, Armado do poder do Onipotente, Tudo faz que se mude de repente. Inspira a todos novo ardor, desejo, De discernir o engano, e a verdade; Ao Tentador infame, e seu Cortejo, Sepulta na infeliz eternidade. Faz, que ao rancor, universal festejo, Entre os Muhras se siga, a brevidade Do Embarque se procure; realizados O fim proposto, os meios desejados.

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Tenreiro Aranha
Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha nasceu em Barcelos, antiga capital do Amazonas, no dia 4 de setembro de 1769. Faleceu com 42 anos, em Belém do Pará, no dia 25 de novembro de 1811. Livro póstumo: Obras do Literato Amazonense Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha (Pará, 1850; 2.ª edição: Lisboa, 1899; 3.ª edição fac-similada: Manaus, 1984).

Soneto
A um passarinho, quando o Autor sofria vexações

Passarinho, que logras docemente Os prazeres da amável inocência, Livre de que a culpada consciência Te aflija como aflige ao delinqüente. Fácil sustento, e sempre mui decente Vestido te fornece a Providência; Sem futuros prever, tua existência É feliz, limitando-se ao presente. Não assim, ai de mim! porque sofrendo A fome, a sede, o frio, a enfermidade, Sinto também do crime o peso horrendo. Dos homens me rodea a iniqüidade, A calúnia me oprime; e, ao fim tremendo, Me assusta uma espantosa eternidade. (Obras)
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Idílio
Ao Ilmo. e Exmo. Sr. Martinho de Souza e Albuquerque, Governador e CapitãoGeneral do Estado do Pará, achando-se a banhos fora da Capital

1.º Um dia, que apressado O manso gado trouxe ao seu aprisco, Por poder sossegado Ir banhar-me no rio, sem o risco Da Onça tragadora A cria vir roubar-me à mesma hora; 2.º Quando já mergulhando, Nas ondas té ao centro m’entranhava, Ou sobre a água olhando O delfim nadador arremedava; E entanto o claro dia C’os esforços da noite mal podia; 3.º À praia me recolho; E, tomando o vestido, um murmurinho Sinto da esquerda! olho: É um bando de Ninfas, que o vizinho Igarapé descendo, Com pressa ao largo rio vem rompendo.

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4.º Queto me ponho a ouvi-las, Por ver o que diziam, pois falando Entre si vem: senti-las Fácil me foi, mas eu vou duvidando Que acertar possa o fio Das cousas que diziam pelo rio. 5.º “Vamos, ó Ninfas, vamos “Render ao Maioral nossa homenagem. “Parece que tardamos! “Eia pois, avistemos a paragem, “Onde o Chefe Subido “Há dias, por doença, está detido. 6.º “Estamos aqui juntas “As Ninfas tutelares destes rios, “E vem-nos adjuntas “Muitas que os lagos têm por senhorios: “Todas Martinho honremos, “Façamos, Ninfas, tudo o que devemos.

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7.º “As ágoas mais sadias “Para qui n’alta enchente encaminhadas “Sejam, e nestes dias, “As flores junto ao banho amontoadas, “Os ventos chamaremos, “E que brandos respirem, lhes rouguemos”. 8.º Umas assim diziam; Porém outras, parando, concertavam Os versos que traziam, Em que o bom Maioral muito louvavam; Aquelas afinando Os retorcidos búzios, e cantando: 9.º Já uma entoa, como Havia o bom Martinho navegado O Amazonas, e como O Guamá, Tocantins há visitado, E a mil rios distantes Por ver e dar auxílio aos Habitantes!

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10.º Cantam outras Deidades, Como fora com festas recebido; E quantas saudades Os povos de seus rios têm sentido Depois; como se sente A nova da moléstia impertinente. 11.º Prometem logo aquelas, Qu’em melhorando, ao Deus da Medicina Têm de levar Capelas Da branca sumaumeira, muito fina, C’os ramos enlaçados D’umiri por cheirosos procurados. 12.º “Oxalá que depressa “As Tutelares Deusas destes rios “Cumpram sua promessa...” Clamei então; mas ah! meus votos pios As Ninfas assustaram! Todas ao seu destino se apressaram. (Ibidem)

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Soneto
Ao Sr. José Eugênio de Aragão e Lima, professor de Filosofia, amigo do Autor, quando ele foi perseguido, preso e desterrado

Enquanto o mole Siberita treme Da desgraça co’o simples pensamento, O Varão forte, sem perder o alento, De arrostar-se com ela não, não teme: Entre cadeas e grilhões não geme; Mas armado de heróico sofrimento, Livre a alma, conserva o peito isento Na fornalha, no potro, e na trirreme. Tal Eugênio presado, tu, que unindo Com a sã Filosofia a Cristandade, Dos jogos da fortuna te estás rindo. E das fezes da negra adversidade, Qual provido Mineiro, coligindo Ricas virtudes, sólida piedade. (Ibidem)

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Francisco Gomes de Amorim
Francisco Gomes de Amorim nasceu em Avelomar, Portugal, em 1827. Aos dez anos, veio para a Amazônia na condição de alugado, espécie de escravidão branca que substituía o tráfico negro. Foi discípulo de Almeida Garrett, que deu início ao Romantismo português. Faleceu em 1891, na terra natal. Obra poética: Cantos matutinos (Lisboa, 1858) e Efémeros (1866).

O Caçador e a tapuia
“Tapuia, linda tapuia, “Que fazes no cacaual?” – Por aqui é meu caminho Para ir ao cafezal. – “Nem por aqui faz caminho, “Nem há café que apanhar; “Tapuia, linda tapuia, “Que vinhas aqui buscar?” – Eu ia apanhar goiabas Para dar a meu irmão. – “Ficam à beira do rio “Não é nesta direção”. – Ando em busca de baunilha, Que minha mãe me pediu. – “Menina, nos cacaueiros “Nunca a baunilha subiu”.
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– Pois então... eu vou ao lago, Donde meu pai há de vir... – “Ao lago por estes sítios! “Para que estás a mentir?” – Se o branco tanto pergunta, Que já não sei responder... – “Se tu dizer-me não queres, “O que vens aqui fazer!” “Todos os dias te vejo “No meu cacaual andar; “Sempre seguindo meus passos, “Meus olhos sempre a fitar. “Pergunto-te o que me queres, “E tu olhas para mim; “Ou para longe te afastas, “Sorrindo-te sempre assim! “Vens assustar-me as cotias, “Pois nenhuma inda avistei; “Mas se tornas a seguir-me, “A teu pai me queixarei”. – Adeus, branco; vou-me embora Para não tornar a vir; Se o branco não achou caça, Não fui eu que a fiz fugir. Não assusta a minha idade;
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Que sou bela o branco diz; Mas o que meus olhos mostram, O meu branco ver não quis. Eu sozinha atrás do branco, Pelo cacaual andei; E o branco vem queixar-se De que a caça lhe assustei! Era a caça quem caçava Ao cego do caçador!... Quem vê tão pouco não caça, Que caça... adeus, meu amor. – “Anda cá, linda tapuia, “Não vás assim a fugir; “Tuas palavras tão doces “Volve, volve a repetir”. – Para trás não volve a caça, Meu branco, aprenda a caçar; Quem deseja caça fina Deve-a saber farejar. – Disse a tapuia, e na selva Para sempre se ocultou; Mas o caçador das dúzias Parvo da caça ficou. (Cantos matutinos)

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O Desterrado
Na foz do rio Negro em 1842

Como são brancas as flores Deste verde laranjal! É doce a sua fragrância, Como a deste roseiral; Mas têm mais suave aroma As rosas de Portugal. O solo destas florestas O brilhante e o oiro encerra; São imensos estes rios, Imensos o vale e a serra; Porém não têm a beleza Dos campos da minha terra. Estes astros são mais belos? É mais belo o seu fulgor? Mas luzem no céu do exílio Não lhes tenho egual amor. Ai! astros da minha terra Quem me dera o vosso alvor! De amores embriagada A rola suspira aqui; Com estes vivos perfumes

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Tudo ama, folga, e ri! Mas oh! que tem mais encantos A terra aonde eu nasci! Lá era a lua mais linda, Mais para os olhos as flores; As noites da primavera São ali mais para amores; E nos bosques de salgueiros Também há meigos cantores. Oh! não; não é belo o sítio Do meu desterro infeliz Onde tudo – a toda a hora – Que sou proscrito me diz. Não, não há terras formosas Senão as do meu país! (Ibidem)

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Ermanno Stradelli
O conde Ermanno Stradelli nasceu na Itália no dia 8 de dezembro de 1852. Viajou bastante pela Amazônia, tendo estudado a cultura indígena. Faleceu no leprosário de Paricatuba, próximo a Manaus, em 24 de março de 1926. Obra poética: Pitiapo, poema sobre índios do rio Negro, publicado inicialmente no “Bolletino della Societá Geografica Italiana”. Desse poema, de caráter romântico e indianista, transcrevemos os “cantos” III e V.

Pitiapo
III A linda filha de Yairo conheces, Pitiapo gentil? Ei-la! é a primeira daquelas moças que, no vão da porta, bando de corças assomam, trazendo na cabeça, com a esquerda mão seguros, os camutis a transbordar. Do rio voltam. Os lindos corpos água pingam ainda e luzem ao sol que os envolve nos matutinos raios docemente. Que pureza de formas, que lindeza na sua casta nudeza primitiva aos olhos patenteiam! Véus importunos não contendem a vista, nem deturpam as belas formas onde a mocidade

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e a natureza porfiando brilham, e nítidas no azul puro do céu, entre os umbrais, desenham-se em um nimbo de luz. É aquela, a mais nova de todas. Curtos traz os cabelos luzidios, negra como a d’esbelta bacabeira, mal roçam-lhe os ombros – não completa o ano ainda que a criança em moça transformou-se – os pequenos peitos, rijos, mal tremem quando anda, o corpo todo trescala mocidade; os negros olhos, doces e ardentes, de meiguice e chamas prometedores endoudecem; meiga juruti, sadia e forte a palma leva às companheiras todas nos trabalhos do tear e da roça; não a iguala nenhuma nas domésticas tarefas; a caça e a pesca, se ela as trata, tornam-se delicados manjares; as bebidas que amassa com suas mãos, quanto o sorriso dos seus lábios faceiros, embriagam; debaixo de seus dedos obedientes o barro é feito, amolda-se em vasilhas, que em elegância vencem os trabalhos do mais perfeito oleiro; se aparece nas festas todas vence em gentileza, no natural donaire e formosura, como a Ceucy do céu, a rival da Lua, vence as estrelas todas, quando brilha. É aquela, que adianta-se das outras
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e ao chegar onde os velhos silenciosos estão fumando diz: “Meu pai, um moço, e estrangeiro parece, aportou à ilha. Na ubá vinha sozinho. Aí vem”. E entra, logo dito, ligeira na maloca. V “Tuixaua, escuta! e vós, velhos, que sois do conselho. Eu me chamo Pacudaua, sou filho de Boopé, chefe dos Tárias, e venho mensageiro do meu pai, pra te intimar, antes que a lua se finde, a ir ter com ele com toda a tua gente”. Yairo responde: “Moço, eu não conheço teu pai, quem seja ignoro e aonde mora”. “Tu Boopé não conheces?” – admirado exclama o moço forte – “Boopé, o dono deste rio, desta terra e deste céu, tu Boopé não conheces! é possível? É o tuixaua dos Tárias, destes Tárias que filhos são do sangue do trovão, implacáveis, temidos como a morte, nunca vencido foi. Nossas malocas, circundadas de fossos e estacadas, levantam-se seguras bem debaixo do umbigo deste nosso céu de anil
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na cachoeira de Yauareté, que dos Pira-tapuias conquistamos”. “Já sei, e que nos quer?” “Quer que nós mesmos de paz e de amizade ouvir promessas”. “E ele, se tal queria, por que não veio, e quer que vamos nós?” “Porque inda há pouco chegou nesta sua terra e não sabia, se moradores tinha”. “E desde quando é esta terra sua?” “Desde que ele o quis e pisou nela”. “Pois, vê, eu ignorava, que esta minha terra tivesse um outro dono a quem nós outros obediência devemos: mas o dizes, já o sei. Podes voltar a este Boopé, a este senhor de tudo, que eu também desejo, e muito, conhecer, e a ele dizer, que eu, Yairo, tuixaua dos fortes Uananas, filho das celestes lágrimas, que das estrelas sobre as mesmas pedras, em que pisamos, pingaram do céu, onde nascemos, antes que minguando finde-se a outra lua, estarei onde surgem os tais currais destes teus filhos do sangue do trovão. Não quero e posso agora. Minha filha vai casar-se,
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e o que falta da lua é para as bodas. Ouviste? Voltar podes. Mas se agrada-te esperar entre nós, juntos iremos pois”. “O amistoso convite agradeço, mas não posso ficar. Adeus!”. E ia saindo já mas volta-se e pergunta: “Subindo o rio que gente inda se encontra?”. “Uananas todos e nossos parentes”. Apressa-se, a resposta ouvida apenas, a despedir-se em giro altivamente, e quando os olhos vira – obra do acaso? – uma outra vez se topam os seus olhos nos meigos olhos da virgem Uanana, que enleada, agitada desvia os dela. (Pitiapo)

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Torquato Tapajós
Torquato Xavier Monteiro Tapajós nasceu em Manaus, em 3 de dezembro de 1853. Graças à riqueza da família, pôde seguir para o Rio de Janeiro, onde se tornou engenheiro geógrafo de grande prestígio. Faleceu nessa cidade no dia 12 de novembro de 1897. Obra poética: Nevoeiros (Manaus, 1872), Nuvens medrosas (Rio de Janeiro, 1874) e Cromos (Ceará, 1897).

Saudades
À minha família

Saudades tenho da terra Dessa terra em que nasci; Saudades – tenho da vida Da vida que lá vivi. Saudades – tenho dos bosques Desses bosques e florestas, Onde o gentio dorme as tardes As horas mornas das sestas. Saudades – tenho das tardes – Saudades que trazem prantos Em que ao longe o Amazonas Gemia os seus tristes cantos. Saudades – tenho das brisas Que ao luar – pelo arvoredo –

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Passam tristes soluçando... E soluçando em segredo... Saudades tenho das alvas Das alvas praias d’areia, Aonde em noite estrelada Sorrindo brinca a sereia. Saudades de meus amigos Meus amigos verdadeiros; Saudades de meus prazeres Meus prazeres derradeiros. Saudades de minhas manas De minhas manas queridas; De meus manos com quem tinha Minhas dores repartidas. Saudades tenho de tudo De tudo – como ninguém – Mas me ferem mais doridas – De meu pai e minha mãe... (Nuvens medrosas)

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O Descrente
Que mais queres? De ti aborrecido Procuro a solidão. Lá mesmo vais levar a meus ouvidos O rir da multidão! Eu desprezo-te, mundo, e tu me buscas! Mil vezes maldição! Já não creio em teus risos mentirosos Roubaste-me a ilusão. Vai-te, vai-te me deixa – sinto o gelo Crestar-me o coração. Foste tu quem mo deste, pois outrora Ardia qual volcão. Nem futuro mais tenho, o atiraste Em triste escuridão. Meteoro brilhante que surgindo Perdeu-se n’amplidão. Vai-te mundo enganoso – sou descrente Oh! me sorriste em vão. Não quero teu sorriso que é mentido É rir de perdição. Fui cego em te seguir – compreendeu-te Bem tarde o coração. Mas forças inda tenho para dar-te Desprezo e maldição. (Nevoeiros)
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Paulino de Brito
Paulino de Almeida Brito nasceu em Manaus no dia 9 de abril de 1858 e faleceu em Belém em 16 de setembro de 1919. Obra poética: Noites em claro (Pará, 1888), Cantos amazônicos (Pará, 1900) e o opúsculo Portugal e Brasil, salve! (Rio de Janeiro, 1908).

Rio Negro
Na terra em que eu nasci, desliza um rio ingente, caudaloso, porém triste e sombrio; como noite sem astros, tenebroso; qual negra serpe, sonolento e frio. Parece um mar de tinta, escuro e feio: nunca um raio de sol, vitorioso penetrou-lhe no seio; no seio, em cuja profundeza enorme, coberta de negror, habitam monstros legendários, dorme toda a legião fantástica do horror! Mas, dum e doutro lado, nas margens, como o quadro é diferente! Sob o dossel daquele céu ridente dos climas do equador, há tanta vida, tanta, ó céus! e há tanto amor! Desde que no horizonte o sol é nado

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até que expira o dia, é toda a voz da natureza um brado imenso de alegria; e voa aquele sussurrar de festas, vibrante de ventura, desde o seio profundo das florestas até as praias que cegam de brancura! Mas o rio letal, como estagnado e morto, arrasta entre o pomposo festival lentamente, o seu manto perenal de luto e desconforto! Passa – e como que a morte tem no seio! Passa – tão triste e escuro, que disséreis, vendo-o, que ele das lágrimas estéreis de Satanás proveio; ou que ficou, do primitivo dia, quando ao – “faça-se!” – a luz raiou no espaço, esquecido, da terra no regaço, um farrapo do caos que se extinguia! Para acordá-lo, a onça dá rugidos que os bosques ouvem de terror transidos! Para alegrá-lo, o pássaro levanta voz com que a própria penha se quebranta! Das flores o turíbulo suspenso manda-lhe eflúvios de perene incenso!
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Mas debalde rugis, brutos ferozes! Mas debalde cantais, formosas aves! Mas debalde incensais, mimosas flores! Nem cânticos suaves, nem mágicos olores, nem temerosas vozes o alegrarão jamais!... Para a tristeza atroz, profunda, imensa, que o devora, nem todo o rir que alegra a natureza! nem toda a luz com que se enfeita a aurora! Ó meu rio natal! Quanto, oh! quanto eu pareço-me contigo! eu, que no fundo do meu ser abrigo uma noite escuríssima e fatal! Como tu, sob um céu puro e risonho, entre o riso, o prazer, o gozo e a calma, passo entregue aos fantasmas do meu sonho, e às trevas de minha alma! (Cantos amazônicos)

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Últimos momentos de D. Quixote
Morir cuerdo y vivir loco... Cervantes – El Quijote

À cabeceira o bacharel e o cura; Sancho, todo choroso, aos pés da cama; o barbeiro, a sobrinha e a velha ama além um pouco, em lúgubre postura. Despojado de lança e de armadura, eis como aquele herói de eterna fama, já vendo a Morte, que a terreiro o chama, vai dar fim à sua última aventura. Lembra-se então do tempo em que ansioso de acometer gigantes, pavoroso procurava-os montado em Rocinante. Lembra e sorri: por fim reconhecera que no mundo de anões, em que vivera, ele só, D. Quixote, era o gigante! (Noites em claro)

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Th: Vaz
Thaumaturgo Sotero Vaz nasceu em Amarante, no Piauí, no dia 30 de julho de 1869. Veio para Manaus em 1891, quando cursava o 4.º ano da Faculdade de Direito do Recife. Mais tarde, regressou àquela cidade do Nordeste para completar o curso, fixando-se definitivamente no Amazonas a partir de 1895. Faleceu em Manaus, vítima de câncer, em 19 de maio de 1921. Obra poética: Cantigas (Manaus, 1900) e Lembranças, livro póstumo (Manaus, 1993).

Minha Madrinha Nossa Senhora da Conceição
Aqui na terra desiludido, Tonto, perdido Saio das cinzas deste vulcão, Para ouvir missa na Capelinha, Lá onde mora Minha Madrinha, Nossa Senhora da Conceição! Ao pé do nicho branco e enflorado, Ajoelhado, De olhos abertos, fitos no altar, Rezo baixinho... Santa Alegria! Minha Madrinha! Ave-Maria! Cheia de graça! graça sem par!

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Mãe de Jesus! Flor do carinho! Secai os cardos de meu caminho! Livrai-me do ódio da Humanidade Da inveja torpe, da iniqüidade E da Traição. Que ora andam soltos e voejando Como de corvos o negro bando Sob a amplidão! Tende piedade, doce Rainha! Minha Madrinha! Minha Madrinha Nossa Senhora da Conceição! Olhai, ó Virgem, quantos tormentos Sofrem os justos! Quantos lamentos Soltos aos ventos! Quanta miséria! Quanto pesar! Cessai, ó Virgem esta Agonia! Minha Madrinha! Ave-Maria! Cheia de Graça, Graça sem par! Outrora o luxo, o oiro e o incenso, Guerras e danças um mundo imenso De sangue e flores, sedas e aroma, Lembrando os velhos tempos de Roma, A era negra da perdição! Lá fora o pranto, o frio e a fome Tudo que é triste, fere e consome Os pobres velhos e a criancinha! Foste por eles. Minha Madrinha! Nossa Senhora da Conceição!
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Agora em meio dessas tristezas, Nesse momento de dor augusta Dai-nos amparo para o Perdão! Não mais lembremos velhas vilezas Ai! Inspirai-nos, na nova justa Nossa Senhora da Conceição! ................................................... De olhos abertos fico rezando, Fora do mundo, junto ao altar, Vendo chegar O doce bando Das Esperanças, – Anjos formosos, meigas creanças, Cachos de lírios, rosas vermelhas, Rubras centelhas Dos céus descidas para o Perdão! E como a Virgem tudo adivinha Ri-se bondosa!... Salve, Rainha! Cheia de Graça! Minha Madrinha! Nossa Senhora da Conceição! (Lembranças)

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Sonho
De noite. Sonho e nesse sonho vejo Formosa dama que fascina e encanta. Tenho-a bem perto, seu olhar espanta De minhas mágoas o infernal cortejo. Rosas florescem no seu rosto, o beijo Na rubra polpa de seu lábio canta, Há na sua voz tanta doçura, tanta, Que eu cuido ouvir um doce e vago arpejo. Desperto enfim, nada mais vejo! agora Tudo deserto! A noite finda, a aurora Uns tons sangüíneos pelos céus derrama... E desde então (ó fantasia! ó sonho!) Por toda parte o meu olhar tristonho Anda à procura da formosa dama. (Cantigas)

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I. Xavier de Carvalho
Inácio Xavier de Carvalho nasceu em São Luís, em 26 de agosto de 1872, segundo Andrade Muricy, no Panorama do movimento simbolista brasileiro (Assis Brasil, em A Poesia maranhense no século XX, registra o ano de 1871). Foi na condição de procurador-geral que chegou ao Amazonas, onde permaneceu até 1917, aproximadamente. Faleceu no Rio de Janeiro no dia 17 de maio de 1944. Obra poética: Frutos selvagens (São Luís, 1893), Missas negras (Manaus, 1902), Cantos épicos da guerra (1918), Parábolas e parabolas (1919) e Caixa de fósforos, versos satíricos.

Chegando
Venho mesmo não sei de que Degredo Improvisando altares no caminho, A rezar, de olhos fitos no arvoredo, Missas Negras sem hóstias e sem vinho. Lá nos conventos monacais do Medo Tomei de um frade este burel de linho... E, da Vida no estúpido rochedo, Eis-me na encosta a caminhar sozinho. Poetas de todo o Mundo, vinde ouvir-me! – Que um Monge Bom, com os olhos rasos d’água Quase às portas da Morte, porém firme,

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Vai produzir, numa oração sentida, Desse intangível púlpito da Mágoa, Todo um sermão de Lágrimas à Vida! (Missas negras)

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Hoje
Do meu peito o pomar, dantes risonho, Hoje é sem chuva e até de orvalho enxuto, O ar vive seco e o céu vive tristonho, Sem água o espaço e a terra sem dar fruto. O horror da morte a perpassar escuto Por sobre tudo num pavor medonho! Té os galhos, sem cor, estão de luto Das carcomidas árvores do Sonho! – Por toda aquela natureza em mágoa Tudo sinto morrer à míngua d’água Sem que o inverno do Céu jamais irrompa... Na árida terra que o calor invade, A única flor é o cactus da Saudade Que desabrocha lânguida e sem pompa! (Ibidem)

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Aníbal Teófilo
Aníbal Teófilo nasceu no dia 21 de julho de 1873, no Rio Grande do Sul. Por força de sua amizade com o seringalista Manuel Lobo, passou parte de sua vida em Humaitá, município do rio Madeira, no Amazonas, como hóspede no seringal “Três Casas”. Em seu tempo, fez sucesso com o soneto “A Cegonha”. Foi assassinado no Rio de Janeiro a 19 de junho de 1915. Obra poética: Rimas (Porto, 1911).

A Cegonha
Em solitária, plácida cegonha, Imersa num cismar ignoto e vago, Num fim de ocaso, à beira azul de um lago, Sem tristeza, quem há que os olhos ponha? Vendo-a, Senhora, vossa mente sonha Talvez, que o conde de um palácio mago, Loura fada perversa, em tredo afago, Mudou nessa pernalta erma e tristonha. Mas eu, que em prol da Luz, do pétreo, denso Véu do Ser ou Não Ser, tento a escalada, Qual morosa, tenaz, paciente lesma, Ao vê-la assim mirar-se n’água, penso Ver a Dúvida Humana debruçada Sobre a angústia infinita de si mesma!

(Rimas)
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Mater
Mãe! Doce afeto a cuja sombra venho Buscar a luz do bem de que me inundo; Pobre mártir, exemplo alto e profundo Que em vão quer definir meu fraco engenho; De outra não sei que traga neste mundo, Pelos calvários que subido tenho, Nos frágeis ombros, um tão rude lenho Dentro de noite de negror tão fundo. Do que esperavas pelo nascimento, Do lar sonhado – todo calma e brilho – Que vazio e tristonho isolamento! Mãe resignada a quem me curvo e humilho, Como orgulhoso pago em sofrimento A pura glória de nascer Teu filho!

(Ibidem)

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Horas roxas
É nas horas como esta, em que o céu dolorido De uma cinza-lilás impalpável se abruma, Que mais me abate e alenta este sonho em que lido A finas frechas de ouro e carícias de pluma. É quando mais me oprime a saudade da espuma Rósea, vida e fulgor de um semblante querido... Do nosso extremo adeus, e do passado de uma Vez para sempre agora em nuvens más perdido. Horas que traduzis em delírios enfermos: – Amplos quadros boreais, luares branqueando lousas, Cortejos de ilusões fantasmeando por ermos... Jamais vos maldirei, doces horas tiranas, Que fazeis vir à luz a mais santa das cousas, – O pranto, a prova real das fraquezas humanas. (Ibidem)

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Theodoro Rodrigues
Theodoro Rodrigues nasceu no dia 16 de junho de 1873, em Vigia, Estado do Pará, e faleceu em Belém, em 1913. Entretanto, passou a vida no Amazonas, Estado em que teve grande vivência profissional e literária. A maior parte de sua produção se encontra dispersa (e talvez perdida) nos jornais do período. Obra poética: Canções do Norte (1909).

Monja
Essa que foi outrora tão formosa dama de olhar sereno e iluminado, essa deixara a vida tormentosa, por um triste convento abandonado. E à noite, quando a lua misteriosa vai pelo azul sereno e constelado, a débil voz de sono Dolorosa plange, como um gemido entrecortado. É que no exul da pálida clausura há uma pungente história de amargura que o coração de sóror vai fanando. ...Noivos... morreu o noivo amado. Agora a monja triste, em desespero, chora, um retrato de lágrimas banhando...

(In: LINS, Seleta literária do Amazonas, p. 62)

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A Festa do caium
No espaço o maracá selvagem chocalhando, No terreiro da taba em círculo formada, A cabilda feroz, em festa vai cantando Os feitos geniais da prole antepassada. A um canto, triste e só, aquela cena olhando, Co’a forte “mussurana” ao poste acorrentada, A vítima infeliz sente que vai chegando O momento fatal de ser sacrificada. E no auge do festim avança – hora suprema! Enraivecido, o algoz, vibrando a tangapema, Tomba a vítima... o sangue, em jorros, espadana. E naquele furor os membros espedaçam... Deitando-os no “bucan” as velhas esfumaçam E a rir vão banquetear-se em rubra carne humana. (In: KRÜGER, Introdução à poesia no Amazonas, p. 141)

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Quintino Cunha
Nasceu José Quintino Cunha na vila de São Francisco de Uruburetama, atual Itapajé (CE), no dia 24 de julho de 1873. Veio para o Amazonas na condição de rábula, advogando sem possuir o diploma. Em 1909 voltou à terra natal, completando, então, o curso de Direito. No dia 1.º de junho de 1943, em Fortaleza, veio a falecer. Obra poética: Versos de cores (Fortaleza, 1897), A Morte do Cabeleira: elegia (Baturité, 1902), Pelo Solimões: versos norte-brasileiros (Paris, 1907), A Pulga: poemeto (Fortaleza, 1917).

Encontro das águas (Rios Negro e Solimões)
Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este É o rio Negro, aquele é o Solimões. Vê bem como este contra aquele investe, Como as saudades com as recordações. Vê como se separam duas águas, Que se querem reunir, mas visualmente; É um coração que quer reunir as mágoas De um passado, às venturas de um presente. É um simulacro só, que as águas donas Desta terra não seguem curso adverso, Todas convergem para o Amazonas, O real rei dos rios do Universo;

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Para o velho Amazonas, Soberano Que, no solo brasílio, tem o Paço; Para o Amazonas, que nasceu humano, Porque afinal é filho de um abraço! Olha esta água, que é negra como tinta, Posta nas mãos, é alva que faz gosto; Dá por visto o nanquim com que se pinta, Nos olhos, a paisagem de um desgosto. Aquela outra parece amarelaça, Muito, no entanto, é também limpa, engana; É direito a virtude quando passa Pela flexível porta da choupana. Que profundeza extraordinária, imensa, Que profundeza mais que desconforme! Este navio é uma estrela, suspensa Neste céu d’água, brutalmente enorme. Se estes dois rios fôssemos, Maria, Todas as vezes que nos encontramos, Que Amazonas de amor não sairia De mim, de ti, de nós que nos amamos!... (Pelo Solimões)

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A Enchente
Sinistro cresce o rio bom de outrora, Mas hoje um cruel, fazendo mil estragos, Já não tem coração, não tem afagos, Para si mesmo, o Solimões d’agora; Mas, em compensação, há nisto uns vagos Tons de alegria impressionadora: É que alegres os peixes vão-se embora, Pelos igarapés, para os seus lagos. E, do oeiranal, pousadas tristemente, Com a mesma tristeza com que a gente Se prostra, às vezes, quando sente mágoas, As garças olham como a praia há de Em breve se esconder, naquelas águas, As garças olham... tristes de saudade!... (Ibidem)

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Garça feliz
Um lago, a cuja flor, nas canaranas, Impossível, traiçoeiro, repelente, Um jacaré assustadoramente Estruge e tange as gárrulas ciganas. Depois margina a sombra das oeiranas, Vendo uma garça, sorrateiramente, Solta-lhe a cauda e um jato de repente D’água, desfaz-se no ar em filigranas. E, quando morta a triste garça eu via, Como um toque ilusório de alegria, No coração sensível da tristeza, Rosna perto uma onça e o monstro solta A embiara feliz, que as asas volta Para o bonito Céu de azul-turquesa! (Ibidem)

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Heliodoro Balbi
Em Manaus, no dia 16 de fevereiro de 1876, nasceu o poeta Heliodoro Balbi. Na terra natal fez os cursos primário e o de Humanidades, seguindo posteriormente para Recife, onde bacharelou-se em Direito. Faleceu na cidade de Rio Branco, Acre, em 26 de novembro de 1918. Não deixou livros publicados. Sua produção se encontra dispersa em jornais e revistas da época; quase toda, portanto, desaparecida.

Durante a febre
Morrer! e ser lançado ao mar, no mar do Oriente... No teu dorso senil, ondas do mar Vermelho! E no deflúvio real do teu líquido espelho Ir a Morte arrastando o meu corpo inda quente... Meu loiro sonho! minha pobre alma! meu velho Tronco! a flutuarem dentre os juncais da corrente... E debater-me em vão! como em vão, loucamente, No arrebol se debate um áureo escaravelho! No alto do céu radioso o ocaso dos Oceanos... Meu sangue a jorrar pondo vermelhas estrias Na garganta de luz dos ’squalos e goelanos... E eu só! e eu mudo! a rodopiar em caracóis! Tenho, através as rubras órbitas vazias, A ilusão imortal de um combate de sóis...

(In: MELLO, Lira Amazônica, p. 121-2)
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Flor de pedra
Ó voi ch’avete gl’intelletri sani Mirate la dottrina che s’ascende Sotto il velame delli versi strani. Dante

Esta, por ser talhada em pedra fria, Talvez, senhora, menos vos agrade, – Talhou-a o fogo ideal da fantasia No mármore pagão da egrégia Helade. Um dia o artista, olhando um bloco, sente A alva cisma dos sonhos a segui-lo, E, sem pensar, alucinadamente, Pega do bloco e crava-lhe o anfismilo. Primeiro, a mão nervosa rasga e aviva O traço, que o circunda e cinge em torno, E vê, pasmado, a curva de uma ogiva Na branca cinzeladura de um contorno. De novo o bloco escinde e, pontilhando O centro, ergue o pistilo à luz radiosa, E exulta, ao ver um sol agonizando No áureo cariz de um cinto de rosa... Além, já solta a fibra, o caule desce Sutil, rolando em balbucio de onda, E, entre pompas, viceja e transfloresce – O mais rijo do bloco se arredonda.

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Aí, brunindo a aresta branca e lisa Das folhas (que as talhara iguais a trevo), Levanta a mão, graciosamente, e frisa A linha dos relevos num relevo. E salta à luz, estonteante e presa Da brancura do mármore risonho, A flor, que encerra em si toda a beleza Das nevroses do céu e ânsias do sonho... – Losna ou meimendro, venenosa ou santa, Flor! carquísio da vida e urna da morte (Exclama), teu primor meu braço espanta... Nunca meu braço mais a pedra corte. Mas, furioso, o artista nesse instante Quebra a flor e do mármore renega, Pois não lhe dera a natureza amante O estuoso aroma da giesta grega. A flor de pedra é como o verso: toma O supremo lavor que o fere e anima, Mas neste, o sentimento é como o aroma: Foge rindo e cantando à flor da rima. Pedis, senhora, um canto... e o plectro firo. Quero a emoção suprema na beleza... Por isso o plectro despedaço e atiro Ao céu o grito de – ÓDIO À NATUREZA! (In: LINS, Seleta Literária do Amazonas, p. 51-2)
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Maranhão Sobrinho
José Américo Augusto Olímpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho nasceu em Barra do Corda, Maranhão, no dia 25 de dezembro de 1879. Ajudou a fundar, em 1900, a Oficina dos Novos e, em 1908, a Academia Maranhense de Letras. Em seguida, veio para Manaus, onde faleceu exatamente no dia em que completava 36 anos, ou seja, no Natal de 1915. Obra poética: Papéis velhos... roídos pela traça do Símbolo (São Luís, 1908), Estatuetas (São Luís, 1909) e Vitórias-régias (São Luís, 1911).

Vencendo o Saara
Queima as nuvens o sol, ensangüentando os ermos; ais de sede se vão da face dos desertos. No braseiro cruel das areias sem-termos vais guiando, do azul, os meus passos incertos! Passam, verdes, em luz, nos meus olhos enfermos as miragens do amor dos meus sonhos despertos... Que alegria no além, sobre as nuvens, ao vermos os espelhos de luz de cem lagos abertos! Vou, sem água, transpondo as ingratas savanas! Expira o meu olhar nos longes horizontes... Caravanas atrás e, adiante, caravanas! Benditas sejas, fé, que, pela mão, me trazes! Não tardam rutilar no ouro das nossas frontes as bênçãos de cristal dos vívidos oásis! (Papéis velhos... roídos pela traça do Símbolo)
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Cromo
Desce a tarde. Faísca o sol distante, tingindo o céu de púrpura sagrada e, dos montes, dourando, instante a instante, a sinuosa e oblonga cumeada... Do mar a face de ouro e azul plissada faísca opalas vivas, coruscante como um pedaço imenso da alvorada entre as glórias e as pompas do levante! De vez em quando, sobre a face imota do mar, toda a fulgir de pedraria, roça a asa de luz de uma gaivota... E vão chegando, aos últimos fulgores do sol que vai dourando as penedias, longe, os barcos gentis dos pescadores... (Ibidem)

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Soror Teresa
... E um dia as monjas foram dar com ela morta, da cor de um sonho de noivado, no silêncio cristão da estreita cela, lábios nos lábios de um Crucificado... Somente a luz de uma piedosa vela ungia, como um óleo derramado, o aposento tristíssimo de aquela que morrera num sonho, sem pecado... Todo o mosteiro encheu-se de tristeza, e ninguém soube de que dor escrava morrera a divinal soror Teresa... Não creio que, do amor, a morte venha, mas, sei que a vida de soror boiava dentro dos olhos do Senhor da Penha... (Ibidem)

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O Coração do mar
No tempo em que eu amava a minha vida era um pesar sem termos: se o meu bem dos meus olhos se apartava, o mar somente e a doce paz dos ermos a minhalma buscava. Um dia, quando triste eu desfazia os meus suspiros íntimos ao vento e o mar queixoso e desolado ouvia, beijando os olhos seus no pensamento, perguntou-me piedoso o velho mar, vendo-me triste num rochedo nu, tão nu como de amor hoje este olhar: – “Por quem suspiras tu?” E eu respondi gemendo, com a voz como a de um pássaro ferido, nas mágoas do oceano as minhas vendo e ouvindo o meu amor chamar-me ao ouvido: – “Eu, mar amigo, como tu, também sofro! Hoje sou também como tu és... suspiro pelo meu saudoso bem!” E o mar rugiu-me aos pés...

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Passou-se muito tempo; a que eu queria esqueceu-me feliz por outro amor, disse-me adeus ingratamente um dia, e eu só fiquei com a minha imensa dor... Para esquecer a minha atroz saudade... minto! no sonho de inda um dia a ver, deixei, na paz da sua santidade, o ninho alegre que me viu nascer... E andei, ansioso andei... Numa noite de mágoas, insofrida, entre piedosas lágrimas, sonhei que te exalavas, minha mãe querida! Sem esperanças mais de ver-te, então com desesperos límpidos no olhar, eu fui pedir ao mar consolação, eu fui pedir consolação ao mar, sobre o mesmo rochedo antigo e nu. E, de novo me vendo suspiroso, – “Por quem suspiras tu?” perguntou-me com fúria o mar ondoso.

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E eu respondi-lhe: – “Ó mar, dá-me o teu seio! Hoje o teu seio ao mundo atroz prefiro... Se ainda amigo dos que sofrem és, arranca-me esta dor de que ando cheio! É morta minha mãe, por quem suspiro...” E o mar beijou-me os pés! (Vitórias-régias)

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Jonas da Silva
Jonas Fontenelle da Silva é natural de Parnaíba, no Piauí, onde nasceu a 17 de dezembro de 1880. Quando tinha onze anos de idade, a família transferiu-se para Manaus. Estudou no Rio de Janeiro, tendo se formado em Odontologia em 1899. Pertenceu às Academias de Letras do Amazonas e do Piauí. Faleceu em Manaus no dia 5 de junho de 1947. Obras poéticas: Ânforas (Rio de Janeiro, 1900), Ulanos (Rio de Janeiro, 1902) e Czardas (Manaus, 1923).

Coração
Meu coração é um velho alpendre em cuja Sombra se escuta pela noite morta O som de um passo e o gonzo de uma porta Que a umidade dos tempos enferruja. Quem vai passando pela estrada torta Que leva ao alpendre, dessa estrada fuja! Lá só se encontra a fúnebre coruja E a Dor, que à prece o caminhante exorta. Se um dia, abrindo o casarão sombrio, Um abrigo buscasses contra o frio E entrasses, doce criatura langue, Fugirias tremente, vendo a um lado, A Crença morta, o Sonho estrangulado E o cadáver do Amor banhado em sangue! (Ulanos)
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Lago maldito
Se hoje, em surdina, o teu pesar disfarças, Ouvindo o canto às jaçanãs morenas, Sentes, minh’alma, as aflições e as penas De um lago azul sem jaçanãs nem garças. Lago em que havia à superfície esparsas Grandes vitórias-régias e falenas E em que hoje existe a canarana apenas E são as praias matagais e sarças... Senhora, olhai, vede esta cena, em mágoa... Um peixe enorme agita as barbatanas Fazendo um grande redemoinho n’água... Morre aos venenos do timbó medonho... – Assim tombei nas lutas desumanas, Tal a Descrença envenenou-me o Sonho!... (Czardas)

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Triste viajor sem fé
Triste viajor sem fé, companheiro dos párias, Velejando ao Jardim de Hespérides mirífico, Embora o procureis no Atlântico ou no Pacífico Não no vereis jamais nas ondas solitárias... Para o alcançardes, vede: há mil forças contrárias; É passada a monção – o mar brando e magnífico. A um temporal como este – um maremoto horrífico, Foi-se a Atlântida: só há Cabo Verde e as Canárias! Os tempos não são mais a Argonautas propícios; Pã ainda não voltou; não há mais Endimiões; Breve o sol morrerá: nem zênites nem solstícios... Por castigo, talvez, de empresa assim quimérica Argos e Héspero vêem-se entre as constelações E Colombo é o infeliz Argonauta da América!... (Ibidem)

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Raimundo Monteiro
Raimundo de Castro Monteiro nasceu em Humaitá, cidade à margem esquerda do rio Madeira, no dia 24 de outubro de 1882. Viajou pela Europa e administrou, durante um certo período, o seringal de seu pai, que ficava no rio Machado, afluente do Madeira. Faleceu na capital do Amazonas, em 20 de junho de 1932. Pertenceu à Academia Amazonense de Letras. Obra poética: As Horas lentas (Manaus, 1930).

Utas
Morre, em surdina, a toada De uma viola magoada... – Penso na minha Amada. II Do alto a lua irradia Sobre a selva sombria... – O luar parece dia. III O rio, amplo e sonoro, Flor, sabe que eu te adoro: – À sua margem choro... (As Horas lentas)

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Pentesilea
Foges... No encalço teu açula-se a matilha... Rompe azinhaga e sebe, e pula, milha a milha, Sobre vergéis de timo e menta, sem cessar, Farejando o teu cheiro espalhado no ar! Cheiro de timo e menta – ó gáudio da matilha Correndo no clarão do teu rastro a ladrar! Os espelhos dos vaus partindo na carreira, Gobelinos do bosque e alfombras da clareira Rasgando, em alarido, atrás de ti se lança A esvelteza veloz dos galgos da Esperança! Relinchos de corcel em afoita carreira... Foges... Não tomarás a brida a essa esquivança? Susta o galope infrene à borda flórea e a pique Do Amor – que o teu corcel, nitrindo, mortifique, Um momento sequer, com o freio, a boca a arder De uma sede sem fim de correr, de correr... Dessa fuga talvez nem a lembrança fique... – Certo, alguém ficará te esperando... e a sofrer. (Ibidem)

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Eu
Meus olhos tristes não choram Mas a minha alma padece... O orgulho que me enaltece É como o orgulho de um rei! Mágoas, que os outros deploram, Dão-me coragem sem termo... O meu espírito enfermo Às tempestades lancei. Árvore seca do monte Ao sol e às chuvas morrendo, Num desespero tremendo Minore a insânia da dor... Entre horizonte e horizonte, Hirto e fatal agonizo... Enquanto, longe, diviso A nuvem leve do amor. Nuvem de gaze tão leve Que se desfaz na distância... Como a azulada inconstância Das ondas que vêm e vão! E a fantasia se atreve A colori-la com as tintas Tão rubramente distintas Da minha amarga paixão!

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De tédio sofro e esmoreço Como um beduíno sem rumo... E em vãos temores consumo O meu orgulho de um rei! Mas, sempre audaz, reconheço Que não fiz mal quando a vida, Numa arrogância atrevida, Às tempestades lancei! (In: LINS, Seleta literária do Amazonas, p. 96-7)

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J. Ferreira Sobrinho
José Joaquim da Luz nasceu em Iguatu, no Ceará, em 1888. Para poder vir para a Amazônia na companhia do tio, José Ferreira Lima, alterou o nome para José Ferreira Sobrinho. Estabeleceu-se inicialmente no Acre, transferindo-se para Manaus, em definitivo, a partir de 1928. Obra poética: Eu... (verso e prosa) (Manaus, 1932) e Matupás do meu lago (Manaus, 1937).

A Garça
Ao velho bardo coestaduano Quintino Cunha

Por entre capinzais, entre um juncal florido, defrontei, cismarenta, uma garça alvadia... Agora, contemplava o espaço indefinido... Depois, no espelho-d’água, a quieta imagem via... Perto em perto, em seu bico, a piaba luzidia, nos espasmos da morte, o dorso bipartido, traspassada de dor, coitada! estremecia, para não volver mais ao lago seu querido... Enublou-se a atmosfera. Um rouco vendaval soprou do Norte ao Sul. Veio a tarde, de manso... E a garça, sempre ali, no plácido remanso do lago, a refletir, no alvíssimo cristal, a impecável brancura, evocada, esquecida, a alma humana enfrentando os temporais da vida... (Matupás do meu lago)
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O Uirapuru
Para o Olegário Mariano

No Acre. Pleno verão. Deslumbrante arrebol inundava de luz a majestosa mata, quando, a viajar, ouvi, do maestro de escol, a voz, que nos fascina, entusiasma e arrebata. No alto de um buriti, bebendo a luz do sol, ele o canto habitual, primoroso, desata... Rodeiam-no, da selva em multicromo rol, boêmios e menestréis, voejando, espata a espata, em coro... E mais e mais se inflama a rude avena, afeita a preludiar, por invernos e estios... Tão soberba magia a ave ao concerto empresta, que se tem a impressão de que, assim, tão pequena, tem, no peito, o rumor de cascatas e rios e a harmonia pagã de suntuosa floresta. (Ibidem)

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Barreto Sobrinho
Barreto Sobrinho nasceu no Rio Grande do Norte, mas veio para a região amazônica atraído pelo ciclo da borracha. Teve grande vivência no Acre e, principalmente, no Amazonas. Obra poética: Mármores (1913), Sombras e telas (1922), Natura (1923), Os Meus ângelos (1927), Orquestra selvagem (Manaus, 1929), Tuba amazônica (1934).

Três garças... três graças...
Dentro da floresta amazônica, disforme, há um grande lago, um lago enorme, que vive a espelhar na face sua de dia o sol, de noite a lua... Em torno ao lago o vasto capinzal verdeja. E sob o afago de mil aves de cantos estridentes ou suaves, alveja uma trilogia de garças brancas que naquelas paragens francas ficaram perdidas qual três visões esquecidas... Aquele grupo lindo de três garças, faz-me pensar que fugiram do Pindo as três graças...
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E ali naquela imensidade de água e floresta elas estão simbolizando a saudade na expressão de sua alvura modesta... E o lago também ali perdido, ignorado, dá-me a idéia de um mundo encantado transformado no líquido polido... Esta minha impressão (eu bem recordo) tive-a ao passar por ali, a bordo. O rio se estirava interminável! A floresta aumentava formidável! Foi quando eu vi as três garças solitárias naquelas paragens milenárias de sugestões e de belezas raras, de lendas, de bruxedos e de Iaras! Mas as três garças brancas pareciam três almas penadas que aos viandantes pediam que fizessem com que elas fossem desencantadas... Mas o navio passou e a trilogia das garças ali ficou! (Orquestra selvagem)
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O Uirapuru
Quem passa sobre os rios dessa região imensa, ouvindo os berros, os cantos, os gritos, os pios da população selvagem, pensa que aquela musicalidade extraordinária é a voz tumultuária de uma calamidade... Entretanto destaca-se entre a grande balbúrdia a expressão original, estúrdia de um canto dalgum duende que ninguém entende... Todos os brutos, animais e aves, dentro do coração da floresta, ouvindo os tons suaves, cheios de estupefação ficam calados e maravilhados! O duende-pássaro que na floresta apareceu é alma de Orfeu!... (Ibidem)

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Pereira da Silva
Francisco Pereira da Silva (Pereirinha) nasceu em Guamaré, no Rio Grande do Norte, no dia 7 de setembro de 1890. Em 1911 chegou ao Amazonas, integrando-se à vida cultural do Estado. Como deputado federal, foi o autor da lei que criou a Zona Franca de Manaus. Pertenceu à Academia Amazonense de Letras. Faleceu em Manaus em 10 de setembro de 1973. Sob a influência das idéias modernistas, publicou, em 1927, o livro Poemas amazônicos.

Sumaumeira morta
Lá vai boiando, na Água Grande em turbilhão, A sumaumeira morta, que tombou. Ela era antiga e gloriosa Como um deus que passou, Que vai bem longe, um deus heróico, um deus pagão. A sua fronde, outrora, Era uma eterna festa, Onde a alegria, Toda vestida de verde, cantava E bailava, Pela garganta metálica, sonora, Dos Japiins boêmios e joviais. Coroada de arminho, a sumaumeira, sorria Para o sol – imperatriz orgulhosa Da floresta!

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Na orgia de luz das tardes tropicais, Plena de seiva, os galhos formidáveis Fremiam, como braços vigorosos Em ansiedade, Tentando profanar as franjas impalpáveis Do zainfe irisal dos altos céus escampos. Depois, dentro da noite, a sumaumeira, Tinha a grandeza de um altar druídico, Erguido em meio da brutalidade Das selvas e das águas tumultuárias, Iluminado pelos pirilampos. Mas, um dia, o apuizeiro, fascinado Por tanta majestade e tanta formosura, Como um capro, investiu, Envolveu-lhe a cintura. E a esse abraço fatídico, Toda a sua beleza sucumbiu! As invernias e os vendavais Arrancaram-lhe as folhas desbotadas. E aqueles flocos de alva pluma, Desfeitos, doidejando, em torvelinho, Pousando aqui, ali, no coração da mata, Por sobre as franças verdolengas perfumadas, Certo, haviam de ser as lágrimas de arminho Da árvore-imperatriz, lentamente a morrer.

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Quando os tentáculos cruéis do apuizeiro Sugaram a última gota de sua vida, De sua seiva, e ela – a nobre e altaneira Sumaumeira, – Morreu de todo, afinal, A natureza, a chorar, foi vesti-la de branco. ...E a árvore-grande ficou, como um fantasma solitário, À beira do barranco, Crucificada na angústia do Não-ser! A múmia branca da potência vegetal Da Terra Verde, erguia os braços para os céus. E ao lampadário Do sol-poente, Parecia enviar uma prece eloqüente Ao Sublime-Inexplicável – que é Deus! Agora, a Água Grande, impiedosa, Que tudo avassala e tudo desbarata, Carcomendo o barranco, fez tombar A velha sumaumeira morta há tanto ano! ...E lá se vai, aos roldões, na avalanche furiosa, O velho tronco brancacento, Cumprindo o seu fadário, assaz tirano, As raízes voltadas para o ar. ...E lá se vai, dobrando as curvas, Vencendo os estirões, No esquife abissal das águas turvas, O cadáver da velha sumaumeira!
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Ashaverus das selvas amazônicas! Para onde te leva o mau destino, Cheio de pragas e de maldições? Que mal fizeste em ouvir as preces melodiosas Do passaredo, à hora do amanhecer? Bem cruel e violento O teu castigo! Dia e noite boiando, a descer, a descer... A Água Grande – esse verdugo, esse tigrino Carrasco, a te levar Assim, Insensivelmente, friamente, para o fim! Mas – Oh! Sumaumeira morta! – vai contente Para o teu jazigo! Em teu desfile lúgubre, em alas, Todas as catedrais frondejantes da flora, O tronco gigantesco a flutuar sem vida, Cada vez mais o teu destino se alcandora! As tuas raízes Estão bracejando aflita despedida, Às árvores felizes Que vão ficando, Verdejando Pelas margens dos rios, a cantar.

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Mas, embora arrastada pelas águas, Os rebojos rezando em voz soturna, As espumas coroando as tuas mágoas, Cada vez mais soberbo e mais glorioso, Fulge ao sol o teu tronco de gigante! Bendita sejas, Árvore Grande de minha devoção Emocional! Teu último instante Há de ser grandioso Como o enterro de um Deus, na vastidão Azul do espaço sideral! Porque, afinal, soberba samaumeira, Para cúmulo De tua glória, imperatriz do mundo florestal, Terás a apoteose derradeira Na pompa altiloqüente do teu túmulo: – O Mar! (Poemas amazônicos)

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Mavignier de Castro
Antônio Mavignier de Castro nasceu em Maranguape, no Ceará, em 1891. Fez na França o curso de Ciências e Letras. Pertenceu à Academia Amazonense de Letras. Faleceu em Manaus em 1970. Publicou sua obra poética em jornais e revistas. Seu único livro foi lançado postumamente pela Universidade Federal do Amazonas, em 1999. Intitula-se Luar amazônico.

Luar amazônico
Verão. Rio em deflúvio. A lua cheia alonga perspectivas pela mata; só a fauna da noite ali vagueia à sombra errante que o luar dilata... Álgido, estreito igarapé serpeia, qual sinuosa lâmina de prata... Que melopéia o urutauí flauteia na solidão lunar da terra grata! Amanhece; mas imitando um rito sobre a mata flutua um véu de neve... E o Sol – pátena de ouro do Infinito, espera que no altar da selva nua, o Sacerdote imaterial eleve a imagem eucarística da lua! (Luar amazônico)

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Alma de marujo
Amo, às vezes, fitar como os marujos do velho cais, ao céu crepuscular, o perfil oscilante dos saveiros e o adeus das velas para o meu olhar. Ao contato dos barcos forasteiros, sinto em mim o desejo singular de correr mundo como os marinheiros, de ser marujo dominando o mar... É que, de certo, em épocas remotas, as minhas ilusões foram gaivotas no anil dos mares, ao rugir do Sul... E, além seguiram – desgraçadas delas! – o roteiro de sol das caravelas talvez perdidas nesse abismo azul!... (Ibidem)

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Hemetério Cabrinha
Em 3 de março de 1892, Hemetério José dos Santos nasceu em Fortaleza. Registre-se, de passagem, que o nome literário Cabrinha se deve a um apelido de infância. Em Manaus, trabalhou como carpinteiro e desenvolveu grande cultura como autodidata. Faleceu na capital do Amazonas, no dia 12 de fevereiro de 1959. Obra poética: O Meu sertão (Manaus, 1920), Satã (Manaus, 1922), Vereda iluminada (Manaus, 1932), Caim: poemeto (Manaus, 1934), O Cristo do Corcovado (Manaus, 1952) e Frontões (Manaus, 1958).

Velho tronco
Olha esse tronco de árvore esgalhado, levado à toa pela correnteza. Quem nos sabe contar o seu passado? Quem nos diz sua história? Com certeza Floriu, frutificou, teve seu fado, foi luz, foi pão, foi ouro, foi grandeza, teve um viver de inveja saturado, foi um sorriso aberto à natureza. Vê! como ele vai sereno, a esmo, arrastando o cadáver de si mesmo para um destino torturante, triste... No entanto, quantas vezes não enchera de frutos bons, a mão que o abatera! ...Como esse tronco muita gente existe! (In: MELLO, Lira Amazônica, p. 123-4)
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A Pororoca
Calmo, sereno, plácido, espelhante, Nas horas de luar, frias e brancas, O Mearim, gargalhando nas barrancas, Se estende, estica e perde-se distante. O céu, como uma concha de safira Emborcada por toda a Natureza, Enche a paisagem de real grandeza Enquanto o rio pelo chão se estira. A floresta conserva-se parada; Nenhuma folha quebra-lhe o silêncio. E o intérmino trajeto, o rio vence-o Calmo dentro da noite enluarada. Mas, um rumor, ao longe, de repente, Ecoando à distância, estruge, esturra... Uma invisível força o rio empurra De encontro às margens assombrosamente. As águas fervem, tumultuam, crescem Alagando, destruindo, aniquilando, Num furor infernal arrebatando Árvores altas que nas águas descem. As raízes do solo se deslocam Sob a fúria dos bruscos elementos.

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Ondas revoltas, vagalhões violentos, Na agonia das margens se rebolam. Em derredor das ribeirinhas zonas Nada fica que o rio não ameace; Como se no seu dorso galopasse Um tropel de raivosas amazonas. Embarcações desgarram-se, afundando, Quebrando amarras, rebentando mastros. E a Pororoca, em seus sinistros rastros, Rola por entre abismos esturrando. Depois... Volta o silêncio. O rio desce; Plácido e manso o curso continua. Enquanto branca e só se esconde a lua Como se nada acontecido houvesse... Mesmo assim somos nós, nas nossas trocas De amores e emoções. Tranqüilamente, Quando mal esperamos, de repente Rebentam n’alma doidas pororocas. (Frontões)

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Em busca da perfeição
A alma que busca exílio nas clausuras Emotivas da vida transitória, Traz em sua odisséia, em sua história As conseqüências das ações impuras. Absorvida nas dores, nas torturas, Nos desesperos de uma luta inglória, Percorre amargurada trajetória Em sucessivas existências duras. Reparando a fraqueza de seus atos, Como o cego levado pelos tatos, Busca na treva a meta desejada. Até que um dia, em vestes vaporosas, Abre no espaço as asas luminosas E conquista a Mansão Iluminada. (Ibidem)

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Álvaro Maia
Álvaro Botelho Maia nasceu em Humaitá (AM), em 19 de fevereiro de 1893. Foi eleito governador do Amazonas em 1934. Mais tarde, com o Estado Novo de Getúlio Vargas, foi nomeado interventor, cargo que exerceu até 1945. Faleceu como senador da República no dia 4 de maio de 1969. Obra poética: Jacaré de assombração: lenda do interior do Amazonas (Manaus, 1958) e Buzina dos paranás (Manaus, 1958).

Árvore ferida
Ante a constelação do céu florindo em lume temos, ó árvore, o mesmo ideal e a mesma sina... Sangrou-me o peito inerme a sensação divina, como a acha te sangrou em golpe de negrume. Dando esmola ao faminto e consolo à ruína subimos em bondade, ardemos em perfume... Bendita a dor criadora, o perfurante gume, que em mim produz o verso e em ti produz resina... Ninguém virá curar-te! Apenas os ramalhos ensinarão à flor a música dos galhos e ensinarão ao galho as lutas das raízes. Ninguém virá curar-me! Os meus versos apenas serão o bálsamo esfeito em minhas próprias penas, sob a ronda de dor dos dramas infelizes. (Buzina dos paranás)
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Inverno
I Vai morrendo a alegria dos estios, num retintim de pompas e fanfarras: bandos de pombos em revôos sombrios, periquitos em loucas algazarras... A água se espalha em volumosos fios, que a terra escarvam, ferem como garras... Fogem do espaço os fracos vozerios das aves, das abelhas, das cigarras... Os rios, como veias rebentadas, dão o sangue lustral – a água que escorre – às margens, em torrentes e enxurradas... Há vozes pela selva, em canto eterno – voz de saudades ao verão que morre, – voz de exorcismos ao vindouro inverno! (Ibidem)

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Elias Gavinho
Elias Lourenço Gavinho nasceu em Portugal, na vila de Caminha, distrito de Viana do Castelo, no ano de 1895. Veio para Manaus com três anos de idade, embora tenha retornado por algum tempo ao país natal, a fim de estudar. Na capital do Amazonas foi redator-chefe de “O Lusitano”. Faleceu em Portugal em 1935. Obra poética: Ânsias (Manaus, 1913).

Contrastes
Tristes crianças: – sempre abandonadas Vagueiam pobremente pelas ruas, Uns trapos encobrindo as pernas nuas, Ao vento e ao frio quedam regeladas. Quando a fome trouxer já definhadas Em vingança cruel as frontes suas, Quando não virem mais a luz das luas E o róseo despontar das alvoradas, Dirá a humanidade: – triste sorte, Vaguear no mundo, errantes, sem um Norte Sob as mil desventuras da matéria!... Ó Deus, vem ver quão triste é a térrea vida: Se uns vivem na opulência enternecida Outros desaparecem na miséria!... (Ânsias)

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Súplicas
Ó ternas ilusões da minha mocidade, Suaves como a luz, heróicas, graciosas Voltai a mim, voltai, brancas e luminosas Espargindo alegria a esta mútua saudade. Vós sois da vida o deus, vós sois a hilaridade De quimeras sem fim: imáculas, airosas, Sois pérolas d’orvalho em tranças majestosas Onde pompeia a luz feérica verdade. Se de ilusões outrora, alegre, satisfeito, Almejava um só fim, risonho e não funéreo, Por que deixais agora arder-me em febre o peito?... Ó minhas ilusões, ó meu viver aéreo, Não mais me abandoneis: volvei-me o casto efeito Desse viver feliz, num louco refrigério. (Ibidem)

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Américo Antony
Américo de Amorim Antony nasceu em Manaus no dia 23 de setembro de 1895. Viajou para a Inglaterra, na companhia dos pais, com apenas cinco anos de idade e nesse país concluiu o curso médio. Pertenceu a várias entidades culturais, tais como: Academia Amazonense de Letras, Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e União Brasileira de Escritores. Faleceu no dia 18 de agosto de 1970. Obra poética: Os Sonetos das flores (Manaus, 1959).

Igapó
Há uma escura paragem de saudades Onde a água esconde as tradições amigas... Onde a água chora umas canções antigas... Onde a água geme... e é quase divindade. Lá o rio oculta amplas fadigas, E as sombras abrem em flor de suavidade, E espera, e dorme, e sonha a eternidade De insetos de ouro, e prónubas formigas... Teto de selva e leito de água e trevas Onde aves de mil cores bebem alma Dos beijos nidiquidrópicos da palma... Estoar de pólen, luz de água lembrando Retinas mortas... gerações primevas... Líquidos olhos de pajés boiando... (Inédito)
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A Ronda dos cisnes
À memória de Heliodoro Balbi

O lago acorda. E a lua se insinua Entre o palmar que aljôfares desata. Há um silêncio de cisma na alva lua... Passam os cisnes... são gôndolas de prata. O lago é rosa. A aurora ainda mais nua Abre as carnes de anêmona ao sol louro... Há um fervor de volúpia que flutua... Centelham praias... passam os cisnes de ouro... O lago é rubro. O sol no poente escalda. É a glória em gozo extremo, ardente exangue... Safira é o céu. A selva é de esmeralda. A água é rubi... passam os cisnes de sangue... Lago violeta – há uma queixa na bruma Da distância na mágoa e na ansiedade... É o crepúsculo abrindo em cada espuma O lilás... passam os cisnes da saudade... O lago dorme... mas, ferido de açoite Das trevas, que os relâmpagos percorrem... Os cisnes voltam negros como a noite, Cantam na solidão da noite... e morrem. (Inédito)
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Mário Ypiranga Monteiro
Nasceu em Manaus no dia 23 de janeiro de 1909. Em 1927 começou suas atividades literárias como poeta e contista. Foi professor de Literatura Portuguesa na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Amazonas. Pertence a inúmeras instituições culturais, destacando-se a Academia Amazonense de Letras, da qual chegou a ser presidente. Possui diversas obras no campo do folclore, da história e dos estudos literários. Publicou um único livro de poemas: Dona Ausente (Manaus, 1929-30; reeditado, com alterações, em Manaus, 1940). Faleceu em Manaus, no dia 9 de julho de 2004.

IX
– Já se calaram todas as cigarras no bucolismo dessas horas quedas. Não vibram mais orquestrações bizarras pelo silêncio bom das alamedas. Amo-a demais. Às vezes sua ausência a saudade deplora e eis-me a chamá-la para que traga azul a esta querência e um pouquinho de sol à minha sala. Vem dela a minha glória e é dela o cheiro de mocidade, que pelo ar se estrela. Duvido que haja rosa em seu canteiro que cheire tanto como a carne dela. (Dona Ausente)
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XVIII
– É tarde e não virás... De lado a lado da estrada se erguem troncos nus e tortos. Parecem exortações de algum Passado, restos macabros dos meus Sonhos mortos. Que não virás mais nunca estão de certo dizendo os lírios pensativamente. Só eu não creio – e espero ainda, aberto meu coração à eterna Dona Ausente. (Ibidem)

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Sebastião Norões
Sebastião Norões nasceu em Humaitá, Estado do Amazonas, em 7 de março de 1915. Passou parte da infância e a adolescência no Ceará, onde fez os cursos primário e secundário. Aos dezoito anos veio para Manaus, cidade em que passou a viver. Exerceu o magistério por longos anos, lecionando Geografia. Faleceu em 1972. Obra poética: Poesia freqüentemente (Manaus, 1956).

Mar da memória
Eu quero é o meu mar, o mar azul. Essa incógnita de anil que se destrança em ânsias de infinito e me circunda em grave tom de inquietude langue. O mar de quando eu era, não agora. Quando as retinas fixavam trevas a incompreensível mole líquida e convulsa. E o pensamento convidava longes, delimitava imprevisíveis rumos, viagens de herói e de mancebo guapo. Quando as distâncias fomentavam sonhos. Rebenta em mim essa aspersão tamanha que a imagem imatura concebeu de quando o mar era meu, o mar azul. (Poesia freqüentemente)
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Mar despovoado
Mar despovoado. O coração em largas sensações. Uma gaivota rasgando o espaço inutilmente. Na profundeza das águas o incógnito e no céu sempre o mesmo azul e as mesmas esperanças. Peixe isolado mostrando à flor do líquido a razão de viver. A vastidão comendo tudo. E o vácuo ainda maior. O pensamento se desabotoa célere mas a amplidão é infinita. Alcançar a Austrália ou alcançar o Alasca é coisa que fica na vontade. Nem a amizade brotou verdadeira. Agora só o repouso que não finda. O afogamento para sempre de todas as ilusões e a morte completa. (Ibidem)

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Águas puras... águas barrentas...
Velho Madeira a deslizar profundo por entre margens de vermelho e verde. Meu velho rio – amálgama de águas verdes e brancas e vermelhas e pretas. Que escureza e que espessura fluem dessa caudal eternamente enorme na estação da grande cheia. Em meio as canaranas e árvores, as barrancas descendo e as garças jangadeando ilhotas ambulantes. E as madeiras trazidas pelo líquido amarasmado, – símbolo andejo a relembrar seu nome – Velho Madeira a digerir molente bastas terras caídas. Semelhando, no andar moroso e langue, a jibóia depois que a presa tem. Que leveza e que beleza fluem, nas suas águas de esmeralda e opala, na época da seca. Não mais troncos descendo, nem barrancos boiando, águas pequenas, num correr suave, gaivotas mostrando a flor branca das praias e a pureza hospedando na liquidez de sonho. (In: MELLO, Lira Amazônica, p. 278-9)
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Benjamin Sanches
Benjamin Sanches de Oliveira nasceu em Manaus no dia 21 de abril de 1915 e faleceu na mesma cidade em 1978. Apesar de ser formado em Agronomia, dedicou-se à literatura. Lançou um livro de poemas: Argila, (1957).

Solidão
O pássaro de barro da saudade Revoando no aro dos meus olhos Repousou nos meus dedos de silêncio Partindo para as terras ignotas. Divaguei nos roteiros do amanhã (Quilhas cortando o ventre do espaço Rasparam os recifes das quimeras Encalhando nas rochas das lembranças). E aquela argila diluída em sombras Incensando o meu templo de memórias Nas alvoradas dos meus sofrimentos. Na grande solidão do inatingível Ancorei o coração num mar de lágrimas E adormeci num inferno entre dois céus. (Argila)

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Destino
Estou caminhando Com destino certo, Quando me cansar, Estarei bem perto. (Ibidem)

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Epitáfio
Quando meu barco imergir no profundo lago desconhecido, não construam sobre o local outros mastros e chaminés. Que a superfície fique limpa e tranqüila, para refletir a beleza do firmamento. (Ibidem)

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Violeta Branca
Violeta Branca Menescal de Vasconcelos nasceu em Manaus no dia 15 de setembro de 1915 e faleceu no Rio de Janeiro em 7 de outubro de 2000. Pertenceu à Academia Amazonense de Letras. Obra poética: Ritmos de inquieta alegria (1935) e Reencontro: poemas de ontem e de hoje (1982).

Poema das tuas mãos
As tuas mãos nervosas, quentes, largas, harpejam nos meus sentidos a música ideal da emoção. Para os teus dedos criadores, sou o piano mágico vibrando ao influxo de tua ardente inquietação. Tuas mãos frementes, arrancam angústias sonorizadas de meus nervos, que se retesam como cordas harmoniosas. Tuas mãos imperiosas, tuas mãos rebeldes, cantam silenciosas aleluias de gestos, quando compõem poemas de volúpia, gritos incontidos de alegria pagã,

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correndo ligeiras, leves, torturantes, no teclado branco de meu corpo... (Ritmos de inquieta alegria)

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A Vela que passou
Singrando o mar, uma vela passou na noite triste... Alguém, dentro dela, ia cantando sob o luar a mesma canção que cantei quando partiste. Quem cantava, não sei... A vela passou na noite quieta... Serias tu, marinheiro-poeta, que ias cantando assim, acordando a tristeza dentro de mim? Pelo mar agitado a vela passou... Tenho os olhos molhados de quem chorou... (Ibidem)

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Nostalgia do mar
Amanhã voltarás para o mar... Teu destino é o mar... Na deslumbrante exaltação das ondas verdes, tua vida – luminoso poema de mocidade e de sol – tornar-se-á linda como uma alvorada rosicler. Amanhã voltarás para o mar... E na inquieta convivência das vagas depressa olvidarás meu vulto de mulher. Serei vela perdida na grandeza infinita do oceano. Serei a emoção esquecida de um porto, que ficou em névoas, na distância... Amanhã voltarás para o mar... Enquanto eu ficarei numa tristeza longa, dolorosa, tu, que trazes na alma altaneira o orgulho e a boêmia do marinheiro, partirás sorrindo. E não terás para mim um pensamento de amor, tua alegria será jovial e franca. Mas sentirás que te acompanha sempre, sempre um perfume sutil de violeta branca... (Ibidem)

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Paulo Monteiro de Lima
Paulo Francisco Monteiro de Lima nasceu em Manaus no dia 10 de dezembro de 1925 e faleceu precocemente, na mesma cidade, no 1.º de maio do ano de 1951. Romântico retardatário, publicou muitos poemas nos jornais da época. Organizou um livro, intitulado Poemas da liberdade, obra que não viu publicada, já que, como tantos poetas do século XIX, foi ainda jovem vitimado pela tuberculose. Segundo consta, os originais desse livro foram perdidos. Porém, recentemente, organizou-se por iniciativa de seu amigo de infância Leônidas Dias, para preservar-lhe a memória, um livro póstumo com sua produção dispersa. Obra poética: Mensagens de paz e outros poemas (Manaus, 2004).

Pôr-do-sol no Amazonas
O sol pendurado no azul do infinito – Qual lâmpada enorme que Deus colocou – Vai lento expirando... morrendo nas sombras Tal como uma donzela que o noivo enganou. O sol vai morrendo! Na crina das matas – Lá onde o pampeiro mil vezes desceu – A rola soluça carpindo a saudade Do amante que a bala nos ermos colheu. O sol vai morrendo! Seus raios vermelhos Divagam no espaço perdidos... à toa... Às vezes doirando no espelho das águas A sombra formosa da garça que voa.

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O sol vai morrendo! Nas matas sombrias Um grande mistério parece cair E a "Mãe da Seringa" de certo vagueia Na imensa planície que aguarda o porvir. O sol vai morrendo! Quem pode no mundo Tal quadro soberbo com gênio pintar? São estas as cenas que os olhos divisam E à alma só resta sentir e calar. O sol vai morrendo! E a noite formosa Estende na terra seu cândido véu E a lua divina – qual pálida virgem – Já brinca de "manja" com as nuvens do céu. E agora de todo seus raios se apagam E um grande silêncio nos ermos desceu; As aves da noite soluçam nos galhos Talvez com saudades do sol que morreu. Maio de 1949.

(Mensagens de paz e outros poemas)

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Tempestade maravilhosa
Como está negro o céu da minha terra! Que raios! Que trovões! Que vento aflito!... Toda a tragédia universal se encerra Neste pedaço enorme do infinito!... O soluço nostálgico do vento Roçando com furor pelo telhado, Traz o eco terrível do lamento Oriundo da dor de um condenado. No farfalhar tristíssimo das folhas Perpassa um sentimento pavoroso!... A água que no esgoto corre em bolhas Produz um marulhar quase assombroso!... O uivo dos cachorros vagabundos Confunde-se co’a voz da tempestade E se tem a impressão que trinta mundos Pretendem desabar sobre a cidade... .................................................... No meu quarto pequeno – onde a janela Com toda precaução, vive fechada – Soluça de pavor a minha bela, Quase nua – na cama debruçada.

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Eu vendo os seus contornos primorosos E notando-lhe o arfar dos alvos seios, Aperto-a nos meus braços carinhosos, Procurando salvá-la dos receios. Nesse instante, porém, um trovão forte Reboa majestoso nas alturas E ela, de nervoso, no transporte Me aperta, mergulhada em formosuras. E então, num frenesi maravilhoso, – Sem mancha, sem pecado e sem cinismo – Me beija, me procura e, quase em gozo, Se deixa dominar pelo histerismo. Aperto-a nos meus braços docemente... Confundem-se no amor, nossos cabelos... A voz da tempestade – agora ausente – Não chega a perturbar nossos desvelos. Dir-se-ia que ali, entre os amantes, A sombra da loucura se encontrava. As bocas se roçavam delirantes... E o espectro da luxúria gargalhava. Agora só se ouve o arfar dos peitos... Palavras muito mal balbuciadas... Suspiros assaz longos e imperfeitos... Promessas pelo gozo entrecortadas. ...................................................
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O espasmo chega ao fim. Neste momento A carne saciou todo o desejo. A formosa mulher solta um lamento Ainda suplicando a luz de um beijo. Depois, formosamente, ela adormece E eu digo, ao contemplar-lhe a formosura: – Meu Deus! esta mulher é a meiga prece Rezada pela boca da natura! Ó tempestade! Ó deusa dos espaços! Redobra o teu furor bravo e profundo! Pois quando esta mulher me está nos braços, Eu me sinto mais forte do que o mundo!

(Ibidem)

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Thiago de Mello
Amadeu Thiago de Mello nasceu na cidade de Barreirinha, no Amazonas, no dia 30 de março de 1926. Realizou seus estudos iniciais em Manaus. Transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde cursou até o quarto ano da Faculdade de Medicina. Perseguido pela ditadura militar que se implantou no Brasil em 1964, viveu um longo período no exílio, permanecendo no Chile até a derrubada do governo socialista de Salvador Allende. É membro da Academia Amazonense de Letras. Principais obras poéticas: Silêncio e palavra (Rio de Janeiro, 1951), Narciso cego (Rio de Janeiro, 1952), Vento geral (Rio de Janeiro, 1960), Faz escuro, mas eu canto (Rio de Janeiro, 1965), A Canção do amor armado (Rio de Janeiro, 1966), Horóscopo para os que estão vivos (Rio de Janeiro, 1966), Mormaço na floresta (Rio de Janeiro, 1981), De Uma vez por todas (Rio de Janeiro, 1996); Num campo de margaridas (Rio de Janeiro, 2004).

Silêncio e palavra
I A couraça das palavras protege nosso silêncio e esconde aquilo que somos. Que importa falarmos tanto? Apenas repetiremos. Ademais, nem são palavras. Sons vazios de mensagem, são como a fria mortalha

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do cotidiano morto. Como pássaros cansados, que não encontraram pouso certamente tombarão. Muitos verões se sucedem: o tempo madura os frutos, branqueia nossos cabelos. Mas o homem noturno espera a aurora de nossa boca. II Se mãos estranhas romperem a veste que nos esconde, acharão uma verdade em forma não revelável. (E os homens têm olhos sujos, não podem ver através.) Mas um dia chegará em que a oferenda dos deuses, dada em forma de silêncio, em palavra transfaremos.

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E se porventura a dermos ao mundo, tal como a flor que se oferta – humilde e pura – teremos então cumprido a missão que é dada ao poeta. E como são onda e mar, seremos palavra e homem. (Silêncio e palavra)

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Estatutos do homem
Artigo 1 Fica decretado que agora vale a verdade, que agora vale a vida e que de mãos dadas trabalharemos todos pela vida verdadeira. Artigo 2 Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo. Artigo 3 Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança. Artigo 4 Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem.

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Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu. Parágrafo único O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino. Artigo 5 Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa. Artigo 6 Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

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Artigo 7 Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo. Artigo 8 Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama sabendo que é a água que dá à planta o milagre da flor. Artigo 9 Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura. Artigo 10 Fica permitido a qualquer pessoa, a qualquer hora da vida, o uso do traje branco.

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Artigo 11 Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã. Artigo 12 Decreta-se que nada será obrigado nem proibido. Tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Parágrafo único Só uma coisa fica proibida: amar sem amor. Artigo 13 Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou. (Faz escuro, mas eu canto)
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Num campo de margaridas
Sonhei que estavas dormindo num campo de margaridas sonhando que me chamavas, que me chamavas baixinho para me deitar contigo num campo de margaridas. No sonho ouvia o meu nome nascendo como uma estrela, como um pássaro cantando. Mas eu não fui, meu amor, que pena!, mas não podia, porque eu estava dormindo num campo de margaridas sonhando que te chamava que te chamava baixinho e que em meu sonho chegavas, que te deitavas comigo e me abraçavas macia num campo de margaridas. (Num campo de margaridas)

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Anísio Mello
Anísio Thaumaturgo Soriano de Mello nasceu em Itacoatiara, no Amazonas, no dia 21 de junho de 1927. Viajou, durante a infância, pelo interior do Estado do Amazonas, acompanhando o pai, que era juiz. Transferiu-se para São Paulo, onde concluiu o bacharelado em Letras, nas Faculdades Anchieta. Retornou a Manaus, onde dirige o Liceu de Artes Esther Mello e ministra aulas de pintura. Principais obras poéticas: Lira nascente (Manaus, 1950), Minhas vitórias-régias (Manaus, 1952), Estrelas do meu caminho (São Paulo, 1962), Festa geral (São Paulo, 1977), Vibrações (São Paulo, 1981), Sexagésima stella (Manaus, 1992).

Vendaval de sonhos
A solidão que envolve esta minhalma errante Na cratera sem luz do último poder A mesma catacumba que a sorrir triunfante Há de levar-me um dia à glória do não ser. Eu vivo sempre assim: sorriso agonizante, Sem poder encarar esta alegria de ter A dulce compreensão de um ideal de instante Num vendaval de sonhos que deixei nascer... O ideal não morre e cada dia prospera Na múltipla visão de quem paciente espera O fruto do porvir que é verdadeiro e são.

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Solitária visão de tudo que me envolve, A vida é sempre assim, e ela por si resolve As mágoas do viver que atingem o coração... (Estrelas do meu caminho)

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A Semente
De Tua alta mansão banhas as montanhas, com o fruto de Tuas obras sacias a terra. (Salmo 103, St.º Thomás)

De pau e pedra cresce a montanha que se espreguiça no âmago telúrico e forma em monumentos os mamilos da terra de onde jorra o maná por entre as pedras e o cascalho reluz em micas e cristais. São brilhantes de garimpo azul que se escondem no negro e fundo, onde não há luz de todo este princípio, onde nasceu o primeiro pensamento e o raciocínio. De pau e pedra cresce a montanha com o resto que sobrou de gerações soterradas pelo ódio, pela guerra, pela morte, enfim. São restos de galeras e de arcas, múmias do acaso incensadas pelo tempo, bálsamo da salvação e de todos os milagres, do meu, do teu, do nosso, pois pensamos, e sabemos que um dia não sabemos que montanhas hão de ser, o eu que sou, e nós, que perdemos na luta inglória de crer, de construir e de amar. (Vibrações)

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Lembranças
Na lembrança ficaste de permeio a momentos de amor com que te vi. Foste rosa em meu peito e com receio a primavera augusta então vivi. Nos teus lábios agora me tonteio e na luz dos teus olhos refleti todo um sonho feliz e agora creio que o amor é como o beijo que senti. Este amor que flutua mansamente e encandece a manhã tão de repente, mais parece o delírio de um adeus. Um dia partirei, quem sabe quando? Lembranças levarei sempre cantando, com teus lábios impressos sobre os meus... (Sexagésima stella)

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Luiz Bacellar
Luiz Franco de Sá Bacellar nasceu em Manaus, no dia 4 de setembro de 1928. Completou seus estudos em São Paulo, no tradicional Colégio São Bento. Foi professor de Literatura e Língua Portuguesa no Colégio Estadual Pedro II e um dos fundadores do Clube da Madrugada. Em 1959 ganhou o prêmio Olavo Bilac, da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, com o livro Frauta de barro, obra que, publicada apenas em 1963, marcou sua estréia literária. Outras obras poéticas: Sol de feira (Manaus, 1973), Quatro movimentos (Manaus, 1975), O Crisântemo de cem pétalas, em parceria com Roberto Evangelista (Manaus, 1985), Quarteto (Manaus, 1998) e Satori (Manaus, 2000).

O Poeta veste-se
Com seu paletó de brumas e suas calças de pedra, vai o poeta. E sobre a cambraia fina da camisa de neblina, o arco-íris em gravata vai atado em nó singelo. (Um plátano, sobre a prata da água tranqüila do lago, se debruça só por vê-lo).

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Ele leva sobre os ombros a cachoeira do lago (cachecol à moda russa) levemente debruada de um fino raio de sol. Vai o poeta a caminhar pelas serras. (pelos montes friorentos mal se espreguiça a manhã) com seu pull over cinzento (feito com lã das colinas) com seus sapatos de musgo (camurça verde dos muros) com seu chapéu de abas largas (grande cumulus escuro). Mas algo ainda lhe falta para a elegância completa: súbito pára, se curva, num gesto sóbrio e perfeito, um breve floco de nuvens colhe e prende na lapela. (Frauta de barro)
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Soneto da caixa de fósforos
Minha cápsula de incêndios, meu cofre de labaredas! Meu pelotão de alva farda e altas barretinas pretas: se só num níquel quem vende-os lhes aquilata o valor, teus granadeiros da guarda não se inflamam de pudor! Fiat Lux do meu verso, símbolo vivo do amor: qualquer fricção te incendeia, te arranca estrelas de dor, minha gaveta de chamas com sementes de calor. (Ibidem)

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Rondel da banana
Onde a banana doce crisálida dorme? na verde rede da casca: no cacho oclusa tão mansa e inerme tão paquiderme musa reclusa; a forma branca todo momento sonha na brisa sua doçura de firmamento pura e concisa (Sol de feira)

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Carta Lunar – Adágio
XX O meu verso é um fragor: desmoronarme sinto quando escrevo. E o ruído é tanto que vou com passo incerto no meu canto como se caminhasse à beira-mar num dia de ressaca sob um luar como o de agora (a via-láctea é um manto salpicado de sal, de prata e pranto) em que as horas se esquecem de passar. Meu verso é um natural correr de pena que rasga, que destrói, mutila e mata minhalma que é de espuma e de verbena: um vestido deixado sobre a cama, vazio de um corpo amado. E me arrebata no vácuo intenso do meu próprio drama. (Quatro movimentos)

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Haikais
No centro da grama seca da campina o girassol resiste.

No meio da noite o lírio levanta seu copo-se-leite.

Num canto sombrio – a humilde violeta esconde o perfume.

Floresce o jambeiro: há um tapete róseo no chão de janeiro. (Satori)

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Almino Affonso
Almino Álvares Affonso nasceu em Humaitá, Amazonas, em 1929. Destacou-se na política, tendo sido ministro no governo de João Goulart. Com o advento do Golpe de 64, foi cassado; em conseqüência, viveu no exílio por cerca de doze anos. Mais recentemente, foi eleito vice-governador do Estado de São Paulo. Em 2000, publicou os Versos d'água doce, obra que reúne os poemas que produziu ao longo da vida e que se encontravam dispersos em jornais ou inéditos.

Velho tronco
Aos últimos clarões de um sol que expira, Entre as escumas da corrente, à tona, Um tronco desce... e como que ressona, E no seu sono, a sonhar, delira! Sonha, quiçá, sua fronde esmeraldina, Onde as brisas cantavam serenatas, E as aves, em sutis bandolinatas, Abriam a voz numa explosão divina... Frutos pendentes a dourar seus galhos E as lianas vivendo de sua vida... A fera, à sombra, a lhe pedir guarida, Vindo sentir-lhe os mágicos retalhos...

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Sonha, de certo, as noites de luar, E o Madeira, tranqüilo, como em cisma, Tendo nos versos do poeta – a crisma, E no vento – um seresteiro a cantar. Depois... a luta, o vendaval rugindo... Folhas serpeando em doudos espirais... Galhos rangendo entre gemidos e ais, Ao chicotear dos ventos se partindo! E os ninhos a rolarem pelo chão... Aves implumes a chorar, piando... E mais e mais, em fúrias, vergastando, O temporal ribomba no trovão! E por fim, a estrugir, fraqueja, cai Sobre as águas barrentas do Madeira – Líquida estrada de escumante esteira, Onde sua vida, lenta, já se esvai!... Velho Tronco! eu te entendo neste instante! No teu silêncio eu descobri tua vida... E em tua raiz, para o infinito erguida, Uma bênção... um perdão edificante! Ah! tu que foste fruto e sombra e ninho... És sublime, ó Tronco, e eu te bendigo, Pois rolando pra morte ainda és abrigo Das garças e gaivotas do caminho!

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*** Aprende, coração! E se na vida, Em troca do bem, do amor que semeares, Vires a ingratidão lá nos altares A rir de ti, de tua ilusão sentida... Relembra o Velho Tronco! E, já sumindo Os últimos lampejos da existência, Ampara o fraco e a tímida inocência, E sentirás a vida reflorindo!

(Versos d’água doce)

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A Solidão do morto
Na calçada, inexoravelmente só, um homem morto. As pessoas chegam param passam: são baratas espantadas como em dia de chuva. Nenhuma lágrima: o homem na solidão da morte. Nas mãos (rigidamente cruzadas ao peito), onde o carinho o amor a lascívia onde um resto ao menos de vida? Nos sapatos (cujas extremidades apontam o céu com irreverência),

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ainda se vê o barro do chão distante que pisaram. Quantos caminhos trilharam esses pés agora juntos, atados, inertes? A folha de jornal cobre o morto indefeso: mas ele não vê mas ele não sente mas ele não sabe... Não há como fugir: diante da morte (só na calçada como um cão atropelado ou numa cama entre cambraias finas) o homem, pobre bicho-homem de palavras e gestos, está só, infinitamente só.

(Ibidem)

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Samaumeira
Samaumeira! Liana e flores, em festa, Descem da copa imensa que a amplidão fareja... E o sol, em sangue e ouro, portentoso beija A soberana – graça e força – da floresta. Mas quando, em transe, o vento sopra as tempestades, E lhe fere, zimbrando, a colossal umbela, Luta, esbraveja, cai... grandiosamente bela, Porém jamais se curva como os vis covardes! E golpeada, ainda assim, vai soltando as sementes, Louros, plúmeos casulos, livres e frementes, Que se libram e vão nascer léguas além... Atenta: se algum dia na vida fraquejares, Não importa... Do amanhã na vastidão dos ares, Na força de tua fé reviverás também!

(Ibiden)

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Antísthenes Pinto
Antísthenes de Oliveira Pinto nasceu em Manaus, no dia 28 de novembro de 1929. Destacado membro do Clube da Madrugada, trabalhou em jornais de Manaus e do Rio de Janeiro. Motivado por suas atividades jornalísticas, transferiu-se para a capital carioca. Retornou definitivamente ao Amazonas em 1970. Foi também membro da Academia Amazonense de Letras. Faleceu em Manaus a 3 de dezembro de 2000. Obra poética: Sombra e asfalto (Manaus, 1957), Ossuário (Rio de Janeiro, 1963), Angústia numeral (Manaus, 1976), A Rebelião dos bichos (Brasília, 1977) e Curvas do tempo (Manaus, 1984). I Antecipo minhas rugas no espelho. A sombra hirta que foi vejo curvada. Piso fundo no chão que silencia E vou contar estrelas na vidraça. A ave do desejo pousa em livro. (Não há no vácuo acústica às palavras) Liberto já do sonho que não tive Fujo de mim e só de mim fugindo Sem dar um passo além do que pensara Quando fui velho sem chegar a ser. O meu patético olhar engole o longe:

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– Escuro limitando com escuro E quanto ao perto: cinza no cinzeiro E o negro cão do tempo me mordendo. (Sombra e asfalto)

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Morto vivo
fronte caída: lágrima lavrada no pedestal da fonte. além o sobreposto mar de ossos esgarçando rastros – fuzis de gritos! de bruços: reencontrar a rota do meu mapa branco. fazer-me bala, deslocar-me uníssono como um cão de aço. morto mais vivo. de bruços: grave loucura clara: vivo morto morto vivo. (Ossuário)
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morto pensante

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Dentro do meu relógio, a minha dor. As reticências da tarde são cães esgueirando seus latidos. Depois irei para o vale de ardências ver os utensílios da manhã. Dentro da minha dor o relógio se apagou e as estrelas apodreceram no prato que trago perto, queixo em minhas mãos. Dentro de mim começo a sentir raízes como se eu fosse um muro estatelando. (Angústia numeral)

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Jorge Tufic
Jorge Tufic Alaúzo nasceu no município de Sena Madureira, Acre, no dia 13 de agosto de 1930. Descendente de uma família de comerciantes árabes, transferiu-se, no início da década de 40, para Manaus. Há cerca dez anos fixou-se em Fortaleza. É membro do Clube da Madrugada e da Academia Amazonense de Letras. Principais obras poéticas: Varanda de pássaros (Manaus, 1956), Chão sem mácula (Manaus, 1966), Faturação do ócio (Manaus, 1975), Os Códigos abertos (Manaus, 1978), Os Mitos da criação e outros poemas (Rio de Janeiro, 1980), Sagapanema (Manaus, 1981), Poesia reunida, contendo os livros anteriores, além de outros (Manaus, 1988), Retrato de mãe (São Paulo, 1995), Boléka, a onça invisível do universo (São Paulo, 1995), Os Quatro elementos (São Paulo, 1996), Quando as noites voavam (Manaus, 1999), Sonetos de Jorge Tufic (Fortaleza, 2000).

Homem
Trajetória de sombra dispersada Das mãos lhe escorre o tempo que sonhou. Quantas almas possui na alma pisada? Qual dentre todas a que mais amou? Seus passos abrem sulcos de alvorada. Por estrelas errantes se enredou. Onde a sua face ausente procurada E as ilhas de além-mares que fundou?

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Máscara leve lhe recobre a fronte. (O silêncio por trás constrói o mito) Traz nos ombros a sombra do horizonte. De fundas cicatrizes cava o mundo. E, sendo humano, um pouco de infinito Guarda no peito como em céu profundo. (Varanda de pássaros)

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Remington, pluie
PAIRO acima do teu milagre, envolto como teus próprios dentes encardidos na poeira, na poeira onde cavo este solo e cultivo um trabalho sem campo, arado ou flores A solidão fundamental ateia lá fora seus gumes, praça bonde mar palavra enquanto, DEUS MEU! vou sendo lançado (inevitavelmente) contra esse furor magnético onde chove seco o poema (Chão sem mácula)
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Makunaíma recria o mundo
Depois das águas grandes, o mundo ficou seco e oco. Pedaços de carvão ficaram rolando no solo, como ecos de pedras, vozes de rio, gemidos de fogo. Então, Makunaíma acordou. E do barro de sua vigília retirou aquele homem, sua forma de barro, seu peito cavado. No outro lado de Roraima seus feitos continuaram. Homens e mulheres foram sendo mudados em rochas, antas e javalis. Perto de Koimelemong, um cervo mergulha na terra a cabeça-de-pedra. Sobre uma grande onda na Serra de Araiang, pousa uma cesta de luar. A Serra do Mel parece conduzir um silêncio de aragem e vai sem ter vindo. Muitas dessas pedras se elevam no país dos ingleses, assim como peixes e uma cesta que imita, por baixo, um perfil de mulher.

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A savana da Serra de Mairani são braços, pernas e cabeça de um ladrão de urucu. Aí também se entreabrem umas nádegas de pedra. Cachoeiras acima, o movimento dos peixes adentra na rocha. Uma pedra chamada Mutum canta como este quando alguém vai morrer. Por um oco de salto, vespas gigantes construíram suas casas e zumbem na base mais profunda da serra. Aqui fora, Makunaíma dá os últimos retoques nos bichos domésticos. Depois disso ele deita na terra molhada e se deixa esvair em milhares de seres que nadam para o rio. (Quando as noites voavam)

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Retrato de mãe
VIII Estavas, posta no esquife, igual a todas as defuntas convulsas, lapidadas. Tão branca e tão distante companheira destes ventos na pausa da agonia. Quisera ter morrido quando foste, nave de ti somente, abrindo rotas na invisória partida, nesse coro latente em nossas almas. Parecias dormir, então, liberta como um trono. Ó lágrimas de Orfeu, tempo escoado, corpo de insones ânforas, mãezinha, que sei de ti nos guantes da saudade? Que sabemos de ti quando te vais, se o teu vazio é feito de punhais? (Retrato de mãe)

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Farias de Carvalho
Carlos Farias Ouro de Carvalho nasceu em Manaus, no dia 8 de setembro de 1930. Foi professor de Português e Literatura Brasileira do Colégio Estadual Pedro II. Foi presidente do Clube da Madrugada. Destacou-se como jornalista, colaborando em vários jornais de Manaus. Faleceu em Niterói em 25 de junho de 1997. Obra poética: Pássaro de cinza (Manaus, 1957) e Cartilha do bem amar com lições de bem sofrer (Manaus, 1965).

A Primeira namorada
Como pássaros brancos que voltassem de uma estranha região de coisas mortas, as tuas mãos, Teresa, em meus cabelos vieram ninhar saudades esquecidas. Deixa eu tê-las nas minhas. Vamos juntos passear velhos domingos de outros tempos, fazer a turma toda roer de inveja quando eu passar contigo pela praça. Repetiremos tudo novamente: – eu, orgulhoso, comprarei sorvetes com os dez mil-réis contados da semana; ficaremos depois no velho banco sem dizer nada, nossas sombras juntas como duas saudades que se achassem! (Pássaro de cinza)
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A Nova República
Vou começar a construir meu mundo. Este, que não suporto, me asfixia. Os olhos já se cansam de assistir à mecânica dança dos bonecos. Um botão, e o sorriso encomendado rasga a máscara fria do fantoche. Outros botões, e seguem-se outros gestos na estúpida intenção preconcebida. Por isto eu quero um mundo. Hei de cercá-lo com a alta tensão da sensibilidade da Poesia inquilina do meu sangue. Nele entrarão apenas os eleitos, os que apanham as estrelas como rosas e as dependuram, vivas, sobre o peito! (Ibidem)

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Ofício
Ruir-me e sem contudo haver ainda sequer simples começo construído, saber-me morto e nunca ter vivido além do gesto que não foi. A infinda flagelação do instante pressentido (e só) é o postilhão dessa berlinda onde o ir-se já sabe mais a vinda e onde me instalo lúcido e perdido. Ruir-me e sem poder cantar na queda o pânico do abismo. Não poder legar o sonho em ruína para os salvos. Ruir-me. Como súbito o silêncio estraçalhado por um grito. E ir-me ruindo nesse afã de construir-me. (Cartilha do bem amar com lições de bem sofrer)

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Onanismo
Na vulvática flor da cadela saciada os olhos do menino acenderam mistérios. À noite, na penunbra, as lobas deslizaram pelos punhos da rede. Mãos infantes pela primeira vez bailaram lúcidas a acrobacia atônita do sexo. (Ibidem)

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Memória

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Paulino de Brito

Capa do livro Muhuraida, de Henrique João Wilkens

Ermano Stradelli Capa do livro Obras, de Tenreiro Aranha

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Jonas da Silva Quintino Cunha

Heliodoro Balbi Capa do livro Papéis Velhos... (2.ª edição), de Maranhão Sobrinho

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Paulo Monteiro de Lima

Pereira da Silva

Almino Affonso

Álvaro Maia

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Mário Ypiranga Monteiro

Capa do livro Poesia freqüentemente (2.ª edição), de Sebastião Norões

Benjamin Sanches

Violeta Branca

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Mavignier de Castro Capa do livro Ritmos de inquieta alegria (1.ª edição), de Violeta Branca

Hemetério Cabrinha

Mady Benzecry

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Thiago de Mello

Anísio Mello

Capa do livro Aparição do clown (1.ª edição), de L. Ruas.

Antísthenes Pinto

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Farias de Carvalho

Jorge Tufic

Luiz Bacellar Alencar e Silva

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Padre L. Ruas Capa do livro Frauta de barro (1.ª edição), de Luiz Bacellar

Aurolina de Castro

Guimarães de Paula

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Reunião de membros do Clube da Madrugada, sob o mulateiro (símbolo do movimento e ponto de encontro), na praça Heliodoro Balbi

Encontro de artistas sob o mulateiro: Arnaldo Rabelo, Jorge Tufic, Thiago de Mello, Francisco Vasconcelos, Elson Farias e Moacir Andrade

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Alcides Werk

Ernesto Penafort

Elson Farias Capa do livro Rasos d’água, 2.ª edição, de Astrid Cabral, vencedor do prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras

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Astrid Cabral

Max Carphentier

Jacob Ohana Anibal Beça

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Simão Pessoa Maria José Hosanah

Aldisio Filgueiras Milton Hatoum

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Dori Carvalho Dedé Rodrigues

Rosa Clement

Donaldo Mello

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Efraim Amazonas Tenório Telles

Zemaria Pinto

Cláudio Fonseca

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Regina Melo Ana Célia Ossame

Sergio Luiz Pereira

João Bosco Ladislau

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Alencar e Silva
Joaquim de Alencar e Silva nasceu em Fonte Boa, cidade do interior do Amazonas, no dia 21 de setembro de 1930. Para dar prosseguimento aos seus estudos, mudou-se para Manaus, transferindo-se posteriormente para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso de Ciências Jurídicas e Sociais, na Faculdade Nacional de Direito – UFRJ. Obra poética: Painéis (Manaus, 1952), Lunamarga (Manaus, 1965), Território noturno (Rio de Janeiro, 1982), Sob Vésper (Manaus, 1986), Sob o sol de Deus (Manaus, 1992), Ouro, incenso e mirra (Manaus, 1994) e Solo do outono (Manaus, 2000).

Soneto de espera ou o 1.º da morte
De espera e espera sofro-te em meu canto, em meu verso e nas coisas que te anseiam. E mais sofrera se te não sonhara nem crera em tua vinda, anjo noturno que virás sobre o mar – pássaro, estrela ou rosa a se elevar na noite pura – sem outro anúncio a preceder-te, além do teu hálito fresco sobre o vale e esta certeza para além do sonho de que teus olhos de mistério e flamas descerão de repente em minha espera e me destruirás para salvar-me: que os noturnos jardins florescerão e nos ventos da noite fugiremos. (Lunamarga)

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Cantar de andarilho
Não tenho pátria determinada nem tenho pressa nesta jornada: só esta sede que têm meus olhos de ver e ver e este incontido impulso de asas sobre meus pés. Minhas sandálias cobrindo o mundo que descobriram pé ante pé, minhas sandálias vão-se ficando pelos caminhos de minha fé. Arde em meu rosto o sol de todos os continentes.

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Todos os ventos já visitaram minhas narinas. Todas as águas já circularam dentro de mim. Em minha fala todas as falas se misturaram. E nos meus olhos os céus mais vários se despejaram. Não tenho pátria determinada nem tenho pressa nesta jornada: só esta sede que têm meus olhos de ver e ver e este incontido impulso de asas sobre meus pés. (Ibidem)
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Sob Vésper
Antes que o grande vendaval me afaste do teu corpo de pássaros e rosas, deixa que eu cante uma canção sonâmbula sob as luas ciganas de teus olhos. Antes que o grande vendaval me arraste, deixa-me ter-te como um lírio aberto na hora crepuscular da tarde ardente numa varanda toda de jasmins. Antes que o grande vendaval quebre a haste das rosas últimas e só espinhos cerquem-me a fronte – deixa que me mirem teus olhos, como sempre me miraste. E eu canto, amor, uma canção de outono para inundar de pássaros teu sono. (Sob Vésper)

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L. Ruas
Luiz Augusto de Lima Ruas nasceu em Manaus, no dia 28 de novembro de 1931. Optando pela vida eclesiástica, fez o curso de Filosofia no Seminário Metropolitano de Fortaleza e de Teologia no Rio de Janeiro, no Seminário São José. Jornalista dos mais talentosos, exerceu o magistério em escolas de nível médio e na Universidade Federal do Amazonas. Um dos mais ativos membros do Clube da Madrugada, foi vítima de perseguições políticas por causa de suas posições progressistas, após a implantação da ditadura militar, em 1964. Faleceu em Manaus no dia 1.º de abril de 2000. Obra poética: Aparição do clown (Manaus, 1958) e Poemeu (Manaus, 1985).

Sonetos autobiográficos
VIII O cais está deserto. A noite é vasta. O vento sopra fino. As águas negras Paradas se repousam das fadigas De naves que partiram soluçantes. As luzes tremeluzem cochilantes Dos negros postes magros penduradas. Do guarda, os passos lerdos, sonolentos, Acordam surdos ecos nas distâncias. E a sombra do seu corpo se projeta No longo tombadilho do silêncio Escura e densa como ponte armada
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Do cais para o silêncio da água negra, Do fim para o começo de outro dia Do pranto de quem fica ao de quem parte. (Poemeu)

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Apocalipse
Os meteoros ameaçam nossos jardins. É hora de decolarmos Para a infinitude do silêncio dilatado Com nossas asas de sonho Antes que a terra exploda E se escancare como a fauce De uma desmedida flor carnívora Faminta de nossos corpos. Não mais teremos tempo De colher o fruto do nosso canto Os meteoros ameaçam nossos campos. Os mares cobrirão nossas faces; Os vulcões ressecarão nossos ossos; As mãos, os ventres, os sexos Murcharão sob o fogo das estrelas Que cairão sobre vales e colinas. Os meteoros ameaçam nossos rios. É tempo de partirmos para o espanto desmedido. Do que fomos, fizemos ou cantamos, Ficará, apenas, o invisível traço Do vôo da ave indivisível Que se consumiu no espaço. (Ibidem)
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Nênia
mas se o pássaro não vier como será? os trigais deixarão cair – inútil esmola – os grãos de ouro no chão incandescido. as flores murcharão – flores de pedra – pontiagudas como espinhos secos. as fontes coalharão suas águas e teu sorriso morrerá qual fruto podre. se o pássaro não vier será noite sem estrelas e o sol não bordará mais de ouro e púrpura as régias fímbrias do manto da aurora. tuas mãos inutilmente chamarão os pirilampos para os bailes feéricos no seio da floresta se o pássaro não vier a música silenciará na última corda partida de paganini. o basilisco e as víboras dominarão os caminhos e ficará deserto e frio o último dos ninhos. não mais não mais terás o meu carinho pois teu rosto de mármore será estulto como estátua de museu. se o pássaro não vier inutilmente serás. serás o quê? ser o quê se o pássaro não vem? ser o quê se não há mais flor? ser o quê se não há mais ninho? (Aparição do clown)
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Guimarães de Paula
Raimundo Gilberto Guimarães de Paula nasceu em Manacapuru (AM) no dia 30 de novembro de 1932. Em 1976 venceu o 2.º Prêmio Prefeitura de Manaus com o livro Os Rebanhos da fuga. Esse livro, o único de sua autoria, sempre reelaborado no transcurso do tempo, só foi publicado postumamente, em 1996, alguns meses após a morte do poeta, a qual aconteceu em Manaus em 27 de julho do mesmo ano.

Espelho e face
Mata-nos o não vermos no espelho de hoje a nossa face de ontem. Flor de alegria ou de mágoa que outrora nascia de nós crestou-se (ignota) no tempo. A cada dia quanto mais nos conhecemos deixamos de ser nós mesmos, dispersados, divididos, em não sei quantos milhares de faces dessemelhantes. (Os Rebanhos da fuga)

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Elegias
Quinta Esta é a quinta estação da vida: a da lembrança, a que reúne a primavera, o verão, o outono e o inverno, e expressa a visão do que foi, do que é e do que será. Opimas uvas foram esmagadas no passado e hoje o vinho delas escorre e se bebido só produz ressaca... Faces, mãos e sexos esmaecem sob a sépia do tempo que – tal um polvo – aperta os seus tentáculos. Das canções de ninar e dos colóquios de amor apenas ecos longínquos reverberam em ouvidos [agora imperfeitos. O tato não mais capta a macia sensação do veludo da pele que cobria ancas mornas e seios em fogo e não percebe a ardência de púbis juvenis [tumescentes na espera do cio. Em tudo agora o que aflora é um titilar de saudade. Há cinza, muita cinza se espalhando sobre antigas brasas – rescaldo sem Phoenix... Há musgo, muito musgo crescendo, pois o que [era humano transformou-se em argila... Há tédio, muito tédio consumindo a vida e ninguém, ninguém pode ajudar ou amparar porque tudo o que devia ser já foi escrito.

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Jamais haverá retorno à primavera! Consumatum est! Caput mortuum! Cinzas, cinzas que os ventos da noite soprarão para o além! enquanto teus gestos e o mês chegando intocados trazem o cálice para o esquecimento. (Ibidem)

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Os Rebanhos da fuga
Pelos campos da vida meus sonhos sombras de mim mesmo tais como rebanhos sem água e sem pasto fogem à procura de Deus. (Ibidem)

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Cascata
Raio de lua rolando cai na pedra negra unido ao frio e se esvai como um rio sobre outro rio. (Ibidem)

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Aurolina Araújo de Castro
Filha do poeta Mavignier de Castro e pertencente a uma família de destacados intelectuais, Aurolina Araújo de Castro nasceu em Manaus no dia 23 de fevereiro de 1933. É formada em Serviço Social pela Escola de Serviço Social de Manaus e licenciada em Letras Neolatinas pela Universidade Santa Úrsula, do Rio de Janeiro. Obras poéticas: Janela (Rio de Janeiro, 1990), O Lago e outros poemas (Manaus, 2000), Colheita (Manaus, 2004). Faleceu em 26 de dezembro de 2004.

Lembrando
Manaus tranqüila tinha ainda provinciana fisionomia. O sol forte ardia na pele. O bonde, abarrotado de gente, nos trilhos cantava a melodia solta na garganta da tarde, brilhando em duas longas paralelas de aço. (O Lago e outros poemas)

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Coreto
Onde estão agora os coretos com a banda de música, nossas algazarras e brincadeiras? Ainda se encontram alguns pelos subúrbios distantes. Sem mais aquela significação, lá estão eles, vultos manietados, sem qualquer movimento, da vida nova marginalizados. Lembrá-los é trazer de volta um tempo sem televisão. É retornar à grande espiral que em torno de seu eixo se fazia. É circular lado a lado de inquieta criançada. É rever a gente simples, que buscava alegria na banda de música que ali tocava, nas tardes domingueiras. Remanso de descontração, de despretensiosa alegria, ao jeito da primavera, em torno do coreto se desfrutava prazerosa atmosfera. (Ibidem)

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Alcides Werk
Alcides Werk Gomes de Matos nasceu em Aquidauana, Mato Grosso, no dia 20 de dezembro de 1934. É poeta de identidade amazônica, forjada no convívio com o modo de vida interiorano, resultado de suas aventuras pelos altos rios, pelos paranás, pelos lagos distantes, abeberando-se da cultura aborígine. Sua estréia aconteceu em 1974, com a publicação do livro de poemas Da noite do rio. Outras obras poéticas: Trilha dágua (Manaus, 1985), Poemas da água e da terra, edição bilíngüe (Manaus, 1987), In natura: poemas para a juventude (Manaus, 1999), Cantos ribeirinhos e outros poemas (Manaus, 2002) e A Amazônia de Alcides Werk (Manaus, 2004). O poeta faleceu em Manaus, no dia 13 de novembro de 2003.

Estudos
VI O amargo deste sal que me alimenta agora, eu mesmo o consegui catando abismos nesse mar desconhecido que o tempo me mostrou depois de mim. Este sabor estranho de distância que vivo a cada hora e que me envolve, vem da vida que vi nessa voragem. Sei, agora, que após a ronda inútil por além dos limites do meu nada, voltamos mais vazios, eu e o barco que construí para guardar tesouros.
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No regresso noturno, cumpro o gesto de buscar o local, em cada porto onde possa esconder um sonho morto. (Trilha dágua)

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Da noite do rio
Nesta noite sem medida eu todo banhado em sombras fugi de casa, fugi para o branco desta praia, como se a aurora que busco neste rio se afogou. Preciso acordar o rio que está cansado de viagens para ver se me alivio da morte que trago em mim com falas de cobras-grandes e de mortos pescadores que fazem parte do rio e estão assim como estou. No céu repleto de nuvens há nuvens cheias de chuva: por que não chove? Quisera molhar-me dentro da noite, tremer de fome e de frio por remissão dos meus males deixar meu corpo vazio guardando o castelo inútil e partir buscando a aurora

: : Poesia e Poetas do Amazonas : : 205

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para que venha depressa banhar as águas do rio e minha face marcada dos ventos com que lutei. (Ibidem)

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Da opção
Um belo mundo de muitos lagos de muitos rios. Um belo mundo de muitas matas de muitas vidas elementares. Um belo mundo de muitas lendas de muitas mortes antecipadas. Velhas estórias de água e florestas. O homem e a terra. A terra cansando dos anos compridos de extrativismo na selva no rio na rua na mente.

: : Poesia e Poetas do Amazonas : : 207

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O homem cansado de andar pelo tempo sozinho sozinho no meio da mata na beira do rio à margem da vida. Velhas estórias de água e florestas. O homem e a terra. – Eu canto para o homem. (Ibidem)

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Ernesto Penafort
Ernesto da Silva Penafort nasceu em Manaus, no dia 27 de março de 1936. Morreu na mesma cidade em 3 de junho de 1992. Na década de 60, estudou Ciências Sociais na Universidade do Brasil, abandonando o curso devido ao clima político vivido pelo País. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Amazonas. Foi membro do Clube da Madrugada e um de seus presidentes. Obra poética: Azul geral, 1973, A Medida do azul, 1982, Os Limites do azul, 1985, Do verbo azul, 1988.

A medida do azul
A medida do azul é o estender-se do olhar por sobre os seres. Esse arguto perceber que se tem de não mover-se o objeto – já por ser absoluto. A medida do azul é ver um luto contido em toda flor e o abster-se cada qual de assumir seu tom enxuto e noutro que o não seu absorver-se. A medida do azul, pelo contrário, não é ver no horizonte o fim do olhar, mas o ter desta vida aonde chegar, pois ali tem o mundo o seu ovário: e o retorno acontece, sempre estável, eis que o azul é o início do infindável. (A Medida do azul)

: : Poesia e Poetas do Amazonas : : 209

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Rio de sono
este é um rio de sono, senhora. este é um rio sem barcos e tem toda feita em arcos sua submersa flora. pois este mesmo rio, senhora, que além de ser de sono e sentir-se inavegável (como se fosse de outono sua eterna bruma de cobre) é também um rio nobre. inobstante ser pobre de qualquer navegação, pulsa nele, quando cai, o dia, no fim do olhar, o sol – seu coração. (Ibidem)

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Enquanto a lua for calada e branca
enquanto a lua for calada e branca eu serei sempre o mesmo, este esquisito, este invisível vulto, apenas visto quando o vento, de leve açoita as folhas. enquanto a lua for calada e branca eu serei sempre o mesmo, apenas visto quando um raio de sol morre na lágrima que se despede de uma folha verde. eu serei sempre assim, apenas sombra, apenas visto quando a voz de um gesto colhe no bosque alguma flor azul. apenas visto quando em fundo azul voar a garça (o meu adeus ao mundo?), enquanto a lua for calada e branca. (Azul geral)

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Elson Farias
Elson Bentes Farias nasceu no interior do Amazonas, em Roseiral, município de Itacoatiara, no dia 11 de junho de 1936. Participou ativamente da movimentação que se seguiu à fundação do Clube da Madrugada, tornando-se um de seus principais membros. Pertence também à Academia Amazonense de Letras. Obras poéticas principais: Barro verde (Manaus, 1961), Estações da várzea (Manaus, 1963), Três episódios do rio (Manaus, 1965), Ciclo das águas (Manaus, 1966), Dez canções primitivas (Manaus, 1968), Um Romanceiro da criação (Manaus, 1969), Do Amor e da fábula (Rio de Janeiro, 1970), Roteiro lírico de Manaus em 1900 (Manaus, 1977), Palavra natural (Brasília, 1980), Romanceiro (Rio de Janeiro, 1985), Balada de Mira-anhanga (Manaus, 1993), A Destruição adiada (Manaus, 2002).

Balada
O sol retorce a paisagem sobre pés de pedra dura. Estalam verdes do rio. Peixes redondos, prateados como escamas esmaltadas nas tarrafas de chumbadas. Uruás partem seus cascos no barro virgem das grotas. Alguidares se restauram. No mormaço das mangueiras as mulheres temporãs tecem tarrafas chumbadas.

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De torrentes concentradas vive meu verso bisonho, sustido em fibras telúricas do sítio, favas de sol. (Barro verde)

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Romance da noite-chuva
Tremia o trovão na terra. Talhavam a face torva gota a gota os seringais, era o deus que era raivoso e vinha nos temporais. Bramia o rumor do rio nas noites de escuro e chuvas, caía a faixa da terra, piavam surdo as corujas. Um noturno canto-pranto cortava o céu em dois meios, nosso deus vinha vestido de nós e os nossos receios. * – Minha mãe, onde é que eu acho a lamparina da noite? – Meu filho, ela deve estar pendurada lá no alpendre. – Minha mãe, por que a coruja pia agora sem parar? – Meu filho, certo que existe um defunto a amortalhar.

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– Quero dormir, minha mãe, dentro das trevas desta hora, mas não posso me embrulhar, o meu lençol me apavora. – Meu filho, dorme, não chora, que o dia custa a vir, reza as três ave-marias, muda a roupa e vai dormir. * A terra tremia toda. (Romanceiro)

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O Rio Amazonas
Rio, lavras tua gula, comedor de terra e espuma, trazes os teus peixes todos, sol ardente sobre lâmina. Manhã clara consumada, hereditária da chuva, água tranqüila na cuia do verão que te saúda. Noite nova sobre as árvores, sombras nos ombros da lua, os duendes antigos vivos, mulher deitada na grama. Não és um rio caduco, mas uma fera atiçada. Contra a fome te concentras como o fixo olhar da garça. (Ibidem)

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Mady Benzecry
Mady Benoliel Benzecry nasceu em Manaus no dia 19 de fevereiro de 1933. Radicou-se no Rio de Janeiro, onde dedicou-se às artes plásticas. Fez diversas exposições ao lado de seu marido, o escultor Eugênio Carlos, mais conhecido pelo nome artístico de Batista. Sua estréia literária aconteceu com Sarandalhas, em 1967. Seu segundo livro de poesia é de 1968, De Todos os crepúsculos. Faleceu em 11 de junho de 2003.

Às Dez horas de uma noite triste
NÃO TE DEMORES MEU BEM!... Minhas mãos ainda estão trêmulas das carícias que te deram... Ainda se estendem quentes, delirantes, ainda se crispam dos anseios que tiveram ao maltratar-te a pele... Chamam-te ainda nervosas, implorantes mas, já não estás comigo, lembro triste, faz apenas meia hora que partiste... NÃO TE DEMORES, MEU BEM!... Meus lábios permanecem entreabertos, como se ainda esmagados contra os teus, bebessem teu sangue nos desertos. Ainda estão úmidos e sentem o jogo intenso que tua boca transportada de desejo,

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derramou na avidez de um infindo beijo... Mas já não estás comigo, lembro triste, faz apenas meia hora que partiste... NÃO TE DEMORES MEU BEM!... Meu corpo ainda está como o deixaste, morno... todo marcado da volúpia com que o amaste... No entanto, ainda deseja como um louco languidamente entregar-se, e pouco a pouco, matar a sede deste amor que não mataste! Mas, já não estás comigo, lembro triste, faz apenas meia hora que partiste!... (De Todos os crepúsculos)

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A Procissão do tempo
A procissão do tempo passa, triste, silenciosa, calma, inacabável. Das horas o cortejo interminável, se arrasta para o que não existe. Por que o caminhar já não desiste o Amanhã eterno, inatingível? Que glórias, que prazer inteligível, que força, os seus clarões impele e assiste? E a procissão minha caminha sem cessar... Dias exaustos, Horas tão cansadas, pelos Minutos e Segundos amparadas seguem o trajeto sem poder parar. A que este infortúnio comparar? O fim que alcança no princípio está, se começa, jamais acabará! Será eterno, ou longo caminhar? E, já cansados desta sucessão, soluçam os Dias e esbravejam tanto, que a Natureza se desfaz em pranto e acompanha a peregrinação. Mas não suporta tanta provação: Ela é perfeita! E a trajetória imensa, embotaria a sua beleza intensa. Desiste. Fica. E os dias lá se vão...

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E passam meses e anos rastejantes que o tempo louco a persistir obriga, e já demente, sem querer, castiga a humanidade com seus pés errantes. Calça-lhe os sonhos, corta-lhe os instantes, tudo devasta em seu grande furor, arrasta ânsias, leva-lhe o amor. no desfilar das procissões clamantes... A humanidade toda já só pranto tenta deter a marcha incontrolável, ousa enganar o tempo inabalável, que lhe empalida as faces e extingue o encanto. Mas, na tremenda luta ela esmorece tanto que morre. E os dias continuam indo, os amanhãs eternos vão surgindo cobrindo, o Ontem, com seu negro manto. Nada mais fica... Tudo se esgotando... Dias iguais vão se sucedendo, o que tem vida está sempre morrendo, e o que está morto, em pó se transformando. O mundo inteiro o tempo vai levando!... Aonde irá? Para onde se dirige? É a pergunta que hoje nos aflige enquanto imperturbável o Tempo vai passando!... (Ibidem)

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Astrid Cabral
Astrid Cabral Félix de Sousa nasceu em Manaus, no dia 25 de setembro de 1936. Participou da movimentação cultural que se seguiu à fundação do Clube da Madrugada. Professora da Universidade de Brasília, foi oficial da chancelaria do Ministério das Relações Exteriores. Sua estréia literária aconteceu em 1963, com a publicação do livro de contos Alameda. Obra poética: Ponto de cruz (Rio de Janeiro, 1979), Torna-viagem (Recife, 1981), Lição de Alice (Rio de Janeiro, 1986), Visgo da terra (Manaus, 1986); Rês desgarrada (Brasília, 1994), De déu em déu, reunião dos livros anteriores (Rio de Janeiro, 1998), Intramuros (Curitiba, 1998), Rasos d’água (Manaus, 2002).

Selo d’água
Como a retornar de um reino de sombras, saí do rio peixe interino enrolada de limo e escamas d’água. Mais que a pele, mais que os pêlos a alma de medo molhada! O mergulho na corrente foi-me foice, faca, fio líquida navalha rente ao pescoço, pulso fugidio. Sobrou-me o sombrio segredo selo da morte na carne. Oh garra gume de gelo! (Visgo da terra)

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Geografia provinciana
Manaus um ponto perdido no mapa. Ali, desgarrada entre paredes de verde. Mas iam e vinham navios trazendo franjas do mundo. Europa e Península Ibérica surgiam das próprias pedras das avenidas e esquinas: a Itália na taberna de seu Vicenzo Arenaro. Também no livro de Dante que o sapateiro traduzia rodeado de crianças a mostrar-lhes céus e infernos toda a celeste geografia. Seu Genaro, já grisalho fundava o reino de Espanha atrás de barris de vinho tinas mantas de banha vinagres azeites doces réstias de alho e cebola. Seu Carvalho, o português vendia bolos e broas à vontade do freguês

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mais rala-rala e refrescos de guaraná e groselha. Síria China e Argentina vinham na gorda maleta do turco mais seus bigodes: damascos crepes Chambleys. A França era ali na “Madame Marie” e no “Aux Cent Mille Paletots” a moda do dernier cri. E passavam barbadianas sob chapelões de palha ao sol dos dias em brasa. E um fugitivo das Guianas testemunhava a Ilha do Diabo! O mundo estava em Manaus Manaus estava no mundo. (Ibidem)

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Estrangeira
Varro os degraus das escadas deste paço imperial circundado de colunas. Mas é no abstrato barro de outro hemisfério junto a raízes bem fundas que estão plantados meus pés. (Rês desgarrada)

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Jacob Ohana
Jacob Ohana nasceu em Belém, no dia 16 de outubro de 1942. A partir de 1943 passou a residir em Manaus, onde realizou seus estudos. Publicou os primeiros textos na página literária do Clube da Madrugada, tornando-se um de seus colaboradores. Obra poética: Cotidiano das ruas e dos entes, 1998.

Diurno
Na multidão meus múltiplos se afligem roçam na valsa torta que os empurra. O pirata já foi o alienígena, a colombina dança taciturna. A máscara de osso, o pé de vidro, a gola prende o ar de arlequim. Solta-se a fantasia, o seu ruído, na mímica de cada alegoria. Bebemos. Nossa orgia é uma lacuna, de onde saímos para abrir espaço ao estandarte hostil da nossa fauna. Passamos uns aos outros a ironia das cores mutiladas nesse encontro na transfiguração da fantasia. (Cotidiano das ruas e dos entes)

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Amazona
Teu viço é o mito, o arco, a guerra, a flecha, que entre as pedras do rio te regenera no cheiro do cardume ao teu encontro. Lenda de fósseis por tragado encanto, que o fruto, a folha e a flor ocultam na pele ao mel que o âmbar hostiliza. Seiva de luas cheias, as veias tecem terços de raízes na crina dada ao vento e à selva que habita a virgindade do teu pólen. (Ibidem)

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Inconstância
Dizem-me os linces, foste ver gravuras no teu deserto de pêlos ao vento, clara tulipa a celebrar o vinho. Branca, arredia fímbria em que decoro um hino. Banho de sais que às vezes tomo atento à gota que entre os dedos cai. (Ibidem)

229 – Tenório Telles / Marcos Frederico Krüger

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Maria José Hosanah
Maria José Hosannah nasceu em Manaus no dia 30 de setembro de 1943. É formada em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas, onde foi professora. É autora de Cantaria verde, publicado em Manaus, em 1978.

O Canto
Acordou ferida como o pássaro que rasgou as próprias asas e olhava o céu, chorando o grito. O grito que só era ouvido pela estranheza do ar, da água. Do ar, da água, que nunca falavam ao pássaro, ao pássaro das asas feridas que acordava em dor. Acordou ferida como o pássaro que sangrava as duas asas e que veria a dor e a morte, menos sofridas se ouvisse um grito, um mesmo som.

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E ao pássaro ferido, a quem restava preencher o espaço com seu próprio grito, na esperança de sentir o mundo igual à sua dor, ficou um som, o canto. O mais belo canto de recriação. (Cantaria verde)

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As Barrancas
I Na barra de tua saia, as barrancas bordadas na barra de barro e madeira, de gentes em bando. A mulher que se quisera bela vestira-se de branco, de cimento e pedra, de adorno em brinco, mas mulher descalça. Na barra de tua saia rendada, do barro que pisava, dos bilros de estacas, dos berros das gentes – as barrancas. A mulher que se quisera bela ornara-se de rendas, de salões cristal, de painéis de lendas, mas de pés descalços.

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Na margem de tua saia, madeiras moldadas, marginais de lama, barradas imagens, entre o rio e fama – as barrancas. A mulher que se quisera bela fizera-se ilha, em verde e em rio, em raízes-pilhas, em rádios e palhas, dúplice ao meio d’argamassa barro. No friso de tua saia – Mana-os guizos e risos, bardos-bordados, berros-barrados, Maninha as barrancas. (Ibidem)

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Max Carphentier
Max Carphentier Luiz da Costa nasceu em Manaus, no dia 29 de abril de 1945. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Amazonas. Surgiu para a literatura na década de 70, vinculando-se ao movimento Madrugada. É membro da Academia Amazonense de Letras. Obra poética: Quarta esfera, 1975, O Sermão da selva, 1979, Orfeu do Nazareno, 1983, Tiara do verde amor, 1988, Nossa Senhora de Manaus, 1995, Celebração da vida – missa planetária, 2003.

O Sermão da selva
IV Bem-aventurados os que sustam o avanço dos desertos, domando a areia e apascentando as dunas com a flauta inumerável de árvores urgentes que frutificam em paz e as cidades protegem e mitigam de chuva os caminhos de fogo. Bem-aventurados os que socorrem a fauna sacrificada e salvam da extinção cantos indispensáveis, belos saltos de cor, imponências felinas e todas as claras provisões de ternura animal que a magnífica fonte espalhara na selva. Bem-aventuradas as mãos que multiplicam o verde e os verdes movimentos do caule erguendo-se da terra, e os longos círculos de sonho em que a flor se transfigura, em que o fruto se entrega e em que as folhas resistem

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na úmida e dadivosa sinergia. Bem-aventurados os que cultivam e os que repartem as lendas, filhas da solidão dos remos peregrinos, das sombras que de noite andam de medo em medo as redes embalando à luz das lamparinas. Porque lenda é mensagem, e a selva sempre soube que, além de alma e matéria, o homem é sonho. Bem-aventurados todos os que antes da revelação eletrônica já se comunicavam com as plantas, já as sentiam e com elas partilhavam da luz e da emoção, e as respeitam assim nessa comunidade da selva. Bem-aventurados os que em lei, verso, vontade, na retorta, na prece e na palavra a selva defenderem e seus mistérios lerem e fundarem a sua paz na paz da selva. Porque o Reino será desses, daqueles que cumprirem o destino de Deus neste transido mundo que nos suporta enquanto o temos. (O Sermão da selva)

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Hino de entrada e ofertório
VII Assim, considerai a minha adolescência: um dia eu conferi, sobrara apenas a insônia do período, e a festa se acabara em rosa ensangüentada e castiçal partido. Porém, como a tudo me dei integralmente, com o coração doado à eternidade falsa – se vãs taquicardias celebraram seios, ventres e seus falcões tensos nos ninhos (quanto pensei vos ver nas mãos ausentes!) – as mulheres me iniciaram na voz do sacrifício e sua claridade preparou-me para a Luz maior, e a invicta noção de sonho que deixaram é esta gôndola agora em que explorais os canais do Universo em meus neurônios. (Orfeu do Nazareno)

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A Coroa mitológica – Do uirapuru
Todo dia acordar para uma ausência como se acorda a flauta no deserto, como acordamos eu e o uirapuru para o destino de dar voz às cinzas. Ele ao frio sobe das mais altas copas; eu ao frio desço das mais velhas sombras; e vinda a noite o canto que nos mata inda recende pela flor das trevas. À sombra dessa voz sonham as orquídeas, tremem-se as águas no igapó dos olhos, e a serpe e a flor, o sonho e a mão perdida seus corpos cobrem sob folhas mortas. Como é saudade o dom que inda nos resta, em nós, de amor maior, canta a floresta.
(Tiara do verde amor)

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Roberto Evangelista
Francisco Roberto Evangelista nasceu em Cruzeiro do Sul, Acre, no dia 10 de fevereiro de 1946. É um dos mais destacados artistas plásticos do Amazonas, com participação em diversos eventos artísticos no País e no estrangeiro. É autor do livro de haicais O Crisântemo de cem pétalas (em parceria com o poeta Luiz Bacellar), publicado em 1988.

Haicais
O viajante deita e no sono continua a caminhada. * Canaranas na corrente: passam ilhas, continentes. * Vôo de garças em diamante: altíssima geometria.

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Braço e remo, doce impulso, abrem n’água o sulco. * O peixe vivo faz vibrar o coração e o caniço. * O vôo poente das andorinhas enverga o horizonte. * No espelho das águas a nave solar mergulha flamejante.

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Ave, palavra: o ninho! E quanta vida sustentas! Pulsar, ah, o pulsar... E cada coração é uma estrela. (O Crisântemo de cem pétalas)

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Anibal Beça
Anibal Augusto Ferro de Madureira Beça Neto nasceu em Manaus, no Amazonas, no dia 13 de setembro de 1946. Faz parte de uma nova geração de poetas amazonenses surgida no final do anos 60, denominada de PósMadrugada. Foi o vencedor do Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira de 1994. Obra poética: Convite frugal (Manaus, 1966), Filhos da várzea (Manaus, 1984), Dez haicais para os olhos da amada e outros poemas tocantes (Manaus, 1984), Itinerário da noite desmedida à mínima fratura (Manaus, 1987), Suíte para os habitantes da noite (São Paulo, 1995), Banda da asa, reunião dos livros anteriores (Rio de Janeiro, 1998).

Didática
Queda a palavra não dita mas, dita pela escrita, fica sem resposta clara, se verde é o grão dessa fala. Ai força que faz do verso, misterioso vôo disperso, aberto por linhas tortas: chave do vento sem portas. Nesse ofício da solidão, o poeta arruma a alma: espinho e palavra na mão. E a pluma azul, aqui e agora, decifra os signos e as coisas, frágua do tempo e sua hora. (Filhos da várzea)
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Coplas de virgo
Há um cheiro de angústia nos teus olhos amputado no meio desta sala. E este mistério basta-se em silêncio apascentando os demos desta noite. E é assim que eu não querendo ver eu vejo madeira tosca a se rachar no tempo os caules duros tão particulares reconstruídos no covão das horas. Pois que do tempo bebo alimentando a tua singular fisionomia. Aquela mesma que ficou plantada de grãos e pêlos rubra arquitetura. E repousei caído em teus desígnios e a água não era mais a mesma água e a praia desnudava-se dos olhos de ter e ver o verão do teu corpo. E tua geografia era uma ilha relva fresca de brisa amanhecida que águas do meu instinto roçagavam acordando gaivotas no teu ventre.

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E éramos sós, o vôo da paisagem em duas asas alargando a noite e displicentes palmilhamos rastros e nos perdemos na linguagem única. Amarantíssimo ansiar de chamas fuga fugaz em tempo de equinócio onde o dia e a noite são no avesso a própria conjunção dos girassóis. Que vibrem as cigarras de setembro instante de pálpebras frementes que o nosso alumbramento encadeado seja o elo perene do silêncio. Ah, duração de gozo interminável onde o tempo é objeto sem valor pois o moto maior de todo amante é um antigo relógio sem ponteiros. Ah, o lobo da memória me assaltando a devorar auroras e crepúsculos mas me salva este mar da lua espelho onde liberto sou e recomeço. (Itinerário poético da noite desmedida à mínima fratura)

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VI
Em tom de old-blues para piano, sax, contrabaixo, guitarra e bateria
Quem saberia de mim se me visse assim como estou rendido ao aço das manhãs pastoreando esse meu cão por essas ruas tão tranqüilas Que gemelar seria eu linha paralela de vida e tão parelha dessas ruas fagulha dupla de mão única bifurcada e sem retorno nos afazeres do meu sonho Em mim eu sou o que não fui comigo fui o que não era: o derrotado nominado o nominado vencedor e resta só o testemunho do cão que me acompanha agora e dessas ruas que me sabem antes (Suíte para os habitantes da noite)

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Aldisio Filgueiras
Aldisio Gomes Filgueiras, poeta e compositor, nasceu em Manaus, no dia 29 de janeiro de 1947. Sua estréia literária aconteceu em 1968, com o livro de poemas Estado de sítio, que, depois de editado, teve sua circulação proibida pela censura. Obra poética: Malária e outras canções malignas (Manaus, 1976); A República muda (Manaus, 1989); Manaus – as muitas cidades (1987-1993) (Manaus, 1994); A Dança dos fantasmas (Manaus, 2001), Nova subúrbios (Manaus, 2004).

O Rio comanda a vida
ímpetos sexuais aríete de coisas diluídas o rio traz nos dentes as rédeas de nossas vidas e sob o tropel de seus ásperos cascos liquefeita em cópias de figuras trágicas

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a presença inócua e dúbia de nossos corpos o rio des-governa quase impossível regime de forças hidráulicas apenas usadas por lisos cardumes de peixes argutos em ciranda elétrica o rio põe e dispõe que manhas e tramas tem esse rio e orgulho de senhor por exemplo risca funda fronteira e aliena seu feudo do mundo em líquido estado de sítio e pênis raivando de ímpetos sexuais

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– aríete de coisas diluídas – o rio traz nos dentes as rédeas de nossas vidas (Estado de sítio)

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Ai de ti, Manaus
(excertos)

Ai de ti, Manaus: tu viste na televisão o crime suprir tua lei – no teu olho – & preferiste voltar as costas para o rio & a floresta & riste & te chamaram sorriso & riste (...) Decidi ser didático contigo: Muitas cidades já foram devoradas pelo fogo & pela água & pelo vento & pela terra & pela... bala...
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& pela peste Muitas. Tu não: (...) Todo descuido em ti será fatal, Manaus. Espremeste todas as seringueiras & oprimiste todos os seringueiros que o Nordeste não teve tempo quente o bastante para queimar. (...) Massacraste os teus poetas & pintores & músicos & malucos de todos os matizes – os que mais te amaram – com discursos & crimes pós-barba & piadas obscenas

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& quadros & romances que só tu superas em ficção & maldade (...) Ouve a pobreza dos teus bairros, Manaus. Eles comem lixo & tu vestes luxo. Eles querem viver & ensinas lições suicidas desde a Baixa Cachoeirinha – onde quintais viram danceterias & os igarapés estão bêbados de néon & mercúrio. Sim: eles querem viver. Mas o ônibus fede & os sovacos & as bocetas & os homens bebem movidos a ódio cru para sonhar
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mas o sonho fede & tu cagas pra isso. Ai de ti, Manaus não venhas chorar no meu ombro. (Manaus – as muitas cidades)

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Provérbio
O sol Não dá mais para ninguém Risque uma estrela Acenda Faça alguma coisa As facas brilham As balas Defenda a sua vida Defenda a sua vida O sol Não dá mais para ninguém (Malária e outras canções malignas)

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Donaldo Mello
Donaldo de Lima Mello nasceu a 30 de julho de 1950, em Manaus. No Ginásio Amazonense Pedro II viveu o seu despertar pela poesia, escrevendo poemas e crônicas. Transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde graduou-se em Economia. Nos anos 80, mudou-se para Brasília, dedicando-se ao magistério superior e ao funcionalismo público federal, sem contudo se descuidar de seu processo criativo. Obra poética: Véspera de azul (Manaus, 2002).

Anunciação
Noite se queda preguiçosa sobre um azul esvoaçante... Um vão, alguma aragem, viagem. Um vôo, de ave no espaço, sem asas... Vésperas em verso. Canto de um galo chamando outra vez o dia. Alumia. Janelas se abrem sugerindo os cinco sentidos poéticos que tentam, singelamente, falar ao coração. (Véspera de azul)

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Viceversando
Fogem as palavras do poema quando ele vem por inteiro. A escrita, como um puçá, colhe suavemente as idéias com um jeito matreiro. Mas o rumor, como uma gargalhada de humor, extrai do inteiro um pé. Fica às vezes capenga aquilo que fora poema. Um verso somente sem trema o canto da seriema. (Ibidem)

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Cláudio Fonseca
Cláudio Silva da Fonseca nasceu em Manaus, em 9 de janeiro de 1952. É formado em Economia e Administração de Empresas pela Universidade Federal do Amazonas, com especialização em Crítica e História da Arte, pela mesma instituição. Tem textos publicados em diversas antologias. Obra poética: Vitral (Manaus, 1995).

Reflexos
Os lírios já cumpriram os rituais. Agora, cai o sol nas águas, faiscantes. O dia se desfaz dos últimos matizes com que fez chorar Penélope e Ulisses. Eis os luminosos feixes. Estes traços rápidos de cais, de paz, de imprecisas balsas e barqueiros e arqueadas varas que os pincéis gravaram impressionistas. Penso nessa gente, olhos destruídos, que agora cruzam as cidades turvas. Homens sobre pontes voltam como certos de que havia sido assim o dia impresso.

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Tribos e exércitos que aqui passaram chegam nesta hora de um fulgor ainda. Mortos, para olhar, os rostos levantaram como a consolar-se porque tudo finda. Outros que ousaram desvendar as raras ilhas esboçadas nesta maravilha não se emanciparam mais que uma coragem. Sempre sempre se perdoa a Deus, Que somos frágeis, ao olhar um mar, um rio, no fim do dia. (Vitral)

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Poema amargo
Ela tinha nos olhos meus sonhos. E no corpo, a minha alegria. Ela era uma ilusão. Eu não sabia. O seu sorriso era o sol. As suas maneiras, a graça. E era tudo fumaça que eu, encantado, nem via. Tinha nas mãos o meu céu e era o meu anjo ou imagem da criança que eu quis minha. Mas era também só miragem e mais tarde, agonia. Se ela dançava, parava de repente o meu mundo e o meu destino. ...E fantasias bailavam nos meus olhos de menino. Mas tinha ela o cheiro da terra e nos lábios, lenda e Amazônia. Frutos do mato, os seios seus. O ventre, rio que eu navegava. E o sexo, o toque de Deus. Mas seu amor, uma mentira! Um punhal na madrugada, um adeus.

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E era ela aos meus olhos um sonho, e ao meu corpo, uma alegria. Ela era uma dor Eu não sabia. (Ibidem)

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Milton Hatoum
Milton Assi Hatoum nasceu em Manaus em 19 de agosto de 1952. Na cidade natal morou até 1967. Mudou-se nesse ano para Brasília e, em 1970, para São Paulo, onde se formou em Arquitetura na USP . De volta a Manaus, lecionou Francês e Literatura na Universidade Federal do Amazonas. Atualmente reside em São Paulo. Antes de se tornar o famoso romancista de Relato de um certo Oriente (1989), Dois irmãos (2000), com os quais ganhou o Prêmio Jabuti e Cinzas do norte (2005), publicou, em 1979, o livro Amazonas – palavras e imagens de um rio entre ruínas, que se constitui de poemas e crônicas feitos sobre fotografias.

As portas do rio foram abertas e vazaram peixes, caboclos, ubás. Remar tornou-se verbo estático. O tempo ancorou no raso E o verde se decifrou (Amazonas...)

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O porão de um barco tem suas redes, como o cemitério seus mortos. As redes respiram um sono como o rio respira seus mistérios. Sono de terceira classe, sobre o aquático e não dormitar à flor da terra, sono jazigo, mármore. (Ibidem)

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Entre cemitério e última classe há uma diferença motriz: um é plano jazigo e só gira com todos os vivos da Terra e suas tumbas. Enquanto o porão, com seu espaço casulo, gira no ritmo da Terra e, ainda, com a fluência da água. Porão e túmulo jamais serão um único frasco. O porão poderá ser tumulto ou redoma de ossos falatórios. Redoma, lugar hemisfério onde se enxerga fora – longe do leme – o celeste. Ou lugar que desfia, tecendo ao inverso, destelhando o sono do homem que já córrego, não mais será mistério. (Ibidem)

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Celdo Braga
Celdo Braga é amazonense de Benjamin Constant. Nasceu no dia 22 de setembro de 1952. Formado em Letras na PUC do Rio Grande do Sul. Líder do grupo Raízes Caboclas, conquistou reconhecimento como músico e compositor. A partir de 1984, passou a residir em Manaus, dedicando-se ativamente à vida artística. Obra poética: Água e farinha (Manaus, 1999), Cd’s: Canoa – música de popa, poesia de proa (Manaus, 2001), Chamando o vento (Manaus, 2002).

Panela de Barro
Velha panela de barro, tisnada à lenha do tempo – memorial de lembranças à toa lá no quintal. Ao refletir tua sina, do duro retorno ao pó, percebo que se aproxima meu tempo de ficar só. Tempo de ninar silêncio, de domar a luz do dia – pra cavalgar o escuro da hora da travessia. (Inédito)

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Sina de Porto
Meu chão pisado de sonhos calejou no mesmo canto. Seco de vida, meu pranto é espera demorada. Canoa calafetada com o barro do meu destino, não venceu a correnteza dos rios que desafiei. Sujeito à sina de porto, vou esgotando a canoa – olhos d’água borbulhantes que um dia calafetei. (Ibidem)

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Rosa Clement
Rosa de Nazaré Silva Clement nasceu a 22 de maio de 1954, em Manaus. Uma das mais destacadas escritoras de sua geração, é graduada em Letras. Tem textos publicados em antologias, principalmente nos Estados Unidos, onde residiu. Estudiosa da flora amazônica, é uma das fundadoras do Clube de Haicai Sumaúma. Obra poética: Terra de cunhantã e curumim é assim (Manaus, 2002).

Sua majestade, o abacaxi
Dizem que pareço rei, mas sou um rei bem baixinho, e também minha coroa tem aqui e lá um espinho. E quem for de mim cuidar, tem de ter jeito e carinho, pois não quero machucar a mão de quem quero bem. Se me cortam em rodelas, sou gostosura também. Dou mergulho nas panelas, viro bolo frio ou quente. Mas também não dou moleza: pra quem almoçar contente sou prêmio em sobremesa. (Terra de cunhantã e curumim é assim)

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Flores incandescentes
Como um rio, ele molha as flores do meu vestido, e em suas águas me convida a mergulhar. Meu corpo se aquece, meus pensamentos se incendeiam, ao seu doce sussurrar... Suas carícias são ondas mornas que embalam e fazem desabrochar as flores molhadas do meu vestido, que nessas águas do rio, logo se deixam levar... (Inédito)

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Bosco Ladislau
João Bosco Ladislau de Andrade, natural de Manaus, nasceu em 1.º de dezembro de 1954. É engenheiro civil e sanitarista, trabalhando como professor da Universidade Federal do Amazonas, lotado na Faculdade de Tecnologia. Mais conhecido como artista plástico, cultiva também a poesia, tendo, na última condição, participado de algumas antologias, como Poetas brasileiros hoje (Rio de Janeiro, 1986) e Marupiara (Manaus, 1988).

É mentira o que dizem estes senhores...
É mentira o que dizem estes senhores todos – estes que afirmam identificarem-se com a geração subjugada, mas que nunca trazem as mãos fedendo a cigarro barato e nem recebem salário mínimo. São, apenas, arautos das Nações e de Sociedades (corruptas e criminosas como as noites do Terceiro Mundo). Disto sabem os deuses e os governantes que nos conduzem à desgraça quando simulamos a dissolução de seus sacramentos. Disto sabem os deuses e os governantes que nos limitam a uma existência louca. É uma existência súbita e cruel; como o preço do pão, como a falta do feijão, como os 99 cruzeiros mensais das professoras do Nordeste no Hemisfério Ocidental,
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como os 60% de desempregados de algum lugar dispensados em 1976, como os crimes que cortam as tardes no Hyde Park ou na Praça da República! Estes são os homens de ternos cinzas; meros executivos que lêem García Lorca, ou fazem grandes projetos para o amanhã. No fim do dia discutem entre si e dizem: “Como são estranhos os homossexuais e as prostitutas que se beijam e se consolam na desgraça... Complexos são os camponeses que trabalham fazendo canções... Ordinários são os poetas, que falam de amor e do Oceano Pacífico apenas para revelarem o choro dos oprimidos...” (In: BEÇA & GATTI, Marupiara, p. 130-1)

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O Amargo da terra
Saúdo-te por último, meu caro amigo. Antes que regresses novamente ao teu escuro quarto de pensão, arrebentado, cego e traído pela estúpida moral de todas as filosofias. Eu venho de bares e mercados tristes e impenetráveis como as raízes de meu cérebro. A vida dos encarniçados que aí se exilam e se embriagam é tão cheia de tragédias que me faz dar gritos de agonia. Por isso tenho repulsa à tranqüilidade e a canções de amor. Não tenho paz, senão quando vejo a fome ausente de um operário e um sorriso obstinado na boca de uma mulher grávida. Fora disso sou intratável rebelde louco sem rumo; vivo e cruzo a cidade nas noites que se erguem sedutoras como o sal terrestre. No entanto, amigo, sou como tu és: prefácio decadente

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de uma raça extinta pela necessidade. Ah, se morrêssemos de fartura numa noite de domingo! Entretanto, estamos presos à vida que é a arte do impossível. Por ela nos tornamos irmãos entre jardins de papoulas. Viva e claramente não mais nos assustamos quando dizem: “LO AMARGO DE LA TIERRA CANTA ENCIMA DE LOS PUEBLOS!”, porque temos um relincho selvagem que se multiplica sempre e sempre no hoje e no amanhã; porque somos a última geração que luta. Nós, o ácido da Terra, nascidos da discórdia entre Deus e o Diabo. (Inédito)

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Dori Carvalho
Dorival Querino de Carvalho nasceu em São Joaquim da Barra, em São Paulo, no dia 11 de junho de 1955. É ator, tendo trabalhado em peças como “Elogio da preguiça”, de Márcio Souza, e “Aquela outra face da tribo”, de Aurélio Michiles. A partir de 1978, passou a residir em Manaus, onde se dedica aos livros e ao teatro. Obra poética: Desencontro das águas (Manaus, 1986), Paixão e fúria (Manaus, 2004).

As Tetas do povo
fiquem aí os senhores mamando nas tetas do povo enquanto o povo mama nas tetas das pedras cuidado muito cuidado senhores qualquer dia as pedras viram armas qualquer dia a fome vira raiva qualquer dia a casa cai (Desencontro das águas)

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Desconfiança
sou um menino que trazia no peito uma frase de Ho Chi Mihn: O homem é bom por natureza sou um homem que trazia na cabeça uma frase de Sartre: O homem é fruto da sua existência e tantas tantas outras hoje sinto que a desconfiança vive insuportavelmente em mim feito câncer crescendo todo dia (Ibidem)

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Corações milenares
Para Ana, amada

das tantas vezes que nos encontramos ainda recordo estávamos aos beijos na arena romana enquanto os leões trucidavam os cristãos fazíamos amor nos porões fenícios enquanto eles guerreavam tu nunca foste bailarina egípcia nem eu faraó éramos servos enquanto tu curavas feridas eu fazia pobres versos na santa inquisição não fomos queimados na fogueira fazíamos loucuras escondidos dos padres e sempre um mistério
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na segunda guerra não éramos de resistência nem nazistas, fugíamos das bombas para amar em algum paiol tantos encontros tantos lugares e sempre um mistério no império inca no império austro-húngaro não éramos vítimas nem réus sanguinários passávamos ao largo polindo desejos e ornamentos entre beijos e armaduras nem vimos a guerra de tróia tão alucinados estávamos de sonhos e sempre um mistério uma vez sim, fomos deuses dionísio e diana numa noite de carnaval no início do século no mais sempre fomos plebeus apaixonadamente plebeus

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eu sempre arteiro tu sempre curativa e sempre um mistério nos cortava nos partia nos separava um corte em nossas carnes uma partida inesperada uma separação de corpos sempre um mistério e estranhas cicatrizes sempre o grande amor e eternas guerras internas no final do século vinte eu era só um menino tu eras só uma menina perdidos e apaixonados. (Paixão e fúria)

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Simão Pessoa
Simão da Silva Pessoa, poeta e humorista, nasceu em Manaus, no dia 10 de maio de 1956. Formado em Engenharia Eletrônica, dedica-se ao jornalismo cultural e à atividade de produção e criação publicitária. Foi leitor e divulgador, em Manaus, da geração beat americana e da poesia marginal brasileira. Obra poética: Old Fashioned (Manaus, 1977), Ócio dos ofídios (Manaus, 1978), Carajo (Manaus, 1979), Miss Heartbreak (Manaus, 1980), Trastes & contrastes (Manaus, 1981), Porandubas (Manaus, 1984), Brinca comeu brinco, reunião dos cinco primeiros livros (Manaus, 1986), Guarânia com guaraná (Manaus, 1989), Matou Bashô e foi ao cinema (Manaus, 1992), Mulheres (Manaus, 1995).

Rio Negro
Invejo o silêncio escuro destas águas como objeto de límpida inocência onde o deslumbramento transitório deste agressivo rio-mar repousa equivocado e gasto. Sou fluido e gesto na paisagem radiante que estas águas anunciam além do pólen e da luz. Como sede no deserto assim me quero água: retratando a fauna entristecida, refazendo a flora devastada. (Porandubas)
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I Um dia junto os cacos E corto os pulsos Um dia queimo os sonhos Nego tudo Um dia mato um rico Muito puto Um dia deixo de lado Esses escrúpulos... II Ó primavera insubmissa que pernoitas no deserto decerto que não percebes a mágoa que nos aflige: esse verão miserável circunscrito em seu casulo de nódoa sujou o nicho reduplicando a carência agora resseca os campos o gado a gente as primícias vem logo ao nosso encontro ó primavera sem vísceras! (Carajo)

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Butterfly
Pode pode ser pode ser que pode ser que nada pode ser que nada mude pode ser que nada mude agora pode ser que nada mude agora é hora pode ser que nada mude agora é hora de partir pode ser que nada mude agora é hora pode ser que nada mude agora pode ser que nada mude pode ser que nada pode ser que pode ser Pode pode ser pode ser que pode ser que mude pode ser que mude sendo pode ser que mude sendo assim pode ser que mude sendo assim não pode ser que mude sendo assim não vou partir pode ser que mude sendo assim não pode ser que mude sendo assim pode ser que mude sendo pode ser que mude pode ser que pode ser pode

(Guarânia com guaraná)

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Confraria
O pássaro metálico ilumina o grande pórtico em que circunavegam poetas absurdos na elétrica comunhão irrevelada Gestos guardando segredos tristeza cinzelando transitiva os rumores adivinhados por presságio Nenhum pássaro alçando vôo novamente nenhum centauro perseguindo o impossível: Apenas náufragos inflamados pelo ócio quebrando a vida e seus cacos reluzentes na transparência do sorriso estagnado (Ibidem)

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Arnaldo Garcez
Arnaldo Garcez Teixeira nasceu no dia 18 de abril de 1957, em Manaus. Artista plástico, dedica-se igualmente à poesia e à música. Obra poética: Com sabor de X e Y (Manaus, 1986), O Lado vermelho do azul (Manaus, 1992), O Ai do samurai (Manaus, 1993).

O Lado vermelho do azul
(excerto)

(Em memória do Poeta Ernesto Penafort)

O lado vermelho do azul é encarnado encardido assim como o amarelo e a fome das crianças do Solimões o lado vermelho do azul não é verde tal os limões azedos na ponta dos dedos da memória do povo (ovo em banho-maria) o lado vermelho do azul busca a dignidade sem contemplar o tempo essência de ócio e do cio na fome da miséria de alguns homens podres o lado vermelho do azul
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não admite o fruto falso que traduz o vento da lepra, que insiste no encalço dos nossos passos entre a Getúlio Vargas e a Dez de Julho (ditadura e liberdade) o lado vermelho do azul rejeita o lilás aliás é contrário a qualquer forma de governo que não busque a essência da luz que traduza o alimento a razão e o equilíbrio o lado vermelho do azul é mais forte do que qualquer forma de governo permanece no ventre do vento num tempo que não necessita de governo o lado vermelho do azul também é contrário ao rio que escorre como álibi, no córrego da vida
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faminta de uma sociedade quase extinta o lado vermelho do azul não é frágil como os olhos na manhã que se ilude com o sol os limões e a lepra amarelada sob as armas e armaduras de grupo indecente o lado vermelho do azul procura o verde, não esse verde da bandeira, nem o verde da esperança, mas sim, o ver do verde, futuro decente de um povo (o ovo em banho-maria) verdes o vermelho é o outro lado do azul (O Lado vermelho do azul)

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O Ai do samurai
o ai do samurai não é um grito de dor: é a precisão do corte, a velocidade da morte na defesa da manhã o ai do samurai é poder gritar no fio da lâmina a lágrima prata que acende a escuridão o ai do samurai é a coragem de resistir aos covardes que destroem o prazer de (r)existir o ai do samurai é a liberdade da infância pintando sua vingança na cara-pálida do tempo covarde

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o ai do samurai é o silêncio que povoa nossa vontade de mudar a cara desse país: com arte porrada & poesia o ai do samurai não silencia! (O Ai do samurai)

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Zemaria Pinto
José Maria Pinto de Figueiredo, poeta e crítico literário, nasceu em Santarém, no Pará, no dia 6 de maio de 1957. Fixou-se em Manaus, onde realizou seus estudos. É formado em Economia pela Universidade Federal do Amazonas. Poeta de sólida formação literária, foi professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Amazonas. É editor do jornal poético “O Fingidor”. Com sua obra divulgada esparsamente, publicou seu primeiro livro de poemas, Corpoenigma: haicais, em 1994. Os outros três livros são: Fragmentos de silêncio (Manaus, 1996), Música para surdos (Manaus, 2001) e Dabacuri (Manaus, 2004).

exercício n.º 5
(para o Alcides Werk)

Trago nas mãos a lâmina dos anos que passaram por mim tragando sonhos: sementes de um passado sem memória, inúteis fragmentos de silêncio. As velhas alegrias disfarçadas tatuam sombras em meu rosto pálido. Sorrio amargo, o limo transparente refletido nos dentes amarelos. Meus olhos baços já não sonham luzes sob o cantar monótono do vento: palavras surdas nos meus lábios cegos.

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Antúrios se renovam no meu peito e de meus braços pendem sensitivas. Nos pés carrego o peso desses sonhos. (Fragmentos de silêncio)

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Advertência Uma poética do devaneio
IV Deve o poema ser lento gerado célula a célula, como um corpo que se forma, um bicho que se transforma; ou como fosse a laranja, que se faz de casca e gomos; em cada gomo milhares de pequenas bolsas-lágrimas; e somem-se ainda os átomos do líquido que a enforma, até a conclusão óbvia: toda laranja é um poema. Toda a vida é um poema? Toda coisa é um não-poema? Mas uma coisa se muda em poema: se transmuda.

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Poemacoisa: poesia; poemobjeto é outra coisa. Um poema é um poema, apenas e tão-somente. (Música para surdos)

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(bunda)
luas hemisféricas sob o sol resplandescente – altar da paixão * castelos erguidos em terras de fantasia – volúpia e vertigem * ondas cavalgadas nos limites do infinito – relâmpago sob o sol (Corpoenigma)

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Regina Melo
Regina Lúcia Azevedo de Melo nasceu em Manaus, no dia 12 de fevereiro de 1959. É formada em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Amazonas. Na mesma instituição fez pós-graduação em Design, Propaganda e Marketing. Obra poética: Pariência (Manaus, 1984), Estação do nada (Manaus, 1987), O Poema..., com ilustrações da artista plástica Auxiliadora Zuazo (Manaus, 1998).

Raízes
Brota sobre minhas raízes a fertilidade das canções circula sobre meu ventre de barro o solo que cerceia o sol a raiz prende meu corpo à terra aterro os sonhos que no ar habitam meu habitat eu planto por onde passo e passo às vezes por onde ficam. (Estação do nada)

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Sinfonia
Quando os homens despertarem do silêncio As máscaras serão rostos humanos (Pariência)

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Abril
O canto está iluminado pelo cometa que partiu levando os restos da fala para o outro lado do rio. Ficou somente o silêncio na aura de nossas bocas distribuindo no tempo espasmos de ondas loucas. Como se o tempo das veias fossem pedaços de céu e a amplidão do poema o véu Abriu na forma do corpo como quem abre o perdão todo impuro, casto e torto nação. (Estação do nada)

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Fim de fita
À memória do Cine Guarany

Dêem adeus aos anjos loucos às pragas empestando as praças aos sussurros dos loucos desvairados das crianças que beijam todas as bocas Dêem adeus aos piratas clandestinos na orgia das madrugadas. O Guarany acaba de ser demolido! (Ibidem)

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Ana Célia Ossame
Ana Célia Ossame nasceu em Manaus no dia 1.º de abril de 1962. É formada em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade Federal do Amazonas. Obra poética: Imaginei assim (Manaus, 1986).

Aguardo todas as previsões, Translúcida observo dezenas de pessoas interessadas num artigo de lixo. É a fome de ser estrela. Passados os minutos escorro de desejo e entre um gole e outro de beijos molhados sem constrangimento, apago as luzes dos olhos e acendo as da paixão. E lá se vai a culpa de ser mulher. (Imaginei assim)

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A poesia é um exercício de amor. Esclareço. O amor inventou a poesia pra preencher as lacunas que a paixão deixa. Não esclareço. O amor bate em retirada. (Ibidem)

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Queda
Por que evitar a queda dos cristais? Tão linda a vida em pedaços no chão... (Ibidem)

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Dúvida?
À noite, uma fera indecifrável sai de mim e escreve teu nome nos muros, nos ônibus, no suor dos copos, no sereno das vidraças... Depois a fera volta e finge que é feliz. (Ibidem)

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Rita Alencar e Silva
Rita de Cássia Cardoso Dutra de Alencar e Silva, filha do poeta Alencar e Silva, constante desta antologia, seguiu os passos do pai. Nasceu em Manaus no dia 13 de julho de 1963. É formada em Letras pela Universidade Federal do Amazonas. Em 1981 publicou, em Curitiba, seu livro de estréia: Meu grão de poesia.

Sangra a vida
Sangra vida Morte estanca Sonhos banhados De dor e agonia Algoz em fúria Rouba alegria Rompe silêncio Num disparo feroz. Sangra vida Passada ao avesso Na escuridão do medo Meu peito é negro Feito em cruz aos céus Pedindo razão De tanto sangrar De tanto humilhar De tanto esperar. (Inédito)
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Poema adorável
Desarmados por fim Acordaremos doces e mornos Nas manhãs de longos abraços Escorreremos absolutos Por sobre os raios do medo Adoráveis missões matinais Desdobrar sonhos antigos Esparramá-los por entre a luz Remendar o silêncio feliz Adoráveis os teus olhos sobre mim Transformam-me em santa seduzida Por tua profanidade divina Por minha divindade profana E abençoados, entrelaçados Prontos estaremos a atravessar A longa tarde de banhos tomados E longos assuntos a conversar Adorável, ainda, será brindar a noite Que chegará na primeira estrela E pousará tranqüila Sobre a nossa paz. (Inédito)

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Tenório Telles
Tenório Nunes Telles de Menezes nasceu em Anori (AM), em 2 de setembro de 1963. Professor de Literatura Brasileira, é formado em Letras e em Direito pela Universidade Federal do Amazonas. Tem textos incluídos em diversas antologias. Além da dedicação à promoção da leitura e do livro, tem publicado ensaios, resenhas e crônicas nos jornais de Manaus. Publicou em 1988 sua primeira reunião de poemas, intitulada Primeiros fragmentos; em 2004 a peça A Derrota do mito. Em parceria com o poeta Thiago de Mello, lançou CD Vida e luz. É membro da Academia Amazonense de Letras.

Salexistência
Salário Sal salga meus sonhos meus olhos Sal que fere minhas chagas salmouradas salgada existência A vida por um salário salexistência O sal da terra salga-nos os ossos. (Primeiros fragmentos)
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Destino
Para te saudar a manhã luminosa derrama sua torrente de cores Fiapos áureos são tecidos pelas horas e o tempo com seu olhar fosforescente esculpe teu rosto terno A vida é uma tapeçaria de acontecimentos e circunstâncias cotidianas Como um quadro que se inscreve na memória teus dias e destino se desenrolam Nessa travessia em que tudo se esvai só a lembrança que guardo de ti há de ficar – como a borboleta amarela que pousava nos arbustos que margeavam os caminhos da infância

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Que possas levantar as velas do teu barco e que os ventos protetores te conduzam para águas calmas e possas cumprir tua geografia de sonhos Esperarei o retorno de tuas viagens as notícias de um tempo feliz para o homem os relatos dos teus triunfos teu canto temperado pelo mar e as dores purgadas sob o furor dos ventos Que o teu destino se cumpra e possas chegar à outra margem onde encontrarás as miragens que te seduziam E então saberás que estão em ti os tesouros que buscaste.

(Inédito)

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Canção da esperança
Para Michele

Neste tempo desolado de sonhos subtraídos e utopias amortalhadas – ergo este canto para celebrar a esperança entressonhada. Neste tempo de partos sem flores de silêncio e de almas violadas – ergo este canto para celebrar a semente que arde em luz. Neste tempo de vidas fraturadas de olhos imantados e corações ressecados – ergo este canto para celebrar a inocência e o brilho da infância. Neste tempo de morte e de sombras de guerras e de campos devastados – ergo este canto para celebrar a vida e os que tombam pela liberdade. Contra toda desesperança contra toda cegueira e emudecimento contra toda indiferença

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– Ergo este canto para celebrar a manhã, os rios as florestas e seus enigmas – Ergo este canto para celebrar os pássaros – suas cores e cantos as flores, o ser humano e a utopia e também os olhos da amada. É para vós este canto de esperança – que mesmo sendo pranto – se eleva como música luminosa. É para vós este canto de exaltação – que floresça em vossos olhos – que se faça verdade em vossas bocas e nasça como verdade em nossas vidas. (Inédito)

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Cândida Alves
Cândida Maria da Silva Alves nasceu em Manaus em 16 de janeiro de 1964. Tem formação em Psicologia pelo Centro Universitário Luterano de Manaus. Obra poética: Todo corpo (Manaus, 2000).

Eu te amo
Colando o meu rosto no pêlo macio do teu peito não posso encontrar um defeito na vida Meu corpo estreito sem jeito te cobre com força e te beijo Teu beijo me escorre na cara escancaras a boca um bocejo e dormes... Respiro com calma com tara me sento em teu colo te olho não fico com medo
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Procuro teus dedos que toco e enrosco nos meus pensando em voz alta meu Deus eu amo esse cara esse homem então sinto fome... Vou à geladeira encontro uma pêra e como sentada na pia Um gato que mia lá fora me lembra na hora meu gato sozinho na cama Eu corro e te encontro com os olhos fechados, suando sonhando comigo talvez e sigo te olhando, babando, pensando meu Deus como eu amo e proclamo: sou tua, sou tua

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enquanto adormeço ao teu lado tranqüila e completamente nua (Todo corpo)

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Todo corpo
Todo corpo toda vida explica nos seus rastros sempre uma notícia escrita nos seus traços todos os anseios no mover dos braços todo corpo traz um benefício sobre suas curvas e algum sacrifício com lembranças turvas marca suas dobras todo corpo amado ou desolado chora toda sua virtude e seu pecado aflora todo corpo mostra seus segredos e encontra outros medos quando abre os olhos

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todo corpo uma mente oculta todo corpo é alma enquanto vida pulsa (Ibidem)

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Dedé Rodrigues
Dedé Rodrigues (Elizeth Serrão Rodrigues) nasceu na cidade de Nhamundá (AM) no dia 11 de fevereiro de 1966. Formou-se em Letras e Direito pela Universidade Federal do Amazonas. Obra poética: Orfeu no labirinto (Manaus, 2002).

Trabalho de parto
brotam de meu ventre versos repulsivos abortos involuntários criações de assombro incham-me o sexo secam-me as tetas deixando em seu rastro nessa casa maculada a solidão do casulo fina casca enegrecida hábitat de sonhos (Orfeu no labirinto)

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De ofício ou carta de fã
Para o Chico

um dia eu quis descrever o teu feminino e embarquei numa viagem de mulheres estranhas submissas e abandonadas – miseráveis travestidas – mulheres violadas mulheres fortes – prostitutas viúvas – homossexuais embarquei na loucura de um bicho tão desconhecido tão próximo e tão íntimo penetrei em minha própria alucinação um mundo de amantes suicidas de temporais violentos e namorei com o vento desamarrei os barcos numa viagem sem retorno (Ibidem)

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Sergio Luiz Pereira
Sergio Luiz Pereira nasceu no Rio de Janeiro em 12 de novembro de 1966. A partir de 1982 passou a residir em Manaus. Foi secretário-geral do Conselho Estadual de Cultura do Amazonas. Obra poética: Cordas da lira (Manaus, 2002).

Poética
Seja a palavra símbolo de encanto De toda sensação vertida em verso E tudo que se inspire no universo Faça-se em notas de agradável canto. Também da retirada de tal manto Que de alegria cobre o mundo inverso Para mostrar que, mesmo em tempo adverso Cabe a justiça o bom caráter quanto. Que as cordas desta lira em liberdade Possam transpor o vário sentimento: Essa paixão que a todo peito invade. E estável fundo e forma equilibrista Tocar com o coração, pois, no momento O artista é de seu tempo jornalista. (Cordas da lira)

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Rio Solimões
A Alcides Werk

Imagens, são fantásticas imagens! Mistérios, são mistérios perseguindo O verde em sempre pássaros sorrindo À flor das águas doces e selvagens. De quando em quando habitações, miragens Das almas esquecidas vêm surgindo E a imensidão das águas permitindo Dos homens e progressos as passagens. O sol boiando inspira doce mágoa Salta o boto a sorrir na beira dágua Passa a canoa cheia nos porões. E a noite vem chegando com histórias Ficando vivamente nas memórias Na solidão do rio Solimões... (Ibidem)

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Efraim Amazonas
José Efraim Ferreira Amazonas nasceu em Manaus, no dia 19 de agosto de 1967. Formou-se em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas. Obra poética: Algum verso (Manaus, 1993), Engenharia do tempo (Manaus, 2000), Estação dos espelhos (Manaus, 2002).

Enchente
Onde o rio agora habita Nos campos fluviais? Tomou o curso multiforme (O que a morte dá). Treme na rede pesqueira (O céu em cada fio), Exprime os meses nas ancas, Enxutos no beira-rio. O andaço na superfície (A febre nas choupanas), Rolam vozes de crianças Nas águas acesas. (Algum verso)

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XVII
Vejo o álbum de retratos, o mapa da minha infância. Bonecos, carrinhos, folguedos sobre o barquinho ligeiro sem cais. Brincam os irmãos na saleta, tocam cornetas no vento. Vaivém, petecas, estrelinhas. Ilusões, dançai. Imagens todas correndo crianças apitos quintais. Doce abandono da infância neste álbum de sonho. Nunca mais! (Engenharia do tempo)

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Poemazul
A nuvem azul o pássaro azul a hora azul a noite azul Ernesto azul

(Estação dos espelhos)

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Bibliografia
Além de obras dos autores selecionados e de alguns inéditos que nos foram gentilmente cedidos para apreciação, valemo-nos, para a escolha dos poemas, de antologias anteriores e, para os dados biográficos, de alguns livros específicos sobre o assunto, os quais devemos registrar, como forma de agradecimento: BEÇA, Anibal & GATTI, André, org. Marupiara: antologia de novos poetas do Amazonas. Manaus: Governo do Estado do Amazonas, 1988. BITTENCOURT, Agnello. Dicionário amazonense de biografias: vultos do passado. Rio de Janeiro: Conquista, 1973. (Academia Amazonense de Letras, 4) BRASIL, Assis, org. A Poesia amazonense no século XX (antologia). Rio de Janeiro: Imago, Biblioteca Nacional; Manaus: Governo do Estado do Amazonas, 1998 (Poesia brasileira). ________. A Poesia cearense no século XX (antologia). Rio de Janeiro: Imago; Fortaleza: Fundação Cultural de Fortaleza, 1996. (Poesia brasileira). ________. A Poesia maranhense no século XX (antologia). Rio de Janeiro: Imago; São Luís: Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, 1994. (Poesia brasileira). ________. A Poesia piauiense no século XX (antologia). Rio de Janeiro: Imago; Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1995. (Poesia brasileira). ENGRÁCIO, Arthur. Poetas e prosadores contemporâneos do Amazonas (súmula biobibliográfica). Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 1994.

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KRÜGER, Marcos Frederico. Introdução à poesia no Amazonas: com apresentação de autores e textos. Rio de Janeiro, 1982. [Dissertação de Mestrado apresentada à Universidade Federal do Rio de Janeiro.] LINS, José dos Santos. Seleta literária do Amazonas. Manaus: Governo do Estado do Amazonas, 1966. (Raimundo Monteiro, V). MELLO, Anísio. Lira amazônica: antologia. São Paulo: Correio do Norte, 1970. v. 1: Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia. MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2. ed. Brasília: Conselho Federal de Cultura, Instituto Nacional do Livro, 1973. 2.v. ROCQUE, Carlos. Antologia da cultura amazônica. Belém: AMADA, 1970. 3 v. ________. Grande enciclopédia da Amazônia. Belém: AMEL, 1967. 6 v.

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ESTE
PELA

LIVRO FOI IMPRESSO EM

BAKER SIGNET BT NO CORPO 12/18. O PROJETO GRÁFICO – MIOLO E CAPA – FOI FEITO PELA VALER EDITORA.
POSIÇÃO DO TEXTO FOI

GRÁFICA PROL. A

FAMÍLIA TIPOGRÁFICA UTILIZADA NA COM-

PAULO/SP ,

EM OUTUBRO DE

2005,

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