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Professor Substituto da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Professor da UNIJORGE (Centro
Universitário Jorge Amado)
O Teorema de Rolle

Teorema de Rolle2: Seja     R contínua, tal que f(a) = f(b). Se f é derivável em
(a, b) então existe um ponto c ∈ (a, b) onde f ’ (c) = 0.

Demonstração: Pode acontecer que f tenha valor constante f(x) = f(a) = f(b) em todo o
intervalo [a, b]; nesse caso, sua derivada f ’ é identicamente nula e o teorema está
demonstrado.
Se f não for constante, ela terá que assumir valores maiores ou menores que f(a) = f(b).
Se f(x) > f(a), para algum x em (a, b), pelo Teorema do Valor Extremo, f assume um
valor máximo em algum ponto de [a, b]. Como f(a) = f(b) ela deve assumir esse valor
em um número c no intervalo aberto (a, b). Então f tem um máximo local em c e f é
diferenciável em c (pela hipótese de que f é diferenciável no intervalo (a, b)). Portanto,
f ’ (c) = 0 pelo Teorema de Fermat.
Se f(x) < f(a), para algum x em (a, b), pelo Teorema do Valor Extremo assume um
valor mínimo em algum ponto de [a, b]. Como f(a) = f(b) ela deve assumir esse valor
em um número c no intervalo aberto (a, b). Então f tem um mínimo local em c e f é
diferenciável em c (pela hipótese de que f é diferenciável no intervalo (a, b)). Portanto,
f ’ (c) = 0 pelo Teorema de Fermat.

Obs. O inverso do teorema de Rolle não é verdadeiro. Isto é, não podemos concluir que
se uma função f for tal que f ’ (c) = 0, como a < c < b, então serão verdadeiras as
condições:

Seja uma função f, tal que

(i) ela seja contínua no intervalo [a, b];

(ii) ela seja derivável no intervalo aberto (a, b);

(iii) f(a) = 0 e f(b) = 0.

Então existe um número c no intervalo aberto (a, b), tal que f ’ (c) = 0.

A hipótese de f ser contínua em [a, b], mas derivável em (a, b) é feita porque as
derivadas f ’(a) e f ’(b) não intervêm na demonstração.

Aplicação do Teorema de Rolle:

x 2 − 4x x 2 − 4x
Verifique se o Teorema de Rolle se aplica as funções f ( x) = e g ( x) = .
x−2 x+2

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Para respaldar a demonstração do Teorema de Rolle, vamos enunciar os Teoremas do Valor Extremo e o
Teorema de Fermat:
Teorema do Valor Extremo: Se f for contínua em um intervalo fechado [a, b], então f assume um valor
máximo absoluto f (c) e um valor mínimo absoluto f (d) em algum número c e d em [a, b].
Teorema de Fermat: Se f tiver um máximo ou mínimo local em c, e f ’ (c) existir, então f ’ (c) = 0.
x 2 − 4x
Solução: Consideremos f ( x) = . Observemos que para x = 0 ou x = 4, f(x) = 0.
x−2
Observemos também que f(x) é descontínua em x = 2, que é um ponto do intervalo
0 ≤ x ≤ 4 , logo, não se pode aplicar o Teorema de Rolle.
x 2 − 4x
Consideremos agora g ( x) = , nesse caso a função é descontínua em
x+2
x = - 2 que não pertence ao intervalo 0 ≤ x ≤ 4 . Derivando g(x), temos:

( x 2 − 4 x)'.(x + 2) − ( x + 2)'.(x 2 − 4 x) (2 x − 4).( x + 2) − 1( x 2 − 4 x)


g ' ( x) = = =
( x + 2) 2 ( x + 2) 2
2x 2 + 4x − 4x − 8 − x 2 + 4x 2x 2 + 4x − 8 2x 2 + 4x − 8
= = ∴ g ' ( x ) =
( x + 2) 2 ( x + 2) 2 ( x + 2) 2
2x 2 + 4x − 8
Podemos concluir que g ' ( x) = está definida em todos os pontos do
( x + 2) 2
intervalo, exceto x = - 2. Portanto, pode-se aplicar o Teorema de Rolle.

2. Seja  

      Temos g contínua em [-1, +1], g(-1) = g(1), mas
não existe   

 tal que   . O motivo é que g não tem derivada no ponto
0.

Considerando o Teorema de Rolle como lema preliminar a outro teorema muito famoso
da matemática, vamos inserir nesse contexto, um grande matemático ítalo-francês
chamado Joseph – Louis Lagrange, que provou no século XVIII um teorema que ficou
conhecido como Teorema do Valor Médio de Lagrange.
O Teorema do Valor Médio possui um conteúdo geométrico muito sugestivo, que
merece ser analisado antes mesmo de enunciá-lo.
Para isso vamos considerar a função f e dois pontos sobre o seu gráfico:

A = (a, f(a)) e B = (b, f(b))

Figura 1
f (b ) − f ( a )
O declive da secante AB é dado por . Observemos que a figura sugere que
b−a
entre A e B deve haver algum ponto C = (c, f(c)) sobre o gráfico, onde a reta tangente à
curva seja paralela a secante AB. Mas então os declives dessas duas retas serão iguais.
f (b) − f ( a )
Como o declive da tangente em C é f(c), teremos = f ' (c ) ou ainda
b−a
f (b) − f ( a ) = f ' (c )(b − a ) .
Observemos que o valor c entre a e b, satisfazendo a equação f (b) − f ( a ) = f ' (c )(b − a )
pode não ser único. A figura abaixo ilustra uma situação em que há dois pontos C e D
entre A e B, onde as tangentes são paralelas à secante AB.

Figura 2

Portanto, nesse caso há duas abscissas c e d tais que


f (b) − f ( a ) = f ' (c )(b − a ) = f ' ( d )(b − a ) .
Pode acontecer também, que não haja ponto algum nas condições citadas, como em
f ( x) = | x | . Isso mostra que para validade geral da equação
f (b) − f ( a ) = f ' (c )(b − a ) , é imprescindível que a função f seja derivável no intervalo
(a, b).
No caso particular em que f (a) = f (b), a equação f (b) − f ( a ) = f ' (c )(b − a ) se reduz a
f’(c) = 0. Esse fato é conhecido como o Teorema de Rolle, que já demonstramos acima.

Vamos enunciar então o Teorema do Valor Médio de Lagrange.

Seja f: [a, b] → IR uma função que satisfaz as seguintes condições:


1. f é contínua no intervalo fechado [a, b].
2. f é derivável no intervalo aberto (a, b).
Então, existe um número c em (a, b) tal que

f (b ) − f ( a )
f ' (c ) =
b−a

Demonstração do Teorema do Valor Médio:

A demonstração desse teorema consiste em síntese em duas etapas;

1o) Definir uma função F(x) no intervalo [a, b] que satisfaça as hipóteses do Teorema de
Rolle.

2o) Aplicar a F(x) o Teorema de Rolle.


Demonstração:

Vamos considerar a função F(x) igual à diferença entre as ordenadas f(x) da curva e Y da
reta secante AB, ou seja, F(x) = f(x) – Y, para um mesmo valor x da abscissa. A secante

f (b ) − f ( a )
AB• é a reta pelo ponto (aa, f(a)) com declive ; Logo sua equação é dada
b−a
por
f (b ) − f ( a ) f (b ) − f ( a )
Y − f (a) = ( x − a ) ou Y = f ( a ) + ( x − a)
b−a b−a
Portanto a Função F(x) = f(x) – Y será dada por:
f (b) − f ( a )
F ( x) = f ( x ) − f ( a ) − ( x − a)
b−a
Daí podemos observar facilmente que F(a) = F(b) = 0, além do que F é derivável nos
pontos internos ao intervalo [a, b]. Logo o Teorema de Rolle é aplicável a essa função:
existe um ponto c, entre a e b, tal que F’(c) = 0. Mas
f (b) − f ( a)
a f (b ) − f ( a )
F ' ( x) = f ' ( x) − de sorte que F’(c) = 0 significa f ' (c ) =
b−a b−a
Ou ainda f (b) − f ( a ) = f ' (c )(b − a ) . Isso completa a demonstração do Teorema.

Agora, vamos ver como utilizar o Teorema do Valor Médio para elucidar o seguinte
problema:

Dois corredores iniciaram uma corrida num mesmo instante e terminaram a corrida
empatados. Prove que em algum instante durante a corrida eles têm a mesma
velocidade.

Solução:: Consideremos inicialmente que tais corredores gastaram um tempo T para


terminar a corrida, daí sejam S1 e S2 definidas no intervalo [0, T]

É bastante razoável, do ponto de vista físico, que tais funções serão deriváveis
satisfazendo S1(0) = S2(0), (pois os corredores partem da mesma posição inicial) e S1(T)
= S2(T) (pois os mesmoss terminam a corrida empatados).
Com base em tais informações, consideremos a função F: [0, T] → IR definida por:
F(t) = S1(T) - S2(T)

Observe a Figura 1
Notemos também que a função F também é derivável, pois é a diferença entre duas
funções deriváveis, e a mesma satisfaz que F(0) = F(T) = 0. Utilizando o Teorema do
Valor Médio de Lagrange, observemos então que deve existir um tempo t ∈ (0, t)
satisfazendo
F (T ) − F (0)
F ' (t ) = =0
T −0
Usando a definição de F temos que S’1(T) – S’2(T) = 0 e lembrando-se que a derivada
da posição é a velocidade, segue que no tempo t vale
V1(t) - V2(t)
Onde V1 e V2 são as respectivas velocidades, concluindo assim nossa demonstração.

Bibliografia

STEWART; JAMES - Cálculo Volume I, Ed. Cengage Learning

ÁVILA; GERALDO - Cálculo 1- Funções de uma variável - Ed. LTC