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Análise do roteiro do filme "Um estranho no ninho"

Análise do roteiro do filme "Um estranho no ninho"

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Published by: Txai Ferraz on Nov 09, 2010
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Adaptado do livro homômino, Um estranho no ninho (One flew over the cuckoo’s nest) é um filme de 1975 vencedor de cinco

Oscar (incluindo melhor filme) e referência até hojecomo símbolo na luta antimanicomial. Vamos aqui analisar sua estrutura narrativa. *** Um estranho no ninho é um filme que pode ser encaixado na jornada do herói sem grandes esforços, mas uma análise mais cuidadosa é capaz de ver que apesar de não subverter por completo o jogo da narrativa clássica – o que é simplesmente impossível, nada pode ser restritamente encarado nessa obra. Ao passar-se em um hospital psiquiátrico, boa parte dos personagens deixam de lado a sanidade, e como consequência, o que pode ser entendido como linearidade de comportamento, provocando um revezamento durante toda a narrativa dos arquétipos comumente conhecidos. Isso é facilmente exemplificado pelo protagonista. McMurphy tem várias passagens pela polícia por ser alguém como ele mesmo se define “que gosta muito de beber e transar”. É um malandro, está sempre em tom de ironia e por mais enclausurado que esteja, tem uma liberdade própria que parece nunca ser destruída. Desde cedo conhecemos McMurphy como alguém com defeitos e com um único objetivo: livrar-se da situação em que está. Contradiz o conceito de herói quando se revela profundamente egoísta, mas é demasiado carismático para que o público não se identifique com ele. Em Um estranho o protagonista é um anti-herói. No primeiro ato somos apresentados à rotina do sanatório. A câmera sobrevoa os pacientes da ala a qual McMurphy posteriormente se juntará e a enfermeira Ratched, que faz as vezes de antagonista para o nosso anti-herói, verifica metodicamente se as coisas vão bem. McMurphy entra em cena introduzido no hospital pelos policiais e ao ser solto, beija o policial que antes lhe aprisionava como comemoração. A partir desse momento o espectador é comprado e o protagonista é construído tridimensionalmente na frente do público. McMurphy é alguém que não gosta de regras e por isso não entende bem ao que está sendo submetido. Ele mesmo faz piada de si trazendo um alívio cômico à narrativa. Aqui temos o nosso primeiro ponto de virada. Em uma sequência em que o Dr. Spivey, diretor do hospital, conversa com McMurphy, o anti-herói é informado de que está internado para que seja avaliado se de fato apresenta problemas mentais. Ainda que o responsável direto pela estadia de McMurphy no hospital, o dr. Spivey se resguarda à função de arauto. O conflito é passado para a enfermeira Ratched, a quem o anti-herói claramente se opõe durante todo o filme. Rapidamente McMurphy passa a questionar a rotina do hospital, os rígidos horários e o controle excessivo exercido pela enfermeira Ratched. Aos poucos vai convencendo aos outros internos que a vida pode ser diferente do jogo sistemático imposto pela antagonista. Quase todos esses personagens companheiros de McMurphy

têm passagens cômicas, sobretudo Martini Cheswick – o mais qualificado a ser lido como pícaro, interpretado por Danny de Vito. O jovem e inexperiente Billy se torna uma espécie de protegido de nosso anti-herói, pessoa por quem McMurphy é capaz de arriscar seu objetivo de sair do hospital. O índio Chefe é a personagem mais difícil de ser lida de todo o filme. Aparentemente surdo-mudo, a incomunicabilidade da personagem faz dele uma figura ambígua e alguns espectadores podem se perguntar se não se trata de um camaleão. No entanto, McMurphy sempre o reconhece com um aliado, alguém forte que pode lhe ajudar a sair dali. E de fato, o Chefe com o andar da história desenvolve a função de um mentor para McMurphy, alguém mais velho e mais experiente disposto a ajudá-lo. Para isso, o Chefe é preciso ser convencido de tal tarefa. Nesse aspecto a lógica da narrativa comum se subverte um pouco. McMurphy é também um mentor para o Chefe quando o convence de sua natureza indígena de liberdade a qualquer custo. E o Chefe é quem no final realiza a tarefa sonhada por McMurphy. A relação entre os dois, no entanto, é sempre vertical: o Chefe revela-se disposto a fazer qualquer coisa por McMurphy e não o contrário. Embora revezem entre si os arquétipos de mentor e herói (anti-herói, no nosso caso), a relação de forças sempre se mantém igual: McMurphy é sempre lido comoprotagonista. A enfermeira Ratched nunca sai do mesmo tom. Sóbria, calma e controladora, cena a cena se opõe ao estilo de vida desregrado de McMurphy. Não é na verdade de personalidade intrisecamente má. Sob certo ponto de vista pode ser considerada mais uma vítima da alienação representada pela monótona vida do manicômio. É alguém com valores rígidos e uma moral cartesiana. Em uma cena que funciona como ponto central, defende a estadia de McMurphy no hospital pois sabe que a prisão não lhe fará bem. Essa rápida, porém importante convergência de interesses entre o anti-herói e a antagonista prova como uma análise maniqueísta é perniciosa para um filme como Um estranho no ninho. A cena, estrategicamente localizada no centro da narrativa, funciona como um espelho: o jogo entre mocinho e bandido é frágil e aqui não pode ser refletido. A cena que formaliza o segundo ponto de virada do filme é quando Washington, auxiliar da enfermeira Ratched – representando o arquétipo do guardião do limiar, informa a McMurphy que está sob custódia do hospital indeterminada e não poderá sair quando complete seu tempo de prisão como pensava. Depois de uma sequência em que organiza uma festa de despedida no hospital momentos antes da fuga, a enfermeira Ratched perturba Billy por ter feito sexo com uma amiga de McMurphy, ameaçando-o de contar o caso a mãe de Billy, a quem o jovem tem grande pavor. Desesperado, Billy se suicida explodindo a ira de McMurphy contra a enfermeira Ratched. Aqui temos o nosso grandioso clímax. McMurphy tenta estrangular

Ratched, mas acaba sendo detido por Washington, irrompendo o terceiro ato de Um estranho no ninho. McMurphy então é lobotomizado (e aqui se abre imenso espaço para discussão da psiquiatria da época), perdendo a consciência de si e de seus objetivos. O anti-herói para vingar a morte de seu protegido Billy abdica da motivação que o move durante toda a narrativa, o desejo de sair do hospital. Sua luta contra as rígidas regras do manicômio, no entanto, precisa continuar. Ao perceber que o amigo permanecerá insconsciente para sempre, o índio Chefe o sufoca com um travesseiro e foge, completando a jornada iniciada pelo anti-herói. Um estranho no ninho é uma história sobre a busca pela liberdade. McMurphy é alguém que está sempre fugindo das amarras da sociedade. Ao decidir passar-se por louco acredita que enfim encontra a liberdade enquanto estiver sob custódia do Estado, mas prontamente descobre que no mundo dos loucos também há regras. A liberdade que McMurphy busca é utópica, inalcançável. Seu conceito de ser livre é falho quando não percebe que até a ausência total de regras já é uma norma. Por outro lado, as rígidas leis do hospital e o episódio de quando é lobotomizado suscitam uma discussão sobre a alienação e o quanto estamos dispostos a vender nosso poder de decisões em troca de segurança social. Em Um estranho no ninhoconstrói-se um discurso paralelo à narrativa que expõe as fragilidades do conceito de liberdade na sociedade pós-moderna.

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